Experiência de Quase-Morte e Dualismo
Experiência de Quase-Morte e Dualismo
Lar e contestação da existência do espírito André Luiz”. Rio de Janeiro: blog Obras psicografadas, 2011.
Biasetto, E.; “Uma análise crítica do livro Libertação e localização do Nosso Lar original”. Rio de Janeiro:
blog Obras psicografadas, 2011a. Horta, M.; “Razão e fé”. In: Hypnos, n° 2. São Paulo: Educ & Palas
Athena, 1996. Horta, M.; “A prudência dos sábios”. Instituto Cultural Espírita: Santos, 2007 e, recentemente,
minha tradução com notas de Minha Vida em Dois Mundos (1931), da médium inglesa G. Leonard. Rio de
Janeiro, blog Obras psicografadas, 2019.
5 No sentido que o espiritualismo conferiu à expressão.
1
espirituais e outras alegações inexistentes), uma parte bastante numerosa dos
primeiros investigadores considerou o tempo como senhor da razão, ou seja, que seu
programa de pesquisa deveria assumir um compasso de espera e prudentemente
aguardar o acúmulo crítico para se pronunciar sobre o caso da paranormalidade, o
que, afinal, envolve uma decisão entre o monismo e o dualismo.
Ademais, boa parte dos fenômenos considerados autênticos podia ser explicada
sem apelo ao espiritual e, nesta linha, gosto particularmente de destacar o trabalho
inicial de Richard Hodgson6 sobre as faculdades da médium espiritualista Leonora
Piper, pesquisa publicada em capítulos nos Proceedings da SPR inglesa, na qual
restou demonstrado que aquilo que Piper (em virtude de sua formação espiritualista)
tomava como tendo origem espiritual podia ser explicado (e, em minha opinião, foi
magistralmente evidenciado) por uma capacidade telepática extremamente rara que
permitia à Piper obter informação em qualquer parte do mundo, contanto que
houvesse alguém vivo que um dia a tivesse sabido. Recorde-se que esse
extraordinário feito científico obtido no fim do séc. XIX é a base empírica do famoso
conceito de inconsciente coletivo, proposto por Carl Jung7.
Os pioneiros consideraram a possibilidade de que surgisse, ao longo da
pesquisa psíquica, um resíduo de ocorrências não explicável na perspectiva monista,
o que lógica e metodologicamente lhes parecia o bastante para uma reconsideração da
visão de mundo materialista. Creio que o momento de admitir a ruptura
revolucionária chegou, pois o resultado foi satisfatoriamente alcançado.
Historicamente, um dos fenômenos privilegiados na produção da evidência dualista é
a EQM, particularmente aquele núcleo que a aplicação do materialismo metodológico
permite considerar uma corroboração da filosofia dualista, a saber, o conhecimento
correto obtido por um sujeito inconsciente, morto ou quase, de coisas distantes,
ocorrências ao seu redor etc. Há uma grande quantidade de pesquisa nessa linha;
pude observar no youtube o ótimo trabalho de vários pesquisadores brasileiros, que
entrevistaram uma enorme quantidade de pessoas que vivenciaram EQMs e
forneceram relatos muito úteis para esse esforço de levantamento factual.
Recentemente, colaborei na tradução para o português (a partir do inglês e do
espanhol) do livro O Eu Não Morre, de Titus Rivas et al, inicialmente publicado nos
Países Baixos, em 2016 (ainda não publicado no Brasil). Segundo os autores:
6 Pesquisador extraordinário e pouco conhecido, o homem de campo de William James no caso Piper. Foi o
responsável entre tantos sucessos por expor as fraudes de Helena Blavatsky e Eusapia Palladino. Investigou
também a EQM (na época, um fenômeno menos conhecido) vivida pelo médico A. S. Wiltse, de Kansas, em
um episódio de febre tifoide. Wiltse narrou ter emergido da cabeça, saído do corpo, levantado e caminhado
pela casa e para fora dela enquanto observava pessoas cuidando do seu “corpo morto”. Ver Proceedings SPR,
vol. VIII, pp. 180-193. Antes do fim do séc. XIX, Hodgson admitiu a sobrevivência (assim como James, que
o fez publicamente na continuidade do discurso citado na nota 2), na segunda fase de suas pesquisas com
Piper; contudo, temendo perder prestígio, tornou-se recluso e permaneceu discreto. Parcialmente extraído de
https://psi-encyclopedia.spr.ac.uk/articles/richard-hodgson#Conversion_to_Belief_ in_Survival .
7 E também do personagem Professor Xavier, do filme X-Men, em que uma dramatização dessa faculdade
9 Ver a nota 6.
5
As descobertas científicas atuais talvez possam lançar luz sobre
acontecimentos passados, narrados em uma literatura negligenciada pela ciência e
pelos acadêmicos por boas e más razões, mas que pode ser parcialmente instrutiva 10,
se tratada com redobrado cuidado11. Observe-se que a descrição seguinte de uma
“intervenção espiritual” em uma cirurgia odontológica difícil (ocorrida em
11/08/1925) possui similaridades com a intervenção descrita por Woollacott e Peyton
no artigo abaixo. Essa citação foi extraída de Minha Vida em Dois Mundos, de 1931
(cap. 17, pp. 54-57), cuja autora é a médium inglesa Gladys Leonard:
“Nos últimos anos, em vários momentos diferentes da minha vida, fui
'materialmente' ajudada pelos guias e amigos desencarnados de um jeito que
me impressionou profundamente na época e desde então. No verão de 1925,
comecei a me sentir menos forte e bem do que o habitual. Sofria de extrema
fraqueza e fadiga. … Comecei a padecer do que parecia ser nevralgia aguda
no rosto e na cabeça, que foi piorando. A dor se tornou terrível, minha
temperatura aumentou e fiquei muito febril, banhada de suor durante a noite.
Nunca tivera esses sintomas antes, e fiquei perplexa ao tentar entendê-los ou
saber o que fazer … lembrei-me da experiência terrível que tive depois da
extração [de dentes] alguns anos antes; de como ficara doente e atrasara meu
trabalho. Claro, percebi que somente meus dentes foram retirados naquela
ocasião e que o restante tinha apenas quebrado nas gengivas e,
provavelmente, estava causando problemas … O pensamento de me arriscar
a outra experiência horrível (tal como me acontecera depois da última
cirurgia dentária) foi aterrador. … Certa noite, muito repentinamente,
quando sentada em silêncio sozinha, senti que devia me decidir a consultar
um bom cirurgião-dentista de uma vez e ter meus dentes quebrados
removidos ... Dezenove dentes extraídos de uma vez parecia uma tarefa
difícil. Vários amigos me avisaram que era demais, que seria um choque
terrível para o sistema e assim por diante … [no dia da operação], olhei em
direção à lareira e, ali, para minha surpresa e alívio, vi os médicos que
haviam desencarnado e que [em preces] eu havia pedido para me ajudarem,
um era irmão da Srta. Macgregor e outro um amigo que havia desencarnado
no verão anterior. Estavam sentados nas cadeiras, um de cada lado da
lareira, calmamente conversando algo em voz bem baixa; assim, não pude
ouvir o que diziam. Então, um deles olhou para mim e disse ao outro: “oh,
ela ficará bem”, e eu sabia que se referiam a mim. Saber que estavam lá me
ajudou muito. Não fiquei nervosa mesmo ao ouvir tocar a campainha que
anunciava a chegada do dentista e do médico. … Deitei-me no sofá e o
médico começou a ministrar o anestésico. Fiz o que ele disse, respirei
suavemente, mas toda a inalação não surtiu efeito. Ele continuou dizendo:
“você ainda consegue me ouvir?” E continuei respondendo: “sim; consigo;
infelizmente; desejaria não conseguir”, até que realmente comecei a pensar
que nunca iria “afundar”. Então, assim que senti vontade de dizer: “pelo
amor de Deus, desista disto; não é bom, não consigo ficar inconsciente”,
ouvi a voz de um homem saindo de meus próprios lábios, e eu sabia que
estava sendo controlada por alguma forte influência desencarnada. … Creio
ter sido uma operação muito peculiar e penosa para o dentista e seu amigo,
porque, durante a operação, eles foram literalmente intimados a fazer isso e
aquilo; em dado momento, quando eu recobrava a consciência antes das
10 Uma literatura talvez útil como parte de um método, ao sugerir que partes dos relatos obtidos em EQMs e
afins pela comunidade científica podem ser válidos de um ponto de vista heurístico.
11 Ver a nota 4.
6
extrações terminarem, meus amigos espirituais gritaram: “dê-lhe um pouco
mais”. O médico olhou interrogativamente para a Sra. Passy [a enfermeira,
amiga da Sra. Leonard], que sabia o que se passava, que eu estava sendo
“controlada”, e ela se sentiu inspirada a dizer: “doutor, por favor, dê-lhe um
pouco mais; agora”. “Bem”, disse o médico, “ela já recebeu o suficiente
para três pessoas, mas aqui vai”; então, recebi mais um pouco … Assim que
terminaram as extrações, o dentista saiu do quarto com o médico. Ele sabia
que me deixava em boas mãos, pois pôde ver o quão competente era a Sra.
Passy; não obstante, disse à enfermeira que provavelmente eu dormiria por
algum tempo. Assim que os dois homens deixaram o quarto, o marido da
Sra. Passy (que fora morto no início da guerra e que muitas vezes se
aproximava dela) me controlou e falou à sua esposa de modo claro e
evidencial por cerca de dez minutos. Ela ficou surpresa. Como comentou
mais tarde, certamente não esperava que uma sessãozinha fosse improvisada
durante uma operação odontológica! Quando o major Passy parou de falar,
imediatamente acordei, tão revigorada e “inteira” como se tivesse acabado
de acordar de uma noite comum de sono revigorante. Pulei do sofá para
dentro da minha própria cama como se nada tivesse acontecido, e a Sra.
Passy me falou de algumas coisas que haviam sido ditas através de mim ao
médico e ao dentista, parte das quais eu tinha consciência, embora não
tivesse sentido nenhuma dor. Nós gritamos de tanto rir a respeito de algumas
das observações feitas, pois sabíamos que nenhum deles entendera o que
tudo aquilo significava, exceto que eu era uma paciente muito peculiar. A
Sra. Passy me disse que a operação e manuseio do dentista lhe pareceu
surpreendente, pois as gengivas haviam crescido sobre algumas raízes,
escondendo-as inteiramente, e ele não as conseguiu ver, mas parece ter
encontrado os dentes instintivamente, suave e silenciosamente retirando
cada um, aparentemente sem nenhum esforço. Sua opinião era que ele
estava sendo guiado por alguém que podia ver as raízes escondidas, mas
meu amigo dentista, que se orgulha de ser um materialista robusto,
sustentou que estava simplesmente sendo um pouco mais brilhante do que o
habitual! Não discuti com ele, pois a Sra. Passy e eu temos nossas próprias
ideias sobre o assunto”.
Outro caso muito interessante que consta em uma literatura hoje quase
completamente esquecida, desconsiderada e desacreditada vem de Richard Baxter,
aparentemente um inquisidor, publicado no fim do séc. XVII. Trata-se da pesquisa do
ministro puritano Thomas Tilson, comunicada por carta a Baxter, que envolve uma
mulher chamada Mary Goffe no final do séc. XVII. Rivas et al informam12 que o
caso foi republicado em 1886, no livro Fantasmas dos Vivos, de Edwin Gurney,
Frederic Myers e Frank Podmore e que, em 1926, voltou a aparecer no livro Visões
do Leito de Morte, de William Barrett. Não significaria uma curiosa reviravolta
considerar que a descoberta científica que se toma por contemporânea já havia sido
feita e publicada há muito, e que aquilo que a impediu de permanecer aceita foi uma
ocorrência exterior à ciência (social e política, a divisão de uma comunidade até
então unida em duas filosoficamente concorrentes) que incidiu sobre sua atividade
interna? Eis o que Tilson escreveu13:
12Rivas et al; O Eu Não Morre. 2016, pp. 130-131.
13Baxter, R.; A certeza do mundo dos espíritos plenamente evidenciada por histórias inquestionáveis de
aparições e bruxarias, operações, vozes etc. provando a imortalidade das almas, a malícia e as misérias dos
7
Mary, esposa de John Goffe de Rochester, afligida por uma longa doença,
foi removida para a casa do seu pai em West Mulling, a cerca de 9 milhas de
distância da sua: lá, morreu em 04/06 deste ano de 1691. Na véspera de sua
morte, ela desejou com crescente impaciência ver seus dois filhos, que havia
deixado em casa aos cuidados de uma babá. Ela implorou ao marido que
alugasse um cavalo, pois devia ir para casa para morrer com as crianças.
Quando argumentaram contrariamente, dizendo-lhe que não suportaria ser
tirada da cama, nem se sentar no dorso do cavalo, ela os instou, porém, a
tentar: se não puder me sentar, disse ela, irei deitada no cavalo por todo o
percurso, pois devo ir ver meus pobres bebês. Um ministro que mora na
cidade estava com ela às 10h daquela noite, e ela lhe expressou boas
esperanças na misericórdia de Deus e a vontade de morrer: Mas, disse ela,
lamento não poder ver meus filhos. Entre uma e duas da manhã, ela entrou
em transe. A viúva Turner, que cuidou dela naquela noite, diz que seus olhos
estavam abertos e fixos, e sua mandíbula caída: ela colocou a mão sobre a
boca e as narinas, mas não sentiu a respiração; pensou se tratar de um ataque
e ignorava se estava viva ou morta. No dia seguinte, a moribunda disse à
mãe que tinha estado em casa com seus filhos. Isto é impossível, disse a
mãe, pois você esteve aqui na cama o tempo todo. Sim, respondeu a outra,
mas eu estive com eles noite passada enquanto dormia. A babá em
Rochester, chamada de viúva Alexander, afirma (e diz que fará seu
juramento perante um magistrado e receberá o sacramento sobre ele) que,
um pouco antes das duas daquela manhã, viu a imagem da dita Mary Goffe
que saiu do quarto próximo (onde a criança mais velha repousava em uma
cama, sozinha e com a porta aberta) e permaneceu ao lado de sua cama por
cerca de um quarto de hora; a criança mais jovem estava ali deitada ao seu
lado; os olhos dela se moveram e sua boca abriu, mas ela não disse nada.
Além disso, a babá diz que estava perfeitamente acordada; já havia luz do
dia, sendo um dos dias mais longos do ano. Ela se acomodou na cama e
olhou fixamente para a aparição: naquele instante, ouviu o relógio da ponte
bater duas vezes e, um instante depois, disse: em nome do Pai, do Filho e do
Espírito Santo - o que você é? A aparição se moveu de novo e foi embora;
ela vestiu suas roupas e a seguiu, mas não sabe dizer o que aconteceu. Então
(e não antes), ela começou a ficar extremamente apavorada, saiu pelas
portas e foi caminhar no cais (a casa fica bem ao lado do rio) por algumas
horas, apenas entrando de vez em quando para olhar as crianças. Às 5h, ela
foi à casa de um vizinho e bateu na porta, mas eles não se levantaram: às 6h
foi de novo, e eles se levantaram e a deixaram entrar. Ela lhes relatou tudo o
que havia acontecido: eles tentaram persuadi-la de que estava errada, ou
sonhado: mas ela afirmou com segurança: se alguma vez eu a vi em toda a
minha vida, eu a vi esta noite. Uma daqueles com quem teve contato (Mary,
a esposa de John Sweet) recebeu um mensageiro vindo de Mulling naquela
manhã para informá-la de que sua vizinha Goffe estava morrendo e desejava
falar com ela; ela foi no mesmo dia e a encontrou morrendo. A mãe, no meio
da conversa, disse-lhe o quanto sua filha havia desejado ver os filhos, e
disse tê-los visto. Isto recordou a Sra. Sweet o que a babá lhe dissera
naquela manhã, pois até então ela não havia pensado em mencionar o tema,
mas ao invés o ignorado como [fruto da] imaginação perturbada daquela
mulher. A substância disto me foi relatada por John Carpenter, o pai da
falecida, no dia seguinte ao seu enterro: em 02/07, conversei longamente
Seria uma pena que a evidência cada vez mais robusta de que algo de nós
sobrevive à morte física se apresente como uma ciência do fim do mundo, obtida
próxima ao armagedon causado pelo iminente colapso interno do sistema capitalista e
também por sua relação com a ecologia. Assim, seria apenas algo como um consolo
para os viajantes. Todavia, ela tem também o potencial de auxiliar em um esforço in
extremis para afastar a tragédia que se prenuncia: é possível para todos aqueles que
atuam racionalmente nas comunidades rivais14 reduzir o contencioso existente, o que
politicamente poderá ter efeitos vantajosos no esclarecimento quanto ao momento
vivido e no entendimento necessário das partes rumo a uma tentativa de resolvê-lo.
Nada será feito sem o conhecimento: portanto, a ciência inspirará qualquer plano para
a solução do problema. Muito dificilmente algo será realizado sem o auxílio político
das lideranças religiosas e de suas comunidades extremamente numerosas. A redução
nas disputas e a busca por uma solução muito provavelmente passa por um
entendimento de alto nível entre as partes – sem o qual, o mundo tal como
conhecemos não perdurará muito15.
14 Sem que o conhecimento em nada abdique de seu espírito crítico e cuidado no trato da evidência oferecida
pela natureza.
15 Quem me conhece sabe que sempre fui social-democrata (que concebo como contemporizar enquanto o
problema moderno não se aclara), marcadamente de tendência trabalhista. Todavia, a urgência presente me
faz pensar que uma das soluções possíveis (como uma carta a ser colocada na mesa, entre outras que forem
propostas, para que os militantes políticos possam escolher um programa a ser utilizado em breve) consiste
em fazer dos meios de produção uma propriedade pública (em uma concepção estrita, e não ampla, tal como
a que hoje considera propriedade estatal até a barbearia da esquina). Não me parece que a estatização dos
meios de produção, sob o controle de um partido único, seja de modo algum desejável. Muita água correu
entre o manifesto, as primeiras tentativas socialistas e hoje, e muito foi obtido e se aprendeu com a sociedade
democrática. Existe uma forte inclinação para o totalitarismo no horizonte, aproximando-se tanto por
influência do sistema Chinês quanto pela degeneração em curso no sistema dos EUA. A afirmação de temas
como imprensa livre, liberdade partidária e sindical, eleições, sorteio, separação entre público e privado,
direitos humanos etc. é fundamental, assim como a negação daquilo que há de autoritário na tradição
mudancista. Tal como controla a moeda, um banco central independente pode controlar a produção,
doravante muito menos exuberante do que no capitalismo, planejada, mas ainda industrial. A desaceleração
obtida deve gerar um período de tempo para que a humanidade encontre um caminho racional e praticável; a
renda mínima passa a ser possível (e não mais inflacionária), visto que, uma vez gasto, o dinheiro lançado na
economia tende a ser recolhido pelo BC, após sua utilização. Controle da natalidade e um número mágico de,
talvez, quatro bilhões, pode ser a meta do Estado Mundo, o único que creio capaz de responder aos desafios
contemporâneos (por exemplo, o terrorismo, a corrupção, o estatuto de igualdade de todos os homens e sua
proximidade econômica etc.). Mas tudo isso passa por consciência e, em seguida, ação: para ambos os
momentos, um entendimento amplo se faz desejável, e muito provavelmente necessário.
9
EXPLORE
2020, 1-7
Marjorie Woollacott17
Bettina Peyton18
RESUMO
A pesquisa que explora a natureza das experiências de quase-morte (EQMs) é extensa. Existem
vários mecanismos hipotéticos propostos para explicar a origem dessas experiências, mormente
alucinações devidas a alterações fisiológicas em um cérebro moribundo. Todavia, há evidência
crescente de que tais teorias não podem explicar algumas características das EQMs. Neste artigo,
apresentamos um estudo de caso detalhado e extensamente verificado de uma médica, Bettina
Peyton, que vivenciou uma EQM durante o nascimento de sua filha 19, quando tinha 32 anos de
idade. Os dados fornecem evidência adicional para as hipóteses de que: 1) durante EQMs, os
sujeitos têm experiências perceptivas sensoriais que não são possíveis segundo a estrutura
materialista, na qual a consciência é produzida exclusivamente pela atividade dos neurônios
cerebrais, e de que 2) EQMs conduzem a uma mudança fundamental na compreensão da natureza
da consciência e do lugar do sagrado em suas vidas.
Palavras-chave: EQM; Consciência; Parada Cardíaca; Meditação; Transformação.
Introdução
A literatura da pesquisa que explora a natureza das EQMs é agora extensa (para
uma revisão, ver 12). EQMs ocorrem em várias situações, incluindo (mas não se
limitando a) paradas cardíacas, coma, tentativas de suicídio, quase afogamento e
também em circunstâncias sérias (mas sem risco de vida) tais como acidentes
automobilísticos e outros incidentes físicos traumáticos (11). Existem vários
mecanismos propostos para explicar a origem dessas experiências, incluindo
alterações fisiológicas no cérebro, tais como níveis baixos de oxigênio ou liberação
excessiva de transmissores ocorrendo em um cérebro moribundo (7, 11, 12). Todavia,
há um corpo crescente de literatura que oferece evidência de que estas teorias não
podem explicar algumas características das EQMs, incluindo percepção visual e
auditiva verificada de eventos que ocorrem ao redor do paciente que não deveria ser
fisiologicamente possível durante, por exemplo, uma parada cardíaca sem nenhuma
atividade no córtex cerebral, verificada pelos registros de um eletroencefalograma
plano (5, 11, 13).
Embora alguns estudos prospectivos sobre EQMs durante paradas cardíacas
tenham sido realizados (com destaque para 5, 9, 11, 14, 16), o número de casos
16 Tradução e notas de Marcio Rodrigues Horta, doutor em filosofia pela USP e funcionário de carreira do
TRE/SP. Revisão da tradução de Vitor Moura Visoni, parapsicólogo carioca. Finalizado em 21/08/20.
17 Universidade de Oregon, Instituto de Neurociência, Departamento de Fisiologia Humana. Eugene, OR
97403, EUA. Para se corresponder com esta coautora, escreva para 25 Siesta Lane, Sedona, AZ 96351, EUA
ou mande um e-mail para [email protected] .
18 Medicina Paliativa e Manicomial (aposentada), New Hampshire, EUA.
19 Sua terceira criança e seu segundo parto (NT).
10
relatados nesses estudos (nos quais existem percepções sensoriais verificadas quando
o cérebro e o coração não estão funcionando) é baixo. Outros pesquisadores (com
destaque para 15) coletaram mais de cem casos de experiências sensoriais verificadas
durante EQMs relacionadas a paradas cardíacas e outras causas. Apesar desses dados
acumulados sobre experiências sensoriais ocorridas durante EQMs, esta área de
pesquisa ainda não é aceita como válida pela maioria dos neurocientistas e médicos,
que aderem a uma estrutura materialista (12).
Uma segunda característica observada em muitas EQMs é uma transformação
na perspectiva de vida do sujeito quanto à natureza da consciência e se esta sobrevive
à morte do corpo (6, 8, 16). Esta mudança de perspectiva está tipicamente embutida
dentro de uma transformação espiritual mais ampla, isto é, em uma mudança
fundamental no lugar do sagrado em suas vidas, o que também conduz a uma
reorganização radical da identidade, significado e propósito na vida (6). Greyson e
Khanna mostraram que pessoas que tiveram uma EQM pontuaram significativamente
mais alto na Escala de Transformação Espiritual (1) do que participantes de controle
(que também estiveram próximos à morte, mas não vivenciaram uma EQM). Esta é
uma característica importante da EQM, pois sugere que uma experiência que pode ter
durado apenas alguns minutos é capaz de transformar significativamente toda a vida
subsequente de um sujeito.
Neste artigo, apresentamos um estudo de caso detalhado e amplamente
verificado de uma médica, Bettina Peyton, que vivenciou uma EQM durante o
nascimento de sua filha, sua terceira criança. Apresentamo-lo como evidência
adicional para apoiar as hipóteses de que: 1) durante EQMs, os sujeitos têm
experiências perceptivas que não são possíveis segundo a estrutura materialista, na
qual a consciência é produzida exclusivamente pela atividade dos neurônios no
cérebro, e de que 2) em suas vidas, EQMs conduzem à mudanças fundamentais na
compreensão da natureza da consciência e no lugar do sagrado.
Métodos
Resultados
12
A Narrativa de Peyton
Fazia pouco mais de um ano desde que meu obstetra cuidara da minha primeira
gravidez, entregando-me meninos gêmeos saudáveis. Minha segunda gravidez seria mais
complicada. Um ultrassom revelou que a placenta estava obstruindo o canal de parto e
estaria em risco de sangrar assim que o útero alargasse.
O sangramento começou no sétimo mês de gravidez. Fui internada no mesmo
hospital onde concluíra meu treinamento dois anos antes. O plano era retirar o bebê assim
que seus pulmões estivessem maduros o bastante para respirarem por si mesmos, sem um
respirador. Meu marido, também médico no mesmo hospital, vinha à minha cama todas as
noites com nossos meninos gêmeos de um ano para um conto de ninar e um beijo de boa-
noite.
Eu estou ciente de que essa cirurgia é um procedimento de alto risco. Como a
placenta se estendeu pela frente do útero, meu obstetra terá de fazer a incisão diretamente
através dela, cortando o que é essencialmente uma massa esponjosa com líquidos perigosos.
Espera-se uma quantidade substancial de perda de sangue. Então, como preparação, passei a
doar meu próprio sangue, a ser transfundido de volta se preciso for. Toda semana, uma
unidade de meu próprio sangue tem sido coletada e armazenada no banco de sangue. Meu
anestesista recomendou o uso de anestesia geral, pois complicações inesperadas podem
surgir durante a cirurgia.
Finalmente, um mês depois, os pulmões do bebê estão prontos, e agora estou deitada
na mesa da sala de operações sendo preparada para a cirurgia. Várias bolsas do meu próprio
sangue estão prontas e suspensas na haste acima do meu ombro direito. Enquanto a
enfermeira esfrega meu abdômen e fecha as cortinas cirúrgicas, tento agir com indiferença e
brinco com meu anestesista enquanto ele insere uma agulha grossa em cada braço. O fluxo
frio do anestésico penetra minha veia, e eu perco a consciência.
“A pressão sanguínea está muito baixa!” A voz alarmada do meu anestesista
repentinamente me acorda20 como se de um sono profundo. Subitamente, bem no meio da
operação, estou totalmente acordada. Como se, pelo toque em um botão, eu tivesse sido
despertada em uma consciência ampliada para coisas que nunca tinha vivenciado, como se a
maior parte do meu cérebro, dormente toda a minha vida, fosse de repente ligada. Que
maravilha que este estado superalerta esteja além do alcance das drogas que banham meu
cérebro! Estou verdadeiramente acordada pela primeira vez – durante uma anestesia geral!
É muito evidente que este eu consciente é o meu eu real!
Igualmente surpreendente é o quão calma eu estou – dadas as circunstâncias. Não
existe medo. Posso sentir sensações indolores do puxar no meu abdômen da cirurgia em
andamento. Posso ouvir o anestesista ansiosamente perguntar ao cirurgião sobre perda de
sangue. A resposta tensa do cirurgião é chocante: “o bebê se foi”, ele diz 21.
20 A primeira percepção de Peyton foi pela audição. Em alguns momentos de sua narrativa, ela deixa claro
que primeiro ouviu e, em seguida, viu. Intérpretes da EQM sustentam que os sujeitos reuniam condições de
ouvir durante os acontecimentos e, mentalmente, criaram uma visualização dos eventos. Esta parece-me ser a
última linha de defesa do materialismo contra a interpretação de que EQMs realmente desvelam a
sobrevivência. Em virtude disso, casos em que se constatou que o sujeito não podia ouvir durante os
acontecimentos porque estava morto (ou quase), com parada cardíaca, cérebro não oxigenado, tampões no
ouvido, sons altos de bipes (comuns em cirurgias nos EUA), EEG plano etc. são fortemente disputados,
passando da discussão teórica para alegações ad hominem ou pior. O caso de Pamela Reynolds tem sido o
epicentro de um confronto apaixonado, visto que, dentre outros, apresenta várias anomalias em uma
perspectiva monista (Rivas et al, O Eu Não Morre, p. 83 e outras). Todavia, em muitos casos, nota-se que
vários detalhes não podiam ser percebidos auditivamente. No caso em tela, por exemplo, a entrada em cena
de um “cirurgião veterano”, que mais tarde se apresentou à Peyton, é (entre outras coisas) relevante.
21 Uma fala relevante não apontada como confirmada pelo cirurgião na Tabela 2. As autoras aparentemente
não se deram conta de sua importância, pois, durante os acontecimentos, Peyton foi avisada de que seu bebê
13
Acima do meu ombro direito, um palavrão alto irrompe: “merda! Agora ela não tem
pressão sanguínea nenhuma!”
No instante seguinte, sinto uma profunda quietude no centro do meu peito. Falta
alguma coisa. É a batida do meu coração. Meu coração parou. Ao mesmo tempo, posso
repentinamente ver dentro da sala. Que incrível! As pálpebras dos meus olhos físicos foram
vedadas com fita adesiva para proteger as córneas; porém, por algum outro mecanismo, eu
posso ver perfeita e claramente. Há bolsas de sangue penduradas no suporte já sendo
transfundidas. Meu anestesista está agachado em sua banqueta perto de mim, alheio ao fato
de que não tenho batimentos cardíacos.
Tabela 1
Os resultados de Bettina Peyton na Escala de Greyson
Pontuação total da Escala de EQM (resumo de 16 itens) = 23
Para propósitos de pesquisa, uma pontuação de 7 ou mais é considerada uma EQM
2 1. O tempo pareceu acelerar ou desacelerar?
0 = Não
1 = O tempo pareceu ir mais rápido ou mais lento do que o normal
2 = Tudo pareceu acontecer ao mesmo tempo; o tempo parou ou perdeu todo o significado
0 2. Seus pensamentos aceleraram?
0 = Não
1 = Mais rápidos do que o normal
2 = Incrivelmente rápidos
0 3. Cenas do seu passado retornaram?
0 = Não
1 = Recordei muitos eventos passados
2 = Meu passado surgiu diante de mim, fora do meu controle
2 4. Você repentinamente pareceu compreender tudo?
0 = Não
1 = Tudo sobre mim ou outros
2 = Tudo sobre o universo
2 5. Você teve um sentimento de paz ou prazer?
0 = Não
1 = Alívio ou calma
2 = Paz ou prazer incríveis
2 6. Você teve um sentimento de alegria?
0 = Não
1 = Felicidade
sobrevivera e passava bem. [Acréscimo de 09/11/20 do tradutor: aqui é narrado um curioso equívoco, que
inicialmente também me vitimou como tradutor e crítico. Peyton interpreta a fala do cirurgião como uma
afirmação da morte do seu bebê (the baby is gone. Isto gera um acréscimo dramático notável à situação,
como se vê na passagem imediatamente anterior à nota 23 – durante a experiência, Peyton acredita ter
perdido seu bebê), em virtude do uso coloquial e metafórico amplamente corrente dessa expressão para
designar a morte. Todavia, tal uso tornou-se mais frequente entre os anglófonos do que o uso literal da
expressão: alguém que sai de um local, ou, no caso de um bebê, que se foi, que foi levado de cá para lá. Na
sequência do texto percebe-se o que o médico realmente quis dizer, pois Peyton é informada de que seu bebê
está bem. Em um livro de 2015, portanto, anterior a este artigo, Woollacott explicou que a criança foi levada
da sala de cirurgia até seu pai, que aguardava na sala de espera].
14
2 = Alegria incrível
2 7. Você teve uma sensação de harmonia ou unidade com o universo?
0 = Não
1 = Não me senti mais em conflito com a natureza
2 = Eu me senti unida ou um com o mundo
2 8. Você se viu ou sentiu cercada por uma luz brilhante?
0 = Não
1 = Uma luz inusualmente brilhante
2 = Uma luz claramente de origem mística ou de outro mundo
2 9. Seus sentidos estavam mais vívidos do que o normal?
0 = Não
1 = Mais vívidos do que o normal
2 = Incrivelmente mais vívidos
2 10. Você pareceu estar ciente de coisas acontecendo em outros lugares, como se por percepção extrassensorial
(PES)?
0 = Não
1 = Sim, mas os fatos não se verificaram
2 = Sim, e os fatos se verificaram
0 11. Cenas do futuro vieram até você?
0 = Não
1 = Cenas do meu futuro pessoal
2 = Cenas do futuro do mundo
2 12. Você se sentiu separada do corpo?
0 = Não
1 = Perdi a consciência do corpo
2 = Claramente deixei meu corpo e existi fora dele
2 13. Você pareceu entrar em algum outro mundo não-terreno?
0 = Não
1 = Algum lugar não-familiar e estranho
2 = Um reino claramente místico ou não-terreno
2 14. Você pareceu encontrar um ser ou presença místicos, ou escutou uma voz não identificada?
0 = Não
1 = Ouvi uma voz que não consegui identificar
2 = Encontrei um ser definido, ou uma voz claramente de origem mística ou não-terrena
0 15. Você viu espíritos de falecidos ou religiosos?
0 = Não
1 = Percebi suas presenças
2 = Realmente os vi
1 16. Você chegou a uma fronteira ou um ponto sem volta?
0 = Não
1 = Tomei a decisão consciente e definitiva de “voltar” à vida
2 = Cheguei a uma barreira que não tinha permissão de atravessar; ou fui “enviada de volta” contra
minha vontade.
15
Então, uma série de bipes altos do monitor cardíaco enviam o alarme. O anestesista
se ergue e bate no grande botão vermelho na parede, convocando a equipe de ressuscitação
do hospital22. Ele afasta as cortinas cirúrgicas e começa a bombear meu peito com seus
braços musculosos. Meu corpo fantasmagórico e pálido sobe e desce.
O pior está acontecendo. Eu perdi meu bebê, perdi todo o meu sangue 23 e estava
tendo uma parada cardíaca. Mas, surpreendentemente, em vez de estar aterrorizada, assisto à
catástrofe de um espaço de extraordinária equanimidade, até quando percebo que estou
morrendo. Algo em mim já sabe: é inútil lutar; a única coisa a fazer é relaxar e deixar rolar.
A quietude em meu peito se expande e posso sentir uma corrente de energia me
puxando para dentro. Entrego-me ao fluxo e flutuo profundamente para dentro. Toda a
consciência da sala e do meu corpo some. Flutuo para uma fronteira, para um vasto vazio
além. E então, deslizando sobre um limiar invisível, mergulho para trás em uma graciosa
queda livre, descendo e descendo para o … nada. A escuridão me engolfa. E então - nada.
Nenhuma sensação do mundo ou da minha própria existência.
Cabum! Um som estrondoso ecoa por toda parte, e estou ... suspensa no espaço,
como se tivesse atravessado explosivamente alguma grande barreira. Os ecos desaparecem.
Eu estou livre – e viva! Sem corpo, eterna, puro ser. Isto é o que realmente sou! Sempre fui e
sempre serei assim.
Silêncio profundo. Escuridão aveludada, como o céu noturno, por toda parte ... Uma
extensão sem fim de escuridão radiante, cintilante, hipnotizante ... Em todas as direções,
sem horizonte, beleza espantosa … Sem limites, luz cintilante.
E dou-me conta de algo: esta luz está viva! Em todas as direções, esta luz está
olhando para trás com amigável reconhecimento. E eu sei: esse vazio cintilante é a
Realidade Suprema, e é feita apenas de Consciência – onisciente, infinita e pulsante de
potencialidade. É o fundamento de tudo 24. Em uma explosão de admiração e alegria, meu
foco sobrevoa a vasta extensão, deliciando-se em seu esplendor sem limites. Então,
quietude. Estou ancorada em um estado de repouso perfeito, absolutamente realizada,
envolta em luz silenciosa e aveludada.
Você deve viver. Uma voz, ressoando através da luz cintilante, fala não em palavras,
mas em um tipo de trovão silencioso. Você deve viver, a ordem ressoa novamente. A
mensagem é simples, mas não faz sentido. Quem é esse “você”? E o que significa “viver”,
22 Hoje muitos hospitais têm uma equipe de ressuscitação, o que pode ser interpretado como uma concessão
histórica prática e forçada do monismo. Recordemos que Platão, no mito de Er (A República, X, 614b-621b),
narrou um episódio que alguns consideram a primeira descrição de uma EQM, estilizada talvez a partir de
casos então conhecidos. Friso que, em certo momento, afirma-se que Er, morto, reviveu para contar sua
história. Os epicuristas foram muito duros com essa pretensão, tanto que Marco Cícero, quando descreveu a
experiência mística de Scipião Africano (A República, cap. 6, O sonho de Scipião), optou por seguir passo a
passo o mito de Er, com exceção da ressuscitação, enquadrando o episódio em um sonho. Fernando Antolín
(lastreado em Pierre Boyancé: Études sur le 'Songe de Scipion'. Paris, Bibliotheque des Universités du Midi,
1936, pp. 51-segs.) afirma que “a razão que induziu Cícero a substituir a morte e ressureição de Er por um
sonho foram as zombarias com que os epicuristas, em especial Colotes [de Lâmpsaco, 320/268], dirigiram à
pretensa ressurreição do protagonista de Platão. O sonho constitui um dos meios de adivinhação natural …
por isto Cícero pode se permitir utilizar um sonho sem diminuir a seriedade e o rigor científico” (Introdução.
In: Comentario [de Macrobio] al sueño de Escipión, p. 35, n. 72. Madrid, Gredos, 2006 – tradução minha).
Portanto, a princípio, à luz do monismo, o fenômeno sequer deveria existir, muito menos equipes
especializadas em promovê-lo. Aproveitando o ensejo, observo que após não ser oxigenado por um curto
período de tempo, o cérebro deveria morrer. Todavia, vez ou outra a imprensa informa casos em que pessoas
foram ressuscitadas após horas sem oxigenação (e, por vezes, sem qualquer dano ao cérebro), o que parece
ser uma anomalia no campo das explicações médicas.
23 Considero a afirmação de estar exangue apenas como um acento dramático.
24 Interpretação comum feita nessa fase da experiência: sugiro que, muitas vezes, o sujeito paga o preço por
sua primeira formação, que subjazia e encontra na EQM um modo de voltar a influenciá-lo. Assim
interpretou também o marido de Peyton, na sequência da narrativa.
16
quando já estou absolutamente viva?
Algo captura minha atenção: uma luz piscando, como uma pequena joia,
profundamente aninhada no interior da escuridão. Focalizo essa luz e vejo suas muitas
facetas – as cenas coloridas de toda uma vida em exibição simultânea. A experiência inteira
de alguém que uma vez viveu … alguém muito familiar … e gradualmente recordo … eu já
fui uma pessoa, e estou observando toda a experiência daquela pessoa - passado, presente e
futuro se desenrolando simultaneamente, tudo contido em um ponto de luz cintilante.
Você deve viver. A ordem ressoa pela terceira vez. Está claro: vou retornar àquela
vida. Mas como eu posso de algum modo me encaixar naquele mundinho? Ademais, a vida
daquela pessoa acabou. Como pode ser ressuscitada?
Então, em um fluxo ininterrupto de comunicação sem palavras, o conhecimento de
como eu vou retornar àquela vida penetra minha consciência: devo ser destemida. Devo
permanecer focada no momento presente. Devo manter a certeza de que vou viver. Qualquer
distração ou preocupação, e posso não reviver.
No instante seguinte, há um tremendo som de azáfama, acompanhado por um rápido
redemoinho e contração, como se a expansão de consciência inteira se contorcesse em um
grande vórtice, e eu desço me afunilando em uma velocidade tremenda. Então, um tanto
abruptamente, o tumulto para repentinamente e minha percepção se abre para revelar a cena,
nos limites da sala de operações do hospital, desenrolando-se como se nem um instante
tivesse passado. Observando de um ponto vantajoso acima da cena 25, eu sou um canal
aberto pelo qual o poder da Consciência transcendente flui26.
O anestesista ainda está bombeando meu peito e o cirurgião trabalhando duro em
meu abdômen cheio de sangue. A equipe de ressuscitação está entrando velozmente.
Médicos irrompem pela porta dupla e praticamente derrapam até parar, com os olhos
arregalados e sem fôlego. Enquanto tomam seus lugares ao redor do meu corpo, posso sentir
suas mentes se preparando para o inevitável: ela já se foi. E é verdade: aquele corpo,
balançando flacidamente sob as massagens peitorais do anestesista, parece completa e
irreversivelmente morto. A pele está fantasmagoricamente branca e a cavidade abdominal,
exposta por uma ampla incisão na linha média (mantida bem aberta por alargadores), está
manchada por vívido sangue vermelho. Há sangue pelo chão.
Eu sinto a mente de Bettina em algum nível inferior, agitada com medo e angústia,
preocupada também com o ser vista pelos colegas em uma tal condição (sem jaleco branco,
estetoscópio e rigidamente nua): abdômen completamente aberto e tripas expostas.
Reconhecendo a mente agitada de Bettina como uma distração perigosa, não lhe dou
atenção.
A Consciência se comunica diretamente com os membros da equipe enquanto eles
tomam seus lugares ao redor da mesa de operações. “Eu vou viver! Vocês podem fazer isto!
Agora vamos trabalhar!”
A Consciência derrama uma corrente contínua de energia encorajadora na cena,
incentivando como um técnico de fora do campo. Sim, sim! Eu vou viver! A sala toda está
25 Não foi uma EQM, mas eu tinha 12 anos quando a janela do quarto caiu e esmagou duas patas e o rabo
(soube mais tarde) da Catarina, o sagui da minha família. Eu estava na cama vendo a cena e, subitamente,
passei a ver tudo do teto. A experiência foi breve, mas inesquecível. Em seguida, voltei ao ponto de vista
original e corri para auxiliar o bichinho.
26 A princípio, a interpretação de uma ação divina não me parece persuasiva. Por que Deus, “onisciente,
infinito e pulsante de potencialidade” (em seguida Peyton dirá “uma Consciência onipresente, onisciente,
onipotente”) precisaria liderar uma operação humana para ajudar Peyton? Na apresentação, citei a alegação
da médium Leonard que, sendo espiritualista, afirmou que médicos desencarnados a auxiliaram, o que parece
mais adequado. Outras alternativas seriam a alucinação ou a presença apenas dela mesma, em algum
fenômeno dissociativo (na sequência, Peyton afirmará que a consciência de Bettina lidava com ideias
distintas enquanto seu verdadeiro ego acompanhava a ação divina).
17
inundada por uma luz miraculosa.
A sala está repleta de trabalhadores. No centro da ação, meu cirurgião está
inteiramente focado. Em meio ao clamor e urgência, trabalha em um campo cirúrgico
oscilante e repleto de sangue; ele está realizando o que mais tarde declarará ser sua primeira
histerectomia de três minutos.
Meu ponto de vista visual transcende e abrange a cena, mas posso também sentir
todas as sensações que ocorrem dentro do corpo cadavérico abaixo. E embora a cirurgia seja
extraordinariamente dolorosa (um retorcer e puxar intensos no abdômen), minha experiência
é totalmente livre de sofrimento. Em um ponto, porém, a pressão no abdômen se torna tão
intensa que ameaça capturar toda a minha atenção. No que parece um pedido ousado,
pergunto se a dor poderia diminuir - só um pouquinho? Com entusiasmo lúdico - você só
precisa pedir! - a dor diminui instantaneamente a um nível muito inferior.
Sinto dor no pescoço enquanto um cateter é inserido na minha veia jugular direita e
direcionado para o meu coração sem movimento. Uma dor mais aguda chama minha
atenção: o anestesiologista está tentando inserir uma agulha no meu pulso direito, mas a
artéria exangue colapsou e a agulha toca o osso sensível embaixo. A dor aguda e persistente
no meu pulso direito é uma distração. Sugiro ao anestesiologista que tente a artéria maior e
mais próxima ao cotovelo. Sinto sua resposta negativa tão concretamente como se ele
recusasse balançando a cabeça. Eu sei que ele está preocupado em ferir o nervo que segue
ao lado da artéria maior. Exorto-o repetidamente, com mais força, mas ele continua
cutucando a artéria colapsada. Finalmente, em uma onda de vontade, a Consciência irrompe
em uma explosão de poder silencioso: “apenas faça!” O anestesista começa por se
endireitar; então, volta-se para a artéria maior na dobra do meu braço, insere o cateter e
obtém sucesso na primeira tentativa27.
Eu incentivo a todos. “Sim, sim! Todos vocês estão indo muito bem! Vocês
conseguem! Eu vou viver!” O poder da Consciência fluindo a partir do reino transcendente
carrega a sala com sua energia28. A equipe toda, em sincronia, move-se junta como se
estivesse em uma dança coreografada. Cada pessoa desempenha sua parte perfeitamente;
porém, apesar de todos os seus melhores esforços, não conseguem reiniciar meu coração
sem movimento.
Um cirurgião de cabelos brancos que parece muito diferente do restante entra na sala.
Uma chama de luz branca parece brilhar no topo de sua cabeça e há uma aura dourada ao
redor do seu corpo. Abrindo caminho através da sala povoada, este cirurgião veterano se
move com graça calma e digna. Segue para o meu lado direito. Oposto diretamente a ele,
intensamente concentrado em sua tarefa, meu obstetra sequer o fita. Sem uma palavra, o
cirurgião veterano enfia a mão no meu abdômen. Quando sua mão desaparece no lago de
sangue, meu ponto de vista cai e, agora, assisto do interior do meu corpo. As espirais das
digitais nas pontas dos seus dedos ficam visíveis para mim em primoroso detalhe - parece
27 Recorde-se o testemunho da médium Leonard, citado na apresentação, para similaridades com o ocorrido
com Peyton. Ambas alegam que a(s) entidade(s) que conduziram suas cirurgias intervieram na ação dos
médicos. No caso de Leonard, por instruções diretas que passaram por sua própria boca; no caso de Peyton,
por pensamentos que ela canalizou. Mas ambos de modo imperativo e competente.
28 Cito minha própria vivência nesse ponto para apoiar em certo sentido a afirmação de Peyton. Jamais passei
por uma EQM, mas na pior fase da minha vida, aos 28 anos, fui fazer terapia, pois, por ser uma pessoa mal-
assombrada, o “inferno” jamais largou do meu pé. Tudo sempre foi tão intenso que, por muitos anos e em
muitas circunstâncias, atuei como médium, e é difícil dar uma ideia a quem não as viveu das inúmeras
situações por que passei. Nessa época, particularmente sensível em virtude da terapia, estava tão mal que
creio ter recebido uma colher de chá de uma entidade. Em duas ocasiões, em um estado psicológico de
profunda debilidade, acordei aos prantos porque fui como que longamente “mantido no colo” por uma
entidade de pura luz, uma “caixa de força” que me fez saltar do sono e conservar por minutos um estado de
intensa vibração no corpo. Tais vivências me obrigam a sustentar a possibilidade de intervenção espiritual.
Baseado no que fui, sou e vivi, devo dizer que parte do que Peyton conta existe.
18
que, para economizar tempo, ele renunciou às luvas cirúrgicas. Passando seus dedos em
torno da minha aorta, ele fecha o grande vaso, cortando o fluxo de sangue. Interrompe a
hemorragia no abdômen e redireciona o sangue que resta no meu sistema para o meu
cérebro e coração. Toda a força da minha consciência passa a se reunir em seu punho, no
centro do meu corpo, que se contrai em um ponto de sensação intensa - uma pontada de dor
muito pior do que qualquer outra, profunda, no centro do corpo.
De repente, em um ponto interno ao punho do cirurgião, há uma explosão de luz
branca e incandescente como um raio de sol, bem no centro do meu corpo. Ela se espalha
pelo meu corpo na velocidade da luz, ramifica-se em milhões de delicados canais e
iluminando cada poro, cada célula. Embora incrivelmente quente e notavelmente brilhante,
essa irradiação é absolutamente benevolente. À medida que atravessa meu sistema, cada
nível do meu ser é amado, curado e revitalizado29. A luz se aglutina em uma única massa
infinita30 e, por um período de tempo desconhecido, permaneço em êxtase supremo.
Quando minha consciência individual retorna, estou agora estacionada dentro do meu
corpo, deitada atordoada na mesa de operações. Gratidão transborda para todos da equipe,
mas principalmente para o cirurgião veterano. Sua mão foi a conexão através da qual a
Consciência universal fez seu trabalho salva-vidas, e sei que sua simples ação foi um ponto
de virada crítico.
Então, ouço a voz do cirurgião veterano: “parem as compressões”. Ele pode sentir
uma pulsação na minha aorta. Todos fazem silêncio e esperam. Seguramente oito minutos
após parar, meu coração está batendo novamente. Alguns momentos depois, um dos
médicos se inclina e sussurra no meu ouvido uma mensagem que me enche ainda mais de
alegria: “você tem uma linda menina, e ela está bem”31.
Transformação inicial
informam os pacientes (mesmo se inconscientes) do sucesso dos procedimentos. Portanto, presume-se que, a
princípio, a capacidade auditiva de Peyton estava funcional. Se funcionava durante sua morte clínica é outro
problema. Tais possibilidades de enriquecimento probatório mostram que a Tabela 2 é muito boa; porém,
poderia ter sido acrescida de outras corroborações. Conviria perguntar às autoras sobre pontos não
esclarecidos e bastante interessantes da narrativa: o cirurgião veterano agindo sem luvas, o bebê inicialmente
morto e na sequência vivo etc. [Acréscimo de 09/11/20 do tradutor: aqui, ver a nota 21. No livro Infinite
Awareness, de 2015, p. 113, Woollacott explica que “uma das enfermeiras se inclinou e cochichou no ouvido
de Peyton que seu bebê sobrevivera; ela tinha uma filha saudável. Mais tarde, Peyton entendeu que 'the
baby’s gone' não significava que o bebê havia morrido, mas que havia sido removido de sua cavidade
abdominal e levado ao seu marido, que aguardava fora da sala de cirurgia”. Um problema desaparece mas
surge outro: note-se que, na narrativa de 2015, de Woollacott, foi uma enfermeira que comunicou que o bebê
passava bem; em 2020, segundo Peyton, foi um médico].
32 Conjunto probatório excelente narrado por Peyton; a circunstância em que ocorre muitas vezes leva à
19
Fiquei empolgada ao contar as boas novas para o meu marido: “você não é o seu
corpo! Não devemos temer a morte!” Meu marido, ateu, olhou-me como se eu estivesse
louca. Quando tentei contar-lhe o que havia descoberto, só me ocorreu uma palavra:
“consciência”. Para ele, esta palavra era apenas um termo médico que usamos para
diagnosticar o nível de alerta de um paciente. “Não, não, você não entende”, eu disse. “A
consciência de que falo é algo extraordinário: é uma consciência onipresente, onisciente,
onipotente!” ... Ele balançou a cabeça. Essas palavras o lembraram da religião que rejeitara
há muito tempo. “Não, você é que não entende”, ele disse. “Não aconteceu nada de
extraordinário. É apenas uma fantasia, um estado alterado produzido por um cérebro
privado de oxigênio”.
Transformações pós-EQM
Eu sabia que era possível retornar àquela experiência sem ter de quase morrer. Saí em
busca da compreensão. Encontrei os primeiros livros sobre EQMs, que me levaram a
participar de uma reunião do grupo local da Associação Internacional para Estudos da EQM
(IANDS), em Boston. Em 1988, era apenas um punhado de pessoas compartilhando suas
experiências, mas ninguém parecia saber como voltar àquele estado transcendente. Então,
encontrei uma pista importante. Estava lendo um folheto de uma conferência sobre medicina
de corpo e mente e a palavra meditação literalmente saltou da página. Na época, nunca
havia ouvido falar de meditação. Meu pensamento seguinte foi: preciso de um professor.
Após um ano inteiro de busca, encontrei um professor, um mestre em meditação e, em nosso
primeiro encontro, alcancei o mesmo estado transcendente de consciência que havia entrado
um ano antes. Agora, eu sabia que a meditação era o caminho para me reconectar com
aquele estado.
Tabela 2
Percepções durante a cirurgia e a parada cardíaca,
com os olhos vedados para proteger as córneas
Verificado: sim/não
Disse telepaticamente ao anestesista: “apenas faça”. Ele ouviu essas palavras. Isto o Sim
fez parar de tentar inserir o cateter no pulso e seguir para o cotovelo.
Viu várias unidades de sangue no suporte diretamente sobre ela, o anestesista sentar- Sim
se à sua direita, curvar-se sobre o braço direito e inspecionar o tubo condutor.
Viu o anestesista bater o punho no botão da parede, disparando um alerta. Sim
Viu o cirurgião realizando uma histerectomia. Sim
Viu o cateter inserido na veia jugular direita e o anestesista tentando inserir o condutor Sim
no pulso. Então, seguindo para o cotovelo, ele finalmente insere com sucesso.
Viu um cirurgião veterano, de cabelo branco e uniformizado entrar na sala, caminhar Sim
para o lado dela, enfiar a mão no abdômen cheio de sangue e manter a aorta
fechada34.
34Uma interessante evidência dualista da EQM de Peyton: esse cirurgião adentrou ao recinto muito depois de
Peyton dormir anestesiada, tem características marcadamente peculiares e agiu discretamente – o conjunto
não poderia ser reconstruído a partir da experiência auditiva ordinária, tornando-se visões. Com exceção do
atuar sem luvas, houve verificação posterior. Ao encontrá-lo, Peyton poderia lhe ter feito duas ou três
perguntas precisas, o que teria sido valioso.
21
Tabela 3
Pontuação de Bettina Peyton nas Escalas
Escala de Transformação Espiritual – Subescala de Crescimento Espiritual
(Cole et al, 2008)
Pontuação de BP: 186
Instruções: ESCREVA o número PRÓXIMO A CADA AFIRMAÇÃO que melhor descreva quaisquer
mudanças que tenham ocorrido desde sua EQM, utilizando a seguinte escala:
1 2 3 4 5 6 7
Não é em absoluto verdadeiro para você É muito verdadeiro para você
7 1. A espiritualidade tornou-se mais importante para mim.
7 2. Meu modo de encarar a vida tornou-se mais espiritual.
7 3. Por causa das mudanças espirituais que tenho passado, mudei minhas prioridades.
6 4. Presto mais atenção às coisas que são espiritualmente importantes e esqueço as pequenas coisas que
costumavam me incomodar.
7 5. Rezo ou medito mais frequentemente.
7 6. Gasto mais tempo cuidando das minhas necessidades espirituais.
7 7. Sinto mais frequentemente a vida ao meu redor como espiritual.
7 8. Vejo com mais frequência minha vida como sagrada.
5 9. Estabeleci uma conexão espiritual mais forte com as outras pessoas.
6 10. Estabeleci uma conexão espiritual mais forte com a natureza.
7 11. Sou uma nova pessoa espiritualmente.
6 12. Cuidar do meu corpo ganhou um significado espiritual.
6 13. Minhas relações com as outras pessoas ganharam um significado mais espiritual.
7 14. Obtive um sentido mais forte do Sagrado (Deus, Poder Superior, Alá, Adonai etc.).
5 15. Ajo mais compassivamente com as outras pessoas desde o meu diagnóstico.
5 16. Vejo as pessoas com uma luz mais positiva.
5 17. Expresso minha espiritualidade mais frequentemente.
7 18. Gasto mais tempo pensando em questões espirituais.
5 19. Sou mais humilde desde o meu diagnóstico.
6 20. Penso o quanto sou abençoada com mais frequência.
7 21. Cresci espiritualmente.
7 22. Estou mais presente espiritualmente no momento.
7 23. Participo de rituais espirituais com mais frequência.
6 24. Tenho uma sensação de gratidão com mais frequência.
6 25. Rezo para as outras pessoas com mais frequência.
7 26. Agora, minha espiritualidade está mais profundamente inscrita em todo o meu ser.
7 27. Estou mais receptiva com o cuidado espiritual com os outros (exemplos: rezar, práticas curativas
etc.).
7 28. Busco um significado espiritual para a minha vida com mais frequência.
7 29. Considero mais importante participar de uma comunidade espiritual.
22
manicomial foi a ausência do medo da morte. Penso que quando adentro o quarto de um
paciente, esse destemor pode ser sentido pelos outros. Além disto, consegui me ancorar em
um estado de paz, o que era muito reconfortante para os pacientes e suas famílias. Ficou
claro para mim que, à medida que a morte se aproxima, os pacientes costumam entrar em
um estado meditativo. Tive o privilégio de testemunhar pacientes tendo experiências de
consciência expandida (visões ou paz profunda), vivências espirituais que podem ser parte
de uma EQM ou meditação profunda.
Peyton descreve um exemplo de transformação sutil em seu trabalho
manicomial após sua EQM:
Em meu trabalho (como médica de manicômio e cuidados paliativos) cuidei de
muitos pacientes dementes em estágio terminal. Algumas vezes, conectei-me sutilmente
com eles no nível do Ego, sua essência interior. Reconheci que, nesse nível, eles estavam
completamente intactos, embora o cérebro como órgão estivesse minimamente funcional. E
algumas vezes havia evidência física de que eles sabiam que eu podia vê-los em seu nível
essencial. Por exemplo, seus olhos transbordavam em lágrimas quando olhavam nos meus,
como se eles se sentissem profundamente compreendidos.
Discussão e conclusões
que me parece ótimo); todavia, seu desenvolvimento espiritual se dá no sentido de sua primeira história, com
a reativação de conteúdos de sua educação inicial, dando um tom conservador à sua descoberta pessoal
(pessoal e dificilmente transferível). Assim, a experiência mística (aqui sem nenhuma carga conotativa
negativa: a experiência que se tem com os olhos fechados) surge como uma explicação também para a
permanência de crenças da religião tradicional.
25
Referências
1. Cole B. S., Hopkins C., Tisak J., Steel J., Carr B.; Assessing spiritual growth and spiritual
decline following a diagnosis of cancer: reliability and validity of the spiritual transformation scale.
Psychooncology. 2008; 17: 112-121.
2. Collins J. W., O’Brien N. P.; The Greenwood Dictionary of Education. Westport
Connecticut: Greenwood Press; 2003.
3. Greyson B.; The near-death experience scale: construction, reliability and validity. J.
Nervous Ment. Dis. 1983;171 (6) : 369-375.
4. Greyson B.; Near-death encounters with and without near-death experiences: comparative
nde scale profiles. J. Near-Death Studies. 1990; 8 : 151-161.
5. Greyson B.; Incidence and correlates of near-death experiences in a cardiac care unit.
Gen. Hosp. Psychiatry. 2003; 25: 269-276.
6. Greyson B., Khanna S.; Spiritual transformation after near-death experiences. Spiritual
Clin. Pract. 2014; 1: 43-55.
7. Kelly E. F., Kelly E. W., Crabtree A, Gauld A., Grosso M., Greyson B.; Irreducible Mind:
Toward a Psychology For the 21st Century. Lanham, MD: Rowman & Littlefield; 2010.
8. Khanna S., Greyson B.; Near-death experiences and spiritual well-being. J. Religs.
Health. 2014; 53: 1605-1615.
9. Klemenc-Ketis Z.; Life changes in patients after out of hospital cardiac arrest: the effect
of near-death experiences. Int. J. Behav. Med. 2013; 20: 7-12.
10. Lange R., Greyson B., Houran J.; A rasch scaling validation of a ‘core’ near-death
experience. Br. J. Psychol. 2004; 95 : 161-177. https://doi.org/10.1348/000712604773952403 .
11. Lommel P. van, Wees R. van, Meyers V, Elfferich I.; Near-Death experience in survivors
of cardiac arrest: a prospective study in the Netherlands. Lancet. 2001; 358 (9298): 2039-2045.
12. Parnia S.; Understanding the cognitive experience of death and the near-death
experience. QJM: An International Journal of Medicine. 2017;110:67-69.
13. Parnia S., Spearpoint K., de Vos G., et al.; Aware-Awareness during resuscitation - A
prospective study. Resuscitation. 2014; 85 (12): 1799.
14. Parnia S., Waller D., Yeates R., Fenwick P.; A qualitative and quantitative study of the
incidence, features and aetiology of near-death experiences in cardiac arrest survivors.
Resuscitation. 2001; 48: 149-156.
15. Rivas T., Dirven A., Smit R. H.; The Self Does Not Die: Verified Paranormal
Phenomena from Near-Death Experiences. Durham, NC: International Association of Near-Death
Studies; 2016.
16. Schwaninger J., Eisenberg P. R., Schechtman K. B., Weiss A. N.; A prospective analysis
of near-death experiences in cardiac arrest patients. J. Near-Death Experiences. 2002; 20: 215-232.
26