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UMBILICAL

Quando ele entrou em casa, eu estava na cozinha e não poderia


escutar o ruído de sua chave girando na fechadura, nem o
rangido da porta a se abrir, rascante como o da colher de pau no
fundo da panela na qual àquela hora ela fazia o molho para a
macarronada, porque as folhas da árvore no jardim zumbiam em
meus ouvidos com a ventania e, pelo cheiro da comida no ar, eu
logo pensei, A mãe deve estar acabando a janta, mas mesmo
assim, pela vibração nova que eu podia sentir na casa e o calor
que me subia pelo corpo, eu não tive dúvidas e concluí, Ele
chegou, e, sem precisar mover a cabeça, sabia que meu filho
atravessara a sala como tantos anos antes atravessara meu
ventre e vinha até a cozinha e me observava silenciosamente, e
ela de costas para mim, com aqueles grampos brilhando na
cabeça, que valiam mais que mil histórias, enfiados entre os cabelos grisalho, como os
espinhos que eu tantas vezes enfiara nos pés, mexia com a colher de pau o molho para
engrossá-lo, e se outras vezes, sobretudo em criança, quando aparecia de repente e,
vendo-me distraída, eu a assustava com minha presença súbita, agora eu sabia, pela
serenidade de seus movimentos que ela já havia dado pela minha presença, porque na
certa ele ignorava que uma mãe sempre sente quando um filho chega, e mais ainda se ele
chega partido, mesmo que lhe faltem todos os sentidos, e como não tinha porque dar as
costas para ele, virei-me e o vi me observando como tinha imaginado que estava e,
apesar de dar pela sua presença antes que chegassem a mim seus passos sufocados
pelas folhas da árvore no jardim que zumbiam com a ventania, estremeci, ao comparar
aquele com o que vivia eternamente em minha memória, e para tranquilizá-la eu disse
logo, Sou eu, mãe, e eu para agradá-lo respondi, Nem percebi você chegar, filho, como se
a cruz que eu arrastava a cada passo não produzisse marca nem rumor algum no
assoalho que ela encerava com tanto esmero, e, embora seu semblante parecesse calmo,
eu podia ler muito além de seu rosto ensombrecido pela barba malfeita a agitação que lhe
ia por dentro e nem precisava me dizer o que eu já sabia, que eu mais uma vez não
conseguira emprego e fingia uma indiferença que ela não deixaria de perceber, e eu bem
sabia que ele dissimulava não se preocupar com mais uma derrota, e, mesmo assim, eu
perguntei-lhe para esmagar o silêncio entre nós, como há pouco esmagara os dentes de
alho para o molho, Como foi a entrevista?, e ele respondeu-me com a artimanha dos filhos
que desejam poupar a mãe de seus malogros, Foi boa, mas não tenho perfil para o cargo,
e num nítido esforço de me dar esperanças mais do que ele mesmo acreditava, inventou,
Talvez me chamem para uma outra vaga, sem se dar conta de que, entre nós dois, era eu
quem mais vivia de dar esperanças, e, então, eu lhe disse, Vai tomar seu banho, vou
colocar o macarrão para cozinhar, e eu não disse nada e mesmo se o dissesse ela não
escutaria, porque a ventania aumentara e os galhos da árvore estrondavam no telhado, e
ele foi, mais obediente e do que quando dependia de mim para lavá-lo, e pensei nela,
enquanto entrava no boxe e sentia a água cair sobre meus cabelos, no quanto devia
sofrer por eu não ser um vencedor, como os filhos da vizinha, e eu ouvia o zumbido da
ventania lutando com o barulho do chuveiro e o rumorejar da água engrossada pela
espuma do sabonete e da sujeira que grudara no corpo dele e, provando o molho de
tomate, percebi que faltava sal, assim como sobravam trevas nos meus olhos, quando na
cama, me punha a pensar no fruto que ela gerara, mas que ninguém queria, talvez
porque, não houvesse mais espaço no mundo para os delicados, e, fechando os olhos, eu
lembrei de repente de uma tarde em que eu e la, andando pela rua, fomos surpreendidos
pela chuva ecorremos juntos até o beiral de um edifício e, a cada passo, ríamos de
felicidade, ríamos por estarmos ensopados, e então coloquei a água com óleo para ferver,
parei o pacote de macarrão e ralei o pedaço de queijo que sobrara, quase só casca, mas
ele nem perceberia, e então notei que enfim a chuva caia e pensei que um não a mais
não o abalaria, e recordei aquela tarde, ele ainda batia em meus quadris e eu podia tê-lo,
bastava estender a mão, e a tempestade nos surpreendeu a meio caminho e corremos, e
eu irritada com o que o destino nos reservava e ele começou a rir e me ensinou o que eu
deveria ter ensinado a ele, o que parecia uma perseguição era em verdade uma bênção, e
a água escorria pela minha cabeça, e eu comecei a rir também como ele, a gargalhar, e
mal conseguíamos respirar quando nos abrigamos sob um beiral, e parecia que
voltávamos a ser um só corpo, o fio se reatara, e eu estava ligado novamente nela para
sempre e desliguei a torneira do chuveiro e vi que me esquecera de pegar a toalha, e eu a
deixei pendurada na maçaneta da porta e disse, A toalha está aqui, filho, e ouvi seus
passos no corredor e sua voz. longe, abafada pela zoeira do vento e o chiado da chuva, A
toalha está aqui, filho, e eu ia dizer, Obrigado, mãe, mas apenas falei no volume suficiente
para que ela ouvisse, Tá bom, e abri a porta e apanhei-a, a mesma toalha azul, já
desbotada, que ela alternava com a branca, ainda felpuda e com goma, e, enquanto me
enxugava, encompridei os olhos pela fresta do vitrô e vi, entre a escuridão do quintal, uma
sombra mais negra a se mover e apanhar outras sombras menores que flutuavam e
imaginei que ela recolhia umas mudas de roupas no varal, essas camisetas quase secas
dele e agora ensopadas, Deus, como não percebi que choveria, e umas calcinhas cor da
pele, as suas saias de tons tristes, os panos de prato rasgados, e depois os pendurei na
área coberta, e vi as sombras menores novamente flutuando, agora em outro lugar e a
sombra dela imóvel, como se observando à contraluz as gotas da chuva como agulhas a
cair na grama do quintal, feliz com aquela bênção inesperada, e fiquei um instante a ver o
céu coberto pelo véu das águas, a procurar as estrelas e, se era difícil encontrá-las, mais
dificil seria captar a massa opaca de seus satélites, que elas moviam com os cordões de
sua gravidade, e senti a grandeza de seu silêncio e a dor de sua inércia, e desci os olhos
do espaço sideral em tumulto para o meu firmamento e vi a janela do banheiro acesa e a
sua sombra movimentando-se, na certa ele estava se enxugando e logo iria se enrolar na
toalha e sair pelo corredor, e me enrolei na toalha, apaguei a luz e atravessei o corredor
às escuras, o rumor dos galhos vergando-se e batendo no telhado com a força do vento, e
entraria no quarto e se deitaria na cama para descansar alguns minutos antes de me
levantar e me vestir, e então me apressei e voltei à cozinha, coloquei os fios do macarrão
na água fervente e mexi-os para que se separassem e pudessem cozinhar melhor, e,
enquanto esperava, conferi se a mesa estava posta com o que ele gostava, e peguei a
garrafa com o que restara do vinho que eu abrira dias antes, e embrulhei o pão no pano
para que não amolecesse com a umidade, e ouvi o burburinho em meu ventre, eu não
comera nada depois do almoço, e pensei no pão que a mãe na certa tinha comprado, o
pão que eu não conseguia ganhar com o suor de meu rosto, pois toda tarde eu descia a
ladeira e atravessava a rua de terra e ia do outro lado esperar na fila da padaria a última
fornada e comprava as duas bisnagas que ele devoraria, arrancando o miolo, roendo a
casca crocante, o pão quente que, às vezes, com o embrulho de encontro a meu peito, eu
sentia queimar-me, como os lábios dele me ardiam quando o amamentei, e eu sabia que
o pão também enchia sua boca de saliva e dizia, Hoje vou comer um só, pega esse outro,
mãe, e ela mentia, Não, filho, pode comer, não quero, não, comprei pra você, e eu me
sentia feliz em poder dar a ele o que eu mais queria, e vê-lo saciar sua fome, enquanto a
minha não era difícil de enganar, e depois eu a via ciscar as migalhas antes de unir a
toalha pelas pontas e sacudi-la no quintal, e ouvi o vento fustigando os galhos no te-Ihado
e imaginei as folhas lutando, sem poder vencer a força das águas, como eu diante de um
mundo que me negava construir algo com a força de minhas mãos, a vontade do meu
sangue, o sal de minhas lágrimas, e, como sabia que ele estava mais abatido que noutros
dias, sem ter como desenrolar o fio de Ariadne para sair do labirinto, fui eu mesma
recolhendo o novelo para ele, e eu me senti de repente atraída por algo que era meu mas
há muito despregara-se de meu corpo, como a árvore talvez sinta a ausência da folha que
dela se soltou e, apesar de o macarrão ainda não estar pronto, fui em direção a seu
quarto, chamá-lo para a vida, e no escuro, ouvindo o rumor da chuva e das folhas
varrendo as telhas com a força da ventania, de olhos fechados para outra escuridão,
percebi que ela se acercava da porta, e eu disse, Venha filho, já está quase pronto, e eu
abri os olhos e não me movi, como quem desperta para a última ceia e procura ganhar
tempo, um tempo que de nada adiantará, mas que é vida, e falei, Estou indo, mãe, e eu
permaneci à porta um instante, pensando que haviam cortado o cordão que o ligava a
mim na noite de seu nascimento, mas que um fio muito mais espesso e invisível nos
atava, e eu fechei novamente os olhos e pensei no mundo ao qual ela me trouxera, e no
seu primeiro choro, atônito, com a explosão de luz aqui fora, e não sei por que, vendo-o
ali, quieto, na escuri-dão, eu sabia que ele segurava o choro e que não podia mais trazê-lo
para dentro de meu ventre, lá estava ele, repleto, nos meus vazios, e engoli de uma vez
só o silêncio, e repeti, Venha, e ergui-me, e fui, e eu o movi sem mais palavras, com o
sopro suave de minha esperança, ouvindo o ímpeto da ventania lá fora vergando os
galhos da árvore sobre o telhado, o rumor do tempo-ral, e pensei que, às vezes, a
semente tarda a crescer porque cai na sombra da própria árvore que a gerou, mas eu
sabia que a chuva poderia carregá-la até onde o sol a nutrisse, e sentei-me à mesa, e
coloquei à sua frente a travessa de macarrão com o molho grosso, e vi os dedos longos e
peludos dele abrindo o pano no qual eu embrulhara as bisnagas, e eu peguei um pedaço
de pão, despejei o vinho no seu copo, as mãos dela num gesto solene, e sentei-me diante
do meu filho, e ergui a cabeça e mirei minha mãe.

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