Luiz Eduardo F Xavier
PRECISAMOS FALAR SOBRE
TDAH
Manual para pacientes e rede de apoio
ESSE MANUAL É PARA VOCÊ
Esse manual foi produzido para facilitar a compreensão dos
principais aspectos do diagnóstico ao manejo do transtorno de
déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Nele, serão
abordadas informações como o que é o TDAH, quais são os
sinais e sintomas mais comuns, formas de tratamento e
estratégias de enfrentamento. Seu conteúdo é destinado para
pacientes e rede de apoio
Entendemos como rede de apoio familiares, cônjuge, amigos,
colegas de trabalho ou quem o indivíduo com TDAH julgar
relevante. Esse conteúdo também poderá ser utilizado como
fonte de informação para outras pessoas que se interessem
pelo tema.
Trata-se de um manual de caráter informativo que não substitui
a avaliação profissional ou tratamento.
Seja bem-vindo!
É PRECISO FALAR SOBRE TDAH
Com a intensa disseminação de informações sobre o TDAH
(Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade), incluindo
alguns de procedência duvidosa, muitos passaram a questionar
a validade desse diagnóstico. Seria o TDAH apenas reflexo do
uso excessivo de telas? Todo mundo tem um pouco de TDAH? O
TDAH é uma condição inventada para justificar as demandas
excessivas do estilo de vida moderno?
Ao contrário do que é levantado por essas perguntas, sabe-se
que o TDAH é uma condição verdadeira, extensivamente
estudada e que afeta cerca de 5% da população mundial, cujos
sintomas se iniciam ainda na primeira década de vida.
É considerado um transtorno de neurodesenvolvimento que leva
a significativo prejuízo no funcionamento social, acadêmico e
profissional. Pelo menos metade das crianças com TDAH
manterão os sintomas ao longo da vida e consequentemente
seus prejuízos na idade adulta.
O QUE É TDAH?
O TDAH é um transtorno que se manifesta ainda na infância e é
marcado por 03 apresentações distintas:
TDAH predominantemente desatento
TDAH predominantemente hiperativo/impulsivo
TDAH combinado (presença dos dois subgrupos de
sintomas)
A desatenção é a dificuldade de permanecer atento pelo tempo
necessário para compreender ou realizar determinada tarefa.
Está associada à dificuldade de iniciar uma atividade e manter
sua execução até o fim.
A impulsividade é marcada por ações precipitadas sem o
devido planejamento, cuja avaliação das consequências é
prejudicada. Também é vista como agir no calor do momento,
desconsiderando potenciais riscos envolvidos. Se manifesta em
situações como dizer logo o que pensa, fazer compras por
impulso ou se colocar em situações de risco.
A hiperatividade envolve atividade motora ou mental excessiva
para o esperado na atividade proposta. Se manifesta por
exemplo pela dificuldade de permanecer parado por muito
tempo, balançar as pernas enquanto está sentado, gesticular
muito enquanto fala, mudar de posição várias vezes, falar
excessivamente, sentir-se inquieto.
O QUE É TDAH?
A desatenção, hiperatividade e a impulsividade dificultam o
desenvolvimento de habilidades e estratégias de pensamento e
raciocínio, motivação e exigências sociais. Indivíduos com TDAH
se sentem menos motivados e tendem a abandonar ações
diante de situações que exigem desempenho contínuo para
complementação de tarefas ou cujo retorno não é imediato.
O TDAH leva a prejuízo funcional significativo em pelo menos
duas áreas distintas da vida, como trabalho, estudos,
relacionamentos entre outros.
Dito isso, sabe-se que indivíduos com TDAH estão sujeitos a
desfechos negativos como uso de substâncias, gravidez
indesejada, acidentes de trânsito e outras consequências
relacionadas ao envolvimento em situações de risco.
QUAIS SÃO AS CAUSAS DO TDAH?
O TDAH é uma condição influenciada for fatores biológicos e
ambientais. Isso significa que nenhum fator isoladamente é
capaz de justificar o desenvolvimento dessa condição, sendo
este resultado de uma complexa interação entre fatores de
risco e meio ambiente.
A genética exerce papel importante nesta condição, uma vez
que a herdabilidade (herdar os genes de risco) influencia no
risco de desenvolvimento do TDAH. Frequentemente, familiares
de crianças com TDAH procuram ajuda e recebem o
diagnóstico tardiamente após se reconhecerem no
comportamento do filho.
Porém, herdar a genética de risco não significa
necessariamente herdar o TDAH. Isso ocorre porque além de
fatores biológicos, ele também é influenciado por questões
ambientais.
Outros fatores de risco apontados para o desenvolvimento do
TDAH incluem baixo peso ao nascer, histórico de traumatismo
craniano, deficiência de ferro, apneia obstrutiva do sono,
exposição ao chumbo e também exposição fetal a álcool,
tabaco e cocaína. Além disso, reações adversas na infância
também atuam como fator de risco.
POR QUE É MAIS DIFÍCIL DIAGNOSTICAR TDAH
EM ADULTOS?
Alguns fatores buscam explicar o porquê da dificuldade de se
diagnosticar TDAH em adultos. São eles:
Dificuldade de acesso a profissionais de saúde
familiarizados com o tema: o TDAH é um diagnóstico
relativamente recente e muitos profissionais de saúde não
dominam esta condição.
Ausência de investigação do TDAH na infância: muitas
crianças tem seus sinais e sintomas de TDAH confundidos
com características da sua natureza e acabam sendo
rotuladas como bagunceiras, agitadas e até mesmo
irresponsáveis, impedindo a devida avaliação precoce de
sua condição.
Recursos adaptativos: adultos com TDAH muitas vezes
acabam usando recursos adaptativos para tentar driblar os
sintomas do TDAH. Exemplo: uma criança que não conseguia
prestar atenção durante aulas tradicionais acaba usando de
videoaulas resumidas do tema e prática de exercícios para
aprender um conteúdo na vida adulta.
Apresentação dos sintomas: enquanto a hiperatividade
chama mais a atenção, os sintomas de desatenção podem
ser mais sutis e de difícil percepção pelo próprio indivíduo e
pessoas ao redor, dificultando sua identificação precoce.
QUANDO SUSPEITAR DA POSSIBILIDADE DE TDAH?
Mas afinal, como saber se tenho TDAH? Antes de prosseguirmos,
você deve considerar a necessidade de investigação
profissional de TDAH se responder SIM para algumas das
seguintes perguntas:
Você frequentemente...
- Percebe dificuldade de pensar com clareza?
- Tem dificuldade na organização de tarefas?
- Inicia projetos sem ouvir ou ler atentamente as instruções?
- Tem dificuldade em realizar tarefas na ordem ou sequência
proposta?
- Perde a empolgação com as tarefas e as abandona sem
finalizá-las?
- Tem dificuldade de manter a atenção em tarefas ou é
facilmente distraído?
- Fala demais e/ou possui dificuldade em ouvir atentamente os
outros sem interrompê-los?
- Tem dificuldade em lidar com prazos/compromissos
firmados?
- Costuma adiar tarefas difíceis ou monótonas até o último
momento possível?
QUANDO SUSPEITAR DA POSSIBILIDADE DE TDAH?
-Sente-se desorganizado e não sabe por onde começar?
- Toma decisões impulsivamente (no calor do momento)?
- Sente-se frequentemente inquieto?
Se você se identificou com algumas das perguntas acima, é
recomendado que procure um profissional de saúde que esteja
familiarizado com o diagnóstico de TDAH para fazer uma
avaliação.
Psicólogos, neuropsicólogos, psiquiatras e neurologistas são
alguns dos profissionais que costumam realizar investigação e
diagnóstico de TDAH e podem te ajudar nessa tarefa.
Atenção: embora os sinais e sintomas acima sejam indicativos
da possibilidade de TDAH, essas características não são
exclusivas dessa condição e sua presença não significa
necessariamente ter o diagnóstico. Além disso, fique atento
com os autotestes diagnósticos da internet. Além de serem
muitas vezes imprecisos, você poderá receber um resultado
equivocado que não corresponda à realidade. Procure sempre
um profissional de saúde com experiência em TDAH ao
suspeitar dessa condição.
OS DESAFIOS DO TDAH
Segundo o pesquisador Russell A. Barkley, uma das maiores
autoridades no assunto, pacientes com TDAH possuem
comprometimento em três campos principais que
desencadeiam os principais sinais e sintomas do TDAH e suas
respectivas consequências. São eles:
Baixo autocontrole: dificuldade em adiar prazeres para atingir
um objetivo futuro e tendência em realizar atitudes sem pensar
em suas consequências. Exemplo: dificuldade em seguir uma
dieta voltada para perda de peso, falhando em resistir ao
impulso de comer fast-food.
Baixa inibição: dificuldade em esperar a sua vez, impaciência, e
tomada de decisões por impulso. Exemplo: dificuldade em
permanecer em situações como filas de supermercado, trânsito
e outras situações que envolvam paciência e tendência a tomar
decisões no calor do momento, como dizer logo o que pensa
ainda que possa parecer rude.
Disfunção executiva: dificuldade em manejar habilidades
mentais que direcionam nossas ações, como controle inibitório,
memória de trabalho, controle emocional, planejamento e ação,
que nos ajudaria a decidir algo baseado no autrocontrole.
Exemplos de disfunção executiva no TDAH: pouca noção de
tempo (miopia temporal), esquecer de fazer o que deveria,
dificuldade de compreender a leitura, baixo limiar de frustração.
ÁREAS DA VIDA AFETADAS PELO TDAH
Algumas áreas da vida são especialmente afetadas pelo TDAH.
São elas:
Estudos: dificuldade de aprendizado, atraso na entrega de
trabalhos, repetência ou abandono escolar.
Trabalho: atrasos, procrastinação para execução de tarefas,
erros por desatenção, demissões frequentes.
Finanças: baixo planejamento financeiro, compras por
impulso e endividamento.
Relacionamentos: franqueza excessiva/ baixo tato social,
esquecimento de compromissos e datas comemorativas,
atrasos, descuido com o filho/parceiro.
Comportamento de risco: direção perigosa, sexo sem
proteção, uso de substâncias, tomada de decisões sem
análise criteriosa das possíveis consequências.
Saúde: tendência ao sedentarismo, alimentação
inadequada, descuido com o acompanhamento médico de
rotina e rastreio/tratamento de doenças.
O QUE NÃO PODE FALTAR NO DIAGNÓSTICO DE
TDAH EM ADULTOS?
Para o correto diagnóstico de TDAH no adulto, algumas
características são essenciais e serão explicadas aqui:
Os primeiros sintomas surgem ainda na infância. Embora o
TDAH possa ser diagnosticado tardiamente na vida adulta,
os primeiros sinais de desatenção, hiperatividade e/ou
impulsividade precisam estar presentes desde a infância ou
até no máximo 12 anos de idade.
Os sinais e sintomas do TDAH precisam estar presentes de
maneira persistente (por no mínimo seis meses na vida
daquele indivíduo) e precisam ser encontrados em pelo
menos dois ambientes. Exemplo: ambiente familiar e
acadêmico.
Os sinais e sintomas do TDAH precisam trazer impacto
significativo na vida daquele indivíduo.
O quadro não pode ser melhor explicado por outra condição
neurológica ou psiquiátrica. Algumas condições como
transtornos de ansiedade, transtorno bipolar e transtornos
de personalidade podem apresentar sintomas semelhantes
aos presentes no TDAH.
Atenção: o diagnóstico de TDAH se dá através da entrevista
completa e estruturada e não requer nenhum exame
laboratorial ou de imagem em particular. Quando solicitados os
exames, sua utilidade é principalmente excluir outras condições
como deficiências nutricionais, lesões cerebrais ou outras
condições que possam levar a sintomas semelhantes.
O PAPEL DOS INFORMANTES
Para o correto diagnóstico de TDAH no adulto, é recomendável
que você também tenha acesso a informantes que possam
complementar dados sobre você, especialmente em relação
ao seu comportamento na infância. Entre os informantes,
merecem destaque os familiares/amigos e professores.
Familiares: peça a essas pessoas para descrever como era o
seu comportamento ao longo da vida, especialmente na
infância. Você era uma criança agitada, desastrada,
distraída? Esse comportamento levava a prejuízos no seu
desempenho escolar e/ou nas suas relações interpessoais?
Professores: você tem relatórios escolares, boletins e outras
formas que descrevam direta ou indiretamente como era o
seu comportamento e desempenho escolar? Como era a
sua relação com outros colegas de sala de aula?
Cônjuge/amigos: as pessoas que convivem com você na
vida adulta podem fornecer informações valiosas. Pergunte
a eles como você é visto em relação ao seu comportamento:
desorganizado? Distraído? Falante? Impulsivo? Inquieto?
Embora essas informações não sejam obrigatórias para o
diagnóstico de TDAH no adulto, elas complementam a
investigação do quadro, na medida que facilitam a
compreensão de como os possíveis sinais e sintomas do TDAH
se davam na infância e vida adulta.
DESATENÇÃO
Esses são alguns sinais e sintomas presentes na vida do
indivíduo com TDAH predominantemente desatento:
Não presta atenção a detalhes ou comete erros por
descuido.
Não parece prestar atenção quando abordado diretamente.
Tem dificuldade de manter a atenção em tarefas.
Tem dificuldade para organizar tarefas e atividades.
Não acompanha instruções e não completa tarefas.
Evita, não gosta ou é relutante no envolvimento em tarefas
que requerem manutenção do esforço mental durante longo
período de tempo.
Frequentemente perde objetos necessários para tarefas.
Distrai-se facilmente.
É esquecido nas atividades diárias.
HIPERATIVIDADE/IMPULSIVIDADE
Esses são alguns sinais e sintomas presentes na vida do
indivíduo TDAH predominantemente hiperativo-impulsivo:
Balança ou torce mãos e pés com frequência.
Frequentemente movimenta-se pelo ambiente.
Tem dificuldades de se divertir tranquilamente.
Frequentemente movimenta-se e age como se estivesse
"ligado na tomada".
Costuma falar demais.
Frequentemente responde às perguntas de modo abrupto,
antes mesmo que elas sejam completadas.
Frequentemente tem dificuldade de aguardar sua vez.
Frequentemente interrompe os outros ou se intromete.
LUCAS: VIVENDO NO MUNDO DA LUA
Você chegou até aqui com algumas informações e orientações
sobre o TDAH. Chegou a hora de entender na prática como esse
quadro pode se manifestar sob diferentes perspectivas. Por isso,
você será apresentado a duas histórias ilustrativas sobre o
tema e que não correspondem a nenhum paciente em
específico.
Lucas, 36 anos, estudante de engenharia de alimentos. Procurou
a consulta com o psiquiatra a pedido da namorada, que
percebia nele “falta de perspectiva”. Ele estava em sua terceira
faculdade não concluída e afirmava que perdia facilmente o
interesse por quase tudo que começava, levando a abandonos
escolares frequentes.
Lucas disse ainda que nos seus relacionamentos sempre
enfrentou muitos problemas. Para a sua mãe era visto como
preguiçoso e desinteressado e pela namorada como frio e
distante. Vivia esquecendo de datas importantes como
aniversário de namoro, chegava atrasado nos compromissos e
com frequência deixava para trás objetos importantes, como
chaves e carteira.
Segundo os seus pais, Lucas já manifestava essa “falta de
interesse e descaso” desde a infância e por isso os familiares
eram chamados na escola com frequência. Entre os amigos
Lucas é conhecido como a melhor pessoa para guardar
segredo, afinal, nunca lembra de nada que é confidenciado.
Após extensa investigação, Lucas recebeu o diagnóstico tardio
de TDAH com apresentação predominantemente desatenta.
BEATRIZ: A GAROTA INTENSA
Beatriz procurou atendimento psiquiátrico a pedido de sua
terapeuta após dificuldades em ajustar comportamentos
impulsivos. Segundo o próprio relato, desde a infância,
costumava tomar suas decisões no calor do momento.
Terminou 03 relacionamentos por se sentir entediada com a
“rotina do namoro”, chegou e ser demitida do trabalho por “falar
algumas verdades ao chefe” e estava enfrentando
recentemente endividamento por compras no cartão de crédito.
Beatriz se descrevia como uma pessoa que se decidia
rapidamente e não tolerava pensar muito antes de agir. Isso
acabou levando a rótulos como franca demais, intensa e de
pavio curto. Porém, frequentemente se arrependia das
consequências geradas pelas suas atitudes e gostaria de ter
mais autocontrole e planejamento de suas ações.
Além das queixas apresentadas, Beatriz se mostrava uma
pessoa inquieta durante toda a consulta. Batia os pés enquanto
permanecia sentada, interrompia as perguntas e dava
respostas rápidas, mudando rapidamente o assunto quando se
sentia entediada com o tema ou quando lembrava de algo
importante.
Trouxe para a consulta um relatório escolar da quarta-série, na
qual a professora dizia que Beatriz era uma aluna sociável e
inteligente, mas muito agitada e falante, o que levava a
prejuízos no próprio desempenho acadêmico e dos demais
colegas. Essas informações também foram corroboradas por
seu pai que acompanhava a consulta. Segundo o familiar,
Beatriz sempre foi assim e esses comportamentos pareciam
parte de sua personalidade. Após avaliação cuidadosa, Beatriz
recebeu o diagnóstico de TDAH com predomínio de sintomas
hiperativos e impulsivos.
FUI DIAGNOSTICADO COM TDAH: E AGORA?
Após passar pela avaliação do profissional especializado e
receber o diagnóstico de TDAH surgirão muitas dúvidas, entre
elas quanto ao tratamento do TDAH. Estas são algumas das
informações que você precisa saber:
O TDAH possui tratamento medicamentoso e
comportamental. Esta condição encontra-se entre as com
melhor resposta ao tratamento medicamentoso, que pode
reverter, provisoriamente, os sinais e sintomas do TDAH.
Nem todo paciente com TDAH possui indicação de uso de
medicação. Pacientes com sintomas leves, com
contraindicação ao uso de medicamentos ou que não
desejam usar medicação podem se beneficiar de
estratégias comportamentais de manejo do TDAH.
Os medicamentos utilizados no tratamento do TDAH se
dividem em psicoestimulantes (exemplo: metilfenidato e
lisdexanfetamina) e não psicoestimulantes (exemplo:
atomoxetina e bupropiona). Psicoestimulantes costumam
ter maior eficácia para a maioria dos pacientes, mas podem
não ser tolerados devido aos seus efeitos colaterais como
dor de cabeça, insônia, irritabilidade e redução do apetite.
A escolha da medicação para tratamento do TDAH, havendo
necessidade da mesma, será discutida com o seu médico.
Isso levará em conta as suas particularidades e será
realizado de maneira individualizada. Já as medidas
comportamentais serão detalhadas a seguir:
MEDIDAS NÃO MEDICAMENTOSAS NO
TRATAMENTO DO TDAH
Discutiremos aqui algumas orientações que podem ser de
grande valia para o manejo comportamental do TDAH. Essas
medidas devem ser trabalhadas como parte do tratamento do
TDAH, de maneira individualizada levando em conta o que faz
sentido para você e suas dificuldades.
Para facilitar a compreensão e utilização dessas medidas, elas
foram divididas em áreas da vida do indivíduo com TDAH e
poderão ser aplicadas isoladamente ou em conjunto conforme
cada caso.
A seguir, falaremos sobre medidas comportamentais
relacionadas a: estudos, trabalho, finanças, relacionamentos e
saúde.
TDAH E ESTUDOS
Essas são algumas orientações que permitem potencializar o
seu desempenho e resultado nos estudos:
Estude em um ambiente tranquilo, organizado e livre de
distratores. Lembre-se: a organização do ambiente
influencia na sua organização mental.
Anote o conteúdo a ser estudado e os passos para sua
realização, bem como os prazos para conclusão. Isso pode
ser realizado através de listas de tarefas, planners ou
agendas.
Decomponha a meta em metas menores e de curto prazo
para não se sentir desestimulado. Lembre-se de descrever
metas realistas.
Utilize cronômetros, despertadores, relógios e outros
métodos de aferição do tempo.
Faça pausas regulares. Técnicas como o Pomodoro podem
te ajudar a fracionar o tempo entre estudo e descanso.
Se dê pequenos incentivos/ recompensas quando conseguir
cumprir uma meta. Isso vai te estimular a se manter
comprometido com suas tarefas.
Faça tarefas mais difíceis ou maçantes no seu horário mais
produtivo. Se possível, comece pelo mais difícil.
Utilize metodologias de estudo ativas e de maneira
intercalada (exemplo: dar uma aula para si mesmo do
assunto aprendido, fazer questões sobre o tema, usar
flashcards para revisão)
TDAH E TRABALHO
Essas são algumas orientações que permitem potencializar o
seu desempenho e resultado no trabalho
Programe-se com antecedência. Reserve o tempo
necessário para se higienizar, tomar o café e sair de casa
sem ser surpreendido com atrasos. Utilize o despertador
para se lembrar do horário e nada de ativar o modo soneca!
Deixe os objetos indispensáveis para o trabalho sempre no
mesmo lugar, assim você evita esquecer chaves, carteira,
mochila ou outros objetos necessários ao sair de casa.
Torne o seu ambiente de trabalho o mais silencioso possível
(escolha uma área com menor fluxo de pessoas e use
abafadores de ruído se necessário).
Organize sua mesa de trabalho. O ambiente organizado
facilita sua organização mental e diminui suas distrações.
Verifique a caixa de email profissional e lista de tarefas ao
começar o dia para se lembrar das próximas atividades.
Feche navegadores de internet desnecessários e deixe o
celular no silencioso.
Faça pausas sempre que necessário.
Faça anotações durante reuniões de trabalho (evita tédio e
facilita relembrar pontos importantes).
Peça feedbacks dos colegas de trabalho sempre que
possível para trabalhar pontos de melhoria no seu
desempenho.
TDAH E SAÚDE
Essas são algumas orientações que permitem cuidar da sua
saúde
Dê preferência por alimentos naturais, pouco processados e
com menor teor de açúcares e gorduras saturadas.
Evite estocar grandes volumes de alimentos açucarados e
gordurosos e desinstale aplicativos de delivery caso perceba
descontrole no acesso a comida processada.
Cuide da sua rotina de sono: utilize as estratégias de higiene
do sono para ter uma noite tranquila sem necessidade de
medicação.
Faça atividade física regular, mas escolha aquela que faz
sentido para você. Não adianta seguir dicas genéricas como
fazer academia se esta não for uma atividade do seu desejo.
Monitore as suas metas: acompanhe de tempos em tempos
como anda a qualidade da sua alimentação, seu
desempenho físico (baseado em métricas como peso,
composição corporal ou aquela indicada pelo profissional
que lhe acompanha). Faça essas medidas sem exageros:
está tudo bem não conseguir seguir a rotina todos os dias, o
que importa é a constância!
Procure fazer acompanhamento com profissionais
habilitados para realizar avaliações de rastreio e
acompanhamento de saúde, como nutricionista, educador
físico e médico.
TDAH E RELACIONAMENTOS
Essas são algumas orientações que permitem cuidar dos seus
relacionamentos:
Pense bem antes de falar. Devo dizer isso? Qual é a melhor
forma? Assim, você evita falas desnecessárias, rudes ou que
gerem constrangimento em sua relação pela simples falta
de planejamento.
Aprenda a escutar o outro. Isso permite entender situações
sobre outra perspectiva e te torna mais empático.
Cuidado com interrupções ou mudanças abruptas de
assunto enquanto o outro fala. Isso pode representar
desinteresse ou falta de polidez para quem está ouvindo.
Registre em aplicativos ou agenda datas significativas,
como eventos de família e aniversário de
namoro/casamento. Lembrar dessas datas demonstra que
você se importa com aquela pessoa.
Anote situações desafiadoras no seu relacionamento e quais
recursos você utilizou para lidar com elas. Fortaleça as
estratégias que foram positivas e busque entender nas
situações problemáticas o que pode ser evitado em
situações futuras.
Passe mais tempo de qualidade com quem você gosta.
Peça feedbacks para pessoas de sua convivência a respeito
do seu comportamento. Essa é uma excelente ferramenta
para compreender o que você pode fazer para tornar seu
relacionamento ainda mais significativo.
AGRADECIMENTOS
Esse material foi produzido para fins educacionais e não
pretende esgotar um tema tão complexo como o TDAH. Poderá
ser utilizado como passo inicial para que você compreenda
mais a fundo essa condição e saiba quais ferramentas utilizar
na busca por uma vida de estabilidade e realização.
Se você chegou até aqui, significa que de alguma forma esse
material lhe proporcionou informações importantes enquanto
paciente ou rede de apoio de um indivíduo portador de TDAH.
Sabemos que não é uma jornada fácil, mas acreditamos que é
possível torná-la mais leve através da educação e
conhecimento sobre o quadro.
Se você, assim como eu, entende a educação em saúde é um
instrumento divisor de águas, compartilhe esse material com
quem ele possa ser útil.
E lembre-se: você não está sozinho!
Atenciosamente,
Luiz Eduardo de Freitas Xavier
SUGESTÕES DE LEITURA COMPLEMENTAR
A referência a seguir é também sugestão de leitura
complementar:
Vencendo o TDAH Adulto: Transtorno de Déficit de
Atenção/Hiperatividade. Editora Artmed. Segunda edição.
REFERÊNCIAS
Couto, Taciana de Souza, Mario Ribeiro de Melo-Junior, and
Cláudia Roberta de Araújo Gomes. "Aspectos neurobiológicos do
transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH): uma
revisão." Ciências & Cognição 15.1 (2010): 241-251.
Caliman, Luciana Vieira. "O TDAH: entre as funções, disfunções e
otimização da atenção." Psicologia em estudo 13 (2008): 559-
566.
Desidério, Rosimeire, and Maria Cristina de OS Miyazaki.
"Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH):
orientações para a família." Psicologia Escolar e Educacional 11
(2007): 165-176.
Sonuga-Barke, Edmund JS, et al. "Nonpharmacological
interventions for ADHD: systematic review and meta-analyses of
randomized controlled trials of dietary and psychological
treatments." American journal of psychiatry 170.3 (2013): 275-289.
Able, Stephen L., et al. "Functional and psychosocial impairment
in adults with undiagnosed ADHD." Psychological medicine 37.1
(2007): 97-107.
Bruchmüller, Katrin, Jürgen Margraf, and Silvia Schneider. "Is
ADHD diagnosed in accord with diagnostic criteria?
Overdiagnosis and influence of client gender on diagnosis."
Journal of consulting and clinical psychology 80.1 (2012): 128.
Vencendo o TDAH Adulto: Transtorno de Déficit de
Atenção/Hiperatividade. Editora Artmed. Segunda edição