Ética e Modernidade: Avanços e Contradições
Ética e Modernidade: Avanços e Contradições
Objetivo da Unidade:
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📄 Material Teórico
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Renascimento e Modernidade
Do ponto de vista econômico, o longo processo de transição do Feudalismo para o Capitalismo
foi deflagrado no Século XI, quando uma classe intermediária entre aristocracia feudal e servos
começou a se desenvolver a partir da intensificação do comércio e do aprimoramento da
manufatura. Essa classe social intermediária organizava-se em cidades, chamadas de burgos e
era, portanto, o embrião do que conhecemos hoje como Burguesia. Nesse momento, iniciou-se
um processo de expansão da troca, de dinamização das relações comerciais e sociais, que se
constitui base para a entrada na Modernidade.
Na linha do tempo oficial, a Modernidade se inicia no Século XV, mas sabemos que, no período
compreendido entre os séculos XIV e XVII, o mundo ocidental vivenciou um período de intensas
transformações econômicas, políticas e culturais, que darão o tom daquilo que reconhecemos
como Modernidade.
teólogos houvessem adquirido autoridade para decidir o que poderia e o que não
poderia ser pensado, dito e feito. Filósofos, historiadores, dramaturgos, retóricos,
Veja que interessante: a riqueza cultural vai sendo retomada no tempo com novos objetivos e
perspectivas. O que estava no centro do pensamento desse homem moderno que vai nascendo
com o esvair da ordem medieval? O Homem.
Renascimento.”
- LE GOFF, 2008, p. 87
Figura 1 – Estátua de Davi
Fonte: Reprodução
#ParaTodosVerem: fotografia da famosa estátua de Davi, que fica no Museu de
Florença. É uma foto atual, colhida no site do museu, portanto há, em torno da
escultura que remonta a arte clássica, visitantes do Museu, fotografando. Fim da
descrição.
Saiba Mais
Leonardo da Vinci (1452/1519), nascido na Itália e mundialmente
reconhecido como gênio e como o pintor do quadro mais conhecido do
Se é certo que a Modernidade abriu horizontes para o desenvolvimento científico, para a noção
de individualidade (inexistente na Antiguidade e na Idade Média) é, necessário lembrar-se,
também, do que deu origem a novas formas de exploração entre os homens reeditando,
inclusive, a escravidão, que não fez parte do mundo Medieval. Com Sócrates, aprendemos a
Leitura
Columbus Day or Indigenous Peoples’ Day? How the Holiday Has Been
Shaped by Oppression
Há um Artigo muito interessante no site da Revista National Geografic,
que fala das contradições do Renascimento, chamando atenção para as
ACESSE
Um importante evento do Renascimento, que não podemos deixar de fora aqui, foi a descoberta
da máquina de impressão tipográfica na Alemanha do Século XV, por Johann Gutemberg.
Lembram-se do papiro da Antiguidade? Seu processo de elaboração, de conservação e de
socialização das informações ali contidas era bastante penoso e limitado. Com a invenção da
impressão tipográfica, a difusão do conhecimento se torna muito mais dinâmica. Assim, não
apenas as descobertas e as experiências científicas do Ocidente, mas também aquelas
encontradas pelas navegações no Oriente e traduzidas, serão difundidas com muito mais
rapidez, incrementando de maneira inédita o intercâmbio e a produção do conhecimento
científico em todos os campos.
Vamos adiante, ao encontro do mundo contemporâneo, que é aquele no qual nos movemos e no
qual se estabelecem os desafios da nossa ética profissional, objeto central desta Disciplina.
A Contemporaneidade e as Contradições da Ética Burguesa
Pelo que vimos anteriormente, a modernidade é o chão sobre o qual pisamos: um mundo
movido pela expansão do comércio, pelo aprimoramento tecnológico, pela busca de
autoconhecimento, pela relação indivíduo x Sociedade. A dinamização dessa nova forma de
organização econômica, política e social, garantirá, de maneira contraditória, a produção de uma
riqueza jamais vista e de uma violência muito grande também. Os processos de comercialização
Como já tratamos aqui, a trajetória humana é marcada por contradições e o mesmo modo de ser
que pressupõe muitas violências e injustiças nos permite também refletir e problematizar sobre
nossas finalidades e valores, os sentidos e as direções de nossas ações. Tanto é verdade que o
Iluminismo, ou o Século das Luzes, ou a Ilustração (Século XVIII) foi um movimento crítico para
Novamente, como você pode verificar, estamos relacionando os desafios existentes entre
indivíduo e Sociedade, virtudes individuais e bem comum. Os Iluministas estavam preocupados,
ainda, em reforçar a perspectiva da autodeterminação dos homens, obscurecida pelo
Teocentrismo Medieval e, naquele momento, demandada para o erguimento da Sociedade
contemporânea.
uma tutelagem que estes mesmos se impuseram a si. Tutelados são aqueles que se
de outrem. É-se culpado da própria tutelagem quando esta resulta não de uma
- KANT, 2008: 35
Veja, a partir dessa síntese de Kant, que o pensamento Iluminista tem como preocupação central
a liberdade e a autonomia do pensamento, rechaçando dogmas e preconceitos. Note que
pensamento e ação se autorreproduzem, pois assim é a práxis humana: só no Capitalismo, com
todas as suas violências, é que pudemos, de certa maneira, nos ver “diante de nós mesmos”. A
autonomia e a tolerância, para os Iluministas, eram vistas como essenciais, para que a
curiosidade científica pudesse se expandir atendendo às demandas da modernidade.
Sem sombra de dúvida, as principais correntes do pensamento dos dois últimos séculos,
Liberalismo, Socialismo e Social-Democracia, devem aos Iluministas um trabalho importante
de fundamentação.
Leitura
Dicionário de Cultura Básica/Iluminismo
Para uma visão geral dos principais iluministas e sua contribuição à
ACESSE
Livro
A Era das Revoluções: 1789-1848
Para compreender melhor a realidade histórica desse período que
funda a Modernidade, sugerimos a leitura do grande historiador Eric
Hobsbawm que, em seu A Era das Revoluções, explica
como oponente da violência de nosso tempo. De diferentes formas, Rousseau, século XVIII,
Nietzsche, século XIX e Foucault, século XX, apontaram para os desafios da razão e da Ética em
nossa Sociedade.
É importante deixar registrado aqui que os desafios do desenvolvimento histórico das relações
capitalistas desafiaram e continuam desafiando a Ciência na sua totalidade e que, portanto, além
desses três representantes da Filosofia moderna/contemporânea, muitas contribuições se
somaram nessa verdadeira empreitada, que é a do autoconhecimento humano.
“Tudo está bem quando sai das mãos do autor das coisas, tudo degenera entre as
mãos do homem. Ele força uma terra a alimentar as produções de outra, uma
as estações. Mutila seu cão, seu cavalo, seu escravo. Perturba tudo, desfigura tudo,
adestrado; é preciso apará-lo à sua maneira, como uma árvore de seu jardim.”
- ROUSSEAU, 1999:07
Com a afirmação anterior, contida em sua obra Emílio ou, Da Educação (1762), o filósofo
Rousseau (Genebra, Suíça 1712-1778) demonstra que era um Iluminista um pouco diferente dos
demais pois, ainda que suas indagações sobre a natureza humana e o Estado e sua preocupação
com a liberdade demonstrem que ele era um grande pensador de seu tempo, sua obra é marcada
por uma permanente crítica ao que considerava um mau uso da razão ou, ainda, uma moralidade
Assim, Rousseau não era um crítico da razão, propriamente, mas entendia que, em sua trajetória
de libertação dos desígnios da Natureza, os homens construíram também uma “arapuca” para si
mesmos, na medida em que se tornaram reféns de própria vaidade, que começou a dirigir suas
ações. Dessa forma, a Educação e a Política ganharão destaque em sua obra, como via de
correção desses desvios morais dos homens.
Em seu Discurso Sobre a Origem e os Fundamentos das Desigualdades (1999), Rousseau
desenvolveu sua compreensão de que os homens, para sua autopreservação, vão se tornando
gregários e se agrupando e é nesse processo que se institui a “propriedade ilegítima”, em
contraposição à “justa propriedade”, sendo esse o fundamento de todas as violências na sua
relação com a Natureza e na sua organização social. A “propriedade ilegítima” era o fruto de toda
a desigualdade e, ao mesmo tempo, produto da ganância de alguns homens que da terra se
apossaram com vistas ao acúmulo da riqueza e, ainda, utilizando o trabalho de outros homens
que a ela não tinham acesso. Rousseau observava, assim, que esse poder econômico se originava
muito mais da usurpação do que da capacidade do manejo da Agricultura e da Metalurgia (que
são as duas tecnologias que foram capazes de gerar o excedente econômico). Para tratar a
Política e a Ética, Rousseau tem como ponto de partida essa passagem de um estado de natureza
ao qual se referia como uma hipótese acerca do homem primitivo, e um estado civil, que se
estabelece a partir da necessidade da defesa da propriedade: “ O verdadeiro fundador da
sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer, isto é, meu, e
encontrou pessoas suficientemente simples para acreditar” (ROUSSEAU, 1999:87).
Reflita
Dois aspectos importantes para pensarmos sobre a contribuição de
Rousseau:
Ele revela algo que já tratamos anteriormente: a existência da práxis não alienada e
da práxis alienada. De fato, Rousseau contribuiu para que os pensadores dos séculos
XIX e XX pudessem aprimorar a compreensão da contradição que permeia a
realidade nas Sociedades de classe: de um lado, o progresso, a expansão do
conhecimento, dos meios de apropriação da Natureza e, de outro, a reprodução das
desigualdades e, ainda, a potencialidade de destruição da natureza;
Ao fazer essa distinção entre práxis alienada e não alienada, Rousseau nos ajuda a
compreender que os desafios morais e éticos que se colocam no nosso cotidiano
têm relação com essa vinculação entre exclusão e inclusão que nos faz, muitas
vezes, desacreditarmos da conciliação de interesses e do desenvolvimento sem
competição, sem ganhadores e perdedores. Assim, confundimos diferenças com
desigualdades e naturalizamos um processo historicamente verificável, que é a
inexistência de igualdade de oportunidades nas Sociedades de classes.
Voltando ao problema levantado por Rousseau acerca da riqueza e de sua relação indissociável
com a propriedade privada, o pensador tratou dele, de maneira especial, em duas obras de 1762:
O Emílio e o Contrato Social. Quem faria a defesa da propriedade? O Estado, o poder político,
advindo de um Contrato Social. Qual era o problema que gerava a instabilidade do Contrato Social
e, portanto, justificaria as pilhagens, as guerras e o ódio (as violências que, como já vimos, se
opõe à Ética)? Rousseau dizia que esse contrato era de fato um pacto “dos ricos”. Vejamos como
Rousseau tentou resolver essa questão defendendo o erguimento de um Estado capaz de atender
a uma vontade geral.
Importante!
No senso comum, costumamos confundir o conceito de controle social
com a prática do controlismo, ou seja, como necessariamente uma
imposição de cima para baixo, tutelar, autoritária. Na verdade, a
necessidade de controle social é parte da vida em Sociedade e está
Dessa maneira, podemos verificar, em Rousseau, a proximidade entre ética e política para a
garantia de um pacto social capaz de evitar, tanto quanto possível, a violência. Podemos dizer
que esse é um desafio com o qual convivemos até hoje: a democracia e a cidadania em seu
sentido pleno são obras inacabadas!
Nietzsche: a Vontade e Poder Como Caminho para a
Autotransformação
- Nietzsche
Figura 4 – Retrato de Nietzsche
Fonte: Wikimedia Commons
#ParaTodosVerem: o retrato de Nietzsche, de perfil, mostra o pensador em
posição de reflexão, com uma das mãos segurando o rosto e outra pousada
sobre um móvel. Fim da descrição.
A consolidação do modo de produção capitalista se deu sob duas bases essenciais: a propriedade
privada individual e o trabalho assalariado, o chamado trabalho livre. Ainda que, como já vimos,
a Modernidade tenha se erguido também às custas do trabalho escravo, o Capitalismo Industrial
terá como condição essencial a predominância do trabalho livre, assalariado. Esse processo vai
significar uma mudança política muito importante e, a partir da segunda metade do século XIX, a
percepção da íntima relação entre lucro capitalista e exploração do trabalho e, ainda, de que a
Revolução Burguesa não incorporou a possibilidade de emancipação da grande maioria das
pessoas, vai constituir o que conhecemos como consciência de classe, colocando o operariado
como sujeito político e coletivo.
Recorrendo à Arte, podemos encontrar várias expressões do contexto dramático que marca o
início do processo de produção industrial: o trabalho árduo nas minas de carvão, o trabalho
infantil e a total impossibilidade que aqueles que eram os produtores diretos da riqueza
encontravam em garantir suas condições básicas de sobrevivência.
Saiba Mais
Deixamos aqui a sugestão de alguns filmes. Alguns deles são baseados
Leandro Konder, em seu livro: Os sofrimentos do “Homem Burguês”, faz uma reflexão muito
interessante sobre a realidade que nos envolve nas Sociedades contemporâneas. Em primeiro
lugar, ele utiliza a expressão “homem burguês” para demonstrar que, independentemente da
nossa localização de classe social, somos todos indivíduos que nos movemos cotidianamente a
partir de um modo de ser que é estabelecido pela Sociedade burguesa. No capítulo em que Konder
se propõe a discutir o homem burguês e a Ética, ele diz que somos eticamente irresolvidos, pois
há uma contradição enorme numa Sociedade que se ergue, de um lado, pela aspiração da
liberdade, da igualdade e da fraternidade e, de outro, que exige que levemos vantagem em tudo,
ou seja, que sejamos implacavelmente competitivos.
indivíduos. Importante notar, portanto, que o pensamento de Nietzsche tinha uma marca, que
era a sua preocupação em relação ao que via como desprezo relativamente ao mundo sensível
por parte dos pensadores de seu tempo e, ainda, a opressão sentida pelos indivíduos da
passagem do Século XIX para o Século XX, que foram se tornando números em uma multidão.
mentiroso" (NIETZSCHE, 2017: 18). Nietzsche entendia que todo o problema dessa razão que
partia de uma separação que ele considerava problemática, em relação ao sensível, às sensações,
tinha começado com Sócrates. Assim, para o pensador, todo o pensamento ocidental era
marcado por essa razão que, para ele, tinha um componente de negação do pulsar da vida, da
paixão, das sensações.
Nietzsche tomou como ponto de partida para a realização da vontade de poder ser capaz de
promover uma autotransformação dos indivíduos e que iria se basear na consideração da
ausência de sentido (em contraposição ao racionalismo) e na admissão da “Morte de Deus”,
cujo significado era a libertação do sujeito da moral judaico-cristã, ou religiosa. Nietzsche dizia
“Deus está morto e nós os matamos”, o que indica que ele fazia não necessariamente uma
crítica à existência de Deus, mas, de fato, uma crítica à forma como nossas crenças podem
reprimir nossa expansão: o quanto a vida pode perder sentido, parecendo ter muito sentido
(niilismo).
Dentro desse esforço teórico em apontar uma alternativa não apenas para a análise da realidade,
mas, também, para a liberdade dos indivíduos, Nietzsche foi criando alguns conceitos, como:
Perspectivismo: como reação aos métodos formais de análise da realidade,
Nietzsche partia do entendimento de que existia uma diversidade de caminhos
interpretativos e que isso precisava ser considerado para uma compreensão melhor
dos fenômenos e, portanto, para seu tratamento objetivo;
Vontade de poder (ou vontade de potência): força vital e criativa da Natureza e, por
consequência dos homens, que tende para a expansão;
questão que Nietzsche aborda muito bem, que é a do indivíduo que nasce com a Modernidade e
que, ao mesmo tempo, está preso às suas adversidades.
Vídeo
O Eterno Retorno e o Além-do-Homem | Oswaldo Giacoia Junior
Para melhor conhecer o pensamento de Nietzsche, sugerimos o vídeo
com uma breve explicação sobre os conceitos de Além do Homem e de
Eterno Retorno, do Filósofo Oswaldo Giacoia Junior para a Casa do
Saber. Nessa pequena aula de 8 minutos, o filósofo mostra a
preocupação de Nietzsche com a impotência dos indivíduos em lidar
com o tempo e acaba construindo a ideia do além homem e do eterno
retorno, valorizando a permanência desse estado de vontade de poder,
em oposição à ideia de mudança própria da modernidade, cujos
fundamentos objetivos Nietzsche via com desconfiança.
Veremos, a seguir, como Foucault, já no Século XX, vai tratar os dilemas morais e éticos do
homem burguês contemporâneo, contribuindo para nossos desafios presentes.
Foucault: o Poder no Cotidiano da Vida Social
ramificações (…) captar o poder nas suas formas e instituições mais regionais e
Foucault (1926-1984), nascido em Potiers, na França, foi um dos mais importantes filósofos do
Século XX, pois desenvolveu uma vasta obra, cujo eixo é a problematização das relações de poder
não apenas na relação Estado/Sociedade Civil, mas permeando todas as relações sociais e,
Glossário
Representação Social: esse conceito aparece no pensamento de Èmile
Durkheim (1858-1917), o intelectual que fundou a Sociologia como
Antes de nos aprofundarmos para melhor compreender as ideias de Foucault, é importante que,
preliminarmente, abordemos o contexto em que se desenvolve seu pensamento. O século XX foi
sabiamente denominado pelo grande historiador Eric Hobsbawm como “o século dos ricos”:
um século que se inicia com duas Guerras Mundiais (1914-1918 e 1937-1945) e, entre elas, uma
grande depressão (Quebra da Bolsa de Nova Iorque – 1929), demonstrando que o Mercado
capitalista deixado ao seu próprio movimento poderia produzir a sua própria autodestruição. A
concentração da riqueza, a competição entre os agentes econômicos, a superexploração do
trabalho e, o mais importante, a lei implacável do desenvolvimento desigual começam a exigir
das Sociedades capitalistas o erguimento de Instituições que garantissem alguma coesão e
que começam com uma vantagem sobre os outros podem aumentar essa
vantagem, ao passo que, em outros casos, por força dessas mesmas diferenças de
ritmo de desenvolvimento, os que haviam ficado para trás podem alcançar e
principal força propulsora (ou forças propulsoras) que determina essas diferenças
de ritmo de desenvolvimento.”
Assim é que, na Era dos Extremos: o Breve Século XX (como conceituou e denominou
Hobsbawm, em seu livro sobre o Século XX, soluções democráticas e autoritárias, progressistas
e regressivas vão se alternando numa Sociedade que se vê limitada em seus recursos para lidar
com as múltiplas expressões da questão social e como nós estamos tratando, aqui, desde o
início: com as suas violências. Hobsbawm mostra, também, que a guerra, em todos os seus
níveis, passa a ser democratizada no mundo contemporâneo como solução para as suas
profundas contradições, alertando, assim, para o legado regressivo do ponto de vista cultural,
humano, que as duas grandes guerras deixaram.
Foi isso que notou Albert Einstein (1879/1955), o físico teórico que desenvolveu a Teoria da
Como um grande cientista, Albert Einstein não estava preocupado com a tecnologia “em si”,
mas sim, com os propósitos que norteiam a tecnologia, ao dizer que teme “o dia em que a
tecnologia ultrapasse nossa interação humana”. Como cidadão e pacifista declarado, Einstein,
reiteradamente, manifestou-se sobre o problema da direção social da tecnologia e, tendo vivido
e visto duas guerras cujos efeitos, principalmente, na Europa, foram devastadores, muito se
preocupava com a aplicação dos conhecimentos científicos para a destruição.
Ainda sobre Foucault em seu tempo, esse pensador pôde presenciar a ascensão do fascismo a
partir do entre Guerras e, inclusive, foi um ativista antifascista, tendo em sua obra a marca desse
questionamento acerca dos por quês das violências de seu século.
Agora, vamos abordar o pensamento de Michel Foucault e a importância de suas reflexões para a
Ética Profissional?
Voltando à frase de Foucault, apresentada no início desta Unidade, vejamos o que ele queria dizer
quando afirmava que era necessário “captar o poder na extremidade cada vez menos jurídica de
seu exercício”. Foucault queria demonstrar que o poder não é forjado apenas pelas normas
gerais, pelo Estado, pelas classes dominantes, mas que ele se ergue pela reprodução da vida
social em seu cotidiano, na nossa moralidade, na cultura, nas nossas representações e
subjetividade. Com base nessa compreensão de que o poder se estabelece a partir da manutenção
de uma complexa rede de relações sociais, Foucault desenvolve um trabalho no qual a
preocupação central era desmistificar esse cotidiano, mostrando que ele está carregado de
Os estudiosos do pensamento de Foucault consumam tratar sua obra como constituídas de três
fases:
Reflita
A relação entre saber e poder que Foucault levantou é essencial para
compreendermos questões do cotidiano que envolvem, inclusive, a
nossa práxis profissional. Quantas vezes nos sentimos constrangidos
diante do saber de um médico, de um advogado, de um juiz, de um
professor, e acabamos por aceitar o que todos eles dizem como
verdades absolutas? Quantas vezes, uma pessoa com menos instrução,
o que não significa, em absoluto, falta de inteligência, sente-se
impotente para conhecer seus direitos por não conhecer as leis? Vejam:
saber é apropriação de conhecimentos, é, portanto, um caminho para
poder. De outro lado, o poder de decidir, de escolher e de ser livre
implica a forma como o saber é utilizado. Assim, sempre que
Foucault estava certo nesse ponto pois, entre as fobias e os preconceitos que se diversificam e se
manifestam cotidianamente no nosso tempo, o corpo está sempre presente. Veja as questões
como violência obstétrica, gordofobia, psicofobia (preconceito com pessoas com problemas de
saúde mental), com pessoas idosas... infelizmente os preconceitos são inúmeros e, certamente,
vamos encontrá-los – dentro ou fora de nós mesmos) no cotidiano de nossa prática.
Considerando que nesta Disciplina estamos tratando da Ética no campo da Saúde, podemos
fazer uma relação direta com aquele que, na nossa intervenção, chamamos de paciente.
Será que nos lembramos sempre de que esse paciente é um cidadão? Que ele é sujeito e não
objeto de nossa prática profissional?
Vamos para a próxima Unidade de Aprendizagem, para descobrirmos juntos o que a Saúde e a
Fonoaudiologia têm a nos dizer sobre a nossa Ética Profissional!
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📄 Referências
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HOBSBAWM, E. Era dos extremos: o breve século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
KANT, I.A. Resposta a pergunta: o que é Iluminismo?. Coleção Textos Filosóficos. Editora 70,
2008.
ROUSSEAU, J. J. Emílio ou, da educação. Trad. Roberto Leal Ferreira. 2. ed. São Paulo: Martins
Fontes, 1999.