Síndromes Hipertensivas na Gestação
Síndromes Hipertensivas na Gestação
- Nuliparidade —> 75% dos casos ocorrem em nulíparas, principalmente nas que
apresentam hipertensão arterial pré-gravídica ou quando há troca de parceiro.
- Nível socioeconômico—> condições socioeconômicas desfavoráveis estão associadas
a maior incidência de eclâmpsia e síndrome HELLP, devido à falta de assistência pré-
natal ou a uma assistência precária que impedem o reconhecimento dos fatores de
risco.
- Extremos de idade—> há maior distribuição dos casos nas mulheres abaixo de 18
anos e acima dos 40 anos, porém quando são excluídos os fatores de risco comuns a
faixas etárias a idade não constitutivo fator de risco.
- História familiar—> estudos evidenciaram a predisposição hereditária à DHEG, porém
permanece, inconsistentes.
- Obesidade—> quanto maior o IMC pré-gestacional, maior o risco de DHEG. O
mecanismo envolvido pode estar relacionado à presença de intolerância à glicose.
- Doença trofoblástica gestacional—> nessa condição a DHEG surge em idades
gestacionais ainda mais precoces, sendo a única em que a doença pode se manifestar
antes de 20 semanas. **Tumores relacionados a gravidez devido a proliferação do trofoblasto.
b) Fatores Imunológicos
- Mecanismos imunológicos que protegem o feto de uma possível rejeição podem
explicar a falta de tolerância entre os tecidos maternos e fetais, ocasionando uma
resposta inflamatória exacerbada que impede a placentação adequada.
- Os possíveis mecanismos incluem:
• O excesso de carga antigênica fetal.
• A ausência de anticorpos bloqueadores que teriam um efeito protetor contra a
imunidade celular materna.
• A ativação de neutrófilos e do sistema completo e a liberação de citocinas
citotóxica e interleucinas.
• O predomínio de linfócitos Th2 em relação aos linfócitos Th1.
- Entre os fatores epidemiológicos que fortalecem o envolvimento da reposta
imunológica na DHEG, destaca-se o fato dessa doença ser mais comum na nulípara
do que na multípara e o fato de quando há um troca de parceiro a incidência aumentar
na multípara.
e) Predisposição genética
- Há evidências epidemiológicas do envolvimento genético na DHEG.
- O mecanismo exato da herança ainda é desconhecida, sendo que vários
polimorfismos genéticos já foram associados à pré-eclâmpsia, como: o TNF, a
linfotoxina-alfa e a IL-1ß.
f) Fatores nutricionais
- Fatores ambientais podem aumentar a chance de instalação da DHEG.
- A deficiência ou excesso de alguns nutrientes têm sido responsabilizados por
contribuir para o aparecimento dessa doença há anos.
- Alguns estudos sugeriram a associação inversa entre o consumo de cálcio na dieta e o
nível na pressão arterial, mas o seu mecanismo ainda é desconhecido e os resultados
disponíveis são conflitantes.
- Algumas substâncias antioxidantes também poderiam, em teoria, evitar a instalação da
DHEG, porém ensaios multicêntricos que utilizariam vitaminas C e E não indicaram a
diminuição da incidência de pré-eclâmpsia com o suprimento dessas durante a
gestação.
g) Estresse
- O risco relativo de DHEG é maior em situações de estresse.
- Sabe-se que o estresse é um importante fator para o aumento isolado da pressão
arterial, além de influenciar no sistema imunológico, podendo facilitar a deposição de
imunocomplexos e dificultar a placentação normal.
- O estresse leva ao aumento da pressão arterial por meio de alterações endoteliais e o
aumento da atividade simpática vasoconstritora.
Fisiopatologia
- A hipertensão arterial é a manifestação mais frequente da pré-eclâmpsia, porém os
achados patológicos indicam que o fator de importância primária não é o aumento da
pressão arterial, mas a redução da perfusão tecidual secundária ao vasoespasmo
arteriolar e à lesão endotelial.
- Desse modo, na pré-eclâmpsia ocorrem alterações em todos os órgãos.
a) Alterações Cardiovasculares
- Em gestações normais, há um aumento de quase 50% do débito cardíaco, devido ao
aumento do volume plasmático, porém o nível de pressão arterial normalmente não se
eleva, chegando a diminuir na primeira metade da gestação, graças a diminuição da
resistência periférica total ocasionada pelo desvio do fluxo sanguíneo para a placenta
e pela ação de substâncias vasodilatadoras.
- Na DHEG, o volume plasmático é menor em comparação a gestação normal.
• Com a lesão endotelial, há o extravasamento de plasma para o meio extravascular,
o que dá origem ao edema e à hemoconcentração.
• O aumento da viciosidade sanguínea leva a fenômenos trombóticos.
- Na DHEG, há o aumento da resistência periférica total.
• O vasoespasmo generalizado leva ao aumento da RPT e leva à isquemia de todos
os órgãos.
- O débito cardíaco, na DHEG, pode se mostrar aumentado, normal ou diminuído, sendo
que a maioria da mulheres não tratadas apresenta ele normal ou levemente diminuído.
Essa disparidade reflete diferenças na gravidade e na duração do quadro clínico e no
tratamento instituído.
- Desse modo, o aumento da RPT é a principal responsável para elevação da pressão
arterial (DC. RPT) na DHEG.**RTP-resistência periférica total.
- Na DHEG, há um importante estreitamento arteriolar e alterações no calibre das
arteríolas da retina.
• É pouco provável que esse efeito seja determinado pelo sistema nervoso
autônomo, evidenciando-se a influência dos fatores humorais no vasoespasmo.
• Catecolaminas—> há uma participação mínima ou nula dessas na vasoconstrição.
• Endotelina—> é produzida pelas células endoteliais e possui sua concentração
aumentada nas gestantes com pré-eclâmpsia.
• Angiotensina II—> a concentração da angiotensina II é menor em mulheres com
pré-eclâmpsia, porém se observa uma marcante exacerbação da resposta a essa.
A gestante normal, comparada a não gestante, é refratária aos efeitos pressóricos
da angiotensina II, enquanto a pré-eclâmptica perde essa refratariedade e é
altamente sensível à angiotensina II.
- Estudos demonstraram que sensibilidade à infusão de angiotensina se
encontra elevada semanas antes do aparecimento da hipertensão arterial.
- A atividade contrátil do miocárdio raramente está alterada.
b) Prostaglandinas
- O desequilíbrio entre prostaglandinas vasodilatadoras (prostaciclinas) e
vasoconstritoras (tromboxano A2), com predomínio das últimas na circulação
uteroplacentária pode estar envolvida no desenvolvimento da DHEG.
- A lesão endoetlial promove a redução das prostaciclinas, que apresentam potente
ação vasodilatadora e antiagregante plaquetário.
- Enquanto, a ativação das plaquetas pela lesão endotelial leva ao aumento produção da
tromboxano A2 por essas células. O tromboxano A2, além de sua potente ação
vasoconstritora, atua como agregante plaquetário.
- O aumento da relação TXA2/prostaciclinas colabora com o aumento da sensibilidade à
infusão da angiotensina II, favorecendo ainda mais a vasoconstrição.
c) Alterações de Coagulação
- Evidências histológicas e hematológicas indicam que a coagulação intravascular
disseminada pode ocorrer na DHEG, estando presente em 10% dos casos de pré-
eclâmpsia grave e eclâmpsia.
- Entre os indicadores mais sensíveis de coagulação intravascular disseminada se
destacam a plaquetopenia, o aumento dos produtos de degradação da fibrina e do
fibrinogênio, a diminuição da antitrombina III e a redução da relação fração coagulante/
fração antigência do fator VIII.
- A etiologia das alterações de coagulação ainda é controversa, mas é provável que a
lesão vascular secundária ao vasoespasmo seja a responsável pela coagulação
intravascular disseminada.
- Alguns estudos, porém, sugerem que a disfunção endotelial, com a ativação de
plaquetas e de componentes da cascata de coagulação, antecede o vasoespasmo e
os sinais clínicos da doença.
- Também é provável que alterações vasculares no sítio de implantação já predisponham
à alterações de coagulação.
d) Alterações Renais
- Na gestação normal, o fluxo plasmático renal e a filtração glomerular se encontram
aumentados em relação à mulher não grávida em cerca de 40 a 60%, o que leva a uma
diminuição dos níveis séricos de ureia, creatinina e ácido úrico, diminuição favorecida
pela hemodiluição.
- Na DHEG, a perfusão renal cai, a TFG cai entre 30 e 40% dos valores não-gravídicos,
determinando reduções no fluxo plasmático renal e na filtração glomerular.
• Pode-se, assim, observar um aumento nos níveis séricos de ureia, creatinina e
ácido úrico.
• A concentração plasmática de ácido úrico está diretamente relacionada à
gravidade da doença. É provável que o aumento de sua concentração decorra da
diminuição do clearence de ácido úrico relacionado à menor filtração glomerular e/
ou à maior absorção tubular.
- Na pré-eclâmpsia grave, o vasoespasmo intenso promove a lesão tubular e não a
hipovolemia, de modo que a infusão de líquidos está contraindicada nessas mulheres.
- Na DHEG, além das lesões tubulares, também são observadas alterações
anatomopatológicas glomerulares e arteriolares.
- A lesão glomerular é mais característica da DHEG, estando relacionada à proteinúria
pois aumenta a permeabilidade do glomérulo às proteínas.
• O quadro histológico especifico da DHEG é denominado endoteliose
glomerulocapilar e é intensa tumefação das células endoteliais do glomérulo, com
vacuolização e acúmulo de lipídios, levando a oclusão do lúmen dos capilares,
com deposição de material fibrinoide denso entre a lâmina basal e as células
endoteliais.
• A endoteliose glomerular é uma lesão reversível que desaparece após a gravidez,
com um processo de involução à microoscopia óptica em cerca de 5 a 10
semanas após o parto.
e) Alterações Hepáticas
- Lesões hepáticas podem ser observadas em mulheres com pré-eclâmpsia grave e
eclâmpsia e são secundárias ao vasoespasmo intenso.
- Em geral, ocorrem dois principais tipos de lesões:
• Hemorragias periportais, aparecem incialmente.
• Necrose hemorrágica periportal, posteriormente.
- A elevação dos níveis séricos das transaminases é um reflexo de tais lesões.
- Em casos raros, o sangramento intenso pode se estender até à cápsula de Glisson,
formado um hematoma subcapsular, que pode evoluir com ruptura e hemorragia
intraperitoneal, geralmente fatal. Esse é responsável pela dor no hipocôndrio direito.
- Alterações presentes, principalmente, na síndrome HELLP.
f) Alterações Pulmonares
- Na eclâmpsia, o edema pulmonar e a broncopneumonia aspirativa são causas de
insuficiência respiratória grave e estão envolvidas em até 60% dos casos de óbito
materno.
- Em virtude de o território vascular estar diminuído pelo vasoespasmo, a infusão de
soluções cristalóides ou coloidosmótica sem monitorização cuidadosa pode ocasionar
congestão e edema pulmonar, com insuficiência respiratória.
- A broncopneumonia aspirativa, por sua vez, tem sua instalação propiciada pelas
convulsões, o uso indevido de drogas depressoras do SNC, pelas obstruções de vias
aéreas e pela aspiração de secreções nasofaríngeas que reduzem a ventilação
pulmonar e a agravam a hipoxia tecidual do vasoespasmo.
g) Alterações Cerebrais
- As alterações cerebrais na pré-eclâmpsia são explicados por duas teorias:
• A hipertensão grave levaria à vasoconstrição reflexa (Reação de Cushing), com
consequente queda do fluxo cerebral, edema citotóxico eventuais áreas de infarto
cerebral.
• A eclâmpsia representaria uma forma de encefalopatia hipertensiva na qual
elevações abruptas da pressão arterial levariam à quebra dos mecanismo de
autorregulação cerebral, com hiperperfusão, disrupção dos capilares,
extravasamento do plasma e eritrócitos, com edema vasogênico. —> teoria mais
aceita hoje.
- A encefalopatia hipertensiva nesses casos é tipicamente observada nas
porções posteriores do cérebro (lobos parietal e occipital), sendo conhecida
com encefalopatia posterior reversível.
- O edema cerebral raramente tem relação direta com a morte materna por eclâmpsia,
estando geralmente relacionado com o estado pós-convulsivo ou post mortem.
- A hemorragia cerebral, secundária à ruptura de artérias pela gravidade da hipertensão
arterial acaba sendo a responsável pela maioria das mortes.
h) Alterações hidreletrolíticas
- A gestante pré-eclâmptica retém sódio e água em quantidades superiores às da
grávida normal, mas a concentração sanguínea de eletrólitos não está alterada.
- Na gestação normal, é observado edema gravitacional na região perimaleolar, em
especial no fim do dia, devido ao aumento da pressão venosa dos membros inferiores.
O edema cessa durante a noite, quando a gestante se posiciona em decúbito lateral
esquerdo e faz desaparecer a compressão da veia cava inferior pelo útero gravídico.
- O edema generalizado é o habitualmente associado à pré-eclâmpsia, sendo precedido
pelo aumento insólito de peso e o edema de dedos das mãos e da face.
- O edema não é mais visto como critério para a caracterização da pré-eclâmpsia, pois
mulheres com gestações normais podem apresentar edema em algum ponto da
gravidez.
i) Alterações Uteroplacentárias
- Na DHEG, observa-se uma redução do fluxo uteroplacentário de 40 a 60%,
caracterizando um quadro de insuficiência placentária, responsável pela incidência
expressiva de grandes infartos placentários, pequeno crescimento da placenta e seu
deslocamento prematuro, que levam a resultados perinatais adversos.
- A invasão trofoblástica deficiente nas artérias espiraladas diminui o fluxo interviloso, e
a vasoconstrição das arteríolas vilosas determina elevação da resistência vascular
fetoplacentária, afetando a circulação.
- O comprometimento da circulação uteroplacentária pode ser evidenciada de maneira
direta pela Dopplervelocimetria de artéria uterina e, indireta pela Dopplervelocimetria
de artéria umbilical.
- O deslocamento prematuro da placenta incide em 1:20 casos de pré-eclâmpsia,
enquanto apresenta incidência de 1:130 nas gestantes normotensas.
- Na pré-eclâmpsia, a atividade uterina está aumentada e é responsável pela maior
incidência de parto pré-termo.
- A sensibilidade do útero à ocitocina também se mostra elevada. Durante o parto, é
comum a hipersistolia.
Diagnóstico
- A maioria das gestantes na fase inicial da pré-eclâmpsia é assintomática, de maneira
a rotina propedêutica cuidadosa, com ênfase na anamnese e no exame físico é
fundamental para o diagnóstico precoce.
- O diagnóstico de DHEG deve ser presumido na gestação com hipertensão arterial,
edema e/ou proteinúria significativa após 20 semanas de gestação. A probabilidade de
acerto no diagnóstico clínico é maior se a paciente for primigesta e com historia
familiar de pré-eclâmpsia.
- O curso da DHEG tem início na ocasião da placentação, mas as manifestação clínicas
geralmente são tardias, ocorrendo no último trimestre da gestação.
- Manifestações que surgem em idades gestacionais precoces, guardam relação direta
com os piores resultados maternos e perinatais, devendo alertar para a presença de
hipertensão arterial prévia à gestação, trombofilias ou doença renal preexistente.
- Durante o pré-natal, o diagnóstico deve ser o mais precoce possível, com o objetivo de
impedir a evolução para formas mais graves da doença.
- Gestantes com risco para o desenvolve de DHEG devem ser submetidas a consultas
mais frequentes de pré-natal.
- Os principais parâmetros para o diagnóstico de DHEG são:
• Hipertensão arterial—> níveis de pressão arterial sistólica ≥140 mmHg/ou pressão
arterial diastólica ≥90mmHg. Devem ser realizadas pelo menos duas medidas,
tomando-se a segunda como de definição.
• Edema —> dado considerado subjetivo, as diretrizes internacionais mais recentes
não têm dado maior importância a esse aspecto. É considerado patológico o
edema depressivo e generalizado, devendo ser valorizado se associado a
proteinúria e ganho exagerado de peso e quando não desaparece com repouso.
• Proteinúria—> considerada significativa quando igual ou superior a 300 mg em
urina coletada durante 24 horas, na relação proteína/creatinina>0,3 em amostra
isolada de urina ou quando se observa a presença em fita indicadora (>+1).
Quando associada à HA, a proteinúria patológica eleva o risco perinatal e se
associada à pressão diastólica ≥95mmHg, aumenta três vezes o risco de óbito
fetal.
• Ácido úrico—> os níveis de hiperuricemia se correlacionam com o grau de
hemoconcentração, gravidade da endoteliose glomerular, gravidade da doença
hipertensiva e RNs de baixo peso. Não é um critério diagnóstico de pré-
eclâmpsia, mas a presença de ácido úrico >6 mg/dL é altamente sugestiva de
DHEG.
- Alguns exames complementares são úteis para o diagnóstico das síndromes
hipertensivas em suas formas graves e de suas complicações:
• Hemograma com contagem de plaquetas—> a plaquetopenia é mais frequente é
mais significativa nas pacientes com quadro mais grave de DHEG e de início mais
precoce. Quando inferior a 100.000 plaquetas/ mm3 é considerada fator de mau
prognóstico.
• Pesquisa de esquizócitos—> em alguns casos graves de DHEG ocorre anemia
microangiopática e, consequentemente, reticulocitose, hemoglobinemia e
hemoglobinúria. Além da queda da hemoglobina, surgem alterações das
hemácias- esquizocitos e equinocitose.
• Bilirrubinas e enzimas hepáticas—> entre os sinais de hemólise, se destaca, a
icterícia e/ou aumento de bilirrubinas séricas e enzimas hepáticas.
• Ureia e creatinina—> indicativos de maior repercussão da doença renal.
• Pesquisa de colagenoses
• Pesquisa de trombofilias
• Outros diagnósticos de HA secundária—> na presença de HA grave e de difícil
controle, deve-se suspeitar de outras causas menos frequentes, como
feocromocitoma e hipertensão renovascular.
• TC ou RM cerebral
Predição e Prevenção
- Os fatores de risco para a DHEG devem ser utilizados para predizer a ocorrência da
doença, com o objetivo de melhorar a eficiência de programas de rastreamento pela
seleção de subgrupos de pacientes com maior risco.
- É importante perceber que a presença de um fator de risco, mesmo que importante,
não significa que a paciente esteja extremamente propensa a ter a doença.
- Até o momento não há nenhum exame clinicamente útil para predizer a pré-eclâmpsia,
ou seja, capaz de separar as mulheres que estão aparentemente bem, mas que estão
desenvolvendo a doença.
- Em virtude do desconhecimento da etiologia da doença, não é possível impedir que
essa se instale por meio da prevenção primária. A indicação sobre ingestão de
alimentos com baixo teor de sódio, suplementação de cálcio e vitaminas e
administração de AAS não conseguiu diminuir a incidência de DHEG na população
geral.
- A prevenção secundária tem por objeto detectar a doença precocemente enquanto ela
é assintomática e com tratamento precede impedi-la de progredir.
- A prevenção terciária se refere aos cuidados clínicos que previnam a deterioração
adicional ou reduzam as complicações depois que a doença já é sintomática. Envolve
o controle adequado da P.A. e prevenção das formas mais graves e das crises
convulsivas, além de controle do crescimento e da vitalidade fetal e resolução da
gestação na impossibilidade de controle da doença e havendo comprometimento da
vitalidade.
Eclâmpsia
- A eclâmpsia se caracteriza pelo aparecimento de convulsões tonicoclônicas
generalizadas, excluindo-se aquelas de outras causas ou alterações do SNC, em
gestantes com sinais e sintomas de pré-eclâmpsia.
- É mais incidente em condições socioeconômicas desfavoráveis, onde o atendimento
pré-natal é deficiente e há acompanhamento inadequado da pré-eclâmpsia. Nos
países desenvolvidos ocorrem 4 a 6 casos em 10 mil partos e nos subdesenvolvidos
há entre 6 e 100 casos em 10 mil partos.
- Entre as formas hipertensivas, a eclâmpsia constitui a principal causa de morte
materna e perinatal.
- As complicações maternas mais frequentemente associadas à eclâmpsia são
hemorragia cerebral, edema agudo de pulmões, insuficiência respiratória ou renal e
coagulopatia.
- A morbidade e a mortalidade perinatais na eclâmpsia são decorrentes em grande parte
da idade gestacional precoce e das condições maternas, as causas diretas mais
frequentes são a hipoxia secundária às convulsões maternas e o deslocamento
prematuro de placenta.
a) Classificação Prognóstica
- A eclâmpsia pode ser classificada em não complicada, complicada ou
descompensada, a dependia de outras intercorrências clínicas.
b) Fisiopatologia
- A pré-eclâmpsia e a eclâmpsia possuem processos fisiopatológico comuns, ainda que
não bem estabelecidos.
- A eclâmpsia consiste em uma manifestação do comprometimento do SNC da pré-
eclâmpsia, sendo o motivo do aparecimento das convulsões desconhecido.
- Para explicar a origem das convulsões foram sugeridos a participação do edema
cerebral, da isquemia, da encefalopatia hipertensiva, do infarto cerebral e da
hemorragia cerebral.
- Estudos recentes têm avaliado o papel de fatores circulantes, como: fatores de
crescimento, citocinas, fatores pró-inflamatórios e antiogiogênicos; no endotélio dos
vasos cerebrais, demonstrando aumento da permeabilidade. Além disso, a atividade
de aquaporinas parece estar reduzida em pacientes com pré-eclâmpsia, dificultando a
reagem de líquido acumulado no cérebro.
c) Quadro Clínico
- O processo de instalação da eclâmpsia é geralmente gradual, embora em alguns
casos possa ser rápido e devastador, e se inicia com a elevação da P.A. e ganho
excessivo de peso e edema generalizado.
- A convulsão típica da eclâmpsia evolui clinicamente em quatro fases:
• Fase da invasão—> pode ser silenciosa ou precedida de grito ou aura. Surgem
fibrilações, principalmente em torno da boca, com o aparecimento de contrações
em outras regiões faciais. A língua pode ser exteriorizada ,e com o fechamento da
boca, pode ser atingida e lesada. Os membros superiores ficam em pronação,
com o polegar sobre a mão fechada. Dura cerca de 30 segundos.
• Fase de contrações tônicas—> tetanização de todo o corpo com opistótono
cefálico. Os masseteres se contraem com força, fechando a boca. O rosto se
mostra cianótico e pletórico, com os olhos voltados para cima e as pupilas
dilatadas.
• Fase de contrações clônicas—> inspiração profunda seguida de expiração
estertorosa e saída de muco sanguíneo pela lesão da língua. Pode haver
incontinência de fezes e urina.
• Fase de coma—> surge diante de convulsões repetidas ou prolongadas, em que
há perda de consciência ou ausência de reflexos com duração de alguns minutos
ou até horas ou dias.
- Há situações em que as convulsões se tornam frequentes e não ocorrem intervalos
entre elas, o que caracteriza o estado de mal convulsivo.
- Outras manifestações clínicas de insuficiência de diversos órgãos são comuns na
eclâmpsia: oligúria ou anúria, insuficiência respiratória, cianose, icterícia e
sangramentos.
- Também pode haver aumento do tônus e da frequência de das contrações uterinas e
diminuição da frequência dos batimentos cardíacos fetais. Essas alterações, em geral,
acontecem durante as convulsões ou imediatamente depois delas e desaparecem
após alguns minutos desde que a hipoxemia materna seja corrigida.
IV. Escrever a fisiopatologia, apresentação na gestação e influência na
morbimortalidade materna e perinatal da síndrome de HELLP
- A síndrome HELLP é uma entidade clínica que pode ocorrer na pré-eclâmpsia ou na
eclâmpsia.
- Essa se caracteriza por um conjunto de sinais e sintomas associados a anemia
hemolítica microangiopática e vasoespasmo do fígado materno.
- O termo HELLP se baseia nas inicias das palavras hemolysis, elevated liver enzymes e
low platelet count.
a) Hemólise
- O aumento da destruição de eritrócitos é responsável pela hiperbilirrubinemia não
conjugada e aparecimento de icterícia, a qual só é observada quando o nível de
bilirrubina ultrapassa 3mg/dL. Entretanto, quando há apenas hemólise, a
hiperbilirrubinemia, em geral, é leve, se agravando com a disfunção hepática
(bilirrubina conjugada).
- A hemólise promove a elevação da concentração de desidrogenase lática (DHL) no
soro.
- Entre os achados da anemia hemolítica microangiopática, se observam alterações
eritrocitárias, se destacando a presença de:
• Esquizócitos—> célula capacete ou fragmentada, caracterizada por apresentar
forma discoide alterada, com duas ou três espiculas nas extremidades. Acredita-
se que a fragmentação seja secundária à passagem do sangue por pequenos
vasos sanguíneos que possuem lesão da camada íntima e/ou deposição de
fibrina.
• Equinócitos—> caracterizada pro apresentar várias espículas em sua superfície.
d) Incidência
- A incidência da síndrome HELLP varia de 4 a 12% nas gestantes com pré-eclâmpsia
grave e 11% nas gestantes com eclâmpsia.
e) Mortalidade Materna e Perinatal
- Os riscos maternos e perinatais são muito levados.
- Tem-se relatado mortalidade materna em até 24% dos casos e perinatal em até 30 a
40%.
f) Quadro Clínico e Diagnóstico
- A síndrome de HELLP é um diagnóstico predominantemente laboratorial.
- As manifestações clínicas são, em geral, múltiplas e imprecisas e se superpõem às da
pré-eclâmpsia, sendo comuns as queixas de cefaleia, dor epigástrica e/ou no
hipocôndrio direito, perda de apetite, náuseas e vômitos, escotomas e níveis
pressóricos elevados. Nos casos mais graves, as pacientes apresentam com alteração
do estado de consciência.
- O diagnóstico deve ser o mais precoce o possível.
- A síndrome HELLP é dita completa quando todos os critérios diagnósticos
laboratoriais esse encontram presentes e parcial quando se verifica apenas parte
deles.
+ Prognóstico
- A hipertensão crônica ou toxêmica é a maior causa de morte materna no Brasil,
responsável por 26% do total.
- O prognóstico da gestante pode estar vinculado à crise convulsiva, uma vez que a
mortalidade materna na eclâmpsia é elevada e mostra-se excepcional no decurso da
pré-eclâmpsia, a não ser quando sobrevém a síndrome HELLP.
- A principal causa de morte na eclâmpsia é a hemorragia cerebral (60%), seguida de
edema de pulmão.
- A pré-eclâmpsia precoce (<34 semanas) apresenta mortalidade 20 vezes maior que a
pré-eclâmpsia tardia.
- A mortalidade materna está representada por descolamento precoce da placenta,
coagulação intravascular disseminada, insuficiência renal aguda, edema agudo de
pulmão, pneumonia aspirativa e parada cardiorrespiratória.
- Complicações como amaurose, decorrente do descolamento da retina, e psicose
puerperal cedem espontaneamente após o parto, em prazo variável.
- As sequelas da toxemia costumam desaparecer em 6 a 12 semanas do pós-parto.
- A recorrência de pré-eclâmpsia em nova gravidez se dá em 50% das formas precoces
e em 20% global.
- A pré-eclâmpsia é fator de risco para doença cardiovascular futura, com aumento do
risco variando de 2 vezes para todos casos a 9/9 vezes em mulheres com pré-
eclâmpsia que deram à luz antes de 34 semanas.
- A mortalidade perinatal está elevada por prematuridade, deslocamento precoce de
placenta e restrição do crescimento fetal.
Fontes
- Obstetrícia; Zugaib; 3ª edição
- Obstetrícia; Rezende; 13ª edição
- Hipertensão e Gravidez; Istênio F. Pascoal; Rev. Brasileira de Hipertensão.
http://departamentos.cardiol.br/dha/revista/9-3/hipertensaogravidez.pdf