Fundamentos da Ética e Moralidade
Fundamentos da Ética e Moralidade
Aula 01
Prezado(a) estudante,
Seja bem-vindo(a) ao tema Ética. Nele faremos um percurso introdutório por algumas das questões
que inquietam a humanidade desde que se têm notícias históricas. Os seres humanos, sendo
plurais, pensam, projetam e sentem de modos diferentes. Como lidar com a diferença de percepção
e de projetos sobre o mundo? Como lidar com as diferentes decisões que tomamos e as ações que
realizamos? A partir de que critérios julgá-las?
A partir dessas questões, percorreremos um breve histórico da Ética como campo de saber, com
suas principais teorias e questões, buscando compreender como a história de nossos pensamentos
foi criando diretrizes para avaliar nossas condutas e como nossas sociedades foram criando valores.
Temas como moralidade, eticidade, legalidade, legitimidade, as relações entre direitos, deveres e
responsabilidade social serão abordados para que possamos entender alguns dispositivos por meio
dos quais os valores determinam nossas relações com as ações e como nossas atitudes são
recriadoras de valores.
A Ética e a Moral
Uma muito utilizada no cotidiano é “Ética”. Muitas vezes, ouvimos dizer que alguém “faltou com a
ética” ou, ainda, que hoje vemos uma “falta de ética na política”.
Antes de entendermos o que essa palavra significa no Ocidente, temos de lembrar que ela se refere
aos seres humanos em suas relações com outros seres humanos e com o restante dos componentes
do mundo. Humanos estes que são diferentes entre si, que pensam de modo distinto, têm projetos
de mundo diferentes e, sobretudo, agem de maneiras diferenciadas e que, a princípio, são livres
para agir como desejarem.
Em cada sociedade existem práticas que são julgadas como aprováveis moralmente e outras que
não o são. E o que possibilita esses julgamentos são os valores morais, que mostram aquilo que é
moralmente importante para uma sociedade e são construídos historicamente para constituir um
balizamento da ação. Essa regulação tem como um de seus objetivos principais evitar as mais
diversas formas de violência (CHAUI, 2012, p. 382).
É nesse cenário que podemos entender o que se denomina moral, que é exatamente o conjunto de
valores que cada sociedade constitui para determinar o que é correto, permitido, bom para seus
membros, assim como também determina o que seja o incorreto, errado, proibido, ruim para a sua
comunidade.
O que a ética historicamente tem feito é refletir sobre a moral de cada sociedade, o que faz com que
ela seja entendida como uma filosofia moral, ou seja, um conjunto de reflexões sistemáticas sobre o
que em uma determinada sociedade se constitui como valores racionalmente aceitáveis e como
essa constituição se dá.
Dessa maneira, podemos dizer que, enquanto a moral estabelece os valores que orientam as
condutas humanas em uma determinada sociedade, a ética é o conjunto de reflexões que subsidiam
e avaliam essa moral, permitindo, inclusive, que modificações na moralidade de uma determinada
sociedade aconteçam.
No mundo antigo, os valores morais eram completamente ligados com os modos de organização
das primeiras cidades. E é na antiga Grécia dos séculos VI e V AEC que os primeiros filósofos
ocidentais começaram a se preocupar com a relação entre os valores morais, critérios de avaliação
e as normas das condutas. Filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles se destacaram na
investigação dos fundamentos dos valores éticos. A relação com a cidade era um fator fundamental
para a definição dos valores, assim como a relação que cada indivíduo estabelecia consigo mesmo
na percepção do que deveria orientar a conduta. Os antigos romanos prosseguiram na investigação
da constituição dos valores morais, aprofundando algumas das noções elaboradas pelos antigos
gregos.
ATENÇÃO
Alguns autores têm tentado sistematizar o contexto geral das reflexões éticas da Antiguidade
em torno de três noções:
o racionalismo: é no amparo da razão que encontramos motivos para viver uma vida em
conformidade com a moralidade;
b. o naturalismo: agir em harmonia com a natureza é um dos caminhos para uma vida
moralmente boa; e
c. articulação entre ética e política: na relação com a cidade/comunidade encontramos as
motivações para agir moralmente, de maneira que os valores que se utilizam para guiar a
conduta pessoal são também utilizados para guiar a conduta de toda a cidade,
politicamente (CHAUI, 2012, p. 390).
No contexto da Idade Média, é a relação com a fé e, mais especificamente, com o cristianismo que
orienta as reflexões sobre a construção dos valores morais.
Você lembra que na Antiguidade o marco da investigação ética era uma relação com o exterior, com
a cidade? Isso se modifica com o registro do cristianismo, quando a fé, isso que vivemos em nosso
interior, entra em jogo. Com isso, há uma interiorização dos critérios morais, que passam a ser
vivenciados em função da relação íntima que as pessoas estabelecem com Deus (MILOVIC, 2004, p.
40-41).
A liberdade, que era uma ideia secundária no mundo antigo, adquire centralidade na era medieval,
na medida em que a noção de livre arbítrio – essa capacidade que os seres humanos têm de tomar
suas próprias decisões em situações nas quais haja diversas possibilidades de agir – afirma-se como
uma ideia central para o cristianismo. E, porque somos capazes de tomar nossas próprias decisões,
é que podemos agir correta ou incorretamente segundo as normas morais vigentes e sermos
responsáveis por tais ações.
É ainda na Idade Média que, através da difusão do cristianismo, a noção de dever se estabelece
como uma ideia ética importante. Temos a obrigação moral, ou o dever, de seguir os desígnios
divinos, isto é, devemos reconhecer o que fora determinado por Deus e cumprir obrigatoriamente,
de modo que a desobediência às ordens divinas reveladas pelo cristianismo é imoral (CHAUI, 2012,
p. 391). E, aqui, vale não apenas o que fazemos de fato, mas o que temos a intenção ou o desejo de
fazer, de modo que, diferente do que se passava na Antiguidade, não importa apenas nossas ações
concretas, mas também aquilo que se passa em nossas mentes e desejos (CHAUI, 2012, p. 392).
Autores como Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino se sobressaíram nas pesquisas sobre a
moralidade, desde a perspectiva cristã.
Os homens e mulheres passam a ocupar um lugar privilegiado na percepção do que seja o mundo e
que relações podemos estabelecer com ele. E os humanos não serão tidos como centro em função
de sua dimensão espiritual, como na Idade Média. Noções como a Natureza Humana passam a ser
os balizadores dos critérios morais. Os seres humanos, pela primeira vez na história, são vistos com
uma natureza ou pacífica ou agressiva e, em função desta, os valores devem ser pensados, o que faz
nascer uma Ética Antropocêntrica (VÁZQUEZ, 1970, p. 247).
Uma das novidades que a modernidade traz para a reflexão ética sobre a moral é seu desligamento
da política, sobretudo a partir da obra de Nicolau Maquiavel, na obra O príncipe. Nela, o autor pensa
a possibilidade de uma política que tenha a governabilidade como elemento fundamental,
adquirindo um caráter autônomo em relação à moral, embora mantenha com esta uma relação
sempre tensa (ARANHA, 2000, p. 74-77).
SAIBA MAIS
Para outra abordagem histórica da ética, clique aqui. Encontraremos uma abordagem mais
centrada em alguns outros autores importantes da história da filosofia.
como e porque julgamos que uma ação é moralmente errada ou correta? E que critérios
devem orientar esse julgamento?
(BORGES; DALL’AGNOL; DUTRA, 2003, p. 7).
Dessa maneira, para a Filosofia, há uma nítida distinção entre a ética e a moral, sendo que a primeira
se conforma como uma reflexão sobre a segunda e suas condições.
Entretanto, no cotidiano, muitas vezes encontramos a noção de ética expressa como agir
corretamente, dessa maneira haveria uma espécie de equiparação entre ética e moral, uma vez que,
para a Filosofia, o que dita o que é agir corretamente é exatamente o valor moral.
É apenas por utilizar as palavras “ética” e “moral” como sinônimas que podemos dizer que alguém é
antiético, para nos referirmos a essa pessoa que agiu contrariamente aos valores ou normas morais
de nossa sociedade. Nesse contexto, encontramos também as palavras “imoral” e “antiético” como
sinônimas ou equivalentes.
VÍDEO
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No cotidiano, pensamos que alguém é uma “pessoa ética” quando age em conformidade com os
valores morais, quando toma a decisão correta diante de uma situação na qual ela poderia agir
contrariamente aos valores vigentes.
Entretanto, para os fins de nosso curso, entenderemos a ética ao mesmo tempo como reflexão
racional sobre a moral e como o conjunto de valores que orientam nossa conduta.
Moralidade
Você já deve ter visto em animações uma famosa e cômica imagem de uma pessoa que quando tem
de tomar uma decisão aparecem, aos dois lados de sua cabeça, uma representação de um anjinho e
outra de um demônio que tentam dissuadir a pessoa, cada qual com seus motivos que normalmente
apontam para situações opostas com relação à atitude a ser tomada.
Um exemplo seria: Uma pessoa tem várias dívidas com bancos. E esta pessoa recebe um prêmio de
um sorteio que lhe concede uma quantia com a qual ela poderia saldar todas as dívidas. Entretanto,
essa pessoa está também a muito tempo sem viajar e muito cansada. E surgem então as
possibilidades de que ou ela utilize o dinheiro para quitar suas dívidas ou, então, para descansar em
uma viagem.
É importante para definir o cenário de discussão da moralidade – como sendo o contexto no qual se
constituem e atuam os valores morais – que os seres humanos são diversos entre si e que as
diversas sociedades estabelecem valores diferentes para avaliar situações similares. Em uma
determinada sociedade, por exemplo, se julga correto utilizar a pena de morte, em outras não. Em
determinados conjuntos sociais a monogamia não apenas é moralmente correta, mas é a única
forma correta de arranjo matrimonial e, em outros, a poligamia ocupa esse lugar de correção junto
aos casamentos.
Outro elemento importante é o fato de que os seres humanos são, no Ocidente, considerados livres
para tomarem suas decisões e, em função delas, devem se responsabilizar pelos atos decorrentes
da escolha tomada. Aqui, a moralidade só faz sentido quando há mais de uma alternativa
igualmente plausível para uma determinada ação e, também, os sujeitos sejam livres para escolher.
Se não houvesse mais de uma alternativa e se as pessoas fossem obrigadas a agirem
necessariamente apenas de uma determinada maneira, não haveria a necessidade da moral.
É exatamente a capacidade humana de julgar, de deliberar sobre o que deve fazer diante de um
leque de alternativas que torna necessária a moral. E as sociedades decidem através de
movimentos históricos padrões de avaliação para que cada alternativa tenha um peso diferente
para a regulação das relações dos seres humanos entre si e com o mundo.
Isso faz com que o que os valores de certo, errado, correto, incorreto, justo, injusto, bem e mal
sejam relativos aos contextos estabelecidos em cada sociedade. Tomando nosso exemplo, algumas
sociedades julgariam correto e justo saldar as dívidas e deixar para depois a viagem e o descanso,
ao passo que outras sociedades considerariam o bem estar do sujeito preferencial, de modo que a
pessoa poderia viajar, descansar e depois, recuperada e descansada, trabalhar para pagar as
dívidas.
Esse cenário tende a ficar mais tenso no mundo ocidental em função do fenômeno chamado de
globalização, no qual não apenas a economia passa a funcionar em uma escala mundial, com
interligações em todo o mundo, mas também os sistemas culturais e, portanto, as dinâmicas de
valoração.
É também importante notar que, apesar da ligação com os contextos vinculados com a organização
de cada sociedade, há algumas instâncias morais que são presentes em todas as sociedades
conhecidas. Por exemplo, a necessidade de critérios justos para avaliar a ação. Embora cada
sociedade possa ter conteúdos diferentes para julgar o que seja a justiça, seus conteúdos
intrínsecos, todas as sociedades possuem a noção de que a justiça é um valor necessário para a
convivência entre os seres humanos.
Esses elementos presentes em todas as sociedades são chamados de universais, oscilam entre a
ética e a política e são fundamentos daquilo que hoje chamamos de direitos humanos, que são os
direitos básicos de toda e qualquer pessoa que consideremos humana, em qualquer lugar do
mundo, em qualquer circunstância, independendo dos conteúdos particulares dos conceitos
envolvidos no tema dos direitos humanos.
Critérios de Valoração
Nas práticas cotidianas, os seres humanos, organizados em suas comunidades, visualizam
possibilidades de que algumas atitudes sejam interessantes para o coletivo e outras sejam
desinteressantes.
Em nossas sociedades os critérios de atribuição de valor estão conectados com diversos processos
que são políticos, religiosos, jurídicos e científicos, além de estarem vinculados com os hábitos que
o mundo coletivo construiu historicamente.
Muito embora não se possa fazer uma vinculação direta entre as religiões e a esfera moral
pública, já que a crença nas religiões é algo da esfera privada, a história encarregou-se de tornar
difícil a separação entre a moral e os valores religiosos.
Por isso, grande parte dos critérios de valoração das condutas humanas tem um rastro religioso,
para o qual devemos ter bastante atenção, uma vez que é uma esfera bastante subjetiva e que tem
seus alicerces em uma dimensão que não pode ser, ela mesma, avaliada com critérios objetivos.
SAIBA MAIS
Sobre a problemática relação entre moral e religião, clique aqui e veja a posição do
primatólogo Franz de Waal na entrevista para a Folha de S. Paulo.
Apesar de nem todas as normas morais serem traduzidas em códigos e leis, uma parte importante
das leis tem fundamentos morais. As normas jurídicas de uma sociedade definem o que é permitido
e proibido nas múltiplas relações entre as pessoas entre elas mesmas e com as instituições, com o
objetivo de organizar o espaço público de relações. É bastante raro que as normas legais ou
jurídicas permitam aquilo que a moralidade de uma sociedade condene. Dessa maneira, podemos
observar normalmente que uma ação humana é avaliada moralmente como má quando fere uma
norma jurídica, de modo que a observância ao estatuto legal de uma determinada sociedade seja
um dos critérios de valoração moral.
A ciência aparece como um campo de descrição do mundo e, muitas vezes, serve como parâmetro
também de como ele deveria funcionar. Um exemplo disso se mostra na abordagem ecológica da
Biologia. A conservação do planeta, seus ecossistemas, suas diversas formas de vida está descrita
por essa subdivisão das ciências biológicas, mas também mostra um conjunto de normativas acerca
de como deveríamos agir para que o mundo da vida não se desequilibre ainda mais. Nesse exemplo,
poderíamos dizer que uma ação humana que degrade o mundo seria também uma ação imoral, de
modo que o conhecimento científico aí produzido seja, também, um critério de valoração.
Sujeito Moral
Definir o sujeito moral implica em entender que os seres humanos não agem moralmente em todo o
momento e que a necessidade de pensar o que torna uma pessoa um agente moral passa por
entender as características de tal sujeito.
Segundo Marilena Chaui (2012, p. 384), o sujeito moral precisa cumprir as seguintes condições:
Ser consciente de si mesmo e das outras pessoas, tendo a capacidade de refletir sobre suas
próprias práticas e reconhecendo que as outras pessoas são também sujeitos morais.
O sujeito moral é, portanto, alguém que age sabendo o que faz e sabendo as consequências de
suas ações sobre outras pessoas. Alguém incapaz de juízos de valor não pode ser um sujeito
moral, pois não é capaz de avaliar o que faz e nem o impacto que suas condutas têm sobre
outras pessoas.
Ser portador de vontade, isto é, capaz de dominar e orientar seus desejos, tendências,
sentimentos em consonância com os valores e regras morais reconhecidas pela sociedade na
qual o sujeito moral esteja inserido.
Para ser um sujeito moral, alguém deve ter a possibilidade de determinar como lida com seus
afetos, com seus desejos. Deve ser alguém capaz de equilibrar suas vontades e o interesse de
manutenção da coletividade, sendo capaz de tomar decisões entre as diversas alternativas que
a vida lhe apresenta, quando essas decisões lhe parecem igualmente interessantes e alguma
delas pode ferir ou se atritar com os interesses de outras pessoas.
Ser responsável por suas ações, avaliando seus impactos e assumindo suas consequências
sobre si e sobre as outras pessoas.
Alguém só pode ser um sujeito moral se for capaz de responsabilizar-se por suas ações e os
efeitos delas, de modo que seja capaz de responder por tudo o que tiver decidido no âmbito de
sua vontade e consciência, assumindo o ônus dos malefícios que causar em função de suas
condutas.
Ser livre para agir, não sendo forçado a fazer qualquer coisa.
A liberdade talvez seja a principal característica de um sujeito moral. Dificilmente alguém seria
considerado imoral por ter sido forçado a realizar algo que não queria fazer. No entanto, a
liberdade não é apenas a possibilidade de escolher o que fazer, mas também de determinar a si
mesmo as regras de conduta.
Vista assim, essa abordagem da liberdade a aproxima da autonomia, isto é, da capacidade de dar a si
mesmo as normas através das quais se determina o nosso modo de ser e de agir no mundo.
Se, ao responder, você conseguir identificar que você é consciente de si e das outras pessoas,
senhor de sua própria vontade, responsável pelos atos e pelas consequências que dele advierem e
não é nunca constrangido a fazer algo que não queira; então, você é um sujeito ético.
Obviamente, somos constrangidos a fazer coisas que nem sempre queremos. Uma vez que vivemos
em sociedade, somos às vezes obrigados a fazer algumas coisas que, mesmo que contrariem nossas
vontades individuais, seriam realizadas com o objetivo de promover o bem coletivo. Todas essas
ações que são realizadas porque somos obrigados(as) a fazer estão fora do escopo da moral e,
portanto, não as realizamos como agentes ou sujeitos morais, mas por mera obrigação. O agente
moral só age como tal na medida em que o faz no meio de um processo decisório, onde haja
escolhas a serem feitas.
SAIBA MAIS
Para acompanhar com mais demora essa discussão, leia o texto “Sujeito, Autonomia e Moral”
de Marconi Pequeno, no qual encontraremos aprofundamentos sobre a problemática do
sujeito moral em sua relação com a autonomia e os princípios da moralidade, clique aqui.
Unidade 01
Aula 02
Ética na Contemporaneidade
Nesta aula, você conhecerá as divisões da ética, enquanto disciplina filosófica, e suas projeções no campo
cotidiano. Essas divisões determinam as maneiras como a Ética é, normalmente, estudada.
Metaética
O termo meta, em grego, literalmente quer dizer para além e, usualmente, é um prefixo significa uma
reflexão sobre aquilo com o que esse prefixo se relaciona. Dessa maneira, Metaética é uma
investigação sobre a própria ética enquanto teoria filosófica ou, em outras palavras, uma filosofia da
ética, que busca entender como a ética funciona, como articula seus conceitos, que linguagem
utiliza, que pressupostos assume e como o discurso ético se estrutura.
A Metaética é o campo de estudos que busca compreender “a natureza dos princípios morais”
(BORGES; DALL’AGNOL; DUTRA, 2003, p. 7), investigando como as diversas teorias morais
fundamentam os enunciados morais sobre a ação.
A própria pergunta “O que é ética?” tende a ser uma pergunta metaética, pois busca compreender
em que medida a resposta a essa questão se conecta com as próprias noções fundamentais da ética,
como moralidade, valoração e sujeito moral, ou seja, quando a resposta se dá no contexto da
compreensão do que seja o bem e o mal, o correto e o incorreto, o justo e o injusto do ponto de vista
da própria moralidade.
Algumas outras questões normalmente vinculadas com a Metaética são: “Como podemos dizer o
que é o bem e o mal?” ou “Quais as características específicas da linguagem moral?” ou ainda “Como
saber que uma determinada ação é boa ou má?", de modo que a Metaética está intimamente
relacionada com a validade das proposições morais nas teorias éticas.
Dito de outra maneira, a Metaética não está interessada em afirmar enunciados do tipo “você deve
agir dessa maneira”, mas entender o modo como as teorias éticas entendem os enunciados morais
que se expressam como imperativos, levando em consideração seus pressupostos e a relação que
essas teorias estabelecem com outras dimensões da experiência humana, como a psicológica, a
artística, a religiosa, a científica, a jurídica e os outros estratos histórico-culturais.
Ética Normativa
A Ética Normativa é a parte da reflexão filosófica sobre a conduta moral que procura responder a
questões como “‘O que devemos fazer?’ ou, de forma mais ampla, ‘Qual a melhor forma de viver
bem?’” (BORGES; DALL’AGNOL; DUTRA, 2003, p. 7).
Ao buscar responder a essas questões, a Ética Normativa faz uso de normas ou regras, além de
utilizar diretrizes sobre o caráter moral dos sujeitos. A Ética Normativa consolida-se através das
teorias éticas que são construídas por pensadores que buscam responder a essas questões
partindo de pressupostos distintos.
Desse modo, a Ética Normativa envolve o uso de um padrão moral para avaliar as nossas ações
como corretas ou incorretas. Ao orientar-se por esse padrão, alguém poderia valorar a atividade de
mentir ou não cumprir promessas, por exemplo, como corretas ou incorretas, como moral ou
imoral.
Para essas perspectivas éticas, o dever se expressa nas normas ou regras morais e “a análise das
consequências de um ato ou comportamento não deve influir no julgamento moral sobre as ações
ou as pessoas” (BORGES; DALL’AGNOL; DUTRA, 2003, p. 11).
Muito do que se tem utilizado de fundamentação dos direitos humanos vem exatamente da
aplicação das perspectivas éticas deontológicas.
SAIBA MAIS
Para conhecer melhor o pouco discutido egoísmo ético, clique aqui e leia o artigo de Franciny
Senra. Nele encontramos uma apresentação das ideias centrais do egoísmo ético e suas
projeções na mais importante divulgadora dessa perspectiva, a filósofa Ayn Rand.
Ética Aplicada
A ética aplicada está intimamente conectada com as perspectivas desenvolvidas na ética
normativa.
Como o próprio nome diz, é a aplicação dessas perspectivas em problemas advindos do cotidiano,
não ficando apenas com a enunciação de preceitos morais sobre o que devemos fazer, mas
encarando as situações práticas que apresentam problemas ou conflitos morais e sobre os quais
devemos tomar alguma posição.
Essa é a parte da ética que provavelmente seja mais importante para quem não trabalha com
filosofia ou com as ciências que se ocupam de lidar com o comportamento humano quando lido pela
ótica moral. É uma tarefa que nos importa a todas e todos, uma vez que os conflitos morais na
esfera do cotidiano acometem a todas as pessoas em alguma medida e em algum momento da vida.
As principais – por serem mais difundidas – abordagens da ética aplicada são a bioética, a ética dos
negócios e a ética ambiental.
A bioética é uma abordagem multidisciplinar que tenta avaliar os conflitos morais surgidos tanto no
campo da saúde, quanto nos usos das novas tecnologias aplicadas ao domínio da vida e é a mais
discutida de todas as éticas aplicadas. Segundo Junges (1999, p. 10):
É no campo de discussão da bioética que questões como o aborto, a eutanásia, a pena de morte, a
clonagem, a remuneração de sujeitos participantes de pesquisas clínicas que testem medicamentos
ou novas terapias, o uso de células-tronco embrionárias em terapias, entre várias outras são
discutidas em sua dimensão moral. As diversas perspectivas da ética normativa são trazidas para a
discussão dos conflitos morais que surgem na prática médica, de saúde, de pesquisa envolvendo
seres humanos e outros animais.
No âmbito concreto, as questões que envolvem a vida não estão subordinadas apenas aos saberes e
práticas ligados às áreas biomédicas. As questões religiosas, econômicas, de gênero, raça, culturais
são também determinantes de como lidamos com as experiências que impactam o fenômeno da
vida e da morte.
Não é mais a questão da ética normativa “o que devo fazer?” que está em pauta, mas uma indagação
concreta, advinda da experiência que acontece e que nos coloca diante de um problema moral, por
exemplo: seria moralmente correta a prática da eutanásia por parte de um médico? E as diversas
teorias éticas apresentam suas respostas a essa questão e busca-se lidar com o conflito entre a
função médica de “salvar vidas” (aliado ao dever humano de não matar) e o problema de saúde que
coloca a pessoa em um estado em que seguir viva significa deixá-la em sofrimento.
VÍDEO
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A ética dos negócios ou ética empresarial está ligada com um dos campos mais delicados da
experiência humana: a economia. As relações na economia de mercado nem sempre são
marcadas por uma moralidade partilhada pelo restante das sociedades nas quais estão inseridos
os mercados. A competição muitas vezes coloca impasses para a sociabilidade.
A ética dos negócios surge chamando para a discussão sobre a moralidade das práticas em
empresas a noção de responsabilidade, de modo que as empresas também assumam as
responsabilidades pelas ações nos negócios e não apenas indivíduos isoladamente e que se possa
também pensar a própria empresa e as pessoas que a compõe como sujeito moral.
A ética ambiental, também chamada de ética ecológica, ocupa-se em fazer da natureza também um
sujeito de direitos (RUSS, 1999, p. 155). Discute os problemas morais que surgem em função da
intervenção dos seres humanos nos ecossistemas e em toda a estrutura do planeta, colocando-os
em risco. Se, por um lado, a modernidade busca o desenvolvimento, de que maneira este pode
acontecer sem condenar o planeta à destruição? Que tipo de relações os seres humanos podem
relacionar-se com a Terra de modo a retirar dela seu sustento, promover o bem estar das pessoas,
avançar com as tecnologias que auxiliam com o trabalho e com a economia, sem com isso esgotar os
recursos naturais que são finitos? Essas são questões que a ética ambiental coloca de maneira a
discutir os modos como os seres humanos possam seguir habitando o planeta, garantindo a
proteção do mesmo para nós e para as gerações futuras.
Ética do Dever
Uma das mais importantes perspectivas éticas da atualidade, vinculada à corrente deontológica em
ética, é o principialismo. Nele se encontram a ética do dever, que tem em seu principal
desenvolvimento a ética kantiana, sobre a qual falaremos aqui.
Immanuel Kant, filósofo iluminista do século XVIII, procura fundamentar a ética em algum
elemento que seja ao mesmo tempo certo e seguro, para lidar com aquilo que é contingente e
incerto: a experiência humana.
Para Kant, é a razão o fundamento apropriado para fundamentar a ética, mas não qualquer aspecto
da razão, mas aquilo que ele denomina razão pura prática, que seria exatamente o aspecto da razão
que, mesmo sem a experiência, é capaz de nos conduzir em direção ao correto, através de
categorias seguras que a própria razão comporta. Essas categorias não são repletas de conteúdos
morais, que digam concretamente o que devemos fazer, mas alicerçada em um imperativo, um
comando que a razão dá para que façamos o correto. A este comando Kant chama de imperativo
categórico.
ATENÇÃO
Este imperativo categórico é uma determinação universal, ou seja, deve ser seguido por
todos os seres humanos e está intimamente conectado com a ideia de dever, que já
discutimos nas aulas passadas. Kant enuncia o imperativo categórico de três modos:
Agir de tal modo que a norma de nossa ação possa ser elevada à condição de lei universal.
Agir de tal modo que não tomemos a humanidade como apenas como meio para algo,
mas como fim em si mesma.
Agir de tal modo que nossa vontade possa se guiar como se fosse um legislador universal,
através de suas normas.
Esses três modos de apresentar o imperativo categórico têm como objetivo marcar a necessidade
de agirmos de modo que todas as pessoas, ao serem sujeitos morais, devessem agir e, sem
instrumentalizar as pessoas ou tomá-las como meios para nossos objetivos e guiarmos nossa
vontade de modo também universalizável.
De um modo geral, o que Kant quer é ter princípios universalmente válidos independentemente de
suas consequências pontuais. Esses princípios seriam a norma da ação. Só poderíamos fazer, de
modo moralmente justificável, aquilo que todas as pessoas também pudessem – e devessem – fazer.
Um exemplo citado por Kant é o da mentira. Por que mentir não é moralmente uma ação aceitável?
Porque se todas as pessoas assim o fizesse, o mundo teria severas dificuldades em ser confiável e,
também, porque, ao mentir, alguém estaria utilizando o sujeito que escuta a mentira como um meio
para obter algum fim. E pouco importa quais sejam as consequências da mentira, pois ao ser
universalizada, não teríamos a garantia que suas consequências seriam sempre boas, de modo que
não podemos nos guiar pelas consequências de uma ação qualquer.
Utilitarismo
Diferentemente da ética kantiana do dever, o utilitarismo prima pelas consequências das ações,
sendo, assim, uma ética teleológica. Dessa maneira, a ação humana deve ser avaliada e a partir dos
benefícios ou malefícios que elas provoquem. Foi principalmente desenvolvido pelos ingleses
Jeremy Bentham e John Stuart Mill, na passagem do século XVIII para o XIX, embora pensadores
outros pensadores da mesma época possam também ser considerados utilitaristas.
O utilitarismo move-se em torno do que se chama de princípio de utilidade, que na versão de Stuart
Mill se apresenta da seguinte forma:
As ações são corretas na medida em que tendem a promover a felicidade e erradas
conforme tendam a produzir o contrário da felicidade. Por felicidade se entende prazer e a
ausência de dor; por infelicidade, dor e a privação do prazer.
(MILL, 2000, p. 187).
Além desse enunciado básico do princípio de utilidade, encontramos ainda outras características
fundamentais das éticas utilitaristas (BORGES; DALL’AGNOL; DUTRA, 2003, p. 38-39):
consideração das consequências da ação para sua avaliação; proposta de maximização do que é
considerado valioso; visão igualitária dos sujeitos morais; busca de universalização na distribuição
dos bens; concepção natural sobre o bem-estar.
Desse modo, o utilitarismo está preocupado com o bem-estar das pessoas através de uma
proposição de que a distribuição dos bens seja universalizada, almejando um caráter igualitário e
equitativo dessa distribuição.
A ética das virtudes atual é herdeira da ética de Aristóteles. Para este filósofo, as virtudes são a
capacidade de utilizar princípios universais a circunstâncias particulares, podendo oferecer boas
razões para realizar o que é necessário na busca do bem comum e que se localiza entre a falta e o
excesso, estabelecendo uma “justa-medida” no que diz respeito às ações.
Por exemplo, podemos pensar no que se refere aos atos que envolvem a confiança, que seu excesso
pode gerar a temeridade, sua ausência, a covardia, mas o justo-meio ou justa-medida gera a virtude
da coragem (BORGES; DALL’AGNOL; DUTRA, 2003, p. 71-72). Ou seja, um agente virtuoso seria
aquele capaz de ponderar de maneira racionalmente acertada sobre como fazer o que deve ser
feito na busca do bem-comum, sem ater-se à falta de uma determinada qualidade ou seu excesso.
ATENÇÃO
Borges, Dall’Agnol e Dutra (2003, p.75-78) apresentam seis características da ética das
virtudes.
Uma ação só é correta se for aquela que um sujeito virtuoso faria na mesma
circunstância.
A ideia de bondade – que está presente na índole do sujeito virtuoso – é anterior
logicamente à ideia de correção moral.
As virtudes são boas em si mesmas.
Pressupõe, também, que as virtudes não são abstratamente boas, mas objetivamente
boas, independentemente de nosso desejo.
A relação do sujeito moral com a virtude é fundamental, pois confere a ela um valor
especial, ou seja, não é um valor neutro.
Desde a proposição da ética das virtudes, não é necessário maximizar o bem, mas buscar
as melhores formas de alcançar o bem, não tendo em vista o caráter quantitativo que
aparecia no contexto utilitarista, mas o viés da excelência com o qual nos relacionamos
com as virtudes na perspectiva da ação.
Contratualismo
O contratualismo moral parte do pressuposto de que as regras que organizam as sociedades são
produto de uma espécie de acordo ou contrato hipotético firmado entre as pessoas. Esse acordo
não teria acontecido factualmente, mas seria um suposto para que as pessoas aceitassem seguir
essas regras, oferecendo razões para que as mesmas sejam acatadas.
Nessa situação hipotética, os contratantes não saberiam que posições ocupariam na sociedade
após o contrato, seus destinos na mesma, suas características psicológicas particulares, situações
particulares nessa sociedade pós-contrato etc. (BORGES; DALL’AGNOL; DUTRA, 2003, p. 82), o
que John Rawls em seu livro, Uma teoria da justiça, chamou de véu da ignorância. Este elemento
alinha o contratualismo moral entre as éticas deontológicas.
Para essa teoria ética, “uma ação é moralmente errada se não for permitida por um conjunto de
princípios que não se pode rejeitar de forma razoável” (BORGES; DALL’AGNOL; DUTRA, 2003, p.
86).
Para podermos rejeitar um conjunto de princípios através de uma justificação que não possa ser
recusada sem bons argumentos e essa possibilidade de justificação acaba por substituir o papel que
o véu da ignorância assumia no contratualismo de Rawls.
Outras Teorias
Além dessas teorias apresentadas, há algumas outras que ainda que tenham pouco impacto nos
modos que nos relacionamos com a moral em nosso cotidiano, merecem ser mencionadas, mesmo
que rapidamente para que você possa buscar referências caso se interesse.
Uma das mais interessantes reformulações da ética kantiana foi feita por Jurgen Habermas, filósofo
alemão que fez a proposta de uma ética da comunicação, que busca, através de sua teoria do agir
comunicativo, propor como esquema de determinação das normas de conduta, uma comunidade
ideal de fala, capaz de construir consensos e acolher as outras pessoas através da afirmação da
intersubjetividade como experiência privilegiada para a construção de valores.
SAIBA MAIS
Para conhecer melhor a teoria da ação comunicativa de Habermas, leia o texto de Paulo
César de Oliveira, chamado “A ética da ação comunicativa em Jurgen Habermas”, que
apresenta uma breve exposição das ideias habermasianas sobre a ética, tendo como
horizonte de interpretação a problemática do “cientismo”, como tentativa de apresentar as
respostas aos problemas da ação humana através de critérios meramente científicos ou
subsidiados exclusivamente pelas ciências de corte positivista. O artigo está disponível clican
do aqui.
Outra importante perspectiva ética contemporânea foi cunhada por Emmanuel Levinas, filósofo
lituano que viveu na França no século passado. Para Levinas, a ética deveria ocupar-se
principalmente com a alteridade, ou seja, com essa característica de radicalmente outro que as
pessoas têm em relação ao eu, como sendo um radicalmente um não eu. Os critérios da ação devem,
para a perspectiva levinasiana, levar em consideração a fragilidade do outro em relação ao eu, ou
seja, o fato de que somos nós que, a cada momento, decidimos agredir, violar ao outro e que, por
isso, temos para com esse outro uma responsabilidade infinita.
A última teoria ética que eu gostaria de mencionar aqui é a formulada por Enrique Dussel, filósofo
argentino, propositor da ética da libertação. Partindo de todo o movimento da libertação ocorrido
na América Latina no século XX, Dussel proporá uma perspectiva ética que busque dar conta dos
critérios da avaliação moral da ação levando em consideração dois elementos fundamentais: a) a
violência que é parte do contexto de dominação dos povos latino-americanos e que fez circular pelo
mundo um novo padrão de relação com o outro, o da negação e b) que o processo de libertação dos
subjugados não é apenas um imperativo político, mas uma necessidade ante a proposta de criar e
manter a vida humana em meio a uma comunidade.
Os critérios gerais de avaliação da ação devem levar em consideração alguns imperativos que se
ligam com a exclusão do outro: devemos agir de modo que não contribuamos para a aniquilação do
outro; este outro deve, também, poder falar por si próprio sobre suas demandas, necessidades;
devemos agir sempre com um horizonte crítico sobre nossas possibilidades violentas.
Unidade 01
Aula 03
Nesta aula, a moralidade e a eticidade de nossos atos serão o roteiro de nosso percurso. Como elas se
relacionam? O que temos a fazer diante dos conflitos morais?
A Experiência da Moralidade
Como vimos em nossa aula segunda aula, o sujeito moral é aquele que age moralmente cumprindo
as características de ser consciente de si e da existência das últimas pessoas, podendo refletir sobre
suas ações, sendo portador de vontade, responsável por suas ações e suas consequências e,
inexoravelmente, livre.
Essas características são essenciais em função de que os seres humanos não são determinados de
modo absoluto pela natureza ou por qualquer outro elemento. Nós, ao contrário da maioria dos
elementos da natureza, somos construídos historicamente e através das escolhas e contingências
que encontramos pela vida.
ATENÇÃO
Muitas vezes temos situações nas quais nossas ações devem se direcionar para um fato que
opte por uma entre diversas alternativas:Entre aquilo que a moralidade da sociedade
considera correto e o que ela considera [Link] coisas que a moralidade considera
[Link] aquilo que você considera incorreto, mas a moralidade social considera
correto e aquilo que você considera correto, mas a moralidade coletiva [Link] aquilo
que você considera incorreto e o que considera correto, independendo da aprovação ou
reprovação da moralidade social.
Essas possibilidades podem se multiplicar a depender dos fatores que estejam envolvidos na
situação em questão e na maneira como encaramos os elementos que estejam envolvidos na
decisão que devamos tomar diante da necessidade de escolher.
Dessa maneira, a moralidade está sempre vinculada com a liberdade dos seres humanos e com a sua
rotineira necessidade de escolher entre diversos caminhos a serem tomados. Experimentamos a
moralidade quando temos de tomar decisões sobre coisas igualmente importantes,
independentemente dos valores que a sociedade atribua a essas coisas.
Nem sempre vemos nos valores morais que funcionam em nossas sociedades bens em si mesmos e
muitas vezes discordamos de um caso específico no qual a aplicação de um valor seja apropriada
para o fato ou a ação que tenhamos de desempenhar.
Isso acontece porque os seres humanos são dotados de uma multiplicidade de maneiras de ver o
mundo, as relações que estabelecem consigo mesmos e com as outras pessoas.
Ninguém passa a vida inteira agindo e pensando da mesma maneira e mesmo quando buscamos na
nossa memória um evento passado, às vezes vemos esse mesmo evento com percepções distintas
sobre como ele tenha acontecido e se suas consequências foram interessantes ou não.
Um exemplo disso é que, a depender do momento que um profissional esteja em sua carreira, ele
pode avaliar que sua escolha profissional possa ter sido interessante ou desinteressante. Se hoje,
esse profissional está passando por um momento de avanços em sua carreira, satisfeito com a
atividade que desempenha, com os ganhos que tem em função de seu trabalho, pode avaliar a
escolha como acertada, interessante, boa. Se, em outro dia, não houver satisfação, não conseguir
visualizar possibilidades de melhoras (mesmo que provisoriamente), a avaliação pode ser
completamente diferente sobre a mesma escolha.
Isso aponta para o fato de que os seres humanos estão em constante transformação e nem sempre
sabemos o resultado das mudanças em nossas vidas e em nossas vontades. Hoje podemos querer
algo e, depois, já não querer essa mesma coisa. Essa fluidez do humano afeta também os modos
como experimentamos a moralidade, pois os valores morais não se modificam na mesma constância
que a percepção e os julgamentos dos seres humanos.
Não apenas os humanos estão nessa fluidez, mas também as nossas práticas e também os critérios
e contextos nos quais avaliamos.
SAIBA MAIS
Para saber mais sobre o impacto dessas modificações na ética e na experiência moral, veja a
palestra de Renato Janine Ribeiro, chamada “Ética em tempo de mudança”, na qual se discute
sobre o impacto das rápidas mudanças no campo das experiências sociais na experiência da
moralidade. O vídeo está disponível clicando aqui.
Em muitos casos, pensamos estar tomando uma decisão moralmente acertada, ter avaliado bem se
estamos seguindo nossos princípios ou se as consequências de nossas ações serão positivas e, mais
adiante, vemos que as coisas não se passaram como nós desejaríamos, seja porque as
consequências foram diferentes das desejadas, seja porque não conseguimos avaliar bem todos os
elementos envolvidos na questão, o que nos fez decidir com base em apenas parte do que poderia
ter sido envolvido no processo de avaliação.
Essa reflexão nos leva a pensar que a experiência da moralidade, nosso envolvimento com as
maneiras de avaliar nossas condutas com base em nossos próprios valores morais e na moralidade
coletiva nem sempre é um processo tranquilo.
É necessário que tenhamos sempre atenção em buscar a maior quantidade possível de elementos
para avaliar uma determinada situação para escolher como devemos agir, sempre lembrando que
o que ocupa a problemática ética ou moral é, exatamente, a perspectiva de o que fazer para viver
bem ou viver melhor.
As questões ou dilemas morais surgem exatamente no momento em que aquilo que pode me fazer
viver bem, ou melhor, é exatamente aquilo que pode prejudicar as outras pessoas. Uma das mais
importantes dimensões da experiência humana está vinculada com o fato de que não vivemos
isoladamente. Nossa humanidade se dá exatamente pelo fato de vivermos entre humanos e, por
isso, os modos de buscar que a convivência se dê da melhor maneira possível é também um dos
fatores fundamentais da experiência moral. Não basta apenas saber o que fazer para viver bem,
mas também o que precisamos fazer para que possamos viver bem entre os outros humanos.
VÍDEO
Olá, estudante! Para assistir a esse vídeo, acesse a versão web do seu material didático.
Ao mesmo tempo em que a reflexão sobre os valores que utilizamos para avaliar nossa ação estão
em transformação e temos dúvidas sobre a melhor maneira de avaliar, temos que continuar agindo.
E, como sujeitos morais, sermos responsáveis pelas nossas próprias ações.
Como vivemos em um mundo partilhado com os seres humanos, somos responsáveis, como já
afirmamos, pela manutenção da convivência. E a temática da responsabilidade aparece como um
tema fundamental para pensar a dimensão ética de nossos atos.
Se, por um lado, somos livres e autônomos para tomar nossas decisões e agirmos como nos convier
moralmente, somos também obrigados pelas normas de convivência a assumir o ônus que resulte
de nossas ações. A problemática da responsabilidade nos coloca na tarefa de pensar a ação desde a
perspectiva de não causar danos às pessoas e de fazer o bem a elas, sempre que possível.
Uma questão óbvia se coloca: quem é que decide o que causa dano e o que é fazer o bem a alguém?
Sou eu? São as pessoas afetadas por minha ação? Se alguém acha que se está fazendo o bem a ela ao
disponibilizarmos armas de fogo para que a pessoa se sinta segura diante da violência, essa é uma
decisão acertada? Devo disponibilizar armas? Ou não? As outras pessoas são tão sujeitos morais
quanto eu, portanto, capazes de refletirem sobre suas ações e serem responsáveis elas e suas
consequências. Mas se eu disponibilizo uma arma a alguém que quer se proteger da violência e esta
pessoa, acidentalmente fere ou mata alguém que não lhe era uma ameaça real, apenas essa pessoa
é responsável pelo ato ou eu também sou?
Há tantas respostas a essa questão quanto perspectivas teóricas que estejam disponíveis para
pensá-la. Mas a eticidade de nossas ações está vinculada não apenas com as teorias morais que
circulam nos discursos éticos, mas com o conjunto de valores que a sociedade estabeleceu. Em
nossa sociedade, a responsabilidade é um valor importantíssimo.
Dificilmente, em uma sociedade como a brasileira, seria possível mostrar que não somos
corresponsáveis pelos acidentes provocados por uma arma de fogo que cedemos a alguém. O
primeiro motivo é que há normas legais que dificultam ou proíbem essa prática e, como segundo
motivo, não podemos prever o que pode ser feito com essa arma, o que abre a possibilidade de que
algo grave aconteça, mesmo com “inocentes”, o que nos coloca a tarefa de buscar antecipar o que
pode acontecer.
Nessa situação, parece que não há bem que possa ser feito. E, independente da decisão que você
tomar, algum dano será causado. Como decidir o que fazer? Atropelar a pessoa que atravessou a
rua? Atropelar as que estão sobre a calçada? Colidir com o carro que está do outro lado? O que
seria o correto a fazer nessa situação? Embora você não seja responsável pela decisão da pessoa de
atravessar correndo a via, você certamente será pelo atropelamento ou colisão.
Visto pelos valores vigentes em nossa sociedade, o aconselhável seria causar danos ao menor
número possível de pessoas ou causar os danos com menos prejuízos. Obviamente não há tempo
para uma ponderação, cálculos de tipo risco-benefício. O aconselhável seria optar rapidamente
pelo que fosse causar menos estragos. Mas nem sempre é possível acertar na escolha. E a eticidade
de nossas ações implica em assumir e se responsabilizar pela escolha realizada, independente do
critério que se tenha utilizado para avaliar.
Pois bem, há um importante princípio jurídico chamado de legalidade, que diz respeito ao modo
como nos relacionamos com as normas estabelecidas como lei, nos ordenamentos jurídicos de cada
sociedade.
A legalidade é o princípio que exige que estejamos atentos à aquilo que as leis determinam como
sendo o permitido ou proibido e dá a lei um estatuto de obrigatoriedade no que diz respeito a seu
cumprimento. Segundo Acquaviva (2013, p. 768), a legalidade refere-se, em diversos campos, “a
tudo que se faz ou obra segundo o que está determinado nas leis humanas, isto é, guardando as
solenidades, formalidades ou condições que elas prescrevem”.
Segundo essa interpretação, legal é tudo o que segue as normas estabelecidas, seja pela natureza
ou pelas construções humanas, mesmo no que diz respeito à moral, uma vez que legal é a ação que
se faz em conformidade com as normas estabelecidas moralmente.
Aqui, frisamos o caráter jurídico da legalidade, isto é, o que determina que o legítimo é o que está
em conformidade com a lei instituída de uma determinada sociedade, uma vez que, como
chamamos atenção na Aula 02, embora lei e moral não sejam a mesma coisa, temos uma usual
ligação entre a lei e a moral da sociedade que criou o ordenamento jurídico.
Segundo Antonio Carlos Wolkmer (1994, p. 25), em artigo sobre o conceito de legitimidade, esta
compreende
a existência de leis, formal e tecnicamente impostas, que serão obedecidas por condutas
sociais presentes em determinada situação institucional [...]. [A] legalidade projeta-se
concretamente como a esfera normativa contida em expressões ou signos expressivos dos
deveres e direitos dos sujeitos de atividade social, subjetivamente como fidelidade dos
sujeitos sociais ao cumprimento de suas atividades dentro da ordem estabelecida
necessariamente no grupo humano a que pertencem.
Antonio Carlos Wolkmer (1994, p. 25)
O fato de que algumas leis sejam mais bem recebidas que outras, fazendo que não estejamos de
pleno acordo com, não pode ser pretexto para que se fira a legalidade. Se não concordamos com
uma lei e não queremos incorrer em ilegalidades, o caminho mais seguro é buscar os caminhos
institucionais para que as leis sejam modificadas.
Com isso, não queremos dizer que as leis são boas em si ou que sempre atendem ao propósito de
garantir e promover o bem estar comum.
O que está em jogo na questão da legitimidade é que se possa fazer com que aquilo que é
cunhado sob o pretexto de promover a bem comum seja de algum modo protegido, mesmo que
tenhamos espaços para protestos, comuns em regimes de convivência democrática.
Do ponto de vista formal, as leis de um país são criadas para garantir o bom funcionamento das
instituições, das inter-relações e promover o bem estar dos cidadãos e cidadãs que vivam neste
país. Como as leis são produtos históricos, são vinculadas com o momento em que cada sociedade
vive quando elabora uma determinada norma ou lei. E é importante que quando o momento
histórico se modifique e vejamos que as leis não estão mais conseguindo cumprir seus objetivos,
que criemos mecanismos para modificá-las, mas sem cair na ilegalidade, de desrespeitar a lei.
Essas modificações não são simples de acontecer, sobretudo em países como o nosso, que são
ligados com um sistema legislativo que atende a interesses nem sempre vinculados com o bem
estar geral dos cidadãos e cidadãs. Sabemos, ainda, que as leis são cunhadas efetivamente por uma
minoria da população, em tempos comuns, eleitos pelos cidadãos de um país e que, seriam,
portanto, representantes do povo. Isso implica que, quando nos interessarmos em modificar as leis,
devemos promover esquemas de representação, elegendo representantes, nas casas legislativas
distritais, municipais, estaduais ou federais para que as modificações sejam propostas e aprovadas
e, ainda, contar com a sanção do poder executivo de cada uma dessas esferas que, normalmente, é
também eleito.
Desse modo, podemos pensar a legalidade como sendo o sentido daquilo que fazemos em
consonância com a lei, supondo que ela tenha sido respaldada pelo conjunto da sociedade,
através da representatividade que constituiu a norma.
Em física é legítimo ouro, legítima prata, legítimo diamante o que tem a própria natureza
destas substâncias, o que não é contra-feito nem adulterado. Em lógica, é legítimo o
raciocínio quando os princípios são verdadeiros e a consequência deduzida segundo as
regras. Em moral, são legítimas as ações que conformam com a razão, a equidade e a justiça
universal. E finalmente, em jurisprudência são legítimas todas as ações ou omissões que as
leis ordenam etc. Um título é legítimo quando está autenticamente na forma da lei.
Acquaviva (2013).
De maneira geral, legítimo é o que fazemos respaldados pela comunidade ante a qual temos de
prestar contas de nossos atos e não diretamente do mera justificativa de seguir as leis.
Wolkmer (1994, p. 30) discorre sobre o lugar da legitimidade nas relações com o mundo social
afirmando que
Uma pessoa legalista é quem usa dos esquemas legais, “doa a quem doer”, e sem levar em
consideração que nem sempre os contextos de aplicação de uma norma são justos ou eficazes.
Mesmo os sistemas legais precisam da figura do juiz, alguém que arbitra sobre uma determinada
questão em função da análise dos fatos, dos contextos, dos sentidos afirmados. Se a norma fosse
simplesmente autoaplicável, não haveria a necessidade de juízes para ponderarem sobre a
propriedade da aplicação de uma norma e, muito menos, de julgamentos. O legalista, entretanto,
seria a pessoa que se importa pouco, ou não se importa, com as variações conjunturais que
poderiam levar a uma não aplicação da norma. Ou, ainda, pode ser legalista alguém que insiste em
fazer algo apenas por que a lei não proíbe, quando não há um consenso na comunidade na qual se
insere essa pessoa de que essa ação possa moralmente ser feita.
A legitimidade tem uma componente crítica que nos força a entender com cuidado os motivos pelos
quais é necessário seguir uma determinada norma e se ela é aplicável em todos os casos. Essa
posição é possível, porque do ponto de vista moral a lei determina o que se deve fazer e o que não
se deve fazer, abrindo espaço para afirmar que as pessoas possam fazer tudo o que a lei não proibir
– com exceção do administrador público, que deve fazer apenas aquilo que lhe for atribuído
legalmente.
Do ponto de vista moral, a legitimidade está conectada com o reconhecimento de que é necessário
cumprir a norma naquele momento específico, quando se poderia resolver um conflito de maneira
justa, sem recorrer à aplicação de uma norma. E quem define, sempre, o contexto do
reconhecimento é uma coletividade.
Como a legitimidade está vinculada com os valores que circulam em torno da aplicação ou não das
normas em nossas ações, a discussão ética aqui se coloca de modo muito mais incisivo do que
quando o que está em pauta é a problemática da legalidade.
Para que uma ação tenha legitimidade, o agente moral deve ser capaz de oferecer uma
justificativa ética para sua ação de modo que a comunidade seja convencida pela pertinência da
justificação e não meramente pelo respaldo legal que tal ação venha a ter.
Dessa forma, a ação, instituição ou sujeito moral serão reconhecidos e suas determinações poderão
ser obedecidas em função do reconhecimento da pertinência da ação ou do comando e não
meramente por força de lei. Normalmente, não desobedecemos aquilo que reconhecemos como
legítimo embora possamos desobedecer, com muito mais facilidade, ao que, mesmo com força de
lei, vemos como ilegítimo. É sobre esse princípio que repousa a chamada desobediência civil, que é
uma forma de descumprimento de leis como uma política de resistência, ao entender que cumprir a
lei, em um determinado contexto, significa estar sujeito a uma forma de opressão.
Unidade 01
Aula 04
Entendendo Os Direitos
Discutir ética no mundo atual envolve uma das mais difíceis questões que temos colocadas na
história dos seres humanos: os direitos.
Mas o que são os direitos? Há garantia para os mesmos? Há limites para os direitos? Eles podem
ser suspensos? Estas são questões que vêm inquietando a história do pensamento da ética há
muito tempo.
Uma consulta rápida ao dicionário Aurélio (2013) traz como definição de direito, no sentido que nos
interessa aqui, a seguinte significação: “Faculdade de praticar um ato, de possuir, usar, exigir ou
dispor de alguma coisa”. Essa faculdade é ligada com as lutas históricas que os seres humanos
travaram por uma sociedade mais justa e igualitária, ou seja, não é um dado da natureza, mas
produto de uma histórica construção humana, uma conquista das intervenções em busca de um
mundo melhor.
Esses direitos podem ser individuais, que cada pessoa goza individualmente, ou coletivos, que estão
ligados aos grupamentos, organizações, associações ou povos. Hannah Arendt (2004, p. 330) afirma
a possibilidade de refletir sobre os direitos básicos em termos de “direito de ter direitos” e essa
pode ser uma provocação interessante para pensar essa problemática.
A mais importante abordagem sobre os direitos vem acontecendo em torno daquilo que vem sendo
chamado de direitos humanos, ou seja, os direitos que toda a pessoa, pelo simples fato de ser
considerada como tal, possui. Ponto de polêmicas intrigantes, os direitos humanos vêm sendo
motivo de vastas discussões no âmbito das ciências sociais, da filosofia, das religiões e de diversas
outras áreas do pensamento humano.
Muitas das polêmicas se devem ao fato de que os direitos humanos têm não apenas uma defesa da
noção mais abrangente de direitos, mas também um conjunto de conteúdos que aparecem como
universalmente válidos, não importando as variantes culturais, que, por exemplo, têm noções
distintas do que é uma pessoa e se todo ser humano é ou não pessoa. Isso tem feito com que os
direitos humanos sofram a acusação de imperialismo moral, ou seja, a imposição de uma imagem ou
projeto moral de uma sociedade sobre as outras Hernández-Truyol (2002), o que legitimaria
intervenções violentas de algumas nações sobre outras.
SAIBA MAIS
A mais famosa carta de direitos conhecida é a Declaração Universal dos Direitos Humanos,
proclamada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1948 e da qual o Brasil é
signatário. Essa declaração elenca aqueles que seriam os direitos fundamentais de toda e
qualquer pessoa humana. A declaração pode ser lida clicando aqui.
Alguns pensadores defendem que temos pelo menos três gerações de direitos humanos, que não se
substituem e se complementam: os de primeira geração, ligados às liberdades civis e individuais, os
direitos das pessoas; os de segunda geração, que são ligados à igualdade e aos direitos culturais e
econômicos; e os de terceira geração, os chamados direitos difusos, que se ocupam dos direitos ao
meio ambiente e a preservação do mundo para as gerações futuras e à qualidade de vida (NUNES,
2013).
Entre os direitos básicos, fundamentais, descritos na Declaração Universal dos Direitos Humanos
da ONU, estão o direito à vida, à liberdade, a não ser torturado, de constituir família, de
participação política, para citar apenas alguns. Há outras declarações e convenções de direitos
humanos, que trazem outros direitos, normalmente fundados, assim como a Declaração Universal
dos Direitos Humanos da ONU sobre a ideia da dignidade da pessoa humana. Por exemplo, a
Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem, promulgada também em 1948, cinco
meses antes da declaração da ONU, inclui, ainda, o direito à educação, à saúde e à justiça, entre
outros.
A discussão sobre os limites dos direitos se coloca em saber exatamente onde terminam os direitos
das pessoas. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, em seu Art. 24, traz como síntese dos
limites o seguinte:
No exercício de seus direitos e liberdades, toda pessoa estará sujeita apenas às limitações
determinadas pela lei, exclusivamente com o fim de assegurar o devido reconhecimento e
respeito dos direitos e liberdades de outrem e de satisfazer às justas exigências da moral, da
ordem pública e do bem-estar de uma sociedade democrática.
(ONU, 1948).
Essa justificativa é normalmente utilizada para suspender os direitos de uma pessoa quando ela
fere os direitos de outras. Quando alguém assassina uma pessoa, retira dela o direito fundamental à
vida e, por isso, em nosso país, ele tem suspenso o seu direito à liberdade, após julgamento e
condenação.
Moralmente, a garantia dos direitos é uma das responsabilidades de cada pessoa e também das
instituições. Entende-se como correta a ação que busque promover, garantir os direitos de
qualquer pessoa, desde que estes não venham a ferir os direitos dos demais ou a possibilidade do
bem comum. Entretanto, qualquer ação que realizemos e que busque ou provoque injustamente a
suspenção de direitos de alguém é considerada imoral.
A questão mais contundente sobre a problemática dos deveres é “por que devemos cumpri-los?”.
Essa pergunta surge da possibilidade de interpretação do dever como uma coerção, uma
obrigatoriedade injusta e que mais que garantir nossos direitos, tende a tolhê-los.
Aqui a perspectiva de algumas teorias éticas pode oferecer uma interessante contribuição. A
necessidade de uma justificativa racional para que uma norma – ou obrigação – seja cumprida é
absolutamente fundamental para garantir a legitimidade da mesma. Quando uma boa justificativa é
apresentada, dificilmente se pode argumentar que uma arbitrariedade é cometida para que uma
regra seja cumprida.
Por que, por exemplo, a obrigação de não causar danos às outras pessoas deve ser seguida? Uma
justificativa racional seria a de que a outra pessoa tem tantos direitos quanto você e, ao causar
danos a ela, você estaria dando por correto que as pessoas pudessem ser prejudicadas, inclusive
você mesmo, uma vez que parece consensual que todas as pessoas gostariam de viver em um
mundo na qual o risco de serem lesadas fosse afastado.
Desse modo, seguir uma norma ou cumprir com nossos deveres serviria para garantir a existência
de direitos – inclusive os nossos – garantindo o “direito de ter direitos” aventado por Arendt.
A Responsabilidade Social
A responsabilidade social nos leva a pensar eticamente sobre a convivência coletiva e relações
cidadãs entre pessoas, organizações, empresas, Estado. A preocupação com a repercussão social
das ações individuais e coletivas se intensificam em função das transformações que o mundo das
relações de trabalho vem causando ao meio ambiente e, sobretudo, às relações humanas.
Nesse cenário, se intensifica a preocupação que as consequências sociais sejam objeto de
preocupação, pois não basta apenas saber que impacto individual tem uma ação sobre um sujeito,
mas sobre toda uma coletividade. As teorias consequencialistas, principalmente o utilitarismo, tem
sido as mais convocadas a orientar as discussões sobre responsabilidade ambiental, uma vez que as
consequências e impactos das ações são o mote principal daquilo que tem aparecido como tópicos
fundamentais desse debate.
Os direitos que as coletividades têm são levados em consideração de modo significativo nessas
discussões, sem abdicar da problematização dos impactos individuais das ações que acontecem em
função das relações que acontecem no âmbito coletivo ou social. Também a noção de deveres se
resinifica ante a responsabilidade social. As coletividades passam também a ter obrigações, assim
como também se tornam sujeitos de direito.
Os extensos debates sobre a responsabilidade social de alguma maneira colocam patente uma
crítica ao ideal neoliberal que descompromete o mercado das problemáticas sociais, que ficaria a
cargo dos Estados e de parte do terceiro setor.
Todas as instâncias são agora responsáveis pela manutenção do bem-estar social, ao mesmo
tempo em que incorporam a ética ao mundo das atividades do trabalho de modo concreto.
Chegamos ao fim desta aula, esperando que você, estudante, possa buscar outras fontes de
discussões sobre as complexas relações entre direitos e deveres e também sobre esse novo e
instigante campo de investigação e intervenção que é a responsabilidade social.
Unidade 01
Aula 05
Nesta aula, percorreremos algumas das questões éticas mais delicadas que encontramos em nosso
cotidiano. O trato com a diferença, o preconceito e os limites de nossos direitos na relação com esses dois
outros elementos.
Entretanto, lidamos muito mal com a diferença que se mostra nas diversas maneiras que os seres
humanos vivem suas vidas, têm crenças, orientações sexuais, cor de pele, culturas regionais,
designações corporais quando essas são diversas das nossas. Embora os seres humanos sejam
todos diversos, queremos, muitas vezes, impor padrões – os nossos padrões – para as outras
pessoas ou hierarquizá-las em função das diferenças.
Quando alguém se mostra diferente desses padrões, tendemos a ter reações diferenciadas, nem
sempre acolhedoras da diferença, e isso tem gerado reações violentas e imorais em todo o mundo.
Normalmente, vemos esses padrões estruturados em torno de alguns marcadores de prestígio que,
normalmente, são o homem (macho de nossa espécie), branco, heterossexual, proprietário, cristão,
de posse de todas as suas compleições físicas, letrado, sem deficiência, habitante ou oriundo das
regiões economicamente desenvolvidas do planeta e adulto. Esses marcadores aparecem como
modelos para os valores positivos que devem ser afirmados na construção das práticas aceitas
como normais ou comuns em nossas sociedades (FLOR DO NASCIMENTO, 2012, p. 162-163).
Aprender a lidar com a diferença ou com a diversidade, sem tentar medir as outras pessoas em
função de nossas próprias práticas, experiências e modos de viver e ser, é um dos grandes
desafios morais de nosso tempo. Normalmente, vemos o diferente como estranho, incorreto e
buscamos corrigi-lo ou diminui-lo na impossibilidade da “correção”.
Na quase totalidade das vezes, as nossas sociedades constroem os valores morais com base nesses
padrões e acabam por lidar com as pessoas que se localizam fora de tais modelos como imorais, que
precisam ser corrigidas ou tratadas de modo inferiorizado.
Isso se dá pela tendência a pensar a diferença em relação ao mesmo que nós mesmos somos, ou
seja, tendo nossas próprias experiências como referência para pensar a diferença, em vez de pensar
a diferença com singularidade, já que, como nos alertou Arendt, somos todas e todos diferentes
(FLOR DO NASCIMENTO, 2012, p 153-154).
VÍDEO
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Curiosamente, ao mesmo tempo em que lidamos mal com as diferenças, talvez nunca tenhamos
falado tanto de diferença como nos últimos sessenta anos. A palavra diferença quase se tornou um
slogan, um chavão, em discursos éticos, políticos e mesmo de marketing.
A expressão “fazer a diferença” vem sendo exaustivamente utilizada pelos mais diversos
tipos de perspectivas, desde as mais conservadoras até as revolucionárias. Entre
movimentos sociais e empresas multinacionais de histórico alarmantemente explorador,
muitos se valem dessa expressão. Não nos enganemos: o exaustivo uso dessa palavra não
criou uma prática de reconhecimento, respeito e proteção à diferença. Conjuntamente aos
mais diversos discursos sobre a diferença, encontramos também o recrudescimento da
violência em relação ao diferente, que vai desde os fundamentalismos até a violação
cotidiana daqueles ou daquelas que apresentam qualquer tipo de diferença.
(FLOR DO NASCIMENTO, 2012, p. 153).
Algumas das expressões dessa violência para com o diferente aparecem na forma do machismo, da
intolerância religiosa, do racismo, das homofobias, entre várias outras. E muitas vezes essas
práticas violentas aparecem com uma forte carga moral, fazendo com que essas violências tenham
aparentemente um caráter de melhoramento do mundo, na busca de livrá-lo do erro do diferente
em ser como é, em agir como age, em pensar como pensa.
Uma das importantes tarefas da ética sempre foi em como lidar com situações em que diferentes
alternativas se apresentam para nossas ações e, agora, essa tarefa deve se encarregar, também, de
nos fazermos lidar bem não apenas com a diversidade de alternativas para nossas próprias
condutas, mas também com a diferença que se hospeda nas outras pessoas. Se o objetivo da ética é
buscar nos fornecer diretivas da ação para que possamos viver bem, viver melhor, dificilmente
poderemos pensar que viver bem se daria em meio de uma convivência violenta com as pessoas que
são diferentes de nós.
Não somos responsáveis apenas por quem se parece conosco, por quem pensa como nós, por
quem faz as mesmas coisas que nós: somos responsáveis por todas as pessoas,
independentemente de suas características singulares.
E não devemos esquecer que quem se encaixa em todos os elementos do padrão que descrevemos
antes é uma quantidade muito pequena de pessoas, o que faz com que a demanda pela justiça e pela
equidade se torne imperiosa.