0 notas0% acharam este documento útil (0 voto) 358 visualizações45 páginasMulheres (Im) Perfeitas
Estudo sobre a perfeição e a imperfeição sócial
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MULHERES
imPERFEITAS“Titulo do original: You Play The Girl
Copyright © 2017 Carina Chocano.
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2020.
tora Pensamento-Cultrix Ltda.
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“A Ingénua Escolhe entre o Casamento ¢ a Morte”, “A Namorada Malvada’, “A Durona”, “Donas de Casa
Surreais’, “Celebridades Goricas”, “Uma Proposia Modesta para mais Traigio na Pré-Exola” e “As Garotas
Adoram Matematica” foram publicadas primeiro, em uma forma diferente, na The New York Times Magazine.
Partes de “Garotas de Verdade” ¢ “A Linguaruda Ataca de Novo" foram publicadas no Los Angeles Times, e uma
versio diferente de "Lily Totalmente Moderna” foi publicada primeiro em Salon.
‘A autora agradece a permissio para reimprimir a frase “Miley Cyrus Is Just Trying to Save de World” [Miley
Cyrus esta tentando apenas salvar 0 mundo}, de Allison Glock (2013), cortesia de Marie Claire, Heart
Comn ications, Inc.
Editor: Adilson Silva Ramachandra
Gerente editorial: Roseli de S. Ferraz
Preparagiode originais: Barbara Parente
Gerente de produgio editorial: Indiara Faria Kayo
Editoragio eletronica: $2 Books
Reyisao: Vivian Miwa Matsushita
Dados Internacionais de Catalogasio na Publicagao (CIP)
(Camara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Chocano, Carina
Mulheres imperfeitas : Como Hollywood ¢ a Cultura Pop Construiram Fabos Padroes Femininos no
Mundo Moderno / Carina Chocano ; triducio Martha Argel, Humberto Moura Neto. -~ Sio Paulo :
Editora Pensamento Cultrix, 2020.
‘Titulo original: You play the giel
ISBN 978-65-5736-022-4
1, Com io de massa ¢ mulheres 2. Mulheres - Condigdcs sociais 3. Mulheres ~ Identidade 4.
Mulheres na cultura popular 5. Papel sexual 6, Sexismo I. Titulo
20-38560 CDD-305.42
Indices para catélogo sistemitico:
1. Mulheres : Aspectos sociais : Sociologia 305.42
Cibele Maria Dias - Bibliotecéria - CRB-8/9427
4° Edigao digital 2020
eISBN: 978-65-5735-039-2Direitos de tradugio para o Brasil adquii
pela EDITORA PENSAMENTO-CULTRIX LTDA., que se reserva a
propriedadc literaria desta tridugio.
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Foi feito 0 depésito legal.Para KiraSumario
Capa
Folha de rosto
Dedicatéri
Introducao
Parte Um - Descendo pela Toca do Coelho
1. Coelhinhas
2.£ Possivel Salvar este Casamento?
3. A Estétua de B [ ’ i \
Corac&o Duro
4. Que Sensacdo
E 40 Pela Doid 2
Parte Dois - A Li Agrim:
6. A Ingénua Escolhe entre 0 Casamento e a Morte
7.Uma Lily T: ente Modern:
A Nam Mal
9. A DuronaParte Trés - Vocé nao Teria Vindo para C4
10. Donas de Casa Surreais
11. Garotas de Verdade
12. Celebridades Géticas
13. A Linguaruda Ataca de Novo
14, A Jornada Redentora
15. Uma Proposta Modesta para mais Traic&o na Pré-Escola
Parte Quatro - Um Cha Maluco
16. Deixa pra La
17. Todos os Vilées Sao Garotas
18. As Garotas Adoram Matematica
19. Vidas Fora dos Trilhos
20. Olhe para Si Mesma
Agradecimentos
Trabalhos Consultados
NotasIntrodug&o
ES DE DORMIR PRATICAMENte
MINHA FILHA, KIRA, OUVE HISTORIAS AD
desde que nasceu. Quando completou 8 anos, em 2016, j4 conhecia os
primeiros quadrinhos de Snoopy e sua Turma [Peanuts], os romances de
Frances Hodgson Burnett, os desenhos animados do Homem-Aranha
[Spider-Man] dos anos 1960, as aventuras existenciais de Frog and
Toad, as obras completas de Roald Dahl, Star Wars, as duas vers6es do
filme Annie e ambas as versdes de Os Caga-Fantasmas [Ghostbusters].
Nio foi minha intengao levé-la a um passeio pelas obras de meu
amadurecimento literario, e nem imaginei que, ao revisitar as histérias
que amava quando era crianga, iria lembrar-me delas de mancira
muito mais vivida do que de eventos reais de minha infancia. Mas foi
o que de fato aconteceu. Em alguns momentos, questionei meus
motivos. O que eu achava que estava fazendo? Quais eram,
exatamente, minhas inteng6es? Estava apresentando as coisas a ela ou
estava apresentando-a a mim? E se eu estivesse me apresentando a ela
de algum modo, por meio de seus globos oculares e canais auditivos,
como um esporo cerebral transmitido pelo ar? Continuaria sendo algo
educativo ou seria apenas bizarro? Seria eu como qualquer mie ou pai
normais, ou estaria mais para uma parddia de uma cuidadora hipster
em um esquete de Portlandia? OL Era assim que a cultura
funcionava?Certa vez, quando Kira tinha 5 anos de idade, dei-Ihe de
presente um belo exemplar, ilustrado e carfssimo, do livro Alice no Pats
das Maravilhas [Alice’s Adventures in Wonderland], de Lewis Carroll, e
sem querer deixei escapar que nao me lembrava se ja o havia lido. Ela
pressentiu uma trapaga — talvez porque cu estava mesmo trapaceando.
Para comegar, eu ja havia estabelecido um sistema de recomendagées
baseado em uma nostalgia declarada, e nao em pedagogia. Além disso,
ela ja tinha assistido 4 adaptacio em desenho animado da Disney e
lido 0 livro baseado no filme, e parecia nao ter gostado muito, assim
como acontecera comigo na idade dela. Mas eu estava curiosa. Tinha
© pressentimento de que o original tinha algo importante para me
dizer. Assim, insisti, ¢ Kira cedeu, mas, depois de algumas paginas, cla
me interrompeu e exigiu que eu lesse 4 Bela Adormecida [Sleeping
Beauty).
Por acaso, a versio de A Bela Adormecida que tinhamos fazia
parte da mesma série de livros e era baseada no desenho animado
estrelado pela Barbie gética princesa Aurora, as fadas atrapalhadas
Flora, Fauna e Primavera ¢ a sofisticada supervila Malévola. Kira era
alucinada por A Bela Adormecida. Ela nao se cansava nunca da historia.
Nos duas a liamos todas as noites na hora de dormir, as vezes duas
vezes na mesma noite, durante um ano. Ela sabia a histéria de cor, do
comego ao fim, e me fazia parar antes da parte em que Malévola
invade o batizado, para poder recitar o trecho. Toda noite, Kira
declamava com seriedade a maldicio langada por Malévola sobre a
princesa ¢ a reagao alarmada dos pais da jovem.
“Antes do pér do sol do seu décimo sexto aniversario, ela picara
o dedo no fuso de uma roca de fiar, e mor-re-1
de Maleévola.
“Oh, nio!”, exclamava com a voz da rainha.
”, dizia ela, com a voz
“Prendam essa criatura”, ordenava com a voz do rei.Era divertido.
A teoria do pai de Kira, Craig, era que cla gostava de 4 Bela
Adormecida porque no fim a amaldigoada princesa Aurora voltava para
os pais, depois de passar dezesseis anos escondida com as fadas. Ser
acolhida de volta pelo pai, o rei Estévio, e pela mie, a rainha Leila,
era o verdadeiro final feliz. Essa interpretagao fazia sentido para mim,
criangas de 5 anos querem autonomia e liberdade, mas também
querem sentir-se seguras, cuidadas e amadas — exatamente como os
adultos. Mas, ainda assim, essa teoria nio me satisfazia, Eu
continuava atras de algum incrivel insight pré-escolar, alguma migalha
apocaliptica de verdade que revelasse tudo. Como, por exemplo, por
que cla gostava tanto de 4 Bela Adormecida? O que havia em Aurora
para que Kira a colocasse tao acima das outras princesas? Eu gostava
de pensar que tinha algo a ver com o fato de que, em ultima anilise,
Aurora desafiava uma sentenga de morte ou que talvez Kira tivesse
uma atragao inconsciente pelo poder da fada rebelde. Mas a resposta
de minha filha era sempre a mesma: a Bela Adormecida era a mais
bonita. E era verdade. Ela era a mais bonita. De fato, 0 que mais se
poderia querer de uma heroina? Seus cabelos eram os mais longos,
mais loiros e mais esvoacantes. Seu vestido tinha a saia mais rodada e
a cintura mais estreita. Além disso, ela era jovem, inocente, passiva,
ingénua, vulnerdvel, submissa, oprimida, bondosa com os animais,
eficiente com a vassoura, perseguida e explorada — ou seja,
indistinguivel das demais. Um pedo impotente na disputa pelo poder
entre o rei e uma fada “do mal” ou rainha “perversa”, que sempre era
derrotada no final. Ela falava muito pouco, e quando o fazia, sua voz
era suave, nunca estridente. Ela cantava com docura, trabalhava
contente e sofria com nobreza e elegancia. Desde o berco somos
ensinadas a associar beleza com bondade e valor. E uma ligao dificil de
desaprender. Quando eu era pequena, a Bela Adormecida era minhapreferida por ser a mais bonita também; porque eu a reconhecia como
o ideal feminino. Eu compreendia que ela nao era apenas descritiva,
mas prescritiva, que era nao apenas a herofna de sua propria histéria,
mas também 0 objetivo a ser alcangado.
Naquela noite, depois que Kira adormeceu, terminei de ler Alice no
Pats das Maravithas ¢ fiquei chocada ao perceber como a histéria me
parecia familiar, e a forma profunda como ressoava em mim. Alice era
temperamental, esnobe, prepotente, critica e esquentada. Fazia
perguntas demais e tinha problemas com a autoridade. Era uma
devoradora emocional, que absorvia com ansiedade tudo que
encontrasse pela frente. Agia como se tivesse direito natural a coisas
como explicagées, respeito e uma linda casa cheia de brinquedos com
os quais brincar. Ofendia-se com facilidade e com frequéncia sentia
pena de si mesma. Era cheia de opinides, questionadora e egocéntrica.
Ela nao se parecia nada com as heroinas dos contos de fadas — nao era
como a princesa ou como uma garota comum. Nao admira que eu nao
gostasse dela. Comparada com a Bela Adormecida, Alice era um
monstro. Ela era exatamente como eu.
A historia é a seguinte: Alice tem 7 anos de idade e esta
descansando na beira do rio com sua irma mais velha, em um célido
dia de primavera. A irma lé um livro sem ilustracdes, e Alice esta
entediada e quase cochilando, quando, de repente, um Coelho Branco
vestido com um colete passa correndo, olhando seu relégio de bolso e
resmungando algo sobre o horirio. Alice se levanta e segue o Coelho
por baixo de uma sebe, e por acidente cai dentro de uma toca de
coelho. Ela aterrissa em um lugar absurdo, onde as regras da légica ou
da fisica nao se aplicam. No Pais das Maravilhas, dependendo do
contexto, que muda o tempo todo e nfo faz nenhum sentido, o corpo
dela sempre é grande demais ou pequeno demais, suas emog6es sio
exageradas e as criaturas que encontra sio grosseiras, arrogantes,desdenhosas e hostis. Elas entendem errado o que ela diz e tomam-na
pelo que nao é. O Coelho Branco confunde-a com sua criada. A
Pomba acha que ela é uma serpente (quando o pescogo dela espicha
como o de um flamingo). O Chapeleiro Louco e a Lebre Maluca
dizem-lhe que nao ha lugar para cla 4 mesa de cha, embora esteja
evidente que sobram lugares. Eles lhe oferecem um vinho que nao
existe e depois a censuram por invadir uma festa para a qual nao foi
convidada.
Todo esse gaslighting 021 acaba levando Alice a uma tremenda
crise de identidade. Ela comeca a duvidar de sua sanidade. (“Somos
todos loucos aqui. Eu sou louco. Vocé € louca”, diz a ela o Gato de
Cheshire. “Como vocé sabe que sou louca?”, pergunta Alice. “Deve
set”, responde 0 Gato, “ou nao teria vindo para c4.”L031) Ela nunca
havia acreditado em contos de fadas quando era mais nova, e no
entanto ali estava, aparentemente presa em um. Alguém devia escrever
um livro sobre ela, pensa. Talvez ela 0 escreva quando crescer. Entao
the ocorre que ela jd cresceu — ou pelo menos ja cresceu até onde
poderia naquele lugar restritivo e¢ infantilizado, onde nao ha espaco
para uma pessoa como ela crescer.
Quando Lewis Carroll publicou Alice no Pais das Maravilhas, em
1865, o mundo estava no meio de uma revolucio cientifica,
tecnolégica, econdmica e social. A industrializagao, a urbanizacio, a
comunicacao de massa, 0 transporte de massa e o livre comércio
tinham possibilitado o surgimento do capitalismo de mercado e da
classe média. O darwinismo, o marxismo e a psicanilise haviam
revolucionado o mundo social. As recém-surgidas “damas” da classe
média viram-se na desconfortavel posicao de terem de preservar
simbolicamente os valores culturais. O que cram as mulheres ¢ como
elas se encaixavam na sociedade tornou-se uma obsessio publica. As
mulheres mais cultas de classe média alta organizaram-se em torno decausas sociais como a aboligio da escravatura, a temperangaL04] ¢ as
reformas prisionais, da educagao, do casamento e dos sanatérios;
quanto mais elas se agitavam por sufragio, por direitos de propriedade,
de custédia, reprodutivos e legais, por acesso a educacio superior e as
profissées e€ por uma modernizacgao do vestudrio, mais eram
pressionadas a se encaixarem em determinado modelo. O “culto da
verdadeira feminilidade” era a resposta capitalista 4 “questo da
mulher” — tal como, o que deve ser feito com elas ¢ com suas malditas
exigéncias? Era o confronto entre o cliché e as mulheres da Era
Vitoriana, a reagéo original contra as reformas liberais, manifestada
pela imprensa, pela midia popular ¢ pela publicidade; 51 cle
dominou a midia popular, as claras ou de forma dissimulada,
condescendente ou hostil, polémica ou utilitaria, do mesmo modo
como ocorre hoje em dia. O “culto da verdadeira feminilidade”
ajudava a vender jornais ¢ revistas, inspirava serm6es, motivava cartas
aos editores e gerava muito estardalhago. Dava uma _ resposta
materialista para uma questio existencial, preenchendo o vacuo
deixado pelo término da antiga ordem social “divina” ¢ feudal, ¢
substituindo-a com uma ordem social “natural” baseada na “ciéncia”.
O “culto da verdadeira feminilidade” dividia 0 mundo simbélico em
dois, separando tudo em categorias. Os homens ficavam com a “esfera
publica” formada por comércio, politica, lei, cultura, razdo e ciéncia;
para as mulheres — as “verdadeiras mulheres” — ficava a “esfera privada”
que incluia casa, filhos, moral e sentimento.
Vem dai a nogio dos papéis de esposa ¢ de mae como um
“trabalho”, e nio apenas um trabalho qualquer, mas uma missao tio
nobre e elevada que apenas poderia ser realizada por amor, jamais por
coisas tio corruptas como dinheiro ou posigao social. A “verdadeira
mulher” recebeu a incumbéncia de criar um reftigio sereno e
restaurador para o marido, distante do mundo sujo e corrompido do
capital, no qual ele se aventurava para perseguir sua presa. Comocompensac4o por sua total privacao civica e financeira, a esposa de
classe média alta recebia a administragao da casa — supondo que ela
tivesse sorte suficiente para adquirir uma casa por meio do casamento.
Suas fungdes inclufam lidar com os empregados, administrar o
orgamento doméstico, supervisionar o desenvolvimento social, moral ¢
espiritual do marido e dos filhos e devotar-se a demonstrar com
preciso o status do marido, por meio “do consumo de bens de luxo,
do modo apropriado a uma dama”. L061 Na seguranga do lar, em seu
“jardim protegido por muros”,/0Z1 ela tanto alimentava quanto
reprimia suas ansiedades sociais e de status, ao seguir os conselhos de
revistas como Gadey’s Lady’ Book (1830-1878), que trazia dicas de
moda e de como cuidar da casa, conselhos sobre quest6es de etiqueta
social, vislumbres intimos da vida de aristocratas e socialites €
propagandas que exibiam todas as novidades indispensdveis mais
recentes. Tudo aquilo que fazia com que uma dama fosse uma dama.
O fato de que poucas mulheres tinham condicio de adotar o
estilo de vida ali apresentado, ou de seguir tantos conselhos
contraditérios, era totalmente irrelevante (as mulheres da classe
trabalhadora, tendo que laborar em troca de um salirio, eram sempre
“reais” demais para serem “verdadeiras”). A “verdadeira feminilidade”,
de qualquer modo, nao passava de uma aspiragao, pois nada é melhor
para manter uma mulher em seu devido lugar do que tentar alcancar
um padrao impossivel.
A “verdadeira mulher”, também chamada de “anjo da casa”, por
conta de um poema popular do poeta Coventry Patmore, era uma
mulher idealizada, promovida sem cessar na publicidade, nos jornais,
na literatura popular e nas revistas femininas. L081 Era o ideal popular
que se esperava que toda mulher moderna decente alcancasse.L021 A
historiadora Barbara Welter resumiu as quatro virtudes cardeais de
uma “verdadeira mulher”: ela era virtuosa, submissa, do lar ¢ pura, L101 Sua inocéncia era infantil, e seu comportamento cra modesto ¢
recatado, Ela perdoava todas as transgressoes do marido, sem cometer
nenhuma. Ela o absolvia dos pecados. Ela buscava agradar. Seus
modos eram irrepreensiveis e seu gosto, impecavel. Ela era colocada
como uma boneca fré;
no alto de um pedestal estreito, de cima do
qual poderia cair a qualquer movimento brusco.
Era para se encaixar nesse mundo que uma garota como Alice
havia sido educada. Esse era o caminho para uma vida adulta bem-
sucedida. Era esperado que ela se casasse, tivesse filhos e se tornasse a
senhora da casa, e toda a educac3o que recebera tinha esse tinico
propésito. A senhora da casa tornava-se parte da propria casa: tanto
pela lei britanica quanto pela lei americana, 0 casamento a privava por
completo de suas propriedades e personalidade. Uma mulher solteira
era uma feme sole; a mulher casada era uma feme covert, ou “mulher
resguardada”, legalmente englobada pela identidade do marido. As
mulheres comegaram a adquirir um status legal como pessoa com a Lei
de Propriedade de Mulheres Casadas de 1839, mas ainda nao
usufruiam dele por completo na época de Alice.
No Peru, minha propria bisavé, Rosa Maria Montenegro, teve
de se casar aos 16 anos com um préspero homem vinte anos mais
velho.
“Eu ainda brincava de boneca”, ela me contou uma vez. “Na
minha noite de mipcias, tentei fugir pela janela. Ninguém havia me
contado nada.”
Depois que ela entendeu a situacdo, tornou-se mais feliz. Seu
marido era gentil com ela, e Ihe dava mais dinheiro ¢ liberdade do que
ela recebera da mae. Duas vezes por ano, ela encomendava roupas e
moveis da Europa. As encomendas chegavam de navio e eram levadas
por trem da ponta do pier até o porto. Todo mundo sabia que seu
marido tinha sffilis. Ele morreu quando ela era muito jovem,deixando-a vitiva e com trés filhas. Todas voltaram para a casa da mae
dela. Minha bisavé acabou casando-se de novo e teve uma quarta filha
seis meses antes que sua segunda filha, minha av, tivesse minha mie.
Permanecer solteirona era ser socialmente “redundante”, mas, para
uma garota, o casamento significava ser absorvida pelo cu de outra
pessoa. A educagio de uma mulher era destinada a fazer com que
cafsse no sono aos 16 anos e se mantivesse inalterada e inconsciente
para sempre. Era uma anulagio. Nao era um inicio, mas uma
“finalizagao”.
Por que eu me identificava com Alice, aquela garotinha vitoriana? As
aventuras de Alice no Pais das Maravilhas nfo tinham nada em
comum com minha vida. Entio por que me pareciam tio familiares?
Eu nunca tinha caido na toca de um coelho e ido parar em uma terra
estranha e incompreensivel, mas, sim, tive uma infancia absurdamente
itinerante e, quando cheguei a idade de Alice, ja tinha passado por
mais choques culturais do que a maior parte das pessoas passa ao
longo de toda a vida. Depois, ja adulta, trabalhei como critica de
cultura pop durante quase uma década. Nos tiltimos quatro anos,
passei a maior parte das horas do dia dentro de salas de exibicio
escuras. Comecei a trabalhar como critica de televisio em 2000, talvez
o melhor momento para escrever sobre televisio. E passei a trabalhar
como critica de cinema em 2004, talvez o pior momento para escrever
sobre cinema. Eu passava horas no escuro, consumindo doses téxicas
de filmes de super-herdis, comédias romanticas sobre cerimGnias de
casamento, hinos criptofascistas 4 guerra e bromances sobre
rapazinhos imaturos e desinteressantes e as mulheres deslumbrantes
que estavam desesperadas para se casar com eles. Filmes com
protagonistas mulheres eram praticamente inexistentes. A maioria das
atrizes estava 14 para fazer o papel de “a garota”.“A garota” era a versio adulta da “princesa”. Quando crianga, eu
acreditava que a princesa era a protagonista, porque ela parecia ser a
personagem central da histéria. A palavra protagonista vem do grego,
significando “o ator principal em uma disputa ou causa”, e um
protagonista € uma pessoa que deseja algo ¢ faz alguma coisa para
conseguir o que quer. “A garota” nio age, porém — ela se comporta.
Ela nao tem uma causa, mas uma provacao. Ela nao deseja nada, ela é
desejada. Ela nao é uma vencedora, ela é 0 prémio. Ela nao se realiza,
mas ajuda o herdi a realizar-se. As vezes, sentada no cinema, eu sentia
um desespero crescente e pensava: Por gue vocés ficam me contando isso?
Por que fialam desse jeito comigo?
Claro que havia bons filmes, que me reconectavam comigo
mesma € com 0 mundo, mas na maior parte do tempo eu me sentia
como alguma etnégrafa meio maluca, perdida em outra dimensao, no
desespero de reunir notas de campo no interior daquele espelho
sombrio no qual eu nao conseguia de modo algum me situar. Comecei
a me sentir irreal, irrelevante em minha prépria vida, aprisionada em
um sonho que nio cra meu. Sentia-me como um canério em uma
mina de carvao, trilando meus protestos diminutos e impotentes em
meio a escuridao enquanto testemunhava, traumatizada, a
desumanidade da continuagao do blockbuster daquele verio. Sentia-
me, acho, como Alice no Pais das Maravilhas. Por algum motivo,
tomar notas ajudava. Eu fazia anotagdes para mitigar a sensagio de
desespero contido que as vezes me dominava, para afirmar minha
existéncia, para me lembrar de comprar bananas a caminho de casa.
Eu preenchia um caderno atras do outro com garranchos indignados,
tortos ¢ ilegiveis. Sei que todo mundo diz que sua letra é torta e
ilegivel, mas a minha era de verdade, porque eu escrevia no escuro.
A escritora Renata Adler passou um ano — 0 ano em que nasci —
trabalhando como critica de cinema para 0 The New York Times. Seidisso porque durante minha fase de critica de cinema, sentia-me tao
alienada de mim mesma e de meus sentimentos, que comecei a
procurar evidéncias de que nfo era a primeira pessoa na histéria, nem
a tinica, a sentir-se assim. A Year in the Dark [Um Ano na Escuridao]
€ uma coletanea das resenhas escritas por Adler em 1968. Na
introdugao, ela conta como deixou o emprego de resenhista literaria
na revista The New Yorker ao perceber que nao acreditava na “critica
profissional como modo de vida”. No entanto, quando o The New
York Times lhe ofereceu o trabalho na area de cinema, ela pensou na
forma como seus criticos de cinema favoritos usavam os filmes como
mote para discussdes culturais mais amplas, “colocando, de forma
idiossincratica, os filmes em paralelo com outros temas de seu
interesse”. Escrever sobre os filmes era um modo de escrever “sobre
um evento, sobre qualquer assunto”- ¢ isso tinha a ver comigo, pois
foi o que senti quando comecei a escrever sobre televiséo. Eu escrevia
a respeito do que me interessava e reagia aquilo que parecia merecer
uma reacdo no momento. No caso do cinema, porém, eu estava presa
A agenda de langamentos e aos trabalhos em conjunto. Nao havia mais
conexées aleatdrias, nao era mais possivel entrar na conversa quando
ela comegava a ficar boa. Em vez disso, pegava meu carro, ia até 14,
sentava-me, assistia, processava, fazia tudo de novo. Comecei a me
fechar. Adler também chegou a um ponto onde sentia que os filmes
“anulavam o contetido de boa parte de minha vida, e também
owt
Eu me sentia da mesma forma, mas nao pedi demissio. Craig
ocupavam meus dias, como sonhos”, ¢ isso a levou a se demit
costumava me achar num estado de estupor cataténico, tentando
encontrar novas maneiras de dizer as mesmas coisas sobre as mesmas
coisas. “Faga simplesmente como no jogo Mad Lib,L12] prepare
alguns modelos e so preencha as lacunas”, sugeria ele. Nunca segui sua
sugestao, e ele revidava lendo minhas resenhas em alto e bom som,
imitando a voz de Gene Shalit. L131 As vezes, ele me fitava com olharde peixe morto e expressio vazia, e proferia as palavras de criticos de
cinema que eu o proibira de usar na minha frente: “Confete e
purpurina. Filme de verao”.
Um dia, em 2007, li algo que me tirou de imediato de meu
estado entorpecido. Era uma frase casual em uma entrevista com Isla
Fisher. Indagada sobre como sua carreira tinha mudado depois de seu
papel de maior destaque, em Penetras Bons de Bico [Wedding Crashers],
ela respondeu que, para sua grande surpresa inicial, nada mudara.
“Depois de Penetras Bons de Bico, percebi que em Hollywood nao ha
muitas oportunidades para mulheres fazerem humor’, disse ela.
“Todos os roteiros sao escritos para homens, e vocé faz o papel de ‘a
garota’ no carrio turbinado.” L141 Apos Penetras Bons de Bico, Fisher
atuou como 0 interesse romantico em Hot Rod — Loucos Sobre Rodas
[Hot Rod], um filme com Andy Samberg sobre Andy Samberg e um
carro. O comentirio dela expds nao sé a realidade — a escassez de
oportunidades humoristicas para mulheres em Hollywood -, mas
também a ideologia que havia criado e perpetuava essa realidade.
Estava bem ali, na estrutura da sentenga, e facil de analisar: “Todos os
roteiros sao escritos para homens, e fazer o papel de ‘a garota” sugere
que os roteiros vinham 1a de cima, entregues pela mao pura e branca
de Deus. “A garota” era banida para os bastidores até receber a ordem
de desempenhar seu insignificante papel feminino. Foi desse modo,
com o desprezo da internet, que seu comentario foi tratado como
clickbait, uma isca para atrair visitas a sites. “Namorada de Borat
planeja revolugéo sexual em Hollywood”, 181 anunciou uma
manchete, que nao apenas provava nao ter entendido nada, mas ainda
zombava da questao e menosprezava-a. Toda a experiéncia feminina
parecia contida naquele comentario, sem falar em varios dos estigios
do luto feminista: 0 choque de perceber que 0 mundo nao pertence
também a vocé; a vergonha por ter sido ingénua a ponto de pensar que
pertencia; a indignagao, a depressao e o desespero que se seguem a talpercepcio; e, por fim, a adog&ao de mecanismos praticos de
enfrentamento, compartimentagao, pragmatismo e redugao de
expectativas.
Um sentimento antigo e familiar, uma sensagio de desconforto,
comegou a tomar forma depois disso. Nao eram sé os filmes. Era
tudo, por todo lado. Era o sexismo sublimado que emudecia cada
experiéncia, mas que nao nos era permitido notar ou reconhecer. Era
o subtexto regressivo que parecia solapar cada texto progressivo. Entre
a época em que eu era uma garotinha curiosa, nos anos 1970, e a
época em que me tornei uma mulher adulta confusa e desnorteada,
nos anos 2000, perdi-me em um mundo absurdo de ambiguidades 16
1 mensagens contraditérias, até nao ter mais certeza de quem eu era
ou o que era esperado que eu fizesse. Contudo, estava claro que se
esperava que eu fizesse algo, porque sempre havia alguém me dizendo
que eu estava fazendo tudo errado. As ideias que as mulheres tinham
sobre si mesmas haviam mudado, mas a ideia que o mundo fazia das
mulheres, de algum modo, nao mudara. A dissonancia cognitiva era
palpavel, o tempo todo.
Em 2012, cerca de quatro anos depois que sai do jornal, assisti ao
filme Ruby Sparks - A Namorada Perfeita [Ruby Sparks], escrito e
estrelado por Zoe Kazan. O filme era sobre Calvin, um novelista
prodigo e nerd que escreveu um dest-seller na juventude e desde entao
ficou bloqueado, paralisado pela ansiedade causada pela prépria
influéncia. Um dia, ele inventa uma garota. O nome dela é Ruby. Ela
é excéntrica e dedicada, ¢ ele a ama. Ela € 0 tipo de garota que ele
adoraria encontrar, a garota de seus sonhos. Ele mostra 0 manuscrito
ao irmao, Harry, que lhe diz: “Mulheres excéntricas e atrapalhadas,
com problemas que sé fazem a gente gostar ainda mais delas, nio
existem de verdade... Vocé nao criou uma pessoa, vocé criou uma
mulher perfeita”.Mas, na manha seguinte, Calvin acorda e encontra Ruby na
cozinha, tomando o café da manha. De algum modo, ele nao apenas
havia materializado a garota de seus sonhos, como também pode
muda-la da maneira que quiser. Ele pode controlar a histéria dela a
partir de sua maquina de escrever (cle usa uma maquina de escrever
porque é esse tipo de cara). Calvin liga para Harry e pede que venha
até sua casa e confirme que ele nao ficou maluco. Nao, nao ficou.
Ruby nao sé é real, mas também, como observa Harry, “pode fazer
uns ajustes, se quiser”.
Ele pede a Calvin, “por todos os homens”, que nao perca aquela
oportunidade. Mas Calvin resolve ser nobre. Ele guarda 0 manuscrito
e jura nunca mais usar sua escrita para tentar controlar Ruby ou, de
alguma maneira, interferir no destino dela.
Ruby, é claro, acha que é uma pessoa. Ela nao sabe que foi
conjurada a partir da imaginacao de Calvin e que nao passa de um
avatar. Tudo o que sabe é que Calvin é 0 centro de sua vida, 0 tinico
sentido de sua existéncia, e sente-se vazia e sem rumo. Passa o dia
todo em
, isolada, sem ter 0 que fazer enquanto ele escreve.
Comega a ficar deprimida e carente, e deixa Calvin maluco.
Finalmente, ele pega 0 manuscrito e comega a fazer ajustes sutis nela.
E se cla fosse um pouco menos carente, um pouco mais independente?
Funciona. Logo, Ruby matricula-se em um curso e faz novos amigos.
Faz planos com eles depois da aula, e Calvin sente citimes. Ambos
visitam a familia dele, e Calvin fica irritado porque ela os adorou e eles
também a adoraram. Entao, certa noite, em uma festa, ela pula na
piscina com um autor rival, e Calvin perde a cabeca. Ao voltar para
casa, eles brigam e Ruby 0 acusa de esperar que ela corresponda a seu
“deal platonico de namorada”. Ela diz que ele nao a controla, ¢ Calvin
discorda. Senta-se 4 maquina de escrever e comega a datilografar;
primeiro a faz latir como um cachorro, entio andar de quatro e, por
fim, saltar como uma lider de torcida, gritando “Vocé 6 um génio!Vocé é um génio!” sem parar, até cair. Depois, ela se levanta e sai
correndo.
Li, em uma entrevista com Kazan, que ela estava interessada em
escrever sobre a violéncia inerente 4 reduc&io de uma pessoa a um
ideal. Assistindo a Ruby Sparks - A Namorada Perfeita, ocorreu-me
que o filme era uma metéfora perfeita para o modo como a cultura pop
age todos os dias para reduzir-nos a ideias, e como nés, como garotas,
crescemos em uma espécie de Pais das Maravilhas ao contrario, onde a
midia empenha-se em nos apagar e substituir por estranhas versdes de
fantasia de néds mesmas. A personagem de Ruby é dupla. Ela é tanto
um ideal patriarcal moderno quanto uma pessoa real lutando para
emergir de baixo do véu opressor de tal ideal. Ruby Sparks aborda
como é crescer 4 sombra desse duplo ficticio, e este € tanto o conflito
central do filme quanto a tese central deste livro. E ainda: diferenciais
extremos de poder sao péssimos para as relagdes humanas. E isto: nao
estou convencida de que o amor é um trabalho. E mais: a perspectiva
importa; para a garota de seus sonhos, seu sonho é um pesadelo se ela
esta presa nele.
Perto do fim de Alice no Pais das Maravilhas, Alice faz amizade
com dois desajustados, o Grifo e a Tartaruga Fingida. Eles sentem
mais ou menos 0 mesmo que cla quanto as pessoas malucas do Pais
das Maravilhas, e sao os que mais se aproximam de validar os
sentimentos dela. A Tartaruga Fingida conta-Ihe a respeito de sua
educacao, sobre as ligdes que aprendia na escola, que a “diminuiam” a
cada dia. LIZ] Ela ajuda Alice a perceber que nao estd nem maluca e
nem sozinha. A validacdo dé a Alice confianga para voltar ao jardim e
desafiar a autoridade da Rainha de Copas, ¢ isso, é claro, faz a Rainha
ficar roxa de raiva.
“Cale a boca!”, ela ordena. E, quando Alice se recusa, ela berra
“Cortem-lhe a cabega!Mas Alice ja nao tem mais medo. Ela j4 comegou a assumir uma
vez mais seu tamanho normal. Ela estende a mao e enxota a Rainha
com um gesto.
“Quem se importa com vocés?”, diz. “Vocés so s6 um monte de
cartas!”
Com isso, a Rainha cai aos pedacos e as cartas voam para todos
os lados. Alice desperta de seu sonho e corre para casa.
Embora tivesse se recusado a ouvir o resto da historia de Alice,
Kira nao a esqueceu. De vez em quando ela folheava o livro, quando
cu nao estava olhando. Um dia, cla viu um vestido vintage em um
brecho. Era pregueado, de flanela azul-clara, com gola Peter Pan,
mangas bufantes e um laco nas costas. Parecia o vestido de Alice. Ela
me pediu que o comprasse para ela, e foi o que fiz. Ela costumava usa-
lo com sua tiara vistosa, com um laco dourado enorme em cima, que
ela havia escolhido em uma loja de departamento. No dia da leitura
em sua escola, ela acrescentou um avental branco e sapatos boneca de
couro preto, ¢ foi vestida de Alice.
Ela estava com 5 anos nessa época, e 7 quando comecei a
escrever este livro — a mesma idade de Alice. Aos 7 anos, uma garota
esta a ponto de cair na toca do coelho e chegar a um jardim artificial,
onde sera ensinada a submeter-se as regras sem sentido de um jogo
impossivel de vencer — croquet com ourigos no lugar das bolas e
flamingos em vez de tacos — sob a ameaga constante de destruicao.
Desde entao, Kira cresceu, nao entra mais no vestido e perdeu a
tiara dourada, mas espero que também cres¢a para além de todas as
histérias limitantes, opressoras ¢ infantilizantes — todos os contos de
fadas destinados a manté-la pequena, encolhida e assustada — muito
antes do que aconteceu comigo. Espero que, como Alice, ela desperte
€ os enxergue como de fato séo: apenas um monte de mentiras.
Espero que ela os esmague sem pensar duas vezes, ¢ escreva o proprioconto de fadas, que reflita sua propria experiéncia como ser humano
nesse mundo absurdo.
Enquanto isso, este livro é para ela.Parte Um
IS
Descendo pela Toca do Coelho
e vocé bebe muito de uma garrafa em que esta escrito ‘veneno’, €
“St beb ito di fa St it
quase certo que vai se sentir mal, mais cedo ou mais tarde.”
— Lewis Carroll, Alice no Pais das MaravilbasEIS
Coelhinhas
APRENDI SOBRE SEXO COM O LIVRO INFANTIL DE ONDE Viemos? [Were
Did I Come From?], de Peter Mayle, Arthur Robins e Paul Walter,
mas aprendi sobre sensualidade com as revistas Playboy, de meu avo e
com o Pernalonga fazendo a drag. O que compreendi, com 0 livro, era
que © sexo era uma coisa desajeitada que acontecia quando um
homem gorducho sentia “muito amor” por uma mulher gorducha e
queria “ficar o mais pertinho possivel dela”. Com a Playboy aprendi
que sensualidade eram mogas peladas e homens esquisitos e invisiveis.
A casa de meus avés foi construfda em meados da década de
1950 e parecia o cenario de um filme de 4 Pantera Cor-de-Rosa [Pink
Panther]. O escritério, em particular, exibia 0 tipo de masculinidade
sofisticada ¢ cosmopolita que estava na moda naquela época. Talvez
em algum momento meu avo tivesse 0 habito de organizar jogos de
poquer e convidar outros homens de cabelo empastado, curtidos de
sol, que usavam camisas guayaberas e sandalias com meias brancas e se
reuniam em volta da mesa de jogos coberta de feltro verde. Mas
quando eu era crianga, ele s6 tinha um visitante. Tio César era um
almirante reformado da Marinha, com aparéncia suave, nariz de
batata ¢ uma severa limitacao visual, que faziam lembrar um Mr.Magoo beatifico. Outra caracteristica interessante dele era haver
perdido as cordas vocais devido a um cancer, tendo reaprendido a falar
engolindo ar e arrotando as palavras (é a chamada fala esofagica. Ele
nos ensinou a usd-la). Em minha infancia, 0 escritério nao era bem
um espago social, mas um templo a persona que meu avé criara para si
mesmo, tendo a Playboy como seu guia.
Meu avé colecionava revistas Playboy. Isso no quer dizer que ele
comprava todos os ntimeros; quer dizer que ele comprava todos os
ntmeros, encadernava-os em volumes anuais com capas de couro
gravadas a ouro na lombada e organizava-os em uma estante baixa por
tris da mesa de péquer, como se fossem os tomos de uma bela
enciclopédia. Eles conferiam ao aposento uma atmosfera devassa, mas
culta, que atenuava a vulgaridade grosseira dos cartuns emoldurados
junto ao bar de fundo espelhado, que representavam cenas de
enfermeiras ¢ secretdrias sensuais sendo assediadas sexualmente. Havia
também — a época meu favorito — o cartum de um homem descendo
pelo vaso sanitario enquanto dava a descarga, com uma legenda que
dizia: “Adeus, mundo cruel”. As enfermeiras e os médicos dos cartuns
emoldurados no escrit6rio de meu avo pareciam criaturas de dois
planetas diferentes (Marte Sapo e Vénus Gostosa). Mas 0 que parecia
estranho e pouco familiar a néds, criangas, era o casal rosadinho,
rechonchudo, ele careca e ela de cabelo armado, das ilustragdes de De
Onde Viemos?, encaixados um no outro como um yin-yang hippie com
corac6ezinhos vermelhos flutuando a partir de seu abrago nu; eram
parecidos demais um com 0 outro, como se fossem irmaos.
E foi assim que, durante o ensino fundamental, adquiri uma
ligagio sentimental com as revistas de mulher pelada de meu avd.
Todo ano, no Natal, minha familia viajava para Lima para visitar
meus avés. Mordvamos muito longe (primeiro em Sao Paulo, depois
Nova York, depois Chicago, depois Madri, depois Chicago de novo,
depois Nova York de novo, depois Madri de novo) ¢ nossas visitas