Fé e razão: duas vias para o conhecimento de uma mesma realidade
A fé e a razão servem uma à outra, e ambas servem ao homem que busca conhecer a
realidade. A razão ajuda a fé a demonstrar os seus fundamentos; cultiva e ilumina, unida
sempre à fé, a ciência das coisas divinas. Em suma, a razão é o que permite a fé ser
lógica e racional, e não superficial ou supersticiosa. A fé, por sua vez, guarda a razão
dos erros, ajudando-a a enriquecer com vários conhecimentos.
Estudar, com espírito livre e sincero, cada vez mais, pois sabe que, desta forma, se
chegará com mais convicção a Deus, com uma fé mais sólida e inabalável. 3
Por que fé e razão jamais podem se contradizer?
Ainda que a fé e a razão sejam duas ordens de conhecimento, distintas entre si pelo
modo de conhecer em seu princípio e pelo objeto de conhecimento, sendo que a razão
conhece de modo natural, e a fé, a partir do divino, ambas são vias para a compreensão
da mesma realidade que nos cerca. A fé, por se tratar das coisas sobrenaturais e delas
provir, é mais elevada que a razão, mas jamais pode haver contradição entre uma e
outra, pois o mesmo “Deus que revela os mistérios e infunde a fé, dotou o espírito
humano da luz da razão; e Deus não pode negar-se a si mesmo, nem a verdade jamais
contradizer à verdade.“ 6. Mas, ao mesmo tempo, a Igreja recebeu o mandato do
Senhor de guardar o depósito da fé, e, por isso, ela afasta toda e qualquer asserção que
seja contrária à própria revelação divina.
Com efeito, numa das Encíclicas mais belas sobre o tema, a chamada Fides et
Ratio, escrita por ninguém menos que São João Paulo II, que desde sempre esteve
aberto a dialogar com as ciências e com as artes, é nos proposta uma imagem belíssima
da relação que há entre a fé e a razão. “A fé e a razão constituem como as duas asas
pelas quais o espírito humano se eleva para contemplar a verdade” 7.
A esse mesmo respeito, Joseph Ratzinger, que foi um dos maiores expoentes de teologia
da atualidade, que jamais teve medo, assim como São João Paulo II, de confrontar fé e
razão, salienta que, assim como Santo Agostinho, que acredita e tem fé para
compreender a realidade de modo mais claro e abrangente, e não, como pensam alguns,
crer no absurdo por ser absurdo. Ratzinger salienta que “assim como a criação vem da
razão e é racional, a fé, por assim dizer, é primeiro a realização da criação e, por isso,
a porta para a compreensão. Crer significa, portanto, entrar nessa compreensão e
nesse pensamento”. 8
Fé e Razão em Santo Agostinho e Santo Tomás
Quando se pensa em filosofia e teologia na atualidade, tende-se, como se faz com a fé e
a razão, a contrapor as duas ciências humanas. Na verdade, tal oposição é fruto dessa
mentalidade moderna que não entende o papel de ambas. A filosofia e a teologia, por
séculos, andaram de mãos dadas na busca por compreender a Verdade das coisas.
Quando se pensa acerca disso, é impossível não recorrer a duas figuras, dois grandes
santos, que não só desenvolveram importantes temas filosófico-teológicos, como
influenciaram, e influenciam, toda uma civilização. O primeiro deles é Santo
Agostinho de Hipona que, já no século IV, elaborou a primeira grande síntese entre
pensamento filosófico e teológico, unindo correntes de pensamento do mundo grego e
do mundo latino. O Doutor ocidental, partindo do ensinamento bíblico, soube, com
maestria, desenvolver todo um pensamento especulativo sobre a Revelação divina. Tal
síntese foi, e ainda é, uma das formas mais elevadas de reflexão que o Ocidente
conheceu. 9
Mas, especial destaque mesmo para a Igreja, e para a sociedade como um todo, é a
figura perene do pensamento de Santo Tomás de Aquino. O Aquinate soube não só
desenvolver o maior sistema de pensamento já conhecido, como dialogar com todas as
culturas, correntes de pensamento, sejam filosóficos sejam teológicos. Nos diz o Doutor
Angélico que a luz da razão e a luz da fé provêm ambas de Deus, por isso não se podem
contradizer entre si. 10. Todo empenho deste grande santo o faz ser considerado, com
razão, apóstolo da verdade 11. Toda obra de Tomás de Aquino deve ser aprofundada por
todo aquele que, desejoso de entender o que é a verdade, o ser das coisas, e que busca
fazer uma síntese clara entre a fé e a razão. 12
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a fé
influencia na saúde física, mental e biológica. Ela pode reduzir os
riscos de doenças como diabetes, doenças cardiovasculares,
respiratórias, infartos, insuficiência renal e acidente vascular cerebral.