Estratégias de Rastreio e Prevenção da Pré-eclâmpsia
Estratégias de Rastreio e Prevenção da Pré-eclâmpsia
ARTIGO DE REVISÃO
JANEIRO/2019
FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA
1
Serviço de Obstetrícia do CHUC - Maternidade Doutor Daniel de Matos
2
Faculdade de Medicina, Universidade de Coimbra, Portugal
RESUMO …………………………………………………………………………. 3
ABSTRACT ……………………………………………………………………….. 4
ABREVIATURAS ………………………………………………………………… 5
INTRODUÇÃO …………………………………………………………………… 7
DISCUSSÃO
Rastreio ……………………………………………………………………. 12
Prevenção …………………………………………………………………. 21
CONCLUSÃO …………………………………………………………………….. 32
AGRADECIMENTOS ……………………………………………………………. 33
2
2. RESUMO
3
3. ABSTRACT
4
4. ABREVIATURAS
5
5. ÍNDICE DE FIGURAS E TABELAS
Índice de Figuras
Figura 1 – Efeitos pleiotrópicos das estatinas …………………………………… 29
Índice de Tabelas
Tabela 1 – Princípios de screening ……………………………………………….... 12
6
6. INTRODUÇÃO
Fisiopatologia
Os mecanismos fisiopatológicos da pré-eclâmpsia continuam por estar
completamente esclarecidos. O que se sabe com alguma certeza, é que as primeiras
alterações surgem pela altura em que decorre a placentação. Numa primeira fase, por
volta do 7º dia após a fecundação, iniciar-se-ia a invasão da parede uterina pela camada
mais externa do citotrofoblasto. Numa gravidez normal, as artérias espiraladas sofreriam
uma transformação da sua parede, dilatando-se e passando a ter menor resistência, de
forma a permitir aumentar o fluxo útero-placentário. Contudo, na pré-eclâmpsia, este
7
processo de invasão uterina e pseudovascularização não decorre da maneira habitual,
pelo que as artérias espiraladas mantêm o seu calibre pequeno e de elevada resistência,
resultando numa diminuição da perfusão da placenta, com consequente stress oxidativo
e hipóxia placentária. A placenta, insuficientemente irrigada, liberta citocinas pró-
inflamatórias que, ao atingirem o sistema circulatório materno, provocam disfunção
endotelial sistémica (4). Na segunda fase da doença, habitualmente já na segunda
metade da gravidez, aparecem os sinais e sintomas que caracterizam este síndrome.
Apesar de não existir um único mecanismo aceite que explique a razão desta
disfunção de placentação, existem algumas teorias que tentam explicar o
desenvolvimento da pré-eclâmpsia. Pensa-se que o desequilíbrio entre fatores
angiogénicos (como a diminuição do placental growth factor (PlGF)) e anti-angiogénicos
(como o aumento de soluble fms-like tyrosine kinase-1 (sFlt-1)) tenha um papel
primordial no desenvolvimento da doença. Além disso, há também a hipótese da
diminuição da expressão da heme oxigenase-1 (Hmox1), enzima envolvida no
catabolismo do heme com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias (5).
Outras teorias assentam numa alteração da resposta imunológica materna, sendo
que vários autores atestam para uma ativação exagerada de neutrófilos e monócitos
nestas doentes, e que produzem grandes níveis de citocinas pró-inflamatórias
espontaneamente (4). A genética parece também ter um papel importante,
considerando que um dos fatores de risco comprovados para o desenvolvimento da
doença é a história familiar de pré-eclâmpsia. Considera-se que mulheres com
familiares em primeiro grau com antecedentes de PE estejam sujeitas a um risco cinco
vezes superior em relação à população geral, sendo que no caso de familiares do
segundo grau com antecedentes o risco para a grávida seja duas vezes superior (4).
Uma destas propostas baseia-se na elevação dos níveis de tromboxano A2 (TxA2)
(6). O tromboxano é um dos produtos obtidos da degradação do ácido araquidónico
presente nas membranas celulares, por parte da cicloxigenase. Depois de terem sido
identificados estes níveis aumentados de TxA2 em grávidas em risco de desenvolver
PE, novas investigações que visaram explorar a capacidade da aspirina de interferir com
a fisiopatologia da doença foram fomentadas.
Apresentação clínica
As consequências desta disfunção placentária tornam-se mais evidentes durante
a segunda metade da gravidez, embora na maioria dos casos a clínica seja,
inicialmente, pouco expressiva (7). A inflamação desencadeada e o aumento de
citocinas pró-inflamatórias circulantes no soro materno resulta em disfunção endotelial
8
materna (1), que por sua vez leva a vasoconstrição e retenção de sal pelo nefrónio,
culminando na hipertensão – sinal cardinal da doença. Os efeitos adversos da PE estão
presentes em apenas 10% das doentes, sendo que esta percentagem sobe para 15%
quando estamos perante a variante precoce da doença (7).
Na gestante, os vasos sanguíneos são mais sensíveis a substâncias
vasoconstritoras, pelo que a ocorrência de vasoespasmo pode ocorrer em qualquer
ponto do sistema vascular, afetando os diversos órgãos e originando diferentes sinais
clínicos. A nível renal a lesão glomerular resulta em oligúria e proteinúria, ou por vezes
insuficiência renal aguda; podem surgir cefaleias, por compromisso neurológico;
náuseas, vómitos e dor epigástrica podem manifestar-se também, por inflamação da
cápsula hepática; a nível cardiovascular, a vasoconstrição pode provocar isquémia ou
enfarte miocárdico; a hipoperfusão da retina pode causar escotomas e perturbações da
visão, incluindo cegueira, também por atingimento do córtex occipital; como
complicações neurológicas, podem surgir acidentes vasculares cerebrais ou
convulsões.
Além da vasoconstrição, a disfunção endotelial favorece também a formação de
trombos, elevando o risco de hemólise e coagulação intravascular disseminada (CID),
sendo fator de risco para o descolamento prematuro da placenta normalmente inserida
(DPPNI). Se estiverem presentes, concomitantemente, hemólise, trombocitopenia e
aumento dos níveis das enzimas hepáticas, estamos perante o síndrome de HELLP,
uma das complicações mais temidas e letais.
O aumento da permeabilidade capilar também decorrente da lesão do endotélio
vascular, juntamente com a diminuição da pressão oncótica em consequência da perda
proteica renal, origina edema generalizado. A nível cerebral, o edema cursa com
cefaleias e, por vezes, convulsões, definindo o início da Eclâmpsia. É, portanto, evidente
o atingimento multissistémico da doença e heterogeneidade da apresentação clínica.
Como complicações fetais, as mais graves são a restrição do crescimento fetal
(RCF) e a prematuridade iatrogénica. Pode também resultar num feto leve para a idade
gestacional (LIG) ou mesmo morte fetal in útero.
Existem ainda repercussões a longo prazo, tanto na mãe como na descendência,
especialmente a nível cardiovascular: foi observado um risco quatro vezes superior de
insuficiência cardíaca, e duas vezes superior de desenvolver doença coronária, acidente
vascular cerebral e morte por causa cardiovascular, comparativamente a mulheres que
não sofreram da patologia durante a gravidez. Quanto aos filhos de mães que
desenvolveram pré-eclâmpsia, há um risco aumentado de hipertensão arterial, doença
cardiovascular e doença metabólica (5).
9
O crescimento acentuado da prevalência da obesidade e do síndrome metabólico
nas populações, aumenta também a prevalência de grávidas em risco de desenvolver
hipertensão durante a gestação (8). Assim, e dadas as consequências que esta
patologia tem não só no imediato, mas também no futuro da grávida e da descendência,
é de extrema importância a identificação de mulheres em alto risco de desenvolver a
doença, assim como de aprimorar a sua prevenção.
Atualmente, os meios de rastreio usados para a deteção de mulheres em risco de
desenvolver esta doença focam-se apenas na análise detalhada dos fatores de risco da
grávida e do seu acompanhamento ao longo da gestação. Não estão, para já,
preconizados exames específicos de rastreio da patologia como é o caso, por exemplo,
do rastreio combinado do primeiro trimestre para aneuploidias cromossómicas. Porém,
dado que o método atual tem uma capacidade de deteção bastante baixa e que este é
um assunto que tem vindo a ser cada vez mais explorado e estudado, são de considerar
outras formas de rastrear estas doentes, em vista ao acompanhamento diferencial e
tratamento precoce, de forma a minimizar as sequelas.
Derivado do crescente número de estudos que tenta explicar os mecanismos
fisiopatológicos da pré-eclâmpsia, também surgiram mais estudos que tentam encontrar
novos métodos e fármacos que possam ser usados na prevenção e tratamento da
doença.
Este artigo tem, por isso, como objetivos, sistematizar as estratégias de rastreio e
de prevenção atualmente praticadas, e abordar novas formas de o fazer, com base nas
investigações e bibliografia mais recente.
10
7. MATERIAIS E MÉTODOS
11
8. DISCUSSÃO
8.1. RASTREIO
A necessidade e aplicabilidade clínica de um rastreio da pré-eclâmpsia e a
identificação das grávidas com risco acrescido de desenvolver a doença tem sido
discutida há várias décadas. O interesse pelo desenvolvimento de uma forma de rastreio
eficaz assenta na possibilidade de intervenção precoce e na capacidade de minimizar
os efeitos perinatais adversos decorrentes da evolução da doença.
Para a validação de um qualquer teste de rastreio, devem ser cumpridos vários
princípios de screening (9), que se encontram enumerados na Tabela 1.
Uma das dificuldades que se enfrenta, porém, é a de que qualquer teste de
rastreio deve ser adaptado a uma determinada população, dado que também a
prevalência da doença varia consoante a população analisada. No caso da pré-
eclâmpsia precoce, uma vez que a sua prevalência é relativamente baixa, também o
valor preditivo positivo do teste será baixo, pelo que mesmo desenvolvendo um teste de
alta sensibilidade e especificidade serão obtidos resultados pouco consistentes e
grande número de falsos positivos; outra questão a ter em conta é a de que uma nova
proposta de rastreio deve apresentar uma melhor relação custo-benefício do que as
estratégias previamente existentes e utilizadas; e finalmente, os benefícios que o novo
teste possa trazer devem prevalecer sobre os possíveis danos decorrentes do seu uso
(10).
12
• O custo dos testes de rastreio e tratamento devem
ser economicamente benéficos em relação ao
tratamento médico como um todo
13
Tabela 2 – Fatores de risco para desenvolver PE
14
disso, este método permite também a avaliação de um risco individualizado para cada
doente, com a possibilidade de um acompanhamento direcionado.
O uso destes marcadores não só é importante na identificação de mulheres de
elevado risco, como pode ajudar na investigação para melhor compreender a
fisiopatologia da doença.
A necessidade deste rastreio combinado é explicada pela heterogeneidade da
doença e por existirem diversas teorias quanto aos seus mecanismos fisiopatológicos,
pelo que o uso de um biomarcador único de forma independente não confere valor
preditivo suficiente. De facto, o rastreio no primeiro trimestre tem maior sensibilidade
para prever o risco de pré-eclâmpsia precoce, enquanto que se coloca a hipótese de
que um rastreio alternativo realizado mais tarde na gestação seja mais adequado à
previsão da pré-eclâmpsia tardia, dado que as duas formas da doença parecem ter
mecanismos fisiopatológicos subjacentes algo distintos. Assim, as propostas de rastreio
aqui abordadas focam-se, sobretudo, no primeiro trimestre da gravidez, como forma de
prever a forma de PE mais grave.
Marcadores bioquímicos
Tem sido investigado o potencial do uso de diferentes biomarcadores, tanto de
forma isolada como em associação, como preditores do risco de desenvolver pré-
eclâmpsia.
A descoberta de marcadores derivados do trofoblasto, como o PlGF e VEGF (pró-
angiogénicos) e o sFlt-1 (anti-angiogénico), que se encontram alterados no soro
materno de grávidas com pré-eclâmpsia e cujas alterações são detetadas até cerca de
5-8 semanas antes do aparecimento dos primeiros sintomas, levou à investigação do
seu possível uso como biomarcadores (7, 11).
O PlGF é um fator produzido exclusivamente pelas células do trofoblasto, que
promove o crescimento e diferenciação vascular da placenta, e que tende a aumentar
ao longo da gravidez normal. Contudo, nas mulheres com suspeita de pré-eclâmpsia,
os seus baixos níveis correlacionam-se com um aumento da probabilidade da doença.
Por outro lado, o sFlt-1 atua diminuindo as concentrações de PlGF e VEGF livres em
circulação, executando a sua ação anti-angiogénica e dificultando o processo de
pseudovascularização. Esta molécula é produzida em grande escala pela placenta, e
potenciada por um ambiente hipóxico, o qual caracteriza o desenvolvimento da pré-
eclâmpsia, além de que também os fatores genéticos influenciam a expressão desta
molécula. Em suma, na pré-eclâmpsia parece haver um desequilíbrio dos fatores
15
angiogénicos, que leva a um aumento do ratio sFlt-1/PlGF; porém, a sensibilidade e
especificidade destes parâmetros é ainda baixa para se justificar o seu uso rotineiro.
Outros marcadores foram propostos como sendo capazes de prever a pré-
eclâmpsia precoce, nomeadamente os níveis séricos baixos de PAPP-A (4). Esta é uma
proteína produzida pelas células trofoblásticas, com funções de angiogénese, cujos
níveis se encontram diminuídos na presença de pré-eclâmpsia (12).
A proteína placentária-13 (PP-13), quando diminuída, pode também ajudar a
identificar as doentes com risco de desenvolver a doença, sendo que os seus valores
podem ser medidos no sangue materno desde as 5-7 semanas de gestação (12).
Segundo Odibo et al., a sua medição permite identificar 49% de todos os casos de PE
e 79% dos casos de PE-precoce (4). O mesmo autor, porém, não conseguiu demonstrar
melhor eficácia no rastreio quando os dois biomarcadores (PP-13 e PAPP-A) eram
usados em associação. Ainda assim, têm sido estudadas associações de diferentes
biomarcadores, juntamente com o recurso a parâmetros biofísicos e à história clínica da
mãe, que elevam a performance destes testes de rastreio.
16
o valor de DNA livre fetal e a PE-precoce, com uma sensibilidade de 90% e
especificidade de 85% (4).
Por outro lado, os resultados obtidos por Rafaeli-Yehudai T. et al., apesar de
corroborarem o aumento de DNA livre total em circulação em grávidas com pré-
eclâmpsia, estes não confirmam que o mesmo derive do aumento da fração fetal (13),
mas apostam antes como sendo uma consequência da inflamação sistémica observada
no sistema materno.
17
no primeiro trimestre (4), de forma a permitir a intervenção atempada nesta forma da
doença.
A identificação, no primeiro trimestre da gravidez (entre 11-0 e 13+6 semanas de
IG), de um índice de pulsatilidade médio das artérias uterinas superior ao esperado
(cerca de 2,35) permite detetar 47,8% dos casos de PE-precoce e 26% de todos os
casos de PE. (14). De notar, contudo, que o PI pode ser influenciado por fatores
maternos como o IMC e etnia, pelo que se deve optar pelo uso deste exame inserido
num modelo multiparamétrico de rastreio. Ainda, dado que a ecografia realizada na
maioria dos estudos publicados foi a ecografia transabdominal, este deve ser preferida
à transvaginal.
Modelos propostos
A primeira proposta de um modelo assente numa abordagem multiparamétrica
incluiu características maternas (idade, IMC, raça e história obstétrica) e a fluxometria
das artérias uterinas, numa amostra de mais de 32.000 mulheres consideradas de baixo
risco. Este modelo conseguiu uma taxa de deteção de 69,4% para a PE-precoce. Mais
tarde, em 2009, surgiram outros modelos, que combinavam características maternas,
pressão arterial média (PAM), fluxometria das artérias uterinas e biomarcadores, com
sensibilidades para a PE-precoce de 93,1%, bastante superior ao modelo anteriormente
mencionado. Um terceiro modelo juntou fatores maternos, IMC, pressão arterial e
fluxometria, tendo sido obtido uma taxa de deteção de 62,5% com uma especificidade
de 95,5% (4). Crovetto et al. desenvolveu um outro modelo com base nas características
maternas, parâmetros biofísicos (PAM e fluxometria) e fatores angiogénicos (PlGF e
sFlt-1), que aplicou a uma população de mais de 9000 mulheres de baixo risco, obtendo
taxas de deteção de 87,7% (FP 5%) e de 91,2% (FP 10%). Em 2018, um estudo
prospetivo realizado num cohort de 4652 mulheres grávidas, nulíparas, recorrendo à
avaliação do PlGF entre as 11+0 e as 13+6 semanas de IG, juntamente com a avaliação
das características maternas, foi capaz de detetar 55% das grávidas que desenvolveram
PE-precoce, para uma taxa de falsos positivos de 10% (15).
Contudo, a grande limitação destes modelos com diferentes combinações de
marcadores e fatores maternos é a ausência, em muitos deles, de validação interna e/ou
externa, ainda que estudos feitos em diferentes populações tenham apresentado
resultados semelhantes. Ainda assim, e por esta razão, a aplicação destes modelos em
populações diferentes das usada na criação do modelo resultaria em taxas de deteção
não fidedignas (2).
O estudo SPREE (screening program for pre-eclampsia) foi realizado no Reino
Unido com o intuito de avaliar a performance de um modelo de rastreio combinado do
18
primeiro trimestre, usando fatores clínicos maternos e biomarcadores, e compará-la com
a performance associada ao rastreio que segue as guidelines NICE. Foram testadas
várias combinações de biomarcadores e fatores maternos, mas a conclusão a que se
chegou, transversal às varias combinações, foi de que qualquer versão deste rastreio
combinado apresentava melhor performance do que o atualmente realizado (16). Para
a mesma taxa de falsos positivos (10%), o rastreio combinado usando fatores maternos,
marcadores bioquímicos e marcadores biofísicos consegue duplicar a taxa de deteção
de PE, comparativamente com o rastreio baseado apenas nos fatores maternos
(seguindo as guidelines NICE) (16).
O algoritmo criado pela Fetal Medicine Foundation (FMF) parece ser o mais bem
aceite atualmente, que demonstrou taxas de deteção semelhantes para diferentes
populações (para a mesma taxa de FP). Ele usa os valores da pressão arterial média
(PAM) e da fluxometria das artérias uterinas, medidos entre as 11+0 a 13+6 semanas
de idade gestacional, que se encontram aumentados em mulheres que desenvolverão
PE, em particular PE-precoce. Simultaneamente, o algoritmo recorre também ao uso de
biomarcadores, onde são medidos o PlGF e PAPP-A, que se encontram diminuídos no
primeiro trimestre. Juntamente com as características maternas, obtém-se uma taxa de
deteção de 75% de todos os casos de PE precoce, com uma taxa de falsos positivos
(FP) de 9,2% (2). Analisando em paralelo, constatou-se que este modelo tem uma
performance bastante superior à de qualquer modelo que utilize apenas marcadores ou
bioquímicos ou biofísicos isoladamente. Além disso, apesar do PAPP-A aumentar a
performance do algoritmo de rastreio com marcadores biofísicos ou fatores maternos,
quando o modelo inclui a medição do PlGF, a inclusão do PAPP-A não apresenta
vantagem (17). Na Tabela 3 (16, 17) é possível comparar as taxas de deteção de pré-
eclâmpsia precoce para os vários modelos aqui enunciados (para uma taxa de falsos
positivos de 10%) (17).
19
É importante realçar que nem todos os países têm fácil acesso a todos os
biomarcadores aqui mencionados. Porém, mesmo a combinação de outros marcadores,
como a PAM e/ou a fluxometria das artérias uterinas, com os fatores maternos oferece
melhores resultados que a estratificação do risco recorrendo apenas às características
maternas. Caso se usem apenas os fatores maternos, PAM e fluxometria, sem recurso
a marcadores bioquímicos, consegue-se identificar, ainda assim, 70% dos casos de pré-
eclâmpsia precoce, como indicado na Tabela 3, que continua a ser um valor
substancialmente superior àquele que o rastreio atual consegue atingir (2).
Contudo, e devido à dificuldade em cumprir todos os princípios de screening
enumerados na Tabela 1, ainda não há um algoritmo universal para o uso do rastreio
combinado e, por isso, este ainda não é aplicado na prática clínica.
20
8.2. PREVENÇÃO
Embora existam já protocolos de tratamento da pré-eclâmpsia, que se apoiam na
administração de anti-hipertensores após o diagnóstico da doença, eles não fazem mais
que controlar o estado de saúde da grávida até que seja viável o parto, naturalmente
pré-termo. Contudo, esta estratégia aumenta o risco de complicações associadas à
prematuridade, pelo que será de maior valor a tentativa de obter um protocolo de
prevenção da doença.
A investigação de formas de profilaxia da pré-eclâmpsia tem sido realizada desde
o século XX, nomeadamente acerca do potencial da aspirina na redução do risco da
pré-eclâmpsia. Porém, e derivado da heterogeneidade dos mecanismos fisiopatológicos
da doença, os resultados obtidos com o recurso ao ácido acetilsalicílico não são 100%
consistentes, pelo que foi necessário investigar outros recursos profiláticos.
Nesta secção, irei abordar os métodos profiláticos usados hoje em dia, e
potenciais métodos que estão a ser investigados atualmente.
8.2.1. Aspirina
A aspirina é um anti-inflamatório não-esteróide (AINE) e é o fármaco mais usado
mundialmente nos dias de hoje. Dentro dos vários mecanismos de ação, aquele que é
mais conhecido é a inibição irreversível da cicloxigenase, com consequente diminuição
da formação de tromboxano A2 e prostaciclina (1, 18).
Além das suas propriedades analgésicas, antipiréticas e antitrombóticas, foi
recentemente demonstrado que baixas doses de aspirina levam a um aumento dos
níveis das aspirin-triggered lipoxins (ATLs). As ATLs são metabolitos bioativos do ácido
araquidónico, com uma potente função antioxidante e imunomoduladora, que se ligam
aos mesmos recetores que as lipoxinas endógenas, como a lipoxina A4 (6, 18), inibindo
a ativação das células NF-κB e do TNF-α (1, 18), e impedindo ainda a formação de
espécies reativas de oxigénio (ROS). Esta descoberta motivou maior investigação
sobre estas lipoxinas, e foi verificado que ATLs exógenos levam ao aumento dos níveis
de IL-10 e óxido nítrico, ao mesmo tempo que diminuem o TNF-α, contribuindo para a
reversão do processo inflamatório, como o despoletado na pré-eclâmpsia (6). Além
disso, há uma elevação normal dos níveis de lipoxinas A4 no soro materno no primeiro
trimestre da gravidez, aliada à expressão aumentada do recetor de ALX (recetor da
lipoxina A4) na decídua. Assim, é possível perceber que a toma de aspirina desde o
início da gravidez, aliada ao aumento das lipoxinas no sangue materno, pode
condicionar o aumento das ATLs, mais potenciando o efeito anti-inflamatório e
preventivo do fármaco (6).
21
As primeiras evidências do potencial uso da aspirina como fármaco eficaz na
profilaxia da pré-eclâmpsia surgiram em 1979, quando Crandon e Isherwood (6)
reportaram uma associação entre a toma de aspirina durante a gravidez e a diminuição
da incidência da PE. Em 1985, Beaufils et al. também afirmou que o uso da aspirina no
início da gravidez em doentes de risco elevado levava a uma diminuição do número de
casos da doença (6). Visto o seu potencial preventivo da aspirina, vários estudos e meta-
análises foram realizados ao longo dos anos.
De facto, a aspirina é utilizada na prevenção da pré-eclâmpsia devido ao seu efeito
antiagregante plaquetário e vasodilatador, sendo que está comprovada a ausência de
complicações maternas ou fetais associadas ao seu uso (1), tais como morte perinatal,
parto pré-termo e feto leve para a idade gestacional (19). Existem, contudo, ainda
resultados controversos e que suscitam dúvida, quanto ao momento em que deve ser
instituída a terapêutica, a dose e altura do dia em que deve ser administrada, quem
beneficia realmente da profilaxia, e ainda dúvidas quanto à forma como a aspirina
influencia o aparecimento da doença. É nestes aspetos que a parte seguinte desta
revisão se vai focar.
Alvo Terapêutico
Nem todas as grávidas apresentam os mesmos fatores de risco de base de
desenvolver a doença, pelo que a administração da aspirina não é preconizada para
toda e qualquer doente, apenas se demonstrando relevante nas mulheres de alto risco
(20). No que respeita o grupo alvo, o estudo CLASP realizado em 1994 determinou que
apenas se justificava o uso da aspirina com fins profiláticos nas mulheres com risco de
desenvolver PE precoce grave.
Em 2007, a meta-análise PARIS veio confirmar que a aspirina levava a uma
diminuição do risco relativo de desenvolver a doença em mulheres de elevado risco,
apresentando um valor mais concreto de uma redução de 10%, assim como das suas
complicações graves (20, 21). Apesar da redução parecer ser apenas modesta, é uma
diminuição de valorizar, dado que a aspirina é um fármaco de baixo custo e de fácil
acesso à população, para além da sua segurança na gravidez estar já também
comprovada (19). Estudos que recorreram a grandes amostras demonstraram que a
toma de aspirina durante o primeiro trimestre da gestação não está associada a um
aumento do risco de anomalias congénitas, descolamento prematuro da placenta ou
hemorragia materna de qualquer tipo. Quanto ao terceiro trimestre, também não foi
encontrada qualquer associação entre a toma de aspirina e o encerramento prematuro
do canal arterial ou hemorragias fetais (22). Com estes dados, a aspirina tem um bom
22
perfil de segurança, podendo ser administrada ao longo de toda a gravidez, em
mulheres em risco de desenvolver pré-eclâmpsia ou outra condição que necessite do
uso continuado da aspirina.
Em 2010, uma outra meta-análise realizada por Bujoud et al. evidenciou a
diferença na incidência da pré-eclâmpsia em grávidas que iniciaram terapêutica
profilática antes das 16 semanas, versus grávidas que não foram medicadas com
aspirina. Os resultados não deixaram dúvidas: foi verificada uma prevalência da doença
de 9,3% no grupo medicado com aspirina e de 21,3% no grupo não medicado. Contudo,
não era ainda evidente que a altura em que a profilaxia era iniciada poderia ter efeitos
diferentes na prevalência da doença nas mulheres de alto risco (20).
As recomendações da ACOG em 2013 afirmavam que a aspirina devia ser
prescrita a grávidas com história de PE em duas gestações anteriores ou em grávidas
com história de PE com necessidade de parto antes das 34 semanas. Porém, a USPSTF
(United States Preventive Services Task Force) recomendava a aspirina num grupo
mais inclusivo, que incluía doentes com HT crónica, diabetes mellitus pré-gestacional,
gravidez gemelar, doença renal e doença autoimune, pelo que em 2016 as
recomendações da ACOG foram modificadas para abranger também estes grupos
populacionais (23). A razão desta alteração baseou-se na redução da morbilidade
destas doentes, assim como na redução dos custos associados aos cuidados de saúde.
Um estudo publicado em 2017 reuniu 1776 mulheres identificadas como sendo de
alto risco de desenvolver pré-eclâmpsia, recorrendo a um rastreio combinado. Este foi
um estudo randomizado multicêntrico, com dupla ocultação e controlado com placebo,
em que foram administradas 150mg de aspirina por dia, à noite, a partir das 11-14
semanas de idade gestacional até às 36 semanas. Neste projeto, concluíram que a
doença ocorreu em apenas 1,6% do grupo que foi medicado com aspirina, versus 4,3%
no grupo que recebeu placebo (24).
Quando
A evidência na literatura científica aponta para que a prevenção seja iniciada entre
as 12 e as 28 semanas de idade gestacional (idealmente antes das 16 semanas) (25),
ou seja, antes do final do processo fisiológico de remodelação das arteríolas espiraladas
(20), e mantida até ao fim da gravidez.
Porém, existem estudos com resultados contraditórios, como é o caso de uma
meta-análise que incluiu 3293 mulheres, que receberam aspirina em baixa dose com
início antes das 17 semanas de IG. Neste estudo, não foi evidenciada uma diminuição
do risco para a doença (23).
23
Quanto à altura do dia em que deve ser administrada a aspirina, estudos mais
recentes apontam para o final do dia como sendo a altura ideal para a sua
administração. Tal é justificado pela influência do ritmo circadiano na produção de
tromboxano, sendo maior durante a noite, assim como numa maior clearance do
fármaco durante o período diurno (20). Por isso, para otimizar o efeito da aspirina,
recomenda-se a administração do fármaco antes de deitar.
Foi ainda verificado que o efeito da aspirina se foca mais na prevenção da pré-
eclâmpsia precoce do que na forma tardia, pelo que se coloca a hipótese de que o efeito
seja mais preponderante durante o desenvolvimento placentário.
Dose
Após diversos estudos e análises dos seus resultados, verificou-se que o efeito
da aspirina na síntese de TxA2 e prostaciclina é dose-dependente: enquanto que 50mg
diários de aspirina levaram à diminuição de 95% da produção de TxA2 (sem alterar a
produção de prostaciclina – com importantes funções vasodilatadoras e antiagregantes
plaquetárias), quando se administraram entre 100 a 300mg diárias constatou-se uma
inibição completa da produção de tromboxano A2 e uma inibição parcial da produção
de prostaciclina. Estas primeiras conclusões foram obtidas em relação ao papel do AAS
em mulheres não-grávidas e homens. Em grávidas, foi obtida uma diminuição de 98%
da produção de TxA2 depois do uso diário de 80mg de aspirina durante uma semana
(1).
Apesar de algumas associações internacionais terem recomendado uma dose
diária de aspirina de 60-80mg, uma dose mínima de 75mg/dia parece ter maior benefício
na prevenção da pré-eclâmpsia (6).
Uma das limitações dos estudos até agora publicados, em relação à dose e altura
da gestação em que a terapia com aspirina deve ser iniciada, era a ausência de estudos
em larga escala. Porém, o estudo ASPRE veio colmatar esta situação, concluindo, uma
vez mais, que a redução do risco de PE é mais notória quando a profilaxia é iniciada
antes das 16 semanas de gestação e recorrendo a uma dose diária superior a 100mg
(26), registando-se uma incidência de PE precoce de 1,6% no grupo medicado com
aspirina, em contraste com 4,3% no grupo que recebeu placebo. Além disso, destacou
também que, apesar da aspirina ter reduzido o risco de desenvolver pré-eclâmpsia
precoce, o mesmo não aconteceu com o risco de desenvolver pré-eclâmpsia tardia (6).
Este estudo destacou-se dos anteriores por ter recorrido a uma amostra bastante maior,
ser randomizado e multicêntrico, controlado por placebo, e por ter usado um método de
rastreio combinado (6).
24
Adesão à terapêutica
Outra variável que tem sido estudada é a compliance ou adesão à terapêutica
medicamentosa destas doentes. Um estudo secundário ao ensaio clínico ASPRE visou
avaliar a adesão à terapêutica e relacioná-la com a percentagem das doentes que
desenvolveu PE. Foi usado um cut-off de 90%, e os resultados obtidos encontram-se
na Tabela 4 (27). Enquanto que a presença de história familiar de PE estava associada
a maior compliance por parte destas grávidas, idade materna <25 anos, origem Afro-
Caribenha e Sul Asiática, antecedentes pessoais da doença e hábitos tabágicos
relacionavam-se negativamente com esta variável. Contudo, este estudo apresenta
algumas limitações, pelo que para serem tiradas melhores conclusões acerca da adesão
à terapêutica e da sua influência na prevenção da PE-precoce têm que ser realizados
estudos direcionados para este efeito.
25
baixa afinidade para outras proteínas que não a antitrombina, explicando o efeito dose-
resposta previsível e a baixa taxa de efeitos secundários não-hemorrágicos. Por estas
razões, as HBPMs têm sido cada vez mais utilizadas na prática clínica, em oposição à
heparina não fracionada.
Numa gravidez normal, pela altura da implantação há um aumento da expressão
do fator tecidual (ou fator III), especialmente pela placenta e pela decídua (28). Este leva
à formação da trombina, que por sua vez inativa o ativador do plasminogénio tecidual
(t-PA), diminuindo a fibrinólise. Estas alterações, porém, apesar de fisiológicas na
gravidez, colocam a mulher grávida num constante estado de hipercoagulabilidade
desde o primeiro trimestre, aumentando o risco de pré-eclâmpsia (e outras
complicações) em doentes que já apresentem um perfil de risco de base.
Uma meta-análise realizada por Roberge et al. (29) concluiu que, a adição de
HBPM à aspirina (75-100mg/dia), como método profilático, com início antes das 16
semanas de idade gestacional, tem melhores resultados na redução do risco de pré-
eclâmpsia do que o uso isolado de aspirina, em doentes com história prévia da doença.
Frisam também que esta redução de risco se aplica apenas à pré-eclâmpsia precoce,
não sendo útil na prevenção da pré-eclâmpsia tardia. Por outro lado, o uso de HBPM
sem recurso à aspirina não apresenta redução do risco de pré-eclâmpsia. Contudo,
dado que esta meta-análise estudo incluiu apenas 8 estudos, a sua sensibilidade não é
muito elevada.
Em contrapartida, Haddad et al. (30) compararam a redução de risco de
desenvolver a doença (em doentes já com história de PE precoce numa gestação
anterior), entre mulheres submetidas à toma de aspirina isoladamente, versus doentes
que tomaram aspirina e enoxaparina, com início da terapêutica antes das 14 semanas
de idade gestacional. A conclusão a que chegaram foi de que a associação dos dois
fármacos não melhorava de forma considerável o resultado.
Um estudo realizado por Lecarpentier et al. em 2018 (31) doseou, mensalmente,
fatores angiogénicos circulantes – sFlt-1, PlGF e sEng – de dois grupos, ambos
constituídos por doentes com história prévia de pré-eclâmpsia precoce (<34 semanas)
e já medicadas com aspirina. Além da aspirina, um grupo recebeu placebo, enquanto
que o outro recebeu HBPM (enoxaparina) (30). As conclusões obtidas foram de que o
uso da HBPM juntamente com a aspirina, com início antes das 14 semanas, não tem
impacto significativo nos níveis de fatores angiogénicos circulantes maternos,
independentemente da idade gestacional.
26
Com estes resultados contraditórios, não se recomenda, de momento, a utilização
da heparina como prevenção da pré-eclâmpsia, independentemente do seu uso isolado
ou associado à aspirina (31).
A investigação do potencial uso de outros anticoagulantes na prevenção da pré-
eclâmpsia deve ter em atenção que os antagonistas da vitamina K e os novos
anticoagulantes orais atravessam a barreira placentária, pelo que se recomenda que a
investigação incida apenas na heparina (isolada ou em associação com a aspirina - já
recomendada e com bom perfil de segurança na gravidez) (28).
27
Com base nestes riscos, e dado terem sido utilizadas amostras bastante
pequenas, estes estudos não oferecem evidência suficiente do uso benéfico dos
suplementos de cálcio na prevenção da pré-eclâmpsia precoce (32).
8.2.4. Didrogesterona
A progesterona é a hormona esteróide endógena com maior implicação na
gravidez, já que é produzida em larga escala pela placenta e é responsável pela criação
de condições endometriais favoráveis à implantação do blastocisto, contribuindo
também para que a gestação seja levada a termo sem intercorrências. Além da sua
importante função na gravidez como hormona esteróide, a progesterona é também uma
antagonista mineralocorticóide. Inibindo a ação da aldosterona, a progesterona promove
a natriurese e reduz o volume de líquido extracelular. Assim, promove a diminuição da
pressão arterial, juntamente com a diminuição do volume de água no espaço intersticial,
reduzindo o edema – ambas as alterações demonstram o potencial efeito que o uso da
progesterona poderá ter na prevenção da pré-eclâmpsia.
A didrogesterona é uma progestina (progestogénio sintético), que interage com os
recetores da progesterona, exercendo um efeito análogo à mesma. As suas aplicações
mais comuns encontram-se associadas à terapia hormonal de substituição, a doentes
com história de abortos de repetição e nos casos de fertilização in vitro.
São ainda poucos os estudos disponíveis que atestem a eficácia desta progestina
na prevenção da pré-eclâmpsia, mas parece haver algum benefício associado ao seu
uso.
Em 2014 a didrogesterona foi usada com sucesso pela primeira vez nesta área,
em mulheres asiáticas primigestas que recorreram a técnicas de reprodução
medicamente assistida. Neste estudo prospetivo randomizado, após a administração
diária de 30mg (em 3 doses de 10mg) deste fármaco no primeiro trimestre da gravidez,
até às 16 semanas de idade gestacional, Zainul et al. (34) verificaram que, no grupo
controlo, a hipertensão surgiu em 12,9% das mulheres, enquanto que no grupo
medicado apenas surgiu em 1,7% (2 mulheres de 17). Estas 2 doentes tinham
antecedentes familiares de hipertensão arterial e tinham um IMC>35, ambos fatores de
risco para o desenvolvimento da doença. Assim, caso estas duas doentes não tivessem
sido incluídas no estudo, a percentagem de doentes medicadas com didrogesterona
que teria desenvolvido pré-eclâmpsia seria de zero (35).
Em 2016, Tskhay et al. (36) reportam mais um caso de sucesso. A doente, uma
mulher grávida pela segunda vez, depois de uma primeira gravidez complicada com pré-
eclâmpsia e parto pré-termo às 30 semanas de idade gestacional, foi medicada com
30mg/dia de didrogesterona. A terapêutica teve início na 6ª semana da gestação, e
28
prolongou-se até à 37ª semana. Nesta segunda gestação não foi observada tensão
arterial superior a 120-130 mmHg/70-80 mmHg, edema ou proteinúria. Após o parto, foi
também analisada a placenta, onde não foram encontradas alterações distróficas ou
reações de adaptação, que tinham estado presentes na placenta da primeira gravidez.
No mesmo ano, um estudo retrospetivo realizado na Malásia analisou 1140
doentes que tinham recorrido a técnicas de reprodução medicamente assistida. 570
doentes tinham recebido didrogesterona nas primeiras semanas da gravidez (até às 14-
16 semanas), e as restantes não receberam este suplemento. Os autores concluíram
que no grupo controlo houve uma taxa de PE de 14,2%, enquanto que no grupo em
estudo apenas 8,4% das doentes desenvolveram a doença (37).
Apesar destes primeiros resultados promissores, é necessária a realização de
mais estudos e meta-análises, antes de se poder recomendar o uso da progesterona
como meio preventivo da pré-eclâmpsia.
8.2.5. Pravastatina
As estatinas são dos medicamentos mais usados em todo o mundo,
especialmente na área da Cardiologia. Além do seu efeito hipocolesterolémico, as
estatinas são dotadas de efeitos pleiotrópicos de grande interesse (Figura 1): estimulam
a correção do desequilíbrios angiogénicos e a regeneração do endotélio vascular
↓ colesterol
total e LDL
↑ heme
oxigenase-1 correção do
desequilíbrio
• ↓ stress angiogénico
oxidativo
ESTATINAS
↑ recetores
anti- de NO-
apoptóticas sintetase
• ↑ NO
anti-
anti-
agregantes
plaquetares inflamatórias
29
lesado; são capazes de aumentar o número de recetores da óxido nítrico sintetase, uma
enzima responsável por converter a L-arginina em óxido nítrico, um potente
vasodilatador e antitrombótico; têm propriedades anti-inflamatórias e antiagregantes
plaquetares; aumentam a expressão da heme oxigenase-1, reduzindo o stress
oxidativo, entre outros (5, 38).
Analisando estes efeitos e cruzando-os com os possíveis mecanismos
fisiopatológicos da pré-eclâmpsia, encontramos eventual potencial no seu uso como
prevenção desta doença. Os estudos têm-se debruçado sobre a pravastatina por ser
bastante hidrofílica, e por ter um tempo de semivida curto, o que limita a sua passagem
para o feto através da placenta, reduzindo a exposição fetal. Tem ainda a vantagem de
ser eliminada por duas vias, hepática e renal, apresentando menos riscos nas doentes
com insuficiência hepática e/ou renal (38).
Um estudo a decorrer desde 2012 está a avaliar o efeito da toma de 10mg diários
de pravastatina, com início antes das 16 semanas de idade gestacional, em mulheres
de alto-risco de desenvolver a doença. Em comparação com o grupo placebo, houve
uma diminuição da incidência de pré-eclâmpsia, ainda que pouco significativa, e
verificou-se também uma redução dos níveis maternos de colesterol sem haver redução
dos níveis de colesterol fetais (5). Verificaram também que os níveis de PlGF tinham
aumentado e que os de sFlt-1 e sEng (anti-angiogénicos) tinham diminuído, no grupo
exposto a pravastatina. Porém, estes resultados ainda não são finais e devemos esperar
pelo fim do estudo para tirar conclusões mais acertadas.
Um ensaio clínico cujos resultados foram publicados em 2016, visou determinar a
segurança e farmacocinética da pravastatina quando administrada a grávidas de
elevado risco. Apesar de preliminares, os resultados não demonstraram risco acrescido
do seu uso, para uma dose diária de 10mg iniciada no segundo trimestre da gravidez,
neste grupo populacional (39). Verificaram também, tal como descrito acima, que apesar
de haver redução dos níveis de colesterol materno totais e de LDL, o mesmo não
aconteceu a nível fetal. Além disso, foi observada uma melhoria do perfil angiogénico
materno, com redução dos níveis de sFlt-1 e sEng, e aumento dos níveis de PlGF (39),
embora estes não fossem os objetivos principais deste ensaio.
Em 2016 foi relatado o primeiro uso bem sucedido da pravastatina na reversão de
um desequilíbrio de fatores angiogénicos e anti-angiogénicos, suscitando maior
evidência do potencial uso deste fármaco na prevenção da pré-eclâmpsia (5).
Foram reportados outros casos do uso bem-sucedido de pravastatina. A
administração, em conjunto, de 20mg de pravastatina 1i.d., 0,4mg de enoxaparina 2i.d.
e 100mg de aspirina 1i.d., às 23 semanas de idade gestacional de uma doente com
síndrome anti-fosfolipídico e pré-eclâmpsia, resultou numa diminuição da pressão
30
arterial, e contribuiu para melhorar a proteinúria e as alterações patológicas das artérias
uterinas detetadas por eco-doppler (40).
Contudo, e apesar dos estudos e meta-análises mais recentes apontarem para
que as estatinas não apresentem teratogenicidade, a falta de dados consistentes e de
estudos controlados leva a que as estatinas sejam, para já, contraindicadas na gravidez
(38). Não obstante a pleiotropia das estatinas e, em específico, da pravastatina, e dos
primeiros indícios promissores do seu uso na pré-eclâmpsia, é ainda necessária a
realização de estudos com maiores amostras, e que avaliem a eficácia, segurança e
melhor dose a usar nestas doentes.
31
9. CONCLUSÃO
32
10. AGRADECIMENTOS
33
11. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
34
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