0% acharam este documento útil (0 voto)
57 visualizações15 páginas

Fenomenologia e Existencialismo: Contribuições

Enviado por

Lívia Dias
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
57 visualizações15 páginas

Fenomenologia e Existencialismo: Contribuições

Enviado por

Lívia Dias
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

Fenomenologia e Existencialismo: algumas contribuições de

Franz Brentano, Edmund Husserl, Martin Heidegger e Jean-Paul Sartre


Texto didático elaborado de seleções, fragmentos e reflexões por
Ágnes Cristina da Silva Pala

O alemão Franz Brentano (1838-1917) tem grande influência na


Fenomenologia. A fenomenologia é remetida ao Empirismo – conhecimento
através da experiência. Brentano opõe-se a idéia de Wundt quanto a uma
Psicologia experimental/laboratorial e, propõe uma Psicologia Empírica –
observar; obter dados da observação, experiência individual e da
experimentação. Para Brentano, o ato da experiência é o objeto da Psicologia.
Uma das contribuições de Brentano é o conceito de intencionalidade –
todo ato tem uma intenção. Este conceito é desenvolvido por Edmund Husserl
(1859-1938), aluno de Brentano e, considerado o fundador do movimento
filosófico denominado Fenomenologia. A intencionalidade auxilia a compreensão
das ações/atitudes. Todo ato tem, ao menos, uma intenção. Toda consciência é
consciência de alguma coisa; sendo caracterizada pela intencionalidade e pela
intuição doadora de sentido – significação das coisas: é um ato livre.
A preocupação de Husserl era como fundamentar o conhecimento de
modo seguro. Ele desenvolve a compreensão da atitude natural e da atitude
fenomenológica. A primeira é vista como o modo compreensível do senso
comum e, até do meio científico; já a segunda atitude refere-se àquilo que se dá
à experiencia; refere-se ao fenômeno. Na Fenomenologia husserliana, há o
desenvolvimento de alguns conceitos – fenômeno; eidos; epoché; consciência;
reduções eidética, fenomenológica e constituinte; intuição.
O fenômeno é a própria realidade passível de ser conhecida. “O fenômeno
é a consciência, enquanto fluxo temporal de vivências e cuja peculiaridade é a
imanência e a capacidade de outorgar significado às coisas exteriores. A
consciência pode ser dita um fenômeno empírico quando seu conhecimento é
feito por uma ciência empírica como a psicologia.”
Não se pode separar fenômeno e coisa em si. Fenômeno vai-se
desvelando e sendo apreendido através da percepção. Mas, pela epoché, pode-
se chegar sempre ao eidos, o qual nunca vai ser esgotado mas, vai-se
mostrando em perfis. A epoché vem a ser a suspensão de juízos; colocar em
parênteses o fato e analisa-lo, observá-lo sem referências e pré-julgamentos. É
permitir-se ao encontro com o que for, sem uma idéia prévia do que possa
ocorrer.
Essência deve ser entendida como estrutura invariante do objeto, à qual
é dado o nome de eidos. Eidos é tomado no sentido de forma, figura, estrutura
que identifica um ser. Para chegar ao Eidos, recorre-se à redução, que pode ser
realizada em três níveis:
a) Redução eidética: faz-se epoché do contingente, ou seja, coloca-se entre
parênteses o factual deixando vir à tona sua significação. Esta significação surge
como essência. Vale ressaltar: essência é diferente de fato. Feita a redução,
tem-se a intuição da essência que passa, assim, a ser objeto de conhecimento
intuitivo.
b) Redução Fenomenológica: coloca-se entre parênteses a crença na existência,
que por si só é evidente. Intenciona-se o mundo como correlato da consciência,
i. é., pode ser visto na sua transparência.
c) Redução constituinte: coloca-se parênteses nos vários eus individuais,
surgindo assim o eu transcendental – eu/sujeito de conhecimento que conhece.
Consciência é, inicialmente, uma não-consciência de si; a consciência é
pré-reflexiva. A partir de sua história pessoal, vivências e experiências, o sujeito
vai se conscientizando daquilo que ele é. Consciência é definida,
essencialmente, em termos de intenção voltada para um objeto. A consciência é
sempre consciência de alguma coisa: em outras palavras, tem-se consciência
de si, do outro, do mundo, de Deus. Esta característica é a intencionalidade.
A consciência caracteriza-se pela intencionalidade e pela intuição
doadora de sentido. “Consciência não é uma substância (alma) mas, uma
atividade constituída por atos (percepção, imaginação, especulação, volição,
paixão, etc) com os quais visa algo. A estes atos, Husserl chama noesis e, aquilo
que é visado pelos mesmos são os noemas - constituídos pelos atos de
consciência como significações, ou seja, eles estão em estreita e indissociável
conexão com o sujeito constituinte.
. Por intencionalidade deve-se entender que a consciência está sempre
voltada para algo; que ela é, portanto, uma atividade constituída de atos como
os de significar, perceber, pensar, imaginar, desejar, agir, querer, etc. A noção
de intencionalidade vincula-se a um ato da consciência, direcionado para um
objeto. Atos intelectuais, desejados, imaginários..., atos que envolvem tudo o
que diz respeito à existência humana.
Filosoficamente, a vida humana não pode ser igual à do animal. O que
marca a vida do homem é o fluir constante na direção de um futuro, de um
projeto. É diferente por causa da experiência vivida. A análise fenomenológica é
sempre a análise de algo vivido, na ordem da experiencia, tem-se a vida como
um fluir: é uma análise do vivido no presente.
Fenomenologia pode ser compreendida como uma ciência rigorosa que
se inicia pela descrição do vivido. E, não deve apresentar-se como um sistema
filosófico acabado ou como uma escola com discípulos, onde os professores
deveriam ensinar o que é a Fenomenologia. Husserl traz a reflexão de duas
atitudes: natural e fenomenológica. Atitude natural é a
atitude cotidiana de tese do mundo, ou seja, acredita-se
espontaneamente que as coisas exteriores existem tais como se as vê:
portanto, natural e, espontaneamente, ‘põe-se’ o mundo. Quando se
descobre que cada indivíduo pode ter uma ‘posição’ (tese) diferente da
dos outros, a ‘tese do mundo’ torna-se confusa e problemática. A
Fenomenologia coloca a ‘tese natural’ entre parênteses para indagar,
primeiro, como a consciência funciona e como se estrutura, para, no
final, justificar essa ‘tese natural’ exatamente enquanto atitude
irrefletida, ingênua e que precisa ser fundamentada filosoficamente, já
que é o modo de viver cotidiano. (OS PENSADORES, 1980, p. XI)

Já a atitude fenomenológica procura ‘mostrar’ a experiência vivida que


temos do real, procura ‘ir às coisas nelas mesmas’, buscando trazê-las para a
ordem da significação; é a atitude advinda do exercício da epoché.
Cabe ressaltar a importância de Husserl para a Filosofia pois com seus
estudos e obras, influenciou estudiosos/filósofos, dentre eles: Martin Heidegger;
Karl Jaspers; Jean-Paul Sartre; Maurice Merleau-Ponty. Para a prática da clínica
psicoterápica, sua contribuição é perceptível ao estudar a importância da postura
ética – epoché –; observação dos fenômenos contemporâneos.
O filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) foi aluno e sucessor de
Edmund Husserl na Universidade de Freiburg (Alemanha), dando continuidade
na construção da Fenomenologia, enquanto movimento filosófico. Sua obra de
maior repercussão Ser e Tempo, publicada em 1927, influenciou o surgimento
do movimento filosófico Existencialismo e de práticas clínicas psicológicas como
Daseinsanalyse, Abordagem centrada na Pessoa, Gestalt-terapia, Psicologia
existencial americana, Logoterapia. Vale ressaltar que, algumas destas práticas
também foram influenciadas pela Psicanálise e pelo Existencialismo.
Heidegger desenvolveu nesta obra inúmeras noções que auxiliam na
prática clínica: mundo, entes, Dasein (Ser-aí), ser-no-mundo, cuidado (cura),
cotidiano impessoal, ser-para-a-morte, angústia, disposição afetiva e
compreensão. Na própria obra, há a Analítica do Dasein, que serve de inspiração
para o psiquiatra suiço Ludwig Binswanger elaborar a Daseinsanalyse – termo
abandonado por este psiquiatra e, que outro psiquiatra suíço, Medard Boss,
assume e nomifica a prática clínica com embasamento fenomenológico.
Em seus textos, Heidegger costuma iniciar com a compreensão ôntica
para, depois, desvelar o sentido ontológico das noções. Com isto, observa-se
que as noções fenomenológicas ganham mais sentidos que os convencionais,
os do senso comum. Vale ressaltar: ôntico é o sentido imediato, podendo ser
vinculado à idéia do senso comum; ontológico é o sentido reflexivo, o sentido do
Ser.
A noção heideggeriana de Mundo compreende não somente o espaço
geográfico, cultural e histórico em que se vive; é também horizonte de sentidos.
O homem e o mundo são co-originários. O mundo é a tessitura de sentidos do
Ser.
O mundo é constituído de entes simplesmente dados e entes existentes.
Os primeiros são todos os entes que estão no mundo, com exceção do homem:
casa, cadeira, animais de estimação, livros, celulares, roupas, etc. Os existentes
são os seres humanos, que existem no mundo. Os verbos estar e existir são
cruciais para compreender a diferença ontológica de ser e ente. Os entes
simplesmente-dados estão no mundo mas, não problematizam o mundo em que
estão. Já os entes existentes possuem a capacidade de questionar a própria
existência.
O termo Dasein, traduzido na Língua Portuguesa Brasileira por Ser-aí ou
pre-sença ou, ainda, presença, traz a compreensão do homem no mundo e do
quanto o homem é cuidado, ou seja, relação – sempre está em relação com o
mundo. Dasein é o modo de ser deste ente, cujo existir está sempre em jogo no
devir temporal.
A noção heideggeriana de cuidado traz a compreensão do modo de
relação do Dasein com os entes simplesmente-dados – ocupação – e com os
entes existentes – preocupação substituição e preocupação anteposição. É
necessário lembrar que cuidado tem o sentido ontológico de relação, por isto,
bater em um animal é um cuidado – pois é o modo de relacionar-se com este
animal. Preocupação substituição é quando Dasein substitui o outro Dasein em
função deste não ter ou aparentar ter condições de execução de atividades –
sem condições de relacionar-se com tais atividades de modo apropriado.
Preocupação anteposição é quando Dasein observa o outro Dasein realizar as
atividades que, por ventura anteriormente, não tinha condições de executar
sozinho – neste momento, já há condições de relacionar-se com as atividades
de modo apropriado.
Ser-para-a-morte é a noção que aponta o aspecto finito da Existência
Humana. Esta relação com o mundo, na maioria das vezes, é impessoal. Vive-
se o cotidiano na impessoalidade, mergulhado nas ocupações sem
problematizar a própria existência e, em vários momentos, abandonando o seu
projeto existencial. Lembrar que Dasein é cuidado e, cuidado é ser-para-a-morte,
aponta a condição finita do ser humano e, uma peculiaridade: a experiência da
morte só pode ser vivenciada pela pessoa que está morrendo; acompanhar uma
pessoa em seu leito de morte não é a experiência da morte mas, a experiência
de ‘acompanhar aquela pessoa nos momentos finais de sua existência’.
Mas, há vivências na Existência que convocam o Dasein a olhar para si e
seu projeto existencial. Normalmente são situações do cotidiano impessoal que
atravessam a vida e, apontam para o seu caráter finito. Com isto, o indivíduo
vivencia a angústia existencial e, em muitos casos, escolhe realizar mudanças
em sua vida em prol de seu projeto. A angústia é, dentre os sentimentos e modos
de existência humana, aquele que pode reconduzir o homem ao encontro de sua
totalidade como ser e juntar os pedaços a que é reduzido pela imersão na
monotonia e na indiferenciação da vida cotidiana. A angustia faz o homem
elevar-se da traição cometida contra si mesmo, quando se deixa dominar pelas
mesquinharias do cotidiano, até o autoconhecimento em sua dimensão mais
profunda. A partir deste estado de angústia, abre-se para o homem uma
alternativa: fugir de novo para o esquecimento de sua dimensão mais profunda,
i. é., o Ser e, retornar ao cotidiano; ou superar a própria angústia, manifestando
seu poder de transcendência sobre o mundo e sobre si mesmo.
Dasein é abertura de sentido e, as dimensões essenciais desta abertura
são denominadas de disposição/tonalidade afetiva e a compreensão. Toda
compreensão é sempre constituída de um humor, de uma tonalidade afetiva.
Apesar de ser abertura, Dasein tende ao fechamento em função de seu modo
mediano e impessoal de ser e estar no mundo.
Disposição afetiva possui três caráteres ontológicos: abre o Dasein para
sua condição de estar-lançado ao mundo; modo existencial ‘ser-no-mundo’;
aponta o que está ao alcance no mundo como algo ameaçador. No § 30 de Ser
e Tempo, Heidegger aborda o temor como modo da disposição. O que é
relevante neste estudo é saber as três perspectivas abordadas: o que se teme,
o temer e, pelo que se teme. ‘O que se teme’ é compreendido como a ameaça
propriamente dita; ‘o temer’ é temerosidade, o que abre Dasein para o conjunto
de abandonos, perigos e riscos; ‘pelo que se teme’ é o próprio Dasein – ente
cujo ser está em constante jogo.
Compreensão está sempre sintonizada com a disposição/tonalidade
afetiva; é um modo de conhecimento entre os outros. Lembrando a condição de
abertura do Dasein, a compreensão abre o ente para suas possibilidades. A
compreensão tem total vinculação com o projeto existencial: o projeto é “a
articulação do poder-ser de fato” (HEIDEGGER, 2002, p. 201).
A Fenomenologia hermenêutica é o nome atribuído ao método
empregado por Heidegger, em sua obra Ser e Tempo, para o questionamento
ontológico – sobre o sentido do Ser. Hermenêutica é a arte ou ciência de
interpretar; com isto, compreende-se que o sentido desvelado pelo homem
nunca é a priori mas, sempre interpretação. A hermenêutica é ligada à
facticidade: pensar o sentido fático dos entes com a experiência do que somos,
somos o “aí” no mundo. A cada situação, dever-se-á investigar o Dasein próprio.
Com Heidegger, há a compreensão da estrutura do círculo hermenêutico:
compreensão circular – do todo à parte e da parte ao todo. O próprio sujeito da
compreensão se vê no círculo.
Em Ser e Tempo, Heidegger desenvolve este questionamento ontológico
através de compreender os existenciais no contexto histórico no qual os entes
estão inseridos. A compreensão de ser-no-mundo, da importância/do papel da
angústia para “devolver” o homem ao seu projeto existencial; o cuidado enquanto
modo de relação com os entes; ser-para-a-morte enquanto alerta para a nossa
condição finita; o afastamento de si e o envolvimento com as impessoalidades
do cotidiano; a compreensão dos fenômenos que ocorrem na própria existência
e a disposição afetiva envolvida com estas situações. Tais noções podem ser
transpostas para uma prática psicoterápica sem grandes esforços e, serem
ferramentas para o psicólogo acompanhar, compreender e provocar reflexões
no cliente.
Conforme dito anteriormente, a Fenomenologia influenciou outro
movimento filosófico marcante do século XX, o Existencialismo. Jean-Paul
Sartre (1905-1980) é considerado seu fundador e principal representante,
juntamente com sua companheira Simone de Beauvoir. Neste texto, ver-se-á
brevemente algumas contribuições do Existencialismo.
Sartre inaugura o Existencialismo enquanto movimento filosófico com a
publicação de “O Ser e o Nada”, em 1943, em plena Segunda Guerra Mundial.
Anterior a esta obra, o filósofo havia publicado outras obras classificadas como
‘novelas’ ou ‘romances’ com conteúdos filosóficos existencialistas: A náusea; A
idade da razão. Em 1960, há a publicação de “A crítica da razão dialética”
trazendo preocupações de ordem marxista; em 1972, o filósofo retorna à
reflexões sobre o indivíduo concreto com a publicação de “O idiota da família”.
A inspiração em Kierkegaard e em Heidegger são perceptíveis nas
reflexões de Sartre. É necessário ter atenção em quatro idéias: liberdade;
escolha; responsabilidade; ‘A Existência precede a essência”. O que pode ser
denominado tríade existencialista “Liberdade-Escolha-Responsabilidade” é
compreendido pela condição de ‘condenado à liberdade’ que o homem possui e,
com isto, é livre para realizar suas escolhas e, inclusive o não-escolher é visto
como um modo de escolha. Com esta liberdade para escolher, o homem precisa
responsabilizar-se pelas consequências de suas escolhas. Neste sentido,
percebe-se a queda da idéia de vítima e culpado(a) nas ações da Existência. O
homem torna-se responsável por suas escolhas e pelas as consequências das
mesmas. Apropriar-se de suas próprias escolhas e de sua condição de ser-livre
são grandes desafios para o homem.
A frase cunhada por Sartre “A Existência precede a essência” é
inspirada no fragmento de Ser e Tempo: “A essência da pre-sença1 está em sua
existência” (HEIDEGGER, 2002, p. 77). Este fragmento heideggeriano é
compreendido como uma inversão do paradigma filosófico: “A essência precede
a existência” – que remete à busca de filósofos pré-socráticos pela substância
primordial de todas as coisas e, a uma idéia de uma essência humana. Deste
modo, Sartre aponta que o homem nasce e, a partir deste fato, começará a
construir sua história e, consequentemente, sua essência.
A consciência de existir – a compreensão e a vivência do que seja existir
– é muito rara. O existir consiste em escolher livremente. A existência é vivida e
não pensada. Cada um responde por sua escolha pois esta escolha é ele próprio
e, portanto, angustia-se pelo temor de haver escolhido mal.
Existência não é um atributo; é a realidade de todos os atributos; é um
ato; é a própria passagem da possibilidade para a realidade. A Existência é
privilégio do homem.
Muitos homens não existem por serem levados pela massa. Só existe
genuinamente aquele que se escolhe, livremente, que se faz por si mesmo, que
é a sua própria obra. O verdadeiro devir e a verdadeira existência supõe a
liberdade. A Existência é constante transcendência, i. é., superação daquilo que
somos; só existimos através da livre realização de um mais-ser. O que somos
constitui nossa essência. Escolhemos nossa essência. Essência é posterior à
Existência, pois para escolher é preciso existir. Isto só ocorre porque o homem
é livre. Os outros seres são predeterminados.
O homem pode escolher entre muitas hipóteses: e só depois de sua
escolha, sabe-se o que de fato ele escolheu, no que esta escolha o transformou,
qual a sua essência. Não escolho ser filho de Fulano, características genéticas
mas, escolho a forma como as considero; eu as assumo.
A atitude que assumo em face do que sou, contribui para me transformar:
eis um domínio que parecia independente de mim, uma porta aberta à liberdade.
O passado parece imutavelmente fixo mas, através de minha atitude a seu
respeito, posso transformar a sua ação sobre mim, modificar o seu significado
para mim. Cada homem deve descobrir o seu caminho.

1
Pre-sença e presença são traduções para a língua portuguesa brasileira do termo Dasein. Em
outras obras da língua brasileira portuguesa, o mesmo termo é traduzido por Ser-aí.
A liberdade parece tanto mais salvaguarda quanto os nossos fins jamais
se apresentam definitivamente fixados. Enquanto continuamos a existir,
prosseguimos na escolha de nossos fins, pois a liberdade é a essência de nossa
existência. A essência do ser humano está em suspenso na sua liberdade. A
escolha de nossos fins também é absolutamente livre, ela se realiza sem ponto
de apoio. Cada qual estabelece livremente as normas do verdadeiro, do belo, do
bem.
A liberdade é a liberdade de escolher, mas não a liberdade de não
escolher. Não escolher, com efeito, é escolher o não escolher... Daí a absurdez
da liberdade. A liberdade constitui o bem supremo, mas eu não estou só, e a
liberdade dos outros tem de ser considerada como a minha “não posso tomar a
liberdade como objetivo, salvo se eu tomar igualmente a dos outros como
objetivo” (Sartre).

Responsabilidade: nada lhe escapa, não só da atividade pessoal mas,


ainda de eventos externos. Sou responsável por tudo, sou “tão profundamente
responsável pela guerra como se eu próprio a tivesse declarado”. Só fazemos o
que queremos e, no entanto, somos responsáveis pelo que somos: eis o fato.
“A consequência essencial de nossas observações anteriores é de que o
homem, estando condenado a ser livre, carrega nos ombros o peso do mundo
inteiro: é responsável pelo mundo e por si mesmo enquanto maneira de ser.
Tomamos a palavra ‘responsabilidade’ em seu sentido corriqueiro de
‘consciência (de) ser o autor incontestável de um acontecimento ou de um
objeto’. Nesse sentido, responsabilidade do Para-si2 é opressiva, já que o Para-
si é aquele pelo qual se faz com que haja um mundo e, uma vez que também é
aquele se faz ser, qualquer que seja a situação em que se encontre, com seu
coeficiente de adversidade próprio, ainda que insuportável; o Para-si deve
assumi-la com a consciência orgulhosa de ser o autor, pois os piores
inconvenientes ou as piores ameaças que prometem atingir minha pessoa só
adquirem sentido pelo meu projeto; e elas aparecem sobre o fundo de
comprometimento que eu sou. Portanto, é insensato pensar em queixar-se, pois

2
Para-si é um conceito sartreano, explicado na p. 12 deste texto. É ‘sinônimo’ para o conceito
sartreano de consciência, brevemente explicado na p. 13.
nada alheio determinou aquilo que sentimos, vivemos ou somos. Por outro lado,
tal responsabilidade absoluta não é resignação: é simples reivindicação lógica
das consequências de nossa liberdade. O que acontece comigo, acontece por
mim, e eu não poderia me deixar afeitar por isso, nem me revoltar, nem me
resignar.” (SARTRE, 2003, p. 678)
“Escolher-nos é nadificar-nos, ou seja, fazer com que um futuro venha a
nos anunciar o que somos, conferindo um sentido ao nosso passado. Assim, não
há uma sucessão de instantes separados por nadas [...]. Escolher é fazer com
que surja, com meu comprometimento, certa extensão finita de duração concreta
e contínua, que é precisamente a que me separa da realização de meus
possíveis originais. Assim, liberdade, escolha, nadificação e temporalização
constituem uma única e mesma coisa.” (Ibid., p. 574)

Angústia resulta da sensação do alcance de nossas opções. O individuo


escolhe as suas normas sem que possa julgar, primeiro, o seu valor, pois este
valor resulta de sua escolha. Angústia é considerado sentimento doloroso mas,
nobre pois o mesmo nos devolve à existência autêntica.
Angústia da escolha: anteriormente à nossa opção, não há, não só
qualquer autoridade que nos imponha uma escolha, mas também nenhuma
escala de valores que nos permita eleger o melhor: o melhor é determinado por
nossa opinião. Por que temer a má escolha ? Por que supor que a minha opção
interessa a humanidade inteira, se cada qual deve escolher independente dos
outros, construir sua moral e a própria verdade ? Minha eleição só vale neste
instante, posso reforma-la segundos depois, pois encontro-me na necessidade
de me escolher perpetuamente.

Má-fé é a tendência inerente à condição humana, de fazer com que a


consciência esqueça o Nada, que é seu fundamento, para identificar-se de
alguma forma com o ser. É ação do indivíduo que tem como objetivo fugir da
responsabilidade; mascara a verdade de suas próprias ações para si.
Desempenha um papel tendo convicção de: ser o que não se é; estar agindo
quando não está; escolher quando não está. É a negação implícita da liberdade
e um meio de fugir da angústia. “Ao invés de ver suas ações coimo a expressão
de suas escolhas, elas as vêem como se fossem fenômenos causados e
determinados por uma natureza interna ou essência para os quais não são
responsáveis.” (COX, 2011, p. 173)

Autenticidade é o conceito sartreano mais delicado de esclarecimento


por não ter em sua obra um relato objetivo e explicativo deste termo. Por isto
que, para compreender tal expressão, parte-se da compreensão do que seja
não-autenticidade ou inautenticidade. Segundo Cox (2011, p. 172), é necessário
revisitar exemplos sobre as pessoas de má-fé (conceito acima exposto).
“As pessoas não-autênticas mantem determinados projetos de fuga da
responsabilidade por suas situações atuais ou seus erros do passado,
recusando, em má-fé, a admitir que são responsáveis. Mais especificamente,
elas recusam admitir a incapacidade do eu de coincidir com o si como uma
facticidade ou uma pura transcendência e recusam admitir a liberdade ilimitada
do eu e as implicações desta liberdade ilimitada. Na opinião de Sartre, a não-
autenticidade é a negação da verdade fundamental de que nós somos livres e
responsáveis; enquanto que a autenticidade, como antítese da não-
autenticidade, é a aceitação ou afirmação desta verdade fundamental. [...] a
autenticidade envolve uma pessoa confrontando a realidade e encarando a
verdade nua e crua de que é um ser livre, sem limites, que nunca obterá
coincidência consigo mesma [...] enquanto a pessoa não-autêntica procura evitar
o reconhecimento de que esta é a verdade fundamental do seu ser, a pessoa
autentica não só reconhece isso, bem como luta para lidar com o fato e até trata-
lo como uma fonte de valores. ” (Ibid., p. 173-174)
“Ao invés de exercitar sua liberdade para poder negar sua liberdade, ao
invés de escolher não escolher, a pessoa autêntica assume sua liberdade.
Assumir sua liberdade envolve assumir total responsabilidade de si mesma na
situação onde se encontra atualmente. Envolve a aceitação de que essa, e
nenhuma outra, é a sua situação [...]. Acima de tudo, assumir sua liberdade
envolve a percepção de que, pelo fato de ser um nada no módulo do sê-lo, a
pessoa é nada mais que a escolha que faz na sua situação.” (Ibid., p. 175)
“A existência autêntica é um projeto que tem de ser continuamente
reassumido. Uma pessoa é somente tão autentica quanto seu ato atual. Mesmo
que tenha sido consistentemente autentica durante uma semana inteira, se ela
não for autentica no aqui e agora, ela não é autêntica.” (Ibid., p. 182)

Para conhecimento, alguns dos conceitos sartreanos:

Náusea: necessidade de converter a revelação do absurdo em um sentido que


justifique a existência humana. A náusea revela para mim mesmo que sou
consciência – núcleo instantâneo de minha existência.
Descartes punha em “dúvida as formas do conhecimento humano; Sartre
busca destituir de suas bases tudo aquilo que possa emprestar um sentido à
existência do homem; põe-se em dúvida, assim, o sentido da existência humana
em geral, e também o sentido do outro, de Deus, da História, da Arte. O nome
que assume a dúvida para alcançar esse despojamento inaugural é a náusea. A
experiência da náusea, minuciosamente descrita, revela-se aos poucos uma
força definitivamente reveladora.” (BORNHEIM, 1989, p. 195)

Mundo em si Mundo para si


algo / ser → em-si para mim / consciência → Para-si

Em-si: plenitude do ser, maciço, opaco a si próprio, destituído de consciência.


Idêntico a si. O Em-si não pode, como o ser consciente comparável a um
espelho, ser o que ele não é e não ser o que ele é, perdendo-se em infinitos
revérberos do reflexo ao objeto refletido e do objeto refletido ao refletor. O em-si
é o que é e nada mais. Antes da intervenção da consciência, que é o que
conhece, o em-si não é isto nem aquilo; consiste apenas num caos também
absurdo e que provoca a náusea.

Para-si: Só ao tornar-se para mim, o mundo recebe um significado, torna-se


inteligível e elabora-se em fenômenos que constituem os verdadeiros seres da
fenomenologia. O mundo bruto passa à existência unicamente pela consciência.
Este mundo para nós só existe por nós. Não dependemos dele; ele é que
depende de nós e, sem nós, nada seria. O único mundo existente para mim é
obra da minha consciência. É o surgimento do para-si, i. é., da consciência que
faz com que haja um mundo. O homem cria o verdadeiro mundo, o existente
para ele, e este mundo varia segundo os fins a que cada qual se propõe. Não é
em algum retiro que nós nos descobrimos: é na estrada, cidade, em meio a
multidão, como coisa entre as coisas, como homem entre os homens.

Consciência: é sinônimo de para-si. A consciência não tem nada de substancial,


é uma pura aparência, no sentido de que não existe senão na medida em que
aparece a si mesma. Ao perceber a folha de papel, não me torno papel mas, ao
contrário, tomo consciência de não sê-lo: conhecer é “fazer-se anunciar” pelo
objeto “o que a gente não é”. Consciência é um ser para o qual se apresenta em
seu ser a questão do seu ser enquanto este ser implica um outro ser diferente
dele. A consciência só existe por aquilo do qual ela tem consciência. Ela é
consciência de alguma coisa, mas, nunca consegue identificar-se com esse
conteúdo que a constitui; é intencional.

Corpo: estrutura permanente de meu ser e a condição permanente da


possibilidade de minha consciência como consciência do mundo. Corpo é
essencial à consciência: “é o que ela é: esta não é mesmo outra coisa senão o
corpo, o resto é nada e silêncio.”

“[...] nosso corpo não é somente o que, por muito tempo, denominou-se ‘a sede
dos cinco sentidos’; é também o instrumento e a meta de nossas ações. [...] É
por isso que podemos tomar como fio condutor, para nosso estudo do corpo
enquanto centro de ação, os raciocínios que nos serviram para desvelar a
verdadeira natureza dos sentidos.” (SARTRE, 2003, p. 404)

“[...] O corpo do Outro aparece-me aqui, portanto, como instrumento em meio a


outros instrumentos.” (Ibid., p. 405)

“Falta entender o que o corpo é para mim, porque, precisamente por ser
inapreensível, não pertence aos objetos do mundo, ou seja, a esses objetos que
conheço e utilizo; todavia, por outro lado, uma vez que nada posso ser sem ser
consciência do que sou, é preciso que o corpo seja dado de alguma maneira à
minha consciência.” (Ibid., p. 415) “[...] meu corpo é uma estrutura consciente
de minha consciência.” (Ibid., p. 416)
“Existo meu corpo: esta é a sua primeira dimensão de ser. Meu corpo é utilizado
e conhecido pelo outro: esta, a segunda dimensão. Mas, enquanto sou Para-
outro, o outro desvela-se a mim como o sujeito para o qual sou objeto. Trata-se
inclusive, como vimos, de minha relação fundamental com o outro. Portanto,
existo para mim como conhecido pelo outro – em particular, na minha própria
facticidade. Existo para mim como conhecido pelo outro a título de corpo. Esta,
a terceira dimensão ontológica de meu corpo.” (Ibid., p. 441)

O Outro: À primeira vista, meus semelhantes são objetos como os outros, como
esta folha de papel, mesa ou estante. Para mim, alcançam verdadeira existência
quando existem para mim; dependem de mim, a quem devem a sua existência
no mundo que é, para mim, o verdadeiro mundo. Seu olhar apossa-se de mim e
converte o sujeito que sou num objeto, num instrumento. Daí resulta a vergonha,
o sentimento de ser um objeto, i. é., de me reconhecer neste ser degradado,
dependente e congelado que eu sou para outrem.
A vergonha é sentimento de queda original, não pelo fato de eu haver
cometido esta ou aquela falta mas, simplesmente, porque “caí no mundo, em
meio das coisas, porque necessito da mediação de outrem para ser o que sou”.
A essência das relações entre consciências é o conflito. Procuramos
utilizar dos outros para nossos fins. O amor também é vontade de poder; apenas
em vez de pretender a conquista de um simples objeto, visa um sujeito: o amante
não deseja possuir o amado como se possui uma coisa; ele reclama um tipo
especial de apropriação, a posse de uma liberdade como liberdade. Encerrados
em nossa própria existência, não podemos compreender os outros, nem
tampouco nos fazer compreender por eles. Daí os mal-entendidos, julgamentos
injustos, cuja única causa é a ‘a maldição de ser outro’.

Ser do corpo do outro é uma totalidade sintética para mim – “[...] esse franzir
de cenho, esse rubor de face, essa tartamudez, esse leve tremor nas mãos,
esses olhares enviesados que parecem ao mesmo tempo tímidos e
ameaçadores, tais fenômenos não expressam ira, mas são a ira. Mas, é preciso
deixar claro: em si mesmo, um punho cerrado nada é e significa nada. Contudo,
também nunca percebemos um punho cerrado: percebemos um homem que, em
certa situação, cerra o punho.” (SARTRE, 2003, p. 435-436)
Referências (Obras Consultadas e Citadas)

BORNHEIM, G. O Existencialismo de Sartre. In: Curso de Filosofia. Rio de


Janeiro: Jorge Zahar, 1989.
CAPALBO, C. Fenomenologia e Hermenêutica. Rio de Janeiro: Âmbito Cultural,
1983.
______. Fenomenologia e Ciências Humanas. Aparecida: Idéias & Letras,2008.
CASANOVA, M. Compreender Heidegger. Petrópolis: Vozes, 2011.
COLEÇÃO OS PENSADORES. Husserl. São Paulo: Nova Cultural, 1980.
______. Heidegger. São Paulo: Nova Cultural, 2003.
COX, G. Compreender Sartre. Petrópolis: Vozes, 2011.
FEIJOO, A.M.L.C. et. al. O pensamento de Kierkegaard e a clínica psicológica.
Rio de Janeiro: Ifen, 2013.
FOUQUIÈ, P. O Existencialismo. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1955.
HEIDEGGER, M. Ser e Tempo. Petrópolis, Vozes, 2002.
INWOOD, M. Dicionário Heidegger. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.
SÁ, R. N. A influência da fenomenologia e do existencialismo na Psicologia. In.:
JACOB, A. M. et. al. História da Psicologia – rumos e percursos. Rio de Janeiro:
Nau, 2004.
______. Para além da técnica: ensaios fenomenológicos sobre psicoterapia,
atenção e cuidado. Rio de Janeiro: Via Verita, 2017.
SARTRE, J-P. O ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenológica. Petrópolis:
Vozes, 2003.

Você também pode gostar