Futebol Estudado e Praticado
Sérgio Raimundo
Kindle
À minha família, que me acompanha em cada país que treino. São muitos os “km’s”
realizados, desde que te conheci, Pipi, do Senegal até à Escócia. Os dias bons e
menos bons, os sorrisos, as alegrias e tristezas, os descobrimentos de novas culturas,
hábitos, lugares e paisagens. Como diz o grande mestre e amigo, Manuel Sérgio,
vocês são a minha base, juntos somos mais fortes.
Ao professor João Paulo Medina, pela paciência, orientação e amizade. Por tornar este
livro, em um livro melhor do que aquilo que seria sem as suas indicações e correções,
e melhorar o mundo em que vivemos, através da Universidade do Futebol, a sua obra-
prima.
Ao professor Manuel Sérgio, pelas inúmeras horas de conversa e por mudar a minha
forma de entender a vida, e consequentemente, o treino de futebol. Pelas frases
inesquecíveis, que guardo depois de tantos anos. Pelo trabalho desenvolvido em 2011-
12 no Sport Lisboa e Benfica, e por me escolher para fazer parte desse projeto.
As minhas vitórias, serão sempre vossas, também.
Obrigado!
Prefácio
João Paulo S. Medina
Conheço o professor e treinador Sérgio Raimundo há muitos anos, desde o
período em que trabalhou no Brasil, descobrindo e desenvolvendo jovens
atletas. Tenho acompanhado boa parte de sua jornada profissional, que inclui
a passagem por inúmeros países em diversos continentes espalhados pelo
mundo. Sua obstinação pelo conhecimento contextualizado, teórico e prático,
sempre foi a sua marca e uma de suas principais características.
Não é surpresa, portanto, o lançamento desta sua mais recente obra, “Futebol
Estudado e Praticado” (2024), onde procura integrar, de forma perspicaz e
inteligente, toda a sua rica experiência em culturas muito distintas, com seus
conceitos sistêmicos e humanísticos, sempre tendo como elo condutor os
parâmetros desta linguagem universal chamada futebol.
Neste sentido, é interessante observar no último capítulo do livro, “Diferentes
Culturas, um Futebol”, no qual Sérgio Raimundo destaca que, embora
existam países, como a Escócia, onde o “carrinho” para desarmar um
adversário é admirado quase que como um drible espetacular, contrapõe-se
com lugares, como o Brasil, onde se afirma que “só dá carrinho quem não
sabe jogar bola”. Mas apesar destas diferenças, o autor demonstra que existe
um eixo comum que une estes “futebóis” jogados pelo mundo afora. Vale a
pena conferir!
No geral, “Futebol Estudado e Praticado” procura dar um sentido prático em
todas as suas abordagens, mas sem deixar de lado as questões conceituais e a
visão do homem enquanto um ser “bio-psico-sociocultural”, fundamentais
para qualquer experiência pedagógica que busca superar a visão mecanicista,
cartesiana e desumanizante do futebol de alto rendimento (e não só).
Por fim, é um privilégio recomendar a leitura deste livro – pequeno em
número de páginas, porém muito rico em possibilidades de reflexão e
propostas metodológicas – útil para todos aqueles que já trabalham ou
pretendem trabalhar com esta apaixonante manifestação sociocultural e
esportiva e que buscam aprimorar seus conhecimentos e práticas.
Boa leitura!
João Paulo S. Medina
Fundador da Universidade do Futebol
Jundiaí, 28 de maio de 2024
Prefácio
Manuel Sérgio
Um livro de Sérgio Raimundo, português, licenciado em desporto, pela
Universidade de Lisboa, treinador de futebol, poliglota, imparável curioso e
estudioso e um “gentleman” ao bom estilo britânico. É discípulo do treinador
brasileiro (e meu ilustre Amigo) João Paulo S. Medina, um profissional muito
respeitado e atentamente escutado pelo futebol da pátria de Pelé e Neymar. E,
de quando em vez, por generosidade sua, o meu querido Sérgio Raimundo
aproxima-se de mim, mais para me ensinar do que para aprender. É que eu
sou um modesto “aprendiz de filosofia”. Nada mais do que isso, mas que teve
a sorte de merecer de alguns treinadores de futebol, como o José Mourinho e
o Jorge Jesus e o Rui Vitória (e o Sérgio Raimundo) palavras de sincera
gratidão, pelo muito que comigo aprenderam… de futebol!!! Ora, eu, com 91
anos de idade, sendo de facto um amante do futebol, nunca fui treinador desta
modalidade desportiva, a mais popular de todas, com toda a certeza. No
entanto, porque professor, durante 46 anos, de cursos superiores de Desporto,
tanto em Portugal como na América Latina e porque um (repito-me)
“aprendiz de filosofia” convivi com alunos que, passados anos, seriam
treinadores de futebol. E que de mim se lembram com palavras tão simpáticas
que, por vezes, chegam a emocionar-me…
Ora, sem relembrar o muito que com eles aprendi, o que lhes teria eu
ensinado? Tudo o que lhes ensinei a pouco se resume: não há jogos, há
pessoas que jogam. E há sessenta anos que o digo. E muitas vezes os
aconselhava, quando fossem treinadores, fizessem a si mesmos esta pergunta:
Quais são as qualidades humanas que eu devo desenvolver nos meus
jogadores? De facto, se bem penso, o treinador de futebol deve ser
simultaneamente o treinador do jogador de futebol e o educador do homem
que é jogador de futebol. Por isso, nas aulas, muitas vezes me ouviram
repetir: é o homem que se é que triunfa no treinador que se pode ser. E ainda:
não há remates, há pessoas que rematam; não há fintas, há pessoas que
fintam; não há defesas, há pessoas que defendem. Se eu não conhecer estas
pessoas, nunca entenderei nem os remates, nem as fintas, nem as defesas. No
livro da minha autoria, Filosofia do Futebol, escrevi: “Não é o desporto que
constitui o fim do ser humano, mas é este que é o fim do desporto. Realizar o
humano no Homem (na mulher e no homem) – eis aí o objetivo primeiro do
futebol. E por isso o futebol, quer como educação, quer como saúde, quer
como lazer, quer como alto rendimento, há-de ser um humanismo integral”.
Cheguei mesmo a dizer, nas minhas aulas: Se quereis transformar o futebol,
transformem-se primeiro a vós mesmos. E acrescentei ainda: a maioria dos
erros, nos líderes, não está na ciência em que se especializaram, mas na falta
de honestidade. Os problemas de liderança são mais de ordem ética do que
científica. Afinal, tudo o que venho de escrever já o Sérgio Raimundo diz e
pratica. O treinador que quer ser líder deve, antes, ser respeitado pelos seus
jogadores. Ele é um exemplo, como treinador de futebol, porque é, sobre o
mais, uma pessoa admirável. E… aqui lhe deixo um abraço sobre o coração.
Manuel Sérgio
Filósofo, Professor, Autor
Charneca da Caparica, 09 de junho de 2024
Índice
Introdução à Metodologia Antropológico-Tática
◆◆◆
Os 11 Mandamentos para um Departamento de Futebol e para os
seus Treinadores
◆◆◆
Qualidades do Treinador Metacompetente
◆◆◆
Pedagogia e Didática: O Tesouro Escondido do Treino
◆◆◆
◆◆◆
Conhecimento Essencial para Conceção dos Exercícios de Treino
◆◆◆
A Verdade é a Vitória
◆◆◆
Como Lidar com os Erros
◆◆◆
Sistemática do Futebol: Linguagem no Futebol
◆◆◆
O Treino da Coordenação no Futebol
◆◆◆
Diferentes Culturas, um Futebol
Introdução à Metodologia Antropológico-
Tática
Vivemos naquilo a que apelido muitas vezes de pré-história da era moderna,
do conhecimento humano. Meios de transporte (carros, motos, aviões, barcos,
helicópteros, etc.), internet, telefones, telemóveis, inteligência artificial...
todos os dias aparecem novas tecnologias com o poder de impactar a nossa
vida diária e que apelam ao consumo. A realidade muda a um ritmo
alucinante, o conhecimento evolui e mesmo aquilo que é considerado uma
“verdade científica absoluta” numa determinada época ou período histórico,
pode não fazer sentido algum tempo, ou vários anos depois. Um exemplo
disso são as modificações das tendências táticas e conteúdos de treino do
futebol ao longo dos séculos. Os conteúdos dos livros técnicos vão caindo, na
sua grande parte, em desuso e novas teorias vão surgindo. Algumas dessas
teorias aparecem sustentadas naquilo que já havia sido feito em algum
momento do passado, outras são novos conceitos introduzidos provenientes
da reflexão sobre a prática e sobre o estudo do jogo.
As disciplinas olímpicas da antiguidade tinham por base os desportos
individuais, a preparação física. Nesses tempos, o treino calistênico militar, a
preparação física e a disciplina eram a base do treino dos atletas. A
metodologia de treino pertencia sobretudo ao domínio da fisiologia do
exercício, que justificava e fundamentava a metodologia do treino desportivo.
Como referido anteriormente, a realidade muda constantemente e o
conhecimento acompanha normalmente as novas tendências. Diferentes
períodos na história do futebol refletem isso mesmo. Na Copa de 1986, o
título foi conquistado pela seleção Argentina de Diego Armando Maradona,
utilizando o sistema de jogo 1-3-5-2. No mundial seguinte, em Itália 1990,
vinte das vinte e quatro seleções participantes utilizaram o sistema 1-3-5-2.
Esse mundial foi muitas vezes apelidado como o pior mundial futebolístico
da história. Aborrecido, com poucos golos e muito ênfase na preparação
física, a falta de espetáculo levou a FIFA a repensar bastantes regras que
posteriormente marcaram o desenvolvimento do jogo, no sentido de o tornar
mais atrativo e interessante, como a lei do fora de jogo, cartão vermelho ao
último homem por impedir uma situação de provável golo e livre indireto se
o guarda-redes agarrasse um passe de um jogador da sua equipa.
Entre essas mesmas décadas, de 80 e 90, o famoso treinador italiano Arrigo
Sachi marcou uma nova era, aplicando um inovador conceito na época, o de
“inteligência coletiva”. O AC Milan, que treinava, era conhecido pelo rigor
defensivo do 1-4-4-2 no qual a equipa era funcional e os jogadores tinham
que trabalhar em conjunto, pressionar mantendo a linha defensiva alta e
realizar contra ataques rápidos. Os treinos de Sacchi tornaram-se famosos por
a sua atividade sem bola, nos quais o treinador indicava pontos imaginários e
os jogadores teriam que reagir e organizar-se de acordo com esses pontos,
sempre compactos, com velocidade e intensidade elevadas e na busca da
armadilha do impedimento.
Na Copa de 2002 Luiz Felipe Scolari foi muito criticado, mas terminou
vencendo, o que levou a uma reflexão sobre a importância da motivação e
liderança do treinador, por em cima da técnica e da tática.
Mais tarde, com José Mourinho no FC Porto em 2002/2003 e por aí em
diante, começou-se a falar de novas noções que marcaram a comunidade do
treino como, por exemplo, a de que a fadiga central é mais importante do que
a fadiga física, a intensidade não tem a ver com o desgaste energético, mas
sim, com a concentração e qualidade de decisão exigida, os testes físicos são
uma questão de crença e não uma amostra de qualidade de trabalho, a
velocidade no futebol não é igual à medida no atletismo, pois o melhor
jogador é mais rápido a decidir em função das informações do contexto
(posições da bola, companheiros e adversários) e não o mais rápido a
percorrer distâncias sem bola, a melhor equipe não é a que tem melhores
jogadores, mas a que joga mais como equipe, os aspectos psicológicos e
emocionais das pessoas são muito importante pois, se os jogadores não
compreenderem o que o treinador lhes pede, eles não acreditarão no que estão
a fazer.
Outro treinador que está na vanguarda de inovações estratégicas é,
obviamente, Pep Guardiola, que em 2008 fez a sua estreia como treinador
principal do FC Barcelona e ainda hoje é conhecido pela posse de bola,
diferenciada, na qual reduziu a significância dos esquemas táticos (1-4-4-2 /
1-4-3-3, etc.) e começou a dar mais importância aos princípios de jogo e
forma na qual os jogadores se entendiam em campo, não necessitando de
simetrias, mas sim do entendimento dos princípios como linguagem coletiva
para resolver problemas de jogo.
Já o treinador e psicólogo brasileiro Fernando Diniz, que se fez notório pelo
seu trabalho no Audax em 2013 e que iniciou um enorme crescimento
competitivo desde então, vê tudo numa perspetiva mais humana e social. Há
vários casos conhecidos de jogadores que estavam praticamente terminados e
ignorados por erros nas suas vidas por não seguirem as normas sociais, que o
treinador conseguiu recuperar e otimizar, devolvendo de novo ao jogo. O
mesmo defende que o jogo é muito mais do que troféus e medalhas e que,
para um treinar, é fundamental apoiar e conhecer os seus jogadores, cuidar do
aspeto humano e social, para depois enquadrar as suas histórias de vida e
características ao serviço do coletivo.
Há muitos outros treinadores conhecidos e desconhecidos que mereceriam
referência, mas estes são interessantes para vincar algumas tendências
evolutivas da metodologia e do foco dos treinadores. Umas desaparecem,
outras mantêm-se, enquanto outras renascem, e haveria inúmeras outras que
poderiam figurar neste descritivo, desde que o futebol foi institucionalizado
em Inglaterra em 1863, com a criação da denominada The Football
Association, até ao presente.
Atualmente, as metodologias de treino no futebol que aplicavam
separadamente a preparação física, técnica, tática e a psicológica, vão caindo
em desuso, dando origem a métodos mais holísticos e integrados, onde essas
áreas se cruzam e se misturam nos mesmos exercícios e nas mesmas sessões.
A formação profissional vem aumentando em todas as áreas, com
contribuição de profissionais cada vez mais especializados, não só no treino,
mas em tudo o que constitui fator direto ou indireto, que possa afetar o
desempenho de uma equipa.
Os famosos amigos e professores Manuel Sérgio e João Paulo Medina,
tornam-se em vozes bastante ativas ao afirmar que o futebol pertence a um
sistema complexo e tudo influencia o jogador e consequentemente os
resultados. Devemos ter em conta o jogador como pessoa pertencente a uma
realidade onde tudo influencia o seu rendimento, tanto no tempo que passa no
clube, como fora dele. É impossível separá-los e entender um sem o outro,
conhecer apenas o particular, o mínimo detalhe, sem conhecer o todo
envolvente, o geral, a interação dos detalhes particulares no todo envolvente
ao jogador e à sua vida.
O jogador é um ser bio-psico-social, influenciado ao mesmo tempo, por
variáveis culturais, pelas suas crenças e valores, ideias e linguagem, pela
técnica, tática, biologia, etc. Num jogo de futebol, tudo interatua ao mesmo
tempo, e as tomadas de decisão têm em conta a posição da bola, jogadores
adversários e da própria equipa, mas também o clima, as condições do campo
em que se joga, os adeptos e tudo o que influencia o jogador e os seus estados
psicológicos no momento do jogo, a motivação, as suas opiniões, a sua
energia, resiliência, entre outros fatores decisivos ao seu desempenho.
Como seria então o método de treino perfeito para aplicação da teoria da
complexidade? A resposta é: não é do meu interesse fornecer um método
como se fornecêssemos a receita de um bolo ou as instruções para montar um
móvel. Mesmo que o fizesse, seguramente cada um iria aplicar de maneira
diferente, isto porque os traços de personalidade dos treinadores, o seu estilo
de liderança, qualidade de comunicação, como cada jogador interpreta o que
diz, a experiência prática e forma como a transmite e o jogador a recebe, o
conhecimento que possui, a capacidade para lidar com a personalidade de
cada jogador, gestão do pessoal do clube, qualidade de comunicação com a
diretoria, conhecimento de scouting e capacidade de contratação, vida pessoal
dos jogadores fora do clube, cultura em que está inserido e capacidade de
adaptação, etc. tudo influencia o desempenho de uma equipa. O mais
importante é o conhecimento teórico e prático que o treinador e a sua equipa
de trabalho possuem e a capacidade que o treinador tem de gerir o seu
próprio conhecimento e o da sua equipa. Isso afetará todas as pessoas que
trabalham com ele e consequentemente o desempenho da sua equipa.
Ao mesmo tempo que necessitamos de um sistema que tenha em conta a
complexidade da vida do jogador e da equipa e as suas interações dentro e
fora do campo, por outro, o livro “Tratado contra o Método” de Paul
Feyerabend (1986), sugere-nos que para todo o método pode existir um
“contra o método”, isto é, pode não haver regras fixas e imutáveis. O que é
verdade para uma situação ou momento histórico, pode não servir para outro
e o único princípio que não inibe o progresso é: “tudo serve!”.
Algumas coisas podem parecer que estão erradas na perspetiva da Ciência
moderna, mas isso não impede que se ganhem jogos, competições, títulos
dessa forma. Por exemplo, há atletas / jogadores que gostam de treinar muito
forte no dia antes do jogo / competição e isso não impede que alguns deles
ganhem as competições em que participam e tenham bons desempenhos.
Outros não poderiam fazer isso porque são o oposto, têm que descansar mais
na véspera de uma competição. Independente de estar certo ou errado
segundo a ciência, há jogadores que se sentem bem em fazer banhos de gelo
no dia antes dos jogos e outros que o detestam e se sentem mal.
Por vezes os homens da “ciência” querem reclamar a si a fórmula daquilo a
que chamam profissionalismo e confrontam-se com situações que a maioria
dos atletas e dos treinadores acham inacreditáveis. Por exemplo, medir lactato
ou fazer testes de velocidade, ou resistência aos jogadores no momento
imediatamente antes de entrarem no campo para competir. Este caso é um
claro exemplo da compartimentação do saber, pois apenas se pensa numa
parte do todo maior a que o jogador pertence. Tem que se ter em conta outras
áreas. Por exemplo, a psicologia refere que existe um pico de ansiedade no
momento antes do início do jogo e por isso devem-se evitar dar informações
técnicas ou táticas que requerem processamento de informação, e privilegiar
as emoções, dando também espaço para as rotinas individuais de cada atleta.
Mas, por outro lado, também, mesmo que por vezes os jogadores não estejam
de acordo com determinadas ações, como, por exemplo, treinar mais horas ou
realizar exercícios mais longos, isso não significa que não os faça ter um
melhor desempenho, ou talvez faça para alguns e não para outros. Mesmo
numa equipa, cada jogador pode ser gerido como um caso individual. Para
todo um método, pode haver uma forma diferente de realizar as coisas.
Proponho assim nove princípios gerais para uma operacionalização de um
futebol Antropológico-Tático, que são apenas “alguns princípios” e não uma
verdade absoluta. Não estou a dar princípios fechados num documento final,
apenas dando ideias para que cada treinador reflita e inicie a sua prática
dando atenção a alguns pontos. A partir daí, cada um pode construir a sua
própria forma de trabalho que estará sempre em evolução e adaptação ao
longo dos anos. Pretende-se valorizar áreas do conhecimento e da vida que
tenham influência direta no ser humano e no seu desempenho:
1) Deve-se abordar um clube e duas equipes realçando as emoções e a
perspetiva humana. As dimensões táticas, técnicas, físicas, culturais,
psicológicas e sociais, todas elas em interação. Trabalhamos com homens,
mulheres e crianças com sentimentos e com desempenhos que variam por
diversos fatores, fisiológicos, mentais, afetivos, sociais, religiosos, ou outros.
Aquilo a que se chama comumente de “cultura” de clube, passa pela criação
de rotinas saudáveis em todos os setores e forma como as interações de
departamentos e com os jogadores influenciam o sucesso desportivo do
clube.
2) A equipe é resultado de mais do que a soma do desempenho psico-
técnico-tático dos seus jogadores ou relações existentes com os diferentes
departamentos do clube. A organização e as interações emocionais e
dinâmicas entre os jogadores em campo, são superiores à simples soma das
suas qualidades.
3) O jogador é um ser humano bio-psico-social, influenciado ao mesmo
tempo, por diversas variáveis culturais, pelas suas crenças e valores, ideias e
linguagem, pela técnica, tática, biologia, etc. O seu comportamento será um
resultado das interações no clube e fora do mesmo e nunca uma causa
simples e isolada poderá justificar completamente o seu comportamento. Os
melhores jogadores do mundo falham grandes penalidades decisivas, onde os
jogadores, dos quais menos se espera, marcam. A complexidade das ações e
da vida não permitem antecipar tudo o que acontece.
4) Os treinadores são chave para gerir e guiar a cultura de clube entre
departamentos e jogadores. Devem ter presente que para todo um método,
podem haver ideias contrárias. São vários os fatores da vida, que influenciam
o rendimento de uma equipa, atuando ao mesmo tempo, e influenciando-se
mutuamente em treino e jogo. Devem otimizar os jogadores e os resultados
da equipa e saber que são o líder que todos esperam ter solução para todos os
problemas. Necessitam saber comunicar e gerir expetativas não apenas
internas mas também externas. Têm que saber-se rodear de pessoas que
complementam o seu trabalho, sejam confiáveis e devem ser expertos na
gestão didático-pedagógica (gestão de vários departamentos, relações
interpessoais que se estabelecem no contexto de clube, gestão da preparação,
organização e avaliação das sessões com a sua equipa de trabalho, estratégias
de liderança e ensino / gestão de grupo, comunicação e ‘feedback’, gestão do
clima de exercício / treino se estiver ativo no treino, entre outros).
5) O treino deve ajudar a melhorar seres humanos complexos e dar-lhes
rotinas e capacidade de decisão nos jogos, sob influência do estresse. Deve
aproximar-se o mais possível à realidade do jogo, sabendo que a ordem e a
desordem, os fatores controláveis e não controláveis farão sempre parte do
mesmo. Pode haver variáveis descontextualizadas que melhorem o
desempenho dos jogadores, para todo o método há um “contra o método”. É
fundamental trabalhar as dinâmicas dos sistemas de jogo adaptado às
características dos jogadores desde o primeiro dia de treino, tanto como
começar a conhecer o jogador, as suas crenças, situação social, perceber o
funcionamento do clube, etc.
6) A pré-temporada deve preparar a equipa para o primeiro jogo e depois o
seguinte, etc. O treino de seis semanas não prepara uma equipa para um ano
inteiro, muito menos sem bola. O nosso corpo não funciona como um jarro,
que se enche de energia e depois vai usando a energia aos poucos. Estamos
em constante movimento e renovação. O que comemos seis semanas não
define o que somos durante um ano, apenas ajuda a definir o que podemos
ser, se o fizermos consistentemente todo o ano.
7) Na periodização de uma equipa, é essencial levar em consideração, tanto
os dados quantitativos, como os qualitativos. Contar metros totais corridos
pode ser tanto ciência como conversar com um jogador ou elemento da
equipa de trabalho. Não é necessário que algo que influencie o desempenho
dos jogadores possa obrigatoriamente ser medido ou quantificado. O
importante é saber, também, como e quando estruturar conversas para que as
mesmas sejam significativas para quem as realiza, ou para todo o grupo de
trabalho.
8) Os exercícios de treino devem otimizar o desempenho do jogador, sejam
eles mais ou menos específicos, individualizados ou coletivos. Há diversas
variáveis importantes para efetuar a realização dos exercícios de treino.
Assim como o ser humano é bio-psico-social, também os exercícios devem
ter esses fatores em conta. Pode haver momentos na semana em que os
exercícios tenham um pouco mais de componente social, por exemplo. Pouca
especificidade para aquilo que é o jogo, em si, mas ênfase numa componente
importante do ser humano, a social. A necessidade do momento da equipa vai
mostrar o caminho a percorrer diariamente. Diferentes culturas vão também
influenciar o estilo de treino.
Presentes durante a semana são a intensidade e a tomada de decisão que vai
afetar o jogo. É importante que os jogadores se sintam confiantes a nível bio-
psico-social-técnico-tático, para resolver os problemas que aparecem durante
o jogo.
No futebol de formação, o futebol de rua é possivelmente o mais rico
exercício de aprendizagem e desenvolvimento, dependendo, obviamente, do
contexto. Poucas filas de espera, muitas horas de prática com os ingredientes-
chave para aprender: bola, companheiros de equipa e adversários. A isso
pode-se somar as imensas horas que as crianças podem passar a jogar em
casa, no parque, com o cão, com a parede, etc. Já me cruzei com profissionais
que disseram que se desenvolveram a jogar na rua, outros a fintar o cão,
outros a dar toques na bola no parque, etc. Há muitas ideias de como se tornar
profissional, mas o mais importante é a prática e a alegria do brincar. O que
não ajuda são horas passadas em filas de espera e sessões inteiras de dribles à
volta de cones aborrecidos, se bem que, não podemos esquecer de “contra o
método”. Talvez haja espaço para quem gosta dos cones, mas de forma mais
atrativa e produtiva do que um toque cada dez minutos.
9) A análise do adversário, ou da equipa com quem vamos jogar, deve
contemplar diversos fatores, como as relações individuais e coletivas que a
nossa equipa pode ter com a equipa com quem jogamos. Essa análise deve
ser realizada, novamente, segundo o ponto de vista bio-psico-social,
descrevendo aspetos técnicos e relacionais (rotinas de jogo) entre os
jogadores adversários e entender do ponto de vista estratégico, como isso
influenciaria as nossas ações (que vantagens lhes daria e como poderíamos
nós tirarmos vantagem de determinadas situações). Importante antever,
também, condições do campo onde se joga, clima, campeonato que se
disputa, o país onde se vive, fatores logísticos, clima da torcida, entre tantos
outros.
Os 11 Mandamentos para um Departamento
de Futebol e para os seus Treinadores
1) É importante que, como se diz comumente, a equipa se treine como se
joga e se jogue como se treina, de forma competitiva, com intensidade e
rápidas tomadas de decisão, tendo em conta a posição da bola, companheiros
de equipa e adversários. Há também espaço para trabalhos complementares,
sejam eles de carácter mais técnico, tático, físico ou mental. Relembrando
que o homem é um ser multifacetado, os principais fatores de rendimento são
essencialmente físico-biológicos, técnico-táticos, psicológicos e morais. É
importante gerir e saber interpretar dados objetivos quantificáveis, assim com
aceitar que há dimensões não quantificáveis de situações mais subjetivas,
como a liderança, o comportamento moral ou a capacidade de comunicação
de um treinador. É também importante interpretar e saber dar resposta em
tempo real a situações que necessitam resposta naquele momento específico
em jogo ou na gestão do dia a dia do clube.
2) O rigor científico e a inteligência instrumental-analítica são importantes,
assim como os sonhos, as crenças, a inteligência emocional dos jogadores e
dos intervenientes do departamento de futebol. As análises quantitativas do
processo são importantes, assim como as qualitativas. A crença gera biologia,
ou seja, o acreditar em algo, melhora o desempenho profissional.
3) Proponho uma periodização antropológica e técnico-tática, onde o ser
humano se encontre no centro do jogo, e seja o foco de uma preparação
intelectual, emocional e moral, integrando uma periodização bio-psico-social-
técnico-tática, assente numa preparação específica para o jogo. Durante a
semana de trabalho, deve ser tão importante preparar as componentes do
jogo, como desenvolver a crença e os valores do jogador, assim como a
dinâmica social da equipe.
4) O que realmente importa não é o salto, o drible ou o chute, mas sim a
pessoa que salta, dribla ou chuta. Assim como o oxigénio é essencial para a
vida humana, as relações humanas são essenciais para a vida de todo o clube.
Quando as crianças são pequenas devem aprender o alfabeto motor que as
permita mover-se e superar obstáculos desportivos ou do seu dia a dia. Na
escola, ou fora dela, podem também aprender o alfabeto em um ou vários
idiomas, para conseguir ler e escrever. Deveria dar-se, também, atenção a
uma alfabetização social, que ajude a criar e sustentar relações humanas.
5) Para além das tecnicalidades do jogo, na preparação de uma equipa é
necessário, também, inspiração, sensação, sentimento, ligação homem-
mundo, como referiu o filósofo Husserl, “o mundo da vida”. Para
compreendermos as pessoas temos que compreender as suas vivências e a sua
interação com o mundo e do mundo com elas. Como repetia o professor
Manuel Sérgio em tantas das nossas conversas: “a cultura é a aliança do saber
e da vida, é prática que a vida confirma e é vida que a teoria sabe antecipar”.
6) Desenvolver as capacidades de autonomia, discernimento e
responsabilidade pessoal enriquece e amplia a cultura do clube, tanto do staff,
como dos jogadores. É importante confiar mas também fazer-se confiar. A
inteligência e a personalidade de cada um dos membros da equipa de trabalho
e dos jogadores, agregam ao clube, mas para isso deverão ter um impacto que
permita crescer positivamente e não retroceder negativamente.
7) O corpo e o espírito não estão em duas gavetas distintas. É o ser humano
na sua totalidade e integralidade que se emociona, ambiciona, deseja, pensa,
imagina, joga e se movimenta intencionalmente ou por reação. O atleta de
alto desempenho passa a ser reconhecido e escrutinado para o bem e para o
mal, pelos seus atos ao vivo ou nas ‘medias’ sociais, por tudo o que faça.
Torna-se herói ou vilão e o treinador deve pô-lo de sobreaviso contra as
diversas tentações que o vão rodear, distinguindo as pessoas e ações que
ajudam e que não o ajudam a ser a melhor versão possível de si mesmo. O
treinador é o conselheiro que deve acentuar que o “treino invisível” (aquilo
que não vemos nos treinos) também faz parte do processo de treino.
8) É essencial ter uma cultura de comunicação, aprendizagem e
desenvolvimento, que façam sentido para o clube e a sua cultura. A
estruturação do departamento de futebol deve seguir princípios que
possibilitem o rendimento, a eficácia e eficiência, a gestão e a abertura à
mudança, para se ter um futebol atualizado e em consonância ao
conhecimento e culturas atuais.
9) O saber resulta da reflexão sobre as experiências práticas e da informação
proveniente dos livros, revistas, diálogo com especialistas e de um
permanente desejo em aprender. Essa informação pode ser recolhida,
compilada e disseminada num Departamento de Inteligência Competitiva de
um clube, consoante os interesses do departamento de futebol. A informação
da cibernética, ciência que se encarrega do controlo sobre o funcionamento
dos sistemas complexos (seres vivos, sociedades ou máquinas), auxilia na
gestão de variações do ambiente e apresenta a possibilidade de uma resposta
adaptativa que ajude a manter um equilíbrio dinâmico no clube.
10) No futebol, a verdade é a vitória, apesar de o sucesso se poder apresentar
de várias formas, dependendo daquilo que são os objetivos do clube. Poderá
ser considerado sucesso, desenvolver e transferir jogadores para obter retorno
financeiro, vencer títulos por questão de vaidade ou de retorno financeiro
também, formar jogadores para o futebol profissional, desenvolver
profissionais de vários departamentos, promover marcas, realizar apoio
social, promover comunidades, etc. Facto é que, no futebol de alta
competição, um treinador só é sábio e é ouvido se liderar equipes vencedoras.
Os jornalistas e comentaristas influenciam a opinião do povo, pois a opinião
pública é aquela que se publica. Para atenuar esses efeitos dentro da estrutura
do clube, é essencial que se tenha uma política de educação no departamento
de futebol e uma visão de clube bastante clara.
11) A aspiração a sermos mais autenticamente humanos deve estar na ideia,
no ideal, na proposta de cultura desportiva do departamento de futebol. O
futebol é ciência, ato cultural e exige um pensamento crítico e inventivo,
muito além do pensamento puramente formal. Um treinador de futebol deve
ser metacompetente, isto é, deve possuir competências multifuncionais,
transferíveis entre diferentes contextos, como fruto do conhecimento e da
experiência que possui. Deve aprender a realizar rápidos ajustes de
competências e cenários, num mundo em constante mudança, tanto nas
situações de gestão de recursos humanos, como de treino e competição. Para
isso, será necessário saber reconhecer tanto problemas operacionais, como
científicos e morais.
Qualidades do Treinador Metacompetente
Como terminei no capítulo anterior, um treinador de futebol deve ser
metacompetente. Aprender a realizar rápidos ajustes de competências e
cenários, num mundo em constante mudança, tanto nas situações de gestão de
recursos humanos, como de treino e competição. Para isso, será necessário
saber reconhecer tanto problemas operacionais, como científicos e morais.
No campo dos conhecimentos:
- Um treinador deve, primeiro que tudo, ter um autoconhecimento das suas
qualidades e limitações e elaborar uma autoavaliação realista para perceber
quais os seus pontos fortes e fracos, criar planos de ação para melhorar cada
um deles e definir objetivos para o seu desenvolvimento e crescimento
pessoal.
- Na comunicação que ocorre entre duas ou mais pessoas, isto é, no campo
interpessoal, é importante desenvolver competências de resolução efetiva de
problemas com, ou dentro do grupo de trabalho, ou em outras realidades,
como a sua vida pessoal, que acabará por influenciar o seu desempenho
diário. Há várias características essenciais nos bons relacionamentos
interpessoais, como o ter uma visão sistémica, autoconhecimento das suas
competências, qualidade do ambiente e cultura de trabalho, tipo de
comunicação, escuta ativa, empatia, ética, inteligência emocional, respeito,
fazer críticas construtivas, reconhecer erros, trabalho de equipa, entre outros.
- Saber realizar uma reflexão epistemológica, isto é, compreender as
possibilidades e limitações que inclui o conhecimento do saber científico do
futebol e reconhecer o mesmo como pertencente à área das ciências humanas,
onde a base do jogo é o jogador. No futebol, o método a utilizar é o complexo
e, por isso, nele, a ciência não é só o que podemos medir (quantitativa), é
qualidade e natureza dos objetos também (qualitativa), na esfera bio-psico-
social. É necessário conhecer o homem primeiro (o aspeto humano) para se
entender o jogador que treina e vai a jogo.
– Capacidade de seleção da informação que é realmente importante e pode
influenciar eficazmente o seu clube e grupo de trabalho, entre tantas
referências e possibilidades disponíveis. A prática como treinador aliada à
teoria, sem nunca se esquecer, como diz o professor Manuel Sérgio
insistentemente, que só sabe de futebol, quem sabe mais do que apenas de
futebol. O treinador deve ser um gestor e seletor de informação, com ajuda da
sua equipa de trabalho, que tem bem claro que o “desporto” rei é uma
atividade humana, o humano está, nele, em toda a sua complexidade e assim
se movimenta em qualquer modalidade desportiva.
No campo dos valores:
– A moral são as normas de boa conduta de uma sociedade, cultura, época ou
grupo. No fundo, são os princípios que orientam a conduta humana do
treinador, apontando o que é certo, ou errado, na sua vida individual e no
contacto com as sociedades por onde este trabalha. A moral é importante,
mas sem moralismos, sem impor aos outros os seus valores morais
particulares, as suas idiossincrasias, como estrutura de vida, de modo a fazer
admirar-se pelo departamento de futebol.
– Entre os valores necessários na equipa de futebol, os treinadores
necessitam de liderança, capacidade de motivar, coragem para tomar decisões
e ter conversas difíceis, respeitarem e serem respeitados, disciplina,
compromisso, etc. Os jogadores e a equipa de trabalho deveriam ser
solidários, generosos, colaborativos, comprometidos, etc. Fundamentalmente,
todos devem preparar-se para integrar a mesma equipe intencionando
funcionar no mesmo sistema com os mesmos objetivos de grupo e diferentes
objetivos e tarefas individuais.
No campo da ação:
– A competência metodológica vai unir a gestão, seleção, e explicação da
informação a ser passada e como os jogadores e equipa de trabalho
processam a mesma. A pedagogia é chave neste processo, pois é o “lugar e
momento” onde todo o conhecimento de todas as disciplinas se junta, para se
aplicar na prática. O treinador deve trabalhar para obter os melhores
resultados possíveis desse processo.
– A competência de raciocínio é capacidade de pensar com lógica, de criar e
testar hipóteses, sabendo que o todo é diferente da soma das partes. Dois
jogadores ou membros da equipa de trabalho em interação não têm
desempenhos iguais todos os dias, equivalentes à somas das características de
cada um deles. A forma como interagem, as suas dinâmicas, fazem a
diferença e podem ser diferentes, dependendo das tarefas que o treinador lhes
pedir para realizar.
– A competência de aprendizagem é essencial para a adaptação do treinador
ao seu meio envolvente e aos comportamentos que o mesmo propõe depois,
como forma de cultura de clube. Aprender é também saber modificar o
comportamento e as ligações entre certos estímulos e respostas para obter
formas mais eficientes de trabalho. Quem não sabe e não quer aprender, não
sabe ensinar pois, aprender é essencial por ser uma das funções mentais mais
importantes dos seres humanos.
– A competência comunicativa é essencial para a liderança, gestão e
resolução de problemas de grupo, no dia a dia do clube. Determina a forma
clara e efetiva como se recebem e são transmitidas as informações e
mensagens do treinador aos jogadores e equipa de trabalho. Comunicar é
partilhar ideias, aprendizagens, experiências, valores, conhecimentos,
sentimentos, etc., e a comunicação é influenciada por diversos fatores
culturais, sociais e pessoais, fatores esses que também influenciam o
treinador. A comunicação pode ser realizada em vários formatos: verbal, não
verbal, visual, audiovisual, escrita, etc.
Pedagogia e Didática: O Tesouro
Escondido do Treino
Indo direto à questão, a Pedagogia interessa-se pelos processos bidirecionais
de ensino-aprendizagem, ou seja, como os praticantes aprendem e
conhecimentos e competências que os professores necessitam para ajudá-los
a aprender efetivamente, por forma a dar resposta a situações que surgem no
dia a dia. Esse processo é bidirecional, pois o professor também aprende com
o praticante, que também ensina de uma forma diferente, mas ensina.
Já a Didática, interessa-se pelos conteúdos do que se quer transmitir nas
sessões de treino e está mais relacionada com a organização e distribuição
coerente, especificidade e clareza dos mesmos.
No fundo, a Pedagogia, no Futebol, é o “lugar” único no tempo onde você vai
juntar o seu conhecimento de todas as disciplinas, para aplicar na prática, às
situações que surgem no momento. Não há tempo para ir ao livro de
metodologia, depois ao da fisiologia, psicologia, etc. e procurar respostas. Há
que dar essas mesmas respostas em tempo real. Se você conseguir realizar
isto com sucesso, triunfará como profissional.
Não interessa se sabe muito, ou se sabe pouco, se tem muita experiência ou
tem pouca, tem que saber o necessário para dar resposta à situação com que
se depara. Essa resposta pode variar em diferentes países, culturas, por vezes
até com o mesmo grupo, no mesmo local, em diferentes momentos no tempo.
Profissionais do futebol têm, muitas vezes, que coordenar a comunicação
entre vários departamentos, coordenar as relações interpessoais que se
estabelecem no contexto do clube, gerir os jogadores e as suas diferentes
personalidades, preparar, organizar e avaliar sessões de treino, ser eficazes no
processo bidirecional de ensino-aprendizagem, transferir conhecimento
teórico para a prática em tempo real, superintender valores, conhecimento e a
sua própria filosofia como treinador, ter um método e processos de treino
definidos e adaptá-los às necessidades do momento, utilizar estratégias de
liderança, ensino, comunicação e ‘feedback’ adequadas, gerir o clima e
tempo do exercício / treino, etc.
Entre tanto conhecimento e experiência necessária, conseguir dar a resposta
adequada às situações, em tempo real, torna-se uma componente chave. Para
isso, é fundamental saber gerir e organizar o conhecimento. Ainda me
recordo de escutar José Mourinho na universidade que frequentei (Faculdade
de Motricidade Humana de Lisboa), quando disse de forma sarcástica: “há os
treinadores e os ‘destreinadores’ (…) os treinadores são os que melhoram os
seus jogadores e as suas equipas. Os ‘destreinadores’ são os que pioram os
seus jogadores e as suas equipas”. Foi interessante quando justificou que “os
‘destreinadores’ têm conhecimentos, às vezes até de mais (…) não sabem é
gerir os seus conhecimentos”.
Num programa de futebol sustentado, deixarei uma ideia de como fazer uma
estruturação Macro, isto é, como organizar as ideias acerca dos conteúdos e a
ação pedagógica do treino para diferentes programas de futebol. No fundo,
criar um “esqueleto”, um mapa conceptual lógico que estará sempre sujeito a
reavaliação e adaptação em tempo real.
A estruturação deverá iniciar-se com uma avaliação da cultura, contexto,
objetivos e identidade onde o programa ocorre. No fundo, uma
contextualização que deve conter a visão e filosofia do mesmo, contendo
também planos e etapas de desenvolvimento com objetivos intermédios e
promovendo uma aplicação sequencial lógica de conteúdos e objetivos a
nível Macro, e sobretudo a nível Meso. Nesta fase ficará definido o
curriculum anual ou plurianual que teremos, a distribuição de conteúdos ao
longo do tempo e os objetivos e princípios gerais e específicos subjacentes ao
mesmo. Chamarei a esta fase de PLANO DE DESENVOLVIMENTO e às
duas sub etapas do mesmo de FASES e CONTEÚDO.
Após esta fase, deverá ser criado o MODELO DE JOGO e de JOGADOR.
Que tipo de jogador buscamos nas diferentes posições e vamos recrutar para
o nosso programa? Rápido, lento, tecnicamente bom, qualquer nível,
características sociais que deve ter para participar no programa? E que tipo de
jogador queremos que “nasça” do treino que realizamos? Que rotinas
queremos ver nas diferentes organizações ofensivas, defensivas, nas
transições ofensivas e defensivas e nas bolas paradas? Que “personalidade”
queremos que o jogador e projeto tenha e desenvolva?
Por fim, passamos para a parte mais operacional, o PLANEAMENTO e
EXECUÇÃO, a preparação da semana de trabalho e dos treinos. A ação
pedagógica em si, preparar, organizar, "dar" o treino e avaliar a sessão. Terá
em conta o conhecimento do conteúdo por parte do/s treinador/es envolvido/s
no processo, as progressões didático-pedagógicas para atingir os objetivos
das sessões e preparação necessária para o jogo, torneio ou outros eventos,
materiais disponíveis, espaço de treino e contexto, tarefas de instrução, gestão
do clima de treino, escolhas dos grupos de trabalho, demonstração,
‘feedback’ pedagógico, etc.
Depois do planeamento e execução devemos fazer uma AVALIAÇÃO do
PROCESSO para acompanhar o progresso do trabalho. Isso será mais fácil
se definirmos um sistema de avaliação específico e uma forma de avaliação.
Avaliamos uma ação no exercício ou várias, avaliamos a transferência das
situações de treino no jogo? Se sim, como fazemos isso? Treinamos o
cruzamento e contamos quantos cruzamentos fazemos em jogo e qual a
qualidade dos mesmos? E esperamos realizar um exercício de cruzamento
apenas durante a semana e esperamos realizar bons cruzamentos o ano inteiro
ou esperamos que a qualidade vá aumentando com bastantes dias de treino?
Independentemente da avaliação que escolhamos, interessa depois utilizá-la
por forma a realizar ajustes no processo. Se apenas fizermos uma avaliação
descritiva, mas sem consequências no planeamento ou no trabalho, talvez
estejamos a perder tempo, a menos que o processo não necessite de ajustes. A
avaliação continua deverá servir de ponto de referência para o trabalho que
está a ser realizado. Não significa que mudemos todo o processo cada vez
que as coisas não saem como pretendemos, mas podemos identificar
pequenos ajustes que ajudem a melhorar grandes ações, como mudar alguns
tipos de exercícios, tempos e espaços dos exercícios, tipos de ‘feedback’ para
determinado jogador, tipo de demonstração, grupos de trabalho, etc.
O treino é a forma representativa do projeto que se realiza, dos objetivos que
se têm e o/s treinador/es ou educador/es são partes cruciais desse processo.
Queremos promover torneios, futebol de rua, treinos profissionais, tudo isto
com o/s objetivo/s de promover marcas, desenvolver jogadores e / ou equipas
de trabalho, retorno financeiro, vencer títulos, transferir jogadores, social,
académico, etc. A pedagogia e a didática, quando dominadas, fazem do treino
um momento de excelência no trabalho para obtenção desses objetivos.
O futebol é um jogo, que tem o potencial de ser um estímulo positivo com
treinadores com conhecimento e habilidade de produzir um impacto positivo,
mas também negativo e traumático, muitas vezes, como resultado de um
ensinamento pouco competente. A alta competição, que é apenas uma
variante do futebol, nem sempre é divertida, requer muito trabalho e
sacrifícios. É importante saber que ser positivo na alta competição, não
sempre significa ser divertido, por vezes requer sofrimento.
Independentemente do projeto ou objetivos, cada minuto de um jogo e cada
momento, contêm, em si, TUDO AO MESMO TEMPO, e de forma
irrepetível.
Conhecimento Essencial para Conceção dos
Exercícios de Treino
Tive a felicidade de nascer no “pote de ouro” do conhecimento. Lembro-me
das aulas de Psicologia do Desporto dos professores Sidónio Serpa e Duarte
Araújo, na Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa, que ainda me
acompanham quando realizo os exercícios de treino para as equipas onde
trabalho. O professor Duarte Araújo falava bastante e com muito entusiasmo,
sobre a perspetiva ecológica no desporto. Na altura, em 2006, (e creio que
ainda agora) estava (está) na moda falar-se de tomada de decisão. “O jogador
decide bem / decide mal” é a frase na ordem do dia no recrutamento e
observação de jogadores, que passou a estar mais centrada na qualidade de
tomada de decisão, do que em estatísticas ou números que apenas fazem
sentido percebendo o contexto nos quais os mesmos interagem com
determinada tarefa. Marcou-me imenso e ainda hoje me acompanha como
treinador a afirmação de que “a tomada de decisão apenas se consegue
compreender e desenvolver se percebermos a interação específica entre a
tarefa, indivíduo e determinado contexto”. A partir daqui e da influência do
professor Manuel Sérgio que refere constantemente que “eu sou eu e a minha
circunstância [José Ortega y Gasset]”, “a verdade é o todo”, “o futebol é uma
atividade humana e se não compreendermos o homem que chuta a bola,
nunca vamos compreender os chutes”. Adicionando a estas correntes de
pensamento dos professores Duarte Araújo e Manuel Sérgio, estudos na área
da neurociência (Rui Costa e António Damásio) que referem que “em
situações de ‘stress’ o cérebro opta pela rotina” e que as "emoções positivas e
negativas influenciam as decisões que tomamos" nas tarefas que
desempenhamos. Juntando também o pensamento do professor Carlos Neto
que fala nos constrangimentos das tarefas (affordances), como forma de
estimular e maximizar as respostas dos indivíduos a estímulos aos quais
pretendemos dar uma resposta concreta em jogo (exemplo aplicado ao
futebol: saída de bola contra jogadores com determinadas características e
organização defensiva).
Também, a periodização tática (antropológico-tática como o professor
Manuel Sérgio me ensinou a chamar) do professor Vítor Frade, que nos faz
pensar no planeamento semanal do treino e na variação da complexidade dos
conteúdos de treino ao longo da semana.
Por fim, o conhecimento pedagógico do conteúdo do professor Paulo
Martins. A pedagogia é o lugar onde todo o conhecimento de todas as
disciplinas se junta, para depois se aplicar na prática.
Com todos estes ingredientes da geração do "pote de ouro do conhecimento",
temos tudo para esquematizar uma das partes mais importantes e impactantes
de uma semana de trabalho de uma equipa de futebol: os exercícios de treino.
Os exercícios de treino devem ser o momento de criação de “automatismos”
nos cérebros dos jogadores, que têm que dar respostas a situações de jogo sob
‘stress’, mas também de gestão do ambiente social do grupo de trabalho.
A maioria dos padrões criados pelos exercícios, podem refletir os problemas
que os jogadores encontrarão nos jogos e ajudá-los a dar respostas a essas
situações em espaços reduzidos ou mais amplos, dependendo dos objetivos
dos exercícios.
Os exercícios devem ser, também, um momento de ajuda na construção da
“cultura de grupo”, na dinâmica social do mesmo, na resolução de conflitos
entre jogadores, na promoção de cooperação, entre-ajuda, bem-estar,
solidariedade, positivismo, crença, amizade, recuperação física e mental,
entre outras coisas.
Se pensarmos que o momento da temporada e a semana de trabalho podem
ter várias dinâmicas, por exemplo, jogo de sábado a sábado ou sequência de
três jogos na semana com jogos sábado, terça e domingo, etc. A periodização
será feita em função dos jogos e as prioridades de treino dependerão dessa
dinâmica de jogo - recuperação - treino.
Depois do treinador e/ou equipa de trabalho definirem os objetivos das suas
sessões de treino e das variáveis que querem ter em conta para as mesmas, é
hora de planear.
Na minha forma de planear o treino, o que fazemos é olhar para o jogo que
aconteceu e ter em conta as principais boas situações de jogo que queremos
repetir e as más que queremos corrigir, dentro daquilo que são as ações do
ciclo de jogo. Olhar também para o jogo seguinte e trabalhar naquilo que
queremos fazer para ter sucesso no mesmo. Durante todo este processo
devemos, obviamente, ter em conta todos os fatores bio-psico-sociais
associados (contexto, grupo, objetivos e conteúdos).
Apenas planeio a sessão do dia seguinte, após analisar o treino realizado ou a
primeira sessão da semana, após analisar o jogo. Elaboramos então os
exercícios e por consequência, a constituição dos grupos de trabalho.
Fazemos a ligação entre todos os fatores didático-pedagógicos e o
conhecimento e experiência dos treinadores, contextualizamos no
planeamento visando influenciar o jogador e o jogo e priorizamos as
interações entre jogadores que queremos para a nossa visão e filosofia.
Podemos realizar variadas formas de exercícios: de passe, circuitos,
exercícios com foco na posse de bola, movimentos atacantes, defender áreas,
defender movimentos ofensivos, exercícios mais ou menos individualizados,
de componente mais social, etc.
Após pensarmos nas situações de jogo que queremos corrigir e naquelas que
queremos seguir fazendo, devemos pensar nas interações que os jogadores
têm uns com os outros. Por exemplo, dois defesas que jogam juntos quase
todos os finais de semana, passarem mais tempo juntos nos exercícios para
consolidarem rotinas de movimentação, comunicação e fortalecer a relação
de confiança entre eles, ou separá-los para liderar, otimizar e dar confiança
aos jogadores que não estão a entrar no onze inicial. Isso pode acontecer
também com um sector inteiro, como, por exemplo, os sectores defensivo,
médio e ofensivo ou dois sectores ao mesmo tempo, etc. Podemos também
fazer os grupos por forma a colocar jogadores mais experientes com menos
experientes e assim estimular e dar bons exemplos aos jogadores menos
experientes. Esperamos que os jogadores com mais experiência ajudem os
que tem menos e obriga os jogadores menos experientes a estarem mais
atentos aos pequemos detalhes do jogo. Não existe uma verdade absoluta ou
uma forma infalível de realizar esta gestão. Depende do dia a dia, do
conhecimento do perfil técnico-tático-físico-psicológico-social de cada
jogador, mas também da situação da equipa em cada momento da temporada,
do seguinte jogo, dos resultados, etc.
De uma forma prática, se tivermos jogadores mais experientes muito
dominantes, agressivos e exigentes, com jogadores inexperientes tímidos,
duas coisas podem acontecer: os jogadores mais inexperientes serão
“abafados” pelos mais experientes e terão dificuldades em ser criativos
porque seguirão apenas as indicações e terão medo de errar ou, por outro
lado, começarão a lidar melhor com a pressão, pois se vão a acostumar a ter
pressão constante e passarão a ser mais consistentes. Podemos também ter
jogadores pacientes, jogadores mais extrovertidos, jogadores para todo o
diferente tipo de personalidade.
Em síntese, para além do conhecimento necessário à conceção dos exercícios
e grupos de trabalho e sabendo que a tomada de decisão vai ser enormemente
influenciada pelo planeamento diário das equipas, aqui fica uma visão macro
técnico-social sobre a organização de um dia de treino, tendo em conta
componentes de preparação, execução e balanço da sessão. Já a sessão em si,
será fortemente influenciada por fatores macro e micro que influenciam a
conceção dos exercícios de treino.
A Verdade é a Vitória
Lembro-me bastante bem das inúmeras conversas na casa do grande
professor Manuel Sérgio. Algumas frases marcaram-me até hoje e muitas têm
influência na forma em como preparo os treinos e os jogos. Uma delas que
guardo no caminho é: “A ciência é o golo, a verdade é a vitória”. O professor
não queria dizer que ganhar a todo o custo é o que mais importa, até porque
quem conhece bem o professor e a sua obra, sabe do conceito sistémico ao
qual ele se refere, no qual se procura compreender as relações complexas
entres as partes e o todo, onde a base é o humano. O foco é a pessoa que joga
e não apenas o jogo, a pessoa que chuta e não apenas os chutes. O que o
professor quer dizer com essa frase é que você só é ouvido se vencer. O ser
humano é a diferença, mas o treinador apenas vai fazer teoria se vencer
campeonatos, títulos, revelar jogadores, etc. Ninguém fez teoria só perdendo
jogos ou não fazendo a diferença na vida de ninguém. Lembra-se daquele
treinador em 2003 que perdeu o Brasileirão? Ou daquele que perdeu os jogos
todos na série C, quero saber como ele treinava e periodizava o treino... disse
ninguém, nunca!
Já vi escrever centenas de artigos acerca desta temática, da abordagem
sistémica, da motricidade humana. Eu mesmo com o grande profissional e
amigo Felipe Roberto, escrevemos o artigo “Introdução à Metodologia
Antropológico-Tática” na Revista Futebol estudado de março de 2023, que
coloca o ser humano no centro do jogo, artigo este revisto do já publicado na
Universidade do Futebol em 2018 e revisto de novo neste livro. Mas agora
estamos no momento mais bonito, o da operacionalização, ou seja, como se
faz isso? Ideias? Como se aplica? Vamos parar de escrever a teoria, vamos
praticar, vamos trocar ideias, vamos avançar com esse tema!
É um prazer poder assistir à ascensão do professor Fernando Diniz, que está
num estágio bastante avançado desta operacionalização e vence! Apesar de
nas palavras dele o foco ser, não apenas os títulos e as medalhas, mas a
pessoa e a melhoria da vida das pessoas com que ele trabalha, o seu trabalho
apenas está a interessar e tornando-se em teoria porque ele vence. Se perdesse
seria louco, ou falava, como dizem no Brasil, “besteira”. Mas, como dizia o
professor Manuel Sérgio, “no futebol de alta competição, a verdade é a
vitória” e por isso a prática do professor Fernando Diniz interessa. E ainda
bem que interessa, porque para além de fazer o futebol um jogo atrativo (falo
por mim e por muitos), muda a vida de muita gente que no passado era dada
como incapacitada por não seguir as normas de ser um cidadão comum, como
dizem em Portugal “alguém que nunca mija fora do penico” (expressão
significa “alguém que nunca se porta mal”).
Querendo agora partilhar convosco outra história que me lembra os
professores Fernando Diniz e Manuel Sérgio, com o artigo de Vince Rugari
de 2 de junho de 2023, um dia antes da Final do Campeonato Australiano de
Futebol de 2022/23. O artigo antecipava uma inesperada final da liga
australiana, entre a nossa equipa (onde fui Auxiliar Técnico do Treinador
Nick Montgomery e parte de uma grande família de equipa de trabalho), o
Central Coast Mariners FC, com o menor orçamento da liga, e a poderosa
equipa do grupo City, o Melbourne City FC, com o maior orçamento da liga
nesse ano, equipa que tinha terminado em primeiro na fase regulamentar,
tendo nós sido segundos. Talvez a maior história de “David contra Golias” da
história do desporto na Austrália. O artigo teve o título de “Deformações,
erros e desajustes: como Toy Story explica os Central Coast Mariners”. Fala
em como conseguimos montar uma equipa que chega a uma final com o
menor orçamento da liga, que conseguiu encontrar tesouros no “lixo”, uma
autêntica história de Moneyball, jogadores com defeitos ou incompletos,
rejeitados por outros clubes. Jogadores com problemas com as suas carreiras
a serem apelidadas lixo ou retalhos, para a maioria, menos para a equipa de
trabalho do clube. Como essa equipe quebrou recordes atrás de recordes e
galvanizou uma região, a Central Coast. Na final tínhamos dois centrais que
começaram o campeonato com 0 jogos de experiência na Liga, um lateral
vindo do último classificado dois anos antes. Outro que tinha sido rejeitado
por um rival a meio da época e o aceitámos na família, vinha sem alegria,
sem minutos e foi fundamental na nossa conquista. Tínhamos dois médios
provenientes da nossa academia (onde eu e o Nick treinámos entre 2019-21),
que diziam que não tinham liderança nem experiência suficiente a nível
Sénior, e um deles é um dos jogadores mais baixos do mundo, que diziam
que nunca ia dar certo, com cerca de 1.55m, uma das grandes referências da
equipe. Nas alas tínhamos dois extremos, um que tinha vindo da Terceira
Liga de França e tinha sido apelidado, antes do tempo, de um fracasso
anunciado. Como poderíamos triunfar com um jogador vindo de uma liga tão
má (dito por quem não sabe o que diz). No outro lado, um rejeitado de um
clube rival, que tinha fracassado em Portugal, na Segunda e na Terceira Liga.
Na frente dois avançados móveis, um rejeitado na Escócia e apelidado “fora
de prazo”, que acabou por jogar numa equipa escolhida como o melhor 11 da
Liga, contra o FC Barcelona. A alma da equipa, divertido, confiante, bem
parecido, o típico que gera inveja a tantos que não têm tanta graça. Tão
inseguro que fazia coisas “estúpidas” para chamar a atenção e que nunca
ninguém pensou em ajudar, apenas criticar e rejeitar. Era tão “mau”, que
igualou o recorde de golos numa mesma temporada pelo clube, tendo feito
três golos nessa final. Outro brasileiro, craque escondido, boa pessoa, que
apenas necessitava de carinho e de uma direção. Tão inteligente e simpático
que devia dar medo a muito boa gente, quem me dera ter muitos como ele.
Entraram mais, um lateral proveniente da academia sobre o qual disseram que
nunca se tornaria profissional, pois parecia surfista e era descoordenado, dois
outros jogadores da Academia, um que tinha sido preso uns meses antes por
coisas das quais até hoje se arrepende e segue pagando por isso e outro que
“nunca ia ser profissional” porque não era bom tecnicamente, diziam. Outro
jogador que era muito preguiçoso para todos os seus treinadores, que esteve a
um passo de baixar a semiprofissional e outro que não sabia como entrar na
“linha”, nas normas sociais e também marcou. No final, David venceu Golias
por 6-1. Uma vitória dos renegados sobre a sociedade que os cuspiu, que os
rejeitou, que não acreditou neles. Nessa temporada, seis jogadores foram
transferidos para Ligas de topo da Inglaterra, Escócia, Japão, Índia e Arábia
Saudita.
Este artigo é para todos os treinadores, que ajudam, acreditam e fazem
acreditar, que inspiram e que guiam os seus atletas, que procuram entender a
realidade dos mesmos para entender as suas atitudes. Não quero dizer com
isso que você não monte uma equipa com jogadores que melhor se adaptam à
sua forma de jogar, que todos servem! Mas, sobretudo na formação de
jogadores, cuidado! Você tem o poder de inspirar ou de derrotar vidas. Há
muitas divisões, muitos países e diferentes estilos de jogo, muitos treinadores
com personalidades diferentes que podem lidar com o que você não pode.
Só porque não serve para si, não significa que não serve para outra realidade.
“NUNCA vai virar jogador” não existe, sobretudo na formação! Outra
expressão, em espanhol, que você se deve lembrar é: “Nunca falta un roto
para un descosido”, isto é, há sempre alguém que vai amar, por mais estranho
que pareça. E se a “verdade é a vitória”, respeite esse título de campeão
leitor, que quero usar para lhe dizer que, pode não acreditar em muita coisa,
mas acredite nos seus jogadores e se não der certo, encaminhe para alguém
que consiga fazer melhor do que você. Não veja isso como uma derrota, pois
ajudar alguém será sempre um ato nobre. Às vezes pode necessitar dar “umas
duras” aqui e ali, mas perceba que todos somos diferentes e ser treinador dá-
lhe o poder de transformar vidas e a sociedade. Faltam neste mundo, mais
atos de nobreza, faça parte deste time!
Como Lidar com os Erros
A dicotomia entre erros e acertos, faz parte do dia a dia de todos os
profissionais de futebol, ou de qualquer outra área profissional. Vem-me à
memória o vídeo em que um professor colocava cinquenta contas no quadro e
apenas uma estava propositadamente errada. Muitos dos alunos começaram-
se a rir do único erro presente no quadro e o professor perguntou aos alunos
se não tinham reparado nas 49 contas que estavam corretas. Por que é que só
se focalizavam na que estava errada? Assim são a maioria das situações no
treino e no jogo. Deveríamos analisar tudo o que é bom, tanto quanto o que
não é. “Você não fez isto bem”, não deveria valer mais e ter mais atenção do
que o “você fez isto bem”.
Quando realizamos análise de jogos, devemos dar atenção a coisas que
devemos melhorar, mas também a coisas que realizámos bem no jogo.
Como podem os profissionais do futebol lidar com os erros dos atletas, assim
como com os seus próprios erros e os dos colegas profissionais?
Num interessante estudo de LEE, T. D., et al. (Cognitive effort and motor
learning. Quest, v. 46, p. 328-344, 1994), verificou-se que a possibilidade de
um atleta estimar a dimensão de um erro cometido, antes de receber
‘feedback’, tinha um benefício adicional na sua aprendizagem. Em outro
estudo, em que um ‘feedback’ resumo era apenas fornecido após uma, cinco,
dez ou quinze tentativas de execução, verificou-se, posteriormente, que o
desempenho, traduzido em erros absolutos, estava inversamente relacionado
com a dimensão do resumo. Isto significa que, quando o feedback era emitido
somente após quinze execuções, os praticantes cometiam menos erros, e
havia mais erros quando o mesmo era emitido após cada tentativa de
execução. Neste caso específico, quanto menos melhor.
Em outro estudo realizado, o FB era fornecido apenas no momento em que os
erros excediam certos limites. Ou se fornecia ‘feedback’ em todas as
execuções, pois qualquer pequeno erro era corrigido (amplitude de 0% de
margem de erro), ou se fornecia apenas quando o tamanho do erro
ultrapassava ± 5% e ± 10% da tarefa. Nestes casos, o ‘feedback’ era
fornecido quando os erros ultrapassassem esses percentuais. Se os erros não
ultrapassassem 5% ou 10%, não era dado qualquer ‘feedback’. Após teste de
retenção, contatou-se que o desempenho foi melhor nos praticantes que
tinham obtido ± 10% de amplitude e pior nos que tinham recebido 0%, ou
seja, o grupo que tinha recebido ‘feedback’ somente quando cometia grandes
erros teve melhor desempenho e o grupo que o recebia em todas as
execuções, foi o que teve pior.
Sim, entendo que resultados de estudos sem contextualizar podem ser
traiçoeiros e não tenho interesse algum em perder tempo a contextualizá-los
mais. O ponto a que quero chegar não é ao resultado dos estudos, mas a
potenciais formas de entender como lidar com o erro.
Antes de ter lido estes estudos, faz bastantes anos, nunca tinha pensado em
deixar passar alguns erros sem corrigir. Fez-se sentido na minha cabeça e
comecei a aplicar isto, na prática. A ideia de que o ‘feedback’ funciona
“quanto mais, melhor”, pode não ser efetiva para todos os jogadores e em
todos os contextos e países. Pode até ser errada, se o jogador não lidar bem
com a crítica em público e isso o tornar mais “defensivo” na relação com os
treinadores. E há fatores não controláveis que poderão influenciar como
lidamos com os erros, como o momento da temporada (se a equipa está a
vencer ou a perder), jogos fora e em casa, resultado de momento. Temos,
assim, que humanizar e contextualizar os erros e arranjar estratégias que
FUNCIONEM. A capacidade dos profissionais se ajustarem a cada caso
específico será chave para o sucesso na gestão dos erros, que variarão
dependendo de muitos outros fatores como a fase de desenvolvimento em que
o jogador se encontra e o tipo de tarefa realizado.
Fato é que o jogador também vê a consequência natural das ações que realiza,
de forma intrínseca (ex.: o jogador consegue ver, sentir e por vezes ouvir a
consequência de um remate). Vale a pena dizer “tem que fazer golo”? O
jogador quer falhar o golo? Esse ‘feedback’ vai ajudar em algo? Pode ser
correto num dado momento e para um determinado contexto, pode ser
incorreto para outro momento e contexto. Desde que li o livro “Contra o
método” de Paul Feyerabend não consigo distinguir o que é totalmente
verdade, sempre.
Em 2006 Sir Ken Robinson num TED TALK ([Link] num dos
mais magníficos e divertidos discursos que já escutei: “As escolas matam a
criatividade” (original: Do schools kill creativity?), relembrou-nos da
necessidade de termos cuidado na forma como lidamos com o erro [dos
atletas] e a implicação que isso pode ter na capacidade destes aparecerem
com soluções novas aos problemas de treino e de jogo: “Não tenho intenção
de dizer que estar errado é o mesmo que ser criativo; o que sabemos é que se
não estão preparados para errar, nunca aparecerão com nada original (…) a
propósito, nós gerimos as nossas empresas desta forma. Nós estigmatizamos
os erros. Temos em funcionamento o Sistema Nacional de Educação, onde os
erros são a pior coisa que você pode fazer. E o resultado é que se está a
educar as pessoas fora das suas capacidades criativas. O Picasso uma vez
disse: “todas as crianças nascem artistas”. O problema é continuar artista à
medida que se cresce. Vocês não imaginam o shakespeare tendo um pai,
imaginam? Por que vocês não pensam no shakespeare sendo uma criança? O
Shakespear tendo 7 anos. (…) Ele esteve nas aulas de Inglês de alguém, não
esteve? Quão aborrecido poderia ser isso para ele? - «Precisas-te esforçar
mais!» - sendo mandado para a cama pelo seu pai - «Vai para a cama agora
(…) e põe o lápis para baixo. E deixa de falar assim, está a confundir a
todos!»”.
Em outras áreas da vida, o pesquisar Robert Helmreich, que fez trabalhos
sobre os erros no espaço aéreo / aviação, descreveu no artigo “Gestão dos
erros como uma estratégia organizacional” apresentado na IATA (Human
Factor Seminar), em Bangkok, em 1998, que “errar é humano” e refere que
isso ainda define uma característica universal da nossa existência. Assim
sendo, apesar das organizações buscarem um estado de “erro zero”, esse
objetivo não é alcançável (pelo menos por agora) com os seres humanos,
como existimos. Por isso se torna essencial saber gerir os mesmos em vez de
querer eliminá-los totalmente. O autor identificou ainda seis pontos-chave
que, em combinação, permitem a implementação de uma gestão de sucesso
dos erros:
- Confiança;
- Cultura não punitiva relativamente ao erro (não deve implicar a tolerância
de violações graves dos regulamentos);
- Comprometimento na tomada de ação para reduzir as condições que
induzem em erros;
- Dados que mostrem a natureza e os tipos de erros que ocorrem;
- Treino em evitar os erros e gestão de estratégias para os intervenientes no
processo;
- Treino em avaliação e reforço da gestão de erros para instrutores
(treinadores) e avaliadores.
Outra autora, Debra Tyler, ligada ao mundo executivo, escreveu no artigo
“The rules of managing mistakes”, o mesmo que Robert Helmreich referiu,
que os erros são parte essencial da condição humana. Também, que é
interessante muitos gestores e outros profissionais passarem a ideia de que os
erros são importantes e devem ser celebrados, mas depois ficam furiosos
quando um membro das suas equipas cometem um erro. É importante que os
gestores saibam gerir os erros de forma apropriada, sob a pena de os mesmos
serem escondidos pelos profissionais no futuro. Dessa forma, o que poderia
ser corrigido e trabalhado se fosse conhecido, pode então transformar-se num
desastre, pois nunca foi melhorado ou retificado. Os treinadores e
coordenadores de equipas deverão, assim, cingir-se aos fatos do
acontecimento e não dramatizar ou buscar responsáveis para simplesmente
apontar o dedo. Devem-se concentrar no que pode ser feito para tentar
corrigir e evitar-se no futuro. A maioria das pessoas não realiza erros
propositadamente.
Ajudar os jogadores a serem mais resilientes facilitará a sua capacidade de
aceitar erros e de usar esses erros como um catalisador para otimizar o
desempenho. Como somos seres humanos e feitos, também, de experiências,
associo a resiliência aos ensinamentos que tive na tropa especial dos
fuzileiros portugueses. É importante manter-se “calmo no caos”, manter a
compostura e confiança em situação de ‘stress’ e ser consistente diante de
erros. Recentemente disse a um jogar muito talentoso: “Se reages a um erro
perdes dois momentos, o momento do erro e o momento depois do erro. Se
apenas te focas na ação seguinte, após cometeres um erro, apenas perdes um
momento. E em cada momento em que tentas realizar uma ação para evoluir
ou alcançar a excelência, numa tentativa honesta, também não é um erro”!
Sistemática do Futebol: Linguagem no
Futebol
Sistematizar a linguagem no futebol pode ser algo importante para unificar o
discurso no treino entre elementos da equipa técnica, do clube ou do país
onde trabalhamos. Terá também influência no resultado? Talvez não, direi
sem saber. Diria sim que, a nível prático, com base na experiência que tive
em treino em sete diferentes países, o mais importante é perceber e ser
percebido. Perguntam-me como falo seis idiomas distintos. A minha resposta
é sempre a mesma, horas de repetição, anotar palavras diariamente, do idioma
que estou a aprender, tentar falar sem vergonha e sem querer estar cem por
cento correto, rir-me com as pessoas que se riem de mim quando digo algo
errado e persistir até as palavras serem lembradas como rotina.
Muita gente preocupa-se em falar tudo certo e têm vergonha quando se riam
delas. Esqueçam a vergonha, riam-se com eles, mas continuem, persistam.
Enfim... o processo de aprender idiomas seria um tema enorme para outro
artigo completo.
Obviamente existem limitações à comunicação, ao quão forte a mensagem
transmitida será ou quão significante e diversa a conversa pode ser.
Se pensarmos que o mais importante não é apenas o chute, é a PESSOA que
chuta, a linguagem assume-se como um fator-chave na comunicação com os
jogadores (PESSOAS QUE CHUTAM), equipe técnica ou outros elementos
do clube.
Não pretendo fazer deste capítulo, um capítulo científico, como em nenhum
dos capítulos do livro, apenas uma opinião e por isso quero lançar algumas
questões para reflexão e consideração, não para controvérsia. Há algumas
expressões / palavras que me fazem pensar, pois gosto de entender o porquê
das coisas. Uma delas é a expressão referente ao conceito “vertical”. Fazer
um “passe vertical” ou “verticalidade” do jogo. No início, quando escutei a
expressão, cheguei até a utilizar a mesma, mas questionava-me sempre em
silêncio: “vertical é para o céu? Para as nuvens, para a lua ou para o sol?”.
Passamos a bola para a frente, para trás e para os lados e até isso pode ter
interpretações diferentes. Se sou um defesa e passo a bola para a minha
frente, essa referência depende da minha posição. A minha frente não é a dos
outros, mas em relação ao meu corpo, posso dizer que passo a bola para a
direita, esquerda, para a frente ou para trás. Posso também fazer referência à
trajetória da bola, passe rasteiro, passe alto... Como podemos depois definir o
que é alto? O passe pode também ser direto ou em arco lateral. Além disso,
podemos também fazer referência à parte do pé com que se realiza o passe.
Com o exterior do pé (comumente chamada trivela), com o interior, com o
dorso do pé, com o calcanhar ou com a sola, além da cabeça, peito, joelho e
qualquer outra parte do corpo legal para utilização em jogo. Por último,
poderia referir o passe, dependendo da sua potência e da distância que a bola
viaja, mas essa seria uma medida a realizar à vista e a ajustar àquilo que a
situação necessitar, sendo passe curto e longo as prováveis definições para o
mesmo.
Poderíamos então, se não foi já realizado, dizer em qualquer lugar do mundo,
no respetivo idioma, claro, que o jogador realizou um passe curto, rasteiro,
para a frente, com o interior do pé e qualquer pessoa do mundo poderia fazer
uma ideia do que estamos a pensar, sem ter que realizar nenhuma associação
lógica. Já dizer que o passe foi vertical, alguns imaginariam uma linha reta
para o céu. Poderá ser linguagem aceite pela comunidade e, como já referi, o
mais importante da comunicação é que as pessoas se entendam e entendam o
que estamos a dizer ou a pedir. Mais do que querer ter razão, é uma função
útil à concretização de tarefas. Facto é que alguma da linguagem que
encontramos no futebol e em outras áreas da vida, termina sendo mais
comodismo e repetição de alguém que começa um novo modismo, do que
sistemática.
Outra frase que está atualmente na moda é o “saltar no jogador” para se
referir a ir colocar pressão no jogador. Se chegarmos ao pé de uma criança
em qualquer parte do mundo e pedirmos-lhe para “saltar no jogador”, o que
virá literalmente à cabeça da mesma será saltar em cima do jogador ou saltar
para levantar o corpo do chão. Podemos utilizar, usando a mesma lógica
anteriormente utilizada para definir os passes, expressões que se refiram à
direção da corrida (em arco, direta, a impedir o passe na direção de algum
jogador, etc.). Podemos referir também a intensidade da corrida ou do
posicionamento: em sprint máximo, em trote lento, estático, apenas a impedir
o passe para algum jogador, etc.
Por fim, outra dúvida de linguagem que encontro frequentemente, é o
emprego das palavras “esquema” e “sistema” quando estas são utilizadas
referentes à tática, ou à organização e posicionamento dos jogadores no
campo durante os jogos e treinos. 1-4-4-2 é sistema ou esquema tático? Livre
lateral é sistema ou esquema? O que é um e o que é o outro? E o que é jogada
ensaiada e o que são bolas paradas?
Sistema, é normalmente relacionado com a coordenação de vários elementos
dum todo, guiados por uma lógica comum. O nosso corpo é um bom exemplo
de um sistema, com um conjunto de órgãos que atua em conjunto numa
lógica de funcionamento e com uma direção comum.
No futebol, o sistema deve ser aquilo que determina as ações, coordenação,
organização e reorganização de uma equipa em campo, tendo em conta o
posicionamento do seu adversário, dos companheiros de equipa e a posição
da bola. O mesmo é subordinado a todos os seus intervenientes e relações
dinâmicas que têm entre si.
Já o esquema, está mais associado à representação gráfica e a figuras que
permitem expressar os conceitos principais de uma certa temática. A sua
definição foi ganhando amplo significado, essencialmente conectado às
representações gráficas esmiuçadas de coisas e processos, diagramas ou ainda
figuras que representam, não, a forma verdadeira dos objetos, mas as suas
relações ou funções. Um esquema no futebol poderá ser uma imagem com
setas a apontar para onde os jogadores se poderão deslocar.
Bolas paradas suponho que representem o momento estático do jogo no qual
a bola não rola dentro do campo (ex. cantos ofensivos). A questão é se ainda
é bola parada quando a bola começa a rolar ou se transforma em sistema?
Jogadas ensaiadas, serão fruto da prática repetitiva do treino, podem ser
ofensivas, defensivas ou cantos, livres, lançamentos, penalidades, etc.
São apenas ideias, agora passo a bola para vocês. O que acham?
O Treino da Coordenação no Futebol
Não querendo entrar em definições técnicas profundas e excessivamente
científicas, a coordenação pode ser treinada como um componente de
desempenho que permite aos jogadores superar as dificuldades e dar resposta
às necessidades a que estão expostos nos jogos de futebol, com ou sem
oposição, por meio de mudanças de direção, saltos, corridas e movimentos,
com e sem bola, em geral.
A coordenação depende da sincronização entre o cérebro e os músculos e a
chave para avaliar se um jogador de futebol tem uma boa coordenação são, a
forma como este percebe o contexto no momento e a sua capacidade de dar
respostas a esse contexto com precisão, velocidade e correta ordem dos
movimentos realizados, ou seja, a sua sincronização. Saltar por cima de um
defensor com a bola quando ele tenta fazer um "desarme" poderia ser
considerada uma ação de coordenação, assim como manter-se equilibrado e
não cair num duelo ombro com ombro, com um adversário, correr com
movimentos do corpo em perfeita sincronia, um drible, etc. Essas ações
também exigem outros componentes de desempenho como atenção, estado
mental, vida pessoal e tipo de interação social, nutrição, força, resistência,
agilidade, técnica, tática, antropometria, tomada de decisão conforme o
contexto, os objetivos do jogador de futebol, entre muitos outros. A
coordenação não está isolada desses outros componentes do desempenho, é
apenas a forma de nomear exercícios com alguma complexidade para poder
dar a melhor resposta possível à situação com que o jogador se depara.
Podemos dividir as ações de coordenação de jogo em Defensivas e
Ofensivas, ambas com e sem bola.
Exemplos de Ações de Coordenação Defensiva com bola:
. Alívio com pés e cabeça
. Interceção com apoios no chão ou em salto
. Manter-se equilibrado em disputa de bola num duelo ombro com ombro
. "Carrinho"
. Bloquear um remate ou um cruzamento
. Leitura do tempo de trajetória aérea da bola para realizar interceção
. Etc
Exemplos de Ações de Coordenação Defensiva sem bola:
. Técnica de corrida
. Marcação individual num pontapé de canto (coordenação visual-corporal)
. Movimentos com variação da posição corporal, conforme a posição de
progressão e posição da bola
. Comunicação em movimento
. Etc
Exemplos de Ações de Coordenação Ofensiva com bola:
. "Casquinha" com qualquer parte do corpo
. Drible, passe, cabeceio e chute em diferentes contextos, com apoios no chão
ou em salto
. Receção de bola orientada com diferentes ângulos e partes do corpo
. Saltar por cima de um defensor com a bola quando ele tenta fazer um
"desarme"
. Lançamentos de linha lateral
. Diferentes dinâmicas e ritmos de combinações diretas
. Etc
Exemplos de Ações de Coordenação Ofensiva sem bola:
. Saltar por cima de um defensor sem a bola quando ele tenta fazer um
"desarme"
. Corridas de apoio em diferentes direções e com mudança de ritmo
. Ângulos de apoio em diferentes contextos
. Drible de corpo
. Leitura do tempo de trajetória aérea da bola para receção, orientada, passe
ou finalização
. Etc
Numa perspetiva didática, sugiro aos professores, treinadores, educadores,
independentemente da função do profissional, que pensem na coordenação
como parte do jogo e retirem ações de jogo para ajudar a treiná-la. Após
identificarmos essas ações em determinados cenários de jogo, criamos
exercícios que as reproduzam e treinem, para haver uma elevada repetição
das mesmas, sejam elas contextualizadas individualmente ou em conjunto
com outras técnicas e ações de treino complementares. O importante é que o
treino seja produtivo para a melhoria do desempenho do jogador.
De forma prática, podemos, por exemplo, integrar uma situação de ombro
com ombro sem bola entre estações, fazer jogo da apanhada (pega-pega) para
treinar o drible de corpo, ou fazer jogo da apanhada (pega-pega) com bola
para treinar o drible, realizar marcação individual para defender um
cruzamento, realizar alívios a cruzamentos ou bloqueios de remates, etc.
O objetivo final do treino da coordenação será afinar a sincronização entre o
cérebro e os músculos, para que o jogador consiga dar uma resposta eficiente
no dia de jogo, sabendo que somos seres multifacetados e a vontade e
motivação deverão ser parte integrante de todas as tecnicalidades de treino e
jogo.
Diferentes Culturas, um Futebol
Não querendo entrar O futebol é o reflexo da cultura e sociedade onde é
praticado, contudo, as leis dos principais campeonatos de cada país são
universais e supervisadas pelo mesmo organismo, a FIFA (Fédération
Internationale de Football Association). Apesar das crenças, estilos de jogo,
formatos competitivos em cada país serem diferentes, por as culturas de cada
país serem, também, diferentes, de forma simplista, os campos devem ter
dimensões ‘standards’ e em condições normais são 11 jogadores contra 11.
Se perguntarmos em diferentes países o que é jogar bem, vamos ouvir
diferentes respostas a essa questão, ter posse de bola, jogar para ganhar, não
sofrer golos, vencer por 1-0, vencer por 5-0, vencer por 5-4, correr muito,
pressionar alto, jogar em bloco baixo, jogar em contra ataque, etc. Dos sete
países nos quais trabalhei, em Portugal dá-se bastante importância à parte
técnica e tática, no Senegal à técnica, espetáculo e força, na Áustria à
capacidade de pressão e força, no Brasil à técnica, no Canadá à luta e
fisicalidade, na Austrália à técnica em espaços reduzidos e endurance dos
jogadores em altas temperaturas, na Escócia à força, luta, fisicalidade e
consistência dos jogadores em todas as suas ações ofensivas e defensivas.
Viajar faz-nos crescer e viajar de mente aberta faz-nos aprender e evoluir.
Lembro-me de tantas conversas com amigos e conhecidos e programas
televisivos no Brasil, onde se fala bastante em manter a identidade daquilo
pelo que o futebol brasileiro é renomado em todo o mundo. Nunca me
esquecerei da frase que ainda hoje acho muito divertida “mister” [professor],
só dá carrinho quem não sabe jogar bola”. Essa era a mentalidade no país.
Saber controlar, passar, driblar com qualidade são as grandes prioridades do
“joga bonito”. Há muitas discussões sobre o que é a essência do futebol
brasileiro e terminam quase todas na ideia de “não copiar a Europa”, manter o
futebol de rua vivo e manter a qualidade técnica e de improvisação dos seus
jogadores, em vez de priorizar “marcações muito rígidas”. Já na Escócia a
visão é o oposto, quem não dá carrinho “não é ninguém”, por assim dizer.
Um carrinho é tão aplaudido na Escócia como um drible, ou como dar uma
“caneta / cueca [em português]” é, no Brasil. Em Portugal muitos clubes de
formação não fazem trabalho de força em ginásio, mas todos os jogadores
têm que estar taticamente preparados, já na Austrália ou no Senegal, o
trabalho de ginásio é primordial e os jogadores deverão ser atletas completos.
Apesar de todas as diferenças culturais, uma coisa une todos os países. Se
todas as equipas pudessem escolher o resultado, não importa como e quanto,
todas quereriam vencer! Os três resultados possíveis são ganhar, empatar e
perder. Em condições normais, ninguém joga para perder, seja qual for o
estilo de jogo, então o ponto de encontro de todos os “futebóis” do mundo, é
a vitória!
Fala-se bastante em filosofias de jogo. A palavra “filosofia”, suponho que
seja pelo conhecimento e razão do porquê fazer as coisas como se fazem.
Acima de tudo, essas filosofias buscam duas coisas normalmente: organizar a
forma de treinar e jogar para vencer jogos e desenvolver jogadores. Por vezes
têm em conta a cultura dos países em que são inseridas e por vezes não. Na
minha opinião, seja o que for que façamos, devemos manter os pontos fortes
dos países onde as filosofias se dirigem e tentar melhorar o que pode ser
melhorado. Como português, apenas como exemplo, acho que a cultura
escocesa e a forma portuguesa de treinar são complementares. Ambos os
países, quando confrontados com a forma de jogar e ver as coisas, talvez não
concordem uns com os outros, mas, na minha humilde opinião, as duas
culturas juntas poderiam criar uma seleção campeã do mundo. O que falta
muitas vezes a Portugal para vencer uma grande competição, são,
discutivelmente, pormenores defensivos e lançamentos, escanteios e livres
laterais, nos quais a Escócia trabalha em abundância. Cerca de 35% dos golos
da liga escocesa, na temporada 2022/23, foram marcados por “set pieces” -
jogadas ensaiadas ou comummente apelidadas “bolas paradas” ou “esquemas
táticos”, em Portugal. Assim como Portugal tem em abundância a qualidade
de posse de bola e eficiência tática, algo que na Escócia não se trabalha tanto
e que peca por escassa nos apuramentos para as grandes competições de
seleções.
Por outro lado, por exemplo, querer introduzir um jogo de passe curto na
Austrália, ignorando a capacidade atlética dos jogadores, seria um
desperdício. A Austrália é um dos países no mundo onde a população é mais
atlética, grande maioria dos habitantes pratica algum desporto ou mais do que
um. Os jovens quando crescem normalmente praticam dois desportos de
verão e outros dois de inverno.
As duas coisas juntas, jogo de passe e capacidade atlética são compatíveis,
desde que não se ignore a um dos maiores fatores culturais da Austrália, um
país em que o “futebol australiano” e a “liga nacional de râguebi”, desportos
bastante físicos, são os mais vistos e têm sempre os estádios cheios. Jogos de
resultados grandes com um nível atlético bastante alto, com contacto e duelos
de força. A maioria das pessoas que apoia um clube de futebol, apoia também
um clube da “liga nacional de râguebi” e querem ver jogos rápidos, com luta,
duelos, pressão, golos, etc.
Não há certo nem errado nesta discussão, mas ficam as ideias. Se
aproveitarmos aquilo em que cada país se trabalha bem há muitos anos e
tentarmos adicionar diferentes extras que o tornem ainda melhor, penso que
estaremos mais perto daquilo que é objetivo comum em todos os cantos do
mundo e todos os “futebóis”, que é: vencer jogos!
Autor
Sérgio Raimundo
Treinador de Futebol desde 2008, com experiência em sete diferentes países,
fala seis idiomas e é, também, o fundador da Revista Futebol Estudado.
Desde cedo percebeu a necessidade de unir a teoria e a prática no futebol,
pois prática sem teoria é apenas repetição e teoria sem prática é apenas
imaginação.
Bacharelado (2009) em Ciências do Desporto e Mestrado (2010) em
Educação Física pela Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa, lecionou,
como professor convidado, o módulo de Pedagogia e Didática na Pós-
Graduação em Futebol da Universidade Positivo (Brasil) e publicou inúmeros
artigos para a consagrada Universidade do Futebol.
Iniciou o seu trabalho de treinador no Beira Mar AC de Almada e nas Escolas
de Futebol do Sport Lisboa e Benfica, clube no qual viria, em 2011-2012, a
tornar-se assessor do futebol de formação (categorias de base) e auxiliar
técnico dos Sub-19. Em 2012-14 foi diretor técnico da Étoile Lusitana SA no
Senegal, com quem venceu o prestigiado torneio de futebol de Sub-20
"Angelo Dossena", em Crema, Itália. Teve passagens novamente, como
treinador principal da primeira liga de sub-19, em 2014-15, em Portugal e
depois em 2015-16, de seniores, na Áustria. Em 2017-18 teve mais duas
aventuras, no Brasil, como diretor técnico do clube Diamante Sport Club e,
no Canadá, com o centro de rendimento Urban Soccer Centre. Já em 2019,
seguiu para o Central Coast Mariners FC da Austrália como treinador dos
sub-20 e auxiliar técnico dos sub-23, com o treinador Nick Montgomery.
Ambos obtiveram um sucesso notável, sagrando-se campeões, em 2020,
pelos sub-20 e pelos sub-23, um grupo que se treinava em conjunto, como um
só, algo bastante diferente das normais estruturas de clube. Em 2021-22,
sagraram-se vice-campeões da Taça da Austrália e finalistas na Liga
Australiana. Na temporada seguinte, 2022-23, contra todas as expetativas,
com a equipa mais jovem de sempre e o menor orçamento da liga, sagraram-
se campeões da A-League (nome da principal Liga da Austrália), mudando a
estrutura do futebol nesse país. Na temporada 2023-24, atuou como auxiliar
técnico da equipe principal do Hibernian FC, da série A da Escócia,
alcançando a semi-final da Copa da Liga.
Ao longo da sua carreira profissional, ajudou a formar dezenas de jogadores
para renomados clubes como: Manchester City FC, Everton FC, Leeds
United FC, Newcastle United FC, FC Barcelona, Valência CF, FC
Internazionale Milano, Rangers FC, SL Benfica, FC Porto, Sporting CP,
Galatasaray SK, entre outros.