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Filhos Da Magia 1

Enviado por

Dyovanna Reckel
Direitos autorais
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Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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No momento em que abriu os olhos ela estava num corredor colorido, com várias portas ao seu redor

enfeitadas. Quando se deu conta, havia uma porta diferente das demais na cor cinza. Assim que a notou
ela tirou toda a vida do corredor deixando-o nos tons de branco e preto, sem os enfeites edeixando todo
o lugar com um ar de antigo, sujo, deteriorado pelo tempo.

Sentiu uma atração muito forte por aquela porta. Não que quisesse saber o que tinha por trás dela, mas
algo a impelia a entrar lá mesmo contra sua vontade.

Ela estava ali, mas não controlava seu corpo, por isso "ela" foi andando até a porta e a abriu. A princípio
estava tudo escuro, como se fosse o início de um sonho, mas logo em seguida como se uma luz no
centro do local iluminasse todo o resto Julie conseguiu ver.

Havia uma menina em um canto da sala como se fosse uma marionete jogada de qualquer jeito por seu
dono desgostoso do trabalho. Ela estava sentada no chão com as pernas abertas e dobradas também ao
chão ao lado de seu corpo enquanto seus braços estavam erguidos por uma corrente grossa que dava
várias voltas em seus pulsos machucados.

Enquanto Julie observava a garota não pôde saber se seu cabelo era rosa - como o dela própria - ou se
aquela cor se devia ao sangue que escorria pela maior parte de seu corpo. Sua calça estava um pouco
rasgada deixando seus machucados a mostra, sua blusa meio larga estava com a gola esgaçada como se
alguém a tivesse levantado por ela, deixando a mostra os hematomas vermelhos e marrons em seu
pescoço e o tórax. Ela estava descalço e Julie pôde observar também que faltavam alguns dedos em seus
pés e o vão em que antes os dedos estavam tinham alguns retalhos de pele e sangravam como se
alguém tivesse arrancado os dedos e não os cortado.

Julie nunca pensou e nem passou por sua mente que um dia estaria numa situação dessa, ou pior, em
um pesadelos daqueles em que você tenta a toda hora achar um jeito de acordar e nunca consegue.

— Você precisa me tirar daqui —Julie ouviu uma voz feminina que parecia rouca e fraca e logo a menina
levantou a cabeça. Se Julie já estava pasma antes com a cena, agora estava horrorizada. Era Julie quem
estava ali. Julie estava algemada. Na verdade, Julie estava se vendo algemada e torturada.

— Como eu faço isso? —Perguntou. Afinal, porque ela estava se vendo presa ali? E por que deveria
libertá-la? — Ou melhor, por que eu faria isso?

— Porque eu sou você. Mas isso não importa, você precisa me tirar daqui —ela respondeu olhando Julie
nos olhos. Os mesmo olhos verdes que Julie possuía. Pôde ver o horror estampado em seu olhar como
se tivesse passado por muitas coisas ruins. E Julie não duvidava disso.

— Ta, tudo bem. Como eu faço isso? —Questionou novamente, confusa e se aproximando com cuidado
como se esperrase qualquer coisa vinda de qualquer lugar.

— Apenas tente abrir as fendas nas correntes. Você tem o poder pra isso —A garota algemada
respondeu entre uns gemidos de dor. Ela deve ter sofrido muito pra estar desse jeito.

— Você é louca? —Perguntou, e antes que ela pudesse responder que sim, o que Julie esperava que ela
pudesse dizer, Julie continuou — Essas correntes são muito grossas, não irei conseguir abrir isso. Por que
você está aqui?

— Eu já disse, você consegue —ela deu uma pausa e apertou os olhos contra uma onda de dor que
invadiu seu corpo fazendo-a arcar as costas. — Você consegue, nem tentou ainda. Você tem o maldito
poder.

— Mas que poder? —Voltou a interrogá-la. Nem havia percebido que a garota ignorou sua penúltima
pergunta.

— Isso não importa agora —rugiu de dor. — Apenas faça... O que eu mandei —continuou, fraca.

Julie se aproximou das correntes e algo a forçava a recuar, mas como a garota havia dito, ela tinha o
poder e se forçou a continuar. Ao se aproximar das correntes, notou que os nós de seus dedos eram
roxos e sem alguns pedaços de pele, sem contar que suas unhas estavam quebradas próxima à carne,
como se tivesse sido arrancada ou que ela tivesse tentado arranhar a parede.

Ao tocar nas correntes sentiu como se sua pele estivesse sendo corroída e quando olhou para as
próprias mãos elas estavam sem a pele. Assustada a princípio, largou as correntes rosnando de dor, mas
algum tempo depois sem o contato com o ferro da corrente sua pele voltou ao normal.

— Você é a única que consegue fazer isso, apesar de não saber —a garota resmungou soltando um breve
gemido de dor.

— Estou tentando —Julie respondeu.

Ao ficar muito tempo tentando abrir as correntes passando por uma dor imensa, Julie sentiu como se o
ferro das correntes estivesse encostando nos ossos de sua mão. Estava quase desistindo de ajudar a
garota. Ou de se ajudar...

Ela gritou de dor e raiva por não conseguir continuar e antes que pudesse procurar alguma outra coisa
para poder abrir a corrente ou algum cadeado para quebrar, a garota gritou num tom de dor.

— Eles estão chegando. Você precisa acordar. Corra até o final do corredor antes que eles te peguem —
ela urrava de dor, e logo Julie notou que sua garganta se abria aos poucos enquanto ela tentava avisar.
Então era por isso ela sentia dor.

— Do que você está falando? —Julie perguntou, e não obtendo respostas se virou preparando-se para
correr até a porta cinza, quando notou, ela estava ajoelhada no lugar da menina. Ou melhor, ali, agora,
era Julie quem estava toda machucada e sangrando.

Vendo a cena do ponto de vista da garota.

Não durando muito tempo depois de estar em seu devido lugar, teve a sensação de que algo estava
comendo sua carne de dentro pra fora e quando abriu a boca para um grito, este foi acompanhado por
uma música calma e divertida de fundo, que não combinava nem um pouco com o momento.

Acordou suada e ofegante e logo depois percebeu que era seu celular que estava tocando aquela música
calma.

Pegou o celular e leu o nome "Matt :3" no identificador de chamadas. Sim, Matthew havia colocado um
emoticon ao lado de seu nome na agenda de contatos dela.

— Alô? —Ela atendeu ainda meio atordoada pelo pesadelo.


— Oi —respondeu uma voz masculina adolescente do outro lado da linha.

— Matt, quanto tempo —ela sorriu meio sonolenta. Fazia semanas que não o via, primeiro ele sumiu por
um tempo e depois veio dizendo que foi para um retiro espiritual de uma igreja que ele participa. A
princípio ela pensou que fosse mentira, porém, todo mundo pode entrar pra uma igreja, então por que
não ele?

— Pois é, e você não vai acreditar! Eu estou voltando pra cidade daqui a pouco. Na verdade já estou no
caminho, mas paramos para... Você sabe, tirar a água do joelho —ele respondeu usando as gírias do
tempo de sua avó. Se bem que Julie não conheceu muito sua avó...

— Sério? Quanto tempo mais ou menos pra você chegar? —Perguntou ansiosa.

— Daqui umas duas horas eu te encontro na Cafeteria, pode ser? Tenho uma surpresa pra você —ele
disse.

— Matt, espero que seja coisa boa —ela retrucou quase esquecendo-se completamente do pesadelo.

— Alguma vez eu te fiz uma surpresa ruim? —Matthew questionou ironicamente.

— Na verdade você nunca me fez uma surpresa —ela resmungou e fez bico.

— Que calúnia —ele disse num tom ofendido. — Mas agora eu preciso ir, estão me chamando. Até daqui
a pouco, beijão —terminou.

— Tudo bem, boa viagem. Até mais —Julie respondi e desligou a chamada.

Levantou e foi tomar um banho achando que seus pais ainda não chegaram e seu irmão Damon
continuava fora. Por isso, se certificou de que as portas de casa estavam trancadas e foi ao banheiro.

Enquanto tomava banho, veio a lembrança do seu primeiro dia de aula quando tinha seis anos de idade.
Ao invés de ser Carrie A Estranha ela era Julie A Estranha. Tudo por causa da cor de seus cabelos, ja que
eles têm um tom avermelhado mais claro, quase como um rosa e isso causava algum tipo de sentimento
nas outras crianças que as faziam se afastar dela. Como se o cabelo alaranjado já não fosse o suficiente
no mundo, ela teve que nascer com um tom meio rosado.

Deixando os pensamentos dramáticos sobre sua infância de lado, ela terminou seu banho e enxugou-se
na toalha enrolando-a logo em seguida.

Seu décimo quinto aniversário se aproximava e ela deveria se sentir feliz com isso, mas estava um pouco
desanimada com relação à festas e amigos. Seus únicos amigos eram seus dois vizinhos, Matt e Petter,
como faria uma festa de debutante com apenas dois convidados (amigos) especiais? Não que ela
quisesse uma festa espalhafatosa, é claro.

Tsc, jamais gostaria de algo desse tipo, pensou. Assustou-se pelo pensamento vir mais rápido que um
raio em sua mente e sacudiu os cabelos rosa.

Saiu do banheiro e foi ao quarto espantando-se ao observar Fera com uma almofada na boca a
estrangulando e xaqualhando-a de um lado para o outro soltando espuma pelo quarto inteiro. Fera era
seu cachorro, de uma raça próxima a Husky Siberiano com pêlos brancos e olhos azuis.

— Fera! —repreendeu o animal. — Já pra fora. E larga minha almofada —ela abaixou-se até a altura de
Fera tentou pegar a almofada da boca dele, mas o animalzinho era mais forte do que aparentava ser.

Já que o cão não deixava Julie pegar sua almofada estrupiada de volta, ela resolveu que pararia a
brincadeira de cabo de guerra com o cachorro, mas quando pensou em soltar a almofada Fera abriu a
boca e a fez cair de bunda no chão com a almofada rasgada em mãos.

— Mas que droga —reclamou. Agora ela estava furiosa. — Sai daqui. Vai já pra fora —ordenou.

Fera apenas encolheu seu corpo peludo e brilhoso abaixando as orelhas e chegando perto de sua dona
enfiou o focinho em sua mão pra que ela o fizesse carinho.

— Nem vem, você acabou com minha almofada. Damon já deve ter lhe dado ração, vá pra fora agora —
ordenou novamente e observou Fera abanar a cauda apenas em ouvir a palavra "ração" ser mencionada.

Resmungando, Julie levantou-se do chão e pôs-se a procurar alguma roupa agradável para passar o dia
com Matt. Optou por uma blusa branca de manga longa e uma calça azul quase da mesma cor que seu
colar, cujo não tirava por nada; uma botinha preta, e, odiando o fato de o dia ter amanhecido frio pegou
o primeiro sobretudo grosso que havia em seu armário e o vestiu.

Pegou o celular mandando uma mensagem para Matt logo guardando-o em seu bolso.

Segurando o pingente de seu colar azul passeou pela casa indo até a porta da frente observando Fera
comer sua ração abanando sua cauda como num aceno de tchau, abriu a porta trancando-a por fora.
Respirando fundo pôs-se a andar enquanto ouvia música em seus fones de ouvido evitando
cumprimentar todos a seu redor como numa forma de se auto-proteger. Sentia a necessidade disso, era
sua função, afinal, mesmo não sabendo disso.

Em menos de vinte minutos chegou ao Café da Anna. Um som agradável preencheu o local silencioso
anunciando que havia chegado alguém assim que Julie abriu a porta. Aproximou-se de uma mesa perto
do balcão, havia alguns livros de estudo (onde se podia ver células e figuras geométricas) abertos e um
em especial com um marca página colorido como se fosse um livro de ficção. Logo uma garota de longos
cabelos brancos presos num rabo de cavalo apareceu pela porta da cozinha atrás do balcão sorrindo
para ela e indicando que podia sentar-se.

Julie se sentou numa cadeira frente ao livro aberto na mesa e engoliu sua curiosidade para saber qual
livro era aquele. A garota sentou-se em sua frente e fechou o livro cuja capa era uma moça loira de
costas como num espelho e seu título era Encruzilhada. Já havia lido aquele livro uma vez mas mal havia
se interessado e nem imaginava que alguém conhecido poderia tê-lo lido antes.

— E aí? —Julie começou. — Estudando?

— Tentando, né —a garota dos cabelos brancos respondeu. — Mas me perdi sem querer na leitura entre
um livro e outro —completou com uma expressão facial que dizia "se é que me entende".
— Entendo —Julie comentou sorrindo. — Ainda ouvindo Linkin Park? —Perguntou.

Antes que Mya pudesse responder, o som do celular anunciando uma nova mensagem se fez presente
no local.

Julie sorriu de leve ao ler a mensagem de Matthew avisando que estaria chegando ao café, o que não
passou despercebido por Mya.

— Seu namorado? —Perguntou zombeteira.

— O que? Claro que não. Somos apenas amigos —defendeu-se a rosada.

— Aham —Mya debochou, mas preferiu deixar o assunto de lado antes que Julie se aborrecesse. — Vai
querer o que para o café? —Perguntou.

— O de sempre, pode ser —respondeu.

O silêncio se instalou no local e logo passos foram ouvidos. Era o meio irmão de Mya passando pelo
cômodo arrumando algumas mesas e cumprimentando Julie lançando um olhar demorado para Mya
que corou ao perceber. Assim que Charles saiu do local e Annie apareceu por detrás do balcão, Julie
lançou um olhar faceiro para Mya que apenas jogou um pano de prato na garota.

— Eu percebi isso, hein —Julie zombou.

— Haha, que engraçada você —ironizou.

— Olá, meninas —Annie cumprimentou-as. Annie Newton era a mãe adotiva de Mya.

— Olá —Julie respondeu. Mya apenas sorriu já que estava ali há um tempo.

— Em pelas férias tendo que trabalhar no café —Mya resmungou passando as mãos limpas no rabo de
cavalo que prendia seus longos cabelos brancos. Na verdade, o cabelo de Mya era tão loiro que quase
chegava a ser branco e quando Julie perguntara sobre a cor dele Mya apenas respondeu que gostaria de
ter descolorido os cabelos ao invés de ter nascido com um pouco de albinismo.

Annie olhou de relance para Mya como se a repreendesse de brincadeira e Mya apenas deu de ombros.
Logo o mesmo som que se fizera presente quando Julie entrou no café se repetiu e Julie olhou para a
porta com expectativa de que fosse Matt, mas era apenas um casal adulto que se sentou numa mesa
distante e logo Annie foi atendê-los.

— O que aconteceu com o aquecedor daqui? —Julie perguntou.

— Estragou, mas logo um técnico vem consertar —Mya respondeu enquanto limpava a mesa para que
pudesse tomar café junto com a amiga.

— Que droga.

— O que a traz aqui num dia de inverno, pequena Julie? —Annie perguntou já no balcão.

— Veio se encontrar com o namorado, mãe —Mya interrompeu.

— Ei —Julie protestou. — Matt está voltando e nós combinamos de nos encontrarmos aqui —
respondeu.

— Quando vão assumir o relacionamento? —A mais velha questionou novamente.

— Nunca, afinal não temos relacionamento nenhum além de amizade —Julie respondeu fazendo bico.

— E quando eu disse que era algo a mais que amizade? —Annie replicou fazendo a menina ficar
vermelha, o que fez mãe e filha darem boas risadas. Oras, se todos sabiam que eles eram amigos o que
mais deveria ser assumido?

— Não esquenta, Julie. Logo ele chega —Mya disse.

— Mas eu estou calma, não falei nada —defendeu-se.

— Tudo bem —Mya começou. — Vem cá, vamos fazer nosso café.

Julie seguiu a amiga até o balcão e sentou-se de frente para ela.

— Mas então, o que te faz estudar em plenas férias? —Julie perguntou curiosa.

— Eu quase fiquei em exame em química e biologia —respondeu.

— Mas você adora essas matérias —Julie estranhou. Mya é super inteligente e adora matérias
complicadas, como poderia ficar pendurada em suas matérias preferidas?

— Pois então, por isso eu fiquei com raiva. Além do mais, a dona Annie está fazendo eu estudar o
conteúdo do ano inteiro pra aprender a não avacalhar nos estudos —Mya respondeu.

— Nossa, que... Trágico —a rosada não soube o que responder.

— E tem umas meninas de olho no Charles também, o que me deixa um pouco irritada. A maioria delas
fica se jogando pra cima dele, e eu tento evitar ficar com a minha típica cara de "não estou gostando
nada disso" —terminou de falar e fez uma cara de mau. Julie sabia da paixão de Mya por seu irmão
adotivo, e não achava nada demais. Na verdade até achava fofo.

— Credo, você parece uma Yondere —Julie debochou e ambas riram.

— Mas e você? O que faz nessas férias? —Tentou mudar o foco do assunto.

— Nada além de brincar e brigar com o Fera —respondeu.

Ouvindo mais uma vez o barulho da porta se abrindo Julie olhou para trás, e, ao perceber que não era
Matt desistiu de ficar na expectativa. Matt chegaria na hora certa, e quando chegasse Julie saberia. Não
precisava ficar se preocupando.

— Ele voltou a comer suas coisas? —A amiga perguntou enquanto colocava alguns salgados num prato.

— Voltou. E eu não sei o porquê. O que esse cachorro tem de fofo tem de perigoso —riu.

Enquanto colocavam o assunto em dia e preparavam o café da manhã, o Café da Annie ia se enchendo
de clientes e volta e meia Mya precisava abandonar Julie por uns instantes para atender alguns clientes.
— Hoje está tumultuado, não é? —Julie perguntou olhando em volta.

— Pois é, fim de ano é um saco —Mya respondeu voltando-se para a mesa onde havia deixado seus
livros.

— Quer ajuda? —Julie ofereceu.

— Não, pode deixar —a menina respondeu voltando para o balcão.

— O que vai fazer nessas férias? —Perguntou.

— Não sei, pretendo viajar. E você? —Mal terminou de falar e um sorriso brotou em seus lábios.

— Ah, ainda não sei. Meus pais e Damon não voltaram então... —Julie foi interrompida quando sua visão
foi cortada por um par de mãos masculinas.

— Advinha quem é o amigo gato/sexy que está tampando a visão da Belle? —Alguém sussurrou em seu
ouvido.

Contendo um arrepio Julie sabia que era Matt que a impedia de ver. Apenas ele a chamava de Belle.
Apenas ele era idiota a esse ponto! E convencido. Com certeza fizera isso para sacanear com Julie na
frente de Amy.

— Matthew —a menina respondeu sorrindo abertamente.

— Exato —tirou as mãos dos olhos da menina e esta virou-se para ele pulando em seus braços. Matt
segurou Julie em seu abraço e rodopiou com ela. — Você engordou ou é impressão minha? —Testou a
paciência da amiga. Julie e Matt sabiam que Julie era tão magra quanto um cabo de vassoura (exceto
pelas pequenas curvas ainda em formação) e que a garota não gostava quando falavam de sua altura ou
peso!

— Cala a boca —a menina riu. — São essas roupas idiotas de inverno —justificou.

Para amenizar, Matt ergueu seus braços para um novo abraço, o que fez Julie aconchegar-se nele para
matar a saudade.

— Vocês ainda vão casar —foram tirados de seu momento mata-saudades por Mya e sua brincadeira.

— Oi, Mya. Quanto tempo —Matt relutou contra a vontade de continuar abraçado com Julie e deu a
volta no balcão para dar um abraço rápido na garota.

— Pois é, você está mais alto —debochou. Ambos tinham o mesmo tamanho.

— Já tomaram o café? —O rapaz perguntou ignorando a piada sobre sua altura.

— Já, mas a gente espera você tomar o seu —Julie respondeu.

— Oi, Matthew —Annie o cumprimentou parando ao seu lado.

— Oi, dona Annie. Como vai? —Perguntou educado.

— Bem, obrigada —sorriu. Annie adorava o garoto, sempre educado e de bom humor, ela dizia. — Mya,
pode se sentar com eles se quiser. Eu dou conta do resto, e se precisar de ajuda chamo o Charles —
completou.

— Não, eu não quero atrapalhar o momento reencontro do casal —Mya respondeu dando um olhar de
malícia para Julie que apenas revirou os olhos. — Vou te ajudar, dona Annie. E vocês venham comigo —
Mya levou o casal de amigos para uma mesa vaga e limpa no canto do salão e logo seguiu Annie.

— Então —Matt começou. — Por que essa cara de acabei-de-sair-de-um-apocalipse-zumbi? —


Questionou.

— Ahn —não sabia o que responder. Preferia falar sobre isso longe dali. Logo, Mya chegou com uma
bandeja contendo um prato com bacon e batatas fritas resmungando algo como "isso não é café da
manhã". — Falo sobre isso depois —Julie respondeu baixinho e rindo do que Mya havia dito.

— Obrigado —Matt sorriu para Mya e Julie pôde sentir uma fisgada em seu coração. Sim, ela tinha ciúme
do amigo, e gostava dele apenas como amigo. Nada mais, obrigada.

— Bem, como foi sua viagem? —Julie perguntou roubando uma fatia de bacon do prato de Matt.

— Depois nega ser gorda —o garoto resmungou.

— Você sabe que não sou —mostrou a língua. — Ei, qual era a surpresa que você tinha pra mim? —
Questionou animada. Esperava que fosse algo legal.

Mya passou pela mesa dos dois fazendo um coraçãozinho com a mão recebendo de Julie uma careta.

— Ah, claro, a surpresa —o rapaz aprumou as costas na cadeira estofada. — Comprei dois ingressos pro
show da Katy Perry, já que você gosta —anunciou dando um pequeno sorriso tímido.

— Dois? —Estranhou. — E você vai comigo?

— Sim, se você quiser, sim. Por que?

— Nossa, Matt. Tem certeza que você não é gay? Você gosta de Katy Perry —a menina dos cabelos ruivo
desbotado riu.

— Bem, talvez eu só finja que gosto, por você —Matt apoiou o cotovelo na mesa e o descansou o rosto
sob a mão.

— Você tem que para com essas brincadeiras —Julie parou de rir ao estranhar a atitude do amigo.

— E se não for uma brincadeira? —Ergueu uma sobrancelha sugestivamente. Quem olhasse de longe,
alheio a conversa, diria que o rapaz tentava seduzir Julie, mas esta esperava que não fosse o caso. Eram
amigos, quase irmãos. Nada aconteceria entre os dois.

— Cruzes, Matthew —foi interrompida pela chegada abrupta de Mya em sua função de limpar um pouco
a mesa ao lado.

— Que brincadeira, casalsinho? —A menina debochou não notando o clima na mesa dos amigos.

— Nada não, Mya. Não se preocupe —a menina sorriu sem graça para Mya. — Conte-me sobre sua
viagem —pediu voltando-se para Matthew.

— Tudo bem... Ahm... Nós ficamos viajando um dia todo de carro e então os deixamos num lugar no
meio do nada, que, segundo o nosso Guia era seguro. Depois passamos por volta de umas cinco horas
andando mata a dentro, subindo uma puta de uma colina, e o Guia não deixou levar aparelhos
eletrônicos —Matt resmungou o palavrão para ninguém ali perto escutasse. — Então nós paramos duas
vezes pra comer e beber e quando chegamos ao lugar... —deu uma pausa para fazer suspense. — Cara,
aquilo até que era bonito mas não valia todo o esforço.

— Como era? —Julie questionou suspirando e apoiando o rosto na mão. Achava entediante e ao mesmo
tempo interessante a viagem do amigo, melhor do que conversar sobre seus pesadelos...

— Era como o topo de uma colina parecida com a que subimos, a visão era ampla e bonita e tinha água
lá embaixo. E bem, nós tivemos que tomar um banho grupal, primeiro as garotas e depois os caras, foi
constrangedor e traumático demais —chacoalhou a cabeça com os olhos vidrados no horizonte como se
lembrasse da situação traumática. — Dormimos em barracas e pra ajudar caiu aquela chuva tudo o que
tínhamos molhado. Acordamos de madrugadas com aquele lugar lindo transformado num cenário de
filme de terror cheio de barro, debaixo da chuva e tivemos de sair de lá em organização até uma caverna
próxima, onde tinha muito, mas muito morcego —fez uma expressão facial que Julie jurava ter sido a
mesma que ele havia feito quando entrou na caverna.

— Era o Batman —Mya apareceu atrás de Julie apoiando as mãos em seu ombro e os três riram. Antes
que pudesse continuar atormentando os amigos Mya foi chamada para ajudar Annie.

Matthew continuou contando sua história sobre os morcegos e os chalés no que parecia uma reserva
florestal, e completou com uma leve indignação com o guia por tê-los acordado "quase arrancando" a
porta deles cedo demais "para ver aquele nascer do sol e saudar a mãe natureza".

— Parece ser... —Julie ficou sem palavras diante de tudo o que Matt havia despejado. Mas ela havia
pedido mais de uma vez para que ele contasse sobre sua viagem, então teria que aguentar.

E como se Matt se lembrasse de algo importante e engraçado que ainda não havia falado, prosseguiu:

— Teve mais uma briga entre aquelas famílias que não se dão bem, que te falei na ultima vez. Se lembra?

Julie concordou com a cabeça para que Matthew pudesse continuar. Ela se lembrava um pouco do que
Matt havia dito que aconteceu no retiro passado. Segundo ele, haviam duas famílias que não davam
bem, porém os adultos já tinham esquecido a briga, só que os adolescentes por serem adolescentes
queriam provar que a rixa continuava.

— Dessa vez foi por comida —o garoto deu continuidade a história. — Por causa de um sanduíche que
havia sobrado os garotos brigaram e quase se mataram...

Matt continuou contando sobre seu retiro espiritual e todos os problemas que havia tido. Mas ele
escondeu alguns detalhes como por exemplo o que o celebrante havia dito. Afinal era uma igreja,
deveria ter um pastor, um celebrante ou algo assim... não?

Julie começou a rir lembrando-se do que Matt acabara de contar sobre o banho traumatizante e Matt
jogou uma batata frita na garota.
— Não ria de mim, Julie. Você não sabe o quanto foi traumático —Matt a repreendeu com uma
expressão séria. Julie assustou-se pois achava que o garoto estava falando sério. Logo os dois começaram
a rir novamente.

— Coitadinho do Matt-zinho —a garota debochou tentando apertar as bochechas do amigo. Eram quase
como irmãos.

— Para, você sabe que não gosto quando me chama no diminutivo e rima, ou então tenta apertar
minhas bochechas —ele tentava bloquear as mãos de Julie sobre sua bochecha acabando sem sucesso.

— Eu sei. Por isso que eu faço o que faço —ela riu puxando as bochechas do garoto levando um tapa nas
mãos.

O silêncio se instalou na mesa dos dois amigos e Matt terminava sua refeição enquanto Julie recebia
uma mensagem em seu celular.

"Julie, seu pai e eu tivemos um imprevisto. Espero que Matthew já tenha chegado da viagem. Caso seu
irmão não dê notícias você tem permissão para dormir na casa do Matthew. SE, apenas SE, os pais dele
estiverem em casa. Nos vemos em alguns dias."

— Ótimo, meus país não vêm hoje —Julie bufou.

— Bem, você pode dormir lá em casa se quiser —Matthew timidamente ofereceu espaço em sua casa.

— Minha mãe disse que só poderei dormir lá caso seus país estiverem em casa —respondeu.

— Perfeito! —Exclamou. — Meus pais estão em casa. A gente pode jogar vídeo game e ver aqueles
filmes que você queria —completou, limpando a boca no guardanapo e o jogando na mesa.

Após aguentar mais alguns comentários maliciosos de Mya, Julie e Matt dirigiram-se a pé até a casa do
rapaz. Ao chegarem lá, Julie cumprimentou alegremente os pais do amigo que levou a garota até seu
quarto e ligou o vídeo game.

— Eu não acredito —Matthew resmungou após perder uma luta para Julie.

— Eu disse que ia acabar com você —respondeu. A garota jogava MK várias vezes, sozinha algumas
delas.

— Você é quem parece estar acabada com essa cara —replicou seriamente após ver um bocejo da
garota que logo bufou por seu comentário.

— Olha, eu não quero e não sei se é bom falar sobre isso —tentou não falar sobre o pesadelo horrível e
confuso.

— Julie, eu sou seu melhor amigo. Depois do Fera, claro —ele riu dando pausa no jogo. — Mas mesmo
assim você insiste em não querer se abrir comigo —pensou em pegar na mão da amiga, mas seria
demais e ela poderia rejeitar além de pensar que o garoto gosta dela.

— Eu sei, eu... Bem, uma hora ou outra eu vou falar sobre isso com você, só preciso de um tempo. Foi
tudo horrível e assustador, real demais por mais que tenha sido apenas um sonho.

— Tudo bem. Eu espero você criar coragem. Estou aqui pra isso, afinal —ele disse.

— O que quer dizer? —Estranhou.

— Quero dizer que... Como seu amigo, estou aqui pra ouvi-la —hesitou antes de responder.

— Então tudo bem. Me conta mais sobre o retiro espírita e tal, que você fez —a garota pediu ironizando
o retiro.

Passaram o resto da tarde conversando, assistindo e jogando vídeo game enquanto Matthew esperava
por Julie contar sobre seu pesadelo e como poderia ajudar a amiga.

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