O que é o Marco Civil da Internet?
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“A Internet não é terra sem lei”. Provavelmente, você já escutou essa
frase em algum momento da sua vida. De fato, podemos afirmar que o
Direito é onipresente e suas regras também englobam a supervisão do
mundo digital. Dessa forma, com o objetivo de regulamentar e formular
os princípios para o uso da Internet em nosso país, o governo brasileiro
aprovou em 2014 a Lei n°12.965, mais conhecida como Marco Civil da
Internet.
Neste texto, você conhecerá os principais pontos dessa legislação, os
motivos que levaram à sua criação e as mudanças que estão sendo
discutidas. Vem com a gente!
O que é o Marco Civil da Internet?
A Lei n° 12.965 é uma lei ordinária federal de iniciativa do Poder
Executivo que consiste em uma espécie de “Constituição da
Internet”. Isso porque, por ser uma legislação de cunho principiológico,
tem como principal finalidade estabelecer os princípios, garantias,
direitos e deveres para o uso da Internet no Brasil. Para isso, institui uma
série de diretrizes que deverão ser seguidas pelos entes federativos
(União, Estados, Distrito Federal e Municípios), provedores de Internet,
empresas e todos os outros envolvidos na aplicação, disponibilização e
uso do ciberespaço.
Saiba mais: Quais são os tipos de leis?
O Marco Civil norteia todo processo de aplicação da Internet, elegendo
os usuários como protagonistas no contexto da inovação da sociedade
em rede, com foco na tutela dos direitos fundamentais consagrados em
sede constitucional. Dessa forma, desde os direitos de acesso dos
usuários ao processamento de seus dados e à responsabilidade por
danos, a lei tem o propósito de garantir que todos possuam uma
condição digna em termos de experiência tecnológica,
desenvolvendo sua personalidade e exercitando a sua cidadania em
meios digitais.
O que diz a lei?
Muito exaltada por se tratar de uma lei de vanguarda, em forma e
conteúdo, no que diz respeito a regulamentação dos direitos humanos
nas redes digitais, o Marco Civil da Internet possui 32 artigos que tratam
sobre temas como os direitos e garantias dos usuários, a provisão de
conexão e de aplicações da Internet, a responsabilidade dos provedores,
a atuação do poder público, entre outros.
Além disso, a Lei n° 12.965/2014 é ainda fundamentada em três pilares: a
liberdade de expressão, a neutralidade de rede e a privacidade.
O primeiro, bem conceituado no inciso IX do artigo 5° da Carta Magna,
corresponde à liberdade de pensar e adotar livremente a ideias que
circulam nas redes sem ser julgado por isso. Contudo, vale lembrar que,
assim como consta no texto constitucional, veda-se o anonimato. Isto
significa dizer que esse direto não é absoluto e cabe a responsabilização
cível ou criminal daquele que excede os limites na hora de se expressar.
Na sequência temos a neutralidade de rede, prevista no artigo 9° do
Marco Civil, segundo a qual os provedores de Internet devem tratar os
pacotes de dados que trafegam em suas redes de forma isonômica, ou
seja, sem discriminação em razão do conteúdo, origem, destino,
aplicação e etc. Esse princípio, que foi um dos mais polêmicos quando da
discussão do projeto de lei, permite que possamos acessar qualquer
conteúdo na internet sem que a operadora de telecomunicação interfira
na navegação, tornando-a mais lenta ou bloqueando o acesso.
Por último, temos a privacidade que também se encontra dentre as
garantias fundamentais previstas no artigo 5° da Constituição brasileira.
No âmbito do Marco Civil da Internet, este pilar tem por objetivo proteger
os dados dos usuários, exigindo o consentimento expresso destes para
quaisquer operações realizadas com estas informações, bem como
determina a indenização por dano material ou moral decorrente de
violações à intimidade, comunicações sigilosas e à vida privada dos
usuários.
O DNA do Marco Civil: quando e por que foi
criado? Qual o seu legado?
Uma das inovações mais notáveis trazidas pelo Marco Civil concerne
principalmente ao seu processo legislativo, o qual envolveu um debate
aberto com participação direta da sociedade. Em torno de 7 anos, entre
2007 e 2014, a formulação e o desenvolvimento de cada verso da
legislação ocorreu através de consultas públicas que utilizaram
justamente a Internet para conhecer a opinião dos mais diversos grupos
sociais. Tudo aconteceu como se fosse um típico “fórum de discussão na
Internet” em que as pessoas detalhavam os princípios e podiam também
propor novos temas a serem abarcados pela legislação.
Esse projeto foi uma iniciativa do Ministério da Justiça que, em parceria
com o Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da FGV-RJ
e inspirados na Resolução “os princípios para governança e uso da
Internet” de 2009 do CGI.br (Comitê Gestor da Internet no Brasil),
resolveu pôr a questão em debate diante da celeuma existente quanto a
regulação do uso da Internet. Na verdade, desde a década de 90, a
discussão sobre a regulamentação do ciberespaço acirrava os ânimos
dos mais diversos atores sociais no cenário nacional e internacional.
Se, de um lado, existia aqueles que defendiam a não interferência do
Estado no campo digital argumentado que essa intervenção impediria a
inovação contínua e entendendo que “O Código de programação é a
própria lei”, em contrapartida, havia aqueles que acreditavam que o
governo deveria editar normas para regular os comportamentos no eixo
digital uma vez que a inércia estatal deixaria brechas para arbitrariedades
daqueles que controlam a Internet.
Nesse cenário, surgiu no Brasil o PL n° 84/1991 que pretendia
criminalizar alguns dos comportamentos cotidianos digitais como o
desbloqueio de aparelhos eletrônicos, ademais, exigia o armazenamento
de dados dos usuários por um período de 3 anos e permitia
compartilhamento dessas informações com autoridades policiais sem a
necessidade de ordem judicial. O texto de autoria do deputado Luiz
Piauhylino (PSDB-PE) e veementemente defendido pelo senador Eduardo
Azeredo (PSDB-MG), foi apelidado de “Lei Azeredo” e provocou forte
rejeição social, ficando conhecido como “AI-5 Digital”.
Dali em diante, frente a popularização da Internet na sociedade brasileira
e os frequentes ataques a direitos nesse âmbito, urgia que fosse
elaborado uma regulamentação que garantisse e preservasse direitos
básicos dos usuários ao mesmo tempo que assegurasse a inovação
contínua das tecnologias, contribuindo para o desenvolvimento político e
econômico e certificado o uso livre e aberto da Internet. Nesse contexto,
um artigo do pesquisador Ronaldo Lemos, publicado em 2007 na Folha
de São Paulo, propunha que em vez de uma regulamentação criminal
fosse criado um marco regulatório civil para o ciberespaço. Por
conseguinte, ainda naquele ano, o governo atende as solicitações e
passa a defender a ideia quando em discurso no Fórum Internacional
Software Livre o presidente Luís Inácio Lula da Silva defendeu que o
Código Civil fosse alterado para incluir “os direitos em rede”.
Por conseguinte, em um lapso de dois anos, o governo deu início ao
processo que seria a primeira experiência no uso de plataformas online
para fomentar o processo legislativo com a consulta pública realizada em
duas fases pelo Ministério da Justiça.
Em um primeiro momento, foi submetido à sociedade um texto que
continha princípios gerais para regulação da rede em que foi recebido
mais de 800 comentários, opiniões e propostas que poderiam
incrementar a posterior regulamentação. Em seguida, já na segunda fase
do processo, as sugestões foram sistematizadas em uma minuta do
projeto de lei que foi novamente submetida a consulta pública e envolveu
uma série de debates públicos. Com o fim desses procedimentos, em 24
de agosto de 2011, o PL n° 2.126/2011 foi apresentado à Câmara dos
Deputados, tramitando durante 3 anos entre as casas legislativas,
nasceu em 2014 a Lei n° 12.965, sancionada pela presidente Dilma
Rousseff na abertura da Conferência Net Mundial.
Entre idas e vindas, mesmo com a sua publicação, em 23 de junho de
2014, muitos artigos do Marco Civil foram questionados dado que
algumas questões ali tratadas dependiam de regulamentação. Assim, o
governo editou, em 2016, o Decreto n°8771 para regularizar as hipóteses
de discriminação de pacotes de dados e degradação de tráfego, os
procedimentos para guarda e proteção de dados por provedores de
conexão e de aplicações, as medidas de transparência na requisição de
dados pela administração pública e os parâmetros para fiscalização e
apuração de infrações.
Por fim, quanto ao legado do Marco Civil, destaca-se que com a sua
criação o Brasil se tornou referência mundial no quesito elaboração de
princípios-chaves para a formulação da Internet livre e aberta que
assegura os direitos dos usuários. Desse modo, o texto legal foi
aplaudido por grandes nomes no contexto digital como Tim Berners-Lee,
criador da WWW (Worlds Wide Web). Além disso, a legislação serviu de
inspiração para a Declaração Italiana de Direitos da Internet, para as
reformas legislativas na França que visavam incluir os direitos digitais e
também foi citada na Suprema Corte da Argentina em decisão sobre a
responsabilidade dos provedores de busca pelos resultados indexados.
Marco Civil e LGPD: semelhanças ou diferenças?
Não só a internet, mas as tecnologias digitais como um todo nos
oferecem uma série de serviços que hoje já consideramos como partes
essenciais de nossa rotina. É através das informações que você insere
em cada site acessado ao longo do dia que estas plataformas podem
oferecer uma navegação mais adequada as suas preferências.
Essas informações “chaves” para realização de todo esses processos
cotidianos dizem bastante sobre os seus interesses e são as bases da
sua identidade digital. Logo, é importante que haja instrumentos legais
eficazes para salvaguardar os nossos dados. Afinal, se não houver regras
que zelem pela transparência no tratamento desses dados, a experiência
pode ser bastante prejudicial para a intimidade, segurança e privacidade
dos indivíduos.
Visando proteger os dados pessoais, o governo brasileiro editou leis
específicas para tratar do assunto, como o Marco Civil da Internet e a
Lei Geral de Proteção de Dados. Ambas as leis se complementam na
tutela das informações particulares dos indivíduos. Nessa esteira, o
Marco Civil estabelece as garantias do usuário na rede, como o
consentimento expresso para a utilização dos dados, a proibição do
compartilhamento com terceiros e a exclusão dessas informações após
encerrada a relação jurídica entre as partes (usuário e provedor). Como já
visto inicialmente, a referida legislação tem cunho principiológico, ou
seja, apresenta estes direitos sem regulamenta-los de modo específico.
É justamente nesse ponto que a LGPD se apresenta como indispensável.
Isso porque ao regulamentar os princípios expressos no MCI (Marco Civil
da Internet), elenca uma série de regras que devem ser seguidas pelos
agentes de tratamento de dados até mesmo no “offline”, como também
prevê a ANPD (Autoridade Nacional de Proteção de Dados), um órgão
responsável exclusivamente para fiscalizar se as operações realizadas
com os dados pessoais estão ocorrendo de modo adequado.
Saiba mais! Lei de Proteção de Dados: entenda em 13 pontos!
De outra parte, como as regras do Marco Civil são bastante abrangentes,
os órgãos de fiscalização também podem ser diferentes. Dessa forma,
compõem esse amplo rol a ANATEL (Agência Nacional de
Telecomunicações) para tratar dos casos relacionados às
telecomunicações, o Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência nos
abusos relativos à livre concorrência e a Secretaria Nacional do
Consumidor que atua nas violações aos direitos do consumidor.
Quais mudanças estão em discussão?
No momento atual, tramitam no Poder Legislativo algumas propostas de
alteração do Marco Civil da Internet. Dentre elas, o PL
n°2401/2021, criado pelo Deputado Reinhold Stephanes Junior (PSD/PR)
e apresentado à mesa da Câmara dos Deputados em 01/07 deste ano,
visa modificar o polêmico artigo 19 da referida legislação criando
mecanismos para coibir a exclusão de publicações dos usuários pelas
redes sociais com o intuito de proteger a liberdade de expressão dos
usuários e, principalmente, de políticos e influencers.
Na justificativa do projeto, busca-se garantir de modo amplo o direito
fundamental (art.5°, inciso IX da Constituição) exigindo ordem judicial ou
apresentação justificada de razões para que ocorra o bloqueio ou
remoção de contas ou publicações. Nesse sentido, prevê que o bloqueio
dos membros dos poderes públicos em exercício e dos candidatos à
cargos públicos eletivos durante as campanhas eleitorais somente
poderá ocorrer por ordem judicial e as partes podem recorrer num prazo
de cinco dias contados a partir da data de exclusão ou bloqueio. Já para
pessoas físicas e/ou jurídicas, há a previsão de indenização financeira.
Em sentido similar a essa proposta, apresenta-se também o PL n°
2393/2021 da deputada Renata Abreu (PODE/SP) que dispõe sobre a
remoção de contas e conteúdos nas redes sociais. De acordo com a
proposta, veda-se a exclusão sem autorização judicial de perfis e
conteúdos que não estejam em desacordo com a legislação nacional.
Além disso, o Poder Executivo também elaborou uma proposta de
decreto que visa regular a moderação de conteúdos nas redes sociais
alterando o Decreto n° 8771/2016, regulamentador do MCI.
A proposta, que partiu do Ministério do Turismo, anunciada em maio pelo
Presidente da República durante discurso durante na Semana Nacional
das Comunicações também foi objeto de análise da Comissão de
Fiscalização Financeira e Controle da Câmara dos Deputados. Neste link,
você pode assistir a íntegra da reunião. Segundo a minuta do decreto, as
restrições dos conteúdos só poderão ocorrer mediante ordem judicial,
proibindo-se as restrições a contas e sanções e fiscalizações às
“bigtechs”.
Outra proposta que circula na Câmara é o PL n° 2390/2021 de autoria do
deputado Emanuel Pinheiro Neto (PTB/MT) que acrescenta alguns
dispositivos aos artigos 7° e 20° do MCI. Nesse contexto, o principal
objetivo do projeto consiste na garantia de atualização de conteúdos e
informações relacionadas ao usuário na internet. Na justificativa da
proposta, o deputado argumenta que se busca assegurar o direito a
rápida reparação, correção e retificação baseada em lei para as vítimas
de Fake News, matérias ou informações equivocadas divulgadas na
Internet dado que apesar de o Supremo Tribunal Federal não tenha
acolhido o direito ao esquecimento é necessário “garantir que o usuário
que for impactado pela notícia equivocada ou desatualizada, também
encontre a informação atualizada”.
Há ainda o PL n° 2029/2021, do deputado Bosco Costa (PL/SE),
que objetiva vedar a cobrança de acesso a notícias provenientes de sites
governamentais ou de caráter de utilidade pública na internet. Nesse
sentido, ao incluir o artigo 8-A na atual redação do MCI considera a
garantia do acesso à informação e a direitos e princípios da Internet
(acessibilidade, universalidade, igualdade e justiça social).
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Referências
Marco Civil da Internet: Perspectivas de Aplicação e seus Desafios
Semanário Internetlab
Um pouco sobre o Marco Civil da Internet
Marco Civl da Internet: construção e aplicação
Especial Marco Civil 5 anos: por que devemos celebrar
Marco Civil da Internet e o encilhamento das liberdades online: análise da
governança global de conteúdo