Relendo Groddeck
"A psicanálise não pode e
não irá deter-se diante das
enfermidades orgânicas"
G. Groddeck
Este trabalho fazer um resgate de G. Groddeck partindo de alguns
de seus textos onde podemos realizar uma articulação entre a psicanálise
e a psicossomática daquele que foi chamado de "pai da psicossomática".
Em "Estudos Psicanalíticos sobre a Psicossomática" (1966), se
reune alguns artigos clínicos de Groddeck de 1912 à 1934. Na maioria de
seus textos contidos neste livro, Groddeck procura validar suas hipóteses
sobre as doenças orgânicas como manifestações do Isso, articulado
conceitos psicanalíticos, associando com pressupostos corporais, a
análise das resistências e relçando a importância do contato físico e
corporal como fator decisivo de cura. Podemos constatar que Groddeck se
influencia da construção psicanalítica de Freud, e também, de conceito e
métodos de trabalho desenvolvidos por Reich.
Groddeck critica a psicanálise pelo fato desta prescindir do exame
físico e subestimar a observação e a análise dos sintomas corporais. No
entanto, será através da psicanálise (de Freud) que Groddeck reconhecerá
a dinâmica psíquica (lapsos, neuroses, etc) nas moléstias orgânicas e da
importância da construção de uma relação entre saúde e doença.
Grodeck reconheceu a importância de Freud em seu trabalho
porque este o "(. ..) obrigou a duvidar e questionar tudo o que sabia até
então. "1, fazendo-o duvidar do cientificismo e objetivismo médico e da
exclusão da subjetividade no discurso da medicina.
Groddeck por outro lado contribuiu significativamente para as
concepções freudianas do Isso, pois este conceito, anexado e
desenvolvido posteriormente por Freud, é de sua autoria. O próprio Freud
reconhece a importância da construção do conceito de Isso por Groddeck,
embora desenvolveu a sua concepção de Isso em uma direção bem
diferente, só restanto na realidade como ponto comum o fato de ambos
serem inanalisáveis. Em Ego e Id, Freud nos fala:
"Estou falando de george Groddeck, o qual nunca se cansa de
insistir que aquilo que chamamos de nosso ego comportasse
essencialmente de modo passivo na vida e que, como ele o expressa, nós
somos vividos por forças desconhecidas e incontroláveis. Todos nós
tivemos a impressão da mesma espécie, ainda que não tenham dominado
até a exclusão de todas as outras, e precisamos não sentir hesitação em
encontrar um lugar para a descoberta de Groddeck na estrutura da ciência.
Proponho levá-Ia em consideração cahmendo a entidade que tem início no
sistema pcpt e começ por se Pcs de ego, e seguindo Groddeck o cahamar
a outra parte da mente, pela qual essa entidade se estende e se comporta
como se fosse Ics, de id"2
Groddeck, dando continuidade a sua busca nos escritos freudianos,
se utiliza do artigo de 1908 "Caráter e erotismo anal" para desenvolver
fundamentos para as suas teses. Embora critique o texto freudiano como
algo aquém da psicossomática, pois não acredita haver diferença entre o
orgânico e o psíquico por considerar que não há uma alma sem corpo e
nem um corpo sem alma, será neste artigo que se fixará na idéia de
retenção corporal e o caráter, em particular no que tange a obstinação
intestinal.
1 Groddeck, G. : "Estudos psicanalíticos sobre psicossomática"
2 Freud, S. : ''Ego e id", pg. 373
Este artigo será o móvel que necessitava para construir uma
articulação, própria e particular, dos fundamentos psicanalíticos em
direção ao orgânico. Por não fazer diferenciação entre psíquico e orgânico,
justificava a aplicação da psicanálise às doenças orgânicas. A doença
orgânica é ao mesmo tempo psíquica e orgânica, sendo ambas formas
diferenciadas de manifestação da vida.
Para Groddeck, o homem se transforma em símbolo, onde o
sintoma nada mais é do que um dialeto do próprio órgão. Assim, por
dialeto toma , Groddeck, a palavra como um medicamento que tem como
objetivo captar o sentido de determinado sintoma da doença. Logo, os
sintomas orgânicos possuem um conteúdo latente e manifesto que se
desenvolve de maneira análoga e dinâmica do sonho freudiano. desta
forma, Groddeck faz com que qualquer enfermidade seja passível de
atuação psicoterapêutica, taravés do uso da palavra.
Em outras palavras, Groddeck aponta para um único tipo de doença,
pois para ele não há limite entre o corpo e a psi6qe ("a/ma'). Para ele a
doença e a saúde não são opostos. A doença não vem de fora, mas é
sim, uma criação do próprio organismo ("do Isso'), que toma o corpo de
assalto.
Ficar doente tem um sentido. O Isso deseja expressar alguma coisa,
assim o sintoma da neurose exprime simbolicamente uma manifestação
do incs. Para ele o sentido da doença aponta para õ desejo de morte e
medo do amor ou desejo de amor e medo de morte. "3
Ao dar mais valor ao sintoma no seu mais amplo sentido, Groddeck
apresenta algumas divergências com a psicanálise. mesmo insistindo que
a resistência e a transferência estão em jogo nas doenças orgânicas. Para
ele a resistência esclarece como o Isso do doente é capaz de dirigir o
tratamento para o bem ou para o mal. A fim de adoecer, o Isso, pode
recorrer ao mundo exterior e escolher ali um dano, um micróbio, ou
qualquer outra coisa para impedir ou atrapalhar o tratamento. A resistência
3. Groddeck, G. - "Estudos psicanalíticos sobre psicossomática"
é sempre contra o médico e contra o tratamento, sendo a eliminação dsta
a garantia de êxito no tratamento.
A eliminação da resistência é o objetivo da análise, do ponto de
vista médico, e não a "conscientização do recalque". Assim, interrompe as
associações fazendo o paciente retomar ao sintoma. A interpretação só
deverá acontecer em caso de extrema necessidade, visto que interpretar,
para ele, dá ao médico uma sensação de onipotência, faz com que
acredite que não vacile com e no ato de interpretar.
Para Groddeck não há outro tipo de tratamento a não ser os
sintomas, a análise dos sintomas, e não de um sujeito, como propõe a
psicanálise. assim, questiona as análises com fins de aprebdizagem -
análises didáticas e o fim da ana'lise.
Logo, podemos levantar algumas reflexões ou afirmações sobre o
trabalho e as idéias desenvolvidas por Groddeck. Não proponho responde-
Ias, mas sim deixar uma porta aberta para uma reflexão posterior sobre o
papel de Groddeck na fase pré-psicanalista. Assim:
• Tudo é doença psicossomática ou seja, uma manifestação do
Isso;
• Groddeck valoriza a linguagem, inclusive se utilizando de
palavras significantes, ou até mesmo de conteúdos significantes
no interior da própria palavra dita no decorrer da clínica por seus
pacientes; e
• Nos seus casos o que se apresenta é a remoção de sintomas,
onde o sujeito não comparece;
Estas questões o colocam na contra mão da psicanálise e nos leva
a pensar que o olhar do Isso de Groddeck além de dietralmente oposto ao
de Freud, é super valorizado e as vezes pouco explicado cientificamente
em seu papel na construção do sujeito. Se a enfermidade é uma função do
Isso todo tratamento deve se voltar para o autor da doença, o próprio Isso.
Logo, o Isso decide sobre s doença e a saúde, e é capaz de tratar-se a si
é sempre contra o médico e contra o tratamento, sendo a eliminação dsta
a garantia de êxito no tratamento.
A eliminação da resistência é o objetivo da análise, do ponto de
vista médico, e não a "conscientização do recalque". Assim, interrompe as
associações fazendo o paciente retomar ao sintoma. A interpretação só
deverá acontecer em caso de extrema necessidade, visto que interpretar,
para ele, dá ao médico uma sensação de onipotência, faz com que
acredite que não vacile com e no ato de interpretar.
Para Groddeck não há outro tipo de tratamento a não ser os
sintomas, a análise dos sintomas, e não de um sujeito, como propõe a
psicanálise. assim, questiona as análises com fins de aprebdizagem -
análises didáticas e o fim da ana'lise.
Logo, podemos levantar algumas reflexões ou afirmações sobre o
trabalho e as idéias desenvolvidas por Groddeck. Não proponho responde-
Ias, mas sim deixar uma porta aberta para uma reflexão posterior sobre o
papel de Groddeck na fase pré-psicanalista. Assim:
• Tudo é doença psicossomática ou seja, uma manifestação do
Isso;
• Groddeck valoriza a linguagem, inclusive se utilizando de
palavras significantes, ou até mesmo de conteúdos significantes
no interior da própria palavra dita no decorrer da clínica por seus
pacientes; e
• Nos seus casos o que se apresenta é a remoção de sintomas,
onde o sujeito não comparece;
Estas questões o colocam na contra mão da psicanálise e nos leva
a pensar que o olhar do Isso de Groddeck além de dietralmente oposto ao
de Freud, é super valorizado e as vezes pouco explicado cientificamente
em seu papel na construção do sujeito. Se a enfermidade é uma função do
Isso todo tratamento deve se voltar para o autor da doença, o próprio Isso.
Logo, o Isso decide sobre s doença e a saúde, e é capaz de tratar-se a si
mesmo. desta maneira, não há tratamento certo ou errado, pois é o Isso
quem faz o tratamento dar certo ou errado, e explica porque algumas
enfermidades se curam sem intervenção médica.
Assim, torna-se descabida a idéia de que a doença é algo estranho
a natureza do organismo, vinda de fora e não pert~ncente a ele. É criado
pelo organismo com certos objetivos, o que faz da morte um ato voluntário,
\
visto que defende a idéia que o ser humano não morre quando não quer.
Logo, faz-nos pensar que o Isso não será algo do divino?
Bibliografia:
Groddeck, G. : "A doença como linguagem", Papiru~, São Paulo, 1988
"Estudos psicanlíticos sobre psicos~omática", Perspectiva,
São Paulo, 1992
"O livro disso", Perspectiva, São Paulo,
Freud, S. - "Caráter e erotismo anl", in Obras completas, vol. IX, Imago.
Rio de Janeiro, 1976
"O ego e o id", in Obras Completas, vol. XIX, Imago, Rio de
Janeiro, 1976