PEC-Zonal: Experiências e Futuro
PEC-Zonal: Experiências e Futuro
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Luis Macario
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Janeiro de 2012
1
Tabela de Conteúdos
Siglas e Abreviaturas .........................................................................................................ii
Resumo Executivo ............................................................................................................iii
1 Introdução.............................................................................................................. 1
1.1 Contexto ............................................................................................................ 1
1.2 Objectivos do Estudo ........................................................................................ 2
1.3 Metodologia do Estudo ..................................................................................... 2
2 Desenvolvimento do PEC-Zonal ............................................................................. 3
2.1 Antecedentes do PEC ........................................................................................ 3
2.2 O Conceito do PEC-Zonal .................................................................................. 4
2.3 Implementação do PEC-Zonal ........................................................................... 6
2.3.1 Introdução pelo PAARSS ........................................................................... 6
2.3.2 Incorporação no ZAMWAT- CAR ............................................................... 7
2.3.3 Implementação maciça em 18 Distritos pelo UNICEF .............................. 8
2.4 Outras Abordagens ........................................................................................... 9
2.5 Comparação das Abordagens de PEC ............................................................. 10
3 Gestão e Monitoria do PEC-Zonal ........................................................................ 11
3.1 Responsabilidades de Implementação ........................................................... 11
3.2 Mecanismos de Controlo e Monitoria ............................................................ 12
3.2.1 Indicadores.............................................................................................. 12
3.2.2 Estruturas de Supervisão e Monitoria .................................................... 14
3.2.3 Constrangimentos Relacionados com a Monitoria ................................. 15
4 Potencial do PEC-Zonal Sustentar os Serviços ..................................................... 16
4.1 Metodologias de Geração da Demanda.......................................................... 16
4.1.1 Diagnóstico Rural Participativo ............................................................... 16
4.1.2 Transformação Participativa para Higiene e Saneamento ..................... 16
4.1.3 Saneamento Total Liderado pela Comunidade....................................... 17
4.2 Sustentabilidade dos Serviços ......................................................................... 18
4.2.1 Estruturas de Gestão............................................................................... 18
4.2.2 Competências e Recursos Necessários ................................................... 21
4.2.3 Contribuições Financeiras pelos Utentes................................................ 25
5 Viabilidade Institucional do PEC- Zonal ............................................................... 26
5.1 Consistência com Políticas e Leis Sectoriais .................................................... 26
5.2 Os custos de Implementação do PEC Zonal .................................................... 28
5.2.1 A Estrutura Geral dos Custos do PEC-Zonal ............................................ 28
5.2.2 O Nível dos Custos do PEC-Zonal ............................................................ 31
6 Recomendações para a Melhoria do PEC-Zonal .................................................. 31
6.1 Aspectos Funcionais do PEC-Zonal.................................................................. 31
6.1.1 Recursos Humanos Necessários............................................................. 32
6.1.2 Meios de Trabalho .................................................................................. 33
6.2 Contratação e Monitoria ................................................................................. 33
6.3 Aspectos de Sustentabilidade ......................................................................... 34
6.3.1 Contribuições da Comunidade................................................................ 34
6.3.2 Comités de Água ..................................................................................... 34
6.3.3 Mecanismos de Apoio pelo Sector Privado ............................................ 34
6.4 Enquadramento Institucional e Financeiro ..................................................... 34
i
Siglas e Abreviaturas
AASR Abastecimento de Água e Saneamento Rural
AD Administração Distrital
ADA Agência Austríaca para o Desenvolvimento
ASNANI Projecto Integrado de Água e Saneamento de Nampula e Niassa
AusAID Agência Australiana de Desenvolvimento
BAD Banco Africano de Desenvolvimento
CAS Comité de Água e Saneamento
CFPAS Centro de Formação Profissional de Água e Saneamento
CSI Consultor Sénior Internacional
DAR Departamento de Água Rural
DAS Departamento de Água e Saneamento
DNA Direcção Nacional de Águas
DPOPH Direcção Provincial das Obras Públicas e Habitação
DRP Diagnóstico Rural Participativo
EAS Empresas da Área Social
EPAR Estaleiro Provincial de Água Rural
GM Grupo de Manutenção
HAUPA Higiene Ambiental e Uso Produtivo de Água
IUM Iniciativa Um Milhão
LIFECA (Comunidade) Livre do Fecalismo a Céu Aberto (ODF)
LOLE Lei dos Órgãos Locais do Estado
MCA Millenium Challenge Account
MIPAR Manual de Implementação de Projectos de Abastecimento de Água Rural
OCB Organização Comunitária de Base
ODM Objectivo de Desenvolvimento do Milénio
ONG Organização Não-Governamental
O&M Operação e Manutenção
PA/PNA Política de Água/Política Nacional de Água
PAARSS Programa de Abastecimento de Água Rural e Saneamento de Sofala
PAASN Projecto de Abastecimento de Água e Saneamento de Nacarôa
PEC Participação e Educação Comunitária
PHAST Transformação Participativa para Higiene e Saneamento
PRONASAR Programa Nacional de Água e Saneamento Rural
PSAA Pequeno Sistema de Abastecimento de Água e Saneamento
SANTOLIC Saneamento Total Liderado pela Comunidade (CLTS)
SCAC Sistema de Captação de Água das Chuvas
SDC Agência Suíça para a Cooperação
SDPI Serviços Distritais de Planeamento e Infra-estruturas
SINAS Sistema de Informação Nacional de Água e Saneamento
TdR Termos de Referência
UE União Europeia
UNICEF Fundo das Nações Unidas para a Infância
WASH Water, Sanitation and Hygiene
WV World Vision
ZAMWAT Projecto Integrado de Desenvolvimento de Recursos Hídricos e de
Abastecimento de Água no Vale do Zambeze
ii
Resumo Executivo
Este estudo foi baseado em trabalho de campo em várias províncias e a recolha de dados
secundários sobre à implementação do PEC-Zonal. Conclui-se que os conceitos fundamentais do
PEC-Zonal continuam válidos, embora está em desenvolvimento ainda, e falta entender melhor o
seu impacto a longo prazo. O PEC-Zonal compreende três linhas principais de acção, a saber:
Mobilização e envolvimento da comunidade na planificação e construção das fontes de
água;
Mobilização da comunidade a abandonar a defecação a céu aberto e adoptar boas práticas
de higiene;
Estabelecimento e apoio a longo prazo de arranjos institucionais sustentáveis de gestão e
manutenção.
A terceira linha não tem sido efectivamente implementada pelos projectos, e chama atenção à
necessidade de um melhor enraizamento do PEC-Zonal nas Administrações Distritais.
Os custos da implementação do PEC-Zonal devem ser considerados altos. A análise mostrou que os
custos do PEC-Zonal andam a volta de 50% do custo de investimento por fonte de água. Mesmo
depois de subtrair disso os custos associados com o SANTOLIC e a promoção de boas práticas
higiénicas (estimados a nível mundial em $2 a $4 por pessoa) o custo ligado com as novas fontes
continua muito alto, em $12 a $14 por pessoa, aproximadamente $4,000/fonte, equivalente a 40%
do custo de construção. Isto realça a necessidade de procurar baixar os custos do PEC-Zonal.
No momento actual da expansão do PEC-Zonal da escala piloto à sua implementação a nível nacional
no âmbito do PRONASAR, é importante abordar estas questões da sua sustentação a longo prazo, os
custos disso, bem como alguns outros aspectos de menor peso identificados no estudo. Isto cria a
necessidade de alguns ajustes na estrutura dos custos, no quadro institucional, e nas modalidades
de supervisão, entre outros, resultando nas seguintes recomendações principais:
iii
Os custos disso seriam cobertos pelo orçamento de investimento. Os contratos deveriam fazer
provisão para os custos razoáveis de transporte, e não a compra de novos veículos. Seria da
responsabilidade da EAS/ONG ou consultor fazer os investimentos que julgar necessários, e cobrar
os custos correntes e a amortização.
iv
1 Introdução
1.1 Contexto
Uma das grandes componentes da reforma, de 1995, do sector de águas em Moçambique consiste
no enfoque da participação dos utentes, com ênfase no papel da mulher. A Política de Águas (PA)
define a participação dos beneficiários como uma das estratégias principais para garantir a
sustentabilidade dos investimentos na água rural.
Ao longo dos anos outras formas de realizar as actividades de PEC foram sendo ensaiadas em quase
todo país. Com a realização de que não basta mobilizar a comunidade somente na altura da
construção da fonte, mas que esta precisa de algum tipo de apoio ao longo do tempo para poder
garantir a sustentabilidade, nasceu o conceito do PEC-Zonal. Recebeu esta denominação porque as
actividades de PEC vêm sendo implementadas em muitas comunidades já servidas numa
determinada área (Distrito), além daquelas que estão a ganhar novas fontes. Esta abordagem foi
iniciada em Sofala pelo PAARSS em 2002, e foi concebida como um processo contínuo, com
basicamente três fases:
1. A mobilização comunitária em torno do planeamento e construção da fonte;
2. O estabelecimento de arranjos sustentáveis para a gestão das fontes, incluindo a geração e
gestão dos fundos necessários para isso (pelos Comités de Água e Saneamento – CAS), e a
provisão, através de mercados locais, de serviços técnicos profissionais e de fornecimento
de peças;
3. Apoio contínuo, mas menos intenso, para monitorar a sustentabilidade e ajudar a resolver
problemas junto aos intervenientes mencionados na fase 2.
Contudo, na prática, esta visão do PEC-Zonal nunca foi implementada integralmente, tendo sido
quase sempre restrito ao período do respectivo projecto e sustentado com recursos do mesmo,
abrangendo as fases 1 e 2 e o início da terceira fase.
Embora as diferentes abordagens de PEC não tenham sido avaliadas, o Programa Nacional de Água e
Saneamento Rural (PRONASAR) considera o PEC-Zonal como uma componente fundamental das
estratégias para melhorar a qualidade e aumentar a sustentabilidade dos serviços do abastecimento
de água e saneamento rural (AASR). Sendo assim, é importante que a experiência até à data no país
seja documentada e analisada de modo a informar a aplicação efectiva do PEC-Zonal e ajudar o
Governo a aperfeiçoar a estratégia de implementação do PEC a nível nacional. Isto abrange não
1
somente questões técnicas mas também os aspectos institucionais e financeiros, que têm grande
influência nos resultados a longo prazo.
2
Os encontros preliminares aconteceram ao nível central e nas quatro províncias e serviram para a
recolha dos dados de base, documentos conceptuais, modelos de contratos, materiais de formação
e relatórios de campo produzidos desde 2002 – 2009. Ao nível central realizaram-se encontros com
o pessoal do Departamento de Água Rural da Direcção Nacional de Águas (DNA/DAR), UNICEF,
Programa de Água e Saneamento (WSP), WASHCost, Cooperação Suíça, Cooperação Austríaca para o
Desenvolvimento (ADA), CARE Internacional, Sistema de Informação Nacional de Água e
Saneamento (SINAS), Centro de Formação Profissional de Água e Saneamento (CFPAS), WE Consult,
WV-Moçambique, entre outras instituições. Ao nível das quatro províncias foram contactados todos
Departamentos de Água e Saneamento (DAS) das Direcções Provinciais das Obras Públicas e
Habitação (DPOPHs), pessoal que trabalhou para o Projecto ASNANI (Água e Saneamento de
Nampula e Niassa), pessoal no activo e ex-trabalhadores dos EPARs, ONGs e Associações locais e
internacionais.
Os dados de campo foram recolhidos nos 13 distritos escolhidos. Originalmente o trabalho de campo
previa 8 distritos sendo 2 por província. A extensão a mais 5 distritos resultou das discussões nos
encontros preliminares, e permitiu uma maior visualização das diversas variantes do PEC. Foram
feitas entrevistas que incidiram sobre uma amostra de 65 comunidades com características e hábitos
culturais, contextos socioeconómicos e condições hidrogeológicas diversas, de modo a controlar as
externalidades que influenciam o nível de impacto das acções do PEC-Zonal. Nesses distritos, foram
contactadas ONGs, empresas de consultoria, Governos Distritais, Comités de Água e Saneamento
(CAS), mulheres, animadoras, activistas, artesãos, mecânicos, comerciantes de peças sobressalentes,
entre outros.
Numa segunda fase realizou-se uma análise da informação recolhida, a recolha de dados adicionais e
a elaboração do presente documento.
2 Desenvolvimento do PEC-Zonal
2.1 Antecedentes do PEC
O elemento de envolvimento das comunidades esteve sempre presente no abastecimento de água
com fontes dispersas, em Moçambique independente. Já em 1978 o Programa de Acção de Base da
Direcção Nacional de Águas (DNA), que compreendia a construção de poços com bombas manuais
para as aldeias comunais, continha um elemento bastante importante de participação do povo. Os
beneficiários participavam na abertura de acessos, localização e limpeza dos locais escolhidos para a
construção dos poços, escavação dos poços e confecção da comida para as brigadas de construção.
A participação das comunidades foi evoluindo com a concepção do Programa Nacional de Água Rural
(PRONAR), a meados dos anos 80s, pela então Unidade de Direcção do Abastecimento de Água e
Saneamento (UDAAS) e a criação dos Estaleiros Provinciais de Água Rural (EPARs). O PRONAR incluía
uma componente de PEC cujos contratos eram anexos aos contratos da equipa de produção de
fontes de água, que compreendiam poços, nascentes protegidas, e furos manuais ou mecânicos. O
PEC dos EPARs estendia-se também às obras executadas por outras entidades tais como a GEOMOC,
ONGs, instituições governamentais ou privadas que o requeriam.
3
Todas as formas de PEC descritas anteriormente, conhecidas como PEC Tradicional ou por Fonte,
tinham em comum prazos curtos de implementação, ênfase nas áreas de construção/reabilitação de
novas infra-estruturas, e a dissociação do processo de capacitação das comunidades do processo da
capacitação das instituições locais. O PEC Tradicional visava a preparação da comunidade para
apoiar a brigada de produção da empresa que iria executar as obras, a formar e envolver Comités de
Água, que assumiam as suas responsabilidades na implementação do projecto, recebiam as obras
em nome da sua comunidade e assumiam responsabilidades de operação e manutenção da infra-
estrutura técnica.
Nesse processo de procura de melhores formas de participação comunitária, surgiu o PEC-Zonal que
é tratado neste documento.
Até agora, o enfoque tem sido nas primeiras duas fases, baseado na assumpção de que é possível
estabelecer arranjos auto-sustentáveis de gestão e manutenção na base das comunidades (CAS) e do
sector privado (mecânicos e comerciantes).
Formação e capacitação dos intervenientes locais. Trata-se de um lado, das Comunidades, Líderes
Comunitários, OCBs, Presidentes das Localidades, Chefes dos Postos Administrativos, Governos
Distritais, DPOPH/DAS, DNA, e outras instituições do Governo, e do outro lado, da equipa do
programa, do sector privado e das ONGs.
4
A formação é feita a dois níveis. O primeiro nível é o de formação dos formadores. Este curso tem a
duração de uma semana, e visa transmitir aos formadores:
Os princípios da Política de Águas (PA), principalmente o princípio da procura, a gestão
comunitária e os papéis e responsabilidades dos vários intervenientes;
Os objectivos, metodologias e principais ferramentas da intervenção do PEC-Zonal (PHAST,
SANTOLIC);
Os aspectos contratuais e indicadores de desempenho das EAS/ONGs.
Uma vez que este processo de promoção e monitoria de mudanças de comportamento exige uma
série de contactos com cada comunidade, é natural que seja organizado na base de zonas para
simplificar a logística, daí o termo “PEC-Zonal”. Esta zona é tipicamente um Distrito, mas nada
impede que seja maior, como uma província, ou menor, como um Posto Administrativo.
Coloca as diversas partes em contacto entre si, para trabalharem em conjunto na criação dos
mercados locais e, eventualmente, arranjos contratuais;
Prepara os utentes para gerir e custear a operação e manutenção das fontes através da
colecta de taxas; e
Encoraja o envolvimento do sector privado na preparação e suporte técnico-mecânico às
comunidades e na provisão de serviços, material de construção, peças sobressalentes, etc.
A manutenção a longo prazo destes arranjos deveria ser garantida pela capacidade criada pelo
projecto nos Governos Locais, nas comunidades (CAS, activistas locais) e no sector privado. Este
enraizamento local é um aspecto fundamental do PEC-Zonal, e precisa de alguns recursos para
garantir a sua continuidade. No caso das comunidades, estes recursos deveriam em princípio ser
1
Van de Reep (2010) estimou que cerca de 20% dos agregados são abrangidos anualmente.
5
gerados por eles próprios, enquanto nos Governos Locais é necessário alocar recursos específicos
para o efeito. O sector privado deveria responder onde exista procura pelos seus serviços, desde que
seja em escala comercialmente viável.
Na fase pós-projecto, o Activista deveria continuar a ser contratado pela Administração Distrital,
com fundos descentralizados pelo Governo Provincial ou Central.
Empresa da Área Social (EAS). Pode ser uma ONG, OCB, empresa privada ou pública. É contratada
pela DPOPH/DAS para implementar actividades de PEC em 1-3 Distritos no máximo. As empresas são
obrigadas a colocar um activista por localidade, por isso, dependendo de cada distrito a EAS pode
alocar entre 6-10 activistas por distrito.
6
O Governo. No início da implementação do projecto, a DPOPH contrata a EAS, define indicadores
gerais de desempenho, monitora os serviços de água e saneamento, supervisiona os activistas,
capacita-se, e facilita a obtenção e manutenção dos serviços de água e saneamento pelas
comunidades. Com excepção do processo de contratação e definição dos indicadores de
desempenho, todos outros níveis do Governo (Distrito, Posto Administrativo, Localidade) exercem as
mesmas actividades.
7
Para a sustentabilidade dos grupos formados, o projecto fomentava a formação de Associações
Distritais de mecânicos e/ou comités de água e saneamento, através de assistência técnica,
esperando que as próprias comunidades continuassem as acções de abastecimento de água no pós-
projecto. Actualmente existem associações em Changara, Sussundenga, Guro e Cabora Bassa a
funcionar mais ou menos nos moldes inicialmente previstos pelo ZAMWAT-CAR.
O programa UNICEF Um Milhão considera que a sustentabilidade institucional pode ser alcançada
pela contratação de técnicos a nível provincial e distrital e a alocação de meios tais como viaturas,
computadores, fotocopiadoras, etc. para o seu funcionamento. A esperança é de que, depois de o
programa terminar, estas equipas locais e provinciais continuarão a dar assistência técnica e apoio
ao desenvolvimento dos projectos comunitários e dos mercados locais de água saneamento.
8
2.4 Outras Abordagens
Embora apresentem muitas semelhanças com as variantes do PEC-Zonal acima esboçadas, a maioria
dos outros projectos têm implementado um PEC que difere no aspecto crucial do enraizamento nas
comunidades e Governos Locais, o que constitui um dos elementos fundamentais para garantir a
sustentabilidade a longo prazo.
A CARE Internacional contrata ONGs nacionais para a implementação do PEC com base em contratos
anuais, nas seguintes condições:
O PEC estende-se para até 4 a 5 anos e abarca a extensão de cada um dos Distritos
abrangidos pelo projecto. As actividades de PEC são implementadas no campo directamente
pelos Facilitadores das ONGs contratadas, com o apoio de Animadores Comunitários que
recebem incentivos materiais durante o período do projecto;
Estabelecem-se contratos entre o projecto e comerciantes para venda de bombas manuais
e/ou seus componentes;
A supervisão e monitoria das actividades são feitas pelo pessoal sénior das ONGs
contratadas;
9
As ONGs prestam contas trimestralmente enquanto os pagamentos são feitos numa base
mensal de acordo com o contrato assinado com a CARE.
O PEC implementado pelo ASNANI em Mogovolas e pela HAUPA em Cabo Delgado e Nampula
seguem linhas semelhantes. Este tipo de PEC pode ser denominado “PEC de Projecto” por ser mais
enraizado no próprio projecto que nas comunidades e Governos Locais, deixando pouca capacidade
de apoio a nível local depois do fim do projecto.
Estas abordagens representam uma ênfase crescente na disponibilidade e funcionalidade das fontes
de água, na mudança do comportamento das pessoas em termos de higiene e do uso de latrinas, e
na disponibilidade e funcionalidade a longo prazo dos serviços de apoio, e uma ênfase decrescente
na construção das infra-estruturas.
O PEC da Fonte ou PEC Tradicional foi o modelo adoptado pelos EPARs, enquanto nos projectos
PAARSS e Iniciativa Um Milhão o PEC-Zonal tem se aproximado mais aos conceitos fundamentais do
PEC-Zonal. Outros projectos ao longo dos últimos anos adoptaram o PEC de Projecto, que apresenta
muitas semelhanças com o PEC-Zonal, mas com menos enfoque na capacitação dos Governos Locais
e comunidades para manter as melhorias no abastecimento de água, saneamento e higiene depois
do fim dos respectivos projectos.
10
Característica PEC da Fonte PEC de Projecto PEC-Zonal
Activistas fazem parte os resultados alcançados
da equipa do projecto
Quadro de Mediante auto de Plano anual do projecto Indicadores de
monitoria entrega da fonte desempenho
pré-estabelecidos
Legado CAS fracos CAS treinados em O&M; CAS treinados em O&M;
artesãos e comerciantes artesãos e comerciantes
capacitados; capacitados;
Às vezes, Activistas Activistas Comunitários;
Comunitários Governos Locais
capacitados
Sustentabilidade Muito limitada Limitada a moderada Moderada a alta
As propostas das EASs/ONGs ao concurso devem mostrar claramente a existência de uma cadeia de
responsabilidade, tipicamente Coordenador – Supervisor – Animador(es) – Activistas Locais. Um
aspecto comum entre o PAARSS e a IUM é que depois da sua contratação, a primeira actividade das
EAS/ONGs é o recrutamento e treinamento de um grupo de Activistas Locais suficiente para cobrir
toda área do distrito. O propósito disso é que, em última análise, são os Activistas Locais que têm a
responsabilidade principal pela mobilização e mudança do comportamento das comunidades, e pelo
apoio aos líderes na recolha de dados.
No PAARSS, define-se como suficiente um Activista por localidade, até um máximo de 10 por
distrito. Na IUM, definem-se Zonas de Influência dos Activistas (ZIAs), cada uma das quais contem
mais ou menos 5 a 8 comunidades e igual número de fontes (o número de fontes vai crescendo com
a intervenção do programa) sob a responsabilidade de um Activista. Dados de 2008 indicavam que
nos 18 distritos da IUM trabalhavam perto de 480 Activistas, perfazendo uma média de 27 Activistas
por distrito. A introdução do SANTOLIC na IUM e a forma de delimitar a área de trabalho dos
Activistas explica a diferença do número de activistas empregues pelos dois programas.
11
Para os casos tais como a IUM, Escolas Amigas da Criança, e o PAARSS, as actividades do PEC
realizam-se sob contratos com as DPOPHs ou Administrações Distritais. Porém, noutros casos,
tipicamente projectos financiados e realizados por ONGs internacionais, não existe nenhuma relação
contratual entre os implementadores do PEC e as instituições governamentais, o que leva ao fraco
envolvimento destas últimas. Isto não necessariamente prejudica a qualidade do trabalho na fase da
implementação do projecto, mas dificulta o apoio à sustentabilidade das intervenções pelas
autoridades locais depois do fim do projecto.
O papel das Unidades de Implementação dos Programas varia ligeiramente. O PAARSS presta uma
ligeira assistência técnica e financeira à DPOPH-Sofala e deixa que esta faça inteiramente todo
processo de procurement, contratação, monitoria e supervisão. Na IUM, o UNICEF aparece ao nível
central e provincial a jogar um papel importante na organização de todo processo de procurement,
assistência técnica, financiamento e monitoria das actividades do PEC-Zonal. Existe ao nível das
Províncias de Manica, Sofala e Tete uma equipa de cinco consultores regionais que presta assistência
técnica às DPOPHs/DAS e Governos Distritais, além de ter uma função importante no fornecimento
de informação sobre a implementação ao escritório do UNICEF em Maputo.
Foram encontradas semelhanças entre os indicadores utilizados pelo PAARSS e os utilizados pela
IUM. A seguir apresentam-se grupos de indicadores que resultam da fusão dos indicadores utilizados
nos dois programas2. Pode-se notar que o número de indicadores é bastante extenso; isto resulta de
uma série de mudanças feitas pelas agências financiadoras na tentativa de controlar o risco de
superfacturação, sempre presente neste tipo de trabalho onde pagam-se valores elevados para
resultados indirectos e de longo prazo.
2
A fusão baseou-se na identificação e manutenção dos indicadores comuns a cada uma das listas e a adição dos indicadores não comuns.
A estruturação e tipologia dos indicadores seguem as usadas na IUM.
12
Percentagem de Comités das Comunidades priorizadas compostas por pelo menos 50% de
mulheres
Percentagem de Comités das Comunidades priorizadas que passam a avaliação sobre HIV/SIDA
b) Indicadores de Sustentabilidade
Indicadores Gerais
Percentagem de fontes operacionais no Distrito
Tempo de espera entre uma avaria e uma reparação
Número de comunidades despertadas pelo SANTOLIC e com plano para ficar LIFECA
Número de comunidades candidata aos prémios
Número de comunidades declaradas LIFECA
Número de famílias vulneráveis apoiadas pela comunidade na construção das latrinas
Número de famílias com copa e aterro sanitário
Conforme acima mencionado, os indicadores têm evoluído desde a sua introdução em 2002, em
resposta às necessidades de cada programa de ligar o pagamento das EAS/ONGs aos resultados
alcançados.
3
Este indicador mede a eficiência dos animadores fazerem da criança o elemento da mudança na sua escola.
13
Contudo, dada a corrida das EAS/ONGs comissionadas em alcançar os indicadores, deixam de lado
aspectos importantes da governação dos serviços pela comunidade, tais como a transparência4 no
processo de gestão dos fundos colectados pelos Comités de Água e Saneamento e a democratização
da gestão comunitária5. A realização de eleições periódicas pode contribuir para a democratização
do sistema de funcionamento dos Comités de Água, bem como garantir maior transparência na
gestão dos fundos. O uso dos “Cadernos de Manutenção” produzidos pela SNV, ainda em fase
experimental, poderia ser uma oportunidade para incorporar esta componente. De qualquer forma,
é claro que o quadro de indicadores precisa evoluir um pouco mais ainda, para assegurar a
monitoria efectiva de todos os resultados que o PEC-Zonal visa alcançar, sem tornar-se excessivo do
ponto de vista dos implementadores, bem como dos próprios agentes de monitoria.
Pode-se dizer que os processos de supervisão das UIPs e das DPOPHs têm-se sobreposto, pois
enquanto as DPOPHs/DAS exercitam o seu papel de supervisão, as UIPs dos programas exercem um
controlo directo sobre os implementadores através de visitas contínuas durante a vigência dos
contratos. Por outro lado, as próprias DPOPHs e Governos Distritais estão também sob supervisão
das UIPs no que diz respeito ao dinheiro e recursos humanos que lhes são alocados, num processo
de capacitação. A meta principal das missões de supervisão, controlo e monitoria é de impulsionar
as EAS/ONGs a produzir os indicadores acordados nos contratos.
Na prática, a supervisão inicia-se com os relatórios das EAS/ONGs que geram o fluxo de informação
no PEC-Zonal, e tem obedecido a seguinte sequência:
4
A literatura sobre gestão comunitária tem apontado a falta de transparência na gestão dos fundos como um dos factores de fraca
sustentabilidade dos serviços. Com efeito, os Comités de Água e Saneamento são treinados em matérias de gestão financeira que incluem
entre outros, o registo claro dos beneficiários, comparticipações, manutenções da bomba e outras actividades afins. Uma das
constatações de campo deste estudo, foi de que os valores existentes em caixa não condizem com o número de beneficiários registados
nos cadernos dos Comités de Água. Isto deita abaixo toda alegação dos membros dos Comités de Água de que, com exepção das pessoas
mais pobres que não pagam, todas as outras famílias beneficiárias pagam dinheiro para a construção/reabilitação, operação e
manutenção e operação das fontes de água.
5
A falta de rotatividade dos membros dos Comités de Água cria comodismo e está relacionado também com a fraca prestação de contas.
Na prática, a substituição dos membros dos Comités de Água é feita quando há desistência ou na pior das hipóteses quando o membro
deixa de satisfazer os interesses dalguns líderes comunitários.
14
Utilizando um modelo padronizado, as EAS/ONGs reportam sobre o desenvolvimento de infra-
estruturas, estruturas de gestão, peças sobressalentes, saneamento, higiene, liderança e género. Os
Comités de Água, Artesãos e Mecânicos fornecem a informação aos Activistas, na base da qual eles
elaboram os seus relatórios. Estes relatórios constituem a base para os relatórios dos níveis
seguintes.
O equilíbrio entre a implementação dos mecanismos de monitoria e a execução física das obras
exige uma planificação mais cuidadosa por parte de todos os intervenientes. Com efeito, vezes sem
conta os implementadores queixaram-se de frequentes visitas de monitoria da parte dos
contratantes e financiadores. Por outro lado urge reconhecer que a pressão da monitoria pode
contribuir para um melhor desempenho da equipe e um maior sentido de prestação de contas. A
extensão do período de monitoria de 3 para 6 meses poderia amenizar a pressão sobre os
implementadores. Contudo, poderia também permitir um relaxamento por parte das ONGs/EASs
que por sua vez devem exercer pressão sobre os CAS, mecânicos, comerciantes de peças de bombas
manuais bem como dos artesãos locais.
Apesar da monitoria frequente, o pagamento às ONGs/EASs é de certa forma lento, dado ao circuito
de desembolso: SDPI/AdministraçãoDPOPHFinanciadorDPOPH (quando se trata do primeiro
adiantamento) ONGs/EASs. A descentralização total do processo de monitoria ao nível distrital e a
correspondente transferência dos fundos desta componente para o nível distrital ou provincial,
poderia minimizar o tempo de espera das ONGs/EASs pelo pagamento.
15
4 Potencial do PEC-Zonal Sustentar os Serviços
4.1 Metodologias de Geração da Demanda
O Princípio de Procura (PP) tem sido a principal abordagem que os programas de água e saneamento
têm prosseguido, empregando ferramentas de planificação participativa (ex: Diagnóstico Rural
Participativo), métodos inclusivos de mudança de comportamento e promoção de higiene (ex:
PHAST) e métodos de geração de demanda (ex: SANTOLIC).
Numa comunidade, o DRP pode ter várias combinações e sequências de métodos. As ferramentas
mais comuns incluem: mapeamento comunitário e modelação de recursos, matriz de pontos,
ranking do bem-estar (“riqueza"), diagrama sazonal, história com lacunas, diagrama de ligações
causais, e posters seriados. Outras ferramentas típicas do DRP são as entrevistas semi-estruturadas e
discussões com grupos focais.
É importante ter cuidado com a manipulação – consciente ou inconsciente – o que pode acontecer
quando um Activista ou Animador tem ideias preconcebidas e dita a discussão, o que realça a
necessidade da boa formação dos Activistas. O custo de implementar um DRP varia, mas geralmente
tem sido considerado um método económico e eficaz.
No PEC-Zonal esta ferramenta tem sido usada nos primeiros encontros, para iniciarem um processo
de auto-reflexão sobre os problemas da comunidade e as possibilidades para solucioná-los. Os
Activistas e Animadores têm usado principalmente as histórias com lacunas ou os posters seriados
como as técnicas mais simples e facilmente perceptíveis pelos diferentes grupos da comunidade.
Os Activistas Locais têm usado este método para ganharem a confiança e responsabilizar as
comunidades pelos projectos, de modo que estas sejam capazes de dizer de forma clara o que
querem e o que não querem. Esta participação activa da comunidade permite o ajuste das
actividades do projecto às suas necessidades.
16
É fundamental a identificação e selecção de Activistas Locais baseados nas comunidades onde os
programas são implementados. A selecção de Activistas ou Animadores mais experientes, que nunca
utilizaram o PHAST nos trabalhos comunitários anteriores, para participarem na formação tem
trazido vários problemas. Os problemas mais comuns são6:
O PHAST é uma das mais antigas ferramentas participativas em uso na água rural em Moçambique.
A Enfermeira Felicidade, mapeamento comunitário, rotas e barreiras de contaminação, e escadas de
água e saneamento têm sido usadas. Porém, o princípio de preparar materiais baseados em cada
situação local aliado à necessidade de integração dos processos de geração da demanda pela água,
levantamentos de infra-estruturas e do SANTOLIC tem dificultado a aplicação plena do PHAST7.
Durante todo processo de despertar, a palavra bruta local equivalente de “merda” é sempre usada,
para evitar circunlocuções que tendem a camuflar a natureza altamente desagradável das fezes, e
assim aproveitar o desgosto natural que as pessoas sentem como o motor do processo. De forma
colectiva a comunidade apercebe-se do terrível impacto da defecação a céu aberto, levando a um
momento de "ignição", quando a comunidade inicia acção colectiva para melhorar a sua situação. O
objectivo primário não é tanto a construção de uma latrina por cada agregado familiar, mas sim um
compromisso colectivo de todos para a comunidade ficar Livre de Defecação a Céu Aberto (LIFECA).
Isto tende, através da pressão de pares, a estimular os agregados a construir e utilizar latrinas.
6
Peal, Evans and van der Voorden (2010). Hygiene and Santitaion Software. An Overview of Approaches. WSSCC, Geneva, Switzerland
7
A percepção de alguns especialistas em participação comunitária é de que a existência do SANTOLIC ou da implementação do PEC-Zonal
em sí dispensa o uso do PHAST, o que constitui uma interpretação errada da abordagem.
17
durabilidade. O mais importante ainda, é que não existe uma subvenção para as famílias
construírem as latrinas, embora incentivos de âmbito comunitário podem ser oferecidos pelos níveis
superiores do governo, principalmente na forma do reconhecimento das comunidades LIFECA e seus
respectivos líderes.
Intervenções do SANTOLIC tendem a ser mais difíceis em comunidades onde intervenções anteriores
têm oferecido subsídios ou prescritas certas normas. O SANTOLIC pode ser difícil também em
comunidades costeiras onde existe o hábito de defecar na praia, e as fezes desaparecem duas vezes
por dia com as marés. Contudo, o SANTOLIC pode funcionar mesmo nestas comunidades, com uma
boa facilitação e posterior seguimento atencioso pelos líderes comunitários.
18
manutenção e limpeza. Na sua forma genérica, o grupo de gestão é composto por um presidente,
um tesoureiro e um cobrador. Este grupo recebe assistência de um secretário que é uma pessoa
com capacidade de escrever em português e fazer contas básicas. O grupo de manutenção detém as
funções mecânicas do CAS, e é composto por 3 a 6 pessoas, incluindo um mecânico. Finalmente um
grupo de limpeza, de educação e higiene ou de saneamento e higiene, é composto por 4 a 6
mulheres e é responsável por organizar a limpeza da fonte (figura 3).
Grupo de Gestão
Presidente do CAS
Tesoureiro
Cobrador
Secretário
O indicador de equilíbrio de género introduzido pelos programas é de que um CAS deve ter números
essencialmente iguais de homens e mulheres. Os Activistas e Animadores têm-se empenhado em
estabelecer este equilíbrio, mas os estudos apresentados na literatura indicam que não existe de
facto uma relação causal entre a equidade de género nas estruturas de gestão e a sustentabilidade.
Dois exemplos de gestão comunitária merecem destaque. Um foi encontrado na IUM que, entre
2007-2009, conseguiu alcançar uma funcionalidade de 100% das 122 fontes no Distrito de Guro,
Província de Manica. O outro foi encontrado em Pacassa, Distrito de Changara, Província de Tete. Foi
iniciado pelo Projecto de Água da Visão Mundial, e depois a criatividade do CAS introduziu um
modelo financeiro do tipo “Xitique” que permitiu a comunidade ter todo o dinheiro necessário para
manutenções e reparações e reduzir a tarifa de 5,00MT para 2,00MT/família/mês (Caixa 1).
19
Caixa 1 – Experiências de gestão comunitária sustentável de fontes dispersas
A experiência de Guro é ainda muito recente mas mostra claramente que, com a descentralização e
a apropriação local das fontes de água, associadas com a existência de serviços de apoio – peças,
mecânicos, etc., é possível alcançar um serviço sustentável de água nas zonas rurais. A experiência
de Pacassa traz uma nova perspectiva sobre como financiar a operação e manutenção utilizando
dinheiro localmente disponível, mas também revela o potencial que a água tem no desenvolvimento
local. Estas experiências precisam de estudos independentes mais aprofundados.
Foram identificados também modelos de gestão privada em Sofala e em Tete. A gestão privada de
fontes dispersas em Sofala foi iniciada pela Delegação Regional Centro do PRONAR (DRCP) em 1998,
no Posto Administrativo de Muxúngue, no Distrito de Chibabava. Um ano mais tarde, o PAARSS
aperfeiçoou este modelo de gestão privada, e a taxa de funcionalidade das fontes tem estado acima
de 90% desde esse ano. A participação do sector privado na gestão do abastecimento de água
mobilizou investimentos privados também, aumentando o número e qualidade das infra-estruturas
(Caixa 2).
8
[Link] acedido no dia 15 de Junho de 2011.
20
Caixa 2 – Experiência de gestão privada de fontes dispersas
Em resumo, dado que as comunidades nem sempre são competentes para gerir sozinhas os serviços,
torna-se fundamental:
Que se alcance uma participação significativa e a formação das comunidades, antes e após a
construção, de acordo com as suas necessidades especificas;
A criação de competência, em termos de habilidades e recursos humanos, recursos
financeiros, sistemas de monitoria e algum apoio quando as coisas andam mal; e
Uma plena consideração e avaliação das alternativas à gestão exclusivamente comunitária,
como sejam sistemas que permitem os agregados familiares apropriarem-se do
equipamento ou sistemas geridos por operadores privados.
9
Fogde at all (September, 2007). Sustainable Rural Water Supply in Mozambique – technological choices or adequate management
model? Paper presented to the Rural Water Supply Symposium in Lusaka, 2007.
21
Dado que o início dos programas tem sido caracterizado por carência de pessoal, os programas
levam muito tempo a tentar criá-las.
A parte mais difícil tem sido a criação de competências técnico-mecânicas efectivas ao nível das
comunidades. O Activista Local constitui o centro de desenvolvimento de competências locais do
PEC-Zonal. Ele é que de forma contínua cria e capacita os Comités de Água, os Mecânicos Locais e os
Comerciantes que devem sustentar os circuitos locais de peças sobressalentes. A seguir analisa-se
esta cadeia de competências.
a) Activistas Locais
Os Activistas Locais são vistos na óptica de extensionistas de água, como garantia para a
sustentabilidade dos serviços de água e saneamento após a retirada das EAS/ONGs. No início da
implementação do contrato com a EAS/ONG, o Supervisor da empresa identifica e treina entre 2-3
Animadores, que geralmente vêm de fora do distrito. Uma vez que os Animadores são pessoas já
experientes, o processo de sua formação leva em média uma semana. Em seguida, os Animadores
entram nos Postos Administrativos e, com ajuda do Governo Local, identificam e treinam Activistas
Locais com quem vão trabalhar nas comunidades. A formação dos activistas dura em média 15 dias.
Os conteúdos da formação deste pessoal evoluíram desde 2002. Inicialmente eram ministrados os
fundamentos da Política de Águas e do Princípio de Procura e o PHAST (Educação Comunitária
Participativa). Mais tarde este pacote foi expandido com a inclusão do SANTOLIC (Saneamento Total
Liderado pela Comunidade) e do Saneamento Total Liderado pela Escola. Os Activistas dizem que a
recente introdução do SANTOLIC nas actividades do PEC reforçou a importância do PEC-Zonal, pois
complementa a abordagem integrada de água, saneamento e higiene.
Embora os contratos especifiquem que os Activistas fazem parte da equipe de trabalho das
EAS/ONGs, e assim um elemento fundamental do PEC-Zonal, a remuneração dos Activistas não
ultrapassa os 850,00MT/mês. Mesmo assim, este incentivo financeiro é o motivo principal que os
liga aos programas. Dependendo da capacidade da EAS/ONG os Activistas podem receber
adicionalmente bicicletas/motorizadas e um kit de trabalho.
22
40% disse que iria continuar com as actividades de PEC mas não com a mesma frequência;
35% apresentou dúvidas se iria prosseguir com as actividades de educação comunitária caso
o projecto/programa termine;
25% disse que iria dedicar-se à outras actividades.
Estes últimos deixaram transparecer que o incentivo, não obstante ser limitado, continua sendo o
ponto forte que os liga ao programa. A questão sobre como os serviços dos Activistas Locais serão
pagos, deveria ser analisada nas estratégias de retirada dos projectos/programas em linha com as
estratégias de descentralização do sector. Por exemplo, no documento conceitual do PEC-Zonal de
2002, o PAARSS previa que depois de algum tempo de intervenção do programa, os Activistas Locais
fossem integrados nos Programas Distritais de Sustentabilidade, a custos mínimos. Assim, seria
tarefa do programa preparar a DPOPH e os Governos Distritais para que começassem a reorientar os
fundos que, durante muitos anos, eram alocados às reabilitações.
Os Mecânicos e Artesãos Locais são pessoas identificadas pela comunidade, geralmente de bom
comportamento social, para reparação e/ou reabilitação de fontes, construção de latrinas e passeios
numa perspectiva de pluriactividade. Eles alternam as actividades da fonte com a produção agrícola
ou outras actividades principais. Estes elementos foram observados no desenvolvimento dos
programas ZAMWAT, ASNANI, PAARSS e IUM, e existe um Mecânico Local e um Artesão em cada
Posto Administrativo. Por vezes o papel do Mecânico Distrital é feito pelos Artesãos. No modelo de
gestão privada, onde os Mecânicos Locais são simultaneamente operadores, os Artesãos Locais
convertem-se em Mecânicos ou quando não são incorporados no esquema de gestão, desaparecem
com o passar do tempo.
Nalguns programas foram introduzidos contratos entre os Mecânicos Locais e os CAS, como forma
de garantir que o negócio continue no pós-programa. Uma das estipulações é de que as
intervenções nas infra-estruturas devem ser coordenadas com o CAS, os Mecânicos, os comerciantes
de peças sobressalentes e o Governo Local. O estudo encontrou situações em que, não tendo
dinheiro em caixa, os CAS tinham levantado as peças ao comerciante, mas passado um ano o CAS
não tinha pago a dívida. O comerciante lamentava arrependido. Tal situação pode minar os esforços
dos comerciantes em tentar garantir o mínimo de estoque possível nos seus estabelecimentos
comerciais, para além de criar um ambiente de desconfiança entre as partes envolvidas.
Alguns Artesãos são responsáveis pelos Centros de Demonstração criados pelos programas, onde
para além da demonstração de vários tipos de latrinas, fabricam-se lajes e blocos. A produção se faz
mediante a solicitação verbal do cliente. Não se formaliza por escrito, nem a solicitação nem os
pagamentos que se realizam. O ritmo de produção é baixo, pois a produção oscila tipicamente entre
23
zero e máximos de 100 blocos mensais. Os Centros de Demonstração não contam com uma
estratégia de mercado e a coordenação entre os artesãos e os Governos Locais é fraca.
Geralmente, o negócio dos comerciantes rurais é pequeno e composto por mercadorias de alta
rotatividade que, infelizmente, não é uma característica das peças sobressalentes. Uma solução para
aumentar a rotatividade das peças iniciada no projecto ZAMWAT-CAR e replicada pela IUM, foi a
introdução da manutenção preventiva das fontes em cada 3 a 4 meses. Esta estratégia aumenta
consideravelmente o consumo de algumas peças pequenas tais como sola, anel O, bobinas,
casquilhos, válvula do pé, cujo valor total é tipicamente US$10, enquanto evita avarias maiores. Em
áreas onde tal prática se verifica, constata-se uma redução significativa de fontes de água
inoperacionais (por exemplo, áreas do programa IUM). Contudo, essa experiência foi feita na base
de pacotes de peças doadas aos Comerciantes, e resta ver se essa saída de peças será reposta pelos
Comerciantes através dos distribuidores provinciais, após a retirada do projecto.
Desde os anos 90 existe uma necessidade de fazer funcionar as cadeias de fornecimento de peças
sobressalentes. Contudo, as soluções têm sido sempre através dos projectos, e ao longo deste
tempo todo, Moçambique encontra-se num ‘caminho de aprendizagem’ permanente. A falta de
resolução do problema de quem gere a cadeia de fornecimento de peças, e da possível definição de
uma política de padronização das opções tecnológicas como um factor de apoio, têm reduzido a
eficácia das abordagens sociais, tal como o PEC-Zonal, que tentam promover a sustentabilidade dos
serviços pela melhoria de capacidades locais, quer das comunidades, quer do sector privado
informal.
Estas questões são de difícil resolução, não somente a nível de Moçambique, mas também no
contexto mundial. Está actualmente em curso um estudo da sustentabilidade das fontes dispersas
em Moçambique, que deve rever estas questões, e assim complementar este documento.
24
4.2.3 Contribuições Financeiras pelos Utentes
Segundo o MIPAR, as comunidades deveriam pagar:
De 2 a 5% do custo de capital para uma nova fonte,
De 2% a 10% do custo de uma reabilitação,
100% dos custos de operação e manutenção,
O custo da reposição da bomba manual no fim da sua vida útil (cerca de 10 anos).
Embora o MIPAR considere que seja aceitável que a comunidade contribua em mão-de-obra ou em
bens, este procedimento não foi verificado no estudo.
As experiências registadas indicam que deve ser possível na maioria dos casos conseguir a
contribuição da comunidade com uma mobilização efectiva e um bom alinhamento com a economia
local (por exemplo, contribuição na época pós-colheita quando as pessoas têm algum dinheiro).
Questiona-se a transformação da contribuição num fundo de manutenção, pois isso pode
desencorajar o estabelecimento da prática de contribuições mensais depois de a fonte ser entregue.
O processo de prestação de contas do CAS aos seus clientes é precário e a planificação das
actividades não é feita em formatos, fichas ou livros que permitam um seguimento do trabalho
realizado. O cobrador recebe mensalmente o dinheiro das famílias e entrega-o ao tesoureiro que o
guarda na sua casa. Em muitos dos CAS, os gastos feitos na compra de peças não são justificados por
nenhum recibo ou factura. Embora as 65 comunidades abordadas no estudo possuam alguma forma
de registo dos utentes, elas não possuem um registo formal de entradas e saídas de dinheiro.
25
Ademais, não existe uma relação clara entre o número de pessoas registadas, o valor da
contribuição e o tempo em que tal contribuição ocorreu (tabela 3).
O quadro não está muito claro, mas a tendência é que deve ser possível recolher fundos suficientes
para custear a operação e manutenção, uma vez que haja investimento na capacitação e
acompanhamento dos CAS. Outra lição é que o uso bem controlado dos fundos para apoiar outras
actividades na comunidade pode dar bons resultados e mais sustentabilidade ao CAS.
Deve-se questionar se esta disposição do MIPAR é realista, pois o custo é muito maior que o valor
que deveria ser (mas nem sempre é) contribuído na altura da construção ou reabilitação de uma
fonte. São pouquíssimos os casos onde o CAS consegue juntar a montante necessária (nas 40
comunidades estudadas, somente uma, Pacassa, chegou a este nível), e se for preciso fazer uma
contribuição especial, a experiência com as contribuições para o custo de capital indica que muitas
comunidades, provavelmente a maioria, não irão conseguir.
26
Envolver os utentes no planeamento, gestão e manutenção dos sistemas e fazer a educação
para a higiene e saneamento rural;
Estimular os utentes, a organizarem-se e a contribuir para a construção e reabilitação das
fontes de água;
Preparar os utentes para cobrirem os custos de operação e manutenção das fontes através
da colecta de taxas e a gestão transparente dos fundos;
Encorajar o envolvimento do sector privado na preparação e suporte técnico-mecânico às
comunidades e provisão de peças sobressalentes;
Mobilizar as comunidades a abandonar a defecação a céu aberto e adoptar boas práticas de
higiene.
Estas intenções são totalmente consistentes com as da Política de Águas e, embora de forma
ajustada, as responsabilidades de cada uma das partes envolvidas durante a implementação do PEC-
Zonal seguem o plasmado no MIPAR.
Por exemplo, dada à dinâmica imposta pelo PEC-Zonal, o Governo Distrital de Manica já percebeu
que precisa de fortalecer o seu quadro de pessoal técnico de 2 para 4 técnicos para melhorar a
assistência às associações de artesão, comités de água e mecânico. Definiu o Posto Administrativo
como o lugar ideal para a venda de peças sobressalentes. Mas estas intenções precisam de recursos
financeiros para a sua materialização.
27
No pacote descentralizado a implementar em distritos onde as infra-estruturas de água e
saneamento sejam abordadas ao mesmo tempo, o PRONASAR recomenda que as DPOPH-DAS,
juntamente com os distritos, criem pacotes de negócios para o PEC-Zonal em um ou mais distritos
simultaneamente.
Os custos das duas amostras (do WASHCost e do actual estudo) exibem uma certa dispersão, mas
são quase consistentes entre si – os custos anuais analisados pelo WASHCost variam de 2.3 a 4.3
milhões de Mt (MMt), com uma média de 3.0 MMt, enquanto os custos levantados neste estudo
variam de 1.0 a 4.6 MMt, com uma média de 2.6 MMt. O WASHCost tentou identificar os motivos
desta dispersão, mas nem a área, a população, e a densidade populacional do distrito, nem a
cobertura actual mostraram uma correlação com os custos. Especulou que pudesse dever-se à
quantidade de equipamento comprado ou ao nível de actividade ligado ao saneamento e higiene,
mas não houve dados para verificar ou desmentir isso. Outros factores, tais como a pouca
experiência até agora por parte das agências implementadoras, ou o nível de lucro ou custos fixos,
podem ser importantes também.
10 Para mais detalhes metodológicos e dados adicionais, favor de consultar ‘Zita e Naafs (2011). Custo das Actividades PEC-Zonal em
Moçambique. Análise dos Custos dos Contractos de 2008 a 2011. WASHCost. Folheto Informativo Moç.D01. Agosto de 2011’
11 É preciso não confundir esta categorização na estrutura nacional de custos utilizada pelo WASHCost, onde todo PEC-Zonal constitui
‘Despesas de Apoio Directo ou ExpD’. A designação usada neste estudo é para a categorização dos custos dos contratos do PEC-Zonal
apenas.
28
A distribuição destes custos nos 41 contratos analisados é apresentada na Figura 4.
Custos do PEC-Zonal
5.0
Operacional
3.5
3.0
2.5
2.0
1.5
1.0
0.5
0.0
É claro que existe uma variação significativa entre os contratos, o que pode ser devida aos factores
acima mencionados, ou outros.
Nota-se também três grupos de custos – um grupo muito perto de 1.0 MMt /ano, outro entre 1.5 e
2.0 MMt/ano e o resto entre 2.5 e 4.6 MMt/ano. Os quatro primeiros que andam a volta de
1.0 MMt/ano são os contratos feitos sob o PAARSS, que impós um preço máximo financiável de 1.0
MMt. O âmbito dos contratos é semelhante ao dos outros, salvo que não inclui o SANTOLIC (mas
inclui sim educação para higiene)12. Existe alguma percepção (que pode ou não ser correcta) de que
este nível de financiamento é apertado. O grupo do meio contem custos moderados, com uma
excepção, os contratos assinados em 2009, enquanto o grupo mais caro é o último, constituído pelos
contratos assinados em 2011. Tomados juntos, estes dados indicam que os custos de supervisão e
apoio aos activistas locais (que fazem o trabalho com as comunidades, mas que custam pouco em
comparação com o contrato total) deveriam ser bem controlados. É possível também que as
exigências do sistema de monitoria, que aumentaram entre 2009 e 2011, tendem a agravar os
custos dos contratos. Outro factor que merece mais estudo é a abrangência das actividades do PEC,
ou seja, a proporção das comunidades onde chega o PEC. Contudo, não é possível tirar conclusões
sem estudos muito mais minuciosos.
a) Despesas de Capital
O peso das despesas de capital no orçamento anual total do PEC-Zonal tem representado 17% em
média, com máximo de 55% e mínimo de 0%, e valores entre 0 e 1.9 MMt, com uma média de 0.5
MMt.
12
O WASHCost não inclui os contratos do PAARSS por considerar que os custos e metodologia de PEC eram diferentes do implementado
na IUM e no PRONASAR.
29
A Figura 5 mostra que o factor despesas de capital tem de facto uma forte correlação (R=0.7) com o
custo total. Contudo, não é o factor mais importante na determinação do custo total.
4.0
3.0
2.0
1.0
0.0
0.0 0.5 1.0 1.5 2.0
Despesas de Capital (milhões de Mt)
Uma vez que estes custos dependem principalmente da compra de viaturas e motos, pode ser
interessante a opção de deixar as EAS/ONGs arranjar estes meios com os seus próprios recursos
(inclusive o uso de veículos existentes ou de segunda mão), cobrando uma taxa de amortização pelo
seu uso, e comprar directamente quaisquer veículos necessários para as autoridades locais, em vez
de passar veículos, já usados (possivelmente sem muito cuidado) das EAS/ONGs às autoridades
locais no fim dos contratos.
b) Despesas Operacionais
Estas despesas constituem a componente mais cara. Tem representado em média 73% das despesas
totais anuais do PEC-Zonal, com máximo de 100% e mínimo de 34%, e valores entre 0.7 e 3.2 MMt,
com uma média de 1.9 MMt. Quando a EAS/ONG contratada é sólida com viaturas e equipamento
de escritório, as suas despesas operacionais representam entre 70% - 90% do valor do contrato. Isto
não seria de surpreender pois o PEC-Zonal é uma actividade que usa mão-de-obra intensiva,
executada tipicamente por EAS/ONGs que tendem a rentabilizar cerca de duas vezes mais o preço
unitário real de cada homem disponibilizado13.
Mais de 80% das despesas operacionais financiam os salários, ajudas de custo e transporte do
pessoal superior das EAS/ONGs, isto é, coordenador do projecto, supervisor distrital,
contabilista/gestor financeiro e animadores dos postos administrativos. Os activistas andam de
bicicleta e recebem um máximo de 850MT/mês, que são considerados subsídios.
Na forma como os contratos são assinados actualmente, esta estrutura de custos faz sentido,
embora os valores precisem de ser geralmente reduzidos. Contudo, olhando para um PEC-Zonal que
assegure um apoio à sustentabilidade dos serviços de água e saneamento a longo prazo, deve-se
pensar em mudar os objectivos dos contratos para incluir uma componente mais forte de
13
Até Junho 2011, um total 26 entidades tinham sido contratadas, sendo quase 50% empresas privadas de consultoria
30
estabelecimento das estruturas capazes de dar tal apoio, tais como empresas/associações locais de
água – ou seja, mais capacitação e menos supervisão.
Contudo, nem todo o trabalho do PEC está virado às fontes de água. A nível mundial o custo do
SANTOLIC anda na casa de $5 a $10 por latrina, ou seja, $1 a $2 por pessoa. Porém, mesmo
duplicando este valor para incluir outros trabalhos de higiene, o custo ligado com as novas fontes
continua muito alto, pois situa-se entre $12 a $14 por pessoa, aproximadamente $4,000/fonte,
equivalente a 40% do custo de construção. Isto realça a necessidade, mencionada acima, de
procurar baixar os custos do PEC-Zonal.
31
Mobilização da comunidade a abandonar a defecação a céu aberto e adoptar boas práticas
de higiene;
Estabelecimento e apoio a longo prazo de arranjos institucionais sustentáveis de gestão e
manutenção.
Uma maneira de promover o estabelecimento dos Activistas como recurso de longo prazo, seria de
vinculá-los desde o início com a Administração Distrital, pagando os subsídios deles (um valor muito
pequeno) através dos fundos alocados à água e saneamento. Nos momentos de actividade intensa
(programas abrangentes de investimento e/ou de higiene/SANTOLIC) haverá mais disponibilidade de
fundos para formação, e o pagamento de um subsídio extra, a serem pagos pela EAS/ONG
contratada.
Para funcionar efectivamente, os Activistas precisam de formação, reciclagem, e apoio técnico, além
de supervisão. Isto é efectuado ao nível distrital ou provincial, bem como o desenvolvimento e
acompanhamento dos serviços de apoio fornecidos pelo sector privado. Nos periodos de “ponta” –
que correspondem com as actividades actuais dos Activistas, no âmbito dos programas de
investimento – este trabalho é feito pelas EAS/ONGs, com coordenadores, supervisores e
animadores. Os animadores são alocados geralmente um por Posto Administrativo, e coordenam,
reforçam e apoiam o trabalho dos Activistas. São estes insumos que acarretam a maior parte dos
32
custos, e têm que ser cuidadosamente controlados. A maneira mais simples de efectuar isso é como
no PAARSS, através da especificação de um preço máximo, mas seria difícil calcular equitavelmente
os preços para as várias regiões do país. Os custos poderiam ser contidos também através da
especificação de um período mais curto destas actividades de ponta – uma volta parcial ao antigo
“PEC da fonte”.
Para os períodos quando há pouco ou nenhum investimento no distrito, propõe-se uma estrutura
mais magra, com acompanhamento e apoio técnico pelo responsável de água e saneamento no
SDPI14 e um consultor especializado que faria uma supervisão independente, bem como fornecer
apoio técnico. Julga-se que um tal consultor poderia tomar conta de 3 a 4 distritos, especialmente
tomando em conta o desenvolvimento do SINAS, que deveria fornecer dados actualizados sobre o
funcionamento dos serviços de água e saneamento através das estruturas do governo.
O peso da monitoria tem que ser controlado. Fora dos períodos de ponta, uma monitoria semestral,
no mesmo ritmo do SINAS, deveria ser suficiente. Nos períodos de ponta, uma monitoria trimestral
seria mais apropriada. Deve-se evitar sobreposições, e se o financiador quer participar das visitas de
monitoria, deve fazê-lo conjuntamente em visitas planeadas pelo SDPI/Consultor.
O fluxo de informação pode continuar como actualmente (ver 3.2.2 acima), com a verificação e
confirmação dos indicadores no terreno pelo consultor, acompanhado ou não por um representante
do financiador. A lista de indicadores (ver 3.2.1 acima) já foi validada no campo e não há grande
necessidade de modificá-la. Contudo, seria útil adicionar um indicador da estabilidade das estruturas
de gestão (Comités de Água). Indicadores da continuidade de serviço deveriam ser incluídos no
14
Esta figura constitui um elemento essencial de qualquer sistema para assegurar a sustentabilidade dos
serviços rurais de água e saneamento, e o PRONASAR tem que trabalhar para assegurar a presença de um ou
dois técnicos com responsabilidade para água e saneamento em cada distrito
33
SINAS, especificamente os períodos de avarias da fonte de água, a ausência de defecação a céu
aberto, e a presença de latrinas.
Nota-se também que o estabelecimento de centros de demonstração de latrinas não tem surtido
resultados interessantes, e que deve ser descontinuado.
34
Unidade de Projecto
DPOPH / DAS
Animadores Activistas
Somente em
períodos de
investimento Comunidade
intensivo
Mecânicos Comerciantes
Isto implica a necessidade de assegurar orçamentos a nível distrital para os subsídios dos Activistas e
a contratação dos Consultores de supervisão e apoio, bem como as despesas correntes e meios de
trabalho do(s) técnico(s) de água e saneamento do SDPI e das actividades do SINAS. Os custos das
EAS/ONGs, quando contratadas, seriam cobertos pelo orçamento de investimento como ocorre
actualmente.
Mesmo com a contenção de custos, é provável que as actividades do PEC “de ponta” venham a
representar por volta de um quarto do orçamento de investimento. Este investimento na
sustentabilidade só pode ser útil se houver também os elementos permanentes de apoio (técnicos
de água e saneamento nos SDPI, Activistas com subsídios, Consultores de supervisão e apoio, e
provedores de serviços no sector privado). Por este motivo é essencial que os contratos do PEC “de
ponta” sejam acompanhados pela instalação destes elementos permanentes de apoio, e que
incluam formações relevantes do pessoal envolvido (os técnicos de água e saneamento dos SDPI e os
Activistas).
35