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O acúmulo social da violência
no Rio de Janeiro e no Brasil:
algumas
reflexões*
Recebido: 11 de agosto de 2010 | Aprovado: 29 de setembro de 2010
Senhorita Michel**
[Link]@[Link]
Resumo Este artigo analisa o comportamento da violência no Rio de
Janeiro, e no Brasil em geral, a partir de um processo social de
longa duração que se caracteriza como um “acúmulo social de
violência”, que, embora seja mais visível, é comum no Rio de Janeiro. Janeiro e São
Paulo, se expande pelas grandes cidades brasileiras. O principal núcleo da espiral de
violência é a resolução de conflitos através do recurso imediato às armas de fogo.
Duas dimensões retroalimentam o cerne da acumulação social da violência,
nomeadamente, a acumulação de redes retalhistas de bens ilícitos baseadas na
subjugação criminosa em áreas pobres da cidade e o aumento da oferta de “bens
políticos” que levou à acumulação. de certas “uniões” entre diferentes mercados
informais ilegais e, posteriormente, à sobreposição de diferentes tipos de bens ilegais
com bens políticos.
Palavras chave
Violência, segurança urbana, Rio de Janeiro, Brasil, mercados ilegais, mercadorias
políticas.
Acumulação social da violência no Rio de Janeiro e no Brasil: algumas reflexões
* Este texto constitui uma
Abstrato Neste artigo a atuação da violência no Rio de Janeiro, e em síntese das pesquisas
geral no Brasil, é analisada considerando um processo social sobre violência e sociedade
de longo prazo que se caracteriza como um “acúmulo social de no Brasil desenvolvidas no
Núcleo de Estudos em
violência”. Esse processo, mesmo mais visível no Rio de Janeiro e em São Paulo, se
Cidadania, Conflitos e
estende pelas principais cidades brasileiras.
Violência Urbana da
O cerne desta espiral de violência é a solução de conflitos recorrendo imediatamente
Universidade Federal do
às armas de fogo. Duas dimensões diferentes retroalimentam o cerne da acumulação
Rio de Janeiro.
social da violência, a saber, a acumulação da rede de vendas, com preço de varejo,
de produtos ilícitos com base na sujeição criminal nas áreas mais pobres da cidade e
** Doutor em Sociologia.
o aumento da oferta de “serviços políticos”. mercadoria” que levou a uma acumulação
Professor de sociologia da
de certas “conexões” entre diferentes mercados ilegais e informais e, depois, à
Universidade Federal do
sobreposição de diversos tipos de mercadorias ilegais com mercadorias políticas.
Rio de Janeiro (UFRJ) e
diretor do Núcleo de
Estudos em Cidadania,
Palavras-chave Conflitos e Violência
Violência, Segurança Urbana, Rio de Janeiro, Brasil, mercados ilegais, mercadorias Urbana da mesma
políticas. Universidade.
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Introdução
Quando comecei a pesquisar esse tema no Rio de Janeiro, no
início da década de 1970, não se falava em violência urbana no
Brasil. Havia poucos estudos sobre criminalidade e dizia-se com
naturalidade que o Brasil era um país habitado por gente cordial,
um país sem violência, um país pacífico. Talvez isto explique a
pouca atenção dada a este campo temático nas ciências sociais,
mesmo quando nos Estados Unidos e na Europa Ocidental a
investigação sobre o crime atingiu o seu auge académico. Hoje
sabemos, passados trinta e poucos anos, que havia muita
esperança naquela concepção do nosso país. Afinal, nela
reprimimos séculos de escravidão, séculos daquela escravidão
que vigorou no último país do mundo que a aboliu.
Mesmo no início da década de oitenta, quando começaram os
primeiros estudos sobre violência urbana no Brasil, ainda era
possível encontrar antigos ex-escravos que viviam em algumas
antigas áreas de produção de cana-de-açúcar ou de café. Tive a
oportunidade de conhecer um deles em Campos de Goytacazes,
norte do Estado do Rio de Janeiro. Foi muito estranho falar do
Brasil com tamanha negação da violência da escravidão, pois era
perfeitamente possível que grande parte da população brasileira
ainda sentisse as marcas do chicote nas histórias de cada família.
No século XVIII havia mais negros do que brancos na população
brasileira. Como o escravo vivia em média apenas sete anos na
“plantação” e a miscigenação se tornou uma forma de mobilidade
social, a população negra caiu para dez por cento no final do século XX.
No final do século XIX, o processo de transição da escravidão
para o trabalho livre relegou grande parte dos descendentes de
escravos a uma posição marginal na economia urbana do país,
desenvolvida com a contínua imigração de europeus do
Mediterrâneo, alemães,. Sírio-Libanês e Japonês começaram em
meados do século XIX até meados do século XX. Além disso, no
curto período de vinte anos, entre 1950 e 1970, cidades como Rio
de Janeiro e São Paulo triplicaram sua população, num movimento
demográfico sem paralelo, levando-as do interior do país para as
grandes cidades litorâneas. Foram ampliar favelas e casas
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da pobreza urbana e da ocupação desenfreada da periferia metropolitana,
revertendo, em uma única geração, a designação do Brasil de país
eminentemente rural para um dos grandes centros urbanos do mundo.
Somente no final da ditadura Vargas, em 1945 e, portanto, após a
Segunda Guerra Mundial, foi feito um esforço para integrar à cidade a
população urbana marginalizada, ou seja, os migrantes internos, em sua
maioria oriundos de outros estados do Sudeste. e nordeste. Esse esforço,
do qual participaram políticos populistas e parte da Igreja Católica, foi
abruptamente interrompido pela reação conservadora das classes médias
residentes nas áreas mais ricas da cidade que apoiaram a política de
transferência das favelas das áreas nobres do Rio para. periferia urbana
e que, no plano político, apoiou o golpe militar de 1964, que pôs fim ao
populismo no Brasil.
Na minha opinião, não há como entender que cerca de 60 mil jovens
foram assassinados no Rio de Janeiro nos últimos dez anos sem que
essas mortes estejam associadas a um processo social de longo prazo
que caracterizei como uma acumulação social do violência. Embora esse
processo seja mais visível no Rio de Janeiro e em São Paulo, ele se
expande – com as diferenças de cada região – pelas grandes cidades
brasileiras e atinge até algumas cidades médias dentro da área de
influência da metrópole. No meu trabalho tento abordar este processo
como um círculo vicioso de fatores que se alimentam cumulativamente.
O principal núcleo desta espiral de violência é a resolução de conflitos
através do recurso imediato às armas de fogo. A polícia do Rio de
Janeiro, por exemplo, começou a matar sistematicamente criminosos ou
suspeitos das classes populares já na década de 1950, praticando o
que chamo de “subjugação criminosa”1 dos pobres urbanos. Para quem
imagina que, naquela época, o Rio era uma cidade pacífica, basta
lembrar que a taxa de homicídios na cidade já era a mais alta das
Américas para cidades com mais de
1 Entendo a sujeição penal como o processo social por meio do qual são selecionados
preventivamente os supostos sujeitos que irão compor um tipo social cujo caráter é socialmente
considerado “propenso a cometer um crime” . Ver (Misse, 2008; 2009).
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um milhão de habitantes – cerca de 12 homicídios por 100 mil habitantes.
Hoje, esta taxa é cinco vezes mais elevada e não parece estar a diminuir
há pelo menos duas décadas.
Este núcleo da espiral de acumulação social da violência é
retroalimentado por duas dimensões importantes, ambas constituídas
por formas ilegais de troca, isto é, por mercados ilegais: 1) a acumulação
de redes de vendas a retalho de bens e atividades ilícitas (pools
clandestinos, bens roubados e drogas) com base na contenção criminal
acumulada ao longo de décadas nas áreas pobres da cidade; 2) o
aumento da oferta de “bens políticos”2 que levou à acumulação de
certas “sindicações” historicamente realizadas entre diferentes mercados
informais ilegais (como foi inicialmente o “jogo do bicho” e, mais tarde,
outros mercados ilícitos como a cocaína) e depois à sobreposição de
diferentes tipos de mercadorias ilegais com mercadorias políticas.
Penso que esta sobreposição de mercados é mais importante para
a compreensão do problema da violência no Rio de Janeiro do que a
relação estereotipada (e hoje universal) entre consumo de drogas e
crime. Exploro também a hipótese de que estes “sindicatos” são
alimentados por uma contradição entre as políticas de criminalização
adotadas e a avaliação estratégica que ocorre nas bases criminais e
policiais na sua implementação. Esta contradição, ao reforçar a percepção
social de “impunidade” e, portanto, a reação moral da sociedade, acaba
por reproduzir as condições específicas em que se desenvolvem essas
mesmas “uniões perigosas”.
Mercados ilegais e mercadorias políticas
Ao longo dos diferentes ciclos políticos e económicos da cidade e
sendo constituída, em cada situação, por uma continuidade
2 Chamo de “bens políticos” o conjunto de diferentes bens ou serviços compostos por recursos
políticos (não necessariamente bens ou serviços públicos ou estatais) que podem constituir-se
como objeto privado de apropriação para troca (livre ou forçada, legal ou ilegal). , criminoso ou
não) por outras mercadorias, lucros ou dinheiro. O que é tradicionalmente chamado de corrupção
é um dos principais tipos de “mercadoria política”. O “clientismo” é, por sua vez, uma forma de
poder baseada na troca de diversos bens (políticos ou económicos), geralmente legais ou
tolerados, mas moralmente condenados devido à sua natureza hierárquica e estrutura assimétrica.
No Brasil, as fronteiras entre clientelismo e corrupção, sendo moralmente tênues, tendem a
reforçar e expandir o mercado informal ilegal e criminoso. Ver (Misse, 2009).
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de práticas e competências específicas capazes de absorver o
trabalhador precário, nativo ou imigrante (e posteriormente migrante),
há toda uma história submersa de mercados ilícitos no Rio de
Janeiro: mercados de barganha que oferecem bens e serviços
contrabandeados ou roubados “indesejáveis”; mercados de prazer e
vícios envolvendo drogas, mulheres, jogos de azar, comércio de
direitos autorais e revistas pornográficas; mercados que exploram a
pobreza e a falta de protecção económica, envolvendo empréstimos,
recepção, precauções e remessas de alto risco. Deixando de lado o
comércio fraudulento de empresários estabelecidos, alguns dos quais
financiam parte dos mercados ilícitos acima mencionados, o Rio de
Janeiro – importante porto, capital federal até a década de 1950 e
principal centro de comunicações via rádio e, mais tarde, televisão –
oferecia mais alternativas ao trabalho precário do que a maioria das
cidades brasileiras, pelo menos até a década de 1960, característica
que a transformou em uma cidade atraente para diferentes tipos de migrantes internos
A verdade é que os mercados informais e os mercados ilegais,
que sempre existiram no Rio e estavam confinados a algumas áreas
(como a prostituição popular no Mangue3 e as “bocas de fumo”4 nas
favelas), se expandiram de forma extraordinária desde meados da
década de 1970, o que antes pertencia a um espaço social reservado
(num território físico como os morros5 da cidade, ou não) e era
representado como um “submundo” (até, especialmente, pela sua
localização) expandiu-se por todo o território. tecido social, assumindo
uma dimensão muito mais generalizada, difusa e publicamente
conhecida.
Ruggiero e South (1997) propõem chamar este fenómeno recente
de “bazar”, em que a cidade ocidental adquire as características de
um enorme mercado oriental, com a sua multiplicidade de lojas e
“pontos”, com as suas negociações incessantes, as suas dimensões
tácitas, manobras habilidades próprias e específicas. Uma “feira pós-
moderna” que transcende todas as regulamentações convencionais. Para
3 Localizada no centro do Rio de Janeiro, é uma região surgida no início do século XX, utilizada durante muito tempo
para abrigar casas de prostituição. Atualmente tal atividade foi transferida para outra área da cidade e ali está
instalada a Câmara Municipal.
4 Expressão coloquial para se referir a pontos de venda de medicamentos.
5 “Morros” é a palavra portuguesa que se refere aos morros característicos da cidade do Rio de Janeiro. Por razões
históricas, ali se concentra a maior parte das favelas do centro da cidade.
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Segundo estes autores, é típico da cidade moderna tardia que as
fronteiras morais entre legalidade e ilegalidade sejam atenuadas ou
constantemente negociadas. Como suas referências são as grandes
cidades europeias e norte-americanas, fica bem enfatizada a diferença
com a cidade clássica moderna, fabril, fordista e organizada. No caso do
Rio de Janeiro (como em outras grandes cidades brasileiras e do
chamado “Terceiro Mundo”), que, em certo sentido, sempre acolheu
(embora de forma diferenciada) um “bazar” de mercados deste tipo , a
análise deveria privilegiar menos a oposição ao tipo ideal de cidade
moderna, que aqui não se concretizou plenamente, e mais as diferenças
de situação e territorialidade da sua história.
O que distinguiria um mercado “formal” de um mercado “informal”
seria, em geral, a sua maior ou menor participação num conjunto de
regulações estatais. Contudo, a lógica do mercado produz relações
complexas (e muitas vezes contraditórias) destas regulações legais.
Entre elas está a regulamentação de bens cujo fornecimento (e em
alguns casos cujo consumo) é criminalizado, ou seja, suscetível de ser
legalmente enquadrado como crime. O mercado criminalizado é, assim,
duplamente informal: é necessariamente um mercado de trabalho
informal, porque a criminalização dos bens que produz ou vende o exime
de qualquer tipo de regulação formal das relações de trabalho e das
obrigações fiscais, além de ser um mercado de a circulação de bens
ilícitos, cuja atividade é, por si só, criminalizada.
A criminalização de determinado tipo de mercadoria depende do
seu significado contextual para a ordem pública, para a reação moral da
sociedade e para as suas possíveis (ou imaginárias) afinidades com
outras mercadorias ou práticas criminalizadas. Por exemplo, a mercadoria
“jogos de azar” no Brasil é regulamentada de diversas formas, embora
sua proibição legal tenha sido quase sempre baseada em justificativas
morais. Se o lucro fosse para obras sociais e a atividade não fosse
regulamentada, poderia ser tolerada ou mesmo permitida; Se estiver
limitado a determinados espaços privados, sem configurar um negócio,
é legalmente tolerado; se se desenvolver em determinadas regiões,
previamente designadas e sob controle, como no
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projecto que prevê a liberalização de casinos em localidades hidro-minerais,
pode ser legal; Por fim, se for controlado pelo Estado e tiver fins sem fins
lucrativos, como loterias federais ou estaduais, ou como no caso dos
“bingos” sem fins lucrativos, foi considerado legal.6 É evidente que o
componente criminalizador do jogo é, neste caso, o “fins lucrativo privado”,
ou seja, a sua transformação em mercadoria e em empresa. Esta
contextualização da designação criminosa segue evidentemente cursos de
interesse em detrimento de outros, o que permite que diferentes atores
sociais avaliem estrategicamente o “jogo de azar” como uma “mercadoria
especial” e não apenas como um problema moral.
Este enfraquecimento da dimensão “moral” que levou à criminalização
de uma mercadoria, a mesma dimensão que justificaria, em última análise,
a manutenção da sua criminalização, abre inúmeros espaços sociais para
mais ou menos legais ou simplesmente ilegais (mas moralmente tolerados)
para comercialização. É o que parece ter acontecido com a “piscina
clandestina”, com a “pirataria” de discos ou softwares, até com o
contrabando a varejo de bebidas, eletrodomésticos ou outros produtos
comercializados no “mercado formal”, até a venda de medicamentos. sem
prescrição médica, prática ilegal generalizada no “mercado formal”, e com
a gestão da prostituição (legalmente classificada como “proxenetismo”, mas
atualmente não processada pela polícia) divulgada nos principais jornais
da cidade na seção “serviços pessoais " seção. Processos análogos
ocorrem com outros tipos de mercadorias ilegais, como joias, peças ou
veículos roubados, armas, contrabando no atacado, drogas leves ou
pesadas e serviços de proteção (desde “cuidar de um carro na rua” por car-
sitting, até formas diferentes segurança privada ilegal). A variedade de bens
criminalizados é enorme, assim como a escala relativa da gravidade da sua
criminalidade, como evidenciado pela proliferação de artigos legais sobre
situações diferenciadas de criminalização nos Códigos Penais de todos os
países. No entanto, o grau de criminalidade-incriminação
6 Existe hoje uma grande polémica política em torno da legalização deste tipo de casas de jogo.
Recentemente, o Governo declarou-os ilegais, mas o Congresso tende a legalizá-los novamente.
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de práticas e agentes (Misse, 2008) é diferencial e depende, em
grande medida, de uma concentração de interesse (material ou ideal)
em determinados temas (Misse, 2006).
Assim, é interessante, passados todos estes anos, reflectir sobre o que aconteceu
nos últimos 50 anos. Somos então levados a confrontar os factores que, de facto,
contribuíram para provocar aquela violência que fez parte da nossa formação social e
a trazer de volta às nossas consciências o que durante algum tempo foi esquecido e
reprimido nas nossas representações colectivas. Hoje ninguém pode dizer que o Brasil
é um país pacífico. Hoje não há ninguém que possa dizer que somos um povo amigo,
que não conhece a violência nem as guerras. Calorosos e violentos, gentis e
conflituosos, de alguma forma vivemos permanentemente nessa contradição, no nosso
permanente dilema civilizacional. Digo tudo isso, e foi assim que decidi começar o texto,
porque desconfio de um determinado método com o qual abordamos esse tema, muito
comum entre os sociólogos, e não apenas entre os sociólogos brasileiros: esse método
pretende ser descritivo, mas, sob uma universalidade superficial, é perigosamente
normativo. Utilizamos a categoria “violência” como operador analítico, como conceito –
algo que não é – sem levar em conta a sua polissemia, para acusar o que acreditamos
que deveria ser submetido a julgamento político e, no mesmo movimento, para apelar
a contra-ataques. -violência em relação ao objeto que escolhemos investigar. É um
método interessante porque normalmente nos coloca num lugar “fora da violência” e
coloca a violência em outros lugares, que podem ser escolhidos de acordo com os
nossos valores. É um método interessante que nos ajuda a acreditar que a violência
está em algum lugar fora de nós, por isso devemos de alguma forma, já que não somos
de forma alguma sujeitos violentos ou vulneráveis a ela, estar em condições de denunciá-
la.
Estou convencido de que não é possível operar analiticamente
com categorias acusatórias como “violência”, “crime”, “corrupção” e
outras semelhantes. São categorias nativas, representações de
práticas muito variadas, de interações e conflitos sociais muito
complexos. Posso, evidentemente, usar a categoria para descrever
uma situação socialmente representada como o uso agressivo da
força física para obter poder numa relação social, que é o seu sentido
mais comum. Mas isso não o transforma em conceito,
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já que o conteúdo pelo qual poderei utilizar a noção dependerá da
disputa pela legitimidade desse uso. Como bem lembrou Étien-ne
Balibar, o uso da palavra “violência” também é performativo, apela
sempre a uma “contra-violência” e, portanto, participa no conflito que
se quer investigar ou compreender. Pessoalmente não tenho nada
contra isso, mas é preciso deixar claro que “violência” não é um
conceito, mas uma categoria de acusação social.
Podemos utilizar a categoria nativo sem receios, desde que o
façamos descritivamente para designar, por exemplo, um uso
considerado ilegítimo da força e da agressão física para obter
vantagem ou poder numa relação social. É uma categoria inseparável
da modernidade, que criminalizou o recurso privado à força física (e
às suas extensões tecnológicas) para resolver, superar ou vencer um
conflito. Portanto, a categoria “violência” é uma categoria moderna e
pressupõe a pacificação das relações sociais, o monopólio legítimo (e
legalmente ordenado) do uso da força física pelo Estado, e que no
seu sentido limite implica ter alcançado a judicialização obrigatória de
todos conflitos.
O problema é que no Brasil o Estado nunca conseguiu ter o
monopólio completo do uso legítimo da violência, nem foi capaz de
oferecer a todos os cidadãos o acesso universal à resolução judicial
de conflitos. Isso significa que o Estado brasileiro nem sempre teve o
monopólio legítimo da força em seu território, nem foi capaz de
transferir integralmente todos os conflitos cotidianos para a
administração da justiça.
Ao dizer o que foi dito acima, estou afirmando que não foram
preenchidas as condições modernas para investir legitimidade no uso
da categoria “violência” para representar uma transgressão da regra
de pacificação da sociedade, uma vez que a pacificação é um processo
incompleto, é um deles. das principais causas da violência presente
nos conflitos que hoje assistimos. Bem, não é concebível que um país
que tem a capacidade de processar razoavelmente conflitos e crimes
no Tribunal de Justiça, veja crescer a procura de cada vez mais
segmentos da população para resolver os seus conflitos através do
uso de meios privados ou ilegais. força (execuções, tortura, justiça
vigilante).
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Como bem lembra José Murilo de Carvalho (2005), a conquista da
cidadania foi investida na história política brasileira.
O caminho “clássico” que vai dos direitos civis aos direitos políticos e
depois aos direitos sociais foi invertido no Brasil: os direitos sociais
vieram primeiro, regulamentando a cidadania durante a ditadura de
Vargas (Santos, 1979); e depois, por duas vezes, foram conquistados
direitos políticos, depois das duas ditaduras do século XX; e só agora,
após a Constituição de 1988, os direitos civis ganham predominância no
programa ou agenda do Estado brasileiro.
Refiro-me, clara e diretamente, à forma difundida no Brasil,
especificamente no Rio de Janeiro, de uma forma de resolver problemas
que mais tarde seria conhecida em todo o mundo sob o nome de
“Esquadrão da Morte”, da qual coloco a origem da violência urbana
brasileira exatamente no período de surgimento dos primeiros
esquadrões da morte no Rio de Janeiro, em meados da década de 1950.
Todos os meus estudos me levaram a essa conclusão.
Não estou afirmando que o aumento dos esquadrões da morte seja
a causa do aumento da violência urbana no Brasil, obviamente. Seu
surgimento apenas demonstra a origem de um processo de acumulação
social de violência no Rio de Janeiro que mais tarde se dispersaria por
todas as grandes cidades brasileiras. Ao falar de dispersão não quero
dizer que o Rio de Janeiro tenha sido o único irradiador deste processo,
embora seja importante lembrar que o Rio era a capital do Brasil e que
os principais meios de comunicação, como a rádio, a imprensa e mais
tarde a televisão, , estavam localizados lá. O efeito demonstração do que
esses veículos noticiaram para todo o país não é insignificante, mas os
principais fatores do acúmulo social da violência no Rio já estavam
presentes nas grandes cidades, o que explica por que houve espaço
para o que aconteceu no Rio, ocorreu, bem como com as profecias
autorrealizáveis.
Por que foram criados os “esquadrões da morte” na capital do Brasil
na década de 1950? Como foi possível que, desde então, outros grupos
de extermínio tenham surgido com algum apoio?
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da população? Até meados da década de 1950, os crimes mais comuns,
os que lotavam as delegacias, os que produziam os maiores volumes de
interferência policial, de condenações, eram as infrações penais menores
e os crimes de baixo potencial ofensivo: brigas com feridos, pequenos
furtos, fraude ou crimes que não envolveram violência, como adultério e
lenocinia; aqueles crimes que dependiam da astúcia do criminoso e
muitas vezes da ingenuidade da vítima, como fraude ou sedução para
cometer o crime. Essa era a generalidade dos crimes no Brasil na década
de 1950. Os crimes violentos, como o homicídio, eram principalmente
crimes passionais, às vezes acompanhados do suicídio do assassino.
Investigando os crimes comuns da época, constatamos o predomínio
de crimes contra o patrimônio, mas que não envolviam o uso da força
física ou a ameaça de uso. Também encontramos crimes contra
pessoas, principalmente ferimentos causados em brigas, alguns com
ferimentos graves causados por armas de fogo ou materiais cortantes.
Foram muitos os crimes passionais e de honra, crimes típicos de uma
sociedade tradicional que começava a se modernizar. Do exposto
encontramos uma história expressiva na literatura e no teatro da época.
A sociedade atingiu um certo grau de normalização do
comportamento, embora do tipo tradicional, baseado mais na
internalização de valores do que na legitimação pública da escolha
racional de seguir ou não uma norma. Esta normalização ambígua
desenvolveu-se desde meados do século XIX, na etiqueta urbana e nos
bons costumes, sob grande influência do imigrante europeu, mas também
devido a uma educação que o processo escolar expandiu para as classes
médias urbanas, e, principalmente, sob uma controlar a repressão
sistemática que a polícia estabeleceu sobre os pobres urbanos. Em
qualquer caso, alguma normalização foi alcançada, mesmo que
dependesse de uma estrutura fortemente hierárquica.
Uma hierarquia de classes e direitos muito eficaz onde cada um sabia o
seu lugar, como diziam na época: cada macaco no seu galho! Esse era
o país dos anos 50, um país hierárquico, tradicional, desigual, mas onde
ainda não havia uma forte procura de
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igualdade, onde não havia pressão pelo acesso aos direitos, onde não
havia maior sensibilidade à violência que já estava presente, mas
ainda não era percebida como um problema. A violência limitou-se
aos jornais sensacionalistas, lidos apenas pelas classes populares.
Dizia-se deles, com desprezo, que se fossem espremidos, pingariam
sangue.
É exatamente no final da década de 50 que se sente uma mudança
lenta, pontual e importante nos padrões de criminalidade em grandes
cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Recife e Belo Horizonte. No
Rio de Janeiro essa mudança foi mais visível nacionalmente. O Rio
era a capital do país, os poderes da República estavam lá, todos os
estados do país estavam representados e ali começavam as
transmissões de televisão, os grandes veículos de comunicação
estavam lá, então tudo o que acontecia no Rio tinha um impacto
nacional enorme. É nesse período que os assaltantes armados
começam a aparecer com frequência, aumentam as notícias sobre
ataques e assaltos a taxistas, postos de gasolina, assaltos a residências
e bancos. Ao mesmo tempo, a imprensa comparou a cidade à Chicago
da década de 1920, fazendo referência à existência do crime
organizado no popular “jogo do bicho” e no contrabando.
É nesse contexto que o delegado decide criar oficialmente o “Grupo de Diligência
Especial”, comandado por um policial conhecido pelo apelido: LeCocq, que havia sido
integrante da terrível polícia especial da ditadura Vargas. Seu grupo, recrutado pelo antigo
“Esquadrão Motorizado” da Gestapo Vargas, usava a sigla EM em suas motocicletas e o
desenho da caveira com duas tíbias amarradas como símbolo. Quando as suas ações
(chamadas de “caçadas” pela imprensa) foram acompanhadas pela morte dos suspeitos do
crime que “caçaram”, a população e a imprensa popular passaram a chamá-los de
“Esquadrão da Morte” devido à sigla EM.
No mesmo período, pontificou na cidade de Duque de Caxias,
periferia urbana do Rio, um político local que ganharia fama nacional
por exibir uma metralhadora nas roupas pretas e se gabar de ser um
vigilante contra ladrões de todos os tipos. pessoal. Esse
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O personagem Tenório Cavalcanti, candidatou-se a governador em
1960 e foi deputado federal altamente votado nos anos seguintes,
sendo até hoje uma figura quase lendária em sua área. O carisma
positivo de uma violência que foi neutralizada sob o caráter de um
“vigilante” foi a forma de denunciar a insatisfação com a modernidade
judicial, lenta e cercada de garantias, em benefício do eterno retorno
à vingança, mesmo sendo uma vingança impessoal e universalizada
como se fosse justo.
Com a morte de LeCocq, em 1964, num tiroteio com um atacante
de jogo conhecido como Jogo do Bicho, seu grupo e seus sucessores
criaram outro em sua homenagem chamado “Scuderie LeCocq”, sem
esconder de ninguém que o objetivo era matar. “bandidos”: “O ladrão
bom é o ladrão morto”, disse um de seus integrantes diante da
imprensa, que muitos anos depois seguiria carreira política no Rio
usando essa expressão em sua campanha eleitoral. Depois
começaram a ser encontrados corpos em locais solitários da cidade,
com alguns tiros disparados e onde havia um cartaz com frases como
“Menos um ladrão na cidade. Assinatura: EM”. Essa expressão
passou a ser utilizada repetidas vezes por outros grupos de
assassinos, que passaram a aparecer na imprensa sob os nomes “Rosa Vermelha”, “M
Seguindo a mesma tendência, no final da década de 60, já em meio
aos exércitos da ditadura, outros grupos que surgiram na periferia do
Rio, em cidades como Nova Iguaçu, foram criados por comerciantes
locais com o apoio de ex-policiais oficiais, com o propósito aberto de
“caçar” ladrões locais para eliminá-los. No mesmo período, reforçados
pela impunidade do regime militar, policiais e oficiais das forças
armadas praticaram tortura e assassinaram adversários políticos do
regime nas celas clandestinas de unidades da Polícia Militar e quartéis
da Marinha, do Exército e da Aeronáutica. Embora sem ter acesso a
estes factos -já que a imprensa estava sob censura antes do regime-
a população, em geral, sabia o que estava a acontecer.
As técnicas de tortura, tão tradicionalmente utilizadas com presos
comuns, filhos das camadas populares, sem ninguém interessado em
se opor a elas, passaram a ser aplicadas a jovens estudantes de
classe média e às elites políticas e intelectuais, causando confusão.
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movimentação entre as famílias e fortalecimento do partido de oposição
parlamentar, que venceria as eleições de 1974 e 1978, anunciando o
fim da ditadura.
No início do processo de redemocratização do país, em 1979, o
volume de crimes violentos, que vinha aumentando desde o início da
década, começou a ganhar uma visibilidade sem precedentes na
cidade e no país. Revistas de grande circulação nacional publicaram
os temas com títulos em suas capas como “As cidades estão com
medo”. O “Jornal do Brasil”, tradicionalmente tímido em sua seção de
notícias policiais, abriu as manchetes da primeira página com frases
como: “A criminalidade cresce em todo o país”. Em 1974, fui convocado
para discutir o problema na imprensa, e o paradoxo óbvio já estava
anunciado: exatamente quando o país emergiu de uma longa noite sob
um regime autoritário e cruel, quando as instituições democráticas
começaram a se reconstituir, a violência urbana atingiu níveis nunca
antes visto em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo. Haverá
alguma correlação entre democracia e violência no Brasil?, perguntou
a socióloga Angelina Peralva em seu livro sobre o assunto, publicado
na França. Seria este mais um grande paradoxo brasileiro?
O que chamei de “acumulação social de violência” refere-se a um
processo social que dura aproximadamente meio século. Pode ser
historicamente delimitado, até agora, entre a década de 1950 e a
atualidade. Esse processo ocorre na cidade do Rio de Janeiro e em sua
área de influência imediata, a região metropolitana do Rio, mas pode,
como aconteceu, atingir outras cidades brasileiras, adquirindo
potencialmente abrangência nacional.
Apresentarei aqui em termos gerais os resultados obtidos em minha
pesquisa sobre esse processo no Rio de Janeiro, que serviram de
modelo para minha análise. Mas primeiro é necessário definir os
conceitos que estou utilizando para que seu significado seja melhor
compreendido.
O que chamo de “acumulação social” designa um complexo de
fatores, uma síndrome que envolve circularidade causal cumulativa
(Myrdal, 1961). Isolar esses fatores não é uma tarefa fácil, pois eles
são acumulados e qualquer tentativa de
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separá-los analiticamente pode levar a resultados superficiais ou tautológicos. Para
trabalhar essa dificuldade, propus conceitos que levam diferentes aportes teóricos,
mesclando-os ao material empírico encontrado. Assim, por exemplo, como é muito
comum no Brasil que a lei não seja seguida em certos e variados casos, e como seus
contextos produzem padrões que normalizam práticas extralegais como práticas
relativamente legítimas, não faz sentido conter a construção social do crime apenas no
processo de criminalização, aceitando os seus termos codificados pelo direito penal. É
necessário ir mais longe e reconhecer as formas concretas como as práticas e
representações sociais combinam, em cada caso, processos de acusação e de
justificação, de criminação e descriminação, de incriminação e de discriminação que,
fora ou dentro do Estado, permanecem relativamente autónomos do sistema codificado.
lei e em permanente tensão com ela.
Nesse julgamento, seguindo sociólogos renomados (Lemmert, Becker, Cicourel,
Goffman, Turk, etc.), mas observando o caso brasileiro, propus alguns operadores
analíticos que especificam os processos sociais que materializam a criminalização, ou
seja, a construção social. do crime, aplicando-os a alguns segmentos e dimensões
desse processo no Brasil contemporâneo. Para tanto, proponho que a construção
social do crime seja entendida em quatro níveis analíticos interligados: 1) a criminalização
de um curso de ação típico-ideal definido como “crime” (através da reação moral à
generalidade que define tal curso de ação). ação) e coloca-a nos códigos,
institucionalizando a sua sanção); 2) a criminalização de um fato, por meio de
interpretações sucessivas que enquadram um curso de ação local e singular na
classificação criminalizadora; 3) a incriminação do suposto sujeito-autor do ato, em
virtude de depoimentos ou provas compartilhadas intersubjetivamente; 4) sujeição
penal, por meio da qual são selecionados preventivamente os supostos sujeitos que
irão compor um tipo social cujo caráter é socialmente considerado “propenso a cometer
um crime”. Percorrendo todos esses níveis, a construção social do crime começa e
termina a partir de algum tipo de acusação social.
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Quando o processo de incriminação antecipa o processo de
criminalização (e mesmo o processo de criminalização) de forma
regular e extrajudicial, ou seja, quando a incriminação ocorre de
forma preventiva sem que nenhum acontecimento tenha sido
“criminado”, ou seja, interpretado como crime, temos então têm uma
das principais dimensões empíricas da “sujeição criminal”. Essa
passagem, que Foucault interpretou como a passagem da lei à norma
(Foucault, 1975), cria a possibilidade de um sujeito ser associado ao
“Crime em geral”, e personificá-lo.
No Brasil a incidência extrajudicial desse processo é generalizada.
Não é uma exceção e é uma regra. Para distinguir este processo
social de um processo moderno de incriminação racional-legal, dou-
lhe o nome de “sujeição criminal”. Em primeiro lugar, procura-se o
sujeito de um crime que ainda não ocorreu. Se o crime já tiver ocorrido
e se a pessoa já tiver sido incriminada anteriormente por outro crime,
ela se torna um “sujeito propenso ao crime”, um potencial suspeito.
Se suas características sociais puderem ser projetadas para outros
sujeitos como ele, cria-se um “tipo social” estigmatizado. Mas a
sujeição criminal é algo mais que estigma, porque não se refere
apenas a rótulos, à identificação social desacreditada, à constituição
de papéis e carreiras para o criminoso (como na “criminalização
secundária” de que fala Lemert). Consegue a plena coalizão do evento
com seu autor, mesmo que esse evento seja apenas potencial e não
tenha sido efetivamente consumado. Um processo de subjetivação
continua seu curso no que diz respeito à internalização do crime no
sujeito que o suporta. Não é por acaso que, no Brasil, o que se chama
de “ressocialização” de sujeitos criminosos é predominantemente
resultado da conversão religiosa. É preciso “exorcizar” o crime do
sujeito para libertá-lo dessa sujeição.
No Brasil é comum referir-se ao sujeito com o número do artigo do
Código que ele transgrediu: “171” (fraudador), “121” (assassino),
“157” (assaltante), “213” (tubber) , “12” (revendedor), etc. A existência
de antecedentes criminais num sujeito em julgamento quase sempre
o conduz à prisão provisória (que é diferenciada por privilégios, como
o instituto da “prisão especial”) e pode ser decisiva para a sua pena,
constituindo uma “prova” fundamental abusiva. Da mesma forma, um
sujeito na prisão
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provisória ou preventiva, você tem dez vezes mais chances de ser
denunciado do que ter seu caso arquivado, e três vezes mais chances
de ser condenado do que de ser absolvido (Vargas, 2004). Também são
comuns diferentes formas de “antecipação da pena”, por meio da prisão
provisória, que pode se estender até a sentença – que pode, em casos
de crimes flagrantes, levar anos.7
Todo este processo implica a existência de um intérprete virtual, um
acusador íntimo, que, rotativamente, ocupará diferentes cargos, mas que
acreditará sempre que ele próprio não cederá à sujeição. A base para a
existência deste último acusador é a naturalização da desigualdade
social em proporções tais que parte da sociedade poderá defender a
tortura e a eliminação física (judicial ou extrajudicial) dos sujeitos
criminosos, simplesmente porque tem certeza (imaginária ) que esta
regra nunca será aplicada a ela. Esta segurança ontológica, que lhe
permite afirmar-se como “boa pessoa” ou “além de qualquer suspeita”,
é a contrapartida necessária da sujeição criminal. No Rio de Janeiro,
uma pesquisa recente – amplamente divulgada na imprensa – constatou
que aproximadamente um terço da população defende o uso da tortura
para extrair confissões de sujeitos criminosos. Naturalmente, a tortura
deve ser aplicada a esse Outro, que é o sujeito criminoso, e não a
qualquer incriminado e muito menos a mim que não me vejo como um
possível incriminado. Da mesma forma, defendo a “lei seca” que
criminaliza, por conduzir veículos, o condutor que consumiu álcool, mas
defendo isso “para os outros”, não para mim.
Essa desigualdade substantiva que permeia todo o sistema de
crenças a respeito da incriminação no Brasil e que caracteriza grande
parte da “sensibilidade jurídica” em todas as classes sociais, está
articulada, por um lado, cada vez mais, ao sentimento de insegurança,
que se amplia, por outro lado, a uma concepção de incriminação
baseada na sujeição penal. Estes são alguns aspectos, ainda
apresentados de forma abstrata, da acumulação social da violência a
que me referi no início.
7 Barreto (2007) mostra que, entre 2000 e 2004, nas cidades de Recife e Belém, presos absolvidos
de furto ficaram presos provisoriamente (antes da sentença) por quase um ano. O autor também
se refere à aplicação massiva da prisão provisória quando os suspeitos provêm de origens
populares.
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Não é por outra razão que, do meu ponto de vista, a incorporação
do uso indiscriminado da violência contra suspeitos dos sectores
populares reforçou, no seio do aparelho policial, a segurança da
impunidade, especialmente quando esta violência foi exercida no
âmbito de o mecanismo da corrupção.
Mas, assim como esta violência adquiriu legitimidade em setores
consideráveis da polícia e da sociedade, a corrupção também deixou
de ser representada como um desvio para obter a reputação de uma
troca recíproca, sob a égide do “jeitinho” brasileiro.8 Uma vez que a
culpa foi eliminada. neutralizada, a troca passou a se desenvolver
abertamente em diferentes contextos, sempre com a mesma justificativa
que levava empresários e profissionais liberais a sonegar impostos:
“não dar dinheiro a políticos e governos corruptos”. A multa não foi
paga, preferindo pagar propina (propina) em casos relacionados a
infração de trânsito, infração administrativa ou infração penal. Essas
trocas se expandiram de tal forma que, nos mercados ilegais, passaram
a ser impostas por agentes do Estado, como promotores e policiais,
aos infratores, como extorsão, mas com certo grau de adesão ao
“sentido positivo” desse tipo de troca pelos infratores. Formou-se assim
um segundo mercado ilegal, parasita do primeiro, e que passou a
oferecer “mercadorias políticas” aos traficantes de drogas, armas e
outras mercadorias ilegais. Assim, nos mercados ilegais onde ocorrem
as transações de drogas no varejo nas “favelas”, essa prática,
conhecida como “arrego”, é a garantia de que não haverá invasão ou
violência policial na área.
A abrangência dessas práticas no Brasil, em vários níveis
institucionais, me levou a desenvolver o conceito de “mercadoria
política”, que propõe dar conta de uma forma de troca que envolve
custos e negociação estratégica (política, mas não necessariamente
estatal). não apenas a dimensão econômica strictu sensu na formação
do valor de troca desse tipo de mercadoria. É uma modalidade de
troca que, no caso do limite inferior, se confunde
8 O termo “jeitinho” agrupa diferentes formas de atingir objetivos. É uma forma de resolver, consertar,
conseguir algo. Pode envolver caminhos que nem sempre são legais, baseados em estratégias para ativar
pessoas-chave e influentes em ambientes institucionais.
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com o clientelismo, em casos intermediários correspondem à oferta de
proteção em mercados ilegais e que, no limite superior, se confunde com
extorsão.
Conclusão
No final deste ensaio gostaria de acrescentar que não me referia ao
crime em geral, mas sim aos crimes violentos. Embora o acúmulo social
da violência no Rio de Janeiro tenha ganhado tal amplitude que roubos,
tráfico e crimes involuntários (como acidentes de trânsito), e até suicídios,
foram incorporados à representação da “violência urbana”. O caso do
tráfico de drogas é especialmente relevante, porque lhe é atribuída a
principal responsabilidade pelo aumento da violência, seja pelo suposto
efeito das drogas sobre os seus consumidores, seja pelos crimes que os
jovens pobres cometem para comprar essas drogas, seja, finalmente,
pelos conflitos internos desse mercado. Nesse caso, sempre pareceu
estranho que o mercado varejista de drogas, que no Rio se desenvolveu
nas favelas e outras aglomerações urbanas de baixa renda, incorporasse
um recurso tão constante à violência, sem comparação com outras
cidades de outros países. Somente no Brasil, especialmente no Rio de
Janeiro, a extensa territorialização do comércio de drogas se tornou
comum. Esses territórios, administrados por traficantes varejistas, são
constituídos por pontos de venda nos morros (chamados de “bocas de
fumo”), defendidos por “soldados” armados com fuzis, metralhadoras,
granadas e, em alguns casos, armas antiaéreas. , tudo isso num contexto
urbano, com alta densidade demográfica e constantes batidas policiais.
Os conflitos armados com a polícia são seguidos de conflitos armados
com outros grupos, que tentam invadir e tomar o território uns dos outros.
Nos últimos trinta anos, uma verdadeira corrida armamentista levou
a uma concentração de armas de guerra nesses morros e favelas que
ainda hoje desafia a polícia e as forças armadas. Mas não há nenhum
objectivo político ou colectivo a defender nestes territórios, o interesse
é apenas económico e militar. Um bom “guerreiro” juntou-se a estas
redes de pequenos traficantes,
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que se confrontam entre si e com a polícia, definidos por facções apoiadas
pela sua função de órgãos de proteção no sistema prisional. Em geral, são
jovens com idade média entre 15 e 19 anos e raramente se entregam à
polícia: preferem arriscar a morte num confronto armado a render-se e ir
para a cadeia. Não encontro melhor explicação para isso senão o efeito
perverso da contenção criminal, que criou uma desconfiança generalizada
entre traficantes e ladrões – principal clientela das prisões brasileiras – de
que “o bandido bom é o bandido morto”.
O acúmulo social de violência continua no Rio de Janeiro, com a
migração de alguns jovens traficantes para agredir pedestres, ônibus e
automóveis, e com o surgimento de um novo tipo de “esquadrões da morte,
grupos de policiais militares que impõem abastecimento e proteção”. em
favelas e conjuntos habitacionais pobres, com a promessa de matar
criminosos locais, em troca do pagamento regular de uma mensalidade. Os
moradores que recusam a extorsão são vítimas de invasão e depredação
de suas casas, quando não são ameaçados de vingança.
E estes grupos, conhecidos pela imprensa como “milícias”, pretendem
substituir os traficantes, assumindo mesmo parte do comércio ilegal que
praticavam.
Somente nos últimos cinco anos, a polícia do Rio de Janeiro reconheceu
oficialmente que matou 4 mil civis em conflitos armados em morros e
“favelas”, embora tenha contribuído para essas fatalidades – como
justificativa – a categoria de “bandidos e “traficantes”. ”
Por serem traficantes e reagirem aos tiros da polícia, podem ser mortos
legalmente, embora alguns apresentem sinais de execução queimando
roupas.
Articular a sujeição criminal aos mercados ilegais em áreas de pobreza
urbana, às comodidades políticas e à repressão policial violenta, para
compreender o acúmulo social da violência no Rio de Janeiro, tem sido o
sentido da minha pesquisa ao longo desses anos. Entender por que a justiça
do Rio de Janeiro não consegue elucidar 90% dos homicídios perpetrados na
cidade e no Estado a cada ano é o que vamos investigar agora. Suspeito
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que isso também está ligado à sujeição penal, na medida em que grande
parte das vítimas desses homicídios têm o mesmo perfil dos potenciais
criminosos e elucidar a sua morte, quando a sua vida já era indiferente a
todos, nem lhes importa. a polícia ou a sociedade como um todo. “Um a
menos”, como dizem muitos no Brasil, com frieza e satisfação, quando
matam um ladrão. Muitos não avaliam que ao fazê-lo participam
ativamente de seu assassinato e da indiferença em elucidá-lo, como em
Homo Sacer
O que Agamben nos conta. Também participam ativamente da
possibilidade de que, num assalto, o agressor não só queira suas joias e
dinheiro, mas também queira, por vingança ou indiferença, levar a vida. É
o bastante
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