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Fundamentos da Eletrostática e Cargas Elétricas

aula

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Dorico Dzy Mhá
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Capı́tulo 1

Eletrostática

• Os fenômenos que levaram à descoberta


da lei de Coulomb:
1.1 Eletrização por atrito

Os primeiros registros dos quais se tem notı́cia, relacionados com fenômenos


elétricos, foram feitos pelos gregos. O filósofo e matemático Thales de Mileto (séc.
VI a.C.) observou que um pedaço de âmbar (pedra amarelada) após atritado com a
pele de um animal, adquiria a propriedade de atrair corpos leves como pedaços de
palha e sementes de grama.
Cerca de 2000 anos mais tarde o médico inglês W. Gilbert (1544 1603) fez ob-
servações sistemáticas de alguns fenômenos elétricos. Sua sistematização baseou-se
nas seguintes observações: vários outros corpos ao serem atritados se comportavam
como o âmbar e a atração exercida por eles se manifestava sobre qualquer outro
corpo. Foi Gilbert quem introduziu o termo “eletrizado”, “eletrização” e “eletrici-
dade”, nomes derivados da palavra grega para âmbar, elétron.

1.1.1 Qual a natureza da eletricidade?

Como explicar o fenômeno da eletrização? O cientista francês François Dufay


procurou dar uma explicação ao fenômeno. Com base na observação de que um

1
corpo ao ser atraı́do por outro eletrizado era repelido após tocá-lo, concluiu que dois
corpos eletrizados sempre se repelem. Entretanto esta idéia teve de ser modificada
devido a novas observações experimentais que a contradiziam: Dufay mesmo, mais
tarde, observou que um pedaço de vidro atritado com seda atraia um pedaço de
âmbar que tivesse sido previamente atritado com pele, i.e., a experiência mostrou
que dois corpos eletrizados podem se atrair.
Baseando-se num grande número de experiências, lançou então as bases de
uma nova hipótese que teve grande aceitação durante todo o século XVIII. Segundo
ele existiam dois tipos de eletricidade: eletricidade vı́trea, aquela que aparece no
vidro após ser atritado com seda, e eletricidade resinosa, aquela que aparece no
âmbar atritado com pele (o âmbar é uma resina). Todos os corpos que possuı́ssem
eletricidade vı́trea (ou resinosa) repeliriam uns aos outros. Por outro lado, corpos
com eletricidade de nomes contrários, atraı́am-se mutuamente.
Sua teoria ficou conhecida como a teoria dos dois fluidos elétricos (o vı́treo e
o resinoso), a idéia sendo que em um corpo normal esses fluidos se apresentariam
na mesma quantidade. Portanto, de acordo com essas idéias, a eletricidade não era
criada quando um corpo é atritado, os fluidos elétricos já existiam nos corpos e o
que acontecia com o atrito era uma redistribuição destes fluidos.
Como freqüentemente acontece em Fı́sica, apareceu uma outra explicação com
base nos mesmos fenômenos. É claro que apenas uma delas poderia estar correta.
Vamos à segunda teoria: o cientista americano Benjamin Franklin (1736 1806),
interessado no assunto, também realizou um grande número de experimentos que
contribuiram de forma decisiva para a compreensão da natureza da eletricidade.
Foram duas as contribuições fundamentais de B. Franklin: Primeiro formulou
a hipótese de um fluido único. De acordo com sua teoria os corpos não eletrizados
possuem uma quantidade natural de um certo fluido elétrico. Quando um corpo
é atritado com outro, um deles perde parte do seu fluido, essa parte é transferida
ao outro corpo. Ele dizia que o corpo que recebia o fluido elétrico ficava eletrizado
positivamente e o que o perdia, negativamente. Essa terminologia é usada até hoje
e corresponde aos termos eletricidade vı́trea e resinosa de Dufay.
Sua segunda grande contribuição foi a hipótese de que a carga elétrica é con-
servada: ela já existe nos corpos e se redistribui quando os corpos são atritados.
Como decidir entre as duas teorias? Esta é também uma situação muito

2
freqüente na Fı́sica em geral. Na época, com os dados disponı́veis não era possı́vel
distinguir entre as duas. Qual foi o ingrediente novo?
A compreensão dos mecanismos responsáveis pela eletrização por atrito sofreu
um grande avanço quando a teoria atômica da matéria se estabeleceu em bases
razoavelmente firmes, no primeiro quarto do século XX. A imagem simples que
fazemos do fenômeno é a seguinte: quando dois corpos se tocam, há muitos pontos
em que os átomos de um estão muito próximos dos átomos que compõe o outro e
então os elétrons sofrerão forças devidas aos átomos, um do outro. Alguns desses
elétrons passam de um átomo para outro, de um corpo para outro. Quando os corpos
se movem um em relação ao outro, os átomos que estavam próximos se separam e
podem ficar com elétrons a mais ou a menos.
Uma descrição teórica microscópica precisa da eletrização por atrito é muito
difı́cil. Costuma-se portanto colecionar resultados experimentais e compilar resulta-
dos em tabelas. Por exemplo, podemos colocar corpos em uma lista tal que atritando
um corpo com outro da lista, fica carregado positivamente aquele que aparece antes
nessa lista. Uma lista desse tipo é

- Pêlo de gato, vidro, marfim, seda, cristal de rocha, mão, madeira, enxofre,
flanela, algodão, gomalaca, borracha, resinas, metais...

Corpos lı́quidos e gasosos também podem ser eletrizados por atrito: - a eletrização
das nuvens de chuva se dá pelo atrito entre as gotı́culas do ar e da água, na nuvem.
Finalmente, devemos dizer ainda que existem diversos métodos de eletrizar cor-
pos materiais: por incidência de luz em metais, por bombardeamento de substâncias,
por radiação nuclear e outros.

Você seria capaz de usar essas idéias e concluir o que aconteceria em


outras situações usando este conhecimento?

Vamos ver. Primeiro proporemos questões muito simples, puramente conceitu-


ais, baseadas no fenômeno da eletrização.

Q1. Duas folhas de um mesmo tipo de papel são atritadas entre si. Elas
ficarão eletrizadas? Por quê?

3
R.: Se os corpos são compostos da mesma substância, ao serem atritados não
haverá transferência de elétrons de um corpo para outro e eles permanecerão como
estão.

Q2. Quando se atrita enxofre com algodão, que carga terá cada material?

Q3. Você consegue perceber como funcionou o “método cientı́fico” proposto


por Galileu com relação a este fenômeno? Fale sobre isto.

1.2 Cargas Elétricas

O conceito de carga é, na realidade, um conceito básico e fundamental que, no


atual nı́vel de nossos conhecimentos não pode ser reduzido a nenhum outro conceito
mais simples e mais elementar.
A carga elétrica é a grandeza fı́sica que determina a intensidade das interações
eletromagnéticas, da mesma forma que a massa determina a intensidade das forças
gravitacionais.

1.2.1 Aspectos fenomenológicos importantes: Ordens de grandeza

Após muito pesquisar os fenômenos elétricos citados, chegou-se a algumas leis


empı́ricas que os resumiam:
10 ) Existem dois tipos de cargas elétricas: positivas e negativas. As cargas
elétricas de mesmo sinal se repelem, as de sinal contrário se atraem.
20 ) Carga elementar - Existe uma carga mı́nima. Até hoje nunca foi obser-
vado experimentalmente um corpo que tenha carga elétrica menor que a do elétron,
representada por e. Somente foram observados corpos com cargas que são múltiplos
inteiros de e.
Esse caráter discreto da carga elétrica se manifesta principalmente em sistemas
cuja carga total corresponda a poucas unidades da carga elementar. Portanto a carga
elementar não manifesta esse caráter no eletromagnetismo clássico. É fácil entender

4
porquê. Esta resposta tem a ver com outro aspecto fundamental da compreensão
dos fenômenos fı́sicos: as ordens de grandeza.
No Sistema Internacional (SI) a unidade de carga elétrica é 1 Coulomb.
O que significa dizer que um corpo possui uma carga de um Coulomb?
Um Coulomb corresponde a 6.25 × 1018 elétrons em excesso (se a carga for
negativa) ou em falta (se for positiva). Na eletrostática geralmente lidamos com
cargas elétricas muito menores do que um Coulomb. Vamos ver com freqüência
as unidades mC (10−3 C) ou µC (10−6 C). Essas unidades representam ainda um
número enorme de cargas elementares. A carga do elétron é

e = 1.60 × 10−19 C

Por isso faz sentido tratar distribuições de cargas macroscópicas como se fos-
sem contı́nuas, como faremos nos capı́tulos seguintes. Vamos firmar essa idéia com
um exercı́cio?
E1. Quantos elétrons há em uma gota de água de massa 0.03g? A massa de
uma molécula de água é m0 = 3 × 10−23 g.
A molécula de água contém 10 elétrons (H2 O) - Uma gota de água contém
m/m0 moléculas

m
= 1021
m0
=⇒ 1022 elétrons !

1.3 Isolantes, condutores e a localização da carga


elétrica

A questão principal envolvida na definição do que é um material condutor ou


isolante tem muito a ver com a estrutura microscópica do material. No caso dos con-
dutores metálicos, por exemplo, os materiais são formados por uma estrutura mais
ou menos rı́gida de ı́ons positivos, embebido num gás de elétrons. Esses elétrons,
por não estarem presos a átomos determinados, tem liberdade de movimento, e o
transporte de elétrons dentro de um metal ocorre com relativa facilidade.

5
Ao contrário dos condutores, existem sólidos nos quais os elétrons estão firme-
mente ligados aos respectivos átomos e os elétrons não são livres, i.e, não tem mobil-
idade, como no caso dos condutores. Nestes materiais, chamados de dielétricos ou
isolantes, não será possı́vel o deslocamento da carga elétrica. Exemplos importantes
de isolantes são: a borracha, o vidro, a madeira, o plástico, o papel, etc...

Figura 1.1: Representação esquemática de um isolante

Condições ambientais também podem influir na capacidade de uma substância


conduzir ou isolar eletricidade. De maneira geral, em climas úmidos, um corpo
eletrizado, mesmo apoiado por isolantes, acaba se descarregando depois de um certo
tempo. Embora o ar atmosférico seja isolante, a presença de umidade faz com que
ele se torne condutor. Além disto, temos também a influência da temperatura. O
aumento da temperatura de um corpo metálico corresponde ao aumento da veloci-
dade média dos ı́ons e elétrons que os constituem, tornando mais difı́cil o movimento
de elétrons no seu interior.
Com relação aos isolantes, a umidade e condições de “pureza” de sua superfı́cie
(se existem corpúsculos estranhos ao material que aderiram a ela) são fatores impor-

Figura 1.2: Representação esquemática de um condutor

6
tantes. A razão disto é que a umidade pode dissolver sais existentes na superfı́cie
do corpo recobrindo-o com uma solução salina, boa condutora de eletricidade.

1.3.1 Distribuição de cargas elétricas adicionadas a isolantes


ou condutores

FATO EXPERIMENTAL: Quando adicionamos carga a um condutor, ela se


distribui integralmente sobre a sua superfı́cie externa. A razão disto é que cargas de
mesmo sinal se repelem e cada carga tende a ficar o mais longe possı́vel das outras.
Então, mesmo que as cargas sejam colocadas dentro de um condutor maciço ou oco,
elas tenderão a migrar para a superfı́cie externa.
FATO EXPERIMENTAL: A quantidade de carga por unidade de área na
superfı́cie de um condutor em equilı́brio eletrostático não é, em geral, uniforme.
Verifica-se que, onde o raio de curvatura do condutor é menor, ou seja, onde ele é
mais pontudo, há maior concentração de cargas. Em contrapartida, quanto maior o
raio de curvatura, menor a concentração de cargas.
No caso dos dielétricos, cargas podem existir em qualquer ponto do condutor,
tanto no interior como na superfı́cie. A concentração de cargas em um dielétrico é
mais difı́cil de ser medida, e pode ser inferida a partir do campo elétrico produzido.

1.4 Eletrização por indução e polarização

FATO EXPERIMENTAL: A aproximação de um corpo carregado, como um


bastão de vidro, atritado com seda, por exemplo, de um condutor em equilı́brio,
provoca uma separação de suas cargas, embora o corpo como um todo continue
eletricamente neutro, como mostra a figura 1.3. Esta separação de cargas é denom-
inada indução eletrostática.
Ao contrário da eletrização por atrito, a eletrização por indução ocorre sem
haver contato entre os corpos, por isso, é uma ação a (curta) distância.
É possı́vel eletrizar um material condutor por indução: basta conectar o con-
dutor na figura 1.4 (em presença do bastão), por meio de um fio metálico, à Terra.

7
Figura 1.3: Corpo carregado próximo a condutor

Essa ligação fará com que os elétrons livres passem do condutor à Terra, deixando
o condutor carregado.

Figura 1.4: Eletrizando um condutor, ligando-o à Terra

Se o bastão for mantido, a distribuição de cargas é como na figura 1.5. Se for


retirado, as cargas se redistribuem mais uniformemente, de maneira a minimizar a
repulsão.
FATO EXPERIMENTAL: Observa-se uma separação de cargas análoga nos
isolantes, embora não seja possı́vel carregá-los pelo mecanismo acima.
Os dielétricos são constituı́dos por molélulas cuja distribuição interna de cargas
pode ser de dois tipos: o centro das cargas positivas e negativas coincidem (moléculas
apolares) ou não (moléculas polares). A água é um exemplo bem conhecido deste

8
Figura 1.5: Condutor eletrizado

último tipo.
Se um dielétrico polar não estiver eletrizado, as moléculas estarão distribuı́das
ao acaso como mostra a figura abaixo (ver figura 1.6).

Figura 1.6: Dielétrico não polarizado

Ao aproximarmos desse dielétrico um corpo carregado, isto vai provocar um


alinhamento nas moléculas do isolante (ver figura 1.7).
Esse efeito é denominado polarização. A polarização faz aparecer cargas
elétricas de sinais contrários nas extremidades, como no caso do condutor (figura
1.8).
Se as moléculas fossem apolares inicialmente polarizar-se-iam de maneira análoga
se houvesse indução eletrostática. O resultado final seria o mesmo.

9
Figura 1.7: Dielétrico polarizado

Figura 1.8: Cargas contrárias nas extremidades

1.5 Eletroscópios

Um eletroscópio é um dispositivo que nos permite verificar se um corpo está


eletrizado. Um tipo comum de eletroscópio é o eletroscópio de folhas. Ele consiste
de uma haste condutora tendo, em sua extremidade superior uma esfera metálica
e na extremidade inferior, duas folhas metálicas leves, sustentadas de modo que
possam se abrir e se fechar livremente (ver figura 1.9).
Se um corpo eletrizado positivamente for aproximado do eletroscópio (sem
tocá-lo), vai haver indução eletrostática e os elétrons livres serão atraı́dos para a
esfera, e, dado que a carga total é conservada, um excesso de cargas positivas vai
aparecer nas folhas, que tenderão a se repelir. Por isso, as duas folhas tenderão a se
separar.
O que aconteceria se o corpo que se aproxima do eletroscópio estiver eletrizado
negativamente? É fácil chegar à conclusão de que aconteceria exatamente a mesma
coisa.
Uma conclusão importante desses fatos é que em ambos os casos ocorre a
abertura das folhas. Então não é possı́vel determinar o sinal da carga do corpo

10
Figura 1.9: Eletroscópio

carregado que se aproximou. Apenas se está ou não carregado.


O fato de que não é possı́vel determinar o sinal da carga nessas condições
não significa que não seja possı́vel fazer isso modificando o experimento. Qual seria
essa modificação? Você consegue imaginar? Pense um pouco antes de consultar a
resposta.
RESPOSTA: Seria necessário, em primeiro lugar, eletrizar o eletroscópio. Isto
pode ser feito ou por atrito ou por indução usando os métodos das secções anteri-
ores. Se o sinal da carga do eletroscópio for conhecido, o que pode ser facilmente
conseguido, podemos descobrir o sinal da carga de um corpo eletrizado que se aprox-
ima. (veja a figura 1.10).

Figura 1.10: Descobrindo o sinal da carga teste

Suponhamos um eletroscópio carregado positivamente, como na figura. Se


aproximarmos um corpo eletrizado desse sistema, observamos que as folhas do elet-

11
roscópio, que estavam abertas, se aproximam ou se afastam. de fato, se o objeto
estiver carregado negativamente, elétrons livres da esfera serão repelidos e se deslo-
carão para as folhas. Esses elétrons neutralizarão parte da carga positiva aı́ existente
e por isso o afastamento entre as folhas diminui. Analogamente, podemos concluir
que, se o afastamento das folhas for aumentado pela aproximação do corpo, o sinal
da carga nesse corpo será positivo.
Exercı́cios Conceituais: Será que você assimilou os fenômenos fı́sicos, de
forma a compreender situações diferentes que envolvem esses mesmos fenômenos?
C - 1) São dadas duas esferas de metal montadas em suporte portátil de
material isolante. Descubra um modo de carregá-las com quantidades de cargas
iguais e de sinais opostos. Pode-se usar uma barra de vidro ativada com seda, mas
estas não podem tocar as esferas. É necessário que as esferas sejam do mesmo
tamanho, para o método ser usado?
RC - 1) Em primeiro lugar, do que vimos da eletrização por atrito, sabemos
que um bastão de vidro atritado com seda vai ficar carregado positivamente. Se
aproximarmos esse bastão de uma das esferas condutoras, teremos a situação da
figura 1.11

Figura 1.11: Aproximação à uma das esferas

Não podemos tocar as esferas com o bastão. Mas, que tal aproximarmos as
esferas até que elas se toquem?
Elétrons da esfera à esquerda vão migrar para a esfera da direita, anulando
as cargas positivas. Haverá, então, um excesso de cargas positivas na esfera da

12
Figura 1.12: Transferência de cargas

esquerda. Afastando-se as esferas e também o bastão, a esfera da direita estará


carregada negativamente e a da esquerda, positivamente. A situação final está es-
quematizada abaixo:

Figura 1.13: Situação final

Fica claro que o tamanho das esferas não tem papel algum no processo.

C2 Na questão anterior, descubra um modo de fornecer, para as esferas, cargas


iguais e de sinais opostos. É necessário que as esferas tenham o mesmo tamanho?
RC2 A aproximação do vidro, como antes, provoca a seguinte situação
Neste ponto, usamos um fio terra na esfera à direita e depois afastamos o

13
Figura 1.14: Aproximação do vidro

bastão. Teremos

Figura 1.15: Resultado

Agora colocamos as duas esferas em contato. O resultado será o desejado.

C3 Sabe-se que o corpo humano é capaz de conduzir eletricidade. Explique


então porque uma pessoa segurando uma barra metálica em suas mãos não consegue
eletrizá-la por atrito.
RC3 O corpo humano funciona como um fio terra.

C4 Um ônibus em movimento adquire carga elétrica em virtude do atrito com


o ar.

14
a) Se o clima estiver seco, o ônibus permanecerá eletrizado? Explique.
b) Ao segurar nesse ônibus para subir nele, uma pessoa tomará um choque.
Por quê?
c) Esse fato não é comum no Brasil. Por quê?
RC4 a) Sim, pois os pneus são feitos de borracha, que é um isolante e impedem
que o ônibus seja descarregado para a Terra.
b) O choque elétrico será causado pelo fato de que nossa mão é um condutor
e haverá troca de cargas entre o ônibus e a mão da pessoa.
c) A umidade do nosso clima traz à discussão um novo elemento a água que,
como sabemos, é excelente condutor. Devido a isso, os ônibus nunca chegam a reter
uma carga apreciável.

C5 Para evitar a formação de centelhas elétricas, os caminhões transporta-


dores de gasolina costumam andar com uma corrente metálica que arrasta no chão.
Explique.
RC5 O fato da corrente ser condutora permite o estabelecimento de um con-
tato direto com a Terra. Isso então impede que o caminhão adquira quantidades de
carga capazes de provocar centelhas.

C6 Nas indústrias de tecido e papel, estes materiais estão em constante atrito


com as peças das máquinas. Para evitar encêndios, o ar ambiente é permanente-
mente umidecido. Qual a razão desse procedimento.
RC6 A eletricidade desses materiais vai se transferir para as gotı́culas de água,
que conduzirão para a Terra a carga elétrica que se forma por atrito.

1.6 Aplicação Tecnológica do Fenômeno Eletrização

A eletrização de corpos por atrito é utilizado nos dispositivos de obtenção de fo-


tocópias (xerox, etc). Por exemplo, o pó negro resinoso é misturado com minúsculas
esferas de vidro. Durante esse processo, as esferas adquirem cargas positivas e os
grãos de pó, cargas negativas. Devido à força de atração, os grãos de pó cobrem a
superfı́cie das esferas, formando uma camada fina.

15
O texto ou desenho a ser copiado é projetado sobre uma placa fina de selênio,
cuja superfı́cie está carregada positivamente. Esta placa dispõe-se sobre uma su-
perfı́cie metálica carregada negativamente. Sob a ação da luz, a placa descarrega
e a carga positiva fica apenas nos setores que correspondem aos locais escuros da
imagem. Depois disso, a placa é revestida por uma fina camada de esferas de vidro.
A atração de cargas de sinais contrários faz com que o pó resinoso se deposite na
placa com cargas negativas. Em seguida, as esferas de vidro retiram-se por meio de
uma sacudidela. Apertando com força a folha de papel contra a placa, pode-se obter
uma boa impressão. Fixa-se, finalmente, esta última por meio de aquecimento.

1.7 Lei de Coulomb

No século XVIII, Coulomb realizou uma série de medidas cuidadosas das forças
entre duas cargas usando uma balança de torção (semelhante à que Cavendish usou
para comprovar a teoria da Gravitação). Através dessas medidas, Coulomb chegou
a algumas conclusões (válidas tanto para atração como para repulsão).
Resumimos aqui os fatos experimentais que o levaram a expressá-los matem-
aticamente na forma que hoje conhecemos.
FATO EXPERIMENTAL: a intensidade da força de interação entre cargas
puntuais é proporcional ao produto das cargas.
FATO EXPERIMENTAL: a intensidade da força F, |F| - de atração ou re-
pulsão entre duas cargas que podem ser consideradas puntuais é inversamente pro-
porcional ao quadrado da distância entre elas, r.

1
|F| ∝
r2
LEI DE COULOMB:
Com base nos fatos experimentais acima, Coulomb concluiu que

Q1 Q2
|F| ∝
r2
Note que a grandeza força tem caráter vetorial e portanto é preciso atribuir-lhe
também sua direção e sentido. Sua direção é a do suporte que liga as duas cargas,
o sentido depende do sinal relativo das cargas como se vê na figura

16
Figura 1.16: Caráter vetorial da força de Coulomb

F+ se Q1 e Q2 tiverem o mesmo sinal.

F− se Q1 e Q2 tiverem sinais opostos.

Finalmente,

Q1 Q2
F = k0 r̂
r2
1 2
No sistema internacional k0 = 4π² 0
= 8.99 × 103 NCm2 , onde ²0 é uma constante
que caracteriza a permissividade do vácuo

C2
²0 = 8.85 × 10−12
N m2

1.7.1 O que acontece com a lei de Coulomb se o meio não


for o vácuo?

Suponhamos agora, que as cargas Q1 e Q2 fossem colocadas no interior de um


material dielétrico qualquer.
FATO EXPERIMENTAL: a interação entre as cargas sofre uma redução, cuja
intensidade depende do meio.
O fator de redução é denotado por k e chamado de constante dielétrica do
meio.
Nestes casos F = kk0 Q1r2Q2 r̂.

17
Meio kmeio
Vácuo 1.0000
Ar 1.0005
Benzeno 2.3
Âmbar 2.7
Vidro 4.5
Óleo 4.6
Mica 5.4
Glicerina 43
Água 81

1.7.2 Interpretação macroscópica da Constante Dielétrica


de um meio

Uma maneira de compreender esse fato é considerando uma situação simples.


Sejam duas placas condutoras situadas no vácuo, carregadas eletricamente com car-
gas iguais mas de sinais contrários.

Figura 1.17: Carga entre placas condutoras

Colocando-se uma carga q entre as placas, uma força F atua sobre essa carga
devido às cargas nas placas.
Se essas placas forem preenchidas por um dielétrico, já sabemos que o dielétrico
ficará polarizado.
Como discutimos anteriormente, o dielétrico ficará polarizado - as cargas que
aparecem na superfı́cie do dielétrico são denominadas cargas de polarização. Na

18
Figura 1.18: Polarização de um dielétrico entre placas

figura acima é fácil perceber que o efeito lı́quido dessa polarização será neutralizar
parcialmente as cargas das duas placas e portanto a força original (no vácuo) F0 vai
diminuir. O grau de polarização do meio vai nos dizer quantitativamente o tamanho
dessa diminuição.

EXERCÍCIOS

E1) (Vestibular UFMG-1995) Duas bolinhas idênticas pintadas com tinta


metálica estão carregadas. Quando estão afastadas de 4.0 × 10−2 m atraem-se com
uma força de 27×105 N . Encosta-se uma na outra sem tocar-lhes a mão. Afastando-
as novamente até a distância de 4.0 × 102 m elas se repelem com a força de 9 × 105 N .
a) Explique porque a força mudou de atrativa para repulsiva.
Vamos começar pensando nos princı́pios gerais de fı́sica que envolvem cargas,
Lei de Coulomb e conservação de cargas.
Lei de Coulomb - nos diz que as cargas vão se repelir se estiverem com a
mesma carga, atrair se as cargas forem opostas.
Conservação de Carga - a carga total se conserva no processo podendo apenas
se redistribuir.
A situação fı́sica - duas bolinhas carregadas e suas cargas têm sinais contrários.
O que acontece fisicamente ao serem postas em contato? Elas vão sofrer uma
redistribuição graças às forças de atração. Como quantidades iguais de cargas de
sinais contrários se cancelam, têm-se, no final, uma carga lı́quida de mesmo sinal
em ambas as bolinhas, causando portanto uma força repulsiva entre elas.
b) E qual a magnitude da força gravitacional entre esses dois fatores?
m2
Usamos a Lei de Newton de gravitação: |F| = G r2p
(6.67 × 10−11 N m2 /Kg 2 )(1.67 × 10−27 Kg)2
|F| = = 1.2 × 10−35 N
(4.0 × 10−15 m2 )

19
Outra vez: o que significa esse número? O que podemos aprender dele pen-
sando no arcabouço global de fı́sica que já aprendemos?
Este resultado nos diz que a força gravitacional atrativa é muito pequena para
contrabalançar a força eletrostática entre os prótons. É por isso que temos que
invocar uma TERCEIRA FORÇA, a força forte que age entre prótons e nêutrons
quando estão suficientemente próximos.
Embora a força gravitacional seja muitas vezes mais fraca do que a força
eletrostática, ela é muito mais importante em situações de larga escala, porque é
SEMPRE ATRATIVA. Isto significa que, ao contrário da força elétrica, ela é capaz
(e a responsável) por conseguir colecionar muitos corpos pequenos e formar corpos
com massas enormes tais como planetas e estrelas, que serão então capazes de ex-
ercer forças gravitacionais apreciáveis.

E2) a) Qual a magnitude da força eletrostática repulsiva entre dois prótons


em um núcleo de Ferro, (Raio do núcleo de um átomo de Ferro = 4.0 × 1015 m)
separados em média por 4.0 × 1015 m?
1 e2
Escrevemos imediatamente |F| = 4π²0 r 2

(8.89 × 103 N m2 /C 2 )(1.60 × 10−19 C)2


|F| = = 14N
(4.0 × 10−15 m2 )
O que quer dizer esse número? É uma força pequena se a compararmos com
o peso médio de um adulto por exemplo, no entanto, é uma força enorme se estiver
agindo num próton. Tais forças seriam capazes de explodir o núcleo de qualquer
átomo a excessão do hidrogênio, que só possui um próton). Entretanto, isto não
acontece, mesmo em núcleos com um número enorme de prótons.
NOTE então que, outra vez, a resposta obtida está revelando muito mais do
que simplesmente um valor numérico: ela mostra que deve haver forçosamente uma
enorme força atrativa para contrabalançar esta repulsão tão grande: é a força nu-
clear.

E3) Acabamos de ver que a força gravitacional é muito menor do que a força
elétrica. Agora, imaginemos uma situação muito comum em nosso dia-a-dia que é
rasgar ao meio um pedaço de papelão. Qual a origem da força responsável por essa
ruptura?

20
São obviamente as forças elétricas que fazem parte da estrutura atômico-
molecular do material. É a disruptura desses elementos que leva à ruptura do
material e não a força gravitacional que é muito pequena para isso!

E4) (Vestibular UFMG-1983) A figura apresenta cargas elétricas fixas nos


vértices de um quadrado

q1 q
• •

q•2 •q
3

Figura 1.19: Cargas fixas nos vértices de um quadrado

As forças que a carga q exerce sobre q1 , q2 e q3 são iguais em módulo. Podemos


concluir que:
a) q1 = q3 > q2
b) q1 = q2 = q3
c) q3 > q2 > q1
d) q3 < q2 < q1
e) q3 = q1 < q2

Neste problema usamos apenas a lei de Coulomb. Sua proporcionalidade direta


com as cargas e inversa com o quadrado da distância.

1 qi qj
|F| =
4π²0 r2
A partir daı́, podemos tirar as seguintes conclusões:
|q1 | = |q3 |, pois a distância neste caso é a mesma.
A carga q2 está mais afastada de q e o fator distância tende a diminuir a força.

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Portanto a intensidade da carga tem que compensar isto para que as forças sejam
todas iguais, portanto:
q2 > q1 −→ alternativa E.

E5) (Vestibular UFMG-1984) Duas esferas metálicas de mesmo raio possuem


cargas Q1 = 10µC e Q2 = 4µC quando separadas. Quando postas em contato, como
ficará a carga de cada uma?
Esta questão ilustra o princı́pio da conservação das cargas elétricas ⇒ Q1 =
Q2 = 3µC.

E6) Existe atração gravitacional entre a Terra e a Lua. Será que as forças
elétricas não podem ser a causa disso? Como você poderia confirmar ou rejeitar essa
hipótese?
A força de Newton nos permite prever uma relação bem definida entre o
perı́odo de revolução da Lua em torno da Terra. Vamos supor que a Lua execute
uma órbita circular em torno da Terra e que possamos considerar os dois corpos
como puntiformes. (Veja figura 1.20).

Figura 1.20: Sistema Terra-Lua

A força gravitacional é a responsável pela aceleração centrı́peta da Lua, ie,

MT mL
|FG | = G = mL ω 2 R
R2
Um pouco de álgebra nos leva a

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4πR2
T2 =
GMT
Se a responsável fosse uma força eletrostática e houvesse sobre a Terra uma
carga QT e sobre a Lua uma carga QL , terı́amos, de forma análoga

QT QL 4πmL
|FE | = k0 2
= mω 2 R −→ T 2 =
r k0 Q1 Q2
A última expressão nos diz que o perı́odo de revolução da Lua em torno da
Terra depende das duas cargas, o que sabemos não ser verdade.
Você consegue imaginar outros argumentos?

E7) Duas pequenas esferas condutoras de massa m estão suspensas por fios
de seda de comprimento L e possuem a mesma carga q, como é mostrado na figura
1.21. Considerando que o ângulo θ é tão pequeno que tan θ possa ser substituı́da
por sin θ:
(a) Mostre que para esta aproximação, no equilı́brio, temos
µ ¶1/3
q2L
x=
2π²0 mg
onde x é a distância entre as esferas.
(b) Sendo L = 120cm; m = 10g e x = 5, 0cm, quanto vale q? Verifique se,
com esses dados, a hipótese de que tan θ ≈ sin θ é válida.

Figura 1.21: Esferas condutoras suspensas

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RE7) Vamos estudar as forças que agem nas esferas

Figura 1.22: Forças que agem nas esferas

Note da figura que a ação da força peso é anulada pela componente verti-
cal da tensão na corda Ty e a força coulombiana pela sua componente horizontal.
Matematicamente, essas condições se expressam da seguinte maneira:

1 q2
T sin θ = FC =
4π²0 x2
T cos θ = mg

Agora, a melhor estratégia para eliminar a incógnita T é dividir as duas


equações. Teremos

q2
tan θ =
4π²0 x2 mg
Se tan θ = sin θ/ cos θ ≈ sin θ = x/2L (ver figura)
Então

x q2 3 q 2 2L
= =⇒ x =
2L 4π²0 x2 mg (4π²0 )mg
³ 2 ´1/3
Portanto x = 2π²q 0Lmg
¡ 0 mg ¢1/2
b) q = ± 4π²
2Lx3
≈ 2.4 × 10−8 C

x 5, 0 5 ∼
sin θ = = = = 0, 02
2L 2 × 120, 0 240

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p
cos θ = 1 − (0, 02)2 ∼
= 0, 99979997

Portanto a hipótese é verificada.

E8) As esferas do problema anterior são condutoras.


(a) O que acontecerá após uma delas ser descarregada? Explique sua resposta.
(b) Calcule a nova separação de equilı́brio.
RE8) (a) Quando descarregamos uma das esferas, devido à presença da outra,
haverá o fenômeno de indução eletrostática que vai polarizar a esfera inicialmente
descarregada. Isto provocará uma atração entre elas, que levará ao contato. Ao
entrarem em contato, elétrons vão se transferir no sentido de anular a carga positiva.
Após esse processo, as duas esferas vão conter cargas iguais e portanto vão se repelir.
(b) A nova posição de equilı́brio se calcula da mesma forma que no exercı́cio
anterior, alterando apenas o valor da carga, que devido à redistribuição ocorrida
durante o contato, reduzir-se-a à metade
µ ¶1/3
q 2 /4L
x=
2π²0 mg

E9) Suponha que o gráfico da figura corresponda a duas bolas de beisebol


com cargas positivas iguais. Para cada bola determine o número de elétrons que
faltam e estime a fração desses elétrons

Figura 1.23: Gráfico F versus r

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O objetivo desse exercı́cio é mostrar dois fatos importantes: o caráter quan-
tizado da carga dos elétrons não se manifesta em objetos macroscópios, como as
bolas de beisebol. E fazer isto entendendo a ordem de grandeza do fenômeno. Neste
problema o mais importante não é o manuseio das fórmulas, que é muito simples,
mas a INTERPRETAÇÃO DO RESULTADO.
Vamos começar calculando a carga q, igual em ambas as bolas

p
q= 4π²0 r2 F
Podemos escolher qualquer ponto na curva para calcular q. Por exemplo,
F = 9, 0µN e r = 4, 0m
s
(4, 0m)2 (9, 0µC)
q=
9, 0 × 109 N m2 /C 2
Seja n o número de elétrons que faltam em cada bola.

q 130nC
n= = = 7, 9 × 1011 elétrons
e 1, 6 × 10−19 C
Num objeto neutro, o número de elétrons é igual ao número de prótons. A
fração dos elétrons que faltam é n/NP se NP for o número de prótons.
Considerando que uma bola de beisebol tem massa de cerca de 0, 15Kg e que
metade dessa massa é atribuı́da aos prótons e metade aos nêutrons. Dividindo então
a massa de uma bola de beisebol pela massa de um par próton-neutron, obtemos
uma estimativa de NP

M 0, 15Kg
NP = = = 5 × 1025 prótons
mp + mn 2(1, 67 × 10−27 Kg)
E a fração de elétrons ausentes, então, é dado por

n 7, 9 × 1011 elétrons que f altam


= = 2 × 10−14
NP 5 × 1025 prótons
O que quer dizer esse resultado?
Significa que cerca de um em cada 5 × 1013 (ou 1/2 × 10−14 ) elétrons está
ausente em cada bola.
E este número? Como desenvolver uma intuição sobre os fenômenos elet-
rostáticos? Vamos tentar entender mais profundamente o que significa esse número,

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comparando-o com coisas que conhecemos: a população humana da Terra é cerca de
6 × 109 , de modo que o resultado obtido para os elétrons faltantes é cerca de 10.000
VEZES A POPULAÇÃO HUMANA DA TERRA.

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