Jardim das Rosas Brancas Pintadas de
Vermelho
LIDIANE BAPTISTA
Dedico a todas as minhas antigas versões, que não
tiveram a chance de dizer todas as palavras que
ecoavam em cada um de seus corações.
Nada nunca termina poeticamente
Acaba, e aí transformamos em poesia
Todo aquele sangue nunca foi bonito
Ele só era vermelho
- Kait Rokowski
Jardim das Rosas Brancas Pintadas de Vermelho
Eles dizem que ela encontrou o amor da sua vida
através do espelho
Que ela caiu na toca do coelho
Viu as rosas brancas serem pintadas de vermelho
Tudo parecia uma grande farsa
Uma alucinação
Seguir as regras de um bilhete escrito à mão
Então ela cresceu
Mas precisou encolher
O suficiente para passar no buraco da fechadura
Através do portal ela encontrou a cura.
Tela em Branco
Verde era sua cor favorita
Então eu jogava tinta
Em uma tela em branco
Porque eu te amava tanto
E tinha esperanças de te amar em tons de vermelho
Mas dessa vez eu joguei cinza
Porque me fazia lembrar de como os dias eram com
você
E amarelo pelos sinais que dava antes de você me
perder
Porque meu amor era uma pintura abstrata
Que você não conseguia entender
Uma arte além do que você pudesse ver
Então eu lavo meus pincéis
Desejando nunca mais pensar em você
Eu me pergunto, se por um descuido
Eu chorar e borrar essa tela
Você iria perceber?
O Despertar
Ele era a feliz, como os dias de carnaval em
fevereiro
E ela tão triste, como os dias de chuva em março
Fechando seu verão
Pois ela sabia que não havia espaço para ela em seu
coração
Porque o coração dele era todo revestido por gelo
Mas ela trazia consigo a chama de um isqueiro
E sonhava que um dia
Poderia derretê-lo por inteiro
Mas quando ele partiu seu coração em dezembro
Ela despertou de seus sonhos mais loucos
E descobriu que amá-lo seria um pesadelo.
Faíscas em meus Olhos
Brilhantes fogos de artifício
Inauguram um novo ano
Minha agenda está cheia de planos
Mas suspeito que nenhum deles foi minha escolha
E assim como todas essas pessoas
Também pretendo fazer meus sacrifícios para furar
a bolha
Porque nós fomos hipnotizados pelas estatísticas
Quando compramos nossos desejos
Somente para riscá-los da lista
E nós seguimos achando que temos tudo sobre
controle
Pelo menos por enquanto
Esse é o único dia do ano
Em que a esperança abandona o verde para usar o
branco
Então nós esperamos por dias melhores
Quando o desejo pela vida nos atinge em cheio
Há um brilho nos meus olhos e não são só pelos
fogos de artifício
A cada estouro eu me pergunto se isso é o fim ou é
o início?
Alguém
Alguém para dançar
Alguém para amar
Alguém para dedicar as mais belas poesias
Alguém para dançar as mais lindas melodias
Olho para seu relógio de pulso que marca uma hora
Coloco o disco na vitrola
Vejo nossas mãos juntinhas, entrelaçadas
E calejadas, de tanto tocar violão
Encosto minha cabeça no seu peito
E escuto as batidas do seu coração
Ali nesse momento percebo que já não havia mais
solidão
Olho pra baixo e confirmo
Há quatro pés arrastando seus passos pelo chão
Bendito seja as mãos que tocam esse violino
Selando o nosso destino
Finalmente posso me sentir em paz
Porque pela primeira vez
O passado já não importa mais.
Por Tudo Que Costumávamos Ser
Tudo que eu sei que essa é uma guerra perdida
Eu nunca estarei no topo da sua lista
Eu nunca serei ouvida
Enquanto seu silêncio estiver gritando mais alto
Eu não sei dizer quando as coisas começaram a dar
errado
Quando tudo que restava de bom entre nós foi
quebrado
As nossas promessas, as nossas conversas...
Será que algum dia
Nós voltaremos a colocar minha tristeza em
contraste com a sua alegria?
Às vezes me lembro da época
Em que eu costumava fazer do seu coração a minha
casa
Agora eu estou do lado de fora
Observando sua vida pelos vidros da janela
Foi assim que eu vi as palavras se perderem no
tempo
E nosso amor se dissolver na água como aquarela.
A Última Carta
A história se repete
São dez pras sete
Em um relógio parado
Antes de entrar em um trem desgovernado
Indo direto pela estrada da ruína
Sentada no banco do passageiro
Contando o que restava de dinheiro
Com a vista da cidade
Por trás de uma janela embaçada com a neblina
De repente virando a esquina
O céu viu algo que não deveria ver
Malditas lágrimas salgadas que retornam a chover
Agora a estrada está encharcada
E o barulho do silêncio é ensurdecedor
O tipo de pesadelo consciente
Onde não se escuta o barulho do despertador
Meus pensamentos me perseguem como fantasmas
Transformando minha mente numa casa mal-
assombrada
Seria um triste cenário
Se eles já não tivessem se tornado meus amigos
imaginários
Me assombrando nos dias mais solitários
Apenas não leia a última carta, eu estou bem
Esses são apenas os últimos suspiros de uma vida
falida
Estou pegando o último trem
Antes do sol aparecer
E me convidar para viver a vida
Os pássaros já estarão cantando minha canção de
despedida.
Retrato de Uma Jovem em Chamas
Eu deveria saber que você seria a primeira a
quebrar a corrente
Era quem costumava brincar com fósforos
Mas foi você que explodiu minha mente
Jogando toda a culpa em cima mim
Mesmo sabendo que eu era inocente
Você diz que fez o que deveria ter feito
E que isso não valeria pena se não fosse perfeito
E eu diria que gostaria de nunca ter te conhecido
Que eu deveria ter corrido
Antes do fogo se alastrar pela barra do meu vestido
Se eu pudesse voltar atrás
Eu faria com que isso nunca tivesse acontecido
Assim eu não conheceria suas manias estranhas
De fazer com que nada seja em vão
Não perderia meu tempo te ensinando que a vida
não é uma competição
E que está tudo bem se a gente não ganha
Se você estivesse aqui eu te contaria
Que eu descobri que a vida passa tão rápido
Que quando você chegar no seu sonhado destino
Você vai sentir falta do caminho
Só espero que não seja tarde demais para que você
descubra
Que os grandes impérios não são construídos
sozinhos
Mas foi assim que você decidiu iria fazer
E desde então nunca mais corri descalça na grama
com você
Nem nunca mais cantamos ABBA no karaokê
E você nunca mais me viu chorar
Enquanto reclamava de todas as vezes que você me
deixou sozinha
E nem nunca mais me ouviu dizer o quanto você é
egoísta e mesquinha
Até te convencer a largar tudo o que estava fazendo
Para dançar comigo na cozinha
Então você fez o que tinha que fazer
Não podíamos continuar entre o céu e o inferno
Nada é eterno
Mas eu ainda tenho guardo as balas que você atirou
em mim
Em um cofre, junto com as joias e os enfeites de
marfim
Porque todas as vezes que você me matou
A única coisa que se passava pela minha mente
Eram os flashbacks das memórias que vivi
Mas agora tudo passou
E eu não estou mais aqui
Então se esse é o fim
Por favor, não se esqueça de mim.
Acho Que Nunca se Sabe
Eu estava sentada sob os primeiros raios de sol de
uma manhã fria
Um pouco antes de tudo isso acontecer
Me lembro de desejar que o mundo parasse
para que eu pudesse descer
E estranhamente o universo atendeu meu pedido
E depois daquele dia
Até hoje eu me pergunto o que poderia ter sido
Se as coisas não tivessem saído fora do lugar
Os apressados agora tiveram que esperar
As horas voavam, mas continuávamos no mesmo
lugar
Congelados no tempo
Esperando pelo sinal verde para atravessar
Mas eu ainda consigo me lembrar
De todas as aquelas garotas
Com seus corações feitos de diamante
Que viram suas memórias empoeirarem
Como os livros na estante
E de todos aqueles caras
Com seus peitos estufados
Que se achavam tão incríveis
Mas tinham medo de serem derrotados
Por coisas invisíveis
E de todos aqueles homens bem vestidos
Com todo aquele dinheiro e poder
Quase nada puderam fazer
Nada podia deter
Eles diziam que era uma maldição
Estávamos no olho do furacão
Eu podia ver seu rosto no meio da multidão
Tentando fugir da destruição
Pouco tempo depois de você ter soltado minha mão
Aposto que você nunca imaginou que isso iria
acontecer
Que você iria perder, para algo que você não
pudesse ver.
(vinte, vinte)
Gênesis
Ás vezes quando estou deitada nas nuvens dos
meus devaneios
Quando estou sonhando com um amor verdadeiro
A imagem do seu rosto passa pela minha mente
Isso me faz corar
E algo queima por completo
Em uma enorme chama ardente
Transformando seu corpo em cinzas novamente
Mas meu amor renasce como uma fênix
Como se nada tivesse acontecido
Me pergunto o que poderia ter sido
Se você não tivesse fechado o livro em Gênesis.
O Conto do Duque Valladarte
Eu ainda posso ouvir as conversas
De Duque Valladarte e seus amigos
Bêbados nas tardes de domingos
Sentados nas escadarias de Montemor
Que já sabiam de cor
Das aventuras que os quatro contavam
orgulhosamente
Aos quatro ventos
Duque Valladarte com seu amigo número um
Não tinham nada em comum
Mas se conheciam desde crianças
Compartilhavam as mesmas esperanças
Que juntos guardavam como se fosse um tesouro
Duque Valladarte com seu amigo número dois
Se conheceram bem depois
Quando foram a guerra
Em busca de medalhas de ouro
E de mais terras
Para desfilarem orgulhosos em seus sapatos de
couro
Duque Valladarte com seu número três
Que era mais rico e mais cobiçado marquês
Tinha sua pele cor de ébano e sorriso feito de
pérolas
Roubavam o coração de todas as donzelas
que se atreviam a olhá-los
Quantos corações foram tratados com descaso
Se partiram em pedaços
Estilhaçados pelas ruas de Montemor
Dos paralelepípedos ao grande corrimão
Todos ouviram a oração
Para que um dia ele fosse meu
PS: isso nunca aconteceu.
A Revolução dos Poetas
Então pegue seus sapatos e brincos vintage querida
Vamos começar uma revolução
Uma da qual ninguém imaginou que iria acontecer
Algo que veio direto do coração
Uma reconstrução
De um novo espírito
Criado por um falso Deus
Que nunca mentiria pra você
Ou te amaria em tons de blasé
Se ainda encontrar esperança para acreditar em
algo
Acredite na poesia
Pois todo o resto te deixará na mão.
Apenas um sonho
Eu tive um sonho
Sonhei que era uma poetisa
Fazia lindas poesias
As palavras se encaixavam perfeitamente nos
corações
Como pequenos quebra cabeças
Que se completavam
Às vezes nos encarando com tristeza
Mas sempre nos ensinando grandes lições
Eu podia admirar silêncio
Olhar ao redor, ver as coisas bonitas da vida
E escrever sobre todas elas
Desde de o jardim de margaridas
Até o vento que empurrava as velas
Cantar as velhas cantigas
E admirar o trabalho das formigas
O tempo desta vez era meu amigo
A música me levava a todos os universos possíveis
Eu podia me abraçar em todos eles
Por todas as outras vezes
Que ninguém ali esteve
Eu poderia dizer a mim mesma para continuar
sonhando
Com um mundo onde eu possa cometer erros
Onde meu coração nunca seria partido
Onde todos os desejos em mim contido Se
transformariam em realidade.
A Colecionadora de Memórias
Eu me lembro dos seus olhos azuis se fechando
E do vento soprando, em seus cabelos
No caminho de volta para a casa
Antes de adormecer você me contava
Sobre as coisas que você gostava de colecionar
Você costumava me olhar
Como se eu fosse uma daquelas raras figurinhas
Sentava do meu lado e nunca se importava quando
diziam que eu era sua namoradinha
Eram tempos que a melodia soava diferente
E agora todos nós estamos a muitos anos a frente
Seguindo nossas vidas
Mas ainda daria tudo para ter aquele sentimento
novamente
Aquele sentimento
Quando eu e minha melhor amiga estávamos
balançando no balanço do parque da cidade
Cantando mais alto que nossos pequenos pulmões
podiam aguentar
Com a esperança que o mundo inteiro conseguisse
nos ouvir
E sentir toda a felicidade que nossos corações
podiam carregar
Uma névoa de nostalgia me leva por um instante
Na época em que tomávamos refrigerante em latas
de cerveja
Naquele tempo eu tinha certeza, que a lua me
seguia
Aquelas noites eram longas e as manhãs cheias de
alegria
Quando você trazia flores e eu lia poesia para sua
avó
Eu nunca me sentia só
Quando nós brincávamos de esconde esconde
Você sempre me encontrava escondida atrás da
cortina
E no fim da tarde você me convidava para nadar na
sua piscina
O sol se pôs naquele dia
E depois no outro e no outro e no outro...
E quando fomos perceber os dias já não eram os
mesmos
Nós já não éramos os mesmos
Tudo foi se tornando maior
Mas nós ainda nós sentíamos tão pequenos
Tentando preencher o vazio completamente
sozinhos
Enquanto tudo foi se tornando maior
Nossos medos se tornaram grandes
E nossas roupas pequenas.
E lá estávamos nós…
Sendo levados pela correnteza..
Tomando riscos…
Indo embora para sempre…
Caindo como um cisco…
Eu pensei que você ficaria comigo
Mas éramos jovens demais para tudo isso.
Venha e Pegue Mais Um Pedaço do Meu Coração
Quando você saiu por aquela porta
Já não havia mais nada que eu pudesse fazer
Além de colocar o disco na vitrola
Pois só a música poderia me costurar novamente
Com suas cordas vibrantes
E suas emendas de ouro em poesias exorbitantes
Mas eu já não podia me reconhecer naquela hora
Quando não pulei as canções tristes como fazia
antes
Agora elas faziam parte da minha trilha sonora
Junto com o som dos estilhaços
Indo em encontro ao chão
Meu pobre coração
Se partia lentamente em pedaços
Se desprendendo de si mesmo
Como as folhas que se soltavam das árvores lá fora
Forçadas pelo soprar do vento
Caiam em fragmentos
Preenchendo cada espaço
Onde eu costumava dançar livremente com meus
pés descalços
Então eu limpo a bagunça, recolho todos os seus
cacos
E finalmente reconheço meu coração quebrado
Embrulhado em um pedaço de pano branco
Ali minhas lágrimas gotejam, procurando um
descanso
Até que cesse a tempestade em meus olhos
Mas logo, num piscar de um relâmpago
Seguido pelo um som de um trovão
Me vi imersa em um rio
Inundando e abalando minha arquitetura
Brutalmente invadindo cada canto que me
deixaram vazio
Procurando por vestígios, daquilo que já partiu
Parece que estava sendo castigada por isso
Me afogando em meu próprio pranto
Que a essa altura, também já estava me
abandonando
Escapando pelos vãos e rachaduras
A luz entrava sorrateiramente em seu lugar
Anunciando o raiar da aurora
Ao iluminar minhas paredes escuras
Feito kintsugi, as cicatrizes viraram estradas
douradas onde meus dedos fariam seu caminhar
Me lembrando que algo em mim precisou partir
para a luz entrar
Seu calor ia me aquecendo suavemente como um
manto
Então abracei os meus joelhos, como se meus
braços fossem um cordão
E sussurrei baixinho para mim mesma:
“gostaria de não ter chorado tanto”
Assim eu enxergaria beleza nas rupturas
Assim como eu vejo agora
Crescendo entre elas ervas daninhas, trevos e
dentes de leão…
Eu pego o maior deles com minhas duas mãos e os
assopro com todo o ar dos meus pulmões
Faço um pedido,
Quero que nunca mais nenhuma das pessoas que eu
amo vá embora
Voando longe como as sementes que assopro
e se dissipam ao vento como pequenos balões.
Algumas palavras antes do fim….
A minha vida inteira passei culpando os outros,
Achando que assim encontraria conforto
Mas quando descobri que eu também carregava
Um pouco de culpa em meus ombros
Nesse momento, ironicamente, encontrei o conforto
que tanto procurei
Deixei de ser a vítima quando percebi tambem
errei
E foi tão libertador renegar minha omissão
Em nome da minha transformação
Porque eu jamais conseguiria mudar as outras
pessoas
Mas eu, eu sim,
Eu poderia iniciar uma
mudança dentro de mim.
A maldição de todos os poetas é amar demais, até
que seu amor se transforme em palavras, e até que
suas palavras se transformem em poesia.
Todos nós temos em nosso interior uma infinita fonte
da poção do amor
E ficamos apenas à espera que alguém a encontre e
mate sua sede.
Dizem que a felicidade é uma borboleta
Mas a minha vida é uma eterna madrugada
E nesse período elas nunca saem para o voo
Acho que nunca a verei pousando sobre mim.
Eu sinto muito,
Por aquela que você amava tanto já não existir mais
Esse foi o único jeito que encontrei de você sentir
muito também.
Chegou o momento de tirar a faca que me cravaram
no peito
E acredite isso é ainda mais dolorido, de quando
me atingiram
Desfilar como um soldado ferido
Era meu ato de rebeldia
Contra os reis que se enforcaram em seus palácios
escondidos.
Ver seu fantasma é algo que me machuca
profundamente,
Porque aí eu me lembro que eu nunca mais o verei
com vida novamente.
Por favor,
PARE DE ME ASSOMBRAR
Eu era suficiente,
Você é que costumava desperdiçar meu amor.
A raiva tomou conta de mim,
Eu rasguei meu coração
E sangrou poesia.
Eu não sou tão invencível, quanto pensei que seria
Como as outras pessoas parecem ser
Às vezes eu gostaria de ser como elas
Mas se eu fosse como elas, eu não seria eu
E se eu não fosse eu, eu não teria a mim.
N°16
Eu reconheço minha loucura
Nesse pedaço de chão amaldiçoado
Por todas as pessoas que já passaram por aqui
Eu reconheço minha culpa
Espelhada no brilho incandescente do meu coração
de rubi…
Que tanto tempo ficou guardado dentro da sua
caixa de pandora
Reluzindo sozinho como uma verdadeira jóia
Enquanto ocultava de mim toda a verdade
Apenas para manter a esperança
Em minha doce inocência de criança
Mas agora eu vejo tudo claramente
Como o reflexo na lagoa em que meu narciso se
afoga
Levando junto consigo todos os meus dias perdidos
Que procurei incansavelmente desde então
Desejando pegá-los de volta como um recém
nascido
Para lhe perguntar se ainda terei tempo de ser feliz
E se algum dia eu for feliz, serei feliz para sempre?
Sei que provavelmente não
Pois os contos de fadas são apenas para fadas
E eu nem sequer tenho asas
Mas as vezes eu gostaria de ter
Para sair voando por aí
E quem sabe assim
Encontrar a paz que tanto procuro
No céu, perto de todas aquelas nuvens
Que me parecem ser bons esconderijos
Para sonhar com um universo onde eu seria
plenamente feliz
E pudesse apreciar a vida em eterna celebração
Sem me lembrar de nenhuma tristeza
Sem ter nenhuma obrigação
Eu seria como um pássaro
Desaparecendo no horizonte
Indo em direção ao paraíso
Se eu pudesse voar…
Mas não posso voar
Não sozinha
Sou apenas uma poeira arrastada pelo vento
Pegando carona em sua enorme massa de ar
E no final da ventania
Pousar exatamente onde o vento me deixar
Onde por fim, reflito em minha própria companhia
Como foi fácil, ser levada a deriva
Quando se é frágil
Assim como eu, assim como uma poeira
Uma simples partícula separada da matéria
Mas agora em suspensão ao ar
Assim são algumas pessoas neste mundo
Pelo menos uma pequena maioria
Já outras são muito diferentes
São como o vento
Fortes e rápidas
Mas nunca vão a lugar nenhum
Apenas mudam o clima
Fazem seu barulho
Bagunçam as coisas
Com muito orgulho
De ser tudo e nada ao mesmo tempo
E assim assopram em meus ouvidos
Alguns de seus conselhos estúpidos e regras sem
sentido
Que só me fazem ser igual a todo mundo
Mas eu não sou igual a todo mundo
Estou bem longe disso
E cada vez mais perto de um precipício
Um precipício como a existência
A mais bela das poesias construída com rochas ao
invés de versos
Rochas que despencam dos montes
Quando são acusadas de cometerem atos dispersos
São “condenadas” a viverem para sempre
Sozinhas em sua própria essência
Mas que castigo mais absurdo, não acha?
Se bem que se eu tivesse um mundo só meu
Ele seria feito somente de absurdos
Mas absurdos diferentes!
Nada seria o que é
Pois tudo seria o que não é.
E, ao contrário, o que é, não seria
E o que não seria, seria.
Entende?
Seria uma grande utopia
Se eu não precisasse ir embora para sempre
Desaparecendo como um sonho
Se eu pudesse aparecer novamente
Quando eu bem quisesse
Como um gato risonho
Eu estaria realmente livre dos meus sentimentos
E minha liberdade também não machucaria as
pessoas que amo
Porque provavelmente não teria mais pessoas para
amar
E sem amor eu não sentiria coisa alguma
Assim eu seria como as milhares de outras rochas
cumprindo seu ofício…
Mas eu quero sentir, quero amar e ser amada
Quero ser a rocha que despenca do precipício
Em direção ao desconhecido
Mas que custo isso, não?
Mas quem sabe o amor e a liberdade possam ser
amigos algum dia
Pense só quantos pássaros seriam soltos de suas
gaiolas
Eu seria um deles
E eu cantaria para uma audiência maior
Eu cantaria nos grandes galhos das árvores
E não só nos poleiros da minha pequenina gaiola
Assim minha vida faria sentido
Eu não seria só um pássaro preso em uma gaiola,
sentindo falta do seu ninho
Uma poeira rodando em círculos, ao vento de um
redemoinho
Ou uma pedrinha cambaleando à beira de um
abismo…
Em busca da tão sonhada liberdade
Abrindo mão do amor
Já que estamos todos dopados de egoísmo
Nenhum de nós sentiria alguma dor
Quando meus ossos tocaram o chão
Eu vou estar completamente sozinha nessa
Sentindo falta do que eu era
Antes de arrancarem meus espinhos e pintarem
minhas pétalas
Eu sabia quem eu era
Eu sabia o caminho
Antes de seguir o coelho
Cair em sua toca e ir parar numa estrada escura
com milhares de setas
Eu acho que sabia exatamente quem eu era
Antes de me cercar de pessoas que me entristeciam
o coração
Eu era única no mundo inteiro
Agora eu sou apenas uma garotinha de apenas duas
décadas
Com a grande responsabilidade de ser feliz pelo
resto da vida
Implorando por ser compreendida
E quem sabe provar um pouco de compaixão das
pessoas
Que só vi em alguns de meus sonhos e devaneios…
Mas agora que estou bem acordada
Isso me parece uma tamanha bobagem
O amor, a liberdade, a felicidade
Me parece uma grande miragem
Tudo que eu acreditava ser meu
Desaparece por inteiro
Então eu encaro a realidade
Caindo em profundo desespero
Quando finalmente reconheço minha alma através
do espelho.
sem mais bobagens,
FIM
Se seu coração sangrar use essas páginas para
estancar o sangue
Se seu coração jorrar de felicidade rasgue uma
página e faça um lindo barquinho
Se seu coração apenas não tem nada a dizer,
contemple o silêncio e a beleza de uma folha em
branco
Mas se seu coração precisa gritar em silêncio
considere essas páginas como paredes que o
escutarão sem julgamentos...