Contos Populares da Bahia: Narrativas Orais
Contos Populares da Bahia: Narrativas Orais
Contos e causos
da Bahia
FALE/UFMG
Belo Horizonte
2016
Diretora da Faculdade de Letras
Graciela Inés Ravetti de Gómez
Vice-Diretor
Rui Rothe-Neves
Comissão editorial
Elisa Amorim Vieira
Fábio Bonfim Duarte
Luis Alberto Brandão
Maria Cândida Trindade Costa de Seabra
Maria Inês de Almeida
Reinildes Dias
Sônia Queiroz
Capa e projeto gráfico
Glória Campos – Mangá Ilustração e Design Gráfico
Transcrições
Edil Silva Costa
Cristiane Tavares
Ilustrações
Luiz Ramos
Preparação de originais
Ágatha Carolline Galdino
Diagramação
Natalia Soares
Revisão de provas
Fernanda Tavares
ISBN
978-85-7758-291-4 (digital)
978-85-7758-292-1 (impresso)
5 Vozes da Bahia
Edil Silva Costa
31 O Macaco e a Onça
33 A Onça e o Coelho
35 O Coelho e o Bode
41 A Cabra e o Lobo
47 A Raposa e o Lenhador
53 Espelho Cristalino
63 O Cavaleiro Assombrado
65 Histórias da Caipora
71 A Caipora e o Caçador
75 A Caipora e as Meninas
79 O Caçador e o Dono do Mato
83 Histórias de Lobisomem
87 O Lobisomem de Irará
91 Outras publicações de narrativas orais da
Bahia
Vozes da Bahia
Vozes da Bahia 7
do Procad. Trata-se do desdobramento do trabalho iniciado durante o
Estágio Pós-Doutoral, supervisionado pela Profa. Dra. Sônia Queiroz,
coordenadora do Laboratório de Edição – LABED – FALE/UFMG.
Foram selecionadas treze narrativas, entre contos e causos, reco-
lhidos nos já citados municípios de Alagoinhas, Inhambupe e Irará. A
maior parte das histórias foram coletadas na zona rural. Os narradores
são, em sua maioria, lavradores com pouca escolaridade. Essa situação
social deixa marcas na linguagem das narrativas, que se buscou a todo
custo preservar. No entanto, a riqueza de gestos, de entonações de voz
e posturas, não poderá ser representada, pois é sabido que a transcri-
ção de um texto oral, por mais cuidadosa que seja, deve submeter-se
às limitações dos sinais gráficos utilizados na escrita. Para a transcrição,
procurou-se seguir as normas do PEPLP, elaboradas criteriosamente pela
Profa. Maria del Rosário Albán, por exemplo, em seu artigo “Um velho
tema em debate: isenção e fidelidade na transcriação grafemática de
textos orais”. O critério norteador dessa difícil tarefa foi conservar o dia-
leto e/ou o idioleto do narrador, sem discriminar sua fala em relação à
norma padrão. Desse modo, não foram marcadas as realizações gene-
ralizadas no português falado na Bahia, a exemplo da queda do -r do
infinitivo verbal e ao final de palavras como caçador. Também não foi
marcada a monotongação de –ou (~ô) e –ei (~ê), por considerar que
Vozes da Bahia 9
integram a narrativa, remetendo o ouvinte/leitor para um tempo/espaço
em que tudo pode acontecer. Do mesmo modo, os contos de animais são
acontecimentos “do tempo em que os bichos falavam”.
Diferentemente dos contos, os causos são fatos vividos ou acon-
tecidos com pessoas próximas, sempre narrados com algum tipo de
comprovação de sua veracidade. Assim, os contos, sejam de animais
ou de encantamento, estão situados em um tempo imemorial ou mítico,
enquanto que nos causos – de assombração, de caçadas, de Caipora ou
de Lobisomem – o tempo é o vivido. O sobrenatural ali expresso é incor-
porado à história de vida dos narradores e tratado com a “naturalidade”
dos acontecimentos cotidianos.
A maior parte das histórias foram coletadas na zona rural. Desse
modo, os causos que envolvem o ambiente da mata, como as histórias
de Caipora, ocupam lugar de destaque, mas também registramos cau-
sos de caçadores e encontros com animais falantes, histórias de assom-
bração que caracterizam o lugar e relatos de transformação de pessoas
conhecidas em lobisomens.
Os contos de animais apresentam personagens com atitudes e
comportamentos humanizados. Narrativas como “O Macaco e a Onça”
encenam uma lição de moral e ensinam que a inteligência vence a força.
No entanto, a esperteza do Macaco, não está associada à ética. Animais
Vozes da Bahia 11
que não se deve confiar no que os outros pensam ou dizem e que não
se deve precipitar em relação às aparências, mas investigar a verdade.
Em todas essas narrativas, o que podemos perceber são os valo-
res morais bem definidos que elas encenam e reforçam, seja através do
riso ou do final trágico. Ameniza e disfarça essa moral a estratégia de
usar animais como personagens, porém os comentários dos narradores
e a forma como conduzem a narração, deixam claro que o texto não é
um simples entretenimento.
O único conto de encantamento desta coletânea, “Espelho
Cristalino”, integra o ciclo da menina atormentada que, como em todo
conto de encantamento, encontra o final feliz. Trata-se de uma versão
do conto “Branca de Neve”, em que não há o casamento com o príncipe,
mas o final feliz é representado pela santificação da heroína e o castigo
da mãe:
Foi que ela virou santa. Aí a mãe se apaixonou, quando a mãe
viu mesmo que num deu mais jeito mesmo que ela virou santa e
ela chegou se desmalhou. Aí morreu, a mãe morreu. No final da
história a mãe que morreu.
Vozes da Bahia 13
Uma análise preliminar das narrativas permite compreender que
a vivência do sobrenatural está tão arraigada nas comunidades a ponto
de entes como a Caipora e o Lobisomem serem descritos com a proxi-
midade e naturalidade de pessoas conhecidas e que convivem no meio
social dos entrevistados.
Dona Altamira Miranda dos Reis narra um causo de Caipora acon-
tecido com ela mesma e com a prima, numa ocasião em que foram à
mata buscar lenha, em um lugar de nome Três Moradas:
Ali chamava As Três Moradas. Era um mato ali que a gente entrava
e não sabia sair [...] minha mãe saia com a gente pra caçar lenha.
Aí ela tirava aquele bocado de lenha e ajuntando e a gente ia car-
regando pra casa. Vinha eu e uma prima minha. Ela mora até em
Ouriçangas hoje, era menina. Aí ela vinha mais eu, carregando a
lenha pra casa. Aí, quando foi um dia, que a gente saiu, pelejou
pra sair pra chegar de junto da mãe da gente, mas não acertou
[...] Um chamava Altamira, outro chamava Nenzinha e nós duas
louca dentro do mato, sem saber onde sair. Aí eu falei assim:
– Que diacho foi isso, Nenzinha, que pegou a gente hoje? Que a
gente não pode sair daqui hoje?
Vozes da Bahia 15
há de ver, num gosto não, é coisa ruim a gente não quer ver, né?
Quem quer ver coisa ruim?
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tradição oral do Brasil, encontramos muitos registros. A narrativa aqui
apresentada é constituída de vários episódios, de vários lobisomens dife-
rentes, todos eles conhecidos e, em quase todos os casos, o narrador foi
testemunha ocular.
Lobisomem sempre aparecia, mas agora não. Quando eu morava
lá na Queimada [...] Agora eu conheci um e conheço até hoje, ele
vira por pata [...] Porque um vira por sina e outro vira por oração
braba [...] Ave Maria! E nem quero saber! [risos] É qualquer
oração braba. É só mesmo quem tem esses livro da capa preta,
do São Supriano
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Nesse caso, a narrativa faz um adendo ao causo do Lobisomem
para informar que Dudu Louriano faliu por ser vaidoso e arrogante: com-
prava boiada sem contar. Ao narrar o caso da mulher de Dudu Louriano,
que viu o Lobisomem, seu Vavá não se furta de fazer sua condenação à
vaidade, um dos pecados capitais: ele era rico, porém vaidoso. Por isso
faliu, só lhe restando a alternativa de “cortar fato”, a parte mais despri-
vilegiada do boi. Também essa construção, além de envolver os ouvintes
(“viu falar em Dudu Louriano [...] num viu?”), dá consistência à história:
“ele era muito conhecido”. E continua:
Quando ele saiu pra cortar fato, um dia, véspera de São Pedro,
esse dia eu tava até lá, boca da noite. Aí... Eu não tava lá nesse
dia não. Aí ele deixou ele, esse cara que virava Lobisomem pra
ficar mais a mulher pra fazer companhia até mais tarde que ele
num ia chegar, que ele ia pra rua de sexta-feira só chegava no
sábado de tarde e ficar lá fazendo companhia. Tá bem. Tá certo.
A criatura disse conde deu base de oito horas em diante, o cara
lá ficou agoniado. O cara ia no fundo do cara, o cara rodava na
casa, o cara ia numa moita de bananeira... todo agoniado, ia de
junto dela, tornava voltar, que ela ficou até com medo. Daqui a
pouco, diz que ele falou assim:
– Neném... – ela chamava Neném. – Neném, eu vou ali e volto
nestante, viu? Eu vou ali, volto nestante.
Aí se jogou, já era ele voltar. Ele inda deve virar, tá vivo ainda.
Vozes da Bahia 21
paco. Chegava em casa, quando ele entrava, ele voltava. Quando
é um dia, falou: “vou quebrar a pata dele”. Quando é um dia, vai
ele, vai ele, que ele parou assim, olhou:
– Eu conheço esse sem-vergonha. Esse sem-vergonha aqui é
Dodô! [risos]
Ele ficou de mal um bocado de tempo, ele nunca mais virou Lobi-
somem. [risos] Ele mora aqui perto de Joel, ouviu falar de Joel?
Joel é irmão de Nozinho mais Maíca. Nozinho que tem um cereal
aí no calçadão. Maíca tem um mercadinho e a padaria no calçadão.
Vozes da Bahia 23
físico (Tanquinho), estabelece redes de relações familiares (o cunhado),
nomeia os envolvidos, envolve os presentes (“Cráudio conheceu”).
O causo começa estabelecendo essa ponte com o real e revelando
práticas pertinentes às atividades do caçador, que, sendo constante em
sua função (“caçava, caçava e caçava mesmo”), deve honrar o pacto
com a entidade protetora da mata, levando uma oferenda para o Dono
do Mato (“ele levava agrado pra o Dono do Mato”).
Porém, algo quebra o frágil equilíbrio dessa relação. Ao ofender
uma mãe que amamentava (a macaca), o caçador desrespeita as leis
de convivência com os habitantes da mata e, por conseguinte, rompe
o pacto, pagando um preço por desagradar o Dono do Mato. O acon-
tecido se dá no recôndito da floresta (“mata fechada”), no lugar mais
distanciado da esfera “civilizada”, mas onde também as fronteiras entre
o natural e o cultural são invertidas. A macaca não só fala, como tem
linhagem humanizada e possui nome e sobrenome. Os papéis são tro-
cados, o homem tem atitude bárbara, animalesca e violenta, enquanto
a macaca tem comportamento humano, solicitando ajuda à comadre e
criticando o caçador por sua atitude. Essa inversão de papéis é que dá o
tom humorístico ao causo.
O humor suplanta o medonho do texto, embora o medo do caça-
dor, que foge assombrado, seja a principal motivação do riso. O susto do
Vozes da Bahia 25
Seres como a Caipora, o Curupira ou o Saci são guardiões das matas
e protegem os animais e as plantas da ação predatória do homem. Nos
causos de Caipora, a mulher que vai catar lenha, ao entrar na mata tem
que pedir licença, deixar um pedaço de fumo em um toco de árvore, que
é um “agrado” para ela. Do mesmo modo, o caçador que leva a caça como
oferta para o Dono do Mato. O gesto é sinal de respeito e de consciência
de que aquele espaço não lhe pertence. É uma troca: se o homem entra
na mata para tirar algo deve recompensar deixando um “pagamento”. A
mata representa o espaço do primitivo, do animalesco, o não-social. O
homem tem uma relação primordial com os seres que lá habitam. É da
mata que vem o alimento, ela é necessária para a sobrevivência da huma-
nidade e, por isso, deve ser preservada, tratada respeitosamente.
A arte de narrar nos permite atravessar as fronteiras do mundo
real, toscamente marcado pelos limites da mata ou da noite de sexta-
-feira, para nos embrenharmos no universo do extraordinário, porém
sem perdermos as conexões com a vida prática. Os narradores deslizam
entre dois mundos, com leveza, mas também com a convicção de que
suas histórias extraordinárias só poderão ser entendidas se os ouvintes
os acompanharem na viagem, compactuando o mesmo código cultural.
Daí o olhar atento ao outro que ouve e o cuidado de checar a credi-
bilidade da história no meio social. Para quem escuta com um ouvido
Vozes da Bahia 27
O Macaco e a Onça
A Onça vivia danada pra pegar o Coelho. Vivia danada! Pelejava pra pegar
o Coelho, nada! Aí, ela inventou assim: ela vai morrer, fazer que vai mor-
rer. E vocês (os outros bichos, né?) vem fazer sentinela. Que quando o
Coelho chegar aqui, a gente levanta e pega ele. Mas o Coelho também
que era sabido que era danado. Lá se vai. A Onça morreu. Aí a notícia:
– A Onça morreu, a Onça morreu!
Lá vai os outros bichos pra lá fazer sentinela. Daí, Amigo Coelho
chegou por último! Ela estava esticada lá, no banco, toda coberta. Aí
ele ficou, não entrou não, não é? Sabido também que é danado. Ele não
entrou não, ficou na porta. Botou o guarda-chuva assim, botou o braço
em cima e ficou. Ficou, disse:
– Venha cá... Boa noite, gente!
– Boa noite!
Todo mundo respondeu “boa noite!”
– Amiga Onça morreu, né?
Ele disse:
– É, morreu.
– Será que ela morreu mesmo?
– Morreu sim.
– Ah! Me diga uma coisa, que eu vou perguntar a vocês, quando
ela morreu, bufou?
Aí disse:
– Será?! Não.
– Aaaah, porque meu avô, quando morreu, bufou!
Ela empinou [palma], danada [risos], pra pegar o Coelho. O
Coelho é aqui, ó [risos]. O Coelho saiu que saiu fino, ela sentou o pé
atrás pra pegar. Como é que pega? [risos] Então pronto! [risos] Que meu
avô, quando morreu, bufou. Ela bufou? Não! Então pronto! [risos]
Narrado por Lélia, em Boa União – Alagoinhas, 25 out. 1998. Recolhido por
Edil Silva Costa, Ana Débora Ferreira, Cláudio Pinto, Nayara Barros Dantas.
O Coelho e o Bode 37
– Então folgue aqui!
O Bode feito besta, folgou.
– Folgue ali...
Folgou.
– Folgue ali...
Folgou. E saiu.
– Entre aqui.
Quando o Bode, quando botou ele, paco! bateu lá. Quando bateu
lá, que o Bode viu o aperto, foi lá, vem cá, ele caiu no mundo [palmas].
– Peguei, meu Compadre, o descarado ladrão! (Vá desculpando as
palavras, viu?) Peguei, meu Compadre, o descarado ladrão! Peguei, meu
Compadre, o descarado ladrão!
E riscou na casa do Compadre. E o ladrão era ele, né? Chegou lá...
(É o mesmo caso dessas novela que passa aí. Imitando a mesma coisa.)
Chegou em casa:
– Compadre, peguei o descarado ladrão que tá comendo sua roça
de amendoim toda, meu compadre!
– Quem é?
– É Amigo Bode, meu Compadre!
– Peraí, que eu vou dar...
O Coelho e o Bode 39
A Cabra e o Lobo
[Sei da Cabra, que era três cabrinha.] Aí uma chamava Maria, Joaninha e
Isabel. Aí a mãe saía pra trabalhar e deixava as três dentro de casa, quando
foi um dia apareceu um Lobo pra pegar as meninas. E a Cabra avisou:
– Ói minhas filhas, quando chegar uma pessoa aqui da voz grossa,
não responda, não abra a porta que vem pra lhe pegar.
Aí isso mesmo ela fazia. Ficava dende casa todas três com medo,
coitadinhas. Aí daqui a pouco apareceu um Lobo. Quando o Lobo apareceu,
chegou e cantou. Quando o Lobo chegou, aí chegou cantando:
– Maria, Joaninha
Isabel, Isabel
Abri mais a porta
Tua mãe que te pariu
Traz leite no peito
Sal no vidro
E lenha no [...]
Aí uma falava assim:
– Ô Maria aqui tem uma [...] cantando, vem ver! Vamo ver quem é?
Uma falava:
– Não que mamãe avisou que a gente não saísse lado de fora.
Aí a outra falava:
– Vambora, Maria!
A outra:
– Não Joaninha, que mamãe avisou pra nós não sair.
Aí passou assim três dias. Aí quando o Lobo viu que ele não ia con-
seguir roubar elas, comer elas, ele chegou mandou num ferreiro molar
bem a ponta dele pra ficar bem alisinha que era pra fala ficar fininha.
Aí ele chegou:
– Maria, Joaninha [voz grave]
Isabel, Isabel
Abri mais a porta
Tua mãe que te pariu
Traz leite no peito
Sal no vidro
E lenha no [...]
Todo esparramado pra comer. Aí uma começou:
– É mamãe!
A Cabra e o Lobo 43
Aí evém a Cabra chegando, quando a Cabra foi chegando se
assustou de vez, que ela já ia pra comer as meninas, as filhas dela. Aí se
assustaram, que quando elas se assustaram, ela disse assim:
– E agora que que a gente vai fazer minhas fia? O Lobo vai comer
com a gente, que que a gente vai fazer aqui agora?
Aí começou chamando:
– Ô Amigo Galo – tinha um Galo cantando. – Ô Amigo Galo, me
acuda pelo amor de Deus! [voz chorosa]
O Galo:
–Eu tou cantando, não vou lá não! [risos]
Aí daqui a pouco apareceu um cavalo, aí começaram:
– Ô Amigo Cavalo! Amigo Cavalo! Chegue aqui ligeiro que o Lobo
vai comer minhas filhas. [voz chorosa]
– Num vou lá não que eu tou berrando.
Eu sei que cada um deu uma desculpa. Aí quando ela chamou a
Amiga Formiguinha... aí chamou a Formiga:
– Ô Amiga Formiga, pelo amor de Deus, me acuda aqui, Amiga
Formiga, que o Lobo vai comer a gente.
Narrado por Altamira Miranda dos Reis, em Fazenda Barrado – Irará, 29 out.
2005.Recolhido por Edil Silva Costa, Cristiane Tavares, Nara Silva.
A Cabra e o Lobo 45
A Raposa e o Lenhador
A pessoa pode ser ruim como for. Numa comparação, se eu gosto dessa
menina, eu não importo o que o povo fale dela. Se eu gosto e confio nela,
tenho que confiar nela. Não tem negócio que você falar, “Ah, eu num
gosto dela. Ah, ela é assim, ela é assado, ela é cozida, ela frita”. Tem?
Eu confio nela, tenho que gostar dela e confiar em você.
Aí um homem diz que ela tinha um filho e não tinha quem ficasse
com o filho dele. Que ele tinha filhinho, mas não tinha esposa, vivia sozi-
nho. Aí diz que um dia, ele travou na frente da porta, falou:
– Ô minha Nossa Senhora!
Ele era catador de lenha.
– Eu quero cortar uma lenha e não tenho quem tome conta de
meu filho. E agora? O que é que ele vai fazer?
Aí diz que apareceu uma raposa. Aí diz que a Raposa disse:
– Vá cortar a lenha que eu tomo conta do seu filho.
Aí diz que o vizinho falou:
–Tu é doido, Fulano? Não deixe teu filho com um bicho feroz desse
não. Como é que você vai deixar uma criança com uma raposa?
Ele disse:
– Mas eu tou confiando, eu confio nela. Ela não disse que toma
conta de meu filho? Eu vou confiar.
Aí diz que a Raposa dizia:
– Pode confiar.
Que os bicho no começo diz que falava.
– Pode ir que eu tomo conta de seu filho.
Aí diz que ele se arrumava e saía, deixava a Raposa, ficava meni-
ninho lá. Aí diz que ia cortar sua lenha, quando era de tarde, suado, diz
que chegava, que ela tava na frente da porta com a cauda balançando,
toda sacudindo. Que quando ele chegava, que ela ia certo na cama, diz
que ele olhava, tava o menininho lá quieto na cama, todo arrumadinho,
dormindo. E diz que o povo falando. Ele disse:
– Não, mas eu tou confiando nela, não tem conversa, eu tou con-
fiando na Raposa.
Aí quando foi no outro dia, ele foi, chegou de novo, o menininho
lá todo satisfeito. Quando foi no quarto dia, ele foi. Quando ele vem de
lá pra cá, distraído, tá ela, coitadinha, em pé na porta, diz que toda sor-
rindo, mas diz que toda lavada de sangue. Aí, ele falou:
A Raposa e o Lenhador 49
Espelho Cristalino
Essa daí era de Branca de... Era “Meu Espelho Cristalino. Viu falar “Meu
Espelho Cristalino”? Branca de Neve e Sangue Subiras Neves. Sangue
Subiras Neves era uma moça. Ela era bonita, aí o nome dela era Sangue
Subiras Neve, Branca de Neve, chamava de Branca de Neve, a moça. Aí
foi indo, foi indo, ela apareceu grávida e ela sempre gostava de ir no
Espelho Cristalino, se reparava toda e falava assim:
– Meu Espelho Cristalino, no mundo terás uma moça mais linda
do que eu?
O Espelho falava que não. Aí, vez em quando, ela ia no Espelho,
em vez em quando, ela se arrumava e ia no Espelho, o Espelho dizendo
que não.
– Tem uma moça mais linda do que eu?
O Espelho Cristalino dizia:
– Não!
Aí foi indo, foi indo, ela apareceu grávida. Quando ela apareceu
grávida, teve uma menina, a coisa mais linda do mundo! Mais linda do
que ela ainda. Aí ela botou o nome da menina Sangue Subiras Neve. Aí,
quando ela botou o nome da menina Sangue Subiras Neves, que ela foi
no espelho e perguntou:
– Meu Espelho Cristalino, no mundo terás uma moça mais linda
do que eu?
Ele falou:
– Tem!
Aí ela perguntou:
– Quem é?
Ele respondeu:
– Sangue Subiras Neves.
Que era filha dela. Aí o que foi que ela fez? Ela chegou com inveja,
né? Da filha. Que até no princípio do homem, já vem, num é? Do princí-
pio do mundo, já vem a usura também até dos pais. Aí ela chegou, falou
que ia mandar matar a menina, que era pra quando ela ir no Espelho,
o Espelho num falar com ela que tinha a filha dela era mais bonita. Aí
ela contratou com um empregado dela, mandou carregar essa menina
pra longe, pra um mato que era pra onça comer a menina. Isso mesmo
ele fez: pegou a menina, chegou atrás duma oca da onça e colocou a
Espelho Cristalino 55
Aí chegou, improvisou uma velha que disse que era muito feiti-
ceira. A velha era gente ruim e mandou a velha percurar saber onde essa
menina andava. Aí a velha saiu andando, vai num canto, vai no outro; vai
num canto, vai no outro, mas num tinha encrontado a menina ainda.
Aí vai passando uns ladrão. Quando os ladrão vai passando, que viu a
menina atrás da oca da onça, carregou a menina. Carregou a menina,
chegou dentro da casa dele, colocou a menina, escondeu e falou com
ela que ela num botasse a cara pra fora de jeito nenhum, pra num sair
que ele ia trabalhar e dava de tudo à menina dentro de casa, trancada,
mas que ela num saísse que era tão bonita que uma pessoa ia roubar a
menina. Aí isso mesmo ela fez. Ficou, coitadinha, ficou, ficou dende casa.
Quando é um certo dia, chegou a infeliz da feiticeira. Quando che-
gou na porta, com um sapatinho pequenininho, chamando a menina pra
a menina botar o pezinho pela janela pra ver se o sapatinho dava no pé
da menina. Aí a menina chegou, ficou com medo, ficou com medo, só
lembrando que os irmão num queria que ela saísse. Era doze ladrão que
criava essa menina.
Aí ela chegou ficou, ficou. Quando foi no outro dia, no mesmo
horário, chegou a velha de novo castigando a menina:
Espelho Cristalino 57
– Não, não, num quero não que tem um segredo aqui. Num quero
que ninguém veja.
Aí ela foi indo, foi indo, depois ele esqueceu a chave. Quando ele
esqueceu a chave do quarto, ela pegou a chave, destrancou pra varrer o
quarto. Quando ela vai ver, o caixão de ouro dentro do quarto. Aí pronto,
ficaro esse povo tudo se acabando. Onde foi que ele achou, onde foi que
ele num achou... Aí a menina chegou, virou uma santa. A menina virou
uma santa... e a mãe doida lá no Espelho só perguntando. Ói, o Espelho
só deixou de falar com ela, que ela era mais bonita do que a menina
depois que a menina morreu mesmo. Mas depois que a menina virou
santa que ela foi no Espelho e perguntou:
– Meu Espelho Cristalino, no mundo terás uma moça mais linda
do que eu?
Ele falou:
– Tem.
– Quem é?
– Sangue Subiras Neves.
Foi que ela virou a santa. Aí a mãe se apaixonou, quando a mãe viu
mesmo que num deu jeito mesmo que ela virou santa e ela chegou se des-
malhou. Aí morreu, a mãe morreu. No final da história a mãe que morreu.
Espelho Cristalino 59
O Cavaleiro Assombrado
Aqui teve uma velha que passou três dia no mato. O povo toooodo pro-
curando!... Três dia, o quê? Ela passou uma semana! Ela entrou, foi pra
lenha... Eu morava na Roncaria, nome de um lugar por nome Roncaria
que tem aí pra baixo. E aí, ela passou a cancela e subiu, passou assim
na porta... Coitadinha, foi quebrar lenha, ela e um menino, um neto. Aí,
eu disse:
– Pra onde vai, dona Isília?
Ela disse:
– Minha filha, eu vou pra lenha.
Disse:
- Com esse sol quente?
- Ela disse:
- É. Porque lá no mato tem sombra, né?
- Tá bom. Vá embora.
Ela foi, saiu [...] Passou segunda-feira, terça, quarta, quinta,
sexta... no mato, perdida. Ela entrou lá na Roncaria, subiu a ladeira,
ganhou a mata, ela foi sair no Mangalô, em Alagoinhas. Foi, pensei que
era três dias... e o pessoal... Uma semana toda e todo mundo lá, as
filhas tudo procurando e sem encontrar. Pensando que ela tinha morrido.
Quando foi um dia, no final da semana, ela saiu no Mangalô. Então, de
primeiro aqui os leiteiros carregava leite era na lata, nos animais. Vinha
de lá um leiteiro pra’qui, já de tarde, ela disse:
– Meu filho, onde eu tou aqui?
Ele disse:
– A senhora está em Alagoinhas, no Mangalô, dona Isília.
– Ô meu filho, me leve pra casa.
Ele aí veio assim, olhe: o burro, um passo hoje, outro amanhã.
Porque já estava coitadinha, desmandiocada, pra cair e pra morrer, de
fome! Ela e o menininho. Ele pegou o menino, botou de garupa e ela veio
andando, até aqui. Quando foi chegando aqui, o batalhão de gente vinha
cá em baixo pra encontrar. Mas foi aquela agonia, foi choro, foi grito, não
foi véa? Até aqui assim. Aí desceram com ela. O pessoal todo desceu
com ela pra casa. A bichinha custou de fortalecer.
Aqui tem uma dona do mato. Se pegar um aqui, vai levar pra Sítio
Novo. E ela disse que é todo o caminho bonito que ela vê, que aparece
Histórias da Caipora 67
foi que eu vim acertar o meu caminho. Eu, essa que estou aqui, já velha,
quer dizer, não estava velha assim... Se fosse hoje, ela me matava por
aí, pelo meio do caminho. Só andando, só andando, só vendo beleza pelo
mato. Se vê bater, se vê cantar, se vê assoviar. Tudo! Aquelas belezas
e a gente andando, empolgada [...] A Petrobrás esburacou isso tudo aí.
Esbandalhou tudo! Está tudo aberto... Não tem mais lugar dela se escon-
der. Ela se muda. Mas mesmo assim... Ela é a Dona do Mato. Tem a Dona
do Mato, tem o Dono do Mato.
O Dono do Mato, se vocês vêm de noite, ele passar, mas é porque
na rua a gente não sente, nem nada. Mas se vocês vê de noite, tarde
da noite, ele passar, e assoviar, aquele assoveio vai longe...! [...] Não
faz nada. Ele, o dono do mato, não. É a Caipora. Porque você sabe:
me discurpa que eu diga mas, nós mulher somos mais saída do que os
homens. [risos] Tem mais saimento do que os homens. [risos] Ele passa
mas dá aquele assuveio! É ou não é Lélia? Só faz assoviar, não bole com
ninguém, não. Aquele assoveio, que prende que é o dono do mato. O
assuveio diferente, o assuveio bonito, alto [...] Caçador, se não pedir
licença, não caça, né! E a dona do mato vai jogar eles nas pedra de fogo.
Eles que mangue, não peça. [risos] Vão joga eles, os caçador, nas pedra
de fogo [...]
Histórias da Caipora 69
botou um aqui no colo e foi-s’embora. Eu fui de pé. Quando nós chega-
mos na baixa, no lugar que eu entrava direto, o caminho todo aberto!
Quando ela quer pra brincar, ela faz assim. Ah! Mas rapaz, eu fiquei com
um ódio!
Essa história, assim como outras narradas por Elvira Caldas, contou com
a efetiva participação de Lélia (sem dados), Alice Rocha de Jesus, Regina
(sem dados), além da interação com os pesquisadores, em Boa União –
Alagoinhas, 25 out. 1998. Recolhido por Edil Silva Costa, Ana Débora Ferreira,
Cláudio Pinto, Nayara Barros Dantas.
Aqui, nunca por aqui num tem não, mas lá no lugar que eu residia lá pro
lado do..., lá existia muito... Diz que ela só tem uma banda, é uma perna,
é um braço, é uma banda de cá. Eu mesmo nunca vi. Ela vem tuco-
tuco-tuco... feito um pilão. Por aqui não conheço não. Nunca vi, não.
Nunca vi não, porque quando eu me entendi, fui embora pra Salvador...
Agora, lá tinha uma mata que tinha. O menino que se abestalhasse
no mato ela prendia, pegava o cara no mato e dava surra. Caçador ia
com os cachorro e prendia os cachorro, dava surra nos cachorro e se
ela pegava a pessoa e procurava que era qui-qui-qui ou cá-cá-cá. Qui-
qui-qui é cócega, cá-cá-cá é chorar [risos], era bater. E qui-qui-qui era
fazer cócega. Agora, já me perdi no mato, lá em Salvador. Tinha Pituba,
eu morava na Fazenda de Brotas, tinha Pituba pra lá e a Fazenda, tinha
um morro pra vim pro lado de [...] Hoje em dia é pista, pra do lado da
rodoviária e vem cá pra Pituba e pra o Rio Vermelho. Aí tem uma mata
fechada, tinha jaqueira, tinha de tudo, cajueiro, tinha as fábricas deles
fazer dendê lá dentro dos matos. O repórter num saía dali de dentro,
nêgo matava gente e joga ali dentro [...] E agora tudo é cidade, acabou
com os matos. Até sessenta e oito ainda tinha mata por lá. Já descobriu
tudo, loteou tudo ali. Eu saí mais um colega, [...] de polícia e outro, três.
E um colega com uma espingarda e um diacho de um revólver e foi pro
mato caçar. Quando chega no mato e tá muito bem, subimo. Quando
chegou, a gente entrou aqui, seguiu, seguiu, seguiu aqui, depois fez
a curva. Foi lá um tabuleiro alto, um morro. Aí a gente olhou um lugar
limpo, num tinha muito mato fechado, o lugar de mato fechado a gente
ia sair. Aí viu um buraco. Um buraco, olhou:
– Ali tem um teiú. É um teiú. Ói lá, ói lá.
Puxou o teiú. Aí virou a espingarda dentro do buraco e passou-
-lhe fogo.
– Agora vamo a gente arranjar um pau de gancho, pau de gancho...
O gancho tinha uma vara com um gancho que fica desse jeito, pra
gente puxar assim. Aí arranjou uma vara com gancho, ajeitou, enfiou
nesse lugar; ainda hoje luta, ainda hoje luta, ainda hoje luta pra tirar esse
teiú dentro do buraco. Quando a gente chegou arrancar o teiú, era uma
jia fogo. A gente falou: “Jia num tabuleiro seco desse?!” Mas eu num tava
com malícia de nada. Oxente! A gente entrou sete hora do dia no mato,
pra quando veio conseguir sair de lá foi duas horas da tarde. A gente ia
A Caipora e o Caçador 73
Narrado por Nelson Sebastião (seu Vavá), em Mangabeira – Irará, 29 out.
2005.Recolhido por Edil Silva Costa, Cristiane Tavares, Nara Silva.
Aqui em cima. Quando a senhora vem da rua, não vê umas casa aqui
pra cima? Ali chamava As Três Moradas. Era um mato ali que a gente
entrava e não sabia sair. De candeia, aquelas lenha boa de candeia. Aí a
minha mãe ia pra lá. Até dia de domingo minha mãe saia com a gente
pra caçar lenha. Aí ela tirava aquele bocado de lenha e ajuntando e a
gente ia carregando pra casa. Vinha eu e uma prima minha. Ela mora
até em Ouriçangas hoje, era menina. Aí ela vinha mais eu, carregando a
lenha pra casa. Aí, quando foi um dia, que a gente saiu, pelejou pra sair
pra chegar de junto da mãe da gente, mas não acertou. Aí começou ela:
– Altamira, Altamira! Altamira, Altamira!
Me chamando, e a outra Nenzinha. E vó:
– Cadê Nenzinha? Cadê Nenzinha? Ô Nenzinha, ô Nenzinha!
Um chamava Altamira, outro chamava Nenzinha e nós duas louca
dentro do mato, sem saber onde sair. Aí eu falei assim:
– Que diacho foi isso, Nenzinha, que pegou a gente hoje? Que a
gente não pode sair daqui hoje?
Aí ela era mais espertinha do que eu. Não sei quem foi que tinha
já contado isso pra ela que a gente era criança ainda. Nesse tempo nós
tava de seus nove a dez anos. Aí, ela disse:
– Ô Mi, diz que tem uma bicha que chama Caipora, Mi, e foi ela
que pegou a gente aqui.
E é assim que a pessoa se livra, se na hora que a pessoa lembrou
que foi ela, falar, ela some. Aí, quando ela acabou de falar assim, demo-
rou um pouquinho, nós saímos de dentro do mato. Aí ficou vó:
– O que foi que vocês viu? O que foi que voces viu?
– Nós num viu nada, vó.
– O que foi que vocês viu, meninas? Que vocês foi levar essa lenha
em casa e não quis voltar?
Foi ela que tava rodeando a gente. Aí só se livra assim, se falar
que foi a Caipora que pegou a gente, na hora ela some. Mas, se ninguém
lembrar que foi a Caipora, nego bate o dia todo, bate o dia todo. Agora,
eu nunca vi ela não. Não vou mentir. Não, nunca vi nem há de ver, num
gosto não, é coisa ruim a gente não quer ver, né? Quem quer ver coisa
ruim? Ninguém, né? Diz o povo que ela só tem um lado só. Nas escola
mesmo me perguntaram assim também, se eu já tinha visto Caipora.
Narrado por Altamira Miranda dos Reis, em Fazenda Barrado – Irará, 29 out.
2005.Recolhido por Edil Silva Costa, Cristiane Tavares, Nara Silva.
A Caipora e as Meninas 77
O Caçador e o Dono do Mato
É. E ele vai pra casa de farinha... Ia pra casa de farinha, não sei se
tá existindo ainda. No meu tempo mesmo, uma vez mesmo, eu vi um
roendo beiju em cima de um forno, da casa da minha vó. Eles entram
pra casa de farinha, come beiju, come aquelas crueira que fica em cima
do forno, ele come tudo, e comia também menino mole. Menino mole,
em cima da cama, se ele entrasse pra dentro de casa, diz que ele comia
até menino mole [...] Ele é grande, é igual um jegue, mesma coisa de
um jegue, só que as patas dele é pra dentro assim, pra dentro isolada,
e ele só enxerga por de trás. É, enxerga por trás. Na frente ele não vê
ninguém, só vê por trás [...]
Foi perto mesmo, isso faz tempo, eu era menina ainda. Aí, a gente
evinha um dia com a lua bonita, e ele também só gosta de sair com lua
bonita, com a lua bonita que ele gosta de passear. Aí eu evinha mais
uma irmã minha, que ela foi criada junto comigo. Aí, quando a gente
evém, evém aquele negócio, com aquele rastro, a gente só via o rastro
dele. Aí eu falei:
– O que é isso, Ninha, que evai aqui?
Ninha disse:
– Isso é um jegue.
Aí, que quando a gente olhou, só viu aquelas orelhona, aquela
orelhona desse tamanho assim, ele tem uma orelha maior do que a do
jegue. E agora ele, isolado com a cara pra trás. Aí nós é aqui [palmas],
nós abriu. Esse Lobisomem era um vizinho que virava, viu? Lobisomem
não é bicho, é gente que vira Lobisomem. É gente. Era um hominho
velhinho que chamava Justino, ele morava vizinho da gente. Do tempo
que ele morreu! Quando eu alcancei, ele já tava velhinho, chamava
Justino. Assim não comparando mal, da sua qualidade assim, bem assim
branquinho. Aí, quando ele via a gente, a gente bulia com ele também.
Um dia ele apareceu porque a gente buliu com ele. Sabe criança não
é mole, né? Aí, quando foi um dia que a gente passou, viu ele a gente
falou assim:
– Seu Justino, vai virar Lobisomem hoje?
Ó minha filha, pra que nós falou? [risos] Foi. “Vai virar Lobisomem
hoje?” Ah minha filha, se mãe soubesse de uma cena dessa, nós tinha
tomado uma surra, que não é mole. Foi Deus que ele não contou a mãe.
Histórias de Lobisomem 85
contar da faca. A gente só se livra, a gente pode pegar foice, pode pegar
cacete, o que for pra bater no Lobisomem, não mata ele não. Não mata.
Agora, uma faquinha de sete tostões ele não quer conta. Essas faquinha
deste tamanho que a gente tem em casa, que era de antigamente de
eu cortar fumo, de época de cortar fumo. É dessas pequenininha. Apois,
a gente só se livra com essa faca. Ele não quer conta. Se você chegou,
botou a faca aí em cima. Ele é aqui [palmas], aí agora some. Mas, cacete
nem facão nem nada disso. Eu quero é prova. Não tem medo de nada,
só mesmo de uma faquinha. Agora, porque ele tem medo da faquinha,
eu não sei, né? Porque a faquinha é pequenininha, ele podia ter medo de
uma arma mais grande, né? Mas, não tem. Não tem.
Narrado por Altamira Miranda dos Reis, em Fazenda Barrado – Irará, 29 out.
2005.Recolhido por Edil Silva Costa, Cristiane Tavares, Nara Silva.
O Lobisomem de Irará 89
Ali embaixo tinha um, quebraram a pata dele, ele chama Dodô,
apelido dele é Dodô. Ele virava Lobisomem [...] O bicho só anda com a
cabeça dentro das perna. Só vê quem vai atrás dele. Então o Dodô virava
Lobisomem. Toda mão levava o primo em casa. O primo vinha da casa
da namorada e ele acompanhava, paco-paco-paco. Chegava em casa,
quando ele entrava, ele voltava. Quando é um dia, falou: “vou quebrar a
pata dele”. Quando é um dia, vai ele, vai ele, que ele parou assim, olhou:
– Eu conheço esse sem-vergonha. Esse sem-vergonha aqui é
Dodô! [risos]
Ele ficou de mal um bocado de tempo, ele nunca mais virou
Lobisomem. [risos] Ele mora aqui perto de Joel, ouviu falar de Joel? Joel
é irmão de Nozinho mais Maíca. Nozinho que tem um cereal aí no calça-
dão. Maíca tem um mercadinho e a padaria no calçadão.
ALCOFORADO, Doralice F. Xavier; ALBÁN, Maria del Rosário Suarez. Contos populares brasileiros:
Bahia. Recife: Joaquim Nabuco; Massangana, 2001.
COSTA, Edil Silva. Cinderela nos entrelaces da tradição. Salvador: Secretaria de Cultura; EGBa, 1998.
COSTA, Edil Silva (Org.). Contos de Dona Luiza. Salvador: EDUNEB, 2009. (Coleção Histórias do
Fundo do Baú, v. 1)
COSTA, Edil Silva (Org.). Contos de animais: no tempo em que os bichos falavam. Salvador:
EDUNEB, 2009. (Coleção Histórias do Fundo do Baú, v. 2)
COSTA, Edil Silva (Org.). Contos de Dona Carlota. Salvador: EDUNEB, 2009. (Coleção Histórias
do Fundo do Baú, v. 3)
COSTA, Edil Silva (Org.). Históriasde Pedro Malasartes. Salvador: EDUNEB, 2009. (Coleção Histórias
do Fundo do Baú, v. 4)
COSTA, Edil Silva (Org.). Contos de Dona Sônia. Salvador: EDUNEB, 2009. (Coleção Histórias do
Fundo do Baú, v. 5)
Histórias de sabidos:
transcrições e transcriações de contos orais
Sônia Queiroz (Org.)
Literarização da oralidade,
oralização da literatura
Jean Derive
Vissungos
Cantos afrodescendentes em Minas Gerais
3a ed. revista e ampliada
Neide Freitas
Sônia Queiroz (Org.)
Composto em caracteres Verdana e