HELOISA CARDOSO VARÃO SANTOS
SEBASTIANA S. REIS FERNANDES
FUNDAMENTOS E METODOLOGIA DE EDUCAÇÃO
DE JOVENS E ADULTOS
São Luís
2022
UNIVERSIDADE ESTADUAL DO MARANHÃO
NÚCLEO DE TECNOLOGIAS PARA EDUCAÇÃO
CURSO DE PEDAGOGIA
FUNDAMENTOS E METODOLOGIA DE
EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS
Heloisa Cardoso Varão Santos
Sebastiana S. Reis Fernandes
São Luís
2022
APRESENTAÇÃO
É na perspectiva de que sempre é tempo de aprender e sempre é tempo de
ensinar que elaboramos este texto sobre a Educação de Jovens e Adultos no sentido
do resgate de seu direito à educação, independentemente da idade, visando promover
a inclusão educacional dos jovens, algo que ainda é um enorme desafio, pois envolve
diferentes graus de responsabilidade, investimentos e ações de todos que acreditam
na educação como possibilidade de garantir ao cidadão o exercício da cidadania.
Elaboramos esta apostila com a intenção de oferecer a você, aluno de
graduação em Pedagogia, um roteiro de estudos sobre a Educação de Jovens e
Adultos, de modo que a leitura de cada Unidade possa promover a reflexão sobre cada
conteúdo apresentado. Observe que cada tópico abordado se apresenta numa
linguagem acessível, com resumo e exercícios de reflexão.
A nossa expectativa é que, ao final desta disciplina, você tome consciência
dos desafios enfrentados por grande parcela de jovens e adultos, marginalizados
devido à falta de oportunidade de estudar em algum momento de suas vidas e que
compreenda que o direito à educação de qualidade é responsabilidade de todos nós.
Para isso, contemplamos estudos sobre a retrospectiva histórica da Educação de
Jovens e Adultos no Brasil, cujo objetivo é fazer um panorama desta modalidade de
ensino da época colonial à atualidade, trazendo contribuições teórico-práticas para a
ação docente; abordamos aspectos pertinentes à metodologia de ensino, destacando
a contextualização, a problematização da realidade, a interdisciplinaridade como
princípios pedagógicos e políticos. Abordamos conteúdos necessários ao desempenho
do professor em sala de aula, os quais poderão ajudar os acadêmicos na construção
de sua aprendizagem.
Vale lembrar que os assuntos tratados pela disciplina são amplos e
complexos e, por isso, você poderá pesquisar em outras fontes complementares como
apoio e sustentação para aprendizagem efetiva dos conteúdos.
Bons estudos.
As autoras
SUMÁRIO
UNIDADE I: .............................................................................................................. 6
HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS NO BRASIL .............................. 6
1.1 Retrospectiva histórica sobre a educação de jovens e adultos do Brasil Colônia ao
Império ...................................................................................................................... 7
1.1.1 Década de 30 - Períodos de Vargas ................................................................. 8
1.1.2 Década de 40 – iniciativas políticas e pedagógicas para EJA .............................. 9
1.1.3 Década de 50 – períodos de luz para a educação de Adultos ........................... 10
1.1.4 Década de 60 – Fortalecimentos de uma cultura popular .................................. 11
1.1.5 Década de 70 – Erradicações do analfabetismo .............................................. 12
1.1.6 Década de 80 – vigências e mobilização social da EJA .................................... 17
1.1.7 Década de 90 ............................................................................................... 18
1.1.8 Década de 2000 à atualidade ......................................................................... 20
ATIVIDADE ........................................................................................................... 25
RESUMO ............................................................................................................... 25
REFERÊNCIAS....................................................................................................... 25
UNIDADE II .......................................................................................................... 27
PRESSUPOSTOS FREIRIANOS NAS PROPOSTAS CURRICULARES DE EJA ............ 27
2.1 Aspectos pedagógicos da educação libertadora de Freire ........................................ 28
2.2 Princípios educativos na perspectiva de Paulo Freire ............................................... 31
............................................................................................................................... 34
RESUMO ............................................................................................................... 37
REFERÊNCIAS....................................................................................................... 37
UNIDADE III ........................................................................................................ 39
PROPOSTA CURRICULAR DE EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS E SEUS
PRESSUPOSTOS METODOLÓGICOS ...................................................................... 39
3.1 Proposta Curricular de Educação de Jovens e Adultos ............................................. 40
3.1.2 Síntese Geral para a Educação de Jovens e Adultos.......................................... 40
3.1.3 Síntese dos objetivos gerais para a Educação de Jovens e Adultos da área de
Língua Portuguesa ................................................................................................. 40
3.1.4 Área de Matemática....................................................................................... 43
3.1.5 A resolução de problemas .............................................................................. 45
3.1.6 Estudos da Natureza e Sociedade ................................................................... 46
ATIVIDADES ......................................................................................................... 48
RESUMO ............................................................................................................... 56
REFERÊNCIAS....................................................................................................... 56
UNIDADE IV ......................................................................................................... 57
PLANEJAMENTO DA AÇÃO PEDAGÓGICA DE EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS 57
4.1 Ação pedagógica e plano didático ......................................................................... 58
ATIVIDADES ......................................................................................................... 60
AVALIAÇÃO NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS ............................................. 62
REFERÊNCIAS....................................................................................................... 63
UNIDADE I
HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO DE JOVENS E
ADULTOS NO BRASIL
OBJETIVO
• Refletir sobre os avanços e retrocessos da educação de Jovens e Adultos na
História da Educação Brasileira, analisando o papel do Estado em relação ao
direito à educação para todos.
7
1.1 Retrospectiva histórica sobre a educação de jovens e adultos do Brasil
Colônia ao Império
A educação escolar brasileira, no período colonial, teve três fases: a de
orientação jesuítica, a das reformas do Marquês de Pombal, mais notadamente a partir
da expulsão dos jesuítas do Brasil e de Portugal em 1579 e o período em que a corte
portuguesa veio ao Brasil (1808 a 1821). A trajetória da Educação de Jovens e Adultos
no Brasil teve início bem antes do Império, ainda no período colonial, quando os
missionários religiosos exerciam uma ação educativa, com adultos, destinados aos
brancos e indígenas, trazendo as primeiras noções da religião católica. Foi sendo
desenvolvida pelos jesuítas durante dois séculos, pois a educação era de
responsabilidade da igreja e não do Estado.
Segundo Moura (2003, p.26), a educação de adultos teve início com a
chegada dos jesuítas em 1549 e durante séculos esteve em poder dos jesuítas que
fundaram colégios nos quais era desenvolvida uma educação cujo objetivo inicial era
formar uma elite religiosa.
Refletindo a EJA no período colonial, Moura (2003, p. 27) esclarece que:
[...] com a expulsão dos jesuítas de Portugal e das colônias em 1759, pelo
marquês de pombal toda a estrutura organizacional da educação passou por
transformações. A uniformidade da ação pedagógica, a perfeita transição de
um nível escolar para outro e a graduação foram substituídas pela diversidade
das disciplinas isoladas. Assim podemos dizer que a escola pública no Brasil
teve início com pombal os adultos das classes menos abastadas que tinha
intenção de estudar não encontravam espaço na reforma Pombaliana,
mesmo porque, a educação elementar era privilégio de poucos e essa
reforma objetivou atender prioritariamente ao ensino superior.
Segundo os estudos realizados por Moura (2003, p. 27), a Educação de
Jovens e Adultos no período Imperial se preocupava com:
A criação de cursos superiores a fim de atender aos interesses da monarquia;
por outro lado, não havia interesse por parte da elite na expansão da
escolarização básica para o conjunto da população, tendo em vista que a
economia tinha como referencial o modelo de produção agrário.
No Período Republicano, o quadro educacional não sofreu grandes
mudanças, pois o modelo de educação permaneceu privilegiando a elite dominante e
convivendo com um grande percentual da população adulta analfabeta. Segundo
Moura (2003, p. 31), “com a proclamação da República, mesmo o país passando por
transformações estruturais no poder político, o quadro educacional não sofreu
mudanças significativas. O modelo educacional continua privilegiando as classes
8
dominantes”. Após a proclamação da República do Brasil foi outorgada a primeira
Constituição brasileira em 1824 que assegurava “uma instrução primária gratuita para
todos os cidadãos”, visando a erradicação do analfabetismo de forma compensatória
com um simples domínio básico da leitura, da escrita e de saber resolver as quatro
operações.
Desde o período do Brasil Colônia e do Império, a ação educativa tinha um
cunho específico direcionado às crianças, porém “indígenas e adultos foram também
contemplados à ação cultural e educacional nesse período”.
Sabe-se que no período colonial, os primeiros educadores religiosos
exerciam sua missão evangélica tanto para com os indígenas que aqui viviam na
então colônia brasileira, quanto voltavam-se aos filhos adultos dos proprietários de
terra. Na verdade, observa-se que, no Brasil Colonial, as primeiras iniciativas de
ensino realizadas neste período estavam voltadas mais para adolescentes e adultos
do que para crianças, visto que a “ideia dos missionários era catequizar e educar de
acordo com as normas dos colonizadores portugueses, que necessitavam de mão de
obra para a lavoura e atividades extrativistas”.
Com a saída dos jesuítas do Brasil em 1759, a educação de adultos entra
em decadência, ficando sob a responsabilidade do Império a tarefa educacional,
conforme cita Moura (2003, p. 27) onde:
[...] com a expulsão dos jesuítas de Portugal e das colônias em 1759 pelo marquês de
pombal, toda a estrutura organizacional da educação passou por transformações. A
uniformidade da ação pedagógica, a perfeita transição de um nível escolar para outro e
a graduação foram substituídas pela diversidade das disciplinas isoladas. Assim
podemos dizer que a escola pública no Brasil teve início com Pombal os adultos das
classes menos abastadas que tinham intenção de estudar não encontravam espaço na
reforma Pombalina, mesmo porque a educação elementar era privilégio de poucos e
essa reforma objetivou atender prioritariamente ao ensino superior.
A educação de jovens e adultos, reconhecida como um direito desde 1930,
ganha relevância com as companhas de alfabetização das décadas de 1940 e 1950,
com os movimentos de cultura popular dos anos 1960, com o Mobral e o ensino
supletivo dos governos militares e a Fundação Educar da Nova República (HADDAD;
DI PIERRO, 1994).
1.1.1 Década de 30 - Períodos de Vargas
A Revolução de 1930 é um marco na reformulação do papel do Estado no
9
Brasil, sendo traçadas com mais afinco as mudanças políticas e econômicas do país.
Pela primeira vez, a educação de adultos foi reconhecida como um dever do Estado,
asseverado pela Constituição de 1934 quando da criação do Plano Nacional de
Educação, que incluía em suas normas a oferta de ensino primário integral e gratuito,
extensiva também aos adultos.
1.1.2 Década de 40 – iniciativas políticas e pedagógicas para EJA
Em 1945, finalmente, o Fundo Nacional do Ensino Primário foi
regulamentado, estabelecendo que 25% dos recursos de cada auxílio deveriam ser
aplicados num plano geral de Ensino Supletivo, destinado a adolescentes e adultos
analfabetos.
Todo esse conjunto de iniciativas permitiu que a educação de adultos se
firmasse no cenário político nacional, com apoio internacional; ressalta-se, aqui, os
movimentos internacionais e organizações que primam pela erradicação do
analfabetismo nas nações menos favorecidas, a exemplo da ONU (Organização das
Nações Unidas) e da UNESCO (Órgão das Nações Unidas para a Educação, Ciência
e Cultura) criada em novembro de 1945, logo após a Segunda Guerra Mundial, e
denunciava ao mundo as desigualdades entre os países, exercendo influência
positiva, acompanhando os trabalhos que vinham sendo realizados no Brasil e
estimulando a criação de programas nacionais de educação de adultos analfabetos.
A trajetória educacional continua seu percurso, colocando a EJA em
evidência na década de 40, quando algumas iniciativas políticas e pedagógicas foram
criadas e regulamentadas, quais sejam: o fundo Nacional do Ensino Primário (FNEP),
criado em 1942, o Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos - INEP, uma autarquia
federal, vinculada ao Ministério da Educação (MEC), cuja missão é subsidiar a
formulação de políticas educacionais. Através dos seus recursos, o FNEP deveria
realizar um programa progressivo de ampliação da educação primária que incluísse o
Ensino Supletivo para adolescentes e adultos. A partir dessa iniciativa, houve o
lançamento da Campanha de Educação de Adolescentes e Adultos (CEAA) e
surgiram as primeiras obras dedicadas ao ensino supletivo.
10
1.1.3 Década de 50 – períodos de luz para a educação de Adultos
Duas outras campanhas ainda foram organizadas pelo Ministério da
Educação e Cultura: uma em 1952 – a Campanha Nacional de Educação Rural
– CNER – e outra, em 1958 – a Campanha Nacional de Erradicação do
Analfabetismo (CNEA) – que marcou uma nova etapa nas discussões sobre a
educação de adultos; ambas tiveram vida curta e pouco realizaram daí sua
extinção. Acontece em 1958 o 2º Congresso Nacional de Educação de Adultos,
realizado em Recife, cuja ideia era criar um programa de enfrentamento ao
problema de alfabetização, originando em 1963 o Plano Nacional de
Alfabetização de Adultos, dirigido por Paulo Freire e extinto pelo Golpe de
Estado de 1964.
SAIBA MAIS
Segundo Gadotti e Romão (2001), os termos educação de adultos,
11
educação popular, educação não formal e educação comunitária são usados como
sinônimos, mas não o são. A educação de adultos caracteriza-se pela postura da United
Nations Education Social and Cultural Organization (UNESCO) reportando-se a uma
área especializada da educação. Educação não formal é utilizada pelos Estados Unidos
para fazer referência à educação de adultos dos países de terceiro mundo, onde se
reserva o uso do termo educação de adultos (GADOTTI; ROMÃO, 2001). No Brasil, o
termo educação não formal acompanha o conceito difundido na América Latina, que
se dirige à educação de adultos vinculada a organismos não governamentais,
geralmente locais onde o Estado se omitiu. Assim, está desenvolvida e organizada em
caráter de não parceria com os organismos formais.
A educação popular caracteriza-se pela compreensão contrária à educação
de adultos impulsionada pelos organismos oficiais, surgindo nos espaços em que a
necessidade dos grupos aflora e o Estado não tem intenção nem força para atuar. A
característica da educação popular brota com o entendimento da conscientização de
Paulo Freire e um profundo respeito aos saberes populares (GADOTTI; ROMÃO, 2001)
1.1.4 Década de 60 – Fortalecimentos de uma cultura popular
Um período de luz para a educação de adultos ocorreu no período
de 59 a 64. Os primeiros anos da década de 1960 até 1964, quando o golpe
militar ocorreu, constituiu-se um momento bastante especial da educação de
adultos, uma vez que o Estado associou-se à igreja, dando novo impulso às
campanhas de alfabetização de adultos, aqui citados: o Movimento de
Educação de Base, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil,
estabelecido em 1961, com o patrocínio do Governo Federal; o Movimento de
Cultura Popular do Recife, a partir de 1961; os Centros Populares de Cultura,
órgãos culturais da UNE; a Campanha “De pé no chão também se aprende a
ler”, da Secretaria Municipal de Educação de Natal; o movimento de Cultura
Popular de Recife; e, finalmente, em 1964, o Programa Nacional de
Alfabetização do Ministério da Educação e Cultura, que contou com a presença
do professor Paulo Freire. No entanto, todos os movimentos de alfabetização
foram reprimidos com o golpe militar, sobrevivendo apenas O Movimento de
Educação de Bases, por estar ligado ao MEC e à igreja católica. Grande parte
desses programas estava funcionando no âmbito do Estado ou sob seu
12
patrocínio. No intuito de garantir o direito à cidadania perante o mundo, o
governo criou em 1967 o Mobral, resultado de uma grande “campanha de
massa, vendendo a ideia de que a força do trabalho contava com pessoas
alfabetizadas”, assim declara Paiva (1982, p.100). O Mobral procura
restabelecer a ideia de que as pessoas que não eram alfabetizadas eram
responsáveis por sua situação de analfabetismo e pela situação de
subdesenvolvimento do Brasil.
SAIBA MAIS
O PERÍODO MILITAR
Diante da ruptura política originada pelo golpe Militar de 1964, a
Educação de Jovens e Adultos sofreu ligeiro descompasso, uma vez que o
Plano nacional de Alfabetização coordenado por Paulo Freire foi engavetado e
seus representantes exilados e perseguidos.
Os movimentos sociais envolvidos na Campanha “De pé no chão
também se aprende a ler” foram interrompidos e silenciados pelos órgãos de
repressão. A coerção do Estado fez calar as iniciativas da CNBB com o
Movimento Eclesial de Base – MEB que mantinha programa de Alfabetização
para o povo nas CEBS – Comunidades Eclesiais de Bases ligadas à igreja
católica.
1.1.5 Década de 70 – Erradicações do analfabetismo
Na década de 70, ainda sob a ditadura militar, instaura-se
efetivamente o movimento que marca o início das ações do Movimento
Brasileiro de Alfabetização – MOBRAL, criado pela Lei nº 5.379, de 15 de
dezembro de 1967 a 1985, cuja meta propunha acabar com o analfabetismo
em dez anos, haja vista que esse movimento tinha como foco metodológico o
ato de ler e escrever. O método de Paulo Freire utiliza o conceito de "palavra
geradora" tirada do cotidiano dos alunos; no MOBRAL, as palavras eram
definidas a partir de estudo das necessidades humanas. Conclamavam a
população a fazer a sua parte, tendo como pano de fundo uma canção da dupla
de cantores: Dom e Ravel, com a música que tem por título “VOCÊ TAMBÉM
É RESPONSÁVEL”:
13
Você também é responsável, uma composição de Dom e Ravel,
transformada, em 1971, pelo ex-ministro da Educação, Jarbas Passarinho,
no hino do Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral). A música fala
sobre o analfabetismo, que até hoje ainda persiste em nosso país.
Acesse: https://youtu.be/uMYbxubO9Fo
Você também é responsável
Eu venho de campos,
subúrbios e vilas,
Sonhando e
cantando,chorando nas
filas,Seguindo a corrente
sem participar, Me falta a
semente do ler e contar.
Eu sou brasileiro anseio
um lugar, Suplico que
parem, prá ouvir meu
cantar. Você também é
responsável, Então me
ensine a escrever, Eu
tenho a minha mão
domável, Eu sinto a sede
do saber. Eu venho de
campos, tão ricos tão
lindos, Cantando e
chamando, são todos
bem-vindos. A nação
merece maior dimensão,
Marchemos prá luta, de
lápis na mão. Eu sou
brasileiro, anseio um
lugar, Suplico que parém,
prá ouvir meu cantar
Na década de 70, destacou-se no país o ensino supletivo, criado em
1971 pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº 5.692/71
(BRASIL, 1971). Porém, foi em 1974 que o Ensino Supletivo, numa gestão de
reformas autoritárias e no processo de modernização conservadora do país,
teve um estatuto próprio, o que não garantiu unidade com o ensino regular.
Embora o Estado busque garantir uma, o princípio da flexibilidade visto como
premissa do ensino supletivo instaurou-se na EJA acarretando índices
elevados de evasão no processo educativo. Vale ressaltar que a nova LDB
14
incorporou uma mudança conceitual do Ensino Supletivo, conforme afirma
Soares (1999, p. 12),
A mudança de ensino supletivo para educação de jovens e adultos
não é uma mera atualização vocabular. Houve um alargamento do
conceito ao mudar a expressão de ensino para educação. Enquanto
o termo “ensino” se restringe à mera instrução, o termo “educação”
é muito mais amplo, compreendendo os diversos processos de
formação.
Ocorreu o aumento da pressão internacional de organismos com a
Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura
(UNESCO), registra a existência de um descaso em relação à educação de
adultos nesse novo regime, o que causava uma imagem negativa do país em
âmbito internacional (PAIVA, 1987, p. 260).
Segundo Corrêa (1979, p. 52), o Programa de Alfabetização
Funcional apresentava seis objetivos:
• desenvolver nos alunos as habilidades de leitura, escrita e contagem;
• desenvolver um vocabulário que permita o enriquecimento de seus
alunos;
• desenvolver o raciocínio, visando facilitar a resolução de seus
problemas e os de sua comunidade;
• formar hábitos e atitudes positivas em relação ao trabalho;
desenvolver a criatividade, a fim de melhorar as condições de vida,
aproveitando os recursos disponíveis;
• evar os alunos a conhecerem seus direitos e deveres e as melhores
formas de participação comunitária, bem como a se empenharem na
conservação da saúde e melhoria das condições de higiene pessoal,
familiar e da comunidade; a se certificarem da responsabilidade de cada
um, na manutenção e melhoria dos serviços públicos de sua
comunidade e na conservação dos bens e instituições e a participarem
do desenvolvimento da comunidade, tendo em vista o bem-estar das
pessoas.
O MOBRAL desenvolveu outros programas, como o Programa de
Alfabetização Funcional, atendendo aos jovens e adultos analfabetos, com
material didático da Editora Bloch e José Olympio, onde explorava as palavras
geradoras significativas para os jovens e adultos analfabetos. Observe as
Figuras a seguir presentes na Cartilha do Mobral.
15
Figura 1 – Palavra geradora: trabalho.
Fonte: Oliveira e Souza (2013).
Figura 2 – Palavra geradora: hino.
Fonte: Oliveira e Souza (2013).
Figura 3 – Palavra geradora: foguete.
Fonte: Oliveira e Souza (2013).
16
• Programa de Educação Integrada
Implantado em 1971, tendo seu período de expansão entre os anos
de 1972 e 1976, criado com o objetivo de dar prosseguimento à formação
acadêmica do indivíduo.
• Programa MOBRAL Cultural
Este programa foi lançado com vistas a preservar a cultura local,
resgatar as manifestações locais ligadas ao patrimônio artístico, cultural e
ecológico das cidades, sendo distribuído aos Postos Culturais uma Biblioteca
e, em alguns Postos implantados em cidades de maior porte, era distribuído
também um conjunto de instrumentos musicais. Em cada região, um caminhão
estruturado com pinacoteca, biblioteca, baú da criatividade e palco foi doado
por empresas nacionais para realizar um trabalho de divulgação e resgate de
manifestações culturais dos municípios, as MOBRALTECAS.
Figura 4 - MOBRALTECA
Fonte: Arquivo pessoal de Wilma de Omena Lopes Correa (1980).
As ações do MOBRAL Cultural norteavam-se segundo os princípios
de “democratização da cultura”, “dinamização da criatividade”, “intercâmbio
cultural”, valorização do homem, da cultura local e preservação da cultura
(CORRÊA, 1979).
17
• Programa de Profissionalização:
Este programa foi criado em 1973, surgiu por meio de
parcerias com entidades privadas, buscando profissionalizar os alunos de EJA
por meio de cursos de pequena duração como confeitos de bolo, torneiro
mecânico, eletricista e mecânico de trator etc.
SAIBA MAIS
Leia sobre a criação do MOBRAL, FUNDAÇÃO EDUCAR e PNAIC no
Portal do MEC. Disponivel no link é www.mec.gov.br
O Mobral foi instituído no início do governo de Médici (1970) e
substituído no governo José Sarney (1985) pela Fundação EDUCAR, extinta
pela medida Provisória 251, editada no dia da posse do presidente Fernando
Collor em 1990. O MEC deu início neste mesmo ano ao Programa Nacional de
Alfabetização e Cidadania (PNAC), extinto após um ano de funcionamento por
falta de investimento financeiro.
1.1.6 Década de 80 – vigências e mobilização social da EJA
A Constituição Brasileira de 1988 reconheceu o direito de todos à
educação, ao estabelecer o ensino fundamental como obrigatório e gratuito
independentemente da idade. A referida Constituição demarcava avanço do
ponto de vista normativo ao ampliar o dever do Estado para todos aqueles que
não têm escolaridade básica, independentemente da idade. Neste sentido, foi
“destinado ainda 50% dos recursos de impostos vinculados ao ensino para
combater o analfabetismo e universalizar o ensino fundamental” (HADDAD; DI
PIERRO, 1994).
Nos anos 80, foi possível implantar a Fundação Nacional para
Educação de Jovens e Adultos (Fundação Educar), vinculada ao Ministério da
Educação, que ofertava apoio técnico e financeiro às iniciativas de
alfabetização existentes (VIEIRA, 2004a).
18
1.1.7 Década de 90
Os avanços obtidos na década de 80 teve um retrocesso durante o
governo de Fernando Collor. Em 1990, a Fundação EDUCAR foi extinta e o
governo criou o Programa Nacional de Alfabetização e Cidadania – PNAC
que conclamava as organizações não governamentais e as Prefeituras e
entidades a oferecerem alfabetização para os jovens e adultos trabalhadores.
Após o impeachment do presidente Fernando Collor de Mello, o
presidente Itamar Franco não deu início ao programa criado por Collor de Mello
e os jovens e adultos foram sendo atendidos pelas ONGs e Prefeituras, de forma
fragmentada.
Mesmo com a extinção da FUNDAÇÃO EDUCAR, o governo brasileiro,
pressionado pelas Organizações Internacionais, em função da comemoração do
Ano Internacional da Alfabetização, lançou um Programa para fazer cobertura
às lacunas deixadas pelo MOBRAL e FUNDAÇÃO EDUCAR mesmo não
apresentando sustentabilidade política e financeira para uma tarefa tão difícil
que era eliminar o analfabetismo. No governo de Fernando Henrique Cardoso,
em 1997, foi criado o Programa Alfabetização Solidária, o qual foi criado pelo
Conselho da Comunidade Solidária com o objetivo de reduzir os índices de
analfabetismo entre Jovens e Adultos no país, principalmente na faixa etária de
12 a 18 anos e desencadear a oferta pública de Educação de Jovens e Adultos.
Com a criação da Associação de Apoio ao Programa Alfabetização
Solidária -ALFASOL, uma organização não governamental sem fins lucrativos e
de utilidade pública, com estatuto próprio, passou a ser responsável pela
execução do Programa, que teve a missão de reduzir os expressivos índices de
analfabetismo e colaborar na ampliação da oferta pública de Educação de
Jovens e Adultos. Esse compromisso em alfabetizar não se restringia a ensinar
a escrever o seu próprio nome, mas compreender o processo, que consiste em
ensinar a ler e escrever e a pensar sobre o que foi lido e escrito e cujo objetivo
é ampliar a visão de mundo do educando, fazendo-o um ser crítico e reflexivo
(ALFASOL, 1998).
A missão do PAS – AFASOL vai além de alfabetizar e este passo só
será alcançado pela continuidade na escola. O Programa Alfabetização Solidária
19
é uma tentativa do Governo Federal, através do Ministério da Ação Social de
erradicar ou, pelo menos, combater o analfabetismo no Brasil. Para mais
informações, acesse: https://alb.org.br/arquivomorto/edicoes_anteriores/anais
16/sem01pdf/sm01ss10_05.pdf.
Notícias de épocas distantes, tratando de realidades bem próximas
Vamos ler uma afirmação feita por Machado de Assis em 1879 e
uma notícia veiculada na Folha de São Paulo no dia 09/06/2003 a respeito do
analfabetismo.
A nação não sabe ler. Há só 30% dos indivíduos residentes neste país que podem ler;
desses uns 9% não leem letra de mão. 70% dos cidadãos votam do mesmo modo que respiram
:sem saber por que nem o quê. Votam como vão à festa da Penha por divertimento. Constituição
é para eles uma coisa inteiramente desconhecida. Estão prontos para tudo: uma revolução ou um
Golpe de Estado [...] as instituições existem, mas por e para 30% dos cidadãos. Proponho uma
reforma no estilo político.
Machado de Assis (1879).
Fonte: Folha de São Paulo (2003).
20
1.1.8 Década de 2000 à atualidade
Buscou-se cumprir a função reparadora e oportunizar ao adulto analfabeto
a possibilidade de estudar em pé de igualdade numa sociedade excludente uma vez
que nem todos puderam estudar na “idade convencional”. Sendo assim, o Parecer nº
11/2000 do Conselho Nacional de Educação (CNE) diz que: “A Educação de Jovens e
Adultos (EJA) representa uma dívida social não reparada para com os que não tiveram
acesso ao domínio da escrita e leitura como bens sociais, na escola ou fora dela, e
tenham sido a força de trabalho empregada na constituição de riquezas e na elevação
de obras públicas”.
Em 2003, o Governo Federal criou a Secretaria Extraordinária de
Erradicação do Analfabetismo, lançando então o Programa Brasil Alfabetizado, nele
incluídos o Projeto Escola de Fábrica (voltado para cursos de formação profissional), o
PROJOVEM (com enfoque central na qualificação para o trabalho, unindo a
implementação de ações comunitárias) e o Programa de Integração da Educação
Profissional ao Ensino Médio para Jovens e Adultos (PROEJA) (VIEIRA, 2004).
Já em 2007, o Ministério da Educação (MEC) aprova a criação do Fundo de
Desenvolvimento da Educação Básica (FUNDEB), passando todas as modalidades de
ensino a fazer parte dos recursos financeiros destinados à educação (BRASIL, 2007).
Sabemos que o Brasil é marcadamente excludente e que o analfabeto é
discriminado. Mesmo assim, falta continuidade nas políticas públicas voltadas para a
educação dos jovens e adultos e ao apresentarem programas não asseguram a
continuidade e nem as ações complementares, como fornecimento de óculos e de
alimentação de qualidade para aqueles que estudam à noite, após um dia de trabalho.
SAIBA MAIS
Jovens e Adultos: uma memória contemporânea (1996). Disponível em:
www.unesco.org.br2004
Sugestão de filmes /vídeos
• Paulo Freire – Biografia, disponível em: https://youtu.be/jzUgb75GgpE
. O documentário conta a vida e a carreira profissional de Paulo Freire.
Pernambucano, nascido em 1921.
21
• História da EJA no Brasil, disponível em: https://www.youtube.com/
watch?v=LjHMMgM2dNM.
Leia a história de EJA contada em cordel de autoria de Carmen Lúcia Lira de
Andrade (Educação de Jovens e Adultos)
Meu professor professora
A quem foi dada a função
De ensinar com vontade
Ao povo desta Nação
A vencer o analfabetismo
Com muita garra e heroísmo
Peço-lhes sua atenção
Embora o nosso Brasil
Tenha seus quinhentos
anos . Só nos mil e
novecentos . Começou a
traçar planos . Como o
fim do Estado Novo De
educar o povo – Mas só
nos espaços urbanos.
Por trás havia o interesse
por bases eleitorais Que
ficassem nas cidades, os
imigrantes rurais.
E escondiam decerto,
quantos eram analfabetos.
Falseando os numerais.
Foi quando em cinquenta e
Oito. O Governo Federal lançou
a sua campanha
De amplitude nacional,
pro povo aprender a ler.
22
E ainda poder entender
sua exclusão social
Pois só a partir daí o
jovem ou adulto
educado Poderia
construir o futuro tão
almejado. Sendo assim,
a educação,
instrumento de
formação Do cidadão
respeitado assim
surgiram as campanhas
para alfabetização
dizendo que jovens e
adultos. Tinham direito
à educação. Foram
muitas as campanhas .
Nenhuma delas deu certo; daí a
sua extinção. Por muita iniciativa
educacional a década de
sessenta foi marcada Tanto pelo
Governo Federal como pela
sociedade organizada. Foram
criados os CPCs, O MEB, Pé no
chão e MCPs. Em cada Estado
do Brasil tinha assentada uma
empreitada Realizado no Rio de
Janeiro o Congresso Nacional de
Educação Procurou definir com
mais rigor pedagogia e a
diferenciação. Entre a prática de
ensino utilizada na educação
dirigida à criançada E a proposta
para o adulto cidadão Paulo
Freire, o grande educador.
23
Defendia a ação educativa que
desse o indispensável valor
Pra consciência crítica ativa passando
de objeto a sujeito Humanização,
liberdade e direito seria a maior
expectativa. Seu Plano Nacional de
Educação foi cortado pelo golpe militar
Considerado ato de subversão que os
militares não podiam tolerar
A educação que Paulo Freire pretendia este
novo Governo já proibia Em nome da
“ordem” preservar só o MEB pôde então
permanecer Por ser ligado à Igreja, à CNBB,
mas sua metodologia foi mudada.
Foi o preço pago pra tentar sobreviver
boa parte dos técnicos demitida
E a sua didática distorcida logo, logo também
ficou à mercê. Cruzada de Ação Básica Cristã
criada em sessenta e seis Além de alfabetizar
dava alimento, por vez.
Mas também foi derrubada, sua
imagem muito abalada, Altos
custos, todo mês na década de
setenta. Apareceu o Mobral pra
melhorar a imagem. Econômica
nacional, mas com a legitimação
vinha à neutralização
Do conflito social Mobral depois se transformou
Na Fundação Educar, Mas a pesquisa mostrou
O que se tentava ocultar Alfabetização –
imagem de sucesso Realidade –
gente demais, em excesso excluída do banco escolar.
Em outubro de oitenta e oito a Constituição Federal
Assegurou para todo o Ensino Fundamental.
Cabendo ao Estado prover a escola e condições pra que
24
a Lei ficasse legal no governo Erundina Paulo Freire, do
Mova foi criador. Trazendo alfabetização para o
trabalhador. Atendidos muitos mil espalhou-se pelo
Brasil. O pensamento renovador o Mova já demonstrava
Que era fundamental unir público e privado Numa esfera
não-estatal Política e administrativa Com a sociedade
ativa, contra a exclusão social.
Não dá mesmo pra entender a
Educar em extinção Enquanto a
UNESCO celebra o Ano da
Alfabetização
O Governo enganando o nosso povo
assinando um documento novo A Declaração
Mundial da Educação, pois logo em noventa e
um. O MEC formalizou não ter mais a
intenção
(O próprio Governo informou) de adultos
educar Vai só criança ensinar o tempo do
adulto, passou. Passou o governo Itamar
passou o FHC
E só em noventa e sete a EJA voltou
a ser E só em noventa e sete a EJA
voltou a ser. Um Programa por inteiro
Norte e Nordeste primeiro
Para a região crescer dois anos depois partia também
pros centros urbanos
A proposta criticada por estabelecer bravos
planos Em seis meses ensinar o adulto
alfabetizar Milagre por trás dos panos!
Mas nem o Fundef registra alunos do supletivo.
O MEC acabou criando um crédito meio ilusivo/Pro
professor se formar e material comprar
Eis seu empenho exclusivo Lula acendeu a
esperança/Da justiça social voltando a assumir
com a EJA. Compromisso natural agora vamos
saber/O que vai acontecer a Educação Nacional.
25
É o desejo de todos que esta breve leitura/Chegue
a todos vocês com clareza e bem madura. E que
a todos com igualdade traga mais dignidade/Com
uma nova assinatura.
ATIVIDADE
Faça uma leitura crítica sobre os avanços do movimento de democratização
de oportunidades de escolarização básica dos adultos e pesquise sobre a luta
política dos grupos que disputavam o aparelho do Estado em suas várias
instâncias por legitimação de ideais via prática educacional.
RESUMO
Nesta Unidade, refletimos sobre a Educação de Jovens e Adultos e sobre a
retrospectiva histórica, política e social de décadas, à luz de avanços e
retrocessos nas políticas educacionais, em observância à luta de homens,
mulheres, jovens, adultos e idosos que buscam uma ascensão na vida, na
certeza de que isso favorecerá um futuro promissor, embora de forma tardia.
Esse direito é pensado, refletido desde o Brasil colônia à contemporaneidade.
Projetos, programas e movimentos são criados em diferentes abordagens e
discussões sobre a EJA no sentido de garantir o direito de jovens e adultos ao
conhecimento e à valorização sociocultural destes, de forma significativa, num
processo de formação para e pela cidadania desses sujeitos. Há de se
entender que, em toda sociedade, a alfabetização é uma habilidade primordial
em si mesma e um dos pilares para o desenvolvimento de outras habilidades.
O desafio é oferecer e garantir esse direito a quem deixou de exercer esse
mesmo direito em tempo hábil.
REFERÊNCIAS
ASFSOL. Alfabetização Solidária. Avaliação final: segundo semestre de 1998.
Brasília: Programa de Alfabetização Solidária, 1998. Orientações sobre o Programa
de Alfabetização Solidária. Brasília: Programa de Alfabetização Solidária, 1998.
ALMEIDA, T. W. (coord.). Programa de alfabetização funcional na região
nordeste: subsídios para avaliação. Rio de Janeiro: MEC;MOBRAL, 1976.
26
BRASIL. Lei de Diretrizes e Base da Educação nº 5.692, de 11 agosto de
1971. Fixa Diretrizes e Bases para o ensino de 1° e 2º graus, e dá outras
providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 11 ago. 1971.
BRASIL. Alfabetização Solidária. Avaliação final: segundo semestre de
1998. Brasília: Programa de Alfabetização Solidária,1998.
CÂMARA DOS DEPUTADOS. Lei nº 5.379, de 15 de dezembro de 1967.
Provê sobre a alfabetização funcional e a educação continuada de
adolescentes e adultos. Brasilia, DF: Câmara dos Deputados, 1967.
CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. Parecer nº 11/2000, de 10 de
maio de 2000. Dispõe sobre as Diretrizes Curriculares Nacionais para a
Educação de Jovens e Adultos. Brasília, DF: CNE; CEB, 2000.
CORRÊA, Arlindo Lopes. Educação de massa e ação comunitária. Rio de
Janeiro: AGGS;MOBRAL. 1979.
GADOTTI, M; ROMÃO, J. E. Educação de Jovens e Adultos: teoria, prática
e proposta. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2001.
HADDAD, Sérgio; DI PIERRO, Maria Clara. Diretrizes de política nacional
de educação de jovens e adultos: consolidação de documentos 1985/1994.
São Paulo: CEDI; Ação Educativa, 1994.
MOURA, M. da G. C. Educação de Jovens e Adultos: um olhar sobre sua
trajetória histórica. Curitiba: Educarte, 2003.
PAIVA, Vanilda P. Educação Popular e Educação de Adultos. 5. ed. São
Paulo: Loyola, 1987.
PORTINARI, Cândido. História da EJA no Brasil. YouTube, 2012. Disponível
em: https://www.youtube.com/watch?v=LjHMMgM2dNM. Acesso em: 25 nov.
2022.
SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros. São Paulo:
Autêntica, 1999.
UNESCO. Jovens e adultos: uma memória contemporânea. Brasília: UNESCO;
MEC, 2004.
VIEIRA, M. C. Fundamentos históricos, políticos e sociais da educação
de jovens e adultos: aspectos históricos da educação de jovens e adultos
no Brasil. Brasília, DF: Universidade de Brasília, 2004a.
VIEIRA, Rafael. PROEJA no mundo do trabalho e a EAJA na rede
municipal de Goiânia: Possibilidades e desafios. [2004].
27
UNIDADE II
PRESSUPOSTOS FREIRIANOS NAS
PROPOSTAS CURRICULARES DE EJA
OBJETIVO
• Refletir sobre os princípios e pressupostos pedagógicos da Educação
de Jovens e Adultos, percebendo as etapas do método de alfabetização.
Figura 5 - Paulo Reglus Neves Freire.
Fonte: Projeto Pedagogico TIC (2000).
“Se é possível obter água cavando o chão, se é possível enfeitar
a casa, se é possível crer desta ou daquela forma, se é possível
nos defendermos do frio ou do calor, se é possível desviar leitos
de rios, fazer barragens, se é possível mudar o mundo que não
fizemos, ou da natureza, por que não mudar o mundo que
fazemos: o da cultura, o da história, o da política.”
Paulo Freire
28
2.1 Aspectos pedagógicos da educação libertadora de Freire
Figura 6 - Paulo Reglus Neves Freire.
Fonte: Rede Brasil Atual (2022).
Paulo Reglus Neves Freire (Recife, 19 de setembro de 1921 - São Paulo,
2 de maio de 1997) foi um educador, pedagogo e filósofo brasileiro. É considerado um
dos pensadores mais notáveis na história da pedagogia mundial, tendo influenciado o
movimento chamado pedagogia crítica.
Ele foi o educador brasileiro que mais pensou, discutiu e lutou pela
Educação de Jovens e Adultos, por acreditar que os sujeitos envolvidos no processo
educativo são seres que têm sua cultura, e uma leitura de mundo, antes de ler as
palavras. Portanto, a leitura é instrumento de cidadania e é preciso compreendê-la,
bem como a escrita a partir de um contexto já vivenciado por eles a fim de despertar
interesse em continuar estudando, ao longo da vida.
As características dos sujeitos da Educação de Jovens e Adultos do campo
e da cidade basicamente são pessoas carentes de condições socioeconômicas,
estando na faixa de 15 a 35 anos, adultos e idosos. Esse público diferenciado,
identificado como trabalhadores e cuja trajetória de vida escolar é, em geral, marcada
por insucessos, uma vez que não puderam concluir seus estudos por conta da jornada
de trabalho, por desempenharem determinadas tarefas domésticas ou rurais, e ainda
há aqueles que moram em cidades ribeirinhas, quilombos ou pessoas que migram de
cidades pequenas e vão para as grandes cidades na expectativa de melhoria de vida,
29
na busca de um saber, de um conhecimento. Encontramos jovens e adultos nas salas
de aula da EJA que, mesmo estando fora da escola, trazem consigo uma visão de
mundo ampla e relacionada ao trabalho cotidiano, com experiências adquiridas fora
da escola. Os alunos de EJA possuem saberes e experiências que devem ser
valorizados e se constituir em ponto de partida para o desenvolvimento do trabalho
pedagógico em sala de aula.
O professor que atua em sala de EJA passa por sérias dificuldades em
termos de sua formação para atuar em programas voltados para jovens e adultos;
além disso, muitas vezes, devido ao cansaço do dia a dia de trabalho, o aluno precisa
ser motivado a permanecer em sala de aula, isso sem falar da falta de materiais
didáticos específicos, algo que gera desinteresse. O papel do professor é fundamental
para que não haja evasão
O Conselho Nacional de Educação, por meio do parecer CEB/CNE nº
11/2000, não se limita a reconhecer a especificidade da EJA como modalidade de
educação escolar de nível fundamental e médio, mas também reconhece a EJA como
uma “dívida social não reparada para com os que não tiveram acesso e nem domínio
da escrita e leitura como bens sociais, na escola ou fora dela, e tenham sido a força
de trabalho empregada na constituição de riquezas e na elevação de obras públicas”.
Também indica suas funções, a saber: reparadora, equalizadora e
qualificadora. Essas funções consideradas no Parecer CEB/CNE nº 11/2000 são:
• FUNÇÃO REPARADORA - reconhece o direito a uma escola de
qualidade, como também a igualdade ontológica de todo e qualquer ser
humano. “Todos precisam de oportunidades, que possibilitem oferecer
aos indivíduos novas inserções no mundo do trabalho”;
• FUNÇÃO QUALIFICADORA - refere-se à educação permanente, com
base no caráter incompleto do ser humano, cujo potencial de
desenvolvimento e de adequação pode se atualizar em quadros
escolares ou não escolares;
• FUNÇÃO EQUALIZADORA - os alunos que antes foram
desfavorecidos quanto ao acesso e permanência na escola devem
receber, proporcionalmente, maiores oportunidades que os outros, para
ter restabelecida sua trajetória escolar de modo a readquirir a
oportunidade de um ponto igualitário da sociedade.
30
Paulo Freire defende a educação com um caráter emancipatório,
libertador, problematizador da realidade, de forma oposta aos princípios da
educação bancária, baseada na submissão e destaca que: “a educação pode
contribuir para que as pessoas se acomodem ao mundo em que vivem ou se
envolvam na transformação dele”, podendo ser conservadora ou
transformadora da realidade, dependendo sempre da opção assumida pelo
professor. Paulo Freire destaca o caráter dialético da educação ao afirmar que:
“a educação para a libertação se constitui como ato de saber, um ato de
conhecer e um método de transformar a realidade que se procura conhecer”.
Para sair da consciência ingênua e passar para a consciência crítica, é
necessário que o jovem ou adulto pare de apenas escutar e obedecer e passe
a rejeitar a “hospedagem do opressor dentro de si”, que faz com que se
considere sempre um ignorante e incapaz. Esse processo educativo não se
caracteriza pela transmissão de conhecimentos prontos e acabados, mas pela
reflexão sobre os conhecimentos em constante transformação. Dessa forma,
Freire considera que “todos aprendem e todos ensinam”, uma vez que todos
são sujeitos da educação e estão permanentemente em processo de
aprendizagem.
Nessa perspectiva, muda o papel do professor, que assume uma
relação de igualdade, permitindo o diálogo entre a sua forma de perceber a
realidade – o mundo e respeitar a visão de mundo que o aluno tem,
problematizando a realidade e se problematizando. Nesse diálogo se efetiva o
conhecimento.
Diante destes aspectos, percebemos que o foco da proposta de
educação de jovens e adultos na perspectiva de Freire está nas relações entre
aluno e professor, e entre aluno e conhecimento, evidenciando-se a
importância do respeito à experiência e à identidade cultural de ambos, pois os
saberes são adquiridos por meio de suas atividades cotidianas. Para Freire, o
aluno é visto como sujeito, e não como objeto do processo educativo, e pode,
sem dúvida, afirmar a sua capacidade de organizar a própria aprendizagem
em situações didáticas planejadas pelo professor, num processo interativo,
partindo da realidade desse aluno; portanto, as propostas pedagógicas para a
Educação de Jovens e Adultos devem ser fundamentadas na convicção de que
não é necessário nem recomendável montar uma língua artificial para ensinar
a ler e escrever e sim que os adultos analfabetos podem escrever enunciados
31
significativos baseados em seus conhecimentos da língua, ainda que, no início,
não produzam uma escrita convencional. São nessas produções que o
educador deverá trabalhar, ajudando o aprendiz a analisá-las e introduzindo
novas informações
2.2 Princípios Educativos na Perspectiva de Paulo Freire
Segundo as definições da V Conferência Internacional sobre
Educação de Adultos, realizada em Hamburgo no ano de 1997, a alfabetização
é concebida como o conhecimento básico, necessário a todos num mundo em
transformação em sentido amplo, é um direito humano fundamental. Em toda
sociedade, a alfabetização é uma habilidade primordial em si mesma e um dos
pilares para o desenvolvimento de outras habilidades. Existem milhões de
pessoas - a maioria mulheres - que não têm a oportunidade de aprender, nem
mesmo têm acesso a esse direito. O desafio é oferecer-lhes esse direito. Isso
implica criar pré-condições para a efetiva educação, por meio da
conscientização e do fortalecimento do indivíduo.
A alfabetização tem também o papel de promover a participação em
atividades sociais, econômicas, políticas e culturais, além de ser requisito
básico para a educação continuada durante toda a vida. Ao conceber a
alfabetização como a apropriação das ferramentas de leitura e escrita para ler
a palavra e compreender a sociedade e sobretudo, conscientizar-se e inserir-
se na sociedade, uma vez que considera a leitura e a escrita como
instrumentos de cidadania. Propõe como direcionamento ao alfabetizador, no
sentido da inserção dos alunos numa sociedade letrada, com ações distintas,
mas intrínsecas uma à outra.
Para Soares (1999, p. 47), o ideal seria alfabetizar letrando, ou seja,
ensinar a ler e a escrever no contexto das práticas sociais da leitura e da
escrita, de modo que o indivíduo se tornasse, ao mesmo tempo, alfabetizado
e letrado, pois não basta apenas aprender a ler e a escrever, mas incorporar
leitura e escrita às práticas sociais.
As práticas de alfabetização oportunizarão ao aluno, jovem ou
adulto, o aperfeiçoamento das técnicas de leitura e o acesso à leitura e à
escrita, considerando-se os aspectos socioculturais, além de um espaço de
convivência entre os jovens, os adultos e os idosos com a comunidade,
promovendo um convívio intergeracional. Nesse sentido, toda ação
32
pedagógica terá como base uma metodologia interacionista, com círculos de
cultura, rodas de conversas sobre temas de interesse coletivo, jogos
educativos, danças e músicas regionais, atividades artísticas e artesanais,
seminários, mostras, atividades diversificadas de leitura e interpretação de
textos.
Esse movimento permanente de ação-reflexão-ação evidencia-se
nas propostas curriculares por meio da contextualização e problematização da
realidade dos alunos e professores numa prática dialógica.
Assim, portanto, as atividades de alfabetização devem ser
organizadas de forma a respeitar o princípio da interdisciplinaridade, a ser
vivenciada mediante os Projetos desenvolvidos nas comunidades, visando a
construção do processo educativo pautado na coletividade que venha
contribuir com a articulação entre os partindo dos saberes locais, regionais e
globais, garantindo um livre trânsito entre os campos dos saberes e dos
conhecimentos.
As experiências e o respeito à cultura são aspectos que não podem
ser esquecidos no trabalho com jovens e adultos para fazer a conexão com os
conteúdos das diferentes áreas de conhecimentos escolares necessários à
vida em comunidade. Ao relacionar os saberes dos povos de sua comunidade
que não foram construídos e nem aprendidos na escola, percebemos os
sentidos da afirmação de Freire acerca do conhecimento: “que emerge apenas
através da invenção e reinvenção, através de um questionamento inquieto,
impaciente, continuado e esperançoso de homens no mundo, com o mundo e
entre si”.
Depreende-se que o conhecimento é um processo que transforma
tanto aquilo que se conhece como também o conhecedor, isto é, o
conhecimento surge da relação dialógica e recíproca entre um trinômio
formado pelo conhecimento ele mesmo, o professor e o aluno. O que
reafirma as ideias de Freire ao afirmar que “todos os seres humanos são
capazes de aprender, porque têm dentro de si o conhecimento “.
Importante lembrar que os Círculos de Cultura tão explorados por
Freire em Angicos – Rio Grande do Norte, na década de 60, propiciavam o
trabalho em equipe, o diálogo, a troca de saberes e experiências que foram
sendo sedimentadas com a participação livre e nas relações interativas dos
jovens e adultos, decorrendo dessa conversação os temas geradores na
33
perspectiva da educação libertadora. As aulas também eram dinamizadas,
utilizando estratégias de ensino ativas como: exposição oral e dialogada;
leitura coletiva e individual; Círculo de Cultura; Grupos de trabalho com
temáticas diversificadas; aulas com exposição de filmes; Seminários etc.,
favoráveis a troca de experiências e ampliação de saberes.
Freire afirma que o ato de educar deve ser associado ao ato de
recriar e de dar um novo significado aos significados. Sendo assim, o autor
destaca a sua ação no processo de alfabetizar, visando à libertação do sujeito
dentro da sociedade. Neste sentido, pontuamos, a seguir, os princípios do
método de Paulo Freire para a educação.
• Positividade do ato educativo
Freire concebe a educação como uma ação sem neutralidade, pois
há uma construção e reconstrução de todos os significados em que o sujeito
absorve diante da realidade da qual está inserido.
Nesse sentido, o papel da escola de levar o aluno a pensar
criticamente sendo capaz de se colocar diante dos acontecimentos que
envolvem a sociedade e a escola um sistema de regras que condicionam os
agentes sociais, percebe-se que a real formação do sujeito está sendo feita de
forma a diminuir os impactos negativos resultantes da transformação social.
Tais impactos implicam em caracterizar a formação educacional dos cidadãos
em reprodutivista. Cabe à escola evidenciar e tentar mudar essa realidade
concebendo novas estratégias que transformem a prática educativa em um
sistema que interaja efetivamente com os indivíduos envolvidos nos processos
educacionais e assim educar o sujeito de forma que ele se torne ético e
solidário.
• A dialogicidade do ato educativo
A ação pedagógica na visão de Paulo Freire deve ter um caráter
dialógico para que o aluno se sinta engajado nas transformações sociais e
educacionais. Aqui a premissa parte da ideia de que o educador e o educando
devem possuir uma relação de troca de conhecimentos interagindo para a
transformação da criticidade e buscando novos conhecimentos.
34
Figura 7 - Sala de EJA no Piauí
Fonte: SEMEC (2000).
O educador, o educando e o objeto do conhecimento que traduz os
conteúdos devem estar associados às aprendizagens significativas para que a
educação saia do universo estático, buscando as possibilidades de atitudes
democrática, conscientizadora, libertadora, e justamente por isso, é chamada
de dialógica. Ao discorrer sobre o diálogo entre natureza e cultura, faz parte da
ideia de que a cultura é produzida pela própria sociedade. E as situações
existenciais proporcionam ao educando em processo de alfabetização um
recorte da sua própria realidade a fim de sair de um vazio e entrar num cenário
natural para debates e ações que podem vir a modificar as ideias sobre o seu
mundo, levando-os a transformá-lo com o seu próprio trabalho e por isso, para
Freire aprender é um ato de conhecimento da realidade concreta.
2.3 Momentos e Fases do Método Freireano
35
Para uma melhor estruturação do método de Paulo Freire há uma
sequenciação das ações que se definem como momentos. Aqui se verifica que esses
momentos estão interligados e não poderão ser trabalhados aleatoriamente. Neste
sentido, abaixo pontuaremos os momentos do método.
Dentro dessas três etapas, ocorrem 5 (cinco) fases (FREIRE, 1987):
• 1ª fase: Levantamento do universo vocabular dos alunos;
• 2ª fase: Escolha de palavras selecionadas segundo os critérios de riqueza
fonética, dificuldades fonéticas, sequenciamento das palavras geradoras das
mais simples às mais complexas;
• 3ª fase: Criação de situações existenciais características do grupo. Trata-se de
situações inseridas na realidade local;
• 4ª fase: Elaboração das fichas de roteiro de discussão que funcionam para
fomentar os debates;
• 5ª fase: Elaboração de fichas de palavras para a decomposição para a
decomposição das famílias fonéticas correspondentes às palavras geradoras.
No primeiro momento de investigação temática ou pesquisa sociológica do
universo vocabular e a análise dos modos de vida das pessoas na localidade em que
está inserido, ou seja, fazer o estudo da realidade. A esse momento Freire chama de
universo vocabular local e delas se extraíam as palavras geradoras – unidade básica
na organização do programa de atividades e na futura orientação dos debates que
teriam lugar nos “círculos de cultura”. (BEISIEGEL, 1974, p. 165).
Este tema gerador está associado à Interdisciplinaridade e que a
aprendizagem global não poderá ser fragmentada. E poderá dar origem a outras
palavras geradoras ligadas a ele em função da relação social que os sustenta.
Na tematização - seleção dos temas e palavras geradoras. Destaca-se que
os temas e as palavras geradoras podem ser codificadas e decodificadas, gerando o
significado social e consciência do sujeito envolvido neste processo. Assim,
possibilitam um avanço significativo dos engajando-se na resolução de problemas
através da sua criticidade enquanto aprendiz dos educandos em relação ao
conhecimento da sua própria realidade, partindo para a sua própria análise do
conhecimento.
As palavras geradoras com sua ilustração deverão despertar o interesse
pelo debate sobre a representação de um determinado aspecto da realidade ou de
36
uma situação observada na comunidade.
Alguns critérios passaram a ser observadas por Freire em relação às
palavras, pois devem necessariamente estar inseridas no contexto social dos
educandos; elas devem ter um teor pragmático, ou melhor, as palavras devem abrigar
uma pluralidade de engajamento numa dada realidade social, cultural, política e ainda
devem ser selecionadas de maneira que sua sequência englobe todos os fonemas da
língua, para que com seu estudo sejam trabalhadas todas as dificuldades fonéticas
A problematização é para Freire essencial para a aprendizagem significativa, pois é a
partir dela que a visão de mundo é colocada como em primeiro lugar, uma vez que a
criticidade parte de questionamentos capazes de esclarecer dúvidas e anseios do
educando. Assim, "a problematização nasce da consciência que os homens adquirem
de si mesmos que sabem pouco a próprio respeito. Esse pouco saber faz com que os
homens se transformem e se ponham a si mesmos como problemas”. (JORGE, 1981,
p. 78).
SUGESTÃO DE FILMES
1. Educação de jovens e adultos: história e memória (parte 2) - Domínio Público;
2. Educação de jovens e adultos - história e memória (parte 1);
3. Documentário Paulo Freire Contemporâneo. Disponivel em:
https://www.youtube.com/watch?v=5y9KMq6G8l8
SUGESTÃO DE LEITURA:
https://onlinecursosgratuitos.com/17-livros-de-paulo-freire-para-baixar-em-pdf-
ATIVIDADE AVALIATIVA
Organização de um Colóquio a fim de conhecer as ideias de Paulo Freire
apresentadas em suas obras:
1. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra,
1967;
2. Educação e mudança. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1979;
3. A importância do ato de ler em três artigos que se completam. São Paulo:
Cortez Editora, 1982;
4. A educação na cidade. São Paulo: Cortez Editora, 1991;
37
5. Cartas a Cristina. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1974;
6. À Sombra desta Mangueira. São Paulo: Editora Olho d’Água, 1995;
7. Ação Cultural para a Liberdade. Baixar PDF: GoogleDrive / Yandex;
8. Cartas à Guiné-Bissau. Baixar PDF: GoogleDrive / Yandex;
9. Como Prática da Liberdade. Baixar PDF: GoogleDrive / Yandex;
10. Extensão ou Comunicação. Baixar PDF: GoogleDrive / Yandex;
11. Pedagogia da Autonomia. Baixar PDF: GoogleDrive / Yandex;
12. Pedagogia da Esperança. Baixar PDF: GoogleDrive / Yandex ;
13. Pedagogia da Indignação. Baixar PDF GoogleDrive / Yandex;
14. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1987;
15. Professora Sim, Tia Não. Baixar PDF GoogleDrive/ Yandex;
16. Paulo Freire para Educadores – Vera Barreto. Baixar PDF: GoogleDrive /
Yandex.
RESUMO
Nesta Unidade, estudamos os aspectos pedagógicos da educação
libertadora de Freire a fim de compreender os princípios da dialogicidade,
problematização, interdisciplinaridade e contextualização na exploração de temas
geradores significativos para os jovens, adultos e idosos em salas de Educação de
Jovens e Adultos e, também, pontuamos as etapas do método de alfabetização na
perspectiva freiriana de modo a promover a transformação da realidade.
A Unidade convida para leitura das obras de Paulo Freire, a fim de ampliar
os conhecimentos dos pressupostos pedagógicos, que permeiam a prática educativa
inspirada nas ideias do autor.
REFERÊNCIAS
BEISIEGEL, Celso de Rui. Estado e educação popular: um estudo sobre educação
de adultos. São Paulo: Pioneira, 1974.
BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Estabelece as diretrizes e
bases da educação nacional. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 1996. Disponível
em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm. Acesso em: 11 jul. 2018.
CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. Parecer nº 11/2000, de 10 de maio de
2000. Dispõe sobre as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação de Jovens
e Adultos. Brasília, DF: CNE; CEB, 2000.
38
FREIRE, Paulo. Ação cultural para a liberdade e outros escritos, de Paulo
Freire. [1980]. Disponível em: http://www.acervo.paulofreire.org:8080/jspui/handle/
7891/2953. Acesso em: 29 nov. 2022
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1987.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática
educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. São Paulo: Paz e Terra,
1967.
FREIRE, Paulo. Educação e mudança. 12. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2012.
FREIRE, Paulo. A educação na cidade. São Paulo: Paz e Terra, 1991.
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam.
São Paulo: Autores Associados: Cortez, 1989.
FREIRE, Paulo; FREIRE, Ana Maria Araújo. À sombra desta mangueira. 11. ed.
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2015.
FREIRE, Paulo; FREIRE, Ana Maria Araújo. Cartas a Cristina. São Paulo: Paz e
Terra, 1994.
SOARES, Leôncio. Educação de Jovens e Adultos. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.
SOARES, Magda. Alfabetização e letramento. São Paulo: Editora Contexto, 1999.
39
UNIDADE III
PROPOSTA CURRICULAR DE EDUCAÇÃO
DE JOVENS E ADULTOS E SEUS
PRESSUPOSTOS METODOLÓGICOS
OBJETIVO
• Compreender a metodologia de trabalho interdisciplinar partindo de temas
geradores, demonstrando temas integradores de interesse dos alunos de
EJA.
40
3.1 Proposta Curricular de Educação de Jovens e Adultos
O Ministério da Educação lançou em 1998 a Proposta Curricular de
Educação de Jovens e Adultos que apresenta os conteúdos agrupados por áreas de
conhecimentos: Língua Portuguesa, Matemática, Estudos da Sociedade e Natureza.
3.1.2 Síntese Geral para a Educação de Jovens E Adultos
Acreditamos ser relevante que você conheça a síntese dos objetivos gerais
esperados pelos educandos da EJA (BRASIL, 1996, p. 47-48):
• Desempenhar de modo consciente e responsável seu papel no cuidado e na
educação das crianças, no âmbito da família e da comunidade;
• Conhecer e valorizar a diversidade cultural brasileira, respeitar diferenças de
gênero, geração, raça e credo, fomentando atitudes de não discriminação;
• Aumentar a autoestima, fortalecer a confiança na sua capacidade de
aprendizagem, valorizar a educação como meio de desenvolvimento pessoal
e social;
• Reconhecer e valorizar os conhecimentos científicos e históricos, assim como
a produção literária e artística como patrimônios culturais.
Paulo Freire afirmou que “a leitura do mundo antecede a leitura da palavra”. Com
esta afirmação, deflagrou uma discussão sobre alfabetizar letrando. O ensino da Língua
Portuguesa no I Segmento busca ampliar o universo linguístico do aluno, utilizando-se de uma
diversidade de textos como: jornais, enciclopédias, receitas e embalagens. Não basta
compreender ou memorizar os estilos próprios dos diferentes tipos de texto presentes na nossa
cultura, é preciso que se promova a inclusão do jovem, do adulto e do idoso na sociedade,
compreendendo a realidade
3.1.3 Síntese dos objetivos gerais para a Educação de Jovens e Adultos da área de Língua
Portuguesa
Acreditamos ser relevante que você conheça a síntese dos objetivos
gerais esperados pelos educandos da EJA da área de Língua Portuguesa (MEC,
1998):
• Dominar instrumentos básicos da cultura letrada, que lhes permitam melhor
41
compreender e atuar no mundo em que vivem;
• Ter acesso a outros graus ou modalidades de ensino básico e
profissionalizante, assim como a outras oportunidades de desenvolvimento
cultural;
• Incorporar-se ao mundo do trabalho com melhores condições de
desempenho e participação na distribuição da riqueza produzida;
• Valorizar a democracia, desenvolvendo atitudes participativas, conhecer
direitos e deveres da cidadania;
• Desenvolver estratégias de compreensão e fluência na leitura;
• Buscar e selecionar textos de acordo com suas necessidades e interesses;
• Expressar-se por escrito com eficiência e de forma adequada a diferentes
situações comunicativas, interessando-se pela correção ortográfica e
gramatical;
• Analisar características da Língua Portuguesa e marcas linguísticas de
diferentes textos, interessando-se por aprofundar seus conhecimentos sobre
a língua.
Para Couto (1999), algumas orientações do trabalho com a língua escrita
nas propostas pedagógicas para adultos no processo inicial de alfabetização podem
partir de textos completos em diferentes formatos e de palavras geradoras como
pontos de partida, introduzindo outros procedimentos como o trabalho com os nomes
dos alunos ou os chamados textos coletivos, grafados pelo alfabetizador a partir de
sugestões ditadas pelos alunos.
O jovem e adulto trabalhador têm especificidades que precisam ser
consideradas e, no momento que o professor compreende o modo de vida desse
jovem, adulto ou idoso, do campo ou da cidade, com suas singularidades em relação
à maneira de se relacionar com o tempo, o espaço, o meio ambiente e de organizar a
família, a comunidade, o trabalho, a educação e lazer, isso que lhe permite a criação
de uma identidade cultural e social próprias, mantendo o diálogo como um princípio
orientador das práticas educacionais, garantindo a dinâmica de aprendizagem-ensino,
assegurando o respeito à cultura do grupo, a valorização dos diferentes saberes e a
produção coletiva do conhecimento e o da práxis, que é a construção de um processo
educativo que tem por base o movimento de ação-reflexão-ação e a perspectiva de
transformação da realidade.
42
A área de linguagem escrita, de acordo com a proposta curricular,
estrutura-se em função de textos abarcando as diversas tipologias textuais onde
registra-se a forma como os alunos percebem a realidade discutida em sala de aula e
trabalha de forma prática o bilhete, a carta, o convite, o recibo, o poema, a descrição
de fatos, as notícias, as receitas, as listas de compras, as cenas observadas no
cotidiano e as histórias de vida. Cabe ao professor exercitar a escrita de textos
práticos usados no dia a dia do aluno, de preferência textos curtos e interessantes.
Cabe, ainda, proceder a análise linguística, explorando a gramática a partir do texto,
ajudando o aluno a ler e compreender o uso das classes gramaticais.
O texto é aquilo que a gente lê ou escreve para outra pessoa ler e contexto
é o mundo onde a vida vive a sua história, portanto contexto é onde as pessoas estão
juntas, vivem juntas e aprendem a viver juntas. E onde se planta e se colhe o milho e,
é onde está a minha casa com a minha família. Portanto, meu contexto é o lugar onde
vivo eu e vive a gente com quem eu como o mingau de milho em volta de uma mesa.
O contexto de nossas vidas abriga o mundo de natureza, com a terra e tudo o que
nela há. Tudo mesmo, como as mangueiras, o milharal, os rios e também os seres
humanos com a sua cultura (tudo o que nós pensamos, criamos e fazemos, quando
transformamos as coisas da natureza) (FREIRE, 1998).
Na Educação de Jovens e Adultos, contemplamos como orientação
didática para que o aluno leia e escreva com compreensão e entenda a realidade que
o cerca, o trabalho de forma interdisciplinar; portanto, o trabalho a partir de temas
integradores que sejam significativos para os alunos. O ensino que concilia diferentes
conceitos, de diferentes áreas; que integra várias disciplinas e é capaz de substituir a
fragmentação pela interação, dará ao sujeito a oportunidade de aprender a relacionar
conceitos e, consequentemente, de construir novos conhecimentos, com muito mais
autonomia e criatividade.
A pluralidade dos saberes parece ser o caminho mais inteligente para
pensar o mundo e para sentir, viver e compreender a complexidade da realidade
nestes tempos multifacetados de globalização, conflitos armados, corrupção nas
esferas de poder, desigualdades sociais e riscos ambientais de consequências
terríveis.
Para Fazenda (2008), a interdisciplinaridade também exige que o território
de cada campo do conhecimento – suas particularidades e especialidades – sejam
compreendidos e respeitados. A ideia não é procurar um caminho para homogeneizar
43
todas as ciências. Pelo contrário. Para que haja a junção das partes, é fundamental
que a objetividade de cada uma seja plenamente reconhecida e respeitada.
As áreas de conhecimentos se articulam em função dos temas
integradores, fazendo as aproximações devidas, portanto a organização dos
conteúdos pode se efetivar em forma de projetos didáticos ou sequências a fim de
permitir a integração dos conteúdos das diversas áreas, sendo explorados de forma
problematizadora e contextualizada para que o aluno compreenda de maneira crítica
a sua realidade.
3.1.3.1 O texto: espaço privilegiado para integração de áreas.
O trabalho inicia com a escolha do tema, depois juntamente com o
professor definem “o que sabem” e “o que querem saber sobre o tema”. Outro ponto
positivo é que o aluno precisa investigar e construir hipóteses, onde poderá confirmá-
las ou não, contribuindo com ideias, sugestões, desde a valorização da sua presença
e participação no grupo até o momento em que avaliam o processo. Vamos
exemplificar.
De acordo com a Proposta Curricular de EJA, a área de Língua Portuguesa
está prioritariamente voltada para o aperfeiçoamento da comunicação e o aprendizado
da leitura e da escrita. Isso os educandos aprenderão falando, ouvindo, lendo e
escrevendo, ou seja, exercitando esses procedimentos.
As atividades de análise linguística estão voltadas para a reflexão sobre a
produção do texto, ajudando os alunos a melhorarem cada vez mais a forma de
escrever.
3.1.4 Área De Matemática
As situações de aprendizagem apresentadas em sala de aula devem ser
contextualizadas e significativas para os alunos, além de exigir do professor a
explanação sobre os resultados esperados, ou seja, os objetivos e suas aplicações na
vida prática, além de estabelecer a relação com as outras áreas do conhecimento,
promovendo a ação interdisciplinar.
É importante criar um ambiente propício para que os alunos aperfeiçoem
esses procedimentos e desenvolvam atitudes como a segurança em suas
44
capacidades, o interesse pela defesa de seus argumentos, a perseverança e o esforço
na busca de soluções.
Os conteúdos matemáticos para a educação de jovens e adultos estão
organizados em quatro blocos: “Números e operações numéricas”, “Medidas”,
“Geometria” e “Introdução à Estatística''. Os temas selecionados que contemplam
aspectos humanos e sociais permitirão a discussão dirigida.
A Proposta Curricular de EJA - MEC 1998 sugere objetivos a serem
contemplados nas Propostas Curriculares de Educação de Jovens e Adultos, tendo o
respeito a identidade dos grupos etários e de distintas origens sociais e culturais.
Segundo a Proposta Curricular, a área de Matemática visa habilitar o aluno para as
seguintes habilidades, conforme mostra a seguir.
3.1.4.1 Síntese dos objetivos gerais para a Educação de Jovens e Adultos da área de
Matemática
Acreditamos ser relevante que você conheça a Síntese dos objetivos gerais
para a Educação de Jovens e Adultos da área de Matemática (MEC, 1998):
• Valorizar a Matemática como instrumento para interpretar informações sobre o
mundo, reconhecendo sua importância em nossa cultura;
• Apreciar o caráter de jogo intelectual da matemática, reconhecendo-o como
estímulo à resolução de problemas;
• Reconhecer sua própria capacidade de raciocínio matemático, desenvolvendo
o interesse e o respeito pelos conhecimentos desenvolvidos pelos
companheiros;
• Comunicar-se matematicamente, cientificando, interpretando e utilizando
diferentes linguagens e códigos;
• Intervir em situações diversas relacionadas à vida cotidiana, aplicando ações
matemáticas e procedimentos de solução de problemas individual e
coletivamente;
• Vivenciar processos de resolução de problemas que comportem a
compreensão de enunciados, proposição e execução de um plano de solução,
a verificação e comunicação da solução;
• Reconhecer a cooperação, a troca de ideias e o confronto entre diferentes
45
estratégias de ação como meios que melhoram a capacidade de resolver
problemas individual e coletivamente;
• Utilizar habitualmente procedimentos de cálculo mental e cálculo escrito
(técnicas operatórias), selecionando as formas mais adequadas para realizar o
cálculo em função do contexto, dos números e das operações envolvidas;
• Desenvolver a capacidade de realizar estimativas e cálculos aproximados e
utilizá-las na verificação de resultados de operações numéricas;
• Medir, interpretar e expressar o resultado utilizando a medida e a escala
adequada de acordo com a natureza e a ordem das grandezas envolvidas,
além de aperfeiçoar a compreensão do espaço, identificando, representando e
classificando formas geométricas, observando seus elementos, suas
propriedades e suas relações; Coletar, apresentar e analisar dados,
construindo e interpretando tabelas e gráficos.
3.1.5 A resolução de problemas
Para que a aprendizagem da Matemática seja significativa e os educandos
possam estabelecer relações com os diversos conteúdos e utilizar as experiências do
dia a dia para a interpretação da realidade, a Proposta Curricular de EJA – MEC,
sugere que os conteúdos matemáticos sejam abordados por meio da resolução de
problemas. Assim sendo, a resolução de problemas não será trabalhada de forma
mecânica e nem se reduz à aplicação de conceitos explorados em sala de aula pelo
professor, mas vista como uma forma de conduzir o ensino e a aprendizagem.
A resolução de problemas matemáticos de acordo com a Proposta
Curricular – MEC, envolve várias atividades e mobiliza diferentes capacidades dos
alunos (MEC, 1998):
• compreender o problema;
• elaborar um plano de solução;
• executar o plano;
• verificar ou comprovar a solução;
• justificar a solução;
• comunicar a resposta.
46
Eis alguns exemplos de situações envolvendo operações e resolução de problemas.
Disponivel em: https://sites.google.com/site/diariodaprofaglauce/matematica-para-
jovens-e-adultos
3.1.6 Estudos da Natureza e Sociedade
Devemos promover situações – em sala de aula, em atividades de estudo do meio,
visitas a museus e espaços culturais – nas quais o aluno seja orientado a extrair
informações de diferentes fontes: livros, jornais, revistas, filmes, fotografias, objetos,
obras de arte, depoimentos, mapas, plantas urbanas, músicas etc. Também é preciso
ensinar como pesquisar em bibliotecas e na internet, consultar bibliografias, organizar
e registrar informações, elaborar trabalhos escolares, resumos orais ou escritos,
imagens, gráficos, linhas do tempo, murais e exposições.
3.1.6.1 Síntese dos objetivos gerais para a Educação de Jovens e Adultos da área de Estudos
da Sociedade e da Natureza. (Proposta Curricular de EJA/MEC – 1998).
• Problematizar fatos observados cotidianamente, interessando-se pela busca
de explicações e pela ampliação de sua visão de mundo;
• Reconhecer e valorizar seu próprio saber sobre o meio natural e social,
interessando-se por enriquecê-lo e compartilhá-lo;
• Conhecer aspectos básicos da organização política do Brasil, os direitos e
47
deveres do cidadão, identificando formas de consolidar e aprofundar a
democracia no país;
• Interessar-se pelo debate de ideias e pela fundamentação de seus
argumentos;
• Buscar informações em diferentes fontes, processá-las e analisá-las
criticamente;
• Interessar-se pelas ciências e pelas artes como formas de conhecimento,
interpretação e expressão dos homens sobre si mesmos e sobre o mundo
que os cerca;
• Inserir-se ativamente em seu meio social e natural, usufruindo racional e
solidariamente de seus recursos.
Trazemos alguns exemplos de temas integradores explorados numa Oficina de
Alfabetização envolvendo adultos e idosos (Atividade explorada na formação de
Coordenadores da UNABI UEMA elaboradas por Heloisa Varão Santos).
➢ TEMA GERADOR: MEMÓRIAS DE INFÂNCIA OU VIDA
Áreas: Língua Portuguesa; Estudos da Sociedade e Natureza e Matemática.
OBJETIVOS:
• Identificar o valor de sua história de vida, o significado do seu nome; as suas
preferências e singularidades;
• Identificar a escrita do seu nome, reconhecendo as letras maiúsculas e
minúsculas;
• Rememorar as lembranças marcantes na sua vida e as representações
diversas;
• Demonstrar sentimentos positivos em relação àqueles que participaram da
construção de sua história;
• Identificar as letras do nome em diferentes cartões;
• Enumerar sequências, relacionando com as quantidades representadas em
cartelas e com objetos da sala;
• Discutir temas emergentes expressando suas ideias.
48
ATIVIDADES
1. Traçar o perfil dos alunos a partir das histórias de vida apresentadas;
2. Lançar questões para a caracterização do perfil dos alunos: Qual o
significado e história do seu nome? Quem escolheu seu nome? O que é
especial na escolha?
3. Registro das histórias dos nomes. Elaboração de pequenas quadrinhas /
rimas com os nomes. Exemplo:
Meu nome é Sebastiana e gosto de (banana).
Meu nome é José e vendo (picolé).
Meu nome é João e gosto de comer (feijão, mamão, capão e macarrão).
Meu nome é Maria e compro pão na (padaria).
Meu nome é Tereza, vejam só que (boniteza).
Meu nome é Vital e brinco no (carnaval, quintal e bambuzal.)
• Apresentação de crachá com o nome próprio de cada aluno e como jogo
de encaixe.
• Selecionar exercícios de identificação das letras iniciais do nome em
caça-palavra.
Identificar as letras iniciais do seu nome:
Aline - Amália - Benedita - Camila - Carolina -Daniela –Fernanda - Flávia -
Gabriela - Juliana – João-José -Luciana –Luiza - Maria - Mariana - Patrícia -
Paula - Renata – Ribamar-Vanda.
• Dinâmica Minha Bandeira Pessoal ilustrada (desenhos /figuras) de
completar o nome.
• Apresentação do alfabeto.
• Formação dos nomes com as letras móveis (Alfabeto Móvel).
Apresentação dos nomes próprios e lembranças de músicas com nomes das
pessoas da sala e da comunidade.
• Levantamento de trechos de músicas conhecidas pelos alunos que
contenham nomes de pessoas.
O rei da brincadeira – Ê José O rei da confusão – Ê José
Um trabalhava na feira – Ê José
Outro na construção – Ê João (GIL, 1968) “Terezinha de Jesus de uma queda
49
foi ao chão
Acudiu 3 cavalheiros, todos 3 chapéu na mão“. (Cantiga de Roda)
Apresentação do poema de Pedro Bandeira, "O nome da gente" para introduzir:
• Discussão sobre a identidade;
• Dramatização das ações envolvidas neste poema.
O NOME DA GENTE
Por que é que eu me chamo isso e não me chamo aquilo?
Por que é que o jacaré não se chama crocodilo?
Eu não gosto do meu nome, Não fui eu quem escolheu. Eu não sei Por que se
metem Com o nome que é só meu!
O nenê que vai nascer vai chamar como o padrinho, vai chamar como o vovô,mas
ninguém vai perguntar o que pensa o coitadinho.
Foi meu pai que decidiu que o meu nome fosse aquele, isso só seria justo se eu
escolhesse o nome dele.
Quando eu tiver um filho, não vou pôr nome nenhum.
Quando ele for bem grande, ele que procure um.
Atividade individual: Criação da Bandeira Pessoal com o sonho, os desejos de
melhorar algo em si, as pessoas que mais admira, o que lhe faz feliz?
• Escrita de palavras Geradoras: Vida, idoso, velho etc.
• Leitura, interpretação e canto explorando a Música “O QUE É O QUE É”, de
Gonzaguinha.
Eu fico com a pureza da resposta das crianças
É a vida, é bonita, e é bonita
Viver e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz...
Reconhecer na letra da música de Gonzaguinha e do poema de Cora Coralina as
letras contidas no seu nome que está no crachá.
50
• Identificação das semelhanças e diferenças entre as letras do alfabeto;
• Jogo com cartelas contendo as vogais e as consoantes contidas nos nomes
de cada aluno.
Percebemos que o contexto do aluno precisa ser discutido em sala de
aula e as palavras a serem exploradas vão surgindo para serem divididas em sílabas
e apresentadas às letras e acima a decodificação vai sendo operacionalizada.
Reflexão sobre o poema VIVER, de Cora Coralina:
Não sei... se a vida é curta ou longa demais para nós, mas, sei que nada do que
vivemos tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas. Muitas vezes basta
ser: o colo que acolhe, o braço que envolve, a palavra que conforta, o silêncio que
respeita, a alegria que contagia, a lágrima que corre, o olhar que acaricia, o desejo
que sacia, o amor que promove. E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá
sentido à vida. É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais, mas
que seja intensa, verdadeira, pura enquanto ela durar...
As experiências dos alunos servem para enriquecer os conhecimentos da
turma, uma vez que a visão de mundo já é ampliada pelas histórias de vida e situações
vivenciadas na comunidade, no trabalho e nos movimentos sociais. Daí a importância
de explorar os saberes da experiência no processo de escrita, procurando socializar
as produções dos alunos, estimular a correção em grupo, tendo a visão de erro como
um norte para se corrigir e melhorar a escrita, pois a reescrita tem a função de revisar
e melhorar a produção escrita do aluno e do professor também.
Esse é um exemplo de um tema abordado em salas de aula do PRONERA
em 2004 pela Prof.ª Heloisa Varão, explorando as experiências de vida do trabalhador
rural em áreas de assentamentos da Reforma Agrária.
Os temas discutidos no trabalho de alfabetização com jovens e adultos
agricultores assentados retratavam os seus interesses e necessidades do cotidiano
que, levados à discussão, permitiam a problematização da realidade dos camponeses
e, após a discussão em sala de aula, se buscava aprofundar os conhecimentos
pertinentes aos problemas apontados nas falas dos alunos.
51
Descrição das atividades que os jovens e adultos realizam - ao mesmo
tempo em que “produzem algo externo a eles, também se produzem” no seu íntimo
como ser humano.
1. Debate sobre as condições da classe trabalhadora a partir da descoberta
individual de que um operário é uma encarnação da classe operária, passa ser
coletiva: a satisfação em ter um emprego que lhe garantisse a sobrevivência, o
operário passou à insatisfação com as condições de trabalho e com as suas
condições indignas de vida, que só garantiam a sua sobrevivência nua e crua
para que pudesse voltar a trabalhar no dia seguinte.
2. Ilustração do canteiro de obras de maneira compreensível.
52
3. Leitura de imagens de pintores do século XIX, como Rugendas, Jean Baptiste
Debret, Paul Harro-Harring etc. Quanto às transformações tecnológicas da
mecanização, da produção em massa, da linha de montagem, pode optar, por
exemplo, pelo filme Tempos modernos, de Charles Chaplin
4. Debate sobre o significado de festas e monumentos comemorativos, de
museus, arquivos e áreas preservadas, para que os alunos reconheçam os
interesses em jogo quanto à memória social.
5. Passeio com os alunos, a fim de que dirijam um novo olhar a seu entorno,
analisando ruas, praças, residências, construções, edifícios públicos e
monumentos. Assim, eles vão conhecer os “lugares de memória” erguidos pela
sociedade e poderes estabelecidos, que determinam o que deve ser
preservado e relembrado e o que deve ser silenciado e esquecido.
6. Debates sobre como ocorre a preservação do patrimônio histórico-cultural e
suas relações com a memória e identidades locais, regionais e nacionais.
7. Campanha de preservação ambiental e cultural.
8. Organização de um Recital de Poesias explorando as profissões exercidas pelo
povo, daí o Patativa do Assaré com o poema:
Caboclo Roceiro de Patativa do Assaré – Ceará.
Caboclo Roceiro, das plagas do Norte que vive sem
sorte, sem-terra e sem lar; A tua desdita é tristonho que
canto, se escuto o meu pranto me ponho a chorar;
Ninguém te oferece um feliz lenitivo és rude e cativo,
não tens liberdade.
A roça é teu mundo e também tua escola.Teu braço é a
mola que move a cidade, de noite tu vives na tua
palhoça De dia na roça de enxada na mão, julgando que
Deus é um pai vingativo, Não vês o motivo da tua
opressão, tu pensas, amigo, que a vida que levas De
dores e trevas debaixo da cruz
E as crises constantes, quais sinas e espadas
São penas mandadas por nosso Jesus, tu és
nesta vida o fiel penitente Um pobre inocente
no banco do réu.
Caboclo não guarda contigo esta crença, a tua
sentença não parte do céu. O mestre divino que é
sábio profundo, não faz neste mundo teu fardo
infeliz
53
As tuas desgraças com tua desordem não nascem das
ordens do eterno juiz Porém os ingratos, com ódio e
com guerra, tomaram-te a terra que Deus te entregou. A
lua se apaga sem ter empecilho, o sol do seu brilho
jamais te negou.
De noite tu vives na tua palhoça de dia na roça, de
enxada na mão Caboclo roceiro, sem lar, sem abrigo, tu
és meu amigo, tu és meu irmão.
Lê-se a seguir outro poema explorado para aprofundamento da reflexão e
transformado numa atividade. O recital é de autoria de Cora Coralina.
O CÂNTICO DA TERRA, de Cora Coralina
Eu sou a terra, eu sou a vida. Do meu barro primeiro
veio o homem. De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte. Vem o fruto e vem a flor. Eu
sou a fonte original de toda vida. Sou o chão que se
prende à tua casa. Sou a telha da coberta de teu lar. A
mina constante de teu poço. Sou a espiga generosa de
teu gado e certeza tranquila ao teu esforço. Sou a razão
de tua vida. De mim vieste pela mão do Criador, e a
mim tu voltarás no fim da lida. Só em mim acharás
descanso e Paz. Eu sou a grande Mãe Universal. Tua
filha, tua noiva e desposada. A mulher e o ventre que
fecundas. Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor A ti, ó
lavrador, tudo quanto é meu. Teu arado, tua foice, teu
machado. O berço pequenino de teu filho. O algodão de
tua veste e o pão de tua casa. E um dia bem distante a
mim tu voltarás. E no canteiro materno de meu seio
tranquilo dormirás. Plantemos a roça. Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho, do gado e da tulha. Fartura teremos
e donos de sítio seremos. Exploração da letra da música
“Vida de Empreguetes”. Todo dia acordo cedo, Moro
longe do emprego quando volto do serviço, quero o meu
sofá. Tá sempre cheia a condução. Eu passo pano,
encero chão a outra vê defeito até onde não há Queria
ver madame aqui no meu lugar. Eu ia rir de me acabar.
Só vendo patroinha aqui no meu lugar Botando a roupa
pra quarar. Minha colega quis botar Aplique no cabelo
54
dela, Gastou um extra que era da parcela. As filhas da
patroa, A nojenta e a entojada, Só sabem explorar, não
valem nada Queria ver madame aqui no meu lugar. Eu
ia rir de me acabar. Só vendo a cantora aqui no meu
lugar Tirando a mesa do jantar. Levo vida de
empreguete, eu pego às sete. Fim de semana é salto
alto e ver no que vai dar. Um dia compro apartamento e
viro socialite Toda boa, vou com meu ficante viajar. Levo
vida de empreguete, eu pego às sete Fim de semana é
salto alto e ver no que vai dar. Um dia compro
apartamento e viro socialite. Toda boa, vou com meu
ficante viajar.
55
EU QUERO
56
RESUMO
Esta Unidade contemplou experiências de trabalho interdisciplinar partindo
de temas integradores de interesse dos alunos jovens, adultos e idosos. As atividades
sugeridas têm como base as orientações didáticas apresentadas na Proposta
Curricular de Educação de Jovens e Adultos apresentada pelo Ministério da Educação
com vistas a orientar a elaboração de currículo das escolas que desenvolvem esta
modalidade de ensino.
As atividades pontuais têm como base pedagógica os pressupostos
defendidos por Paulo Freire, visando instrumentalizar os professores para as práticas
pedagógicas contextualizadas e significativas para os alunos.
REFERÊNCIAS
CABOCLO ROCEIRO. Compositor: Patativa Assaré. Disponível em:
https://www.letras.mus.br/patativa-do-assare/893615/. Acesso em: 30 nov. 2022
BRASIL. Lei de Diretrizes e bases da Educação Nacional. Estabelece Diretrizes e
Bases para a Educação Nacional. Brasília: Diário Oficial da União, 1996.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. 40. ed. São Paulo: Saraiva,
2007.
BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Proposta Curricular para a Educação de
Jovens e Adultos. Ensino Fundamental, 1999.
BRASIL. Ministério da Educação. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação
de Jovens e Adultos, 2000.
GADOTTI, M; ROMÃO J. E. Educação de jovens e adultos: teoria, prática e
proposta. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2001.
PINTO, A. V. Sete lições sobre a educação de adultos. São Paulo: Cortez,
1989.
POSSAS, Vânia Machado. Compreensão e domínio da escrita: vale o escrito. In:
MEC. Educação de Jovens e adultos. Brasília: SEED, 1999.
SANTOS, Heloisa Cardoso Varão (org.) Coletânea de textos educação de jovens
e adultos. São Luís: UEMANet, 2009. 139 p.
SERRA, Deuzimar Costa. Gerontologia dialógica intergeracional. Fortaleza: Ed.
UFC, 2015.
57
UNIDADE IV
PLANEJAMENTO DA AÇÃO PEDAGÓGICA
DE EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS
OBJETIVO
• Organizar as atividades pedagógicas de forma interdisciplinar, observando os
aspectos básicos a serem considerados nos Projetos e Sequencias Didáticas.
58
4.1 Ação pedagógica e plano didático
Há vários modos possíveis de se organizar um plano didático e os
educadores devem buscar aquele que mais se adapte ao seu estilo de trabalho. É
fundamental, entretanto, que o plano seja inteligível para outras pessoas,
especialmente quando se está integrado num programa que pressupõe a ação
coordenada de vários educadores. É importante também formular objetivos que os
educandos possam compreender e que expressem os resultados a serem alcançados
pelos alunos.
Os elementos fundamentais de um plano são: o tema, os conteúdos e
objetivos a serem alcançados, as atividades didáticas, os recursos didáticos, o tempo
de duração previsto e avaliação.
Apresentamos um exemplo, em que as unidades didáticas combinam
objetivos das três áreas e estão todas articuladas a grandes eixos temáticos.
A organização das atividades pelo professor pode ser feita de várias
maneiras, planejando a ação pedagógica diária, semanal ou quinzenal, elaborando
Projetos didáticos explorando temas geradores para serem discutidos , estudados em
função da resolução de um problema , pois o projeto gera sempre um produto ou uma
solução para um problema e os temas são instigadores, podendo ser explorado
durante semanas. Pode elaborar também, as sequencias didáticas agrupando os
conteúdos de modo sequencial e sempre partindo de um texto interessante e atrativo
para o aluno jovem e adulto.
O Plano traz sempre um foco central que é o tema, e passa pela leitura e
discussão do mesmo, para chegar a produção escrita a fim de consolidar os
conhecimentos do aluno sobre a escrita alfabética e também numérica.
• Exemplos de Plano didático
A Sequência Didática
“A sequência didática se configura com atividades ligadas a um mesmo tema e
principalmente com um mesmo objetivo”. Trabalha com os conhecimentos prévios dos
alunos e permite a interação de conhecimentos, além de promover uma aprendizagem
significativa. Para proceder o levantamento dos conhecimentos prévios dos alunos,
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nada melhor do que apresentar situações estimulantes para serem discutidas
(notícias, textos para serem problematizados e discutidos); portanto, é preciso saber
elaborar e interpretar situações-problema instigantes a fim de possibilitar que os
alunos teçam comentários e ponham em jogo tudo o que sabem. Essas questões
podem incluir: charges e imagens, fotografias e pinturas, bem como as músicas.
Toda sequência didática parte também de um tema e agrega conteúdos de
áreas afins de modo a alcançar objetivos previamente definidos e vai se desdobrando
em fases ou etapas ou mesmo por dia e num primeiro momento ou etapa se faz a
apresentação do tema a ser explorado indicando as fases a serem observadas e
seguidas para que haja organização e facilite a avaliação do aluno em relação ao
alcance dos objetivos traçados.
No 2º passo, os alunos já começam a produzir oralmente, participando das
discussões, emitindo opiniões e expressando as suas experiências e produzindo
textos escritos também.
No passo seguinte, o professor organiza os exercícios e pesquisas, com a
finalidade de desenvolver as capacidades de expressão escrita, relacionar as ideias
do texto ao contexto e promover a superação das dificuldades encontradas na
produção inicial dos alunos com a realização de atividades diversificadas em grupos
ou individualmente. A Produção final que denotará o grau de domínio de
conhecimentos construídos pelos alunos.
Vejamos um exemplo de Sequência Didática desenvolvida com
professores do PRONERA em 2007 por Heloisa Varão Santos.
TEMA: NOSSA TERRA, NOSSA GENTE
Objetivos:
• Recuperar histórias contadas sobre a origem da cidade, seus fundadores e,
compreendendo a importância cultural da localidade (cidade, povoado) na
formação de uma sociedade;
• Refletir sobre as experiências dos moradores do lugar afim de preservar suas
histórias;
• Valorizar as manifestações culturais do povo e divulgar junto às novas
gerações.
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ATIVIDADES
1º dia
• Entrevistar antigos moradores do lugar para resgatar a história local;
• Registrar as lembranças de infância, as brincadeiras cantadas, por meio de
exercício da memória, das histórias, costumes, fatos pitorescos e/ou pequenos
contos que foram transmitidos ou ensinados pelos velhos da família (de
preferência, pelo velho entrevistado).
2º dia
• Leitura do poema de Casimiro de Abreu, “Meus oito anos”, cuja estrofe inicial é
bastante conhecida:
Oh! Que saudades que tenho Da aurora da minha vida,
Oh que saudade que tenho da minha infância querida Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores, naquelas tardes fagueiras, À sombra das
bananeiras, debaixo dos laranjais!
• Construir um conto ou poema que resgate pelo menos uma lembrança de
infância;
• Instituição do dia dedicado à memória e propor aos alunos para trazerem
comidas e bebidas que se relacionem com suas lembranças do passado da
cidade.
3º dia
• Roda de conversas sobre acontecimentos da localidade.
• Exploração da música de Alcione “Todos Cantam Sua Terra”:
Todo mundo canta sua terra
Eu também vou cantar a minha
Modéstia à parte seu moço. Minha terra é uma belezinha A praia de Olho D'água
Lençóis e Araçagi, Praias bonitas assim
Eu juro que nunca vi
Minha terra tem belezas
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Que em versos não sei dizer
Mesmo porque não tem graça, Só se vendo pode crer
Acho bonito até
O jornaleiro a gritar imparcial Diário
Olha o Globo
Jornal do povo descobriu outro roubo
E os meninos que vendem derrê sol a cantar Derrê sol derrê ê ê ê ê ê ê sol
E fruta lá tem: juçara Abricó e buriti
Tem tanja, mangaba e manga E a gostoso sapoti
E o caboclo da Maioba Vendendo bacuri
Tinha tanta coisa pra falar
Quando estava fazendo esse baião Que quase me esqueço de dizer
Que essa terra é tão linda é o Maranhão Ô Maranha, ô Maranhão.
• Identificação de palavras (substantivos) e de qualidades (adjetivos) no texto;
• Interpretação do texto e elaboração de poemas usando os nomes das frutas.
2º dia
Exposição oral sobre a importância da preservação ambiental, assim como a
conscientização da não agressão ao meio ambiente, estabelecendo comparação das
belezas naturais a fim de identificar as modificações sofridas devido ao tempo e/ou de
ações do próprio homem.
3º dia
• Visita a um local turístico na cidade ou de preservação ambiental, para observar
as diversas formas de vida existente no meio ambiente;
• Confecção de Mural contemplando os aspectos observados durante a visita;
• Confecção de baralho de palavras contidas nas músicas entoadas na sala de
aula.
• Produção de texto após a pesquisa sobre as belezas de minha cidade;
• Exposição dos trabalhos e avaliação da escrita e da oralidade;
• Pintura de aspectos da cidade modificados pelo homem e exposição dos
trabalhos usando técnicas de colagem, pintura com guache, lápis, carvão etc.
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4º dia
• Resolução de problemas explorando as datas de fundação da cidade, as
idades dos alunos e dos moradores antigos;
• Elaboração de carta coletiva mostrando as mudanças, as transformações
ocorridas na cidade e tratando de assuntos da atualidade;
• Elaboração de paródias sobre a história da cidade;
• Canto do hino da cidade e interpretação com ilustração.
5º dia
• Pesquisa para identificar causas da poluição do ar e suas consequências,
especialmente para a saúde das pessoas e as causas e consequências da
poluição das águas;
• Localização no mapa do Brasil as principais bacias hidrográficas brasileiras e
no mapa do estado os rios que abastecem o município.
AVALIAÇÃO NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS
De acordo com Hoffmann (1999, p.23), a avaliação deve ter um caráter
mediador:
A avaliação, enquanto relação dialógica, vai conceber o conhecimento como
apropriação do saber pelo aluno e também pelo professor, como ação-
reflexão-ação que se passa na sala de aula em direção a um saber
aprimorado, enriquecido, carregado de significados, de compreensão. Dessa
forma, a avaliação passa a exigir do professor uma relação epistemológica
com o aluno – uma conexão entendida como reflexão aprofundada a respeito
das formas como se dá a compreensão do educando sobre o objeto do
conhecimento.
O diálogo é inerente à pessoa humana, é necessidade primária da espécie
para construção da identidade do ser. “O diálogo é o momento em que os humanos
se encontram para refletir sobre sua realidade tal qual a fazem e refazem” (SHOR;
FREIRE, 1986 apud HOFFMANN, 1999, p. 23).
A avaliação na educação de Jovens e Adultos é viabilizada de diferentes
formas como: avaliação cooperativa, em duplas e em grupos maiores com atividades
desafiadoras.
As atividades avaliativas devem ser expressas de forma clara e objetiva,
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como: Seminários; Roda de conversa; Debates; Produção de textos; Desenhos
figurativos etc. Estes devem apresentar critérios claramente definidos, como por
exemplo: capacidade de síntese; domínio do assunto forma de apresentação ou de
registro; uso de recursos didáticos e controle do tempo.
O acompanhamento ao aluno é contínuo a fim de registrar os avanços e as
dificuldades, visando buscar atividades voltadas para a superação das limitações.
O registro do progresso dos alunos deve ser feito em diário de campo, fichas de
acompanhamento das habilidades e a observação sobre a fluência verbal dos alunos,
a organização das ideias focalizadas nas produções orais e escritas.
PROPOSTA CURRICULAR - 1º SEGMENTO
Este documento deve constituir-se em subsídio à elaboração de projetos e
propostas curriculares a serem desenvolvidos por organizações governamentais e
não governamentais, adaptados às realidades locais e necessidades específicas.
Este trabalho representa para o MEC a possibilidade de colocar à
disposição das secretarias estaduais e municipais de educação e dos professores de
educação de jovens e adultos um importante instrumento de apoio, com a qualidade
de referencial que lhe é conferida pelo notório saber de seus autores.
REFERÊNCIAS
ALMEIDA, Adriana de; CORSO, Ângela Maria. Educação de Jovens e Adultos:
Aspectos históricos e sociais. In: CONGRESSO NACIONAL DE EDUCAÇÃO, 12.
2015, Curitiba. Anais [...] Curitiba: Pontifícia Universidade Católica do Paraná, 2015.
ARROYO, Miguel Gonzalez. Juventude, Produção, Cultura e Educação de Jovens e
Adultos. In: SOARES, Leôncio; GIOVANETTI, Maria Amélia; GOMES, Nilma Lino
(orgs.). Diálogos na educação de jovens e adultos. Belo Horizonte: Autentica,
2007.
BANDEIRA, M. S. D. Áreas de resistência ao programa de alfabetização
funcional. São Paulo: Mobral; Sepes, [2000]. 179 p. (relatório de pesquisa).
BARRETO, Elba S. de Sá. Ensino Supletivo em São Paulo: entre ricas
experiências e pobres resultados. São Paulo: FCC, 1986. 148 p.
BEISIGGEL, C. de R. Estado e educação popular: em estudo sobre educação de
adultos. São Paulo; Pioneira, 1974. 189 p.
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BRASIL. Lei nº 13.005, de 25 de junho de 2014. Aprova o Plano Nacional de
Educação - PNE e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasilia, DF,
2014. Disponível em: https://pne.mec.gov.br/18-planos-subnacionais-de-
educacao/543-plano-nacional-de-educacao-lei-n-13-005-2014. Acesso em: 10 nov.
2022.
BRZEZINSK, Iria. (org.). LDB dez anos depois: reinterpretação sob diversos
olhares. São Paulo: Cortez, 2008.
CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. Parecer nº 11/2000, de 10 de maio de
2000. Dispõe sobre as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação de Jovens
e Adultos. Brasília, DF: CNE; CEB, 2000.
NÓBREGA, Carmen Verônica de Almeida. Alfabetização de adultos e idosos:
Novos Horizontes. 2006. 79f. Dissertação (Mestrado em Educação) - Universidade
Federal da Paraíba, João Pessoa, 2006.