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Ética e Modernidade: Avanços e Contradições

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Ética como Desafio para o Pensamento

Contemporâneo: Rousseau, Nietzsche e


Foucault

Conteudista: Prof.ª M.ª Sônia Maria Menezes Martinho


Revisão Textual: Prof.ª Dra. Selma Aparecida Cesarin

Objetivo da Unidade:

Apresentar, em linhas gerais, os avanços e as contradições da Ética na


Modernidade, enfatizando sua influência no cotidiano da vida social na
contemporaneidade.

📄 Material Teórico
📄 Material Complementar
📄 Referências
📄 Material Teórico
1 /3

A Modernidade e a Contemporaneidade: Contextos do


Desenvolvimento das Várias Expressões do Pensamento
Social Contemporâneo

Renascimento e Modernidade
Do ponto de vista econômico, o longo processo de transição do Feudalismo para o Capitalismo
foi deflagrado no Século XI, quando uma classe intermediária entre aristocracia feudal e servos
começou a se desenvolver a partir da intensificação do comércio e do aprimoramento da
manufatura. Essa classe social intermediária organizava-se em cidades, chamadas de burgos e
era, portanto, o embrião do que conhecemos hoje como Burguesia. Nesse momento, iniciou-se
um processo de expansão da troca, de dinamização das relações comerciais e sociais, que se
constitui base para a entrada na Modernidade.

Na linha do tempo oficial, a Modernidade se inicia no Século XV, mas sabemos que, no período
compreendido entre os séculos XIV e XVII, o mundo ocidental vivenciou um período de intensas

transformações econômicas, políticas e culturais, que darão o tom daquilo que reconhecemos
como Modernidade.

A expansão marítima europeia, a formação dos estados modernos europeus, o mercantilismo, o


sistema colonial (a descoberta do “novo mundo”), a reforma protestante, o humanismo
renascentista e o renascimento científico são processos que participaram de uma mudança na
organização econômica, política e cultural que fundaram as bases para as Revoluções Burguesas
do Século XVIII, reconhecidas como eventos que dão origem à Idade Contemporânea ou
Contemporaneidade e a todas as suas contradições. Mas por que identificamos esse movimento,
todas essas mudanças, como Renascimento, ou seja, um resgate (como sempre indica o prefixo
“re”) de algo?

Conforme Chauí, sobre o Renascimento:

“Na Itália, a redescoberta das obras de pensadores, artistas e técnicos da cultura

greco-romana, particularmente das antigas teorias políticas, suscitam um ideal


político novo: o da liberdade republicana contra o poder teológico-político de
papas e imperadores. Estamos no período conhecido como Renascimento, no qual

se espera reencontrar o pensamento, as artes, a ética, as técnicas e a política


existentes antes que o saber tivesse sido considerado privilégio da Igreja e os

teólogos houvessem adquirido autoridade para decidir o que poderia e o que não
poderia ser pensado, dito e feito. Filósofos, historiadores, dramaturgos, retóricos,

tratados de medicina, a biologia, arquitetura, matemática, enfim, tudo o que fora


criado pela cultura antiga é lido, traduzido, comentado e aplicado.”

- CHAUÍ, 2000, p. 509

Veja que interessante: a riqueza cultural vai sendo retomada no tempo com novos objetivos e
perspectivas. O que estava no centro do pensamento desse homem moderno que vai nascendo
com o esvair da ordem medieval? O Homem.

Como afirma o historiador Jacques Legoff, no Renascimento:


“Como na Grécia, antiga, o homem volta a ser o centro do conhecimento e da

cultura, também modelo de beleza. É o que expressa a importante estátua de Davi,

esculpida por Miquelângelo em Florença, o mais importante artista do

Renascimento.”

- LE GOFF, 2008, p. 87
Figura 1 – Estátua de Davi
Fonte: Reprodução
#ParaTodosVerem: fotografia da famosa estátua de Davi, que fica no Museu de
Florença. É uma foto atual, colhida no site do museu, portanto há, em torno da
escultura que remonta a arte clássica, visitantes do Museu, fotografando. Fim da
descrição.

Assim, há uma mudança de paradigma fundamental que marca a derrocada do mundo e do


pensamento medieval e o início de um novo modo de ser e de pensar, uma passagem da
hegemonia do pensamento teocêntrico, sobre o qual já falamos anteriormente, para um
pensamento antropocêntrico: o homem, suas descobertas, potencialidades e fragilidades
passam a estar no centro de suas próprias preocupações. Imagine se Sócrates pudesse ter
conhecido esse momento, como seria?

Saiba Mais
Leonardo da Vinci (1452/1519), nascido na Itália e mundialmente
reconhecido como gênio e como o pintor do quadro mais conhecido do

mundo, o “Retrato de Lisa del Giocondo”, a Monalisa, por seus


desenhos precisos das proporções da anatomia humana, foi também
um engenheiro muito além de seu tempo. A seguir, um projeto de
“máquina de voar” que foi tomado como base para a invenção do

helicóptero, que só foi realmente viabilizado em 1938, depois de muitas


contribuições entre o século XV e o Século XX. A imagem da invenção a
qual Leonardo deu o nome de Giroscópio está a seguir.
Figura 2 – Desenho do giroscópio de Leonardo da Vinci
Fonte: Rerodução

#ParaTodosVerem: a Figura é de um estudo de Leonardo da Vinci, portanto,


trata-se de um desenho com observações escritas que mostram o Giroscópio de
Davi Vinci. Fim da descrição.
Saiba Mais
Esse é um dos inúmeros exemplos de como se expandiu a capacidade

humana de projetar, ou seja, a capacidade teleológica na Modernidade,


de como o pensamento e a ação caminhavam juntos, tendo como eixo a
necessidade de expansão dos propósitos humanos.

Se é certo que a Modernidade abriu horizontes para o desenvolvimento científico, para a noção
de individualidade (inexistente na Antiguidade e na Idade Média) é, necessário lembrar-se,
também, do que deu origem a novas formas de exploração entre os homens reeditando,
inclusive, a escravidão, que não fez parte do mundo Medieval. Com Sócrates, aprendemos a

importância de enxergar além da imediaticidade na análise das relações sociais e, ao fazê-lo,


começamos a descobrir que a contradição precisa ser considerada como constituinte de nossa
trajetória. O saber, que até então era monopólio da Santa Igreja, passa a ser vivido e reconhecido
no cotidiano de uma vida social que se altera e que vai exigindo um novo patamar na relação
homem/Natureza, nas relações sociais. Isso não se dá, entretanto, sem o desenvolvimento de
novas formas de violência.

Leitura
Columbus Day or Indigenous Peoples’ Day? How the Holiday Has Been
Shaped by Oppression
Há um Artigo muito interessante no site da Revista National Geografic,
que fala das contradições do Renascimento, chamando atenção para as

consequências das conquistas advindas das grandes navegações, com


as quais lidamos até os dias de hoje. O dia 12 de outubro é feriado nos
Estados Unidos da América, porque foi o dia em que Colombo chegou

ao “novo mundo”, em 1492. O Artigo trata da discussão que hoje se faz


acerca do quanto essas grandes conquistas e descobertas se deram em
detrimento da cultura e dos valores dos que ali já estavam.

Clique no botão para conferir o conteúdo.

ACESSE

Um importante evento do Renascimento, que não podemos deixar de fora aqui, foi a descoberta
da máquina de impressão tipográfica na Alemanha do Século XV, por Johann Gutemberg.
Lembram-se do papiro da Antiguidade? Seu processo de elaboração, de conservação e de
socialização das informações ali contidas era bastante penoso e limitado. Com a invenção da
impressão tipográfica, a difusão do conhecimento se torna muito mais dinâmica. Assim, não
apenas as descobertas e as experiências científicas do Ocidente, mas também aquelas

encontradas pelas navegações no Oriente e traduzidas, serão difundidas com muito mais
rapidez, incrementando de maneira inédita o intercâmbio e a produção do conhecimento
científico em todos os campos.

Vamos adiante, ao encontro do mundo contemporâneo, que é aquele no qual nos movemos e no

qual se estabelecem os desafios da nossa ética profissional, objeto central desta Disciplina.
A Contemporaneidade e as Contradições da Ética Burguesa
Pelo que vimos anteriormente, a modernidade é o chão sobre o qual pisamos: um mundo
movido pela expansão do comércio, pelo aprimoramento tecnológico, pela busca de
autoconhecimento, pela relação indivíduo x Sociedade. A dinamização dessa nova forma de
organização econômica, política e social, garantirá, de maneira contraditória, a produção de uma
riqueza jamais vista e de uma violência muito grande também. Os processos de comercialização

de escravos, cercamento de terras de pequenos produtores para a constituição de latifúndios e a


apropriação indevida de riquezas de povos colonizados garantiram o acúmulo suficiente de
riqueza para a Revolução Industrial (final do Século XVIII e primeira metade do Século XIX). Uma
outra questão bastante complexa é nossa relação com a Natureza, posto que a necessidade de

produção para o lucro, desde o surgimento da máquina a vapor, vai obrigando ao


estabelecimento de um metabolismo com a Natureza muitas vezes nada saudável, sendo ela
finita. A terra precisa de tempo para se recuperar após a colheita, mas a necessidade de
comercialização em larga escala de produtos e de reinvestimento nesse plantio não consegue

respeitar esse tempo.

Como já tratamos aqui, a trajetória humana é marcada por contradições e o mesmo modo de ser
que pressupõe muitas violências e injustiças nos permite também refletir e problematizar sobre
nossas finalidades e valores, os sentidos e as direções de nossas ações. Tanto é verdade que o
Iluminismo, ou o Século das Luzes, ou a Ilustração (Século XVIII) foi um movimento crítico para

as amarras com as quais o poder da aristocracia e da Igreja mantinham subordinado o


pensamento e ação dos homens. Esse movimento de pensadores europeus trouxe luz a muitas
questões “mal resolvidas” da transição do pensamento medieval para o pensamento moderno,
inspirando a Revolução Francesa (1789), um marco fundamental para a constituição da ordem

republicana, bem como outros processos que constituíram as revoluções burguesas. Os


Iluministas retomam as problematizações já iniciadas no Renascimento, que chamavam
atenção para a distância entre as mudanças econômicas e as estruturas de poder até ali ainda
presentes: o Estado, a cultura, os valores.

Tratava-se, basicamente, de responder a duas perguntas:

O que qualifica a natureza humana?


Qual a razão de ser do Estado?

Novamente, como você pode verificar, estamos relacionando os desafios existentes entre
indivíduo e Sociedade, virtudes individuais e bem comum. Os Iluministas estavam preocupados,
ainda, em reforçar a perspectiva da autodeterminação dos homens, obscurecida pelo
Teocentrismo Medieval e, naquele momento, demandada para o erguimento da Sociedade

contemporânea.

Um dos Iluministas mais importantes para o pensamento contemporâneo, Immanuel Kant


(1724-1804), definiu esse movimento da seguinte forma:

“O que é o Iluminismo? O Iluminismo representa a saída dos seres humanos de

uma tutelagem que estes mesmos se impuseram a si. Tutelados são aqueles que se

encontram incapazes de fazer uso da própria razão independentemente da direção

de outrem. É-se culpado da própria tutelagem quando esta resulta não de uma

deficiência do entendimento, mas da falta de resolução e coragem para se fazer uso

do entendimento independentemente da direção de outrem. Sapere aude! Tem


coragem para fazer uso da tua própria razão! – esse é o lema do Iluminismo.”

- KANT, 2008: 35

Veja, a partir dessa síntese de Kant, que o pensamento Iluminista tem como preocupação central
a liberdade e a autonomia do pensamento, rechaçando dogmas e preconceitos. Note que
pensamento e ação se autorreproduzem, pois assim é a práxis humana: só no Capitalismo, com
todas as suas violências, é que pudemos, de certa maneira, nos ver “diante de nós mesmos”. A
autonomia e a tolerância, para os Iluministas, eram vistas como essenciais, para que a
curiosidade científica pudesse se expandir atendendo às demandas da modernidade.
Sem sombra de dúvida, as principais correntes do pensamento dos dois últimos séculos,
Liberalismo, Socialismo e Social-Democracia, devem aos Iluministas um trabalho importante
de fundamentação.

Leitura
Dicionário de Cultura Básica/Iluminismo
Para uma visão geral dos principais iluministas e sua contribuição à

Filosofia, à Política e à Cultura, sugerimos que acessem o Dicionário de


Cultura Básica.

Clique no botão para conferir o conteúdo.

ACESSE

Livro
A Era das Revoluções: 1789-1848
Para compreender melhor a realidade histórica desse período que
funda a Modernidade, sugerimos a leitura do grande historiador Eric
Hobsbawm que, em seu A Era das Revoluções, explica

pormenorizadamente as contradições desse período.


HOBSBAWN, E. A era das revoluções: 1789-1848. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 2012.

O Pensamento de Rousseau (1712-1778), Nietzsche


(1844-1900) e Foucault (1926-1984): Reflexões sobre a
Ética na Modernidade/Contemporaneidade
Para chegarmos ao nosso objetivo central, que é discutirmos a Ética Profissional em
Fonoaudiologia, vamos abordar três pensadores que nos auxiliam a entender o desafio da Ética

como oponente da violência de nosso tempo. De diferentes formas, Rousseau, século XVIII,
Nietzsche, século XIX e Foucault, século XX, apontaram para os desafios da razão e da Ética em
nossa Sociedade.

É importante deixar registrado aqui que os desafios do desenvolvimento histórico das relações
capitalistas desafiaram e continuam desafiando a Ciência na sua totalidade e que, portanto, além
desses três representantes da Filosofia moderna/contemporânea, muitas contribuições se
somaram nessa verdadeira empreitada, que é a do autoconhecimento humano.

Rousseau: uma Luz sobre a Perspectiva da Vontade Geral


Figura 3 – Retrato de Rousseau
Fonte: Reprodução

#ParaTodosVerem: desenho do busto e rosto de Rousseau, que olha


serenamente para frente e com meio sorriso no rosto. Fim da descrição.

“Tudo está bem quando sai das mãos do autor das coisas, tudo degenera entre as

mãos do homem. Ele força uma terra a alimentar as produções de outra, uma

árvore a carregar os frutos de outra. Mistura e confunde os climas, os elementos,

as estações. Mutila seu cão, seu cavalo, seu escravo. Perturba tudo, desfigura tudo,

ama a deformidade e os monstros. Não quer nada da maneira como a natureza o


fez, nem mesmo o homem; é preciso que seja domado por ele, como um cavalo

adestrado; é preciso apará-lo à sua maneira, como uma árvore de seu jardim.”

- ROUSSEAU, 1999:07

Com a afirmação anterior, contida em sua obra Emílio ou, Da Educação (1762), o filósofo
Rousseau (Genebra, Suíça 1712-1778) demonstra que era um Iluminista um pouco diferente dos
demais pois, ainda que suas indagações sobre a natureza humana e o Estado e sua preocupação
com a liberdade demonstrem que ele era um grande pensador de seu tempo, sua obra é marcada
por uma permanente crítica ao que considerava um mau uso da razão ou, ainda, uma moralidade

distorcida que marca a vida dos homens em Sociedade.

Assim, Rousseau não era um crítico da razão, propriamente, mas entendia que, em sua trajetória
de libertação dos desígnios da Natureza, os homens construíram também uma “arapuca” para si
mesmos, na medida em que se tornaram reféns de própria vaidade, que começou a dirigir suas
ações. Dessa forma, a Educação e a Política ganharão destaque em sua obra, como via de
correção desses desvios morais dos homens.
Em seu Discurso Sobre a Origem e os Fundamentos das Desigualdades (1999), Rousseau
desenvolveu sua compreensão de que os homens, para sua autopreservação, vão se tornando
gregários e se agrupando e é nesse processo que se institui a “propriedade ilegítima”, em
contraposição à “justa propriedade”, sendo esse o fundamento de todas as violências na sua
relação com a Natureza e na sua organização social. A “propriedade ilegítima” era o fruto de toda
a desigualdade e, ao mesmo tempo, produto da ganância de alguns homens que da terra se
apossaram com vistas ao acúmulo da riqueza e, ainda, utilizando o trabalho de outros homens
que a ela não tinham acesso. Rousseau observava, assim, que esse poder econômico se originava
muito mais da usurpação do que da capacidade do manejo da Agricultura e da Metalurgia (que
são as duas tecnologias que foram capazes de gerar o excedente econômico). Para tratar a
Política e a Ética, Rousseau tem como ponto de partida essa passagem de um estado de natureza

ao qual se referia como uma hipótese acerca do homem primitivo, e um estado civil, que se
estabelece a partir da necessidade da defesa da propriedade: “ O verdadeiro fundador da
sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer, isto é, meu, e
encontrou pessoas suficientemente simples para acreditar” (ROUSSEAU, 1999:87).

Reflita
Dois aspectos importantes para pensarmos sobre a contribuição de
Rousseau:

Ele revela algo que já tratamos anteriormente: a existência da práxis não alienada e
da práxis alienada. De fato, Rousseau contribuiu para que os pensadores dos séculos
XIX e XX pudessem aprimorar a compreensão da contradição que permeia a
realidade nas Sociedades de classe: de um lado, o progresso, a expansão do
conhecimento, dos meios de apropriação da Natureza e, de outro, a reprodução das
desigualdades e, ainda, a potencialidade de destruição da natureza;

Ao fazer essa distinção entre práxis alienada e não alienada, Rousseau nos ajuda a
compreender que os desafios morais e éticos que se colocam no nosso cotidiano
têm relação com essa vinculação entre exclusão e inclusão que nos faz, muitas
vezes, desacreditarmos da conciliação de interesses e do desenvolvimento sem
competição, sem ganhadores e perdedores. Assim, confundimos diferenças com
desigualdades e naturalizamos um processo historicamente verificável, que é a
inexistência de igualdade de oportunidades nas Sociedades de classes.

Voltando ao problema levantado por Rousseau acerca da riqueza e de sua relação indissociável
com a propriedade privada, o pensador tratou dele, de maneira especial, em duas obras de 1762:
O Emílio e o Contrato Social. Quem faria a defesa da propriedade? O Estado, o poder político,
advindo de um Contrato Social. Qual era o problema que gerava a instabilidade do Contrato Social

e, portanto, justificaria as pilhagens, as guerras e o ódio (as violências que, como já vimos, se
opõe à Ética)? Rousseau dizia que esse contrato era de fato um pacto “dos ricos”. Vejamos como
Rousseau tentou resolver essa questão defendendo o erguimento de um Estado capaz de atender
a uma vontade geral.

Em seu Contrato Social, Rousseau defendia a constituição de um corpo político capaz de


representar o maior número possível de cidadãos e grupos, mas que, ao mesmo tempo,
conseguisse garantir que as vontades individuais não se sobrepusessem às decisões coletivas.
Assim, para que as decisões coletivas, que seriam a base da normatização e, portanto, da Ética

em Sociedade, fossem respeitadas, os Poderes Legislativo e Executivo deveriam ser fortes e


contar com importantes mecanismos de controle social.

Importante!
No senso comum, costumamos confundir o conceito de controle social
com a prática do controlismo, ou seja, como necessariamente uma
imposição de cima para baixo, tutelar, autoritária. Na verdade, a
necessidade de controle social é parte da vida em Sociedade e está

presente em todas as sociedades que se querem democráticas. A


questão é exatamente o que Rousseau nos apontou no Século XVIII:
quem e quantos participam das decisões normativas e de garantia

desse controle social? Por exemplo, as Conferências Municipais de


Saúde, em vigor desde o início da década de 1990, quando da aprovação
da Lei Orgânica de Saúde e do Sistema Único de Saúde, são instâncias

de controle social, nas quais devem estar representados usuários,


trabalhadores e secretarias de saúde pública. Aliás, a participação
popular no controle social, para todas as políticas sociais, é
preconizada em 1988 com a Constituição Federal que vigora até hoje no
país. O que deve acontecer nessas Conferências? Deliberações sobre a
política de saúde em todos os seus âmbitos. O funcionamento dessas
instâncias é algo simples? Sabemos que não, mas sua efetividade
depende de todos nós e, certamente, envolve o cumprimento de nossos
Códigos de Ética Profissional.

Dessa maneira, podemos verificar, em Rousseau, a proximidade entre ética e política para a
garantia de um pacto social capaz de evitar, tanto quanto possível, a violência. Podemos dizer
que esse é um desafio com o qual convivemos até hoje: a democracia e a cidadania em seu
sentido pleno são obras inacabadas!
Nietzsche: a Vontade e Poder Como Caminho para a
Autotransformação

“A moralidade é o instinto do rebanho no indivíduo.”

- Nietzsche
Figura 4 – Retrato de Nietzsche
Fonte: Wikimedia Commons
#ParaTodosVerem: o retrato de Nietzsche, de perfil, mostra o pensador em
posição de reflexão, com uma das mãos segurando o rosto e outra pousada
sobre um móvel. Fim da descrição.

Para nos aproximarmos do pensamento de Friedrich Nietzsche (1844-1900), nascido em


território Prussiano, onde se localiza a atual Alemanha, precisamos abordar a realidade
econômica, política e social em que se situa. Nietzsche nasceu e viveu em um tempo no qual se
consolida o Capitalismo Industrial, com tudo que isso significa de fascinante e, também, de
problemático. A classe revolucionária, responsável pelo rompimento com a aristocracia
medieval sob o lema “igualdade, fraternidade e liberdade”, diante das desigualdades, crises e
reações da classe operária ao seu projeto de Sociedade, tornou-se conservadora. Isso significava
que, para manter sua hegemonia, precisava de recursos ideológicos capazes de manter a coesão
social necessária à consecução de seus objetivos.

A consolidação do modo de produção capitalista se deu sob duas bases essenciais: a propriedade
privada individual e o trabalho assalariado, o chamado trabalho livre. Ainda que, como já vimos,
a Modernidade tenha se erguido também às custas do trabalho escravo, o Capitalismo Industrial
terá como condição essencial a predominância do trabalho livre, assalariado. Esse processo vai
significar uma mudança política muito importante e, a partir da segunda metade do século XIX, a
percepção da íntima relação entre lucro capitalista e exploração do trabalho e, ainda, de que a
Revolução Burguesa não incorporou a possibilidade de emancipação da grande maioria das
pessoas, vai constituir o que conhecemos como consciência de classe, colocando o operariado
como sujeito político e coletivo.

Recorrendo à Arte, podemos encontrar várias expressões do contexto dramático que marca o
início do processo de produção industrial: o trabalho árduo nas minas de carvão, o trabalho
infantil e a total impossibilidade que aqueles que eram os produtores diretos da riqueza
encontravam em garantir suas condições básicas de sobrevivência.
Saiba Mais
Deixamos aqui a sugestão de alguns filmes. Alguns deles são baseados

em obras escritas sobre a época, e mostram muito claramente essas


violências, que fazem parte do processo de consolidação do
Capitalismo Industrial e as reações que irão gerar.

Germinal, França, 1995. Direção Claude Berri. Duração 155 minutos;

Os companheiros, Itália/França/Iugoslávia, 1963. Direção Mario Monicelli;

Tempos Modernos, Estados Unidos, 1936. Direção: Charles Chaplin.

Com essa contextualização, podemos entender o pensamento de Nietzsche como um produto do


sofrimento do indivíduo burguês que, ao ultrapassar um modelo de Sociedade no qual sua vida
era completamente pré-definida por sua condição social, encontra a possibilidade de se
conhecer e de se autodeterminar, mas que não consegue, entretanto, expandir essa
individualidade devido às violências e aos impedimentos próprios desse novo mundo: a cidade, a
fábrica, o tempo do relógio, a riqueza e a pobreza muito mais próximas, atestavam o que o
Estado, a cultura, as leis, a Moral e o pensamento religioso dominantes procuravam esconder.

Leandro Konder, em seu livro: Os sofrimentos do “Homem Burguês”, faz uma reflexão muito
interessante sobre a realidade que nos envolve nas Sociedades contemporâneas. Em primeiro
lugar, ele utiliza a expressão “homem burguês” para demonstrar que, independentemente da
nossa localização de classe social, somos todos indivíduos que nos movemos cotidianamente a
partir de um modo de ser que é estabelecido pela Sociedade burguesa. No capítulo em que Konder
se propõe a discutir o homem burguês e a Ética, ele diz que somos eticamente irresolvidos, pois
há uma contradição enorme numa Sociedade que se ergue, de um lado, pela aspiração da
liberdade, da igualdade e da fraternidade e, de outro, que exige que levemos vantagem em tudo,
ou seja, que sejamos implacavelmente competitivos.

Nietzsche não estava preocupado diretamente em questionar o Capitalismo, a burguesia, a luta


de classes. Mas, à sua maneira, estabeleceu uma crítica às verdades que sustentavam o mundo e
o tempo em que vivia. O primeiro alvo dessa crítica era a cultura ocidental, as religiões e a moral
judaico cristã e, assim, o idealismo metafísico. Nietzsche entendia que todos esses elementos,
fortemente presentes na Sociedade, minavam o que ele definia como “vontade de poder” dos

indivíduos. Importante notar, portanto, que o pensamento de Nietzsche tinha uma marca, que
era a sua preocupação em relação ao que via como desprezo relativamente ao mundo sensível
por parte dos pensadores de seu tempo e, ainda, a opressão sentida pelos indivíduos da
passagem do Século XIX para o Século XX, que foram se tornando números em uma multidão.

Lembra-se do que vimos no pensamento de Platão, na Unidade 1? Ele considerava o mundo


sensível aparência e o mundo das ideias essência, ou seja, o único mundo com o qual valia a pena
se preocupar, o mundo que revelaria a verdade. Nietzsche irá discordar radicalmente do
idealismo e dirá: "O mundo ‘aparente’ é o único: o ‘mundo verdadeiro’ é apenas um acréscimo

mentiroso" (NIETZSCHE, 2017: 18). Nietzsche entendia que todo o problema dessa razão que
partia de uma separação que ele considerava problemática, em relação ao sensível, às sensações,
tinha começado com Sócrates. Assim, para o pensador, todo o pensamento ocidental era
marcado por essa razão que, para ele, tinha um componente de negação do pulsar da vida, da
paixão, das sensações.

Nietzsche tomou como ponto de partida para a realização da vontade de poder ser capaz de
promover uma autotransformação dos indivíduos e que iria se basear na consideração da
ausência de sentido (em contraposição ao racionalismo) e na admissão da “Morte de Deus”,
cujo significado era a libertação do sujeito da moral judaico-cristã, ou religiosa. Nietzsche dizia

“Deus está morto e nós os matamos”, o que indica que ele fazia não necessariamente uma
crítica à existência de Deus, mas, de fato, uma crítica à forma como nossas crenças podem
reprimir nossa expansão: o quanto a vida pode perder sentido, parecendo ter muito sentido
(niilismo).

Dentro desse esforço teórico em apontar uma alternativa não apenas para a análise da realidade,
mas, também, para a liberdade dos indivíduos, Nietzsche foi criando alguns conceitos, como:
Perspectivismo: como reação aos métodos formais de análise da realidade,
Nietzsche partia do entendimento de que existia uma diversidade de caminhos
interpretativos e que isso precisava ser considerado para uma compreensão melhor
dos fenômenos e, portanto, para seu tratamento objetivo;

Vontade de poder (ou vontade de potência): força vital e criativa da Natureza e, por
consequência dos homens, que tende para a expansão;

Além-homem, além-humano ou homem superior: o resultado da capacidade


humana de mobilizar sua vontade de poder, reavaliando seus valores e forjando
novos, em um movimento contínuo de busca de superação (eterno retorno).

A partir do desenvolvimento dos conceitos que tratamos resumidamente, Nietzsche construiu


um pensamento muito centrado na ideia de que os indivíduos deveriam soltar as amarras e
superar os limites do pensamento dominante, que determinava suas ações pela vontade de
poder, ou vontade de potência. Alguns estudiosos de Nietzsche consideram que o além-homem
seria, de fato, sobre-humano.

O pensamento de Nietzsche é tão complexo quanto nos tornamos na contemporaneidade e


influenciará, de várias formas, as reflexões contidas em várias construções teóricas do Século
XX como a Psicanálise e a Filosofia Existencialista. É importante que tenhamos em mente essa

questão que Nietzsche aborda muito bem, que é a do indivíduo que nasce com a Modernidade e
que, ao mesmo tempo, está preso às suas adversidades.

Vídeo
O Eterno Retorno e o Além-do-Homem | Oswaldo Giacoia Junior
Para melhor conhecer o pensamento de Nietzsche, sugerimos o vídeo
com uma breve explicação sobre os conceitos de Além do Homem e de
Eterno Retorno, do Filósofo Oswaldo Giacoia Junior para a Casa do
Saber. Nessa pequena aula de 8 minutos, o filósofo mostra a
preocupação de Nietzsche com a impotência dos indivíduos em lidar
com o tempo e acaba construindo a ideia do além homem e do eterno
retorno, valorizando a permanência desse estado de vontade de poder,
em oposição à ideia de mudança própria da modernidade, cujos
fundamentos objetivos Nietzsche via com desconfiança.

O ETERNO RETORNO E O ALÉM-DO-HOMEM | OSWALDO GIACOIA…


GIACOIA…

Veremos, a seguir, como Foucault, já no Século XX, vai tratar os dilemas morais e éticos do
homem burguês contemporâneo, contribuindo para nossos desafios presentes.
Foucault: o Poder no Cotidiano da Vida Social

“Trata-se (…) de captar o poder em suas extremidades, em suas últimas

ramificações (…) captar o poder nas suas formas e instituições mais regionais e

locais, principalmente no ponto em que ultrapassando as regras de direito que o

organizam e delimitam (…) Em outras palavras, captar o poder na extremidade

cada vez menos jurídica de seu exercício.”

- FOUCAULT, 1979, p. 182

Figura 5 – Retrato de Foucault


Fonte: Reprodução
#ParaTodosVerem: na fotografia, Foucault aparece gesticulando com as mãos e
na frente de uma estante repleta de livros. Fim da descrição.

Foucault (1926-1984), nascido em Potiers, na França, foi um dos mais importantes filósofos do
Século XX, pois desenvolveu uma vasta obra, cujo eixo é a problematização das relações de poder
não apenas na relação Estado/Sociedade Civil, mas permeando todas as relações sociais e,

assim, definindo representações e discursos que sustentam as Instituições sociais e a Moral de


nosso tempo. Para ele, o poder não está “no outro” apenas, está de fato, internalizado,
contribuindo com a definição da nossa subjetividade e, portanto, com a dinâmica das relações
sociais no cotidiano e na história.

Glossário
Representação Social: esse conceito aparece no pensamento de Èmile
Durkheim (1858-1917), o intelectual que fundou a Sociologia como

Ciência e foi amplamente utilizado em várias áreas das Ciências


Humanas. Durkheim estava preocupado em separar o que chamava de
“fatos sociais” das interpretações que dele poderiam ser feitas e
acreditava que a grande maioria das pessoas não conseguiria conhecê-
los (e a si mesmas, consequentemente) a fundo, mas apenas construir
representações (na sua própria mente e na sua própria subjetividade)

sobre esses fatos. Na fala anterior de Foucault, pensador que aqui


estamos abordando, o sentido da expressão representação diz respeito
a como os indivíduos entendem e representam a realidade para si. Diz
respeito, portanto, a conteúdos subjetivos de compreensão de si e do
mundo em que se insere o indivíduo. Foucault, diferentemente de
Durkheim, não faz a separação sujeito/objeto, mas considera
fundamental que essas representações sejam tomadas na sua
importância, para que possamos compreender as relações sociais e, em
especial, as relações de poder.

Antes de nos aprofundarmos para melhor compreender as ideias de Foucault, é importante que,
preliminarmente, abordemos o contexto em que se desenvolve seu pensamento. O século XX foi
sabiamente denominado pelo grande historiador Eric Hobsbawm como “o século dos ricos”:
um século que se inicia com duas Guerras Mundiais (1914-1918 e 1937-1945) e, entre elas, uma

grande depressão (Quebra da Bolsa de Nova Iorque – 1929), demonstrando que o Mercado
capitalista deixado ao seu próprio movimento poderia produzir a sua própria autodestruição. A
concentração da riqueza, a competição entre os agentes econômicos, a superexploração do
trabalho e, o mais importante, a lei implacável do desenvolvimento desigual começam a exigir
das Sociedades capitalistas o erguimento de Instituições que garantissem alguma coesão e

estabilidade econômica e social.

Acerca do conceito de desenvolvimento desigual, tomamos de Tom Bottomore a seguinte


explicação preliminar:

“[...] desenvolvimento desigual significa que sociedades, países, nações

desenvolvem-se segundo ritmos diferentes de tal modo que, em certos casos, os

que começam com uma vantagem sobre os outros podem aumentar essa

vantagem, ao passo que, em outros casos, por força dessas mesmas diferenças de
ritmo de desenvolvimento, os que haviam ficado para trás podem alcançar e

ultrapassar os que dispunham de vantagem inicial. Para ter sentido, portanto, a

ideia de ‘desenvolvimento desigual’ deve incluir, em cada caso específico, a

principal força propulsora (ou forças propulsoras) que determina essas diferenças

de ritmo de desenvolvimento.”

- BOTTOMORE, 2000, p. 240

Assim é que, na Era dos Extremos: o Breve Século XX (como conceituou e denominou

Hobsbawm, em seu livro sobre o Século XX, soluções democráticas e autoritárias, progressistas
e regressivas vão se alternando numa Sociedade que se vê limitada em seus recursos para lidar
com as múltiplas expressões da questão social e como nós estamos tratando, aqui, desde o
início: com as suas violências. Hobsbawm mostra, também, que a guerra, em todos os seus
níveis, passa a ser democratizada no mundo contemporâneo como solução para as suas
profundas contradições, alertando, assim, para o legado regressivo do ponto de vista cultural,
humano, que as duas grandes guerras deixaram.

Foi isso que notou Albert Einstein (1879/1955), o físico teórico que desenvolveu a Teoria da

Relatividade Geral, lançando as bases da Física moderna e da Mecânica Quântica, ao perceber o


quanto o investimento e a preocupação com os avanços tecnológicos tinham origem em
motivações destrutivas. Duas, entre outras frases com forte teor filosófico (e ético!) de Einstein
quando indagado sobre a relação entre o avanço tecnológico e a possibilidade de novas guerras
mundiais, foram: “Eu temo o dia em que a tecnologia ultrapasse nossa interação humana, e o
mundo terá uma geração de idiotas” e “Não poderia prever quais avanços tecnológicos poderiam
fazer parte de uma terceira guerra mundial, mas posso garantir que a quarta guerra será
realizada com machados de pedra”.

Como um grande cientista, Albert Einstein não estava preocupado com a tecnologia “em si”,
mas sim, com os propósitos que norteiam a tecnologia, ao dizer que teme “o dia em que a
tecnologia ultrapasse nossa interação humana”. Como cidadão e pacifista declarado, Einstein,
reiteradamente, manifestou-se sobre o problema da direção social da tecnologia e, tendo vivido
e visto duas guerras cujos efeitos, principalmente, na Europa, foram devastadores, muito se
preocupava com a aplicação dos conhecimentos científicos para a destruição.

Ainda sobre Foucault em seu tempo, esse pensador pôde presenciar a ascensão do fascismo a

partir do entre Guerras e, inclusive, foi um ativista antifascista, tendo em sua obra a marca desse
questionamento acerca dos por quês das violências de seu século.

Agora, vamos abordar o pensamento de Michel Foucault e a importância de suas reflexões para a
Ética Profissional?

Voltando à frase de Foucault, apresentada no início desta Unidade, vejamos o que ele queria dizer
quando afirmava que era necessário “captar o poder na extremidade cada vez menos jurídica de
seu exercício”. Foucault queria demonstrar que o poder não é forjado apenas pelas normas
gerais, pelo Estado, pelas classes dominantes, mas que ele se ergue pela reprodução da vida
social em seu cotidiano, na nossa moralidade, na cultura, nas nossas representações e
subjetividade. Com base nessa compreensão de que o poder se estabelece a partir da manutenção
de uma complexa rede de relações sociais, Foucault desenvolve um trabalho no qual a
preocupação central era desmistificar esse cotidiano, mostrando que ele está carregado de

comportamentos que, vistos como naturais ou moralmente adequados, na verdade, servem à


opressão intra-humana.

Os estudiosos do pensamento de Foucault consumam tratar sua obra como constituídas de três
fases:

1 Arqueologia do Saber: em 1961, Foucault publicou sua tese de doutorado História da


loucura na Idade Clássica, que mostrava como as sociedades do período lidavam
com o processo de loucura, chamando atenção para o caráter histórico do
significado atribuído a essa condição. A partir daí, Foucault foi pesquisando e
mostrando que, ao longo do tempo, a interpretação racional e, consequentemente,
as formas de se lidar com a loucura, foram se modificando e que, nesse processo, o
saber e o poder estavam sempre vinculados. Nessa obra, Foucault mostrou que,
apenas na Modernidade, a loucura passou a ser vista, a partir do desenvolvimento da
Psiquiatria, como objeto de intervenção médica, como um problema de saúde
mental. A partir dessa obra, o filósofo começou a realizar diversos estudos sobre as
interpretações da realidade e os discursos e linguagens que veiculavam essas
interpretações, procurando mostrar que eles tinham um sentido que não era o
“conhecimento pelo conhecimento”, mas um conhecimento comprometido com
propósitos, uma racionalidade socialmente construída. Nessa fase, Foucault
também fez um estudo sobre o nascimento da clínica, estudando análises médicas
do século XIX e demonstrando o conteúdo moral das interpretações e análises sobre
a loucura;

2 Genealogia do Poder: a partir da década de 1970, sendo também um intelectual


engajado politicamente, Foucault começou a desenvolver pesquisas com vistas a
ultrapassar a reflexão sobre a relação entre linguagem, discurso e racionalidade e
alcançar o significado da relação entre saber e poder. Ao estudar a prisão (em sua
conhecida obra Vigiar e Punir) e a sexualidade (A História da Sexualidade), o
filósofo foi demonstrando que o poder dominante estabelece condutas e meios de
controle da subjetividade dos indivíduos que atendem, prioritariamente, aos
interesses “do governo”, ou seja, dos que detém o poder material e ideológico. Essa
preocupação, portanto, com as “escolhas” individuais por condutas, fez com que,
em seus últimos escritos, Foucault se dedicasse especialmente à Ética.

Reflita
A relação entre saber e poder que Foucault levantou é essencial para
compreendermos questões do cotidiano que envolvem, inclusive, a
nossa práxis profissional. Quantas vezes nos sentimos constrangidos
diante do saber de um médico, de um advogado, de um juiz, de um
professor, e acabamos por aceitar o que todos eles dizem como
verdades absolutas? Quantas vezes, uma pessoa com menos instrução,
o que não significa, em absoluto, falta de inteligência, sente-se
impotente para conhecer seus direitos por não conhecer as leis? Vejam:
saber é apropriação de conhecimentos, é, portanto, um caminho para
poder. De outro lado, o poder de decidir, de escolher e de ser livre
implica a forma como o saber é utilizado. Assim, sempre que

estivermos diante de um paciente, é necessário que sejamos capazes de


demonstrar que a nossa interação com ele implica a imposição do
saber, mas sim, uma troca de saberes que pode ajudá-lo a enfrentar os
problemas com os quais está lidando. Isso é uma questão de pura ética!

3 Ética: Foucault mostrou, por meio do estudo da sexualidade na História como as


amarras colocadas aos impulsos mais naturais do corpo não se tratavam tanto
assim da tão proclamada promoção da alma, posta pelos idealistas, mas sim, de uma
expressão do controle da razão, do pensamento, da MORAL, de um atributo
essencial do homem, que é a liberdade e a própria capacidade teleológica. Como dizia
o Filósofo, “em qualquer sociedade, o corpo está preso no interior de poderes muito
apertados, que lhe impõem limitações, proibições e obrigações”. Proibições e
obrigações, podemos dizer que, de fato, cancelam a autonomia dos indivíduos. A
pergunta é: em prol do que, de que ou de quem?

Foucault estava certo nesse ponto pois, entre as fobias e os preconceitos que se diversificam e se
manifestam cotidianamente no nosso tempo, o corpo está sempre presente. Veja as questões
como violência obstétrica, gordofobia, psicofobia (preconceito com pessoas com problemas de
saúde mental), com pessoas idosas... infelizmente os preconceitos são inúmeros e, certamente,
vamos encontrá-los – dentro ou fora de nós mesmos) no cotidiano de nossa prática.

Antídoto? A existência ética.


Saiba Mais
Uma nota a mais sobre o preconceito: Peter Berger e Tomas Luckmann,

em seu conhecido livro A Construção Social da Realidade, disseram que


a pior coisa que o preconceito pode fazer é com que o sujeito a quem ele
se destina acredite que ele, de fato, é aquilo que a imagem
preconceituosa diz. Explicam isso ao tratar da socialização primária
(primeiros anos de nossas vidas), na qual recebemos as informações
do nosso mundo exterior (nossos significativos primeiros: família)

como verdades absolutas. Esses conteúdos ficam, nas palavras dos


próprios autores, “entrincheirados” na nossa subjetividade,
redundando em bloqueios que seguirão conosco na nossa socialização
secundária, quando nos tornamos membros da Sociedade. Dá para
compreender, aqui, porque a adolescência é reconhecida como uma
fase de confrontos internos e externos muito significativos.

Considerando que nesta Disciplina estamos tratando da Ética no campo da Saúde, podemos
fazer uma relação direta com aquele que, na nossa intervenção, chamamos de paciente.

Será que nos lembramos sempre de que esse paciente é um cidadão? Que ele é sujeito e não
objeto de nossa prática profissional?
Vamos para a próxima Unidade de Aprendizagem, para descobrirmos juntos o que a Saúde e a
Fonoaudiologia têm a nos dizer sobre a nossa Ética Profissional!
📄 Material Complementar
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Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:

Vídeo

Foucault: A Filosofia como Modo de Vida


Foucault: a filosofia como modo de vida | Margareth Rago

Leitura

Vontade Geral e Decisão Coletiva em Rousseau


Para uma compreensão mais aprofundada da noção de vontade geral, em Rousseau, deixamos,
aqui, a sugestão de leitura do Artigo do Prof. Cláudio Araújo Reis, do Departamento de Filosofia
da Universidade de Brasília (UNB).

Clique no botão para conferir o conteúdo.

ACESSE

Rousseau: a Arte da Filosofia, Literatura e Educação


Para conhecer a relação entre Moral e Política, em Rousseau, sugerimos a leitura do artigo a
seguir.
Clique no botão para conferir o conteúdo.

ACESSE

Sobre Perspectivismo e Verdade em Nietzsche


Para Conhecer melhor o pensamento de Nietzsche, sugerimos o artigo a seguir.

Clique no botão para conferir o conteúdo.

ACESSE

Bibliografia de Michel Foucault | Laboratório de Estudos


Discursivos Foucaultianos

Clique no botão para conferir o conteúdo.

ACESSE
📄 Referências
3/3

BERGER, P. L. A construção social da realidade: tratado de sociologia do conhecimento.


Petrópolis: Vozes, 2014.

BOTTOMORE, T. Dicionário do pensamento marxista. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.

FOUCAULT, M. Soberania e disciplina. In: FOUCAULT, M. Microfísica do poder. Rio de Janeiro:


Graal, 1979.

FOUCAULT, M. Vigiar e punir. Petrópolis: Ed. Vozes 2017.

FOUCAULT, M. A história da sexualidade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2017.

CHAUÍ, M. Convite à filosofia. São Paulo: Ática 2000.

HOBSBAWM, E. Era dos extremos: o breve século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

KANT, I.A. Resposta a pergunta: o que é Iluminismo?. Coleção Textos Filosóficos. Editora 70,
2008.

KONDER, L. Os sofrimentos do “homem nurguês”. São Paulo: Ed. Senac, 2000.

LE GOFF, J. Uma breve história da Europa. Petrópolis: Vozes, 2008.


NIETZSCHE, F. Crepúsculo dos ídolos, ou como se filosofa com o martelo. São Paulo: Companhia
de Bolso, 2017.

ROUSSEAU, J. J. Emílio ou, da educação. Trad. Roberto Leal Ferreira. 2. ed. São Paulo: Martins

Fontes, 1999.

ROUSSEAU, J. J. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens.


Martins Fontes (Clássicos). 2. ed. São Paulo, 1999.

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