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Palavra e Palavras

Teresa Vasconcelos | 7 Jan 2021


Os Pastores disseram uns aos outros: Vamos a Belém e vejamos esta palavra que
aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer (…).
Tendo visto fizeram a divulgação a respeito da Palavra…” (…). Maria, por seu lado,
guardava todas estas palavras, conversando no seu coração.
(Evangelho de Lucas 2, 15-19, versão de Frederico Lourenço)

(…) como regressar a mim sem maior desejo do que aquele de encontrar a motivação
mais antiga: a de que ainda haverá beleza. (…). Ainda haverá beleza e poemas.
Em todas as clausuras e adiamentos se colhem poemas (…)
e as palavras milagravam a vida…
(Valter Hugo Mãe, Contra Mim. Porto Editora, 2020)

A capa de Contra mim, de Valter Hugo Mãe.


Durante as semanas de Advento li o novo livro de Valter Hugo Mãe (VHM), Contra
Mim (Porto Editora, 2020). Trata-se de um livro que revela quem é Valter Hugo Mãe. A
sua leitura literalmente me encantou e fez emergir múltiplas epifanias (no sentido que
dá James Joyce aos momentos reveladores e “iluminadores” das nossas vidas). Um
grande livro, um grande escritor. Uma prosa lindíssima e original. Uma profunda busca
de Deus através da palavra escrita. Metáforas, evocações, puro gozo pela e na palavra
escrita. Este livro trouxe-me, e cito o autor, “pedaços de Deus”.
Contra Mim é um livro/reflexão, autobiográfico-“confinamental”, escrito durante a
primeira fase da quarentena. Trata-se de um longo texto marcadamente poético e
introspectivo sobre como a palavra e as palavras emergem na vida de uma criança
(VHM), que ano a ano ou mesmo mês a mês ou dia a dia se vai fazendo à vida. O livro
entretece textos breves e dispersos, diferentes narrativas escritas ao longo dos anos,
mantendo os capítulos uma certa autonomia entre si e, simultaneamente, uma unidade
significativa, descrevendo a infância deste escritor e artista plástico. Saboreei as tão bem
descritas epifanias de VHM ao longo da infância e adolescência.
Trata-se de um maravilhoso livro sobre a infância em geral – todos nos revemos nas
descrições de VHM – mas narra a especificidade de uma criança que se tornou escritor e
artista plástico e que vai descobrindo que as palavras “servem para sobreviver”, que
“fabricam o que viria” e “milagravam a vida”. Narra as penas grandes e pequenas de
uma criança na sua própria voz e na sua memória. Afirma VHM no final do livro:
Se nos admitirmos à limpidez típica das crianças no instante em que nos conhecemos,
talvez possamos debelar metade dos males,
educados para a compaixão essencial como todas as crianças.

VHM é o mais novo dos irmãos, criança hipersensível, franzina e doente. Por razões
diversas tornou-se uma criança tímida e solitária que encontrou nas palavras o sentido
para a sua vida. A escola era-lhe “insuportável” – nessa “impunidade da tortura” –
porque, segundo VHM, “batia-se nas crianças para castigá-las da infância e urgir que
fossem adultas”.
Ainda sem saber ler e escrever, para VHM “as palavras eram joias” e “listava-as no
pensamento”. É sua mãe atenta que, “entendendo o seu mundo”, o motiva a ir primeiro
para a escola infantil e depois para a primária para “aprender a guardar as coisas dentro
da cabeça”, “as coisas de pensar”… e motivava a criança: “Se souberes escrever, as
folhas de papel serão caixinhas onde podes arrumar com palavras tudo aquilo que não
queres esquecer”. Segundo VHM, “aceitei ser torturado em troca da ciência
deslumbrante de aprender a guardar a fortuna das palavras”.
Desta escola tradicional recheada de castigos, humilhações e violência física, nasce um
pequeno escritor que “queria aprender depressa para deixar de ir à escola” onde, como
era expectável, sofria de bullying. Por causa dessa solidão “haveria de fazer dos [meus]
cadernos os lugares mais extensos do mundo”.
Marcado pela perda do irmão Casimiro, que morreu com um ano de idade, VHM (que
não o conheceu) chama-o “o menino horizontal”. Certo dia, ao visitar com a mãe e as
tias a sua campa, perante o pedido de que rezasse, a presença do irmão passou a habitá-
lo: “o meu irmão horizontal (…) que estava ali deitado à espera que uma árvore grande
nascesse e chegasse até ao céu” para poder trepar.
Valter, o irmão mais novo, quer juntar-se a ele. Para VHM, “os meninos mortos
aparecem nas folhas dos pessegueiros” (…). “Eu pensava nele com uma saudade
esquisita, porque temos uma saudade muito esquisita por quem amamos sem ter
conhecido” (…) e “Imaginava conversas entre mim, o meu irmão e Deus”. Muito ligado
à mãe, VHM afirma que prefere morrer como “o irmão horizontal” do que ir à escola,
tal como os irmãos mais velhos a descreviam. Em não raros momentos esta criança me
lembrou o Principezinho de Saint Exupéry. VHM escreve palavras comoventes sobre a
morte:
Morrer-nos alguém são mil anos de leituras. Carregamos nossos mortos importantes
como uma biblioteca de ciências cultas, uma infinidade de sabedorias que só se
aprendem assim.
Quem ainda não ama seus mortos não se educa de modo nenhum para este
conhecimento específico. Não acede a uma erudição natural.

Mais tarde, o contacto com dona Alicinha, a muito beata senhoria do casarão onde
viviam e a quem ele ia, a mando da mãe, pagar a renda todos os meses, mostrou-lhe
como as estátuas de santos que recheavam a sua sala eram “mortos tristes”, toda a casa
“era meia morta” ou a “pertencer à morte” e tudo lhe metia medo. E acrescenta:
aqueles mortos não eram exatamente como eu imaginara ser o Casimiro nem como eu,
um dia, haveria de querer ser. Aqueles eram muito tristes. Tinham sangue na cabeça e
corações atravessados por espadas, enquanto nos encaravam desesperados. Pareciam
estar no inferno. A ver-nos desde o inferno. Eu pensava sempre no meu irmão como
alguém menino e capaz da felicidade.
Pensava em Casimiro como alegre e solar. Bonito. Um morto feliz.

Pelo livro perpassam os locais da infância deste menino “retornado” de Angola (de onde
regressou com dois anos e meio). Primeiro, Paços de Ferreira, a terra dos avós maternos
– “volto àquela terra como se voltando a mim mesmo” –, onde experimentou que
“existir é pura maravilha”.
Em Paços de Ferreira, protegido pelos irmãos mais velhos, coabitou com um avô doente
mas terno e paciente no escutar, com quem conversava horas esquecidas sentado na
borda da cama, chegando a conclusões “valiosas” para que o avô estivesse “mais feliz”.
Soube desde essa data – teria uns quatro ou cinco anos – o que era “gostar” de alguém.
Em contraponto, o avô pedia à mãe: “Toma conta deste menino”, na convicção de que
VHM era um menino especial. Naquele tempo, diz, VHM “ainda tinha o mais limpo dos
corações”, mas também “uma timidez contemplativa e fantasiosa”. Encantou-se com um
caleidoscópio na casa de um dos seus companheiros de jogo – “era o objeto mais
maravilhoso que vi em toda a infância”. Os pais do amigo detinham “a coisa mais
magnífica de toda a terra de Paços de Ferreira”.
As experiências religiosas de VHM em Paços de Ferreira passam pela ligação ao “irmão
horizontal” e por uma imagem pequenina de um Cristo de plástico fosforescente que
uma noite descobriu no cimo de uma árvore e que guarda até hoje; e em consequência,
na opinião de sua avó, “haveria de estar com os olhos de Deus sobre mim a vida
inteira”. Passou “a acreditar em Deus por assombro e gratidão”.
Numa casa com poucos livros havia uma Bíblia que, segundo VHM, “era a própria
carne de Deus”. Embrulhada num pano de linho, a criança “frequentava-a pela sua
emanação e não pelo que efetivamente pudesse conter”. A família tratava-a com um
enorme respeito: “a minha mãe fazia muitas recomendações, não devia sujar, rasgar,
marcar as páginas, não devia fungar para cima do livro (…) era fundamental que
folheasse o livro como em voo, sem atrito, apenas a alma solta, livre”. E a avó repetia:
“a Bíblia não é um brinquedo”. No seu caderno: “Deus, os santos e os anjos poderiam
descer sobre aquelas páginas (…) e Deus poderia abundar por toda a parte. (…)
Qualquer um de nós seria a carne de Deus.” Que fascinante relação com o sagrado!
Para além destas experiências de “inclinação para a fé”, no dizer da avó, VHM tinha-se
tornado uma “criança milagrada” porque, tendo desenvolvido inúmeros cravos nas
costas das mãos que facilmente ficavam em ferida e arriscavam infecções, foi a “São
Bentinho” a conselho da madrinha em busca de cura. Levou a vela para acender e
repetia as rezas, “tomando atenção a cada palavra”. A madrinha entendia que “o milagre
aconteceria pela candura da meninice” e, na realidade, acordou de manhã com “as mãos
limpas, curadas, sem marcas e sem feridas”. E termina o seu relato afirmando:
Algures, na morte, o Casimiro estaria informado. No meu orgulho sem sobressalto,
pressentia que comungávamos de uma mesma coisa: já sabíamos de Deus.

No seu caderno a criança anotava as experiências religiosas:


Abria o meu caderno como se preparasse a mesa para uma evocação. Era um lugar de
pouso. Deus, os santos e os anjos poderiam descer sobre aquelas páginas e palavras para
revelar como se mexeriam de um lado para o outro até oferecerem uma resposta (…).
Pensava, quando relia as minhas frases sem correcção, sem utilidade para serem
límpidas ou rigorosas, que estava a olhar para Deus. (…).
Podia ser o que ia no meu caderno, podia ser o que proferia a minha boca, certamente
haveria de ser muito do que chegava aos meus ouvidos.
Deus poderia abundar por toda a parte.”

Tinha o autor uns dez anos, os pais mudaram-se para Caxinas (bairro piscatório entre
Vila do Conde e a Póvoa de Varzim) onde abriram um café e a “família deixou de ser
família”, “transformou-se numa empresa”, segundo VHM. “Perdidos nos meus cadernos
de menino, ciente de que agora estaria convocado a uma coragem maior, assumi que me
valeriam os poemas.” Aguentou nova solidão. Havia um ofício para cada um “na pressa
que era o café”. Tendo tido que abandonar os amigos de Paços de Ferreira, cria uma
nova amizade, o Chiquinho.
“Encurralado diante de uma dimensão vazia” (o mar, do outro lado da rua) com ele
percorre os caminhos da adolescência, da descoberta da sua sexualidade e das “ganas de
ser feliz”. Começou, então, a escrever narrativas, “aventuras e desastres de amor” e, no
pequeno quiosque de jornais e revistas consultava revistas pornográficas (guardadas por
trás do balcão) e banda desenhada erótica. Já no “ciclo preparatório” uma professora de
Educação Visual fê-lo experimentar outras formas de expressão: “Que beleza a de
sermos educados para o uso dos olhos e disciplinar tanta coisa que há para ver”.
No final do livro VHM insinua:
Repeti mil vezes que já não sou boa pessoa, mas quero muito ser a memória de uma boa
pessoa (…). Nunca estarei absolutamente derrotado na convicção de que
existir é um convite à ternura, ao cuidado, ao outro.

E conclui:
A meditação suscitada pela escrita oferece nitidez aos instantes onde preponderam as
decisões mais endémicas e modeladoras de todas. A observação nítida destes
acontecimentos, exposta a emoção que os acompanhou, é, ao menos para mim, que sou
o objeto inventado por esta infância,
algo de valor incalculável.

Valter Hugo Mãe afirma que o seu livro “é uma criança às páginas. Um escritor em
menino” (da contracapa). O escritor-menino leva-nos a entender a compaixão, o amor
pelas pessoas, a bondade, tudo eivado de um humor fino acerca de si próprio. Este livro
levou-me a entender todos os seus outros livros que tenho vindo a ler sofregamente ao
longo dos anos. E apetece-me relê-los.
Perguntam-me que relação tem tudo isto com a citação do evangelho de Lucas a
encimar este texto sobre a Palavra e as Palavras em VHM? Ouso afirmar que tem toda.
A leitura que fiz neste Advento conduz-me ao Natal, a festa do Novo, do Nascimento,
da perpétua Esperança, da busca da Palavra. Valter Hugo Mãe “conversou com o seu
coração” e produziu um livro sobre a infância. Que pode ser a de todos nós.

Contra Mim, de Valter Hugo Mãe


Porto Editora, 2019
284 páginas, 16,60 €

Teresa Vasconcelos é professora do Ensino Superior (aposentada) e participante do


Movimento do Graal (contato: t.m.vasconcelos49@[Link])

escuta o seguinte poema de Ruy Cinatti,


intitulado “Princípio e Fundamento”:

«Quem rega com amor não morre.


Rebentam flores.
Os frutos esplendem.
Rompe a semente
tecido vivo.
Quem rega com amor não morre.
Conhece o início
e os fins do tempo.
Quem rega com amor não morre.
Adianta-se à terra
e serve».

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