0% acharam este documento útil (0 voto)
58 visualizações24 páginas

Mito e Filosofia: Transição Racional na Grécia

Este documento descreve o surgimento da filosofia na Grécia Antiga como uma ruptura com o pensamento mítico, substituindo explicações sobrenaturais por racionais. A filosofia surgiu questionando concepções míticas sobre o universo e os seres humanos, buscando compreensões baseadas na razão em vez da emoção.
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
58 visualizações24 páginas

Mito e Filosofia: Transição Racional na Grécia

Este documento descreve o surgimento da filosofia na Grécia Antiga como uma ruptura com o pensamento mítico, substituindo explicações sobrenaturais por racionais. A filosofia surgiu questionando concepções míticas sobre o universo e os seres humanos, buscando compreensões baseadas na razão em vez da emoção.
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

CONVERSA INICIAL

O objetivo desta aula é investigar a passagem do pensamento mítico ao

racional. Trata-se de analisar e compreender as condições históricas e aspectos

que caracterizam a formação do que se entende como sendo filosofia. Nesta aula,

vamos estudar as origens do pensamento filosófico na cultura ocidental. Veremos

como o seu surgimento está relacionado ao pensamento grego antigo,

destacando-se, primeiro, os pensadores chamados de pré-socráticos (séculos VII

a V a.C.) e, depois, filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles (séculos IV a III

a.C.), todos eles promovendo a substituição de explicações míticas por racionais.

TEMA 1 – O QUE É MITO?

Compreenderemos, neste tema, quais são as características do pensamento

mítico e por quais motivos a filosofia buscou combatê-lo ao empregar visões

consideradas mais racionais.

Antes do surgimento da filosofia e do pensamento considerado racional, na

Grécia Antiga, as explicações em torno da origem e funcionamento do Universo

e dos seres humanos eram dadas com base em concepções míticas. O

predomínio do mito na cultura grega se deu entre os séculos XI ao IV a.C.,

quando, a partir do século VII e sobretudo IV a.C., a filosofia desponta criticando

esse tipo de compreensão da realidade. Mas, afinal, o que é o mito?

Os mitos representam explicações sobrenaturais e fantásticas sobre a origem

do Universo, dos seres humanos e da natureza. Em grego, o termo deriva da

palavra mythos, que significa narração. Segundo o pesquisador francês Jean

Pierre Vernant (2001, p. 255-267), na obra Entre mito e política, as construções


míticas podem ser categorizadas em cosmogonias e teogonias. Do
grego cosmos, universo ou ordem; e gonos, gênese, origem, cosmogonias são

mitos que narram a origem do Universo e da natureza. Quanto às teogonias, do

grego theos, deuses, as teogonias narram a origem dos deuses, de suas relações,

acordos e conflitos.

O mito representa narrações de teor sensível ou emotivo, de modo a

expressar tanto os sentimentos e contradições do comportamento humano,

quanto também as forças e ciclos da natureza. Apresentados na maioria das vezes

oralmente, por poetas, ou nos teatros gregos, por meio das tragédias, os mitos

produziam, nos ouvintes, emoções, com as histórias de grandes heróis. Entre

choros e risadas, os ouvintes entravam em transe porque se identificavam com

as histórias, conduzindo ao que se denomina catarse.

Os mitos representavam elementos sagrados da cultura grega. Possuíam

também papel de justificação e organização da sociedade, seja do ponto de vista

político, seja do ponto de vista social, religioso ou econômico. Verifica-se a

abrangência da mitologia na cultura grega. Na obra intitulada O Universo, os

deuses, os homens, Vernant (2000, p. 14) indica que o mito “[...] contém o tesouro

de pensamentos, formas linguísticas, imaginações cosmológicas, preceitos

morais, etc., que constituem a herança comum dos gregos na época pré-clássica”.

As principais fontes de narrativas míticas entre os gregos provinham do

poeta Homero, que teria vivido entre os séculos XIX e VIII a.C. e escrito a Ilíada,

referente ao conflito entre gregos e troianos, e a Odisseia, história que narra a

trajetória de Ulisses (ou Odisseu), personagem considerado racional e que se

confronta com os deuses gregos na tentativa de retornar para sua cidade natal,

Ítaca, após a Guerra de Troia (Homero, 2013, 2014). Há dúvidas se Homero teria

ou não existido; se teria de fato escrito essas duas obras ou se representou, na

verdade uma escola de poesia responsável pela compilação de mitos narrados


no passado, de forma oral, na Grécia. Por vezes, Homero é descrito em relatos da
Antiguidade como um cego, andarilho que narrava os mitos gregos de cidade em

cidade.

Outra fonte de interpretações míticas, entre os gregos, considerada sagrada

eram as descrições de Hesíodo (2002, 2003), que viveu no século VII e escreveu

importantes obras, como Os trabalhos e os dias e Teogonia. Os mitos de Homero

e Hesíodo eram considerados sagrados e todos os gregos deviam respeito e

obediência aos seus preceitos. Veremos, no próximo item, que a filosofia surgiu,

na Grécia, com a intenção de combater essas explicações sensíveis e divinas

presentes nos mitos. Ainda que os mitos sejam atacados pela filosofia, autores

como Vernant (2001) não deixam de apontar que eles, apesar de terem o

predomínio de concepções fantásticas e sobrenaturais, não deixam de possuir

grau de racionalidade ao buscarem compreender a organização do Universo e do

mundo humano.

TEMA 2 – O QUE É FILOSOFIA?

No presente tópico, você estudará o contexto histórico, na Grécia Antiga,

que permitiu a passagem das explicações míticas em direção ao surgimento do

pensamento racional e filosófico. Quando se procura estabelecer que a filosofia

nasceu na Grécia Antiga, por volta do século VII a.C., com Tales de Mileto, isso

não quer dizer que outras culturas ou sociedades não tenham desenvolvido

formas de filosofia. Por exemplo, há a existência de filosofia na Índia ou na China,

na Antiguidade ou mesmo hoje, assim como entre sociedades indígenas e

africanas. No entanto, o que difere a filosofia ocidental das demais e o que

fornece a ela um caráter sui generis é a realização de uma cisão ou divórcio entre

a razão (logos) e o mito (mythos). Outros povos e civilizações desenvolveram

filosofias nas quais as forças divinas e naturais misturam-se, em seu fundamento,


ao comportamento e instituições humanas, ou seja, em que as explicações mítico-
religiosas se confundem com as explicações calcadas na racionalidade. No

entanto, a filosofia grega produziu cisma inédito. Buscou separar o racional do

mitológico, como também negar e rebaixar os mitos por considerá-los fontes de

interpretações equivocadas, mentirosas, ilusórias ou fantasiosas, que conduzem

ao erro e à ignorância.

A partir do pensamento pré-socrático, que será abordado no próximo item,

a cultura ocidental passará por uma ruptura com a tradição mítica, em direção à

construção de modelos racionais que terão impacto e deixarão heranças nas

construções sociais, políticas, econômicas, científicas e mesmo religiosas da

cultura ocidental. Isso se deve ao fato de que, segundo Deleuze e Guatari (1991),

na obra O que é filosofia?, a própria filosofia trabalha com conceitos que

procuram, de forma mais pragmática, definir racionalmente como se dá o

funcionamento do Universo e da vida humana.

A palavra filosofia teria surgido de um pensador pré-socrático conhecido

como Pitágoras de Samos (século V a.C.). Filosofia, em grego é a justaposição de

dois termos: philia, que significa desejo intenso, amizade, gosto ou amor

fraternal; e sophos, que expressa a noção de conhecimento ou sabedoria (Kirk;

Raven; Schofield, 1994). Ou seja, filosofia significa um amor ou amizade pela

sabedoria ou conhecimento. É importante destacar que a filosofia desperta nos

indivíduos aquilo que Platão (2007), na obra Teeteto, e Aristóteles (1973),


em Metafísica, classificam com o termo grego thaumazein, que é traduzido

como estranhamento, perplexidade, assombro, maravilhamento, espanto, estupef

ação ou estarrecimento.

Isso significa dizer que a filosofia emerge de um movimento de

desnaturalização da realidade a nossa volta, isto é, no instante em que não se

observa mais o mundo com os olhos habituais, como antes estávamos


acostumados a enxergar a realidade, ou com uma visão conformada a se tomar
as coisas como se fossem normais ou como se sempre tivessem sido assim. A

filosofia surge do sentimento de que o sentido das coisas está no fato de que

nada faz sentido, quando há um permanente questionamento a respeito da

ordem do mundo e de suas interpretações corriqueiras, como as míticas. Por isso,

a filosofia, quando surge na Antiguidade, irá se opor aos mitos, tomados pelos

cidadãos gregos como verdadeiros e fontes legítimas para todas as explicações

sobre o Universo e a vida humana.

Como o papel da filosofia é interrogar todos os aspectos de nossa existência,

como a vida social, a política, as crenças, as hierarquias e a posição que nossa

existência ocupa no Universo, ela não está preocupada com fornecer ou alcançar

as respostas verdadeiras (pois elas podem variar de pensador para pensador);

senão, a filosofia procura promover as verdadeiras perguntas. Esse princípio se

torna mais claro com o dito socrático só sei que nada sei, o que significa dizer que

quanto mais se busca o conhecimento ou a verdade, maior a certeza de nossa

ignorância.

A filosofia não é uma ciência, embora influencie, com suas questões, todas

as demais formas de conhecimento científico, sejam elas ciências exatas, sejam

ciências naturais ou humanas, exatamente por possuir a percepção de que as

verdadeiras perguntas são mais relevantes que a busca das verdadeiras respostas.

Embora a filosofia e a ciência tenham em comum o uso do logos, ou seja, da


razão, vemos a filosofia se diferenciar da ciência na medida em que esta última

tem a tendência a trabalhar com métodos matemáticos, experimentais ou

observacionais que visem a se alcançar comprovações de elementos objetivos

dispostos na natureza. Já a filosofia possui como tendência o trabalho lógico da

mente diante de temas mais subjetivos, como a felicidade, o bem comum, a


virtude ou os atributos cognitivos que permitem à mente estar certa ou
equivocada.
Outra diferença importante entre filosofia e ciência está no fato de que a

ciência é cumulativa, o que significa dizer que ela evolui, se aprimora ou se

desenvolve de tal forma que nos permite dizer que os achados científicos de hoje

são mais avançados ou superiores do que certas descobertas ou tecnologias

existentes no passado. O acúmulo de conhecimentos, portanto, conduz ao

progresso científico. Já a filosofia não permite esse tipo de constatação, de modo

que não se pode dizer que, por exemplo, a filosofia contemporânea seja melhor

ou mais avançada do que a antiga. São, na realidade, filosofias diferentes, com

coordenadas distintas, o que não nos impede de compará-las, apenas não sendo

possível a afirmação da superioridade ou inferioridade de um filósofo sobre

outro. Aprender o pensamento de um filósofo é como aprender um idioma novo.

Há um vocabulário específico a esse pensamento que torna, no início, sua

compreensão difícil. Porém, à medida que ele é estudado e o leitor penetra nas

principais questões e conceitos fornecidos pelos filósofos, lhe é permitido

compreender melhor uma determinada filosofia e conjunto de conceitos e ideias.

Enquanto a ciência avança como uma linha do progresso, com seus métodos e

respostas, a filosofia opera como uma espiral, porque seus problemas e

perguntas são transversais, isto é, estão presentes em diferentes épocas, na


abordagem de diversos filósofos e suas linhas de pensamento.

Na obra Convite à filosofia, a filósofa Marilena Chauí (1994) responde de

forma irônica à questão para que serve a filosofia?, geralmente feita pelos críticos

do saber filosófico. Os críticos tendem a observar a filosofia como um amontoado

de reflexões desnecessárias e inúteis. Segundo Chauí (1994, p. 10), geralmente

vê-se que “[...] a filosofia não serve para nada. Por isso, se costuma chamar de

‘filósofo’ alguém sempre distraído, com a cabeça no mundo da Lua, pensando e

dizendo coisas que ninguém entende e que são perfeitamente inúteis.”

Portanto, deve-se responder ironicamente à questão para que serve a

filosofia. A resposta é: a filosofia não serve a nada não porque seja inútil ou
desinteressante, senão devido ao fato de que a filosofia não serve por não ser

servil ou escrava de nenhuma forma de poder, domínio ou hegemonia. A filosofia

é um saber livre e libertador que nos permite contradizer e questionar toda a

realidade à nossa volta.

TEMA 3 – OS PRÉ-SOCRÁTICOS

Conforme estudamos no item anterior, a filosofia ocidental se diferencia das

filosofias praticadas por outras culturas devido ao fato de que se promoveu na

Grécia Antiga a cisão entre as explicações míticas e as racionais. Os primeiros

filósofos são conhecidos como pré-socráticos e buscaremos compreendê-los a


partir de agora.

3.1 OS FILÓSOFOS DA NATUREZA

Alguns fatores históricos e geográficos foram determinantes para que a

filosofia e a separação entre os argumentos racionais e os mitológicos tivessem

origem na Grécia Antiga. O primeiro deles está no fato de que a maioria das

cidades gregas são portuárias, de modo que isso permitiu aos seus habitantes,

desde cedo, o contato com outras civilizações e mitos diferentes dos seus, como

os povos egípcios, babilônicos, sumérios, fenícios, persas, entre outros. Concebe-

se que o contínuo contato e comparação com outras formas religiosas e míticas

de compreensão do Universo tenha levado alguns pensadores, na Grécia, a partir

do século VII ao V a.C., a buscarem formas e alternativas mais racionais de

entendimento da natureza, fugindo dos relatos sensíveis, sobrenaturais e

fantásticos tão comuns, então.

Além disso, as cidades gregas, conhecidas como polis, possuíam leis escritas

que transferiram à filosofia a tradição de fixar na forma de livros as reflexões


desses primeiros filósofos, embora praticamente todas as obras dos pensadores
conhecidos como pré-socráticos tenham se perdido devido a incêndios e

destruições de bibliotecas, ainda na Antiguidade. Muito do que sabemos de seus

livros e reflexões se devem à atividade denominada doxografia. Os doxógrafos

foram estudiosos, historiadores e filósofos da Antiguidade que tiveram a

oportunidade de ler, na íntegra, os textos dos pré-socráticos que se perderam.

Com isso, citaram trechos ou teceram comentários sobre essas obras, a que não

temos mais acesso.

Créditos: Olinchuk/Adobe Stock.


Outro fator importante para o surgimento da filosofia na Grécia foi a

existência da escravidão, conforme aponta Vernant (2001), pois o trabalho

escravo, embora forçado e oposto à liberdade humana, possibilitava que alguns

homens, considerados cidadãos, tivessem condições como dispor de tempo livre

e ócio para participar da praça pública (como a chamada ágora de Atenas) e das

decisões políticas, além de especular racionalmente sobre indagações filosóficas.

Os pré-socráticos ou primeiros filósofos são também conhecidos

como filósofos da natureza. Isso se deve ao fato de que, diferentemente do que

veio a ocorrer a partir da filosofia de Sócrates (470-399 a.C.), preocupada com

questões em torno do ser, da relação entre corpo e alma, da justiça, das virtudes

e do bem-comum na cidade, os pré-socráticos estavam interessados e

direcionados à seguinte questão: qual é o elemento primordial ou qual a origem

de tudo o quanto existe na natureza? Esse elemento primordial que buscavam

explicar é designado arché.

A busca da arché, entre os pré-socráticos, conduziu a interpretações

distantes das elaborações sobrenaturais míticas. Embora os primeiros filósofos

divirjam a respeito de qual é a arché, isto é, o elemento primeiro que dá origem

e está presente em toda a matéria da natureza, a sua busca e interpretação é um

elemento comum nas construções desses filósofos e, por isso mesmo, eles são

definidos como filósofos da natureza.

2.2 TEORIAS DOS PRÉ-SOCRÁTICOS

A ruptura com o pensamento mítico se deu quando Tales de Mileto (séc. VII

e VI a.C.) procurou por uma explicação pragmática da arché que fosse concreta e

distante das construções fantásticas ou sobrenaturais dos mitos. Filósofo jônio,

estabeleceu a água como arché. De acordo com a obra Os filósofos pré-


socráticos (Kirk; Raven; Schofield, 1994), Tales observou a relação da água com
todos os seres da natureza; e em seus estados sólidos, líquidos e gasosos. No

Egito, percebeu como a terra desértica se tornava fértil com a cheia do Rio Nilo.

Em altas montanhas, encontrou fósseis de animais marinhos. Concluiu, assim, que

o mundo era coberto pela água, originalmente. Tales é considerado o pioneiro

do que hoje chamamos de paleontologia (Kirk; Raven; Schofield, 1994).

Influenciado pelas questões em torno da arché de Tales, outro filósofo de

Mileto, Anaximandro (610-547 a.C.), buscou dar uma outra resposta sobre o

elemento constituinte de toda a realidade. Diverge de seu mestre ao propor que

a arché é o ápeiron, palavra grega que

significa ilimitado, indeterminado, indefinível, sem origem e inominável, sendo,

portanto, imaterial, infinita e imortal, mas que origina todos os elementos e toda

a matéria presente no Universo. O indeterminado é a origem e a causa de tudo o

que existe, sendo apreendido apenas pelo pensamento e não pela sensibilidade.

Anaximandro concebia que o Universo é guiado pelo movimento eterno e circular

do ápeiron, que faz surgir o quente (fogo) e o frio (ar); nele, há equilíbrio e

retribuição entre os contrários ou substâncias opostas. Os seres comuns, quando

morrem, retornam ao ápeiron (Kirk; Raven; Schofield, 1994).

Anaxímenes (Mileto, 585-528/525 a.C.), filósofo jônio, afirma que a arché é

o ar (pneuma). Discorda de Anaximandro, pois a arché não poderia, para ele, ser

o indeterminado, posto que o ápeiron seria inconcebível pelo pensamento,


porque abstrato. Diferentemente da água (na tese de Tales), o ar é invisível, mas

nem por isso deixa de ser natural e estar presente em tudo o quanto existe, sendo

o elemento primordial constituinte do Universo. Anaxímenes constata que, do

nascer ao morrer, há a existência do primeiro até o último respiro, sendo o ar

determinante para qualquer ser vivo. O mundo é vivo e respira (ar seria
equivalente a alma, algo comparado ao corpo da natureza) (Kirk; Raven; Schofield,
1994).
Xenófanes de Cólofon (570-475 a.C.) deixou a Jônia em direção ao sul da

Península Itálica quando os persas invadiram a Grécia. Errante, andarilho e

recitador de poemas, visitou diversas cidades, sendo o patrono da escola eleática,

da qual farão parte também Parmênides e Zenão. Segundo Xenófanes, a arché é

a unidade na imutabilidade, contida em um deus uno e imutável, não

apresentando nenhum elemento sólido como o princípio de tudo, mas

manifestando-se com base no elemento terra. A concepção de um deus único,

imortal e imutável como princípio de tudo esboça sua concepção de arché.

Xenófanes opôs-se ao antropomorfismo e ao politeísmo das religiões que

conheceu, sobretudo a grega. Deu-se conta de que a intenção de atribuir aos

deuses as próprias características e potencialidades humanas era natural, porém

equivocada (Kirk; Raven; Schofield, 1994).

Heráclito (Éfeso, 540-470 a.C.) foi um filósofo jônio conhecido como O

Obscuro ou O Fazedor de Enigmas, devido à sua escrita de difícil compreensão e

múltiplas interpretações. Defensor do mobilismo, concepção que dirá que todas

as coisas naturais estão em constante movimento, em constante mudança, num

constante devir ou fluir, tendo como sua engrenagem ou arché o fogo, é-lhe

atribuída a sentença Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio. O mobilismo

está relacionado ao termo criado por Heráclito, o logos (razão ou inteligência)

presente na natureza, havendo assim estabilidade na mudança, sendo o fogo o

garantidor do fluxo dos contrários (Kirk; Raven; Schofield, 1994).

Parmênides e Zenão serão críticos da tese mobilista de

Heráclito. Parmênides (515-460 a.C.) foi um filósofo eleata, fundador da

concepção de ontologia (conhecimento do ser e da essência última dos seres),

consequentemente da metafísica e da filosofia num sentido mais abstrato.


Parmênides conheceu e influenciou o então jovem Sócrates e estabeleceu a
diferença entre essência (imutável e verdadeira – alétheia) e aparência (que se

transforma sempre, como a doxa – opinião, algo, portanto, instável, falso e


ilusório). O mobilismo de Heráclito não levaria, segundo Parmênides, ao

conhecimento verdadeiro, mas a opiniões variáveis sobre as coisas, o que tornaria

não verdadeira a concepção mobilista dos seres ou a tese do movimento de

Heráclito. A verdade, para Parmênides, é única, imóvel, eterna, imutável, sem

princípio nem fim, contínua e indivisível. Por isso, Parmênides afirma que o ser

é (uma essência imutável e verdadeira, afinal a sentença o que é é o objeto do

pensamento). O que muda é o não ser (o que não é é que está em transformação

e é capturado pelos sentidos, sendo, portanto, falso). O acesso à verdade do ser

se dá com o uso da razão, do pensamento, afastando-se da opinião formada

pelos hábitos, impressões sensíveis, que são por si só ilusórios, imprecisos e

mutáveis (Kirk; Raven; Schofield, 1994).

Zenão (489-430 a.C.), por sua vez, foi discípulo de Parmênides e seu

pensamento consiste na defesa das teorias monistas (sobre o indivisível, o

imutável e o verdadeiro) de seu mestre por meio de paradoxos (em grego,

paradoxo significa, literalmente, contraopinião ou opinião oposta). Os paradoxos

concluem que não existe movimento e mudança e que esses se tratam de uma

confusão dos sentidos. Entre os mais conhecidos paradoxos de Zenão, destacam-

se o de Aquiles e a tartaruga e o do arqueiro, com base nos quais ele conclui que

cada movimento é constituído por infinitos momentos imóveis. Dessa forma, o

movimento é provido de momentos estáticos ou imóveis (Kirk; Raven; Schofield,

1994).

A respeito de Pitágoras (Samos, 570-496 a.C.), pouco se sabe de sua vida,

sendo o pitagorismo possivelmente uma escola de pensamento e certamente

uma seita religiosa secreta, que no futuro exerceria influência sobre Platão.

Pitágoras considera a arché como do âmbito dos números, das formas


geométricas e das suas proporções harmoniosas. A natureza, portanto, é
matemática. Os princípios pitagóricos influenciaram outro pensador
eleático, Filolau de Crotona (século V a.C.), que sugeriu a ideia de movimento da

Terra (Kirk; Raven; Schofield, 1994).

Empédocles (Agrigento, 490-435 a.C.) foi político, poeta, médico e

cosmólogo e não buscou um único princípio das coisas. Ao contrário, defendeu

que a arché é constituída pelos quatro elementos: fogo, terra, água e ar. Esses

quatro elementos são separados e unidos pelo ódio (que se forma pelas

diferenças) e pelo amor (que reúne as semelhanças). Há em seu pensamento a

atribuição de valores morais à natureza e o reconhecimento da presença de certa

unicidade (uno-divino) entre os quatro elementos (do uno ao múltiplo).

Empédocles se aproxima de Parmênides (unidade) e Heráclito (movimento) (Kirk;

Raven; Schofield, 1994).

Anaxágoras (Clazômenas, cerca de 500-428 a.C.), de origem jônia, teria

vivido em Atenas por cerca de 30 anos e por lá fundado uma escola de filosofia.

Considera a arché composta de uma infinidade de pequenos elementos, as

chamadas homeomerias (que, em grego, significam sementes). Os objetos

concretos e os elementos materiais dispostos na realidade têm origem de

relações de afinidades entre porções dessas sementes, com defesa do múltiplo,

do infinito e do divisível e não do uno e do limitado. A quantidade de coisas no

mundo seria, assim, sempre a mesma, e tudo seria infinitamente divisível. Nessa

visão, não existe o nada. Anaxágoras concebe a possibilidade de existência de


mundos paralelos, de repetição de mundos ou da sucessão deles (Kirk; Raven;

Schofield, 1994).

Leucipo (Mileto, séc. V a.C.) e Demócrito (Abdera, cerca de 460-370 a.C.) são

conhecidos como atomistas. Segundo esses pensadores, existem dois elementos

primordiais para a formação de todas as coisas: o átomo e o vazio. A arché é

tomada com base nos átomos (que, em grego, significavam partículas indivisíveis,
individuais, finitas e invariáveis, eternas e em perpétuo movimento), que se
diferem entre si pela forma, tamanho, posição e ordem. Os átomos se diferenciam

das homeomerias de Anaxágoras por não serem mutáveis ou capazes de se

transformar. Tudo quanto existe seria, com isso, resultado de combinações tidas

como espontâneas de átomos ardentes, leves e esféricos, constituindo a

pluralidade do mundo. O atomismo de Demócrito é avaliado como o

pensamento mais rigoroso entre os filósofos da natureza ou pré-socráticos. Para

Demócrito, a lógica e a sabedoria são o resultado do entendimento da natureza.

A alma humana é também constituída por átomos, sujeita à decomposição e à

morte. A natureza deve ser explicada por si mesma e os acontecimentos não têm

uma causa primeira, contendo, sem exceção, tudo o que foi, é e será. Nessa

direção, os humores humanos, como a felicidade, devem ser compreendidos

conforme a composição material da realidade e de seus átomos (Kirk; Raven;

Schofield, 1994).

TEMA 4 – A FILOSOFIA DE SÓCRATES E PLATÃO

Vamos investigar agora o principal pensador grego, Sócrates, suas ideias e

críticas contra os costumes e visões de mundo dos gregos, baseados na


mitologia. Avaliaremos a relação do mestre com o discípulo, Sócrates e Platão, e

por quais motivos o pensamento socrático deu origem a novos problemas e

formas de se pensar a filosofia.

4.1 QUEM FOI SÓCRATES?

Sócrates (470-399 a.C.) nasceu em Atenas e era filho de uma parteira. Em

grego, maiêutica é o termo que significa dar à luz, parir. Sócrates compara o

aprendizado filosófico ao nascimento ou parto, de forma que o conhecimento

seria, em sua visão, um processo doloroso, até que se consolide o nascimento do


pensamento filosófico nos indivíduos. Sócrates nunca escreveu nada, pois

afirmava que escrever seria uma forma de aprisionar o conhecimento. Sabemos


da existência de Sócrates por meio do trabalho de dois de seus discípulos, Platão

e Xenofonte. Platão (428-347 a.C.) foi pertencente a uma família abastada e

nobre de Atenas; Xenofonte (430-355 a.C.) foi um poeta e jurista ateniense. Uma

terceira visão sobre quem foi Sócrates foi dada por Aristófanes (447-385 a.C.),

um poeta crítico às ideias do filósofo por considerá-lo subversivo por atacar as

tradições políticas e religiosas dos atenienses (Jaeger, 2001).

Platão torna seu mestre, Sócrates, o principal personagem de suas obras,

destacando-se, por exemplo, o livro A república (Platão, 1988). Comentadores da

obra de Platão tendem a demonstrar dificuldades em separar as ideias do mestre

e do discípulo, de modo que o pensamento desses dois filósofos constitui uma

continuidade e certa unidade que dá origem ao complexo de ideias socrático-

platônicas (Châtelet, 1994).

Xenofonte e Platão descrevem Sócrates como homem de mente rigorosa,

racional e questionadora, que produziu severas críticas às crenças nos mitos

gregos e na política ateniense, a democracia. Sócrates foi acusado e declarado

culpado por corromper a juventude, atacar a democracia ateniense e o politeísmo

grego; opôs-se às duas principais figuras de sua cidade: os poetas (responsáveis

pela manutenção das tradições religiosas baseadas nos mitos) e os sofistas

(eloquentes educadores e demagogos que manipulavam as decisões políticas

tomadas na cidade, em proveito próprio) (Châtelet, 1994).

O pensamento socrático-platônico desejava substituir a democracia

ateniense por um modelo utópico e idealizado baseado numa monarquia

governada por filósofos no lugar, respectivamente, da democracia e dos sofistas.

Sócrates atacou a escravidão nas cidades gregas; defendeu a participação das

mulheres na vida social e política, inclusive a formação de guardiões e guardiãs,

com o fim do casamento monogâmico entre esses guerreiros; propôs que todas
as riquezas fossem confiscadas e administradas pelos filósofos, com o objetivo
de se gerar uma cidade justa. Devido às suas ideias, consideradas radicais,

Sócrates foi condenado à morte e envenenado por ingestão de cicuta. Embora

pudesse ter escolhido o exílio, a censura ou o pagamento de uma multa para se

livrar da pena, optou por ingerir o veneno e alcançar a morte, pois considerava a

alma e a razão como eternas e o corpo, os sentidos ou as sensações corporais

como corruptíveis, mutáveis e perecíveis (Châtelet, 1994).

4.2 A DIALÉTICA SOCRÁTICO-PLATÔNICA

Para se opor aos discursos convincentes, porém falsos, de poetas e sofistas,

voltados a fazer aflorarem as emoções, paixões, sensações e crenças equivocadas

entre os gregos, Sócrates, e depois Platão, desenvolveram o primeiro método

racional e filosófico da cultura ocidental, a chamada dialética. Esse método

consiste num debate, discussão ou diálogo elaborado por meio de sucessivas

perguntas, sempre realizadas pelo filósofo, que têm como objetivo questionar e

conduzir à contradição as opiniões (doxa) das pessoas comuns, principalmente

poetas e sofistas. Sócrates e Platão opõem a dialética, relacionada à filosofia e à

razão (logos), à opinião (doxa), considerada vaga, ignorante e equivocada porque

vinculada aos mitos, sensações e paixões humanas. Sócrates deseja que sejamos

guiados pela razão, esta sim capaz de conduzir à verdade e às virtudes, e não

pelas paixões ou emoções, fontes de todo erro e de vícios que corrompem o bem

comum e levam a sociedade à degeneração (Châtelet, 1994).

4.3 MUNDO SENSÍVEL E MUNDO INTELIGÍVEL

Sócrates e Platão foram responsáveis por proporem a diferenciação do real

do falso, da verdade da aparência, por meio da oposição entre o que

denominaram mundo sensível e mundo inteligível (ou mundo das ideias). O

sensível corresponderia a tudo o que é concreto, físico, material e sensível (as


nossas sensações corporais), aos objetos sensíveis diante dos nossos olhos e
demais sentidos. Tudo que pertence a esse mundo, o mundo material, está em

transformação, é transitório e muda. Quando somos guiados pela sensibilidade

(os sentidos), somos conduzidos, logo, ao erro, pois somos influenciados pelas

emoções (elementos presentes no mito e no discurso dos sofistas). O mundo

sensível, portanto, seria dominado pelas aparências, segundo essa linha de

pensamento, posto que o que é transitório e muda a todo instante, como os

nossos sentimentos, não pode corresponder à verdade. As aparências e os

sentidos podem produzir os vícios, já que acomodam o corpo e a mente. Os vícios

seriam paixões produzidas pelos sentidos, fazendo do indivíduo escravo do

prazer. O mundo sensível deve ser, assim, relacionado à noção de simulacro

(conjunto de sombras e aparências) (Châtelet, 1994).

O mundo inteligível, por sua vez, só seria acessível por meio do uso da razão.

Nesse mundo estão as verdades, também chamadas

de essências, formas ou ideias. A verdade seria eterna, imutável e universal, não

se transformando jamais, o que a diferiria das aparências presentes no mundo

sensível. A razão, por conduzir o homem à verdade, produziria as virtudes e

guiaria a vida para o bom caminho e não para os vícios. Segundo Marilena Chauí

(1994, p. 269-270):

Eis por que a ontologia platônica introduz uma divisão no mundo, afirmando a existência de dois

mundos inteiramente diferentes e separados: o mundo sensível da mudança, da aparência, do devir

dos contrários, e o mundo inteligível da identidade, da permanência, da verdade, conhecido pelo

intelecto puro, sem qualquer interferência dos sentidos e das opiniões. O primeiro é o mundo das

coisas. O segundo, o mundo das ideias ou das essências verdadeiras. O mundo das ideias ou das

essências é o mundo do Ser; o mundo sensível das coisas ou aparências é o mundo do Não-Ser. O

mundo sensível é uma sombra, uma cópia deformada ou imperfeita do mundo inteligível das ideias

ou essências.
Platão concebia a noção de imortalidade da alma e uma doutrina de

reencarnação das almas pela qual indivíduos dedicados à razão, à filosofia e à

virtude tenderiam a alcançar o mundo inteligível após a sua morte, tomando

conhecimento pleno do que seja a verdade, a justiça, o bem, o belo e Deus. É

importante ressaltar que Sócrates e Platão são os primeiros filósofos a

defenderam o monoteísmo. Eles são críticos do politeísmo porque os deuses

exprimem comportamentos voláteis e comparáveis aos sentimentos humanos,

portanto são falsos. O monoteísmo é defendido pelos dois filósofos porque Deus

deve ser único, eterno, imutável e seus pensamentos são superiores e

inconcebíveis pelos sentimentos humanos (Châtelet, 1994).

Segundo Châtelet (1994), como a relação entre corpo e alma é acidental,

quando nossa existência é dada ainda no mundo sensível apenas é possível

alcançar as ideias originais, essências ou formas do mundo inteligível com o uso

da razão, por exemplo, a essência ou o pensamento perfeito da ideia de uma

mesa, casa, ser humano, números ou formas geométricas. As ideias são perfeitas;

porém, no mundo sensível, não encontramos seus correspondentes, a não ser

cópias malfeitas e degeneradas das essências. Além disso, o mundo sensível

apresenta dois patamares. O primeiro deles corresponde ao dos objetos físicos,

cópias distorcidas das ideias originais. O segundo patamar diz respeito aos

discursos dos poetas e sofistas, considerados do mais elevado patamar de

mentira, cópias das cópias, que revelam o que há mais falso, levando os

indivíduos ao erro e à ignorância.

A Figura 1 permite compreender as distinções entre os dois mundos

avaliados por Sócrates e Platão.

Figura 1 – Mundo inteligível e mundo sensível


Fonte: Elaborado com base em Platão, 1988.

Dessa forma, no mundo inteligível estariam nossas ideias originais. É o que

se chama de logos (razão, ciência, conhecimento, discurso racional que nos leva

à verdade, ou seja, elementos da atividade do filósofo). Já no mundo sensível (ou


das aparências) apenas vemos as cópias das ideias, ou seja, as suas sombras. Esse

mundo corresponde ao mundo do mito (mythos).

TEMA 5 – A ALEGORIA DA CAVERNA

Vamos estudar agora uma das narrativas mais conhecidas da história da

filosofia. Platão e Sócrates comparam o mundo sensível a uma prisão por meio

da chamada alegoria da caverna, presente no Livro VII da obra A

república (Platão, 1988). A alegoria trata de indivíduos que viveram toda a sua

existência acorrentados no interior de uma caverna, ou seja, aprisionados pelas

paixões e sensações, e que apenas poderiam olhar para frente, onde eram
projetadas sombras, na parede da caverna que habitavam. Assim, essas pessoas

tomavam as sombras e aparências como se fossem verdadeiras, sem saber que

atrás deles havia outros indivíduos (leiam-se, sofistas e poetas) manipulando, na

frente de uma fogueira, objetos que davam origem às sombras projetadas na

parede, como em um teatro de sombras de fantoches ou um simulacro.

No entanto, um dos prisioneiros, o filósofo, consegue se desacorrentar, pois

seus instrumentos de libertação são a razão, o estranhamento e os

questionamentos. O filósofo percebe então que havia sido sempre enganado,

tomando as aparências como se fossem a realidade. Decide, depois disso, sair da

caverna, para encontrar as ideias, as formas, isto é, a realidade fora da prisão, e

enfim observa a luz do Sol, que representa a verdade, o belo, o bem e a justiça.

O filósofo toma a difícil decisão de retornar à caverna para advertir seus antigos

companheiros a respeito do fato de que estavam sendo enganados, acreditando

que as sombras eram verdadeiras. Ao retornar, esses companheiros não

acreditam em suas palavras: acabam por desmenti-lo e agredi-lo, até matá-lo

(Platão, 1988).
Crédito: Matiasdelcarmine/Adobe Stock.

Dessa forma, a alegoria da caverna representa tanto a teoria do

conhecimento de Platão e Sócrates, ou seja, a oposição entre os mundos sensível

(a caverna) e inteligível (fora da caverna, onde há a luz do Sol). Além disso, a

mesma alegoria expressa como se deu a morte de Sócrates, que, por utilizar a

razão e contestar poetas e sofistas, foi condenado ao envenenamento por cicuta,

em Atenas.

NA PRÁTICA

No ano de 2016, o Dicionário Oxford de filosofia cunhou o termo pós-

verdade em seus verbetes, relacionando-o da seguinte maneira ao fenômeno

das fake news: “Post-truth (pós-verdade): relativo ou referente a circunstâncias

nas quais os fatos objetivos são menos influentes na opinião pública do que as

emoções e as crenças pessoais” (Word, 2016, tradução nossa). A noção de pós-

verdade diz respeito ao processo de deslegitimação das ciências, de certezas


racionais em nome de opiniões falsas, passionais e geradoras de notícias falsas
(as fake news). Seria possível relacionar a noção de pós-verdade com os

problemas identificados por Sócrates em relação às opiniões dos sofistas?

Investigue uma fake news que tenha sido abordada criticamente por meios de

comunicação (jornais, revistas, sites de notícias e afins) e, em seguida, faça uma

comparação com concepções platônicas a respeito da distinção entre os mundos

sensível e inteligível.

FINALIZANDO

Nesta aula, estudamos o surgimento da filosofia ocidental, com base nos

pensadores gregos. Avaliamos que o discurso filosófico na Grécia apareceu com


os filósofos conhecidos como pré-socráticos, que foram responsáveis por

produzir reflexões de teor racional, sobre a natureza, em oposição às

intepretações de cunho fantástico e sobrenatural presentes nos mitos.

Investigamos a originalidade do pensamento socrático-platônico, que trouxe

novos questionamentos ao pensamento filosófico. Enquanto os pré-socráticos se

perguntavam essencialmente pela arché, Sócrates inova sobretudo com os

seguintes elementos:

a. construção de uma teoria do conhecimento que supõe uma rígida

separação entre corpo (mythos) e alma (logos);

b. crítica da democracia e proposição de um regime político fundado na

razão e não mais nos mitos, modelo que subverteu as tradições gregas ao

elaborar sistemática oposição aos mitos, aos sofistas e à democracia

ateniense;

c. Sócrates e Platão produziram e promoveram, pela primeira vez, um

método filosófico, a dialética, para combater os mitos.

REFERÊNCIAS
ARISTÓTELES. Metafísica. São Paulo: Abril Cultural, 1973. (Os pensadores).

CHÂTELET, F. Uma história da razão: entrevistas com Émile Noël. Rio de

Janeiro: Jorge Zahar, 1994.

CHAUÍ, M. Convite à filosofia. São Paulo: Editora Ática, 1994.

DELEUZE, G.; GUATARI, F. O que é filosofia? São Paulo: Editora 34, 1991.

HESÍODO. Os trabalhos e os dias. São Paulo: Editora Iluminuras, 2002.

_____. Teogonia. Tradução e estudo: Jaa Torrano. São Paulo: Iluminuras, 2003.

HOMERO. Ilíada. São Paulo: Penguin, 2013.

_____. Odisseia. São Paulo: Cosac & Naify, 2014.

JAEGER, W. Paideia: a formação do homem grego. 4. ed. São Paulo: Martins

Fontes, 2001.

KIRK, G. S.; RAVEN, J. E.; SCHOFIELD, M. Os filósofos pré-socráticos. Lisboa:

Fundação Calouste Gulbenkian, 1994.

PLATÃO. A república. Belém: Edufpa, 1988.

_____. Diálogos I: Teeteto, Sofista, Protágoras. São Paulo: Edipro, 2007.

VERNANT, J. P. Entre mito e política. São Paulo: Edusp, 2001.

_____. O Universo, os deuses, os homens. São Paulo: Companhia das Letras,

2000.

WORD of the Year 2016. Oxford Languages, 2016. Disponível em:


<[Link] Acesso em: 2 fev. 2022.

Você também pode gostar