Gênero e poder no discurso j urídico *
Débora de Carvalho Figueiredo
Doutoranda em Inglês e Literatura Correspondente — UFSC
Resumo Abstract
Este trabalho tem como This work aims at
objetivo apresentar algumas presenting some theoretical
considerações teóricas sobre o considerations about the
discurso utilizado em sentenças discourse of legal sentences
de casos de violência contra a from cases of violence against
mulher. 0 discurso legal women. Legal discourse is a
caracteriza-se como um dominant, hierarchical kind of
discurso hierárquico e discourse, based on a structure
dominante, baseado numa
of exclusion and discrimination
estrutura de exclusão e
discriminação de várias of several non-powerful social
minorias sociais, como os minorities, such as poor people,
pobres, os negros, os homos- blacks, homosexuals, women,
sexuais, as mulheres, etc. Dai etc. Hence the importance of
a importância de uma análise carrying out a critical analysis
critica do discurso legal, que of legal texts, thus helping to
* Genre and power of discourse establishments
Revista de Ciências Humanas Florianópolis v.15 n.21 p.37-52 1997
37
desmistifique a aura de objeti- demystify the aura of objectivity
vidade e imparcialidade que and impartiality that involves
envolve o Direito (e a lei). A the law. The linguistic analysis
análise linguistica de sentenças of legal decisions from cases of
de casos de violência contra a violence against women, for
mulher, por exemplo, pode nos instance, may help us to
ajudar a entender como as understand how women are
mulheres são descritas nestes
textos, assim como pode indi- described in these texts, as well
car que posições subjetivas as what subject positions this
este tipo discursivo em type of discourse establishes for
particular constrói para men and women, and for legal
homens e mulheres, para practitioners (judges, etc). By
intérpretes e aplicadores da lei investigating the ideologies that
Oufzes, etc.). Através da inves- underlie legal texts, and the
tigação das ideologias que social relations that these texts
permeiam as sentenças de ca- construct for its producers and
sos de violência contra a mu- its consumers, this work hopes
Iher, assim como das relações to encourage a critical reading
sociais que estes textos criam of, and a form of resistance to,
para seus produtores (juizes, legal decisions (be it by
advogados, etc.) e seus consu- linguists, by lawyers, by
midores (réus, vitimas, etc.), a
language students, by legal
análise do discurso jurídico
students, etc).
aqui proposta pretende enco-
rajar uma leitura critica, e con-
seqüentemente uma forma de
resistência, à visão sexista do
mundo transmitida por muitas
sentenças legais.
Palavras-chave: análise cri- Keywords: critical discourse
tica do discurso; discurso jurf- analysis; legal discourse; genre;
dico; gênero; poder; violência. power; violence.
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Introdução
0 discurso legal caracteriza-se como um discurso
hierárquico e dominante, baseado numa estrutura de exclusão e
discriminação de várias minorias sociais, como os pobres, os
negros, os homossexuais, as mulheres, etc. A especificidade da
linguagem jurídica, e as restrições educacionais quanto a quem
pode militar na Area (advogados, promotores, juizes, etc.), são
apenas algumas das estratégias utilizadas pelo sistema jurídico
para manter o discurso legal inacessível à maioria das pessoas,
e desta forma protedê-lo de análises e criticas.
Como em todo discurso dominante, as posições de poder
criadas para os participantes de textos legais são particularmente
assimétricas, como é o caso num julgamento (e.g. entre o juiz e o
réu; entre o juiz e as testemunhas; etc.). Os juizes, por exemplo,
detêm um poder especial devido ao seu status social e ao seu
acesso privilegiado ao discurso legal (são eles que produzem a
forma final dos textos legais). Portanto, é a visão de mundo do
juiz que prevalece nas sentenças, em detrimento de outras
posições alternativas.
Além de relações de poder, os textos legais também
expressam relações de gênero. A lei e a cultura masculina estão
intimamente ligadas; o sistema jurídico é quase que inteiramente
dominado por homens (só recentemente as mulheres passaram
a fazer parte de instituições jurídicas) e, de forma geral, ele
expressa uma visão masculina do mundo. As mulheres que são
parte em processos legais (e.g. reclamantes, rés, testemunhas,
etc.) estão expostas a um duplo grau de discriminação e exclusão:
primeiro, como leigas, elas ocupam uma posição desfavorecida
se comparadas com militantes legais (advogados, juizes,
promotores, etc.); segundo, elas são estigmatizadas também por
serem mulheres, e têm seu comportamento social e sexual
avaliado e controlado pelo discurso jurídico.
Entretanto, embora o discurso jurídico represente uma visão
dominante e institucional da realidade, há uma crença comum
em nossa sociedade de que o Direito (e a lei), como outras
39
ciências, é objetivo, imparcial e justo (muitas vezes esta crença
estende-se também aos aplicadores e criadores das leis). 0
legislador é geralmente considerado racional porque supõe-se
que suas decisões sejam guiadas por argumentos justificativos
explícitos e dedutivos. Entretanto, até mesmo aqueles que parecem
partilhar desta crença admitem que ha uma diferença entre teoria
e realidade (Dascal e Wroblewski, ibid:427-28 — nossa tradução
e ênfase):
Até mesmo o legislador racional tem que levar em conta que as leis
feitas por ele servirão de base para decisões relativas à aplicação da lei,
decisões estas tomadas não por pessoas ideais, mas por pessoas reais,
em circunstancias reais. Isso significa que as decisões relativas à aplicação
das leis necessariamente envolverão a interpretação da lei em
circunstancias impossíveis de serem previstas, de acordo com regras de
natureza não apenas dedutiva.
O processo de aplicação e interpretação da lei, presente
em textos legais como sentenças, está longe de ser objetivo,
embora esta idéia persista em nossa sociedade, como podemos
ver no seguinte comentário: "espera-se que as decisões legais
satisfaçam, no mais alto grau possível, valores como justiça,
legalidade, objetividade, imparcialidade, previsibilidade,
repetibilidade, e assim por diante" (Dascal e Wroblewski
1991:428 — nossa tradução e ênfase). Seguindo a tradição do
Iluminismo e Positivismo do século XIX, a ciência jurídica (e por
conseqüência, o discurso jurídico) é considerada imparcial,
objetiva, racional. Em teoria, a objetividade dos agentes e
intérpretes da lei (e.g. juizes), e do sistema jurídico como um
todo, não é problematizada, e portanto quase nunca é
questionada. A subjetividade dos intérpretes legais, como agentes
social, histórica e culturalmente situados, é quase sempre
ignorada.
Como argumentam Dascal e Wróblewski, "no raciocínio
legal, como em qualquer outro tipo de raciocínio, esta implícita a
idéia de racionalidade" (1991:429). Sentengas, como exemplos
da interpretação e aplicação da lei baseadas no raciocínio
jurídico, são supostamente racionais e objetivas, desta forma,
40
geralmente não as vemos como textos criadores e reprodutores
de um sistema de distribuição assimétrica de poder e de
descriminagdo de gênero. "Partimos do principio que, em nossa
cultura jurídica, uma decisão legal não é arbitrária, i.e., que a
mesma é justificada por 'boas razões'. A racionalidade é vista
como a justificação de uma decisão legal" (Dascal e Wróblewski,
ibid). Entretanto, observando os seguintes extratos de sentenças
brasileiras em casos de violência contra a mulher, é difícil imaginar
que possíveis 'boas razões' (além da descriminagão de gênero)
possam ter justificado tais sentenças:
A cópula intra matrimonium é dever reciproco dos cônjuges, e aquele
que usa de força física contra o nolens, a quem não recorre escusa
razoável, tem por si dita excludente de criminalidade. A apelante quis se
furtar ao congresso sexual sob a capa de ordinário cansaço corporal, o
que não parece razão bastante a deixar de satisfazer o outro cônjuge. As
lesões em questão são leves.
(Sentença de 1973, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, num
caso de estupro. — 0 acusado foi absolvido.)
Moça não recatada, de vida despreendida, pernoitando, amiúde, fora
de casa, fazendo programas com outros rapazes, não esta a merecer a
proteção penal.
(Sentença de 1979, do Tribunal de Justiça de São Paulo, num caso de
sedução de menor. — 0 acusado foi absolvido.)
A análise do discurso utilizado em sentenças de casos de
violência contra a mulher representa uma das possíveis formas
de investigar o conteúdo (declarativo e ideológico) destes textos.
A linguagem jurídica é caracterizada, entre outras coisas, por
representar um código fechado, de difícil acesso à pessoa comum,
a quem freqüentemente esta linguagem se refere. Dascal e
Wróblewski argumentam que a dificuldade da linguagem jurídica
provém da necessidade de o legislador alcançar um meio-termo
entre a facilidade de acesso e a inteligibilidade do texto jurídico
aos seus leitores em potencial e, por outro lado, atingir um nível
adequado de precisão na formulação das leis. Dai a necessidade
da pessoa comum se utilizar de um intermediário (e.g. advogado)
para compreender as leis e decisões legais que lhe dizem respeito.
41
Assim sendo, homens e mulheres comuns têm acesso negado ao
discurso jurídico. As mulheres, como outros grupos de pouco
poder social, são frequentemente mencionadas no discurso legal.
Entretanto, como comenta van Dijk (1995), a mera menção de
minorias em textos orais ou escritos é uma forma passiva de
acesso ao discurso. As mulheres, como outras minorias, não
podem controlar a forma como são representadas no discurso
jurídico, uma vez que o mesmo é geralmente contruido por
homens.
Uma vez que estamos tratando aqui de sentenças de casos
de violência contra a mulher, outro tema relevante para o tópico
em questão são os papéis de gênero. Por 'papel de gênero' estou
me referindo às categorias sociais e culturais que definem formas
'apropriadas' e 'não-apropriadas' de comportamento feminino
e masculino. Estruturas de poder e dominação presentes em
instituições sociais, como o sistema jurídico, produzem certos
sujeitos sociais, que por sua vez produzem textos de acordo com
as orientações de sua instituição de origem. Uma dessas
orientações diz respeito ao gênero. Segundo Kress (1989:450),
os agentes linguísticos (como legisladores e intérpretes da lei)
são treinados dentro de certas posições de gênero, o que produz
um efeito sobre os significados e as relações de poder estabelecidas
nos textos produzidos por eles (e.g. sentenças).
Uma das formas de combater a descriminação de gênero
na lei é a adaptação dos textos legais (legislação, teorias,
sentenças, etc.) às mudanças que vêm ocorrendo na sociedade.
Entretanto, uma mera alteração no conteúdo dos textos jurídicos
pode não ser suficiente. Muitas vezes a letra da lei' é modificada,
mas isto não reflete uma mudança em termos de valores e crenças
sociais, que se mantêm sexistas. Portanto, embora possamos
observar ligeiras mudanças nos textos jurídicos atuais, o/a
intérprete legal ainda tende a adaptar a lei às ideologias
conservadoras de sua comunidade, mantendo desta forma a
descriminagão de gênero inalterada.
Deborah Cameron se refere a este processo, segundo o
qual: "nossos hábitos linguísticos refletem e perpetuam conceitos
42
que já não se encontram personificados na lei, mas que continuam
sendo relevantes para nossa cultura" (1990:16, nossa tradução).
Idéias e noções conservadoras sobre o comportamento social e
sexual das mulheres talvez já não estejam literalmente expressas
nas leis atuais, mas estão muito presentes em nossa estrutura
social e cultural, na qual o sistema jurídico encontra-se inserido.
É provavelmente por isso que o discurso legal utilizado em casos
de violência contra a mulher ainda reflete um profundo sexismo.
Uma análise lingüística pode nos ajudar a entender como
as mulheres vitimas de violência (física e/ou sexual) são descritas
pelo discurso jurídico, assim como pode indicar que posições
subjetivas este tipo particular de discurso constrói para homens
e mulheres, para intérpretes e aplicadores da lei (juizes, etc.). A
análise critica do discurso de sentenças de casos de violência
contra a mulher (estupros, espancamentos, abusos sexuais, etc.)
pode ser utilizada como forma de coletar evidências de que os
macro e micro elementos que constituem este tipo textual refletem
e ajudam a consolidar a estrutura social vigente, marcada por
descriminações de gênero e relações de poder.
Através da investigação das ideologias que permeiam estes
textos legais, assim como das relações sociais que os mesmos
criam para seus produtores (juizes, advogados, etc.) e seus
consumidores (réus, vitimas, etc.), a análise do discurso jurídico
aqui proposta pretende encorajar uma leitura critica, e
conseqüentemente uma forma de resistência, à visão sexista do
mundo transmitida por muitas sentenças legais (seja por
lingüistas, por advogados, por estudantes de Direito ou de línguas,
etc.).
O discurso jurídico dentro da perspectiva da Análise
Critica do Discurso
O discurso jurídico poder ser investigado criticamente sob
várias perspectivas, dentre elas a histórica, a sociológica, a
antropológica e a lingüística. Nesta última, uma das possíveis
43
ferramentas para investigar criticamente o discurso jurídico é a
Análise Critica do Discurso (ACD), ou Linguística Critica. De
acordo com Fairclough (1989:5), o termo critica é usado aqui
para indicar que esta forma de análise linguística tem como
objetivo expor os laws ocultos entre linguagem, poder e ideologia.
A análise critica do discurso procura encontrar, nos textos
analisados, evidências de como as estruturas e práticas sociais
afetam e determinam a escolha dos elementos linguisticos
utilizados num texto, e que efeitos estas escolhas lingUisticas
podem ter sobre as estruturas e práticas sociais como um todo
(natureza bi-direcional do discurso).
A Análise Critica do Discurso não oferece um método bem
definido de análise lingUistica, mas sim novas formas de olhar a
linguagem, dentro de perspectivas históricas e socio- políticas.
Segundo van Dijk, "a análise critica do discurso obviamente não
implica uma metodologia homogênea, nem uma escola ou
paradigma; quando muito, a ACD representa uma perspectiva
comum sobre como realizar análises linguisticas, semióticas ou
do discurso" (1993:131 — nossa tradução).
A maior parte dos estudos na Area de linguistica critica
têm utilizado a perspectiva sistêmica-funcional proposta por
M.A.K. Halliday, que argumenta que as funções das estruturas
linguisticas estão baseadas em estruturas sociais. Portanto, a ACD
inclui significados sociais e suas realizações textuais na Area de
abrangência da descrição gramatical (Fowler et al. 1979:187).
Um dos objetivos da linguistica critica é investigar
estruturas e relações de poder presentes no discurso. Os processos
linguisticos são produto de estruturas de dominação, nas quais o
poder é distribuído assimetricamente. Essas desigualdades de
poder afetam a produção de textos, e consequentemente afetam
também a produção de sujeitos sociais. Como comenta Kress,
"através do contato com textos marcados por desigualdade de
poder, os sujeitos linguisticos/sociais são treinados a assumir certas
posições de poder nos textos que produzem e consomem"
(1989:449 — nossa tradução). A linguagem, vista aqui como uma
44
forma de ação social, nos treina a assumir certas posições em
nossa interação com textos. Esse treinamente linguistico (e social)
nos permite reconhecer como 'naturais' e não-problemáticos
textos tipicamente marcados por assimetrias de poder (como é o
caso dos textos jurídicos).
Kress chama estes textos 'padronizados' de "estruturas
genéricas"*. Para ele, formas genéricas, ou gêneros textuais, são
(1989:450):
o produto de sistemas ou padrões de relações de poder que possuem
uma certa estabilidade e persistência numa dada sociedade. Os gêneros
[textuais] são portanto códigos de relações de poder, e como tal tornam
acessíveis certas posições de poder aos [seus] participantes ... Estas
estruturas genéricas codificam relações de poder que são produzidas e
reproduzidas nas interações e eventos linguisticos.
No gênero textual "sentença", as posições de poder são
particularmente assimétricas: primeiro, entre o juiz e o réu;
segundo, entre o juiz e qualquer outra pessoa indiretamente
envolvida na interação legal, como mulheres vitimas de violência.
bastante óbvio que os produtores do discurso jurídico
detêm um alto grau de poder social. De acordo com van Dijk
(1996), poder social é a capacidade de um grupo ou grupos de
controlar as ações e a mente de outros grupos, e
consequentemente de limitar sua liberdade, ou de influenciar seu
conhecimento, atitudes e ideologias. 0 poder social pode ser
distribuído, ou pode ser restrito a certas areas, como a lei e a
ordem. Esta concentração de poder ajuda a criar o que van Dijk
(ibid) chama de 'centros' de poder, que são controlados por grupos
de elite. No caso de sistema jurídico, produtor do discurso jurídico,
o grupo de elite em controle é formado tipicamente por homens
brancos, de classe média ou alta.
* Aqui, o termo "gênero" tem um significado diferente daquele utilizado no restante
deste artigo. "Gênero" aqui significa tipo textual, ou seja, uma sentença representa
um gênero textual. A ambigüidade é resultado da tradução. Em inglês, duas palavras
distintas são utilizadas para estes dois conceitos: genre, ou gênero como tipo textual,
e gender, ou gênero como construção sócio-cultural que determina o comportamento/
identidade de homens e mulheres.
45
De forma a facilitar seu controle e reprodução, o poder
social é geralmente organizado e institucionalizado, como no caso
das sentenças. Vale lembrar que o fato de vivermos numa
sociedade marcada por estruturas de poder não significa que
não exista resistência ao poder social. Entretanto, o combate a
legislação descriminatória relativa à mulher, por exemplo, pode
resultar numa mudança da letra da lei', como já comentei, mas
não necessariamente numa mudança de valores sociais.
Van Dijk utiliza o conceito de 'acesso' para explicar as
estruturas de poder na sociedade. 0 autor argumenta que "o
poder baseia-se no acesso priviliegiado à recursos sociais valiosos,
como riqueza, empregos, status e, também, acesso privilegiado
ao discurso e comunicação públicas" (1996:85 nossa ênfase e
tradução).
0 discurso legal, por exemplo, é uma das formas de
discurso público que tem sido historicamente dominada
basicamente por homens.
As estruturas e estratégias de acesso ao discurso podem
ser estudadas através da investigação de perguntas como: "quem
controla a preparação, os participantes, os objetivos, a linguagem,
o gênero textual, os atos de fala, os tópicos, os esquemas, o estilo,
a retórica, entre outras características, dos eventos comunicativos.
Isto 6, quem pode/deve dizer o quê, para quem, como, em que
circunstâncias e com que efeitos sobre os receptores deste
discurso?" (van Dijk 1996:87 — nossa tradução).
0 acesso ao discurso público, como um dos recursos que
formam a base do poder de grupos sociais dominantes, é um
bem precioso para estes grupos. Acesso ao discurso público (e.g.
sentenças) significa acesso aos mecanismos de controle da
opinião pública. Ter mais acesso significa ter mais poder. Como
argumenta van Dijk, "a avaliação do grau de acesso ao discurso
pode ser um indicador bastante fiel do grau de poder de certos
grupos sociais e seus membros" (1996:86).
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Van Dijk (ibid) apresenta um esquema de acesso ao discurso
num julgamento, em termos de quem controla que aspectos do
julgamento. Tanto o veredito quanto a estruturação da sentença
são controlados pelo juiz. No que diz respeito ao poder social e
profissional dos juizes, van Dijk argumenta que o mesmo não
está limitado ao sistema jurídico ou ao discurso jurídico. Com
muita freqüência juizes tem acesso ao sistema educacional (como
professores, pesquisadores, palestrantes, autores de livros
didáticos), ou ao sistema politico ou econômico (no papel de
peritos legais). Como conseqüência, seu poder social é bastante
abrangente. Segundo van Dijk (1996:90):
Uma vez que os juizes são, em principio, quem decide sobre a liberdade
ou sobre questões de vida ou morte, as conseqüências de seu poder,
aparentemente moderado, podem ser enormes (...) Além da abrangência
de seu acesso ao discurso, o poder dos juizes também pode ser medido
através das conseqüências pessoais, sociais e políticas deste acesso. Na
verdade, no sistema jurídico, o discurso dos juizes pode ser a lei.
0 discurso jurídico, portanto, pode ser considerado um
exemplo de discurso dominante. Van Dijk (ibid) comenta que
uma das estratégias de discursos dominantes é definir o status
quo étnico (ou social) como natural, justo e inevitável. 0 discurso
jurídico, por exemplo, tenta naturalizar a violência masculina
contra as mulheres, e descrevê-la como uma parte quase inevitável
das relações de gênero. Para preservar a posição de poder
masculina, e ao mesmo tempo para desculpar o comportamento
violento de certos homens, outra estratégia encontrada em casos
de violência contra a mulher é uma reversão na atribuição de
responsabilidades. Nestes casos, as mulheres são muitas vezes
responsabilizadas pela violência que sofreram. Nos dois extratos
de sentenças brasileiras utilizados aqui como ilustração, o
comportamento das mulheres vitimas de violência masculina é
descrito como 'não-apropriado', e portanto como causador da
violência sofrida.
Outra característica dos discursos dominantes, também
presente no discurso jurídico, é a 'auto-justificação' (Wodak
47
1996). Através desta estratégia membros de grupos dominantes
(e.g. juizes) podem fazer julgamentos de valor e estabelecer culpa
ou responsabilidade para membros de grupos com pouco poder
social (e.g. mulheres vitimas de violência). De acordo com
Wodak, "o objetivo do discurso de auto-justificação (...) é permitir
que seu autor se apresente como alguém sem preconceitos (...)"
(ibid:117 nossa tradução). 0 uso desta estratégia, no caso do
discurso jurídico, ajuda a reforçar a noção comum de que os
textos jurídicos são imparciais e objetivos, uma vez que a mesma
ajuda a construir os produtores destes textos como pessoas sem
preconceitos.
A lingUistica critica acredita que toda instituição social
(como o sistema jurídico) ajuda a estabelecer, manter e propagar
ideologias sociais (Kress 1985:2). 0 termo ideologia está sendo
usado aqui como "um corpo coerente e sistemático de idéias
sobre o mundo social e as relações sociais" (Ballester et al.
1991:19).
Quando uma ideologia provém de um grupo social em
particular, a mesma pode ser chamada de ideologia dominante.
Simpson diz que "as ideologias dominantes são mediadas através
de instituições políticas ou sociais poderosas, como o governo, a
lei e a profissão médica. Nossa percepção destas instituições,
além disso, é moldada em parte pelas práticas lingUisticas
especificas dos grupos sociais que as dominam" (1993:5 nossa
tradução). Portanto, a forma como o discurso jurídico é construido
manipula nossa percepção do mesmo, levando-nos geralmente a
encarar este tipo discursivo como racional, objetivo e justo.
Conclusão
Para sintetizar, práticas lingUisticas produzem e são
produzidas por pi-Micas sociais. A linguagem legal é um bom
exemplo desta relação bi-direcional entre discurso e sociedade.
.Devido a seu acesso especial, e seu controle sobre, meios
discursivos e de comunicação, membros privilegiados do sistema
48
jurídico (e.g. juizes) podem influenciar estruturas textuais e,
conseqüentemente, podem também influenciar os valores, as
atitudes e as formas de comportamento dos recipientes dos textos
legais. Resistir a esta influência, como comenta van Dijk (1996:85
mossa tradução), não é tarefa fácil:
A menos que os leitores e ouvintes tenham acesso a informações
alternativas, ou disponham de recursos mentais para combater as
menssagens persuasivas, o resultado da tal manipulação [discursiva]
pode ser a formação de modelos preferenciais para situações especificas
[e.g. "crimes em defesa da honra", no Brasil], o que pode acabar sendo
generalizado para formas preferenciais de conhecimento, atitudes e
ideologias.
Se o grau de acesso ao discurso é uma boa medida do
poder social, é importante investigar a relação entre poder e
acesso (ou controle) às condições, propriedades e conseqüências
do discurso. Através desta investigação, a análise critica do
discurso pode contribuir para o processo de compreensão e
avaliação de estruturas de dominação política e social (van Dijk
1996).
Com base nas considerações teóricas tecidas anteriormente
afirmamos que uma investigação critica do discurso jurídico tem
dois objetivos principais. Em primeiro lugar, este tipo de análise
lingüística critica pode indicar se sentenças legais são realmente
textos objetivos, imparciais, justos e neutros como se costuma
pensar, ou se de fato este tipo textual reflete e reforça uma visão
masculina, parcial e descriminatória do mundo e das relações
de gênero.
No ponto de vista da Análise Critica do Discurso, nenhum
texto é neutro ou imparcial; os textos são vistos como
"personificações de uma série de práticas discursivas
institucionais e políticas" (Simpson 1991:106 — nossa tradução).
A análise critica do discurso jurídico pode desmistificar a aura de
objetividade e cientificidade que envolve os textos legais de uma
forma geral, e argumentar que sentenças, como outros textos,
representam pontos de vista institucionais e politicos (incluindo
49
pontos de vista sexistas). Nas palavras de Simpson, "uma vez que
códigos linguisticos específicos personificam realidades especificas,
nada na linguagem pode ser visto como verdadeiramente objetivo
ou neutro" (ibid:108 nossa tradução).
Além da análise linguistica em si, a investigação critica de
qualquer tipo textual deve ser também norteada por objetivos
politicos. Os textos que consumimos refletem os valores e crenças
da sociedade em que vivemos, e portanto influenciam nossa visão
de mundo e a forma como interagimos socialmente. Assim, é
extremamente importante assumir uma postura critica em relação
aos textos que lemos, e aqui a linguistica critica pode assumir
um papel significativo. Uma investigação linguistica critica pode
representar um primeiro passo num processo emancipatório, uma
vez que seus resultados podem nos ajudar a entender as formas
através das quais a linguagem contribui para processos de
controle e dominação social. Só podemos resistir e modificar
um sistema de opressão e dominação que opera através da
linguagem se estivermos conscientes dos conceitos e noções
naturalizadas, não-problematizadas, que se escondem por detrás
da linguagem (Fairclough 1989).
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