WBA0150_v2.
GESTÃO DA RESPONSABILIDADE
SOCIAL E AMBIENTAL
Ana Carolina de Moraes Luccarelli
GESTÃO DA RESPONSABILIDADE SOCIAL E
AMBIENTAL
1ª edição
Londrina
Editora e Distribuidora Educacional S.A.
2020
2
© 2020 por Editora e Distribuidora Educacional S.A.
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reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio,
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__________________________________________________________________________________________
Luccarelli, Ana Carolina de Moraes
L934g Gestão da responsabilidade social e ambiental/ Ana
Carolina de Moraes Luccarelli, – Londrina: Editora e
Distribuidora Educacional S.A. 2020.
43 p.
ISBN 978-65-5903-086-6
1. Desenvolvimento sustentável. 2. Global Reporting Initiative.
3. Relatórios de responsabilidade socioambiental. I.Título.
CDD 372.357
____________________________________________________________________________________________
Raquel Torres - CRB: 6/2786
2020
Editora e Distribuidora Educacional S.A.
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GESTÃO DA RESPONSABILIDADE SOCIAL E AMBIENTAL
SUMÁRIO
Desenvolvimento Sustentável________________________________________ 05
Definições de Responsabilidades Social e Ambiental das Empresas ____ 18
Instrumentos e ferramentas do RSE _________________________________ 32
Relatórios de Responsabilidade Socioambiental – Relato Integrado e
GRI___________________________________________________________________ 46
4
Desenvolvimento Sustentável
Autoria: Ana Carolina de Moraes Luccarelli
Leitura crítica: Juliana Fontes Lima Collaço
Objetivos
• Conhecer a importância do tema da Sustentabilidade
para a sociedade atual e como se tornou um tema
transversal a todas as áreas.
• Conhecer o histórico da criação do termo
Desenvolvimento Sustentável, os principais eventos
internacionais e os conceitos importantes.
• Conhecer a definição de Tripple Bottom Line e a
sua ligação com as empresas, além das vantagens
competitivas que a sustentabilidade oferece a elas.
5
1. Sustentabilidade: o tema do século
A sustentabilidade tem estampado os títulos dos principais debates
internacionais e ganhado cada vez mais espaço nos principais fóruns
mundiais, ultrapassando a esfera do meio ambiente e atingindo
lugares dominados pela economia e por movimentos sociais. Você já
refletiu sobre como os pilares da sustentabilidade estão interligados?
E como a tecnologia pode contribuir para o desenvolvimento
sustentável? É necessário se questionar: “É possível garantir o
crescimento econômico sem comprometer a vida em todas as
suas formas? Qual a ligação da industrialização com o crescimento
econômico?”
É importante resgatar o contexto histórico da Revolução Industrial
e observar como favoreceu alguns países, como Inglaterra, Estados
Unidos, Alemanha, Bélgica, Rússia, Itália e Japão, o que permitiu
um crescimento econômico acelerado em comparação com países
menos industrializados, com a economia baseada em agricultura e
extração mineral. Essa polarização entre aqueles industrializados
e aqueles fornecedores de bens naturais não causou apenas um
desequilíbrio econômico, mas também uma corrida desenfreada para
explorar recursos naturais, propiciando alterações significativas no
equilíbrio ecossistêmico terrestre. Agora, os países antes chamados
de “desenvolvidos” estão alterando sua forma de produção e
buscando tecnologias cada vez mais limpas, além de estimularem
e conscientizarem os países antigamente chamados de “em
desenvolvimento” a preservar suas reservas naturais e implantar
tecnologias limpas.
Vamos entender mais sobre esse movimento?
6
1.1 História do desenvolvimento sustentável
Os primeiros ensaios sobre o que hoje conhecemos como
Desenvolvimento Sustentável tiveram início em 1968 com o Clube de
Roma. Esse grupo, que se reunia em Roma, na Itália, compreendia 30
pesquisadores, cientistas e membros da sociedade civil de dez países
distintos convidados pelo empresário e economista Aurélio Peccei
para debater as questões e os dilemas que a humanidade enfrentava
na época: política internacional, desenvolvimento econômico e meio
ambiente. Em pouco tempo, o grupo cresceu e em 1972 possuía 100
membros.
Nesse período, foi produzido e publicado o documento intitulado The
Limits to Growth (Os limites para o crescimento) (MEADOWS, 1972), que
atraiu os olhares de todo o mundo ao publicar que a industrialização
e o aumento populacional ultrapassariam os limites de resiliência
ecológica, ou seja, a capacidade máxima de alteração que ainda permita
a regeneração natural, o que se tornaria um problema em até 200 a 300
anos, no momento em que o número de seres humanos atingisse seu
ápice no planeta. Ele trazia informações relevantes sobre a importância
de criar medidas limitantes ao consumo dos recursos naturais e ao
crescimento populacional (MOTA, 2008).
Nesse mesmo documento, constava que as sociedades ocidentais,
ao atingirem suas necessidades e ao chegarem ao maior grau de
desenvolvimento, seriam responsáveis por impedir os países mais
pobres de atingi-lo também. Essa afirmação causou diversas críticas ao
Clube de Roma, vindas de outros intelectuais. O segundo documento
produzido pelo Clube foi intitulado Mankind at the Turning Poin (A
humanidade no ponto de mudança) e reforçava o posicionamento sobre
os pontos negativos do crescimento populacional (MOTA, 2008).
Devido a essa série de estudos, houve o estímulo às análises de longo
prazo sobre os problemas globais, coincidindo com a Conferência
7
das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente realizada em Estocolmo,
na Suécia. Foi com a sua realização que se deu origem ao Manifesto
Ambiental (UN, 1972), que trazia 19 princípios sobre o desenvolvimento
sustentável, criando a base para a agenda ambiental do sistema das
Nações Unidas, originando, posteriormente, o Programa das Nações
Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).
A Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento
(CMMAD) foi outro evento importante, realizado na Noruega em 1983, e
teve como Presidente a médica Gro Harlem Brundtland, convidada pelo
Secretário Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Esse evento
gerou o relatório Our common future (Nosso futuro comum), publicado
em 1987. A importância desse documento para a área é tão grande que
é usado até hoje, visto que define pela primeira vez os conceitos, os
princípios e os objetivos do termo desenvolvimento sustentável (ONU,
[s.d.]).
Alguns importantes conceitos foram elaborados nesse relatório
(CMMAD, 1991):
• Conceito de necessidades: define que os países ditos em
“desenvolvimento” devem possuir prioridade nas agendas
governamentais.
• Conceito de limitação: define a obrigatoriedade da conscientização
dos limites à tecnologia e à sociedade com relação a suas ações no
meio ambiente, tendo como objetivo garantir o atendimento das
necessidades das populações presentes e futuras.
• Definição de desenvolvimento sustentável: “O desenvolvimento
que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer
a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias
necessidades” (CMMAD, 1991). Assim, unindo o meio ambiente, a
sociedade e a economia pela primeira vez, aborda nos aspectos
sociais melhores condições de trabalho e oportunidades aos
8
deficientes e, nos aspectos ambientais, a adoção da produção mais
limpa, com participação em atividades governamentais, assumindo
postura ambientalmente responsável.
Em nosso país, o conceito de sustentabilidade ganhou impulso em
1992, quando o Brasil foi sede da Conferência das Nações Unidas
sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, também chamada de
Cúpula da Terra, na cidade do Rio de Janeiro (RJ). Essa Conferência
deu origem à Carta da Terra e à Agenda 21, documentos com
critério ético-político que divide de forma justa, pela primeira vez, a
responsabilidade da conservação ambiental, justiça social e eficiência
econômica entre todos os países.
A cada cinco anos, os acordos firmados nessa conferência são
reafirmados pelos países em novas conferências, como foi o
Encontro Rio+5 (1997), a Cúpula da Terra sobre a Sustentabilidade e
Desenvolvimento (2002) e a Rio +20 (2012). Nesse evento, foi criado o
Fundo para o Meio Ambiente, para suporte financeiro, e deu origem
ao Protocolo de Kyoto em 1997, que buscava estimular a redução de
gases de efeito estufa por meio de incentivos financeiros entre os
países poupadores (ONU, [s.d.]).
Em 1995, foi criado o Programa Nacional das Nações Unidas Para o
Desenvolvimento (PNUD) como uma forma de ação para o combate
às mudanças climáticas, que são ameaças reais à vida na Terra.
Assim, tornou-se uma das 23 agências especializadas com atuação no
Brasil e responsável por coordenar as atividades de desenvolvimento
dos órgãos formadores do Sistema das Nações Unidas, que promove
ações de desenvolvimento sustentável, com o objetivo de erradicar a
pobreza e a desigualdade social, utilizando-se de parcerias com todos
os setores da sociedade (INSTITUTO GESC, 2019).
9
Em 2002, a Conferência de Johanesburgo, apelidada de Rio+10, por
ter sido realizada dez anos após a Rio 92, trouxe discussões sobre
o cumprimento dos acordos firmados na época, principalmente
da Agenda 21, e trouxe temas importantes para o debate, como a
questão social e a busca pela redução da população abaixo da linha
da pobreza; a mudança de padrões de produção, consumo e manejo
de recursos naturais; e o desenvolvimento sustentável.
As inclusões dessas discussões geraram críticas que alegavam a
fragmentação das discussões e a perda do foco, o que dificultou
proposições efetivas. Assim, os resultados da Rio+10 não foram
expressivos: os países desenvolvidos não perdoaram as dívidas
das nações pobres e os Estados Unidos, juntamente com os países
integrantes da Organização dos Países Exportadores de Petróleo
(OPEP), não assinaram o acordo que previa o uso de fontes
renováveis produtoras de energia em pelo menos 10% do total do
consumo no setor (ONU, [s.d.]).
Em 2012, vinte anos depois da Rio 92, o Brasil novamente foi sede
de um evento ambiental, intitulado Conferência Rio+20. Dessa vez,
para reforçar os compromissos de sustentabilidade, foram escolhidos
temas centrais: a economia verde e a governança internacional. Os
resultados também foram criticados, mas agora pelos ambientalistas,
devido à falta de decisões concretas para o desenvolvimento
sustentável e por postergar decisões sobre acordos e novas políticas
climáticas. Isso se deu, principalmente, por causa da crise econômica
enfrentada na época pelos Estados Unidos e pela Europa, que dividiu
as atenções com os rumos da economia mundial. Mesmo com
esses contratempos, da Rio 92 para a Rio+20, foi possível observar
a ampliação do conceito de sustentabilidade, incluindo os aspectos
sociais (Figura 1).
10
Figura 1 – Cronologia dos eventos sobre meio ambiente
Fonte: adaptada de Marques (2012).
Em 2015, na sede da ONU em Nova York, ocorreu a Cúpula de
Desenvolvimento Sustentável, em que todos os países puderam definir
os novos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) para compor
parte de uma nova agenda, a fim de acompanhar todos os países para
o desenvolvimento sustentável até 2030, recebendo o nome de Agenda
2030 para o Desenvolvimento Sustentável.
Ações como a Agenda 2030 e os ODS (Figura 2) são apoiados pelo PNUD
e têm como missão mobilizar todas as nações entre 2017 e 2030 para
atuar em problemas globais, como: a diminuição da pobreza, a proteção
do planeta, a paz e a prosperidade global. Os ODS são uma forma clara
de orientação aos países, que estabelece metas de acordo com suas
prioridades, alinhadas aos desafios ambientais do planeta.
Figura 2 – Símbolos dos ODS
Fonte: https://jornalismosocioambiental.files.wordpress.com/2015/09/grid-global-goals-
header-1024x214.jpg?w=1000&h=209. Acesso em: 7 out. 2020.
11
Em novembro de 2015, ocorreu a COP21 (Conferência das Nações
Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2015). Realizada em Paris,
na França, contou com a participação de representantes e chefes de
Estado de 197 países com o objetivo de discutir ações para o clima e as
mudanças climáticas causadas pelo efeito estufa e pelo aquecimento
global, firmando ao final um acordo, conhecido como Acordo de
Paris, voltado para compromissos em ações efetivas para a redução
das emissões de gases de efeito estufa a partir de 2020 até 2100,
concentrando esforços para conter o aumento da temperatura global
em menos de 2° C (FIA, 2020).
Para isso, os 195 países que assinaram o Acordo devem produzir um
documento apresentando suas medidas práticas e metas para a redução
da emissão de carbono nos próximos anos, com revisão a cada cinco
anos, a partir de 2018. Além disso, os países do G20 se comprometeram
a auxiliar financeiramente os países mais pobres com doações
destinadas ao desenvolvimento de sistemas e projetos que auxiliem nas
reduções (FIA, 2020).
O compromisso do Brasil é reduzir em 37% as emissões de gases de
efeito estufa até 2025. A partir dessa data, haverá a ampliação da meta
de redução para 43% até 2030, além de se comprometer a ampliar o uso
de fontes de energia renováveis na matriz energética. Os Estados Unidos
anunciaram, em 2017, a saída do Acordo Climático de Paris, o que
compromete grandemente a eficácia do acordo, visto que o país é um
dos maiores emissores de gases do efeito estufa do mundo (FIA, 2020).
1.2 Os pilares da sustentabilidade
Em 1992, com a Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento, foi estabelecida a noção dos três pilares do
desenvolvimento sustentável: social, ambiental e econômico. Para que
as empresas fossem sensibilizadas, dado o grande impacto que causam
12
ao meio ambiente, o conceito foi resumido, em 1994, ao termo triple
bottom line, unindo, dessa forma, as ações de desenvolvimento e o
crescimento de países e empresas.
O autor do termo foi John Elkington, cofundador da Organização Não
Governamental (ONG) internacional SustainAbility. As atividades da empresa
já se concentravam em traduzir resultados obtidos pelas organizações que
estão em busca de ajustar suas atividades em resultados mensuráveis e
tangíveis, utilizando a análise do impacto das atividades no mundo. Assim,
a difusão do termo se deu com a publicação do seu livro Cannibals with
forks: the triple bottom line of 21st century business, em 1997, que trouxe a
expansão do modelo de negócios tradicional para um novo modelo, que
considerava não somente os fatores econômicos na avaliação de uma
empresa, mas também a análise da performance ambiental e social da
companhia (BENITES, 2013).
É importante ressaltar que a aplicação do triple bottom line (Figura 3, na
qual as pessoas, o dinheiro e as folhas representam respectivamente os
pilares social, econômico e ambiental) depende da mudança da cultura da
organização, exigindo uma mudança na forma de atuação, de tomada de
decisões e de suas contribuições para a sociedade, visto que atualmente
qualquer negócio passa por riscos não financeiros crescentes.
Figura 3 – Pilares da sustentabilidade
Fonte: bsd555/iStock.com.
13
Em 1999, foi criado o Dow Jones Sustainability Index (DJSI – Índice de
Sustentabilidade Dow Jones), nos EUA, com o objetivo de avaliar o
desempenho financeiro das empresas líderes em sustentabilidade.
Em 2005, no Brasil, foi lançado o Índice de Sustentabilidade
Empresarial (ISE), criando um ambiente que comportasse as demandas
para o desenvolvimento sustentável e estimulando as ações de
responsabilidade socioambientais nas empresas (BENITES, 2013).
O conceito de Triple Bottom Line também é utilizado na avaliação da
performance de sustentabilidade das empresas listadas na BOVESPA,
criando um indicador composto de ações emitidas por empresas que
apresentam alto grau de comprometimento com o tema.
Dessa forma, a sustentabilidade corporativa atinge status de vantagem
competitiva no mercado, sendo encarada pelos negócios não somente
como uma iniciativa ambiental, mas sim como uma estratégia
empresarial, com geração de valor a partir do momento em que gera
melhores resultados sociais e ambientais. Assim, surgem novos modelos
de negócios, que têm como objetivo proporcionar o equilíbrio entre o
capital natural e o humano com o investimento em tecnologias limpas
e a redução de impactos negativos ambientais e sociais, adaptando
produtos, processos e estruturas organizacionais e levando em
consideração as atitudes de seus investidores e parceiros para realizar
atividades que respeitem o meio ambiente.
É nesse cenário que surge o termo “sustentabilidade empresarial”,
que busca a viabilidade econômica, a continuidade no mercado e o
crescimento da organização pautada em uma coexistência harmônica
com o meio ambiente e com a sociedade, sendo um princípio
fundamental da gestão inteligente.
Antes de continuar, vamos retomar alguns conceitos iniciais?
Os seres humanos sempre manipularam os recursos naturais para se
abrigar e conseguir alimentos, mas foi com a descoberta do uso do fogo
que teve início um processo acelerado de desenvolvimento evolutivo,
iniciando também o crescimento populacional. Naquela época, os
14
impactos causados no planeta eram muito pequenos, mas, com o passar
dos anos e com a Primeira Revolução Industrial, a mecanização vinda da
máquina a vapor trouxe os bens manufaturados. Já na segunda metade
do século XX, a Segunda Revolução Industrial, marcada pela criação do
automóvel e pelo modelo de produção de bens, deu velocidade a essa
industrialização (Figura 4).
A partir disso, os impactos negativos causados ao equilíbrio terrestre
cresceram de forma exponencial, trazendo a cultura do descarte e
da substituição de bens, acompanhada de um rápido crescimento
populacional. O conceito de desenvolvimento econômico passa a ser
definido como:
O processo de acumulação constante de capital e incorporação do
progresso técnico ao trabalho e ao capital, que leva ao aumento
sustentado da produtividade e/ou renda por habitante, sendo
consequência dos salários e dos padrões de bem estar de uma sociedade
começa a ser transformado a partir do momento em que se diferencia nos
países o termo crescimento de riqueza. (BRESSER-PEREIRA, 2006, p. 1)
Figura 4 – Pilares da sustentabilidade
Fonte: adaptada de Santos et al. (2018, p. 114).
15
Após a definição do conceito de desenvolvimento sustentável, a
qualidade de vida, anteriormente ligada à obtenção de bens, começa a
ser substituída por medições mais abrangentes e amplas, que levam em
consideração o nível de felicidade e de satisfação da população em viver
em determinado país. Isso inclui um índice capaz de mensurar a relação
de bem-estar que a população apresenta ao fazer parte do ambiente em
que habita e de uma comunidade que apoia e respeita as necessidades
de seus membros.
Ao final desta aula, conhecemos os principais movimentos mundiais
que levaram aos primeiros debates sobre as problemáticas ambientais,
culminado na criação do conceito de desenvolvimento sustentável, e as
discussões em pauta nos últimos anos nas plenárias mundiais. Assim,
é possível perceber como a intensidade do consumo de bens e serviços
está ligada intimamente com a pressão do equilíbrio ecossistêmico
global e a exploração de recursos, deixando, ao mesmo tempo, clara a
responsabilidade das empresas em produzir e comercializar produtos
que não impactem negativamente o ambiente que compartilhamos.
Referências Bibliográficas
BENITES, L. L. L.; POLO, E. F. A sustentabilidade como ferramenta estratégica
empresarial: governança corporativa e aplicação do Triple Bottom Line na
Masisa. Revista de Administração da Universidade Federal de Santa Maria,
Santa Maria, v. 6, p. 827-841, 2013.
BRESSER-PEREIRA, L. C. O conceito histórico de desenvolvimento econômico.
São Paulo: EESP/FGV, 2006. [Texto para discussão n. 157].
CMMAD. Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Nosso
futuro comum. Tradução de Our common future. 2. ed. Rio de Janeiro: Fundação
Getúlio Vargas, 1991.
FIA. Fundação Instituto de Administração. Acordo de Paris: o que é, como surgiu e
tratados ambientais. 2020. Disponível em: https://fia.com.br/blog/acordo-de-paris/.
Acesso em: 30 set. 2020.
INSTITUTO GESC. A ONU e o meio ambiente. 2019. Disponível em: https://fiaigesc.
fia.com.br/a-onu-e-o-meio-ambiente/. Acesso em: 15 set. 2020.
16
MARQUES, F. A voz dos cientistas na Rio + 20: como a pesquisa brasileira pode
contribuir para as decisões da Conferência sobre Desenvolvimento Sustentável.
Pesquisa FAPESP, [s.l.], n. 193, p. 19-25, mar. 2012.
MEADOWS, D. H. et al. The limits to growth. New York Times, Nova York, v. 102, n.
1972, p. 27, 1972.
MOTA, A. J. et al. Trajetória da Governança Ambiental. IPEA regional e urbano, [s.l.],
v. 1, p. 1-10, dez. 2008.
ONU. Nações Unidas Brasil. A ONU e o Meio Ambiente. [s.d.]. Disponível em:
https://brasil.un.org/pt-br/91223-onu-e-o-meio-ambiente. Acesso em: 30 set. 2020.
SANTOS, B. P. et al. Indústria 4.0: desafios e oportunidades. Revista Produção e
Desenvolvimento, [s.l.], v. 4, n. 1, p. 111-124, 2018.
UN. United Natios. Report of the United Nations Conference on the Human
Environment. 1972. Disponível em: https://brasil.un.org/sites/default/files/2020-09/
aconf48-14r1.pdf. Acesso em: 30 set. 2020.
17
Definições de Responsabilidades
Social e Ambiental das Empresas
Autoria: Ana Carolina de Moraes Luccarelli
Leitura crítica: Juliana Fontes Lima Collaço
Objetivos
• Entender o sentido de responsabilidade no âmbito
empresarial, a construção do tema, sua importância
e sua evolução.
• Conhecer os diferentes estágios da evolução da
temática no Brasil e no mundo.
• Conhecer a diferença entre filantropia e
compromisso social.
• Conhecer o Pacto Global, principal ação coordenada
para estimular o desenvolvimento social.
18
1. Qual a responsabilidade das empresas na
sociedade?
A dinâmica social mundial tem mudado tão rápido quanto a tecnologia;
e tão repentinamente quanto o clima. Os consumidores estão cada vez
mais conscientes de seu poder em alterar a forma com que os negócios
acontecem. As indústrias e o comércio têm um lugar estabelecido no
mundo e não se pode mais ignorar a responsabilidade de suas ações na
sociedade.
A globalização uniu e evidenciou as diferenças entre as civilizações e
levantou debates internacionais sobre a forma de produção e consumo
de bens em cada país. Assim, desde o século XXI, não basta uma
empresa oferecer apenas seus produtos e serviços com qualidade, bom
preço e rapidez, é necessário que trabalhe de forma ética, preocupada
com seus impactos no planeta e na sociedade, deixando um legado
positivo compartilhado pelos seus clientes.
Ao comprar um produto ou um serviço, o cliente se torna
corresponsável pelas consequências do consumo, visto que, se não
existisse a demanda, não haveria a necessidade de produção. Portanto,
por tornar-se um “investidor” da marca, o cliente exige que seu
investimento retorne para o mundo de forma positiva.
Foi nesse contexto que surgiram os termos Responsabilidade Social
Empresarial e Responsabilidade Ambiental. Vamos entender mais sobre
o assunto?
1.1 A importância da responsabilidade social
empresarial e suas definições
Alguns conceitos têm invadido as telas e mentes dos consumidores:
minimalismo, moda sustentável, upcycling... Eles se referem ao consumo
19
consciente e responsável; assim, ou as empresas se adaptam ou ficam
fora do mercado. A preocupação dos clientes inclui incentivar empresas
que se preocupam com seus funcionários, agindo conforme a legislação,
as boas práticas comerciais, o meio ambiente e a comunidade ao redor.
As empresas têm percebido a necessidade de passar segurança e
confiança para seu consumidor. Dessa forma, aplicam estratégias de
negócio que passam a conquistar cada vez mais clientes e mercados ao
apresentarem uma postura correta diante dos problemas ambientais e
ao proporcionarem um ambiente saudável para seus trabalhadores e
para a comunidade dentro e fora da organização (IUS NATURE, 2019).
Essa forma de gestão de negócios de responsabilidade social
empresarial se caracteriza cada vez mais por uma gestão socialmente
responsável e ecologicamente correta, baseada na atuação de
gestores responsáveis. Assim, tem-se a consciência de que essas
ações contemplam também o interesse comum e, por isso, devem ser
difundidas ao longo do processo produtivo, incluindo seus fornecedores.
As vantagens para a organização são, entre outras, uma melhor
reputação e um reconhecimento de mercado.
Ademais, nos últimos anos houve a invasão de questões ambientais
no mundo dos negócios e foi mostrada sua capacidade de geração
de valor para os stakeholders, ou seja, para todos os interessados nas
ações e nas atividades da empresa (clientes, investidores, moradores
do entorno, governo etc.). As empresas, então, viram-se no momento
de incorporar a dimensão socioambiental (sociedade e meio ambiente)
em sua gestão, associando seus nomes a projetos com Organizações
Não Governamentais (ONG), incluindo certificações da International
Organization for Standardization (ISO) e divulgando relatórios de ações.
Os gestores se vêm no desafio de não banalizar as práticas para que
não seja apenas uma vitrine de exposição de ações ditas “sociais e
sustentáveis”, devendo, para isso, realmente inserir e integrar seus
projetos e suas ações socioambientais aos negócios (BORGER, 2013).
20
De acordo com o Business for Social Responsibility (BSR, 2001), as
empresas devem fazer o bem, pois, assim, há:
1. Aumento das vendas e de mercado.
2. Reforço do posicionamento da marca.
3. Atração de investidores e analistas financeiros.
4. Redução dos custos operacionais.
5. Melhoria de sua imagem e influência.
6. Atração, motivação e retenção de funcionários.
Dito tudo isso, qual o significado de responsabilidade social empresarial?
Ainda não existe um consenso, conforme explica Votaw (1973 apud
BUSCH; RIBEIRO, 2009), pois nem sempre todos têm o mesmo
entendimento do que é responsabilidade social, apesar de entenderem
que há um significado. Dessa forma, alguns entendem como
responsabilidade ou obrigação legal; outros, como um comportamento
no sentido ético; ou como ser “responsável por”; como uma contribuição
caridosa; e até mesmo no sentido de ser socialmente consciente.
Um dos preceitos principais da Responsabilidade Social Empresarial
(RSE) é a compreensão da existência do outro, é ter empatia por
ele e, assim, comprometer-se com a sociedade, compatibilizando
seus objetivos com o desenvolvimento sustentável, humano e
consequentemente a inclusão social. Isso é feito com base em
um sistema de gestão baseado em princípios e valores éticos
correspondentes à sociedade em que está inserido, comunicando
relações de reciprocidade e valorização de todas as partes envolvidas
no empreendimento. São “Decisões de negócios tomadas com base em
valores éticos que incorporam as dimensões legais, o respeito pelas
pessoas, comunidades e meio ambiente” (BSR, 2001).
A RSE nas empresas é ligada a uma gestão ética e transparente, que
leva em consideração as necessidades e opiniões dos stakeholders,
minimizando os impactos negativos no ambiente e na sociedade.
21
A “Responsabilidade Social nas Organizações é o compromisso de
melhorar o bem-estar da comunidade, por meio de práticas e de
contribuições voluntárias, com os recursos da empresa” (KOTLER;
HESSEKIEL; LEE, 2012).
O termo mais utilizado pelas empresas de grande porte é
Responsabilidade Social Corporativa (RSC), que é voltada para o público
interno, o ambiente de negócios com seus funcionários. Já a RSE é um
conceito amplo e utilizado para se referir não somente ao ambiente
interno da empresa como aos seus impactos na comunidade local.
Das duas formas, ela usa seu gerenciamento para tornar seu negócio
humanizado, educando seus colaboradores e fortalecendo aspectos
éticos, cidadania e diretos humanos (CHILDFUND, [s.d.]).
1.2 Conceito histórico
A história da responsabilidade social empresarial teve início nos EUA,
baseada em pensamentos religiosos do início do século XX. Nessa época,
alguns princípios religiosos foram aplicados às atividades empresariais
(LANTOS, 2001, p. 6 apud BUSCH; RIBEIRO, 2009), como o princípio da
caridade, no qual os mais riscos deveriam assistir os mais pobres, e
o princípio do gerenciamento, no qual os homens de negócio eram
vistos como responsáveis pelos recursos econômicos da sociedade, e
não apenas de seus acionistas, devendo, dessa forma, esses recursos
ser utilizados para o benefício da sociedade no geral. Essa ação era
filantrópica, ou seja, apenas doações assistenciais aos que necessitavam.
Foi na publicação do livro de Howard Bowen, em 1953, intitulado
Responsabilidades sociais do homem de negócios, que a responsabilidade
social foi citada pela primeira vez, como: “Ela refere às obrigações que o
homem de negócios tem de alinhar suas políticas, decisões ou linhas de
ação aos valores e objetivos almejados pela sociedade” (BOWEN, 1953
apud CARROLL, 1999). Assim, conforme as empresas norte-americanas
22
foram crescendo, nas décadas de 1960 e 1970, e a população passava
por problemas como pobreza, desemprego e aumento da população,
o conceito de RSE foi difundido, visto que havia pressão para que as
empresas assumissem suas responsabilidades na sociedade.
Foi na década de 1960 que várias definições surgiram, tentando traduzir
o significado de RSE. Keith Davis (1975) definiu que “seriam as decisões e
ações da empresa indo além de seus interesses técnicos e econômicos”,
pois assim a organização teria retorno econômico em longo prazo
devido a sua atitude.
Nesse período, as ações ainda eram consideradas informais, uma
contradição à economia, sendo até ridicularizadas (LYDENBERG, 2005
apud CORTEZ; BELLEN; ZARO, 2014), e, por isso, só foram realmente
incorporadas a partir da década de 1970, quando surgiram termos como
responsividade social empresarial e performance social empresarial.
Na década de 1980, houve um aumento das pesquisas acerca do tema
e o surgimento de diversa teorias e de conceitos derivados, como ética
nos negócios, responsividade social empresarial, performance social
empresarial, políticas públicas, teoria da administração, entre outros
(BUSCH; RIBEIRO, 2009), chegando ao final da década de 1990 como
uma ideia universalmente aceita e promovida em todos os setores da
sociedade.
Porém, foi na década de 1990 que o termo ganhou corpo, e a ação foi
amplamente aderida pelas empresas, tornando-se parte de diretrizes
estratégicas. Antes de tudo é importante entender o contexto em
que se deu essa ação no Brasil. Na época, o país passava por grandes
mudanças, como a redemocratização, a abertura econômica e a criação
da Constituição Federal de 1988. A discussão da RSE em um país como
o Brasil era importante, devido aos problemas sociais enfrentados pela
população, os quais já não podiam mais ser ignorados. Da mesma forma
que as empresas têm responsabilidade pelos problemas sociais, elas
23
podem ser ferramenta que proporcionam a solução (BUSCH; RIBEIRO,
2009).
As empresas conseguem atuar em locais em que o Estado é deficitário,
em questões como miséria e exclusão social, sem que tomem para
si a função dos governantes. Por isso, desempenham o papel de
articuladoras de ações entre os setores, contribuindo para melhores
resultados no enfrentamento de demandas sociais. Segundo Kotler,
Hessekiel e Lee (2012), é possível dividir a RSE em duas abordagens:
abordagem tradicional e nova abordagem (Figura 1).
Figura 1 – Diferentes pesos das abordagens: tradicional e nova
Fonte: elaborada pela autora.
A abordagem tradicional compreende o período anterior à década de
1990, quando dominava o pensamento de “fazendo o bem para parecer
24
bom”, sendo orientada para a filantropia, no cumprimento de uma
obrigação, com destinação de verba fixa ao máximo de organizações
sociais possíveis, o que variava conforme a receita ou o lucro anual. Os
compromissos eram de curto prazo e deviam evitar remeter ao nicho
empresarial da doadora, para não servir aos interesses próprios. Eram a
diretoria e o conselho da empresa que decidiam onde e como doar, sem
que houvesse integração com departamentos de marketing, RH ou de
operações, não mensurando, assim, o retorno das ações.
A nova abordagem, que passou a vigorar após a década de 1990,
promovia também os objetivos da empresa, com o pensamento de
“fazendo o certo e fazendo o bem”. As abordagens passaram a ser
estratégicas e de longo prazo, atuando em questões relacionadas ao
mercado e ao produto da empresa, fazendo o máximo possível para
fazer o bem. Ao mesmo tempo, as ações passaram a ser integradas
às áreas e aos stakeholders, mensurando criticamente o retorno do
bem que foi feito, a fim de corrigir as ações, e relatando publicamente
dados confiáveis (Quadro 1). Dessa forma, os benefícios podem ser
mensurados e divulgados em plataformas digitais (KOTLER; HESSEKIEL;
LEE, 2012).
Quadro 1 – Diferenças entre filantropia e compromisso social
Filantropia Compromisso Social
As motivações são humanitárias. Atuação social para além de
motivações altruístas, entendida
como responsabilidade.
A participação é reativa e as A participação é proativa e as
ações são isoladas. ações são mais integradas.
A relação com o público-alvo é A relação com o público-alvo é de
de demandante e doador. parceria, interdependência, compromisso
e partilha de responsabilidades.
Não há preocupação em associar a Busca-se dar transparência à atuação
imagem da empresa à ação social. e multiplicar as iniciativas sociais.
Não há preocupação em Relação de parceria com o Estado, para
relacionar-se com o Estado. repartir responsabilidades e ampliar
o alcance das ações de controle.
25
Os resultados resumem-se à Os resultados são preestabelecidos; há
gratificação pessoal de poder ajudar preocupação com o cumprimento dos
objetivos propostos; são elaborados
projetos estruturados, comprometendo-
se com sua continuidade.
A ação social decorre de uma A ação social vai além de uma
opção pessoal dos dirigentes. opção individual dos dirigentes; é
incorporada à cultura na empresa, e os
compromissos sociais são assumidos
publicamente e divulgados. A participação
social é incorporada aos valores e
à missão institucional da empresa,
partilhada com os funcionários.
Fonte: adaptado de Reis (2007).
1.3 Responsabilidade Ambiental Empresarial
Muitas vezes a RSE é entendida como desenvolvimento sustentável.
Portanto, é preciso diferenciar o conceito de desenvolvimento
sustentável, que teve início com a preocupação com os problemas
ambientais e acabou envolvendo as dimensões sociais e econômicas,
incluindo a responsabilidade social empresarial, na década de 1990, da
evolução do conceito de responsabilidade social, que teve sua origem
baseada nas questões éticas das relações entre empresa-sociedade e
filantropia (BORGER, 2013).
A responsabilidade ambiental empresarial (RAE) ganhou papel de
destaque quando a sociedade passou a ficar mais atenta aos problemas
globais enfrentados, como as mudanças climáticas e os impactos
ambientais. Juntamente com a pressão da sociedade para a atenção
a esses problemas, o governo criou leis de proteção ambiental, e as
empresas passaram a ser alvo da regulação, sendo responsabilizadas
pelos possíveis danos causados por suas atividades. Assim, a RAE
começou a ganhar espaço e importância nas agendas políticas
internacionais, pois, apesar de serem importantes para o crescimento
econômico, também são responsáveis por grande parte da degradação
26
ambiental, sendo, por isso, necessário estimular o crescimento
econômico de forma sustentável e responsável, o que se tornou um
dos pilares do RSE, como uma parte adicional desta.
No entanto, não é sempre que há distinção entre a RSE e a era. Os
autores Heslin e Ochoa (2008), por exemplo, dividem a RSE em duas:
• Sustentabilidade ambiental: a que utiliza as informações
científicas para reduzir a pegada ambiental das operações e dos
produtos de uma organização.
• Sustentabilidade humana: a que utiliza a atenção aos
stakeholders, como criar um ambiente de trabalho equitativo
e saudável para seus funcionários, agregando valor aos
fornecedores, aos clientes e a outros membros da comunidade.
Ao aceitar o desafio de fazer ajustes para se tornar uma empresa
ambientalmente responsável, tendo ações para evitar a degradação
do ambiente, a poluição e a exploração excessiva de recursos,
surge o desafio de garantir o lucro e adotar métodos e práticas
ambientalmente responsáveis. O cerne da RAE é minimizar o impacto
de todas as partes envolvidas e reduzir o desperdício de recursos
de todos os processos, incluindo voluntariamente as preocupações
ambientais na estratégia de negócio.
2. Ações Globais
Uma das principais ações de RSE é o Pacto Global, criado em 2000 por
Kofi Annan, então secretário-geral das Nações Unidas, e sediado em
Nova York. Seu objetivo é desenvolver ações que contribuam para o
enfrentamento dos desafios da sociedade, com o trabalho de 14 mil
27
membros em 70 redes locais distribuídos em 160 países, tornando-se
a maior iniciativa de sustentabilidade corporativa do planeta (PACTO
GLOBAL, 2020).
O Pacto Global não é um instrumento regulatório, um fórum de
análise de política e práticas gerenciais ou um código de conduta
obrigatório, mas sim uma iniciativa voluntária que fornece as
diretrizes para a promoção do desenvolvimento sustentável,
lideradas por corporações inovadoras e comprometidas.
De acordo com Kofi Annan, ao disseminar boas práticas empresariais,
inicia-se um processo rápido de mudança profunda da gestão
mundial de negócios, visto que os integrantes do Pacto Global
assumem a responsabilidade de auxiliar no alcance da agenda global
de sustentabilidade, a Agenda 2030, que tem como pilares os 17
Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) (PACTO GLOBAL,
2020).
3. Os dez princípios universais
O Pacto Global (2020) convida as empresas a alinharem suas
estratégias e operações aos dez princípios universais, que são
voluntários e gratuitos e se baseiam na Declaração Universal de
Direitos Humanos; na Declaração da Organização Internacional do
Trabalho sobre Princípios e Direitos Fundamentais no Trabalho; na
Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento; e na
Convenção das Nações Unidas Contra a Corrupção. Os princípios e
suas descrições podem ser consultados no Quadro 2.
28
Quadro 2 – Os princípios universais e suas definições
Princípio Símbolo Princípio Símbolo
As empresas devem
apoiar e respeitar a
Eliminar a discriminação
proteção de direitos
no emprego.
humanos reconhecidos
internacionalmente.
Assegurar-se de sua não Apoiar uma abordagem
participação em violações preventiva aos desafios
desses direitos. ambientais.
Apoiar a liberdade
Desenvolver iniciativas
de associação e o
para promover maior
reconhecimento efetivo do
responsabilidade ambiental.
direito à negociação coletiva.
Incentivar o
Eliminar todas as formas
desenvolvimento e a
de trabalho forçado
difusão de tecnologias
ou compulsório.
ambientalmente amigáveis.
Combater a corrupção
Abolir efetivamente o
em todas as suas formas,
trabalho infantil.
inclusive extorsão e propina.
Fonte: adaptado de Pacto Global (2020).
O relatório publicado pelo Pacto Global (2020) mostra que 92% das
empresas que aderiram ao ele incluíram práticas e politicas relacionadas
aos direitos humanos; 80% incorporaram princípios dentro dos códigos
corporativos; 53% oferecem treinamentos sobre diretos humanos; e 72%
relatam que foi por meio do Pacto Global que perceberam a importância
de abordar o tema. Sobre políticas de não discriminação, 85% contam
com políticas de igualdade de oportunidade e garantia de condições de
trabalho seguras; e 62% indicaram que o Pacto Global foi fundamental
para mostrar a importância do tema (PACTO GLOBAL, 2020).
Na relação com o meio ambiente, 78% das empresas participantes
afirmaram ter consumo sustentável e objetivos de uso responsável.
Ademais, um quarto delas diz integrar totalmente as questões de água,
29
alterações climáticas, energias renováveis e operações, enquanto
metade indica que o Pacto Global foi essencial para indicar o impacto da
abordagem no tema (PACTO GLOBAL, 2020).
Com relação ao combate à corrupção, 82% das empresas que compõem
o Pacto Global indicaram integram o princípio ao seu código corporativo;
e dois terços relataram ter políticas de tolerância zero em relação à
corrupção. Ao final, 62% das empresas indicam que o Pacto Global teve
papel essencial na indicação do impacto que as levaram a abordar o
tema (PACTO GLOBAL, 2020).
Ao utilizar todos os princípios universais em suas atividades, a
organização se inclui como participante do Pacto Global e como
responsável social e ambientalmente, além de compartilhar os valores
das boas práticas de governança empresarial, estimulando atitudes
éticas.
Ao final deste Tema, podemos entender as diferentes definições de RSE
e como foi a evolução do termo, das atividades ao longo do tempo e da
visão de negócios. Uma empresa considerada responsável amplia seu
olhar para propiciar melhores condições de vida para a comunidade do
entorno e para seus trabalhadores, buscando diminuir seus impactos no
meio ambiente e agindo como ferramenta de melhoria da sociedade.
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31
Instrumentos e ferramentas do
RSE
Autoria: Ana Carolina de Moraes Luccarelli
Leitura crítica: Juliana Fontes Lima Collaço
Objetivos
• Conhecer os principais instrumentos de
Responsabilidade Social Empresarial (RSE).
• Entender o funcionamento e os objetivos da norma
certificadora de RSE e as aplicações voluntárias.
• Conhecer a importância dos instrumentos que
comunicam aos stakeholders as ações e atividades
sociais empresariais.
32
1. Instrumentos de RSE
Os debates sobre a responsabilidade social corporativa no mundo
aconteceram com grande frequência nas décadas de 1970, 1980 e 1990,
período em que houve transformação social, política e econômica nos
países, como a decadência do Estado de bem-estar social, o aumento
da escolaridade, a criação de novas mídias, o avanço tecnológico, a
globalização, que facilitou a comunicação entre as sociedades, além dos
crescentes problemas ambientais (FERREIRA; GEROLAMO, 2016).
Vale lembrar que nos anos 1960, o mundo passava por um processo
acelerado de industrialização e os dejetos das indústrias eram lançados
longe da fonte poluidora. Naquela época, os empresários entendiam
que os danos ambientais causados por suas atividades deveriam ser
assumidos pela sociedade, objetivando o desenvolvimento econômico.
A partir dos anos 1970, iniciou-se a busca por uma nova relação entre
o meio ambiente e o desenvolvimento econômico, implantando ações
governamentais com caráter corretivo, mas de baixa eficiência, ou seja,
a poluição gerada pelas indústrias era controlada e remediada após
a geração, da mesma forma que a legislação era cumprida somente
quando havia obrigação. Foi apenas na década de 1990, após a Rio 92,
que se deu início à construção de estratégias para prevenir e evitar a
geração de poluição (FERREIRA; GEROLAMO, 2016).
Nesse cenário, a Responsabilidade Social Corporativa ganhou
instrumentos e ferramentas para auxiliar as organizações a terem um
comportamento ético e transparente de acordo com as legislações
aplicáveis e as normas internacionais de comportamento, considerando
o desenvolvimento sustentável e os aspectos socioambientais em seus
processos decisórios, de forma a responsabilizarem-se pelos impactos
causados por suas decisões e atividades na sociedade e no meio
ambiente. A responsabilidade social deve ser integrada em todas as
33
áreas da organização e nas relações com as partes interessadas, levando
em consideração seus interesses (DA CRUZ RAULINO; MEIRA, 2020).
Vamos conhecer alguns desses instrumentos?
1.1 ABNT NBR 16001:2012
A Norma Brasileira 16001 foi lançada em 2004 e revisada em 2012 e
tem como função orientar a implementação de um Sistema de Gestão
da Responsabilidade Social. É passível de certificação e foi criada
pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) com base na
International Organization for Standardization (ISO) (ABNT, 2012). Ela
parte da legislação aplicável, orientando para compromissos éticos
e transparentes com a cidadania e as relações com os stakeholders
e visando possibilitar o desenvolvimento sustentável. Para tanto,
seus objetivos contemplam: boas práticas de governança; combate à
pirataria, sonegação, fraude e corrupção; práticas leais de concorrência;
combate ao trabalho infantil; direitos dos trabalhadores; promoção da
saúde e segurança; padrões sustentáveis de produção, desenvolvimento,
consumo e distribuição; proteção ao meio ambiente; e ações sociais,
conforme veremos em mais detalhes a seguir (ABNT, 2012).
A ABNT NBR 16001:2012 é uma ferramenta de gestão que atende à
crescente demanda dos consumidores por ações éticas e responsáveis
das empresas, oferecendo uma certificação que a respalde. Ela utiliza o
método de gestão PDCA (do inglês: PLAN–DO–CHECK–ACT ou Adjust) como
ferramenta para o planejamento, o objetivo e as metas, que são os
compromissos propostos para garantir a implementação do sistema de
gestão de Responsabilidade Social Empresarial (RSE):
• Melhorar a prática de governança corporativa.
• Combater as fraudes, a sonegação de impostos, a corrupção e a
pirataria.
34
• Praticar concorrência de forma leal.
• Assegurar os diretos das crianças e dos adolescentes; combater o
trabalho infantil, pois lugar de criança é na escola.
• Combater a discriminação racial, cultural, de portadores de
necessidades e de idade, promovendo a diversidade.
• Assegurar os direitos adquiridos dos trabalhadores, sem exceção,
com remuneração e benefícios justos e combate ao trabalho
escravo, pois todos têm direito de ir e vir.
• Comprometer-se com o desenvolvimento intelectual e profissional
dos colaboradores.
• Assegurar o direito à saúde e à segurança do cidadão.
• Promover padrões de desenvolvimento sustentável nos requisitos
de produção, distribuição e consumo, sempre pensando nos
fornecedores, nos colaboradores, na comunidade, nos acionistas,
entre outros.
• Proteger as novas gerações e o meio ambiente, promovendo ações
sociais com a comunidade (DA ROCHA; MOLEDO, 2017).
1.2 NBR ISO 26000:2010
Internacionalmente, a Norma ISO 26000 (INMETRO, 2010) define as
Diretrizes sobre a Responsabilidade Social. Em 2004, o Brasil publicou
a ABNT NBR 16001 (ABNT, 2012) e sua atualização foi baseada na ISO
26000. Sua aplicação é voluntária, não objetiva a certificação e define
responsabilidade social como a responsabilidade que a organização tem
pelos impactos das suas atividades na sociedade e no meio ambiente,
estimulando o comportamento ético e transparente, de forma que:
35
• Contribua para o desenvolvimento sustentável, incluindo saúde e
bem-estar da sociedade.
• Leve em consideração as expectativas das partes interessadas.
• Esteja em conformidade com as legislações.
• Esteja integrada em toda a organização e seja praticada em suas
relações (INMETRO, [s.d.]).
A norma inclui orientações para organizações de pequeno, médio
e grande porte. Para identificar as questões relevantes para elas e
assim priorizá-las, é necessário abordar os temas de governança
organizacional, direitos humanos, práticas de trabalho, meio ambiente,
práticas leais de operação, questões relativas ao consumidor e
envolvimento e desenvolvimento da comunidade (INMETRO, [s.d.]).
A ISO 26000 (INMETRO, 2010) orienta para sete temas da
responsabilidade social, esclarecendo sobre os conceitos, os termos e as
definições. Assim:
• Responsabilidade.
• Transparência.
• Comportamento ético.
• Consideração pelas partes interessadas.
• Legalidade.
• Normas Internacionais.
• Direitos humanos.
36
Como benefícios da implantação dessa ISO, temos: melhoria na
gestão de riscos e crises; melhoria na imagem da empresa diante da
sociedade, dos clientes e dos fornecedores; aumento de credibilidade; e
transparência.
Qual seria a diferença entre a NBR ISO 26000 e a NBR 16001? A primeira
fornece orientações e diretrizes, enquanto a segunda é uma norma
de requisitos obrigatórios para quem deseja obter a certificação. O
Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (INMETRO)
é o órgão responsável por definir os procedimentos de certificação e
realizar o reconhecimento formal dos órgãos auditores e de certificação.
É importante lembrar que tanto a responsabilidade social quanto
o desenvolvimento sustentável se relacionam amplamente com
os processos gerenciais das organizações, e, por isso, ao optar por
incorporar a norma, a organização comunica como está comprometida
na adoção das diretrizes propostas.
1.3 Balanço Social
De acordo com Kroetz (2000), o balanço social é um relatório publicado
anualmente para avaliar as ações da empresa, sendo, assim, um
instrumento gerencial que analisa os dados qualitativos e quantitativos
de uma organização, identificando problemas e oportunidades de
forma a auxiliar na tomada de decisão para estratégias ou precauções
a serem tomadas. Seu objetivo é reunir as informações da organização
e comunicá-las aos investidores e acionistas interessados. Iudícibus,
Martins e Gelbcke (2000), trazem que o instrumento tem por objetivo
a “evidenciação do que a empresa faz em termos de benefícios sociais
como interações com entidades assistenciais e filantrópicas, preservação
de bens culturais, educação de necessitados.”
Ao elaborar um balanço social, deve-se levar em consideração as
ações desenvolvidas que beneficiam não somente o público interno da
37
empresa, sendo, por isso, comum lançar essas publicações junto com os
demais demonstrativos contábeis. O Instituto Ethos esclarece que o ele
é uma forma de possibilitar a transparência das atividades corporativas
por meio de um levantamento dos indicadores empresariais de
desempenho econômico, social e ambiental. Além disso, aumenta o
diálogo com o público interessado em todos os setores: acionistas,
consumidores, clientes, comunidade vizinha, funcionários, fornecedores,
governo, organizações não governamentais, mercado financeiro e a
sociedade em geral (INSTITUTO ETHOS, 2007).
O Quadro 1 a seguir resume os usuários do balanço social, ou seja, o
público interessado nas ações da empresa, os chamados stakeholders, e
as metas a serem atendidas para cada um deles:
Quadro 1 – Usuários do balanço social
Usuários Metas relevantes
Produtos mais baratos e com qualidade; recebimento
Clientes
de produtos em dia; cortesia no atendimento.
Fornecedores Parceria; segurança no recebimento; continuidade.
Geração de caixa; salários adequados;
Colaboradores incentivos à promoção; produtividade; valor
adicionado; segurança no emprego.
Investidores potenciais Custo de oportunidade; rentabilidade; liquidez da ação.
Retorno sobre o patrimônio líquido; retorno sobre o ativo;
Acionistas controladores
continuidade; crescimento no mercado; valor adicionado.
Acionistas minoritários Fluxo regular de dividendos; valorização da ação; liquidez.
Retorno sobre o patrimônio líquido; valor patrimonial
Gestores
da ação; qualidade; produtividade; valor adicionado.
Governo Lucro tributável; valor adicionado; produtividade.
Contribuição social; preservação do meio
Vizinhos
ambiente; segurança; qualidade; cidadania.
Fonte: adaptado de Ferraz e Scudeler (2009, p. 35).
Além disso, é possível utilizar o balanço social como uma ferramenta de
autoavaliação, visto que a empresa consegue visualizar o status geral
38
sobre a sua gestão atual e como está o alinhamento de seus valores e
objetivos com relação aos resultados atuais.
1.4 Governança Corporativa
Por governança corporativa entende-se os conjuntos de regras e
atividades que definem a forma de operação empresarial, como um
meio de estabelecer a harmonia entre os executivos e os acionistas das
empresas, visto que, em muitos casos, há abuso de poder dos acionistas
majoritários e pouca participação dos minoritários. A constituição de um
conselho de administração também é um ponto de conflito, pois pode
apresentar baixa eficiência, conflito de interesses e falta de critérios para
eleição dos diretores. Assim, a aproximação da gestão e da propriedade
é feita com a adoção de boas práticas de governança. (DE JESUS;
DALONGARO, 2018).
Por meio dela, há a garantia de que as decisões sejam tomadas
de forma eficaz, seguindo a eficiência operacional e maximizando
resultados. A governança corporativa pode ser definida como: “um
conjunto de práticas que têm por finalidade otimizar o desempenho
de uma companhia, protegendo investidores, empregados e credores,
facilitando, assim, o acesso ao capital” (FIORINI; ALONSO JUNIOR;
ALONSO, 2016). De forma geral, pode ser definida como o conjunto
de mecanismos que fazem com que as decisões corporativas sejam
tomadas a fim de maximizar a geração de valor de longo prazo para um
negócio, possibilitando o retorno de todos os acionistas.
Os benefícios empresariais podem ser divididos entre externos e
internos. Os primeiros estão relacionados à maior facilidade de
captação de recursos, com redução do custo de capital; enquanto os
segundos estão vinculados ao aprimoramento do processo decisório
na alta gestão. O menor custo capital se dá pelo menor risco que uma
empresa com boa governança oferece, tornando-se, consequentemente,
39
mais atraente aos investidores. É importante lembrar os custos que
a implantação do sistema de governança corporativa traz, como:
implementação de processos mais bem estruturados; elaboração
de relatórios financeiros mais sofisticados; sistema de remuneração
adequado para conselho de administração e executivos; entre outros
(DE JESUS; DALONGARO, 2018).
O Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) (2015), fundado
em 1995, publicou em sua 4ª edição do código de boas práticas de
governança corporativa os quatro princípios básicos da área:
• Transparência: refere-se à obrigação, ou desejo, da empresa
de disponibilizar às partes interessadas informações que
lhes interessem, resultando em um clima de confiança, tanto
internamente como em relação a terceiros.
• Equidade: é caracterizada pelo tratamento justo e equitativo de
todos os parceiros e de outras partes interessadas. Qualquer tipo
de discriminação é totalmente inaceitável.
• Prestação de contas: todos os envolvidos nas atividades
relacionadas à governança (conselho de administração, conselho
fiscal, auditores) devem ser responsáveis por suas ações,
assumindo suas consequências e omissões.
• Responsabilidade corporativa: está relacionada à ética. A empresa
deve, além de respeitar as leis de seu país, ter uma definição clara
de seus valores e princípios éticos, devendo, por isso, garantir a
sustentabilidade da empresa, com vistas à sua longevidade (IBGC,
2015).
1.5 Índice de Sustentabilidade Empresarial
O Índice de Sustentabilidade Empresarial se estabeleceu como uma
referência perante o mercado em práticas responsáveis, possibilitando
40
o fortalecimento do canal de comunicação entre as entidades e os
investidores e gerando benefícios tangíveis e intangíveis, além de
transparência proativa, ou seja, aquela que é feita de forma voluntária,
sem que seja obrigado, para seus membros (HAYASHI, 2020). Ele foi
lançado em 1º de dezembro de 2005 pela Bolsa de Valores de São Paulo
(BOVESPA), em conjunto com a Associação Brasileira das Entidades
Fechadas de Previdência Complementar (ABRAPP); Associação Nacional
dos Bancos de Investimento (ANBID); Associação dos Analistas e
Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais (APIMEC);
Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC); International
Finance Corporation (IFC), Instituto Ethos; e Ministério do Meio Ambiente.
A B3 é a bolsa de valores brasileira que integra diversos índices,
como Ibovespa, IBrX-50 e Itag, e, a partir de 2005, criou o Índice de
Sustentabilidade Empresarial (ISE), fornecendo um ambiente de
investimento compatível com as demandas de desenvolvimento
sustentável e estimulando a responsabilidade ética das corporações.
Dessa forma, torna-se uma ferramenta analítica corporativa de
performance em sustentabilidade das empresas listadas, reunindo em
seu questionário sete dimensões:
• Geral: nos critérios e indicadores de compromisso, alinhamento,
transparência e corrupção.
• Governança corporativa: com os critérios de propriedade, conselho
de administração, auditoria e fiscalização, conduta e conflito de
interesses.
• Social: nos critérios de política, gestão, desempenho e
cumprimento legal.
• Econômico-financeiro: nos critérios de política, gestão,
desempenho e cumprimento legal.
41
• Ambiental: nos critérios de política, gestão, desempenho e
cumprimento legal.
• Mudanças climáticas: nos critérios de política, gestão, desempenho
e reporte.;
• Natureza do produto: nos critérios de impactos pessoais, impactos
difusos, princípio da precaução e informação ao consumidor
(HAYASHI, 2020).
A metodologia de análise foi desenvolvida pela Fundação Getúlio
Vargas (FGV) e as empresas interessadas em participar respondem
voluntariamente a um questionário e apresentam as comprovações das
respostas por meio dos documentos corporativos (ISE, 2015). A partir
dos resultados da análise, é emitido o relatório de sustentabilidade da
B3, que mostra os resultados principais em:
• Bom desempenho socioambiental: influencia positivamente o
desempenho financeiro (retorno sobre o patrimônio e sobre os
ativos).
• Empresas da carteira ISE (avaliadas nesse índice): apresentam
valor de mercado de 10% a 19% maior do que o grupo de controle
correspondente.
• Iniciativas voluntárias: envolvem compartilhamento de
conhecimento, entre outros (ISE, 2015).
Dessa forma, o objetivo do ISE é:
refletir o retorno de uma carteira composta por ações de empresas
com reconhecido comprometimento com a responsabilidade social e a
sustentabilidade empresarial e, também, atuar como promotor das boas
práticas no meio empresarial brasileiro. (ISE, 2015)
42
Além dos conceitos do Triple Bottom Line, o ISE inclui mais três
indicadores: governança corporativa, características gerais e natureza
do produto. Assim, para ser parte do Índice, as ações precisam atender
cumulativamente aos seguintes critérios:
• ser uma das 150 ações com maior índice de negociação nos 12 meses
anteriores à avaliação;
• ter sido negociada em pelo menos 50% dos pregões ocorridos nos doze
meses anteriores à formação da carteira;
• atender aos critérios de sustentabilidade estabelecidos pelo conselho
do ISE. (MACHADO; MACHADO; CORRAR, 2009)
As empresas listadas são excluídas caso:
• a empresa emissora entrar em regime de recuperação judicial ou
falência;
• no caso de oferta pública que resultar em retirada de parcelas
significativas de suas ações do mercado;
• se ocorrer evento que venha a afetar significativamente seus níveis de
sustentabilidade e responsabilidade social;
• se quando da revisão não atenda aos critérios de sustentabilidade ISE
(MACHADO; MACHADO; CORRAR, 2009).
No primeiro ano de medição, compreendido entre dezembro de 2005 e
novembro de 2006, participaram 28 empresas de 13 setores (Gráfico 1).
Elas apresentavam maior risco ambiental, sendo o mais predominante o de
energia elétrica, com 9 empresas com 32% da carteira; o setor financeiro
com 18% da carteira (médio impacto ambiental); o setor de papel e celulose
com 10% (alto impacto ambiental); o setor de material de transporte com
aproximadamente 11%; e os demais setores com aproximadamente 3,5%
da carteira cada (MACHADO; MACHADO; CORRAR, 2009).
43
Gráfico 1 – Risco ambiental por setor
Fonte: adaptado de Machado, Machado e Corrar (2009).
Assim, é possível compreender a importância que os instrumentos de
responsabilidade social empresarial tomaram ao longo dos anos, sendo
ferramentas importantes tanto para a gestão interna das empresas
como garantia para os investidores de que estas possuem princípios e
ações éticas.
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Responsabilidade social – Sistema da gestão. Rio de Janeiro: ABNT, 2012.
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45
Relatórios de Responsabilidade
Socioambiental – Relato Integrado
e GRI
Autoria: Ana Carolina de Moraes Luccarelli
Leitura crítica: Juliana Fontes Lima Collaço
Objetivos
• Explicitar a importância dos relatórios de
sustentabilidade, assim como os benefícios dessa
ferramenta para as empresas.
• Conhecer os indicadores do GRI, suas principais
aplicações, sua composição estrutural e seus
benefícios.
• Conhecer os indicadores do Relato Integrado, suas
principais aplicações, sua composição estrutural e
seus benefícios.
46
1. Os relatórios de sustentabilidade
empresarial
A evolução do posicionamento estratégico das empresas se dá conforme
a cobrança das partes interessadas por informações das ações de
minimização dos impactos causados pelas atividades empresariais.
Isso fez com que surgisse a necessidade de informar, de forma clara
e objetiva, como as organizações agiam em prol de temas comuns à
sociedade, trazendo juntamente com a comunicação a oportunidade de
oferecer vantagem competitiva no mercado.
Para que os registros das ações sejam feitos de forma uniforme,
seguindo uma mesma metodologia e possibilitando a comparação,
algumas instituições nacionais e internacionais foram responsáveis por
criar indicadores e modelos de relatórios que facilitassem a aplicação
em diversas organizações. Esses indicadores servem como “termômetro”
para que a organização possa entender como foi o seu desempenho
ambiental, social e econômico e, assim, concentrar suas ações em novas
estratégias de negócio para os anos seguintes.
Nesse sentido, vamos conhecer os dois tipos de relatórios que mais
comumente são utilizados na divulgação das ações de sustentabilidade
empresarial: o relato integrado (RI) e o relatório de sustentabilidade
(RS) no modelo Global Reporting Initiative (GRI). Ao final, iremos
compreender quais são suas diferenças e vantagens e veremos que
existe a possibilidade de uma mesma organização desenvolver os dois
tipos de relatórios, complementando a mensagem que se quer passar
ao mercado.
1.1 Relato Integrado (RI)
O RI é um documento originado a partir do modelo de Relato Integrado
(<IR>, no símbolo como ficou conhecido) que surgiu pela necessidade
47
de junção de componentes financeiros e não financeiros. As primeiras
discussões aconteceram em dezembro de 2009 no encontro entre o
Financial Accounting Standars Board (FASB), o International Accounting
Standards Board (IASB) e a Organização das Nações Unidas (ONU),
reunidos pela Accounting for Sustainability (A4S) e o Global Reporting
Initiative (GRI) (PEREIRA, 2016). O objetivo do encontro era a criação de
um relato que contemplasse a informação do negócio e que fosse aceito
universalmente.
Já em agosto de 2010, foi formada a primeira entidade responsável
pela criação das bases do relato integrado, designada pelo International
Integrated Reporting Council (IIRC), que era formada por entidades
reguladoras, empresas e investidores, além de profissionais de
contabilidade e organizações não governamentais (ONG) (MANTOVANI et
al., 2017).
Seguindo a linha do tempo, em setembro de 2011, foi criada a estrutura
conceitual; em maio de 2012, foi elaborado o resumo das propostas;
em julho de 2012, foi feito o contorno da estrutura; e, em novembro
de 2012, foi criado o primeiro protótipo de informação para o relato,
contendo abordagem para a responsabilidade social e empresarial. Em
2013, o modelo foi aberto para contribuições de stakeholders e foi criado
o conjunto de seis capitais. Dessa forma, o RI combina informações
qualitativas e quantitativas anuais sobre ações financeiras e sociais,
sendo os capitais um fundo de valor que aumenta ou diminui com o
desenvolvimento do negócio (MANTOVANI et al., 2017).
O IIRC traz a visão compartilhada de que a geração de valor é essencial
para elaborar os relatórios corporativos. Dessa forma, preocupados com
as inconsistências comuns nos relatórios de sustentabilidade e com a
dificuldade de integração das informações prestadas, foi analisado um
grande número de publicações a nível global, selecionando uma amostra
representativa das que se aproximavam ao ideal divulgado pelos
48
bancos, investidores e acionistas, ou seja, pelos fornecedores de capital
financeiro, formando o primeiro modelo do RI.
Assim, Pereira (2016) diz que a função do IIRC é:
desenvolver nos stakeholders a sensibilidade para a preparação e
utilização da informação, oferecer um modelo de relato integrado,
identificar áreas chave onde é necessária informação adicional, verificar se
as normas existentes deverão ser voluntárias ou obrigatórias, e difundir a
necessidade da adoção mundial do relato integrado. (PEREIRA, 2016, p. 21)
Dessa forma, o relato oferecerá oportunidade de conferir
sustentabilidade e estabilidade financeira, possibilitando a melhor
alocação de recursos financeiros. Ele visa explicar tanto os recursos
como os relacionamentos que podem ser afetados por uma organização
que são chamados de “capital”, além de procurar explicar como uma
organização interage com o ambiente externo e com os capitais, de
forma a gerar valor no curto, médio e longo prazo (BRASIL, 2020):
Os capitais são fatores de valor que aumentam, diminuem ou se
transformam por meio de atividades e produtos da organização. São
classificados nesta Estrutura em capitais financeiro, manufaturado,
intelectual, humano, social e de relacionamento e natural, embora
organizações que elaboram um relatório integrado não sejam obrigadas a
adotar esta classificação ou a estruturar seus relatórios conforme os tipos
de capital. (IIRC, 2013, p. 4)
No longo prazo, a adoção dos princípios do RI causa a inserção do
pensamento integrado nas organizações, nas práticas comerciais
públicas e privadas, fornecendo uma abordagem coesa e eficiente
na produção dos relatórios. Além do mais, foca na geração de valor
e na clareza de riscos e oportunidades, contribuindo para a melhor
avaliação dos investidores, aumentando a chance de conseguir fundos
de investimentos. Não há custos para obter as informações para a
construção do relato, visto que são próprias da empresa sobre os temas
críticos que a gestão necessita para administrar seu negócio.
49
O RI é regulamentado pela Decisão Normativa do Tribunal de Contas
da União (TCU) n. 178/2019 (BRASIL, 2019) como a apresentação das
prestações de contas de 2019. Esse formato de relatório traz a criação
de valor como essência, estimulando o pensamento integrado e se
baseando em processos de controle e gestão. A principal característica
é a ênfase na integração das informações, com foco estratégico e
orientação para o futuro. O conteúdo final também traz os aspectos
sobre a forma de geração de valor da organização, o uso dos capitais e
a sua atuação na cadeia de valor. A estrutura se baseia, principalmente,
nos pilares de Governança, Estratégia e Desempenho da organização
(DIALOGUS, [s.d.]).
O principal objetivo é explicar a geração de valor da organização ao
longo do tempo para os provedores de capital financeiro. Quando
executado, o RI traz benefícios para todos os stakeholders (partes
interessadas), incluindo os funcionários, seus clientes e fornecedores, os
parceiros comerciais, a comunidade local, os reguladores e formuladores
de políticas (IIRC, 2013). Por isso, outros objetivos do Relato Integrado
são:
• Permitir a alocação do capital financeiro de forma eficiente e
produtiva, melhorando a qualidade da informação dada aos
investidores.
• Garantir a melhor abordagem sobre a capacidade de a organização
gerar valor, garantindo uma comunicação coesa e eficiente dos
fatores.
• Fomentar a compreensão das responsabilidades e
interdependências dos capitais envolvidos (intelectual, humano,
manufaturado, social, natural, financeiro e de relacionamento).
• Integrar e apoiar o pensamento, a tomada de decisões e as ações
para gerar valor em curto, médio e longo prazo.
50
O RI é estruturado de forma internacional e baseia-se em princípios,
como forma de reconhecer a grande variedade de circunstâncias
particulares existentes em cada organização, o que permite fornecer um
bom grau de comparabilidade entre elas. Não são impostos indicadores
de desempenho específicos ou divulgação de assuntos individuais
e métodos de mensuração; porém, há algumas exigências a serem
aplicadas para que um relatório seja considerado em conformidade com
a Estrutura (IIRC, 2013).
A elaboração desse tipo de documento pode ser feita como atendimento
às exigências de órgãos reguladores, de forma independente, ou
mesmo uma parte separada e destacada de outro relatório ou informe.
É necessário incluir uma declaração dos responsáveis pela governança
assumindo a responsabilidade pelo que consta no relatório, como forma
de cumprimento ou explicação.
Segundo Pereira (2016), o RI é composto por seis componentes
principais e cinco princípios orientadores que garantem o foco
estratégico do relatório e se relacionam transmitindo as informações
de forma confiável e resumida às partes interessadas. Dessa forma, os
componentes principais são:
• Perspectivas futuras: o que se espera incluir no RI.
• Contexto operacional: onde se encontram a empresa, seus riscos e
suas oportunidades.
• Objetivos estratégicos: determinam o plano a ser seguido a fim de
chegar onde se espera estrategicamente.
• Resumo organizacional e modelo de negócio: organização e
modelagem da empresa de acordo com seus objetivos e suas
características.
51
• Performance: componente fundamental para possibilitar o
crescimento da empresa.
• Governança e remuneração: esses modelos equilibram a empresa
e garantem a ética nos acordos.
Os cinco princípios do RI, segundo o IIRC (2013), são:
• Foco estratégico: o objetivo a ser atingido e as atenções dadas a
ele.
• Comodidade de informação: obtenção por meios confiáveis,
garantindo a veracidade das informações.
• Orientação para o futuro: direcionar os pressupostos do presente
para obter o objetivo no futuro.
• Inclusão e capacidade de resposta das partes interessadas.
• Clareza, familiaridade, presteza, confiabilidade e materialidade do
contato com os stakeholders, transmitindo confiança.
É importante entender que o RI abrange oito Elementos de Conteúdo,
que são vinculados uns aos outros sem que se excluam:
• Visão geral organizacional e ambiente externo: O que a organização faz
e sob que circunstâncias ela atua?
• Governança: como a estrutura de governança da organização apoia sua
capacidade de gerar valor em curto, médio e longo prazo?
• Modelo de negócios: qual é o modelo de negócios de organização?
• Riscos e oportunidades: quais são os riscos e oportunidades específicos
que afetam a capacidade da organização de gerar valor em curto, médio
e longo prazo, e como a organização lida com eles?
• Estratégia e alocação de recursos: para onde a organização deseja ir e
como ela pretende chegar lá?
52
• Desempenho: até que ponto a organização já alcançou seus objetivos
estratégicos para o período e quais são os impactos no tocante aos
efeitos sobre os capitais?
• Perspectiva: quais são os desafios e as incertezas que a organização
provavelmente enfrentará ao perseguir sua estratégia e quais são os
potenciais implicações para seu modelo de negócios e seu desempenho
futuro?
• Base para apresentação: como a organização determina os temas
a serem incluídos no relatório integrado e como estes temas são
quantificados ou avaliados? (IIRC, 2013, p. 5)
O RI é um complemento ao relato financeiro e ao relato de
sustentabilidade, compilando as informações como resposta aos
interesses dos stakeholders, como suas ações sobre o governo da
sociedade, o desempenho financeiro e a sustentabilidade do negócio,
sendo adotado como uma perspectiva de longo prazo e gerando como
produto um relatório integrado (PEREIRA, 2016).
1.2 Relatório GRI
O Relatório GRI é o manual criado com a compilação de indicadores de
sustentabilidade, tendo como responsável a Global Reporting Initiative
(GRI), uma organização internacional que auxilia as organizações de
todos os setores a entender, relatar e informar sobre o impacto de
seus negócios nas questões críticas de sustentabilidade, entre elas: os
direitos humanos, as mudanças climáticas e os problemas de corrupção
(GUEDES; SILVA; GUERRA, 2011).
A GRI foi fundada em 1997, quando ainda não havia outro padrão
internacional de relato. Na época era apenas um projeto dentro da
Coalition for Environmentally Responsible Economies, mas, ao se tornar aliada
do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), ganhou
notoriedade. Foi em 2002 que se tornou uma organização independente,
com sede em Amsterdã, na Holanda (GUEDES; SILVA; GUERRA, 2011).
53
A criação da GRI foi extremamente importante para padronizar as
informações sobre sustentabilidade, sendo, segundo Ashley (2005,
p. 152): “um dos mais consistentes esforços para consolidar diversas
iniciativas e chegar a um consenso quanto à normatização das
informações ambientais”. Da mesma forma, a KPMG (2013) aponta que
78% das 250 maiores empresas globais utilizam esse padrão. No Brasil,
na Suécia, na Coréia do Sul, em Portugal e no Chile, o índice é de 90%.
A GRI dá atenção ao processo de elaboração e ao conteúdo, sendo
compostos por Diretrizes, Suplementos Setoriais e Protocolos que
garantem a qualidade do relatório. São eles que ajudam a identificar
quais são os impactos das operações organizacionais sobre os aspectos
sociais, ambientais e econômicos, devendo ser respeitados quando usada
a estrutura. Em 1999, foi lançada a primeira versão da GRI, chamada de
G1. Porém, por meio de sugestões das partes interessadas, passou por
aperfeiçoamento e, em 2002, teve foi lançada a versão G2 (SILVEIRA, 2014).
Em 2006, foi feita outra atualização, gerando a versão G3, que incluiu os
indicadores econômicos, sociais e ambientais. Em 2013, foi criada a G4,
com a função de facilitar o uso, a uniformidade e a qualidade técnica
com relação à última versão, elaborando princípios fundamentais no
processo de relato de sustentabilidade (SILVEIRA, 2014).
A função do relatório de sustentabilidade é apontar as informações
confiáveis, relevantes e padronizadas, propiciando que haja avaliação
das oportunidades e dos riscos a partir dos impactos levantados e
ajustando as decisões a serem tomadas. As diretrizes podem ser
aplicadas em organizações de todos os portes, setores e tipos e são
estruturadas seguindo um padrão.
O G4 gerou os Padrões de GRI, sendo o primeiro padrão global para
a criação de relatórios de sustentabilidade, com indicadores divididos
em módulos inter-relacionados, que representam as melhores práticas
54
para relatos de sustentabilidade. Eles são válidos desde julho de 2018 e
podem ser consultados no Quadro 1.
Não é preciso utilizar todos os padrões para desenvolver o relatório
de sustentabilidade. Na verdade, é possível utilizar apenas partes
específicas do documento de forma a relatar as informações compatíveis
com o universo da empresa. No entanto, a forma de utilização dos
padrões necessita da inclusão da declaração do uso correspondente.
Quadro 1 – Princípios fundamentais no processo de relato de
sustentabilidade
Princípios fundamentais para a definição do conteúdo do relatório
Fazer a identificação dos stakeholders da organização,
Inclusão de
explicando as medidas adotadas em atendimento
Stakeholders
às expectativas e aos interesses das partes.
Contexto da Descrever em contexto amplo de sustentabilidade
Sustentabilidade como está o desempenho da organização.
Descrever aspectos significativos da organização que reflitam
Materialidade impactos econômicos, ambientais e sociais e que tenham
capacidade de influenciar as opiniões dos stakeholders.
Cobrir, amplamente, os aspectos materiais significativos,
Completude refletindo impactos econômicos, ambientais e sociais e
permitindo a avaliação dos stakeholders pelo tempo.
Princípios fundamentais para assegurar a qualidade do relatório
Refletir os desempenhos da organização, tanto os aspectos positivos
Equilíbrio
quanto os negativos, permitindo uma avaliação equilibrada.
Permitir e analisar as mudanças do desempenho da
Comparabilidade organização pelo tempo com base nas informações
selecionadas, compiladas e relatadas.
As informações devem ser suficientemente precisas
Exatidão e detalhadas para que os stakeholders possam
avaliar o desempenho da organização.
Tempestividade Disponibilizar as informações em forma de relatórios regulares.
Disponibilizar informações de forma clara e
Clareza
compreensível aos stakeholders.
As informações relatadas devem ser
Confiabilidade
confiáveis e pautadas em provas.
Fonte: adaptado de Bonadio e Gonçalves (2016).
55
Além disso, os indicadores da GRI são divididos nos três grupos de
indicadores (Figura 1), sendo: indicadores econômicos, ambientais e
sociais. Os primeiros buscam demonstrar as atividades financeiras de
fluxo de caixa entre os stakeholders e os principais impactos econômicos
da atividade na sociedade, sendo subdivididos entre: desempenho
econômico, presença no mercado e impactos econômicos indiretos.
Figura 1 – Grupo de Indicadores GRI
Fonte: adaptada de Po (2005, p. 12).
Já os indicadores ambientais englobam os desempenhos relativos
à conformidade ambiental, à conservação da biodiversidade e aos
investimentos no meio ambiente. Estes são divididos em nove aspectos,
sendo: materiais; energia; água; biodiversidade; emissões, efluentes e
resíduos; produtos e serviços; conformidade; transporte; e geral. Os
indicadores sociais contemplam os aspectos referentes às práticas
56
trabalhistas, aos direitos humanos, à sociedade e à responsabilidade
pelo produto (GRI, 2014).
Com isso, é possível verificar que os principais motivos que fazem
as grandes empresas ao redor do mundo implementarem relatórios
com base nos indicadores GRI são: demonstrar para a comunidade
seu compromisso com os impactos da sua atividade nos aspectos
ambientais e sociais; mostrar e implementar relações transparentes;
participar com capacidade em mercados competitivos; tornar-se mais
sustentável por meio de atividades e posicionamentos empresariais;
e demonstrar compromisso com a legislação vigente. Como retorno,
os benefícios recebidos pela empresa são os valores positivos de sua
imagem, o aumento na fidelização de clientes e a possibilidade de
comparar seu desempenho com o de outras companhias.
Ao final, é possível verificar que os relatórios de sustentabilidade no
formato GRI se conectam ao RI, de forma a aumentar o seu valor. A
decisão sobre qual indicador usar se baseia nos resultados por meio
da análise dos indicadores, os quais devem estar de acordo com as
necessidades atuais da organização e a visão estratégica de negócio, de
forma a guiar os próximos passos.
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