A FILOSOFIA POLÍTICA NA HISTÓRIA
2.2. A Filosofia política na História
2.2.1. A Filosofia política na Antiguidade
2.2.3. Os sofistas
Os primeiros filósofos da Grécia antiga preocuparam-se com as questões da Natureza.
As explicações cosmológicas giravam em torno da procura do arqué (princípio) de
todas as coisas. Os sofistas foram os primeiros a desviar a rota tradicional de
pensamento dos pré-socráticos, que se centrava na Natureza, concentrando a sua no
Homem e nas questões da moral e da política. Na política, elaboraram e legitimaram o
ideal democrático. A virtude de uma aristocrata guerreira opõe-se, com eles, a virtude
do cidadão: a maior das virtudes passa a ser a justiça. Postularam igualmente que todos
os Cidadãos da polis devem ter direito ao exercício do poder e elaboraram uma nova
educação capaz de satisfazer os ideais do homem da polis, e não apenas o aristocrata,
superando assim os privilégios da antiga educação elitista.
Outra obra importante dos sofistas foi a sistematização do ensino: gramática, retórica e
dialéctica. E de salientar igualmente que, com o brilhantismo da participação no debate
público, deslumbraram os jovens do seu tempo.
Os sofistas mais famosos foram. Protágoras, Górgias, Trasímaco, Pródico e Hipódamo.
2.4. Platão (428 – 347 a. C.)
O pensamento político de Platão (428 – 347 a. C.) está contido sobretudo nas obras A
República e O Político e as Leis. Era ateniense, provinha de uma família aristocrática e
tinha um grande fascínio pela política. A República, foi uma importante obra da cultura
ocidental, é uma utopia. "Utopia” significa, etimologicamente, em nenhum lugar. Platão
imagina uma cidade (que não existe), mas que deve ser o modelo de todas as cidades
terrenas: é a cidade ideal. Na obra, examina a questão do bom governo e do regime justo
(justiça). O bom governo depende da virtude dos bons governantes. Em Platão, há a
considerar quatro abordagens: a origem do Estado, comunismo/idealismo, a questão das
classes sociais e as formas de governo.
1.5. Origem do Estado
A origem do Estado deve-se ao facto de o Homem não ser auto-suficiente. De facto,
ninguém pode ser, ao mesmo tempo, professor, advogado, mecânico, técnico de frio,
etc. Para satisfazer todas as suas necessidades, o Homem deve associar-se a outros
homens e dividir com eles as várias ocupações. Dividindo os encargos e o trabalho,
poderá satisfazer todas as suas necessidades do melhor modo possível, porque cada um
se torna especialista numa área.
2.6. Comunismo/idealismo
Em A República, Platão imagina que todas as crianças devem ser criadas pelo Estado e
que até aos vinte anos todos devem receber a mesma educação. Nessa altura, ocorre o
primeiro corte e definem-se as pessoas que, por possuírem «alma de bronze», tem uma
sensibilidade grosseira e por isso devem dedicar-se agricultura, ao artesanato e ao
comércio. Os outros prosseguem os estudos durante mais dez anos, momento em que
acontecerá um segundo corte. Os que têm «alma de prata» dedicar-se-ão à defesa da
cidade. Os mais notáveis, por terem «alma de ouro», serão instruídos na arte de pensar a
dois (dialogar). Conhecerão, então, a Filosofia, que eleva a alma até ao conhecimento
mais puro e que é a fonte da verdade.
Aos cinquenta anos, aqueles que passaram com sucesso por essa série de provas estarão
aptos a ser admitidos no corpo supremo dos magistrados.
2.6.1. Classes sociais
A partir do comunismo de Platão podemos antever a sua organização social. Ele parte
do princípio de que os homens são diferentes e que, portanto, deverão ocupar lugares e
funções diferentes na sociedade. Dependendo do metal da alma de cada um, a sociedade
organiza-se em três classes: trabalhadores (camponeses, artesãos e comerciantes),
soldados e magistrados (governantes). Os trabalhadores deverão garantir a subsistência
da cidade; os soldados, a sua defesa e os magistrados, dirigir a cidade, mantendo-a
coesa.
2. Formas de governo
Teoricamente falando, a melhor forma de governo, segundo Platão, é a monarquia, sob
o comando de um filósofo-rei, que governaria a polis de acordo com a justiça e
preservaria a sua unidade.
A sua segunda opção seria a aristocracia composta por filósofos e guerreiros. Porém,
cedo constatou que este tipo de governo facilmente degeneraria e se converteria numa
timocracia (a Virtude seria substituída pela norma da guerra), Estando a direcção da
cidade nas mãos de ambiciosos de poder e honra. A fase mais corrompida da
aristocracia é a oligarquia, em que a ganância pelo poder e pela honra é superada pela
avidez de riqueza. Quando a máquina política cai nas mãos dos abastados, o povo torna-
se desesperadamente pobre e este expulsa os ricos do poder e implanta a democracia.
Aos olhos de Platão, a democracia é o pior dos governos, pois, estando o poder nas
mãos do Povo, e sendo este incapaz de conhecer a ciência política, facilita, através da
demagogia, e aparecimento da tirania o governo exercido por um só homem, através da
força.
2.6.3. Aristóteles
Nascido em Estagira, na Trácia, em 384 a. C, Aristóteles foi discípulo de Platão e cedo
se tornou crítico do seu mestre. Na base da divergência estão as influências que cada um
deles sofreu. Platão apreciava mais as ciências abstractas e a Matemática, enquanto
Aristóteles, por ser filho de um médico, foi fortemente influenciado pelo estudo da
Biologia. Assim se justifica o seu gosto pela observação, o que o levou a analisar 158
constituições existentes na época, Este estudo fez com que a sua política fosse mais
descritiva, além de normativa.
Aristóteles critica o autoritarismo de Platão e não concorda com o idealismo platónico,
pois a cidade é constituída por indivíduos naturalmente diferentes, sendo impossível
uma unidade absoluta. De igual modo, critica a sofocracia, que atribui um poder
ilimitado apenas a urna parte do corpo social - os mais sábios (filósofos).
2.6.4. A origem do Estado
O Estado, segundo Aristóteles, é produto da Natureza: «é evidente que o Estado é uma
criação da Natureza e que o Homem é, por natureza, um animal político». O facto de o
Homem ser capaz de discursar prova a sua natureza política. Historicamente, explica
Aristóteles, o Estado desenvolveu-se a partir da família: ao unirem-se, as famílias deram
origem a aldeias. Estas desenvolveram-se e formaram as cidades (Estado). Este, apesar
de ter sido o último a criar-se, é superior às anteriores uniões da sociedade, pois o
Estado é auto-suficiente. O objectivo do Estado é proporcionar felicidade aos Cidadãos.
O escopo da Vida humana é a felicidade e o escopo do Estado é facilitar a consecução
da felicidade. Dito de outra forma, o escopo do Estado é facilitar a consecução do bem
comum.
2.6.5. Formas de governo
Partindo do princípio de que o fim do Estado é o bem comum, Aristóteles pensava que
cada Estado deveria aprovar uma constituição que respondesse às suas necessidades. Ele
concebeu três formas de organização política (constituições) do Estado, as quais se
podem também apresentar forma de governo corrupto:
Monarquia (governo de um homem): é teoricamente a melhor forma de governo,
porque preserva a unidade do Estado, contudo, facilmente se pode transformar
em tirania — governo de um só homem, que se move por interesse próprio. As
sociedades bárbaras, na óptica de Aristóteles, precisam da autoridade centralizada da
monarquia.
Aristocracia (governo de poucos homens): governo de um grupo de cidadãos
virtuosos, os melhores, que cuidam do bem de todos. A sua forma corrupta é
a oligarquia, que é o governo dos ricos, os quais procuram o bem económico pessoal.
República (governo de muitos homens): trata-se de um tipo de governo constituído
pelo povo, que cuida do bem de toda a polis. Quando o povo toma o poder e suprime
todas as diferenças sociais em nome da igualdade, este tipo de governo chama-
se democracia e é a forma corrupta da república.
2.6.6.1. Comentário sobre a Filosofia política em Aristóteles
Na Grécia antiga, o nascimento das cidades estava ligado as divindades. Cada cidade
seria fundada por um deus ou deusa que as protegia. Portanto, a observância das leis era
considerada uma obrigação religiosa. Esta concepção é notória no pensamento de Platão
e Sócrates. Aristóteles foi o primeiro a fundamentar a origem do Estado numa base
racional. A concepção aristotélica do Homem como animal político evidencia a
concepção naturalista do Estado.
2. Filosofia política na Idade Média
3.1. Santo Agostinho
A doutrina política de Santo Agostinho encontra-se na abra A Cidade de Deus. Para ele,
o mundo divide-se em duas cidades: a Cidade de Deus e a Cidade terrena. A Igreja é a
encarnação da cidade de Deus, apesar de isto não se aplicar a todos os seus membros,
nem a todos os seus ministros sagrados. O Estado é a encarnação da cidade terrena, uma
necessidade imposta ao Homem pelo pecado original. Na sua presente condição, o
Homem precisa do Estado para obrigar os membros da comunidade ao cumprimento da
lei, Santo Agostinho acredita que o Homem é mais divino do que o Estado, porque o
Homem tem um fim natural que transcende o fim do estado terrestre. Para este padre, a
Igreja é superior ao Estado.
Santo Agostinho defende a existência da autoridade política, para que se mantenha a
paz, a justiça, a ordem e a segurança. A autoridade política é entendida como uma
dádiva divina aos seres humanos. Por isso, os cidadãos devem obedecer aos governantes
e não é da sua competência (dos homens) distinguir entre governantes bons e maus, ou
formas de governo justas ou injustas. A obra Cidade de Deus é considerada o primeiro
tratado da Filosofia da História e da teologia da História.
3.2. São Tomas de Aquino
A obra De Regimine Principum (Do Governo dos Príncipes) espelha o pensamento
político de São Tomas de Aquino. Versa sobre a origem e a natureza do Estado, as
várias formas de governo e as relações entre o Estado e a igreja. Quanto à origem do
Estado, Tomas de Aquino recusa-se a aceitar a concepção augustiniana, segundo a qual
a origem do Estado se deve ao pecado original, e concorda com Aristóteles: este nasce
da natureza social do Homem e não das limitações do individuo. O Estado é uma
sociedade, uma sociedade perfeita. Uma sociedade porque consiste na reunião de muitos
indivíduos que pretendem fazer alguma coisa em comum. E a sociedade perfeita porque
tem um fim próprio: o bem comum e os meios suficientes para o realizar. O Estado tem
os meios suficientes para proporcionar um modo de Vida que permita a todos os
cidadãos ter aquilo que necessitam para viver como homens.
No que se refere as formas de governo, Tomás de Aquino não original, conquanto
retoma a divisão aristotélica e considera como governo ideal a monarquia absoluta.
Porém, na prática, considera a monarquia constitucional a melhor forma de governo.
Quanto relação entre o Estado e a Igreja, Tomas de Aquino diz que sendo o Estado uma
sociedade perfeita, goza de perfeita autonomia; mas sendo a meta da igreja o bem
sobrenatural, este é superior ao do Estado, que é simplesmente o bem comum neste
mundo.
3.2.1. Filosofia política na Idade Moderna
A Filosofia moderna surge no início do século XVI e termina no fim do século XVIII,
período extremamente rico em acontecimentos políticos (fim do significado político do
império e do papado, afirmação das potencias nacionais, primeiro da Espanha, depois da
França, da Inglaterra, da Holanda, e outros países, contestação do poder absoluto dos
soberanos e introdução dos governos constitucionais, etc.).
A época moderna, em síntese, apresenta três características fundamentais:
a) a libertação do Homem em relação as explicações teológicas da realidade, através
da razão;
b) a libertação do Homem dos regimes ditatoriais, através da democracia;
c) a libertação do Homem da dependência da Natureza, através da técnica.
Esta tripla emancipação do Homem permitirá aos filósofos pensar sem que tenham de
obedecer a regras previamente estabelecidas, como acontecia na época precedente, o
que resultará numa pluralidade de visões sobre os temas tradicionais da Filosofia
política.
3.2.2. Nicolau Maquiavel (1469 – 1527)
Com o fim do império cristão e com o enfraquecimento do poder político do papado,
surgem, fora de Itália, Estados nacionais e, em Itália, as repúblicas e as senhorias. Eram
regimes onde se respirava o ar de liberdade e onde se procurava, acima de tudo, o bem-
estar material dos cidadãos, em detrimento do bem-estar espiritual. Maquiavel viveu em
Florença no tempo dos Médici. Observava com apreensão a falta de estabilidade da
Vida política numa Itália dividida em principados e condados, onde cada um possuía a
sua própria milícia. Esta fragmentação do poder transformava Itália numa presa fácil de
outros povos estrangeiros, principalmente franceses e espanhóis. Maquiavel, que
aspirava ver a Itália unificada, esboça a figura do príncipe capaz de promover um
Estado forte e estável. Por isso, em O Príncipe, Maquiavel desenha as linhas gerais do
comportamento de um príncipe que pudesse unificar a sua Itália.
3.2.3. Os filósofos ingleses
No século XVII, registavam-se, em Inglaterra, lutas acesas entre o rei e D parlamento,
com o predomínio ora de um, ora de outro, acabando por se impor definitivamente Q
parlamento, no fim do século. Por isso, Hobbes, Locke, Berkeley e, posteriormente
Hume, deram o seu contributo para a política do seu pais. Enquanto em França o
absolutismo triunfava sem precedentes, a Inglaterra sofria revoluções lideradas pela
burguesia, visando limitar a autoridade dos reis. O primeiro movimento revolucionário
foi a chamada Revolução Puritana, em meados do século XVII, culminando com a
execução do Rei Carlos I e a ascensão de Cromwell. Mas a efectiva liquidação do
absolutismo deu-se com a Gloriosa, em 1688, quando Guilherme III foi proclamado rei,
após ter aceitado a declaração de direitos, que limitava muito a sua autoridade e
concedia mais poderes ao parlamento. Com a tendência muito em voga da secularização
do pensamento político, os filósofos do século XVII estavam preocupados em justificar
racionalmente e legitimar o poder do Estado, sem recorrer intervenção divina ou a
qualquer explicação religiosa. Dai decorre a preocupação com a origem do Estado.
3.2.4. Thomas Hobbes (1588 – 1679)
Inglês, oriundo de uma família pobre, conviveu com a nobreza, da qual recebeu apoio e
condiqöes para estudar, e defendeu fortemente a direito absoluto dos reis, ameaçado
pelas novas tendências liberais. Teve contacto com Descartes, Francis Bacon e Galileu.
Preocupou-se com a problemática do conhecimento e da política. A sua doutrina
política encontra-se patente nas obras De Cive e Leviatã. Para Hobbes, a origem do
Estado é fruto de um «contrato social, decorrendo de conflitos entre os indivíduos. Na
sua óptica, o Homem conheceu dois estados: o primeiro é natural e o segundo
contratual. A situação dos homens deixados entregues a si próprios é de anarquia,
geradora de insegurança, angústia e medo. Os interesses egoístas predominam e o
homem torna-se um lobo para o outro homem (homo homini lupus). As disputas geram
uma guerra de todos contra todos (bellum omnium contra omnes). A situação de guerra
não acomoda o Homem.
3.2.5. John Locke (1632-1704)
Igualmente inglês e contemporâneo de Hobbes, era descendente de uma família de
burgueses comerciantes. Esteve refugiado durante algum tempo na Holanda por se ter
envolvido com pessoas acusadas de atentar contra o rei Carlos II. Interessou-se também,
para além dos problemas gnosiológicos, pelos problemas políticos. As contribuições
políticas de Locke encontram se registadas principalmente na obra Dois Tratados Sobre
o Governo. Tal como Hobbes, Locke distingue dois estados em que o Homem terá
estado: o estado de natureza e o estado contratual. Este difere do primeiro na
concepção do estado de natureza. Para Locke, no estado de natureza, os homens são
livres, iguais e independentes, e não um estado de guerra de todos contra todos, como
concebeu Hobbes.
3.2.6. Charles de Montesquieu (1689 – 1755)
Pensador de reconhecido saber enciclopédico e pai do constitucionalismo liberal
moderno, escreveu L'Esprit de Lois, em 1748. Esta obra compreende 31 livros, dos
quais dois são dedicados à problemática religiosa. Na sua obra, pretende descobrir as
leis naturais da Vida social. A lei social entende-a não como um princípio racional do
qual se deve deduzir todo um sistema de normas abstractas, mas à relação intercorrente
dos fenómenos empíricos. As leis são relações indispensáveis emanadas da natureza das
coisas. Por isso, ser algum pode existir sem leis. Tanto a divindade como o mundo
material e as inteligências superiores ao Homem possuem as suas leis, da mesma forma
que este último também as possui. Existem as seguintes leis:
Montesquieu procura determinar os diversos tipos de associação política, estabelecendo
tanto a natureza quanto o espírito dos mesmos. Define como tipos sociológicos
fundamentais do Estado, a democracia, a monarquia e o despotismo e apresenta as
leis constitutivas de cada um nos vários sectores da Vida humana. O grande mérito de
Montesquieu, em política, foi o de ter desenvolvido a conhecida teoria de separação de
poderes, em que advoga a separação dos poderes legislativo, executivo e judicial, com
o fim de estabelecer condições institucionais de liberdade política através de uma
equilibrada divisão de funções entre os órgãos do Estado (parlamento, governo e
tribunais). Esta divisão impede que algum deles actue despoticamente.
3.3.1. Jean-Jacques Rousseau (1712 – 1778)
Rousseau nasceu em Genebra, na Suíça, e viveu a partir de 1742 em Paris, onde
fervilhavam as ideias liberais que culminaram na Revolução Francesa, em 1789.
Conquistou a amizade de Diderot, filósofo do grupo iluminista, do qual fazia parte
Voltaire, entre outros, e que se tornaram conhecidos como enciclopedistas, pelo facto de
elaborarem uma enciclopédia que divulgava os novos ideais, a saber: tolerância
religiosa, confiança na razão livre, oposição à autoridade excessiva, naturalismo,
entusiasmo pelas técnicas e pelo progresso. Rousseau inicia a sua reflexão política
partindo da hipótese de o homem se ter encontrado num estado de natureza e num outro
estado contratual. O primeiro estado é minuciosamente descrito em Discurso Sobre a
Desigualdade Entre os Homens e o segundo em O Contrato Social. Segundo
Rousseau, enquanto os homens «só se dedicavam a obras que um único homem podia
criar e às artes que não solicitavam o concurso de várias mãos, viveram tão livres,
sadios, bons e felizes quanto o podiam ser por sua natureza, e continuaram gomar entre
si das doçuras de um comércio independente; mas, desde o instante em que um homem
sentiu necessidade do socorro de outro.
3.3.2. Filosofia política na época contemporânea
3.3.3. Hegel e o hegelianismo
Falar de Filosofia política contemporânea sem referir Hegel é procurar dificultar a
compreensão da filosofia política da nossa época. A Filosofia do Estado de Hegel
resume-se à subordinação do individuo ao Estado, no qual este se dissolve em nome de
uma ordem suprema, a ideia absoluta que norteia as outras inteligências e vontades,
legitimando-se, desta maneira, o regime ditatorial. Objecto e não o sujeito do seu
destino. A sua vontade é sufocada pela vontade do Estado e o individuo perde a sua
liberdade. É este factor que será contestado pelos liberais. Quando Hegel morre, em
1831, os seus discípulos começaram a discutir se o Estado prussiano de então, com as
suas instituições e as suas realizações económicas e sociais, deveria ser considerado o
momento da síntese dialéctica, como a realização máxima da racionalidade do espírito.
Acredita-se que os regimes ditatoriais que proliferaram no século XIX sejam fruto desta
visão hegeliana sobre o Estado.
3.4.1. John Rawls
O pensamento político do filósofo norte-americano John Rawls encontra-se patente nas
abras Uma Teoria de Justiça, de 1971, e O Liberalismo Político, resultando esta última
da revisão do pensamento expresso na primeira, devido às infirmaras críticas feitas por
«libertários» e comunitários. A obra Uma Teoria de Justiça está dividida em três partes.
A primeira parte trata das teorias, a segunda das instituições e a terceira dos fins. Na
primeira parte, Rawls apresenta ideias principais a desenvolver ao longo da obra; na
segunda, a necessidade de uma democracia constitucional como pano de fundo para a
das ideias referidas na primeira; e, na -terceira, descreve o estabelecimento da relação
entre a teoria da justiça e os valores da sociedade e o bem comum. Como citamos
anteriormente, para Rawls, a justiça a estrutura de base da sociedade e a primeira
virtude das instituições sociais. Esta concretiza-se na efectivação das liberdades
individuais c na sua não restrição para o benefício de outrem. Uma sociedade justa,
defende Rawls, deve fundar-se na igualdade de direitos. A justiça não pode ser deduzida
a partir das concepções de bem difundidas na sociedade, porque se aliam ao
utilitarismo. Assim, a justiça deve ser encarada como a capacidade concedida
pessoa para escolher os seus próprios fins. Portanto, a justiça diz respeito a uma
«estrutura de base» que «congrega as instituições sociais mais importantes, a
constituição, as principais estruturas económicas, bem como a maneira através da qual
estas representam os direitos e os deveres fundamentais e determinam a repartição dos
benefícios extraídos da cooperação social». Rawls sabe que, na estrutura de base, os
homens ocupam posições diferentes, o que origina desigualdade em termos de social.
Por isso, a justiça tem de corrigir estas desigualdades. Daí a necessidade de um novo
contrato social que defina os princípios da justiça identificando regras que, pessoas
livres e racionais, colocadas numa «posição inicial de igualdade», escolheriam para
formar a sua sociedade. A definição dos princípios da nova organização social deve
ser feita à luz do «véu de ignorância», para que ninguém efectue escolhas em função da
sua situação pessoal de desigualdade. Portanto, a justiça em Rawls deve ser entendida
como equidade. Como defende Rawls, os princípios da justiça devem ser classificados
por ordem lexical e, por consequência, a liberdade não se pode limitar senão em nome
da própria liberdade. Há dois casos a referir:
a) uma redução da liberdade deve reforçar o sistema total da liberdade que
todos partilham;
b) uma desigualdade sé deve ser aceitável se servir para beneficiar os cidadãos
menos favorecidos.
Surge, então, o princípio da diferença, com a finalidade de «limar» as desigualdades,
organizando-as, na condição de todos beneficiaram, principalmente os desfavorecidos.
Para isso, o Estado deve dividir-se em quatro departamentos:
Departamento das atribuições — tem a missão de velar pela manutenção de
um sistema de preços e impedir a formação de posições dominantes excessivas
no mercado.
Departamento da estabilização – tem como objectivo proporcionar pleno
emprego.
Departamento das transferências sociais – tem como função velar pelas
necessidades sociais e intervir para assegurar o mínimo social (Estado de
providência).
Departamento para a repartição — tem como fim preservar uma certa justiça
neste domínio graças fiscalidade e aos ajustamentos necessários do direito de
propriedade.
3.4.2. O liberalismo político de Rawls
Depois das críticas feitas a Uma Teoria de Justiça, Rawls reconheceu-as e escreveu um
artigo intitulado «A Prioridade do Direito e Ideias do Bem» (The Priority or Right and
Ideas or the Good), em 1988. Neste artigo, defende que a unidade política de uma
sociedade não é exequível se os seus membros não partilharem uma certa concepção de
bem, sem, no entanto, revogar a primazia do justo sobre o bem. Esta visão foi
desenvolvida na obra O Liberalismo Político, onde reconhece igualmente que a justiça
como equidade é um projecto irrealista. Porém, assevera que a nova teoria do
liberalismo deve estabelecer uma base sobre a qual se possam erguer instituições
políticas liberais, o que implica a identificação de um substrato comum das ideias
aceitáveis e aceites pela comunidade pública e, em seguida, considerar os termos de
coexistência entre estas ideias e urna concepção política da justiça, que deverá estar de
acordo com as convicções bem pesadas dos indivíduos, a todos os níveis de
generalidade ou, pelo menos, em equilíbrio com as mesmas.
3.4.3. Karl Popper (1902 – 1994)
Karl Rairnund Popper nasceu em 1902, em Viena, na Áustria. Estudou Matemática,
Física, Filosofia, Psicologia e História da Música. Deu aulas no ensino secundário e
participou nos «encontros de café» do Círculo de Viena, apesar de nunca ter sido
convidado para o efeito. Escreveu A Lógica da Descoberta Científica, em 1934, obra
que o tornou célebre. Por ser de descendência judaica, foi vítima da perseguição nazi e
viu-se obrigado a encontrar um refúgio. Em 1937, fugiu para a Grã-Bretanha. Entre
1938 e 1946, deu aulas de Filosofia na Universidade da Nova Zelândia, tendo escrito,
nesse período, as suas obras políticas Pobreza do Historicismo e A Sociedade
Aberta e Os Seus Inimigos. Depois, regressou Grã-Bretanha e manteve a sua carreira
universitária. Em 1969, passou a dedicar a sua Vida ao estudo e as conferencias.
As principais obras de Popper são as seguintes:
Lógica da Descoberta Científica (1934);
A Sociedade Aberta e os seus Inimigos (1943);
Pobreza do Historicismo (1944);
Conjecturas e Renutações; O Crescimento do Conhecimento Científico (1963);
Conhecimento Científico; Um Enfoque Evolucionário (1973);
Sociedade Aberta. Universo Aberto (1982);
Para um Mando Melhor (1989), entre outras.
5.Conclusão
Chegado ao desfecho do presente trabalho onde concluímos que Pensamento político
Condicionado pelo terror nazi, de que foi vítima, Popper reflectiu sobre a génese e
fundamentação ideológica dos regimes totalitários. Devido às suas investigações,
chegou conclusão que tais regimes (totalitários) foram idealizados por Platão, Hegel e
Marx, baseando-se na visão destes filósofos sobre o historicismo. O historicismo
concebera um método dialéctico que foi aplicado ao estudo da sociedade. O método
dialéctico hegeliano, patente no historicismo, segue a ordem triádica de tese, antítese e
síntese. O historicismo centra-se na fé em leis férreas de desenvolvimento da história
Humana na sua inteireza, leis essas que não permitem ao homem sonhos utópicos, nem
planos racionais de construção social. Para Popper, as teses metodológicas do
historicismo constituem o suporte teórico mais válido das ideologias totalitárias. Na
obra A Sociedade Aberta e Os Seus Inimigos, Popper critica o método dialéctico e ataca
a ideologia historicista que defendia o totalitarismo. A sociedade aberta opõe-se à
sociedade fechada, que é uma sociedade totalitária, concebida organicamente e
organizada tribalmente segundo normas não modificáveis. A sociedade aberta, em
contrapartida, baseia-.se no exercício crítico da razão Humana, como sociedade que não
apenas tolera como também estimula no seu interior e por meio de Instituições
democráticas a liberdade dos indivíduos e dos grupos, tendo em Vista a solução dos
problemas sociais, ou seja, as reformas continuas. Nesta, os governados têm a
possibilidade efectiva de criticar os seus governantes e de os substituir sem
derramamento de sangue e sem que isso signifique que o democrata deva aceitar a
ascensão do totalitário ao poder. Popper admite a possibilidade da violenta, a qual só é
justificada se for pala derrubar um tirano.
6. Referências Bibliográficas
GEQUE, Eduardo; BIRIATE, Manuel. Filosofia 12ª Classe – Pré-
universitário. 1ª Edição. Longman Moçamique, Maputo, 2010.