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Racionalismo de Descartes: Teoria do Conhecimento

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Tópicos abordados

  • Fundamentos da Filosofia,
  • Teoria da Percepção,
  • Natureza do Ser,
  • Epistemologia,
  • Método de Análise,
  • Intuição e Dedução,
  • Método de Enumeração,
  • Princípios da Filosofia,
  • Evidência,
  • Natureza do Conhecimento
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Tópicos abordados

  • Fundamentos da Filosofia,
  • Teoria da Percepção,
  • Natureza do Ser,
  • Epistemologia,
  • Método de Análise,
  • Intuição e Dedução,
  • Método de Enumeração,
  • Princípios da Filosofia,
  • Evidência,
  • Natureza do Conhecimento

Análise comparativa de duas

teorias explicativas do
conhecimento

O RACIONALISMO DE
RENÉ DESCARTES
René Descartes (1596-1650) - Biografia
• Nasce em 1596 em França, no seio de uma família nobre e abastada;
• Entre 1604 e 1614 estudou no famoso colégio dos jesuítas de la Fléche;
• Dedicou inteiramente a sua vida ao estudo, ciência e filosofia.
• Entre 1628 e 1649, permaneceu na Holanda, transferindo-se no ano
seguinte (1650) para Estocolmo, onde mantinha conversas filosóficas com
a rainha Cristina, tendo falecido nesse mesmo ano, vítima de pneumonia.

Obras mais significativas:


• As regras para a Direção do Espírito (incompletas), escritas por volta de
1628 e apenas publicadas em 1701.

• O Discurso do Método, escrita em 1637.

• Meditações da Filosofia Primeira (ou Meditações Metafísicas) escritas em


1640.

• Os Princípios da Filosofia, obra que aparece em 1644.

Fonte: CÓRDON, Juan, MARTINEZ, História da Filosofia – 2º Volume (Do Renascimento à Idade Moderna), Edições 70, p.57
O verdadeiro conhecimento: porquê?
1ª Meditação
§1. Há já algum tempo eu me apercebi de que, desde meus primeiros anos,
recebera muitas falsas opiniões como verdadeiras, e de que aquilo que depois
eu fundei em princípios tão mal assegurados não podia ser senão mui
duvidoso e incerto; de modo que me era necessário tentar seriamente, uma vez
na minha vida, desfazer-me de todas as opiniões a que até então dera crédito, e
começar tudo novamente desde os fundamentos, se quisesse estabelecer algo
de firme e de constante nas ciências. Mas, parecendo-me ser muito grande essa
empresa, aguardei atingir uma idade que fosse tão madura que não pudesse
esperar outra após ela, na qual eu estivesse mais apto para executá-la; o que me
fez diferi-la por tão longo tempo que doravante acreditaria cometer uma falta se
empregasse ainda em deliberar o tempo que me resta para agir.

Descartes, 1º parágrafo da Primeira Meditação, Meditações da Filosofia Primeira


O verdadeiro conhecimento: como
proceder? 1ª Meditação
§2. Agora, pois que meu espírito está livre de todos os cuidados, e que consegui um
repouso assegurado numa pacífica solidão, aplicar-me-ei seriamente e com liberdade
em destruir em geral todas as minhas antigas opiniões. Ora, não será necessário,
para alcançar esse desígnio, provar que todas elas são falsas, o que talvez nunca
levasse a cabo; mas, uma vez que a razão já me persuade de que não devo menos
cuidadosamente impedir-me de dar crédito às coisas que não são inteiramente certas e
indubitáveis, do que às que nos parecem manifestamente ser falsas, o menor motivo de
dúvida que eu nelas encontrar bastará para me levar a rejeitar todas. E, para isso, não
é necessário que examine cada uma em particular, o que seria um trabalho infinito; mas,
visto que a ruína dos alicerces carrega necessariamente consigo todo o resto do
edifício, dedicar-me-ei inicialmente aos princípios sobre os quais todas as minhas
antigas opiniões estavam apoiadas.

Descartes, 2º Parágrafo da Primeira Meditação, Meditações da Filosofia Primeira


O Racionalismo • Para Descartes, o desenvolvimento de uma nova
ciência exige um exame do conhecimento (a rejeição

de Descartes
da física aristotélica e da origem do conhecimento
empirista em Aristóteles que ganhou força durante
séculos e o reconhecimento das teorias de Galileu).

• Descartes dispõe-se a compreender a causa daquilo


que nos faz errar quando conhecemos algo (remete
para a dúvida).

• Desconfia de todo o saber do seu tempo


(desordenado e baseado em falsos princípios) e
debruça-se sobre as causas e formas do erro desse
conhecimento. Esse erro tem origem em duas
atitudes: prevenção e precipitação.

• Torna-se necessário derrubar esse edifício do


conhecimento e fundar um novo modelo de
conhecimento.
O verdadeiro conhecimento: porquê?
As razões do seu projeto / empreendimento:
• Descartes verifica que todo o saber / conhecimento do seu tempo é um saber desordenado (pouco
sustentado, assente em fundamentos frágeis) e que isso se deve ao facto de estar baseado em falsos
princípios.

Por essa razão…

• Ao encontrarmos os verdadeiros princípios de todo o saber, estaremos


ao mesmo tempo a constitui-lo de forma ordenada, atribuindo a cada
dimensão do saber, o lugar que deve ocupar no edifício do
conhecimento.
O conhecimento verdadeiro:
objetivo
Descartes procura encontrar os fundamentos
metafísicos do conhecimento (a metafísica é a
ciência que estuda os primeiros princípios).

Metáfora da Árvore (Princípios da Filosofia) – a


metafísica constitui-se como o conhecimento
dos primeiros princípios, que são como que a
raiz de uma árvore, a partir da qual se
desenvolve o tronco da árvore do saber (a
física) e os ramos (medicina, mecânica e
moral).
O verdadeiro conhecimento
• Procurar os fundamentos metafísicos do conhecimento é o mesmo
que dizer que Descartes procura fundar um novo “edifício do
conhecimento” em bases (alicerces ou fundamentos) firmes, ou
seja, num conhecimento verdadeiro (logicamente necessário e
universalmente válido).

O que significa logicamente necessário? – por exemplo 3x3=9,


porque tem de ser logicamente assim, caso contrário entra em
contradição.

O que significa universalmente válido? – significa que vale sempre em


todo o lado e para todos os seres humanos.
O verdadeiro conhecimento: como?
Método
Descartes afirma que a razão é a principal fonte do conhecimento e o seu modelo para atingir o
conhecimento verdadeiro é inspirado na Matemática e na Geometria. (…)É uma simplificação do
método matemático que também é utilizado pela geometria.

“Estas longas cadeias de razões, completamente simples e fáceis, de que os geómetras costumam servir-se
para chegar às suas mais difíceis demonstrações, tinham-lhe sugerido que todas as coisas que podem criar
sob o conhecimento do homem se encadeiam da mesma maneira e que, com a condição de simplesmente
nos abstermos de aceitar como verdadeira alguma que o não seja, ou de observarmos sempre a ordem
necessária para as deduzir umas das outras, nenhumas pode haver tão afastadas a que por fim não se chegue
nem tão ocultas que não se descubram. E não me foi muito difícil procurar por quais era preciso começar: pois
já sabia que devia ser pelas mais simples e mais fáceis de conhecer; e, considerando que, entre todos os que
até aqui procuraram a verdade nas ciências, só os matemáticos puderam encontrar algumas demonstrações,
isto é algumas razões certas e evidentes, não duvidei de que deveria começar pelas mesmas que eles
examinaram; embora não esperasse delas nenhuma outra utilidade a não ser a de habituarem o meu espírito
a alimentar-se de verdades e a não se contentar com falsas razões (…)”

Descartes, Discurso do método


O verdadeiro conhecimento: como?
Método
• O método / modelo que Descartes preconiza, apresenta quatro regras fundamentais:
1. Evidência
2. Análise
3. Síntese
4. Enumeração
Ler manual (pp.36, 37)

Estas regras fundamentais do método cartesiano devem guiar a razão para as operações do espírito:
• Intuição
• Dedução
A intuição e a dedução serão para Descartes, modos (operações) de conhecimento (através da razão),
derivando uma da outra.
O verdadeiro conhecimento: a estrutura da razão
A intuição é uma espécie de «luz ou instinto natural» que tem por objeto as naturezas simples: por seu
intermédio captamos imediatamente conceitos simples emanados da própria razão, sem qualquer
possibilidade de dúvida ou erro.

Regra III – “Um conceito da mente pura e atenta, tão fácil e distinto que não resta qualquer dúvida sobre o que
pensamos, ou seja, um conceito não duvidoso da mente pura e atenta que nasce só da luz razão, e é mais certo
do que a própria dedução”.

Descartes, Regras para a Direção do Espírito

A dedução é uma sucessão de intuições das naturezas simples e das conexões entre elas.

Diz Descartes que todo o conhecimento intelectual se desenvolve a partir da intuição de naturezas simples e
outras, entre umas intuições e outras, surgem conexões que a inteligência descobre e percorre por meio de
deduções.
O verdadeiro conhecimento: a estrutura da razão
Exemplos de tipos de conhecimento obtidos através da intuição:

(…) Conhecemos por intuição verdades autoevidentes, como, por exemplo, «Eu existo» ou «um triângulo tem
apenas três lados» e «duas coisas iguais a uma terceira são iguais».

NUNES, Álvaro, O racionalismo de Descartes in https://criticanarede.com/his_descartes.html

Exemplos de tipos de conhecimento obtidos através da dedução:

(…) Conhecemos algo por dedução quando a partir de proposições que conhecemos por intuição inferimos
uma outra proposição que é também de certeza absoluta verdadeira, como, por exemplo, quando a partir da
definição de triângulo inferimos que a soma dos três ângulos de um triângulo é igual a dois ângulos retos.

NUNES, Álvaro, O racionalismo de Descartes in https://criticanarede.com/his_descartes.html


O ponto de partida: ceticismo metódico

• Tendo sempre como objetivo que para Descartes o mais importante é fundar o
conhecimento em fundamentos firmes será necessário:

• Alcançar a primeira verdade indubitável e absoluta (clara


e distinta).

• Para isso, Descartes propõe-se examinar o conhecimento


e todos os princípios que o têm sustentado.

Ou seja…
Suspensão temporária
do juízo, meio para
DEVEMOS DUVIDAR DE TUDO PELO MENOS UMA VEZ NA
atingir a verdade
VIDA – ceticismo metódico.
Devemos duvidar de tudo, pelo menos
uma vez na vida? Porquê?
(Excerto dos Princípios da Filosofia)

1. Formulamos preconceitos e juízos precipitados


“Como fomos crianças antes de termos sido adultos e porque julgamos ora
bem, ora mal as coisas que se nos apresentam aos nossos sentidos,
enquanto não tínhamos ainda o pleno uso da nossa razão, fizemos vários
juízos precipitados, que nos impedem de aceder ao conhecimento da
verdade.”
Descartes, Princípios da Filosofia
Devemos duvidar de tudo, pelo menos
uma vez na vida? Porquê?
2. Os nossos sentidos enganam-nos
“Tudo o que recebi, até presentemente, como o mais verdadeiro e seguro, aprendi-o dos
sentidos ou pelos sentidos: ora, experimentei algumas vezes que esses sentidos eram
enganosos, e é de prudência nunca se fiar inteiramente em quem já nos enganou uma vez.”

DESCARTES, 3º parágrafo da Primeira Meditação, Meditações da Filosofia Primeira


Devemos duvidar de tudo, pelo menos
uma vez na vida? Porquê?
3. Não discernimos o sonho da vigília
“Quantas vezes ocorreu-me sonhar, durante a noite, que estava neste lugar, que estava vestido, que
estava junto ao fogo, embora estivesse inteiramente nu dentro de meu leito? Parece-me agora que
não é com olhos adormecidos que contemplo este papel; que esta cabeça que eu mexo não está
dormente; que é com desígnio e propósito deliberado que estendo esta mão e que a sinto: o que
ocorre no sono não parece ser tão claro nem tão distinto quanto tudo isso. Mas, pensando
cuidadosamente nisso, lembro-me de ter sido muitas vezes enganado, quando dormia, por
semelhantes ilusões. E, detendo-me neste pensamento, vejo tão manifestamente que não há
quaisquer indícios concludentes, nem marcas assaz certas por onde se possa distinguir nitidamente
a vigília do sono, que me sinto inteiramente pasmado: e meu pasmo é tal que é quase capaz de me
persuadir de que estou dormindo.
DESCARTES, 5º Parágrafo da Primeira Meditação, Meditações da Filosofia Primeira
Devemos duvidar de tudo, pelo menos
uma vez na vida? Porquê?
4. Algumas demonstrações matemáticas enganam-nos
“Pois, quer esteja acordado, quer esteja dormindo, dois mais três formarão sempre
o número cinco e o quadrado nunca terá mais do que quatro lados; e não parece
possível que verdades tão patentes possam ser suspeitas de algumas falsidades ou
incerteza. “
DESCARTES, 8º Parágrafo da Primeira Meditação, Meditações da Filosofia Primeira

A não ser que…


Devemos duvidar de tudo, pelo menos
uma vez na vida? Porquê?
“§9. Todavia, há muito que tenho no meu espírito certa opinião de que há um Deus que
tudo pode e por quem fui criado e produzido tal como sou. Ora, quem me poderá
assegurar que esse Deus não tenha feito com que não haja nenhuma terra, nenhum
céu, nenhum corpo extenso, nenhuma figura, nenhuma grandeza, nenhum lugar e
que, não obstante, eu tenha os sentimentos de todas essas coisas e que tudo isso não
me pareça existir de maneira diferente daquela que eu vejo? E, mesmo, como julgo que
algumas vezes os outros se enganam até nas coisas que eles acreditam saber com maior
certeza, pode ocorrer que Deus tenha desejado que eu me engane todas as vezes em
que faço a adição de dois mais três, ou em que enumero os lados de um quadrado, ou
em que julgo alguma coisa ainda mais fácil, se é que se pode imaginar algo mais fácil do
que isso.”

DESCARTES, 9º Parágrafo da Primeira Meditação, Meditações da Filosofia Primeira


Devemos duvidar de tudo, pelo menos
uma vez na vida? Porquê?
5. Possibilidade da existência de um Deus enganador (também designado
por Descartes de Génio Maligno).
Razões para duvidar de todo o conhecimento -
Sistematização

1.Preconceitos 2. Os nossos 3. Não 4. Algumas 5. A possibilidade


e juízos sentidos discernimos o demonstrações da existência de
precipitados enganam-nos sonho da vigília matemáticas um Deus
enganam-nos enganador ou
Génio Maligno
Diferentes níveis da dúvida

3º nível (Génio
Maligno ou Deus
enganador que
2º nível põe em causa as
(não distinguimos verdades da razão
1º nível o sonho da vigília) - matemáticas)
(os nossos
sentidos
enganam-nos)

Nos primeiro e segundo níveis da utilização da dúvida, Descartes procura fundamentar as suas
razões para duvidar, recorrendo à crítica dos dados obtidos pela experiência, mas no terceiro
nível, a dúvida atinge o expoente máximo da sua radicalidade, na medida em que Descartes põe
em causa os dados obtidos pela razão, ou seja os dados da matemática.
Como alcançar o conhecimento
verdadeiro (claro e distinto)
A dúvida – principais características
• Metódica e provisória – a dúvida não é um fim em si mesma, mas um meio para atingir a certeza (ou
primeira verdade indubitável – clara e distinta).

• Hiperbólica – implica desconfiar de tudo, partindo do princípio de que seja falso tudo aquilo sobre o
qual paire a sombra da incerteza.

• Universal e radical – implica duvidar de tudo, não só do conhecimento em geral, mas dos seus próprios
fundamentos; não é possível ter a certeza de nada; impossibilidade do conhecimento; a dúvida é
levada às últimas consequências.
O que resta depois desse ceticismo
metódico?
Não resta nada. É a partir desse vazio, dessa “demolição” do
edifício do conhecimento que Descartes edificará uma nova
construção do conhecimento assente em fundamentos firmes
“§1 A Meditação que fiz ontem encheu- “§3 Suponho, portanto, que todas as
me o espírito de tantas dúvidas, que coisas que vejo são falsas; persuado-me
doravante não está mais em meu alcance de que jamais existiu de tudo quanto
esquecê-las. E, no entanto, não vejo de minha memória repleta de mentiras me
representa; penso não possuir nenhum As ideias claras e distintas,
que maneira poderia resolvê-las; e, como
sentido; creio que o corpo, a figura, a ou dito de outro modo, as
se de súbito tivesse caído em águas muito extensão, o movimento e o lugar são primeiras verdades
profundas, estou de tal modo surpreso apenas ficções de meu espírito. O que absolutas
que não posso nem firmar os meus pés no poderá, pois, ser considerado verdadeiro?
fundo, nem nadar para me manter à tona.” Talvez nenhuma outra coisa a não ser que
DESCARTES, 1º parágrafo da segunda Meditação, nada há no mundo de certo.”
Meditações da Filosofia Primeira DESCARTES, 3º parágrafo da segunda
Meditação, Meditações da Filosofia Primeira
O critério de “certificação” para as ideias
verdadeiras
“§10 Ora, destas ideias, umas me parecem ter nascido comigo, outras ser estranhas e vir de fora, e as
outras ser feitas e inventadas por mim mesmo. Pois, que eu tenha a faculdade de conceber o que é
aquilo que geralmente se chama uma coisa ou uma verdade, ou um pensamento, parece-me que não o
obtenho em outra parte senão em minha própria natureza; mas se ouço agora algum ruído, se vejo o
sol, se sinto calor, até o presente julguei que estes sentimentos procediam de algumas coisas que
existem fora de mim; e enfim parece-me que as sereias, os hipogrifos e todas as outras quimeras
semelhantes são ficções e invenções de meu espírito.”

DESCARTES, 10º parágrafo da segunda Meditação, Meditações da Filosofia Primeira

Ler pp.51 – 53 – Discurso do Método


Ler 10º parágrafo da 3ª Meditação
O critério de
“certificação” para as
ideias verdadeiras /
indubitáveis
Ler pp.51 – 53 – (Discurso do Método, Edições
Europa América ou manual p.44)
Ler 10º parágrafo da 3ª Meditação

Clareza e distinção

O que significa clareza e


distinção, segundo
Ler p.44 manual
Descartes?
O critério de “certificação” para as
ideias verdadeiras / indubitáveis
Ideias Inatas São ideias claras e distintas das quais derivam todas
as outras (são “sementes das ciências”, verdades
eternas e imutáveis).
Ex: verdades matemáticas; res cogitans, res divina
Ideias adventícias Têm origem na experiência sensível que nos chegam
por via dos sentidos.
Ex: Um barco verde, o Sol.
Ideias factícias São criadas pela imaginação.
Ex: um unicórnio, fada, sereia, cavalo alado.

Segundo Descartes, apenas as ideias inatas são claras e distintas.

Apenas estas são “certificadas” com os critérios da clareza e distinção


Tarefa:
 Ler pp.51 a 53 do Discurso do Método, Edições Europa
América / pp.37-39 da Edição digital
 Ler o 7º parágrafo da segunda Meditação

Encontrar a primeira verdade clara e distinta de Descartes e


justificar com base nos argumentos e na leitura dos excertos da
obra como é que ele a justifica.
1ª Ideia clara e distinta – Res cogitans
§ 7 “Detenho-me em pensar nisto com atenção, passo e repasso todas essas coisas em
meu espírito, e não encontro nenhuma que possa dizer que existia em mim. Não é
necessário que me demore a enumerá-las. Passemos, pois, aos atributos da alma e
vejamos se há alguns que existam em mim. Os primeiros são alimentar-me e caminhar;
mas, se é verdade que não possuo corpo algum, é verdade também que não posso nem
caminhar nem alimentar-me. Outro é sentir; mas não se pode também sentir sem o corpo;
além do que, pensei sentir outrora muitas coisas, durante o sono, as quais reconheci, ao
despertar, não ter sentido efetivamente. Outro é pensar; e verifico aqui que o pensamento
é um atributo que me pertence; só ele não pode ser separado de mim. Eu sou, eu existo:
isto é certo; mas por quanto tempo? A saber, por todo o tempo em que eu penso; pois
poderia, talvez, ocorrer que, se eu deixasse de pensar, deixaria ao mesmo tempo de ser ou
de existir.”
DESCARTES, 7º Parágrafo da segunda Meditação, Meditações da Filosofia Primeira
Ler pp.51 – 53 – Discurso do Método
Ler 10º parágrafo da 3ª Meditação
1ª Ideia clara e distinta – Res cogitans
O exercício da dúvida põe em causa todos os objetos
(inteligíveis e sensíveis) e o seu próprio corpo;

• O que resta deste exercício da dúvida é o sujeito que põe tudo


em causa e que por isso não pode negar a sua existência
(sujeito pensante);

• Duvidar e pensar são condições da sua própria existência.


1ª Ideia clara e distinta – Res cogitans
• A dúvida utilizada como meio para alcançar a verdade conduz-
nos à primeira verdade indubitável (incontestável) obtida por
meio da intuição.

O Cogito: “Penso, logo existo” (Cogito ergo sum)


E agora….

O cogito não é suficiente para fundamentar o edifício do saber, na medida


em que o sujeito que pensa (o sujeito pensante) é imperfeito.
Como é que Descartes sai desta posição solipsista?
Tarefa:
Ler pp.53 a 54 do Discurso do Método, Edições Europa
América / pp.39-41 da Edição digital.
Ler a 3ªMeditação, parágrafos 18,19 e 22 (Meditações da
Filosofia Primeira)
2ª Ideia clara e distinta – Res divina
§ 18 “E quanto mais longa e cuidadosamente examino todas as coisas, tanto mais
clara e distintamente reconheço que elas são verdadeiras. Mas, enfim, que
concluirei de tudo isso? Concluirei que, se a realidade objetiva de alguma de
minhas ideias é tal que eu reconheça claramente que ela não está em mim nem
formal nem eminentemente e que, por conseguinte, não posso, eu mesmo, ser-lhe
a causa, daí decorre necessariamente que não existo sozinho no mundo, mas que
há ainda algo que existe e que é a causa desta ideia; ao passo que, se não se
encontrar em mim tal ideia, não terei nenhum argumento que me possa
convencer e me certificar da existência de qualquer outra coisa além de mim
mesmo; pois procurei-os a todos cuidadosamente e não pude, até agora,
encontrar nenhum.(…)”
DESCARTES, 18º Parágrafo da terceira Meditação, Meditações da Filosofia Primeira
2ª Ideia clara e distinta – Res divina
§ 22 “Portanto, resta tão somente a ideia de Deus, na qual é preciso
considerar se há algo que não possa ter provindo de mim mesmo?
Pelo nome de Deus entendo uma substância infinita, eterna, imutável,
independente, omnisciente, omnipotente e pela qual eu próprio e
todas as coisas que são (se é verdade que há coisas que existem)
foram criadas e produzidas. Ora, essas vantagens são tão grandes e
tão eminentes que, quanto mais atentamente as considero, menos
me persuado de que essa ideia possa tirar uma origem de mim tão
somente. (…)”
DESCARTES, 22º Parágrafo da terceira Meditação, Meditações da Filosofia Primeira
2ª Ideia clara e distinta – Res divina
“(…)Em seguida a isto refleti sobre o facto de que eu duvidava e, por conseguinte,
o meu ser não era inteiramente perfeito, pois via claramente ser maior perfeição
conhecer do que duvidar. Propus-me, pois, procurar de onde recebera eu o
pensar em qualquer coisa de mais perfeito do que eu era. E conheci
evidentemente, que isso devia ser de alguma natureza que fosse efetivamente
mais perfeita. (…)”
“(…)Mas não podia passar-se o mesmo com a ideia dum ser mais perfeito do que
eu: recebê-la do nada era coisa manifestamente impossível. E porque não há
menos repugnância que o mais perfeito seja uma sequência e uma dependência
do menos perfeito do que há em do nada proceder alguma coisa, também não a
podia receber de mim próprio. Deste modo, restava que ela tivesse sido posta
colocada em mim por uma natureza que fosse verdadeiramente mais perfeita do
que eu era e, inclusive que tivesse em si todas as perfeições de que eu pudesse
ter alguma ideia. Ou seja, para me explicar com uma palavra: que fosse Deus. (…)”
Descartes, Discurso do Método, Edições Europa América, pp.53
2ª Ideia clara e distinta – Res divina
• O cogito não é suficiente para fundamentar o edifício do
conhecimento, na medida em que o sujeito que pensa é
imperfeito;
• O cogito é uma certeza subjetiva ao alcance apenas do próprio
sujeito que pensa (atitude solipsista);
• Para garantir a certeza indubitável (verdade clara e distinta) é
necessário recorrer a algo mais perfeito que o sujeito do
pensamento, algo superior a ele em perfeição -
DEUS
Provas da existência de Deus como
garantia das verdades claras e distintas
• Para Descartes as ideias inatas são claras e distintas, ou seja são «as sementes
das ciências», ou «verdades eternas», «verdadeiras e imutáveis naturezas»,
essências puramente inteligíveis e inteiramente independentes da contribuição
da perceção sensível, noções que a ascese rigorosa da dúvida metódica,
voluntária, radical, revelará na nossa alma.

• De entre essas ideias inatas, encontra-se a de um ser omnisciente, omnipotente


e sumamente perfeito, atributos de DEUS.

• É a partir dessa ideia de perfeição, que Descartes utilizará Deus, como garantia
das ideias claras e distintas.
Provas da existência de Deus (p.48 manual)
1. A primeira prova parte da constatação de que na ideia de ser
perfeito estão compreendidas todas as perfeições. A existência
é uma dessas perfeições. Por consequência, Deus existe. O facto
de existir é inerente à essência de Deus, de tal modo que este
ser não pode ser pensado como não existente – argumento
ontológico.

Dito de outra forma: Se Deus é um ser perfeito, a existência faz


parte dessa perfeição. Deus não poderia ser perfeito e não existir.
Provas da existência de Deus
2. A segunda prova parte igualmente da ideia de um ser
perfeito. Podemos encontrar a causa que faz com que essa
ideia se encontre em nós. A ideia de um ser infinito e perfeito
não pode ter origem num ser finito e imperfeito. O nada
também não pode ser a causa da perfeição. A causa da ideia
de Deus não pode ser outra senão o próprio Deus, na
medida em Deus possui em si todas as perfeições.
Dito de outro modo Deus é ele próprio perfeito e a causa
originária da ideia de perfeição.
Provas da existência de Deus
2. A terceira prova baseia-se no princípio da causalidade. Neste argumento
procura-se saber qual é a causa da existência do ser pensante (imperfeito,
finito e contingente). Essa causa não é o sujeito pensante, se fosse, com
certeza ele daria a si próprio todas as perfeições das quais possui uma ideia –
argumento da marca.

O ato de criação implica uma continuidade no tempo (já que a natureza do tempo
é descontínua) e nada garante ao sujeito pensante que continua a existir no
momento seguinte, uma vez que o sujeito (sendo finito) não possui o poder de se
conservar no próprio ser. Tal só aconteceria se ele fosse a causa de si mesmo. Por
isso o criador e conservador do ser finito e imperfeito, assim como de toda a
realidade só pode ser Deus. Deus sendo perfeito não necessita de ser causado
por outro ser: é um ser incausado e causa de si mesmo (causa sui).
A 2ª ideia clara e distinta – Deus – Res
Divina - SISTEMATIZAÇÃO
1. Se Deus é perfeito, então não pode ser enganador. Deus constitui-
se como a garantia das ideias claras e distintas – destruição do
argumento do Génio Maligno ou Deus enganador.
2. Deus é o criador das verdades eternas, da verdade da origem do
ser pensante (cogito). Deus é por isso, fundamento do ser
pensante.
3. Deus garante a adequação entre o pensamento evidente e a
realidade. Legitima o valor da ciência e confere validade e
objetividade ao conhecimento. Deus é fundamento do
conhecimento.
2ª Ideia clara e distinta – Deus - Res
divina
§ 15 “(…) Mas desde que reconheci que existe um Deus, ao mesmo tempo compreendi também
que tudo o resto depende dele e que ele não é enganador, e daí concluí que tudo aquilo que
concebo clara e distintamente é necessariamente verdadeiro, mesmo que não atente mais nas
razões pelas quais julguei que isso era verdadeiro, mas apenas me recorde de o ter visto clara e
distintamente. Por conseguinte, não se pode alegar em contrário nenhum razão que me leve a
duvidar, mas tenho disso ciência verdadeira e certa.”

“(…) E assim vejo perfeitamente que a certeza e a verdade de toda a ciência dependem
unicamente do conhecimento do Deus verdadeiro, a tal ponto que, antes de o conhecer, eu não
poderia saber nada, de modo perfeito, de qualquer outra coisa. Porém, agora podem ser
perfeitamente conhecidas e certas, para mim, inúmeras coisas, quer do próprio Deus e das
outras coisas intelectuais, quer também de toda a natureza corpórea que é objeto da matemática
pura.”

DESCARTES, 15º parágrafo da quinta Meditação, Meditações da Filosofia Primeira


3ª ideia clara e distinta – o mundo – Res
Extensa (p.49-50 do manual)
• Descartes resolve o problema do ceticismo metódico, ao descobrir
e aplicar o método que lhe permite atingir as verdades claras e
distintas.
• A etapa seguinte na construção do seu edifício do conhecimento é
aplicar o mesmo método a todo o conhecimento da realidade.

• Descartes já afirmou que o cogito (sujeito pensante) é uma ideia


clara e evidente e a garantia dessa clareza e distinção é Deus. Se
Deus é perfeito, não me pode enganar quanto à clareza e distinção
dessa ideias.
3ª ideia clara e distinta – o mundo – Res
Extensa
Mas quem é que produz em mim essas ideias dos objetos
físicos? (se elas são produzidas em mim tantas vezes contra a
minha vontade e sem a minha cooperação?)

• Diz Descartes que temos uma certa propensão para acreditar


que as ideias que temos de uma certa árvore ou de uma certa
casa, resultam da existência exterior de uma certa árvore ou de
uma certa casa, independentemente da nossa perceção.
3ª ideia clara e distinta – o mundo – Res
Extensa
• Se as causas destas ideias (por exemplo de árvore e casa), não fossem
esses corpos físicos exteriores a mim, então Deus seria enganador, mas
como Deus é perfeito, não poderia colocar ideias erradas em mim,
assim temos a propensão para acreditar que a causa dessas ideias,
são os corpos físicos (exteriores às ideias) e que esses corpos físicos
existem.
3ª Ideia clara e distinta – o mundo – Res
Extensa
§ 20 “(…) Ora, não sendo Deus enganador, é absolutamente manifesto que ele não
introduz em mim essas ideias, nem imediatamente por si próprio, nem também por
meio de outra criatura (…) Porque, não me tendo dado absolutamente nenhuma
faculdade para conhecer isto, mas pelo contrário uma grande propensão para crer
que elas são emitidas pelas coisas corpóreas, não vejo por que se possa compreender
que ele não é enganador, se estas ideias fossem emitidas por outras que não as coisas
corpóreas. E, portanto, as coisas corpóreas existem.”

DESCARTES, 20º parágrafo da sexta Meditação, Meditações da Filosofia Primeira


3ª ideia clara e distinta – o mundo – Res
Extensa
• Relativamente aos corpos (realidade corpórea ou mundo) só o conceito
de extensão (em comprimento, largura e altura) nos oferece um
conhecimento claro e distinto.

Qualidades
Qualidades
subjetivas (sabor,
objetivas (grandeza,
cheiro, cor, som,
duração, figura, etc)
etc)

Não estão presentes


nos corpos
A ideia do erro – como é que Descartes
resolve esta questão?
• Se Deus é perfeito, não é enganador e se fomos criados por Deus, como
explicar o erro? Como explicar que continuemos a construir juízos falsos?
Como é que se explica o erro num Universo criado por Deus que é
sumamente bom, sábio e poderoso?

Pensamentos

Entendimento Vontade / livre arbítrio

O erro é provocado pela precipitação da nossa vontade, pelo mau uso que da nossa liberdade. Como o nosso
entendimento é limitado, porque existe muito coisa que é incapaz de compreender, muitas vezes é ultrapassado pela
nossa vontade que tem uma capacidade infinita, escolhendo afirmar ou negar algo que o nosso entendimento não
compreende completamente, conduzindo-nos ao erro.
3ª Ideia clara e distinta – o mundo – Res
Extensa
§ 10 (…) Então de onde nascem os meus erros? Apenas e unicamente de que, como a
vontade tem um campo mais lato que o entendimento, não a contenho dentro dos
mesmos limites, mas também a estendo às coisas que não compreendo: por ser
indiferente a elas, a vontade deflete facilmente do bom e do bem, deste modo, não só
erro como também peco.(…)”

Descartes, 10º parágrafo da 4ª Meditação, Meditações da Filosofia Primeira


O projeto cartesiano – Sistematização Final
Projeto cartesiano
Objetivo: Unificar o conhecimento e fundamentá-lo em princípios sólidos e seguros que garantam um saber necessário e
universalmente válido
Modelo inspirador do seu Matemática, porque tem: rigor; clareza evidência; é baseado na intuição e na dedução racional.
método:
Regras do método: Evidência; análise; síntese e enumeração

“Ferramenta” para alcançar o Dúvida metódica Pôr em causa / duvidar de tudo em - Rejeitar o conhecimento obtido
conhecimento verdadeiro (claro e que possa haver a mínima dúvida – a partir dos sentidos;
distinto): hiperbólica universal e radical - Submeter todos os
conhecimentos anteriores ao
crivo da dúvida.
Critério metodológico: Só aceitar uma ideia como certa se for absolutamente clara e distinta, ou seja, evidente à razão.

1ª ideia clara e distinta: (Cogito - Ao duvidar de tudo, aparece como evidente (absolutamente certo / Critério de verdade – a evidência
«penso, logo existo) verdadeiro) que sou um ser pensante. racional
2ª ideia clara e distinta: Deus é o - A razão concebe a ideia de Deus como um ser perfeito, o que implica a sua existência;
fundamento da verdade - A existência de Deus é a garantia da verdade / veracidade da razão.;
- Só um ser perfeito e absolutamente verdadeiro garante a veracidade das ideias claras e distintas.
3ª ideia clara e distinta: o mundo O mundo captado racionalmente Aquilo que a razão concebe clara e distintamente existe necessariamente:
material existe; matematização / existe necessariamente – as isto é garantido por um ser perfeito.
racionalização do real qualidades mensuráveis
Racionalismo: A razão é a origem do A razão possui ideias inatas A razão dá acesso a conhecimento
conhecimento logicamente necessário e universal

Common questions

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A dúvida metódica de Descartes é uma proposta de suspender temporariamente o juízo sobre todas as crenças até que se possa encontrar algo absolutamente certo. Ao contrário do ceticismo tradicional, que pode levar ao niilismo ou à negação do conhecimento, a dúvida cartesiana é um método para estabelecer uma nova base sólida para o conhecimento. Ela é usada como um meio, não como um fim, para alcançar verdades claras e distintas .

"Penso, logo existo" serve como a primeira verdade indubitável no método de Descartes. Ao duvidar de tudo, inclusive da existência do mundo, do corpo e dos sentidos, Descartes encontra no ato de dúvida a prova da sua própria existência como pensa. Esse fundamento inabalável é a base sobre a qual ele planeja reconstruir todo o conhecimento, com a certeza que advém de percepções claras e distintas, começando do único ponto que inicialmente não pode ser questionado .

Descartes apresenta três provas: (1) o argumento ontológico, afirmando que a existência é uma perfeição e, como Deus é um ser perfeito, ele deve existir; (2) a ideia de Deus em nós deve provir de algo que, em si, possua todas as perfeições, não podendo um ser imperfeito gerar a ideia de um ser perfeito; (3) o princípio de causalidade, onde a causa da existência do ser pensante não pode ser o próprio sujeito, pois ele não poderia dar a si mesmo extremsições que não tem, portanto, Deus deve ser essa causa. Estas provas reforçam a base de seu sistema filosófico, firmando Deus como o garante das verdades claras e distintas, sustentando o conhecimento racional .

Descartes argumenta que os sentidos são enganosos, trazendo exemplos como sonhos que parecem reais e ilusões de percepção. Essa desconfiança nos sentidos leva a sua dúvida metódica, na qual ele defende que se deve duvidar de tudo que os sentidos nos informam até que encontremos algo que não possa ser duvidado. Este ceticismo em relação aos sentidos ajuda a estabelecer a importância da razão sobre a percepção sensorial .

Descartes, através do cogito, estabelece uma distinção clara entre o 'eu' pensante (res cogitans) e o mundo externo (res extensa). O 'eu' é a única certeza inicial encontrada ao duvidar de tudo o mais. O mundo externo, por outro lado, pode ser um engano dos sentidos até que sua existência seja garantida pela veracidade de Deus. Assim, através de Deus, é possível construir a certeza do mundo externo como existindo fora do pensamento .

Para Descartes, Deus desempenha um papel crucial na garantia da certeza do conhecimento. Ele argumenta que a ideia de um ser perfeito, a qual temos de Deus, não poderia ter se originado de nós que somos imperfeitos. Portanto, Deus deve existir e, sendo perfeito, não é enganador. Isso assegura que as ideias claras e distintas que temos não são ilusórias. Deus, nesse sentido, oferece um fundamento sólido que sustenta a verdade do conhecimento adquirido pela razão .

Descartes questiona a distinção entre sonho e realidade ao perceber que muitas vezes somos enganados por ilusões no sono, questionando a confiança que podemos ter em nossos sentidos. Esta reflexão sobre a confusão entre sonho e realidade motiva sua dúvida metódica, pois o costuma ser verdadeiro em sonhos pode não se aplicar à realidade. Serve para demonstrar a necessidade de algo mais sólido no processo de estabelecer conhecimento verdadeiro, levando-o à busca de fundamentos baseados na razão .

Descartes utiliza a hipótese do 'Génio Maligno' para ilustrar uma dúvida extrema, questionando até as verdades matemáticas, que parecem certas. Ele postula que um ser poderoso poderia estar a enganar-nos acerca das verdades matemáticas. No entanto, a resolução deste problema surge com a prova da existência de Deus, que, sendo perfeito, não nos enganaria, garantindo a verdade das percepções claras e distintas, inclusive as matemáticas, contra o ceticismo do Génio Maligno .

A ideia de Deus é considerada clara e distinta porque, para Descartes, é uma ideia que existe em nós, mas que não pode ter sido inventada pelo ser humano, que é imperfeito. A presença desta ideia aponta para a existência de um ser perfeito que a causa. A importância na filosofia cartesiana é que Deus é a garantia de que nossas percepções claras e distintas são verdadeiras. Ele resolve o ceticismo radical, assegurando a confiabilidade do conhecimento incluso o cogito e o mundo externo .

Para Descartes, a primeira verdade indubitável é 'cogito, ergo sum' (penso, logo existo), que ele considera fundamental porque às claras e distintas percepções não pode se duvidar. Esse ponto de partida serve como a base sólida para o conhecimento, pois é uma verdade que não pode ser rejeitada por nenhum argumento cético. Descartes busca através do ceticismo metódico desmontar todas as crenças incertas para reconstruí-las fundamentadas na certeza proporcionada pelo cogito .

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