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Experiência de Quase-Morte e Dualismo

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O RESÍDUO POSITIVADO

Marcio Rodrigues Horta1

“Pode-se demonstrar como falsa uma proposição


universal através de um exemplo particular. Caso
se deseje questionar a lei de que todos os corvos são
negros, não é necessário mostrar que cada corvo não
é negro; basta provar que um único corvo é branco”.
William James2

Mais um artigo sobre uma experiência de quase-morte (EQM) chegou às


minhas mãos, com o pedido de uma tradução para o português. Já estou bem
familiarizado com tal literatura, tantos foram os artigos científicos e vídeos
publicados com os quais tive contato. Assim, penso que reúno condições para
sustentar uma posição nesse tema; com este fito, disponibilizo também, após esta
breve apologia, uma tradução de um artigo científico recentemente publicado pelas
médicas americanas Marjorie Woollacott e Bettina Peyton em um jornal
especializado, mais um trabalho que considero bem-sucedido e evidencial nesse
programa de pesquisa (embora não exatamente livre de dificuldades).
Em virtude do forte contencioso histórico entre ciência e religião, parte
substantiva das comunidades científica e acadêmica passou a associar uma metafísica
monista à primeira3 e a desconsiderar liminarmente qualquer relato que desse suporte
a uma filosofia dualista. Assim, modernamente, relatos hagiográficos, místicos,
inquisitoriais, enfim, toda uma literatura relativa a fenômenos hoje chamados de
paranormais foi marginalizada pelo mainstream universitário. Seu personagem
central, o devoto que testemunha, foi desacreditado. Todavia, com a extrema
popularização do materialismo nas instituições científicas e acadêmicas, surgiu uma
comunidade de praticantes laicos da ciência que, já faz algum tempo, também tem
testemunhado tanto na condição de sujeito quanto na de pesquisador. Tal literatura
sobeja hoje em artigos em jornais científicos, livros e vídeos sobre o assunto.
Considerando os inúmeros erros4, fraudes e os interesses ao fim econômicos
que envolviam o moderno espiritualismo (objeto de estudo privilegiado dos pioneiros
da pesquisa psíquica), além da incerteza quanto aos fenômenos legítimos desse
campo (que, em sua origem, envolvia mesas girantes, materializações 5, fotografias
1 Doutor em filosofia pela USP e funcionário de carreira do TRE/SP.
2 Discurso do Presidente da SPR. Ensaios em Pesquisa Psíquica. Cambridge: Harvard University Press, 1986
[1896]; pp. 127-137.
3 Com especial destaque para a influência das escolas filosóficas originadas em Auguste Comte e Karl Marx.
4 Ilustro tais enganos recomendando os seguintes estudos: Biasetto, E.; “Uma análise crítica do livro Nosso

Lar e contestação da existência do espírito André Luiz”. Rio de Janeiro: blog Obras psicografadas, 2011.
Biasetto, E.; “Uma análise crítica do livro Libertação e localização do Nosso Lar original”. Rio de Janeiro:
blog Obras psicografadas, 2011a. Horta, M.; “Razão e fé”. In: Hypnos, n° 2. São Paulo: Educ & Palas
Athena, 1996. Horta, M.; “A prudência dos sábios”. Instituto Cultural Espírita: Santos, 2007 e, recentemente,
minha tradução com notas de Minha Vida em Dois Mundos (1931), da médium inglesa G. Leonard. Rio de
Janeiro, blog Obras psicografadas, 2019.
5 No sentido que o espiritualismo conferiu à expressão.

1
espirituais e outras alegações inexistentes), uma parte bastante numerosa dos
primeiros investigadores considerou o tempo como senhor da razão, ou seja, que seu
programa de pesquisa deveria assumir um compasso de espera e prudentemente
aguardar o acúmulo crítico para se pronunciar sobre o caso da paranormalidade, o
que, afinal, envolve uma decisão entre o monismo e o dualismo.
Ademais, boa parte dos fenômenos considerados autênticos podia ser explicada
sem apelo ao espiritual e, nesta linha, gosto particularmente de destacar o trabalho
inicial de Richard Hodgson6 sobre as faculdades da médium espiritualista Leonora
Piper, pesquisa publicada em capítulos nos Proceedings da SPR inglesa, na qual
restou demonstrado que aquilo que Piper (em virtude de sua formação espiritualista)
tomava como tendo origem espiritual podia ser explicado (e, em minha opinião, foi
magistralmente evidenciado) por uma capacidade telepática extremamente rara que
permitia à Piper obter informação em qualquer parte do mundo, contanto que
houvesse alguém vivo que um dia a tivesse sabido. Recorde-se que esse
extraordinário feito científico obtido no fim do séc. XIX é a base empírica do famoso
conceito de inconsciente coletivo, proposto por Carl Jung7.
Os pioneiros consideraram a possibilidade de que surgisse, ao longo da
pesquisa psíquica, um resíduo de ocorrências não explicável na perspectiva monista,
o que lógica e metodologicamente lhes parecia o bastante para uma reconsideração da
visão de mundo materialista. Creio que o momento de admitir a ruptura
revolucionária chegou, pois o resultado foi satisfatoriamente alcançado.
Historicamente, um dos fenômenos privilegiados na produção da evidência dualista é
a EQM, particularmente aquele núcleo que a aplicação do materialismo metodológico
permite considerar uma corroboração da filosofia dualista, a saber, o conhecimento
correto obtido por um sujeito inconsciente, morto ou quase, de coisas distantes,
ocorrências ao seu redor etc. Há uma grande quantidade de pesquisa nessa linha;
pude observar no youtube o ótimo trabalho de vários pesquisadores brasileiros, que
entrevistaram uma enorme quantidade de pessoas que vivenciaram EQMs e
forneceram relatos muito úteis para esse esforço de levantamento factual.
Recentemente, colaborei na tradução para o português (a partir do inglês e do
espanhol) do livro O Eu Não Morre, de Titus Rivas et al, inicialmente publicado nos
Países Baixos, em 2016 (ainda não publicado no Brasil). Segundo os autores:

6 Pesquisador extraordinário e pouco conhecido, o homem de campo de William James no caso Piper. Foi o
responsável entre tantos sucessos por expor as fraudes de Helena Blavatsky e Eusapia Palladino. Investigou
também a EQM (na época, um fenômeno menos conhecido) vivida pelo médico A. S. Wiltse, de Kansas, em
um episódio de febre tifoide. Wiltse narrou ter emergido da cabeça, saído do corpo, levantado e caminhado
pela casa e para fora dela enquanto observava pessoas cuidando do seu “corpo morto”. Ver Proceedings SPR,
vol. VIII, pp. 180-193. Antes do fim do séc. XIX, Hodgson admitiu a sobrevivência (assim como James, que
o fez publicamente na continuidade do discurso citado na nota 2), na segunda fase de suas pesquisas com
Piper; contudo, temendo perder prestígio, tornou-se recluso e permaneceu discreto. Parcialmente extraído de
https://psi-encyclopedia.spr.ac.uk/articles/richard-hodgson#Conversion_to_Belief_ in_Survival .
7 E também do personagem Professor Xavier, do filme X-Men, em que uma dramatização dessa faculdade

pode ser vista e compreendida.


2
“Muitas histórias têm sido relatadas sobre EQMs em que pacientes tiveram
a sensação de deixar o corpo e perceberem o mundo material de um lugar
distante dele. Na perspectiva da parapsicologia (ou pesquisa psíquica) essa é
provavelmente a principal característica que faz com que as EQMs chamem
a atenção do público como um fenômeno com possíveis aspectos
paranormais: impressões específicas do mundo material durante a EQM a
partir de um local exterior ao corpo físico. Durante a fase fora do corpo
(EFC) da EQM, o paciente percebe geralmente seu próprio corpo e o que
está acontecendo em torno dele (e, às vezes, coisas que estão longe de seu
ambiente físico) aparentemente sem usar os sentidos, o que cabe
perfeitamente na definição de percepção extrassensorial. Então, se aquilo
que o paciente viu e ouviu durante essa fase da EFC corresponder
exatamente aos fatos verificáveis, as percepções são vistas como exatas ou
verdadeiras” (p. 15).

Na qualidade de cotradutor, e particularmente também de alguém habituado


desde a adolescência à leitura de livros espiritualistas, espíritas 8 e parapsicológicos,
devo observar que os casos citados no livro não têm o mesmo peso. Há alguns que
não deviam de modo algum figurar em uma obra dessa envergadura. Por outro lado,
há casos extremamente fortes, pesquisados, constatados ou vividos por membros
respeitáveis e responsáveis das comunidades científica e acadêmica. Cito apenas dois,
que mostram a importância da evidência já obtida:
“Helen (pseudônimo) sofreu um acidente de carro muito grave. Quebrou os
dois tornozelos e tirá-la de seu carro foi um processo longo e difícil. Estava
inconsciente quando tentaram retirá-la do veículo, e só recuperou a
consciência após o acidente. Independentemente disto, tinha memórias
claras e vivas de como havia saído do carro em uma espécie de pânico logo
após a colisão, para avaliar os danos e ver se todos tinham saído ilesos.
Helen contou sua experiência à Laurin Bellg, que cuidou pessoalmente do
seu tratamento. A médica Bellg escreveu o seguinte sobre a EQM de Helen:
'ela sabia quantos veículos estavam envolvidos, quatro, e sabia que um deles
era uma van cinza de entrega de flores com adesivos de publicidade da
empresa na lateral, com um escrito azul sobreposto em um buquê de rosas
vermelhas. Foi exatamente assim. E era algo que realmente não deveria
saber, porque estava inconsciente naquele momento. Ela contou ter andado
em direção a um sedam verde-escuro de quatro portas, que foi esmagado
contra seu capô em um ângulo agudo, onde a atingiu pelo lado esquerdo
depois de atravessar um sinal fechado. Também descreveu um homem de
cabelos escuros com uma barba caído sobre o volante, gemendo. Detalhou
corretamente que o impacto dos dois veículos, o dela e do homem barbudo,
tinha sido o catalisador inicial que criou uma pilha quando a van de entrega
atrás dela e o suburban branco atrás da van não puderam frear a tempo. Ela
notou a van batendo atrás dela, fazendo com que seu carro ficasse
espremido, como um acordeão, entre o veículo verde e a van. Isto a deixou
presa e incapaz de se mover, digo, fisicamente. O suburban branco
simplesmente colidiu atrás da van de entrega atrás de Helen, e a motorista
não parecia estar mal. Helen observou que era a condutora do veículo que
ela ouviu fazer a chamada em seu celular para os serviços de emergência,
tão claramente como se estivesse bem ao lado dela. Isto também estava
8Não desconheço as inumeráveis fraudes ocorridas nesses campos, nem o desejo de sua máquina editorial de
auferir lucro vendendo livros fideístas aos seus adeptos, o que os torna bitolados e infensos à ciência.
3
correto. A motorista do menos danificado suburban branco fez a primeira
chamada pedindo ajuda. De acordo com o relatório oficial, Helen não
respondia aos estímulos e estava presa em seu carro. No entanto, sua
consciência parece ter percorrido a cena e se lembrava exatamente de um
ponto de vista, não só fora de seu veículo, mas também fora do próprio
corpo físico, que todavia jazia preso no carro. Ela sabia que o motorista da
van de entrega estava relativamente ileso, mas não conseguia abrir a porta,
inutilizada pelo impacto. Ela também sabia que, depois de ligar para o 911,
a motorista do suburban branco correu freneticamente de um veículo a outro
para ver o dano. Ela a viu enfiar a mão no sedam verde, passando o braço
por debaixo do motorista ferido para desligar o motor que já tinha começado
a gerar fumaça por baixo do capô amassado. Ouvindo-o gemer, ela se
inclinou para confortá-lo, acariciando as costas com um gesto reconfortante.
Helen a ouviu dizer que ele ficaria bem e que a ajuda já estava a caminho.
Ela também viu a mulher no assento do passageiro ao lado do homem
barbudo, chorando, dolorida. Vendo que a dona do suburban branco estava
focada no motorista, Helen se aproximou do assento seguinte e tentou
oferecer conforto e apoio através da janela quebrada para a mulher que
chorava, mas ela não respondia. Nem parecia vê-la. Helen presumiu que era
porque tinha muita dor. Considerou compreensível que, nesse estado, a
mulher não lhe respondesse e nem sequer a observasse. Foi quando ouviu as
sirenes dos carros da polícia e as ambulâncias se aproximando. Ela tomou
isto como um sinal para voltar ao seu próprio veículo, para que todos
pudessem ser devidamente cuidados. Caminhando de volta para o seu
próprio carro, descobriu de repente algo que a fez engolir em seco: ela viu
uma mulher, aparentemente inconsciente, no assento do motorista de seu
carro, e percebeu que a mulher era ela. E, ao mesmo tempo, ela estava de pé
fora de seu próprio carro, olhando para o que parecia ser o seu corpo preso
no banco do motorista de um veículo destruído. Demorou um pouco para
assimilar o fato de que estava olhando para o seu próprio corpo e, ao mesmo
tempo, de algum modo, claramente separada dele. Quando o fez, percebeu a
triste realidade que, se ela estava fora de seu corpo, olhando para si mesma
presa naquele monte de metal destruído, então devia ter morrido. Era a única
coisa que fazia sentido. O relatório oficial da polícia indicou que Helen
estava fortemente presa aos destroços de seu carro e que demorou quase
trinta minutos para ser retirada. Na época, eles não sabiam bem que fraturas
ela tinha, mas imediatamente, ao verem os ângulos estranhos de seus
tornozelos, entenderam a gravidade de seus ferimentos e foi isto o
comunicado ao hospital antes de sua chegada. Então, ela não estava apenas
presa nos destroços do carro, mas seus dois tornozelos estavam claramente
quebrados, e a equipe de resgate, pessoas experientes, observaram que ela
esteve inconsciente o tempo todo. Não há nenhum modo físico pelo qual ela
poderia ter saído do seu veículo, muito menos andar e relatar com tanta
precisão o que descreveu mais tarde. […] Ela nos deu detalhes que não
poderia ter sabido a menos que estivesse acordada e andando, e observando
os ângulos específicos que descreveu, especialmente quando viu seu próprio
corpo no assento do motorista do seu carro'” (p. 51).

“A médica de cuidados intensivos Laurin Bellg, de Appleton, Wisconsin,


esteve à frente da equipe que tratou um alcoólico crônico que teve uma
parada cardíaca, um paciente chamado Howard, segundo seu recente livro
Quase-Morte na UTI, de 2015 … o paciente … precisava ser desfibrilado.
Após quatro tentativas, ele mostrou um ritmo normal do coração outra vez,
mesmo que ainda não tivesse nenhum pulso. Dois dias antes, parte do seu
4
intestino teve de ser removido aparentemente porque, devido ao seu
alcoolismo, os vasos sanguíneos não funcionavam, estando obstruídos. A
operação tinha corrido bem, mas ele logo começou a ter sintomas de
abstinência. Após a reanimação, foi colocado em ventilação mecânica e
precisou de cinco dias para se recuperar o suficiente para respirar sem ajuda.
Enquanto conectado ao respirador e, portanto, incapaz de falar, tentou
transmitir algo sobre uma EQM, mas só pôde soletrar as palavras 'camisa
verde', apontando para as letras em um tabuleiro e para a médica Bellg.
Naquele momento, ela vestia uma camisa verde, mas não entendia por que
este fato era significativo. Quando o paciente já estava livre da ventilação
artificial e foi capaz de falar, descreveu aqueles que haviam auxiliado em
sua reanimação, o que vestiam e o que disseram. Os fatos que percebeu, sem
dúvida, ocorreram quando deveria estar inconsciente. Bellg ficou
particularmente impressionada com os detalhes de sua observação visual,
feita de um ponto acima. Foi uma descrição detalhada de sua reanimação
desde o primeiro momento. No início da EQM, Howard se sentiu 'disparado'
para fora de sua cabeça9: “senti como se estivesse subindo pelo telhado e
passando pela estrutura do prédio. Pude sentir as diferentes densidades ao
atravessar o isolamento. Vi a fiação, alguns canos e, então, estava em outro
quarto. Parecia um hospital, mas era diferente. ... Era muito calmo e parecia
que não havia ninguém lá. Havia quartos individuais em volta do centro e
em algumas das camas estavam pessoas, exceto que não eram pessoas
exatamente. Pareciam manequins e tinham fios intravenosos conectados,
mas não pareciam reais. No centro, havia uma área aberta que parecia várias
estações de trabalho com computadores”. A médica Bellg escreveu: “foi
quando meu queixo realmente caiu. Olhei para a enfermeira, que estava
igualmente surpresa. O que sabíamos, e Howard não, é que logo acima da
UTI fica um centro de treinamento para enfermeiras onde novos
funcionários contratados passam alguns dias circulando em diferentes
cenários. Há salas de hospital simuladas em torno do perímetro com
manequins médicos em algumas das camas. No centro, na verdade, há
vários espaços de trabalho com computadores. Fiquei surpresa, mas eu
queria ouvir mais”. Então, Howard também disse corretamente o que Bellg
havia dito durante a desfibrilação. Howard olhou principalmente para a
camisa verde limão que ela tinha usado naquele dia. Bellg usava a mesma
camisa no dia em que Howard tentou comunicar sua EQM pelo tabuleiro de
letras. A pedido de Rudolf Smit, Bellg lhe enviou um e-mail, datado de
22/08/2016, com mais detalhes sobre esse aspecto da EQM. Nele, ela
escreveu: “para seu arquivo: esse centro de aprendizado é restrito e só pode
ser adentrado por portas automáticas, que são ativadas por um leitor de
cartão, desde que seu cartão identificador contenha a chave necessária. Por
segurança, cada cartão identificador é programado especificamente para
cada pessoa e seu trabalho. Por exemplo, meu cartão não me permite entrar
em uma sala de operação porque não sou uma cirurgiã e não tenho nenhuma
razão para estar lá. Em casos (raros) onde sou chamada à sala de cirurgia
para uma broncoscopia, um assistente cirúrgico me recebe na porta, dá-me
roupas protetoras e eu levo meu carrinho de broncoscopia à cabeça do
paciente, a parte não esterilizada. Howard nunca esteve em nosso hospital
antes do tratamento, mas mesmo que houvesse estado, os pacientes não têm
credenciais de cartão de acesso. Assim, não teria podido entrar no centro de
aprendizado” (p. 97).

9 Ver a nota 6.
5
As descobertas científicas atuais talvez possam lançar luz sobre
acontecimentos passados, narrados em uma literatura negligenciada pela ciência e
pelos acadêmicos por boas e más razões, mas que pode ser parcialmente instrutiva 10,
se tratada com redobrado cuidado11. Observe-se que a descrição seguinte de uma
“intervenção espiritual” em uma cirurgia odontológica difícil (ocorrida em
11/08/1925) possui similaridades com a intervenção descrita por Woollacott e Peyton
no artigo abaixo. Essa citação foi extraída de Minha Vida em Dois Mundos, de 1931
(cap. 17, pp. 54-57), cuja autora é a médium inglesa Gladys Leonard:
“Nos últimos anos, em vários momentos diferentes da minha vida, fui
'materialmente' ajudada pelos guias e amigos desencarnados de um jeito que
me impressionou profundamente na época e desde então. No verão de 1925,
comecei a me sentir menos forte e bem do que o habitual. Sofria de extrema
fraqueza e fadiga. … Comecei a padecer do que parecia ser nevralgia aguda
no rosto e na cabeça, que foi piorando. A dor se tornou terrível, minha
temperatura aumentou e fiquei muito febril, banhada de suor durante a noite.
Nunca tivera esses sintomas antes, e fiquei perplexa ao tentar entendê-los ou
saber o que fazer … lembrei-me da experiência terrível que tive depois da
extração [de dentes] alguns anos antes; de como ficara doente e atrasara meu
trabalho. Claro, percebi que somente meus dentes foram retirados naquela
ocasião e que o restante tinha apenas quebrado nas gengivas e,
provavelmente, estava causando problemas … O pensamento de me arriscar
a outra experiência horrível (tal como me acontecera depois da última
cirurgia dentária) foi aterrador. … Certa noite, muito repentinamente,
quando sentada em silêncio sozinha, senti que devia me decidir a consultar
um bom cirurgião-dentista de uma vez e ter meus dentes quebrados
removidos ... Dezenove dentes extraídos de uma vez parecia uma tarefa
difícil. Vários amigos me avisaram que era demais, que seria um choque
terrível para o sistema e assim por diante … [no dia da operação], olhei em
direção à lareira e, ali, para minha surpresa e alívio, vi os médicos que
haviam desencarnado e que [em preces] eu havia pedido para me ajudarem,
um era irmão da Srta. Macgregor e outro um amigo que havia desencarnado
no verão anterior. Estavam sentados nas cadeiras, um de cada lado da
lareira, calmamente conversando algo em voz bem baixa; assim, não pude
ouvir o que diziam. Então, um deles olhou para mim e disse ao outro: “oh,
ela ficará bem”, e eu sabia que se referiam a mim. Saber que estavam lá me
ajudou muito. Não fiquei nervosa mesmo ao ouvir tocar a campainha que
anunciava a chegada do dentista e do médico. … Deitei-me no sofá e o
médico começou a ministrar o anestésico. Fiz o que ele disse, respirei
suavemente, mas toda a inalação não surtiu efeito. Ele continuou dizendo:
“você ainda consegue me ouvir?” E continuei respondendo: “sim; consigo;
infelizmente; desejaria não conseguir”, até que realmente comecei a pensar
que nunca iria “afundar”. Então, assim que senti vontade de dizer: “pelo
amor de Deus, desista disto; não é bom, não consigo ficar inconsciente”,
ouvi a voz de um homem saindo de meus próprios lábios, e eu sabia que
estava sendo controlada por alguma forte influência desencarnada. … Creio
ter sido uma operação muito peculiar e penosa para o dentista e seu amigo,
porque, durante a operação, eles foram literalmente intimados a fazer isso e
aquilo; em dado momento, quando eu recobrava a consciência antes das
10 Uma literatura talvez útil como parte de um método, ao sugerir que partes dos relatos obtidos em EQMs e
afins pela comunidade científica podem ser válidos de um ponto de vista heurístico.
11 Ver a nota 4.

6
extrações terminarem, meus amigos espirituais gritaram: “dê-lhe um pouco
mais”. O médico olhou interrogativamente para a Sra. Passy [a enfermeira,
amiga da Sra. Leonard], que sabia o que se passava, que eu estava sendo
“controlada”, e ela se sentiu inspirada a dizer: “doutor, por favor, dê-lhe um
pouco mais; agora”. “Bem”, disse o médico, “ela já recebeu o suficiente
para três pessoas, mas aqui vai”; então, recebi mais um pouco … Assim que
terminaram as extrações, o dentista saiu do quarto com o médico. Ele sabia
que me deixava em boas mãos, pois pôde ver o quão competente era a Sra.
Passy; não obstante, disse à enfermeira que provavelmente eu dormiria por
algum tempo. Assim que os dois homens deixaram o quarto, o marido da
Sra. Passy (que fora morto no início da guerra e que muitas vezes se
aproximava dela) me controlou e falou à sua esposa de modo claro e
evidencial por cerca de dez minutos. Ela ficou surpresa. Como comentou
mais tarde, certamente não esperava que uma sessãozinha fosse improvisada
durante uma operação odontológica! Quando o major Passy parou de falar,
imediatamente acordei, tão revigorada e “inteira” como se tivesse acabado
de acordar de uma noite comum de sono revigorante. Pulei do sofá para
dentro da minha própria cama como se nada tivesse acontecido, e a Sra.
Passy me falou de algumas coisas que haviam sido ditas através de mim ao
médico e ao dentista, parte das quais eu tinha consciência, embora não
tivesse sentido nenhuma dor. Nós gritamos de tanto rir a respeito de algumas
das observações feitas, pois sabíamos que nenhum deles entendera o que
tudo aquilo significava, exceto que eu era uma paciente muito peculiar. A
Sra. Passy me disse que a operação e manuseio do dentista lhe pareceu
surpreendente, pois as gengivas haviam crescido sobre algumas raízes,
escondendo-as inteiramente, e ele não as conseguiu ver, mas parece ter
encontrado os dentes instintivamente, suave e silenciosamente retirando
cada um, aparentemente sem nenhum esforço. Sua opinião era que ele
estava sendo guiado por alguém que podia ver as raízes escondidas, mas
meu amigo dentista, que se orgulha de ser um materialista robusto,
sustentou que estava simplesmente sendo um pouco mais brilhante do que o
habitual! Não discuti com ele, pois a Sra. Passy e eu temos nossas próprias
ideias sobre o assunto”.

Outro caso muito interessante que consta em uma literatura hoje quase
completamente esquecida, desconsiderada e desacreditada vem de Richard Baxter,
aparentemente um inquisidor, publicado no fim do séc. XVII. Trata-se da pesquisa do
ministro puritano Thomas Tilson, comunicada por carta a Baxter, que envolve uma
mulher chamada Mary Goffe no final do séc. XVII. Rivas et al informam12 que o
caso foi republicado em 1886, no livro Fantasmas dos Vivos, de Edwin Gurney,
Frederic Myers e Frank Podmore e que, em 1926, voltou a aparecer no livro Visões
do Leito de Morte, de William Barrett. Não significaria uma curiosa reviravolta
considerar que a descoberta científica que se toma por contemporânea já havia sido
feita e publicada há muito, e que aquilo que a impediu de permanecer aceita foi uma
ocorrência exterior à ciência (social e política, a divisão de uma comunidade até
então unida em duas filosoficamente concorrentes) que incidiu sobre sua atividade
interna? Eis o que Tilson escreveu13:
12Rivas et al; O Eu Não Morre. 2016, pp. 130-131.
13Baxter, R.; A certeza do mundo dos espíritos plenamente evidenciada por histórias inquestionáveis de
aparições e bruxarias, operações, vozes etc. provando a imortalidade das almas, a malícia e as misérias dos
7
Mary, esposa de John Goffe de Rochester, afligida por uma longa doença,
foi removida para a casa do seu pai em West Mulling, a cerca de 9 milhas de
distância da sua: lá, morreu em 04/06 deste ano de 1691. Na véspera de sua
morte, ela desejou com crescente impaciência ver seus dois filhos, que havia
deixado em casa aos cuidados de uma babá. Ela implorou ao marido que
alugasse um cavalo, pois devia ir para casa para morrer com as crianças.
Quando argumentaram contrariamente, dizendo-lhe que não suportaria ser
tirada da cama, nem se sentar no dorso do cavalo, ela os instou, porém, a
tentar: se não puder me sentar, disse ela, irei deitada no cavalo por todo o
percurso, pois devo ir ver meus pobres bebês. Um ministro que mora na
cidade estava com ela às 10h daquela noite, e ela lhe expressou boas
esperanças na misericórdia de Deus e a vontade de morrer: Mas, disse ela,
lamento não poder ver meus filhos. Entre uma e duas da manhã, ela entrou
em transe. A viúva Turner, que cuidou dela naquela noite, diz que seus olhos
estavam abertos e fixos, e sua mandíbula caída: ela colocou a mão sobre a
boca e as narinas, mas não sentiu a respiração; pensou se tratar de um ataque
e ignorava se estava viva ou morta. No dia seguinte, a moribunda disse à
mãe que tinha estado em casa com seus filhos. Isto é impossível, disse a
mãe, pois você esteve aqui na cama o tempo todo. Sim, respondeu a outra,
mas eu estive com eles noite passada enquanto dormia. A babá em
Rochester, chamada de viúva Alexander, afirma (e diz que fará seu
juramento perante um magistrado e receberá o sacramento sobre ele) que,
um pouco antes das duas daquela manhã, viu a imagem da dita Mary Goffe
que saiu do quarto próximo (onde a criança mais velha repousava em uma
cama, sozinha e com a porta aberta) e permaneceu ao lado de sua cama por
cerca de um quarto de hora; a criança mais jovem estava ali deitada ao seu
lado; os olhos dela se moveram e sua boca abriu, mas ela não disse nada.
Além disso, a babá diz que estava perfeitamente acordada; já havia luz do
dia, sendo um dos dias mais longos do ano. Ela se acomodou na cama e
olhou fixamente para a aparição: naquele instante, ouviu o relógio da ponte
bater duas vezes e, um instante depois, disse: em nome do Pai, do Filho e do
Espírito Santo - o que você é? A aparição se moveu de novo e foi embora;
ela vestiu suas roupas e a seguiu, mas não sabe dizer o que aconteceu. Então
(e não antes), ela começou a ficar extremamente apavorada, saiu pelas
portas e foi caminhar no cais (a casa fica bem ao lado do rio) por algumas
horas, apenas entrando de vez em quando para olhar as crianças. Às 5h, ela
foi à casa de um vizinho e bateu na porta, mas eles não se levantaram: às 6h
foi de novo, e eles se levantaram e a deixaram entrar. Ela lhes relatou tudo o
que havia acontecido: eles tentaram persuadi-la de que estava errada, ou
sonhado: mas ela afirmou com segurança: se alguma vez eu a vi em toda a
minha vida, eu a vi esta noite. Uma daqueles com quem teve contato (Mary,
a esposa de John Sweet) recebeu um mensageiro vindo de Mulling naquela
manhã para informá-la de que sua vizinha Goffe estava morrendo e desejava
falar com ela; ela foi no mesmo dia e a encontrou morrendo. A mãe, no meio
da conversa, disse-lhe o quanto sua filha havia desejado ver os filhos, e
disse tê-los visto. Isto recordou a Sra. Sweet o que a babá lhe dissera
naquela manhã, pois até então ela não havia pensado em mencionar o tema,
mas ao invés o ignorado como [fruto da] imaginação perturbada daquela
mulher. A substância disto me foi relatada por John Carpenter, o pai da
falecida, no dia seguinte ao seu enterro: em 02/07, conversei longamente

demônios e condenados. E da bem-aventurança do justificado. Totalmente evidenciado pelas histórias


inquestionáveis de aparições, operações, bruxarias, vozes etc. Escrito como um complemento a muitos outros
tratados para a condenação dos saduceus e infiéis. 1691, cap. VII, pp. 147-151.
8
sobre o assunto com a babá e dois vizinhos, para cuja casa ela foi aquela
manhã. Dois dias depois, conversei com a mãe, o ministro que ficou com ela
à noite e a mulher que cuidou dela naquela última noite: todos concordam
com a mesma história, e cada um ajuda a fortalecer os outros testemunhos”.

Seria uma pena que a evidência cada vez mais robusta de que algo de nós
sobrevive à morte física se apresente como uma ciência do fim do mundo, obtida
próxima ao armagedon causado pelo iminente colapso interno do sistema capitalista e
também por sua relação com a ecologia. Assim, seria apenas algo como um consolo
para os viajantes. Todavia, ela tem também o potencial de auxiliar em um esforço in
extremis para afastar a tragédia que se prenuncia: é possível para todos aqueles que
atuam racionalmente nas comunidades rivais14 reduzir o contencioso existente, o que
politicamente poderá ter efeitos vantajosos no esclarecimento quanto ao momento
vivido e no entendimento necessário das partes rumo a uma tentativa de resolvê-lo.
Nada será feito sem o conhecimento: portanto, a ciência inspirará qualquer plano para
a solução do problema. Muito dificilmente algo será realizado sem o auxílio político
das lideranças religiosas e de suas comunidades extremamente numerosas. A redução
nas disputas e a busca por uma solução muito provavelmente passa por um
entendimento de alto nível entre as partes – sem o qual, o mundo tal como
conhecemos não perdurará muito15.

14 Sem que o conhecimento em nada abdique de seu espírito crítico e cuidado no trato da evidência oferecida
pela natureza.
15 Quem me conhece sabe que sempre fui social-democrata (que concebo como contemporizar enquanto o

problema moderno não se aclara), marcadamente de tendência trabalhista. Todavia, a urgência presente me
faz pensar que uma das soluções possíveis (como uma carta a ser colocada na mesa, entre outras que forem
propostas, para que os militantes políticos possam escolher um programa a ser utilizado em breve) consiste
em fazer dos meios de produção uma propriedade pública (em uma concepção estrita, e não ampla, tal como
a que hoje considera propriedade estatal até a barbearia da esquina). Não me parece que a estatização dos
meios de produção, sob o controle de um partido único, seja de modo algum desejável. Muita água correu
entre o manifesto, as primeiras tentativas socialistas e hoje, e muito foi obtido e se aprendeu com a sociedade
democrática. Existe uma forte inclinação para o totalitarismo no horizonte, aproximando-se tanto por
influência do sistema Chinês quanto pela degeneração em curso no sistema dos EUA. A afirmação de temas
como imprensa livre, liberdade partidária e sindical, eleições, sorteio, separação entre público e privado,
direitos humanos etc. é fundamental, assim como a negação daquilo que há de autoritário na tradição
mudancista. Tal como controla a moeda, um banco central independente pode controlar a produção,
doravante muito menos exuberante do que no capitalismo, planejada, mas ainda industrial. A desaceleração
obtida deve gerar um período de tempo para que a humanidade encontre um caminho racional e praticável; a
renda mínima passa a ser possível (e não mais inflacionária), visto que, uma vez gasto, o dinheiro lançado na
economia tende a ser recolhido pelo BC, após sua utilização. Controle da natalidade e um número mágico de,
talvez, quatro bilhões, pode ser a meta do Estado Mundo, o único que creio capaz de responder aos desafios
contemporâneos (por exemplo, o terrorismo, a corrupção, o estatuto de igualdade de todos os homens e sua
proximidade econômica etc.). Mas tudo isso passa por consciência e, em seguida, ação: para ambos os
momentos, um entendimento amplo se faz desejável, e muito provavelmente necessário.
9
EXPLORE
2020, 1-7

Relato verificado de EQM em uma médica


que sobreviveu a uma parada cardíaca16

Marjorie Woollacott17
Bettina Peyton18

RESUMO

A pesquisa que explora a natureza das experiências de quase-morte (EQMs) é extensa. Existem
vários mecanismos hipotéticos propostos para explicar a origem dessas experiências, mormente
alucinações devidas a alterações fisiológicas em um cérebro moribundo. Todavia, há evidência
crescente de que tais teorias não podem explicar algumas características das EQMs. Neste artigo,
apresentamos um estudo de caso detalhado e extensamente verificado de uma médica, Bettina
Peyton, que vivenciou uma EQM durante o nascimento de sua filha 19, quando tinha 32 anos de
idade. Os dados fornecem evidência adicional para as hipóteses de que: 1) durante EQMs, os
sujeitos têm experiências perceptivas sensoriais que não são possíveis segundo a estrutura
materialista, na qual a consciência é produzida exclusivamente pela atividade dos neurônios
cerebrais, e de que 2) EQMs conduzem a uma mudança fundamental na compreensão da natureza
da consciência e do lugar do sagrado em suas vidas.
Palavras-chave: EQM; Consciência; Parada Cardíaca; Meditação; Transformação.

Introdução

A literatura da pesquisa que explora a natureza das EQMs é agora extensa (para
uma revisão, ver 12). EQMs ocorrem em várias situações, incluindo (mas não se
limitando a) paradas cardíacas, coma, tentativas de suicídio, quase afogamento e
também em circunstâncias sérias (mas sem risco de vida) tais como acidentes
automobilísticos e outros incidentes físicos traumáticos (11). Existem vários
mecanismos propostos para explicar a origem dessas experiências, incluindo
alterações fisiológicas no cérebro, tais como níveis baixos de oxigênio ou liberação
excessiva de transmissores ocorrendo em um cérebro moribundo (7, 11, 12). Todavia,
há um corpo crescente de literatura que oferece evidência de que estas teorias não
podem explicar algumas características das EQMs, incluindo percepção visual e
auditiva verificada de eventos que ocorrem ao redor do paciente que não deveria ser
fisiologicamente possível durante, por exemplo, uma parada cardíaca sem nenhuma
atividade no córtex cerebral, verificada pelos registros de um eletroencefalograma
plano (5, 11, 13).
Embora alguns estudos prospectivos sobre EQMs durante paradas cardíacas
tenham sido realizados (com destaque para 5, 9, 11, 14, 16), o número de casos
16 Tradução e notas de Marcio Rodrigues Horta, doutor em filosofia pela USP e funcionário de carreira do
TRE/SP. Revisão da tradução de Vitor Moura Visoni, parapsicólogo carioca. Finalizado em 21/08/20.
17 Universidade de Oregon, Instituto de Neurociência, Departamento de Fisiologia Humana. Eugene, OR

97403, EUA. Para se corresponder com esta coautora, escreva para 25 Siesta Lane, Sedona, AZ 96351, EUA
ou mande um e-mail para [email protected] .
18 Medicina Paliativa e Manicomial (aposentada), New Hampshire, EUA.
19 Sua terceira criança e seu segundo parto (NT).

10
relatados nesses estudos (nos quais existem percepções sensoriais verificadas quando
o cérebro e o coração não estão funcionando) é baixo. Outros pesquisadores (com
destaque para 15) coletaram mais de cem casos de experiências sensoriais verificadas
durante EQMs relacionadas a paradas cardíacas e outras causas. Apesar desses dados
acumulados sobre experiências sensoriais ocorridas durante EQMs, esta área de
pesquisa ainda não é aceita como válida pela maioria dos neurocientistas e médicos,
que aderem a uma estrutura materialista (12).
Uma segunda característica observada em muitas EQMs é uma transformação
na perspectiva de vida do sujeito quanto à natureza da consciência e se esta sobrevive
à morte do corpo (6, 8, 16). Esta mudança de perspectiva está tipicamente embutida
dentro de uma transformação espiritual mais ampla, isto é, em uma mudança
fundamental no lugar do sagrado em suas vidas, o que também conduz a uma
reorganização radical da identidade, significado e propósito na vida (6). Greyson e
Khanna mostraram que pessoas que tiveram uma EQM pontuaram significativamente
mais alto na Escala de Transformação Espiritual (1) do que participantes de controle
(que também estiveram próximos à morte, mas não vivenciaram uma EQM). Esta é
uma característica importante da EQM, pois sugere que uma experiência que pode ter
durado apenas alguns minutos é capaz de transformar significativamente toda a vida
subsequente de um sujeito.
Neste artigo, apresentamos um estudo de caso detalhado e amplamente
verificado de uma médica, Bettina Peyton, que vivenciou uma EQM durante o
nascimento de sua filha, sua terceira criança. Apresentamo-lo como evidência
adicional para apoiar as hipóteses de que: 1) durante EQMs, os sujeitos têm
experiências perceptivas que não são possíveis segundo a estrutura materialista, na
qual a consciência é produzida exclusivamente pela atividade dos neurônios no
cérebro, e de que 2) em suas vidas, EQMs conduzem à mudanças fundamentais na
compreensão da natureza da consciência e no lugar do sagrado.

Métodos

O sujeito envolvido neste estudo de caso é Bettina Peyton, médica, a segunda


autora deste estudo. Marjorie Woollacott, coautora, conheceu Peyton em um evento
em Boston. Após saber do interesse de Woollacott em EQMs, Peyton compartilhou
sua própria vivência em EQM. Ao contar sua experiência, observou mudanças
transformadoras subsequentes em sua vida e carreira. Woollacott perguntou se Peyton
gostaria de gravar uma entrevista sobre sua EQM e mudanças de vida subsequentes.
Peyton também concordou em responder à Escala de EQM (3) e à Subscala de
Crescimento Espiritual da Escala de Transformação Espiritual (1).
Peyton é uma mulher caucasiana que tinha 58 anos na época da entrevista.
Recebeu seu diploma em medicina da Escola de Medicina Rutgers (agora conhecida
como Escola de Medicina Robert Wood Johnson) de New Jersey, e ali completou os
primeiros dois anos de sua residência em Medicina Interna. Ela e o marido, também
médico em treinamento, foram transferidos para o Hospital Beth Israel (agora
chamado de Diaconisa Beth Israel) em Boston, um hospital universitário de Harvard,
onde ela completou seu terceiro ano de residência, terminada em 1986. Após uma
licença-maternidade (na qual deu à luz dois meninos gêmeos), trabalhou no Centro
11
Médico de Tufs, New England, como interna de 1987 a 1989. Foi durante o
nascimento de sua filha, em 24/03/1988, que vivenciou uma EQM. Em agosto do ano
seguinte, Peyton começou a praticar meditação e também se afastou da prática
médica para cuidar de suas crianças, período em que ela e o marido se mudaram para
New Hampshire. Lá, em 1992, na especialidade de Medicina Paliativa e Manicomial,
voltou à prática da medicina até se aposentar em 2010.
Os instrumentos utilizados neste estudo incluíram a Escala de EQM (3, 4) e a
Escala de Transformação Espiritual (1). A Escala de EQM é um questionário de 16
itens desenvolvido para medir componentes cognitivos, afetivos, paranormais,
emocionais e transcendentais de uma EQM. Todos os itens se relacionam a um
aspecto diferente da EQM e são pontuados pelo sujeito como segue: 0 = ausência, 1 =
presença e 2 = forte presença do componente. Uma pontuação de 7 em um máximo
possível de 32 sugere que o sujeito vivenciou uma EQM. Greyson e colegas
mostraram que este instrumento é confiável e válido, e confirmaram as propriedades
psicométricas da escala utilizando o modelo de escala de avaliação de Rasch (3, 10).
A Subescala de Crescimento Espiritual da Escala de Transformação Espiritual
(ETE) é um questionário de 29 itens que utiliza questões do tipo Likert, tais como “a
espiritualidade se tornou mais importante para mim” e “vi minha própria vida como
sagrada com mais frequência” (1). Tem alta consistência interna e confiabilidade teste
& reteste. Em um estudo prévio que utilizou esta escala para testar a transformação
espiritual em vivenciadores de EQMs vs. controles, Greyson e Khanna descobriram
que a pontuação da subescala foi de 29 até 203, com uma média de 153,6 (desvio
padrão ± 41,2) para os vivenciadores de EQMs vs. uma média de 95,9 (dp ± 55,2)
para os participantes de controle.
Para a entrevista, em 23/01/2014, Peyton e Woollacott se conectaram ao Skype
e Woollacott fez uma gravação de áudio da entrevista. Esta foi complementada e
editada com notas prévias que Peyton registrou durante os anos seguintes à sua EQM.

Resultados

As respostas e pontuações de Peyton na Escala de EQM são apresentadas na


Tabela 1. Para a Escala de EQM, sua pontuação foi de 23 em 32 possíveis (uma
pontuação de 7 ou superior sugere que o sujeito vivenciou uma EQM). Esta é uma
pontuação substancialmente mais alta do que a média de 230 pessoas que
vivenciaram EQMs (15,1 ± 6,7) em um estudo prévio de Greyson e Khanna (6).
Segue a narrativa de Peyton sobre sua experiência. As circunstâncias de sua
vivência de uma EQM são resumidas, seguidas de uma narrativa (principalmente com
suas próprias palavras) dos conteúdos de sua experiência e mudanças subsequentes
em sua vida e carreira.
A EQM ocorreu em 03/1988, quando Peyton tinha 32 anos. Ela praticava
medicina há dois anos quando teve a EQM. Trabalhava no Centro Médico de Tufs,
New England, em medicina interna em geral.
Peyton não tinha familiaridade com EQMs; não tinha ouvido falar de EQMs.
Diz que, na época, sentia que a morte era o fim da existência. Ela afirma ter sido
inculcada na cultura científica – uma materialista estridente.

12
A Narrativa de Peyton

Fazia pouco mais de um ano desde que meu obstetra cuidara da minha primeira
gravidez, entregando-me meninos gêmeos saudáveis. Minha segunda gravidez seria mais
complicada. Um ultrassom revelou que a placenta estava obstruindo o canal de parto e
estaria em risco de sangrar assim que o útero alargasse.
O sangramento começou no sétimo mês de gravidez. Fui internada no mesmo
hospital onde concluíra meu treinamento dois anos antes. O plano era retirar o bebê assim
que seus pulmões estivessem maduros o bastante para respirarem por si mesmos, sem um
respirador. Meu marido, também médico no mesmo hospital, vinha à minha cama todas as
noites com nossos meninos gêmeos de um ano para um conto de ninar e um beijo de boa-
noite.
Eu estou ciente de que essa cirurgia é um procedimento de alto risco. Como a
placenta se estendeu pela frente do útero, meu obstetra terá de fazer a incisão diretamente
através dela, cortando o que é essencialmente uma massa esponjosa com líquidos perigosos.
Espera-se uma quantidade substancial de perda de sangue. Então, como preparação, passei a
doar meu próprio sangue, a ser transfundido de volta se preciso for. Toda semana, uma
unidade de meu próprio sangue tem sido coletada e armazenada no banco de sangue. Meu
anestesista recomendou o uso de anestesia geral, pois complicações inesperadas podem
surgir durante a cirurgia.
Finalmente, um mês depois, os pulmões do bebê estão prontos, e agora estou deitada
na mesa da sala de operações sendo preparada para a cirurgia. Várias bolsas do meu próprio
sangue estão prontas e suspensas na haste acima do meu ombro direito. Enquanto a
enfermeira esfrega meu abdômen e fecha as cortinas cirúrgicas, tento agir com indiferença e
brinco com meu anestesista enquanto ele insere uma agulha grossa em cada braço. O fluxo
frio do anestésico penetra minha veia, e eu perco a consciência.
“A pressão sanguínea está muito baixa!” A voz alarmada do meu anestesista
repentinamente me acorda20 como se de um sono profundo. Subitamente, bem no meio da
operação, estou totalmente acordada. Como se, pelo toque em um botão, eu tivesse sido
despertada em uma consciência ampliada para coisas que nunca tinha vivenciado, como se a
maior parte do meu cérebro, dormente toda a minha vida, fosse de repente ligada. Que
maravilha que este estado superalerta esteja além do alcance das drogas que banham meu
cérebro! Estou verdadeiramente acordada pela primeira vez – durante uma anestesia geral!
É muito evidente que este eu consciente é o meu eu real!
Igualmente surpreendente é o quão calma eu estou – dadas as circunstâncias. Não
existe medo. Posso sentir sensações indolores do puxar no meu abdômen da cirurgia em
andamento. Posso ouvir o anestesista ansiosamente perguntar ao cirurgião sobre perda de
sangue. A resposta tensa do cirurgião é chocante: “o bebê se foi”, ele diz 21.
20 A primeira percepção de Peyton foi pela audição. Em alguns momentos de sua narrativa, ela deixa claro
que primeiro ouviu e, em seguida, viu. Intérpretes da EQM sustentam que os sujeitos reuniam condições de
ouvir durante os acontecimentos e, mentalmente, criaram uma visualização dos eventos. Esta parece-me ser a
última linha de defesa do materialismo contra a interpretação de que EQMs realmente desvelam a
sobrevivência. Em virtude disso, casos em que se constatou que o sujeito não podia ouvir durante os
acontecimentos porque estava morto (ou quase), com parada cardíaca, cérebro não oxigenado, tampões no
ouvido, sons altos de bipes (comuns em cirurgias nos EUA), EEG plano etc. são fortemente disputados,
passando da discussão teórica para alegações ad hominem ou pior. O caso de Pamela Reynolds tem sido o
epicentro de um confronto apaixonado, visto que, dentre outros, apresenta várias anomalias em uma
perspectiva monista (Rivas et al, O Eu Não Morre, p. 83 e outras). Todavia, em muitos casos, nota-se que
vários detalhes não podiam ser percebidos auditivamente. No caso em tela, por exemplo, a entrada em cena
de um “cirurgião veterano”, que mais tarde se apresentou à Peyton, é (entre outras coisas) relevante.
21 Uma fala relevante não apontada como confirmada pelo cirurgião na Tabela 2. As autoras aparentemente

não se deram conta de sua importância, pois, durante os acontecimentos, Peyton foi avisada de que seu bebê
13
Acima do meu ombro direito, um palavrão alto irrompe: “merda! Agora ela não tem
pressão sanguínea nenhuma!”
No instante seguinte, sinto uma profunda quietude no centro do meu peito. Falta
alguma coisa. É a batida do meu coração. Meu coração parou. Ao mesmo tempo, posso
repentinamente ver dentro da sala. Que incrível! As pálpebras dos meus olhos físicos foram
vedadas com fita adesiva para proteger as córneas; porém, por algum outro mecanismo, eu
posso ver perfeita e claramente. Há bolsas de sangue penduradas no suporte já sendo
transfundidas. Meu anestesista está agachado em sua banqueta perto de mim, alheio ao fato
de que não tenho batimentos cardíacos.

Tabela 1
Os resultados de Bettina Peyton na Escala de Greyson
Pontuação total da Escala de EQM (resumo de 16 itens) = 23
Para propósitos de pesquisa, uma pontuação de 7 ou mais é considerada uma EQM
2 1. O tempo pareceu acelerar ou desacelerar?
0 = Não
1 = O tempo pareceu ir mais rápido ou mais lento do que o normal
2 = Tudo pareceu acontecer ao mesmo tempo; o tempo parou ou perdeu todo o significado
0 2. Seus pensamentos aceleraram?
0 = Não
1 = Mais rápidos do que o normal
2 = Incrivelmente rápidos
0 3. Cenas do seu passado retornaram?
0 = Não
1 = Recordei muitos eventos passados
2 = Meu passado surgiu diante de mim, fora do meu controle
2 4. Você repentinamente pareceu compreender tudo?
0 = Não
1 = Tudo sobre mim ou outros
2 = Tudo sobre o universo
2 5. Você teve um sentimento de paz ou prazer?
0 = Não
1 = Alívio ou calma
2 = Paz ou prazer incríveis
2 6. Você teve um sentimento de alegria?
0 = Não
1 = Felicidade

sobrevivera e passava bem. [Acréscimo de 09/11/20 do tradutor: aqui é narrado um curioso equívoco, que
inicialmente também me vitimou como tradutor e crítico. Peyton interpreta a fala do cirurgião como uma
afirmação da morte do seu bebê (the baby is gone. Isto gera um acréscimo dramático notável à situação,
como se vê na passagem imediatamente anterior à nota 23 – durante a experiência, Peyton acredita ter
perdido seu bebê), em virtude do uso coloquial e metafórico amplamente corrente dessa expressão para
designar a morte. Todavia, tal uso tornou-se mais frequente entre os anglófonos do que o uso literal da
expressão: alguém que sai de um local, ou, no caso de um bebê, que se foi, que foi levado de cá para lá. Na
sequência do texto percebe-se o que o médico realmente quis dizer, pois Peyton é informada de que seu bebê
está bem. Em um livro de 2015, portanto, anterior a este artigo, Woollacott explicou que a criança foi levada
da sala de cirurgia até seu pai, que aguardava na sala de espera].
14
2 = Alegria incrível
2 7. Você teve uma sensação de harmonia ou unidade com o universo?
0 = Não
1 = Não me senti mais em conflito com a natureza
2 = Eu me senti unida ou um com o mundo
2 8. Você se viu ou sentiu cercada por uma luz brilhante?
0 = Não
1 = Uma luz inusualmente brilhante
2 = Uma luz claramente de origem mística ou de outro mundo
2 9. Seus sentidos estavam mais vívidos do que o normal?
0 = Não
1 = Mais vívidos do que o normal
2 = Incrivelmente mais vívidos
2 10. Você pareceu estar ciente de coisas acontecendo em outros lugares, como se por percepção extrassensorial
(PES)?
0 = Não
1 = Sim, mas os fatos não se verificaram
2 = Sim, e os fatos se verificaram
0 11. Cenas do futuro vieram até você?
0 = Não
1 = Cenas do meu futuro pessoal
2 = Cenas do futuro do mundo
2 12. Você se sentiu separada do corpo?
0 = Não
1 = Perdi a consciência do corpo
2 = Claramente deixei meu corpo e existi fora dele
2 13. Você pareceu entrar em algum outro mundo não-terreno?
0 = Não
1 = Algum lugar não-familiar e estranho
2 = Um reino claramente místico ou não-terreno
2 14. Você pareceu encontrar um ser ou presença místicos, ou escutou uma voz não identificada?
0 = Não
1 = Ouvi uma voz que não consegui identificar
2 = Encontrei um ser definido, ou uma voz claramente de origem mística ou não-terrena
0 15. Você viu espíritos de falecidos ou religiosos?
0 = Não
1 = Percebi suas presenças
2 = Realmente os vi
1 16. Você chegou a uma fronteira ou um ponto sem volta?
0 = Não
1 = Tomei a decisão consciente e definitiva de “voltar” à vida
2 = Cheguei a uma barreira que não tinha permissão de atravessar; ou fui “enviada de volta” contra
minha vontade.

15
Então, uma série de bipes altos do monitor cardíaco enviam o alarme. O anestesista
se ergue e bate no grande botão vermelho na parede, convocando a equipe de ressuscitação
do hospital22. Ele afasta as cortinas cirúrgicas e começa a bombear meu peito com seus
braços musculosos. Meu corpo fantasmagórico e pálido sobe e desce.
O pior está acontecendo. Eu perdi meu bebê, perdi todo o meu sangue 23 e estava
tendo uma parada cardíaca. Mas, surpreendentemente, em vez de estar aterrorizada, assisto à
catástrofe de um espaço de extraordinária equanimidade, até quando percebo que estou
morrendo. Algo em mim já sabe: é inútil lutar; a única coisa a fazer é relaxar e deixar rolar.
A quietude em meu peito se expande e posso sentir uma corrente de energia me
puxando para dentro. Entrego-me ao fluxo e flutuo profundamente para dentro. Toda a
consciência da sala e do meu corpo some. Flutuo para uma fronteira, para um vasto vazio
além. E então, deslizando sobre um limiar invisível, mergulho para trás em uma graciosa
queda livre, descendo e descendo para o … nada. A escuridão me engolfa. E então - nada.
Nenhuma sensação do mundo ou da minha própria existência.
Cabum! Um som estrondoso ecoa por toda parte, e estou ... suspensa no espaço,
como se tivesse atravessado explosivamente alguma grande barreira. Os ecos desaparecem.
Eu estou livre – e viva! Sem corpo, eterna, puro ser. Isto é o que realmente sou! Sempre fui e
sempre serei assim.
Silêncio profundo. Escuridão aveludada, como o céu noturno, por toda parte ... Uma
extensão sem fim de escuridão radiante, cintilante, hipnotizante ... Em todas as direções,
sem horizonte, beleza espantosa … Sem limites, luz cintilante.
E dou-me conta de algo: esta luz está viva! Em todas as direções, esta luz está
olhando para trás com amigável reconhecimento. E eu sei: esse vazio cintilante é a
Realidade Suprema, e é feita apenas de Consciência – onisciente, infinita e pulsante de
potencialidade. É o fundamento de tudo 24. Em uma explosão de admiração e alegria, meu
foco sobrevoa a vasta extensão, deliciando-se em seu esplendor sem limites. Então,
quietude. Estou ancorada em um estado de repouso perfeito, absolutamente realizada,
envolta em luz silenciosa e aveludada.
Você deve viver. Uma voz, ressoando através da luz cintilante, fala não em palavras,
mas em um tipo de trovão silencioso. Você deve viver, a ordem ressoa novamente. A
mensagem é simples, mas não faz sentido. Quem é esse “você”? E o que significa “viver”,
22 Hoje muitos hospitais têm uma equipe de ressuscitação, o que pode ser interpretado como uma concessão
histórica prática e forçada do monismo. Recordemos que Platão, no mito de Er (A República, X, 614b-621b),
narrou um episódio que alguns consideram a primeira descrição de uma EQM, estilizada talvez a partir de
casos então conhecidos. Friso que, em certo momento, afirma-se que Er, morto, reviveu para contar sua
história. Os epicuristas foram muito duros com essa pretensão, tanto que Marco Cícero, quando descreveu a
experiência mística de Scipião Africano (A República, cap. 6, O sonho de Scipião), optou por seguir passo a
passo o mito de Er, com exceção da ressuscitação, enquadrando o episódio em um sonho. Fernando Antolín
(lastreado em Pierre Boyancé: Études sur le 'Songe de Scipion'. Paris, Bibliotheque des Universités du Midi,
1936, pp. 51-segs.) afirma que “a razão que induziu Cícero a substituir a morte e ressureição de Er por um
sonho foram as zombarias com que os epicuristas, em especial Colotes [de Lâmpsaco, 320/268], dirigiram à
pretensa ressurreição do protagonista de Platão. O sonho constitui um dos meios de adivinhação natural …
por isto Cícero pode se permitir utilizar um sonho sem diminuir a seriedade e o rigor científico” (Introdução.
In: Comentario [de Macrobio] al sueño de Escipión, p. 35, n. 72. Madrid, Gredos, 2006 – tradução minha).
Portanto, a princípio, à luz do monismo, o fenômeno sequer deveria existir, muito menos equipes
especializadas em promovê-lo. Aproveitando o ensejo, observo que após não ser oxigenado por um curto
período de tempo, o cérebro deveria morrer. Todavia, vez ou outra a imprensa informa casos em que pessoas
foram ressuscitadas após horas sem oxigenação (e, por vezes, sem qualquer dano ao cérebro), o que parece
ser uma anomalia no campo das explicações médicas.
23 Considero a afirmação de estar exangue apenas como um acento dramático.
24 Interpretação comum feita nessa fase da experiência: sugiro que, muitas vezes, o sujeito paga o preço por

sua primeira formação, que subjazia e encontra na EQM um modo de voltar a influenciá-lo. Assim
interpretou também o marido de Peyton, na sequência da narrativa.
16
quando já estou absolutamente viva?
Algo captura minha atenção: uma luz piscando, como uma pequena joia,
profundamente aninhada no interior da escuridão. Focalizo essa luz e vejo suas muitas
facetas – as cenas coloridas de toda uma vida em exibição simultânea. A experiência inteira
de alguém que uma vez viveu … alguém muito familiar … e gradualmente recordo … eu já
fui uma pessoa, e estou observando toda a experiência daquela pessoa - passado, presente e
futuro se desenrolando simultaneamente, tudo contido em um ponto de luz cintilante.
Você deve viver. A ordem ressoa pela terceira vez. Está claro: vou retornar àquela
vida. Mas como eu posso de algum modo me encaixar naquele mundinho? Ademais, a vida
daquela pessoa acabou. Como pode ser ressuscitada?
Então, em um fluxo ininterrupto de comunicação sem palavras, o conhecimento de
como eu vou retornar àquela vida penetra minha consciência: devo ser destemida. Devo
permanecer focada no momento presente. Devo manter a certeza de que vou viver. Qualquer
distração ou preocupação, e posso não reviver.
No instante seguinte, há um tremendo som de azáfama, acompanhado por um rápido
redemoinho e contração, como se a expansão de consciência inteira se contorcesse em um
grande vórtice, e eu desço me afunilando em uma velocidade tremenda. Então, um tanto
abruptamente, o tumulto para repentinamente e minha percepção se abre para revelar a cena,
nos limites da sala de operações do hospital, desenrolando-se como se nem um instante
tivesse passado. Observando de um ponto vantajoso acima da cena 25, eu sou um canal
aberto pelo qual o poder da Consciência transcendente flui26.
O anestesista ainda está bombeando meu peito e o cirurgião trabalhando duro em
meu abdômen cheio de sangue. A equipe de ressuscitação está entrando velozmente.
Médicos irrompem pela porta dupla e praticamente derrapam até parar, com os olhos
arregalados e sem fôlego. Enquanto tomam seus lugares ao redor do meu corpo, posso sentir
suas mentes se preparando para o inevitável: ela já se foi. E é verdade: aquele corpo,
balançando flacidamente sob as massagens peitorais do anestesista, parece completa e
irreversivelmente morto. A pele está fantasmagoricamente branca e a cavidade abdominal,
exposta por uma ampla incisão na linha média (mantida bem aberta por alargadores), está
manchada por vívido sangue vermelho. Há sangue pelo chão.
Eu sinto a mente de Bettina em algum nível inferior, agitada com medo e angústia,
preocupada também com o ser vista pelos colegas em uma tal condição (sem jaleco branco,
estetoscópio e rigidamente nua): abdômen completamente aberto e tripas expostas.
Reconhecendo a mente agitada de Bettina como uma distração perigosa, não lhe dou
atenção.
A Consciência se comunica diretamente com os membros da equipe enquanto eles
tomam seus lugares ao redor da mesa de operações. “Eu vou viver! Vocês podem fazer isto!
Agora vamos trabalhar!”
A Consciência derrama uma corrente contínua de energia encorajadora na cena,
incentivando como um técnico de fora do campo. Sim, sim! Eu vou viver! A sala toda está
25 Não foi uma EQM, mas eu tinha 12 anos quando a janela do quarto caiu e esmagou duas patas e o rabo
(soube mais tarde) da Catarina, o sagui da minha família. Eu estava na cama vendo a cena e, subitamente,
passei a ver tudo do teto. A experiência foi breve, mas inesquecível. Em seguida, voltei ao ponto de vista
original e corri para auxiliar o bichinho.
26 A princípio, a interpretação de uma ação divina não me parece persuasiva. Por que Deus, “onisciente,

infinito e pulsante de potencialidade” (em seguida Peyton dirá “uma Consciência onipresente, onisciente,
onipotente”) precisaria liderar uma operação humana para ajudar Peyton? Na apresentação, citei a alegação
da médium Leonard que, sendo espiritualista, afirmou que médicos desencarnados a auxiliaram, o que parece
mais adequado. Outras alternativas seriam a alucinação ou a presença apenas dela mesma, em algum
fenômeno dissociativo (na sequência, Peyton afirmará que a consciência de Bettina lidava com ideias
distintas enquanto seu verdadeiro ego acompanhava a ação divina).
17
inundada por uma luz miraculosa.
A sala está repleta de trabalhadores. No centro da ação, meu cirurgião está
inteiramente focado. Em meio ao clamor e urgência, trabalha em um campo cirúrgico
oscilante e repleto de sangue; ele está realizando o que mais tarde declarará ser sua primeira
histerectomia de três minutos.
Meu ponto de vista visual transcende e abrange a cena, mas posso também sentir
todas as sensações que ocorrem dentro do corpo cadavérico abaixo. E embora a cirurgia seja
extraordinariamente dolorosa (um retorcer e puxar intensos no abdômen), minha experiência
é totalmente livre de sofrimento. Em um ponto, porém, a pressão no abdômen se torna tão
intensa que ameaça capturar toda a minha atenção. No que parece um pedido ousado,
pergunto se a dor poderia diminuir - só um pouquinho? Com entusiasmo lúdico - você só
precisa pedir! - a dor diminui instantaneamente a um nível muito inferior.
Sinto dor no pescoço enquanto um cateter é inserido na minha veia jugular direita e
direcionado para o meu coração sem movimento. Uma dor mais aguda chama minha
atenção: o anestesiologista está tentando inserir uma agulha no meu pulso direito, mas a
artéria exangue colapsou e a agulha toca o osso sensível embaixo. A dor aguda e persistente
no meu pulso direito é uma distração. Sugiro ao anestesiologista que tente a artéria maior e
mais próxima ao cotovelo. Sinto sua resposta negativa tão concretamente como se ele
recusasse balançando a cabeça. Eu sei que ele está preocupado em ferir o nervo que segue
ao lado da artéria maior. Exorto-o repetidamente, com mais força, mas ele continua
cutucando a artéria colapsada. Finalmente, em uma onda de vontade, a Consciência irrompe
em uma explosão de poder silencioso: “apenas faça!” O anestesista começa por se
endireitar; então, volta-se para a artéria maior na dobra do meu braço, insere o cateter e
obtém sucesso na primeira tentativa27.
Eu incentivo a todos. “Sim, sim! Todos vocês estão indo muito bem! Vocês
conseguem! Eu vou viver!” O poder da Consciência fluindo a partir do reino transcendente
carrega a sala com sua energia28. A equipe toda, em sincronia, move-se junta como se
estivesse em uma dança coreografada. Cada pessoa desempenha sua parte perfeitamente;
porém, apesar de todos os seus melhores esforços, não conseguem reiniciar meu coração
sem movimento.
Um cirurgião de cabelos brancos que parece muito diferente do restante entra na sala.
Uma chama de luz branca parece brilhar no topo de sua cabeça e há uma aura dourada ao
redor do seu corpo. Abrindo caminho através da sala povoada, este cirurgião veterano se
move com graça calma e digna. Segue para o meu lado direito. Oposto diretamente a ele,
intensamente concentrado em sua tarefa, meu obstetra sequer o fita. Sem uma palavra, o
cirurgião veterano enfia a mão no meu abdômen. Quando sua mão desaparece no lago de
sangue, meu ponto de vista cai e, agora, assisto do interior do meu corpo. As espirais das
digitais nas pontas dos seus dedos ficam visíveis para mim em primoroso detalhe - parece
27 Recorde-se o testemunho da médium Leonard, citado na apresentação, para similaridades com o ocorrido
com Peyton. Ambas alegam que a(s) entidade(s) que conduziram suas cirurgias intervieram na ação dos
médicos. No caso de Leonard, por instruções diretas que passaram por sua própria boca; no caso de Peyton,
por pensamentos que ela canalizou. Mas ambos de modo imperativo e competente.
28 Cito minha própria vivência nesse ponto para apoiar em certo sentido a afirmação de Peyton. Jamais passei

por uma EQM, mas na pior fase da minha vida, aos 28 anos, fui fazer terapia, pois, por ser uma pessoa mal-
assombrada, o “inferno” jamais largou do meu pé. Tudo sempre foi tão intenso que, por muitos anos e em
muitas circunstâncias, atuei como médium, e é difícil dar uma ideia a quem não as viveu das inúmeras
situações por que passei. Nessa época, particularmente sensível em virtude da terapia, estava tão mal que
creio ter recebido uma colher de chá de uma entidade. Em duas ocasiões, em um estado psicológico de
profunda debilidade, acordei aos prantos porque fui como que longamente “mantido no colo” por uma
entidade de pura luz, uma “caixa de força” que me fez saltar do sono e conservar por minutos um estado de
intensa vibração no corpo. Tais vivências me obrigam a sustentar a possibilidade de intervenção espiritual.
Baseado no que fui, sou e vivi, devo dizer que parte do que Peyton conta existe.
18
que, para economizar tempo, ele renunciou às luvas cirúrgicas. Passando seus dedos em
torno da minha aorta, ele fecha o grande vaso, cortando o fluxo de sangue. Interrompe a
hemorragia no abdômen e redireciona o sangue que resta no meu sistema para o meu
cérebro e coração. Toda a força da minha consciência passa a se reunir em seu punho, no
centro do meu corpo, que se contrai em um ponto de sensação intensa - uma pontada de dor
muito pior do que qualquer outra, profunda, no centro do corpo.
De repente, em um ponto interno ao punho do cirurgião, há uma explosão de luz
branca e incandescente como um raio de sol, bem no centro do meu corpo. Ela se espalha
pelo meu corpo na velocidade da luz, ramifica-se em milhões de delicados canais e
iluminando cada poro, cada célula. Embora incrivelmente quente e notavelmente brilhante,
essa irradiação é absolutamente benevolente. À medida que atravessa meu sistema, cada
nível do meu ser é amado, curado e revitalizado29. A luz se aglutina em uma única massa
infinita30 e, por um período de tempo desconhecido, permaneço em êxtase supremo.
Quando minha consciência individual retorna, estou agora estacionada dentro do meu
corpo, deitada atordoada na mesa de operações. Gratidão transborda para todos da equipe,
mas principalmente para o cirurgião veterano. Sua mão foi a conexão através da qual a
Consciência universal fez seu trabalho salva-vidas, e sei que sua simples ação foi um ponto
de virada crítico.
Então, ouço a voz do cirurgião veterano: “parem as compressões”. Ele pode sentir
uma pulsação na minha aorta. Todos fazem silêncio e esperam. Seguramente oito minutos
após parar, meu coração está batendo novamente. Alguns momentos depois, um dos
médicos se inclina e sussurra no meu ouvido uma mensagem que me enche ainda mais de
alegria: “você tem uma linda menina, e ela está bem”31.

Transformação inicial

Peyton descreve sua transformação inicial, após acordar na UTI

Quando acordei da anestesia na UTI, havia um círculo de médicos e trabalhadores à


minha volta, além do meu marido. Eu tinha uma lembrança vívida do que tinha acontecido.
Havia um tubo endotraqueal na minha garganta me impedindo de falar. Levantei minha mão
e acenei que queria escrever. Trouxeram-me um guardanapo. Escrevi algumas palavras
indicando que eu sabia da parada cardíaca, da histerectomia e que havia ganhado uma
menina. Antes que pudessem dizer qualquer coisa, eu queria mostrar-lhes que estive
consciente durante todo o evento32.
29 Ver a nota 28.
30 A retórica de Peyton às vezes soa estranha. Uma aglutinação infinita é algo realmente difícil de conceber.
Por isso que, em certos pontos, considero uma ou outra de suas alegações em um sentido dramático.
31 Um médico faria isso se soubesse que Peyton não podia ouvir? Alguns médicos americanos agem assim,

informam os pacientes (mesmo se inconscientes) do sucesso dos procedimentos. Portanto, presume-se que, a
princípio, a capacidade auditiva de Peyton estava funcional. Se funcionava durante sua morte clínica é outro
problema. Tais possibilidades de enriquecimento probatório mostram que a Tabela 2 é muito boa; porém,
poderia ter sido acrescida de outras corroborações. Conviria perguntar às autoras sobre pontos não
esclarecidos e bastante interessantes da narrativa: o cirurgião veterano agindo sem luvas, o bebê inicialmente
morto e na sequência vivo etc. [Acréscimo de 09/11/20 do tradutor: aqui, ver a nota 21. No livro Infinite
Awareness, de 2015, p. 113, Woollacott explica que “uma das enfermeiras se inclinou e cochichou no ouvido
de Peyton que seu bebê sobrevivera; ela tinha uma filha saudável. Mais tarde, Peyton entendeu que 'the
baby’s gone' não significava que o bebê havia morrido, mas que havia sido removido de sua cavidade
abdominal e levado ao seu marido, que aguardava fora da sala de cirurgia”. Um problema desaparece mas
surge outro: note-se que, na narrativa de 2015, de Woollacott, foi uma enfermeira que comunicou que o bebê
passava bem; em 2020, segundo Peyton, foi um médico].
32 Conjunto probatório excelente narrado por Peyton; a circunstância em que ocorre muitas vezes leva à

19
Fiquei empolgada ao contar as boas novas para o meu marido: “você não é o seu
corpo! Não devemos temer a morte!” Meu marido, ateu, olhou-me como se eu estivesse
louca. Quando tentei contar-lhe o que havia descoberto, só me ocorreu uma palavra:
“consciência”. Para ele, esta palavra era apenas um termo médico que usamos para
diagnosticar o nível de alerta de um paciente. “Não, não, você não entende”, eu disse. “A
consciência de que falo é algo extraordinário: é uma consciência onipresente, onisciente,
onipotente!” ... Ele balançou a cabeça. Essas palavras o lembraram da religião que rejeitara
há muito tempo. “Não, você é que não entende”, ele disse. “Não aconteceu nada de
extraordinário. É apenas uma fantasia, um estado alterado produzido por um cérebro
privado de oxigênio”.

Evidências da veracidade das experiências durante a parada cardíaca

Woollacott perguntou se Peyton falou depois com o anestesista ou cirurgião


sobre a inserção do cateter arterial no braço ou outros incidentes durante sua cirurgia.
Eles confirmaram que ela tinha visto coisas que não pareciam fisiologicamente
possíveis:
Assim que o tubo endotraqueal foi removido e antes que pudessem me informar, falei
ao obstetra e ao anestesista sobre os eventos relativos ao parto, incluindo os esforços do
anestesista para penetrar a artéria no meu pulso, como eu lhe falara para tentar a artéria
braquial e como ele recusara. Contei também como gritei interiormente para ele: 'apenas
faça!'. Ele ficou pálido, dizendo ter realmente ouvido as palavras: 'apenas faça', que o
compeliram a deixar o pulso e seguir para a artéria no cotovelo. Alguns dias depois, o
cirurgião veterano veio ao meu quarto no hospital e se apresentou como Chefe da
Obstetrícia e Ginecologia. Eu o reconheci prontamente, disse tê-lo visto entrar na sala de
operações e segurar minha aorta com a sua mão. Ele pareceu surpreso. Disse-lhe que esta
simples ação salvara minha vida. Todavia, ele não pareceu estar ciente da energia salva-
vidas que havia seguido por sua mão até o meu corpo; então, não a mencionei 33. A equipe
médica permaneceu perplexa com o evento todo, mas o obstetra e o anestesista se
dispuseram a aparecer em um programa de TV local com Peyton, em Boston, sobre EQMs,
para admitir que algo extraordinário acontecera e dizer que isto é cientificamente
inexplicável.
Abaixo há uma tabela das vivências de Peyton e sua verificação segundo as
respostas da equipe do hospital (Tabela 2).

Transformações pós-EQM

Eventos transformadores são frequentemente descritos como inicialmente


desorientadores (2). No caso de EQMs e outros despertares espirituais, a
transformação que ocorre frequentemente sugere um processo dinâmico que inclui
uma mudança seminal inicial na visão de mundo do sujeito, na qual este em algum
nível compreende que a consciência é fundamental para a realidade - esta nova
compreensão se aprofunda e se expressa ao longo de sua vida posterior. Como ficará
perda de evidências notáveis, pois quem preparou a cirurgia sequer imaginou sua possibilidade, o que
impede que imediatamente o sujeito advirta sobre a ocorrência e a descreva. Além da evidente prioridade de
salvar a vida da paciente, o despreparo para a situação decorre também da filosofia envolvida, que não prevê
que a paciente tenha experiências dessa natureza a relatar.
33 Uma pena Peyton não tê-lo feito. Sua intuição de que o médico veterano nada percebeu, embora possível,

parece-me paradoxal (à luz da nota 28).


20
claro na próxima seção, a EQM de Peyton iniciou uma transformação imediata em
sua visão de mundo, que foi seguida por uma transformação duradoura, incluindo
uma busca para encontrar um modo de voltar a vivenciar aquele estado de sua EQM e
uma transformação subsequente na abordagem de sua carreira como médica.
Como se vê na Tabela 3, a pontuação de Peyton na Subescala de Crescimento
Espiritual da Escala de Transformação Espiritual foi de 186, valor substancialmente
superior à pontuação média das pessoas que passaram por uma EQM (153,8 ± 41,2)
em um estudo anterior de Greyson e Khanna (6).

Transformação duradoura na vida e carreira

Peyton então continua sua descrição de sua busca para compreender a


experiência mais profundamente e como esta transformou sua carreira:

Eu sabia que era possível retornar àquela experiência sem ter de quase morrer. Saí em
busca da compreensão. Encontrei os primeiros livros sobre EQMs, que me levaram a
participar de uma reunião do grupo local da Associação Internacional para Estudos da EQM
(IANDS), em Boston. Em 1988, era apenas um punhado de pessoas compartilhando suas
experiências, mas ninguém parecia saber como voltar àquele estado transcendente. Então,
encontrei uma pista importante. Estava lendo um folheto de uma conferência sobre medicina
de corpo e mente e a palavra meditação literalmente saltou da página. Na época, nunca
havia ouvido falar de meditação. Meu pensamento seguinte foi: preciso de um professor.
Após um ano inteiro de busca, encontrei um professor, um mestre em meditação e, em nosso
primeiro encontro, alcancei o mesmo estado transcendente de consciência que havia entrado
um ano antes. Agora, eu sabia que a meditação era o caminho para me reconectar com
aquele estado.

Tabela 2
Percepções durante a cirurgia e a parada cardíaca,
com os olhos vedados para proteger as córneas
Verificado: sim/não
Disse telepaticamente ao anestesista: “apenas faça”. Ele ouviu essas palavras. Isto o Sim
fez parar de tentar inserir o cateter no pulso e seguir para o cotovelo.
Viu várias unidades de sangue no suporte diretamente sobre ela, o anestesista sentar- Sim
se à sua direita, curvar-se sobre o braço direito e inspecionar o tubo condutor.
Viu o anestesista bater o punho no botão da parede, disparando um alerta. Sim
Viu o cirurgião realizando uma histerectomia. Sim
Viu o cateter inserido na veia jugular direita e o anestesista tentando inserir o condutor Sim
no pulso. Então, seguindo para o cotovelo, ele finalmente insere com sucesso.
Viu um cirurgião veterano, de cabelo branco e uniformizado entrar na sala, caminhar Sim
para o lado dela, enfiar a mão no abdômen cheio de sangue e manter a aorta
fechada34.

34Uma interessante evidência dualista da EQM de Peyton: esse cirurgião adentrou ao recinto muito depois de
Peyton dormir anestesiada, tem características marcadamente peculiares e agiu discretamente – o conjunto
não poderia ser reconstruído a partir da experiência auditiva ordinária, tornando-se visões. Com exceção do
atuar sem luvas, houve verificação posterior. Ao encontrá-lo, Peyton poderia lhe ter feito duas ou três
perguntas precisas, o que teria sido valioso.
21
Tabela 3
Pontuação de Bettina Peyton nas Escalas
Escala de Transformação Espiritual – Subescala de Crescimento Espiritual
(Cole et al, 2008)
Pontuação de BP: 186
Instruções: ESCREVA o número PRÓXIMO A CADA AFIRMAÇÃO que melhor descreva quaisquer
mudanças que tenham ocorrido desde sua EQM, utilizando a seguinte escala:
1 2 3 4 5 6 7
Não é em absoluto verdadeiro para você É muito verdadeiro para você
7 1. A espiritualidade tornou-se mais importante para mim.
7 2. Meu modo de encarar a vida tornou-se mais espiritual.
7 3. Por causa das mudanças espirituais que tenho passado, mudei minhas prioridades.
6 4. Presto mais atenção às coisas que são espiritualmente importantes e esqueço as pequenas coisas que
costumavam me incomodar.
7 5. Rezo ou medito mais frequentemente.
7 6. Gasto mais tempo cuidando das minhas necessidades espirituais.
7 7. Sinto mais frequentemente a vida ao meu redor como espiritual.
7 8. Vejo com mais frequência minha vida como sagrada.
5 9. Estabeleci uma conexão espiritual mais forte com as outras pessoas.
6 10. Estabeleci uma conexão espiritual mais forte com a natureza.
7 11. Sou uma nova pessoa espiritualmente.
6 12. Cuidar do meu corpo ganhou um significado espiritual.
6 13. Minhas relações com as outras pessoas ganharam um significado mais espiritual.
7 14. Obtive um sentido mais forte do Sagrado (Deus, Poder Superior, Alá, Adonai etc.).
5 15. Ajo mais compassivamente com as outras pessoas desde o meu diagnóstico.
5 16. Vejo as pessoas com uma luz mais positiva.
5 17. Expresso minha espiritualidade mais frequentemente.
7 18. Gasto mais tempo pensando em questões espirituais.
5 19. Sou mais humilde desde o meu diagnóstico.
6 20. Penso o quanto sou abençoada com mais frequência.
7 21. Cresci espiritualmente.
7 22. Estou mais presente espiritualmente no momento.
7 23. Participo de rituais espirituais com mais frequência.
6 24. Tenho uma sensação de gratidão com mais frequência.
6 25. Rezo para as outras pessoas com mais frequência.
7 26. Agora, minha espiritualidade está mais profundamente inscrita em todo o meu ser.
7 27. Estou mais receptiva com o cuidado espiritual com os outros (exemplos: rezar, práticas curativas
etc.).
7 28. Busco um significado espiritual para a minha vida com mais frequência.
7 29. Considero mais importante participar de uma comunidade espiritual.

Peyton mudou o foco de sua prática médica, devotando sua carreira


subsequente à medicina paliativa e manicomial:
Após a EQM, a principal mudança que me tornou especialmente eficaz como médica

22
manicomial foi a ausência do medo da morte. Penso que quando adentro o quarto de um
paciente, esse destemor pode ser sentido pelos outros. Além disto, consegui me ancorar em
um estado de paz, o que era muito reconfortante para os pacientes e suas famílias. Ficou
claro para mim que, à medida que a morte se aproxima, os pacientes costumam entrar em
um estado meditativo. Tive o privilégio de testemunhar pacientes tendo experiências de
consciência expandida (visões ou paz profunda), vivências espirituais que podem ser parte
de uma EQM ou meditação profunda.
Peyton descreve um exemplo de transformação sutil em seu trabalho
manicomial após sua EQM:
Em meu trabalho (como médica de manicômio e cuidados paliativos) cuidei de
muitos pacientes dementes em estágio terminal. Algumas vezes, conectei-me sutilmente
com eles no nível do Ego, sua essência interior. Reconheci que, nesse nível, eles estavam
completamente intactos, embora o cérebro como órgão estivesse minimamente funcional. E
algumas vezes havia evidência física de que eles sabiam que eu podia vê-los em seu nível
essencial. Por exemplo, seus olhos transbordavam em lágrimas quando olhavam nos meus,
como se eles se sentissem profundamente compreendidos.

Discussão e conclusões

Relatos de pessoas que perceberam eventos ocorridos quando estavam


inconscientes durante EQMs são publicados faz séculos. Tem havido considerável
debate sobre a veracidade dessas percepções, pois são fisiologicamente inexplicáveis
em uma perspectiva materialista, que sustenta a crença de que os neurônios cerebrais
são os únicos produtores da consciência. Todavia, pesquisas médicas cuidadosas
continuam confirmando a existência de percepção além do cérebro físico, por meio
de estudos prospectivos de EQMs que ocorrem em dependências médicas durante
paradas cardíacas (5, 11, 13). Este estudo de caso documentado da EQM de uma
médica adiciona mais uma peça à evidência que destaca a limitação da perspectiva
materialista, que não pode explicar a percepção consciente de eventos verificados em
ambiente hospitalar durante a EQM de uma paciente durante uma parada cardíaca
com os olhos vedados. Características notáveis do caso incluem uma pontuação de 23
na Escala de EQM, o que indica uma EQM profunda e seis percepções durante uma
parada cardíaca que foram verificadas pelo pessoal do hospital e que não têm
explicação fisiológica.
Em uma recente revisão da literatura da EQM, Parnia afirma:

“Dado que a ressuscitação cardiopulmonar (RCP) é insuficiente para atender


às necessidades metabólicas do cérebro e que a função cerebral cessa
mesmo com a RCP, e está associada a uma desaceleração concomitante e
ausência de EEG cortical dentro de 2 a 20s, relatos de consciência durante a
RCP (isto é, em um momento em que o cérebro é considerado ‘não-
funcional’) levanta questões sobre a relação entre mente e cérebro/corpo”
(12, p. 69).

Gostaríamos de avançar além disso em nossa própria discussão. Quando


juntamos os dados deste estudo aos mais de 100 casos relatados por Rivas et al em
seu livro O Eu Não Morre (15), por van Lommel e colegas (11), Greyson (5), Parnia
e outros (13) em seus referidos artigos de jornal, a evidência acumulada sustenta um
23
forte contra-argumento contra a hipótese de que a consciência é apenas um produto
da atividade dos neurônios no cérebro.
As qualidades transformadoras da EQM são interessantes também. Essa EQM
precipitou uma transformação imediata no sistema de crenças dessa médica, de uma
perspectiva materialista ao longo de sua vida e carreira anterior à EQM para uma em
que imediatamente percebeu a consciência como fundamental e independente da
atividade cerebral, assim que abriu seus olhos na UTI após a EQM. Esta mudança
imediata foi então seguida de uma busca por um modo de retornar àquele estado de
consciência expandida, e culminou com uma transformação não apenas em sua vida
pessoal, mas também em sua carreira. Esses dados qualitativos são corroborados pela
pontuação de Peyton na Subescala de Crescimento Espiritual da Escala de
Transformação Espiritual, que foi de 186, substancialmente superior à média das
pontuações de transformação em EQMs (153,8) de um estudo prévio com 230
pessoas que passaram por uma EQM (6).
Peyton descobriu que podia retornar à essência daquela experiência através da
meditação, e isto se tornou parte regular de sua vida após a EQM. Esta afirmação é
apoiada por sua pontuação na Subescala de Crescimento Espiritual (1), na qual ela
obteve a pontuação mais alta, 7, em questões relacionadas a meditar com mais
frequência, ver sua própria vida como sagrada, ter um senso mais forte do sagrado
dirigindo sua vida, estar espiritualmente presente com mais frequência no momento,
participar de rituais espirituais, e sua espiritualidade estar agora mais profundamente
enraizada em todo o seu ser. Além disso, seu trabalho em cuidados manicomiais
assumiu um novo significado após a EQM, pois ela observa que uma das coisas que a
tornou eficaz como médica do fim de vida foi a ausência do medo da morte. Ela
afirma: “quando eu entrava no quarto, esse destemor podia ser sentido pelos outros”.
As qualidades da vivência da EQM de Peyton refletem aquelas descritas na
literatura (6, 16) tanto para a EQM quanto para seus efeitos imediatos na visão de
mundo do sujeito. Greyson e Khanna afirmam que EQMs incluem muitas
características descritas como espirituais, incluindo a “sensação de deixar o corpo,
encontrar entidades e ambientes não-físicos, sentimento de unidade cósmica,
transcendência no tempo e espaço, humor profundamente positivo, sentimento de
sacralidade, qualidade noética ou iluminação intuitiva, paradoxalidade, inefabilidade,
transitoriedade e efeitos posteriores positivos persistentes” (6, p. 45). Peyton
vivenciou tudo isso, como pode ser visto em suas respostas à Escala de EQM de
Greyson; na Tabela 1, Greyson e Khanna observaram que a profundidade da EQM e
o grau de crescimento espiritual estavam positivamente correlacionados em seus
estudos de transformação pós-EQM. Como a pontuação de Peyton foi alta na Escala
de EQM de Greyson e na Subescala de Crescimento Espiritual, seus dados apoiam
esta pesquisa.
Em resumo, esses dados, junto com aqueles previamente citados (6, 11, 16),
sugerem que EQMs abrem um caminho para uma consciência mais elevada ou
expandida, associada à paralisação da atividade cerebral. Dados mostram que essa
experiência inicial tem um efeito imediato: é plantada uma semente que transforma a
compreensão do sujeito sobre a natureza da consciência. Além disto, funciona como
um gatilho para um processo duradouro de transformação espiritual 35, que inclui uma
35 Com efeito, EQMs apresentam essas duas consequências: o sujeito percebe que é mais do que seu corpo (o
24
busca para encontrar um caminho de volta àquela experiência, o que, no caso de
Peyton, levou a um estudo profundo sobre meditação e espiritualidade e uma
transformação em sua abordagem dos cuidados manicomiais, como uma médica do
fim de vida.

que me parece ótimo); todavia, seu desenvolvimento espiritual se dá no sentido de sua primeira história, com
a reativação de conteúdos de sua educação inicial, dando um tom conservador à sua descoberta pessoal
(pessoal e dificilmente transferível). Assim, a experiência mística (aqui sem nenhuma carga conotativa
negativa: a experiência que se tem com os olhos fechados) surge como uma explicação também para a
permanência de crenças da religião tradicional.
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