Vulnerabilidade Socioambiental em Teresina
Vulnerabilidade Socioambiental em Teresina
ISSN: 1011-484X
revgeo@[Link]
Universidad Nacional
Costa Rica
Resumo
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1. Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pelo PRODEMA/UFPI e Professora do Instituto
Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí, campus Angical. E-mail:
sammyachaves@[Link].
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1. Professora Adjunta da Universidade Federal do Piauí do Departamento de Construção Civil e
Arquitetura e orientadora do PRODEMA/UFPI. E-mail: wilzalopes@[Link]
Introdução
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Revista Geográfica de América Central, Número Especial EGAL, Año 2011 ISSN-2115-2563
A vulnerabilidade socioambiental em Teresina, Piauí, Brasil
Sammya Vanessa Vieira Chaves; Wilza Gomes Reis Lopes
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como a população enfrenta ou se adapta à iminência desse risco que vai determinar o
seu grau de vulnerabilidade.
De fato, é sabido que as populações que apresentam privações socioeconômicas
tem possibilidades cerceadas para enfrentar o risco, posto que apresentam ativos
econômicos e oportunidades bastante limitados, conforme é defendido por Abramovay
(2002), Marandola Júnior e Hogan (2005), dentre outros. Assim, uma área de
vulnerabilidade socioambiental é aquela cuja exposição de risco local é iminente e que
ainda são ocupadas por grupos sociais mais pobres e desprovidos de saneamento básico,
gerando áreas degradadas no meio urbano.
Dessa forma, o objetivo geral da pesquisa é discutir a vulnerabilidade
socioambiental presente em Teresina, demonstrando as áreas vulneráveis, tanto de
ordem social e ambiental a partir dos indicadores determinados, incluindo as áreas de
coexistência entre ambas, mapeando-as através do Sistema de Informação Geográfica
(SIG).
Os procedimentos metodológicos utilizados na pesquisa foram adaptados de
Alves (2006) aplicados na metrópole paulista. Para a aplicação da proposta em Teresina,
foram definidos indicadores sociais (renda e escolaridade) e indicadores ambientais
(saneamento básico e risco de inundações) para a determinação da vulnerabilidade
social e ambiental, respectivamente.
A vulnerabilidade socioambiental foi definida a partir do cruzamento das
informações oriundas das análises sociais – renda e escolaridade – e ambientais –
cobertura de esgoto, lixo e susceptibilidade às inundações, as quais permitiram
inferências sobre as regiões da cidade onde coexistem problemas sociais e ambientais,
determinando assim, as áreas de vulnerabilidade socioambiental.
A Vulnerabilidade Social
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Torres (1997) explica que tal tendência se concretiza pelo simples fato de ser
essas áreas as mais acessíveis às populações mais pobres, seja por serem áreas públicas
ou áreas de preservação, ou por se tratarem de terras desvalorizadas no mercado
imobiliário. Nesse contexto, é comum por vezes, apresentarem presença de riscos
ambientais ou ausência de infra-estrutura urbana.
Dentro da discussão sobre áreas vulneráveis a riscos, é imperativo debater sobre
as condições sociais da população, uma vez que são os grupos sociais mais pobres que
residem em áreas de risco ambiental, com péssimos indicadores sociais e sanitários
(TORRES e MARQUES, 2001).
De acordo com Alves (2006), o termo vulnerabilidade social passa a incorporar a
questão da exposição a riscos e perturbações provocadas por eventos ou mudanças
econômicas, ampliando a visão sobre as condições de vida das populações e
considerando as formas de como as famílias enfrentam ou podem enfrentar tais
perturbações econômicas.
Torres (2000) sendo comentado por Marandola Jr. e Hogan (2005) destaca como
elemento essencial para a discussão da vulnerabilidade, as características
socieconômicas das populações nas áreas de risco. Com efeito, tanto Marandola Jr. e
Hogan (2005) quanto Torres (2000) defendem que a vulnerabilidade social está atrelada
à situação socioeconômica e à capacidade de resposta diante dos riscos ambientais.
Assim, o grupo social e sua condição econômica é um elemento determinante para a
vulnerabilidade a riscos.
De fato, os grupos sociais que apresentam um maior grau de vulnerabilidade
social são os que não apresentam um poder de consumo mínimo, e a situação agrava
ainda mais pela falta de acesso aos serviços públicos básicos. A distribuição desigual
dos serviços urbanos é um componente importante da vulnerabilidade socioambiental.
As conclusões da CEPAL (2002) sendo discutidas por Marandola Jr. e Hogan
(2005), demonstram que a vulnerabilidade pode ser entendida a partir de três viés:
1. existência de um evento potencialmente adverso, endógeno ou exógeno;
2. incapacidade de responder à situação, seja por causa da ineficiência de suas
defesas, seja pela ausência de recursos que lhes dêem suporte;
3. inabilidade de se adaptar à situação gerada pela materialização do risco
(MARANDOLA JR. e HOGAN, 2005, p.42).
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A Vulnerabilidade Ambiental
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São as pessoas que se encontram na rota desses desastres naturais que são os
ambientalmente vulneráveis. A capacidade de resposta dos mesmos é que vai
determinar seu grau de vulnerabilidade.
Indubitavelmente, os grupos sociais mais pobres são os mais afetados
diretamente pelos desastres, isso por residirem em áreas expostas à perigos e por
sobreviverem em condições de privações e pobreza. Tanto os países pobres quanto os
países ricos, via de regra, nas suas periferias, são susceptíveis à um desastre natural.
Com isso é visível uma necessidade de se ir além de uma simples identificação das
áreas de maior ou menor risco. A vulnerabilidade ambiental pode ser significativamente
maior àqueles que, expostos aos riscos do ambiente, sofrem com a iniquidade social e se
vêem com poucos ativos para mobilizar frente aos riscos (DE PAULA, et al, 2006).
Cabe comentar que, ações falhas de órgãos institucionais, tais como a Defesa
Civil também podem contribuir para uma maior vulnerabilidade, à medida que suas
atitudes são, de certa forma, pontuadas a determinados lugares e marcadas por uma
ineficiência do que tange a monitoramento e mitigação de desastres naturais.
No Brasil, não existe uma tendência natural para a ocorrência de desastres
naturais de origem geológica ou tectônica, isso devido às características de estabilidade
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da crosta do nosso país. Entretanto, entre 2000 e 2007 mais de 1,5 milhões de pessoas
foram afetadas por algum tipo de desastre natural (SANTOS, 2007). Ainda segundo
Santos (2007), nesse mesmo período ocorreram cerca de 40 grandes episódios de
enchentes, secas, deslizamentos de terras, cujo prejuízo econômico estimado seja de
US$ 2,5 bilhões. Estão contidos na figura 2 os desastres naturais mais freqüentes do
Brasil e o seu grau de importância.
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urbana e 31,1% ocupavam a zona rural. É válido ressaltar que até então, a população
teresinense estava concentrada em grande maioria na sua área central.
O acelerado ritmo do crescimento populacional de Teresina passa ser percebido
entre os anos de 1960 e 1991, quando a população cresceu de 145.691 para 598.323
habitantes. Nesse período a população urbana passou de 68% para 93%. Esse aumento
da população urbana de Teresina se deve em grande parte aos fluxos migratórios rumo à
capital, principalmente oriundos do interior do Estado e até mesmo da sua zona rural.
Em suma, pode-se concluir que os impactos negativos ao meio ambiente urbano
de Teresina, são decorrentes do aumento populacional, do déficit de saneamento e da
ocupação de áreas inadequadas, como margens de rios e lagoas, riachos, planícies
fluviais, entre outras. Os problemas mais comuns e que merecem ser destacados são as
enchentes, causadas pelas ocupações das planícies fluviais e lacustres e que se tornaram
freqüentes durante o período chuvoso; a redução das áreas verdes, devido,
principalmente, à expansão horizontal da cidade que também contribuiu para o aumento
das temperaturas na capital e no assoreamento dos rios que cruzam Teresina – Parnaíba
e Poti; aumento das áreas pavimentadas, para a construção de habitações; e extração
rudimentar de minerais para a construção civil.
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Quantidade de
pessoas Indicador Indicador Grau de
ZONAS atingidas pelas Renda Escolaridade Vulnerabilizaçã
enchentes1 o
Total
Absolut (%)2
o
Crítico.
Alta privação
64,9% (Alta 48,2% (Alta socioeconômica
NORTE 73.883 49,5 Vulnerabilidade Vulnerabilidade e grande
% ) ) contingente
envolvido.
Confortável.
Baixa privação
51,5% (Média 69% (Baixa socioeconômica
CENTRO 21.747 17,8 Vulnerabilidade Vulnerabilidade e pequeno
% ) ) contingente
envolvida.
Preocupante.
Alta privação
81,2% (Alta 48,8% (Média socioeconômica
SUDEST 15.270 12,4 Vulnerabilidade Vulnerabilidade e pequeno
E % ) ) contingente
envolvido.
Moderada.
65% (Alta 39,1% (Alta Alta privação
SUL 3.982 2,9% Vulnerabilidade Vulnerabilidade socioeconômica
) ) e
pequeno
contingente
envolvido.
( 1 ) População total residente nos bairros vulneráveis às enchentes, não significa que o risco atinja-os na
mesma proporção.
( 2 ) Percentual da população vulnerável residente em cada zona.
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agrava ainda mais, resultando numa condição de total degradação ambiental da área,
haja vista que 80% dos pontos de inundação se encontram numa condição de alta
vulnerabilidade ambiental, onde apenas 20% dos seus domicílios recebem esgotamento
sanitário, conforme pode ser visto na figura 5. São Joaquim, Nova Brasília, Mafrense,
Olaria, Alto Alegre, Água Mineral, São Francisco e Mocambinho são as áreas que se
encontram em situação de alta vulnerabilidade ambiental (cobertura de esgoto).
Portanto, a alta vulnerabilidade social predominante na zona Norte - 64,9% dos
setores em situação de alta vulnerabilidade no indicador renda e 48,2% em situação de
alta vulnerabilidade social no indicador escolaridade – e a alta probabilidade de
materialização do risco ambiental (enchente), permite concluir que a zona Norte é a
mais cotada para uma condição permanente de vulnerabilidade socioambiental entre
todas as zonas da cidade.
No entanto, a zona Sudeste também pode ser considerada como área de
vulnerabilidade socioambiental, embora num nível menos crítico que a zona Norte. Os
problemas principais pertinentes à região dizem respeito a baixa renda de mais de 80%
dos seus setores censitários e ao baixo índice de escolaridade geral da população. No
que tange à cobertura de esgoto, entre todas as zonas da cidade, é a que se encontra em
pior situação: 99% dos seus setores não contam com o serviço, agravando ainda mais a
situação de degradação ambiental da área, conforme pode ser visto no mapa da figura 4.
Essa condição só vem a corroborar com o fato de que os domicílios que não estão
ligados à rede de esgoto são os mais pobres, agudizando a situação dos mesmos.
Considerações finais
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àquelas onde os setores censitários, são chefiados em sua maioria, por pessoas com
baixos índices de renda, escolaridade e baixa cobertura de esgoto.
Conclui-se, portanto, que as zonas Norte, Sul e Sudeste de Teresina podem ser
vistas como áreas de alta vulnerabilidade socioambiental, pois seus residentes enfrentam
problemas tanto de ordem social quanto de ordem ambiental, contando com a iminência
do risco de enchente e com péssimas condições socioeconômicas, comprometendo,
dessa forma, a sua qualidade de vida. Nessas zonas, além da característica natural de
risco ambiental – enchentes-, bem como a ausência de urbanização, refletido na falta de
rede de esgoto, torna a população residente nessas regiões extremamente vulnerável. Já
as zonas Centro e Leste podem aqui ser classificadas como de baixa vulnerabilidade
socioambiental, posto que apresentam os melhores índices nos indicadores analisados e
por conseguinte, refletindo numa melhor qualidade de vida dos seus ocupantes.
Assim, estudos de vulnerabilidade socioambiental em áreas urbanas podem ser
considerados como bons instrumentos para subsidiar o poder público no que tange o
planejamento urbano, haja vista que aponta quais as áreas da cidade em que a população
apresenta graves problemas sociais e ambientais, necessitando de uma atenção mais
focada no sentido de reduzir essa vulnerabilidade. Portanto, condições de habitação,
saneamento e meio ambiente das cidades podem ser visualizadas a partir desses estudos,
dando uma contribuição significativa para a busca da solução dos problemas aqui
apontados.
Referência bibliográfica
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[Link]
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HOGAN, D.; CUNHA, J.M.P.; CARMO, R.L. & OLIVEIRA, A. A.B. Urbanização e
Vulnerabilidade Sócio-Ambiental: o caso de Campinas. In: HOGAN, D. et al
(org.). Migração e ambiente nas aglomerações urbanas. Campinas: Núcleo de
Estudos de População / UNICAMP. Pág. 397- 418. 2001 Disponível em:
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_Urbanizacao_Vulnerabilidade.pdf. Acesso em 12 de maio de 2009.
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