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Revista Clube Naval. História e Estratégia Navais.
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Revista do

CLUBE NAVAL ISSN 0102-0382 • ANO 131 • NO 405 - JAN/FEV/MAR 2023

O BRASIL NA
ANTÁRTICA
40 ANOS
DA PRIMEIRA
EXPEDIÇÃO
ESCANEIE AQUI
para acessar o
regulamento
SUMÁRIO 40 Mergulho na Primeira Expedição Brasileira à Antártica
CMG (Ref°-FN) Celso Alves da Costa

PALAVRAS DO PRESIDENTE 42 Recordando a Primeira Expedição Brasileira à Antártica


Tenente-Coronel Norberto Ferrari
04 Alte Esq (Ref°) Luiz Fernando Palmer Fonseca
46 O Brasil também é Antártica: PROANTAR comemora
EDITORIAL 40 anos de atividades na região austral
C Alte Marco Antônio Linhares Soares
05 C Alte (Ref°-FN) José Henrique Salvi Elkfury
52 A Operação Antártica na atualidade e sua evolução
EM PAUTA ao longo de 40 anos de história
CMG João Candido Marques Dias
06 Eventos e comemorações na Sede Social 1° Ten (QC-IM) Carolina Timoteo Silva Louback
ENTREVISTA 57 O Bicentenário da Esquadra e o Corpo de
Intendentes da Marinha
07 CMG (Ref°) Eugênio José Ferreira Neiva CC (IM) Mauro Tavares dos Santos Junior
CF (IM) Marcelo Vallim Filgueiras
200 ANOS DA INDEPENDÊNCIA
DO BRASIL 62 A Hidrografia no Brasil nos últimos 200 anos
CMG (RM1) Edson Carlos Furtado Magno
12 Por que o Brasil resolveu ir à Antártida?
Luiz Filipe de Macedo Soares Guimarães 68 Comunicações navais na Guerra da Independência
CMG (RM1) Claudio da Costa Braga
15 Operação Antártica I: uma aventura
no desconhecido FILATELIA
CMG (Ref°) Jorge Eduardo de Carvalho Rocha
74 A história da Marinha do Brasil e suas origens
21 Primeira Expedição Brasileira à Antártica: narrada pela filatelia
pesquisa de ciências atmosféricas a bordo CMG (Ref°) Fernando Antonio B. F. de Athayde Bohrer
do NApOc "Barão de Teffé"
Vera Lucia Requia Kuntz MARINHA DO BRASIL
26 Minha experiência na Primeira Expedição 77 A criação do Centro de Desenvolvimento
Brasileira à Antártica Doutrinário de Guerra Naval
Orlando Moreira da Silva CMG Rodrigo Monteiro Lazaro
32 Participação da Aviação Naval Brasileira na
Primeira Expedição à Antártica MEIO AMBIENTE
CMG (Ref°) Ricardo de Lima Vallim 80 Transição da energia de tração ferroviária no Brasil
Luiz Carlos Gabriel

PSICOLOGIA
HISTÓRIA 84 Autoconhecimento – você vai precisar ter isso

DA CAPA
CC (S) Haendel Motta Arantes

CULTURA
Composição realizada 88 O fuzil AK-47 e a Vexilologia
com as imagens Cícero Caldas Neto
dos brasileiros que
participaram da 1 a 92 Uma breve história da literatura no Brasil Republicano
Expedição à Antártica, CC (FN) Esley Rodrigues de Jesus Teixeira
o NOc "Professor Wladimir Besnard" e
a moeda alusiva aos 40 anos do evento. ÚLTIMAS PÁGINAS
Ao fundo, o itinerário percorrido pelo 95 A importância do embarque para o jovem oficial
"Barão de Teffé" durante a 2a fase da do Corpo de Engenheiros da Marinha
Expedição. CF (EN) Ali Kamel Issmael Junior

Revista do Clube Naval • nº 405 3


PALAVRAS DO
CLUBE NAVAL

Av. Rio Branco, 180, 5o andar

PRESIDENTE Centro - Rio de Janeiro / RJ


Brasil - 20040-003

PRESIDENTE
Alte Esq (Refo) Luiz Fernando Palmer Fonseca

Prezados Sócios DIRETOR DO DEPARTAMENTO CULTURAL


C Alte (Refo-FN) José Henrique Salvi Elkfury

A
ASSESSORA DO DEPARTAMENTO CULTURAL
o longo deste primeiro trimestre de CC (RM1-T) Ana Cláudia Corrêa de Araujo
2023 retomamos as atividades cul-
turais do Clube, com destaque para
Revista do
o ciclo de palestras da Presidência e
dos Grupos de Interesse em Economia do Mar CLUBE NAVAL
e em Defesa e Segurança, sempre norteado ao Publicação trimestral editada pelo Depar-
atendimento da finalidade estatuída de “difun- tamento Cultural do Clube Naval. As ideias
dir assuntos ligados à atividade marítima em e opiniões emitidas nos artigos assinados
são de inteira responsabilidade de seus au-
geral e à Segurança Nacional”. tores e não representam, necessariamente,
Deste modo, realizamos em março a palestra a opinião dos oficiais da Marinha do Brasil,
“Eólicas offshore e a transformação do trans- nem do Clube Naval, a não ser que explici-
porte marítimo”; e para o mês de abril já estão tamente declarado. A reprodução de maté-
rias aqui publicadas necessita de autoriza-
programadas as palestras “Rússia x Ucrânia: um
ção prévia da Revista do Clube Naval.
ano de conflito” e “Gestão do ciclo de vida dos
navios”. Os detalhamentos destas e de outras ANO 131 • NO 405
palestras a serem proferidas serão divulgados
oportunamente.
EDITORA DE ARTE E DIAGRAMADORA
Inserido também nas atividades culturais do Fabiana Peixoto
ano que se inicia ocorrerá no período de 28 de
COLABORADOR
abril a 26 de maio o tradicional Salão de artes José Carlos de Medeiros
referentes ao mar, o Salão do Mar, desta vez na
sua 29ª edição. CONTATOS
[email protected]
Será um prazer tê-los presentes nestas e em (21) 2112-2429 / 2465
outras atividades culturais do nosso clube. ■

Luiz Fernando Palmer Fonseca


Almirante de Esquadra (Refº) • Presidente

ESCANEIE AQUI
para informações sobre
submissão de artigos

4 Revista do Clube Naval • no 405


EDITORIAL
Brasil na Antártica – 40 anos

D
urante a Assembleia Consultiva Es-
pecial do Tratado da Antártica rea-
lizada em 12 de setembro de 1983,
em Camberra, Austrália, o Brasil foi
aceito como membro consultivo daquele Trata-
do, passando a participar dos processos decisó-
rios relativos ao continente branco com direito
a voto.
Essa conquista foi resultado da Primeira Ex-
pedição Brasileira à Antártica, realizada qua-
renta anos atrás, entre 20 de dezembro de 1982
e 28 de fevereiro de 1983, com emprego do Na-
vio de Apoio Oceanográfico “Barão de Teffé”,
da Marinha do Brasil, e do Navio Oceanográ-
fico “Professor Wladimir Besnard”, do Instituto
Oceanográfico da Universidade de São Paulo,
coroando com êxito iniciativa do Almirante de
Esquadra Maximiano Eduardo da Silva Fonse-
ca, então Ministro da Marinha.
Assim, esta edição, ainda no contexto de
mostrar contribuições da Marinha para o de-
Hasteamento da Bandeira do Brasil na Estação
senvolvimento científico do Brasil ao longo dos "Henryk Arctowski", da Polônia, após
seus duzentos anos de independência, apre- nosso primeiro desembarque na Antártica
senta artigos com diferentes perspectivas, ela-
borados por integrantes dessa viagem pionei- A Revista deste trimestre prossegue com a
ra que estavam no “Barão de Teffé”, iniciando publicação de artigos mostrando como os dife-
pela entrevista com o Capitão de Mar e Guerra rentes setores da Marinha asseguram que nos-
Reformado Eugênio José Ferreira Neiva, Coor- sa Bicentenária Esquadra esteja sempre pronta
denador Científico da Expedição, e terminan- para emprego, além de matéria sobre o Centro
do com textos mostrando a situação atual e o de Desenvolvimento Doutrinário de Guerra
porvir do Programa Antártico Brasileiro e da Naval, ativado recentemente, bem como outras
aplicação do Poder Naval nas águas geladas do relevantes colaborações, abordando assuntos
Oceano Austral. diversos. ■

José Henrique Salvi Elkfury


Contra-Almirante (Refº-FN) • Diretor Cultural

Revista do Clube Naval • nº 405 5


EM PAUTA • Eventos & Comemorações na Sede Social

CMG (REF°) CÂMARA DOA AO CLUBE NAVAL EXEMPLAR DO


LIVRO “OS LINDENBERG – DE LÜBECK AO BRASIL”
A obra é um relato histórico-afetivo da família Lin-
denberg a partir do século 18, na Alemanha, com desta-
que para a descendência no Brasil, iniciada com a vinda
do engenheiro agrônomo Ludwig Lindenberg para o Rio
de Janeiro em 1818. Seus descendentes, entre os quais
três oficiais da Marinha do Brasil, muito contribuíram
para o desenvolvimento do nosso país em várias áreas.

2° SALÃO ITINERANTE A BORDO


DO NAVIO ESCOLA "BRASIL"
No dia 15 de fevereiro o Clube Naval promoveu
um almoço com o Comandante e o Oficial de Comu-
nicação Social do Navio Escola "Brasil", CMG Caio
Germano Cardoso e CC (FN) Carlos Lopes Cordei-
ro, respectivamente. O encontro contou, ainda, com
a presença da Presidente da Academia Brasileira de
Belas Artes (ABBA), Vera Gonzalez, e teve como pro-
pósito a organização do 2º Salão Itinerante, a bordo do
Navio Escola "Brasil", durante a XXXVII Viagem de Instrução de Guardas-Marinha.
Nessa parceria entre o Clube Naval, o Navio Escola e a Academia Brasileira de Belas Ar-
tes, obras de arte são produzidas pelos integrantes da ABBA e doadas ao navio para serem
ofertadas a instituições nos países visitados, com o objetivo de divulgar as belezas do Brasil e
estreitar os laços com as nações irmãs.
A Presidente da Confederação de Felinos do Brasil, Sylvia Roriz, também participou do
evento e apoiará a parceria com a cessão de brindes a serem distribuídos durante a viagem.

PALESTRA ENERGIA EÓLICA OFFSHORE


Marcando o início das atividades culturais de 2023,
a Presidência do Clube Naval promoveu, no dia 22 de
março, em parceria com o Grupo de Interesse em Eco-
nomia do Mar, a palestra"Eólicas Offshore e a transfor-
mação do transporte marítimo", proferida pelo Alte
Esq (RM1) Elis Treidler Öberg. Durante sua aborda-
gem, o palestrante apresentou de forma
esclarecedora como as mudanças climáticas irão impactar na
transformação do transporte marítimo, destacando a impor-
tância das energias renováveis, em especial as eólicas offshore.
O evento contou com muitos espectadores presencialmen- ASSISTA AQUI
te e também de forma on-line. à palestra

6 Revista do Clube Naval • no 405


CMG (Ref°) Eugênio José Ferreira NEIVA • ENTREVISTA

A PRIMEIRA
EXPEDIÇÃO
BRASILEIRA À
ANTÁRTICA

E
m 5 de janeiro de 1983, o Navio de
Apoio Oceanográfico (NApOc) “Ba-
rão de Teffé” fundeou na Baía do Al-
mirantado, Ilha Rei George, arquipé-
lago Shetland do Sul, na Antártica.
Às 19h25, o Comandante do navio, Capitão de
Mar e Guerra Fernando José Andrade Pastor,
o Coordenador Científico da Expedição, então
Capitão de Fragata Eugênio José Ferreira Nei- Expedição Brasileira ao Continente Gelado, na
va, e o Representante do Ministério das Rela- qual atuou como Coordenador Científico.
ções Exteriores, então Conselheiro Luiz Filipe
de Macedo Soares Guimarães, desembarcaram RCN • O ano de 1982 representa um marco na
na Estação Antártica “Henryk Arctowski”, da história antártica brasileira e o senhor teve
Polônia, onde foi hasteada a Bandeira do Brasil, o privilégio de participar desse início, mas
marcando o início da nossa presença no Conti- quais acontecimentos prévios levaram a Ma-
nente Austral. rinha a estabelecer o “Rumo à Antártica”?
A Primeira Expedição Brasileira à Antártica,
que contou também com o Navio Oceanográ- COMANDANTE NEIVA • “Sempre enfim para o
fico (NOc) “Professor Wladimir Besnard”, do austro a aguda proa” (Os Lusíadas, Canto V –
Instituto Oceanográfico da Universidade de São 12). Foi assim, citando Camões, que o Almiran-
Paulo, foi o coroamento de várias medidas de- te Múcio ⁽1) nos deu as boas-vindas ao que seria
sencadeadas desde o início de 1982 e teve como o Programa Antártico Brasileiro, o PROAN-
resultado a elevação do Brasil à Parte Consulti- TAR, e sintetizou a missão que nos estava sendo
va do Tratado da Antártica ainda em 1983, re- atribuída, em 12 abril de 1982. Simples, só nos
presentando significativo ponto de inflexão na restava virar o leme e aproar 180º.
posição brasileira junto à comunidade interna- Mas, quais as origens do que então se inicia-
cional. va? Para responder, valho-me das memórias do
O Comandante Neiva, nosso entrevistado próprio Almirante Múcio ⁽2). Tudo teria come-
desta edição, foi o primeiro Subsecretário da çado lá no Ano Geofísico Internacional (AGI,
Comissão Interministerial para os Recursos do 1957-1958), do qual o Brasil fez parte, com am-
Mar (CIRM) para o Programa Antártico Brasi- pla participação da Marinha em pesquisas ocea-
leiro (PROANTAR), função exercida entre 1982 nográficas e com a reocupação da Ilha da Trin-
e 1984, quando participou ativamente das ações dade, para fins científicos. Entretanto, no AGI,
desencadeadas para a realização da Primeira diferentemente do que fizeram alguns outros

Revista do Clube Naval • nº 405 7


países, não desenvolvemos nenhuma atividade em ações concretas. Como isso aconteceu e
científica no continente antártico, pelo que não qual o papel da Marinha nessas ações iniciais?
fomos nem cogitados para participar das reu-
niões que resultaram no Tratado da Antártica COMANDANTE NEIVA • Em 1981, o Alte Múcio
(Washington, 1º de dezembro de 1959). percebeu o que lhe pareceu ser uma janela de
Porém algo ficara. Desde o início da década oportunidade para colocar a Antártica no foco
de 1960, alguns cientistas ⁽3) e vários oficiais da do governo, a partir da Comissão Interministe-
Marinha haviam estagiado, a convite, fruto da rial para os Recursos do Mar (CIRM). Contan-
atividade diplomática do Itamaraty, em bases do com a aprovação entusiasmada do Ministro
antárticas chilenas e inglesas e/ou participado Maximiano ⁽5) e de outras autoridades no Esta-
de viagens de navios de pesquisa à Antártica. do-Maior da Armada (EMA) e na Diretoria de
Ainda nos anos 1970, tinha sido criada a or- Hidrografia e Navegação (DHN), o Almirante
ganização civil Instituto Brasileiro de Estudos Múcio deu a partida. E o fez com um almoço
Antárticos (IBEA), no Clube de Engenharia, di- em que reuniu o Embaixador Rubens Ricúpe-
rigido pelo engenheiro João Aristides Wiltgen; ro, então chefe do Departamento das Américas
personalidades como o Deputado Eurípedes do MRE (ao qual o assunto era afeto) e o Prof.
Cardoso de Menezes, a geógrafa Therezinha de Lynaldo Cavalcanti de Albuquerque, presidente
Castro, o jurista Clóvis Ramalhete e professores do CNPq. Buscava obter o aval das instituições
da Escola Superior de Guerra eram frequentes por eles representadas para que fosse a CIRM a
em abordar o tema na imprensa. coordenadora das ações necessárias para a rea-
Contudo, em que pese o patente interesse por lização dos trabalhos científicos indispensáveis
parte de vários setores da sociedade, a Antártica para que o País pudesse ser aceito como Parte
permanecia fora das cogitações e prioridades do Consultiva do Tratado da Antártica.
governo brasileiro até aquele momento. Porém, Como argumentos básicos, a capacidade lo-
a essa altura, o tema já transcendera as instân- gística da Marinha, a sua tradição na condução
cias do Estado. E, com o passar do tempo, foi se de pesquisas marinhas em colaboração com
cristalizando a convicção, notadamente no Mi- universidades, a experiência centenária em car-
nistério das Relações Exteriores (MRE) e na Ma- tografia marinha e a disponibilidade de um ór-
rinha, de que o País deveria ter também partici- gão executivo já pronto, a Secretaria da CIRM
pação ativa nos destinos do continente antártico.
Como pano de fundo, tanto uma visão utilitaris-
ta, a de que sob os doze milhões de quilômetros
quadrados de gelo e em seu entorno estariam
inesgotáveis recursos minerais e biológicos,
quanto uma visão estratégica, de que a Marinha
deveria ter capacitação para operar em todo o
Oceano Atlântico Sul, até o seu limite austral.
Assim é que, tentando recuperar o tempo per-
dido, o Brasil aderiu ao Tratado da Antártica em
1975 e, no ano seguinte, no governo Geisel, fo-
ram aprovadas diretrizes para a criação de uma
Comissão Nacional para Assuntos Antárticos
(CONANTAR), a ser dirigida pelo MRE, para
assessorar a Presidência na formulação de uma
política antártica, e de um instituto de pesquisas
antárticas, na estrutura do Conselho Nacional
de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNPq), para implantar aquela política. Esses
órgãos, contudo, não foram criados na época ⁽4),
alegadamente por razões conjunturais, de equi-
líbrio das relações com a Argentina.

RCN • Pelo exposto, a importância da Antártica


para o Brasil já fora entendida em meados dos Coleta de material para as
anos 1970, mas faltava transformar as ideias pequisas de oceanografia
biológica e biologia marinha

8 Revista do Clube Naval • no 405


(SECIRM). Chegou-se então a uma fórmula
de consenso – a de que seria provisoriamente
(grifo do Almirante Múcio em suas memórias)
atribuída à CIRM a incumbência de preparar e
implantar o PROANTAR, até que fossem cria-
dos os órgãos definitivos para fazê-lo, como dis-
posto nas diretrizes do governo de 1976.

RCN • Obtido o aval do MRE e do CNPq para


a CIRM promover o PROANTAR, era preciso
dispor de um navio polar e congregar cientis-
tas para elaboração de um programa de pes-
quisas. Como essas ações foram conduzidas?
No laboratório do NOc "Professor Wladimir Besnard",
COMANDANTE NEIVA • Os ilustres e caros co- retirada da água coletada pelas garrafas Nansen
legas Capitães de Fragata Luís Antônio de Car-
valho Ferraz (hidrógrafo) e Paulo Roberto da
Poz Calheiros (engenheiro naval) foram rodar oceanográfico da USP, o “Professor Wladimir
Europa e América, em missão do EMA, em bus- Besnard”, também participar dessa primeira
ca de navios capazes de operar na Antártica que campanha de exploração e pesquisas, junto com
estivessem disponíveis para cessão, da forma o “Barão de Teffé”.
que fosse. Após um périplo amplo porém rápi-
do, retornaram com uma lista que foi apresenta- RCN • Como foi planejado o emprego desses
da ao Ministro Maximiano, no EMA. Da lista, o dois navios na Primeira Expedição?
M/S “Thala Dan”, navio mercante dinamarquês
com capacidade de operar no gelo, despertou o COMANDANTE NEIVA • O “Teffé” realizaria um
interesse do Ministro, tanto pelo relativo bom cruzeiro em duas etapas: na Península Antár-
estado do navio, quanto pelo que valeria quan- tica, para conhecer as pesquisas e instalações
do fosse posteriormente alienado. Sendo a ava- de algumas das estações científicas lá existen-
liação de custo/benefício bastante favorável, to- tes (e mostrar a bandeira, por óbvio); e no Mar
mou o Ministro a imediata decisão de adquirir de Weddel, após uma pausa em Punta Arenas,
o navio. Decisão muito acertada, como se viu no Chile, para experimentar a navegação em
nos anos posteriores, pela efetividade do em- reais condições de gelo e visitar a estação ale-
prego do “Thala Dan” na Marinha, rebatizado mã “Georg von Neumayer”, estabelecida sobre a
NApOc “Barão de Teffé”. capa de gelo permanente.
De nossa parte, começamos na SECIRM um Por seu lado, o pequeno mas valente “Prof.
trabalho quase frenético de identificar e conta- W. Besnard” seguiria para as ilhas Shetland do
tar instituições e cientistas brasileiros interessa- Sul e Estreito de Bransfield, ao norte da Penín-
dos em propor projetos de pesquisa, enquanto, sula Antártica, concentrando suas pesquisas
em paralelo, o Itamaraty dava prosseguimento a no “krill”, crustáceo que está na base da cadeia
contatos diplomáticos visando angariar coope- alimentar de inúmeras espécies antárticas. Es-
ração internacional, tanto para coligir um acer- perava-se com essas pesquisas engajar os cien-
vo de informações externas que nos ajudassem tistas brasileiros no programa internacional
a formular um programa e definir propósitos e BIOMASS (Biological Investigation of Marine
roteiros para uma primeira viagem, quanto para Antarctic Systems and Stocks).
divulgar nossos esforços e pretensões no âmbito
internacional. RCN • Em 20 de dezembro de 1982, quando
Ainda nessa fase, realizamos em maio de 1982 o NApOc “Barão de Teffé” partiu do Rio de
um “Seminário sobre Assuntos Antárticos”, no Janeiro, além da tripulação estavam embar-
Instituto Oceanográfico da Universidade de cados representantes de várias instituições.
São Paulo (IOUSP). Foi um marco definidor da Qual o propósito da participação desses ob-
primeira versão do PROANTAR, pois, a partir servadores?
desse encontro, ganharam contornos mais cla-
ros os interesses dos pesquisadores e das suas COMANDANTE NEIVA • Conosco no “Teffé”
instituições e firmou-se a decisão de o navio estavam as cientistas Isabel Gurgel (UERJ) e

Revista do Clube Naval • nº 405 9


O encontro dos navios "Barão de Teffé" e "Professor
Wladimir Besnard". Na foto, o Comandante Neiva e o
Dr. Motonaga Iwai, coordenadores científicos dos navios

oficiais do Exército e da Aeronáutica e das Arma-


das do Chile, Argentina e Peru, bem como repór-
teres de organizações jornalísticas nacionais ⁽6).
Tamanha diversidade nos preocupava no iní-
cio da viagem, preocupações que se mostraram
infundadas. De pronto, estávamos todos de mão
na massa no apoio à realização das pesquisas,
lançando redes de plâncton, coletando dados
oceanográficos e meteorológicos, participando
de iniciativas não planejadas, como a observa-
Mônica Montú (UFPR), biólogas, cujo interes- ção de aves organizada pela Dra. Judith Corte-
se estava no “krill” e no ecossistema antártico; a são para caracterizar o continuum insular das
física Vera Kuntz e o técnico Armando Hadano espécies antárticas. A convivência dos diversos
(INPE), envolvidos na coleta de dados de me- e a troca de experiências se mostrou um trunfo,
didas de propagação de ondas de rádio em fre- tanto para o sucesso da expedição, pelo apoio
quências muito baixas; a Dra. Judith Cortesão e mútuo e entusiasmado, quanto para debater as
o Clayton Lino, da SEMA (Secretaria do Meio ideias sobre as linhas de pesquisa a serem privi-
Ambiente, órgão precursor do Ministério do legiadas no futuro PROANTAR.
Meio Ambiente), ambientalistas; os geólogos Dr.
Jorge Palma e Armando Neiva (DNPM, Depar- RCN • Concluída a Primeira Expedição, o que
tamento Nacional de Pesquisas Minerais); a bió- veio a seguir?
loga Jane Mocellin (Unisinos), interessada em
comportamento humano em ambientes restri- COMANDANTE NEIVA • Em 28 de fevereiro
tos; o engenheiro Paulo César Ceragioli (FIESP), de 1983 estávamos de volta ao Rio de Janeiro,
no estudo das possibilidades do envolvimento 10.099,7 milhas navegadas e cinquenta dias de
da indústria nacional nas atividades antárticas mar no “Barão de Teffé”; e ao porto de Santos, no
brasileiras; os documentaristas Ignácio Lyonel dia 23, 9.345 milhas navegadas e 48 dias de mar
Lucini e Antônio Segati Filho, especialistas da no bravo “Prof. W. Besnard”. Sãos, salvos, ainda
SEMA em filmes documentários da natureza; e deslumbrados pela natureza antártica, relatórios
Peter Barry e Adalbert Kolpatzik, membros do por fazer, pesquisas para publicar, mas com mui-
Clube Alpino Paulista com larga experiência em tos planos, quem sabe novos desafios, pesquisas
alpinismo e sobrevivência no gelo, como asses- e viagens e renovados deslumbramentos.
sores e instrutores de segurança. Final? Apenas um anticlímax! Logo fomos
Além desses, fechavam o nosso grupo o en- convocados ao MRE pelo Embaixador Marcos
tão Conselheiro Luiz Filipe de Macedo Soares Castrioto Azambuja. Recebera ele sinalização
Guimarães, do MRE, diplomata que participou de outros governos de que poderíamos ter su-
ativamente do PROANTAR desde o seu nasce- cesso no pleito de sermos aceitos como membro
douro e a ele prestou inestimável contribuição; consultivo do Tratado da Antártica, em próxi-
o colega da DHN Marco Antônio Gonçalves ma reunião, o que seria muito antes do que es-
Bompet, então Capitão de Corveta, nas suas perávamos.
qualificações de hidrógrafo com formação em Novas correrias – coligir documentos, or-
geologia marinha, incumbido de relatar as ne- ganizar, publicar, distribuir –, mais contatos e
cessidades e possibilidades de se desenvolver reuniões, para enfim produzirmos um dossiê
um plano básico para uma Cartografia Antár- sumariando os trabalhos executados e os pla-
tica de interesse brasileiro; e o colega do Corpo nejados ⁽7), a ser submetido à V Reunião Con-
de Fuzileiros Navais (CFN) José Henrique Salvi sultiva Especial do Tratado da Antártica, pro-
Elkfury, jovem entusiasmado e brilhante, então gramada para setembro de 1983, em Camberra,
Capitão-Tenente (FN), com o encargo de estu- Austrália. E lá fomos, em delegação do MRE
dar a logística de empreendimentos como o que dirigida pelo Embaixador Azambuja, composta
estávamos realizando, com vistas a orientar fu- pelo Contra-Almirante João Maria Didier Bar-
turas expedições e demais atividades antárticas. bosa Viana, do EMA, e o Secretário Bruno Bath,
Juntavam-se ao grupo, como observadores, do MRE, da qual fiz parte como assessor cientí-

10 Revista do Clube Naval • no 405


Relatório apresentado
brasileira na Antártica. Haja vista o verdadei-
pelo Brasil como proposta
ro assédio pelo qual passou a SECIRM a partir
para ser aceito como
de então por parte de candidatos a pesquisas e,
membro consultivo
despertado o imaginário popular, de voluntários
de toda natureza para se juntarem às atividades
antárticas. No âmbito do Tratado da Antárti-
ca, graças ao trabalho intenso do MRE, houve
o reconhecimento da relevância das atividades
desenvolvidas e planejadas, do que resultou o
acolhimento das pretensões nacionais.
Relatório da V Reunião Em suma, passados não mais de escassos vinte
Consultiva do Tratado meses desde a criação da Subsecretaria da CIRM
da Antártica, no qual para Assuntos Antárticos, tínhamos alcançado
o Brasil é aceito como nosso propósito imediato maior e lançado as
membro consultivo bases para assegurar a continuidade do projeto,
com a criação de um programa de pesquisas de
longa duração e a organização tanto
de uma estrutura de gestão dos pro-
jetos de pesquisa, transferida para o
âmbito do CNPq, quanto de outra,
de apoio logístico, na Marinha, além
do estabelecimento de uma estação
científica na Antártica. A expedição,
portanto, não terminou em feverei-
ro de 1983. Prossegue até hoje, qua-
renta anos passados, conduzida com
competência e dedicação por todos
Fotocópia de trecho do Relatório da V Reunião
os que nos sucederam. As fundações
Especial Consultiva do Tratado da Antártica ⁽8),
implantadas à época se mostraram sólidas, mas
com a declaração da aceitação do Brasil como
"restará sempre muito o que fazer". ■
membro consultivo do Tratado da Antártica, em
12 de setembro de 1983
NOTAS
fico e representante do PROANTAR. (1) Contra-Almirante Múcio Piragibe Ribeiro de Bakker, Secretá-
rio da CIRM de 1981 a 1983
Pleito apresentado ao plenário das partes con-
(2) Bakker, Múcio. Subsídios para a história: o início da partici-
sultivas do Tratado da Antártica, documentos pação brasileira no Continente Antártico e algumas considera-
submetidos, defesa oral das nossas pretensões ções sobre os recursos do mar (um depoimento). Manuscrito
e negociações de bastidores, horas de espera e não publicado. Rio de Janeiro, [1985]
tensão na Embaixada do Brasil em Camberra, (3) O primeiro desses cientistas foi o meteorologista Rubens
até a notícia do sucesso. O Brasil estava, enfim, Junqueira Villela, da USP
aceito como membro consultivo do Tratado, em (4) A CONANTAR somente veio a ser criada em 1982.
12 de setembro de 1983 e podíamos participar (5) Almirante de Esquadra Maximiano Eduardo da Silva Fonseca,
da XII Reunião Consultiva que se seguiria. Ministro da Marinha no governo João Figueiredo, de 15/03/1979
a 21/03/1984
RCN • Passados quarenta anos, qual sua ava- (6) O Álbum Brasil/Antártica 1982/1983. 1ª Expedição Brasileira
à Antártica. (Brasil. Ministério da Marinha. Serviço de Relações
liação da Operação Antártica I?
Públicas da Marinha. Brasília, 1984) contém fotos e detalhes da
expedição, bem como a lista dos participantes, dos dois navios,
COMANDANTE NEIVA • Ao fim e ao cabo, re- com a lamentável, mas não intencional, omissão do nome do
sultou que a Primeira Expedição Brasileira à Conselheiro Luiz Filipe de Macedo Soares Guimarães
Antártica foi um empreendimento cujo sucesso (7) Brasil. Ministério da Marinha. Secretaria da CIRM. Brazilian
ultrapassou largamente a viagem em si dos dois Antarctic Activities. National Commission for Antarctic Affairs
navios. A opinião pública nacional acompanhou - Interministerial Commission for the Resources of the Sea.
tudo de perto, por meio das frequentes notícias Brasília, Aug. 1983. Disponível na biblioteca da SECIRM
publicadas na imprensa, do que se formou uma (8) Austrália. Department of Foreign Affairs. Antarctic Treaty.
onda de aprovação e simpatia pela presença Report of the Fifth Consultative Meeting. Canberra, 1983.
Disponível na biblioteca da SECIRM.

Revista do Clube Naval • nº 405 11


200 ANOS DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL

POR QUE O
BRASIL RESOLVEU
IR À ANTÁRTIDA?
Luiz Filipe de Macedo Soares Guimarães*

PRIMEIRO DESEMBARQUE NA ANTÁRTICA


CMG Pastor, Comandante do "Barão de Teffé",
CF Neiva, Chefe Científico da Expedição, e
Diplomata Luiz Filipe, Representante do MRE

N
o começo do século 19 o mun- cos, incluindo o imenso domínio marinho,
do já estava bem mapeado e co- trazendo avanços científicos e tecnológicos
nhecido. Mas o extremo austral e criando hábitos de cooperação internacio-
permanecia fora do alcance. Os nal, a qual floresceu no pós-guerra. De mea-
primeiros a se aventurarem por lá foram os dos de 1957 ao fim de 1958, por exemplo,
russos. A partir de então desenrola-se um desenrolou-se o Ano Geofísico Internacio-
romance de aventuras que culmina com a nal, um esforço científico internacional sem
corrida de Amundsen e Scott ao Polo Sul, precedentes. Uma espécie de prefácio foi o
em 1911. Descobrir e apossar-se: dois mo- Congresso Internacional de Geografia, no
tores das sagas. Já no século 20, vários paí- Rio de Janeiro, em 1956, do qual participa-
ses a títulos diversos declaravam proprie- ram cerca de cinquenta países. Um dos focos
dade sobre fatias do continente antártico, de atenção no Ano Geofísico foi a Antártida.
que tem superfície algo equivalente à da Além dos sete países anteriormente citados,
América do Sul. Eram eles Argentina, Chi- lá realizaram trabalhos de pesquisa Bélgi-
le, Grã-Bretanha, Noruega, Austrália, Nova ca, Japão, África do Sul, Estados Unidos da
Zelândia e França. América e a então União Soviética. O Brasil
A 2ª Guerra Mundial, apesar de seus ter- desenvolveu observações no Atlântico Sul,
ríveis acontecimentos, abriu um período de porém não chegou à Antártida. Estávamos
globalização. Países de diversos continentes em plena construção da nova capital, da es-
operaram longe de seus territórios e tive- trada Belém-Brasília e outros grandes pro-
ram de conhecer novos espaços geográfi- jetos e não havia sobras para ir à Antártida.

12 Revista do Clube Naval • no 405


Da guerra da Coreia (1950-53) à vitória de político e líder católico no Rio de Janeiro que
Fidel Castro, em1959, a Guerra Fria marca a dé- defendia uma reivindicação brasileira pela re-
cada com o poderio nuclear soviético e norte-a- lativa proximidade (muito relativa, aliás), por
mericano defrontando-se em pé de igualdade. uma projeção longitudinal, por emulação com
A moderação de Eisenhower e o pragmatismo os argentinos e chilenos e por aí vai. Reivindica-
de Kruschev combinam-se na percepção da si- ção territorial não foi elemento primordial em
tuação estratégica de um continente desabita- nossa formação territorial. A expansão brasilei-
do, na confluência meridional das longitudes, ra foi basicamente feita por ocupação de espaços
com alcance de 360 graus sobre os mares cir- e não por conquista, consagrada por atos jurí-
cundantes. Instalar ali a corrida armamentista, dicos negociados. Quando, mais tarde, resolve-
com bases de lançamento de mísseis e paióis de mos passar a ter presença na Antártida percebe-
armas nucleares, agravaria dramaticamente a mos não haver interesse em nos restringirmos
insegurança mundial e dos dois principais con- a um espaço reivindicado e sim, ao contrário,
tendores. Eisenhower convida os demais onze preservar o direito de atuar em qualquer parte
países que haviam estado na Antártida no Ano da área do Tratado, como fazem os que não têm
Geofísico Internacional para reunirem-se em reivindicação territorial. De qualquer forma, o
Washington a fim de elaborar um instrumento Tratado de 1961 já vedava novas reivindicações.
jurídico que dotasse o continente de um quadro Ao iniciar-se a década de 80, o Brasil tinha
legal. O grande problema era que, como vimos, plena consciência da política e da economia in-
sete dos doze países mantinham reivindicações ternacionais dos grandes espaços não submeti-
de soberania sobre áreas na Antártida. Os outros dos a soberanias nacionais, mercê de nossa par-
cinco não aceitavam tais reivindicações nem ti- ticipação na imensa negociação da Convenção
nham intenção de fazê-lo. Os Estados Unidos e das Nações Unidas sobre o Direito do Mar e nos
a União Soviética já dispunham de instalações trabalhos do Comitê sobre os Usos Pacíficos do
em diversos pontos do continente sem levar em Espaço Exterior nas Nações Unidas. A Antárti-
consideração as reivindicações territoriais. da enquadrava-se nesse novo aspecto da polí-
O Tratado Antártico, em vigor desde 1961, re- tica e do direito internacionais. Nada impedia
solveu elegantemente essa charada mediante seu que nos introduzíssemos na política antártica,
artigo IV, que estabelece que nada no Tratado até porque os contenciosos e suspicácias que
pode ser tomado como base para reivindicação perturbavam nossa relação com a Argentina en-
de soberania nem para negá-la. Ademais, proíbe caminhavam-se para a superação que se com-
que novas reivindicações sejam feitas. Resolvida pletaria com os entendimentos Sarney-Alfonsín
essa situação contraditória, o Tratado passa ao em meados dos anos 80, logo após a redemocra-
essencial, reservando a Antártida para ativida- tização dos dois países.
des científicas e banindo todo tipo de armamen- Decide assim o Governo brasileiro pôr em
to. Foi a primeira vasta extensão do planeta de- marcha as providências legais, programáticas e
clarada livre de armas nucleares, seis anos antes institucionais que propiciassem nossa real in-
da segunda: a América Latina e Caribe. clusão nas atividades antárticas. Esse adjetivo
O Brasil só veio a aderir ao Tratado em 1975. “real” implica esclarecimento.
Por que tal demora? O Tratado Antártico está aberto a adesão,
Argentina e Chile são contíguos à Penínsu- mas a simples adesão não confere poder de par-
la Antártica e consideram suas reivindicações ticipar nas decisões referentes à área sob juris-
como partes integrais de seus territórios. Não dição do Tratado, a qual abrange não somente o
pode ser esse o caso da Grã-Bretanha, da Fran- continente, mas também todo o espaço abaixo
ça ou da Noruega, países do Hemisfério Norte do paralelo 60º sul. Isso é reservado aos Estados
e que, portanto, só podem ver as áreas que rei- Partes que exercem atividades na Antártida e
vindicam na Antártida como possessões colo- podem, destarte, participar das Reuniões Con-
niais. O Brasil tendia a tratar a Antártida como sultivas, sendo chamados de Partes Consultivas.
parte de suas relações com Argentina e Chile. Após a entrada em vigor do Tratado, em 1961,
Na Chancelaria brasileira o tema era alocado à somente a Polônia, em 1977, a Alemanha, em
unidade responsável pelas relações com aqueles 1981 e a Índia, em 1983, haviam acedido antes
países, denotando a delicadeza do assunto. do Brasil, à condição de Parte Consultiva.
Vale introduzir aqui a interrogante sobre uma Tomada a decisão no início da década dos anos
possível reivindicação brasileira. Havia mesmo, 80, o tema Antártida no Ministério das Relações
desde os anos 50, um movimento liderado por Exteriores (MRE) foi transferido administrati-

Revista do Clube Naval • nº 405 13


O Diplomata Luiz Filipe a
bordo do "Barão de Teffé"
de lado empreendimento “supérfluo” quando ur-
gia construir salas de aula e instalar leitos de hos-
vamente da área bilateral pital. Melhor senso entende que um país como
responsável pelas relações o Brasil está fadado a tudo fazer e que escalonar
com Argentina e Chile para as iniciativas em um gradualismo tacanho leva
a Divisão das Nações Unidas, ao imobilismo. Os saltos de desenvolvimento em
que, naquela época, englobava nossa história foram sempre acusados de impru-
praticamente todos os assuntos dência, aventureirismo.
tratados no âmbito multilateral, en- Naqueles anos finalizava-se a extraordinária
tre outros, direito do mar e todas as ou- obra que foi a Convenção sobre o Direito do Mar,
tras questões relativas ao espaço marinho. verdadeira constituição que disciplina todos os
Contudo, as medidas tomadas na esfera da usos em todas as dimensões do espaço marinho,
política externa, conquanto essenciais, não bas- que cobre cerca de 70% da superfície terrestre.
tam para que um país se torne parte consultiva. O Brasil estava entre os mais atuantes naquele
É preciso ter um programa de pesquisa científi- trabalho, consciente das fronteiras tecnológicas
ca sobre a Antártida o que pressupõe colher da- que se divisavam no horizonte. O mesmo ocor-
dos in loco e, para tanto, lá dispor de instalações ria no campo do espaço extraterrestre. A par do
adequadas para os trabalhos. Impunha-se, por- PROANTAR, o Brasil desenvolvia a Missão Es-
tanto, esforço logístico de grandes proporções. pacial Completa Brasileira (MECB). Em 1984,
Tudo foi feito com agilidade surpreendente. assinávamos os primeiros acordos com a China
Em dezembro de 1981, decide-se implantar o para a fabricação conjunta de satélites artificiais.
Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR) Todos esses empreendimentos “imprudentes,
e, um mês depois, cria-se a Comissão Nacional supérfluos” não teriam existido sem persona-
de Assuntos Antárticos (CONANTAR), já que a lidades com visão de futuro, como, no caso do
realização do Programa envolvia diversas áreas PROANTAR, o Chanceler Ramiro Saraiva Guer-
do Governo e a comunidade científica e era pre- reiro (1918-2011) e o Ministro da Marinha, Ma-
ciso que o PROANTAR e a interação com os ximiano Eduardo da Silva Fonseca (1919-1998).
mecanismos internacionais e atores nacionais Nos últimos dias de 1982, zarpava do porto
ativos na Antártida tivessem orientação política. de Rio Grande o Navio de Apoio Oceanográfico
Contudo era necessário contar com institui- “Barão de Teffé” ⁽1) com equipe multidisciplinar
ção governamental capaz de prover a complexa com a missão de planejar todos os aspectos do
logística que envolve a realização de trabalhos PROANTAR. Em 1983, a Reunião Consultiva
em região inóspita a milhares de quilômetros do do Tratado admitia o Brasil como Parte Consul-
território nacional, inclusive transportando até tiva. Passamos a ser cogestores da imensa área
lá pessoal e equipamento. Como logo veremos, coberta pelo Tratado. Ao longo de quarenta
era inviável criar uma estrutura administrativa anos o PROANTAR mantém-se como um dos
específica naquele momento. Por isso, lançou- grandes programas científicos de nosso país,
-se mão da Comissão Interministerial para os com produção internacionalmente reconheci-
Recursos do Mar (CIRM), criada em 1974, que da. Milhares de cientistas brasileiros formaram-
reunia todas as áreas do Governo que se envol- -se e desenvolveram suas carreiras no contexto
veriam no Programa Antártico Brasileiro. A do PROANTAR. ■
CIRM já dispunha de uma secretaria capaz de
administrar os recursos necessários, incluindo NOTA
meio de transporte. (1) O NApOc “Barão de Teffé” navegava sob bandeira dinamar-
Aqueles primeiros anos da década de 80 eram quesa fretado pela França para suas atividades antárticas. Foi
especialmente difíceis em termos financeiros comprado pelo Brasil, em 1982, que enviou em missão o Co-
para nosso país. Houve momentos em que as mandante Luís Antônio de Carvalho Ferraz (1940-1982). Ferraz
autoridades financeiras viviam diariamente a an- foi extraordinariamente ativo na fase de preparação do Progra-
ma Antártico além de muitas outras atividades relevantes. Por
gústia de não “fechar o caixa”. Ainda por cima, isso, a Estação Antártica brasileira, na Ilha do Rei George, tem o
sentíamos o peso das “crises do petróleo” com nome de Ferraz.
súbito e grande aumento dos preços internacio-
nais de essencial recurso energético de cuja im-
portação ainda dependíamos. A dívida externa * Diplomata, participou da Primeira Expedição
continuava a pesar sobre nosso desenvolvimen- Brasileira à Antártida, propôs e foi o primeiro
to. O “bom senso” recomendaria que se deixasse chefe da Divisão do Mar, Antártida e Espaço
Exterior no Ministério das Relações Exteriores

14 Revista do Clube Naval • no 405


200 ANOS DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL

OPERAÇÃO ANTÁRTICA I
uma aventura no desconhecido
“Para nós, digna audiência, Proa do navio ainda com o
seu nome original e AMRJ
pedimos vossa clemência, realizando modificações
no convoo para a viagem
e vossa atenta paciência.”
Hamlet

Jorge Eduardo de Carvalho Rocha

N
a reserva sentimos muita falta do
convívio com os amigos de longa
data, mais antigos ou mais modernos.
Não do convívio cotidiano no Clube
Naval ou entre os familiares, mas o convívio nas
Praças d’Armas. Muito difícil expressarmos a
saudade que temos de um bate papo, um jogo
de dominó, ou simplesmente a observação das O RECEBIMENTO
conversas em andamento.
Apenas quando passamos para a reserva é que Para iniciarmos esse breve relato de uma co-
podemos realmente avaliar a falta que a vida de missão que teve um sabor de aventura, temos
bordo nos faz. As operações e suas fainas, das que começar com o recebimento do navio em
quais sempre reclamávamos, mas na realidade Älborg, na Dinamarca.
adorávamos. Sentimos falta da vida diária de O recebimento do MV “Thala Dan” teve iní-
bordo. cio com um grupo precursor composto pelo
Notamos ainda que, aos poucos, nos torna- futuro Imediato do NApOc “Barão de Teffé”,
mos repetitivos e maçantes. Ao deixar de pre- acompanhado pelos futuros Chefe de Máquinas
senciar os fatos pitorescos da carreira, muitos e Encarregado das Comunicações. Este grupo
protagonizados por nós mesmos, resta-nos con- teve a oportunidade de realizar uma viagem de
tar nas rodas de amigos as estórias ou histórias abastecimento à Groelândia, ainda sob a ban-
velhas. E todos já as conhecem! deira da Dinamarca.
O Clube Naval, por meio de sua Revista, me Por ser maquinista, fiz parte do Subgrupo de
concede a oportunidade de contar não uma es- Recebimento “Alfa”, junto com o Encarregado
tória, mas rememorar a história que tivemos de Navegação e mais onze praças, chegando em
a oportunidade de acompanhar no verão de Älborg no dia 6 de setembro de 1982. Os de-
1982/83 a bordo no Navio de Apoio Oceanográ- mais tripulantes foram chegando nas semanas
fico (NApOc) “Barão de Teffé”. Meu relato re- subsequentes. O Comandante Pastor chegou
presenta a visão de um maquinista, então Capi- uns dois dias depois do Subgrupo “Alfa”, pois
tão Tenente. Para tal, como a “troupe” teatral em passou primeiro na Inglaterra.
Hamlet, pedimos a atenta paciência para este O “Thala Dan” foi construído em 1957 e pas-
relato superficial sobre aquilo que vivenciamos. sou por uma modernização em 1975. Contava

Revista do Clube Naval • nº 405 15


Comandante Pastor proferindo Formatura da tripulação na
suas palavras iniciais incorporação do navio

com um motor dinamarquês qualquer problema, mas com


Burmeister & Wain de sete ci- muito cuidado e preocupação de
lindros e dois grupos geradores de nossa parte.
origem norueguesa. A geração e dis- As dificuldades que enfrentamos
tribuição de energia era em corrente Hasteamento da não se concentravam apenas no setor
contínua, um pequeno complicador bandeira durante a de máquinas, mas nos equipamentos
pela falta de experiência em traba- incorporação pela de convés, comunicações e navega-
lharmos com CC. Embaixatriz do Brasil ção. Foi duro para todos! Desconhe-
O período de recebimento do na- na Dinamarca ço qualquer recebimento de navio da
vio previa apenas uma semana para Marinha com prazo tão curto.
a passagem das informações dos tripulantes di- Após sair do dique flutuante, fizemos uma
namarqueses aos brasileiros. Interessante é que curta experiência de máquinas e de familia-
a tripulação dinamarquesa era nova no navio, rização com a condução do navio, navegando
tendo assumido as funções poucos dias antes apenas 24 milhas. Estávamos prontos para o re-
da viagem de abastecimento à Groelândia, pou- torno ao Brasil.
co contribuindo com informações relevantes.
Complementava o quadro desfavorável o fato A CHEGADA NO BRASIL E A
de que todas as placas de informações, planos PREPARAÇÃO PARA O DESCONHECIDO
e manuais estavam em dinamarquês. Não havia
nada em inglês, muito menos em português. Suspendemos de Älborg no meio de outubro,
Transcorrida a semana de recebimento assu- iniciando o retorno ao Brasil. Fizemos escala
mimos o controle do navio o qual foi incorpo- em dois portos, Southampton e Lisboa, pouco
rado em 28 de setembro de 1982, tornando-se o mais de três dias em cada um, tendo a tripu-
NApOc “Barão de Teffé” – H42. Seguiu-se uma lação trabalhado de forma intensa, com muito
docagem para uma avaliação das condições das pouco descanso.
obras vivas, do hélice e do leme, bem como a No Departamento de Máquinas, além de con-
identificação e verificação das condições das tinuarmos nos acostumando com o navio e seus
diversas caixas de saídas e aspiração. Antes de equipamentos, tivemos um problema em uma
suspendermos em retorno ao Brasil, tivemos válvula de descarga de um dos cilindros do Mo-
um período de cerca de trinta dias para conti- tor de Combustão Principal (MCP), nos obri-
nuarmos nos familiarizando com a operação do gando a fazer a sua substituição em Southamp-
navio, aproveitando ainda para introduzir algu- ton. Muito nos ajudou na faina a sábia decisão
mas modificações nas acomodações visando da Marinha em contratar um oficial maquinista
permitir um maior número de tripulantes. dinamarquês que, mesmo não sendo muito fa-
Sob a visão de um maquinista, destaco desse miliarizado com o navio, tinha conhecimentos
período a primeira faina de abastecimento de sobre os equipamentos e podia ler os manuais
combustíveis e o abastecimento de sobressalen- em dinamarquês. Nosso Chefe de Máquinas,
tes e equipamentos. Na faina de combustíveis Capitão de Corveta Klepper, havia conseguido
quem primeiro chegou ao cais foi o fiscal do comprar um pequeno dicionário dinamarquês/
meio ambiente, colocando uma pressão extra português que muito nos ajudou com o básico.
nesta primeira etapa. A faina transcorreu sem Contávamos então com dois pequenos dicioná-

16 Revista do Clube Naval • no 405


rios, o outro era de dinamarquês/inglês. Inicial- mento para todos os setores, com destaque para
mente o nosso principal problema era a barreira gêneros e sobressalentes. Muitas fainas para to-
do idioma. Nosso auxiliar dinamarquês desem- dos, com os dias passando muito rápido!
barcou no Rio de Janeiro. O AMRJ, como sempre, prestou apoio ines-
Atracamos no cais norte do Arsenal de Mari- timável. Introduziu modificações no convés de
nha do Rio de Janeiro (AMRJ), no dia 18 de no- voo, construindo dois tanques de combustível
vembro de 1982, após uma travessia tranquila. de aviação, com todo o seu sistema de redes e
Na Antártica, como abordaremos mais adiante, filtros. O dinamarquês operava helicópteros no
o mar revolto e os diversos problemas de má- MV “Thala Dan”, mas de uma forma bem dife-
quinas deixaram alguns cabelos brancos em rente do padrão que a Marinha do Brasil (MB)
todos, em especial no Comandante e no Chefe adota, levando combustível apenas em tambo-
de Máquinas pela grande responsabilidade que res e sem uma equipe de postos de voo. Além
tinham sobre os ombros. das modificações, houve intenso treinamento e
Com a chegada no Rio de Janeiro, iniciamos qualificação.
acelerada preparação para uma viagem rumo No setor das máquinas, o principal problema
ao “desconhecido”, visto que tínhamos muito naquela ocasião era um vazamento constante
pouca ou nenhuma experiência de navegação no sistema que levava óleo para o interior do
em áreas com icebergs, mar congelado, gran- eixo de propulsão para acionar o controle de
des tempestades e utilizando um navio que em passo do hélice (HPC). O AMRJ desmontou o
nada lembrava um navio de guerra, até pela cor sistema e constatou que seria necessário corri-
vermelho berrante. A ampulheta estava virada e gir as irregularidades no eixo propulsor e não
nos dava apenas 31 dias para o início da comis- haveria tempo para tal. Trabalhou então para
são. Na realidade a aventura teve início na Di- reduzir o vazamento da melhor forma possí-
namarca, com uma sequência de eventos que só vel. Neste ponto entrou a experiência do sau-
encerrou em 28 de fevereiro de 1983. O grupo doso Mestre Darci, que fez em chapa fina todo
precursor, que participou do abastecimento na um aparato para coletar o óleo vazado para que
Groelândia ainda sob a bandeira da Dinamarca, fosse reaproveitado, visto saber que o vazamen-
em pouco mais de seis meses, cruzou os Círcu- to, aos poucos, voltaria a aumentar. Sua ideia
los Polares Ártico e Antártico. foi fundamental para concluirmos a comissão!
A falta de experiência em navegar na Antárti- Pediu também uma cópia dos planos do siste-
ca, junto à necessidade de mitigar riscos, levou ma para que pudesse adiantar uma fundição de
à decisão de abastecermos o navio para um ano, nova carcaça para o sistema. Ação fundamental
considerando a possibilidade de ficarmos pre- para a viagem seguinte. Os antigos mestres do
sos no gelo e ter que aguardar o degelo seguinte. AMRJ representavam a tranquilidade para os
Há que se lembrar que na segunda fase da via- maquinistas e a garantia de navios prontos.
gem o navio cruzaria o Círculo Polar Antártico, Muitos outros reparos e preparações foram
mais próximo do fim do verão. Abastecer o na- executados, mas no momento destacamos ape-
vio para um ano impôs necessidades de planeja- nas estes que eram nossas preocupações e ne-
cessidades maiores naqueles poucos dias.
Em 20 de dezembro de 1982 suspendemos
para a primeira etapa da Operação Antártica
I. Para a maioria dos tripulantes estávamos ru-
mando ao desconhecido, com ares de aventura.

PRIMEIRA ETAPA DA
OPERAÇÃO ANTÁRTICA I

O rumo ao desconhecido teve seu real início


quando suspendemos de Rio Grande, em 26 de
dezembro de 1982. A cidade e o porto de Rio
Grande passariam a ser o ponto de apoio de to-
das as operações antárticas. Ao todo éramos 86
pessoas a bordo, entre tripulantes, observadores

"Barão de Teffé" entrando no dique


flutuante do estaleiro em Älborg

Revista do Clube Naval • nº 405 17


e cientistas. Havíamos passado o Natal em Rio destilatório, de baixa pressão, tinha como fonte
Grande. de calor a água de circulação do MCP e dos ge-
Na primeira etapa, além da estadia em Rio radores, produzindo o suficiente para manter o
Grande, foram visitadas as seguintes estações navio abastecido. Nessa primeira fase, os cons-
polares: Arctowisky, da Polônia; Marsh e Frei, tantes fundeios, com a parada do MCP, reduzia
do Chile; Bellingshause, da antiga União Sovié- em muito o fluxo dessa fonte de calor, despen-
tica; Faraday, da Inglaterra; Palmer, dos Esta- cando a produção do grupo destilatório. Um
dos Unidos; Almirante Brown, da Argentina; e antigo Comandante do MV “Thala Dan”, com
Arturo Pratt, do Chile. Esta primeira etapa se dezessete viagens à Antártica e que auxiliava o
encerrou em Punta Arenas, no Chile, onde per- Comandante Pastor, comentou que quando o
manecemos por oito dias. navio era arrendado aos franceses a água so-
Certamente as visitas foram de grande pro- brava, com os dinamarqueses ela era suficiente,
veito para os nossos cientistas, os quais, além mas estava impressionado com o consumo dos
de estabelecer contato com seus pares de outros brasileiros.
países, conheceram a organização e os desafios Destacamos ainda dessa primeira etapa o
das pesquisas na Antártica. Também nessa fase enfrentamento de alguns temporais rigorosos,
percorremos grande parte da Península An- bem como um desagradável incidente com uma
tártica, o que foi fundamental para a escolha embarcação da “Prefectura Naval Argentina”
do local onde o Brasil estabeleceria sua base quando estávamos nos dirigindo para o Canal
de pesquisa na Ilha Rei George. Na Operação de Beagle. Contornados os temporais e o inci-
Antártica II, a Estação Antártica Comandante dente, encerramos esta primeira etapa no dia 20
Ferraz foi instalada na Península Keller, voltada de janeiro de 1983, quando atracamos em Pun-
para a Enseada Martel. ta Arenas, no Chile. Mas antes de encerrar esta
Nesta etapa os problemas de máquinas co- primeira etapa tivemos um sobressalto.
meçaram a aparecer, mas se intensificaram Quando estávamos navegando no Estreito de
apenas na segunda etapa. O vazamento do óleo Magalhães, em frente a Punta Arenas, o navio
do HPC, como esperado, foi aumentando, mas apagou no meu quarto das 0h às 4h. Rapida-
estávamos coletando o óleo vazado com muito mente o Imediato subiu ao passadiço e assu-
pouca perda. Começou a preocupar um pro- miu a manobra para que eu pudesse descer às
blema observado desde que suspendemos de máquinas e reestabelecer a energia. Feito isso
Älborg: a quebra das molas dos bicos injetores (a causa foi um desarme por falsa indicação de
dos geradores. Nossa preocupação era pelo es- excesso de rotações), o Imediato decidiu fun-
gotamento de sobressalentes, embora tenhamos dear o navio. Sempre preocupado com a fadiga
reforçado o estoque quando no AMRJ. Interes- da tripulação, o Imediato determinou que eu
sante é que o maquinista dinamarquês que nos fosse à proa para manobrar o ferro. Apenas nós
acompanhou até o Brasil não soube identificar a dois fundeamos o navio, sem acordar ninguém,
causa das quebras constantes. observados pelo oficial chileno embarcado que
O nosso Imediato, o então Capitão de Fra- também estava acordado.
gata Artur Orlando, teve que administrar um
problema de consumo de água. Nosso grupo SEGUNDA ETAPA DA
OPERAÇÃO ANTÁRTICA I
O autor da Após uns dias de descanso em Punta Arenas,
matéria em solo onde realizamos alguns pequenos reparos com
antártico na base o auxílio do ASMAR,
polonesa de estaleiro de reparos da
Arctowisky Marinha do Chile, e da
troca de parte do gru-
po de pesquisadores,
suspendemos para a
segunda etapa da ope-
ração.

Baleeira do navio
transportando tripulantes
e pesquisadores para terra

18 Revista do Clube Naval • no 405


Início do reparo do mancal do MCP com a
retirada da válvula de descarga do cilindro

Chefe de Máquinas inspecionando um a apenas um gerador, que apresentava o mesmo


mancal de MCA problema de quebra das molas. Na solidão do
comando, o Comandante Pastor decidiu pros-
Nessa segunda etapa, realizamos uma visita à seguir por estarmos já muito próximos da es-
Estação Polar Georg Von Neumeyer, da Alema- tação.
nha. Sua localização na calota polar, em latitude Vale relatar que a causa das constantes que-
além do Círculo Polar Antártico, nos obrigou bras das molas não foi solucionada pelo fabri-
a realizar cerca de dez dias de navegação para cante do motor ou pelo fabricante do sistema
chegarmos em distância que permitisse às ae- de injeção. Quem realmente solucionou o pro-
ronaves Wasp decolar e levar nossa comitiva à blema foi o AMRJ que constatou que o suporte
estação. Esta, certamente, deve ter sido a maior dos bicos injetores tinha um rebaixo de cerca de
experiência de voo na Antártica para os nossos 1 mm não previsto nos planos. Mostrou ao fa-
aviadores navais. Liderados pelo então Capitão- bricante que substituiu todos os “porta-bico” e
-Tenente Vallim, tiveram que enfrentar extensa nunca mais tivemos este problema. Fica a dúvi-
programação de voos, superada pelas suas reco- da sobre quando o MV “Thala Dan” fez essa tro-
nhecidas qualidades profissionais. Nossas aero- ca por uma peça errada em todos os cilindros.
naves realizaram uma verdadeira “ponte aérea” Descobrimos ainda um outro erro na mon-
entre o navio e a estação. Nessa segunda etapa tagem do sistema de injeção dos motores dos
ocorreram as principais avarias de máquinas geradores. Havia um anel de vedação de perfil
que aumentaram muito os riscos da comissão. circular que deixava vazar combustível para o
As quebras das molas dos bicos injetores dos motor, diluindo o lubrificante. A realidade é que
geradores, embora ocorressem de tempos em o correto seria utilizar um anel de vedação com
tempos em ambos os geradores, eram pronta- perfil em “X”. Trocado pelo correto, nunca mais
mente corrigidas pela substituição, mas eram houve diluição.
motivo de preocupação para o Chefe de Má- Prosseguindo a travessia após a visita à es-
quinas. Ocorreu que, antes de chegarmos na es- tação alemã, pouco após cruzarmos de volta
tação alemã, uma dessas quebras de mola tam- o Círculo Polar, ocorreu uma avaria grave no
bém gerou o rompimento do bico injetor, sem MCP. O mancal da conectora, se bem me lem-
que houvesse tempo para o praça de serviço pa- bro do cilindro nº 5, correu e o MCP começou a
rar o gerador em emergência. A consequência fazer um barulho muito forte de pancadas me-
foi encher um cilindro com óleo diesel, geran- tálicas. Tivemos que parar o motor para fazer
do um martelo hidráulico que partiu o eixo de a substituição pelo único mancal sobressalente
manivelas do motor. Ainda com cerca de vinte que tínhamos a bordo. A faina durou cerca de
dias de comissão pela frente, já tendo passado dezessete horas, pois tivemos que retirar a vál-
do Círculo Polar Antártico, ficamos reduzidos vula do motor para soltar o mancal, segurando

Revista do Clube Naval • nº 405 19


cação em Rio Grande representou um grande
alívio para todos. Estávamos de volta ao Brasil!
Suspendemos de Rio Grande para o Rio de
Janeiro ainda com os mesmos problemas e
mantendo os mesmos cuidados. Os reparos que
necessitávamos dependiam do AMRJ e do fa-
bricante dos motores dos geradores. A travessia,
até certo ponto tranquila, nos reservou uma úl-
tima surpresa. Estávamos navegando próximo
ao Rio de Janeiro, aguardando a hora de entrada
no porto quando, cerca de 23 horas da véspera
da atracação, o navio apagou.
Dessa vez foi uma pane elétrica. As escovas
do gerador em operação gastaram completa-
CT Carvalho Rocha, CC Kleper e o oficial mente, necessitando ser substituídas. Embora
maquinista dinamarquês Erik estivéssemos acompanhando o desgaste, não
ousamos mexer por falta de escovas sobressa-
o êmbolo e a conectora com uma talha da ponte lentes suficientes e por avaliar/torcer que não
rolante. Houve ainda a necessidade de ajustar o desgastariam totalmente. Com a parada do ge-
novo mancal, faina coordenada pelo Chefe de rador, nosso recurso foi retirar as escovas do ou-
Máquinas com sua grande habilidade e conhe- tro gerador. Aí tivemos uma surpresa: elas eram
cimento. Embora a avaria fosse grave, tínhamos diferentes e com ângulo de calagem diferente.
certeza do sucesso. O maior risco era ficarmos Substituímos algumas escovas pelas sobressa-
à deriva por muito tempo, com a possibilidade lentes e, em duas fileiras de escovas, colocamos
de entrar um temporal ou de um iceberg derivar um conjunto de escovas e porta-escovas do ou-
para o navio. Mas tudo correu muito bem! tro gerador, sabendo que haveria um grande
Por fim, cabe complementar que o vazamen- centelhamento e desgaste rápido, mas estáva-
to do HPC foi aumentando constantemente, mos a cerca de cinco horas da atracação. Deu
chegando a encher o balde de coleta a cada trin- certo e atracamos em segurança no cais norte
ta minutos nos últimos dias de viagem. Mas as do AMRJ às 15h05 de 28 de fevereiro de 1983.
perdas eram pequenas, restando apenas o tra- Ao atracarmos no AMRJ havíamos comple-
balho de levar o balde cheio para completar o tado uma aventura que teve início com a incor-
tanque de expansão, localizado num ponto alto poração do navio em 28 de setembro de 1982.
na chaminé. Em cinco meses havíamos navegado 15.955,3
milhas e realizado 78 dias de mar. Saímos do
O RETORNO Hemisfério Norte, cruzamos o Equador, passa-
mos do Círculo Polar Antártico e retornamos
Concluído o reparo do MCP prosseguimos para casa em segurança.
em nosso retorno ao Brasil. A travessia até Rio Reconheço o esforço de todos que participa-
Grande foi realizada com extremo cuidado e ram dessa “aventura”, direta ou indiretamente,
preocupação de todos, principalmente no De- principalmente a excelente primeira tripulação
partamento de Máquinas. Limitados que es- do NApOc “Barão de Teffé”, chave do sucesso.
távamos a apenas um gerador, visto que o de Tenho um agradecimento especial ao meu Che-
emergência apenas permitia manter ligados os fe de Máquinas, Comandante Kleper, de quem
equipamentos essenciais à navegação, este fi- me tornei um grande amigo. O “Chief Kleper”
cava sob constante observação para ações de me ajudou, me apoiou e me orientou, me aper-
emergência que não permitissem uma avaria feiçoando como maquinista.
grave. As verificações no sistema de injeção Por fim, ressalto que muito do sucesso da co-
eram constantes, bem como no óleo lubrificante missão é devido ao nosso Comandante Pastor o
que, aos poucos, ia sendo diluído por combus- qual, na solidão do comando, tomou decisões
tível. Quando a diluição atingia o limite de 5%, muito difíceis e cumpriu a sua missão. ■
com o motor operando, baixávamos o nível do
óleo ao seu mínimo e completávamos com óleo
novo, fazendo a diluição reduzir a 2%. Isso era * Capitão de Mar e Guerra (Refº), Encarregado da
feito aproximadamente a cada dois dias. A atra- Divisão de Máquinas do NApOc "Barão de Teffé"

20 Revista do Clube Naval • no 405


200 ANOS DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL

PRIMEIRA EXPEDIÇÃO
BRASILEIRA À ANTÁRTICA
PESQUISA DE CIÊNCIAS
ATMOSFÉRICAS A BORDO
DO NApOc "BARÃO DE TEFFÉ"

Vera Lucia Requia Kuntz*

N
o dia 20 de dezembro de 1982 partiu,
do cais norte do Arsenal de Marinha
do Rio de Janeiro (AMRJ), o Navio
de Apoio Oceanográfico (NApOc)
"Barão de Teffé" e, do porto de Santos, em São
Paulo, o Navio Oceanográfico (NOc) "Profes-
sor Wladimir Besnard", da Universidade de São
Paulo (USP), dando início à Primeira Expedi- NApOc "Barão de Teffé" no
ção Brasileira à Antártica. Com a partida dos Arsenal de Marinha (RJ)
dois navios, o Brasil deu importante passo para
marcar sua presença no continente antártico. A geu uma região entre 22 e 70 graus de latitude
expedição tinha, entre seus objetivos, a realiza- sul e entre 8 e 70 graus de longitude oeste, até
ção de pesquisas científicas e a busca por uma seu retorno, ao mesmo AMRJ, em 28 de feve-
região onde seria instalada uma futura estação reiro de 1983. Os resultados das pesquisas da
antártica brasileira. No verão seguinte, na Ilha Primeira Expedição Brasileira à Antártica, tan-
Rei George, na Península Antártica, foi inaugu- to no NApOc "Barão de Teffé" quanto no NOc
rada a Estação Antártica Comandante Ferraz. "Prof. W. Besnard", trouxeram o reconhecimen-
A Primeira Expedição representou a colo- to internacional necessário para que o País se
cação em prática do Programa Antártico Bra- tornasse, ainda em 1983, membro consultivo do
sileiro (PROANTAR). A viagem histórica do Tratado da Antártica e colocaram o Brasil no
NApOc "Barão de Teffé", como parte da cha- mesmo patamar de excelência de outras nações
mada Operação Antártica I (OPERANTAR I), que mantêm estações naquele local e realizam
durou setenta dias e percorreu mais de dez mil expedições periódicas para essa instigante re-
milhas marítimas, em um percurso que abran- gião do planeta.

Iceberg na região da Península Antártica


Foto Carlos Humberto T.D.C.
Percurso de navegação da viagem
do NApOc "Barão de Teffé"

realizada com a participação do


técnico Armando Hadano, do Ins-
tituto Nacional de Pesquisas Es-
paciais (INPE). A pesquisa visava
estudar a influência da variação
latitudinal na propagação de ondas
de rádio em frequências muito bai-
xas (VLF – very low frequency, en-
tão utilizadas em navegação maríti-
ma, submarina e aérea), no guia de
propagação de ondas de rádio de-
finido entre a superfície terrestre e
a baixa ionosfera terrestre, durante
toda a viagem do navio. O projeto
permitiria conhecer como a baixa
ionosfera é alterada, por exemplo,
durante ocorrência de explosões
solares, até as altas latitudes da re-
gião antártica a serem alcançadas
durante a expedição.
O experimento desenvolvido no
NApOc "Barão de Teffé" foi pro-
posto pelo Centro de Radioastro-
nomia e Astrofísica (CRAAM),
sediado em São Paulo, então vin-
culado ao INPE, em parceria com
Para realizar essa expedição, o Brasil adqui- o CTA (Centro Técnico Aeroespacial) e IAE
riu, em 1982, o navio dinamarquês “Thala Dan”, (Instituto de Atividades Espaciais), ambos em
apropriado para trabalhos nas regiões polares e São José dos Campos (SP). Contava ainda com
que recebeu o nome de Barão de Teffé, em ho- a colaboração do Observatório Nacional no
menagem ao Almirante Antonio Luiz von Hoo- Rio de Janeiro, o qual determina a hora correta
nholtz. A viagem do NApOc "Barão de Teffé" foi para sincronismo de relógios de precisão, como
conduzida pela Marinha do Brasil, abrindo ca- os de padrão de césio e rubídio utilizados no
minho para a presença brasileira no continente projeto de ciências atmosféricas. A pesquisa de
antártico. O navio partiu do Rio de Janeiro com propagação de ondas de rádio como a realizada
86 pessoas a bordo, dentre elas cinco pesquisa- a bordo requeria medidas extremamente preci-
doras mulheres, as únicas dentre os dois navios sas, motivo pelo qual utilizava relógios atômi-
que integraram a Primeira Expedição Brasileira cos de precisão.
à Antártica. O NApOc "Barão de Teffé" retor- Localizada dentro da termosfera, a ionosfera
nou ao AMRJ, depois de cumprir sua progra- é uma região da atmosfera definida entre cerca
mação de viagem, com a visitação das estações de 60 km e cerca de 300 km de altura onde pre-
antárticas da Alemanha, Argentina, Chile, Es- dominam íons e elétrons livres e cujas reações
tados Unidos, Inglaterra, Polônia e Rússia (na químicas estão em contínua mudança. Os elé-
época, União Soviética), estabelecendo os pri- trons livres afetam a maneira pela qual as ondas
meiros contatos com pesquisadores de diferen- de rádio se propagam nessa área e, por conse-
tes países nessas estações antárticas, tendo feito guinte, a comunicação utilizando esse guia de
o levantamento de possíveis locais para a futura ondas. Entre 60 km e 90 km da superfície ter-
estação brasileira e obtido material para pesqui- restre está a camada D ou baixa ionosfera, re-
sas ao longo de todo o trajeto. gião ionizada que age como um refletor para as
Uma das pesquisas conduzidas a bordo do ondas longas de rádio (VLF) do tipo utilizadas
NApOc "Barão de Teffé" era sobre ciências at- no projeto desenvolvido no NApOc "Barão de
mosféricas, sob minha responsabilidade e Teffé".

22 Revista do Clube Naval • no 405


Para a realização da pesquisa em ciências
da atmosfera durante a viagem, um comparti-
mento na região de popa do navio foi adapta-
do para ser o laboratório. No seu interior foi
montada uma estrutura de instalação dos equi-
pamentos do projeto de ciências atmosféricas.
Esses equipamentos consistiam de receptores
de ondas de rádio, registrador com rolo em
Dados de VLF papel para o registro ininterrupto dos sinais
em obtenção no de ondas de rádio sendo recebidos, relógio de
laboratório do navio precisão, entre outros. A montagem do labora-
tório também incluía a formação de uma ban-
cada de testes e manutenção dos receptores, lo-
A propagação de ondas de rádio em fre- cal de disposição de manuais de manutenção,
quência muito baixa é sensível a diversos fato- rolos de papel para obtenção dos dados, tinta
res, como: a modificação de altura de reflexão para o registro dos sinais e local de arquivo
de ondas na ionosfera que ocorre entre o dia dos rolos de papel com os dados obtidos. Era
e a noite (a ionosfera é muito diferente entre uma reprodução, em escala reduzida, do labo-
os períodos de dia e de noite, pois a variação ratório de recepção de tais sinais de rádio em
diurna da densidade eletrônica da baixa ionos- baixa frequência do então Rádio Observatório
fera é consequência da radiação solar alterando do Itapetinga (Atibaia, São Paulo), do Departa-
a razão entre íons e elétrons nessa camada da mento de Radioastronomia – atualmente Rádio
atmosfera); explosões solares; variação latitudi- Observatório Pierre Kaufmann, homenagem a
nal; tempestades magnéticas; ciclo solar; condu- esse precursor da radioastronomia no Brasil.
tibilidade da superfície terrestre, entre outros. O sistema montado no laboratório recebia os
Tais fatores afetam os sinais de onda de rádio sinais em VLF 24 horas/dia por uma das ante-
levando, em algumas situações, à perda desses nas receptoras verticais instaladas na parte mais
sinais, podendo também gerar erros relevantes alta do navio e conectada, por cabeamento, aos
de posicionamento, o que, principalmente para receptores no laboratório. A recepção de sinais
navegação aérea, era um grande problema. em VLF somente era interrompida para paradas

Equipamentos instalados Antenas do projeto de


no laboratório do navio VLF no navio
técnicas de cada receptor, para troca de rolo re-
gistrador, de tinta de impressão ou para ajustes Península Antártica
mecânicos. Foto: Carlos Humberto T.D.C.
Após a montagem do laboratório e testes
usuais iniciamos a operação de recepção de si-
nais de ondas de rádio do projeto em questão,
durante praticamente os dez dias no AMRJ an-
teriores à partida do navio, pois havia o interes-
se em obter as primeiras medidas desses sinais
em VLF com o navio parado, o que também
ocorreu em outras condições de parada do na-
vio, situações essas nas quais os sinais recebidos
ficavam mais estáveis e permitiam uma melhor
comparação de comportamento e análise dos
dados.
Dentre os sistemas de transmissão em VLF
existentes havia o Sistema Ômega de Navega- nhas. Além de dividirmos o uso do laboratório
ção ⁽1) (descontinuado em setembro de 1997, com a pesquisa em biologia marinha, acabá-
com o advento do sistema GPS para localiza- vamos compartilhando as informações de po-
ção), o qual operava emitindo continuamente sicionamento geográfico do navio, importante
sinais de ondas de rádio a partir de uma rede de também para essa pesquisa a bordo. Como o
transmissores formada por oito estações estra- navio parava para cada lançamento de rede de
tegicamente distribuídas ao redor do planeta e coleta, nossos dados também acabavam sendo
que emitiam pulsos sincronizados em frequên- afetados por essa atividade.
cias determinadas. Vários foram os desafios dessa pesquisa. O
A obtenção de dados da qual era responsável ineditismo da expedição também estava pre-
prosseguia de forma nova, pois até então nossas sente no experimento para nós, não só relacio-
antenas e receptores de ondas de rádio ficavam nado ao desafio de posterior tratamento dos
estáticos no Rádio Observatório do Itapetinga, dados obtidos, mas também com a expectativa
ou em outras localidades, quando participaram de como os diferentes sinais em distintas traje-
de projetos em outras regiões do País. Estáva- tórias de propagação se comportariam ao longo
mos iniciando um programa de recepção de si- da viagem. Não havia conhecimento prévio de
nais com receptores em movimento que não era como seriam esses comportamentos, nem o que
usual para pesquisa. Não tínhamos vivência de poderia ser considerado como um comporta-
recepção de sinais em VLF em movimento, de mento normal. Durante toda a viagem conse-
como seriam esses dados e o que poderíamos guimos manter o experimento a bordo em ope-
aproveitar para a pesquisa, depois que suas tra- ração ininterrupta, sem paradas significativas
jetórias fossem matematicamente trabalhadas que comprometessem a pesquisa. No geral, os
para normalização, descontada a velocidade do maiores problemas detectados na viagem foram
navio e considerando as coordenadas geográfi- de eventuais falhas de contato, devido ao balan-
cas de posicionamento contínuo dos receptores ço contínuo do navio, de perda de sincronismo
ao longo da viagem. Para tanto, era necessário com algumas das estações de rádio monitoradas
o conhecimento regular da posição geográfica e de perda de sinal, em função de determinadas
do navio, principalmente quando de qualquer condições de navegação. Mesmo em condições
modificação em sua rota e/ou velocidade. Esse de fortes tempestades, não tivemos danos nos
posicionamento era calculado pelos integrantes equipamentos, antenas ou dados já obtidos e ar-
da Marinha que operavam a rota de navegação mazenados.
do navio. Em diversas situações de navegação, como as
Em algumas ocasiões, compartilhávamos o paradas do projeto de biologia marinha e aque-
mesmo ambiente de laboratório com o projeto las de navegação não retilínea (em círculo, em
de pesquisa de biologia marinha também reali- zigue-zague), durante manobras que exigiam
zado durante a expedição, já que para essa via- mudança de velocidade e tinham constante mu-
gem não havia separação entre um “laboratório dança de rota, comuns quando o navio estava
seco” para pesquisas como a que efetuávamos em operação de visita às estações antárticas ou
e um “laboratório úmido” para pesquisas mari- em exercício de navegação, os sinais recebidos

24 Revista do Clube Naval • no 405


eram drasticamente afetados em todas as tra- tações de mestrado e teses de doutorado.
jetórias sendo recebidas. Para nosso sistema de A viagem pioneira de cada um dos dois na-
recepção de sinais em VLF, a volta à navegação vios da Primeira Expedição Brasileira à Antár-
normal permitia que os sinais de rádio recebi- tica abriu um novo horizonte de pesquisas no
dos ficassem mais estáveis e País. O prosseguimento das viagens científicas
Mar de Weddell passíveis de estudo. e das pesquisas no continente antártico con-
Foto: Carlos Assim como havia novidades tribui para que o Brasil mantenha seu direito
Humberto T.D.C. no campo da pesquisa a de participar das decisões sobre o destino da-
bordo, havia novidades quele continente, garantindo que os esforços
também no próprio tra- até aqui despendidos não tenham sido em vão.
jeto de navegação da ex- A atuação do PROANTAR tem constituído
pedição, que passou por a base de suporte para que tais atividades de
regiões de grande beleza pesquisa possam prosseguir, permitindo que
natural, sempre apresen- o Brasil mantenha sua posição de respeito na
tando atraentes cenários comunidade internacional, adquirida através
com os diferentes forma- das pesquisas que vêm sendo realizadas des-
tos e cores dos icebergs, de a histórica Primeira Expedição Brasileira à
com imponentes monta- Antártica. ■
nhas geladas das regiões
da Península Antártica, e NOTA
com a grandiosidade do (1) O Sistema Ômega de Navegação foi criado nos Estados Uni-
gelo continental. dos para uso em aviação militar e, posteriormente, navegação
Além de acompanhar de submarinos. As estações transmissoras do Sistema Ômega
a pesquisa a bordo do de Navegação eram identificadas por letras de “A” a “H”: A:
NApOc "Barão de Teffé", Noruega (Bratland); B: Libéria (Paynesville); C: Hawaii (Kaneoke,
USA); D: North Dakota (Lamoure, USA); E: LaReunion (Plaine
também participava de
Chabrier); F: Argentina (Golfo Nuevo, Chalut); G: Australia
visitas às estações antárti- (Woodside, Victoria); H: Japan (Shushi-Wan, Tsushima Island)
cas, com especial atenção
às pesquisas em ciências REFERÊNCIAS
atmosféricas realizadas https://i.pinimg.com/originals/97/44/c5/9744c5847fffffc567be-
nesses locais. Nas esta- b1ef8bc23988.jpg
ções visitadas não verificamos pesquisas como http://www.jproc.ca/hyperbolic/omega.html
a nossa. Em algumas estações antárticas com KUNTZ, V.L.R., "Restará sempre muito que fazer", São Paulo,
pesquisas sobre física da alta atmosfera o estudo Editora Casa Flutuante, 2 ed, 2022.
T. D. C., Carlos Humberto. O Brasil a caminho da Antártida.
era voltado para camadas mais altas (E e F) da Revista Manchete 08/01/1983-edição 1603: http://memoria.
ionosfera terrestre, superiores àquela de nosso bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=004120&pasta=ano%20
projeto a bordo (camadas C e D) e também no 198&pesq=bar%C3%A3o&pagfis=214873
Observatório do Itapetinga. Essas pesquisas uti- T. D. C., Carlos Humberto. O Brasil na Antártida. Revista
lizavam equipamentos diferentes daquele insta- Manchete 12/02/1983-edição 1608:http://memoria.bn.br/
lado no navio. DocReader/docreader.aspx?bib=004120&pasta=ano%20
Em função das características de nossa pes- 198&pesq=bar%C3%A3o&pagfis=215663
quisa, havia uma curiosidade comum aos pes- T. D. C., Carlos Humberto, "Brasil Antártica", Bloch Editores
quisadores ou responsáveis pelas pesquisas nas S.A.,1983
estações visitadas sobre o experimento no na- T. D. C., Carlos Humberto, Antártida, a maxi aventura brasileira.
vio, sobre as condições dos equipamentos, das Revista Manchete 12/03/1983-edição 1612: http://memoria.
bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=004120&pasta=ano%20
antenas, a qualidade dos dados recebidos e o 198&pesq=bar%C3%A3o&pagfis=216251
objetivo científico da pesquisa. T. D. C., Carlos Humberto. Barão de Teffé: não
Os equipamentos de recepção em VLF traba- atires em mim Argentina. Revista Manchete
lharam até que o NApOc "Barão de Teffé" atra- 05/02/1983-edição 1607: http://memoria.bn.br/
casse no AMRJ em fevereiro de 1983, comple- DocReader/docreader.aspx?bib=004120&pasta=ano%20
tando oitenta dias de projeto a bordo do navio. 198&pesq=bar%C3%A3o&pagfis=215511
Os dados obtidos resultaram em diversos tra-
balhos científicos publicados em revistas cien-
tíficas, apresentados em congressos nacionais e * Mestre em Ciências Espaciais pelo INPE e
internacionais, assim como resultou em disser- Bacharel em Física pela Universidade Mackenzie

Revista do Clube Naval • nº 405 25


200 ANOS DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL

Minha experiência na Fotos do autor

PRIMEIRA EXPEDIÇÃO
BRASILEIRA À ANTÁRTICA
Orlando Moreira da Silva*

O
Tratado da Antártica entrou em vigor
em 23 de junho de 1961 e tem sido
reconhecido como um dos mais bem-
-sucedidos acordos internacionais. O
Brasil aderiu ao Tratado em 16 de maio de 1975,
passando a ser membro signatário. No entanto,
para ser admitido como membro consultivo e
poder participar das decisões, seria necessário
desenvolver pesquisas substanciais no conti-
nente antártico, com o envio de expedições
científicas e instalação de estação de pesquisa.
Assim, o Governo brasileiro atribuiu à Co-
missão Interministerial para os Recursos do
Mar (CIRM) a tarefa de elaborar o Programa

Orlando Moreira na
saída de Punta Arenas

26 Revista do Clube Naval • no 405


O Navio de Apoio
Oceanográfico (NApOc)
"Barão de Teffé"

Orlando Moreira e
Hermano Henning

Antártico Brasileiro (PROANTAR). Para


conduzir o PROANTAR, em 1982 a Marinha
adquiriu o Navio de Apoio Oceanográfico
(NApOc) “Barão de Teffé” que, em dezembro
do mesmo ano, junto com o Navio Oceano-
gráfico (NOc) “Professor Wladimir Besnard”,
da Universidade de São Paulo, iniciou a Pri-
meira Expedição Brasileira à Antártica, a
“Operação Antártica I”, começando a explo-
ração científica brasileira no continente aus-
tral.
Eu estava baseado no escritório da Glo-
bo em Nova York quando, em dezembro
de 1982, a Alice Maria, Diretora-Executiva do a partida foi muito festiva, com a banda da Ma-
jornalismo da Rede Globo, me ligou dizendo rinha tocando o Cisne Branco. O cais ficou lo-
que eu tinha sido escolhido para participar da tado de amigos e familiares para despedida dos
cobertura da Primeira Expedição Brasileira à cientistas e militares a bordo do navio.
Antártica. Para mim foi o maior orgulho saber Eu e o Hermano embarcamos no “Barão de
que faria parte do seleto grupo de participantes Teffé” na segunda quinzena de janeiro de 1983,
dessa expedição histórica. Meu companheiro de em Punta Arenas, no Chile, onde o navio pas-
viagem seria o repórter Hermano Henning, que sou para reabastecimento. O Comandante, Ca-
trabalhava na TV Aratu, afiliada da Globo na pitão de Mar e Guerra Fernando Pastor, nos
Bahia. Eu nunca tinha trabalhado com ele, mas deu as boas-vindas e fomos encaminhados para
conhecia sua fama de excelente repórter. Ele ti- nosso camarote, onde conhecemos o jornalista
nha longa bagagem como jornalista, começou Ernesto Rodrigues, companheiro de camarote,
bem jovem como locutor de rádio e, mais tarde, e Fernando Antonio M. de Barros, que tam-
foi para a televisão, onde rapidamente começou bém embarcaram em Punta Arenas para cobrir
a dominar, colocando no ar matérias de desta- a segunda fase da expedição. Além do Ernesto
que; por isso foi escolhido para essa cobertura. e do Fernando, estavam a bordo mais três jor-
O “Barão de Teffé” zarpou do porto do Rio de nalistas: uma dupla de repórteres da Radiobrás,
Janeiro em 20 de dezembro de 1982 e o Herma- Marcelo Antonio Rech e Claudio Alves Perei-
no Henning fez a cobertura da partida, numa ra, que mandavam boletins diários para A Voz
matéria do Jornal Nacional. Era um dia bonito e do Brasil, e um fotógrafo da Revista Manchete,

Revista do Clube Naval • nº 405 27


"Barão de Teffé"
no Mar de Weddell

paço disponível ser muito peque-


no, os químicos teriam quer guar-
Carlos Humberto TDC (Editora Bloch). dados quando não estivessem em
Fazendo um “tour” para me familiarizar com uso, pois são tóxicos. É logico que arranjei mais
as instalações, descobri que o navio estava equi- trabalho, mas as fotos enriqueceriam muito nos-
pado com um sistema de telefone via satélite. sas matérias, além de contribuir na divulgação
Imediatamente pensei que isso seria uma “mão da expedição brasileira, pois no dia seguinte as
na roda” para nossas matérias: “e se a gente fi- fotos estariam estampadas na primeira página
zesse algumas fotos durante o percurso da via- do O Globo, ilustrando as matérias do Ernesto
gem e essas fotos fossem transmitidas via ra- Rodrigues e, já como dizia meu pai, “sem traba-
diofoto usando o sistema de telefone via satélite lho não se vive”.
do navio? Serviriam para ilustrar com imagens Tivemos a grata surpresa de ver o NOc “Prof
reais os áudios tapes enviados pelo Hermano”. Wladimir Besnard”, sob o comando do Capitão
Televisão precisa de imagem, mas enviar vídeos de Longo Curso Adilson Luiz Gama, atracado
e imagens em movimento era inviável na época. ao nosso lado. Trazia universitários e cientis-
Hoje, com o avanço tecnológico, seria uma ope- tas a bordo, também com destino à Antártica.
ração simples. Próximo ao imponente “Barão de Teffé”, com 82
A ideia era que as fotos de acontecimentos metros de comprimento e um casco de aço com
durante a viagem seriam fundamentais para uma polegada de espessura, o “Professor Bes-
ilustrar as matérias, enriquecendo muito os áu- nard” parecia um pequeno barco amador, mas
dios tapes. O único problema era que eu tinha de amador não tinha nada, o velho “Professor
uma câmera de filmagem, não era fotográfica, Besnard” zarpou do porto de Santos no dia 20
nem um laboratório para revelar e ampliar os de dezembro de 1982 e já havia vencido com ga-
filmes e muito menos uma máquina de envio lhardia os mares do Estreito de Drake, passando
de radiofoto, mas eu sabia que o Jornal O Glo- pelo Estreito de Bransfield, com escalas nas ba-
bo tinha algumas dessas máquinas. Liguei para ses da Argentina e da Polônia na Ilha Rei Jorge.
Alice Maria, expliquei a situação e ela adorou a Eu e o Hermano fizemos uma matéria para o
ideia de enviar fotos durante a viagem. Pedi au- Jornal Nacional com os preparativos finais, po-
torização para comprar uma câmera fotográfica sicionando a expedição no ponto mais ao sul do
simples, um ampliador pequeno e os químicos continente, tendo como próxima parada a base
necessários para fazer a revelação e ampliação alemã na Antártica. Aproveitamos o avião da
das fotos, e solicitei que ela enviasse a máquina FAB para enviar o filme com a matéria. Em 28
de radiofoto do O Globo no avião da Força Aé- de janeiro de 1983, o “Barão de Teffé” zarpou
rea Brasileira (FAB) que iria trazer as peças de com destino à base alemã, no Mar de Weddell,
reposição do gerador, o que foi feito! no sudoeste da Antártica. O dia estava lindo e
O laboratório teria que ser tipo “portátil” e ensolarado, com águas calmas, um verdadeiro
seria montado no banheiro do nosso camarote, “Mar de Almirante”. Para mim e para o Herma-
que serviria também como “quarto escuro”, para no era o início de uma aventura nova, com mil
revelação e ampliação dos filmes. Esse minila- expectativas; para os que já estavam a bordo era
boratório teria que ser montado e desmontado apenas o início de uma segunda fase.
cada vez que fosse usado, porque, além do es- O “rancho” do "Barão de Teffé" era farto e

28 Revista do Clube Naval • no 405


bom e, como não existia muita atividade para e pediu nossa participação, distribuindo fichas
se movimentar, foram criados dois grupos de onde os voluntários deveriam anotar os pássa-
voluntários para atividade física: um para jo- ros que fossem vistos do convés do navio.
gar vôlei num hangar inferior e o outro para Adalbert Kolpatzik, o Adi, um alemão de 45
um programa de corrida, com os participan- anos que morava em São Paulo há treze anos,
tes dando voltas no convés – o circuito não era trabalhando como engenheiro da Siemens, gos-
nada fácil, pois, dependendo do mar, tinha o tava muito de alpinismo, desde criança estava
balanço do navio e alguns obstáculos naturais acostumado a escalar as montanhas nos Alpes.
típicos de um convés, mas nada que, até mesmo Ele se tornou especialista em “fendas no gelo” e
um principiante, não conseguisse superar. Eu e por isso foi recrutado para dar aulas sobre so-
o Hermano optamos pela corrida, que aconte- brevivência no gelo. Era extremamente comu-
cia todos os dias, antes do café da manhã. Era nicativo, falando português com aquele sotaque
em cadência lenta, não dava para correr muito de alemão que cativava a atenção de todos.
rápido, pois o espaço disponível não era muito A viagem, de um modo geral, foi muito agra-
largo. Levava uns quarenta minutos, dava para dável, tripulantes e pesquisadores muito amá-
suar e manter a forma. Depois da corrida, um veis e sempre nos tratando com muita gentileza.
banho e, em seguida, o merecido café da manhã. O mar em geral estava muito calmo; apenas com
A Dra. Judith Cortesão, portuguesa de 68 pequenas ondas que o “Barão de Teffé” enfren-
anos, uma das cinco mulheres a bordo, ecóloga, tava com galhardia e, a bordo, nem dava para
com doutorado em medicina, representante da sentir o balanço do mar, com exceção de um
Secretaria Especial do Meio Ambiente, estava trecho mais ou menos no meio da viagem. Aí,
empolgadíssima com a viagem. Era muito co- sim, o velho e pesado navio enfrentava ondas
municativa e adorava contar histórias, dizia que de cerca de cinco metros de altura, chegava dar
a Antártica era uma das matrizes de vida mais um “frio na barriga”, aquelas águas são tão frias
importantes do planeta e teria que ser preserva- que uma vez pensei: “não sei o que seria pior,
da e estudada com seriedade, para que os resul- cair nessas águas congelantes ou num caldeirão
tados pudessem trazer benefícios incalculáveis com água fervendo” – acho que o efeito seria o
para o resto do mundo. Entre outros conheci- mesmo: morte instantânea. Com muito cuida-
mentos, era observadora de aves e conhecia de- do fui ao meu camarote buscar minha câmera e
talhadamente o histórico de cada um daqueles o tripé para registrar aquelas imagens. Tive que
pássaros que acompanhavam o navio. Ela havia fazer duas viagens,
montado um programa de observação de aves uma para trazer o tri- A chegada a Punta
Arenas do NOc
"Professor Wladimir
Besnard"

Revista do Clube Naval • nº 405 29


pé e outra para trazer a câmera. Amarrei o tripé ao Mar de Weddell, surgiu uma nevasca com
no passadiço e comecei a filmar. As cenas eram ventos de cerca de 60 km/h, o que não é muito
incríveis, a proa do navio mergulhava nas ondas para a região, e, junto, uma quantidade enorme
gigantescas e todo o convés superior era lavado de blocos de gelo, dessa vez bem maiores, che-
pela água do mar, um visual sensacional. Esse gando a mais de dois metros de espessura. Esses
“mar brabo” durou praticamente a noite toda. “ice packs” têm tamanho suficiente para furar o
Os dias eram longos e as noites mais curtas, casco de um barco, causando naufrágio; aliás, o
porque o Sol durante o verão praticamente não Mar de Weddell, pelos seus ventos fortes e gran-
se põe, fica apenas umas poucas horas abaixo da des placas de gelo flutuando, é cemitério de al-
linha do horizonte e logo reaparece, mas nunca guns navios, como o navio alemão “Gotland II”,
ficava muito alto, sempre nos acompanhando que afundou depois de ser esmagado por enor-
acima da linha do horizonte. O velho “Barão de mes blocos de gelo.
Teffé” navegava com imponência, cortando as Mas o “Barão de Teffé” tinha seu casco refor-
águas geladas dos mares antárticos, o vento era çado com uma chapa de aço de uma polegada
fraco e as ondas pequenas, a velocidade média de espessura para enfrentar essas adversas con-
era de pouco mais de seis nós, o equivalente a dições dos mares antárticos. Além disso, o Co-
cerca de 12 Km/h. A maior parte do dia pas- mandante Pastor contava com a ajuda do Peter
sávamos no convés do navio, contando e ou- Granholm, antigo Comandante do “Thala Dan”,
vindo histórias; aliás, o Adi sempre tinha uma até ser vendido para o Brasil, portanto com uma
história interessante para contar (a maioria, do vasta experiência de navegação no gelo. Peter
tempo que era criança na Alemanha), e quan- Granholm sugeriu que, nesses casos, embora o
do não estava contando histórias, sentava-se em navio fosse resistente o suficiente para quebrar
um canto do convés e, com sua gaita de boca, placas de gelo, era recomendado diminuir con-
começava a tocar músicas alemãs – todos ado- sideravelmente a velocidade, vencendo, assim,
ravam. Do outro lado do convés, a Dra. Judith, a primeira grande barreira de “ice pack”. No in-
a nossa ecóloga, sempre com sua prancheta ca- verno, com frio intenso, as placas se juntam, e
talogando os pássaros que, de tempo em tempo, deixar um navio, por maior que seja, preso no
apareciam voando. gelo, na maioria dos casos seria morte certa.
A emoção de ver um imenso iceberg, a gen- Além das pesquisas científicas, um dos obje-
te nunca esquece. Estávamos a “boreste” do tivos da expedição brasileira era escolher o local
convés (lado direito), em 29 de janeiro, em um
início de noite, embora ainda estivesse bem cla-
ro, vimos ainda à distância aquele imponente
A ecóloga Judith
e soberano iceberg que vinha flutuando, deve-
Cortesão, uma das
ria ter uns quarenta metros de altura, mais ou
cinco mulheres a
menos a altura de um prédio de doze andares.
bordo do "Barão de
Alguns estudos comprovam que apenas 10% de
Teffé", no Mar de
um iceberg permanecem visíveis na superfície,
Weddell
o restante fica submerso, podendo ser maior
tanto na profundidade como na largura, o que
representa um grande perigo para a navegação.
Eu, “a postos”, só esperando o iceberg se apro-
ximar, com a câmera de filmagem montada em
um tripé, para fazer imagens que seriam usadas
posteriormente, em matérias sobre a expedi-
ção, e pendurada no pescoço a pequena câmera
fotográfica, para estrear não só o “laboratório
portátil”, mas também o sistema de transmissão
de radiofoto.
Com exceção de alguns pássaros voando, o
cenário não mudava muito, era aquele infini-
to horizonte que parecia não ter fim, mas aos
poucos começamos a ver, flutuando, pequenos
blocos de gelo, e esses blocos aumentavam à
medida em que íamos seguindo. Mais próximo

30 Revista do Clube Naval • no 405


Tripulação e convidados
observando o iceberg

para uma futura base de pesquisa. Segundo o tradicional aperto de mão, mas fizemos a filma-
Chefe Científico da Expedição, Capitão de Fra- gem da histórica cerimônia do hasteamento da
gata Eugênio Neiva, antes da viagem tínhamos Bandeira brasileira ao lado da Bandeira alemã.
como opção original a costa oriental do Mar de A cerca de dois mil quilômetros dali estava o
Weddell e a Península Antártica. A Península Polo Sul. Nossa estada não seria longa, por isso
facilitaria as experiências geológicas, oceano- eu aproveitava cada segundo para fazer a maior
gráficas, meteorológicas e geofísicas, além de quantidade possível de cenas. O cenário ajuda-
outras possibilidades, sem contar que, apesar de va, era deslumbrante!
também ser fria, tem clima muito mais ameno Depois, uma breve cerimônia, onde Eugênio
que no Mar de Weddell, onde a construção de Neiva agradeceu a hospitalidade, com tradução
uma base seria muito mais complexa, por ser a cargo do Adi. Em seguida, nos ofereceram um
região mais isolada, com difícil apoio logístico, lanche, e, para nossa surpresa, além de queijos
resultando em custos mais altos. e frios havia salada, tomate fresco e até mesmo
“São oito horas e dez minutos do dia sete aspargos. Enquanto isso, o “Barão de Teffé”, que
de fevereiro de mil novecentos e oitenta e três. estava rodeado de enormes placas de gelo, tinha
Neste instante, um dos helicópteros do “Barão que ficar fazendo círculos para impedir que es-
de Teffé” deixa o navio com o primeiro grupo sas placas bloqueassem o navio, impedindo seu
de brasileiros para a base científica de Neuma- regresso.
yer, a vinte quilômetros daqui”. Esse foi o tex- A Primeira Expedição Brasileira à Antártica,
to da gravação que o Hermano Henning fez na com a participação do NApOc “Barão de Teffé” e
hora exata da partida do helicóptero. É o que do NOc “Professor Wladimir Besnard”, realizou
chamamos na linguagem de televisão de “pas- o reconhecimento hidrográfico, oceanográfico e
sagem”, “stand up” em inglês. Essa gravação ou meteorológico, também colhendo amostras de
“passagem” seria usada na matéria do Fantásti- krill, assim como levantou dados sobre o local
co do primeiro domingo depois da nossa che- para instalar a futura base do Brasil. O suces-
gada a Porto Alegre. No primeiro helicóptero, so da “Operação Antártica I” permitiu que, em
pilotado pelo Capitão-Tenente Vallim, seguiam 12 de setembro de 1983, o Brasil fosse elevado
Eugênio Neiva e o Conselheiro Luiz Filipe de a membro consultivo, com direito a voto e voz
Macedo Soares Guimarães, do Itamaraty. O dia entre os países que decidiam sobre o futuro do
não podia ser mais bonito, nenhuma nuvem no continente antártico, representando um orgu-
céu, vento leve para os parâmetros antárticos e lho muito grande para todos que participaram
temperatura de –5ºC, o que não era problema daquela marcante viagem. ■
porque havia macacões especiais para o frio da
Antártica.
Eu, Hermano e os demais jornalistas segui- * Cinegrafista, participou da Primeira
mos no segundo voo. Não deu para filmar o Expedição Brasileira à Antártica

Revista do Clube Naval • nº 405 31


200 ANOS DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL

Transporte de pessoal para


a "Estação Neumayer", da
Alemanha, no Mar de Weddell

PARTICIPAÇÃO DA AVIAÇÃO
NAVAL BRASILEIRA
NA PRIMEIRA EXPEDIÇÃO À ANTÁRTICA

Ricardo de Lima Vallim*

O
Navio de Apoio Oceanográgico
(NApOc ) “Barão de Teffé” suspen-
deu no dia 20 de dezembro de 1982
para a primeira expedição à Antárti-
ca. Entretanto, até a chegada desse marcante dia
para a Marinha e para o País, muitos preparati-
vos tiveram que ser realizados em curto prazo, a
começar pela aquisição de um navio polar.
Neste artigo, como um dos participantes des-
se processo e da própria Operação Antártica I,
pretendo apresentar meu testemunho de várias
ocorrências e medidas tomadas que concorre-
ram para marcar definitivamente a presença do
País naquele continente, com foco no segmento
da Aviação Naval.

GRUPO PRECURSOR DE RECEBIMENTO


DO NApOc “BARÃO DE TEFFÉ”

Em 29 de julho de 1982, eu e meu companhei-


ro de voo, Capitão-Tenente (FN) Moacir de Je-
sus Franco, decolamos próximo ao nascer do Sol Integrantes do
da Fragata “União”, após uma comissão de longa Grupo Precursor
duração. Após pousarmos, fomos tomar o café de Recebimento
da manhã na Praça d’Armas da Base Aérea Naval do "Thala Dan":
de São Pedro da Aldeia (BAeNSPA). Ao sentar- CT Vallim,
CF Brederodes
e CC Kleper
32 Revista do Clube Naval • no 405
mos à mesa, um outro oficial foi logo dizendo:
“nem desfaçam as malas porque vocês vão par-
tir em breve para outra comissão”. Dirigimo-nos Embarque da primeira aeronave,
para o nosso Esquadrão (HU-1) e encontramos na saída da Baía de Guanabara
o Imediato nos aguardando no portaló. Disse-
-nos que todos os oficiais estavam embarcados
em vários navios da Esquadra e designados para
diversas outras comissões e que ele mesmo iria
decolar logo após nos passar as instruções. Em
resumo, havia chegado uma mensagem para um
oficial se apresentar no Comando de Operações
Navais (ComOpNav) para viajar urgentemen-
te para a Dinamarca e uma outra que previa o
embarque de um piloto em navio hidrográfico.
Deixou-nos decidir quem iria se apresentar no
ComOpNav.
Assim, em 9 de agosto apresentei-me no
ComOpNav. Recebi as instruções para integrar
um grupo precursor para avaliar, em caráter
preliminar, um navio polar que a Marinha esta-
va a adquirir para realizar a primeira expedição
à Antártica e que obtivesse subsídios de opera-
ção de aeronaves em regiões geladas. a fim de abastecer um povoado localizado em
Em 17 de agosto, decolei para a Dinamarca Scoresbysund. Assim, o trabalho do Grupo Pre-
em voo da saudosa Varig. O fato de estar vestido cursor foi realizado com o “Thala Dan” nave-
de uniforme “jaquetão” ⁽1), com a asa da Aviação gando, o que permitiu uma avaliação do navio
Naval no peito, chamou a atenção da comissá- mais realista. A bordo havia um pequeno heli-
ria-chefe, que me convidou para viajar na pri- cóptero de dois lugares com a missão principal
meira classe. de fazer a exploração do gelo pelo Comandante
No dia seguinte viajei de Copenhagen para do navio, ou seja, de verificar o melhor caminho
a cidade de Aalborg, situada ao norte da Di- a ser percorrido entre as banquisas de gelo. O
namarca, onde estava atracado o navio “Thala helicóptero, fretado pela companhia J. Laurit-
Dan”, futuro NApOc “Barão de Teffé”. Esse na- zen apenas pelo período da comissão, era abas-
vio polar, veterano de várias viagens ao Ártico e tecido por tambores de combustível e pilotado
à Antártica, pertencia à empresa dinamarquesa pelo próprio dono.
Danish J. Lauritzen A/S Lines. O navio também levava passageiros, dentre
Três outros oficiais faziam parte do Grupo eles nativos da Groenlândia e pessoas que se
Precursor de Recebimento. Ao Capitão de Fraga- dedicavam ao turismo mais radical. Conto aqui
ta Arthur Orlando Brederodes Pires, que viria a uma passagem que vivi com três alemães desse
ser o futuro Imediato do navio, coube coordenar último grupo. Ao chegarmos em Scoresbysund
as atividades do grupo e avaliar diversos aspectos o navio ficou fundeado por cerca de cinco dias.
do navio e de sua operação em águas geladas. Ao Os alemães, alpinistas, convidaram-me para
então Capitão de Corveta Kleper José de Aze- desbravar a pé a região. Após andarmos cerca
redo Rodrigues Lima coube a incumbência de de três horas por terrenos acidentados e cober-
avaliar o setor de máquinas e ao Capitão-Tenente tos de neve e gelo, fomos surpreendidos por
Marcos de Andrade Pinto a área de comunica- uma matilha de cães selvagens que se asseme-
ções e eletrônica. A mim, coube avaliar o setor lhavam à raça siberian husky. Não havia como
de aviação e informar todas as modificações ne- correr ou buscar um melhor posicionamento no
cessárias que o navio deveria sofrer para operar terreno, pois estávamos em uma região de neve
de acordo com as especificações técnicas da Ma- fofa e com as pernas afundadas até os joelhos.
rinha, bem como obter subsídios sobre as opera- Virei-me então para os alemães e disse para for-
ções aéreas em ambientes polares. marmos um círculo com as costas voltadas uma
Dois dias depois de minha chegada a Aal- para as outras para fazer face a um eventual ata-
borg, o navio “Thala Dan”, fretado pelo governo que vindo de qualquer direção e aguardarmos
dinamarquês, suspendeu para a Groenlândia, a reação da matilha. Como arma, só tínhamos

Revista do Clube Naval • nº 405 33


as nossas piquetas de gelo. O líder da matilha orientação de navegação rádio dos pilotos era
parou a cerca de dez metros do grupo e come- um NDB de pouca potência, com alcance mé-
çou a nos fitar. Também passamos a olhar para dio de cerca de dez milhas náuticas.
ele fixamente. Após cerca de dez minutos, como Desta forma, qual não foi a minha surpresa,
a fazer uma análise de custo-benefício, o líder após a chegada do navio ao Brasil, ao saber da
tomou a direção de onde veio e o restante da intenção da Diretoria de Hidrografia e Nave-
matilha o seguiu. gação (DHN) de pintá-lo de branco, a fim de
No tocante à aviação, o navio carecia de mui- seguir a padronização dos demais navios que
tos aspectos logísticos para apoiar operações lhe eram subordinados. Assim que soube dessa
aéreas de longa duração e o convés de voo era notícia, solicitei ao Diretor da DHN, Almiran-
restrito. Concentrei-me nos aspectos a serem te Valbert Lisieux Medeiros de Figueiredo, na
melhorados relacionados às aeronaves constan- condição de representante da Força Aeronaval,
tes do inventário da aviação naval com dimen- uma audiência, a fim de ser mantida a cor origi-
sões e pesos compatíveis para operar a bordo nal do costado do navio. O Almirante Valbert
do navio. Após o retorno ao Brasil, apresentei o concordou prontamente e o NApOc “Barão de
meu relatório ao ComOpNav, com várias pro- Teffé” permaneceu com a pintura vermelha.
postas e observações. Dentre muitas, foi sugeri- Cabe destacar que a cor vermelha foi de fun-
do o aumento da área da plataforma de pouso, damental importância para a localização do na-
instalação de rede de ar comprimido e de sis- vio, que parecia um minúsculo ponto em meio
tema de combustível. Também foram apresen- aos inúmeros e enormes icebergs tabulares,
tadas as modificações a serem introduzidas nos quando, por ocasião da primeira expedição, em
vários modelos de helicópteros da Marinha pas- 7 de fevereiro de 1983, tivemos que realizar vá-
síveis de pousar a bordo do navio para operar rios voos para a base alemã de Neumayer, situa-
em climas frios, além de subsídios operacionais, da no Mar de Weddel.
de procedimentos de manutenção, de segurança
e uma avaliação do comportamento de balanço, ESTÁGIO NA MARINHA ARGENTINA
caturro e deslocamento vertical do navio rela-
cionados às operações aéreas. Em junho de 1982 terminou a Guerra das
Foi realizada também uma análise da escolha Malvinas. A Marinha argentina, sabedora que
do modelo de helicóptero a ser embarcado, le- iríamos para a Antártica naquele ano, ofere-
vando em consideração as missões a serem de- ceu um estágio de preparação para operar em
sempenhadas (exploração do gelo e transporte climas frios aos pilotos da Marinha do Brasil
de pessoal e carga) e a restrição de combustível (MB). Esse estágio pré-antártico, conhecido
de aviação transportado pelo navio. Compa- como Nevada Aérea, é realizado anualmente
rou-se o desempenho, quanto a esses quesitos, pelos pilotos argentinos escalados para as mis-
dos helicópteros Esquilo, Wasp, Bell Jet Ranger sões antárticas, visando (re)ambientá-los e me-
e Lynx. O helicóptero proposto foi o Esquilo lhor prepará-los para operar nessa região polar.
monoturbina. Entretanto, o Setor Operativo Além de mim, foram designados para parti-
decidiu pelo helicóptero Wasp, por precaução, cipar desse estágio o Capitão-Tenente Marcos
já que possuía trem de pouso mais robusto para Bonin Villela e o Capitão-Tenente Olivilmar
pouso a bordo e o receio de se deparar com con- Amorim dos Reis. Chegamos em Buenos Aires
dições de mar mais severas. O Wasp, entretan- em 24 de setembro de 1982. No dia 27 de setem-
to, apresentava alto consumo de combustível e bro apresentamo-nos na Segunda Esquadrilha
menor autonomia. Na terceira expedição, foram de Helicópteros, na Base Aeronaval de Coman-
embarcados um helicóptero Wasp e um heli- dante Espora, em Baia Blanca. Essa Esquadrilha
cóptero Esquilo a título de experiência. A partir era composta de helicópteros Sea King, que ti-
da quinta expedição, a Marinha passou a operar veram importante papel durante a Guerra das
somente com o modelo Esquilo, conforme su- Malvinas. A título de exemplo, cita-se a retirada
gerido no relatório inicial. por esses helicópteros de parte das tropas ar-
O relatório também ressaltava a importân- gentinas das Ilhas Malvinas, voando a partir do
cia de se manter a cor vermelha do costado do continente, a cem pés sobre o mar para escapar
navio, a fim de facilitar a sua identificação vi- dos radares e sob condições restritas de visibili-
sual quando estivesse operando nos campos de dade, reabastecendo em voo com tambores de
gelo. Ressalta-se que, à época, não havia GPS. O combustível levados dentro da aeronave.
único equipamento que o navio dispunha para O estágio consistiu essencialmente de trei-

34 Revista do Clube Naval • no 405


Estágio pré-antártico
nos Andes

Pilotos: CT Sonilon,
CT Mondaca (Chile),
CT Ferraz, CT Vallim e
CT Heitor

namento de sobrevivência no gelo, nos Andes,


bem como prática de voo e de pouso e decola-
gem sobre terreno coberto de neve. Também fo-
ram ministradas aulas teóricas sobre voo entre
montanhas com turbulência e neve, operação
em climas frios e meteorologia na Antártica.
Os subsídios operacionais, de segurança e de
manutenção obtidos para operação em regiões
polares foram de extrema valia para o estabe-
lecimento dos nossos próprios procedimentos,
tanto que serviu como base, após as devidas
adaptações, para compor um dos capítulos do
manual de operações ComOpNav-342. Como
exemplo cita-se a adoção da pintura da cor ver-
melha nas portas das aeronaves para facilitar a
localização após um pouso forçado, bem como
o uso de marcadores de fumaça ou tarugos de
madeira pintados de vermelho para serem lan-
çados da aeronave a fim de permitir uma melhor
percepção de altura por parte dos pilotos quan-
do na ausência de referências externas ou diante
do fenômeno conhecido como “white-out” (em-
branquecimento).
Esse fenômeno consiste na perda de percep-
ção de horizonte e de altura mesmo com boa
visibilidade horizontal, em face de condições
naturais especiais, como luz difusa, que se ca-
racteriza por vir de todas as direções e, por-
tanto, ocasionando a inibição de contrastes de
Acima, a Equipe de Manutenção do luminosidade no terreno, sendo originária das
Destacamento Aéreo Embarcado repetidas reflexões das ondas de luz entre a neve
e a base das nuvens, e, simultaneamente, quan-

Revista do Clube Naval • nº 405 35


do se verifica a inexistência de pontos de refe- nave N-7037. Entretanto, uma péssima notícia
rência, como rochas, por estarem ocultos pela nos aguardava. Assim que o Wasp N-7037 de-
neve. O piloto tem a sensação de voar dentro de colou, a aeronave apresentou perda de rotação
uma nuvem branca sem referência visual exter- do rotor principal, o que obrigou os pilotos a
na, situação que se agrava quando aproximan- realizarem um pouso forçado no convés de voo
do-se para o pouso ou voando a baixa altura do “Minas Gerais”. Investigação realizada pos-
sobre o terreno. teriormente apontou contaminação de combus-
Inúmeros outros conhecimentos foram ob- tível. A N-7037 apresentou alguns danos estru-
tidos, como os relacionados aos vestuários dos turais e outra aeronave teve que ser preparada
pilotos, kits de segurança a serem transportados para substituí-la, com previsão de embarque
nas aeronaves, avaliação de parâmetros ambien- apenas no porto de Rio Grande. Desta forma, os
tais para uma operação segura e de outros mais. pilotos CT Heitor Alves da Silva Filho e 1º Ten
José Ferraz de Oliveira ficaram impossibilitados
PREPARATIVOS FINAIS de participar da etapa da viagem entre o Rio de
Janeiro e Rio Grande.
À medida que se aproximava o final do ano, Devido ao pouco tempo que se teve para a
todos os setores da Marinha empenharam-se preparação do navio, algumas pendências ti-
freneticamente na prontificação do navio e de- veram que ser resolvidas durante a viagem,
mais meios envolvidos na Primeira Expedição como a Vistoria de Segurança e a qualificação
Brasileira à Antártica. O trabalho do Arsenal de da equipe de manobra e crache ⁽2) por parte da
Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ) e das Direto- Diretoria de Aeronáutica da Marinha (DAerM).
rias Especializadas para o preparo do navio, em Resolveu-se que a comitiva dessa Diretoria em-
função do pouco tempo disponível, foi impres- barcaria por helicóptero em Florianópolis.
sionante. No tocante à aviação, o AMRJ instalou No dia 22 de dezembro, nas imediações da
a estrutura da parte aumentada da plataforma de Ilha de Santa Catarina, o Capitão-Tenente Val-
pouso em apenas dois dias. Paralelamente, o Es- lim e o Primeiro-Tenente Sonilon decolaram
quadrão HU-1 também corria contra o tempo, para Florianópolis a fim de iniciar o transporte
a fim de preparar dois helicópteros Wasp para a de dez membros da comitiva da DAerM para
citada comissão, o que incluía as modificações bordo. As condições meteorológicas na rota
necessárias para operação em climas frios. começaram a se deteriorar e começou a chover
Por fim, chegou o histórico dia 20 de dezem- forte, provocando redução de visibilidade e teto.
bro de 1982, uma segunda-feira, data da partida A aeronave estava sem as portas, procedimento
do NApOc “Barão de Teffé” para realizar a Pri- padrão quando empregando-se o helicóptero
meira Expedição Brasileira à Antártica. Wasp sobre o mar, a fim de facilitar a evacuação
As duas aeronaves Wasp escaladas para a da aeronave em caso de pouso forçado na água.
missão, N-7037 e N-7040, pousaram com an- A chuva penetrou no interior do helicóptero e
tecedência no NAeL “Minas Gerais”, atracado inutilizou a carta de navegação que o copiloto
no cais do AMRJ, a fim de aguardar a saída do portava em suas mãos. Em seguida, o equipa-
NApOc “Barão de Teffé” pela barra da Baía de mento ADF (Automatic Direction Finder – es-
Guanabara para iniciar as operações aéreas. pécie de agulha que aponta sempre para uma
estação em terra) ficou inoperante. Os pilotos
ACONTECIMENTOS DURANTE ficaram sem nenhum instrumento ou carta de
A PRIMEIRA EXPEDIÇÃO orientação à navegação. O voo foi conduzido
até o aeroporto navegando-se pela bússola mag-
O primeiro fato marcante foi o pouso da ae- nética e por meio de cálculo de estimada.
ronave Wasp N-7040 no NApOc “Barão de Tef- A bem da verdade, quando o Wasp já se en-
fé”, realizado por mim e pelo Primeiro-Tenente contrava próximo do aeroporto, um avião co-
Sonilon Vieira Leite, nas proximidades da praia mercial ingressou na reta final para pouso, o
de Copacabana, na manhã de 20 de dezembro. que facilitou o reconhecimento, com mais se-
Vários pesquisadores, cinegrafistas, jornalistas gurança, em meio à chuva intensa, do eixo de
e civis postaram-se no convés “01” para assistir aproximação final para a pista. Após o pouso
ao evento. o tempo começou a melhorar. A comitiva da
Logo após o pouso, a aeronave N-7040 foi DAerM foi embarcada enquanto o “Barão de
reposicionada e teve suas pás dobradas para li- Teffé” rumava para o sul, pois não havia muita
berar espaço para o pouso subsequente da aero- flexibilidade de tempo na programação do na-

36 Revista do Clube Naval • no 405


Aeronaves nas proximidades
da Estação "Faraday",
do Reino Unido

vio. À tarde foi realizado um voo de fotografia Como parte do ciclo de palestras a bordo,
com integrantes da imprensa e depois um outro o DAE fez a sua apresentação, dirigida para a
para transportar a comitiva da DAerM em re- oficialidade, pesquisadores e demais civis em-
torno para o aeroporto de Florianópolis. barcados, sobre as operações aéreas a serem
Após a atracação do “Barão de Teffé” no por- realizadas durante a viagem, segurança de voo e
to de Rio Grande, o Capitão-Tenente Heitor e o outros aspectos de interesse do público-alvo. A
Primeiro-Tenente Ferraz pousaram com a aero- receptividade dos assuntos abordados foi muito
nave substituta N-7041 no navio, que havia sido grande.
transportada por aeronave Hércules C-130 da Os pilotos do DAE também integraram a
Força Aérea Brasileira até Pelotas e se deslocado equipe de observação de pássaros que acom-
voando até a Capitania dos Portos do Rio Gran- panhavam o navio em sua singradura, a cargo
de do Sul, em Rio Grande. Após a desatracação da inesquecível pesquisadora Judith Cortesão, a
de Rio Grande, a aeronave N-7040 realizou voo “mais antiga”. Os membros da equipe se reve-
para transportar um equipamento do navio, zavam dia e noite, por vezes submetidos a frio
deixado para reparo em firma especializada. No intenso, para cumprir sua tarefa. Como com-
dia seguinte, transportou para a Capitania os pensação, Dona Judith, com sua forma marcan-
técnicos da firma reparadora, que haviam em- te lusitana de falar, iniciou um curso de francês,
barcado anteriormente. sempre dizendo para os esperançosos integran-
No dia 29, durante o jantar, foi muito festeja- tes da turma: “quando chegares a Punta Arenas
da a promoção dos Primeiro-Tenente Ferraz e estarão falando um francês perfeito”. As brinca-
Sonilon ao posto de Capitão-Tenente. deiras em sala de aula eram incessantes. Por esta
Durante a singradura para Punta Arenas, razão, os alunos, ao chegarem em Punta Arenas,
ocorreu a plena qualificação dos pilotos Ferraz, deram-se por satisfeitos em falar “bom dia” e
Sonilon e Gudelio Mondaca Oyarzun (chile- “boa noite” em francês fluente.
no formado na MB como aviador) em pouso a O dia 7 de janeiro de 1983 foi marcante para
bordo com a aeronave Wasp, bem como voos a história da Aviação Naval, por ter sido a data
de filmagem e fotografia. Nessa primeira etapa do primeiro voo de uma aeronave brasileira
da comissão, os integrantes do Destacamento no continente antártico. Esse voo foi realizado
Aéreo Embarcado (DAE) ⁽3) se dedicaram em pelo Capitão-Tenente Vallim e pelo Capitão-Te-
auxiliar o navio na resolução das discrepâncias nente Heitor, após decolarem do navio, que se
apontadas na vistoria de segurança da DAerM, encontrava fundeado na Baía de Fields, com a
principalmente quanto à elaboração do Plano aeronave N-7041, para a base aérea chilena de
de Emergência. Marsh, transportando o Capitão de Mar e Guer-

Revista do Clube Naval • nº 405 37


Sobrevoo junto à
plataforma de
gelo continental

ra Fernando José Andrade Pastor Almeida, Co- de fato a origem da pane. Como não havia mais
mandante do navio, e o diplomata Luiz Filipe um outro como sobressalente, a solução foi reti-
de Macedo Soares Guimarães, do Ministério rar o Fuel Control da outra aeronave, que estava
das Relações Exteriores (MRE). Nesse mesmo a bordo. Após a instalação desse componente,
dia, posteriormente, foram realizados outros a pane foi solucionada. A faina durou pratica-
voos de transporte de pessoal, bem como de fo- mente o dia inteiro sob condições ambientais
tografia e filmagem. No dia seguinte, uma aero- penosas. Ao final sobreveio uma sensação de
nave decolou da Base de Marsh para a estação alívio, pois o navio tinha que suspender no dia
polonesa de Arctowski, em missão de natureza seguinte e a possibilidade da aeronave N-7040
administrativa, mas teve que retornar devido ao “virar monumento”, como se diz jocosamente
mal tempo próximo à estação de destino. na Marinha, era real, pelo longo tempo que de-
O dia 10 de janeiro começou de forma preocu- mandaria a chegada de um outro item sobressa-
pante para o DAE. O navio fundeou pela manhã lente à base de Faraday.
em frente à base inglesa de Faraday. Cerca de Enquanto a faina de reparo da aeronave indis-
9h30, os pilotos Heitor e Ferraz decolaram com ponível se desenvolvia, foram realizados vários
a aeronave N-7040 para a citada base transpor- voos de transporte de pessoal com a aeronave
tando o CF Eugênio Neiva, coordenador cientí- N-7041, pincipalmente de pesquisadores, entre
fico da expedição, e o conselheiro do MRE Luiz o navio e a estação.
Filipe. O pouso inspirou cuidados, pois a neve No dia seguinte, após deixar a base de Fa-
estava fofa e uma roda do trem de pouso po- raday, o navio passou próximo ao Monte Rio
deria afundar mais que as outras, como de fato Branco, denominação esta em homenagem ao
esteve prestes a acontecer posteriormente com Brasil. Foi então programado um voo para pou-
a aeronave N-7041, e provocar o tombamento sar em seu cume, a cerca de 3.200 pés de alti-
da aeronave. tude, a fim de documentar o hasteamento sim-
O motor foi “cortado” para aguardar o retor- bólico da Bandeira Nacional. Com este intento,
no dos passageiros. Ao se tentar acioná-lo no- a aeronave N-7040 decolou levando a bordo
vamente, apresentou uma pane, posteriormente o alpinista Peter Barry e o fotógrafo Cláudio
identificada como oriunda do Fuel Control (sis- Alves Pereira, da Novas Empresas Brasileiras.
tema de controle de injeção de combustível). Após três aproximações sucessivas, o pouso foi
Após a instalação de outro Fuel Control sobres- abortado, devido ao local ser exíguo e não haver
salente, o motor continuou em pane, o que levou referências visuais no solo que permitissem exe-
a equipe de manutenção a efetuar nova pesquisa cutá-lo com segurança.
sobre a causa do problema. Após exaustiva in- No período em que o navio ficou fundeado
vestigação, verificou-se que o Fuel Control era em frente à estação americana de Palmer fo-

38 Revista do Clube Naval • no 405


ram realizados voos de filmagem. Após visitas tescos icebergs tabulares.
às bases argentina Almirante Brown e chilena Durante alguns traslados foram realizados
Arturo Prat, iniciamos a travessia do Estreito voos de filmagem e fotografia, razão pela qual
de Drake em direção a Punta Arenas, quando o as portas traseiras foram removidas. A tempe-
navio jogou muito, devido ao mar agitado e for- ratura ambiente estava abaixo de zero. As mãos
tes ventos. Os integrantes do DAE se revezavam dos pilotos ficavam endurecidas pelo frio inten-
constantemente para verificar as condições de so, mesmo com o uso de luvas. Após o pouso,
peiamento (amarração) dos helicópteros. em certas ocasiões, os mecânicos tinham que
Em 18 de janeiro entramos no Canal de Bea- auxiliar na abertura das fivelas dos cintos de se-
gle, região marcada por disputa de soberania gurança dos pilotos, devido à rigidez dos dedos
entre Argentina e Chile. Naquele ano o confli- pelo frio intenso.
to achava-se latente. À tarde, os pilotos Heitor Em 22 de fevereiro foi realizado voo de fo-
e Mondaca decolaram com a aeronave N-7041 tografia e de filmagem da entrada do NApOc
para a base naval chilena Port Willians a fim “Barão de Teffé” no porto de Rio Grande, a fim
de conseguirem uma carta náutica mais apro- de documentar o regresso ao Brasil após o cum-
priada para a navegação pelo Canal de Beagle primento da histórica comissão.
e transportar um equipamento do navio para O navio retornou ao Rio de Janeiro no dia 28
reparo. Logo em seguida, os pilotos Vallim e de fevereiro. Após o término da comissão, as
Ferraz decolaram com a aeronave N-7040 para aeronaves decolaram inicialmente para o aero-
voo de filmagem e fotografia. Nesse momento, o porto Santos Dumont e depois para a Base Aé-
navio foi interceptado por uma lancha patrulha rea Naval de São Pedro da Aldeia.
argentina, que impediu a continuação da na- Por ter sido uma viagem histórica para o
vegação. Durante o voo, a aeronave N-7040 foi País, foram realizados vários documentários,
continuamente enquadrada pela metralhadora reportagens e voos de fotografia e filmagem por
de ré da lancha patrulha. A situação foi contor- profissionais da mídia e de outros institutos. A
nada pela ação do ComOpNav e do MRE junto maior parte dos voos, entretanto, consistiu em
às autoridades argentinas e o navio prosseguiu transporte de pessoal e carga. Alguns poucos
sua viagem. foram realizados em proveito de serviços de
Chegamos a Punta Arenas em 20 de janeiro, manutenção e do adestramento dos pilotos.
porém tivemos que aguardar a liberação de cais Ainda foram realizados dois de natureza admi-
para atracar, por isso foi realizado um voo para nistrativa e outro de evacuação aeromédica.
agilizar providências administrativas em terra e Por fim, restou a certeza de a Aviação Naval
outro de evacuação aeromédica. A segunda eta- ter contribuído uma vez mais para os interesses
pa da comissão iniciou dia 28, em direção ao da Marinha e do País.
Mar de Weddel. Nesse ínterim foram realizados Marinha do Brasil – Aviação Naval – Missão
voos de adestramento de pouso a bordo para os Cumprida. ■
pilotos, bem como de filmagem e fotografia.
No dia 7 de fevereiro o navio fundeou no Mar NOTAS
de Weddell, próximo à estação alemã de Neu- (1) Uniforme azul da Marinha, correspondente ao passeio
mayer. Durante todo o dia foi realizada uma completo
(2) Equipe de manobra e crache: equipe responsável por
intensa ponte aérea empregando-se as duas ae-
orientar os pilotos nos pousos e decolagens, manobrar a
ronaves, simultaneamente, para transporte de aeronave e combater incêndio no convés de voo, e retirar a
pessoal, principalmente pesquisadores, entre o tripulação e passageiros do helicóptero em um acidente
navio e a estação de Neumayer. (3) Ressalta-se que o sucesso da participação do Destacamento
Devido à inexistência de espaço suficiente Aéreo deveu-se também ao trabalho discreto e competente
no convés de voo para a operação de dois he- da equipe de manutenção, formada pelos seguintes militares:
licópteros, a coordenação dos voos tinha que 2º SG-FN-MO-MV LAURO Augusto dos Santos; 2º SG-FN-
ser precisa, de modo que enquanto um estivesse IF-SV Jusserlem POLONIATTO Rodrigues; 2º SG-VN Antonio
abastecendo e embarcando passageiros, o ou- Francisco do NASCIMENTO; CB-MV Laerte Gonçalves
tro estaria realizando o traslado. Essa operação SILVIANO; e CB-MV EIL Pereira
demonstrou a importância de ter sido mantida
a cor vermelha do casco do navio, por facilitar * Capitão de Mar e Guerra (Refº), chefiou a
sobremaneira a localização visual do navio pe- Estação Antártica Comandante Ferraz no verão
los pilotos, dado que o NApOc “Barão de Teffé” 1989/1990 e no inverno de 1991, e foi Ajudante do
parecia um pequeno ponto em meio aos gigan- Subsecretário do PROANTAR em 1990

Revista do Clube Naval • nº 405 39


200 ANOS DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL

Mergulho na
PRIMEIRA EXPEDIÇÃO
BRASILEIRA À ANTÁRTICA
Celso Alves da Costa* O traje especial da
primeira viagem era

N
composto por três
a Primeira Expedição Brasileira à peças: uma ceroula,
Antártica, uma equipe de mergu- um traje especial
lhadores ⁽1) (primeiros brasileiros a acolchoado
realizarem um mergulho autônomo fino, revestido por
na Antártica) fez parte da tripulação do Navio resina reflexiva e
de Apoio Oceanográfico (NApOc) “Barão de maleável, e tecido
Teffé”, com o propósito de realizar atividades emborrachado
de segurança, salvamento e socorro, em apoio impermeável, com
às operações aéreas com helicóptero. Conco- capuz integrado,
mitantemente, também estávamos aptos para fechamento com
realizar a manutenção e pequenos reparos na zíper externo
embarcação principal, se necessário.
Esta abordagem será dividida em três fases. A
primeira, marcada pela chegada à Península An-
tártica, constituiu basicamente na ambientação
com os trajes e equipamentos de mergulho.
A segunda, foi o primeiro mergulho em am-
biente antártico, com temperaturas negativas,
decorrentes da conjunção de parâmetros como Atualmente é utilizado o
temperatura, pressão e salinidade, utilizando o traje à direita, composto
traje seco, com injeção de ar para aumentar o por duas peças: tecido
isolamento térmico. acolchoado para proteção
O traje era composto de três camadas (tipo térmica e uma lona
cebola): a primeira, uma ceroula; a segunda, impermeável isolante do
um traje especial, acolchoado, semelhante ao meio externo. A proteção
neoprene, porém revestido na parte externa da cabeça pode ser
por uma resina reflexiva e maleável; e a terceira integrada com a roupa ou
(traje principal, com capuz), uma camada tipo peça separada (depende
lona, emborrachada, à prova d’água, tendo o fe- do fabricante)
chamento externo com zíper. Funcionava com
a injeção de ar para aumentar o isolamento
térmico. Complementando o traje, havia uma A terceira fase caracterizou-se pela realização
nova máscara de mergulho especial (full face), dos primeiros mergulhos da Marinha do Brasil
que permitia contato de áudio (faltaram os im- em águas antárticas.
plementos para utilização deste recurso naquela Faz-se mister pontuar o encontro com o Na-
situação); nadadeiras; cinto de pesos; cilindros vio de Pesquisas Antárticas “Hero" norte-ameri-
de gases e luvas de três dedos. cano, ocorrido na Península Antártica, quando

40 Revista do Clube Naval • no 405


obtivemos, junto aos
pesquisadores mer-
gulhadores america-
nos, expertise e co-
nhecimentos acerca
da fisiologia do mer- Ato contínuo, embarcamos no "Zodiac" ⁽2) e nos
gulho e outros detalhes afastamos. Decorridos aproximadamente dez
referentes ao mergulho segundos, o iceberg fez um movimento de 180°,
naquela região. a parte superior emborcou submergindo e a
Nos primeiros mer- parte imersa emergiu, ficando exposta, com um
gulhos ocorreram si- grande deslocamento de água – esse movimento
tuações novas e inusita- ocorre devido à erosão da parte submersa, alte-
das no teste com o traje de neoprene 8 mm, bem rando, em consequência, o centro de gravidade.
como a utilização do traje especial (traje seco), Por pouco nos safamos nessa faina!
utilizando-se a nova máscara full face. Como resultado dessas experiências:
Posteriormente, avistamos uma foca-leopar- • foi testada a adequabilidade do novo traje
do caçando alguns pinguins (seis a oito metros que se mostrou perfeito, promovendo o
de profundidade). Eram nossas primeiras ex- conforto térmico necessário ao mergulho
periências concretas, utilizando traje, e havia e à realização de fainas que se fizeram ne-
histórias e toda uma literatura informando que cessárias para operações na região;
as focas-leopardo e as baleias orcas perseguiam • verificamos a inadequabilidade de utiliza-
humanos. Nesta situação particular, como a ção do traje neoprene 8mm; e
foca-leopardo inadvertidamente se aproximou • ficou demonstrada a necessidade do em-
muito, a situação ficou tensa. Fui alertado pe- barque, com a equipe de mergulho, de
los outros mergulhadores e, ato contínuo, voltei equipamentos adequados para provimen-
rapidamente à embarcação de apoio. Utilizáva- to do apoio e segurança às operações aé-
mos, naquela situação, o cabo guia, sempre sob reas, bem como para a condução de ope-
a supervisão de um dos mergulhadores. rações de busca e salvamento. ■
Em uma outra situação, foi utilizado o tra-
je neoprene 8mm como teste, quando consta- NOTAS
tamos o início do processo de congelamento (1) A equipe de mergulhadores era composta pelo Capitão-
(com cerca de vinte minutos de tempo de fun- -Tenente José Maia de Oliveira (in memoriam), pelo Capitão-
do), principalmente “as pontas” (nariz, dedos -Tenente (FN) Celso Alves da Costa e pelo Cabo Mergulhador
etc). Após este mergulho, tive que utilizar a ba- Milton Bastos Syna. Faz-se mister acrescentar o pioneirismo
nheira de imersão, para descongelamento, com para a consolidação do primeiro mergulho autônomo realizado
aumento progressivo da temperatura. por brasileiros na região antártica
Em outro mergulho, abordamos e escalamos (2) Embarcação pneumática
dois icebergs. Quando nos preparávamos para
descer do segundo iceberg, houve um estrondo. * Capitão de Mar e Guerra (Refº-FN)

Revista do Clube Naval • nº 405 41


200 ANOS DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL

Recordando a
PRIMEIRA EXPEDIÇÃO
BRASILEIRA À ANTÁRTICA

Norberto Ferrari* da Marinha que tiveram vivência, alguns


no Ártico, outros na Antártica. Naquela

E
oportunidade, conheci alguns dos tripu-
ra uma sexta-feira, eu estava junto lantes do navio e, dias depois, nos fami-
à mesa de trabalho na então Dire- liarizamos com as dependências do navio
toria de Engenharia da Aeronáuti- “Barão de Teffé”.
ca, concentrado em dar os últimos No dia 18 de dezembro de 1982, todos
retoques em um projeto de minha res- os participantes da expedição compare-
ponsabilidade. Entrou meu chefe e disse, ceram para receber a visita do Presiden-
de supetão: “você foi indicado para fazer te Figueiredo, que chegou exatamente na
uma viagem à Antártida”. “Eu?”, pergun- hora prevista, às 17h, acompanhado do
tei, assustado. “Sim” - disse ele - “você é o Ministro Azeredo da Silveira e de Roberto
mais indicado para aquela missão, mas se Marinho, este com seu séquito de repór-
não puder ir, posso indicar outra pessoa”. teres e cinegrafistas. Fomos apresentados
Na semana seguinte, viajei a Brasília ao Presidente Figueiredo. Ao apertar a
para receber instruções no Estado-Maior minha mão, notando meu uniforme da
da Aeronáutica. Ali recebi as primeiras no- Aeronáutica, perguntou o que eu ia fazer
ções do que consistia a missão e qual era naquela viagem. Respondi que ia obser-
o objetivo. O encarregado daquela ativi- var as facilidades para o transporte aéreo
dade sugeriu-me fazer uma visita ao setor na região. A seguir foi servido um coque-
da Marinha, para inteirar-me sobre os de- tel. Depois de o Presidente despedir-se e
talhes da viagem. Na Marinha, fui muito retirar-se com sua comitiva, o Ministro da
bem recebido pelo então Capitão de Fra- Marinha, Almirante Maximiano, falou a
gata Eugênio Neiva, que me proporcionou todos nós, reunidos, e despediu-se de um
detalhadas informações sobre o Programa a um. Era animador o apoio oficial àquela
Antártico Brasileiro (PROANTAR) e sobre primeira expedição.
os preparativos da viagem. Sugeriu que eu No dia seguinte, precisei ir ao navio
comparecesse à Capitania dos Portos do para levar meus pertences para a viagem.
Rio de Janeiro para assistir a uma série Minha filha, então com seus oito anos,
de palestras sobre sobrevivência no gelo quis vir comigo para certificar-se de que o
em território antártico. Assisti às pales- navio oferecia conforto. Levei-a ao cama-
tras, as quais foram proferidas por oficiais rote que me fora designado. Enquanto eu

42 Revista do Clube Naval • no 405


Na noite do segundo dia enfrentamos
a primeira tempestade. Eu era jogado ao
longo da cama, ora para cima, ora para
baixo. As dependências de madeira do
navio rangiam como nos filmes de terror.
Mas, meu colega de camarote, o Capitão-
-Tenente Ernesto Facchini, da Armada
Argentina, era marinheiro bastante expe-
rimentado e dormia a sono solto. Então,
colocava meus pertences no armá- por que haveria eu de ficar preocupado?
rio e gavetas, ela fazia uma vistoria Chegamos na manhã de sábado no
geral naquele quarto de três hóspe- porto de Rio Grande. Era véspera de Na-
des. Para tranquilizá-la, levei-a à tal. Ali, tivemos o primeiro contato com a
Praça d’Armas. “Parece uma casa, equipe de cientistas e tripulantes do navio
pai!”, exclamou ela. Sim, era uma “Professor Wladimir Besnard”. No do-
casa que abrigaria uma grande fa- mingo de Natal, dia de um azul convida-
mília durante setenta dias. tivo, reunimos um grupo e fomos à praia
Naquele período entre minha desig- do Cassino. Uma praia de águas rasas, di-
nação e a véspera de nossa partida, eu já ferente das praias que eu já conhecia.
havia lido sobre a temível travessia do Es- No dia seguinte, fui à cidade, entrar
treito de Drake, onde as águas do Pacífico em contato com minha família e saborear
unem-se com as do Atlântico. Um ano um churrasco na hora do almoço. Naque-
antes, eu tivera a experiência da viagem à le mesmo dia, iniciou-se a viagem com
Ilha de Trindade, como responsável pelo todos os participantes a bordo. A Praça
projeto de uma pista de pouso naquela d’Armas era nosso lugar de convívio, tan-
ilha e embarcara na Fragata “Liberal” com to para recreação, como para assistir às
meu chefe e uma comitiva dos Estados palestras dos integrantes da missão. Era
Unidos. O objetivo era coletar dados e de- um grupo heterogêneo e cada qual tinha
talhes sobre o local onde seria construída muito que dizer sobre suas atividades.
a pista. Durante a ida, viajei o tempo todo Uns eram prolixos, outros, mais reserva-
“mareado” e só me senti aliviado quando, dos. Mas todos tiveram oportunidades de
a 50 milhas antes da chegada à ilha, em- fazer seus comentários.
barquei no helicóptero com meu chefe e Entre os civis, a mais dinâmica de to-
outro engenheiro. O meu chefe, também dos era a saudosa Dra. Judith Cortesão e
engenheiro e um experimentado piloto também a pessoa mais idosa da expedição
de caça, acostumado a acrobacias, não so- (68 anos). No início, ela propôs dar aulas
frera enjoos. Sobrevoamos e circulamos de inglês e francês. Porém, à medida que
naquela paradisíaca ilha, para melhor en- adentrávamos em mar bravio, a assistên-
tendimento sobre o projeto da pista. Fe- cia ia diminuindo até ficar sem audiência.
lizmente, aquele projeto foi abandonado Mesmo assim, ela criou um grupo de vo-
por não ser economicamente factível. luntários para a observação de pássaros
Ao iniciar a viagem no dia 20 de dezem- ao longo da rota. Conseguiu um quadro
bro de 1982, com o navio “Barão de Teffé” com todas as variedades de pássaros e
já em rota, tomei uma pastilha de drama- suas identificações. Me ofereci, como vo-
mine. Fiquei sonolento e mal consegui luntário e todos os dias ficava observan-
acompanhar as instruções de emergência do durante uma hora, anotando o tipo e
no caso de incêndio a bordo e os procedi- quantidade de pássaros. Depois, ia ao se-
mentos para o caso de ter que abandonar tor de navegação por satélite e anotava as
o navio. Para meu alívio, o velho navio era coordenadas geográficas.
bem comportado e tinha uma relativa es- Na virada do ano, estávamos próximos
tabilidade em alto mar. ao arquipélago das Malvinas. Às 22h nos

Revista do Clube Naval • nº 405 43


feria exercitar-me e per-
correr a pista a pé.
Aquela pista, de 1.292 m
de comprimento, era reves-
tida com saibro. Pareceu-me
que seria demasiado curta e
muito crítica para operações com
aeronaves C-130, por não dispor de
aeródromos de alternativa nas proximi-
dades, a não ser o próprio aeródromo da
origem do voo, o que limitaria a carga
da aeronave. A pista contava com auxí-
lios visuais e eletrônicos, estes apenas de
localização. No dia seguinte, voltei à base
reunimos para a para observar outros detalhes, inclusive
ceia. Pouco antes, eu ha- o hangar de manutenção e as facilidades
via recebido uma mensagem do meu che- de reabastecimento.
fe e colegas de trabalho na Aeronáutica. No percurso para a estação inglesa de
Aquela manifestação me deixou sensibi- Faraday, o navio fez uma incursão na cra-
lizado. tera do vulcão de Decepción, onde, pela
No dia seguinte, fomos premiados primeira vez, eu via as fumarolas emer-
com o show proporcionado pelas baleias gindo da baía. Tais fumarolas eu veria de-
e tubarões. E também, com o sobrevoo e pois, nas geotérmicas de Rotorua (Nova
observação de perto por parte dos pilo- Zelândia) e na Islândia.
tos dos caças ingleses “Harrier”, numa de- Navegando pelo Estreito de Guerlache,
monstração de soberania do arquipélago cruzamos com o Veleiro “HERO”, ocasião
das Malvinas, para eles, as Falklands. em que nossa tripulação confraternizou-
Durante a visita à estação polonesa -se com aqueles velhos lobos do mar. Na-
de Arctowsky, ocupei-me em conhecer quele veleiro viajavam 23 pessoas, sendo
o grupo gerador de energia elétrica. Fui nove cientistas. Eram pessoas alegres e
muito bem recebido pelo responsável. muito comunicativas.
Entre outras coisas que aprendi e guardei O acesso à estação britânica de Fara-
foi que as construções naquela região de- day foi por helicóptero. Ali encontramos
veriam resistir a ventos superiores a 250 jovens alegres que ocupavam o lugar por
km/h (numa última ventania, o vento dois anos. Mantinham um forte vínculo
atingira 220 km/h) e que o grupo gera- com suas origens e o fato de trabalharem
dor era o equipamento mais importante durante dois anos naquela inóspita região
no apoio à estação, o qual deveria ficar lhes dava condições a disputar cargos de
bastante afastado do restante das constru- confiança, quando de regresso ao seu país
ções. de origem.
Não me detive na estação russa de Ao visitar a estação norte-americana de
Bellingshausen, pois meu maior interes- Palmer, cujo apoio logístico era feito por
se naquela área era o de visitar as insta- uma empresa privada, tive a curiosidade
lações da base aérea Teniente March. Nas de visitar o campo de pouso, utilizado por
instalações chilenas, fomos recebidos ca- aeronaves do tipo Twin Hotter e similares.
lorosamente e falei ao comandante sobre Um funcionário me conduziu montanha
meu interesse de visitar a pista de pouso. acima num veículo “snowcat”, até o cam-
Relutante, chamou um motorista para me po de pouso, mas não havia sinalização.
conduzir ali. Ao chegar à pista, o moto- Eu quis andar ao longo do campo, total-
rista quis percorrer a mesma com o carro. mente coberto de neve. O funcionário,
Disse-lhe que eu era um andarilho e pre- relutante, acompanhou-me. Porém, logo

44 Revista do Clube Naval • no 405


desistimos porque nada havia para ver numa imensidão, livre de montanhas e
ali, a não ser neve. A água para o consu- propícia para operações aéreas, bastando
mo era obtida através de equipamento de apenas regularizar a superfície - de modo
dessalinização. A comunicação era feita, a manter por igual a espessura da neve -,
entre outros equipamentos, pelo velho necessitando apenas de ajudas visuais e
transmissor do tipo TR-1K, ainda funcio- eletrônicas, além da comunicação.
nando a contento, enquanto seus simila- Naquela mesma tarde, empreendemos
res da Força Aérea Brasileira (FAB) esta- nossa apressada volta ao continente, ante
vam desativados, por obsoletos. a previsão de uma frente atmosférica de
De regresso ao continente, o mar esteve baixa pressão. Então, aconteceu o inespe-
mais revolto que durante a ida. Na altura rado: falha do motor principal. Ficamos
do Canal de Beagle, estive reunido com à deriva. O heroico oficial de máquinas e
o então Capitão de Corveta Calazans e sua equipe trabalharam incansavelmen-
o saudoso Tenente-Coronel Bini, para te por mais de 24 horas para recuperar o
elaborar um relatório sobre a viagem. Eu, motor.
como relator, trabalhando de cabeça abai- Entrementes, vazou a informação na
xada, sofri meu primeiro e único enjoo imprensa de que estaríamos à deriva no
durante a viagem. meio do gelo. Soube depois que minha fi-
Durante a segunda etapa da viagem lha, ao ouvir a notícia, começou a chorar,
pelo Mar de Weddell, no dia 5 de feverei- enrolou-se numa camisa minha e conti-
ro, atravessamos a linha do Círculo Polar nuou seu incontido choro.
Antártico. Aquele dia foi considerado fe- Navegávamos sob forte turbulência
riado e ouve festanças no navio, ao som marítima e, na calada da noite, ouviu-se o
de gaita, violão e gaita de boca. trinado dos três toques de sirene, que de-
No dia seguinte, o Comandante Pastor notava a premente necessidade de aban-
nos reuniu para a tomada de uma decisão: donar o navio. Foi um falso alarme. Ape-
estávamos nos aproximando da estação nas tinha havido falhas no equipamento
alemã de Neumayer, mas havia ocorrido de segurança.
uma falha em um dos dois geradores do O legendário NApOc “Barão de Teffé”
navio. Queria a nossa opinião. Optamos nos pregou sustos, mas também nos pro-
por prosseguir a viagem e visitar a esta- porcionou alegrias, por conhecer frater-
ção. nais amigos e amigas, com os quais tive a
Como havia pressa para iniciar a vol- grata oportunidade de aprender e trocar
ta ao continente, ficou estabelecido que ideias.
somente um pequeno grupo faria a visita Agora, passados quarenta anos da-
à estação alemã. Fui contemplado e em- quele memorável périplo e com a minha
barquei no helicóptero que, minutos de- memória já embaçada pela idade, cabe-
pois, pousou naquela plataforma de gelo -me render minhas homenagens póstu-
coberta de neve. Nas três horas e meia em mas aos que nos deixaram e desejar que
que permaneci naquela estação, pude no- o PROANTAR prossiga com muito êxito
tar alguns aspectos da infraestrutura uti- na sua determinação em firmar o Bra-
lizada para a manutenção das instalações, sil nessa nobre atividade, em benefício à
que estavam situadas abaixo do nível da Ciência, ao conhecimento dos efeitos da
superfície coberta de neve e contidas no natureza sobre nosso país e na preserva-
interior de estruturas de aço, as quais ção ambiental daquele continente. ■
consistiam em tubulões, semelhantes aos
do tipo ARMCO. Ali os tripulantes mo-
ravam e trabalhavam confortavelmen- * Tenente-Coronel Engenheiro da FAB,
te. Notei também que, longe da estação, Representante do Ministério da Aeronáutica
estava instalada a usina de força. A área na Primeira Expedição Brasileira à Antártica,
da estação e proximidades ficava situada a bordo do NApOc "Barão de Teffé"

Revista do Clube Naval • nº 405 45


200 ANOS DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL

O BRASIL TAMBÉM É ANTÁRTICA


PROANTAR COMEMORA 40 ANOS
DE ATIVIDADES NA REGIÃO AUSTRAL

Marco Antônio Linhares Soares*

J á se passaram quarenta anos desde que


os pioneiros brasileiros deram seus pri-
meiros passos no solo gelado da Antár-
tica, ambiente inóspito e praticamente
desconhecido por nossos compatriotas. A
celebração do 40º aniversário do Programa
Antártico Brasileiro (PROANTAR) consti-
tui uma oportunidade para uma reflexão so-
bre o passado, avaliar o caminho percorrido
e pensar sobre o futuro de nossa presença
na Antártica.

ESTRUTURAR E IMPLEMENTAR
UM PROGRAMA DE ESTADO

Reconhecendo a relevância e a amplitude da


influência antártica para o desenvolvimento na-
cional, o Brasil aderiu ao Tratado da Antártica
em 1975. Negociado em plena Guerra Fria por
doze países, este acordo singular, que rege um
continente inteiro sem população permanente,
em 1959 estabeleceu um quadro jurídico para a
governança antártica e abriu um novo capítulo
de cooperação multinacional naquela região. O
tratado abrange a área ao Sul do paralelo 60° S e
é notavelmente curto: contém apenas quatorze NApOc "Barão de Teffé" e
artigos e estabelece a importância das pesquisas NOc "Professor Wladimir Besnard"
científicas e da preservação daquele continente Arquivo SECIRM/PROANTAR
para toda a humanidade, devendo prevalecer a
primazia da liberdade científica, cooperação e de janeiro de 1982, partiu do Almirante de Es-
pacificidade, sobre quaisquer interesses econô- quadra Maximiano Eduardo da Silva Fonseca,
micos, territoriais ou políticos. Ministro da Marinha de 1979 a 1984, que inse-
Atualmente conta com 55 países aderentes, riu o Programa no âmbito da Comissão Inter-
sendo 29 deles membros consultivos, incluído o ministerial para os Recursos do Mar (CIRM).
Brasil, que atendem aos critérios de engajamen- Ele priorizou, ainda, recursos para a aquisição
to científico necessários para garantir o direito do Navio de Apoio Oceanográfico “Barão de
a voz e voto nas decisões sobre o futuro do Con- Teffé”, permitindo a realização de uma inédita
tinente Branco e suas águas circundantes. expedição antártica brasileira, a primeira Ope-
A iniciativa de criar o PROANTAR, em 12 ração Antártica (OPERANTAR I), no verão de

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1982/1983, da qual participou também o Navio últimos anos, o turismo e a bioprospecção an-
Oceanográfico “Professor Wladimir Besnard”, tárticos apresentaram franca ascensão, o que in-
da Universidade de São Paulo - um claro indica- dica que a ocupação e o gerenciamento do Sexto
tivo, desde o início das atividades nacionais na- Continente podem sofrer diferentes pressões,
quela região, da sinergia que permeia a relação incluindo aumento da quantidade e, conse-
entre pesquisadores, marinheiros, a diploma- quentemente, da heterogeneidade e diversidade
cia, o esforço logístico e a academia científica. das partes contratantes; a possibilidade de no-
Fruto deste trabalho conjunto e complementar, vos usos e interesses econômicos dos recursos
o PROANTAR se desenvolveu num contexto naturais antárticos; e a renegociação do status
altamente interdisciplinar e colaborativo, com de espaço isento de jurisdição clara de um Esta-
parcerias em diferentes instâncias do governo e do, representando novos desafios para o Brasil e
com instituições de pesquisa de todas as regiões para os demais países membros do tratado.
do Brasil, além de efetivas cooperações interna-
cionais. VIVER E TRABALHAR NA ANTÁRTICA
Todas as atividades a serem desenvolvidas
pelo Brasil na Antártica passam pela análise do A Estação Antártica Comandante Ferraz
Grupo de Assessoramento, a cargo do Ministé- (EACF) foi estabelecida na Península Keller,
rio da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), Baía do Almirantado, na Ilha Rei George do
que aprecia o mérito científico das propostas arquipélago das Shetlands do Sul. Seu nome é
de projeto; do Grupo de Avaliação Ambiental, uma homenagem ao Capitão de Fragata Luiz
sob a gestão do Ministério do Meio Ambiente Antônio de Carvalho Ferraz, oficial hidrógrafo
(MMA), que identifica os possíveis impactos e um dos pioneiros no pensamento e nas ativi-
no meio ambiente antártico e ecossistemas de- dades brasileiras na região antártica. Instalados
pendentes e associados, e sugere medidas de no verão de 1984, os modestos oito módulos,
mitigação; e do Grupo de Operações, coorde- com cerca de 150 m2, contavam com casa de
nado pela Marinha do Brasil (MB), que avalia a motores, dormitórios, cozinha, refeitório, equi-
exequibilidade logística e planeja as Operações pamentos de radiocomunicação e sistema de
Antárticas. aquecimento de neve e gelo para abastecimento
O PROANTAR continua sendo o principal de água.
instrumento para a implementação da Política Ademais, a localização da EACF é privilegia-
Nacional para Assuntos Antárticos (POLAN- da, inserida numa baía de boa tença. Cercada
TAR), aprovada em 1984 e atualizada em junho por elevações, proporciona uma área marítima
de 2022, e para a continuidade da presença do relativamente abrigada para fundeio dos navios
Brasil na região. Adicionalmente, em 2013 a de apoio e manobra de chatas para transporte de
Antártica foi incluída como área estratégica de carga; uma orla pouco acidentada que facilita o
interesse na Política Nacional de Defesa, ini- apoio logístico a partir do mar; e a disponibili-
ciativa justificada devido à aproximidade e in- dade de água proveniente de dois lagos naturais
fluência que o Continente Antártico tem sobre existentes nos arredores, além da proximidade
as atividades econômicas e humanas do Brasil. da pista de pouso chilena na Base “Presiden-
Reconhecendo essa importância, salienta-se a te Eduardo Frei Montalva”. A fim de atender a
constituição, em 2007, da Frente Parlamentar crescente demanda das pesquisas, as estruturas
Mista de Apoio ao PROANTAR, atualmente foram gradativamente ampliadas com o passar
composta por cerca de trezentos parlamentares, dos anos, possibilitando a primeira invernação
que tem por objetivo atuar junto aos diversos de um Grupo-Base em 1986. Desde então, a
entes governamentais para auxiliar no levanta- Bandeira brasileira esteve permanentemente
mento de recursos e assistência aos interesses hasteada na Antártica.
do Programa. Após extenuante processo de modernização,
Este Programa de Estado interinstitucional, as novas instalações da casa do Brasil na Antár-
conduzido por múltiplos atores, permite que tica foram inauguradas em janeiro de 2020. A
o Brasil esteja inserido nas discussões de mais estação dispõe de amplas instalações que aliam
alto nível relacionadas à geopolítica dos ocea- tecnologia e sustentabilidade, disponibilizando
nos, especificamente do Oceano Austral, e seja aos homens e mulheres que nela trabalham de-
participante efetivo da diplomacia científica, zessete laboratórios equipados no estado da arte,
que baliza grande parte das decisões no âmbito sistemas automatizados que garantem maior
do Sistema do Tratado da Antártica (STA). Nos segurança, conforto e melhores condições de

Revista do Clube Naval • nº 405 47


habitabilidade e de labor. Além desses, quatro la, que possibilitam a realização de atividades
módulos de pesquisa distribuídos nos arredores científicas em diferentes sítios antárticos. Situ-
da EACF permitem a realização de atividades ado no interior da Antártica, a cerca de seiscen-
diversas, desde coletas e observações manuais tos quilômetros do Polo Sul geográfico, encon-
até a obtenção de dados de forma automática e tra-se em funcionamento o módulo Criosfera 1
remota, ampliando, consideravelmente, suas ca- que, operando de forma contínua e autônoma,
pacidades de pesquisa. Sob o olhar das direto- envia dados atmosféricos e meteorológicos que
rias especializadas da MB e execução da manu- são usados por pesquisadores em todo o mun-
tenção por parte do Arsenal de Marinha do Rio do. Na temporada 2022/2023 foi instalado o
de Janeiro, abrem-se novos desafios técnicos módulo Criosfera 2 no interior do continente, o
para a manutenção da nova estação, incluindo a que permitirá a interligação em rede com pro-
qualificação de pessoal frente as modernas tec- jetos multilaterais para compartilhamento e in-
nologias lá instaladas, e o desenvolvimento de tegração dos dados obtidos. O desbravamento
soluções logísticas para uso na Antártica. de outros sítios antárticos, com a possibilidade
Há ainda outras estruturas mantidas pelo de instalação de novos refúgios, ampliará e di-
Brasil na Antártica, como os refúgios nas Ilhas versificará a abrangência das frentes científicas
Nelson e Elefante e os acampamentos temporá- e logísticas do PROANTAR.
rios montados em regiões isoladas da Penínsu- A realização de voos de apoio logístico pela
Força Aérea Brasileira permi-
te o transporte de material e
Módulo Científico Criosfera 2 pessoal, do território nacional
Foto: Jefferson Simões até o aeródromo chileno, na
Antártica. Durante o inverno,
quando a Baía do Almiranta-
do congela, impossibilitando
o acesso dos navios, o lança-
mento por paraquedas garante
o reabastecimento de gêneros
frescos, medicamentos, sobres-
salentes e outros itens necessá-
rios ao Grupo-Base da estação.
Em 2021, as novas aeronaves
KC-390 Millennium, de fabri-

Estação Antártica
Comandante Ferraz
Foto: Edson Vandeira

48 Revista do Clube Naval • no 405


NPo "Almirante Maximiano"
e NApOc "Ary Rongel" na
Baía do Almirantado
Arquivo SECIRM/PROANTAR

cação nacional, passaram a ser empregadas nas


atividades aéreas, substituindo o modelo C-130
Hercules. Os novos aviões já estão homologa-
dos para o lançamento de cargas e há previsão
de que a certificação para pouso na Base Frei
seja obtida em breve.
O Navio Polar “Almirante Maximiano” e o
Navio de Apoio Oceanográfico “Ary Rongel”
realizam, durante o período de verão, o deslo-
camento de pesquisadores para instalação de
equipamentos e coleta de amostras, além do de-
senvolvimento de pesquisas a bordo e do apoio
logístico para manutenção da infraestrutura do
País no Continente Gelado, e dos levantamen-
tos hidrográficos essenciais para aprimorar a
segurança da navegação, a salvaguarda da vida
no mar e a proteção do meio marinho dos ma-
res austrais. Somam-se a esses, dois helicópte-
ros UH-17 que promovem maior flexibilidade
e agilidade às atividades de campo. A partir de
2025, está prevista a incorporação do novo na-
vio “Almirante Saldanha”, que substituirá o “Ary
Rongel”, sendo construído em território nacio-
nal, impulsionando a indústria naval brasileira
e gerando milhares de empregos. O novo meio,
genuinamente dedicado às lides antárticas, pos-
sibilitará ao PROANTAR aumentar as compe-
tências da Marinha na região austral, podendo
navegar em águas com formação de gelo mais
resistente, ostentando orgulhosamente o pavi-
lhão auriverde, difundindo as capacidades de Trator Caterpillar D5, fundamental
nosso país e promovendo a cooperação entre os nas tarefas logísticas do PROANTAR
demais signatários do tratado.

Revista do Clube Naval • nº 405 49


CONHECER PARA PROTEGER

Várias instituições de ensino


e pesquisa de todo o Brasil têm
participado ativamente do PRO-
ANTAR desde a década de 80.
Diferentes áreas do conhecimen-
to foram estudadas com sucesso
ao longo dos anos, resultando em
um programa consolidado com
intensa produção acadêmica,
contribuindo significativamente
para a ciência antártica, com de-
senvolvimento de pesquisa cientí-
fica relevante por brasileiros.
Nos dias atuais, a ciência an-
tártica, coordenada pelo MCTI e
pelo Conselho Nacional de De-
senvolvimento Científico e Tecno-
lógico (CNPq), torna-se cada vez
mais importante, especialmente
ao tentar responder as principais
questões relacionadas às mudan-
Visita do Grupo-Base da EACF à ças climáticas. Ademais, os pro-
estação polonesa Arctowski cessos atmosféricos, biológicos, criosféricos,
ambientais e oceânicos, que ocorrem naquela
Na EACF, diferentes tipos de veículos e em- região, afetam diretamente o território brasilei-
barcações são utilizados para o suporte às ati- ro. Por isso, compreender a Antártica e o Oce-
vidades científicas e logísticas, e nas rotinas ano Austral nos ensina sobre o passado e nos
operacionais. Condições específicas do terreno, ajuda a prever nosso clima e meio ambiente fu-
com presença de neve e gelo, podem exigir ajus- turos, tanto em escala doméstica quanto global.
tes especiais como menor pressão nos pneus, Somado a isso, a Antártica tem possibilitado o
instalação de correntes, velocidades restritas ou desenvolvimento de pesticidas e herbicidas me-
uso de acessórios e equipamentos de segurança. nos tóxicos, a formulação de medicamentos ve-
O uso dos equipamentos requer pessoal habili- terinários mais eficientes, a criação de plantas
tado e obedece a requisitos de segurança para geneticamente modificadas mais resistentes ao
evitar danos à vegetação ou acessórios de pes- frio e à escassez de água e nutrientes, alterações
quisa instalados nos arredores da estação. no comportamento humano em ambientes ex-
A Universidade Federal do Rio Grande tremos, desenvolvimento tecnológico e diversos
(FURG) mantém ativa, desde o início do Pro- outros conhecimentos com aplicação efetiva em
grama, uma Estação de Apoio Antártico no seu ramos tão distintos quanto a indústria, a medici-
campus, a ESANTAR-RG, que atua no apoio, na e o agronegócio. Os estudos de oceanografia
distribuição e manutenção do material cientí- permitem compreender a dinâmica da corrente
fico e logístico do PROANTAR, com especial circumpolar antártica, que se encarrega de nu-
atenção às vestimentas especiais para o frio e trir o oceano, por meio das quatro correntes frias
ao material destinado aos acampamentos an- que dela derivam e costeiam a América do Sul, a
tárticos. Aliado a esse esforço logístico, foi es- África e a Austrália, propiciando a vida no mar.
tabelecida, em 2009, a ESANTAR-Rio, com a A edição do Plano de Ação para a Ciência An-
função de planejar e executar o armazenamento tártica 2023-2032, sob a coordenação do Comitê
e a movimentação de cargas, entre o Brasil e a Nacional de Pesquisas Antárticas (CONAPA),
região antártica, além de realizar o treinamento leva em consideração os eixos temáticos prio-
pré-antártico, atualmente conduzido no Centro rizados pelo Comitê Científico de Pesquisa An-
de Avaliação da Ilha da Marambaia, com o fito tártica (SCAR), almeja maior diversidade e am-
de preparar militares da MB e civis para o perí- plitude para a pesquisa científica brasileira no
odo que permanecerão na Antártica. próximo decênio, contemplando estudos volta-

50 Revista do Clube Naval • no 405


matéria antártica pelo Brasil com Argentina,
Chile e Turquia. Cabe ressltar a longeva e efeti-
va coordenação científica, logística, ambiental e
educacional do PROANTAR com outros atores
antárticos, especialmente os latino-americanos.
Vale destacar o excelente relacionamento com
os programas antárticos da Polônia, que man-
tém a estação permanente Arctowski, a cerca de
10km da EACF, e do Peru, cuja estação sazonal
Machu Picchu encontra-se a 5 km de distância.
A preocupação ambiental esteve presente
Pesquisas de desde as primeiras ações brasileiras na Antárti-
campo do Brasil ca. Sob a coordenação do MMA, todas as ativi-
na Antártica dades científicas ou logísticas, governamentais
ou não, são previamente avaliadas quanto ao
previsto no Protocolo de Madri. Dessa forma,
o monitoramento e acompanhamento das ati-
vidades, realizadas em nossa área de atuação,
garantem que eventuais alterações no meio am-
biente antártico sejam as menores possíveis, em
função da nossa presença naquele local.
O Brasil tem uma forte presença na região an-
tártica, cuja importância como reserva natural
para a humanidade é incontestável, haja vista a
existência de grande quantidade de água doce
e de outros recursos vivos e não vivos, além de
exercer notável influência em fenômenos no
Hemisfério Sul e no regime de águas dos ocea-
nos. Nossa estação de pesquisa permanente, as
atividades logísticas e operacionais complexas
dos para as áreas das ciências sociais, além de e a ciência relevante desenvolvida nos colocam
investigações sobre as inegáveis interconexões na vanguarda do envolvimento internacional
entre as duas regiões polares. Além disso, é pre- na Antártica. Tais fatos nos demanda pensar em
ciso fortalecer as estratégias de divulgação das ações de médio e longo prazo que permitam a
atividades realizadas pelo País na região, a fim expansão da área de atuação do PROANTAR,
de demonstrar a importância geopolítica, eco- como o aumento das pesquisas oceanográfi-
nômica e ambiental da Antártica e confirmar a cas e geológicas no mar austral, e da projeção
relevância do investimento estratégico-militar geopolítica do País em questões antárticas. E
e científico-acadêmico do Estado brasileiro no considerar, ainda, o incremento da cooperação
PROANTAR, que garante ao Brasil a condição internacional; a modernização dos meios e re-
de membro consultivo do Tratado da Antárti- quisitos mais elevados de logística para a atu-
ca desde 1983, com o direito de participar ati- ação em outras áreas do Continente Gelado; a
vamente das decisões do futuro do Continente formação adequada e continuada de recursos
Branco. humanos; e as estratégias de financiamento sus-
O fortalecimento dos interesses brasileiros tentado ao longo do tempo. Dessa forma, com
naquela região, levando em consideração as pe- presença permantente na Antártica e em suas
culiaridades do regime político-legal estabeleci- águas cicundantes, o nosso país terá voz ativa
do para lidar neste ambiente longínquo e inós- nos destinos do sexto continente, um objetivo
pito, será potencializado com o incremento de inafastável, um compromisso assumido em prol
sinergias com programas antárticos de outros das gerações futuras. ■
países, com foco na construção de coalizões de
nações que compartilham os mesmos interes-
ses e que podem reforçar nossa capacidade de
interlocução e negociação no âmbito do STA. * Contra-Almirante, Secretário da Comissão
Exemplo recente são os acordos celebrados em Interministerial para os Recursos do Mar

Revista do Clube Naval • nº 405 51


200 ANOS DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL

A OPERAÇÃO ANTÁRTICA
NA ATUALIDADE
E SUA EVOLUÇÃO AO LONGO DE 40 ANOS DE HISTÓRIA

João Candido Marques Dias*1 que tem levado o Homem, ao longo do tempo,
Carolina Timoteo Silva Louback*2 a vencer suas limitações em prol de cruzar os
mares gélidos e marcar sua presença e contri-

D
buição. Sua conquista, pelo Brasil, não poderia
urante os últimos quarenta anos, ser diferente.
desde a primeira viagem do Navio
de Apoio Oceanográfico (NApOc) OPERAÇÃO ANTÁRTICA NA ATUALIDADE :
“Barão de Teffé” à Antártica, entre PLANEJAMENTO E PREPARAÇÃO
dezembro de 1982 e fevereiro de 1983, muitos
aspectos da preparação e execução da Operação Desde a primeira missão, a OPERANTAR é
Antártica (OPERANTAR) sofreram avanços realizada anualmente, estando em andamen-
significativos, os quais têm contribuído para a to a sua 41ª edição (OPERANTAR XLI), ainda
segurança e aperfeiçoamento das atividades de sendo uma das mais complexas e extensas ope-
pesquisa e apoio logístico. O desenvolvimento rações realizadas pela Marinha do Brasil (MB),
dos modelos meteorológicos, as ferramentas compreendendo planejamento minucioso para
de apoio à decisão, as comunicações satelitais, garantir a atuação do País nesse privilegiado
os laboratórios embarcados e a própria Estação berço natural da humanidade, por meio do
Antártica Comandante Ferraz (EACF), reinau- PROANTAR, levando a efeito nossa presença
gurada em 15 de janeiro de 2020, incorporaram no limite sul do entorno estratégico brasileiro,
evoluções significativas ao longo do período. conforme definido na Política Nacional de De-
Apesar de tantas mudanças, um aspecto per- fesa e no Plano Estratégico da Marinha 2040.
manece imponderavelmente inalterado: o de- Com uma média anual de vinte projetos de
safio de superar a grandeza, as incertezas e os pesquisa em diversas áreas – oceanografia, bio-
superlativos da Antártica, seus fenômenos me- logia, glaciologia, geologia, meteorologia, entre
teorológicos intensos e repentinos. O intento outras –, o PROANTAR representa importan-
de conquistá-la sempre se revestiu de mística, te iniciativa brasileira no âmbito científico, ao

52 Revista do Clube Naval • no 405


passo que a OPERANTAR corresponde à efeti- vegação em águas restritas, fainas marinheiras e
va APLICAÇÃO DO PODER NAVAL em apoio operações logísticas.
às ações do Estado, por meio do envio anual de Os Navios necessitam ter seus sistemas con-
dois Navios da MB, durante um período pouco fiáveis e redundantes. O sucesso do adestra-
superior a seis meses, para operarem ao sul do mento e do período de manutenção influencia
paralelo 60ºS – limite norte do Oceano Antár- diretamente no sucesso da OPERANTAR, es-
tico. pecialmente pelo longo período de afastamento
Quanto aos meios navais, o esforço principal do porto sede e pela elevada exigência do pes-
da OPERANTAR é realizado pelos “Navios Ver- soal e material, submetidos aos extremos me-
melhos” da Diretoria de Hidrografia e Navega- teorológicos da região.
ção (DHN). O NApOc “Ary Rongel”, substituto
do “Barão de Teffé” a partir da OPERANTAR OPERAÇÃO ANTÁRTICA NA
XIII, encontra-se atualmente na sua 29ª expedi- ATUALIDADE: EXECUÇÃO
ção. E o Navio Polar (NPo) “Almirante Maximia-
no”, adquirido após convênios entre a Financia- A partir do suspender dos Navios antárticos,
dora de Estudos e Projetos (FINEP), a Fundação a cinemática para a execução dessas atividades
de Desenvolvimento da Pesquisa (FUNDEP) e a passa a ser definida pela Secretaria da Comis-
MB, encontra-se na sua 14ª operação. são Interministerial para os Recursos do Mar
O planejamento da OPERANTAR começa (SECIRM) e pelo Comandante do Navio, con-
no ano anterior com o processo de seleção dos siderando os fatores de tempo e distância, mas
projetos de pesquisa, via Conselho Nacional principalmente as condições meteorológicas e
de Desenvolvimento Científico e Tecnológico de mar previstas e observadas.
(CNPq), que envolve a análise quanto ao mérito Para viabilizar o desenvolvimento da OPE-
científico, impacto ambiental, disponibilidade RANTAR, a SECIRM emprega três cidades
financeira e de meios para coleta de dados na como apoio logístico principal. O porto mais vi-
região austral. No decorrer do primeiro semes- sitado, como na OPERANTAR I, continua sen-
tre, enquanto os coordenadores dos projetos do Punta Arenas, no Chile. A cadeia logística, a
delimitam as propostas de trabalho e as necessi- presença de empresas de reparos navais e as fa-
dades de apoio, os Navios Polares encontram-se cilidades portuárias continuam atraindo Navios
no regresso ao Rio de Janeiro para o fim da co- de Estado que se fazem à Antártica. A cidade de
missão vigente. Ushuaia, localizada na Terra do Fogo argentina,
Após a chegada dos Navios, em abril, inicia-se é muito utilizada por embarcações turísticas e,
o Período de Manutenção Geral (PMG), sob a por ser a mais próxima da EACF, também é em-
liderança do Arsenal de Marinha do Rio de Ja- pregada por nossos Navios.
neiro (AMRJ) para revisão da propulsão, equi- No Brasil, a cidade de Rio Grande continua
pamentos científicos e dos diversos sistemas au- vocacionada para as atividades antárticas. Além
xiliares. São quatro meses de intensos reparos, da tradicional operação logística das vestimen-
seguidos de um período alocado aos preparati- tas antárticas e embarque de materiais, realiza-
vos finais, constituído do abastecimento de in- dos pela Estação de Apoio Antártico (ESAN-
sumos e gêneros, carregamento do material de TAR), Rio Grande se mostrou um ponto de
pesquisa, vistoria de segurança para operações apoio fundamental, especialmente durante as
aéreas e um árduo, mas necessário, período de OPERANTAR XXXIX e XL, no auge da pande-
treinamento para situações de emergência, na- mia da COVID-19.
Dentre os maiores avanços na execução da
OPERANTAR, podemos citar a evolução das
Navio Polar "Almirante Maximiano" comunicações satelitais e consequente acesso à
e Navio de Apoio Oceanográfico internet na Antártica, bem como aos produtos
"Ary Rongel" na Antártica meteorológicos, e de apoio à decisão, produ-
zidos pelo Centro de Hidrografia da Marinha
(CHM), por Serviços Meteorológicos Maríti-
mos (SMM) de outros países e por plataformas
e aplicativos especializados. No mar, os Navios
possuem acesso ao Sistema de Comunicações
Militares por Satélites (SISCOMIS). Nas proxi-
midades da EACF, possuem acesso a um mo-

Revista do Clube Naval • nº 405 53


Atualmente, a OPERANTAR é di-
vidida em três etapas. A primeira eta-
pa é compreendida entre o suspender
dos Navios, em outubro, até o fim do
ano corrente. A segunda etapa acon-
tece desde o suspender de Punta Are-
nas, após a virada do ano, até a atra-
cação dos navios no Rio de Janeiro,
em abril. Nestas etapas, a Força Aérea
Brasileira (FAB) realiza o Ressupri-
mento Aéreo em seis voos, operando
conjuntamente com os Navios, que
apoiam o translado de material e pes-
soal, tanto na escala em Punta Arenas,
quanto no destino final, na Base chile-
na Presidente Eduardo Frei Montalva,
localizado na Baía Fildes. A terceira
Marcos toponímicos antárticos em homenagem a etapa compreende os meses de abril
personalidades brasileiras enquanto o NApOc "Ary a setembro, no período de inverno, em que a
Rongel" ultrapassa o Círculo Polar Antártico EACF é apoiada exclusivamente pelo lançamen-
to de cargas, por meio das aeronaves da FAB.
derno sistema de telecomunicação, totalmente
nacional. O acesso à internet facilita a troca OPERAÇÃO ANTÁRTICA NA ATUALIDADE:
de informações, dá agilidade aos trabalhos de ATIVIDADES DE APOIO LOGÍSTICO
pesquisa, contribui para reduzir o isolamento
e pode ser utilizado, inclusive, para teleatendi- As atividades na Antártica expandiram-se
mento médico, se necessário. É possível, ainda, significativamente ao longo dos quarenta anos.
obter a previsão de gelo por aprimoradas ima- Em média, a OPERANTAR é constituída de
gens satelitais, fator fundamental para a segu- quatro pernadas, com duração de trinta a qua-
rança da navegação. renta dias, e permanência ininterrupta na An-
Nas operações no mar, o primeiro desafio tártica. São intercaladas por períodos de abaste-
continua sendo a travessia do Estreito de Dra- cimento em Punta Arenas, com duração de dois
ke. A região é conhecida pelas piores condições a quatro dias. Durante os seis meses, os Navios
meteorológicas marítimas do mundo, onde permanecem recebendo energia de bordo e
é comum encontrar ondas de dez metros ou precisam manter seus equipamentos operando
mais. A passagem por esse mar bravio é feita com eficiência. Desde o Motor de Combustão
cerca de dez vezes, por Navio, a cada OPERAN- Principal (MCP) até os equipamentos mais
TAR. Apesar dos atuais recursos tecnológicos, simples, tais como o tratamento de águas servi-
a travessia ainda é sujeita às rápidas mudanças das, a rede sanitária, a produção de aguada, os
do tempo e aos imprevistos, devido à curta ja- equipamentos da cozinha e os aquecedores de
nela de bom tempo existente entre os perigosos água e resistências, precisam operar com con-
sistemas frontais. Para tal, o CHM fornece pre- fiabilidade, sob o custo de comprometerem as
visões meteorológicas relevantes, que auxiliam condições operacionais, ambientais e de habita-
os Comandantes sobre o melhor momento para bilidade do Navio.
realizar a travessia de aproximadamente 500
milhas náuticas (926 km), que separam a Amé- Apoio logístico de transferência de carga
rica do Sul da Antártica. do NApOc "Ary Rongel" para a EACF
Contudo, cada OPERANTAR é única e carre-
ga um incremento de aprendizado. Afinal, ape-
sar de toda tecnologia empregada nos Navios, o
Oceano Antártico se mantém enigmático. Co-
nhecido pela hostilidade e, ao mesmo tempo,
pela intensidade, o mar austral confirma, a cada
ano, o poder da natureza, no seu lado mais pri-
mitivo e imponente.

54 Revista do Clube Naval • no 405


Basicamente, o esforço logístico principal é
realizado pelo NApOc “Ary Rongel”, ao passo
que o apoio à pesquisa tem o NPo “Almirante
Maximiano” como protagonista. No entanto,
ambos os Navios contribuem com as duas ver-
tentes.
Quanto à logística, são realizadas intensas ati-
vidades de apoio à EACF e aos acampamentos,
incluindo trabalhos de reparo nos refúgios an-
tárticos. A transferência de combustível (ODA
– Óleo Diesel Antártico) e de cargas, dentre as
quais veículos e equipamentos que retornam
de reparo no Brasil, e vice-versa, são as princi-
pais. Os helicópteros e botes são empregados no Operações aéreas com UH-17 em
transporte de pessoal e material, atendendo às Marâmbio durante OPERANTAR
demandas logísticas e das atividades de pesquisa.
A despeito da Baía do Almirantado ser um tinente, registrando presença em marcos to-
local privilegiado e abrigado, não é incomum ponímicos antárticos, os quais reverenciam
a ocorrência de ventos catabáticos⁽1), causando personalidades do Brasil que contribuíram para
a reprogramação das atividades. Tais episódios o desenvolvimento da navegação e da ciência
de mau tempo, somados às grandes profundi- na região, como as Ilhas Cruls, batizadas em
dades e poucos fundeadouros adequados, im- homenagem ao astrônomo naturalizado brasi-
pedem o fundeio seguro, forçando os navios a leiro, diretor do Observatório Astronômico Im-
“capearem”⁽2) em águas restritas durante longos perial em 1881; o Monte Rio Branco e o Pico
períodos. Almirante Alexandrino de Alencar, os quais ho-
menageiam, respectivamente, os então Minis-
OPERAÇÃO ANTÁRTICA NA ATUALIDADE: tros das Relações Exteriores e da Marinha, que
ATIVIDADES DE APOIO À PESQUISA apoiaram a expedição francesa de 1908, com
escala no Rio de Janeiro. A região é próxima ao
A pesquisa científica é a atividade que assegu- Círculo Polar Antártico, o qual foi ultrapassa-
ra a permanência do Brasil na Antártica e par- do pelo NApOc “Ary Rongel” na OPERANTAR
te essencial do processo de tomada de decisão XLI, fato não registrado desde 2001.
acerca da região. Nossos Navios são plataformas Para apoiar as atividades científicas, são reali-
essenciais a tal processo, incumbidos de condu- zadas também operações de mergulho antártico
zir cerca de 40% das atividades científicas reali- e operações aéreas por helicópteros para o esta-
zadas. Na EACF, por sua vez, estão concentra- belecimento e retirada de acampamentos. Nesse
das aproximadamente 25% das pesquisas, nos contexto, a MB passou a empregar, a partir de
acampamentos 20%, e nos módulos automati- 2021, novos helicópteros UH-17, trazendo maior
zados 15%. A ampliação do programa dar-se- disponibilidade e confiabilidade às operações.
-á pela expansão da atuação dos meios navais, Por fim, inserida nas atividades a serem rea-
valendo-se das características de mobilidade, lizadas na Antártica, a Hidrografia está presente
flexibilidade, versatilidade e permanência. devido à sua importância para a Segurança da
Os meios navais também contribuem com a Navegação, especialmente, porque ainda há di-
pesquisa ao transportarem amostras, coletadas versas localidades não cartografadas no Oceano
em estações amigas, e no recolhimento de mate- Antártico, sendo, portanto, um elemento funda-
riais de acampamentos realizados em operações mental para a realização das demais atividades
anteriores. No contexto da “Diplomacia Antár- científicas na região. Desse modo, desde a OPE-
tica” para apoio mútuo e cooperação previstos RANTAR I a MB coleta dados batimétricos na
no Tratado da Antártica, são realizadas visitas região, tendo publicado a Carta 25121 da Baía
às instalações das estações e navios estrangeiros, do Almirantado em 28 de setembro de 1984.
a fim de realizar intercâmbio com seus Chefes e Ciente do desafio internacional, a Organiza-
Comandantes, fortalecendo a atuação do Brasil ção Hidrográfica Internacional (OHI) criou, em
e divulgando o PROANTAR. 1992, a Comissão Hidrográfica para a Antártica
Nessas ocasiões, os Navios Antárticos apro- (HCA), da qual o Brasil faz parte. Nesse fórum
veitam para manter a cultura naval no con- são estabelecidos mecanismos de cooperação

Revista do Clube Naval • nº 405 55


CONCLUSÃO

Nos últimos quarenta anos, o Bra-


sil dedicou-se, com grande esforço, a
se integrar definitivamente ao grupo
de países que mantém uma estação
de pesquisa permanente na Antár-
tica, com um consagrado progra-
ma de pesquisas, o PROANTAR. A
OPERANTAR permitiu ao País de-
senvolver a habilidade de operar nas
águas com a presença de gelo. Por
meio do esforço logístico da MB e da
FAB, pesquisadores brasileiros vêm
desenvolvendo, em muitas áreas,
pesquisas de grande valor, reunindo
Plano amostral de Estações Oceanográficas a instituições, universidades e cientis-
bordo do NPo "Almirante Maximiano" tas renomados, promovendo a obtenção do co-
nhecimento e a presença do Pavilhão Nacional
entre os países membros do Tratado Antártico, nas decisões afetas ao continente e ao planeta.
tendo o Brasil aprovado, em 2008, o Plano de Cada operação antártica carrega desafios dife-
Coleta de Dados Hidrográficos para a Antártica rentes ao longo dos quarenta anos de história. O
(PCDH-Antártica), integrado ao III Plano Car- elevado nível profissional dos militares, pesqui-
tográfico Náutico Brasileiro. Nele são contem- sadores e servidores civis que guarnecem nossos
plados Levantamentos Hidrográficos (LH) para Navios e Estação, bem como daqueles responsá-
a construção de seis cartas, das quais quatro in- veis pelo planejamento, manutenção dos meios e
ternacionais (INT), todas já editadas pela DHN, apoio logístico, reforçam, a cada dia, a visão e a
em papel e em formato eletrônico. Além dessas, convicção do Estado brasileiro e da Marinha do
outras duas estão planejadas pela HCA, a serem Brasil sobre a importância científica e geopolítica
produzidas em conjunto com o Chile – INT da Antártica, a qual muito nos tem a ensinar so-
Charts 9151 e 9152 –, as quais estão sendo levan- bre o clima, a ciência e a humanidade. ■
tadas pelos Navios durante a OPERANTAR XLI. Durante os últimos quarenta anos, desde a pri-
NOTAS
me Durante os últimos quarenta anos, desde a
(1) É o nome técnico dado a um vento de alta densidade
PERSPECTIVAS PARA O FUTURO primeira viagem do Navio de Apoio Oceanográ-
descendo uma encosta. Superam os 200 km/h, já tendo sido
fico (NApOc) “Barão
registradas velocidades dekm/h
de 380 Teffé” à Antártica, entre
Em 2022 foi iniciada a execução de contrato, (2) Capear é pôr o navio à capa, ou seja, é manter o navio com
com duração de 36 meses para construção, nas a proa chegada ao vento para aguentar o mau tempo, com
instalações do Estaleiro Jurong-Aracruz, em pouco seguimento. Corresponde a um conjunto de manobras
Aracruz (ES), de um Navio de Apoio Antártico que permita à embarcação resistir a um temporal
(NApAnt), denominado “Almirante Saldanha”, REFERÊNCIAS
justa homenagem ao Contra-Almirante Luiz ANDRADE, Israel de Oliveira et al. O Brasil na Antártica: A
Filipe de Saldanha da Gama que, como Capitão Importância Científica e Geopolítica do Proantar no Entorno
de Fragata, comandou a Corveta “Parnaíba”, em Estratégico Brasileiro. Instituto de Pesquisa Econômica Aplica-
1882, durante expedição a Punta Arenas, na- da, Brasília, 2018.
vegando pelo Estreito de Magalhães e costa da DIAS, João Candido Marques. 10 Anos do Navio Polar Almirante
Maximiano: centenário de nascimento. Rio de Janeiro: Serviço
Patagônia, a fim de realizar observações astro- de Documentação da Marinha, 2019.
nômicas sobre a passagem de Vênus pelo disco ADRIÃO, Paulo Cezar de Aguiar; FONSECA, Luiz Fernando
solar, tendo a bordo o Dr. Luiz Cruls. Palmer. História da Hidrografia no Brasil: volume II: a época do
Assim, a Marinha contará com um meio mo- ecobatímetro. Niterói: DHN, 2021.
derno e adequado ao cumprimento de missões
no Continente Antártico, em especial ao apoio
à EACF, contribuindo também para a segurança *1 Capitão de Mar e Guerra, Comandante do
da navegação, por meio da realização de levan- Grupamento de Navios Hidroceanográficos
tamentos hidrográficos. *2 Primeiro-Tenente (QC-IM), Ajudante da
Subseção de Obtenção do Grupamento de Navios
Hidroceanográficos

56 Revista do Clube Naval • no 405


200 ANOS DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL

O BICENTENÁRIO DA ESQUADRA E O
CORPO DE INTENDENTES DA MARINHA
Atividades de contabilidade e
finanças no desenvolvimento
do Poder Naval brasileiro

Mauro Tavares dos Santos Junior *1


Marcelo Vallim Filgueiras *2

D
urante muitos anos, disseminou-se
no imaginário nacional o mito de
que a Independência do Brasil tenha
ocorrido de maneira pacífica, sem o
derramamento de sangue. A História mostra,
entretanto, um contexto diferente: os aconteci-
mentos de 7 de setembro de 1822, na verdade, Nau "Pedro I", primeiro capitânia da Esquadra
desencadearam uma sucessão de conflitos entre Imperial pintado por Eduardo Martino
forças portuguesas e brasileiras que se estende- Acervo: Museu Naval

Revista do Clube Naval • nº 405 57


ram até 1824, deixando um saldo de milhares tropas e bloqueio marítimo que culminaram na
de mortos. A participação da recém-criada Es- ruptura das linhas de abastecimento portugue-
quadra Brasileira foi primordial no desenrolar sas e impediram o envio de reforços às áreas de
do processo de independência, ajudando a dis- resistência.
seminar a notícia para os diversos pontos do Embora a Esquadra Brasileira tenha nascido
Império e assegurando a unidade territorial da em 1822, as atividades da Intendência da Ma-
nova nação. Acompanhando o Poder Naval bra- rinha são bem mais antigas: remontam a 1770,
sileiro desde o seu nascimento, a Intendência da quando o Rei Dom José I e o Secretário de Es-
Marinha contribuiu sobremaneira na superação tado Dom Sebastião José Carvalho e Mello, o
dos desafios iniciais da jovem esquadra impe- Marquês de Pombal, assinaram, em Lisboa, o
rial, batizada sob o fogo da batalha contra os Alvará Régio instituindo o cargo de “Intendente
portugueses. da Marinha e Armazéns Reais” e, consequente-
O principal desafio nos primeiros meses após mente, lançaram a pedra fundamental do Servi-
a declaração de independência era instituir a ço de Intendência Naval. Em seus primórdios,
autoridade do novo governo em todo o País. cabia ao intendente cuidar das receitas da Co-
Embora a região do centro-sul tenha aderido roa e do patrimônio da Marinha portuguesa no
prontamente à causa da independência, persis- Brasil, coordenando atividades diversas, que
tiam focos de resistência portuguesa nas pro- iam desde a fiscalização da exploração de ma-
víncias do Maranhão, Pará, Cisplatina e, prin- deira à administração dos hospitais militares da
cipalmente, na Bahia, reforçando os riscos de colônia.
fragmentação territorial. No Brasil desta época, O vínculo entre os intendentes e a Esquadra
as estradas eram poucas e precárias, e as linhas seria reforçado com a instituição, em 1797, do
de comunicação marítimas, que conectavam os cargo de Comissário, com a responsabilidade
centros urbanos dispostos pelo extenso litoral, de conduzir a arrecadação e controlar as des-
mostravam-se fundamentais para a administra- pesas relacionadas aos gêneros alimentícios dos
ção do País. Recairia sobre a Marinha a grande navios de guerra, dentre outras atribuições de
responsabilidade de anunciar o rompimento natureza contábil e financeira. A criação dos
com Portugal e assegurar a união territorial do Comissários é um marco da estruturação da In-
Império. tendência da Marinha por representar o início
O início da Marinha do Brasil (MB) ocorreu do efetivo embarque dos intendentes a bordo
pela incorporação dos navios portugueses, que dos navios da Esquadra.
se encontravam no Rio de Janeiro, e pela assi- Tendo dado seus primeiros passos com a in-
milação de navios em construção no Arsenal dependência, a Esquadra Brasileira foi, durante
da Corte. Esta esquadra híbrida, permeada pela todo o Império, peça fundamental na política
doutrina e tradições lusitanas e ainda tripulada externa nacional, sendo empregada em prol dos
por muitos portugueses, teve seu evento pre- interesses do Brasil em diversas ocasiões, como
cursor em 10 de novembro de 1822, quando a na Guerra da Cisplatina (1825-1828) e na Guer-
Nau “Martim de Freitas”, rebatizada de “Pedro ra contra Oribe e Rosas (1850-1852). Seu maior
I”, teve a bandeira imperial içada pela primeira desafio, entretanto, se deu em 1864, quando
vez, suspendendo em seguida rumo à Cisplati- forças paraguaias do ditador Solano López in-
na para combater os portugueses como o pri- vadiram o Mato Grosso e o Rio Grande do
meiro navio Capitânia da Esquadra. Sul, dando início à Guerra da Tríplice Aliança
O nascimento da Esquadra deu-se, portan- ou, como mais conhecida, Guerra do Paraguai
to, sob circunstâncias bastante desfavoráveis, (1864-1870). Este conflito, considerado o maior
marcado pela escassez de meios materiais, hu- da América do Sul, opôs o Paraguai a uma coali-
manos e financeiros e pela iminência de um zação composta por Brasil, Argentina e Uruguai
conflito que poderia, se prolongado, culminar e, ao longo de cinco anos de combate, deixou
no desmembramento precoce da nova nação. centenas de milhares de baixas, marcando pro-
Diante dessas adversidades, a atuação da In- fundamente a trajetória das nações envolvidas.
tendência da Marinha na administração finan- As ações navais foram extremamente impor-
ceira foi decisiva, possibilitando a aquisição de tantes na definição dos rumos do conflito: os
suprimentos e munição, a contratação de pes- rios eram as principais vias de comunicação da
soal estrangeiro e a aquisição de novos navios e região e as embarcações precisavam transpor-
prontificação dos meios em reparo. O resultado tar os suprimentos para as tropas, o carvão para
desses e de outros esforços permitiram à Mari- servir como combustível dos próprios navios e,
nha Imperial efetuar as ações de transporte de muitas vezes, soldados, cavalos e armamento.

58 Revista do Clube Naval • no 405


No início da guerra, a Argentina detinha uma
Marinha bastante diminuta, fazendo com que o
esforço naval fosse quase totalmente brasileiro.
A Intendência da Marinha, à época da eclo-
são do conflito, já havia mudado bastante em
relação ao período colonial e as atribuições dos
intendentes tinham se ampliado, contemplan-
do a “fiscalização e administração das receitas,
despesas e arrecadação; e toda a contabilidade,
além da aplicação das somas previstas na lei de
orçamento”.
Encarregada de suprir as forças navais bra-
sileiras, a Intendência da Marinha deparou-se,
neste conflito, com circunstâncias logísticas
especialmente desafiadoras: combates prolon-
gados; longas distâncias para os locais de abas-
tecimento; atuação em terreno ocupado pelo
inimigo e de reduzida mobilidade por terra tor-
navam o abastecimento da Esquadra perigoso e
difícil. As vias fluviais possuíam problemas de
navegabilidade, com muitos bancos de areia,
sendo necessário, muitas vezes, recorrer à uti-
lização de práticos estrangeiros, o que reduzia
a agilidade do atendimento das demandas dos
navios na área de operações.
Os desafios logísticos demandaram a criação
de um órgão específico para organizar a ação da
intendência na zona de conflito. Assim nasceu
a Repartição Fiscal e Pagadoria da Marinha: se-
diada primeiramente em Buenos Aires, e pos-
teriormente, em Montevidéu, essa Repartição
desempenhou a função de braço avançado da
intendência na área de combate, centralizando a
fiscalização das despesas, a obtenção e forneci-
mento de material e a realização dos pagamen-
tos à Esquadra em guerra.
Operações de Guerra Carta régia manuscrita
Dentre as muitas tarefas desempenhadas pela
(DNOG), na 1ª Guerra comunicando a nomeação
Repartição Fiscal e Pagadoria, destacam-se, no
Mundial (1ª GM). Con- de Rodrigo de Almeida
tocante às atividades contábeis e financeiras, a
tando com dois cruza- da Costa para o cargo de
remessa regular de recursos para o pagamento
dores, quatro contrator- Intendente da Marinha e
dos soldos e vencimentos do pessoal da Esqua-
pedeiros, um tender e Armazéns Gerais
dra e o ajuste das contas dos oficiais e praças da
Armada que se retiravam para a Corte, ambas um rebocador, a DNOG
importantes para a manutenção do moral das suspendeu em agosto
tropas. Em relação à aquisição de gêneros, a ca- de 1918 rumo a Gibraltar, com a missão de pa-
pacidade dos intendentes em negociar contra- trulhar o Atlântico Sul em apoio ao esforço de
tos junto aos fornecedores e evitar a cobrança guerra aliado. Em sua valorosa participação, a
de preços abusivos, num ambiente de elevada Esquadra Brasileira teve de enfrentar, além da
especulação comercial decorrente do prolonga- ameaça submarina alemã, a devastadora Gripe
mento do conflito, foi fundamental para evitar o Espanhola, que vitimou cerca de 180 combaten-
desabastecimento da Esquadra. tes. A atuação da intendência na prontificação
Após a efervescência das campanhas milita- dos navios designados para a DNOG foi marca-
res do século 19, a Marinha registrou um bre- da pelas dificuldades na aquisição de suprimen-
ve período de relativa tranquilidade nos anos tos, em especial o carvão que movia os navios a
posteriores, interrompido pela participação vapor, numa época em que o Brasil era bastante
da Esquadra, por meio da Divisão Naval de dependente de fornecedores estrangeiros.

Revista do Clube Naval • nº 405 59


Duas décadas depois do fim da 1ª GM, o çamentária vigente apontava para a aplicação
mundo mergulhava em um novo conflito glo- do orçamento por item de despesa, técnica que
bal, com o início da 2ª Guerra Mundial (2ª não permitia uma clara associação entre a alo-
GM). Com a entrada do Brasil na guerra, nossa cação dos recursos e os objetivos e prioridades
Marinha foi novamente acionada, atuando com institucionais. A histórica escassez de recursos
sucesso na proteção do tráfego marítimo e na orçamentários já se fazia presente, e as dificul-
escolta do transporte das tropas da Força Expe- dades no planejamento orçamentário faziam
dicionária Brasileira (FEB) até Gibraltar. Tam- com que os recursos disponíveis acabassem não
bém nesta ocasião, o trabalho e empenho dos atendendo às reais necessidades, gerando im-
intendentes se fizeram presentes, adquirindo pactos negativos para a Marinha. A instituição
os suprimentos e recursos necessários para as do SPD representou um avanço na gestão da
ações navais exitosas da Esquadra. MB, dotando-a de uma metodologia capaz de
Ao longo do século 20, a Esquadra moderni- conciliar as necessidades da Esquadra à realida-
zou-se e passou por pro- de orçamentária.
fundas transformações, As iniciativas da inten-
buscando manter-se em dência na busca pelo me-
condições de contrapor- lhor serviço à Esquadra
-se às novas ameaças, também se estenderam ao
cada vez mais comple- campo da contabilidade:
xas e difusas. Esta nova foi objetivando o aprimo-
Esquadra, com novos ramento das atividades
meios, tecnologias e de- contábeis na Força que os
safios demandava o de- intendentes desenvolve-
senvolvimento de novos ram, em meados da déca-
processos de apoio, im- da de 1980, o Sistema de
pondo aos intendentes a Informações de Finanças
necessidade de contínuo da Marinha (SISFIN), que
aprimoramento e capaci- possuía a capacidade de
tação. registrar, em meio magné-
Para manter-se fir- tico, os fatos contábeis da
me em seu propósito de Marinha em um Plano de
apoiar esta Marinha em Contas padronizado, per-
constante evolução, a in- mitindo a identificação
tendência empenhou-se de saldos em várias contas
em acompanhar o desen- orçamentárias e financei-
volvimento das ciências ras por meio de relatórios.
do campo da adminis- Normas para o Plano Diretor O sucesso desta iniciativa,
tração, expandindo sua pioneira em nosso país, foi
atuação, antes bastante focada a fonte para o desenvolvimento do
no abastecimento nos navios e unidades ope- Sistema Integrado de Administração Financeira
rativas, a outras áreas de conhecimento, como do Governo Federal (SIAFI), considerado hoje
a gestão orçamentária; contabilidade; controle a principal ferramenta de contabilidade, orça-
interno; economia; finanças; e gestão do patri- mento e finanças da administração pública bra-
mônio imobiliário. sileira.
Uma das realizações da intendência neste Peça fundamental no desenvolvimento da
esforço de aprimoramento contínuo foi a cria- Esquadra desde seu nascimento, a Intendência
ção, em 1963, do Sistema do Plano Diretor da Marinha alcança o século 21 reafirmando
(SPD). Inspirado na experiência do “Planning, seu compromisso em prestar o melhor servi-
Programming and Budgeting System” (PPBS), ço à Marinha. O capítulo mais recente do va-
introduzido do Departamento de Defesa dos loroso apoio dos intendentes ao Poder Naval
Estados Unidos em 1961, o SPD foi concebido foi o papel relevante desempenhado na estru-
com o propósito de racionalizar o planejamento turação orçamentário-financeira do Programa
orçamentário da Marinha utilizando, de manei- de Submarinos (PROSUB) e do Programa das
ra inovadora no Brasil, o conceito de orçamen- Fragatas Classe “Tamandaré”, ambos conside-
to-programa. rados estratégicos para a Marinha. Na concep-
Em meados da década de 1960, a prática or- ção do PROSUB, fruto de complexa parceria

60 Revista do Clube Naval • no 405


O Edifício Almirante Gastão Motta, localizado
no Rio de Janeiro, abriga as principais Diretorias servado à Esquadra no futuro, o certo é que a
Especializadas da área de Intendência da Marinha intendência marchará ao lado do Poder Naval,
mantendo os esforços de aprimoramento con-
com a França, a intendência logrou êxito fren- tínuo que permitam fazer valer seu tradicional
te ao desafio de viabilizar o contrato de finan- lema – “prestar o melhor serviço à Marinha”. ■
ciamento externo do programa, em montante
de cerca de quatro bilhões de euros, exigência
REFERÊNCIAS
do governo francês para celebração do contra-
BRASIL. Corpo de Intendentes da Marinha. História da In-
to comercial. No Programa das Fragatas Classe
tendência da Marinha: do ingresso da 1ª Turma de Intendentes
“Tamandaré”, a atuação da intendência deu-se
na Escola Naval aos dias atuais – Rio de Janeiro: Serviço de
na formulação e negociação da capitalização
Documentação da Marinha, 2014.
da Empresa Gerencial de Projetos Navais (EM-
BITTENCOURT, Armando de Senna. A Marinha e o bicentenário
GEPRON), modelo de negócios inovador que
da Independência. Revista Marítima Brasileira, v. 138, n. 07/09, p.
garantiu os recursos necessários para a execu-
42-42, 2018.
ção do projeto.
BITTENCOURT, Armando de Senna. Introdução à história
Sem a Esquadra, o Brasil como o conhece-
marítima brasileira. Serviço de
mos não existiria. A História mostra que não
Documentação da Marinha, Rio de Janeiro, 2006.
foram poucas as ocasiões em que o Poder Na-
FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS. 250 anos – Intendência da
val brasileiro teve de ser empregado na defesa
Marinha: da vela à propulsão nuclear – Rio de Janeiro: FGV,
do território e dos interesses que culminaram
2020.
na formação do nosso país. Em todas estas oca-
LEIVAS, Luís Cláudio Pereira; SCARVADA, Levy. História da
siões, a Intendência da Marinha esteve presente,
Intendência da Marinha. Vol. I: Introdução (1500-1800). Rio de
desenvolvendo atividades de apoio que criaram
Janeiro: Diretoria de Intendência da Marinha, Ministério da
as condições necessárias para o pleno emprego
Marinha, 1972.
da Esquadra.
MOITREL, Mônica Hartz Oliveira. A logística naval na Marinha
Em sua atual configuração, a Marinha exerce
Imperial durante a guerra da Tríplice Aliança contra o gover-
a função atribuída ao Poder Naval em tempo de
no do Paraguai. Rio de Janeiro: UNIRIO, 2010 (Dissertação de
paz, funcionando como elemento de dissuasão
Mestrado em História).
ao impor elevados sacrifícios a eventuais op-
ções militares de adversários em potencial. Esse
papel, fundamental no respaldo à condução da *1 Capitão de Corveta (IM), Encarregado da
política do governo, pode ser ampliado no futu- Divisão de Controle de Custos (DFM-72) da
ro, por alterações na conjuntura internacional, Diretoria de Finanças da Marinha
demandando que a Esquadra seja novamente *2 Capitão de Fragata (IM), Chefe do
acionada em defesa dos interesses nacionais. Departamento de Gestão de Custos da Diretoria
Sejam quais forem os desafios ou o papel re- de Finanças da Marinha

Revista do Clube Naval • nº 405 61


200 ANOS DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL

A HIDROGRAFIA
NO BRASIL Manoel Antônio Vital
nos últimos 200 anos de Oliveira, Patrono da
Hidrografia brasileira

Edson Carlos Furtado Magno*

A
o proferir aula inaugural para os Ofi-
ciais-Alunos do Curso de Aperfeiçoa-
mento de Hidrografia, na Diretoria de
Hidrografia e Navegação (DHN), em
2013, o então Contra-Almirante Antônio Fer-
nando Garcez Faria (FARIA, 2014) destacou
três períodos distintos na história da hidro-
grafia brasileira. O primeiro iniciou com a
descoberta do Brasil e transcorreu durante
a colonização, quando o conhecimento, ar-
quitetura e modus operandi foram eminente-
mente portugueses. O segundo período iniciou
com a Independência do Brasil. Sem contar com
a contribuição portuguesa, o Brasil recorreu ao
auxílio dos franceses para dar continuidade aos Este artigo abrangerá as atividades hidrográ-
trabalhos hidrográficos. O terceiro período cor- ficas realizadas entre 1822 e 2022, buscando
responde à diminuição da participação francesa descrever em poucas linhas a evolução da hi-
e o crescimento da capacidade brasileira de rea- drografia no Brasil nos últimos duzentos anos.
lizar levantamentos hidrográficos.
Nessa mesma aula inaugural, o Almiran- SEGUNDO PERÍODO
te Garcez destacou as palavras proferidas pelo
Almirante de Esquadra Maximiano Eduardo As atividades hidrográficas nas costas e por-
da Silva Fonseca, na aula inaugural para os Ofi- tos brasileiros eram realizadas exclusivamente
ciais-Alunos do Curso de Aperfeiçoamento de por Portugal. A vinda para o Brasil da Corte
Hidrografia para Oficiais, em 1974, que tradu- portuguesa, em 1808, e a abertura dos portos
zem o ocaso do segundo período e o início do promoveram uma mudança devido às dificul-
terceiro: dades que nossos portos e litoral impunham à
navegação. A partir de 1819, o governo francês
“Por um lado, se a presença dos hidrógrafos buscou conhecer as possibilidades de ampliar
franceses em nosso litoral retardou a necessi- os negócios com o Brasil e teve início a reali-
dade de efetuarmos o seu levantamento com zação de levantamentos hidrográficos no litoral
nossos próprios meios, por outro lado, ela brasileiro, lideradas por Albin Reine Roussin,
motivou os Oficiais de nossa então incipien- Louis Marius Barral, Louis Tardy de Montravel
te Marinha para tal atividade.” e Amédée Ernest Barthélemy Mouchez.

62 Revista do Clube Naval • no 405


Praticamente todo o transporte de passagei-
ros e mercadorias era realizado pela via marí-
tima. A Independência do Brasil em 1822 foi o
ocaso da participação dos portugueses na rea-
lização de levantamentos hidrográficos na área
marítima e portos brasileiros. Diante da inexis-
tência de nacionais com a qualificação necessá-
ria, não restou alternativa para a jovem nação
do que contratar missões francesas para dar
continuidade às campanhas hidrográficas e am-
pliar o conhecimento e mapeamento do litoral
brasileiro para que a navegação fosse realizada
com segurança.
Nesse século, os levantamentos hidrográficos Carta reduzida das Rocas levantada
e as cartas náuticas passaram a incorporar infor- por Vital de Oliveira, em 1858
mações de interesse dos navegantes, tais como Fonte: Arquivo Nacional
circulação de correntes, regime de marés, pon- TERCEIRO PERÍODO
tos conspícuos da costa, magnetismo, qualidade
do fundo etc., além das sondagens. As ativida- Não há uma data específica ou um marco que
des hidrográficas realizadas pelos franceses no estabeleça o início do terceiro período. A ini-
Brasil foram conduzidas com essa perspectiva. ciativa brasileira na realização de levantamen-
No entanto, ao lado dos franceses, brasileiros tos hidrográficos foi naturalmente encerrando a
iniciaram a realização de atividades hidrográ- participação francesa.
ficas, com destaque para o Capitão de Fragata Brilhantes oficiais da Marinha do Brasil tais
Manoel Antônio Vital de Oliveira, Patrono da como Joaquim Raymundo de Lamare, Antônio
Hidrografia brasileira, que realizou levantamen- Luiz von Hoonholtz, o Barão de Teffé, Francisco
to de boa parte da costa brasileira, desde o Rio Cordeiro Torres e Alvim e Francisco Calheiros
Grande do Sul até a região Nordeste, além de ter da Graça, um pouco mais tarde, dedicaram-se à
sido encarregado de dirigir um programa que hidrografia com requinte intelectual, conforme
redundaria no Levantamento Geral das Costas descrito pelo Almirante Hélio Leôncio Martins
do Império. Vital de Oliveira faleceu na Guer- no livro História da Hidrografia no Brasil, Volu-
ra do Paraguai, em combate. Em homenagem a me I, de coautoria com o Almirante Paulo Ce-
esse grande vulto da Hidrografia brasileira, na zar de Aguiar Adrião.
data de seu nascimento, 28 de setembro, come- Não havia no Brasil um órgão que orientas-
mora-se o dia do hidrógrafo. Também em sua se e fiscalizasse os levantamentos hidrográficos,
homenagem, o mais novo Navio de Pesquisa que eram realizados segundo a orientação de
Hidroceanográfico da Diretoria de Hidrografia seus executores. Poucos são os relatórios téc-
e Navegação ostenta o nome “Vital de Oliveira” nicos que apresentam a metodologia adotada
no espelho de popa. nesses levantamentos. Porém, os Compêndios
de Hidrografia de 1864, de autoria de Antônio
Luiz von Hoonholtz, e de 1873, de autoria de
Boia com Navio de Julio Cesar de Noronha, dão uma ideia da me-
Pesquisa Hidroceanográfico todologia adotada.
"Vital de Oliveira" ao fundo Para a representação do litoral e posiciona-
Foto: Marinha do Brasil mento das embarcações eram realizadas me-
dições astronômicas, geodésicas e topográficas
para determinação das coordenadas (latitude
e longitude). Não havia tecnologia para medir
grandes distâncias. Dessa forma, utilizava-se
uma rede de triângulos no terreno. Cada vér-
tice era ocupado e media-se os ângulos para os
demais vértices. O vértice ou ponto de partida
para a rede de triângulos era determinado por
medições astronômicas. As alturas eram deter-
minadas pela medição dos ângulos verticais.

Revista do Clube Naval • nº 405 63


Para a sondagem utilizava-se o prumo de
mão. Os cabos eram graduados a cada metro
e a depressão existente no fundo da “chumba-
da”, que caracteriza o prumo, era preenchida
com sabão, a fim de recolher amostras do fun-
do e determinar a natureza ou tipo do fundo do
mar. As sondagens eram “reduzidas” do valor
correspondente ao nível mais baixo das marés
para determinação das profundidades. Ou seja,
do valor da sondagem obtida pelo prumo redu-
zia-se o valor das alturas de marés observadas.
Esse método, que é adotado até hoje, visa ga-
rantir para os navegantes que são reduzidas as
possibilidades de se encontrar profundidades
inferiores às representadas nas cartas náuticas.
Para medir as alturas de marés eram instaladas
réguas graduadas no litoral.
A sondagem junto à costa, dependendo das Prumo de mão para sondagem manual.
profundidades, era realizada por escaleres ou Chumbada com depressão.
pelo próprio navio. As “linhas de sondagens” a
serem percorridas pela embarcação eram pre-
definidas no planejamento. Nas proximidades Por fim, o resultado de todas as medições era
de obstáculos ou perigos à navegação (ex.: re- desenhado nas “folhas de bordo”, que deveriam
cifes, rochas submersas, bancos de areia etc.), as ser de papel resistente e ter pouca deformação,
linhas de sondagem eram adensadas e podiam garantindo-se a confiança das coordenadas dos
ser realizadas em várias direções. Ao largo da objetos representados. Um exemplo do material
linha de costa, as linhas de sondagem corres- utilizado era folha de papel de linho. No Arqui-
pondiam às rotas percorridas pelos navios mer- vo Técnico da Diretoria de Hidrografia e Nave-
cantes. gação ainda encontramos exemplos desse tipo
Quando o navio estava ao largo da costa, as de folha.
coordenadas das sondagens eram determinadas Conforme mencionado, não havia no Brasil
a bordo por medições astronômicas e navega- um órgão de orientação e fiscalização das ati-
ção estimada. Próximo à costa, as coordenadas vidades hidrográficas. Essa situação mudou em
podiam ser determinadas a partir de terra, pela 1876. Pelo Decreto Imperial nº 6.113, de 2 de
medição de ângulos horizontais, ocupando-se fevereiro, foi criada a Repartição Hidrographica
dois pontos de coordenadas conhecidas. Esse é no Ministério da Marinha, sob a direção do Ba-
o motivo pelo qual os navios da Diretoria de Hi- rão de Teffé, que anos mais tarde, após possuir
drografia e Navegação são brancos com chami- outras denominações, receberia a denominação
nés e mastros na cor laranja. No fundo azul dos atual de Diretoria de Hidrografia e Navegação
oceanos as cores branca e laranja destacam-se. (DHN).
Assim é possível identificar o navio na cor bran-
ca e colimar-se (mirar) o mastro ou chaminé la- A HIDROGRAFIA BRASILEIRA NO SÉCULO 20
ranja para medição dos ângulos horizontais.
Para medir as correntes, utilizava-se instru- Em 1921 foi criado o Bureau Hidrográfico
mentos dotados de hélices, cuja rotação indica- Internacional (BHI), atual Organização Hidro-
va a sua velocidade. Essas hélices giravam em gráfica Internacional (OHI), com o propósito
torno de um eixo, permitindo a determinação de promover a segurança da navegação e a pro-
da direção da corrente. Em mar aberto, a cor- teção do meio ambiente. Sua criação decorreu
rente era determinada a partir das diferenças da necessidade de se discutir a uniformidade
entre as posições observadas astronomicamente na cartografia e disponibilidade de informações
e as posições estimadas do navio. hidrográficas, fruto do incremento do comércio
Para o correto emprego das agulhas magnéti- marítimo internacional. O Brasil, representa-
cas de bordo, responsáveis por indicar a direção do pela Diretoria de Hidrografia e Navegação,
para a navegação, eram realizadas observações e mais dezessete Estados-membros iniciaram as
do magnetismo terrestre, sua força e declinação. atividades do BHI nesse ano.

64 Revista do Clube Naval • no 405


Dois grandes passos foram dados para a e de se produzir informações com maior quali-
hidrografia brasileira na década de 1930. O dade.
primeiro foi a criação da especialidade de hi- Até a década de 1990, os dados coletados nos
drografia para oficiais em 1931 e o segundo a levantamentos hidrográficos eram registrados
criação do curso de formação (Curso de Nave- em cadernetas e para cada tipo de medição ha-
gação e Hidrografia) em 1933. As especificida- via um tipo de caderneta. À essas cadernetas
des das atividades hidrográficas e os avanços eram adicionadas as mídias próprias de registro
tecnológicos introduzidos na coleta dos dados de dados, tais como ecogramas, oriundos dos
e no seu processamento impuseram que hou- ecobatímetros, sonogramas, dos sonares de var-
vesse pessoal capacitado para atender o nível de redura lateral etc.
complexidade dos levantamentos hidrográficos. A bordo dos navios, as equipes de sondagem
O Curso de Navegação e Hidrografia veio ao eram compostas basicamente por um oficial de
encontro dessa necessidade. Também foi preci- sondagem, um oficial de segurança, um anota-
so construir capacitação similar para as praças dor, um plotador na Folha de Sondagem e um
e, em 1961, foi criada a Escola de Hidrografia e operador do ecobatímetro. O oficial de segu-
Navegação. rança estava presente para garantir a segurança
Em 1935 foi publicado o que é considerado o da navegação do próprio navio em sua intera-
mais antigo plano cartográfico apresentado por ção com os demais navios que trafegavam na
uma organização cartográfica brasileira, o Plano área do levantamento.
Básico Cartográfico da Diretoria de Hidrografia Em um intervalo de tempo previamente es-
e Navegação. O plano definiu as cartas náuticas tabelecido (ex. de cinco em cinco minutos) era
que o Brasil teria na área marítima e rios das dado um comando no passadiço, pelo qual o
Bacia Amazônica e Bacia do Rio Paraguai, com operador do ecobatímetro registrava o instante
o propósito de atender as necessidades de segu- no ecograma e a sondagem na caderneta cor-
rança da navegação, além de orientar o plane- respondente, o operador do equipamento re-
jamento dos levantamentos hidrográficos que gistrava a posição na caderneta corresponden-
seriam realizados nos anos subsequentes. Esse te, seja em coordenadas geográficas (latitude e
plano foi concluído em 1975, com a publicação longitude) ou em coordenadas métricas (N e
da carta náutica 200, da Ilha de Maracá a Ilha do E), e o anotador compilava essas informações
Machadinho. Em 1995 foi publicado o II Plano em caderneta própria para que o plotador regis-
Cartográfico Náutico Brasileiro (PCNB), que trasse a informação de sondagem e posição na
definiu as cartas náuticas internacionais (car- Folha de Sondagem. Ao final do dia, o Chefe do
tas INT) brasileiras, em conformidade com as Departamento de Hidrografia apresentava ao
orientações técnicas da OHI. Esse plano altera- Comandante, que é o Chefe da Comissão Hi-
va a orientação da construção das cartas náu- drográfica, o resultado do trabalho. Nessa apre-
ticas marítimas do Plano Cartográfico Básico. sentação podiam ser mantidos ou alterados os
Nesse, a maior dimensão das cartas náuticas era parâmetros do levantamento, fruto dos resulta-
na direção Norte-Sul, enquanto no II PCNB a dos até então alcançados.
maior dimensão é na direção Leste-Oeste. De- À noite ou no dia seguinte ocorria o proces-
corrente desse plano, foram realizados levanta- samento dos dados coletados. Os dados de po-
mentos hidrográficos na área marítima afastada sição eram verificados e lançados em uma Folha
da costa, até o limite do que conhecemos hoje de Plotagem ou na própria Folha de Bordo, os
como Zona Econômica Exclusiva (ZEE). O II ecogramas eram “amaciados”, ou seja, avalia-
PCNB foi concluído em 2015. Atualmente, a va-se se o fundo registrado no ecograma era
DHN está executando o III Plano Cartográfico consistente ou falso e registravam-se os fundos
Náutico Brasileiro, que também contempla as intermediários entre registros do ecograma na
cartas eletrônicas de navegação (ENC, na sigla caderneta correspondente. Os maregramas,
em inglês) a serem construídas. que continham as alturas de marés observadas,
No século 20, observamos que a metodologia eram verificados e, em seguida, suas informa-
para realização de levantamentos hidrográficos ções eram lançadas no Digrama de Redução de
foi similar à do século anterior. No entanto, com Profundidades (DRP). As informações de ter-
a invenção dos ecobatímetros, distanciômetros ra, como contorno do litoral, altitudes e posi-
(equipamentos eletrônicos para medir distân- ção dos auxílios à navegação eram confrontadas
cias), sistemas de posicionamento eletrônicos com as informações existentes e lançadas nas
etc., foi ampliada a capacidade de coletar dados Folhas de Bordo.

Revista do Clube Naval • nº 405 65


Dependendo da complexidade do levanta-
mento e da área levantada, o número de ativi-
dades poderia ser ainda maior. Esse é o motivo
de tais levantamentos ocorrerem em períodos
não inferiores a três meses. Por fim, havia um
procedimento que era cumprido por oficiais e
praças para validação das informações coleta-
das em um levantamento hidrográfico. Todas as
cadernetas possuíam os seguintes campos para
preenchimento: feito por, verificado por e con-
ferido por. A caderneta ou modelo de cálculo
que não tivesse um desses três campos preen-
chidos não era válida. Sondagem multifeixe pelo
Portanto, adotava-se metodologia similar à NHo "Cruzeiro do Sul"
do século anterior. Porém, com a possibilidade
de se coletar uma quantidade maior de dados,
fruto da evolução tecnológica, as incertezas di-
minuíram e um melhor detalhamento das fei- monstra o nível de resolução das informações.
ções e objetos submersos foi alcançado. Como já mencionado, o intervalo de gravação
Na década de 1990, a DHN passou a empre- podia ser de cinco em cinco minutos, podendo
gar sistemas de coleta de dados automáticos a ser maior ou até mesmo menor. Contudo, in-
bordo de seus navios para a realização de le- tervalos inferiores a cinco minutos eram muito
vantamentos hidrográficos. Esses sistemas assu- desgastantes para serem cumpridos pela equipe
miram o controle do intervalo de gravação dos de sondagem. Com o emprego dos sistemas de
dados, de gravar automaticamente o registro coleta automático, o maior intervalo de aquisi-
no ecograma e no próprio sistema, de gravar a ção é o do GPS ou GNSS, que gera uma grava-
posição da sondagem etc. O registro nas cader- ção a cada segundo. Outros sensores possuem
netas caiu em desuso, pois eram os arquivos de a capacidade de gravar vinte, trinta ou mais da-
sondagem que continham essas informações. dos a cada segundo.
No processamento, a bordo, avaliava-se a posi- Dessa forma, é possível reduzir o pessoal da
ção e depois a sondagem. Dados espúrios eram equipe de sondagem, mas não a de processa-
eliminados. As informações das alturas de ma- mento. Atualmente, as atividades cumpridas
rés eram introduzidas e o próprio sistema cons- em um levantamento exigem que o pessoal de
truía a DRP. Por fim, o sistema selecionava as bordo possua elevada qualificação técnica para
menores profundidades, que podiam ser plota- o desempenho dessas tarefas. Esse foi o moti-
das em uma Folha de Bordo impressa em um vo pelo qual a Organização Hidrográfica Inter-
plotter do próprio navio. nacional (OHI), juntamente com a Associação
Somos induzidos a pensar que o tempo de Cartográfica Internacional (ICA) e a Federação
realização dos levantamentos hidrográficos di- Internacional de Geômetras (FIG), instituíram
minuiu com a introdução dos sistemas e dos
novos equipamentos de medição. Como men-
cionado, esses levantamentos duravam em Sargento hidrógrafo interage com
média três meses ou mais. De fato, o que ob- pesquisadores na Sala de Sondagem do
servamos foi um aumento da capacidade de se Navio Hidroceanográfico "Cruzeiro do Sul"
coletar e processar dados, que resultam em le- Foto: Marinha do Brasil
vantamentos hidrográficos com maior acurácia,
maior resolução e qualidade. No entanto, como
a área levantada depende da velocidade com o
que um navio percorre as linhas de sondagem e
o aumento da velocidade dos navios pouco alte-
rou, o tempo necessário continua praticamente
o mesmo. A área do levantamento é que define
o tempo de sua realização.
Um parâmetro importantíssimo que foi alte-
rado é o intervalo de gravação de dados, que de-

66 Revista do Clube Naval • no 405


Laboratório do NPqHo "Vital de
Oliveira" - operação dos ecobatímetros
monofeixe, multifeixe e outros sensores

CAPACITAÇÃO DE PROFISSIONAIS
DE HIDROGRAFIA

A hidrografia no século 21 exige profissionais


qualificados no gerenciamento e operação dos
sistemas e sensores empregados em um levan-
tamento hidrográfico. Essa qualificação, restrita
aos quadros da Marinha do Brasil e a pouquís-
simos profissionais que tiveram a iniciativa de
realizar o Curso de Aperfeiçoamento de Hidro-
grafia para Oficiais, é de significativa importân-
cia para o desenvolvimento do País.
Na Europa, observamos que os principais
portos possuem, em sua estrutura organizacio-
nal, um escritório de hidrografia, cujos profis-
dois tipos de cursos para formação de profissio- sionais são qualificados como hidrógrafos das
nais de hidrografia: curso categoria A e curso categorias “A” ou “B”, da OHI. Diferentemente
categoria B. do que ocorre na Europa, no Brasil são raros ou
O Centro de Instrução e Adestramento Almi- inexistentes profissionais com capacitação em
rante Radler de Aquino (CIAARA), subordina- hidrografia nas instalações portuárias.
do à DHN, ministra esses dois cursos no Brasil, O Brasil ocupa posição entre as maiores eco-
sendo o de categoria A para oficiais e o de cate- nomias do mundo, possui um litoral de mais de
goria B para as praças. O primeiro é ministrado sete mil quilômetros de extensão e um total de
em conjunto com o Curso de Aperfeiçoamento 175 instalações portuárias, que incluem portos,
de Hidrografia para Oficiais (CAHO) e o segun- terminais marítimos e instalações aquaviárias,
do com o Curso de Aperfeiçoamento em Hidro- que são responsáveis por 95% do comércio ex-
grafia e Navegação (C-Ap-HN). terior nacional. Esses dados evidenciam a im-
Destaca-se que vários profissionais, não per- portância da hidrografia para o País.
tencentes aos quadros da Marinha do Brasil e Para reverter a falta de profissionais de hi-
com formação em áreas de conhecimento afins drografia no Brasil, ações têm sido realizadas
com a hidrografia, como engenharia civil e no âmbito da sociedade, tais como a criação da
oceanografia, por exemplo, já realizaram o cur- Sociedade Brasileira de Hidrografia (SBHidro)
so no CIAARA. e o projeto do futuro curso de especialização
Nos idos de 1999 e 2000, os ecobatímetros de em hidrografia pela Universidade Federal Flu-
tecnologia multifeixe foram introduzidos na minense (UFF), com o propósito de fortalecer
DHN. Destaca-se o Navio Hidroceanográfico a hidrografia no País, bem como torná-la ainda
“Taurus” que foi o primeiro meio naval a pos- mais presente nas discussões em níveis nacional
suir esse tipo de ecobatímetro. Com essa tecno- e internacional. ■
logia, passou-se a ter uma varredura com vários
feixes transversais ao rumo do navio ou linha REFERÊNCIAS
de sondagem, situação que permite alcançar a FARIA, A. F. (Setembro de 2014). Aula Inaugural para a 66a Turma
orientação técnica da OHI de se realizar a co- do Curso de Aperfeiçoamento de Hidrografia para Oficiais.
bertura total do fundo do mar. Anais Hidrográficos 2013 - TOMO LXX, pp. 8-16.
Esse tipo de tecnologia tem sido essencial MARTINS, H. L. (2014). O Século XIX. Em P. C. ADRIÃO, & H.
para os trabalhos de levantamento da Platafor- L. MARTINS, História da Hidrografia no Brasil (pp. 105-120).
ma Continental brasileira, executado pela Se- Niterói.
cretaria da Comissão Interministerial para os
Recursos do Mar (SECIRM) no âmbito do Pro-
grama de Levantamento da Plataforma Conti-
nental (LEPLAC). * Capitão de Mar e Guerra (RM1)

Revista do Clube Naval • nº 405 67


200 ANOS DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL

COMUNICACÕES NAVAIS
na Guerra da Independência
e sua evolução até os dias atuais
Claudio da Costa Braga*

A
ntes de começarmos a escrever sobre ■ Criação da Armada
as comunicações navais na Guerra da Nacional e Imperial
Independência e sua evolução até os
dias atuais, é importante que façamos Após a Independência, muitos navios do
algumas considerações sobre o que poderíamos Reino regressaram para Portugal ou foram ar-
definir como o início da Instituição Secretaria recadados pelo Império. A data 10 de novem-
de Estado dos Negócios da Marinha no Impé- bro de 1822 é hoje considerada como
rio, hoje apenas Marinha do Brasil, e a Armada a de criação da Esquadra brasileira,
Nacional e Imperial do Brasil. quando D. Pedro entregou aos na-
É importante mencionar que quando D. vios da Armada as bandeiras do Bra-
João, Príncipe Regente, veio para o Brasil, aqui sil Império e essas foram içadas nos
chegando em 1808, trouxe consigo a Secretaria mastros dos navios.
dos Negócios da Marinha e Domínios Ultrama-
rinos do Reino de Portugal; quando voltou, essa
foi com ele. Os navios que aqui ficaram eram do
■ Início das Comunicações
Reino, com a quase plenitude de sua oficialida- nas Guerras da
de e a grande maioria de marinheiros de nacio- Independência
nalidade portuguesa. Quando não há precisão
nas datas, a História volta-se para interpretação As comunicações navais existem
de fatos ocorridos. Nesse caso, vamos às inter- desde os primórdios da navegação
pretações. marítima e, também, desde o início
da nossa Marinha. Podemos conside-
■ Criação da Secretaria de Estado rar o içamento da insígnia do nosso
primeiro Almirante, Lorde Thomas
dos Negócios da Marinha John Cochrane, na Nau “Pedro I”, em
21 março de 1823, indicando a todos
Não há uma data precisa para a criação da onde estava embarcado o comandante da Força
Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha Naval brasileira, como um sinal de comunica-
após a Independência, hoje Marinha do Brasil. ções característico com o emprego de bandei-
Historiadores e estudiosos do assunto conside- ras. Em 1° de abril, início do suspender da Força
ram a data de posse do Capitão de Mar e Guer- Naval rumo às Províncias da Bahia, Maranhão
ra Luiz da Cunha Moreira, futuro Visconde de e Grão-Pará, para subjugar os portugueses que
Cabo Frio, em 28 de outubro de 1822, primeiro se recusavam a aceitar a Independência do
Ministro brasileiro da Secretaria de Estado dos Brasil, diversos sinais por bandeiras foram em-
Negócios da Marinha, como a que deve ser con- pregados. Nessa época, as comunicações entre
siderada. os navios eram, basicamente, visuais por ban-

68 Revista do Clube Naval • no 405


À esquerda, os sinais içados pelo
Almirante Barroso durante a
Batalha do Riachuelo: "O Brasil
espera que cada um cumpra o seu
dever” e “Sustentar o fogo que a
vitória é nossa”

dos navios eram lentos e as dis-


tâncias para o combate, peque-
nas. Quando se desejava dar
instruções mais elaboradas no mar,
e se houvesse tempo, os coman-
dantes dos navios vinham para
bordo do capitânia ou se apro-
ximavam e recebiam instruções
por uma espécie de megafone,
deiras, galhardetes, flâmulas e fumaça. em viva voz. Existiam proce-
Quando à noite, ou em baixa visibilidade dimentos a serem observados.
provocada por nevoeiro ou qualquer ou- Podemos destacar a importância
tro efeito da natureza, lanternas iluminati- das comunicações na guerra naval quando, em
vas à combustão, empregando “fogachos” ou 1865, momento de infortúnio da Armada Na-
“tigelinhas”, combinadas com sinais sonoros cional e Imperial do Brasil, durante a Guerra da
produzidos por tambores, trombetas, sino, tiros Tríplice Aliança, na Batalha Naval do Riachue-
de canhão ou de espingarda, eram muito em- lo, os navios brasileiros trocaram comunica-
pregadas. Existia um código de sinais por ban- ções entre si, caracterizadas nos nove sinais por
deiras para formaturas bandeiras içadas,
padronizadas e algumas em código, tendo Na imagem à esquerda,
mudanças de rumo, com ficado para a his- o Combate de 4 de maio
letras e números, com os tória os sinais: “O de 1823, ocorrido no
quais um regimento de Brasil espera que contexto das Guerras da
bandeiras e galhardetes cada um cumpra o Independência e, abaixo,
pudesse transmitir pe- seu dever” e “Sus- a Batalha do Riachuelo,
quenas ordens. Vale des- tentar o fogo que a episódios retratados
tacar que os movimentos vitória é nossa”. pelo Almirante Trajano.
Naquela época, as
comunicações navais
eram, basicamente,
visuais por bandeiras,
galhardetes, flâmulas e
fumaça.

Revista
Revistado
doClube
ClubeNaval
Naval •• nº
nº405
405 69
■ Evolução das provocando mudanças relevantes nessa área
do conhecimento, envolvendo perspectivas de
ganho de grandes fortunas, bem como o inte-
Comunicações Navais
resse de certos países em manter em segredo
Da nossa Independência para cá, muitos os inventos de seus cientistas e pesquisadores.
cientistas contribuíram para o desenvolvimento Dessa forma, é muito difícil afirmar, com cer-
tecnológico que permitisse comunicações à dis- teza, quem foi o inventor da radiotransmissão.
tância, de grande interesse de uma força naval As perspectivas para uso militar, em especial
em operação. Desde quando Samuel F. B. Morse para as Marinhas de Guerra, eram os fatores
(1791-1872) enviou, em 24 de maio de 1844, a primordiais para tal sigilo pois influiriam, sig-
primeira mensagem entre Washington D.C. e nificativamente, nas operações de guerra naval.
Baltimore – EUA, por meio do “telégrafo ele- A transmissão da voz humana, radiotelefonia,
tromagnético”, empregando um código de tra- seria apresentada pelo padre brasileiro Rober-
ços e pontos, oferecendo ao mundo o primeiro to Landell de Moura (1861-1928), cientista,
recurso de comunicações à longa distância, essa pesquisador, físico e químico, que se dedicou
tecnologia não parou mais de evoluir. Não po- ao estudo da “eletricidade aplicada”. Em 16 de
demos deixar de mencionar o britânico Micha- junho⁽1) de 1893, na cidade de São Paulo, rea-
el Faraday que, em 1831, descobriu a indução lizou uma demonstração pública, devidamente
magnética. Depois, estudos de James Maxwell documentada, da transmissão de voz entre duas
demonstraram, matematicamente, a existência estações espaçadas de 8 km, uma na Avenida
das ondas eletromagnéticas. Em 1890, o profes- Paulista e outra no Alto de Santana. Entretanto,
sor alemão Heinrich Rudolph Hertz comprova- tal experimento não teve disseminação nos cen-
ria, na prática, a existência das ondas eletromag- tros científicos da ocasião, Europa e EUA.
néticas, também chamadas de “ondas de rádio” Como padre jesuíta, encontrava-se em posi-
ou “ondas Hertzianas”, que Maxwell descrevera ção desfavorável para com seus fiéis ao propagar
teoricamente. Vários cientistas continuaram teorias blasfêmicas, de pura ciência e pouca fé,
estudando uma forma de se empregar as on- em um ambiente de crença onde só Deus pode-
das eletromagnéticas para as transmissões sem ria tudo e não se costumava atribuir crédito a um
fio, empregando o código que Morse inventa- simples mortal. Impostor, louco, bruxo, herege,
ra; receberia o nome de radiotelegrafia. Teorias, realizador de pacto com o demônio,
ideias e descobertas de André Ampère, Samuel foram alguns dos poucos “elogios”
Morse, Michel Faraday, James Maxwell, Hen- que recebeu. Escandalosa, auda-
rick Hertz, Professor Pupim, Edouard Brandy, ciosa e misteriosa era a sua afir-
Alexander Popov e o padre brasileiro Roberto mativa de que a voz humana, com o
Landell de Moura agregaram valor ao desenvol- aparelho infernal que inventara,
vimento das radiocomunicações. poderia ser propagada a lon-
No final do século 19 e início do 20, grandes gas distâncias sem se utili-
descobertas no campo das radiocomunicações zar de fios. Teve seus equi-
estavam sendo realizadas em todo o mundo, pamentos destruídos, além

Manipulador de CW
Alguns cientistas que contribuíram com código Morse
com o desenvolvimento das
comunicações navais

Samuel F. B. Michael James Heinrich Rudolph Alexander Roberto Landell


Morse Faraday Maxwell Hertz Popov de Moura
70 Revista do Clube Naval • no 405
de ser transferido para regiões onde não existia alizadas nos Encouraçados “Aquidabã” e “Ria-
luz elétrica e não pudesse, assim, dar continuida- chuelo”, nos Cruzadores “Barroso” e “Tamoyo” e
de aos seus estudos. no Navio-Escola “Benjamim Constant”. A con-
Em 1894/95, Guglielmo Marconi realizou tinuidade desse trabalho acarretou a necessida-
uma transmissão e recepção radiotelegráfica de da criação, por meio do Aviso Ministerial nº
entre duas estações espaçadas de 2 km, na ci- 685, de 28 de março de 1907, do Serviço Radio-
dade de Bolonha, Itália, tornando-se o primeiro telegráfico da Marinha (SRtM) e a promulgação,
cientista a apresentar publicamente tal invento pela primeira vez, das Instruções para o Serviço
(não era voz). Mais tarde, em 12 de dezembro de Telegrafia sem fio da Armada Nacional. Essa
de 1901, realizaria nova demonstração entre data é considerada como um marco das comu-
estações, uma na Inglaterra e outra na penín- nicações navais por ser a primeira vez em que
sula do Labrador, transmitindo a letra “S” por se instituíam Instruções e Procedimentos para
radiotelegrafia. Hoje sabemos que os russos já as comunicações na Marinha, vindo a ser, pos-
haviam descoberto a transmissão radioelétrica, teriormente, escolhida como a mais significativa
sem fio, e que, por questões estratégicas, não a para representar o Dia das Comunicações Navais.
divulgaram. Daí em diante, as transmissões ra- O Posto Rádio da Marinha, na Ilha das Cobras,
dioelétricas tiveram um incremento extraordi- passa a denominar-se “Estação Central” e, em
nário, principalmente no ambiente naval. Vale 19 de abril, assume como seu primeiro Encarre-
destacar que a primeira vez em que se empre- gado o Primeiro-Tenente Tácito Reis de Moraes
gou a radiotelegrafia, em um confronto naval, Rego. Na administração do Almirante Alexan-
foi na batalha naval de Tsushima, na guerra rus- drino de Alencar (1906–1910), foi incentivada a
so-japonesa, em 1905. implementação da nova tecnologia na Marinha
do Brasil, com a instalação de diversas estações
■ As radiocomunicações na de rádio em navios e em terra. Nessa administra-
ção, a radiotelegrafia sem fio sairia do período de
Marinha nasceram dentro do experimentos e se estabeleceria definitivamente
Batalhão Naval como uma atividade naval das mais importantes.

A Marinha do Brasil, desde os primeiros mo-


mentos, tinha consciência da importância do
■ Diversas mudanças
passam a ocorrer
emprego dessa nova tecnologia em proveito
das operações navais e do exercício do Em 1913, a Marinha já dispunha de muitas
comando no mar, tendo sido uma gran- estações em navios e em Organizações Militares
de incentivadora do desenvolvimento (OM) em terra. Em 1914, começou a mudan-
da radiotransmissão. Era natural que a ça da sede do Serviço das instalações da ram-
Marinha fosse pioneira na implantação pa do Batalhão Naval para o prédio da antiga
da radiotelegrafia sem fio no Brasil, pois Escola de Aprendizes-Marinheiros na Ilha das
só assim seria possível o tráfego de co- Cobras. Aí permaneceria até 1921. Em 15 de ju-
municações a longa distância com seus lho de 1914, o SRtM passou a ficar subordinado
navios no mar. Em 18 de novembro de ao Estado-Maior da Armada (EMA). Em 1915,
1904, é nomeada uma Comissão de são criados os primeiros modelos para rádio e
Radiotelegrafia para dar parecer sobre sinais, com as suas especificidades: os antigos
a aquisição de duas estações de telegrafia C1, C2 até C15 que, até 1996, ainda estavam em
sem fio, aparelhos do tipo “Telefunken”⁽2), uso na MB. Durante a Grande Guerra, os ser-
oferecidas à Marinha pela empresa alemã “Sie- viços foram enormemente acrescidos, passando
mens e Halske”. Ambas foram instaladas na a Marinha de Guerra, também, a operar uma
rampa onde hoje se localiza o Batalhão Naval, Estação Radiogoniométrica de Alta Frequência
Ilha das Cobras, recebendo, em 15 de junho de (ERGAF). O Brasil ainda não havia entrado em
1905, a denominação de Posto Rádio da Ma- guerra. São instalados os equipamentos rádio
rinha, sendo-lhe atribuído o indicativo “SNI”. nos navios da Divisão Naval de Operações de
A partir de 1905, diversos equipamentos fo- Guerra.
ram instalados a bordo dos navios da Esquadra Em 1919 são criadas as Escolas de Rádio para
e estações em terra, capazes de prover o impres- oficiais e praças e a Companhia de Telegrafistas
cindível apoio aos navios no mar. Experiências (o curso de comunicações para oficiais é dessa
com a radiotelegrafia e radiotelefonia foram re- época). Pela primeira vez, a Marinha iria dispor

Revista
Revistado
doClube
ClubeNaval
Naval •• nº
nº405
405 71
de um oficial cursado na MB nessa nova espe- xarifado). Somente durante a 2ª Guerra, a Mari-
cialidade tecnológica. nha viria a ter problemas sérios de comunicações
Em 1921, a Estação Central Radiotelegráfica da pelo fato de os equipamentos que possuía serem
Marinha na Ilha do Governador (ECRtMIG) so- de origem alemã.
freria uma remodelação com novos equipamen- Em 13 de junho de 1946, é criada a Diretoria
tos, com a instalação de transmissores de 75W da de Comunicações da Marinha (DCM) subor-
Telefunken. É dessa época a criação do serviço de dinada diretamente ao Ministro da Marinha. A
“Sinais Horários e boletim noticioso”, conhecido DCM seria composta do Departamento de Rá-
como “Serviço da Hora”. Esse serviço se perpe- dio do AMIC, juntamente com os Serviços de
tuou por longo tempo devido à sua importância Faróis e Balizamentos da extinta Diretoria-Geral
para o acerto dos relógios e dos cronômetros de de Navegação (que passou a se chamar Direto-
bordo, equipamentos essenciais para o cálculo da ria de Hidrografia e Navegação), e o Laborató-
longitude e latitude do navio. Consistia na trans- rio e o Depósito de Material Radiotelegráfico da
missão, em dois horários pré-estabelecidos e co- Marinha. Em 9 de janeiro de 1947, é aprovado
nhecidos de todos, às 12 e às 21 horas, de sinais o Regulamento da DCM e, em suas Disposições
horários gerados no Observatório Nacional. Gerais, estabelece em seu Artigo 14: “Os navios
Em 21 de março de 1923, foi criada a Dire- que forem empregados na execução dos servi-
toria de Comunicações Navais (DCN) subor- ços da competência da DCM ficarão diretamen-
dinada ao Chefe do Estado-Maior da Armada te a ela subordinados”.
(CEMA), devendo sua direção ser exercida, pro- Foi uma breve experiência malsucedida. “A
visoriamente, pelo Chefe da 2ª Seção do EMA. atribuição dos serviços concernentes a faróis e
O SRtM ficou subordinado a essa Diretoria. Em balizamentos não me pareceu boa, nem lógica
26 de junho de 1923, a DCN sai, provisoria- (disse o Ministro da Marinha, Almirante Sylvio
mente, da subordinação da 2ª Seção do EMA e de Noronha, em seu último relatório, abrangen-
passa a formar uma Divisão de Comunicações, do o período de 1946 a 1950) motivo pelo qual,
subordinada diretamente ao CEMA. Em 18 de em Exposição de Motivos que tive a honra de
agosto de 1923, uma nova organização dos Ar- dirigir a V. Excia. (ao Presidente da República,
senais de Marinha da República coloca o SRtM General Eurico Gaspar Dutra) em 18 de dezem-
à subordinação do Arsenal de Marinha da Ilha bro de 1946, propus a transferência daquele ser-
das Cobras (AMIC). viço para a DHN (junto à qual, sempre estivera,
Em 22 de outubro de 1924, o SRtM volta à durante quase 70 anos)”.
subordinação do EMA. Em 28 de dezembro de Em 4 de agosto de 1952, é extinta a DCM e
1926, por orientação da Missão Naval America- criada a Diretoria de Eletrônica da Marinha
na, é extinto o SRtM, permanecendo na Ilha das (DEltM), subordinando-a, ao mesmo tempo, ao
Cobras apenas o Laboratório, as oficinas de repa- Ministro da Marinha, ao EMA e à Secretaria-
ro e o depósito radiotelegráfico. No mesmo Ato, Geral da Marinha. Em 18 de junho de 1968, a
a Estação Central da Ilha das Cobras deixa de DEltM passa a denominar-se Diretoria de Co-
existir, passando seus serviços para a ECRtMIG. municações e Eletrônica da Marinha (DCEM).
A partir de 1927, algumas inovações tecnológicas Em 1976, a DCEM e a Diretoria de Armamento
são introduzidas nas comunicações navais, tais da Marinha (DAM) se fundem e é criada a Di-
como os aparelhos a válvula em substituição aos retoria de Armamento e Comunicações da Ma-
de centelha. Em 10 de março de 1929, a ECRt- rinha (DACM). Em 1995, em nova reestrutura-
MIG passa à subordinação do EMA. Em 4 de ção, é criada a Diretoria de Telecomunicações
julho de 1934, são reorganizados os Serviços do da Marinha (DTM), reunindo as atividades téc-
Laboratório, Oficina e Depósito Radiotelegráfico nicas de comunicações da antiga DACM, mais
da Marinha, transferindo-se a sua subordinação as de telemática da ex-Diretoria de Informática
do AMIC para a ECRtMIG, que fica subordinada da Marinha (DInfM) e as de gerência normativa
ao Serviço Rádio da Marinha (SRM) e esse dire- e de operações do Sistema de Comunicações da
tamente subordinado ao EMA. Em 2 de junho Marinha (SISCOM), antes executadas pelo Co-
de 1939, a Oficina, o Laboratório e o Depósito mando de Operações Navais. Em 2008, devido
Radiotelegráfico do Serviço Rádio da Marinha à acelerada evolução na área da tecnologia da
passam para o AMIC. Em 28 de maio de 1941, informação e de sistemas de comunicações, a
é criado, em caráter provisório, no AMIC, um DTM passa a denominar-se Diretoria de Co-
Departamento de Rádio constituído de Oficina, municações e Tecnologia da Informação da Ma-
Laboratório e Depósito Radiotelegráfico (Almo- rinha (DCTIM), e é criado o Centro de Tecno-

72 Revista do Clube Naval • no 405


logia da Informação da Marinha (CTIM) como com tecnologia de centelhamento, válvulas,
seu suporte operacional, a fim de melhor dirigir diodos, circuitos integrados, analógicos e di-
as funcionalidades do SISCOM, as atividades gitais, protocolos de “internet” e agora as pers-
técnicas das telecomunicações e a governança pectivas de emprego nas comunicações navais
da Tecnologia da Informação e, assim, propor- da tecnologia de quinta geração (5G) nas comu-
cionar à Marinha maior eficiência e eficácia na nicações móveis. Vivemos um momento ciber-
atividade de comando e controle nas operações nético onde a segurança das informações digi-
de seus meios navais, aeronavais e de fuzileiros tais passou a ser o pilar da nova ordem mundial
navais. nas comunicações.

■ Considerações finais
Hoje, a Marinha do Brasil possui um com-
plexo sistema de comunicações (SISCOM)
cuja estrutura contempla os canais dos meios
Tantas Marinhas já foram grandes potências ótico, acústico, elétrico e postal, utilizando-se
navais: Grécia, Esparta, Pérsia, Fenícia, China, de diversas tecnologias de satélites, cabos sub-
Reino Unido, Espanha, Portugal, Japão, Rússia marinos, fibras óticas, enlaces rádios e da rede
e Estados Unidos. Cada uma, em seu tempo, mundial de computadores (internet), em redes
passou por evoluções significativas nos tipos de dados de alta capacidade, táticas, operacio-
de navios, nos meios de propulsão, armamento nais e administrativas, proporcionando, com
empregado e, em especial, nas comunicações. eficiência e eficácia, o exercício de Comando e
Podemos considerar que, nas comunicações Controle dos seus meios, tão essenciais na con-
empregando o espectro eletromagnético, bem dução da guerra no mar. ■
mais recente na história marítima mundial, essa
tecnologia seria a responsável e provocaria
mudanças relevantes nas operações de
guerra naval em todas as Marinhas,
agregando elevado valor estratégico,
operacional e tático.
Muitos foram os responsáveis pela dispo-
nibilização prática do espectro eletromagnético
em proveito das Marinhas em diversos segmen-
tos de uma guerra naval, e a eles registramos
aqui, de maneira anônima, o nosso eterno reco-
nhecimento. Um dos esquecidos, mas que teve
participação marcante nesse desenvolvimento, NOTAS
foi o padre brasileiro Roberto Landell de Mou- (1) Erroneamente, foi publicado como sendo no mês de julho.
ra, com certeza o precur- (2) Processo de geração de sinal por “centelhamento à distân-
sor nas transmissões ra- cia”. Em 1903 é criada a empresa alemã “Telefunken”, fruto da
diotelefônicas. Porém, união da Siemmens e da A.E.G.
essa glória não lhe foi
outorgada. Infelizmente, REFERÊNCIAS
todo esse pioneirismo tecnoló- O SRM de Ontem e de Hoje - L. J. De Brito Reis – 1936;
gico do brasileiro não foi acompanhado História das Comunicações - Mitchell Stephens;
do desenvolvimento tecnológico e indus- História da Indústria de Telecomunicações no Brasil. Forest
trial do País em seu segmento. Hudson Farmer Jr;
Do início do século 20 até os dias de hoje, a Serviço de Documentação da Marinha – documentos diversos;
Marinha fez uso da radiotelegrafia, radiotelefo- Biblioteca Nacional – documentos diversos;
nia, radioteleimpressão, radiodados, transmis- Narrativa de Serviços no Liberta-se o Brasil da Dominação
são de imagem, videoconferência em tempo Portuguesa; Thomas John Cochrane; original publicado em
real, empregando inicialmente equipamentos Londres, 1859.

* Capitão de Mar e Guerra (RM1)

Revista do Clube Naval • nº 405 73


FILATELIA

A HISTÓRIA DA
MARINHA DO BRASIL
E SUAS ORIGENS
NARRADA PELA FILATELIA
Fernando Antonio B. F. de Athayde Bohrer*

O BRASIL, A MARINHA DO
BRASIL E A ANTÁRTICA
O
assunto “Antártica” é instigante
e motivo de grande preocupação
dos países no mundo, tanto pelo
equilíbrio do clima na Terra como
quanto ao estudo das riquezas naturais e minerais
que encerra em seu território. Tal preocupação
ensejou a criação do “Tratado Antártico”.

O TRATADO ANTÁRTICO
Em 1961, doze países – Argentina, Austrália,
Selo emitido pelos EUA em 1991, Bélgica, Chile, França, Japão, Nova Zelândia,
comemorativo aos trinta anos da Noruega, África do Sul, Inglaterra, Estados Uni-
ratificação do Tratado Antártico dos da América (EUA) e a ex-União Soviética
– ratificaram o Tratado Antártico com objetivo
de manter um intercâmbio científico, proteção
da fauna e da flora e a manutenção livre de ati-
vidades e conflitos militares abaixo do paralelo
de 60º Sul.
1970 - EUA, O Brasil promulgou o Tratado em 11 de julho
Tratado Antártico de 1975, pelo Decreto nº 75.963, quando for-
malmente aderiu ao Tratado. Em setembro de
1983 foi aceito como membro consultivo, pas-
sando, assim, a participar, com direito a voto,
das decisões referentes àquele continente.

74 Revista do Clube Naval • no 405


PROGRAMA ANTÁRTICO BRASILEIRO (PROANTAR)
Criado em 12 de janeiro de 1982, o
PROANTAR é conduzido pela Comis-
são Interministerial para os Recursos do
Mar (CIRM), coordenada pelo Coman-
dante da Marinha, e tem por objetivo a
promoção de pesquisa científica diversi- 2007- Brasil,
ficada e de alta qualidade na região an- Programa Antártico
Brasileiro 1997- Brasil, Programa
tártica, visando compreender os fenô-
Antártico Brasileiro
menos ocorrentes naquela região e sua
influência no nosso território e garantir
ao Brasil a condição de membro consul-
tivo do Tratado da Antártica, alcançada 2022 - Brasil, selo
em 1983. comemorativo aos 40
anos do PROANTAR

ANO POLAR INTERNACIONAL


O Ano Polar Internacional, evento cujo
tema central é as Regiões Polares, foi ideali-
zado em 1882/1883 pelo oficial da Marinha
austro-húngara, Karl Weyprecht.
Em 2007/2008 ocorreu o Ano Polar Inter-
nacional, patrocinado pelo Conselho Inter-
nacional para a Ciência.⁽1)
2007/2008 - Emissão comemorativa ao
Ano Polar Internacional

ESTAÇÃO ANTÁRTICA 1986 - Brasil,


segundo
COMANDANTE FERRAZ aniversário
da EACF

A Estação Antártica Comandante Fer-


raz (EACF), ativada em 6 de fevereiro de
1984, está situada na Baía do Almiranta-
do, Península Keller, da Ilha Rei George,
Arquipélago Shetland do Sul. Seu nome
homenageia o Capitão de Fragata Luiz
Antonio de Carvalho Ferraz, oficial hi- 2007- Brasil,
drógrafo, bacharel e mestre em Ciências, EACF
com especialização em Oceanografia,
realizada no Instituto Naval de Pós-gra-
duação, em Monterey, EUA, e falecido em
1982.
Em 2019, a EACF foi reinaugurada com 2020 - Brasil,
um projeto moderno, devido à antiga es- inauguração da
tação ter sido atingida por um incêndio. nova EACF

Revista do Clube Naval • nº 405 75


NAVIOS DE APOIO OCEANOGRÁFICO 2

E ABASTECIMENTO DA EACF
1

NAVIO DE APOIO OCEANOGRÁFICO


NAVIO DE APOIO OCEANOGRÁFICO (NApOc) "ARY RONGEL"
(NApOc) "BARÃO DE TEFFÉ" 1. 2007 - Brasil, NApOc "Ary Rongel"
1983 - Brasil, quadra do selo comemorativo à 2. 1997 - Brasil - folhinha comemorativa ao
Primeira Expedição Brasileira à Antártica, com Programa Antártico Brasileiro
carimbo comemorativo ao evento

AERONAVES C-130 DA FORÇA AÉREA


BRASILEIRA (FAB) 1987- Brasil, selo
comemorativo ao
Os aviões C-130 do 1º Esquadrão do Apoio Antártico por
1º Grupo de Transporte, “Esquadrão aeronave C-130
Gordo”, realizam o abastecimento da
EACF durante todo o ano, principal-
mente nos meses em que os Navios de
Apoio Antártico da MB estão ausentes
do continente antártico.

Correspondência inédita enviada do Rio de Janeiro em 9 de


março de 1988 para a EACF, com carimbo de chegada em 12 de
março de 1988, e carimbos da EACF e de inauguração do Posto
dos Correios na Estação Antártica, portando o selo alusivo ao
abastecimento da Estação por aeronave C-130

Estamos em 2023, 62 da EMBRAER, da FAB, para substituir os C-130,


anos da assinatura do para realizar os abastecimentos da EACF. Toda
Tratado Antártico e 47 essa estrutura para apoiar nossas pesquisas cien-
anos da ratificação pelo tíficas no continente antártico e nos seus mares
Brasil do Tratado. O adjacentes.
País vem cumprindo, religiosamente, todas Como podemos visualizar ao longo do pre-
as determinações emanadas por esse fórum, de sente artigo, a filatelia acompanhou par e passo
modo a ter sua presença na Antártica reconheci- todo o caminho trilhado pelo Brasil, ao longo
da pela Comunidade Internacional. Assim foi a dos anos, para cumprir todas as determinações
nova e moderna EACF construída e inaugurada do Tratado Antártico, inserindo, também, o País
em 2019; a aquisição do Navio Polar “Almirante no rol daqueles que bem documentaram esse
Maximiano” (H-41), já em operação, e o novo trajeto usando seus selos e material filatélico. ■
navio polar já em vias de início de construção; os
NOTA
novos helicópteros UH-16, do Esquadrão HU-
(1) Consulta ao site https://pt.wikipedia.org/wiki/Ano_Polar_
1, em substituição aos UH-13, para a operação Internacional, em 18/4/2022
embarcada nos nossos navios polares; e os mo-
dernos aviões KC-390, Millenium, de fabricação * Capitão de Mar e Guerra (Refo)

76 Revista do Clube Naval • no 405


MARINHA DO BRASIL

A criação do
CENTRO DE DESENVOLVIMENTO
DOUTRINÁRIO DE GUERRA NAVAL
Um passo necessário ao incremento de
capacidades na Marinha do Brasil

Rodrigo Monteiro Lazaro*

A
s incessantes modificações observa-
das nas características de ambientes
operacionais, decorrentes não somen-
te das mudanças tecnológicas que
impõem ajustes na forma de combater, mas
também do incremento da presença de amea-
ças protagonizadas por atores não estatais, que
ultrapassam fronteiras pela busca de objetivos
não contidos por limitações territoriais, vêm
exigindo a transformação de capacidades mili-
tares dos Estados.
Tal transformação é dependente da supera-
ção de desafios organizacionais e operacionais,
demandando esforços ao Poder Naval relacio-
nados ao aperfeiçoamento de doutrinas, diante
da constatação de lições aprendidas, que reque-
rem uma periódica revisão crítica doutrinária, A Cerimônia de Ativação e a assinatura
bem como das oportunidades de emprego de do Termo de Ativação do CDDGN
novas tecnologias disponíveis. Fotos: CDDGN
Ao empregar meios de acordo com uma dou-
trina específica, busca-se, através das capaci- de Guerra Naval (CDDGN), ao elaborar e imple-
dades disponíveis, produzir algum efeito que mentar metodologias voltadas para a gestão do
proporcione as condições necessárias para a conhecimento e desenvolvimento doutrinário
obtenção de objetivos. Explicaremos, a seguir, no Setor Operativo, contribuirá para a promo-
como o Centro de Desenvolvimento Doutrinário ção de capacidades da Marinha do Brasil (MB).

Revista do Clube Naval • nº 405 77


A CRIAÇÃO DO CDDGN • identificar capacidades futuras com base
em novas tecnologias, desafios e oportuni-
Decorrente das análises elaboradas por um dades, conectando conceitos à doutrina de
Grupo de Trabalho no âmbito do Comando de emprego de Forças Navais e Aeronavais.
Operações Navais, o CDDGN foi criado a fim de
centralizar a gestão da doutrina no Setor Ope- O CDDGN E O INCREMENTO DE
rativo, com vistas a implementar as atualizações CAPACIDADES
necessárias decorrentes não somente de lições
aprendidas – com base em boas práticas obser- A partir da descrição das principais tarefas
vadas em exercícios, operações, simulações ou que serão executadas pelo CDDGN, qual será a
jogo – mas também da constatação de eventuais relação existente entre o pensamento doutriná-
deficiências doutrinárias, ou seja, do emprego de rio e a obtenção/manutenção de capacidades?
uma doutrina que não mais produz os efeitos de- Para responder tal pergunta, iniciaremos
sejados. Ativado em 7 de dezembro de 2022, em pela compreensão do que representa uma ca-
cerimônia presidida pelo Comandante de Ope- pacidade. De acordo com a Sistemática de Pla-
rações Navais, ocupando instalações na Base nejamento de Força da MB ⁽1), a capacidade é
Almirante Castro e Silva (BACS), o CDDGN descrita como a aptidão para atingir um efeito,
concentra a gestão e o desenvolvimento de dou- sob determinadas condições, por meio de um
trinas nos níveis operacional e tático, incluindo conjunto de tarefas. Para que um efeito dese-
a pesquisa e a experimentação, em proveito da jado seja obtido ao empregar uma capacidade,
identificação de soluções criativas para a supe- faz-se necessário associar a utilização de doutri-
ração dos desafios mencionados anteriormente. nas consolidadas à existência de uma estrutura
Para tal, o Centro estabeleceu sua estrutura organizacional própria; ao emprego de mão de
organizacional em quatro departamentos: De- obra com as competências necessárias, obtidas
partamento de Gestão Doutrinária; Departa- por meio de capacitação, habilitação e adestra-
mento de Desenvolvimento Doutrinário; De- mento; além da disponibilidade e da confiabili-
partamento de Pesquisa e Experimentação; e dade de material e de infraestrutura. A prepon-
Departamento de Administração. derância do uso de doutrinas consolidadas ao
Cabe a tais departamentos a execução de di- empregar uma capacidade mostra-se explícita,
versas tarefas, dentre as quais se destacam: exigindo-nos melhor compreender o que é dou-
• planejar, elaborar e coordenar o desenvol- trina, no âmbito da MB.
vimento da doutrina naval e de pesquisas e A doutrina caracteriza-se como um conjunto
experimentações relacionadas ao emprego de princípios, conceitos, normas e procedimen-
das Forças Navais e Aeronavais, nos níveis tos, fundamentado, principalmente, na expe-
operacional e tático; riência, destinado a estabelecer linhas de pen-
• contribuir com as atividades de pesquisa, samento e a orientar ações, exposto de forma
inovação, aquisição, operação, manuten- integrada e harmônica. A doutrina provê à MB
ção e desenvolvimento de projetos de equi- preceitos, linguagem e propósitos comuns. Uma
pamentos, sistemas e meios nos setores do doutrina racional produz efeitos na reflexão so-
Material e da Ciência e Tecnologia; bre a guerra, no planejamento de força, na ins-
• gerir as publicações doutrinárias, o proces- trução e no adestramento. Ainda proporciona a
so de desenvolvimento doutrinário e o com- base para que a condução de ações por parte dos
partilhamento das atividades relacionadas à Comandantes de Força e comandos subordina-
doutrina, considerando lições aprendidas dos seja harmoniosa e sem retardos, de acordo
e melhores práticas que contribuam para o com as intenções do comando superior.
desenvolvimento da doutrina de emprego A partir da definição de doutrina, relaciona-
das Forças Navais e Aeronavais; remos algumas funções que ela exerce. Interna-
• acompanhar as atividades de Avaliação mente à Força, a doutrina possui, por finalidade,
Operacional para garantir o alinhamento criar uma comunhão de pensamentos tendo em
da doutrina naval com o desempenho dos vista a ação (COUTAU-BÉGARIE, 2010, p. 212),
equipamentos, sistemas e meios; sendo governada abertamente por um princípio
• contribuir com a elaboração dos Requisitos da eficácia, o que demanda sua constante revisão.
de Estado-Maior e dos Requisitos de Alto Em paralelo a essa função interna, a doutrina
Nível do Sistema para a obtenção de novos possui uma dupla função externa, com viés de-
equipamentos, sistemas e meios; e claratório: a primeira com relação a países par-

78 Revista do Clube Naval • no 405


experimentação. Assim, será
possível promover a reflexão
sobre a utilidade operacio-
nal de promissoras tecnolo-
gias em proveito da solução
de desafios do Poder Naval,
oferecendo a elas doutrina
de emprego.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Primeira Tripulação
Nesse artigo, identifica-
do CDDGN
mos as relações existentes
Foto: CDDGN
entre doutrina e capacida-
des, evidenciando sua rele-
vância, bem como vincula-
ceiros, a partir da divulgação de doutrinas que mos as tarefas a serem realizadas pelo CDDGN
acabam por influenciar a visão que as Forças com o aprimoramento de capacidades. Destaca-
desses países terão acerca da forma de empregar mos que a criação do Centro proporcionará a
suas capacidades, materializando uma “supre- concentração da gestão do conhecimento dou-
macia conceitual” (ou seja, influência), que con- trinário no Setor Operativo e a promoção do
solidará efetividade no emprego em Operações ambiente organizacional necessário à inovação
Combinadas. A segunda, direcionada a adversá- doutrinária, renovando a utilização de doutri-
rios e inimigos potenciais, ao contribuir para a nas existentes por meio de atividades de pes-
credibilidade e a comunicação do discurso dis- quisa e experimentação, especialmente a nível
suasório (COUTAU-BÉGARIE, 2010, p. 212). operacional.
Considerando, então, a definição de doutrina Desta forma, o CDDGN contribuirá para o
e suas funções, nota-se que uma periódica crí- atendimento de uma condição fundamental aos
tica doutrinária será necessária, diante de even- interesses do Estado brasileiro no mar: a manu-
tuais mudanças nas características das ameaças tenção de efeitos desejados que proporcionem
que figurarão nos ambientes operacionais de o atingimento de objetivos, oportunizada pelo
interesse. Ao balizar o emprego de meios ou em emprego de doutrinas atualizadas e adequadas
proveito da efetividade da influência e de estra- à realidade das características do ambiente ope-
tégias dissuasórias, uma sólida doutrina contri- racional de interesse. ■
buirá, de forma protagonista, para a obtenção
das capacidades necessárias que lastrearão a NOTA
produção de efeitos desejados. Podemos, en- (1) A Sistemática de Planejamento de Força da MB (SISFORÇA) é
uma metodologia de planejamento de Força, customizada para
tão, associar que a doutrina se apresenta como
a MB que, inspirada no Planejamento Baseado em Capacidades
o atributo de “maior grandeza” de uma capa- (PBC), tem o objetivo de orientar o planejamento da MB quanto
cidade, diante do papel orientador que possui. ao dimensionamento das capacidades operativas; logísticas;
Em outras palavras, caso a doutrina deixe de e de Comando, Controle, Comunicações, Computação,
ser atualizada, transformando-se em dogma, ou Cibernético, Inteligência, Vigilância e Reconhecimento (C5IVR);
mesmo desenvolvida, poderá ocorrer o com- bem como das atividades de suporte e apoio. O PBC foi
prometimento da manutenção de capacidades, introduzido no Ministério da Defesa em 2018, com a criação da
inviabilizando as condições necessárias para o Assessoria de Planejamento Baseado em Capacidades - APBC.
alcance de objetivos estabelecidos. Na MB, a célula do PBC foi criada em 2020, no âmbito da
Ao centralizar a gestão do conhecimento dou- Subchefia de Estratégia do Estado-Maior da Armada
trinário no Setor Operativo, tornar-se-á menos REFERÊNCIAS
complexa a criação de um ambiente organiza- MARINHA DO BRASIL. Estado-Maior da Armada. EMA-305:
cional dedicado à inovação doutrinária, capaz Doutrina Militar-Naval. Brasília, DF: EMA, 2017.
de produzí-la de forma autóctone. Aprimoran- COUTAU-BÉGARIE, Hervé. Tratado de estratégia. Rio de Janeiro:
do seus processos internos, o CDDGN promo- Escola de Guerra Naval, 2010.
verá o equilíbrio entre o atendimento da função
interna da doutrina, ao balizar o emprego de
* Capitão de Mar e Guerra, Chefe do Departamen-
meios do Setor Operativo, com a pesquisa e a
to de Desenvolvimento Doutrinário do CDDGN

Revista do Clube Naval • nº 405 79


MEIO AMBIENTE

TRANSIÇÃO DA ENERGIA DE
TRAÇÃO FERROVIÁRIA NO BRASIL
Luiz Carlos Gabriel*

ACORDOS CLIMÁTICOS DA ONU

A
emissão de Gases do Efeito Estufa é o encontro da Convenção da ONU sobre Mu-
(GEE) está diretamente associada ao dança do Clima, realizado anualmente por vá-
aumento da temperatura global, mu- rios países, inclusive o Brasil, para debater sobre
danças e eventos climáticos extremos, o aquecimento global, encontrar soluções para
como estresse hídrico, longas estiagens, seca, os problemas ambientais que afetam o planeta
incêndios florestais, furacões etc., impactando a e negociar acordos, firmando assim uma posi-
economia, o desenvolvimento, a segurança ali- ção multilateral em relação às ameaças das mu-
mentar e energética das nações. Neste cenário, danças climáticas e emitindo um alerta sobre a
surge a demanda por uma transição energéti- capacidade dos países de lidar com os efeitos
ca rumo a uma economia de baixo carbono, o dessas mudanças. Estes acordos são passos fun-
que significa implementar mudanças na matriz damentais para uma transição energética rumo
energética variando de um modelo baseado em a uma economia global de baixo carbono.
fontes de energia fósseis, como carvão, petróleo A COP 27 (Egito 11/2022), infelizmente, dei-
e gás, para um outro modelo baseado em fontes xou questões importantes no ar. Por exemplo,
renováveis/limpas, como eólica, solar, hidrogê- os países mais impactados por catástrofes devi-
nio, biomassa e nuclear, além da implementa- do às mudanças climáticas, como longas secas e
ção de eficiência energética, resgate de carbono, enchentes anormais, são em geral os que menos
automação, digitalização, inovações tecnoló-
gicas capazes de reduzir impactos ambientais,
bem como mudança do paradigma da energia
de tração das ferrovias de longo curso no Brasil,
abandonando o modelo diesel-elétrico e ado-
tando de vez a eletrificação a 100%. Enfim, a
transição energética é um enorme desafio que
mexe com a economia, exige pesados investi-
mentos e inovações tecnológicas e leva tempo
para ganhar energia de movimento, mas tem
que ser feita. Está em jogo o futuro desta e das
próximas gerações.
No combate às mudanças climáticas, a Orga-
nização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu
meta referencial de aumento da temperatura do Questões importantes ao meio ambiente foram
planeta em 1,5°C no Acordo Climático de Paris debatidas durante a COP 27 como, por exemplo,
- COP 21/2015. COP (Conferência das Partes) a criação do fundo de compensação financeira às
nações mais vulneráveis às mudanças climáticas

80 Revista do Clube Naval • no 405


contribuem para o aquecimento global, no en- um modelo multimodal de transporte com fer-
tanto pagam a conta dessas mudanças. Aplau- rovias eletrificadas de longo curso ligando fon-
sos para a criação do fundo de compensação de tes de produção a portos dotados com sistemas
perdas e danos para os países pobres / em de- eficientes de movimentação e despacho de car-
senvolvimento, só que na reunião da COP pre- gas e receptivos a grandes calados.
valeceu a discussão sobre quem efetivamente Reparem que em locomotivas diesel-elétricas
bancará o fundo. Vamos dizer assim: não houve a potência é limitada ao tamanho do motor. Já a
quem assumisse de peito aberto esse compro- potência elétrica é limitada pelas saídas de rede,
misso. Essa negociação certamente levará ainda que é normalmente muito maior do que qual-
um bom tempo para chegar a um acordo. De quer locomotiva precisaria. O resultado é maior
outro lado, os esforços para a aprovação de um aceleração e maior velocidade que resultam em
texto com previsão para o abandono de com- desempenho mais elevado e eficiência/produti-
bustíveis fósseis na variável tempo encontraram vidade idem.
pela frente grandes exportadores de petróleo e O Capex (investimento de capital) é maior
gás surfando na onda da grande demanda ener- para ferrovias eletrificadas para o modelo con-
gética provocada pela guerra na Ucrânia. solidado de rede aérea de tração e subestações,
Na COP 26 (Glasgow 11/2021), dentre os contudo o Opex (custo operacional) é muito
compromissos climáticos assumidos pelo Brasil, menor ao longo do tempo e ferrovias têm longa
está a expansão da malha ferroviária. O gran- vida útil. Adicionalmente, para grandes distân-
de desafio está nas ferrovias de longo curso que cias, maiores são também as vantagens econô-
operam locomotivas diesel-elétricas de tração, mico-financeiras de uma ferrovia eletrificada
incluindo os grandes projetos como a Ferrovia com este modelo em relação ao diesel-elétrico.
de Integração Oeste-Leste (Fiol), a Ferrovia de
Integração Centro-Oeste (Fico) e a Ferrovia
Estruturante Norte-Sul. É preciso reduzir as
emissões de GEE do setor de carga, com inicia-
tivas como estímulo ao uso de biocombustíveis,
energia elétrica de tração através do modelo
consolidado de subestações e redes aéreas, trens
tracionados a baterias, a energia fotovoltaica ou,
como destaque de momento, através da geração
de eletricidade de tração com hidrogênio verde
associado a células a combustível, obtido por
eletrólise ou reforma química.
Quanto maior o índice de rendimento (IR),
maior a eficiência do motor elétrico
EFICIÊNCIA ENERGÉTICA

Modernos motores elétricos fabricados inclu- TECNOLOGIAS EMERGENTES


sive no Brasil, como o IR5 (índice de rendimen-
to 5) super premium com rotor de imã perma- Paralelamente, novas tecnologias de eletri-
nente, já atingem mais de 96% de rendimento. É ficação emergem e sinalizam com vantagens
um ganho formidável de eficiência energética, operacionais e ambientais, como a locomoti-
característica de uma geração de motores de va 100% elétrica movida a baterias. No Brasil,
alta performance e baixas perdas internas. Com- a Vale opera uma locomotiva de manobra de
parando-os com o baixo rendimento (20/30%) pátio na Ferrovia Vitória-Minas 100% elétrica,
dos motores diesel de tração, sem falar na pau- movida a baterias recarregáveis pela rede elé-
ta ambiental, fica evidente que não se trata de trica ou painéis solares. Faz parte de um projeto
opção planejar ferrovias eletrificadas de longo que tem como meta substituir as locomotivas
curso no Brasil, mas sim de missão. Precisamos diesel-elétricas de maior potência, por locomo-
despertar de vez para a importância de operar tivas movidas a bateria como medida de redu-
alternativas mais eficientes e de baixo carbono ção de emissão de carbono. Inclui também o
no transporte ferroviário. Destravar a logísti- biodiesel (B20), utilizado na Estrada de Ferro
ca, mitigar a emissão de carbono e melhorar o Carajás e Vitória-Minas
escoamento da produção de commodities é de- Na Austrália operam trens movidos a ener-
senvolver o Brasil. Nesse sentido, a indicação é gia elétrica gerada por painéis solares instalados

Revista do Clube Naval • nº 405 81


energia elétrica para suprir e tornar sus-
Locomotiva de manobra 100% tentável a própria usina de cana-de-açú-
elétrica operada pela Vale car, bem como vender o excedente para
a concessionária de energia.
O etanol é verde, competitivo, movi-
menta extensa cadeia de valor e poderá
vir a ser uma ponte de ligação com trens
movidos a eletricidade de uma outra
forma. Ou seja, está em andamento nova
tecnologia para produzir hidrogênio
(H2) a partir do etanol, através do pro-
cesso conhecido como reforma química,
o qual produz (extrai) o hidrogênio do
etanol. Uma vez produzido, este hidro-
gênio alimenta uma célula a combustí-
vel que o converte, junto com oxigênio
captado da atmosfera, em energia elétri-
ca que movimenta as rodas. Tudo isso
montado a bordo de um veículo que tan-
to pode ser um automóvel ou um trem.
Um modelo como esse está em evolução
e testes na Unicamp (SP), em parceria
com o Instituto de Pesquisas Energé-
ticas e Nucleares (IPEN) e a japonesa
Nissan. Não há ainda data final firmada
mas, uma vez consolidada, esta tecnolo-
gia tem grande chance de ser estendida
para onde o etanol não tem entrado di-
retamente, como em caminhões, ônibus,
embarcações e no setor ferroviário.
O hidrogênio verde para alimentar
célula a combustível e gerar eletricidade
pode também ser produzido através de
Trem movido a energia elétrica gerada por uma outra tecnologia que utiliza eletró-
painéis solares instalados no teto lise para quebrar a molécula de água e
separar o oxigênio do hidrogênio, atra-

no teto. Esses trens utilizam também frenagem


regenerativa que transforma a energia cinética CÉLULA A COMBUSTÍVEL
dos rodeiros em eletricidade para o motor de
tração.
O Metrô de Santiago (Chile) utiliza energia e-
elétrica de tração gerada pela Usina Fotovoltai-
ca de Pellicano (110MW) e pela Usina Eólica + +
de San Juan (185MW), instaladas na Região do
Atacama. Ambas construídas por um consórcio H2 O2
brasileiro. - -
Em relação a biocombustíveis, o Brasil é refe- 2e 2e
rência mundial tanto na produção de biodiesel
como de etanol. O etanol produzido da cana-
-de-açúcar é fonte renovável que, além de ajudar H2 2H+ O2
o País a reduzir as emissões de GEE em relação
aos acordos climáticos da ONU, proporciona ânodo eletrólito cátodo
também uma economia circular ao aproveitar H2
o bagaço, a palha e a ponta da cana para gerar

82 Revista do Clube Naval • no 405


Finalmente, uma locomoti-
ESQUEMA DE TREM ELÉTRICO A va para trens de carga é uma
HIDROGÊNIO POR REFORMA QUÍMICA geradora de potência variá-
vel móvel que precisa de uma
etanol H2 fonte primária que opere co-
nectada às questões ambien-
CÉLULA processo tais. Neste sentido, os proces-
TANQUE eletroquímico sos para geração de energia
REFORMADOR DE
COMBUSTÍVEL de tração, sejam eles elétricos,
COMBUSTÍVEL
químicos, mecânicos, hidráu-
(1) (2) (4) licos, térmicos ou fotovoltai-
cos, devem atender a requi-
torque I sitos como disponibilidade,
eficiência energética e não
ENGRENAMENTO
MOTORES
agressão ao meio ambiente. A
QUEIMADOR DO transição do modelo diesel-
RODEIRO TRAÇÃO - -elétrico para um outro não
poluente é movimento vivo
(3) (6) (5) energizado por pressões so-
ciais, ambientais, tecnológi-
cas e econômicas. Na verda-
vés da injeção de uma corrente elétrica. Esta de, políticas ambientais são hoje requisitos para
corrente deve vir de fontes renováveis para que o posicionamento geopolítico e econômico do
a energia produzida não emita carbono para a Brasil no cenário internacional. Assim, fabri-
atmosfera e se torne sustentável (verde), como cantes e operadores ferroviários terão que se re-
ilustrado na figura abaixo. inventar: baixa emissão de carbono é requisito
Modelos de trens que usam células a com- inarredável em relação ao transporte e à expor-
bustível e hidrogênio via eletrólise para a tração tação do produto nacional. Eis o desafio. ■
estão em testes finais pelo mundo, como o Co-
radia ILint da Alstom - França, com previsão de
entrega para 2025, o Mireo Plus H da operadora
Deutsche Bahn – Alemanha, 160 Km/h, auto- * M.Sc., Engenheiro Eletricista, Engenheiro
nomia 600/1.000 Km, previsão 2024, fabricado Ferroviário, Integrante do Grupo de Interesse em
pela Siemens, o Hybari japonês da JR East, 130 Ciência, Tecnologia, Engenharia, Matemática e
Km/h, para 2024, entre outros em andamento. Inovação (CTEMI) do Clube Naval

PRODUÇÃO SOLAR DE HIDROGÊNIO (VERDE)


O2

Painel solar Eletrólise

H2
luz solar

H 2O

Células de
combustível
Armazenamento
a hidrogênio
de hidrogênio

Revista do Clube Naval • nº 405 83


PSICOLOGIA

AUTOCONHECIMENTO
VOCÊ VAI PRECISAR TER ISSO

Haendel Motta Arantes*

A
utoconhecimento é cada
vez mais valorizado e
requisitado no am-
biente de trabalho, seja para
favorecer laços de confiança
ou criar efeitos como bem-
-estar laboral, capacidade
de priorizar escolhas,
motivação e senti-
mento de realização.
Mas por onde passa
o caminho do autoco-
nhecimento? O presen-
te artigo traz uma breve
investigação sobre o tema.

Imagem:
Adobe Stock
84 Revista do Clube Naval • no 405
O PREFIXO "AUTO"

Antes de mais nada, vale destacar que o pre-


fixo auto na palavra autoconhecimento se refere
mais a conhecer a si mesmo do que a se conhe-
cer sozinho.
"Então eu não posso me conhecer sozinho?"
Sim, é claro que pode, mas trarei aqui alguns
argumentos de que é possível ir mais longe na
companhia de outra pessoa.
"E me conhecer pesquisando e estudando em
livros de psicologia?" Bom, estudar psicologia
não é o mesmo que se submeter a um processo
terapêutico. Uma analogia possível seria com-
prar livros sobre surf ou encarar as ondas até
aprender a surfar.
"Mas só posso me conhecer através de um
processo terapêutico com um profissional de
psicologia?" Certamente que não. Nada detém
de fato a hegemonia da promoção de autoco-
nhecimento, destaco aqui apenas o valor da
presença de outra pessoa quando falamos desse
processo. bem: quem nos garante estar livre dessa proje-
ção "ovo com batata frita" quando olhamos para
OVO COM BATATA FRITA nós mesmos? E se vemos um leão onde só há
um gatinho? Ou vice-versa?
Talvez você já tenha recebido pelo WhatsApp
um vídeo em que uma palestrante projeta a foto A JANELA DE JOHARI
ao lado e provoca a plateia: "Por que a gente vê
ovo e batata frita?" Os psicólogos norte-americanos Joseph Luft e
A foto, repare, é na verdade de iogurte, pês- Harrington Ingham criaram, em 1955, uma fer-
sego e maçã. ramenta muito perspicaz, batizada através da jun-
"Vemos ovo com batata frita porque faz parte ção de seus nomes, Jo e Harri: a Janela de Johari.
da nossa experiência", diz a palestran-
te. Sim, nossa percepção se orga-
niza conforme nossa bagagem de Eu conheço Eu desconheço
fundo. Trata-se aqui de pareidolia:
ver imagens conhecidas em formas
Outro conhece

Outro conhece
aleatórias, tal como seria ver um na-
vio nas formas de uma nuvem (aqui, eu eu
no caso, as formas da imagem não
são exatamente aleatórias, produzem público cego
uma espécie de 'pareidolia pegadinha'
entre um prato saudável e outro
nem tanto, mas isso não interfere
no que pretendo destacar).
Outro desconhece

Outro desconhece

A palestrante continua: "O


que pensam sobre você não
define quem você é; as pessoas eu eu
estão te olhando a partir da experiência
delas, mas só você sabe o que você traz secreto desconhecido
na essência", conclui.
Uma chuva de aplausos encerra o ví-
deo. E será que não podemos oferecer
nenhuma crítica a ele? Afinal, pense Eu conheço Eu desconheço

Revista do Clube Naval • nº 405 85


Dividiram-na em quadrantes, combinando tas – não só de falhas, mas também de poten-
em cada um deles os elementos: Eu, Outro, Co- ciais latentes – pela vida inteira.
nhecido e Desconhecido.
CONHECIMENTO DE SI
• No quadrante Público, um "eu" conhecido
por mim e pelo "outro". A palavra "conhecimento" tem um forte viés
• No quadrante Secreto, um "eu" conhecido científico: seus exames sanguíneos, genéticos,
por mim e não compartilhado com o "ou- de imagem, enfim, tudo o que pode ser medido
tro" (quadrante que, em tempos de redes ou convertido em dados é conhecimento sobre
sociais, anda bem reduzido). você.
• No quadrante Ponto Cego, um "eu" desco- Embora menos palpáveis, inclua aí também a
nhecido por mim, mas perceptível aos olhos transmissão cultural que herdamos do lar onde
do "outro" (ponto que destacamos enquanto nascemos, da cidade, do país, da geração x ou y
crítica à metáfora do "ovo com batata frita" em que nos encontramos, enfim, os múltiplos
aludida antes). vetores sociais e coletivos que, de alguma ma-
• No quadrante Desconhecido, um "eu" sur- neira, também nos forjam.
preendente para mim e para o "outro" (pon- Além deles, nossas características de perso-
to em que a Janela de Johari se conecta à nalidade, possíveis de se obter através de ques-
perspectiva do inconsciente psicanalítico). tionários de autoavaliação ou testes persona-
lógicos, dentre os quais destaco o MBTI (The
Com base nessa premissa – a da existência Myers-Briggs Type Indicator), onde você encon-
de pontos desconhecidos para o próprio indiví- tra, entre dezesseis tipos de personalidade, a que
duo –, um processo de autoconhecimento que mais delineia a sua – vale a pena experimentar.
envolva mais de uma pessoa tangibiliza a im- Tais levantamentos, inúmeros hoje, podem
portância de relações íntimas e feedbacks que iluminar nossas características e nos servir
possam nos trazer algo para além de nossa or- como uma espécie de bússola de autoconheci-
gulhosa pareidolia sobre nós mesmos. mento, mas é preciso atentar para seu caráter
Nessa medida, o caminho do autoconheci- sempre incompleto, bem como tomar cuidado
mento, aparentemente introspectivo, encontra para não acabar criando o que chamarei aqui de
oxigenação na profundidade das conexões que uma "Identidade Gabriela’".
possamos cultivar uns com os outros.
Isso impõe limites ao self-awareness (auto-
consciência), cuja visada é estar presente para
observar os próprios comportamentos, reações,
escolhas e gatilhos emocionais. Afinal, seria de-
safiar a lógica pretender observar sozinho pon-
tos que, por definição, restam cegos ao indiví-
duo.
Cabe salientar, porém, que a função do outro
não será exatamente a de esclarecer ou catalogar
o conjunto de nossos pontos cegos – uma vez
que um catálogo desses viria também recheado
das projeções de quem o fizesse.
Na verdade, é comum que feedbacks pare-
çam "bater meio de lado", sem nunca acertar em
cheio quanto ao que dizem a nosso respeito. Por
essa via, mais importante do que questionar se
as análises do outro foram fidedignas ou não, é
estarmos vulneráveis a tirar benefício do incô-
Imagem: Adobe Stock

modo causado por elas.


O fato é que pontos cegos sempre irão existir
– e saber disso, além de nos posicionar a humil-
dade, nos aponta uma dimensão permanente-
mente incompleta em relação a conhecer a nós
mesmos, garantindo aprendizagens e descober-

86 Revista do Clube Naval • no 405


"IDENTIDADE GABRIELA"

"Eu nasci assim, eu cresci assim/ Eu sou mes-


mo assim/ Vou ser sempre assim/ Gabriela,
sempre Gabriela". A letra de Dorival Caymmi
serve para ilustrar com humor uma tal síndro-
me de Gabriela da qual se fala hoje: pessoas que
se vangloriam de seu "autoconhecimento" para
justificar inflexibilidade ou indisponibilidade

Imagem: freepik.com
em relação a novas experiências, recusando
convites ou oportunidades com um categórico
"não, obrigado, eu me conheço".
Longe de querer defender aqui o conto do
'você pode ser o que você quiser, basta querer', é
preciso tomar cuidado com os extremos ao ava-
liarmos o que pode e o que não pode ser modi-
ficado em nós. Nesse sentido, é como se o caminho do au-
Se, por um lado, não podemos alterar radi- toconhecimento não se desenvolvesse ape-
calmente nossas características, por outro, cabe nas num passeio por nossa interioridade, mas
nos mantermos disponíveis para o que há de através do que a exterioridade lhe revela ou faz
surpreendente e desconhecido em nós, preser- emergir com seus atritos.
vando uma disposição flexível e de crescimento, Se pudéssemos estender os quadrantes da Ja-
voltada à ressignificação de nossa própria iden- nela de Johari pela fita de Moebius, teríamos a
tidade. impressão de caminhar sobre duas superfícies
(a que pisamos, conhecida; a debaixo dela, des-
DE DENTRO PARA FORA, conhecida), caminhando na verdade sobre uma
DE FORA PARA DENTRO só – afinal, somos um só, ainda que marcados
por um tipo de autoconhecimento que nunca se
Na imagem abaixo, vemos uma superfície revela por completo.
onde dentro e fora estão em continuidade, a Hoje, assistimos ao fenômeno da data science/
fita de Moebius (diferente de um cinto que fe- analytics que, garimpando o volume imenso de
chamos em nossa cintura, onde a superfície de nossos rastros digitais, pode vir a nos conhe-
dentro nunca encontra com a de fora). cer melhor do que nós mesmos – tal como nos
adverte o professor Yuval Harari. Isso constitui
um motivo a mais para buscarmos autoconhe-
cimento, pois certamente quanto menos nos co-
nhecermos, mais alta será a chance de nos tor-
narmos presas fáceis das muitas armadilhas de
manipulação e distração que virão (e já estão)
por aí.
Quanto aos caminhos de promoção de au-
toconhecimento possíveis, abracei por escolha
pessoal e profissional o da psicanálise, mas esse
é apenas um entre muitos caminhos possíveis.
Escolha o seu.
Fica, por fim, apenas o convite para que in-
clua em sua travessia pessoas capazes de levá-lo
além de você mesmo.
Eis o paradoxo do autoconhecimento: é pelo
lado de fora que se conhece melhor o de den-
tro. ■
A fita de Moebius foi utilizada por Lacan como
suporte para ilustrar nossa subjetividade * Capitão de Corveta (S), Mestre em Psicologia,
psicólogo clínico do Centro Médico Assistencial
da Marinha / Ambulatório Naval da Penha

Revista do Clube Naval • nº 405 87


CULTURA

O FUZIL AK-47
E A VEXILOLOGIA
Cícero Caldas Neto*

A
liar o envolvimento da Vexilologia a amplitude de uso deste artefato estimando que
com uma arma utilizada por exércitos tenha matado, pelo menos, sete milhões de pes-
e milícias ao redor do mundo é o prin- soas com suas quase cem milhões de unidades
cipal objetivo deste artigo, ao destacar fabricadas e vendidas a preço tão baixo que pas-
os desenhos de várias bandeiras e brasões na- saram a ser objeto de desejo dos narcotrafican-
cionais que reproduzem a imagem do fuzil AK- tes do Comando Vermelho – no Rio de Janeiro
47. Em seguida, a primeira regulamentação do – ou do Primeiro Comando da Capital – em São
uso das bandeiras, através das Siete Partidas do Paulo.
Rei espanhol Alfonso X, que muito influenciou
a legislação ibérica, culminando com a divisão/ "Libéria, Angola, Sudão e Moçambique
anatomia das bandeiras. foram os países da África que mais rece-
Outro dia me deparei com um artigo sobre beram carregamentos da Avtomat Kalash-
o relançamento, pelo conglomerado industrial nikov 1947. As fontes eram fábricas na Al-
russo Rostec, do tradicional fuzil russo Avtomat bânia, Egito, Hungria, Alemanha, Bulgária,
Kalashnikova (AK-47): uma das armas de in- entre outras, que as forneceram aos estados
fantaria mais utilizadas por exércitos e milícias africanos em formação. [...] Logo, o produ-
ao redor do mundo pelo seu baixo custo, eficiên- to tornou-se tão abundante que chegou a
cia e fácil manutenção, que surgiu em 1947 pelas ser vendido a US$ 10 ou trocado por um
mãos do Sargento russo Mikhail Kalashnikov ⁽1), cacho de bananas. Com diamantes do Togo
morto em 2013, aos 94 anos. e da Guiné, o ditador Charles Taylor fez
A simplicidade do design, comparando-se a chover abundantemente a kalashnikova na
similares do mercado, e o seu projeto nada re- Libéria. Em 1975, a guerra de dez anos pela
volucionário, teve por inspiração armas alemãs libertação de Moçambique chegava ao fim
do fim da 2ª Guerra Mundial, as quais necessi- e, na sequência, um conflito civil onde o
tavam de leveza e resistência às mudanças cli- país seguiu por um calvário de tendências
máticas. Assim, o AK-47 conseguiu a proeza de políticas. Quando da assinatura do Acordo
figurar no livro Guinness World Records por ter Geral de Paz, em 1994, a bandeira nacional
mais de cem milhões de unidades ainda em uso já estava estabelecida: nela figura poten-
atualmente. te uma AK-47 como símbolo de um povo
A jornalista Priscilla Santos, em seu artigo e sua luta." (Priscilla Santos, in AK-47: A
"AK-47: A Arma do Século XX"⁽2), ilustrou bem Arma do Século XX).

88 Revista do Clube Naval • no 405


Essa facilidade de operação fez com que Osa- pular pela honra e dignidade da soberania
ma bin Laden, o criador da Al-Qaeda, frequen- do Estado."
temente fosse visto com um AK-47 a tiracolo e
até mesmo na coleção de armas do ditador ira- No brasão de armas do Zimbábue ⁽5), tam-
quiano Saddam Hussein, apreendida pelas tro- bém foi destacado o modelo da arma utilizada:
pas dos Estados Unidos, se encontrou um deles
folheado a ouro. A fama e o uso indiscriminado "O brasão de armas do Zimbabwe foi adop-
da arma ⁽3), tanto por militares quanto civis, fi- tado a 21 de Setembro de 1981, um ano
zeram com que alguns países exaltassem o fuzil, após a adopção da bandeira nacional. [...]
utilizando sua imagem nas bandeiras nacionais Por detrás do escudo estão um enxada (à
e nos brasões, a exemplo de Moçambique, do esquerda) e uma metralhadora AK-47 (à
grupo radical libanês Hizbullah e os brasões do direita) cruzadas, unidas por fitas de seda
Timor Leste e do Zimbábue, como se pode ver verdes e douradas."
nas imagens a seguir.
Apenas a título de ilustração, também outros
países adotam armas em suas bandeiras para re-
presentar sua soberania, como Angola, Arábia
Saudita, Guatemala, Haiti, Oman, Quênia, Sri
Lanka e Suazilândia:

Emblema Brasão de
Armas
Bandeira de Bandeira da
Angola Guatemala

Bandeira de Bandeira do grupo


Moçambique radical libanês Hizbullah
Bandeira Bandeira do
Estatal do Haiti Quênia

Bandeira de Bandeira da
Brasão de Armas Oman Arábia Saudita
Brasão de Armas
do Timor Leste do Zimbábue

Na descrição ⁽4) do emblema nacional, o go-


verno hoje democrático do Timor Leste expli-
cita: Bandeira da Bandeira do
Suazilândia Sri Lanka
"O conjunto da espingarda auto-
mática, de modelo AK-47/Gala- Feita essa apresentação, vamos ao tema de
xi, o rama inan (arco) e o diman fundo deste artigo: a Vexilologia, ciência auxi-
(flecha) simbolizam os valores liar da História que estuda as bandeiras, estan-
de séculos de luta de resistência do povo dartes e insígnias e as suas simbologias, usos,
pela libertação nacional e auto-defesa po- convenções etc. O seu nome provém de vexil-

Revista do Clube Naval • nº 405 89


lum, nome dos estandartes utilizados no exér- Teve vigência por toda a América Hispânica
cito romano. até a época das codificações (1822-1916), che-
Uma bandeira não é apenas um pedaço de gando aos Estados Unidos em princípios do sé-
pano colorido. Em seu conteúdo, estão repre- culo 19, em territórios que pertenceram antes
sentadas as lutas, história, esperanças e con- ao império espanhol (como a Louisiana) e, em-
vicções de um povo. Usada tanto na paz como bora as codificações legais posteriores tenham
na guerra, é um dos símbolos universais mais posto fim à aplicação das Partidas, este fato não
abrangentes e comunicativos. Sua origem re- implicou o desaparecimento do Direito nelas
monta à Idade Média, quando os exércitos, para contido, pois boa parte passou a fazer parte dos
não se confundirem uns com os outros, usavam códigos dos países hispano-americanos (espe-
um pedaço de tecido hasteado num estandarte, cialmente os códigos civis).
com as cores e sinais de identificação.
Coube ao Rei espanhol Alfonso X (1252- ANATOMIA DAS BANDEIRAS
1284), o sábio, a primeira regulamentação do
uso das bandeiras, através das Siete Partidas,
corpo normativo redigido em Castela com o
objetivo de se ter certa uniformidade jurídica Cantão
para o Reino. Essa obra é considerada um dos Tralha Batente
mais importantes legados da Espanha para a (parte mais (parte que
história do Direito. próxima esvoaça ao
do mastro) Campo vento)

LAS SIETE PARTIDAS

Parte 1: la iglesia y la vida


religiosa
A bandeira mais antiga do mundo em uso
Parte 2: la ley pública y el contínuo é a Dannebrog, da Dinamarca. Sua
gobierno origem data de 1219 e, de acordo com uma an-
tiga tradição, teria caído do céu durante a Bata-
Parte 3: la justicia lha de Reval (atual Tallin, Estônia). A bandeira
Parte 4: el matrimonio dinamarquesa, bem como a história de Reval,
viria mais tarde a inspirar várias outras bandei-
Parte 5: el comercio ras, principalmente as nórdicas, e se tornar uma
Parte 6: testamentos y espécie de primeiro modelo europeu por sua
herencias forma e composição.
Capa da obra
Siete Partidas, Parte 7: los crímenes y los
exemplar castigos
de 1555

As Sete Partidas, com o respectivo regula-


mento sobre as bandeiras (señas, como foram
genericamente referidas) influenciaram a legis-
lação de todos os reinos ibéricos, entre os quais
Portugal, cujo Rei D. Dinis era neto de Alfonso Bandeira da
X. Na Partida II, conjunto de leis que se refe- Dinamarca
rem à guerra, foi inserido o regulamento sobre
as señas através das leis XII, XIII, XIV e XV, es- No estudo de Tiago Berg sobre as bandeiras
tabelecendo quais sinais deveriam identificar os de todos os países do mundo, foram classifica-
chefes militares em campanha e as diferenças dos alguns tipos delas, suas formas históricas e
entre o estandarte privativo de um príncipe, os modernas, as principais divisões, linhas, mo-
pendões, os hierárquicos dos comandantes mi- delos e estilos e as partes. Sobre essa última, a
litares, as flâmulas de cada regimento etc. imagem a seguir:

90 Revista do Clube Naval • no 405


Tralha superior Batente superior
ou cantão

Largura
Centro

Tralha inferior Batente inferior

Comprimento
As bandeiras da Inglaterra, Escócia e Irlanda
Não existem leis internacionais que determi- formando a Union Jack do Reino Unido
nem a forma como as bandeiras devam ser pro-
jetadas, mas cada país tem suas próprias regras Enfim, a bandeira nacional não é apenas um
e convenções a respeito da criação, reprodução retângulo espremido onde caiba um único dese-
e exposição de seus lábaros nacionais ou subna- nho que represente a história, a geografia, a cul-
cionais (de regiões, estados, províncias, munici- tura, a política e a religião de um país, mas é o
palidades). mais evocativo símbolo de uma nação, cujo con-
Para este estudo identificamos três modelos teúdo e cores sintetizam lembranças de guerras,
básicos: retangulares, quadradas e o “farpado”, uniões políticas e rivalidades públicas. ■
no caso do Nepal ⁽6). Quanto à composição,
também podemos reconhecer alguns padrões NOTAS
frequentes de bandeiras: (1) Mikail Kalishnikov teve até uma marca de vodka com seu
nome e publicou suas memórias no livro “Rajadas da História”.
• Cruzes: a bandeira da Dinamarca inspirou Viveu uma vida tranquila numa casa entre os bosques dos
várias outras como as da Noruega, Finlân- Montes Urais, na Rússia
dia, Suíça, Islândia e Geórgia. (2) disponível em: <http://obviousmag.org/archives/2007/07/
• Stars and Stripes: apelido da bandeira ame- ak47_a_arma_do_1.html> Acesso em 12 out 2017
ricana, que inspirou diversas outras ao redor (3) Os EUA, com fabricação e venda livre de armas, já produzem
do mundo, inclusive o primeiro estandarte o fuzil AR-15 CRUSADER com citações bíblicas e símbolos
cristãos, como a cruz templária, gravados de fábrica. Ver em:
republicano dos Estados Unidos do Brasil. < http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/09/fuzil-com-
• Nobiliárquicas e tradicionais: essas ban- citacoes-biblicas-e-simbolos-cristaos-causa-polemica-nos-eua.
deiras são compostas frequentemente por html> Acesso em 12 out 2017
duas ou três faixas com cores que apenas (4) disponível em <http://timor-leste.gov.tl/?p=34> Acesso em
simplificam os antigos brasões nacionais. 12 out 2017
Geralmente as cores representam as casas (5) disponível em < https://pt.wikipedia.org/wiki/
nobres reinantes como a da Alemanha e do Bras%C3%A3o_de_armas_do_Zimbabwe> Acesso em 12 out
Brasil, mas algumas podem expressar outras 2017
ideias, como a Tricoleur, que representava (6) Adotada em 1962, a bandeira do Nepal é, atualmente, a única
os três estamentos sociais franceses e depois bandeira nacional que não é quadrada ou retangular; composta
se tornou símbolo da Revolução. de dois triângulos que representam as montanhas do Himalaia
• Union Jack: com a morte da Rainha Eliza-
REFERÊNCIAS
beth I, Inglaterra, Escócia e Irlanda pas- A história e o design das bandeiras. disponível em: < http://
sariam por um longo processo de reorga- www.revistacliche.com.br/2013/03/a-historia-e-o-design-das-
nização geopolítica através de disputas e bandeiras/> Acesso em 12 out 2017
conflitos que culminariam, em 1800, com As bandeiras nas sete partidas de Afonso X. disponível em: <
a união dos três reinos em um único país http://audaces.blogs.sapo.pt/14981.html> Acesso em 12 out 2017
denominado Reino Unido da Grã-Bretanha Berg, Tiago José. Bandeiras de todos os países do mundo. São
e Irlanda. Essa união política e institucional Paulo: Panda Books, 2013.
seria representada pela sobreposição das Ribeiro, João Guilherme C. Bandeiras que contam histórias. Rio
três bandeiras, gerando uma nova, a Union de Janeiro: Zit Gráfica e Editora, 2003.
Jack, que inspiraria ou estaria presente em
dezenas de outras dos países colonizados
pelos britânicos. * Membro da SOAMAR (PB) e do Instituto
Paraibano de Genealogia e Heráldica

Revista do Clube Naval • nº 405 91


A
CULTURA
riqueza literária do Brasil permane-
ceu por muitos anos escondida, de-
vido, sobretudo, à falta de vias de co-
municação entre os diversos centros
urbanos. Apesar dos representantes que houve

UMA BREVE
desde a colônia, poucos foram os que tiveram
a notoriedade necessária. Isso passa a mudar
com a maior integração territorial do Brasil e
a maior industrialização das cidades e grandes

HISTÓRIA DA
centros urbanos.
As obras escritas foram ligadas aos aconteci-
mentos políticos internos e externos ao Brasil,
havendo crescente engajamento artístico no

LITERATURA plano social a partir do fim da 1ª Guerra Mun-


dial e a expansão de reflexos dos acontecimen-
tos na Europa para todo o mundo. Sem dúvida,
a Semana de 1922 foi de grande importância na

NO BRASIL mudança do realismo do Império para o mo-


dernismo que reinaria durante boa parte do sé-
culo 20.
O presente artigo tem por objetivo apresentar

REPUBLICANO a evolução histórica da literatura brasileira no


período republicano. Foi utilizado como me-
todologia a revisão bibliográfica. Tem-se por
resultado um bom panorama dos principais au-
DE FINS DO IMPÉRIO tores e acontecimentos que fizeram a literatura
nacional adotar posturas e formatações ao lon-
go dos séculos.
AO TENENTISMO
PRELÚDIO

O início de nosso período republicano seria


bastante influenciado pelo realismo e naturalis-
mo de fins do Império. A publicação de Memó-
Esley Rodrigues de Jesus Teixeira * ria Póstumas de Brás Cubas (1881) de Machado
de Assis seria o marco inicial do realismo, que
já despontava nas poesias de Fagundes Vare-
la e Castro Alves, ainda na década de
1860. No mesmo ano que debutava
Assis com seu romance épico, Aluí-
sio de Azevedo lançava O Mulato,
marco do início do naturalismo na
literatura nacional, vertente poéti-
ca que visa utilizar teorias científi-
cas na descrição da personalidade e
ações dos personagens. Machado de
Assis, filho de um pintor de paredes
mulato e uma imigrante dos Açores,
foi (e ainda é) um dos maiores
representantes da literatura

Machado de Assis, um dos


maiores representantes da
literatura brasileira

92 Revista do Clube Naval • no 405


brasileira, cujas obras principais, nas de paisagens, personagens e
além de Memórias Póstumas, dificuldades que se apresenta-
são Quincas Borba (1881) e vam na rotina. Destacam-se
Dom Casmurro (1899). O Euclides da Cunha com sua
naturalismo de Aluísio de abordagem da Guerra dos
Azevedo também é um Canudos e do sentimento
marco da literatura brasi- messiânico do povo nor-
leira da época, com des- destino aliado às dificul-
crições pormenorizadas dades da seca e da fome;
dos ambientes e paisagens Monteiro Lobato em suas
em Casa de Pensão (1894) estórias descritivas da mi-
e O Cortiço (1890). séria do interiorano paulista
Na mesma época, Ola- e fluminense do Vale do Pa-
vo Bilac construiria templos raíba; Graça Aranha com sua
ao classicismo e masmorras aos temática sobre a imigração ita-
excessos emotivos do real- liana; e Lima Barreto em suas
-naturalismo através de suas Aluísio de Azevedo, um dos principais análises da população perifé-
poesias parnasianas. Sua obra autores do naturalismo no Brasil rica da capital do Brasil.
Poesias (1888), apesar de con- Assumem as obras, desta
ter fortes apelos ao realismo, segue os contornos forma, um largo caráter social, mas ainda não
clássicos da poesia antiga que passou a dar for- possuem críticas ao governo ou políticos. Por
te impulso à produção literária brasileira. Com procurar descrever o brasileiro em seu estado
Bilac, Raimundo Correa e Alberto de Oliveira natural, a linguagem utilizada pelos pré-mo-
formariam a “Tríade Parnasiana”. Apesar da ri- dernistas é muito mais coloquial e simples que
queza dos detalhes e da profundidade na des- aquela utilizada pelos simbolistas, parnasianos
crição dos sentimentos, a crítica lhes impunha ou naturalistas. Escrevia-se, portanto, o brasi-
certa aridez: diziam ser os parnasianos apenas leiro, e não o português.
“copiadores” de conteúdos clássicos para cha- A nova abordagem literária nacional era um
mar atenção à classe letrada e erudita da época. reflexo da realidade por que passava a socieda-
Estas críticas também advinham de poetas que, de de então. Euclides da Cunha descreveria os
opostos ao naturalismo e ao materialismo cien- reflexos da grande seca que afligira o Nordeste
tificista do fim do século 19, passaram a utili- no fim do século 19, vitimando, apenas no Cea-
zar-se dos símbolos para exprimir-se. rá, um estado em que a média de vida era 27
O simbolismo nasceria na França, como uma
ideia de valer-se da expressão indireta, vaga e Alberto de Oliveira, Raimundo Correa
misteriosa. Já após a Proclamação da República, e Olavo Bilac, a "Tríade Parnasiana"
são publicados no Brasil dois livros
de Cruz e Souza (Missal e Broquéis,
1893). A Academia Brasileira de
Letras seria fundada quatro anos
mais tarde, em 1897. Além de Cruz
e Souza, marcou o simbolismo o
poeta mineiro Alphonsus de Gui-
maraens, que focou sua escrita no
místico, religioso, na inexistência e
na morte.
O início da República testemu-
nha uma nova leva de escritores
brasileiros, mais interessados em
descrever o homem brasílico e
seu dia a dia que a problemática
existencial e filosófica que aturdia
o homem universal. Passaram a
constar na escrita brasileira o co-
tidiano, com descrições fidedig-

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Folha de rosto da
anos, 64 mil brasileiros em três
primeira edição
anos.
de Os Sertões,
Lima Barreto escreveria so-
publicada em 1902
bre o preconceito racial, dando
a suas obras tons do tratamento
que sofrera enquanto se tratava forte influência
no manicômio por causa de seu de Arthur Scho-
alcoolismo. Também estaria pre- penhauer: a mor-
sente em suas obras críticas aos te, a desesperan-
movimentos que culminaram na ça, as angústias
Revolta da Vacina, as políticas existenciais.
públicas de valorização do café, Talvez o maior legado deixa-
sobretudo a compra de café por do à posteridade seja Monteiro
parte do governo federal para Lobato, cuja veia crítica per-
controlar os preços no mer- No período republicano as obras mitiu por em claro o Bra-
cado internacional e os lu- assumem um caráter mais voltado ao sil agrário e atrasado que se
cros dos grandes cafeiculto- social. Um dos autores que utilizaram desenhava fora dos grandes
res (Convênio de Taubaté) e essa nova abordagem foi Euclides da centros urbanos. Seu perso-
os políticos que, segundo ele, Cunha, cujo tema de seu mais famoso nagem Jeca Tatu era a cari-
eram sem substância, ganan- livro (Os Sertões) é a Guerra de Canudos catura do brasileiro médio,
ciosos e desprovidos de ca- sempre fora dos holofotes da
pacidade intelectual. Marco de sua obra, Triste capital e de São Paulo. Por meio dele também
Fim de Policarpo Quaresma retrata muito bem criticou a falta de capilaridade das políticas de
as frustrações por que passa um servidor públi- educação e desenvolvimento que Vargas vendia
co nacionalista: entre tentativas e erros, mudar na retórica, chegando a ser preso em 1936, o
a língua oficial para o Tupi; provar, sem sucesso, que causou profunda comoção nacional. Tam-
que “nessa terra se plantando tudo dá”; e servir bém foi o primeiro escritor que dedicou vasta
a Floriano contra a Revolta da Armada, sendo produção literária aos contos infantis. Sua obra
depois fuzilado a mando de seu ídolo. prima, o Sítio do Pica Pau Amarelo, ainda hoje
Também desenha os subúrbios do Rio de faz sucesso nas escolas, nas casas e na TV. Foi
Janeiro com bastante aderência à realidade. A através dela que Lobato conseguiu passar a di-
esses juntar-se-ia Augusto dos Anjos, com sua versas gerações nossos costumes, cultura, len-
obra de linguagem coloquial e “baixa” para os das, língua e valores morais.
padrões da época (escarro, prostituta, cadáve- Uma das críticas de Monteiro Lobato residia
res, vermes...), introduziu na cultura brasileira na fantástica capacidade que possuíam os brasi-
leiros de então em copiar estrangeirismos atra-
vés de hábitos e neologismos, a subordinação
aos modelos governamentais e administrativos
impostos pelo sistema capitalista internacional
e que não atingiam aderência à cultura e socie-
dade brasileiras (tampouco ao clima), e a ce-
gueira do público em geral com relação à vida
política do Brasil.
Nascido de um período conturbado da vida
nacional, o mundo literário republicano seria
uma continuação dos estilos desenvolvidos no
Império, inserindo aos poucos os estrangeiris-
mos bem presentes na literatura futura do pe-
ríodo. Fica clara já a atuação dos escritores nas
críticas sociais e nas descrições bastante fiéis do
cotidiano brasileiro. ■
Monteiro Lobato dedicou
muitas de suas obras ao
público infantil * Capitão de Corveta (FN)
ÚLTIMAS PÁGINAS

A IMPORTÂNCIA DO EMBARQUE
PARA O JOVEM OFICIAL DO CORPO
DE ENGENHEIROS DA MARINHA

Ali Kamel Issmael Junior*

O ENGENHEIRO DE BORDO

A
té meados de 2001, era previsto
no Plano de Carreira de Oficiais
da Marinha (PCOM), o embar-
que obrigatório para os oficiais do
Corpo de Engenheiros da Marinha (CEM),
no posto de primeiro-tenente (EN), pelo
período de um ano (BRASIL, 2000). Por
conta da maior demanda de mão de obra
especializada dos oficiais engenheiros ad-
vinda com os projetos subsequentes a esta
data, como o recebimento do Navio-Aeródromo as aventuras da espaçonave Enterprise, tinha a
(NAe) “São Paulo”, o término da construção da sua atenção chamada pelas agruras técnicas que
Corveta “Barroso”, a construção dos Navios Pa- Scotty, o engenheiro-chefe da intrépida espaço-
trulha Classe “Macaé” e o Programa de Desen- nave, em bom linguajar naval, tinha que “safar”,
volvimento de Submarinos (PROSUB), além da para que o Capitão Kirk pudesse cumprir as
necessidade de apoio aos meios nas Organiza- missões e, eventualmente, até contribuir para
ções Militares Prestadoras de Serviço (OMPS), o garantir a segurança e a sobrevivência da tripu-
embarque acabou sendo inicialmente eliminado lação em situações de alto risco. Bem como suas
e, posteriormente, retomado com o atual escopo impagáveis frases como, por exemplo, “Não se
reduzido da realização de um estágio de cerca de preocupe, Capitão. Nós vamos vencer esses de-
um mês, durante o curso de formação no Centro mônios Klingons, mesmo que eu tenha que sair
de Instrução Almirante Wandenkolk (CIAW). e empurrar a nave!” (MEMORY ALPHA, 2022),
Em uma provocação inicial, cita-se, na cultu- ou as frases motivacionais que ele recebia de
ra popular, como a presença de um engenhei- seu Comandante: “Scotty, você é meu engenhei-
ro a bordo de meios operativos é tradicional. ro-chefe. Você sabe tudo sobre aquela nave que
Pelo menos para a geração pós- há para saber. Mais do que os homens que a pro-
-anos 60, onde alguns devem jetaram. Se você não conseguir fazer esses moto-
lembrar da ilustre personagem res de dobra funcionarem, você está despedido”
“Montgomery Scott”, do seria- (MEMORY ALPHA, 2022).
do “Star Trek – Jornada nas Es- Scotty nos mostra, de forma lúdica, como o
trelas”. O autor deste artigo, oficial engenheiro pode contribuir com a difícil
por exemplo, ao observar lida a bordo e o cumprimento da missão, não so-
mente com seus conhecimentos técnicos,
Personagem Montgomery Scott mas também com profissionalismo, dedi-
do seriado Star Trek - Jornada cação e, principalmente, com espírito de
nas Estrelas, interpretado pelo amizade e camaradagem cultivado com
ator James Doohan (MEMORY
ALPHA, 2022)

Revista do Clube Naval • nº 405 95


os demais tripulantes. De outra parte,
com o aprendizado das necessidades do
trabalho de seus companheiros do setor
operativo, acaba por angariar a com-
preensão de como a sua atuação pode
confluir para os objetivos do comando,
e, assim, se cria a empatia mútua, que
só pode ser obtida em razão do oficial
engenheiro também ter feito parte da-
quele ambiente. O objetivo deste artigo
é demonstrar isso, descrevendo as ex-
periências que o autor teve a oportu-
nidade de vivenciar em seu embarque
como tripulante da saudosa Corveta
“Inhaúma” (V30), cujos aprendizados,
posteriormente, foram utilizados em Instalação da antena do radar de navegação
outras missões em meios operativos e FURUNO Mk-1831 | Foto do autor
Organizações Militares (OM) da Mari-
nha do Brasil (MB).

AS ATIVIDADES E EXPERIÊNCIAS
VIVENCIADAS

Em face de sua formação como enge-


nheiro eletrônico, o autor ao embarcar
no “Cão Danado” (carinhoso apelido
do mascote da V30), foi lotado como 1°
Ajudante da Divisão OSCAR 2 (O2) do
Departamento de Operações. Esta Di-
Módulo Transceptor de controle e
visão era responsável pelos Sistemas de
Display do radar | Fotos do autor
Navegação (radares de navegação, eco-
batímetro, agulhas giroscópicas, GPS,
giro magnética, anemômetros, sonar,
sensor ambiental XBT etc.) e Comando e Con- ção como engenheiro eletrônico. Por exemplo,
trole do navio. o autor participou da instalação por bordo de
As principais atividades desempenhadas pelo um radar de navegação FURUNO, com a ajuda
autor na V30 foram a realização da instalação e das praças da O2, e também fez a sua integra-
verificação de sistemas a bordo, abrindo a pos- ção com o GPS, a agulha magnética e a agulha
sibilidade de contribuir com o navio e aplicar giroscópica do navio, conforme ilustrado nas
os conhecimentos técnicos obtidos na forma- figuras acima, sendo uma experiência extrema-
Apresentação da Divisão OSCAR 2 ao
CF Barcellos, Comandante em assunção
da V30, e a bandeira de faina da V30
com o seu mascote, o "Cão Danado"
Fotos obtidas com o Oficial de Relações
Públicas do navio à época

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O autor como Oficial
de Serviço no Porto de
Santos, em 2001, e como
Ajudante do Oficial de
Manobra no passadiço
da V30, com o amigo, o
então 1° Ten Alexandre
Silveira Varanda Pereira
Fotos do autor

mente gratificante. Além disso, pôde servir de fainas de “Grupos de Vistoria e Inspeção e Pa-
facilitador de interface, como Ponto de Contato trulha” (GVI/GP), fainas de carga, entre tantas
(POC), com as Organizações Militares Presta- outras.
doras de Serviços (OMPS) e Diretorias Espe- A participação pela V30 na sua Comissão de
cializadas (DE), por possuir os conhecimentos Inspeção e Assessoria de Adestramento (CIAsA)
técnicos para melhor elaborar os pedidos de e Vistoria de Segurança de Aviação (VSA) para
serviço e, eventualmente, Modificações Técni- homologação, pelo Centro de Adestramento
cas (MODTEC), e acompanhamento dos repre- "Almirante Marques de Leão" (CAAML), das
sentantes técnicos destas organizações, durante condições operativas do navio, teve a contri-
as visitas de inspeção ou reparo dos sistemas por buição de todos os seus setores, para sanar as
intermédio, especialmente, do então Centro de discrepâncias a bordo, sejam administrativas
Eletrônica da Marinha (CETM), atual Centro (regularizando as documentações de pronto uso
de Manutenção de Sistemas (CMS), e da Direto- para consulta no passadiço e no Centro de Ope-
ria de Sistemas de Armas da Marinha (DSAM). rações e Combate - COC), técnicas (contribuin-
Ao ser habilitado como Oficial de Serviço a do para o reparo e manutenção de equipamentos
bordo de um navio em porto e como Ajudan- durante a inspeção operativa no mar) e doutri-
te do Oficial de Manobra em viagem ⁽1), ad- nárias (participando dos adestramentos e trei-
quire-se, rapidamente, o amadurecimento e a namento para preparação e execução dos exer-
responsabilidade necessários aos militares que cícios durante as inspeções, como Carta-Prego,
têm essa oportunidade, além de internalizar no abandono do navio, faina de homem ao mar, co-
oficial o espírito marinheiro que em muito co- nhecimento do Regulamento Internacional para
labora em seu desempenho no Serviço em Or- Evitar Abalroamentos no Mar - RIPEAM, das
ganizações Militares em terra. Normas da Autoridade Marítima - NORMAN
Entre as atividades que proporcionam esse e Normas Técnicas Ambientais - NORTAM). As
crescimento, estão: recebimento e verificação imagens abaixo ilustram algumas dessas ativi-
de mantimentos, inspeção de compartimentos dades (fotos do arquivo pessoal do autor).
e casa de máquinas, inspeção e verificação de
escoteria, Controle de Avarias (CAV), Postos Instrução do Inspetor
Com os amigos, os
de Combate, Cerimoniais à Bandeira, Honras do CAAML do CIAsA
então 1° Ten Fabio
de Passagem a navios e a autoridades, auxílio Hideki Saganuma e
ao Oficial de Manobra com a navegação com 1° Ten Rogério Brasil
cartas náuticas, em derrota ou fundeado, De- de Carvalho, no
talhe Especial para o MAR (DEM), fainas de COC da V30
atracação no cais ou a contrabordo de outros
navios, checagem da
verificação do fecha- Treinamento de
mento ZULU de com- abandonar navio
partimentos, Condição
de Silêncio Eletrônico
(CONSET), verificação
da peiagem do material
no passadiço, comuni-
cação com meios para

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CONCLUSÃO: O ESPÍRITO DE Espera-se que, com o testemunho aqui des-
NAVIO E PRAÇA D'ARMAS crito, os leitores tenham se sensibilizado com
a importância e as vantagens, sob o ponto de
Em face das dificuldades, e da superação de- vista do autor, que o embarque traz na forma-
las, é muito comum a bordo dos navios que se ção dos jovens oficiais do CEM. E também para
crie uma sinergia e interação na tripulação que que o embarque possa ser retomado, se não nos
sempre prima pela camaradagem para a lida moldes do tempo em que era obrigatório, pelo
diária. Além disso, surge um sentimento de menos em uma duração e escopo maiores que
pertencimento e orgulho por fazer parte daque- os previstos hoje, possibilitando o conhecimen-
la equipe e por contribuir para o seu sucesso. to, in loco, como tripulante, das peculiaridades
Isto se denomina “espírito de navio” e, no caso e dificuldades da vida a bordo por que passam
da Oficialidade de bordo, é construído em sua nossos companheiros dos navios, especialmen-
Praça d´Armas. Em seu brado, a V30 materia- te do Corpo da Armada, de forma a criar o im-
lizava este sentimento: “À Nova Raça! À Raça prescindível compromisso com o espírito ma-
Nova!” Este talvez tenha sido o maior aprendi- rinheiro, que todos os oficiais da MB precisam
zado que o autor pôde obter de sua experiência preservar e cultivar por toda a carreira. ■
no “Cão Danado”. Melhor que palavras, convido
os leitores a perceberem esse espírito nas figu- NOTAS
ras abaixo, onde amigos e marinheiros que se (1) Para se ter uma melhor compreensão do serviço a bordo, o
encontraram incialmente a bordo, puderam se autor sugere o livro “Oficial de Quarto” do CAAML (BRASIL,
reencontrar, posteriormente, em três momen- 2014).
tos diferentes. (2) A Corveta “Inhaúma” deu baixa do serviço ativo em
21NOV2016, conforme a Portaria Nº 349/MB, de 2016, do
O "espírito de navio" sintetizado em 2001, Comandante da Marinha (BRASIL, 2016). Seus casco foi utilizado
2015 e 2020, mesmo após a baixa do em JUN2019 no treinamento de lançamento de armas navais,
serviço ativo da V30 em 2016 ⁽2) MISSILEX, onde um SH-16 Seahawk lançou um míssil AGM 119B
Fotos do autor Penguin MK2 MOD7 e o AF-1B Falcão lançou bombas, levando
a pique a “Nova Raça” ou “Cão Danado”, proporcionando assim
um fim digno para o navio de guerra (DEFESA AÉREA E NAVAL,
2019).

REFERÊNCIAS
BRASIL. Ministério da Defesa. Marinha. Diretoria Geral de
Pessoal da Marinha. Plano de Carreira de Oficiais da Marinha
(PCOM). 2000.
BRASIL. Ministério da Defesa. Marinha. Centro de Adestramento
“Almirante Marques de Leão”. .Oficial de Quarto / Centro de
Adestramento “Almirante Marques de Leão”. Niterói, RJ, 2014.
260 p. : il.; 21cm. Disponível no site:<\ https://s1p.doczz.com.br/
store/data/000111172.pdf?k=AwAAAYLka4IAAAACWLPSDEUYA
qmqe52k1m-T8uVqve4K#pdfjs.action=download\>. Consultado
em: 28.ago.2022.
BRASIL. Ministério da Defesa. Marinha. Baixa do Serviço Ativo
da Armada da Corveta “Inhaúma”. Portaria Nº 349/MB de 21 de
novembro de 2016, do Comandante da Marinha. 2016.
DEFESA AÉREA E NAVAL. MISSILEX: Vídeo do afundamento da
ex-Corveta “Inhaúma”. Site Defesa Aérea e Naval. 27.jun.2019.
Disponível no site:<\https://www.defesaaereanaval.com.br/
naval/missilex-video-do-afundamento-da-ex-corveta-inhauma>.
Consultado em 28 ago 2022.
MEMORY ALPHA. Montgomery Scott. Site Memory Alpha
Fandom. Disponível no site:<\https://memory-alpha.fandom.
com/wiki/Montgomery_Scott\>. Consultado em 25 ago 2022.

* Capitão de Fragata (EN), Chefe da Célula de Con-


trole de Projetos, Engenharia e Atividades Militares
do Instituto de Pesquisas da Marinha (IPqM)

98 Revista do Clube Naval • no 405

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