Caetano Veloso
Caetano Veloso
+ Cavaleiro/Samba em Paz
- Compacto
- 1965
- Influência da bossa nova e do samba-canção, ligação com o regionalismo religioso do interior baiano e
com o candomblé.
+ curta-metragem Viramundo
- dirigido por Geraldo Sarno
FASE TROPICALISTA
+ Caetano Veloso
- Álbum
- Compacto: Alegria Alegria / Remelexo
- Compacto Duplo: Soy Loco Por Ti, América / Superbacana / Clarice
- 1968
- Marco da Tropicália. Foge do apego à bossa nova e se aproxima da experimentação com outros
instrumentos e recursos estilísticos (como em "Clarice", "Onde Andarás" e "Paisagem Inútil"), com forte
presença de guitarras elétricas e teclados do rock, mais órgãos e instrumentos pesados das óperas. Há
também a digressão no ritmo e na cadência das frases e estrofes ("No Dia Em que Eu Vim-me Embora",
"Superbacana" e 'Eles"). As letras contextualizam o Brasil da forte repressão causada pela Ditadura,
evocando situações do cotidiano (como o abandono, a fuga, a solidão, o sofrimento, e também a própria
modernidade). Não tem pudor em tocar em temas e expressões que evocam violência e morte através do
lirismo. "Ave-Maria" evoca aos cânticos religiosos das procissões; "Onde Andarás" e "Paisagem Inútil"
inspiram-se nas músicas românticas ao estilo Nelson Gonçalves, onde Caetano emula até mesmo a forma
empostada de cantar; enquanto "Eles" fecha o álbum com a música indiana.
+ Tropicália ou Panis et Circensis (com Gal Costa, Gilberto Gil, Nara Leão, Os Mutantes e Tom Zé)
- Álbum
- Compacto: Baby / Mamãe, Coragem
- Compacto: Coração Materno / Hino ao Senhor do Bonfim
- 1968
- O álbum que é o manifesto da Tropicália e ao mesmo tempo seu testamento. Caetano integra o
manifesto com as composição da faixa-título "Panis Et Circensis", mais "Lindoneia", "Baby", "Mamãe
Coragem" e "Bat Macumba". Notáveis são as reinterpretações tropicalistas de "Coração Materno", "Três
Caravelas" e "Hino ao Senhor do Bonfim". Impossível não associar a força da instrumentalidade e suas
letras herméticas com o contexto da Ditadura Militar: a psicodelia esconde o brutal protesto contra a
repressão e as convenções sociais do conservadorismo e a modernidade. Ocorre a incursão de recursos
narrativos, como o rompimento da quarta parede ou trechos discursivos. Além dos artistas, ressalto a
notável contribuição em letra de Capinam e Torquato Neto e os arranjos do onipresente Rogério Duprat,
mesclando "correntes artísticas de vanguarda e da cultura pop nacional e estrangeira (como o Rock e o
Concretismo)".
- O álbum que é o manifesto da Tropicália e ao mesmo tempo seu testamento. Gil contribui com "Misere
Nóbis" (com Capinam), mais "Panis Et Circensis" e "Bat Macumba" (com Caetano). Desta vez, noto que
Gil possui maior apelo à narrativa linear, utilizando da aliteração e dos recursos linguísticos com
elementos do cenário para compôr suas músicas, ao contrário de Caetano que prefere montar um
"quebra-cabeça narrativo". Possui maior apelo à regionalidade e de evocar a religiosidade, já que "Misere
Nóbis" rememora a sacralidade e "Bat Macumba" é referência ao candomblé.
FASE UNIVERSAL
+ Caetano Veloso
- Álbum
- Compacto: Irene / Marinheiro Só
- Compacto Duplo: Irene / Carolina / Os Argonautas / Chuvas de Verão
- Agosto de 1969
- "Antes de partir para o exílio, em abril e maio de 1969, Caetano gravou as bases de voz e violão [...]
que foram mandadas para São Paulo, onde o maestro Rogério Duprat faria os arranjos e dirigiria as
gravações do disco, lançado em agosto". Aqui há uma forte aproximação com o rock, provocada pelas
distorções da guitarra elétrica e metais pesados, as expressões nos vocais mais altos; por outro lado, o
regionalismo continua presente acompanhado de luxuosos instrumentos de cordas (como em "Irene"), de
coros ("Marinheiro Só") e das marchinhas de carnaval ("Atrás do Trio Elétrico"). Ressalto também o flerte
com a universalização nas composições em inglês, como "The Empty Boat" e "Lost In Paradise", o fado
português e sua literatura em "Os Argonautas" e o tango argentino (regravação da música "Cambalache",
de E. S. Discépolo). "Não Identificado" é uma universalização de temas, mostrando sua atenção com
coisas que fogem da tradição brasileira - como uma letra de amor gravitando em torno de OVNIs ou
tecnologia. "Chuvas de Verão" é um reflexo bossa-novista da sua formação (regravação de Fernando
Lobo), ao passo que "Acrilírico" (quase um monólogo teatral musicado) e "Alfômega" (composição de
Gilberto Gil) são seus últimos rasgos tropicalistas.
+ Caetano Veloso
- Álbum
- 1971
- Compacto: Maria Bethânia / London, London (em 1972)
- Disco gravado durante o exílio em Londres com composições quase que exclusivamente em inglês. A
herança da Tropicália abdica das melodias e acompanhamentos extravagantes para um experimentalismo
mais intimista, quase "erudito", com arranjos de cordas que lembram as fases experimentais dos Beatles,
a folk music e o movimento musical britânico da época. Opta por faixas de grandes durações em que há
repetição de riffs, refrões ou mesmo de melodias. A sua passagem pelo exílio é referenciada em letras
melancólicas, como "London, London", e a evocação da música tradicional brasileira, como na regravação
autoral de "Asa Branca" (que representa bem a musicalidade deste álbum) e na inserção de "Marinheiro
Só" em "If You Hold a Stone". Aqui Caetano reafirma seus laços com a música brasileira e o país distante
em si ao resgatar canções populares de seu contexto de origem, quase como uma metáfora à sua própria
situação de exilado.
+ O Carnaval de Caetano:
- Compacto duplo: "Chuva, Suor e Cerveja (Rain, Sweat And Beer)" / "Barão Beleza" / "Qual É A Baiana?"
/ "Pula, Pula (Salto De Sapato)" / "La Barca"
- Dezembro de 1971
- Caetano iniciou seus primeiros passos em uma fase carnavalesca, que iria culminar na coletânea
"Muitos Carnavais" (de 1977). Influenciado pelas marchinhas clássicas do Carnaval de Salvador e de
ícones como Lamartine Babo, pode ser uma outra expressão para reafirmar seus laços com o nosso país,
já que ainda fora gravado em Londres durante o seu exílio. Percebe-se um distanciamento das noções
estéticas, reproduzindo instrumentos clássicos do gênero, mas com uma qualidade técnica inferior ao
algum seguinte. Suas composições autorais são "Chuva, Suor e Cerveja" e "La Barca (em parceria com
Moarcie de Albuquerque).
+ Deixa Sangrar
- Composição: Caetano Veloso
- Intérprete: Gal Costa para o álbum "Legal"
- 1971
- Seguindo a ritmica de Caetano do compacto anterior, serviu para abrilhantar o conjunto selecionado
para o álbum de Gal Costa. É mais uma adição das músicas carnavalescas, que abordam sob o viés
irônico o cotidiano e as conflituosas relações amorosas.
FASE EXPERIMENTAL
+ Transa
- Álbum
- Janeiro de 1972
- Impossível não associar Transa ao grupo que compõe a produção do disco, como Jards Macalé, Tutti
Moreno, Moacyr Albuquerque e Áureo de Sousa. É o mergulho profundo no rock experimental com ritmos
e percussões da brasilidade musical. Caetano rompeu as convenções de melodia e letra do gênero,
unindo aspectos do regionalismo brasileiro em "You Don't Know Me". Aplicou excertos de reggae (até
mesmo mencionando o nome do gênero) em "Nine Out Of Ten" montando um quebra-cabeça
experimental com a métrica da música (considerado por muitos vanguardista em relação ao rock mundial
dos Beatles e Rolling Stones). Adaptou também o poema "Triste Bahia" de Gregório de Matos e
reinventou o samba "Mora na Filosofia" dentro do espectro musical do álbum. Embora fosse gravado em
Londres, seu lançamento marca a volta definitiva de Caetano ao Brasil, após haver visitado o país
brevemente em agosto de 1971.
+ Araçá Azul
- Álbum
- Janeiro de 1973
- Segundo trabalho voltado para o experimentalismo após "Transa", esse possui um perfil anticomercial,
"tendo por isso grande número de devoluções, foi retirado de catálogo e relançado somente em 1987",
"influenciado, em parte, pela poética de invenção dos poetas concretistas paulistanos". Caetano não teve
pudores em utilizar recursos "antimusicais", como excertos de conversas, montagens sonoras, vinhetas e
vocalizações para expressar sua arte, como em "De Conversa / Cravo e Canela", "Gilberto Misterioso",
"De Palavra em Palavra", "Julia / Moreno". O seu flerte com a música mundial continua, com a regravação
do bolero "Tu Me Acostumbraste", enquanto o medley "De Cara / Eu Quero Essa Mulher" é uma
declaração de amor (ou posse?) embalada em um rock gutural; "Sugar Cane Fields Forever" é uma
referência direta aos Beatles, mas evoca a regionalidade das cirandas baianas com toda
instrumentalidade e quebra de ritmo do espólio tropicalista (variando entre caixas, guitarras, metais e
cordas, além de excertos de um violão bossanovista). Dessa pegada surge também "Épico", que faz jus
ao próprio nome ao evocar esse tipo de poema e um hermetismo contundente na letra que sintetiza a
ousadia do álbum.
+ Jóia
- Álbum
- Compacto "Qualquer coisa/Joia", "A Filha da Chiquita Bacana"/ "Escapulário"
- Julho de 1975
- Lançamento simultâneo com o álbum "Qualquer Coisa", originalmente pensado para ser um álbum
duplo. Definido pelo próprio autor como uma "joia" lapidada, parece um microcosmo de Caetano dentro
do nosso mundo, envolto pela regionalidade e a cultura tradicional. O disco remete ao interior, aos
tradicional, principalmente em letras que evocam uma simplicidade estilística, mas com enorme poder
lexical, de sentido e pela instrumentalidade (cercada de sopros e percussões).
+ Qualquer Coisa
- Álbum
- Compacto "Qualquer coisa/Joia"
- Compacto duplo: Qualquer Coisa / Jóia
- Julho de 1975
- Lançamento simultâneo com o álbum "Joia", originalmente pensado para ser um álbum duplo. Definido
pelo próprio autor como uma mistura de ritmos e estilo sem um propósito definido, tem um poder maior
de Caetano sobre o violão e em letras inspiradas em sua capacidade de conexão com temas universais,
como o amor e a representação de figuras. Interessante também o desprendimento de Caetano em
relação a várias regravações, como "Samba e Amor" (de Chico Buarque), Jorge da Capadócia (de Jorge
Ben) e "For No One", "Eleanor Rigby" e "Lady Madonna" (dos Beatles), marcados pelo violão e a
descontrução das melodias originais. Aqui Caetano rompe com o experimentalismo psicodélico ou fora do
mercado e se sente mais confortável com a sua arte, sem deixar a inquietação de lado.
+ Doces Bárbaros
- Álbum ao vivo
- Compacto "Doces Bárbaros": "Chuckberry Fields Forever" / "São João, Xangô Menino" "Esotérico" / "O
Seu Amor" (raras gravações em estúdio)
- 1976
- Projeto idealizado por Maria Bethânia ao lado de Caetano, Gil e Gal. Nitadamente inspirado no
movimento hippie dos anos 70, incorpora a tradição baiana com os elementos tradicionais da música
brasileira e também flerta com o experimentalismo do rock e da música mundial. Gravado ao vivo por
ideia também de Bethânia, ele tem mesmo o espírito dos hippies, tanto na postura quanto nas ideias,
com vocais e músicos com desprendimento técnico. Seria o último suspiro de um ar experimental
tropicalista para Caetano, que encontraria a sobriedade logo no final da década. Destaque para as
composições de Caetano: "Os Mais Doces Bárbaros" (canção-manifesto do grupo repleta de figuras de
linguagem, simbolismos e jogos de palavras), "Pássaro Proibido" [?], "Gênesis" [?], "Eu Te Amo" [?],
"Quando" [?], "Peixe" [?], "Um Índio" [?] e "São João, Xangô Menino" [?].