Centro Educacional Sandra Cavalcante
Uma viagem de Portugal ao Brasil
Manaus - Am
2024
Pedro Henrique Barbosa Costa
Uma viagem de Portugal ao Brasil
Trabalho ministrado pela
professora Talita Venâncio para
obtenção de nota parcial da
disciplina de Português e
Literatura, na 1° série, referente ao
2° trimestre do Centro Educacional
Sandra Cavalcante.
Manaus - Am
2024
Introdução
O estudo das manifestações literárias que compõem a base da literatura
portuguesa é de fundamental importância para a compreensão da
evolução cultural e histórica de Portugal e, por extensão, do Brasil. Este
trabalho tem como objetivo analisar três períodos literários significativos:
o Trovadorismo, o Classicismo e o Quinhentismo.
O Trovadorismo, surgido no século XII, destaca-se pela poesia lírica e
satírica, refletindo a sociedade feudal e a cultura cortês da época. Já o
Classicismo, que floresceu no século XVI, representou um retorno aos
valores estéticos da Antiguidade Clássica, marcado pelo humanismo
renascentista e pelo aprimoramento das formas literárias. Por fim, o
Quinhentismo, também no século XVI, abrange as manifestações
literárias dos primeiros contatos entre europeus e o Novo Mundo,
incluindo as descrições das terras e povos recém-descobertos e os
primeiros textos escritos em solo brasileiro.
A análise dessas três correntes literárias permitirá não apenas a
identificação das características próprias de cada período, mas também
a compreensão das continuidades e rupturas presentes no
desenvolvimento da literatura lusófona. Assim, este estudo se propõe a
investigar como cada movimento contribuiu para a formação da
identidade cultural e literária de Portugal e suas colônias, com um foco
especial no impacto e nas influências exercidas sobre a literatura
brasileira nascente.
Desenvolvimento
Trovadorismo
O Trovadorismo é a primeira manifestação literária da língua galego-
portuguesa, que floresceu entre os séculos XII e XIV. Este período
literário se destaca pela produção de poesias líricas e satíricas, refletindo
as estruturas sociais e culturais da Idade Média. Os trovadores, poetas-
músicos que compunham e executavam suas obras, desempenharam
um papel central na propagação dessa forma de expressão artística.
A sociedade feudal e a cultura cortesã influenciaram fortemente o
Trovadorismo. Os trovadores eram geralmente membros da nobreza ou
vinculados a ela, e suas composições eram frequentemente
apresentadas nas cortes. A poesia trovadoresca pode ser dividida em
dois principais gêneros: a lírica e a satírica.
Poesia Lírica
A poesia lírica do Trovadorismo é caracterizada pela celebração do amor
cortês, um conceito que exalta a mulher amada e a coloca em uma
posição de superioridade moral e espiritual. A lírica trovadoresca divide-
se em dois tipos principais: as cantigas de amor e as cantigas de amigo.
Cantigas de Amor: Nestas composições, o trovador expressa seu amor
platônico e devotado por uma dama, muitas vezes inalcançável, devido à
sua posição social. O eu-lírico é masculino e geralmente apresenta um
tom melancólico e de sofrimento pela ausência ou indiferença da amada.
Cantigas de Amigo: Diferente das cantigas de amor, nas cantigas de
amigo o eu-lírico é feminino e a voz poética é de uma mulher que
lamenta a ausência do seu amado. Essas cantigas têm um tom mais
pessoal e próximo da realidade do povo, frequentemente apresentando
diálogos e monólogos sobre a saudade e a espera.
Poesia Satírica
A poesia satírica é dividida em cantigas de escárnio e maldizer, nas
quais os trovadores criticavam e ridicularizavam pessoas ou
comportamentos da sociedade de sua época.
Cantigas de Escárnio: Essas cantigas utilizam a ironia e o duplo sentido
para fazer críticas indiretas, permitindo que o alvo da sátira não seja
identificado diretamente. O uso de trocadilhos e ambiguidades era
comum, fazendo da interpretação um jogo intelectual.
Cantigas de Maldizer: Ao contrário das cantigas de escárnio, as
cantigas de maldizer são diretas e explícitas em suas críticas. O trovador
não hesita em nomear e insultar diretamente os alvos de sua sátira,
utilizando uma linguagem muitas vezes agressiva e vulgar.
Manuscritos e Preservação
A preservação das composições trovadorescas deve-se, em grande
parte, aos cancioneiros, coletâneas manuscritas que registraram essas
poesias. Os três principais cancioneiros são: o "Cancioneiro da Biblioteca
Nacional", o "Cancioneiro da Vaticana" e o "Cancioneiro de Ajuda". Estes
documentos são fundamentais para o estudo do Trovadorismo e
fornecem um valioso registro da língua e cultura medievais.
Legado do Trovadorismo
O Trovadorismo deixou um legado significativo para a literatura
portuguesa e para a literatura ocidental como um todo. Este período
lançou as bases para a lírica amorosa e satírica que se desenvolveria
nos séculos seguintes. Além disso, a influência do amor cortês e da
estrutura das cantigas pode ser observada em movimentos literários
posteriores, como o Renascimento e o Barroco.
Assim, o Trovadorismo não apenas refletiu a sociedade e a cultura de
seu tempo, mas também estabeleceu uma tradição literária que perdurou
e evoluiu, contribuindo para a rica herança literária de Portugal e das
regiões de língua portuguesa.
Principais obras e autores do Trovadorismo:
Dom Dinis (1261-1325): Rei de Portugal, Dom Dinis é um dos
trovadores mais notáveis do Trovadorismo. Ele compôs tanto cantigas de
amor quanto de amigo, além de algumas de escárnio e maldizer. Sua
poesia é reconhecida pela qualidade e variedade. Exemplos de suas
cantigas incluem:
● Cantiga de Amigo: "Ai flores, ai flores do verde pino"
● Cantiga de Amor: "Senhor fremosa não posso"
Paio Soares de Taveirós: Um dos primeiros trovadores de que se tem
registro, conhecido principalmente por suas cantigas de amor. Sua obra
mais famosa é a "Cantiga da Ribeirinha" ("Cantiga da Garvaia") que é
uma das primeiras cantigas de amor conhecidas.
● Cantiga de Amor: "Ai eu coitada como vivo en gran cuidado"
Martim Codax: Trovador galego, conhecido pelas suas cantigas de
amigo. Sua obra é destacada pela simplicidade e musicalidade. O
Pergaminho Vindel é uma importante fonte de suas cantigas.
● Cantiga de Amigo: "Ondas do mar de Vigo"
João Garcia de Guilhade: Trovador famoso por suas cantigas de
escárnio e maldizer. Sua obra é caracterizada pelo humor e crítica social.
● Cantiga de Escárnio: "Ai dona fea, foste-vos queixar"
Airas Nunes: Outro trovador galego notável, conhecido por suas
cantigas de amor e de amigo, além de sua habilidade em compor versos
com profundidade emocional.
● Cantiga de Amigo: "Levad', amigo, que dormides as manhanas
frias"
Classicismo
O Classicismo, surgido durante o Renascimento no século XVI,
representa uma valorização da razão e da harmonia, em contraste com o
período medieval. Inspirado pela Antiguidade Clássica, esse movimento
reflete um resgate vigoroso de valores como a proporção, o equilíbrio e o
antropocentrismo. No contexto dos Descobrimentos Portugueses, o
Classicismo floresce como uma expressão cultural e literária de uma era
de expansão territorial e científica.
Caracterizado por uma linguagem erudita e elaborada, o Classicismo
busca explorar temas universais, como a condição humana, o amor e a
natureza, em suas obras. A imitação consciente dos modelos clássicos
gregos e romanos permeia a produção literária desse período, refletindo-
se tanto na forma quanto no conteúdo das obras. A obra-prima de Luís
de Camões, "Os Lusíadas", é um exemplo emblemático dessa influência,
celebrando os feitos dos navegadores portugueses em busca do
caminho marítimo para as Índias.
Além de Camões, outros autores destacados do Classicismo português
incluem António Ferreira e Sá de Miranda. Ferreira é reverenciado pelo
teatro clássico, enquanto Miranda introduz o verso decassílabo e formas
poéticas italianas na literatura portuguesa. Suas obras, como "A Castro"
e coleções de sonetos e éclogas, exemplificam a busca pela harmonia e
pela perfeição formal características desse movimento.
O legado do Classicismo na literatura portuguesa perdura ao longo dos
séculos, influenciando não apenas o Renascimento, mas também
movimentos posteriores, como o Barroco e o Neoclassicismo. Suas
obras continuam a inspirar e encantar leitores, destacando a capacidade
humana de explorar a beleza e a grandiosidade do mundo através da
palavra escrita.
- Principais obras e autores do Classicismo:
- "Rimas" - Bernardim Ribeiro: Este autor, embora menos
conhecido que alguns de seus contemporâneos, é importante por
sua contribuição à poesia lírica do Renascimento. "Rimas" é uma
coleção de poemas que aborda temas como o amor, a natureza e
a melancolia, revelando uma sensibilidade característica do
período.
- "Comédias" - António Ferreira: Além de sua tragédia "A Castro",
Ferreira também escreveu comédias que refletem a influência dos
modelos clássicos greco-romanos. Suas comédias exploram temas
como o amor, a intriga e a moralidade, contribuindo para o
desenvolvimento do teatro clássico em Portugal.
- "Farsa de Inês Pereira" - Gil Vicente: Esta obra é uma das farsas
mais conhecidas de Gil Vicente, misturando elementos de comédia
e crítica social. A peça satiriza as convenções sociais da época e
critica a busca desenfreada pelo status e pelo poder.
- "Teatro" - Jorge Ferreira de Vasconcelos: Este autor foi um dos
precursores do teatro clássico em Portugal, escrevendo peças que
refletem os ideais renascentistas e clássicos. Suas obras exploram
temas como o amor, a honra e a justiça, em uma linguagem
elaborada e formal.
- "Rimas" - Diogo Bernardes: Este poeta foi um dos principais
representantes da escola camoniana, influenciado pelas obras de
Camões. Suas "Rimas" exploram temas como o amor, a saudade
e a passagem do tempo, em uma linguagem refinada e musical.
Essas obras e autores adicionais enriquecem ainda mais o panorama do
Classicismo português, demonstrando a diversidade e a riqueza criativa
desse período. Suas contribuições à literatura portuguesa continuam a
ser estudadas e apreciadas como parte importante do patrimônio cultural
do país.
Quinhentismo
O Quinhentismo é um movimento literário que se desenvolveu no Brasil
durante o século XVI, coincidindo com o período colonial e os primeiros
anos de colonização portuguesa. Este movimento literário é marcado
pelo impacto das descobertas e da colonização, bem como pela
coexistência de diferentes culturas e visões de mundo.
Contexto Histórico e Cultural
O Quinhentismo surgiu em um contexto de grandes mudanças e
descobertas. Com a chegada dos portugueses ao território que viria a ser
o Brasil, houve um choque entre culturas, com a introdução do Novo
Mundo ao Velho Mundo. Este encontro de culturas, aliado à exploração
dos recursos naturais e à busca por riquezas, moldou as primeiras
manifestações literárias no Brasil.
Características Principais
- Testemunho e Crônica: Uma das características marcantes do
Quinhentismo é o caráter testemunhal de suas obras, que
registram os primeiros contatos entre europeus e indígenas, bem
como as primeiras impressões sobre a nova terra e seus
habitantes.
- Descrição e Exotismo: As obras quinhentistas muitas vezes se
dedicavam à descrição detalhada da fauna, da flora e dos
costumes dos povos nativos, destacando o exotismo e a
singularidade do Novo Mundo.
- Religiosidade: A religião desempenhou um papel central nas
primeiras manifestações literárias do Brasil, com muitas obras
dedicadas à catequese dos povos indígenas e à expansão do
cristianismo.
- Dualidade Cultural: O Quinhentismo reflete a dualidade cultural
presente no Brasil colonial, com a coexistência e o conflito entre as
culturas europeia, indígena e africana.
- Principais obras e autores do Quinhentismo
- "Carta de Pero Vaz de Caminha": Este é um dos documentos
mais importantes do Quinhentismo brasileiro, sendo considerado o
primeiro relato da chegada dos portugueses ao Brasil. Escrita por
Pero Vaz de Caminha em 1500, a carta descreve as primeiras
impressões dos europeus sobre a terra e seus habitantes.
- "Tratado Descritivo do Brasil" - Gabriel Soares de Sousa:
Publicado em 1587, este tratado oferece uma visão detalhada da
geografia, da fauna, da flora e dos povos nativos do Brasil no
século XVI. Gabriel Soares de Sousa apresenta uma descrição
minuciosa do país, destacando suas riquezas e potencialidades.
- "Diálogos das Grandezas do Brasil" - Ambrósio Fernandes
Brandão: Escrito por volta de 1618, este diálogo apresenta uma
defesa entusiástica das potencialidades do Brasil colonial,
destacando suas riquezas naturais, sua diversidade cultural e seu
papel no contexto do Império Português.
Impacto e Legado
O Quinhentismo exerceu um impacto duradouro na literatura brasileira,
estabelecendo as bases para o desenvolvimento futuro da literatura no
país. Suas obras testemunham os primeiros passos da colonização e da
formação da identidade nacional, oferecendo insights valiosos sobre a
história, a cultura e a sociedade do Brasil colonial. Além disso, o
Quinhentismo evidencia a diversidade cultural e a riqueza das tradições
indígenas, africanas e europeias que se entrelaçaram para dar forma à
identidade brasileira.
Anexos
Conclusão
O Quinhentismo, marco inicial da literatura brasileira, revela-se como um
período de descobertas e contrastes, onde a palavra escrita tornou-se
testemunha dos primeiros contatos entre europeus e o Novo Mundo.
Através das obras e relatos dos autores quinhentistas, como Pero Vaz de
Caminha, Gabriel Soares de Sousa, Ambrósio Fernandes Brandão e
outros, somos transportados para uma época de curiosidade, admiração
e conflito, onde a exuberância da natureza tropical se mesclava com a
complexidade das culturas indígenas e a busca pela riqueza.
Essas obras não são apenas registros históricos, mas reflexos das
primeiras tentativas de compreensão e interpretação do Brasil recém-
descoberto. Elas nos convidam a mergulhar nas paisagens exóticas e
nos encontros interculturais que moldaram os primórdios da identidade
brasileira. Por meio desses escritos, somos lembrados da importância de
reconhecer e valorizar as múltiplas vozes e perspectivas que
contribuíram para a formação do nosso país.
Assim, o Quinhentismo não apenas inaugura a trajetória literária
brasileira, mas também nos oferece um elo precioso com nossa história e
nossas raízes, destacando a riqueza e a diversidade de nossa herança
cultural. É, portanto, um convite à reflexão e ao reconhecimento da
complexidade e da profundidade de nossa identidade nacional, forjada
nas páginas dos relatos e crônicas dos primeiros exploradores e
colonizadores do Brasil.
Referências Bibliográficas
BOSI, Alfredo. "História Concisa da Literatura Brasileira". São Paulo: Cultrix,
2013.
COUTINHO, Afrânio. "A Poesia Lírica na Idade Média". São Paulo: Global, 2001.
MAGALHÃES JUNIOR, Raimundo. "História da Literatura Portuguesa". Lisboa:
Edições Colibri, 2008.