Fundamentos da Eletrostática e Cargas Elétricas
Fundamentos da Eletrostática e Cargas Elétricas
Eletrostática
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corpo ao ser atraı́do por outro eletrizado era repelido após tocá-lo, concluiu que dois
corpos eletrizados sempre se repelem. Entretanto esta idéia teve de ser modificada
devido a novas observações experimentais que a contradiziam: Dufay mesmo, mais
tarde, observou que um pedaço de vidro atritado com seda atraia um pedaço de
âmbar que tivesse sido previamente atritado com pele, i.e., a experiência mostrou
que dois corpos eletrizados podem se atrair.
Baseando-se num grande número de experiências, lançou então as bases de
uma nova hipótese que teve grande aceitação durante todo o século XVIII. Segundo
ele existiam dois tipos de eletricidade: eletricidade vı́trea, aquela que aparece no
vidro após ser atritado com seda, e eletricidade resinosa, aquela que aparece no
âmbar atritado com pele (o âmbar é uma resina). Todos os corpos que possuı́ssem
eletricidade vı́trea (ou resinosa) repeliriam uns aos outros. Por outro lado, corpos
com eletricidade de nomes contrários, atraı́am-se mutuamente.
Sua teoria ficou conhecida como a teoria dos dois fluidos elétricos (o vı́treo e
o resinoso), a idéia sendo que em um corpo normal esses fluidos se apresentariam
na mesma quantidade. Portanto, de acordo com essas idéias, a eletricidade não era
criada quando um corpo é atritado, os fluidos elétricos já existiam nos corpos e o
que acontecia com o atrito era uma redistribuição destes fluidos.
Como freqüentemente acontece em Fı́sica, apareceu uma outra explicação com
base nos mesmos fenômenos. É claro que apenas uma delas poderia estar correta.
Vamos à segunda teoria: o cientista americano Benjamin Franklin (1736 1806),
interessado no assunto, também realizou um grande número de experimentos que
contribuiram de forma decisiva para a compreensão da natureza da eletricidade.
Foram duas as contribuições fundamentais de B. Franklin: Primeiro formulou
a hipótese de um fluido único. De acordo com sua teoria os corpos não eletrizados
possuem uma quantidade natural de um certo fluido elétrico. Quando um corpo
é atritado com outro, um deles perde parte do seu fluido, essa parte é transferida
ao outro corpo. Ele dizia que o corpo que recebia o fluido elétrico ficava eletrizado
positivamente e o que o perdia, negativamente. Essa terminologia é usada até hoje
e corresponde aos termos eletricidade vı́trea e resinosa de Dufay.
Sua segunda grande contribuição foi a hipótese de que a carga elétrica é con-
servada: ela já existe nos corpos e se redistribui quando os corpos são atritados.
Como decidir entre as duas teorias? Esta é também uma situação muito
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freqüente na Fı́sica em geral. Na época, com os dados disponı́veis não era possı́vel
distinguir entre as duas. Qual foi o ingrediente novo?
A compreensão dos mecanismos responsáveis pela eletrização por atrito sofreu
um grande avanço quando a teoria atômica da matéria se estabeleceu em bases
razoavelmente firmes, no primeiro quarto do século XX. A imagem simples que
fazemos do fenômeno é a seguinte: quando dois corpos se tocam, há muitos pontos
em que os átomos de um estão muito próximos dos átomos que compõe o outro e
então os elétrons sofrerão forças devidas aos átomos, um do outro. Alguns desses
elétrons passam de um átomo para outro, de um corpo para outro. Quando os corpos
se movem um em relação ao outro, os átomos que estavam próximos se separam e
podem ficar com elétrons a mais ou a menos.
Uma descrição teórica microscópica precisa da eletrização por atrito é muito
difı́cil. Costuma-se portanto colecionar resultados experimentais e compilar resulta-
dos em tabelas. Por exemplo, podemos colocar corpos em uma lista tal que atritando
um corpo com outro da lista, fica carregado positivamente aquele que aparece antes
nessa lista. Uma lista desse tipo é
- Pêlo de gato, vidro, marfim, seda, cristal de rocha, mão, madeira, enxofre,
flanela, algodão, gomalaca, borracha, resinas, metais...
Corpos lı́quidos e gasosos também podem ser eletrizados por atrito: - a eletrização
das nuvens de chuva se dá pelo atrito entre as gotı́culas do ar e da água, na nuvem.
Finalmente, devemos dizer ainda que existem diversos métodos de eletrizar cor-
pos materiais: por incidência de luz em metais, por bombardeamento de substâncias,
por radiação nuclear e outros.
Q1. Duas folhas de um mesmo tipo de papel são atritadas entre si. Elas
ficarão eletrizadas? Por quê?
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R.: Se os corpos são compostos da mesma substância, ao serem atritados não
haverá transferência de elétrons de um corpo para outro e eles permanecerão como
estão.
Q2. Quando se atrita enxofre com algodão, que carga terá cada material?
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porquê. Esta resposta tem a ver com outro aspecto fundamental da compreensão
dos fenômenos fı́sicos: as ordens de grandeza.
No Sistema Internacional (SI) a unidade de carga elétrica é 1 Coulomb.
O que significa dizer que um corpo possui uma carga de um Coulomb?
Um Coulomb corresponde a 6.25 × 1018 elétrons em excesso (se a carga for
negativa) ou em falta (se for positiva). Na eletrostática geralmente lidamos com
cargas elétricas muito menores do que um Coulomb. Vamos ver com freqüência
as unidades mC (10−3 C) ou µC (10−6 C). Essas unidades representam ainda um
número enorme de cargas elementares. A carga do elétron é
e = 1.60 × 10−19 C
Por isso faz sentido tratar distribuições de cargas macroscópicas como se fos-
sem contı́nuas, como faremos nos capı́tulos seguintes. Vamos firmar essa idéia com
um exercı́cio?
E1. Quantos elétrons há em uma gota de água de massa 0.03g? A massa de
uma molécula de água é m0 = 3 × 10−23 g.
A molécula de água contém 10 elétrons (H2 O) - Uma gota de água contém
m/m0 moléculas
m
= 1021
m0
=⇒ 1022 elétrons !
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Ao contrário dos condutores, existem sólidos nos quais os elétrons estão firme-
mente ligados aos respectivos átomos e os elétrons não são livres, i.e, não tem mobil-
idade, como no caso dos condutores. Nestes materiais, chamados de dielétricos ou
isolantes, não será possı́vel o deslocamento da carga elétrica. Exemplos importantes
de isolantes são: a borracha, o vidro, a madeira, o plástico, o papel, etc...
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tantes. A razão disto é que a umidade pode dissolver sais existentes na superfı́cie
do corpo recobrindo-o com uma solução salina, boa condutora de eletricidade.
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Figura 1.3: Corpo carregado próximo a condutor
Essa ligação fará com que os elétrons livres passem do condutor à Terra, deixando
o condutor carregado.
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Figura 1.5: Condutor eletrizado
último tipo.
Se um dielétrico polar não estiver eletrizado, as moléculas estarão distribuı́das
ao acaso como mostra a figura abaixo (ver figura 1.6).
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Figura 1.7: Dielétrico polarizado
1.5 Eletroscópios
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Figura 1.9: Eletroscópio
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roscópio, que estavam abertas, se aproximam ou se afastam. de fato, se o objeto
estiver carregado negativamente, elétrons livres da esfera serão repelidos e se deslo-
carão para as folhas. Esses elétrons neutralizarão parte da carga positiva aı́ existente
e por isso o afastamento entre as folhas diminui. Analogamente, podemos concluir
que, se o afastamento das folhas for aumentado pela aproximação do corpo, o sinal
da carga nesse corpo será positivo.
Exercı́cios Conceituais: Será que você assimilou os fenômenos fı́sicos, de
forma a compreender situações diferentes que envolvem esses mesmos fenômenos?
C - 1) São dadas duas esferas de metal montadas em suporte portátil de
material isolante. Descubra um modo de carregá-las com quantidades de cargas
iguais e de sinais opostos. Pode-se usar uma barra de vidro ativada com seda, mas
estas não podem tocar as esferas. É necessário que as esferas sejam do mesmo
tamanho, para o método ser usado?
RC - 1) Em primeiro lugar, do que vimos da eletrização por atrito, sabemos
que um bastão de vidro atritado com seda vai ficar carregado positivamente. Se
aproximarmos esse bastão de uma das esferas condutoras, teremos a situação da
figura 1.11
Não podemos tocar as esferas com o bastão. Mas, que tal aproximarmos as
esferas até que elas se toquem?
Elétrons da esfera à esquerda vão migrar para a esfera da direita, anulando
as cargas positivas. Haverá, então, um excesso de cargas positivas na esfera da
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Figura 1.12: Transferência de cargas
Fica claro que o tamanho das esferas não tem papel algum no processo.
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Figura 1.14: Aproximação do vidro
bastão. Teremos
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a) Se o clima estiver seco, o ônibus permanecerá eletrizado? Explique.
b) Ao segurar nesse ônibus para subir nele, uma pessoa tomará um choque.
Por quê?
c) Esse fato não é comum no Brasil. Por quê?
RC4 a) Sim, pois os pneus são feitos de borracha, que é um isolante e impedem
que o ônibus seja descarregado para a Terra.
b) O choque elétrico será causado pelo fato de que nossa mão é um condutor
e haverá troca de cargas entre o ônibus e a mão da pessoa.
c) A umidade do nosso clima traz à discussão um novo elemento a água que,
como sabemos, é excelente condutor. Devido a isso, os ônibus nunca chegam a reter
uma carga apreciável.
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O texto ou desenho a ser copiado é projetado sobre uma placa fina de selênio,
cuja superfı́cie está carregada positivamente. Esta placa dispõe-se sobre uma su-
perfı́cie metálica carregada negativamente. Sob a ação da luz, a placa descarrega
e a carga positiva fica apenas nos setores que correspondem aos locais escuros da
imagem. Depois disso, a placa é revestida por uma fina camada de esferas de vidro.
A atração de cargas de sinais contrários faz com que o pó resinoso se deposite na
placa com cargas negativas. Em seguida, as esferas de vidro retiram-se por meio de
uma sacudidela. Apertando com força a folha de papel contra a placa, pode-se obter
uma boa impressão. Fixa-se, finalmente, esta última por meio de aquecimento.
No século XVIII, Coulomb realizou uma série de medidas cuidadosas das forças
entre duas cargas usando uma balança de torção (semelhante à que Cavendish usou
para comprovar a teoria da Gravitação). Através dessas medidas, Coulomb chegou
a algumas conclusões (válidas tanto para atração como para repulsão).
Resumimos aqui os fatos experimentais que o levaram a expressá-los matem-
aticamente na forma que hoje conhecemos.
FATO EXPERIMENTAL: a intensidade da força de interação entre cargas
puntuais é proporcional ao produto das cargas.
FATO EXPERIMENTAL: a intensidade da força F, |F| - de atração ou re-
pulsão entre duas cargas que podem ser consideradas puntuais é inversamente pro-
porcional ao quadrado da distância entre elas, r.
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|F| ∝
r2
LEI DE COULOMB:
Com base nos fatos experimentais acima, Coulomb concluiu que
Q1 Q2
|F| ∝
r2
Note que a grandeza força tem caráter vetorial e portanto é preciso atribuir-lhe
também sua direção e sentido. Sua direção é a do suporte que liga as duas cargas,
o sentido depende do sinal relativo das cargas como se vê na figura
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Figura 1.16: Caráter vetorial da força de Coulomb
Finalmente,
Q1 Q2
F = k0 r̂
r2
1 2
No sistema internacional k0 = 4π² 0
= 8.99 × 103 NCm2 , onde ²0 é uma constante
que caracteriza a permissividade do vácuo
C2
²0 = 8.85 × 10−12
N m2
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Meio kmeio
Vácuo 1.0000
Ar 1.0005
Benzeno 2.3
Âmbar 2.7
Vidro 4.5
Óleo 4.6
Mica 5.4
Glicerina 43
Água 81
Colocando-se uma carga q entre as placas, uma força F atua sobre essa carga
devido às cargas nas placas.
Se essas placas forem preenchidas por um dielétrico, já sabemos que o dielétrico
ficará polarizado.
Como discutimos anteriormente, o dielétrico ficará polarizado - as cargas que
aparecem na superfı́cie do dielétrico são denominadas cargas de polarização. Na
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Figura 1.18: Polarização de um dielétrico entre placas
figura acima é fácil perceber que o efeito lı́quido dessa polarização será neutralizar
parcialmente as cargas das duas placas e portanto a força original (no vácuo) F0 vai
diminuir. O grau de polarização do meio vai nos dizer quantitativamente o tamanho
dessa diminuição.
EXERCÍCIOS
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Outra vez: o que significa esse número? O que podemos aprender dele pen-
sando no arcabouço global de fı́sica que já aprendemos?
Este resultado nos diz que a força gravitacional atrativa é muito pequena para
contrabalançar a força eletrostática entre os prótons. É por isso que temos que
invocar uma TERCEIRA FORÇA, a força forte que age entre prótons e nêutrons
quando estão suficientemente próximos.
Embora a força gravitacional seja muitas vezes mais fraca do que a força
eletrostática, ela é muito mais importante em situações de larga escala, porque é
SEMPRE ATRATIVA. Isto significa que, ao contrário da força elétrica, ela é capaz
(e a responsável) por conseguir colecionar muitos corpos pequenos e formar corpos
com massas enormes tais como planetas e estrelas, que serão então capazes de ex-
ercer forças gravitacionais apreciáveis.
E3) Acabamos de ver que a força gravitacional é muito menor do que a força
elétrica. Agora, imaginemos uma situação muito comum em nosso dia-a-dia que é
rasgar ao meio um pedaço de papelão. Qual a origem da força responsável por essa
ruptura?
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São obviamente as forças elétricas que fazem parte da estrutura atômico-
molecular do material. É a disruptura desses elementos que leva à ruptura do
material e não a força gravitacional que é muito pequena para isso!
q1 q
• •
q•2 •q
3
1 qi qj
|F| =
4π²0 r2
A partir daı́, podemos tirar as seguintes conclusões:
|q1 | = |q3 |, pois a distância neste caso é a mesma.
A carga q2 está mais afastada de q e o fator distância tende a diminuir a força.
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Portanto a intensidade da carga tem que compensar isto para que as forças sejam
todas iguais, portanto:
q2 > q1 −→ alternativa E.
E6) Existe atração gravitacional entre a Terra e a Lua. Será que as forças
elétricas não podem ser a causa disso? Como você poderia confirmar ou rejeitar essa
hipótese?
A força de Newton nos permite prever uma relação bem definida entre o
perı́odo de revolução da Lua em torno da Terra. Vamos supor que a Lua execute
uma órbita circular em torno da Terra e que possamos considerar os dois corpos
como puntiformes. (Veja figura 1.20).
MT mL
|FG | = G = mL ω 2 R
R2
Um pouco de álgebra nos leva a
22
4πR2
T2 =
GMT
Se a responsável fosse uma força eletrostática e houvesse sobre a Terra uma
carga QT e sobre a Lua uma carga QL , terı́amos, de forma análoga
QT QL 4πmL
|FE | = k0 2
= mω 2 R −→ T 2 =
r k0 Q1 Q2
A última expressão nos diz que o perı́odo de revolução da Lua em torno da
Terra depende das duas cargas, o que sabemos não ser verdade.
Você consegue imaginar outros argumentos?
E7) Duas pequenas esferas condutoras de massa m estão suspensas por fios
de seda de comprimento L e possuem a mesma carga q, como é mostrado na figura
1.21. Considerando que o ângulo θ é tão pequeno que tan θ possa ser substituı́da
por sin θ:
(a) Mostre que para esta aproximação, no equilı́brio, temos
µ ¶1/3
q2L
x=
2π²0 mg
onde x é a distância entre as esferas.
(b) Sendo L = 120cm; m = 10g e x = 5, 0cm, quanto vale q? Verifique se,
com esses dados, a hipótese de que tan θ ≈ sin θ é válida.
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RE7) Vamos estudar as forças que agem nas esferas
Note da figura que a ação da força peso é anulada pela componente verti-
cal da tensão na corda Ty e a força coulombiana pela sua componente horizontal.
Matematicamente, essas condições se expressam da seguinte maneira:
1 q2
T sin θ = FC =
4π²0 x2
T cos θ = mg
q2
tan θ =
4π²0 x2 mg
Se tan θ = sin θ/ cos θ ≈ sin θ = x/2L (ver figura)
Então
x q2 3 q 2 2L
= =⇒ x =
2L 4π²0 x2 mg (4π²0 )mg
³ 2 ´1/3
Portanto x = 2π²q 0Lmg
¡ 0 mg ¢1/2
b) q = ± 4π²
2Lx3
≈ 2.4 × 10−8 C
x 5, 0 5 ∼
sin θ = = = = 0, 02
2L 2 × 120, 0 240
24
p
cos θ = 1 − (0, 02)2 ∼
= 0, 99979997
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O objetivo desse exercı́cio é mostrar dois fatos importantes: o caráter quan-
tizado da carga dos elétrons não se manifesta em objetos macroscópios, como as
bolas de beisebol. E fazer isto entendendo a ordem de grandeza do fenômeno. Neste
problema o mais importante não é o manuseio das fórmulas, que é muito simples,
mas a INTERPRETAÇÃO DO RESULTADO.
Vamos começar calculando a carga q, igual em ambas as bolas
p
q= 4π²0 r2 F
Podemos escolher qualquer ponto na curva para calcular q. Por exemplo,
F = 9, 0µN e r = 4, 0m
s
(4, 0m)2 (9, 0µC)
q=
9, 0 × 109 N m2 /C 2
Seja n o número de elétrons que faltam em cada bola.
q 130nC
n= = = 7, 9 × 1011 elétrons
e 1, 6 × 10−19 C
Num objeto neutro, o número de elétrons é igual ao número de prótons. A
fração dos elétrons que faltam é n/NP se NP for o número de prótons.
Considerando que uma bola de beisebol tem massa de cerca de 0, 15Kg e que
metade dessa massa é atribuı́da aos prótons e metade aos nêutrons. Dividindo então
a massa de uma bola de beisebol pela massa de um par próton-neutron, obtemos
uma estimativa de NP
M 0, 15Kg
NP = = = 5 × 1025 prótons
mp + mn 2(1, 67 × 10−27 Kg)
E a fração de elétrons ausentes, então, é dado por
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comparando-o com coisas que conhecemos: a população humana da Terra é cerca de
6 × 109 , de modo que o resultado obtido para os elétrons faltantes é cerca de 10.000
VEZES A POPULAÇÃO HUMANA DA TERRA.
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