AULA 1
NEUROCIÊNCIA DA
LINGUAGEM
Prof. Everton Adriano de Morais
INTRODUÇÃO
Desenvolvimento da linguagem e aprendizagem com ênfase nos distúrbios
relacionados ao desenvolvimento neurolinguístico
A partir de agora você iniciará uma jornada pelo conhecimento relacionado
à linguagem e ao funcionamento do sistema nervoso. Os conteúdos serão
voltados à filogênese e à ontogênese da linguagem, aos processos de
aprendizagem, aos aspectos biopsicossociais e aos distúrbios relacionados à
linguagem. A neurociência da linguagem apresenta um campo multidisciplinar que
traz inúmeras áreas profissionais e do conhecimento para levar uma compreensão
de como o sistema nervoso humano desenvolve o processamento da linguagem.
Durante os últimos anos, houve avanços relacionados à neurociência e à
linguagem e, mediante métodos de neuroimagem, foi possível compreender
funcionamentos neuronais interdependentes na construção dos circuitos de
linguagem.
Uma das características mais surpreendentes é que a linguagem não se
restringe a um componente comportamental, mas está intimamente ligada a
mecanismos e ativações do cérebro como um todo. Diferentes regiões do encéfalo
desenvolvem atividades específicas na linguagem. Por exemplo, algumas áreas
estão mais especialistas na oralização enquanto outras estão mais voltadas à
compreensão da linguagem.
O córtex pré-frontal e o córtex motor envolvem-se na construção da
linguagem enquanto estruturas como o giro temporal superior e áreas vizinhas
estão ligadas à compreensão sonora das palavras e frases. Com base nisso,
também é possível considerar e analisar que estruturas como o giro angular, o
giro supramarginal e o giro frontal inferior são essenciais para o desenvolvimento
compreensivo da semântica e da sintaxe, respectivamente.
Quando a pauta da discussão é a linguagem e a neurociência, isso não se
restringe ao processo de oralização. O objetivo é muito mais amplo e envolve
aspectos de leitura, escrita e gestos. Atualmente, há recursos que possibilitam
investigações dos circuitos interdependentes como, por exemplo, aprofundando a
relação da articulação da linguagem e estruturas de lobos frontais ou a
compreensão da linguagem e os lobos temporais e parietais.
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Entender como o sistema nervoso se organiza e lida com o processo de
linguagem contribui também para que seja possível propor reabilitações efetivas
em casos de transtornos ou distúrbios que envolvem o funcionamento da
linguagem e suas ações práticas que impactam a rotina e as atividades diárias
dos pacientes que tiveram quadro clínico de alguma disfuncionalidade relacionada
à linguagem. Em suma, quando se fala de neurociência e linguagem é
extremamente importante compreender e entender toda essa organização
interdependente.
Após a apresentação da importância de saber os principais mecanismos
de funcionamento da linguagem e que esta envolve um grande e complexo
circuito, a seguir serão discutidos e aprofundados diversos temas sobre a
neurobiologia da linguagem, historicidade e evolução. Além disso, haverá pontos
que serão comentados sobre disfuncionalidades e como isso impacta o
desenvolvimento humano. Ótima leitura e aprofundamento do conhecimento.
TEMA 1 – LINGUAGEM: FILOGÊNESE E ONTOGÊNESE
1.1 Origem da linguagem e os mecanismos de recursos linguísticos
Os processos de desenvolvimento de linguagem trazem diversas formas
de expressões, estas com a finalidade de comunicação e registros de
características culturais, por exemplo. Esses aspectos promoveram alterações em
níveis sofisticados, complexos e interdependentes, e contribuíram para o avanço
da espécie humana em relação a tecnologias, construção das sociedades e
aprendizagens de modo geral. As modificações dos processos de linguagem
aconteceram por meio da utilização de recursos como escrita em rochas, em
papiros, manuscritos e outras ferramentas que possibilitavam os registros e a
propagação das informações de gerações a gerações (Ferreira et al., 2000).
Mas, com base nisso, o que se pode considerar como linguagem? Antes
de saber a que se refere o conceito de linguagem é importante entender uma das
áreas científicas que estuda os processos da linguagem, a linguística. Assim como
a biologia busca uma explicação para o que é a vida e a filosofia procura entender
o que é a razão, a linguística aprofunda-se a saber o que é e como funciona a
linguagem. Uma das quase unânimes afirmações na área da linguística é que a
linguagem humaniza o homem e o diferencia dos demais animais. Há uma
complexidade para esse processo devido à sistematização dos códigos, sendo
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estes gramaticais, letras, caracteres, no que se refere à linguagem escrita. Em
relação à linguagem oral, em alguns momentos o idioma produz de forma oral um
mesmo som, mas se diferencia nos seus significados, o que gera outra função
social e impacta a construção do entendimento de cada cultura. Por exemplo, em
para, do verbo parar, e em para, preposição, apesar da sonoridade ser a mesma,
o significado é diferente (Lyons, 2013, p. 3).
1.2 O que é a linguagem?
Mas, afinal, o que é a linguagem? De acordo com Lyons (2013, p. 3), a
linguagem é caracterizada como um conjunto sistematizado que, com base em
um método humanizado, reproduz a comunicação de ideias, emoções,
pensamento e similares, e isso não ocorre de forma originalmente instintiva, mas
racional. Há também a ligação forte entre a linguagem oral e a escrita e os
processos do pensamento, pois os símbolos são limitadores arbitrários em uma
sociedade e estes são produzidos mediante o pensamento humano, que, por sua
vez, são determinados pelo ambiente. Ou seja, tanto a escrita forma os símbolos
quanto os determinantes sociais e qualquer outro signo são transcrições de
pensamento.
Outro ponto a ser comentado é a função transformadora que a linguagem
produz: aumento no vocabulário, manutenção e organização dos processos de
memória, interação e integração social, mediação de conflitos, entre outros. A
funcionalidade não fica apenas no âmbito cognitivo, como já foi comentado
anteriormente, mas estende-se ao social, ao familiar etc. O ato de comunicação,
em um viés humano, corresponde a uma gama de signos que são carregados de
questões culturais, sociais e laborais.
A linguagem tem uma relação direta com os processos comportamentais,
sendo considerada também, por algumas perspectivas da psicologia, como
comportamento ou atividades, estas em suas peculiaridades observáveis como
comportamento linguístico. De acordo com Chomsky (Lyons, 2013, p. 8), a
linguagem pode ser definida por meio de duas descrições: competência e
desempenho. A competência é caracterizada como o armazenamento das
informações memorizadas em relação à linguagem e o desempenho como a
aplicação funcional dessa habilidade para um determinado idioma. E, de acordo
com esse autor, o desempenho linguístico pressupõe a competência. Em outras
palavras, diz ser possível usar a linguagem de uma forma habitual, assim como
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qualquer comportamento, e potencialmente pode-se exercitar um idioma, por
exemplo, tendo o entendimento de que há uma capacidade para isso.
Com base nos pontos abordados anteriormente, é importante frisar a inter-
relação que a linguagem tem com a fala. Sabe-se que esta não é a única forma
de linguagem e que a linguagem oral é, em determinado momento, mais básica
que a escrita. Uma das explicações para o fato de que a linguagem falada é mais
básica que a escrita é no sentido de prioridade histórica, por exemplo, pois durante
muito tempo as sociedades eram constituídas por indivíduos analfabetos (Lyons,
2013, p. 10).
Outros pontos importantes a serem trabalhados quanto à linguagem oral
são o sotaque e o dialeto. O primeiro é mais restrito que o segundo e não traz
nenhuma regra ou implicação, a não ser a construção cultural por motivo da
pronúncia e sonoridade das palavras. Indivíduos podem falar o mesmo idioma,
viver em regiões diferentes de um mesmo país, por exemplo um mineiro e um
gaúcho, e pronunciar palavras de formas diferentes, por diversos fatores culturais
e sociais. Mas eles serão muito possivelmente identificados, quando fora de suas
regiões, pela fonética empregada em suas frases. Isso não diferencia o idioma,
não impõe outras regras no falar estruturalmente, mas há uma distinção que os
destaca, um dialeto alemão, francês, entre outros, que podem se diferenciar
foneticamente por causa do sotaque empregado (Lyons, 2013, p. 19).
Dessa forma, pode-se ver que a linguagem possui diversas estruturas,
condições, interações sociais e culturais para atender a inúmeras demandas e,
por isso, tem várias definições. Sua complexidade e evolução permeiam diversos
períodos e sociedades, cada uma com sua particularidade e atividade, partindo
de uma demanda específica para cada função, seja escrita, seja oral, por exemplo,
mas que, em si, tem uma responsabilidade de interação entre os indivíduos num
sentido de comunicação, troca de conhecimento, informações, entre outros.
TEMA 2 – PROCESSOS DE APRENDIZAGEM E A LINGUAGEM
2.1 Letramento, alfabetização e o processo do aprender
Quando se fala em aprender tem-se uma possível compreensão de
decodificar, interpretar e analisar algo que foi apresentado através de uma ideia,
seja isso um novo idioma, uma atividade motora, um comportamento motor, entre
outros. Mas quando falamos de uma aprendizagem relacionada à linguagem
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deve-se levar em consideração o transformar símbolos, caracteres, letras, pontos
em uma organização gramatical, por exemplo, a qual contribui para o aprender de
um escolar. O que se faz quanto ao mecanismo da alfabetização é nada mais
nada menos que decodificar sinais e transformá-los em sons, partindo da leitura
e da escrita.
Com essa aprendizagem ganha-se na decodificação, aprende-se a separar
em sílabas, a construir palavras, a ler, a escrever e pode-se dizer que após essa
decodificação e transformação temos uma pessoa alfabetizada. Mas a pergunta
que fica é: para que serve? Uma importante reflexão está em pensar: toda pessoa
alfabetizada tem a compreensão e o entendimento do que fazer com as palavras
e os textos que lê? Ou apenas decodifica e não atribui sentido ao significado dessa
decodificação? Bem, se uma pessoa alfabetizada aprende letras e palavras
isoladas, mas não tem o entendimento de como aplicar, pode-se dizer que esta é
alfabetizada, mas possivelmente iletrada (Lotsch, 2016, p. 43).
Dessa forma, é necessário entender o que é, ou qual é, a definição de
letramento. Diversas teorias da aprendizagem quando relacionadas à linguagem
escrita e à leitura procuram compreender qual é o dinamismo e a relação entre a
habilidade de codificar e decodificar caracteres e o entendimento do mecanismo
ativo e funcional desse sistema. A explicação sobre o conceito de alfabetização
tem um viés que contribui para as vertentes social, familiar, cultural, econômica e
cognitiva, por exemplo, e isso faz com que uma pessoa alfabetizada também seja
letrada.
Todavia, define-se de uma forma objetiva o letramento como alfabetização
funcional. E essa descrição se embasa no sentido de que a decodificação amplia-
se para interação social e a contribuição de uma pessoa a outra. Quando se tem
um indivíduo que consegue identificar a descrição de sinais gráficos, mas não
consegue compreender sua funcionalidade, tem-se um analfabeto funcional, pois
não há uma utilização interacional com aquilo que se interpreta e sem
aplicabilidade, e isso o faz um indivíduo iletrado (Lotsch, 2016, p. 44).
No começo da alfabetização, quando uma criança aprende a ler e a
escrever, essa nova atividade possibilita a transformação de um mundo. Há uma
maturação de estruturas biológicas de memória e linguagem e existem contatos e
algumas mudanças de conceitos e esquemas em relação ao desenvolvimento
leitor. Mas quando o indivíduo busca apenas a leitura de palavras isoladas e não
a aplicação de um contexto, um sentido social, por exemplo, este não chega até
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o objetivo de letrar-se. Por esse motivo, o educador deve apresentar os mais
diversos gêneros textuais e, com isso, mostrar desenvolver o alfabetizado também
em um letrado. Isso posto, é importante que o profissional da educação se importe
também em construir e desenvolver métodos de interpretação textual,
compreensão leitora e uma variabilidade de ferramentas para incentivo e estímulo
do aluno leitor que, muitas vezes, lê, mas não entende o que lê (Lotsch, 2016, p.
45).
TEMA 3 – DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM E ASPECTOS
BIOPSICOSSOCIAIS
3.1 O processo sócio-interativo da linguagem
De acordo com Eysenck e Keane (2017, p. 345), a vida humana seria
extremamente limitada sem a utilização da linguagem, pois é por meio dela que
ocorrem as interações sociais. Nos dias atuais há mais facilidade de acesso a
informações do que na antiguidade, uma vez que a transmissão de informações
ocorre por um meio tecnológico e a internet contribui muito para essa propagação
e interação. Discutimos anteriormente o que é a linguagem e apresentamos
alguns pontos de sua importância para os seres humanos e suas particularidades
que os diferem dos demais animais, como, por exemplo, a capacidade de
sociointeração. Especificamente essa composição não fica apenas na
decodificação de símbolos, e há autores (Eysenck; Keane, 2017) que enumeram
uma grande variabilidade de funções, como construções de pensamentos, registro
de informações, expressão de emoções, identificação com grupos e outras
questões mais.
Apesar de já discutido anteriormente em um determinado nível, traz-se a
necessidade de perguntar, neste momento: por que a linguagem é peculiar aos
seres humanos? E qual é a sua função no processo de humanização? Qual o
motivo de animais como o chimpanzé, o bonobo e o gorila, por exemplo, não
conseguirem desenvolver a linguagem como os seres humanos? Uma criança por
volta dos seis anos de idade apresenta um vocabulário de aproximadamente duas
mil e seiscentas palavras, com uma compreensão de mais de vinte mil (Malloy-
Diniz et al., 2010, p. 223). Entretanto, em uma pesquisa feita com macacos
primatas superiores foi realizado um acompanhamento de especificamente uma
bonobo fêmea durante quatorze anos em relação à aprendizagem da linguagem
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por meio de símbolos que construíram frases, como “por favor, posso tomar um
café?”. Interessante? Com certeza. Outro ponto a ser comentado é que essa
macaca bonobo tinha capacidade também de se referir ao passado e de produzir
respostas a intenções futuras, isso até mesmo com maior habilidade que crianças
pequenas. O mais interessante é que isso era feito diversas vezes com
espontaneidade. Então, qual a diferença em relação aos seres humanos com
base nesse exemplo, uma vez que há capacidade espontânea de aprender a
linguagem?
Durante o acompanhamento dessa bonobo, percebeu-se que a construção
de frases ocorria de forma simples e não havia uma grande quantidade de novas
frases, existindo uma mínima compreensão em relação à gramática. Com base
nessa pesquisa, considera-se que a linguagem humana é algo peculiar e de difícil
atingimento pelos demais animais, devido à maturação biológica cerebral das
áreas da linguagem, criatividade, memória, entre outras funções cognitivas, e a
sua interatividade com o processo de socialização de forma interdependente
(Eysenck; Keane, 2017, p. 345-346).
TEMA 4 – AFASIA DE EXPRESSÃO
4.1 A linguagem e Broca
Durante o percurso histórico a linguagem teve inúmeros estudiosos e estes
procuraram compreender como organizamos e produzimos informações. Desde
tempos primordiais, com os gregos, até os tempos atuais, o desafio foi mapear
como todo esse funcionamento acontece. Por exemplo, um aluno do famigerado
Pitágoras, Alcmeon, foi o primeiro entusiasta grego a sinalizar que existe uma
relação entre sensações e o cérebro, este órgão como sede da racionalidade
(Pimentel, 2020, p. 4).
Muitos séculos depois, em meados do século XIX, o médico francês Pierre
Paul Broca (1824-1880), em seus estudos voltados a aspectos neurológicos,
depara-se com um paciente que aparentemente compreendia bem a linguagem,
mas tinha incapacidade de expressar-se e, na maioria das vezes, a pronúncia era
tan, além de outras poucas palavras. Seus estudos com Laborgne, nome do
indivíduo atendido, geraram muitos conhecimentos a respeito da linguagem
expressiva e logo após a morte de Tan, como também era conhecido o paciente
atendido por Broca, este apresenta o caso à comunidade científica de Paris e
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descreve o que havia ocorrido no cérebro de Laborgne. Foi uma lesão por
acidente vascular cerebral na região do giro frontal inferior esquerdo. E assim
surgiu a famosa máxima “falamos com o hemisfério esquerdo”, frase esta
pronunciada por Broca (Pimentel, 2020, p. 8; Kandel et al., 2023, p. 1.225-1.226).
Diante dessa descoberta, os estudos sobre a linguagem expressiva avançaram
significativamente, além de haver uma compreensão maior a respeito da
concepção de afasia, distúrbio ligado à linguagem.
Broca era conhecido por suas pesquisas a respeito da afasia, uma
disfuncionalidade da linguagem em consequência de comprometimentos
cerebrais. Suas identificações relacionadas à linguagem e a regiões específicas
do cérebro contribuíram para inúmeras descobertas sobre processos de
linguagem expressiva. Até os dias de hoje, os circuitos especializados desse
funcionamento, mais especificamente com coordenação da região frontal inferior,
são conhecidos como "área de Broca". Suas pesquisas, como mencionamos
anteriormente, foram importantes para o tratamento de pacientes com lesões
cerebrais e que tinham, como consequência, um comprometimento na articulação
da linguagem (Pimentel, 2020).
Suas pesquisas revolucionaram estudos científicos voltados a processos
cognitivos, intimamente ligados à linguagem e suas funcionalidades no cérebro,
apresentando um sistema complexo interdependente e integrador, o qual não
envolve apenas uma circuitaria, mas diversas. A região conhecida como área de
Broca promoveu uma transformação na perspectiva das neurociências devido à
identificação de não apenas um local, ou um circuito responsável pela linguagem,
mas, como mencionamos anteriormente, inúmeras funções, estruturas, circuitos
e processos que envolvem cognição, emoção, vocabulário e cultura.
A partir disso, Broca contribuiu para a compreensão da inter-relação
hemisférica do cérebro com inúmeras e diferentes funções cerebrais que são
especializadas e funcionam de forma assimétrica em ambos os hemisférios
cerebrais. Sua pesquisa sobre a afasia também ajudou a estabelecer
direcionamentos e estudos para entendimento da base moderna para avanços
dos mapeamentos em relação à cognição, à neurofisiologia e à neuroanatomia do
sistema nervoso (Kandel et al., 2023, p. 1.225-1.226)
Os ensinamentos de Broca foram mais adiante da identificação da área
descrita com seu nome. Suas atenções à pesquisa foram pioneiras a respeito da
linguagem e do sistema nervoso e trouxeram contribuições para pesquisas
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posteriores que proporcionaram aprofundamento na nossa compreensão da
linguagem humana e de suas bases neurobiológicas.
4.2 Expressão em ação
O processo de desenvolvimento de linguagem expressiva refere-se a como
construímos a troca de informação de forma executiva, ou seja, de que maneira a
linguagem chega às pessoas por meio das pessoas. Numa conversa, temos o
envolvimento de conteúdos culturais, vivências e experiências, conteúdo
coloquial, conteúdo formal, memórias em diversas definições (Santos; Júnior,
2021, p. 4-5; Vasconcelos; Leitão, 2012, p. 148-168). E qual o objetivo dessa
troca? Comunicação? Parece algo óbvio, mas nem sempre a linguagem tem por
objetivo comunicar.
Em alguns momentos, o propósito é expressar um sentimento ou uma
emoção que não necessariamente tenham uma função de comunicar algo,
apenas expressar-se. Mas toda expressão de linguagem traz como funcionalidade
a comunicação ou quer comunicar algo? A resposta é não. Por exemplo, alguém
está sentado em um banco, olhando para o horizonte, e diz “nossa, que bonito!”.
Quando essa pessoa é questionada sobre o que havia falado, devolve o
argumento “nada, não”. Entretanto, apesar de ter conteúdo de palavras, não há
comunicação como finalidade. Outro exemplo: um indivíduo brasileiro, falante
apenas de língua portuguesa, faz uma viagem para o exterior, um local
desconhecido a princípio, no qual os falantes têm como língua original o holandês.
Esse indivíduo chega em um restaurante e tenta produzir diversas palavras para
fazer seu pedido, mas não é compreendido e sai do local. Nesse caso, a
linguagem foi produzida, porém não houve comunicação. Por esse motivo,
compreende-se que nem toda linguagem expressiva produz conteúdo significativo
e passível de compreensão (Santos; Júnior, 2021, p. 10-11; Zeigelboim et al.,
2010, p. 143-148).
A linguagem possui um sistema complexo e interdependente e, por esse
motivo, traz inúmeras condições em seu processamento. Mediante os trabalhos
de Broca e Wernicke foi possível compreender o funcionamento de expressão e
compreensão, respectivamente, estudados pelos autores. Neste momento o
enfoque será dado à linguagem expressiva e suas principais características. De
acordo com Broca, a ativação relacionada à linguagem expressiva ocorria devido
a um local específico no cérebro. Essa consideração era decorrente de pacientes
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que eram atendidos por ele e que apresentavam uma lesão na terceira
circunvolução na região frontal esquerda do cérebro e que, por disso, tinham
problemas com a articulação dos processos cognitivos ligados à expressão
(Santos; Júnior, 2021, p. 3-5). A Figura 1 mostra lesões cerebrais na área
conhecida como área de Broca.
Figura 1 – Imagens cerebrais com lesões na área de Broca, região predominante
no funcionamento da linguagem expressiva
Crédito: Wasteresley Lima.
A disfuncionalidade da linguagem expressiva, ou distúrbio da construção
da fala, foi identificada por Broca em pacientes que apresentavam uma dificuldade
imensa para integração de processos como entonação melódica e produção
fluente, diferentemente do exemplo de dificuldade de comunicação entre
indivíduos de origem e nacionalidade distintas, nos quais não há problemas
neurobiológicos, mas uma dificuldade de fluência e vocabulário devido à falta de
experiência (Kandel et al., 2023, p. 1.224-1.226). Nos casos de lesão ou disfunção
anatômica ou fisiológica no cérebro no circuito de expressão da linguagem, isso
acarreta uma alteração patológica intitulada afasia de Broca ou afasia de
expressão.
Mas o que seria especificamente afasia? Trata-se de uma condição clínica
na qual há um distúrbio de produção e articulação da linguagem. Isso inclui
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deficiências em nível gramatical, armazenamento, aspectos motores,
funcionamento sensorial, lentidão, entonação e lentidão da fala. Os casos de
afasia de expressão trazem como consequência situações como falar palavras
faltando letras e uma incapacidade de repetição integral de frases. Por exemplo,
na pronúncia “... ‘ma moça, ve’o ontem casa” (uma moça veio ontem aqui em
casa), há dificuldade de organizar a frase devido a omissões e erros,
principalmente com verbos e conjunções (Kandel et al., 2023, p. 1.224).
TEMA 5 – AFASIA DE COMPREENSÃO
5.1 O conceito de compreensão da linguagem de Wernicke
O processo de linguagem compreensiva exige um alto nível de
complexidade. Por exemplo, vocabulário, interpretação e compreensão são
alguns componentes desse funcionamento. Uma disfuncionalidade nesse nível é
nomeada como afasia de expressão, que afeta a construção de um indivíduo
produzir e organizar seus pensamentos. Uma das causas está relacionada a
comprometimentos no encéfalo, como os causados por lesões cerebrais
adquiridas de diversas ordens (Kandel et al., 2023, p. 14, 1.221). O processo de
linguagem é afetado na via compreensiva, porém, quando se exige repetição,
aparentemente a linguagem oral é preservada. Pense em um indivíduo que está
com dificuldade de organizar as palavras, que parece estar extremamente perdido
e sem rumo. A disfunção da compreensão de linguagem em nível de afasia
caracteriza-se por pensamentos e organização de ideias totalmente sem nexo ou
conexão entre si e, por isso, dificuldade de repetição ou de acesso a sentenças
até mesmo simples do dia a dia. Para o indivíduo que apresenta afasia de
expressão, a linguagem torna-se um conjunto de blocos e estes não se encaixam,
mesmo com qualquer tentativa ou esforço.
A linguagem tem uma ligação organizada, assim como um time de qualquer
esporte coletivo bem-sucedido. Porém, quando a compreensão é afetada além
das características cognitivas, há consequências emocionais e o indivíduo pode
demonstrar ansiedade, frustração e uma angústia intensa em função do
comprometimento. Todas as tentativas de esforço são afetadas como
consequência de resultados não efetivos para encontrar as palavras adequadas.
Com isso, a condição clínica fica como se fosse um jogo de caça-palavras no qual
o indivíduo não consegue avançar em seus objetivos. No desenvolvimento da
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rotina desses indivíduos, o impacto acontece quando precisam de comunicações
assertivas, por exemplo descrever uma ideia ou repetir algum recado. As ideias e
as condições socioemocionais tornam-se um grande desafio, pois mesmo com
grande esforço e a fala fluente a comunicação não é efetiva (Kandel et al., 2023,
p. 1.223). Quando um indivíduo apresenta essas características relacionadas à
linguagem expressiva é de extrema importância a participação de uma rede de
apoio com grande empatia, pois o fato de não conseguir repetir um recado simples
ou até mesmo um comando para efetuar uma tarefa pode trazer frustração,
impactar o paciente de forma emocional e desencadear alterações de
comportamento.
Contemporâneo de Broca, o neurologista alemão Karl Wernicke (1848-
1905) trouxe diversos estudos relacionados ao funcionamento de linguagem em
uma via de ligação entre articulação e compreensão. Por exemplo, recursos
cognitivos ativados para a produção da fala estão intimamente ligados a circuitos
relacionados a vocabulário e aspectos de memória, além de outras condições de
funcionamento sensório-motor (Pimentel, 2020, p. 10-11).
Para Wernicke a linguagem tem um complexo circuito que envolve o
funcionamento de diversas estruturas cerebrais e inúmeras funções, estas
interconectadas e com objetivos comuns. A compreensão não se limita a uma
função de receber e decodificar sons, mas, além disso, traz ativação de histórias,
memória de vivências e conceitos. Diante disso, os estudos de Wernicke
exploraram a relação da linguagem com a disfuncionalidade da compreensão,
pois muitos dos pacientes atendidos formavam palavras e frases em nível
gramaticalmente correto, porém sem sentido conceitual e semântico (Kandel et
al., 2023, p. 4).
Nesse circuito de funcionamento de compreensão, há estruturas cerebrais
que são ativadas para identificação de sons, formas, melodias da fala e
processamento sensorial. Isso não envolve apenas identificação ou decodificação
sensorial, mas uma organização de múltiplas áreas e execuções de mecanismos
corticais e subcorticais. Quando ouve-se uma voz humana, não há uma única
ativação ou processo, mas criam-se imagens de rosto, tom de voz, um momento
vivenciado e outras características particulares que podem envolver muitas
histórias de vida. A Figura 2 apresenta informações sobre esse circuito posterior
cortical de funcionamento da linguagem compreensiva ligada à linguagem
expressiva e outras ativações sensoriais (Kandel et al., 2023, p. 14).
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Figura 2 – Imagens cerebrais acerca do processamento de linguagem em via de
compreensão e expressão
Crédito: Jefferson Schnaider.
Dessa forma Wernicke, com outros autores, por exemplo Broca, traz
inquietações quanto ao real funcionamento da linguagem e ao fato de que esta é
processada com a participação de um circuito de alto nível de complexidade e não
restringe-se a um local ou funcionamento. Por esse motivo, quando há uma lesão
ou falha no sistema de identificação, é necessário compreender todos os
mecanismos envolvidos e não somente reduzir a uma visão topográfica ou um
local específico, uma vez que este faz parte de um todo que é essencial para que
o processo tenha seu funcionamento adequado (Kandel et al., 2023, p. 14).
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5.2 A compreensão e organização das palavras
Já imaginou uma conversa em que a maior parte do discurso não seja
coerente ou a maioria das frases não faça sentido nenhum? Vamos construir um
contexto no qual é necessário passar um recado sobre a visita de um familiar no
final de semana. Um indivíduo sadio possivelmente falaria: “este final de semana
o titio virá e ficará até domingo...”. Agora, pense: se esse recado fosse “titio
domingo ficará virá semana final”, haveria a necessidade de ter praticamente um
tradutor para compreender a mensagem. Casos como esse podem ocorrer por
desatenção, dificuldade de vocabulário, falta de manejo em relação à conversa ou
até mesmo déficit intelectual.
Como mencionamos no tópico anterior a respeito da afasia, há uma
disfuncionalidade de linguagem em nível de processamento de compreensão na
qual os indivíduos têm um desenvolvimento de oralidade em geral preservado,
porém há uma disfuncionalidade de entendimento e interpretação (Marcolino,
2010, p.109-124). A esse aspecto clínico dá-se o nome de afasia de Wernicke ou
afasia de compreensão.
Essa é uma condição em que o indivíduo tem dificuldade de compreender
discursos e frases de outras pessoas. Isso é decorrente de lesões cerebrais em
áreas relacionadas a questões gramaticais e principalmente ao significado das
palavras. Em nível anatômico, o circuito está ligado a regiões do córtex posterior
e está associado a audição e interpretação (Pimentel, 2020, p. 1-18; Arruda; Reis;
Fonseca, 2014, p. 853-862; Pinto; Santana, 2009, p. 413-421). O córtex posterior
tem, entre seus principais objetivos, o processamento de informações em nível
receptivo. Cada repartição, intitulada lobo cerebral, tem sua responsabilidade
quanto às funções de armazenar, organizar e processar informações. Um
exemplo básico é quando recebemos um estímulo auditivo, como o som de uma
música. As áreas primárias do córtex auditivo fazem o processo de sensação
(identificação do estímulo) e as áreas secundárias promovem a interpretação do
estímulo, funcionamento conhecido como percepção. Por último, a cognição vai
integrar as características do estímulo recebido. Por esse motivo, é importante
entender que a compreensão não funciona sozinha, mas que há muitos
mecanismos que trabalham em conjunto (Pimentel, 2020, p. 1-18). A Figura 3
apresenta cérebros com lesões nas áreas de Wernicke.
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Figura 3 – Imagens cerebrais com de lesões nas áreas de Wernicke
Crédito: Elias Aleixo.
Inicialmente Wernicke deu a essas disfuncionalidades o nome de afasia
sensorial. Após diversos estudos em nível de investigação biológica, foram
identificadas alterações cerebrais e estas associadas a dificuldade de
compreensão de linguagem. Com base nos estudos de Broca, Wernicke inferiu
que as áreas de funcionamento da articulação e compreensão da linguagem eram
conectadas e qualquer lesão poderia produzir uma inabilidade ou incapacidade
no funcionamento adequado (Pimentel, 2020, p. 1-18). Além da identificação de
conectividade das áreas frontais e temporais do cérebro, o autor alemão, também
inferiu que o rompimento do fascículo arqueado em uma lesão pode gerar o que
ele nomeou de afasia de condução, devido à interconexão das estruturas
anteriores e posteriores relacionadas à linguagem, sendo linguagem expressiva e
compreensiva, respectivamente, não estarem mais ligadas entre si.
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REFERÊNCIAS
ARRUDA, J. S.; REIS, F. P.; FONSECA, V. Avaliação da linguagem após acidente
vascular cerebral em adultos no estado de Sergipe. Revista Cefac, v. 16, p. 853-
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FERREIRA, R. G. F. et al. A filogênese da linguagem: novas abordagens de
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KANDEL, E. et al. Princípios de neurociências. 6. ed. AMGH, 2023.
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