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PONTIFICIA UNIVERSIDADE CATOLICA DO RIO GRANDE DO SUL
DIREITO ECLESIAL
Introdução ao estudo do Direito da Igreja
CARLOS J. M. STEFFEN
05/03/2013
APONTAMENTOS DE AULA
ESQUEMA
PARTE I: INTRODUÇÃO AO DIREITO CANONICO
1.1 IGREJA E DIREITO
01 – O Direito
02 – O Direito na Igreja
03 – A missão da Igreja e a comunidade humana
1.2 HISTORIA DO DIREITO CANONICO
04 – O primeiro milênio
05 – Do sistema de direito canônico ao CIC 1917
06 – O Concílio Vaticano II e a nova codificação
1.3 NOÇÕES GERAIS
07 – Relações jurídicas e sujeitos de direito
08 – Normas canônicas
09 – Atos jurídicos
PARTE II: O POVO DE DEUS
2.1 FIEIS CRISTÃOS
10 – A incorporação ao povo de Deus e a comunhão com a Igreja
11 – A igualdade fundamental dos fiéis cristãos
12 – A diversidade na Igreja
13 – As associações de fiéis cristãos
14 – Institutos de vida consagrada e Sociedades de vida apostólica
2.2 PODER ECLESIASTICO
15 – O sacramento da ordem e o poder de regime
16 – Formas de atribuição e exercício do poder de regime
2.3 ORGANIZAÇÃO ECLESIASTICA
17 – A organização eclesiástica
18 – A organização da Igreja universal
19 – A organização da Igreja em circunscrições eclesiásticas
20 – A organização interna das dioceses
21 – A organização particular supradiocesana
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
PARTE III: A MISSÃO DA IGREJA
3.1 FUNÇÃO DE ENSINAR
22 – A função de ensinar e o Magistério eclesiástico
23 – A atividade evangelizadora
24 – A educação católica e a comunicação social
3.2 FUNÇÃO DE SANTIFICAR
25 – A função de santificar, liturgia e sacramentos
26 – O sacramento do batismo
27 – O sacramento da confirmação
28 – O sacramento da Eucaristia
29 – Os sacramentos da cura
30 – O sacramento da ordem
31 – O matrimônio, instituição natural e sacramento da nova aliança
32 – O regime canônico do matrimônio
33 – Outros atos de culto divino; lugares e tempos sagrados
3.3 ASPECTOS PARTICULARES DA FUNÇÃO DE REGER
34 – Os bens temporais da Igreja
35 – A tutela penal da comunhão eclesial
36 – A administração da justiça na Igreja
37 – Os processos canônicos e o sistema de justiça administrativa
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
BIBLIOGRAFIA
Introdução
CAPPELLINI, E. (org.). Problemas e perspectivas de Direito canônico. São Paulo,
Loyola, 1995.
GHIRLANDA, G. Introdução ao Direito Eclesial. São Paulo, Loyola, 1998.
GHIRLANDA, G. O Direito na Igreja, mistério de comunhão. Aparecida, Santuário,
2003.
GONÇALVES, M. L. M. Introdução ao Direito Canônico. 2ª ed. Petrópolis, Vozes,
2004.
HERVADA, J. O que é o Direito? A moderna resposta do realismo jurídico. São Paulo:
WMF Martins Fontes, 2006.
LOMBARDIA, P. Lições de Direito Canônico. São Paulo, Loyola, 2008.
PRISCO, J. J.; CORTES DIEGUEZ, M. M. (coord.). Derecho Canónico. Madrid, BAC,
2006, 2 v.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
CONCEITO DE DIREITO
O jurista é o homem do direito. O saber do jurista é a ciência do direito.
A ciência do direito é uma ciência prática. É uma arte. É saber fazer diversas
coisas.
A função do jurista é indicar o justo. É determinar o justo. O justo é o direito. O
injusto é a lesão do direito.
Na vida em sociedade, as coisas estão repartidas.
Alguns afirmam que a escassez das coisas faz com que elas sejam disputadas
pelas pessoas. Daí a necessidade de designá-las a certas pessoas e não a outras. No
entanto, essa posição não parece correta. Suponhamos que haja superabundância de
alimentos e que todos pudessem pegar o quanto quisesse. Mesmo assim, cada pessoa se
apropriaria de uma determinada quantidade de alimentos. Por haver superabundância,
não haveria conflitos, mas haveria atribuição.
A pessoa humana é um ser finito. A sociedade humana é finita. Isso exige uma
divisão de funções e tarefas. Não é possível ser ao mesmo tempo padeiro, barbeiro,
taxista, prefeito da cidade, governador do Estado e presidente da República. A vida
humana exige que as coisas (bens, funções e obrigações) estejam repartidas.
Se as coisas estão repartidas, nem tudo é de todos. Por necessidade social.
Suponhamos que tudo fosse de todos. O que aconteceria? Se as moradias não tivessem
distribuídas e repartidas, cada qual poderia invadir a que bem desejasse. E assim por
diante. Imperaria a lei do mais forte. O desenvolvimento normal da vida em sociedade
pede que exista certa atribuição das coisas, que nem tudo seja de todos. Pelo menos, no
sentido de respeitar o pacífico uso das coisas. Nem que seja uma mínima atribuição.
Por exemplo: quando um cidadão se senta em um banco, em uma praça pública,
outro cidadão não pode tirá-lo de lá para sentar-se. A pessoa tem que, pelo menos, poder
dizer que, enquanto está sentado em um banco público, o estar sentado é algo seu,
atribuído a ela e, portanto, é direito seu.
O direito surge com o fato de que as coisas estão repartidas.
Observação: Onde há sociedade (seja capitalista, seja socialista), há direito.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Quando o direito é considerado como lei, o princípio não é o da repartição das
coisas, mas o da ordenação das condutas.
Regular a vida em sociedade não é função do jurista, mas do governante. Por
isso, as leis não são feitas pelos órgãos judiciais, mas pelos órgãos políticos: o
parlamento, o governo ou o próprio povo (por costume, plebiscito ou referendo).
Ordenar condutas sociais é arte política. Construir a sociedade conforme a justiça, a
liberdade e a solidariedade faz parte da arte da política.
A função do jurista é mais modesta. Quando um cidadão entra com uma
demanda perante o juiz ou tribunal, não fala em termos de “sociedade justa e solidária”,
mas os termos são bem delimitados.
Por exemplo:
Objeção: A finalidade da arte do direito é a ordem social justa? Sim, desde que
se entenda por “ordem social justa” o estado da sociedade em que cada qual tem o seu e
o usa sem interferências.
O que é a justiça?
Os juristas romanos definiram a justiça como dar a cada um o que é seu ou
também dar a cada um seu direito. Essa definição não é utópica, imprecisa ou vazia de
conteúdo. Não é absurda ou tautológica como afirmam alguns filósofos.
Tautologia: repetição inútil da mesma idéia em termos diferentes; redundância,
pleonasmo.
Apesar das incompreensões, a justiça, definida como dar a cada um o que é seu,
é prática e realista. Aristóteles chegou a dizer que a virtude era mais brilhante que a
estrela da manhã. Essa justiça, que parece tão modesta e humilde, é aquela justiça cujo
fruto é a paz, como afirma o profeta Isaías (cf. Is 32,17). A paz tão desejada pelos
homens de todas as épocas. Quando cada pessoa, cada coletividade, cada povo, cada
nação têm seus direitos reconhecidos e respeitados, o que acontece? Reina a paz.
A fórmula “a justiça é dar a cada um o que é seu” tem um segredo. Esse
segredo era conhecido por Aristóteles, pelos juristas romanos e pelos juristas em geral,
até que no século XIX aparecem os positivistas, ou seja, aqueles que negam que o
homem tenha direitos inerentes a sua condição de pessoa. Esse segredo é o direito
natural.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
O segredo da fórmula da justiça está no direito natural, porque sem o direito
natural, restam apenas os direitos concedidos pelas leis determinadas pelos homens.
Então a justiça estaria reduzida a dar à pessoa esses direitos. Ora, são evidentes as
insuficiências e as injustiças observadas em tantas leis humanas (divórcio, aborto,
absolutização da propriedade privada). A insuficiência e a injustiça de uma lei são
medidas por sua adequação ao direito natural. Sem o direito natural, se perde a
referência para julgar as leis.
O direito é o justo.
O direito natural é o justo por natureza.
A justiça é a virtude de dar a cada um o que é seu.
A justiça sucede ao direito, não o antecede (direito + justiça).
A justiça é posterior ao direito, no sentido de que age com relação ao direito
existente.
Por exemplo:
Outro exemplo:
Observação:
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
A igualdade
A virtude da justiça costuma ser representada como uma mulher com os olhos
vendados e uma balança na mão com os pratos equilibrados. Os olhos vendados e o fiel
da balança reto são dois símbolos de que a justiça trata todos por igual.
Todos são tratados igualmente, porque a todos é dado o que lhes corresponde.
A igualdade da justiça tem um primeiro aspecto representado pelos olhos
vendados: a justiça não discrimina, ou seja, não faz acepção de pessoas. A justiça não
presta atenção na pessoa (na condição social da pessoa), mas no direito de cada um. Não
atende mais ao rico que ao pobre. Não determina postos de trabalho por favoritismo,
mas por competência. Não atende a simpatias ou antipatias. Não tem duas medidas.
Por exemplo:
Outro aspecto da igualdade, representado pelo fiel da balança, é que a justiça não
dá a todos as mesmas coisas, mas sim a cada um o que é seu. O peso a ser posto em
prato deve estar de acordo com a quantidade colocada no outro, para igualar o fiel da
balança.
Por exemplo:
O justo é tratar todos igualmente no que são iguais e de modo diferente no que
são diferentes. Dar a cada um o que é seu é a expressão exata da igualdade justa:
tratamento igual no que for igual (dignidade) e tratamento proporcional no que for
diferente (idade, resistência física).
Essa igualdade é a que fundamente em bases sólidas a vida em sociedade
(convivência humana).
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Objeção: Se a justiça consiste em dar a cada um seu direito e o direito preexiste
à justiça, como dar algo a quem já tem? Se tem, como dá-lo?
Essa pergunta foi feita por Kant.
A resposta: A justiça não consiste em criar ou outorgar direitos, mas em dar, isto
é, devolver, restituir, compensar, quando eles forem afetados ou lesados.
O direito é uma coisa, que recebe esse nome na medida em que é atribuída a uma
pessoa. Por exemplo: É direito meu a casa, que comprei ou recebi de herança. É direito
meu o uso eventual de um parque público para passear por ele.
Ora, as coisas podem deixar de estar dentro da esfera de poder de seu titular.
Por exemplo:
O ato de criar ou outorgar o direito (o que pressupõe a sua inexistência anterior)
não é de justiça, mas de domínio ou de poder. A justiça é um ato secundário, porque
pressupõe o ato primário que constitui o direito.
Se a atual divisão de bens na sociedade tem aspectos injustos, isso se deve ao
fato de que nós, homens, dividimos as coisas contrariando alguns direitos preexistentes:
os que compõem o direito natural. A justiça por si só não reparte as coisas, mas
pressupõe uma divisão já estabelecida pela natureza, por lei humana ou por pacto social.
A justiça não consiste em dar a cada qual o que necessita, nem o que leva à
felicidade. A justiça dá a cada qual o que é seu. Nada mais. Nem menos.
A conclusão que daí se tira: a sociedade justa não é um ideal a ser buscado; a
justiça não é uma meta a ser almejada, meta que traga a felicidade dos homens.
É preciso trabalhar para que a sociedade seja justa. Entre os meios desse trabalho
está a arte do direito, mas o principal é a ação política. Uma sociedade somente justa é
uma sociedade insuportável, porque se à pessoa é dado apenas o justo, não haverá
amizade, afeto, liberalidade, ajuda, solidariedade. Não é a justiça que justifica um
compromisso pela transformação da sociedade, mas o amor às pessoas. A fraternidade,
a doação aos outros, o sacrifício de si mesmo, são compromissos que vale a pena
assumir, sobretudo se esse amor tem sua raiz no amor a Deus. A justiça é o mínimo a
que todos estamos obrigados nas relações sociais. E o mínimo não pode ser um ideal.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
O direito
O direito subjetivo: faculdade de fazer, omitir ou exigir algo.
É necessário esclarecer a noção de direito subjetivo, por quatro motivos:
a) Para defender a própria reputação;
b) Por lealdade com os estudantes de Direito;
c) Para contribuir com a causa dos marginalizados;
d) Por que o direito é o objeto da justiça e o que a justiça dá são coisas.
Coisas externas
O direito é a coisa que, por estar atribuída a um sujeito, lhe é devida em justiça.
Que tipo de coisas podem ser direitos? Podem ser coisas materiais (casas, áreas
de terra, produtos agrícolas, objetos de arte) e podem ser coisas imateriais (cargos,
poderes, faculdades). Todas elas, no entanto, devem ter uma característica: ser coisas
externas, que em si ou em suas manifestações saiam da esfera íntima do sujeito. A razão
é seguinte: como a justiça consiste em dar o que corresponde ao direito, apenas se a
coisa própria de alguém puder ser objeto de atividade por parte dos demais, poderá ser
objeto da justiça. O que permanece na consciência, os pensamentos e sentimentos das
pessoas, não entram nas relações com os outros e, conseqüentemente, não são objeto da
virtude da justiça.
A razão de dívida
A coisa se constitui em direito por sua condição de devida, por recair sobre ela
uma dívida em sentido estrito.
Objeção: essa afirmação é pouco exata, porque parece que dever e direito são
coisas contrárias. Parece melhor que a coisa é direito porque está atribuída a um sujeito,
independentemente de que outro lhe deva essa coisa. Por exemplo: meu computador é
direito meu, tanto quando o tenho em meu poder, quanto quando, por tê-lo emprestado,
me é devido por outro.
Resposta: para bem compreender esse aspecto do direito é preciso lembrar que
uma coisa é direito não sob a perspectiva do domínio, mas sob a perspectiva da justiça.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Por exemplo:
Quando começa a razão de direito dessas coisas?
Para compreender o que é a justiça, não se assume a perspectiva do titular do
direito diante das coisas que lhe são atribuídas, mas a perspectiva dos outros perante
essas coisas. Perante os outros, o que aparece é a dívida de respeito, de restituição, de
compensação... Nesse sentido, meu computador é direito meu, tanto se está em meu
poder quanto se o emprestei. Se está em meu poder, é direito meu, sendo que os outros
devem respeitar meu domínio sobre ele. Se perdesse toda possibilidade de
relacionamento com os outros, continuaria dominando o computador e usando-o, mas
chamá-lo de direito seria uma denominação sem significado específico.
Justamente porque o direito se origina da perspectiva da justiça e, em
conseqüência, da perspectiva dos outros, o direito é antes devido que exigível. Para ser
justo, não é preciso esperar que o outro exija o respeito, a restituição, a compensação. A
justiça não espera a exigência, mas dá as coisas quando deve dá-las, sem esperar que o
titular do direito tenha que exercer sua faculdade de exigi-las.
A justiça é dar a cada um o que é seu. O termo “seu” significa genericamente
atribuição, englobando desse modo, todas as formas de atribuição.
Por exemplo: quando alguém fala de seu apartamento, não quer dizer
necessariamente que seja o proprietário. Pode ter o apartamento por aluguel. As coisas
estão atribuídas às pessoas de maneiras muito diferentes, por conseqüência, há muitos
tipos de direitos.
A variedade de direitos
Direito divino e direito humano.
Direito natural e direito positivo.
Direito objetivo e direito subjetivo.
Direito secular e direito eclesial.
Direitos humanos e direitos dos fiéis cristãos.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
O título e a medida do direito
A arte do direito tem por objeto dizer o direito (iuris dictio). Determinar os
direitos das pessoas e sua extensão. Determinar o título e a medida do direito.
O título é o que causa a atribuição da coisa a um determinado sujeito. Há muitos
tipos de títulos. Podem ser resumidos na natureza humana, na lei, no costume e nos
pactos ou contratos.
A primeira coisa que se deve observar para saber se algo é direito é o título.
Como o direito é o justo, para saber quando algo é justo, deve-se chegar ao título. Se
não houver título, por mais que se diga que “isso é justo”, não é verdade. O jurista
distingue cuidadosamente o justo do desejável. O desejável ou o conveniente não se
identificam necessariamente com o justo.
Por exemplo:
Não se deve confundir o justo com o desejável, nem com as lícitas aspirações a
uma vida melhor. Sendo assim, a justiça é suficiente para uma vida em sociedade mais
humana? Não! A justiça sozinha torna insuportável a sociedade, mas isso não legitima
confundir as coisas. O jurista sabe disso, por isso, diante da invocação do justo, pede o
título. Se não se comprova o título, o jurista, enquanto jurista, não toma parte do
assunto.
Junto com o título, o jurista deve conhecer a medida do direito. Não existem
direitos ilimitados, nem todos os direitos são iguais.
A medida do direito é a delimitação intrínseca e extrínseca do direito. Consiste
na delimitação da coisa: sua qualidade, sua quantidade, seu valor, sua natureza.
Por exemplo:
O direito é a coisa que, em virtude de um título e segundo uma medida, pertence
a um sujeito como sua e lhe é devida com dívida em sentido estrito.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
O fundamento do direito é aquilo em cuja virtude um sujeito pode ser sujeito de
direito ou de determinados direitos. O fundamento possibilita ser titular de um direito,
mas não outorga o direito, o qual nasce com o título. Essa distinção é importante,
porque existem aqueles que confundem fundamento e título do direito. Por ter o
fundamento, há quem julgue já ter o direito. O que é errôneo. Quem tem o fundamento
do direito, nem por isso tem o direito. Por fundamento do direito, se entende aquilo em
virtude do que o sujeito tem possibilidade de possuir o título.
Por exemplo: Para ser presidente da República, segundo o art. 77 § 2º da
Constituição brasileira, é preciso ser registrado por partido político e ser eleito por
maioria absoluta de votos, não computados os em branco e os nulos. A condição de
registrado por partido político é o fundamento do direito de ser presidente. O título é o
citado artigo da Constituição da República Federativa do Brasil (1988).
O fundamento do direito pode ser próximo, mediato e último.
O fundamento último de todo direito (natural ou positivo) é a personalidade
humana, a condição pessoal do homem. A personalidade corresponde à própria essência
do homem, enquanto princípio de operação. O fundamento último de todo direito é,
portanto, a natureza humana.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Direito natural e direito positivo
A distinção: dois tipos de direito
O direito positivo
O direito natural
Os direitos mistos
A conexão entre direito natural e direito positivo
Dois tipos de direito: O direito é em parte natural e em parte positivo.
O direito positivo: por direito positivo se entende todo direito cujo título e cuja
medida devem sua origem à vontade humana, seja pela lei, pelo costume ou pelo
contrato. O que significa a existência do direito positivo? Significa que há coisas cuja
atribuição é obra da vontade humana. As relações humanas comportam uma constante
mudança de coisas, que supõe uma contínua redistribuição de bens.
Os limites do direito positivo: positivo quer dizer posto, ou seja, instituído pelo
homem. A capacidade do homem para constituir e regular direitos é limitada. O homem
pode constituir direitos e regulá-los na esfera do indiferente no que se refere à justiça.
Por exemplo:
Por exemplo:
O direito natural: por direito natural se entende todo direito cujo título é a
natureza humana e cuja medida é a natureza do homem ou a natureza das coisas.
Teoria relativista: os delinqüentes não cometem nada de ruim em si, mas fazem
coisas que outros acham que são más. Se são castigados com penas, o castigo não é
merecido em sentido próprio, mas apenas representa uma reação agressiva da maioria.
Ora, há coisas que são justas em si e coisas, em si, injustas. Esse é o ponto-chave do
direito natural. O direito natural é o que é justo por si mesmo, o não-indiferente.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
O título do direito natural: a pessoa humana é titular de direitos e a natureza
humana é fundamento e critério desses direitos. Isso é conhecido pela reta razão.
Existem bens que constituem o ser e os fins naturais do homem (vida, integridade física,
saúde, liberdade religiosa...). Esses bens são direitos naturais. Além deles, existem
outros direitos naturais.
O direito natural é o mesmo em todos os homens e em todos os lugares.
A medida do direito natural: os direitos naturais têm como título a natureza
humana ou a natureza das coisas. A primeira se refere ao ser do homem e a seus fins. A
segunda engloba o ser, as qualidades, as quantidades das coisas.
Por exemplo:
Os direitos mistos: Existem os direitos mistos, ou seja, aqueles cujo título é
natural e sua medida concreta é positiva, e vice-versa.
Por exemplo:
Outro exemplo de direito misto:
É de direito natural que quem trabalhou normalmente durante sua vida, ao
chegar o momento de se aposentar do trabalho, receba o conveniente para viver. As
pensões são uma forma positiva de cumprir um dever natural. A dívida é natural quanto
a sua raiz; é positiva quanto à forma como é paga.
A medida do direito de receber a pensão (a quantia exata de dinheiro a receber)
não é determinada pelo direito natural, mas pelo direito positivo. É o Estado que
determina a quantia de seus recursos destinados às pensões e como dividir esses
recursos entre os pensionistas. O justo (o que o pensionista deve receber) está
determinado pelo direito positivo. O pensionista tem direito a essa quantia e nada mais.
O que acontece se essas pensões são insuficientes? Primeiro: essa obrigação não
recai primeiramente sobre o Estado, mas sobre a sociedade. Essa tem o dever de chegar
onde o Estado não chega. Os familiares devem ajudar o pensionista. Segundo: Se
considerarmos que a Previdência social assuma toda a carga. Não há nenhuma forma de
cumprir essa obrigação prescrita pelo direito natural. Essa solução é uma legítima
aspiração, não um direito em sentido estrito. O modo de conseguir que essa aspiração
se transforme em direito é o próprio das legítimas aspirações: os meios políticos
(petições, manifestações, campanhas na mídia).
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
A conexão entre direito natural e direito positivo: o direito positivo é
inexplicável sem o direito natural. Sem o direito natural, o direito positivo não tem o
pressuposto necessário de existência. Isso se fundamenta no seguinte princípio: todo
fato cultural depende de dados naturais. Tudo o que o homem faz ou inventa requer uma
capacidade natural da mesma ordem do fato cultural.
Por exemplo:
Daí a conclusão: se nada houvesse de jurídico natural, nada haveria de jurídico
cultural. O fato jurídico positivo (cultural) se apóia em uma juridicidade natural. Se
existe o direito positivo, é evidente que a pessoa humana é naturalmente sujeito de
direito. O homem, por ser pessoa, é titular de direitos naturais.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
As leis
A lei regula e ordena as relações entre os homens. É uma norma da vida em
sociedade. Em primeiro lugar, é uma regra obrigatória. Obedecer à lei pertence ao
dever. Em segundo lugar, tem caráter geral. Uma lei é uma regra obrigatória que tem
caráter geral. Geral não significa que se refere a todos os cidadãos, mas que está
destinada a um conjunto mais ou menos amplo de pessoas.
As leis indicam o que em justiça devemos à sociedade.
A sociedade tem deveres para com seus cidadãos: nós, ao fazer parte da
sociedade, temos o direito a que os bens sociais sejam desfrutados por todos segundo
critérios justos e de acordo com regras legitimamente estabelecidas. Esse tipo de justiça
chama-se justiça distributiva.
Os cidadãos têm deveres de justiça com relação à sociedade e ao Estado. A
sociedade tem direito a que nós, cidadãos, assumamos nossos deveres de justiça para
com ela, a que respeitemos os direitos da sociedade em relação aos cidadãos. Esse tipo
de justiça chama-se justiça legal.
Portanto, há deveres de justiça:
a) Dos cidadãos entre si (justiça comutativa);
b) Da sociedade para com os cidadãos (justiça distributiva);
c) Dos cidadãos para com a sociedade (justiça legal).
Como a sociedade é a união de todos, o que cada um deve à sociedade é sua cota
de participação na obtenção do bem comum. A parte que cada um deve pôr para que a
sociedade obtenha o bem comum é o direito da sociedade e o dever de justiça de cada
cidadão.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
A relação entre direito e lei
A lei é causa e medida do direito.
A primeira função da lei é a de ser causa do direito. Embora existam outras
coisas que também podem ser causa do direito (natureza humana, contratos), a lei
escrita e não escrita (costumes) é um meio pelo qual certas coisas são atribuídas a
determinados sujeitos. As leis repartem as coisas com títulos de atribuição, que têm
caráter de exigência e de dívida, ou seja, criam direitos.
A segunda função da lei é a de ser medida do direito. Ser medida equivale a ser
norma ou regra do direito. A lei regula os direitos e o modo de usá-los, isto é, indica
seus limites, prescreve pressupostos de capacidade, estabelece sistemas de garantias e
assim por diante.
O jurista não simplesmente um funcionário da lei, mas um servidor da justiça em
favor da sociedade.
As leis
A lei na sociedade
As leis e o homem
A lei natural e a lei positiva
O conteúdo da lei natural
A índole normativa da natureza humana
A função da lei natural
O conhecimento da lei natural
A universalidade da lei natural
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Resumo
Direito objetivo: a coisa justa (res iusta) devida a outro, segundo uma relação de
igualdade.
Direito subjetivo: faculdade jurídica de exigir algo, mediante ação processual.
Ordenamento jurídico: conjunto de fatores que integram a estrutura jurídica da
sociedade. Esses fatores podem ser classificados em dois tipos fundamentais: os
elementos e os momentos do direito.
a) Os elementos do direito são aqueles que integram a relação jurídica: sujeitos,
conteúdo, vínculo.
b) Os momentos do direito são aqueles que incidem na regulação, criação,
modificação e extinção das relações jurídicas: normas, sentenças judiciais,
atos administrativos, negócios jurídicos.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
PARTE I - INTRODUÇÃO
IGREJA E DIREITO
O DIREITO COMO ORDEM SOCIAL JUSTA
O Direito como fenômeno social e humano
Conceito de sociedade:
Uma sociedade é um conjunto de pessoas ligadas de maneira
orgânica por um princípio de unidade que ultrapassa cada uma delas.
Assembléia ao mesmo tempo visível e espiritual, uma sociedade
perdura no tempo; ela recolhe o passado e prepara o futuro. Por ela,
cada homem é constituído "herdeiro", recebe "talentos" que enriquecem
sua identidade e com os quais deve produzir frutos. Com justa razão,
deve cada qual dedicar-se às comunidades de que faz parte e respeitar as
autoridades encarregadas do bem comum (CCE 1880).
Quais são os diversos elementos desse conceito? Pessoas, princípio de unidade,
finalidade, autoridade, bem comum.
O Direito e a justiça
Há uma relação essencial entre direito e justiça. O Direito designa o objeto da
justiça, virtude que consiste em dar a cada um o seu (suum cuique tribuere).
O direito (ius) = o justo, o seu, a coisa justa (res iusta).
Por isso, realismo jurídico.
Características próprias do Direito
1. Igualdade:
2. Intersubjetividade (alteridade):
3. Exterioridade:
4. Exigibilidade: Procede da autoridade que governa a sociedade; interpela a
pessoa para mover a sua vontade.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Fins e funções do Direito
O Direito estrutura segundo a justiça as relações humanas intersubjetivas.
A decadência da atividade jurídica na sociedade provoca desordem, ineficácia e
proliferação de abusos ou situações injustas.
Dinamicidade e estabilidade do Direito
A ordem buscada pelo direito não é uma coisa estática, nem algo acabado e
perfeito. Como a vida social que ordena, supõe um dinamismo contínuo. O direito
constitui um processo de realização. Um ordenamento jurídico que não se renovasse
perderia utilidade.
Direito e moral
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
O positivismo jurídico:
Corrente de pensamento jurídico que possui os seguintes traços típicos:
a) Afirma que o verdadeiro Direito é unicamente o Direito positivo
(proveniente da vontade humana);
b) Interpreta as normas jurídicas prescindindo de tudo o que as transcende;
c) Nega ou menospreza a lei e o direito naturais.
O positivismo jurídico define o Direito como um conjunto de leis. Considera que
o Estado é a única fonte do direito.
Segundo o positivismo jurídico estatal, as normas canônicas não podem ser
qualificadas de jurídicas, mas teriam apenas um valor moral, disciplinar ou estatutário
(subordinado ao Direito estatal).
Hipótese: se um canonista adotasse o positivismo jurídico, como ele definiria o
Direito canônico?
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
O DIREITO NA IGREJA
Existência e necessidade do Direito na Igreja
O mistério da Igreja possui uma dimensão de justiça. Inclui elementos jurídicos.
O Direito canônico forma parte necessariamente da Igreja, de tal modo que, sem
essa dimensão jurídica, não é possível compreender a Igreja tal como a quis Jesus
Cristo, seu divino Fundador. Negar a existência da dimensão jurídica do povo de Deus
implica negar uma verdade acerca da natureza da Igreja.
O Direito eclesial não é uma superestrutura, mas uma derivação das raízes
sacramentais do povo de Deus. Não é uma expressão unilateral da vontade da hierarquia
eclesiástica, mas garantia das esferas de autonomia necessárias para que todos os fiéis
cristãos participem da missão da Igreja. Não é algo que origina apenas deveres de
obediência, mas também tutela os direitos dos fiéis cristãos.
O Direito canônico é conatural à vida da Igreja (cf. JOÃO PAULO II. Discurso
de apresentação oficial do novo Código de Direito canônico, em 3/2/1983).
Deve ser estudado em conexão com o mistério da Igreja:
De igual modo, renovem-se as restantes disciplinas teológicas
por meio dum contato mais vivo com o mistério de Cristo e a história da
salvação. Ponha-se especial cuidado em aperfeiçoar a teologia moral,
cuja exposição científica, mais alimentada pela Sagrada Escritura, deve
revelar a grandeza da vocação dos fiéis em Cristo e a sua obrigação de
dar frutos na caridade para vida do mundo. Na exposição do direito
canônico e da história eclesiástica, atenda-se ao mistério da Igreja,
segundo a Constituição dogmática «De Ecclesia» promulgada por este
sagrado Concílio. A sagrada Liturgia, que deve ser tida como a primeira
e necessária fonte do espírito verdadeiramente cristão, ensine-se
segundo o espírito dos artigos 15 e 16 da Constituição «De sacra
liturgia» (OT 16).
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Fundamentação do Direito canônico
1. Fundamento social: A existência e a necessidade do Direito canônico
costumam classicamente ser fundamentadas na índole societária e
hierárquica do povo de Deus.
2. Fundamento jurídico-realista: Mostra até que ponto a dimensão de justiça é
inerente ao mistério da Igreja. Se na Igreja tudo fosse de todos, o Direito
canônico não teria objeto. Na Igreja, entretanto, as coisas estão repartidas.
Pertencem a distintos sujeitos e são devidas em estrita justiça. Há direitos e
deveres dos fiéis cristãos, diversidade de membros e de funções, ministérios
e ofícios. As competências e as jurisdições estão atribuídas. Existem bens
materiais.
3. Fundamento sacramental: A consideração da Igreja como sacramento de
salvação é a primeira que o Concílio Vaticano II utiliza para se referir ao
mistério da Igreja (cf. LG 1). O conceito de sacramento serve para
estabelecer uma coordenação diferenciadora e para distinguir entre a
estrutura visível e a natureza espiritual da Igreja (cf. KASPER, 2011, p. 280).
A Igreja é uma única realidade complexa, na qual se incorporam o elemento
humano e o divino, o visível e o invisível, o temporal e o eterno. A estrutura
social e a comunidade espiritual:
Cristo, mediador único, estabelece e continuamente sustenta
sobre a terra, como um todo visível, a Sua santa Igreja, comunidade de
fé, esperança e amor, por meio da qual difunde em todos a verdade e a
graça. Porém, a sociedade organizada hierarquicamente, e o Corpo
místico de Cristo, o agrupamento visível e a comunidade espiritual, a
Igreja terrestre e a Igreja ornada com os dons celestes não se devem
considerar como duas entidades, mas como uma única realidade
complexa, formada pelo duplo elemento humano e divino.
Apresenta por esta razão uma grande analogia com o mistério
do Verbo encarnado. Pois, assim como a natureza assumida serve ao
Verbo divino de instrumento vivo de salvação, a Ele indissoluvelmente
unido, de modo semelhante a estrutura social da Igreja serve ao Espírito
de Cristo, que a vivifica, para o crescimento do corpo (cf. Ef 4,16) (LG
8).
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Igreja-sacramento de salvação
A Igreja, em Cristo, é como que o sacramento, ou sinal, e o
instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero
humano (LG 1).
Igreja-povo de Deus
Este povo messiânico tem por cabeça Cristo, «o qual foi
entregue por causa das nossas faltas e ressuscitado por causa da nossa
justificação» (Rm 4,25) e, tendo agora alcançado um nome superior a
todo o nome, reina glorioso nos céus. E condição deste povo a
dignidade e a liberdade dos filhos de Deus, em cujos corações o Espírito
Santo habita como num templo. A sua lei é o novo mandamento, o de
amar assim como o próprio Cristo nos amou (cf. Jo 13,34). Por último,
tem por fim o Reino de Deus, o qual, começado na terra pelo próprio
Deus, se deve desenvolver até ser também por ele consumado no fim
dos séculos, quando Cristo, nossa vida, aparecer (cf. Cl 3,4) e «a própria
criação for liberta do domínio da corrupção, para a liberdade da glória
dos filhos de Deus» (Rm 8,21). Por isso é que este povo messiânico,
ainda que não abranja de fato todos os homens, e não poucas vezes
apareça como um pequeno rebanho, é, contudo, para todo o gênero
humano o mais firme germe de unidade, de esperança e de salvação.
Estabelecido por Cristo como comunhão de vida, de caridade e de
verdade, é também por Ele assumido como instrumento de redenção
universal e enviado a toda a parte como luz do mundo e sal da terra (cf.
Mt 5, 13-16) (LG 9).
Igreja-comunidade e Igreja-sociedade:
Enquanto grupo social externo situado em um contexto histórico, a Igreja
apresenta dois tipos de vínculos fundamentais. Em primeiro lugar, o vínculo de
fraternidade, mediante o qual os seus membros formam uma comunidade. Esse vínculo
solidário, por sua vez, se desenvolve em uma série de outros vínculos (de afeição
mútua, de fé, de culto, de fins). Em segundo lugar, o vínculo hierárquico, pelo qual os
membros da comunidade cristã se unem em relação de autoridade com os ministros
ordenados e formam uma sociedade.
A Igreja, portanto, tem uma dimensão comunitária e, ao mesmo tempo, se
estrutura organicamente pela relação hierárquica. Dois são, portanto, os fatores
constitutivos, mediante os quais a Igreja se estrutura e se organiza: o fator comunitário e
o institucional. A instituição nasce no interior da comunidade. Não são dois níveis
separados, nem dois compartimentos estanques, mas dois fatores inter-relacionados, que
participam (em certo grau) um do outro.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Direito divino e Direito humano
1. Direito divino: o Direito divino é o conjunto de fatores jurídicos que tem a
Deus como autor.
o Direito divino natural é aquela parte da Lei natural, escrita por Deus
no coração humano (cf. Rm 2,15), que se refere às relações de justiça.
É o conjunto de fatores jurídicos inerentes à natureza humana que
operam na ordem natural.
o Direito divino positivo é a dimensão de justiça do desígnio de Jesus
Cristo acerca da sua Igreja. Promulgado mediante a Revelação.
2. Positivação e formalização do Direito divino: o ponto de partida é a noção de
direito como realidade eminentemente histórica. O Direito divino uma vez
promulgado existe na história e pode ser qualificado de verdadeiro direito,
mas isso não significa que já tenha plena vigência. Para tanto, é necessário
primeiro tomar consciência de seus conteúdos concretos (positivação) e
depois integrá-los formalmente em um ordenamento jurídico (formalização).
Apenas então adquire completa eficácia jurídica.
3. Relações entre Direito divino e Direito humano: o Direito divino não forma
na Igreja um ordenamento jurídico distinto do ordenamento humano. Ambos
constituem um ordenamento único e inseparável, com aspectos divinos e
humanos, ou seja, com caráter sacramental. Onde os aspectos humanos são
expressão do esforço para interpretar e desenvolver historicamente o
desígnio de Jesus Cristo sobre a Igreja.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Atitudes de oposição ao Direito canônico
Ao longo da história, o Direito da Igreja tem sido rejeitado. Na antiguidade, por
gnósticos, montanistas e docetistas. Na Idade média, por cátaros, valdenses e albigenses.
Na modernidade, por protestantes. Todos eles coincidem em um ponto comum: a visão
eclesiológica que privilegia o elemento espiritual e carismático em detrimento do
aspecto visível e institucional. Julgam o Direito canônico como um elemento espúrio
introduzido na Igreja pelo homem pecador.
Por exemplo:
Em suas manifestações mais recentes, a oposição eclesial ao caráter jurídico do
ordenamento canônico é motivada pela:
Ideologia liberal e individualista, que considera o Direito como uma
imposição da hierarquia eclesiástica que reprime a liberdade cristã;
Ideologia marxista, que aplica a teoria da luta de classes à Igreja.
As atitudes antijurídicas predominantes no âmbito eclesial, no entanto, não se
caracterizam por uma rejeição tão rigorosa e explícita do Direito canônico, mas por
certa intolerância e, principalmente, pela indiferença diante dos aspectos jurídicos da
vida da Igreja. Essas posturas muitas vezes nascem como reação ao legalismo,
verdadeira patologia do Direito, que presta mais atenção ao aspecto jurídico formal que
a realidade vital.
Conclusão:
Nem espiritualismo, nem legalismo.
Nem subjetivismo, nem positivismo.
O Concílio Vaticano II apresenta uma visão de síntese dos elementos visíveis e
invisíveis da Igreja (cf. LG 8). Eles não devem ser separados, nem contrapostos.
Além disso, a imagem da Igreja como povo de Deus indica que o Concílio quis
chamar a atenção sobre a dimensão histórica, social e humana inerente à realidade
eclesial.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Características peculiares do Direito canônico
Direito canônico = conjunto de fatores que integram a estrutura jurídica da Igreja
católica.
1. Universalidade: Do mesmo modo que a Igreja é universal (cf. CCE 831), o
Direito canônico não existe para ordenar simplesmente um território ou uma
população. Afeta todo o povo de Deus (missão universal). Dirige-se
potencialmente à humanidade inteira.
2. Unidade e variedade: Unidade não significa uniformidade. A existência do
Direito particular constitui uma das expressões mais claras da variedade, que
diversifica a unidade, sem rompê-la. Unidade na diversidade.
3. Plenitude: O Direito canônico tem, em seu âmbito próprio, plenitude de
competência e plenitude de soberania. Competência: nenhuma matéria ou
situação jurídica, na esfera eclesial, supera a capacidade reguladora do
Direito canônico. Soberania: o Direito canônico não depende de um
ordenamento superior.
4. Flexibilidade: O ordenamento canônico possui grande capacidade de
adaptação às mais diversas circunstâncias pessoais, locais e históricas.
5. Pastoralidade: O Direito canônico persegue a salvação da alma (salus
animarum), que é a suprema lei da Igreja (cf. c. 1752). O conhecimento
jurídico e o respeito pelo que prescreve a Igreja conduzem a não incorrer em
atitudes injustas e a viver a verdadeira caridade pastoral.
Observações:
Não contrapor a lei ao Evangelho, nem a justiça à caridade.
É preciso distinguir entre fim imediato e fim mediato do Direito canônico.
Conceito de salus animarum: a realização da vocação cristã, segundo a
dignidade e a liberdade dos filhos de Deus como condição constitucional do
povo de Deus, ou seja, segundo os direitos e deveres fundamentais dos fiéis
cristãos.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Direito canônico e pastoral
A ação evangelizadora: o Direito canônico é essencialmente pastoral.
Estabelecer leis é um dos aspectos da ação pastoral, assim como segui-las, porque a
finalidade da pastoral é a edificação da Igreja. A dimensão de justiça é conatural ao
povo de Deus. Ela deve ser respeitada, se o objetivo for efetivamente fazer Igreja.
Evidentemente, a pura justiça não basta para a edificação da Igreja. É preciso viver a
caridade pastoral. Relações entre justiça e caridade.
Teologia e ciência do direito canônico
A Teologia tem como objeto material Deus e todo o universo (todas as
realidades). O objeto formal quo (o meio pelo qual se conhece) é a razão iluminada pela
fé. O objeto formal quod (a perspectiva formal desde a qual se considera a matéria do
estudo) é a razão da divindade. Esses são os critérios fundamentais clássicos para
distinguir a Teologia dos demais saberes científicos (na visão tomista).
A teologia é a explanação e explicação consciente e metodológica da Revelação
divina recebida e apreendida na fé (cf. RAHNER apud RAUSCH, 2009, p. 15). Assim,
a teologia pode ser chamada de “ciência da fé”.
As ciências da fé consideradas em seu conjunto têm estrutura orgânica. Todas
elas possuem o mesmo objeto formal quo (a razão iluminada pela fé) e se distinguem
entre si por seu objeto formal quod. Isso significa que entre elas existe unidade e
harmonia, baseadas na distinção sem separação. Para preservar tanto a unidade quanto a
distinção sem separação, devem existir entre elas relações de coordenação e de
subordinação.
As ciências da fé:
Exegese bíblica
Liturgia
Patrologia
História da Igreja
Direito canônico
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Dentro de sua ordem própria, cada uma das ciências da fé tem autonomia
(relativa), ou seja, possui competência, no âmbito de sua especialidade e perspectiva
formal. Além disso, todas as ciências sacras mantêm relações de coordenação entre si e
de subordinação a Teologia em sua função sapiencial. As justas relações entre as
ciências da fé favorecem a especialização, tão necessária para o conhecimento científico
no mundo moderno, bem como a investigação interdisciplinar (ou trans-disciplinar).
Teologia Ciência do Direito canônico
Objeto material Deus e todas as coisas Direito da Igreja
Objeto formal quo A razão iluminada pela fé A razão iluminada pela fé
Objeto formal quod Sob a razão da divindade Sob a razão da justiça
Método Teológico Jurídico
A ciência do Direito canônico estuda a estrutura jurídica da Igreja, desde os seus
conteúdos mais fundamentais até os mais específicos e imediatamente práticos, fazendo
uso de método jurídico. Analisa a realidade eclesial a partir da perspectiva da justiça.
Ciência jurídica com método jurídico, que opera à luz da fé.
A ciência do Direito canônico pode ser dividida em diversos ramos científicos,
segundo as matérias e os modos de abstração e de conceituação.
Exemplo de sistema de Direito:
Teoria fundamental
Parte geral
Direito constitucional: estuda os aspectos constitutivos da Igreja e de suas
instituições;
Direito da pessoa
Direito da organização eclesiástica
Direito administrativo
Direito penal
Direito processual.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Para ampliar a visão sobre o tema:
Em nível teórico, há um acordo bastante extenso acerca da importância de
conceber o Direito canônico à luz do mistério da Igreja, conforme o indicado pelo
Concílio Vaticano II (OT 16). Atualmente, um enfoque teórico positivista, que
considera o Direito eclesial como mero conjunto de leis humanas que devem ser
aplicadas aos casos concretos, não tem adeptos.
Em nível prático, contudo, há problemas. Tanto os que defendem o Direito
eclesial, quanto os que o criticam ou simplesmente ignoram, seguem considerando na
prática, que esse Direito é um conjunto de normas jurídicas, que encontra a sua
expressão principal nos Códigos latino e oriental.
A concepção de fundo (nível teórico) não parece influir no modo efetivo de
enfocar e por em ação a dimensão jurídica da Igreja.
A raiz desse fenômeno está em algumas contraposições fundamentais:
Teologia e Direito;
Direito e Pastoral;
Poder da hierarquia eclesiástica e direito dos fiéis cristãos.
Questão: Relação harmônica ou relação dialética?
Relação dialética Relação harmônica
Oposição Distinção sem separação
Teologia e direito Teologismo: quando se O Direito é o justo na
assume a contraposição a Igreja; uma dimensão do
favor da Teologia. mistério da salvação: a
Juridicismo: quando se dimensão de justiça.
assume a contraposição a
favor do Direito.
Direito e pastoral Pastoralismo: quando se O Direito como o justo é,
assume a contraposição a por natureza, pastoral.
favor da Pastoral. Ambos têm a mesma
Legalismo: quando se finalidade: a edificação
assume a contraposição a da Igreja.
favor do Direito.
Poder da hierarquia e Autoritarismo: quando se A autoridade hierárquica
direito dos fiéis assume a contraposição a é serviço e está
favor do poder. submetida às normas do
Democratismo: quando se Direito.
assume a contraposição a
favor do direito dos fiéis.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Ordenamento canônico
Conjunto de fatores que integram a estrutura jurídica da Igreja. Esses fatores
podem ser classificados em dois tipos fundamentais: os elementos e os momentos do
direito. Os elementos do direito são aqueles que integram a relação jurídica: sujeitos,
conteúdo, vínculo... Os momentos do direito são aqueles que originam, modificam ou
extinguem as relações jurídicas: normas, sentenças judiciais, atos administrativos,
negócios jurídicos.
Em síntese, o ordenamento canônico pode ser definido como um sistema de
relações jurídicas reguladas pela norma.
DIREITOS HUMANOS DIREITOS DOS FIÉIS CRISTÃOS
SOCIEDADE CIVIL IGREJA
DIREITO DIVINO POSITIVO
DIREITO NATURAL DIREITO NATURAL
MISTERIO DO VERBO FEITO HOMEM
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
PARTE I - INTRODUÇÃO
HISTORIA DO DIREITO CANÔNICO
INTRODUÇÃO
Os princípios fundamentais da constituição da Igreja, a sua missão, os fins que
sua atividade persegue e os critérios que regulam as relações entre os fiéis cristãos
foram estabelecidos por Jesus Cristo, o Fundador da Igreja.
A Igreja vive e se desenvolve na história humana. Participa do dinamismo
histórico. Inclusive é um dos agentes que impulsiona a história. Igreja e história se
influenciam reciprocamente. Dessa influência, deriva uma contínua evolução da
constituição e organização da Igreja e dos critérios jurídicos presentes na comunidade
eclesial. Há princípios permanentes e fatores mutáveis. O Direito canônico evolui ao
longo dos séculos.
Destinada a estender-se a todas as regiões, ela entra na história
dos homens e, ao mesmo tempo, transcende os tempos e as fronteiras
dos povos. Caminhando por meio de tentações e tribulações, a Igreja é
confortada pela força da graça de Deus, que lhe foi prometida pelo
Senhor para que não se afaste da perfeita fidelidade por causa da
fraqueza da carne, mas permaneça digna esposa do seu Senhor, e, sob a
ação do Espírito Santo, não cesse de se renovar até, pela cruz, chegar à
luz que não conhece ocaso (LG 9).
A legislação canônica não é algo estático e imóvel, mas, sem mudar a sua função
essencial, em determinadas circunstâncias históricas, renova suas articulações e
formulações técnicas (cf. PAULO VI citado por LOMBARDIA, 1970, p.61).
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
O DIREITO DA IGREJA NO IMPERIO ROMANO
Características da Igreja primitiva:
Qual a função que o Direito desempenhava na Igreja dos primeiros séculos?
Durante os primeiros séculos da Igreja, as normas fundamentais que regiam a
atividade das comunidades cristãs eram aquelas que estão contidas nos livros do NT. O
Direito está presente junto com os demais aspectos da vida eclesiástica, sem pretensão
de autonomia formal.
Sagrada Escritura e Tradição são a base dos critérios de vida das comunidades.
A literatura patrística (destaque): Didaqué, Didascália dos Doze apóstolos,
Carta de Clemente romano, Tradição apostólica de Hipólito.
Os primeiros textos cristãos que revelam um estilo legislativo são os cânones
dos Concílios (ecumênicos e regionais). O Direito canônico oriental dá enorme
importância aos sagrados cânones (cânones disciplinares dos sete primeiros Concílios
ecumênicos).
Atividade legislativa dos Romanos Pontífices: epístolas e decretais.
A Igreja e o Direito romano: Até o início do século IV, a Igreja viveu à margem
do Direito romano, porque esse não reconhecia a sua existência e inclusive considerava
ilícita a condição de cristão. Os fiéis cristãos podiam ser perseguidos e condenados à
morte por não aceitar os cultos oficiais do Império.
Os cristãos movidos pelo conselho de Paulo (cf. 1Cor 6,1-6) evitam levar suas
causas aos magistrados pagãos. Recorrem, em vez disso, aos bispos. No começo da
segunda década do século IV, quando a Igreja já tinha se desenvolvido notavelmente, as
coisas mudam radicalmente, mediante uma série de editos de Galério, Constantino e
Licínio. Esse último, com o edito de 13/6/313, estabelece o princípio da liberdade
religiosa. Em 380, o imperador Teodósio I declara a fé cristã religião do Império. As
religiões pagãs e as seitas heréticas são reduzidas a uma situação de inferioridade legal.
Com a queda do Império romano do ocidente (476), o tema das relações entre
Igreja e Império se circunscreve fundamentalmente ao oriente, onde acontece uma
contínua interferência entre governo secular e organização eclesiástica.
No oriente, o Imperador cristão Justiniano I faz uma seleção de textos do Direito
romano com a obra Corpo de Direito civil (Corpus Iuris Civilis). É uma obra jurídica
fundamental, publicada entre os anos 529-534. A preservação do Direito romano para a
posteridade é o grande mérito dessa codificação.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
O DIREITO DA IGREJA NA FORMAÇÃO DA EUROPA MEDIEVAL
(séculos V – XI)
As instituições eclesiásticas:
As coleções canônicas (fontes do Direito): O grande movimento ocidental
compilador de cânones e decretais da Antiguidade é denominado Renascimento
gelasiano (séculos V-VI). O espírito típico do Renascimento gelasiano por ser resumido
em três notas: universalidade, autenticidade e romanidade (cf. LOMBARDIA, 1970,
p.82).
Coleção Dionisiana: trabalho realizado em Roma pelo monge Dionísio, o
Pequeno, entre o final do século V e o início do século VI. Recopilou cânones dos
Concílios orientais (traduzidos para o latim) e africanos, e também decretais pontifícias.
Coleção Hispânica: Código fundamental da Igreja na Espanha (povos visigodos)
até o século IX.
Coleção Adriana: Em 774, o Romano Pontífice Adriano I envia ao Imperador
Carlos Magno uma coleção canônica, a fim de que a Igreja dos povos francos se regesse
pelas mesmas leis que a de Roma, evitando, dessa forma, o particularismo das tribos
germânicas.
Renascença carolíngia: Movimento cultural. Carlos Magno atribui à Igreja a
gestão das áreas educacional e social do novo Império.
Coleção Dacheriana: No século IX, a coleção Adriana se funde com a coleção
Hispânica, constituindo a Dacheriana.
Reforma gregoriana: Reforma da Igreja empreendida pelo Papa Gregório VII,
monge beneditino, no século XI.
O edifício do Direito canônico clássico se apoiará sobre três fundamentos:
A influência do Direito romano;
O poder legislativo papal: Gregório VII (1073-1085);
Uma incipiente técnica jurídica, que não se limita a recopilar textos, senão
que, de certo modo, realiza uma elaboração sobre eles: Ivo (Yves), bispo de
Chartres (1040-1115).
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Observação:
A Igreja e a formação da ordem política medieval: o tema da posição da Igreja
com relação às instituições sociais e o poder político, durante os séculos V – XI, é um
dos problemas históricos mais difíceis e interessantes para quem se dedica ao estudo da
história da Igreja.
Concordata de Worms (1122), que pôs fim à controvérsia das investiduras, que
originou grandes tensões entre a Santa Sé e o Império romano-germânico.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
O DIREITO CANÔNICO CLÁSSICO (séculos XII – XV)
Alta Idade Média: séculos V – X.
Baixa Idade Média: séculos XI – XIV.
Transição: século XV.
Decreto de Graciano, síntese da tradição canônica: da personalidade de Graciano
pouco se sabe. Deve ter nascido no final do século XI em uma aldeia italiana, próxima
de Orvieto. Morreu em 1158. Monge e professor de “teologia prática”, no convento dos
Santos Félix e Nabor (Bologna). Em termos atuais, uma mistura de determinados
aspectos de Teologia moral e pastoral, Direito canônico e liturgia.
Graciano concebe um projeto grandioso: concordar os cânones discordantes, ou
seja, elaborar um corpo doutrinal no qual se reduz à unidade todo o sistema de Direito
da Igreja, onde os critérios jurídicos são coordenados e as contradições resolvidas.
O Decreto de Graciano (1140) dá um passo decisivo para o fortalecimento da
autonomia do Direito canônico com relação à Teologia.
Os Pontífices legisladores (1140-1234):
Coleções de decretais:
Liber Extra de Gregório IX (1234);
Livro Sexto de Bonifácio VIII (1298);
Decretais de Clemente V (1317).
O Corpo de Direito canônico (Corpus Iuris Canonici): é o conjunto do Direito
canônico medieval. Recolhe o resultado da atividade legislativa da autoridade suprema
da Igreja e da maior autoridade científica da época (universidades).
O Corpus se completou com duas breves coleções de decretais publicadas nos
anos de 1500 e 1503, por um autor privado, jurista de Paris, Juan Chappuis: as
Extravagantes de João XXII e as Extravagantes comuns.
Corpo de Direito canônico:
1. Decreto de Graciano
2. Decretais de Gregório IX
3. Livro VI de Bonifácio VIII
4. Decretais de Clemente V
5. Extravagantes de João XXII
6. Extravagantes comuns.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Observação: as normas Extravagantes, ou seja, os cânones que circulam fora do
Decreto de Graciano (capitula extravagantia, id est, capitula extra Decretum Gratiani
vagantia).
Universidade de Bologna (1088). Universidade de Oxford (1096). Universidade
de Paris (1170). Universidade de Salamanca (1218).
Crise nas bases do Direito canônico clássico:
a) O Papa Bonifácio VIII (1294-1303): doutrina do poder da Igreja no
âmbito temporal;
b) O cativeiro de Avignon (1305-1377);
c) A teologia escolástica, chave da cultura medieval, entra em
decadência nos séculos XIV – XV.
Conciliarismo: doutrina que considera o Concílio ecumênico superior ao
Romano Pontífice (séculos XIV e XV).
Renascimento (região italiana da Toscana): humanismo.
Invenção da imprensa:
Descoberta da América pelos europeus:
Ciência no Renascimento: Copérnico e Galileu.
O Direito canônico clássico constitui um dos elementos fundamentais do Direito
na Idade Média. Juntamente com os direitos dos reinos, estados e cidades livres, a
Europa medieval conhece um Direito comum, ou seja, o conjunto dos dois direitos: o
civil, contido no Corpus Iuris Civilis, e o canônico, contido no Corpus Iuris Canonici.
Ambos são estudados nas Universidades e influem na prática jurídica da Europa.
É preciso considerar que os dois Direitos estão em contínua e recíproca
influência. O civil (direito romano) contribui para articular as soluções do Direito da
Igreja, a partir de um ponto de vista técnico. O canônico contribui para adaptar os textos
da recopilação de Justiniano (seis séculos anterior ao Decreto de Graciano) às novas
circunstâncias históricas.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
O DIREITO DA IGREJA E O ESTADO MODERNO (séculos XVI – XVIII)
O Império romano do oriente cai diante do Império otomano: os turcos
ocuparam Constantinopla em 1454.
Formação do Estado moderno (século XVI):
Iluminismo e Revolução industrial (século XVIII):
Com a consolidação do Estado moderno e o desencadeamento da Reforma
protestante no século XVI, inicia um novo período da história do Direito canônico: o
Direito canônico tridentino.
Uma característica do Direito canônico da época é a índole conciliar: V Concílio
de Latrão (1512-1517) e o Concílio de Trento (1545-1563).
Distintos tipos de coleções canônicas:
O Corpus Iuris Canonici, promulgado pelo Papa Gregório XIII em 1582;
Os decretos disciplinares do Concílio de Trento;
Uma multiplicidade de documentos de diversa índole ditados pelos Romanos
Pontífices;
Uma imensa massa de documentos resultantes das atividades dos Dicastérios
da Cúria romana.
O Corpus Iuris Canonici continuou em vigência até a entrada em vigor do CIC
1917, sem que nenhuma outra coleção canônica de valor universal viesse a completá-lo
ou modificá-lo.
Direito eclesiástico do Estado:
Os direitos humanos:
Carta de Direitos (Bill of Rigths), Londres, 1689;
Declaração de Independência dos Estados Unidos da América, Filadélfia,
1776;
Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, Paris, 1789.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
O DIREITO CANÔNICO (séculos XIX e XX)
O processo histórico:
O individualismo liberal;
Os diversos movimentos socialistas;
A gênese do atual Estado democrático: A declaração, promoção e tutela dos
direitos fundamentais da pessoa humana como limitação do poder político.
Todo esse processo histórico irá mudar a posição da Igreja no mundo, a partir da
Revolução francesa (1789).
a) A hierarquia eclesiástica abandona a pretensão de influência na ordem
temporal e se limita quase exclusivamente a uma atividade estritamente
espiritual;
b) Consolida-se na sociedade a idéia de que o Estado é fonte do direito
(positivismo jurídico): O Direito canônico limita-se a ser a regulação da
ordem interna da Igreja;
c) A Igreja, ao abandonar praticamente todas as posições através das quais sua
hierarquia podia influir na formação do Direito secular ou na configuração
das instituições políticas e sociais, não podia simplesmente deixar de
iluminar todos os aspectos da vida humana com a mensagem evangélica. A
atividade do Magistério eclesiástico se torna intensa (Vide Compêndio dos
símbolos, definição e declarações sobre questões de fé e moral de Peter
Hünermann. Loyola, 2007).
A situação da Igreja em um mundo que cultural e politicamente apresentava
evidentes manifestações de hostilidade levava o Magistério eclesiástico a refletir sobre a
unidade eclesial, tanto na ordem teológica quanto disciplinar.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Concílio Vaticano I (1869-1870) convocado pelo Papa Pio IX:
O CIC 1917:
As fontes do Direito canônico estavam em estado confuso. Daí a aspiração a
uma simplificação do sistema normativo, seguindo a forma de um corpo legal do tipo
proposto pelo movimento codificador, no campo do Direito secular. O trabalho inicia
com Pio X, em 1904. Para presidente da Comissão codificadora, é nomeado o canonista
Pietro Gasparri, ex-professor do Instituto Católico de Paris. O propósito da Comissão
não era reformar o Direito canônico, mas codificar a normativa vigente em um corpo
legal, que pudesse ser manejado com facilidade. Em linhas gerais, a Comissão foi fiel
ao propósito inicial, desempenhando o ofício com diligência exemplar. Pio X morreu
sem ver a obra terminada. Seu sucessor, Bento XV promulgou o Código em 27/06/1917
com a bula Providentissima Mater, entrando em vigor em 19/05/1918.
Uma vez promulgado, o CIC 1917 não foi objeto de atualização em matéria de
doutrina e de jurisprudência, mas se manteve controlado em sua interpretação e sua
aplicação pelos critérios da Cúria romana.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
O CIC 1983:
A história do novo Código teve seu primeiro marco em 25/01/1959, data em que
João XXIII anunciou a sua decisão de convocar um Sínodo romano, um Concílio
ecumênico e a revisão do Código de Direito canônico.
Quais os motivos para a revisão do CIC 1917?
Por um lado, a promulgação do Código facilitou o conhecimento das leis
eclesiásticas e impulsionou o progresso da ciência canônica.
Por outro lado, era cada vez mais evidente que a estima e o respeito ao Direito
da Igreja diminuíam cada vez mais. Por quê?
Notório envelhecimento e caráter incompleto do CIC 1917;
Reação crítica ao legalismo e rigorismo jurídico;
Mentalidade subjetivista e relativista (posterior).
Razões do envelhecimento e insuficiência:
1) A promulgação de alguns cânones que desde a sua promulgação tinham
escassa vigência;
2) A inflação de faculdades especiais e de dispensas, cujo uso generalizado e
sistemático revela certa patologia legislativa;
3) Modificação total ou parcial de algumas normas, sem reflexo no Código;
4) Falta de acolhida no Código de algumas instituições jurídicas, que eram
realidade na vida da Igreja, como os Institutos seculares e as associações de
fiéis cristãos;
5) A conveniência de integrar no ordenamento canônico progressos de técnica
jurídica.
Os membros da Comissão de revisão do Código canônico, durante a sua
primeira reunião plenária em novembro de 1963, decidiram adiar os trabalhos formais
de revisão até a conclusão do Concílio Vaticano II, porque João XXIII tinha
apresentado a reforma do Código como “coroação” do Concílio.
A relevância canônica do Concílio Vaticano II pode ser resumida em três
âmbitos:
a) Os princípios doutrinais com incidência no Direito canônico;
b) As diretrizes jurídicas propostas pelo Concílio para a revisão do Código;
c) As novas instituições surgidas com o Concílio.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Os princípios doutrinais com transcendência canônica:
A noção de Igreja como sacramento de salvação (mistério de comunhão)
como fundamento e ponto de partida da eclesiologia conciliar;
O conceito de Igreja como povo de Deus peregrino na história, no qual cada
um de seus membros participa do múnus sacerdotal, profético e real de Jesus
Cristo. Povo que tem por condição a dignidade e a liberdade dos filhos de
Deus (cf. LG 9), onde cada membro é chamado à santidade e à missão de
evangelizar;
A estruturação da Igreja pelos sacramentos e a incidência dos carismas na
vida eclesial;
O caráter sacramental e a colegialidade do episcopado;
A doutrina sobre a Igreja particular e a sua relação com a Igreja universal: a
Igreja universal se realiza nas Igrejas particulares e está constituída pelas
Igrejas particulares, segundo a fórmula “na qual e a partir da qual”.
A importância do movimento ecumênico: a união dos cristãos;
A doutrina sobre as relações entre Igreja e mundo;
O direito de liberdade religiosa: Declaração Dignitatis humanae.
As diretrizes jurídicas propostas pelo Concílio para a revisão do Código:
Reforma do instituto da incardinação dos clérigos;
Abolição do sistema de benefícios (relação entre ofício e benefício);
Restabelecimento do diaconato permanente;
Novas diretrizes sobre a constituição e o regime dos seminários;
Revisão das normas sobre o apostolado dos fiéis cristãos leigos, de acordo
com o Decreto Apostolicam actuositatem;
Reconhecimento do direito de associação dos fiéis cristãos.
As novas instituições surgidas com o Concílio:
Sínodo dos Bispos;
Conferência episcopal;
Prelazia pessoal;
Conselho de presbíteros;
Conselho de pastoral;
Comissões, conselhos, secretariados diversos.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Em 20/11/1965, Paulo VI lançou as bases do trabalho a ser realizado,
enfatizando que não se tratava apenas de uma nova ordenação de leis, mas em reformar
as normas canônicas de acordo com nova mentalidade e exigências, seguindo as
diretrizes do Concílio Vaticano II. O Romano Pontífice se referiu também à
possibilidade de elaborar, além do Código latino e oriental, um Código comum e
fundamental, que contivesse o Direito constitutivo da Igreja (origem do Projeto LEF:
Lei Fundamental da Igreja).
Em 1967, o Sínodo dos Bispos aprovou um documento que continha dez
princípios diretivos para a revisão (reforma) do Código de Direito canônico. Esses
princípios encontram-se resumidos no prefácio do CIC 1983.
1º Princípio:
2º Princípio:
3º Princípio:
4º Princípio:
5º Princípio:
6º Princípio:
7º Princípio:
8º Princípio:
9º Princípio:
10º Princípio:
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Características gerais do CIC 1983:
De acordo com o primeiro princípio diretivo, o novo Código latino tem caráter
jurídico: imperativo, sóbrio e preciso, típico das normas jurídicas. Não faltam, no
entanto, exortações e conselhos, de acordo com o terceiro princípio diretivo, a fim de
favorecer o mais possível a atenção pastoral.
Sistemática:
CIC 1917 CIC 1983
1. Normas gerais 1. Normas gerais
2. Pessoas 2. Povo de Deus
Clérigos Fiéis cristãos
Religiosos Constituição hierárquica da Igreja
Leigos Institutos e Sociedades
3. Coisas 3. Função de ensinar
4. Função de santificar
Sacramentos Sacramentos
Culto divino
Magistério
Benefícios
Bens temporais 5. Bens temporais
6. Sanções na Igreja
4. Processos 7. Processos
5. Delitos e penas
2.414 cânones 1.752 cânones
O CIC 1983 pode ser qualificado como a coroação canônica do Concílio
Vaticano II para o âmbito da Igreja latina. A Constituição apostólica Sacra disciplinae
leges destaca:
O instrumento, que é o Código, combina perfeitamente com a
natureza da Igreja, tal como é proposta, principalmente pelo magistério
do Concílio Vaticano II, no seu conjunto e de modo especial na sua
eclesiologia. Mais ainda, este novo Código pode, de certo modo, ser
considerado como grande esforço de transferir, para a linguagem
canonística, a própria eclesiologia conciliar. Se é impossível que a
imagem de Igreja descrita pela doutrina conciliar se traduza
perfeitamente na linguagem canonística, o Código, não obstante, deve
sempre referir-se a essa imagem como modelo primordial, cujos traços,
enquanto possível, ele deve em si, por sua natureza, exprimir.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
O objetivo do Código é promover na sociedade eclesial uma ordem justa:
Torna-se bem claro, pois, que o objetivo do Código não é, de
forma alguma, substituir, na vida da Igreja ou dos fiéis, a fé, a graça, os
carismas, nem muito menos a caridade. Pelo contrário, sua finalidade é,
antes, criar na sociedade eclesial uma ordem que, dando a primazia ao
amor, à graça e aos carismas, facilite ao mesmo tempo seu
desenvolvimento orgânico na vida, seja da sociedade eclesial, seja de
cada um de seus membros.
Outra característica peculiar do CIC 1983 é a de ser um Código aberto:
a) Não pretende conter a totalidade da legislação universal para a Igreja latina,
mas seu próprio texto remete a leis especiais para a regulação de certas
matérias. Por exemplo: a organização da Cúria romana (cf. cânon 360) e o
procedimento nas causas de canonização (cf. cânon 1403).
b) Em consonância com um aspecto do princípio da subsidiariedade recolhido
no 5º princípio diretivo, propicia um maior desenvolvimento do Direito
particular, adaptado às diversas circunstâncias locais.
O CIC 1983 é um corpo legislativo renovador, porque:
a) Renova a disciplina eclesiástica;
b) Incentiva o progresso da ciência canônica;
c) Auxilia a mudar a tendência presente em muitos ambientes eclesiais de
pouco interesse ou indiferença diante do Direito da Igreja.
A profunda reforma canônica levada a efeito pelo CIC 1983 não significa,
contudo, ruptura com a tradição da Igreja. O novo Código (trata-se justamente de um
novo Código e não apenas de um Código revisto) se mantém em linha de fidelidade com
a legislação perene da Igreja. Tem em conta a tradição canônica (cf. cânon 6 §2).
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
O CIC 1983 tendo sofrido mudanças ao longo do tempo.
Motu Proprio Ad Tuendam Fidem (18.5.1998):
Cânon 750: alterado por João Paulo II, acrescentou o § 2.
Cânon 1371: nova redação.
Cânon 750 § 2. Deve-se ainda firmemente aceitar e acreditar também em tudo o
que é proposto de maneira definitiva pelo magistério da Igreja em matéria de fé e
costumes, isto é, tudo o que se requer para conservar santamente e expor fielmente o
depósito da fé; opõe-se, portanto, à doutrina da Igreja Católica quem rejeitar tais
proposições consideradas definitivas.
Cânon 1371 — Seja punido com justa pena:
1) quem, fora do caso previsto no c. 1364 § 1, ensinar uma doutrina condenada
pelo Romano Pontífice ou pelo Concílio Ecumênico, ou rejeitar com pertinácia a
doutrina referida no c. 750 § 2 ou no c. 752, e, admoestado pela Sé Apostólica ou pelo
Ordinário, não se retratar;
2) quem, por outra forma, não obedecer à Sé Apostólica, ao Ordinário ou ao
Superior quando legitimamente mandam ou proíbem alguma coisa, e, depois de avisado,
persistir na desobediência.
Motu Proprio Omnium in Mentem (26.10.2009):
Cânon 1086: alterado por Bento XVI, retirou a expressão “ato formal”,
reafirmando a norma geral do cânon 11.
Cânon 1117: idem.
Cânon 1124: idem.
Cânon 1008: alterado por Bento XVI, retirou a expressão “personificando a
Cristo Cabeça”.
Cânon 1009: nova redação.
Cânon 1008: Mediante o sacramento da ordem, por instituição divina, alguns
entre os fiéis, pelo caráter indelével com que são assinalados, são constituídos ministros
sagrados, e assim, são consagrados e destinados a servir, segundo o grau de cada um,
com novo e peculiar título, ao povo de Deus.
Cânon 1009 §3: Aqueles que são constituídos na ordem do episcopado ou do
presbiterato recebem a missão e a faculdade de atuar na pessoa de Cristo cabeça; os
diáconos, por sua vez, são habilitados para servir ao povo de Deus na diaconia da
liturgia, da palavra e da caridade.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
O CCEO (1990):
Código de cânones das Igrejas orientais (CCEO): foi promulgado por João Paulo
II em 18/10/1990, mediante a Constituição apostólica Sacri canones, e entrou em vigor
em 1º de outubro de 1991. Está ordenado em 30 títulos e possui 1.546 cânones.
João Paulo II afirmou em várias ocasiões que o CCEO, junto com o CIC e a
Constituição apostólica Pastor bonus sobre a Cúria romana, pode ser considerado parte
integrante de um novo Corpo de Direito canônico (Corpus Iuris Canonici) de toda a
Igreja católica.
As Igrejas orientais são as que dependem de um dos antigos Patriarcados do
oriente (Constantinopla, Antioquia, Alexandria e Jerusalém) ou de outra Igreja mãe
oriental (Caldéia e Armênia).
Características do CCEO:
1. O caráter unitário: Um único Código para todas as Igrejas rituais orientais
católicas;
2. O caráter especificamente oriental: Princípio postulado no Decreto conciliar
Orientalium Ecclesiarum;
3. O caráter ecumênico: De acordo com o Decreto Unitatis Redintegratio;
4. O caráter jurídico:
5. O caráter pastoral:
6. O princípio da subsidiariedade:
7. O re-ordenamento das Igrejas particulares: Segundo a norma do Decreto OE;
8. A igualdade de todos os cristãos: Princípio da igualdade;
9. A simplificação dos cânones processuais: Unidade de critérios e de
disposições;
10. As sanções previstas para os delitos: Exclusão das penas latae setentiae. A
pena canônica dever imposta mediante juízo penal prescrito nos cânones
1468-1482.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
PARTE I - INTRODUÇÃO
NOÇÕES GERAIS
RELAÇÕES JURIDICAS
Noção de ordenamento canônico
Entre os autores, é freqüente definir o ordenamento canônico como o conjunto
de normas jurídicas vigentes na Igreja católica.
Aspecto positivo: É uma abordagem tradicional e ajuda a destacar o valor da
norma como elemento essencial do Direito.
Aspecto negativo: Ao centrar o conceito de ordenamento canônico em um único
fator, não consegue dar uma visão completa do fenômeno jurídico. Pode, além disso, ser
uma manifestação de positivismo jurídico.
O ordenamento canônico é o conjunto de fatores que integram a estrutura
jurídica da Igreja católica (LOMBARDIA – HERVADA).
Os fatores de índole jurídica devem ser captados na vida da Igreja enquanto
mostram o povo de Deus como juridicamente estruturado e, ao mesmo tempo, em
contínua atualização de sua organização pública. Essa dupla perspectiva permite
classificar o conjunto de fatores que fazem da Igreja uma sociedade juridicamente
estruturada em dois tipos fundamentais:
a) Os elementos: o ordenamento canônico é um conjunto de relações jurídicas.
Uma rede de conexões, em virtude da qual alguns membros da Igreja têm,
com relação a outros, direitos e deveres. Os elementos do ordenamento
canônico são aqueles que integram a relação jurídica: sujeitos, conteúdo e
vínculo.
b) Os momentos: são os fatores dinâmicos, que estruturam juridicamente a
sociedade eclesiástica. Apresentam múltiplas manifestações: normas,
sentenças judiciais, atos administrativos...
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
A ação conjunta e eficaz dos diferentes momentos do Direito tem como um dos
seus resultados a formalização do ordenamento canônico.
Positivação: processo de tomada de consciência eclesial dos conteúdos do
Direito.
Formalização: uma vez tomada consciência, se dá forma a esse conteúdo numa
lei do Código.
Por exemplo:
A relação jurídica
Relação jurídica ou relação de justiça é a conexão de dois ou mais sujeitos,
contemplada e protegida pelo Direito, que supõe um princípio organizador que a
mantém (HERVADA).
Em toda relação jurídica, há o concurso dos seguintes elementos:
1. Dois ou mais sujeitos: as pessoas que estão em conexão;
2. Um conteúdo: as situações jurídicas dos sujeitos, que estão vinculados
(poderes, capacidades, faculdades, direitos, deveres...).
3. Um vínculo: é o nexo com relevância jurídica entre os sujeitos em ordem ao
objeto;
4. Um princípio que preside, confere unidade e dá relevância jurídica à relação.
O princípio jurídico obedece sempre a uma finalidade organizadora (na
Igreja, a salvação da pessoa e a edificação da própria Igreja).
Observações:
Dois ou mais sujeitos, porque do contrário, não haveria alteridade.
O Direito visa ordenar somente as relações humanas intersubjetivas.
O objeto da relação é o devido ou o exigível em justiça por cada um dos
sujeitos.
O princípio organizador abrange as normas jurídicas, mas também costumes
jurídicos, atos jurídicos...
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
O sujeito de direito
A pessoa é a razão de ser do ordenamento jurídico e o protagonista principal da
dinâmica jurídica.
O sujeito da relação jurídica é todo ente capaz de centro de imputação de
situações jurídicas ou de realizar atividade com relevância no ordenamento jurídico.
Para ser sujeito de direito em sentido passivo, basta ter capacidade jurídica, ou
seja, capacidade para ser titular de situações jurídicas.
Para ser sujeito de direito em sentido ativo, deve ter capacidade de agir, ou seja,
aptidão para realizar atividade jurídica.
Observação:
Para o positivismo jurídico, a condição de sujeito de Direito depende mais
daquilo que estabelece o legislador, do que as qualidades ontológicas do sujeito. O
positivismo jurídico não reconhece direitos e deveres inalienáveis, radicados na
dignidade da pessoa humana.
A pessoa física no ordenamento canônico
Pelo batismo o homem é incorporado à igreja de Cristo e nela
constituído pessoa, com os deveres e os direitos que são próprios dos
cristãos, tendo-se presente a condição deles, enquanto se encontram na
comunhão eclesiástica, a não ser que se oponha uma sanção
legitimamente infligida (c.96).
A condição de pessoa na Igreja (persona in Ecclesia) é adquirida mediante o
batismo. E os não batizados?
A pessoa não batizada é sujeito de direitos eclesiásticos. Pessoa física, entendida
como centro de imputação de direitos e deveres e sujeito de atividade jurídica.
Prova-se com os seguintes cânones:
a) Cânon 206: catecúmenos;
b) Cânon 1125: matrimônio de católico com não cristão;
c) Cânon 1476: não batizado pode agir em juízo.
Segundo LOMBARDIA, a redação do cânon 96 deveria ser:
Pelo batismo, a pessoa é incorporada à Igreja de Cristo e nela constituída fiel
cristão.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Fatores que incidem no estatuto jurídico da pessoa física
a) Comunhão eclesiástica: Para exercer em plenitude a condição de pessoa na
Igreja (= fiel cristão), o batizado deve se encontrar em plena comunhão com
a Igreja. Se a comunhão eclesiástica falta, não se perde a titularidade dos
direitos e deveres do fiel cristão, mas o seu exercício resulta afetado.
b) Sanções: O exercício normal dos direitos e deveres do fiel cristão também
pode ser limitado por uma sanção legitimamente imposta.
c) Outros fatores determinantes: A expressão condição de cada um do c. 96
remete a uma série de características e circunstâncias pessoais, que
respeitada a igualdade de todos os fiéis cristãos, com seus direitos e deveres
comuns, manifesta a diversidade de situações jurídicas existentes na Igreja.
1. Uso da razão:
2. Idade:
3. Território: O domicílio ou quase-domicílio constituem a sede jurídica da
pessoa. O lugar que a lei considera seu centro de atividade jurídica.
4. Parentesco: Sob esse conceito se incluem certos vínculos que relacionam
as pessoas entre si, em virtude da natureza (consangüinidade) ou da lei
(afinidade e adoção):
Consangüinidade:
Afinidade:
Parentesco legal (adotivo):
5. Rito: A pertença a uma Igreja ritual sui iuris (autônoma).
6. Condição canônica: As condições de vida que caracterizam estavelmente
a existência do fiel cristão (clérigo ou leigo, consagrado ou não, casado
ou celibatário). Manifestações da diversidade de membros e funções
existentes na Igreja, conforme os dons que o Espírito Santo distribui
entre os fiéis cristãos para o bem da Igreja (cf. LG 7).
7. Sexo: Embora o CIC 1983 não mencione o sexo entre os fatores
determinantes da condição jurídica, o tem presente (cf. p. ex. cc. 230 §1,
1024).
Observação:
Tronco: pessoa(s) da(s) qual (quais) descendem os consangüíneos;
Linha: conjunto de pessoas que descendem de um mesmo tronco,
denominada reta, quando há procedência sucessiva (avô, pai, neto) e
colateral, quando existe um tronco comum, mas não procedem umas das
outras (tios, sobrinhos, primos).
Grau: indica a distância entre os parentes.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Idade e uso da razão:
A pessoa que completou dezoito anos é maior; abaixo dessa
idade, é menor (c. 97 §1).
O menor, antes dos sete anos completos, chama-se criança, e é
considerado não senhor de si; completados, porém, os sete anos,
presume-se que tenha o uso da razão (§2).
A pessoa maior tem o pleno exercício de seus direitos (c. 98
§1).
A pessoa menor, no exercício de seus direitos, permanece
dependente do poder dos pais ou tutores, exceto naquilo em que os
menores estão isentos do poder deles por lei divina ou pelo direito
canônico; no que concerne à constituição de tutores e ao seu poder,
observem-se as prescrições do direito civil, a não ser que haja
determinação diversa do direito canônico, ou que o Bispo diocesano em
determinados casos tenha julgado, por justa causa, dever-se
providenciar pela nomeação de outro tutor (§2).
Todo aquele que carece habitualmente do uso da razão é
considerado não senhor de si e equiparado às crianças (c. 99).
Território:
A pessoa chama-se: morador, no lugar onde tem seu domicílio;
adventício, no lugar onde tem quase-domicílio; forasteiro, se se
encontra fora do domicílio e quase domicílio que ainda conserva;
vagante, se não tem domicílio ou quase-domicílio em nenhum lugar (c.
100).
O lugar de origem do filho, mesmo neófito, é aquele onde os
pais tinham domicílio ou, na falta deste, quase-domicílio, quando o
filho nasceu; ou, se os pais não tinham o mesmo domicílio ou quase-
domicílio, onde a mãe o tem (c. 101 §1).
Tratando-se de filho de vagos, o lugar de origem é o próprio
lugar do nascimento; tratando-se de um exposto, é o lugar onde foi
encontrado (§2).
Adquire-se o domicílio pela residência no território de uma
paróquia ou, ao menos de uma diocese que, ou esteja unida à intenção
de aí permanecer perpetuamente se nada afastar daí, ou se tenha
prolongado por cinco anos completos (c. 102 §1).
Adquire-se o quase-domicílio pela residência no território de
uma paróquia, ou ao menos de uma diocese que, ou esteja unida à
intenção de aí permanecer ao menos por três meses se nada afastar daí,
ou se tenha prolongado de fato por três meses (§2).
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Os cônjuges tenham domicílio ou quase-domicílio comum; em
razão de legítima separação ou de outra justa causa, cada qual pode ter
domicílio ou quase-domicílio próprio (c. 104).
Tanto pelo domicílio, como pelo quase-domicílio, cada um
obtém seu pároco e Ordinário (c. 107 §1).
Consangüinidade:
Conta-se a consangüinidade por linhas e graus (c. 108 §1).
Em linha reta, tantos são os graus quantas as pessoas, omitindo
o tronco (§2).
Na linha colateral, tantos são os graus quantas as pessoas em
ambas os ramos, omitindo o tronco (§3).
Afinidade:
A afinidade se origina de um matrimônio válido, mesmo não
consumado, e vigora entre o marido e os consangüíneos da mulher, e
entre a mulher e os consangüíneos do marido (c. 109 §1).
Conta-se de tal maneira que os consangüíneos do marido sejam,
na mesma linha e grau, afins da mulher, e vice-versa (§2).
Parentesco legal:
Os filhos que tenham sido adotados de acordo com a lei civil
são considerados filhos daquele ou daqueles que os adotaram (c. 110).
Rito:
Com a recepção do batismo, fica adscrito à Igreja latina o filho
de pais que a ela pertencem ou, se um dos dois a ela não pertence,
ambos tenham escolhido, de comum acordo, que a prole fosse batizada
na Igreja latina; se faltar esse comum acordo, fica adscrito à Igreja ritual
à qual pertence o pai (c. 111 §1).
Qualquer batizando, que tenha completado catorze anos de
idade, pode escolher livremente ser batizado na Igreja latina ou em
outra Igreja ritual autônoma; nesse caso, ele pertence à Igreja que tiver
escolhido (§2).
O costume, mesmo prolongado, de receber os sacramentos,
segundo o rito de alguma igreja ritual autônoma não acarreta a
adscrição a essa Igreja (c. 112 §2).
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
A pessoa jurídica no ordenamento canônico
Conceito: A pessoa jurídica é o sujeito titular de obrigações e direitos
congruentes com sua própria índole, sem ser pessoa física (cf. c. 113 §2).
As pessoas jurídicas são entes de base coletiva ou patrimonial, capazes de ser
centro de imputação de situações jurídicas, ou que recebem do Direito a qualificação
formal de sujeitos.
Entre a multiplicidade de coletividades e patrimônios com fins que transcendem
a pessoa, o Direito canônico regula apenas os que perseguem uma finalidade congruente
com a missão da Igreja: obras de piedade, de apostolado ou de caridade, tanto espiritual,
quanto temporal (cf. c. 114 §§ 1-2).
Pessoas jurídicas públicas são universalidades de pessoas ou de
coisas constituídas pela competente autoridade eclesiástica para, dentro
dos fins que lhe são prefixados, desempenharem, em nome da Igreja, de
acordo com as prescrições do direito, o próprio encargo a elas confiado
em vista do bem público; as demais pessoas jurídicas são privadas (c.
116 §1).
Tipos:
Corporações: pessoas jurídicas de base pessoal ou coletiva, integradas por ao
menos três pessoas.
Fundações: pessoas jurídicas formadas por bens (coisas), espirituais ou
materiais, destinados a um fim pela vontade do fundador.
Pessoas jurídicas públicas: atuam em nome da Igreja;
Pessoas jurídicas privadas: atuam a título pessoal ou privado, sob a exclusiva
responsabilidade de seus membros.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
NORMAS CANONICAS
A norma no ordenamento canônico
O termo norma serve para designar qualquer regra objetiva e vinculante do
ordenamento jurídico (lei, costume, instrução...).
Características essenciais:
As normas jurídicas
São regras objetivas do ordenamento, ou seja, critérios objetivos propostos
ao sujeito, que servem para orientar a sua ação com relação aos demais,
determinando assim o que é justo.
Têm caráter vinculante, obrigatório, pelo que tendem a mover a vontade.
Possuem índole mais ou menos geral ou comum.
As normas jurídicas são dotadas de racionalidade. A norma é essencialmente
uma ordenação da razão; uma proposição da razão prática destinada a dirigir
as ações. Para ter força vinculante, deve ser racional.
Estão ordenadas ao bem comum, porque a norma como regra e medida da
conduta, deve buscar mais a utilidade geral do que o proveito particular.
Devem proceder daquele que tem o cuidado da comunidade, ou seja, das
pessoas ou instituições encarregadas de assegurar o bem comum da
sociedade e que contam com a autoridade ou poder necessário para obrigar a
seus membros a correspondente obediência.
Devem ser promulgadas, isto é, propostas ou dadas a conhecer
imperativamente e de modo oportuno.
A lei canônica
1. Conceito:
A lei canônica é um ato do poder legislativo da Igreja, dotado de generalidade,
cujo teor se expressa em uma fórmula, fixada mediante promulgação (LOMBARDIA).
Em outras palavras, a lei canônica é uma norma (geral) escrita, promulgada por
quem tem poder legislativo na Igreja.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
2. O autor da lei canônica:
O autor, sujeito ativo ou causa eficiente da lei canônica é o legislador. A
autoridade eclesiástica dotada estavelmente de poder legislativo.
Legisladores universais são o Romano Pontífice e o Colégio episcopal, quando
dão leis para todos os fiéis cristãos.
Legisladores particulares são o Romano Pontífice e o Colégio episcopal, quando
dão leis para um grupo de fiéis cristãos, delimitado por critérios territoriais ou pessoais,
em qualquer porção da Igreja.
Legisladores particulares, no âmbito de sua jurisdição, são os seguintes:
O Bispo diocesano;
Os Pastores a quem se confia o governo de outras circunscrições
eclesiásticas autônomas;
Os Concílios particulares (plenários e provinciais);
As Conferências episcopais, que só podem legislar em casos previstos pelo
Direito comum ou quando um mandato especial da Sé Apostólica assim o
estabeleça.
Observação: Há necessidade de reconhecimento da Santa Sé (cf. Comissão para
a Interpretação dos Textos Legislativos), quando se trata legislação particular emanada
dos Concílios particulares ou das Conferências episcopais.
3. O destinatário da lei canônica:
Estão obrigados às leis meramente eclesiásticas os batizados na
Igreja católica ou nela recebidos, que têm suficiente uso da razão e, se o
direito não dispõe expressamente outra coisa, completaram sete anos de
idade (c. 11).
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
4. Leis universais e particulares; leis territoriais e pessoais:
As leis universais obrigam em todos os lugares a todos aqueles
para os quais foram dadas (c. 12 §1).
As leis particulares não se presumem pessoais, mas sim
territoriais, a não ser que conste diversamente (c. 13 §1).
5. Promulgação e entrada em vigor da lei canônica:
A lei é instituída quando é promulgada (c. 7).
A promulgação é um ato oficial e público, revestido de certa solenidade, pelo
qual é estabelecida a lei e se fixa de maneira autêntica o seu texto.
As leis precisam ser conhecidas pelas pessoas:
a) Promulgação.
b) Difusão (publicidade).
c) Entrada em vigor.
Vacatio legis: período entre a data da publicação da lei e a data de sua efetiva
entrada em vigor.
O c. 8 fixa a forma da promulgação:
Leis universais: Revista Oficial AAS;
Leis particulares: de acordo com a disposição do legislador.
6. Obrigação, efeitos e irretroatividade da lei canônica:
A obrigatoriedade da lei canônica implica sempre uma obrigação moral, ou seja,
uma necessidade objetiva, de consciência e diante de Deus. Além disso, a lei tem efeitos
jurídicos, com projeção externa e inter-subjetiva.
As leis podem
Mandar: leis preceptivas,
Proibir: leis proibitivas,
Penalizar: leis penais,
Invalidar um ato jurídico: leis irritantes,
Inabilitar um sujeito para realizar um ato jurídico: leis inabilitantes.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Atenção: Lei irritante (ato írrito) e lei inabilitante (pessoa incapaz).
Por exemplo:
Em geral, as leis são irretroativas:
As leis visam o futuro, e não o passado, a não ser que
explicitamente nelas se disponha algo sobre o passado (c. 9).
7. Dúvida, ignorância e erro acerca da lei:
As leis, mesmo as irritantes ou inabilitantes, na duvida de
direito, não obrigam; na dúvida de fato, os Ordinários podem dispensá-
las, desde que, se se tratar de dispensa reservada, essa dispensa costume
ser concedida pela autoridade à qual está reservada (c. 14).
A ignorância ou o erro a respeito de leis irritantes ou
inabilitantes, não impedem o efeito delas, salvo determinação expressa
em contrário (c. 15 §1).
Não se presume ignorância ou erro a respeito de lei, de pena, de
fato próprio ou de fato alheio notório; presume-se a respeito de fato
alheio não notório, até que se prove o contrário (§2).
Dúvida: estado mental caracterizado pela flutuação do juízo diante de uma
alternativa.
Dúvida de direito: sobre o sentido, extensão, existência ou vigência da norma.
Dúvida de fato: sobre as circunstâncias do fato ou sobre o próprio fato.
Ignorância: falta de conhecimento.
Erro: conhecimento discordante da realidade.
Atenção: nenhuma classe de ignorância impede os efeitos da lei irritante ou
inabilitante.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
8. Interpretação e suplência da lei canônica:
Interpretação autêntica:
Interpreta autenticamente as leis o legislador e aquele ao qual
for por ele concedido o poder de interpretar autenticamente (c. 16 §1).
A interpretação autêntica, apresentada a modo de lei, tem a
mesma força que a própria lei e deve ser promulgada; se unicamente
esclarece palavras da lei já por si certas, tem valor retroativo; se
restringe ou estende a lei ou se esclarece uma lei duvidosa, não retroage
(§2).
A interpretação, porém, dada a modo de sentença judicial ou de
ato administrativo para um caso particular, não tem força de lei e
somente obriga as pessoas e afeta os casos para os quais foi dada (§3).
Modos de interpretação da lei:
As leis eclesiásticas devem ser entendidas segundo o sentido
próprio das palavras, considerado no texto e no contexto; mas, se o
sentido continua duvidoso e obscuro, deve-se recorrer aos lugares
paralelos, se os houver, a finalidade e às circunstâncias da lei, bem
como à mente do legislador (c. 17).
Princípio da interpretação lata dos favores e estrita das limitações:
As leis que estabelecem pena ou limitam o livre exercício dos
direitos ou contém exceção à lei, devem ser interpretadas estritamente
(c.18).
Lacunas legais (integração da lei):
Se a respeito de uma determinada matéria falta uma prescrição
expressa da lei, universal ou particular, ou um costume, a causa, a não
ser que seja penal, deve ser dirimida levando-se em conta as leis dadas
em casos semelhantes, os princípios gerais do direito aplicados com
eqüidade canônica, a jurisprudência e a praxe da Cúria Romana, a
opinião comum e constante dos doutores (c. 19).
Canonização da legislação estatal:
As leis civis, às quais o direito da Igreja remete, sejam
observadas no direito canônico com os mesmos efeitos, desde que não
sejam contrárias ao direito divino, e não seja determinado o contrário
pelo direito canônico (c. 22).
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
9. Cessação da lei canônica:
A dinamicidade e historicidade do Direito requerem a possibilidade da cessação
da lei canônica.
A lei posterior ab-roga ou derroga a anterior, se expressamente
o declara, se lhe é diretamente contrária, ou se reordena inteiramente
toda a matéria da lei anterior; a lei universal, porém, de nenhum modo
derroga o direito particular ou especial, salvo determinação expressa em
contrário no direito (c. 20).
Ab-rogar: pôr fora de uso; fazer cessar a existência de uma lei na sua totalidade.
Derrogar: revogar em parte uma lei.
O costume canônico
O costume é uma norma introduzida por usos comunitários, que não exige uma
fórmula escrita e tem eficácia jurídica corroborada pelo legislador.
Os costumes contribuem para ajustar o Direito à vida real. Os costumes
legítimos constituem uma manifestação relevante do múnus de reger de todos os fiéis
cristãos e de sua ação comum na edificação da Igreja (cf. LG 32).
Podem ser expressão da fé e da tradição. Por exemplo: O preceito dominical
parece ter surgido como um costume, antes de sua formulação legal.
A legitimidade e o valor de um costume dependem de certos requisitos,
estudados pela ciência canônica desde a época clássica e recolhidos pelo CIC 1983:
Aprovação do legislador (c. 23);
Racionalidade (c. 24);
Comunidade capaz (c. 25);
Ânimo ou intenção de introduzir Direito (c. 25);
Prazos (cf. c.26).
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Normas administrativas
Administração eclesiástica é o conjunto de sujeitos que exercem poder executivo
na Igreja ou colaboram em seu exercício.
a) Decretos gerais executivos: normas administrativas que se dirigem aos
destinatários da lei (cf. c. 32) e servem para determinar mais detalhadamente
o modo a ser observado no cumprimento da lei ou para urgir a sua
observância (cf. c. 31).
b) Instruções: normas que se caracterizam por estar dirigidas a quem tem a
tarefa de cuidar da execução das leis. São de caráter interno. Têm um duplo
objetivo: esclarecer o conteúdo das leis e desenvolver ou determinar as
formas pelas quais serão executadas (cf. c. 34).
Estatutos e regulamentos
Estatutos são normas jurídicas que regulam as corporações e as fundações,
determinando finalidade, constituição, regime e forma de atuar (cf. c. 94).
Regimentos são normas jurídicas que regulam as reuniões de pessoas e outras
celebrações, determinando constituição, regime e procedimento (cf. c. 95).
Princípio da hierarquia normativa
É um dos meios empregados pelos ordenamentos jurídicos para favorecer a
segurança jurídica.
As normas da autoridade inferior não podem ser contrárias às normas da
autoridade superior.
As leis que ocupam um nível mais alto prevalecem sobre as outras.
Por exemplo:
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
ATOS JURÍDICOS
Os atos jurídicos: noção, elementos e classes
Conceitos elementares:
Fato jurídico: ato que não depende da vontade humana.
Ato jurídico: ato humano (razão e vontade).
Negócio jurídico: ato jurídico que envolve ao menos dois sujeitos.
Ato jurídico é um ato humano, social e legítimo, destinado por vontade de seu
autor a produzir determinados efeitos jurídicos reconhecidos pelo Direito.
Para a validade de um ato jurídico requer-se que seja realizado
por pessoa hábil, e que nele haja tudo o que constitui essencialmente o
próprio ato, bem como as formalidades e requisitos impostos pelo
direito para a validade do ato (c. 124 §1).
Um ato jurídico, realizado de modo devido no que se refere aos
seus elementos externos, presume-se válido (§2).
Qualquer ato jurídico está sempre integrado por três tipos de elementos:
1. Subjetivos: a capacidade jurídica e a vontade do sujeito para realizá-lo.
2. Objetivos: os elementos sem os quais o ato não existiria. Ninguém pode
contrair matrimônio sem dar o consentimento.
3. Legais: as formalidades e requisitos estabelecidos por lei positiva, que, sem
afetar a substância do ato, podem condicionar a sua validade ou a aptidão do
sujeito para realizá-lo (leis irritantes e inabilitantes).
Classes de atos jurídicos:
Unilaterais, bilaterais ou multilaterais;
Privados: realizados em virtude da legítima autonomia privada dos fiéis
cristãos;
Públicos: efetuados pela autoridade pública no exercício de seu poder de
regime.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Atos jurídicos públicos e função administrativa
A função de governo da autoridade eclesiástica envolve atividades materiais ou
de gestão e atividades primordialmente meta-jurídicas (oração, pregação, conselhos,
exemplos...).
Para edificar e reger a Igreja (poder de regime), a autoridade deve também dar
normas, julgar e resolver os conflitos e enfrentar outras questões, em geral, mediante
atos jurídicos.
Alguns atos pertencem à função legislativa. Mais freqüentes são os atos jurídicos
públicos no exercício da função judicial. O processo canônico implica em uma série de
atos judiciais. Porém, o âmbito da atividade de governo onde os atos jurídicos públicos
desempenham um papel mais central é o da função administrativa.
Princípio da legalidade: A principal característica da função administrativa é a
sua submissão à legalidade. O legislador regula os atos administrativos com requisitos,
condições e garantias a fim de proteger os interessados diante de possíveis erros ou
injustiças.
a) Exclusão da arbitrariedade;
b) Regulação jurídica do exercício do poder.
Atos administrativos singulares
Noção: Ato administrativo singular é um ato jurídico unilateral e singular de
uma autoridade executiva.
Ato jurídico:
Unilateral, porque adquire eficácia jurídica tão somente pela vontade da
autoridade competente (diferentemente dos contratos).
Singular, porque se dirige a um destinatário concreto e sua eficácia não pode
estender-se a outros casos (diferentemente das normas administrativas de
índole geral).
Proveniente de autoridade executiva, que atua enquanto tal e dentro dos
limites de sua competência.
O ato administrativo singular, quer seja decreto ou preceito,
quer seja rescrito, pode ser praticado, dentro dos limites de sua
competência, por quem tem o poder executivo, salva prescrição do
cânon 76 §1 (c. 35).
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
1. Decreto singular:
Por decreto singular entende-se um ato administrativo da
competente autoridade executiva, pelo qual, segundo as normas do
direito, para um caso particular se dá uma decisão ou uma provisão, que
por si não pressupõem um pedido feito por alguém (c. 48).
O decreto singular é o paradigma do ato administrativo. Seu conteúdo é muito
variado, porque decisão e provisão são termos tão genéricos que permitem incluir
inúmeras medidas de governo (mandar, proibir, sancionar, nomear, remover, erigir,
autorizar, conceder...). Não requer petição de um interessado, o que não significa que
essa não possa existir.
Os decretos administrativos devem ser feitos em forma escrita. Se eles contêm
uma decisão, os motivos devem ser expostos, ao menos sumariamente (cf. c.51). A
notificação do decreto aos interessados, mediante documento legítimo, cumpre função
análoga a da promulgação das leis. Nenhum decreto produz efeitos jurídicos até que seja
executado por quem tem esse encargo (nos casos que exigem execução), nem pode ser
urgido antes de ser notificado o seu destinatário (cf. cc. 54-56).
O mecanismo jurídico do silêncio administrativo (cf. c. 57): serve para evitar os
problemas de incerteza e de indefinição, derivados da falta de resposta da autoridade.
2. Preceito singular:
Preceito singular é um decreto pelo qual se impõe, direta e
legitimamente, a determinada, pessoa ou pessoas, fazer ou omitir
alguma coisa, principalmente para urgir a observância de uma lei (c.
49).
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
3. Rescrito:
Por rescrito entende-se o ato administrativo baixado por escrito
pela competente autoridade executiva, mediante o qual, por sua própria
natureza, se concede privilégio, dispensa ou outra graça, a pedido de
alguém (c. 59 §1).
O rescrito é a resposta por escrito à petição de um interessado.
A petição recebe o nome de preces e deve ser motivada, porque a resposta da
autoridade dependerá das razões que são propostas para mover a sua vontade.
O rescrito contém a concessão de uma graça, algo não devido em justiça, em
favor de um ou vários beneficiários concretos. Corresponde, por isso, ao prudente juízo
da autoridade competente decidir se deve ou não concedê-la.
Conceito de graça: no âmbito canônico de governo, graça é algo não devido em
estrita justiça e que repercute favoravelmente na esfera jurídica do beneficiário,
ampliando os seus direitos ou possibilidades de atuação ou ainda lhe eximindo de
obrigações. Em razão do caráter gratuito, a autoridade competente pode ou não
concedê-la, de acordo com seu prudente juízo de oportunidade. Essa atuação da
autoridade se caracteriza pela discricionariedade, que não deve ser confundida com a
arbitrariedade.
Discricionariedade: aqui se encontra uma das características peculiares do
Direito canônico: a atuação à discrição da autoridade competente, ou seja, à livre
escolha. Coisa distinta da arbitrariedade.
A discrição, retamente entendida, além de respeitar os aspectos regulados pelas
normas jurídicas (condições, prazos e garantias) e de ajustar-se ao conjunto do
ordenamento canônico, está a serviço da eqüidade e se ordena à consecução do bem
comum da Igreja.
Arbitrário não é apenas o abusivo, o injusto ou o antijurídico, mas o exercício do
poder que não está submetido às normas jurídicas.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Conteúdo próprio dos rescritos:
Embora alguém possa usar no foro interno de uma graça que lhe
foi concedida oralmente, deve prová-la no foro externo, sempre que isso
lhe for legitimamente solicitado (c. 74).
Privilégio, ou graça em favor de determinadas pessoas físicas
ou jurídicas concedida por ato especial, pode ser concedido pelo
legislador e por uma autoridade executiva, à qual o legislador tenha
concedido esse poder (c. 76 §1).
A dispensa, ou relaxação de uma lei meramente eclesiástica
num caso particular, pode ser concedida pelos que têm poder executivo,
dentro dos limites de sua competência e também por aqueles aos quais
compete, explícita ou implicitamente, o poder de dispensar pelo próprio
direito ou por legítima delegação (c. 85).
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Atos jurídicos da autonomia privada
A edificação da Igreja depende da atuação da autoridade eclesiástica e da variada
atividade que corresponde a todos os fiéis cristãos, em virtude de sua dignidade e
liberdade (cf. LG 9).
Não é possível estabelecer uma perfeita distinção entre o âmbito público e o
privado dentro da Igreja, porque toda e qualquer atuação dos fiéis cristãos deve ordenar-
se, em última instância, ao fim da Igreja. Isso não impede a existência de espaços de
atividade jurídica que dependem da autonomia privada.
Por autonomia privada, se entende o poder jurídico reconhecido à pessoa para
que, livremente, regule as relações jurídicas que correspondem a sua esfera de liberdade
e iniciativa pessoal (MOLANO).
Por exemplo:
O Direito canônico oferece algumas normas nessa matéria. Entre elas se
destacam as que formalizam os direitos relativos à condição de liberdade dos fiéis
cristãos (cf. cc. 211, 214, 215, 219, 227).
A prescrição
A prescrição, enquanto modo de adquirir ou perder um direito
subjetivo ou modo de se livrar de obrigações, a Igreja a recebe como se
encontra na legislação civil da respectiva nação, salvas as exceções
estabelecidas nos cânones deste Código (c. 197).
A prescrição é um modo de adquirir ou perder direitos, assim como de
desvincular-se de obrigações, por transcurso do tempo, segundo certas condições.
Nessa matéria, o legislador eclesiástico remete ao disposto no Direito secular de
cada lugar, salvo o que determina o próprio CIC 1983.
Por exemplo: O direito de usucapião. A posse continuada de um terreno durante
um certo tempo.
A validade da prescrição se fundamenta na boa fé (cf. c. 198).
Alguns direitos e obrigações não estão sujeitos à prescrição (cf. c. 199).
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
PARTE II – O POVO DE DEUS
OS FIÉIS CRISTÃOS
INCORPORAÇÃO AO POVO DE DEUS E COMUNHÃO COM A IGREJA
O mistério da Igreja
O mistério da Igreja tem sua origem no mistério trinitário, ou seja, no desígnio
de Deus uno e trino (cf. LG 2).
A Igreja como sacramento (mysterium): com o conceito de sacramento, é
enfatizada a unidade entre dois pólos (humano e divino; visível e invisível; exterior e
interior) (cf. CCE 770-780).
A Igreja está na história, mas ao mesmo tempo a transcende. É
unicamente "com os olhos da fé" que se pode enxergar em sua realidade
visível, ao mesmo tempo, uma realidade espiritual, portadora de vida
divina (CCE 770).
"O Mediador único, Cristo, constituiu e incessantemente
sustenta aqui na terra sua santa Igreja, comunidade de fé, esperança e
caridade, como um 'todo' visível pelo qual difunde a verdade e a graça a
todos." A Igreja é ao mesmo tempo:
* sociedade provida de órgãos hierárquicos e Corpo Místico de Cristo;
* assembléia visível e comunidade espiritual;
* Igreja terrestre e Igreja enriquecida de bens celestes.
Essas dimensões constituem "uma só realidade complexa em
que se funde o elemento divino e humano": Caracteriza-se a Igreja por
ser humana e ao mesmo tempo divina, visível, mas ornada de dons
invisíveis, operosa na ação e devotada à contemplação presente no
mundo e, no entanto, peregrina. E isso de modo que nela o humano se
ordene divino e a ele se subordine, o visível ao invisível, a ação à
contemplação e o presente à cidade futura, que buscamos (CCE 771).
A Igreja como comunhão (communio): com a noção de comunhão são
conjugados unidade e pluralidade, universalidade e particularidade, igualdade e
diversidade.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
A Igreja como povo de Deus
Com a fórmula “povo de Deus”, a Constituição dogmática pretende enfatizar as
seguintes notas:
A unidade: Além da diversidade, os fiéis cristãos constituem uma única
estrutura social;
A sociabilidade: Os fiéis cristãos estão unidos por vínculos sociais;
A igualdade: Existe uma igualdade fundamental entre todos os fiéis cristãos,
que precede a qualquer diferenciação;
A historicidade: A noção de povo de Deus salienta o aspecto histórico e
externo da Igreja.
A nova abordagem do CIC 1983
O Livro II do novo Código, intitulado O povo de Deus, é o mais extenso (cc.
204-746) e o mais devedor da eclesiologia do Concílio Vaticano II.
O antigo Livro II do CIC 1917, denominado De personis, distribuía seu
conteúdo sobre a base dos chamados “estados canônicos” (clérigos, religiosos e leigos),
atribuindo um papel primordial aos clérigos. Os demais fiéis cristãos eram considerados
como sujeitos passivos da atividade da Igreja.
O Livro II do CIC 1983 apresenta o fiel cristão (christifidelis) como centro e
ápice do Direito canônico, antes de se referir aos diversos modos de viver essa condição
básica.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
O batismo e a comum condição de fiel cristão
Fiéis são os que, incorporados a Cristo pelo batismo, foram
constituídos como povo de Deus e assim, feitos participantes, a seu
modo, do múnus sacerdotal, profético e régio de Cristo, são chamados a
exercer, segundo a condição própria de cada um, a missão que Deus
confiou para a Igreja cumprir no mundo (c. 204 §1).
LG 31 inspira a noção de fiel cristão do c. 204 §1. Coincide substancialmente
com a de pessoa na Igreja (persona in Ecclesia) do c. 96.
Os elementos dessa noção:
A origem sacramental da condição de fiel cristão;
A conformação e união com Jesus Cristo;
A constituição como povo de Deus;
As conseqüências ontológicas dessa condição: participação do múnus de
Jesus Cristo e da missão da Igreja no mundo.
Desse modo, o c. 204 §1 mostra implicitamente que os fiéis cristãos possuem
uma condição jurídica de fundamental igualdade (cf. cc. 208-223) conjugada com certa
diversidade (cf. c. 207).
Por sua parte, o §2 coloca em evidência o caráter da Igreja como sociedade e
serve de preâmbulo para o tema da constituição hierárquica da Igreja:
Essa Igreja, constituída e organizada neste mundo como
sociedade, subsiste na Igreja Católica, governada pelo sucessor de
Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele (c. 204 §2).
A exigência de comunhão plena com a Igreja
Neste mundo, estão plenamente na comunhão da Igreja católica
os batizados que se unem a Cristo na estrutura visível, ou seja, pelos
vínculos da profissão da fé, dos sacramentos e do regime eclesiástico (c.
205).
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
A perda da plena comunhão e suas conseqüências
A comunhão eclesial tem uma raiz ontológica, derivada do sacramento do
batismo, que nunca desaparece. Nem sequer com a excomunhão.
A plena comunhão com a Igreja, entretanto, pode ser afetada de diversos modos
e condicionar assim o exercício dos direitos e deveres que são próprios dos fiéis
cristãos:
Pelo batismo o homem é incorporado à Igreja de Cristo e nela
constituído pessoa, com os deveres e os direitos que são próprios dos
cristãos, tendo-se presente a condição deles, enquanto se encontram na
comunhão eclesiástica, a não ser que se oponha uma sanção
legitimamente infligida (c. 96).
A Eucaristia, centro da comunhão eclesial
A Eucaristia, culminação de todos os sacramentos, exige ser celebrada em
conformidade com a fé apostólica e em comunhão com o sucessor de Pedro, com o
Colégio episcopal e com a Igreja inteira.
Com esses pressupostos, a Eucaristia consolida e leva à perfeição a comunhão
eclesial.
A posição peculiar dos catecúmenos
Por razão especial, ligam-se à Igreja os catecúmenos, a saber, os
que movidos pelo Espírito Santo, com vontade explícita desejam ser
incorporados a ela e, por conseqüência, por esse próprio desejo, como
também pela vida de fé, esperança e caridade, unem- se com a Igreja,
que cuida deles como já seus (c. 206 §1).
A Igreja dedica cuidado especial aos catecúmenos e, enquanto
os convida a viverem uma vida evangélica e os introduz na celebração
dos ritos sagrados, já lhes concede diversas prerrogativas, que são
próprias dos cristãos (§2).
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
A IGUALDADE FUNDAMENTAL DOS FIÉIS CRISTÃOS
O princípio da igualdade
A imagem do povo de Deus:
Um só é o Povo de Deus: «um só Senhor, uma só fé, um só
batismo (Ef 4,5); comum é a dignidade dos membros, pela regeneração
em Cristo; comum a graça de filhos, comum a vocação à perfeição; uma
só salvação, uma só esperança e uma caridade indivisa. Nenhuma
desigualdade, portanto, em Cristo e na Igreja, por motivo de raça ou de
nação, de condição social ou de sexo, porque «não há judeu nem grego,
escravo nem homem livre, homem nem mulher: com efeito, em Cristo
Jesus, todos vós sois um» (Gl 3,28; cf. Cl 3,11). Portanto, ainda que, na
Igreja, nem todos sigam pelo mesmo caminho, todos são, contudo,
chamados à santidade, e a todo coube a mesma fé pela justiça de Deus
(cf. 2 Pd 1,1). Ainda que, por vontade de Cristo, alguns são constituídos
doutores, dispensadores dos mistérios e pastores em favor dos demais,
reina, porém, igualdade entre todos quanto à dignidade e quanto à
atuação, comum a todos os fiéis, em favor da edificação do corpo de
Cristo. A distinção que o Senhor estabeleceu entre os ministros
sagrados e o restante Povo de Deus, contribui para a união, já que os
pastores e os demais fiéis estão ligados uns aos outros por uma
vinculação comum: os pastores da Igreja, imitando o exemplo do
Senhor, prestem serviço uns aos outros e aos fiéis: e estes dêem
alegremente a sua colaboração aos pastores e doutores. Deste modo,
todos testemunham, na variedade, a admirável unidade do Corpo
místico de Cristo: a própria diversidade de graças, ministérios e
atividades, consagra em unidade os filhos de Deus, porque «um só e o
mesmo é o Espírito que opera todas estas coisas» (1 Cor 12,11) (LG
32).
A noção de fiel cristão:
Fiéis são os que, incorporados a Cristo pelo batismo, foram
constituídos como povo de Deus e assim, feitos participantes, a seu
modo, do múnus sacerdotal, profético e régio de Cristo, são chamados a
exercer, segundo a condição própria de cada um, a missão que Deus
confiou para a Igreja cumprir no mundo (cânon 204 §1).
Os fiéis cristãos são aqueles que:
Incorporados a Cristo pelo batismo,
Constituídos como povo de Deus,
Feitos participantes do múnus sacerdotal, profético e régio de Cristo,
São chamados a exercer a missão de evangelizar.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
A função primordial do batismo na estruturação da Igreja.
Implicitamente, o cânon 204 §1 mostra que os fiéis cristãos possuem pelo
batismo uma condição jurídica de fundamental igualdade.
O princípio de igualdade na dignidade e na ação comum:
Entre todos os fiéis, pela sua regeneração em Cristo, vigora, no
que se refere à dignidade e atividade, uma verdadeira igualdade, pela
qual todos, segundo a condição e os múnus próprios de cada um,
cooperam na construção do Corpo de Cristo (cânon 208).
O princípio da igualdade significa que todos os fiéis cristãos possuem idêntica:
Dignidade;
Vocação à santidade;
Missão de evangelizar (edificação da Igreja).
A sociedade desigual
Toda sociedade se ordena ao bem comum. É próprio dos membros da sociedade
contribuir ao bem comum e receber dele as condições favoráveis para sua realização e
aperfeiçoamento.
A sociedade desigual é aquela cujos membros estão numa posição jurídica
distinta (não igual) com relação a sua participação, tanto na contribuição para o bem
comum, quanto no desfrute dos bens que constituem o bem comum. O desigual é a
condição jurídica de cidadão. Não se trata de situações de fato, mas de direito.
Por direito, os cidadãos não são iguais enquanto cidadãos. Estão divididos em
estratos sociais (estamentos) com uma cidadania modalizada pelo estrato ao qual
pertencem. Participam de uma maneira distinta do fim da sociedade e no bem comum
de acordo com o estrato social do qual fazem parte. Cada um participa da vida jurídica,
política, social, cultural, segundo a sua condição jurídica. Há uma diversidade de
estados (status), que comportam graus de cidadania.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
O princípio da igualdade desautoriza a concepção estamental da Igreja: Na
consideração da Igreja como sociedade desigual, confluem duas linhas de idéias e de
acontecimentos históricos:
a) A queda do Império romano do ocidente, no final do século V, traz consigo a
influência da mentalidade e, sobretudo a partir do século VIII, da
organização social germânica. Acontece uma espécie de adaptação da Igreja
ao regime econômico (feudalismo). A distinção de classes e a influência do
poder dos príncipes se fazem sentir na Igreja. A cristandade atinge a sua
plena configuração no século IX.
b) A necessidade de afirmação da doutrina católica por parte do Magistério
eclesiástico diante dos erros dos reformadores protestantes.
Na Igreja, não existem diversas classes de cristãos. Não se deve distinguir entre
membros ativos e passivos. Há uma só categoria de fiéis cristãos com o mesmo estatuto
jurídico básico.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
O estatuto jurídico fundamental dos fiéis cristãos
Do ponto de vista jurídico, o princípio da igualdade se traduz na condição
constitucional do fiel cristão, que implica um conjunto de direitos e deveres comuns.
Todas as demais situações jurídicas são derivações ou determinações dessa condição
fundamental.
O título sobre as obrigações e direitos de todos os fiéis cristãos (cc. 208-223) é
uma das novidades mais importantes do CIC 1983.
A redação desses cânones corresponde ao 6º princípio diretivo para a revisão do
CIC 1917. Quase todos os cânones desse título estão inspirados em textos do Concílio
Vaticano II e procedem do projeto Lei Fundamental da Igreja (LEF), no qual se
pretendia recolher o Direito constitutivo da Igreja, de acordo com a proposta de Paulo
VI. Essa é uma das razões pelas quais deve ser reconhecido o caráter constitucional
dessas normas. Isso exige que o restante do ordenamento canônico seja congruente com
elas.
Boa parte do CIC 1983 pode ser entendida como um desenvolvimento dos
cânones 208-223.
As normas constitucionais:
Prevalecem sobre as normas ordinárias;
Reclamam estabilidade e tutela especiais;
Atuam como critério inspirador e princípio hermenêutico do restante do
ordenamento jurídico.
O caráter constitucional desses direitos e deveres é deduzido também do fato de
que a maioria deles tem sua origem no batismo.
Algumas exigências, porém, são de direito natural (p. ex. c. 220) ou de direito
humano (c. 221 §3). Não são, por essa razão, exclusivas dos fiéis cristãos. Isso é uma
manifestação da dimensão histórica da Igreja, cujo ordenamento jurídico não é alheio ao
Direito natural e se serve de recursos técnicos do Direito positivo para cumprir a sua
missão no mundo.
O sujeito dos direitos e deveres é o fiel cristão (leigo, clérigo ou consagrado).
O objeto dos direitos e deveres é uma série de bens que correspondem aos fiéis
cristãos.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Cânon Objeto (bens)
209 Comunhão com a Igreja
210 Santidade de vida e edificação da Igreja
211 Apostolado
212 Obediência e diálogo com os pastores
213 Recepção dos bens espirituais da Igreja
214 Rito e espiritualidade
215 Associação e reunião
216 Iniciativa apostólica
217 Educação cristã
218 Investigação em ciências da fé
219 Eleição do próprio estado de vida
220 Boa fama e intimidade
221 Tutela jurídica
222 Participação nas necessidades da Igreja e
justiça social
223 Regulação do exercício dos direitos
Observações:
O catálogo de direitos e deveres não é exaustivo, nem sistemático;
No CCEO, cc. 7-26.
Atenção: nem tudo nesses cânones tem índole jurídica. Os direitos reclamam
tutela jurídica. Caso contrário, não são verdadeiros direitos. Alguns deveres são
principalmente morais (p. ex. c. 210).
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Texto e comentário:
Cânon 209 § 1. Os fiéis são obrigados a conservar sempre,
também no seu modo de agir, a comunhão com a Igreja.
§ 2. Cumpram com grande diligência os deveres a que
estão obrigados para com a Igreja Universal e para com a Igreja
particular à qual pertencem de acordo com as prescrições do
direito.
O primeiro dever do fiel cristão é conservar a comunhão com a Igreja. É
colocado no princípio do elenco de direitos e deveres a fim de assegurar que o estatuto
jurídico do batizado seja plenamente coerente com a natureza comunitária do povo de
Deus. A comunhão é o espaço teológico e jurídico em que se compreendem e operam os
direitos dos fiéis cristãos. Os direitos existem na Igreja, não frente à Igreja.
Cânon 210 Todos os fiéis, de acordo com a condição que
lhes é própria, devem empenhar suas forças a fim de levar uma
vida santa e de promover o crescimento da Igreja e sua contínua
santificação.
É dever do fiel cristão se esforçar por levar uma vida santa (justa e solidária). O
fundamento específico desse dever se encontra na vocação universal à santidade (cf. LG
39-42). O dever de tender à santidade é antes de tudo um dever moral. Tem relevância
jurídica na medida em que o requer a justiça legal (justiça que exige o cumprimento das
leis da Igreja), no referente à participação nos meios de salvação e à condição de vida e
funções de cada um.
Cânon 211 Todos os fiéis têm o direito e o dever de
trabalhar, a fim de que o anúncio divino da salvação chegue
sempre mais a todos os homens de todos os tempos e de todo o
mundo.
Comunicar o Evangelho com a palavra e com o testemunho de vida é um direito
e um dever do fiel cristão, anterior a qualquer disposição da hierarquia eclesiástica. A
vocação cristã, por sua própria natureza, é vocação ao apostolado (cf. AA 2). O direito
ao apostolado não apenas deve ser respeitado, mas também favorecido e impulsionado.
Isso exige, por parte da hierarquia eclesiástica, apoiá-lo, prestar-lhe os necessários
auxílios espirituais, ordenar o seu exercício ao bem comum da Igreja e vigiar para que a
doutrina da fé seja respeitada (cf. AA 24).
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Cânon 212 § 1. Os fiéis, conscientes da própria
responsabilidade, estão obrigados a aceitar com obediência cristã
o que os sagrados Pastores, como representantes de Cristo,
declaram como mestres da fé ou determinam como guias da
Igreja.
§ 2. Os fiéis têm o direito de manifestar aos Pastores da
Igreja as próprias necessidades, principalmente espirituais, e os
próprios anseios.
§ 3. De acordo com a ciência, a competência e o prestígio
de que gozam, tem o direito e, às vezes, até o dever de manifestar
aos Pastores sagrados a própria opinião sobre o que afeta o bem
da Igreja e, ressalvando a integridade da fé e dos costumes e a
reverência para com os Pastores, e levando em conta a utilidade
comum e a dignidade das pessoas, dêem a conhecer essa sua
opinião também aos outros fiéis.
O dever de obediência aos pastores (cf. c. 212 §1): Forma parte do dever de
comunhão e se fundamenta na constituição hierárquica da Igreja. Como obrigação
jurídica, apenas exige respeito aos pastores próprios (com poder sobre esses fiéis),
quando o que ensinam ou mandam entra no âmbito legítimo de suas competências.
O direito de petição (cf. c. 212 §2): O poder da hierarquia tem uma essencial
missão de serviço. Isso significa não só mandar o necessário para o bem comum, mas
também atender às necessidades, dificuldades ou desejos dos fiéis cristãos,
especialmente com relação à vocação à santidade (dever dos pastores de ouvir os
demais fiéis cristãos).
O direito de opinião (cf. c. 212 §3): Se apóia no correspondente Direito natural e
na responsabilidade comum de todos os fiéis cristãos na missão da Igreja. Expressar a
própria opinião “sobre o que afeta o bem da Igreja”, segundo o conhecimento,
competência e prestígio que tenham. Um limite absoluto desse direito é marcado pela
integridade da fé e dos costumes, ou seja, não cabe alegar o direito de opinião para
contradizer o Magistério eclesiástico em matéria de fé ou de moral. Dentro desse
limites, a “utilidade comum”, a “dignidade das pessoas” e, em particular, a “reverência
aos pastores” são condições para seu reto exercício.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Cânon 213 Os fiéis têm o direito de receber dos Pastores
sagrados, dentre os bens espirituais da Igreja, principalmente os
auxílios da Palavra de Deus e dos sacramentos.
Trata-se de um dos direitos mais básicos. Os referidos bens são necessários para
seguir a vocação à santidade e ao apostolado. Esse direito exige da hierarquia
eclesiástica que se organiza, na medida de suas possibilidades, de modo que os fiéis
cristãos possam receber a ajuda dos bens espirituais segundo as suas necessidades e
conforme a própria vocação (cf. organização pastoral diocesana, plano de ação
evangelizadora).
Cânon 214 Os fiéis têm o direito de prestar culto a Deus
segundo as determinações do próprio rito aprovado pelos
legítimos Pastores da Igreja e de seguir sua própria
espiritualidade, conforme, porém, à doutrina da Igreja.
Direito ao próprio rito: por rito se entende basicamente a Igreja ritual sui iuris
(autônoma), a qual cada fiel cristão fica adscrito mediante o batismo. Todo fiel cristão
tem direito de prestar culto a Deus segundo as normas de seu próprio rito, que são
normalmente as que lhe proporcionam maior utilidade espiritual.
Direito à própria espiritualidade: tem sua origem na vocação universal à
santidade. Exige respeitar a liberdade dos fiéis cristãos no referente à relação com Deus
e às suas expressões externas: o modo de cultivar as virtudes, de usar os meios de
santificar, de exercer os carismas pessoais e de evangelizar, sem limitar a vida espiritual
em moldes rígidos, nem pretender impor aos outros uma forma determinada de
espiritualidade. O limite desse direito é o marcado pela sua conformidade com a
doutrina da Igreja.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Cânon 215 Os fiéis têm o direito de fundar e dirigir
livremente associações para fins de caridade e piedade, ou para
favorecer a vocação cristã no mundo, e de se reunirem para a
consecução comum dessas finalidades.
Direito de associação: o legislador sanciona aqui não simplesmente um direito
humano, sem referência aos fins da Igreja, mas um direito originário do batizado,
fundamentado na natureza social da pessoa humana e na natureza comunitária da Igreja
(princípio de comunhão). Comporta liberdade para constituir associações na Igreja para
fins de caridade ou piedade ou ainda para promover a vocação cristã no mundo. Para
garantir a comunhão, cada associação deve manter a “devida relação” com a autoridade
eclesiástica (cf. AA 19), segundo o tipo de que se trate.
Direito de reunião: liberdade dos fiéis cristãos de congregarem-se eventualmente
para procurar os fins que podem perseguir, em virtude de seu direito de associação.
Cânon 216 Todos os fiéis, já que participam da missão da
Igreja, têm o direito de promover e sustentar a atividade
apostólica, segundo o próprio estado e condição, também com
iniciativas próprias; nenhuma iniciativa, porém, reivindique para
si o nome de católica, a não ser com o consentimento da
autoridade eclesiástica competente.
Direito de promover e sustentar as iniciativas apostólicas mais ou menos
institucionalizadas (p. ex. escolas, hospitais, jornais).
Cânon 217 Os fiéis, já que são chamados pelo batismo a
levar uma vida de acordo com a doutrina evangélica, têm o direito
à educação cristã, pela qual sejam devidamente instruídos para a
consecução da maturidade da pessoa humana e, ao mesmo tempo,
para o conhecimento e a vivência do mistério da salvação.
O direito de educação cristã, fundamentado na vocação recebida no “batismo de
levar uma vida de acordo com a doutrina evangélica”, compreende o ensina da doutrina
católica em todos os níveis: catequese, pregação e aprofundamento da mensagem
evangélica (cf. c. 229 §2). O dever correlativo a esse direito incumbe a toda a
comunidade cristã (cf. cc. 747 §1 e 794 §1).
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Cânon 218 Os que se dedicam ao estudo das ciências
sagradas gozam da justa liberdade de pesquisar e de manifestar
com prudência o próprio pensamento sobre aquilo em que são
peritos, conservando o devido obséquio para com o magistério da
Igreja.
A liberdade para investigar e a liberdade para opinar nas ciências sagradas
(teologia, exegese bíblica, liturgia, patrologia, história da Igreja, direito canônico) se
exigem mutuamente, porque o trabalho de investigação supõe, por natureza, contínuo
intercâmbio de idéias e opiniões.
O direito de manifestar a opinião pessoal nessas disciplinas é uma forma
específica do direito de opinião na Igreja (cf. c. 212 §3).
É um trabalho necessário para aprofundar a inteligência da fé e para oferecer
uma sólida educação cristã. Deve ser praticado de forma justa, sem lesar o dever de
comunhão (cf. c. 209 § 1) e o direito dos fiéis cristãos de receber a doutrina católica em
sua pureza e integridade. Dever ser praticado de forma prudente, ou seja, segundo os
modos próprios e os meios adequados da comunidade científica.
Cânon 219 Todos os fiéis têm o direito de ser imunes de
qualquer coação na escolha do estado de vida.
O direito de escolha do próprio estado de vida é um direito natural e um direito
do fiel cristão, relacionado com sua vocação cristã e sua espiritualidade.
Cânon 220 A ninguém é lícito lesar ilegitimamente a boa
fama de que alguém goza, nem violar o direito de cada pessoa de
defender a própria intimidade.
As exigências de boa fama e de intimidade são relacionadas entre si e de direito
natural. Estão recolhidas no CIC 1983 pela relevância que possuem na vida da Igreja e
para promover a sua adequada tutela.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Cânon 221 § 1. Compete aos fiéis reivindicar e defender
legitimamente os direitos de que gozam na Igreja, no foro
eclesiástico competente, de acordo com o direito.
§ 2. Os fiéis, caso sejam chamados a juízo pela autoridade
competente, têm o direito de ser julgados de acordo com as
prescrições do direito, a serem aplicadas com eqüidade.
§ 3. Os fiéis têm o direito de não ser punidos com penas
canônicas, a não ser de acordo com a lei.
A necessidade de tutelar juridicamente os direitos é inerente ao seu conceito,
porque o verdadeiro direito exige dar a seu titular o que lhe corresponde. Para a
autoridade pública, essa obrigação implica respeitar tais direitos e dispor de mecanismos
oportunos para a sua justa proteção, em função do bem comum (cf. DH 7).
Direito de legítima defesa dos próprios direitos (cf. c. 221 §1): refere-se à
proteção de todos os direitos que o ordenamento canônico reconhece. Comporta a
possibilidade de reclamá-los legitimamente diante dos demais fiéis cristãos e diante da
autoridade eclesiástica, assim como defendê-los em foro eclesiástico competente.
Direito de ser julgado segundo as normas jurídicas (cf. c. 221 §2): o fiel cristão
tem direito de ser julgado segundo as normas jurídicas já estabelecidas (substantivas e
processuais), que devem ser aplicadas com eqüidade, isto é, o rigor da lei deve ser
temperado com a compaixão, para que seja realçada melhor a virtude da justiça.
Direito que recolhe o princípio da legalidade em matéria penal (cf. c. 221 §3): o
direito natural obriga a autoridade a castigar somente quando haja razões legítimas e
proporcionadas para tanto. É um direito positivo vigente na maioria dos Estados
ocidentais.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Cânon 222 § 1. Os fiéis têm obrigação de socorrer às
necessidades da Igreja, a fim de que ela possa dispor do que é
necessário para o culto divino, para as obras de apostolado e de
caridade e para o honesto sustento dos ministros.
§ 2. Têm também a obrigação de promover a justiça social
e, lembrados do preceito do Senhor, socorrer os pobres com as
próprias rendas.
Dever de subvencionar as necessidades da Igreja (cf. c. 222 §1): deriva da
responsabilidade comum de todos os fiéis cristãos na missão da Igreja e do direito da
Igreja de exigir de seus membros os bens que necessita para o cumprimento dos seus
fins (cf. c. 1260). Em particular, para a digna celebração do culto a Deus, para a honesta
sustentação do clero e para as obras de apostolado e de caridade (cf. PO 17).
O 5º mandamento da Igreja (cf. CCE 2043).
Dever de promover a justiça social e de ajudar os mais pobres (cf. c. 222 §2):
Refere-se a todos os homens. Para os batizados, assume conotação peculiar, pois os fiéis
cristãos têm o dever de impregnar o mundo com a luz do Evangelho.
São exigências que podem ser cumpridas de modo individual ou de modo
associado.
Cânon 223 § 1. No exercício dos próprios direitos, os fiéis,
individualmente ou unidos em associações, devem levar em conta
o bem comum da Igreja, os direitos dos outros e os próprios
deveres para com os outros.
§ 2. Compete à autoridade eclesiástica, em vista do bem
comum, regular o exercício dos direitos que são próprios dos
fiéis.
Regulação intrínseca do exercício dos direitos (cf. c. 223 §1): o bem comum da
Igreja.
Regulação extrínseca do exercício dos direitos (cf. c. 223 §2): a autoridade
eclesiástica pode regular o exercício dos direitos dos fiéis cristãos, em atenção ao bem
comum.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
HIERARQUIA E DIVERSIDADE NA IGREJA
O princípio hierárquico e o princípio da diversidade:
A Igreja possui uma estrutura hierárquica em razão da administração dos meios
de salvação. É uma comunidade sacerdotal (sacerdócio batismal) organicamente
estruturada (sacerdócio ordenado) (cf. LG 10-11).
Da constituição hierárquica, deriva a desigualdades de funções presente na
Igreja. A desigualdade funcional assinala que as funções hierárquicas constituem a
estrutura do edifício institucional do povo de Deus. A diversidade funcional está
fundamentada ontologicamente na recepção do sacramento da ordem.
Outra coisa é o princípio da diversidade de carismas, vocações pessoais e
espiritualidades (cf. c. 214), condições de vida (cf. c. 219) e formas de espiritualidade
(cf. c. 216), que não contradiz a igualdade fundamental, mas enriquece a comunhão
eclesial.
O princípio da diversidade está radicado no sacramento do batismo e gera a
existência de distintas condições jurídicas pessoais, derivadas da única condição jurídica
constitucional de fiel cristão.
Cânon 207 § 1. Por instituição divina, entre os fiéis, há na Igreja
os ministros sagrados, que no direito são também chamados clérigos; e
os outros fiéis são também denominados leigos.
§ 2. Em ambas as categorias, há fiéis que, pela profissão dos
conselhos evangélicos, mediante votos ou outros vínculos sagrados,
reconhecidos e sancionados pela Igreja, consagram-se, no seu modo
peculiar consagram-se a Deus e contribuem para missão salvífica da
Igreja; seu estado, embora não faça parte da estrutura hierárquica da
Igreja, pertence, contudo a sua vida e santidade.
Utilizando um critério diferente em cada um dos seus parágrafos, o cânon 207
distingue entre clérigos e fiéis cristãos leigos (cf. §1) e entre fiéis cristãos que assumem
uma peculiar forma de vida consagrada e os que não (cf. §2).
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Os ministros ordenados (clérigos)
O CIC 1983 precisa que um fiel cristão passa a ser ministro sagrado mediante o
sacramento da ordem (cf. c. 1088), concretamente pela recepção do diaconato (cf. c. 266
§1). O Direito vigente, modificando a disciplina anterior, vincula a condição de clérigo
à ordenação. São clérigos exclusivamente aqueles que receberam o sacramento da
ordem em um de seus três graus (episcopado, presbiterato, diaconato).
O MP Ministeria quaedam de Paulo VI de 15/8/1972 supriu as ordens de
instituição eclesiástica (ostiariato, leitorado, exorcisato, acolitato e subdiaconato) e
configurou as funções de leitor e acólito como ministérios laicais.
1. A função eclesial dos ministros ordenados
2. A formação dos ministros ordenados
3. A incardinação
4. O estatuto jurídico dos clérigos
5. A perda da condição jurídica de clérigo
A função eclesial dos ministros ordenados (consagração e missão):
Cristo Nosso Senhor, para apascentar e aumentar continuamente
o Povo de Deus, instituiu na Igreja diversos ministérios, para bem de
todo o corpo. Com efeito, os ministros que têm o poder sagrado servem
os seus irmãos para que todos os que pertencem ao Povo de Deus, e por
isso possuem a verdadeira dignidade cristã, alcancem a salvação,
concorrendo livre e ordenadamente para o mesmo fim (LG 18).
O próprio Cristo é a fonte do ministério na Igreja. Instituiu-a,
deu-lhe autoridade e missão, orientação e finalidade. Para apascentar e
aumentar sempre o Povo de Deus, Cristo Senhor instituiu em sua Igreja
uma variedade de ministérios que tendem ao bem de todo o Corpo. Pois
os ministros que são revestidos do sagrado poder servem a seus irmãos
para que todos os que formam o Povo de Deus... cheguem à salvação
(CCE 874).
A função ministerial não se fundamenta em uma mera designação da
comunidade, mas no sagrado poder de Jesus Cristo. Mediante o caráter sacramental, os
clérigos são consagrados e destinados a servir ao povo de Deus com novo e peculiar
título.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
O MP Omnium in mentem de Bento XVI de 26/10/2009:
Mediante o sacramento da ordem, por instituição divina, alguns
entre os fiéis, pelo caráter indelével com que são assinalados, são
constituídos ministros sagrados, e assim, são consagrados e destinados a
servir, segundo o grau de cada um, com novo e peculiar título, ao povo
de Deus (cânon 1008).
Aqueles que são constituídos na ordem do episcopado ou do
presbiterato recebem a missão e a faculdade de atuar na pessoa de
Cristo cabeça; os diáconos, por sua vez, são habilitados para servir ao
povo de Deus na diaconia da liturgia, da palavra e da caridade (cânon
1009 §3).
Permanece sem alteração:
As ordens são o episcopado, o presbiterato e ao diaconato
(cânon 1009 §1).
Conferem-se pela imposição das mãos e pela oração
consecratória, prescrita para cada grau pelos livros litúrgicos (cânon
1009 §2).
Formação dos ministros ordenados:
Os que aspiram ao diaconato e ao presbiterato devem ser
formados com preparação cuidadosa, de acordo com o direito (cânon
1027).
A missão própria dos clérigos exige formação cuidadosa. A formação presbiteral
deve integrar de forma harmônica e equilibrada as dimensões humana, espiritual,
pastoral e doutrinal (cf. OT 8-20; PDV 43-59).
A incardinação dos clérigos:
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
O estatuto jurídico dos clérigos:
O CIC 1983 dedica um capítulo (cc. 273-289) aos principais aspectos do estatuto
jurídico dos clérigos, cujo conteúdo pode ser sistematizado como segue.
Capacidades: O c. 274 §1 estabelece que apenas os clérigos podem receber
ofícios cujo exercício requer poder de ordem ou poder de regime. Essa capacidade
habilita com caráter geral aos ordenados para as funções próprias dos ministros sagrados
na Igreja (cf. c. 129).
Deveres comuns matizados ou reforçados pela condição de ministro ordenado:
Trata-se de alguns deveres comuns de todos os fiéis cristãos, mas que são urgidos
especial ou peculiarmente, no caso dos ministros ordenados.
Dever de obediência aos legítimos pastores (c. 273);
Dever de fraternidade, comunhão e cooperação com os outros ministros
sagrados (c. 275, cf. c. 280);
Dever de buscar a santidade, no exercício das tarefas próprias do ministério
pastoral (cf. c. 276).
Deveres próprios dos clérigos: existem deveres especificamente vinculados com
a condição e a missão dos clérigos, que consistem em mandatos jurídicos precisos. Há
também normas que se limitam a indicar uma linha de conduta que deve ser
concretizada pelo Direito particular ou pela prudência de cada ministro ordenado. Trata-
se de exigências especialmente vinculadas com a santidade, disponibilidade e eficácia
do ministério.
Dever de aceitar e cumprir fielmente os encargos recebidos do Ordinário (c.
274 §2);
Dever de reconhecer e promover a missão própria dos fiéis cristãos leigos na
Igreja e no mundo (c. 275 §2);
Dever de celebrar diariamente a Liturgia das Horas e de participar de retiros
espirituais (c. 276 §2, 3º e 4º);
Dever de celibato, que conduz a evitar com prudência toda relação pessoal
que pode por em perigo a continência perfeita e perpétua (c. 277);
Dever de formação permanente (c. 279);
Dever de viver de forma pobre, simples e desprendida (c. 282);
Dever de residência na própria diocese (c. 283 §1);
Dever de vestir traje eclesiástico (c. 284, cf. c. 288);
Dever de fomentar a paz e a justiça entre os homens (c. 287 §1).
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Direitos próprios dos clérigos: muitos dos deveres indicados implicam também
os correlativos direitos. Além disso, o CIC 1983 reconhece expressamente os seguintes
direitos:
Direito de receber uma retribuição conveniente (c. 281);
Direito de assistência social (c. 281);
Direito de férias anuais (c. 283 §2).
Direitos modalizados pela condição de clérigo: no exercício de alguns direitos
que competem aos clérigos por Direito natural e por sua condição de fiéis cristãos
aparecem certos matizes e limitações, que são reflexo de sua condição.
Direito de associação (c. 278).
Congruência de vida e proibições especiais: a coerência de vida impõe aos
clérigos o dever de evitar certas atividades, que, em princípio, fazem parte do âmbito de
autonomia dos fiéis cristãos. O CIC 1983 estabelece o dever geral de abster-se de tudo
que contradiz o seu estado ou que resulte alheio a ele, ainda que não seja indecente (cf.
c. 285 §§ 1-2). Alguns aspectos desse dever geral se concretizam nas seguintes
proibições expressas:
Aceitar cargos públicos com poder civil (c. 285 §3, cf. c. 289 §2);
Aceitar certas obrigações econômicas (c. 285 §4);
Exercer o comércio (c. 286);
Participar ativamente em partidos políticos ou na direção de sindicatos (c.
287 §2);
Apresentar-se voluntariamente ao serviço militar (c. 289 §1).
Observação: algumas dessas proibições, por sua natureza, não afetam os
diáconos permanentes (c. 288).
A perda da condição jurídica de clérigos:
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Os fiéis consagrados pela profissão dos conselhos evangélicos
A profissão dos conselhos evangélicos aparece assim como um
sinal, que pode e deve atrair eficazmente todos os membros da Igreja a
corresponderem animosamente às exigências da vocação cristã. E
porque o Povo de Deus não tem na terra a sua cidade permanente, mas
vai em demanda da futura, o estado religioso, tornando os seus
seguidores mais livres das preocupações terrenas, manifesta também
mais claramente a todos os fiéis os bens celestes, já presentes neste
mundo; é assim testemunha da vida nova e eterna, adquirida com a
redenção de Cristo, e preanuncia a ressurreição futura e a glória do
reino celeste. O mesmo estado religioso imita mais de perto, e
perpetuamente representa na Igreja aquela forma de vida que o Filho de
Deus assumiu ao entrar no mundo para cumprir a vontade do Pai, e por
Ele foi proposta aos discípulos que O seguiam. Finalmente, o estado
religioso patenteia de modo especial a elevação do reino de Deus sobre
tudo o que é terreno e as suas relações transcendentes; e revela aos
homens a grandeza do poder de Cristo Rei e a potência infinita com que
o Espírito Santo maravilhosamente atua na Igreja. Portanto, o estado
constituído pela profissão dos conselhos evangélicos, embora não
pertença à estrutura hierárquica da Igreja, está, contudo,
inabalavelmente ligado à sua vida e santidade (LG 44).
A vida consagrada pela profissão dos conselhos evangélicos é
uma forma estável de viver, pela qual os fiéis, seguindo mais de perto a
Cristo sob a ação do Espírito Santo, consagram-se totalmente a Deus
sumamente amado, para assim, dedicados por título novo e especial a
sua honra, à construção da Igreja e à salvação do mundo, alcançarem a
perfeição da caridade no serviço do Reino de Deus e, transformados em
sinal preclaro na Igreja, preanunciarem a glória celeste (cânon 573 §1).
Assumem livremente essa forma de vida nos institutos de vida
consagrada, canonicamente erigidos pela competente autoridade da
Igreja, os fiéis que, por meio dos votos ou de outros vínculos sagrados,
conforme as leis próprias dos institutos, professam os conselhos
evangélicos de castidade, pobreza e obediência e, pela caridade à qual
esses votos conduzem, unem-se de modo especial à Igreja e a seu
mistério (§2).
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Entre os fatores que originam a diversidade na vida dos fiéis cristãos, tem
especial relevância certos carismas que geram formas estáveis de vida e apostolado,
fundamentadas em uma peculiar consagração a Deus, distinta da consagração batismal,
da matrimonial e da produzida pelo sacramento da ordem.
Alguns fiéis cristãos, clérigos ou não, pela profissão dos conselhos evangélicos
mediante voto ou outros vínculos sagrados, reconhecidos e sancionados pela Igreja, se
consagram a Deus e contribuem para a missão da Igreja no mundo, segundo uma
maneira peculiar (cf. c. 207 §2).
Esse modo peculiar se refere ao sinal e testemunho, que oferece da presença dos
bens espirituais (escatológicos) já neste mundo, da vida nova e eterna conquistada pela
redenção de Jesus Cristo, e da futura ressurreição.
A vida consagrada constitui uma representação pública da entrega à missão que
o próprio Jesus Cristo viveu e propôs a seus discípulos. Proclama de modo visível a
transcendência do reino de Deus com relação ao mundo, a soberania de Jesus Cristo e a
força do Espírito Santo.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Os fiéis cristãos leigos
A partir da perspectiva da constituição hierárquica da Igreja, se chama leigo a
todo fiel cristão que não recebeu o sacramento da ordem (cf. c. 207 §1). O termo
também é empregado para designar uma modalidade de fiéis cristãos que se distingue
tanto dos ministros ordenados quanto dos que assumem alguma das formas canônicas de
vida consagrada (cf. c. 207 §2).
Em sentido específico, os fiéis cristãos leigos são batizados que vivem as
circunstâncias comuns da existência no mundo. Sua posição eclesial não é delimitada de
modo meramente negativo, mas se caracteriza positivamente pela nota da secularidade,
já que “a índole secular é própria e peculiar dos leigos” (LG 31; cf. c. 225 §2).
A secularidade indica a qualidade peculiar que define o modo próprio dos fiéis
cristãos leigos de buscar a santidade e de participar na missão evangelizadora da Igreja
no mundo. Fundamenta, também, o seu estatuto jurídico no Direito canônico.
É própria e peculiar dos leigos a característica secular. Com
efeito, os membros da sagrada ordem, ainda que algumas vezes possam
tratar de assuntos seculares, exercendo mesmo uma profissão profana,
contudo, em razão da sua vocação específica, destinam-se sobretudo e
expressamente ao sagrado ministério; enquanto que os religiosos, no seu
estado, dão magnífico e privilegiado testemunho de que se não pode
transfigurar o mundo e oferecê-lo a Deus sem o espírito das bem-
aventuranças. Por vocação própria, compete aos leigos procurar o Reino
de Deus tratando das realidades temporais e ordenando-as segundo
Deus. Vivem no mundo, isto é, em toda e qualquer ocupação e atividade
terrena, e nas condições ordinárias da vida familiar e social, com as
quais é como que tecida a sua existência. São chamados por Deus para
que, aí, exercendo o seu próprio ofício, guiados pelo espírito
evangélico, concorram para a santificação do mundo a partir de dentro,
como o fermento, e deste modo manifestem Cristo aos outros, antes de
mais pelo testemunho da própria vida, pela irradiação da sua fé,
esperança e caridade. Portanto, a eles compete especialmente, iluminar
e ordenar de tal modo as realidades temporais, a que estão estreitamente
ligados, que elas sejam sempre feitas segundo Cristo e progridam e
glorifiquem o Criador e Redentor (LG 31).
Unidade de vida (secularidade e eclesialidade): a missão específica dos fiéis
cristãos leigos é santificar o mundo a partir de dentro, a modo de fermento. A qualidade
peculiar da vocação e missão dos fiéis cristãos leigos não exclui o papel que lhes
corresponde também na vida eclesial ad intra (ministérios).
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Observação: Não confundir secularidade com secularismo.
A modernidade (autonomia) e o processo de secularização.
GS 36: autonomia das realidades temporais.
DP 83: secularização e secularismo.
Observação: na modernidade, já não se pode pressupor a fé como a priori, ou
seja, como paradigma comum prefixado e pacificamente acolhido. Em termos positivos,
moderno é o tempo em que a verdade pode e deve ser buscada na liberdade (filósofo
Augusto DEL NOCE).
Bibliografia: TAYLOR, Charles. Uma era secular. São Leopoldo, RS:
UNISINOS, 2010.
O estatuto jurídico dos fiéis cristãos leigos:
A característica mais importante do CIC 1983 com relação aos fiéis cristãos
leigos é a mudança de perspectiva, com a proclamação do princípio da igualdade e a
formalização da condição jurídica comum de fiel cristão, com seus direitos e deveres.
O CIC 1983 dedica oito cânones (cc. 224-231) aos principais aspectos do
estatuto jurídico dos fiéis cristãos leigos. São normas de conteúdo heterogêneo, porque
misturam direitos e deveres jurídicos, capacidades jurídicas, deveres morais (p. ex. c.
225), capacidades, direitos e deveres que não são exclusivas (p. ex. cc. 228, 229), que
não afetam a todos, mas somente a alguns (p. ex. cc. 226, 230 §1, 231), que tratam de
aspectos muito restritos (p. ex. c. 230).
O conteúdo desse título pode ser assim sistematizado:
O apostolado dos fiéis cristãos leigos (c. 225 §1):
O matrimônio e a família na edificação da Igreja (c. 226):
A liberdade em matérias temporais (c. 227):
A formação doutrinal (c. 229 §1):
Direitos e capacidades com relação às ciências da fé (c. 229 §2 e §3):
Algumas capacidades em matéria litúrgica (c. 230):
Capacidades relativas a outras funções eclesiais (c. 228 §1 e §2):
Direito de retribuição adequada pelos serviços realizados (c. 231):
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
ASSOCIAÇÕES DE FIÉIS CRISTÃOS
Tipologia e normas comuns
Cânon. 298 § 1. Na Igreja existem associações, distintas dos
institutos de vida consagrada e das sociedades de vida apostólica, nas
quais os fiéis, clérigos ou leigos, ou conjuntamente clérigos e leigos, se
empenham, mediante esforço comum, para fomentar uma vida mais
perfeita, e promover o culto público ou a doutrina cristã, ou para outras
obras de apostolado, isto é, iniciativas de evangelização, exercício de
obras de piedade ou caridade, e animação da ordem temporal com
espírito cristão.
O c. 298 distingue expressamente as associações de fiéis cristãos dos Institutos
de vida consagrada e das Sociedades de vida apostólica. Nos IVC e nas SVA, a
dinâmica associativa gera realidades eclesiais que não constituem um puro exercício do
direito de associação (cf. c. 215), mas que pressupõem fenômenos carismáticos
especialmente vinculados com a vida e a santidade da Igreja.
Tipos de associações:
Segundo a vinculação funcional com a autoridade eclesiástica:
a) Associações públicas;
b) Associações privadas.
Segundo os fiéis cristãos que as formam:
a) Associações comuns (clérigos e fiéis cristãos leigos);
b) Associações de cristãos leigos;
c) Associações de clérigos.
Segundo o âmbito de atuação:
a) Associações diocesanas;
b) Associações nacionais;
c) Associações internacionais.
Segundo a vinculação com o exercício da ordem ou com Instituto religioso:
a) Associações clericais;
b) Ordens terceiras.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Normas básicas comuns (cc. 298-311):
Os fiéis cristãos têm liberdade para se inscrever em associações;
Cada associação deve ter estatutos;
As associações gozam de poder de governar a si mesmas (autonomia);
Toda associação está sujeita à vigilância e ao regime da autoridade
eclesiástica.
As associações privadas e as associações públicas
Associações públicas (cc. 312-320)
Associação pública é aquela que é constituída e erigida pela vontade decisória da
autoridade eclesiástica competente, à qual adere de maneira particular. Age em nome da
Igreja, porquanto é sempre pessoa jurídica pública (cf. c.116 §1). Tende, de acordo com
o Direito universal e os estatutos próprios, para o bem público da Igreja. É destinada a
finalidades coerentes com a missão da Igreja, especialmente as que são por si reservadas
à autoridade eclesiástica.
Associações privadas (cc. 321-326)
Associação privada é a que, surgida por iniciativa dos fiéis cristãos, governada
por eles segundo estatutos próprios, estando sempre em relação com a autoridade
eclesiástica, que pode também erigi-la em pessoa jurídica privada (cf. c.116 §2). Tende
para a realização de finalidades religiosas ou caritativas, exceto aquelas cuja obtenção é
reservada somente à autoridade eclesiástica. O caráter privado da associação não
diminui sua natureza eclesial.
A personalidade jurídica das associações
Para que uma associação de fiéis cristãos tenha personalidade jurídica no
ordenamento canônico se requer uma especial concessão por decreto da autoridade
eclesiástica (cf. c.114 §1). As associações privadas que desejam ter personalidade
jurídica devem apresentar seus estatutos para aprovação, e não para uma simples
revisão. Uma vez aprovados os seus estatutos, as associações privadas obtêm
personalidade jurídica por decreto formal da autoridade (cf. c.322 §1). As associações
públicas a recebem automaticamente, em virtude do mesmo decreto pelo qual a
autoridade as erige (cf. c.313).
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
O regime jurídico das associações
Governo da atividade associativa
No governo da atividade própria das associações, dois princípios são
fundamentais:
a) A sujeição das associações ao regime e à vigilância da autoridade
eclesiástica, segundo a norma comum do c.305;
b) A autonomia das associações para se governar e atuar conforme os seus
estatutos, segundo o princípio geral do Direito associativo.
Nomeação das funções de governo, capelães e diretores espirituais
A designação do presidente nas associações públicas se faz de acordo com os
estatutos, que podem dispor que a autoridade competente o nomeie livremente. Como
norma geral, a função de presidente não pode ser desempenhada pelo assistente
eclesiástico. A nomeação do capelão ou assistente eclesiástico de uma associação
corresponde sempre diretamente à autoridade (cf. c.317). Por sua vez, as associações
privadas designam livremente o presidente e os demais responsáveis pelas diversas
funções de governo. Se os membros de uma associação privada desejam ter um
sacerdote como diretor espiritual da associação, podem escolhê-lo livremente entre os
presbíteros que exercem legitimamente seu ministério na diocese, mas a nomeação deve
ser confirmada pelo Ordinário do lugar (cf. c.324).
Administração dos bens das associações
Cânon 1257 § 1. Todos os bens temporais pertencentes à Igreja
universal, à Sé Apostólica ou a outras pessoas jurídicas públicas na
Igreja são bens eclesiásticos e se regem pelos cânones seguintes e pelos
estatutos próprios.
§ 2. Os bens temporais de uma pessoa jurídica privada se regem
pelos estatutos próprios e não por estes cânones, salvo expressa
determinação em contrário.
As associações públicas são administradas de acordo com as normas do CIC
1983 sobre os bens eclesiásticos e segundo os seus estatutos, que devem ser congruentes
com essas normas. Cada associação administra os seus bens sob a superior direção da
autoridade eclesiástica competente, diante da qual deve prestar contas anualmente e
justificar o emprego das esmolas e oferendas recebidas (cf. c.319).
As associações privadas administram livremente seus bens conforme seus
estatutos. Isso, no entanto, não elimina o princípio de vigilância da autoridade
eclesiástica (cf. c.305).
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Admissão e demissão dos membros
No que se refere aos membros, a aceitação nas associações privadas deve ser de
acordo com o direito, universal ou particular, e os estatutos (cf. c.307 §1). Nas
associações públicas, a aceitação é inválida se o fiel cristão aceito abandonou
publicamente a fé católica ou se afastou da comunhão eclesiástica ou ainda se incorreu
em excomunhão, infligida ou declarada (cf. c.316 §1). Goza-se de direitos, privilégios,
indulgências e outras graças espirituais, concedidos a uma associação, somente se se é
validamente acolhida nela e não se é legitimamente demitido (cf. c.306).
Extinção das associações
Cânon 120 § 1. A pessoa jurídica, por sua natureza, é perpétua;
extingue-se, porém, se for legitimamente surpresa pela autoridade
competente ou se deixar de agir pelo espaço de cem anos; além disso, a
pessoa jurídica privada se extingue se a própria associação se dissolver
de acordo com os estatutos ou se, a juízo da autoridade competente, a
própria fundação tiver deixado de existir, de acordo com os estatutos.
As associações dotadas de personalidade jurídica possuem por natureza uma
tendência à duração por prazo indeterminado, mas podem se extinguir segundo as
hipóteses das normas acima referidas.
O destino do patrimônio, quando uma associação pública se extingue, é
determinado pelo c.123, que contém normas suficientes para o procedimento, ainda que
os estatutos da associação não disponham nada a respeito.
Normas específicas sobre associações de fiéis leigos (cc. 327-329)
Aos fiéis cristãos leigos, é recomendado que tenham em grande estima todas as
associações constituídas para fins espirituais e apostólicos, sobretudo aquelas que se
propõem animar de espírito cristão as realidades temporais e, desse modo, promover a
união mais íntima entre fé e vida (c. 327).
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
INSTITUTOS DE VIDA CONSAGRADA E SOCIEDADES DE VIDA
APOSTOLICA
Os Institutos de vida consagrada (IVC)
O conceito canônico de vida consagrada
Tipos de IVC
Ereção, organização jurídica e supressão de Institutos
Regime jurídico dos IVC
A profissão dos conselhos evangélicos
A vida fraterna
O patrimônio espiritual do Instituto
O Direito próprio dos IVC
O governo dos Institutos
Administração dos bens
Admissão e formação dos membros
Os Institutos religiosos
Conceito e características específicas
Admissão, formação e incorporação dos membros
Direitos e deveres dos Institutos e de seus membros
Apostolado dos Institutos religiosos
Separação do Instituto
Os Institutos seculares
Conceito e características específicas
Regime jurídico
As Sociedades de vida apostólica (SVA)
Conceito e características
Regime jurídico
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Os Institutos de vida consagrada (IVC)
O conceito canônico de vida consagrada
Cânon 573 § 1. A vida consagrada pela profissão dos conselhos
evangélicos é uma forma estável de viver, pela qual os fiéis, seguindo
mais de perto a Cristo sob a ação do Espírito Santo, consagram-se
totalmente a Deus sumamente amado, para assim, dedicados por título
novo e especial a sua honra, à construção da Igreja e à salvação do
mundo, alcançarem a perfeição da caridade no serviço do Reino de
Deus e, transformados em sinal preclaro na Igreja, preanunciarem a
glória celeste.
Essa descrição sintetiza os principais elementos teológicos do conceito de vida
consagrada, que serve de base para o regime jurídico dos IVC.
Tipos de IVC
Cânon 577 Há na Igreja numerosíssimos institutos de vida
consagrada que possuem dons diversos segundo a graça que lhes foi
dada, pois seguem mais de perto a Cristo, que ora anuncia o Reino de
Deus, que faz o bem aos homens, que convive com eles no mundo,
sempre, porém, fazendo a vontade do Pai.
A principal classificação que estabelece o Direito vigente é a entre Institutos
religiosos e Institutos seculares. Essa distinção se fundamenta nas modalidades que
assume a consagração pela profissão dos conselhos evangélicos. Existem, todavia,
outros critérios de classificação:
Segundo o exercício da ordem para o cumprimento do seu fim:
a) Institutos clericais;
b) Institutos laicais.
Segundo o sujeito da ereção ou aprovação:
a) Institutos de direito pontifício: Sé Apostólica;
b) Institutos de direito diocesano: Bispo diocesano.
Ereção, organização jurídica e supressão de Institutos
A ereção canônica dos IVC se dá mediante decreto formal e compete
exclusivamente à autoridade eclesiástica. O Bispo diocesano, consultando previamente
a Sé Apostólica, é competente para erigir Institutos no âmbito diocesano (cf. c.579).
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Regime jurídico dos IVC
A profissão dos conselhos evangélicos
Cânon 575 Os conselhos evangélicos, fundamentados na
doutrina e nos exemplos de Cristo Mestre, são um dom divino que a
Igreja recebeu do Senhor e que, com sua graça, conserva sempre.
A autoridade eclesiástica é a única competente para interpretá-los, regular sua
prática mediante leis e aprovar as formas estáveis de vivê-los (cf. c. 576).
A peculiar consagração da vida do fiel cristão se realiza pela profissão formal,
mediante votos ou outros vínculos sagrados (cf. c.573), dos conselhos evangélicos de
castidade, pobreza e obediência. Os cc. 598-601 determinam o conteúdo essencial
desses conselhos, que devem ser vividos segundo as constituições de cada Instituto.
A vida fraterna
Outro elemento próprio da vida consagrada é a vida fraterna, segundo o modo
próprio de cada Instituto (cf. c.602).
O patrimônio espiritual do Instituto
O patrimônio do Instituto, ou seja, sua natureza, fim, espírito e índole, segundo a
mente e o propósito do fundador, deve ser conservado fielmente (cf. c.578). O
patrimônio espiritual de cada Instituto, conseqüentemente, deve ser um dos conteúdos
fundamentais do seu Direito próprio (cf. c.587 §1).
O Direito próprio dos IVC
Na determinação do regime jurídico dos IVC, além das normas de Direito
universal, o Direito próprio de cada Instituto tem uma função muito importante. O
Direito próprio é constituído pelo código fundamental ou constituições (cf. c.587 §1) e
por códigos complementares (cf. c. 587 §4). Nas constituições, são recolhidos todos os
elementos do patrimônio espiritual do Instituto e as normas fundamentais sobre seu
governo e disciplina, sobre a incorporação e formação dos membros e sobre o objeto
próprio dos vínculos sagrados, mediante os quais os membros professam os conselhos
evangélicos (cf. c.587 §1). Outras normas de grau inferior às constitucionais, aprovadas
pela autoridade competente do Instituto, são recolhidas em códigos complementares.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
O governo dos Institutos
Cânon 586 § 1. É reconhecida aos institutos justa autonomia de
vida, principalmente de regime, pela qual possam ter disciplina própria
na Igreja e conservar intacto o próprio patrimônio, mencionado no c.
578.
§ 2. Cabe aos Ordinários locais assegurar e tutelar essa
autonomia.
Aqui é preciso distinguir entre as atribuições da autoridade eclesiástica e das
autoridades próprios dos Institutos (cf. cc.617-633; 716-717). Além disso, se deve
distinguir entre o poder de regime externo e o interno. De acordo com o primeiro, as
autoridades eclesiásticas competentes dispõem o necessário para a justa inserção da vida
e das atividades dos Institutos no conjunto da vida eclesial. Conforme o segundo, cada
Instituto se governa de acordo com o seu Direito próprio.
Todo Instituto de vida consagrada, seja de Direito pontifício, seja de Direito
diocesano, está sujeito de modo peculiar à autoridade suprema da Igreja (cf. c.590 §1).
Além disso, os Institutos de Direito pontifício (cf. c.589), sem prejuízo da autonomia
reconhecida pelo c. 586, dependem imediata e exclusivamente da Sé Apostólica no que
se refere ao regime interno e à disciplina (cf. c.593). Isso significa que a Santa Sé é a
autoridade competente para exercer o poder externo de jurisdição sobre as questões
relativas ao regime interno. Por sua vez, os Institutos de Direito diocesano (cf. c.589)
estão sob o especial cuidado do Bispo diocesano, que exerce com caráter geral o poder
de regime externo sobre eles, salvaguardada a autonomia interna. Finalmente, no que se
refere ao poder interno, os superiores e os capítulos dos Institutos têm sobre os seus
membros o poder determinado pelo Direito universal e as constituições (cf. c.596).
Admissão e formação dos membros
Cânon 597 § 1. Pode ser admitido num instituto de vida
consagrada qualquer católico, que tenha reta intenção, que possua as
qualidades requeridas pelo direito universal e pelo direito próprio e que
não esteja detido por nenhum impedimento.
§ 2. Ninguém pode ser admitido sem preparação adequada.
Essas normas básicas são concretizadas nos cânones dedicados à admissão,
formação e incorporação dos membros dos Institutos religiosos (cc. 641-661) e dos
Institutos seculares (cc. 720-726) e no Direito próprio de cada Instituto.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Os Institutos religiosos
Conceito e características específicas
Cânon 607 § 1. A vida religiosa, enquanto consagração da
pessoa toda, manifesta na Igreja o maravilhoso matrimônio estabelecido
por Deus, sinal do mundo vindouro. Assim, o religioso consuma a
doação total de si mesmo como sacrifício oferecido a Deus, pelo qual a
sua existência toda se torna culto contínuo a Deus na caridade.
§ 2. O instituto religioso é uma sociedade, na qual os membros,
de acordo com o direito próprio, fazem votos públicos perpétuos ou
temporários a serem renovados ao término do prazo, e levam vida
fraterna em comum.
§ 3. O testemunho público de Cristo e da Igreja, a ser dado
pelos religiosos, implica a separação do mundo que é própria da índole
e finalidade de cada instituto.
São, por conseguinte, características específicas dos Institutos religiosos:
A profissão dos conselhos evangélicos mediante votos públicos;
A vida fraterna, ou seja, vida em comunidade na casa religiosa
legitimamente erigida;
A forma própria de relação com o mundo, tradicionalmente chamada de
“separação do mundo”, que está intrinsecamente vinculada ao testemunho
escatológico da vida religiosa (cf. LG 44.46; PC 5).
Observação 1: a dimensão escatológica da vida religiosa terá manifestações
distintas nos diversos Institutos.
Observação 2: a “separação do mundo” deve ser compreendida e vivida em
função da santificação do mundo, porque contém um influxo cristão no mundo, que
apenas os religiosos são capazes de desenvolver.
Admissão, formação e incorporação dos membros
Os cc.641-653 regulam o período em que começa a vida no Instituto,
denominado de noviciado, normalmente em uma casa destinada a essa finalidade. Ao
terminar o noviciado, se é considerado idôneo, o noviço é admitido à profissão religiosa
(cf. c.653 §2). Com a profissão religiosa, os membros abraçam os conselhos evangélicos
com votos públicos. Desse modo, são consagrados a Deus pelo ministério da Igreja e
são incorporados ao Instituto (cf. 654). Com a incorporação ao Instituto, os membros
adquirem direitos e deveres determinados pelo Direito universal e pelo Direito próprio.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Direitos e deveres dos Institutos e de seus membros
O Direito universal estabelece alguns direitos e deveres dos Institutos e de seus
membros que estão especialmente relacionados com a proteção da identidade da vida
religiosa: fidelidade à vocação (cf. c.670), vida espiritual (cf. c.673), vida comum (cf.
c.665), prudência (cf. 666), clausura (cf. c.667), desprendimento dos bens temporais (cf.
c.668), hábito religioso (cf. c.669), licença para aceitar funções externas (cf. c.671),
formação permanente (cf. cc.659-661) e outras obrigações (cf. c.672).
Apostolado dos Institutos religiosos
Os princípios da regulação jurídica do apostolado dos Institutos são:
a) Antes de tudo, a modo de introdução, o CIC 1983 afirma que a eficácia
principal do apostolado dos Institutos religiosos reside no testemunho de
vida consagrada (cf. c.673);
b) Para os Institutos dedicados a obras apostólicas, é princípio fundamental que
a atividade apostólica faz parte da própria natureza do Instituto, por isso a
vida dos seus membros deve ser impregnada de espírito apostólico e o seu
apostolado deve ser imbuído de espírito religioso (cf. c.675 §1);
c) O princípio de comunhão, segundo o qual todo apostolado se realiza em
nome da Igreja e por seu mandato deve ser realizado em comunhão com ela
(cf. c.675 §3).
Separação do Instituto
A passagem para outro Instituto (cf. cc. 684-685);
A saída do Instituto (cf. cc. 686-693);
A demissão dos membros (cf. cc. 694-704).
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
Os Institutos seculares
Conceito e características específicas
Cânon 710 Instituto secular é um instituto de vida consagrada,
no qual os fiéis, vivendo no mundo, tendem à perfeição da caridade e
procuram cooperar para a santificação do mundo, principalmente a
partir de dentro.
Esses Institutos compartilham as características gerais dos IVC e se regem por
normas comuns. Possuem, por sua vez, características específicas que os distinguem dos
Institutos religiosos:
a) Seus membros assumem os conselhos evangélicos mediante vínculos
sagrados dispostos pelas constituições (cf. c.712), não necessariamente votos
públicos;
b) A vida fraterna se concretiza do modo disposto pelas constituições; ela não
implica necessariamente para seus membros a vida em comunidade em uma
casa do Instituto (cf. cc.714.716);
c) Essa modalidade de vida consagrada não se caracteriza pela separação do
mundo como os Institutos religiosos, mas pela nota de secularidade (cf.
c.713). Trata-se de secularidade consagrada ou consagração secular. Não se
confunde com a índole secular dos fiéis cristãos leigos.
Regime jurídico
As normas específicas sobre os Institutos seculares tratam com brevidade dos
outros diversos aspectos do seu regime jurídico (cf. cc.715-730), remetendo em boa
medida ao Direito próprio.
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA
As Sociedades de vida apostólica (SVA)
Conceito e características
Cânon 731 § 1. Aos institutos de vida consagrada acrescentam-
se as sociedades de vida apostólica, cujos membros sem os votos
religiosos buscam a finalidade apostólica própria da sociedade e,
levando vida fraterna em comum, segundo o próprio modo de vida,
tendem à perfeição da caridade pela observância das constituições.
§ 2. Entre elas, há sociedades cujos membros assumem os
conselhos evangélicos por meio de algum vínculo determinado pelas
constituições.
Essas sociedades não são Institutos de vida consagrada, pois seus membros não
professam publicamente os conselhos evangélicos. Sua característica fundamental é a
vida fraterna em comum, motivada pela dedicação às obras apostólicas próprias da
sociedade, de acordo com as constituições.
Regime jurídico
A maior parte do regime jurídico das SVA é estabelecida pelo Direito próprio e
por uma ampla remissão aos cânones sobre a vida consagrada e sobre os Institutos
religiosos, que devem ser aplicados tendo-se em conta a natureza própria de cada
sociedade. Os principais aspectos do regime jurídico referidos pelo CIC 1983 são:
A ereção das casas (cf. c.733);
O governo das sociedades (cf. c. 734);
A admissão, formação e incorporação dos membros (cf. cc.735-736);
Os direitos e deveres dos membros (cf. cc.737.739);
Os âmbitos de dependência do Bispo diocesano e dos próprios moderadores
(cf. c.738);
O dever da vida em comum em uma casa da Sociedade (cf. c.740);
A administração dos bens temporais (cf. c.741);
A separação da Sociedade (cf. c.742-746).
DIREITO DA IGREJA: APONTAMENTOS DE AULA