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Contos Populares da Bahia: Narrativas Orais

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Selma Oliveira
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
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Contos Populares da Bahia: Narrativas Orais

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Organizadora

Edil Silva Costa

Contos e causos
da Bahia

FALE/UFMG

Belo Horizonte

2016
Diretora da Faculdade de Letras
Graciela Inés Ravetti de Gómez
Vice-Diretor
Rui Rothe-Neves
Comissão editorial
Elisa Amorim Vieira
Fábio Bonfim Duarte
Luis Alberto Brandão
Maria Cândida Trindade Costa de Seabra
Maria Inês de Almeida
Reinildes Dias
Sônia Queiroz
Capa e projeto gráfico
Glória Campos – Mangá Ilustração e Design Gráfico
Transcrições
Edil Silva Costa
Cristiane Tavares

Ilustrações
Luiz Ramos
Preparação de originais
Ágatha Carolline Galdino
Diagramação
Natalia Soares
Revisão de provas
Fernanda Tavares
ISBN
978-85-7758-291-4 (digital)
978-85-7758-292-1 (impresso)

Endereço para correspondência


LABED – Laboratório de Edição – FALE/UFMG
Av. Antônio Carlos, 6.627 – sala 3108
31270-901 – Belo Horizonte/MG
Tel.: (31) 3409-6072
e-mail: [email protected]
site: www.letras.ufmg.br/vivavoz
Sumário

5 Vozes da Bahia
Edil Silva Costa

31 O Macaco e a Onça
33 A Onça e o Coelho
35 O Coelho e o Bode
41 A Cabra e o Lobo
47 A Raposa e o Lenhador
53 Espelho Cristalino
63 O Cavaleiro Assombrado
65 Histórias da Caipora
71 A Caipora e o Caçador
75 A Caipora e as Meninas
79 O Caçador e o Dono do Mato
83 Histórias de Lobisomem
87 O Lobisomem de Irará
91 Outras publicações de narrativas orais da
Bahia
Vozes da Bahia

As narrativas orais aqui apresentadas são resultado do trabalho iniciado


na década de 1990 por pesquisadores do Núcleo de Estudos da Oralidade –
NEO, na Universidade do Estado da Bahia. Na época, o NEO atuava como
um projeto integrado ao Programa de Estudo e Pesquisa da Literatura
Popular (PEPLP/UFBa), então coordenado pelas professoras Doralice
Fernandes Xavier Alcoforado e Maria del Rosário Suarez Albán, pioneiras
nos estudos das poéticas orais na Universidade Federal da Bahia.
É necessário ressaltar a importância do trabalho das professoras
Doralice e Maria del Rosário, responsáveis também pela formação de
jovens pesquisadores que deram continuidade ao trabalho em outras
instituições de ensino. A institucionalização do PEPLP, ainda na década
de 1980, e sua posterior integração a uma das linhas de pesquisa do
Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística da UFBa resultaram
em muitos outros trabalhos acadêmicos. O NEO é um exemplo desses
desdobramentos, assim como minha dissertação de Mestrado, defendida
em 1995, Cinderela nos entrelaces da tradição, orientada por Maria del
Rosário Albán e publicada em 1998 com uma antologia de contos da
Cinderela que serviram de base para a dissertação.
O trabalho incessante das pesquisadoras, que percorreram 57
municípios de diversas regiões do Estado da Bahia, frutificou em um
acervo de mais de 5 mil textos orais, dentre contos, romances, cantigas
e depoimentos, grande parte deles ainda inéditos. Dos quase 3 mil con-
tos populares recolhidos, 96 foram selecionados para integrar a coletânea
Contos populares brasileiros: Bahia, publicada em 2001 pela Fundação
Joaquim Nabuco e que integra um projeto editorial, abrangendo todo o
país, coordenado pelo pesquisador Bráulio do Nascimento. Esse livro é um
importante registro dos contos populares baianos na contemporaneidade.
Em 2010, com o apoio da Comissão Baiana de Folclore e do Banco
do Nordeste – BNB, organizei a Coleção Histórias do Fundo do Baú, com
cinco pequenos volumes de contos orais adaptados, que foram distri-
buídos gratuitamente em escolas de ensino fundamental em Salvador
e Alagoinhas. Por fim, em 2015, publiquei minha tese de doutorado,
Ensaios de malandragem e preguiça, defendida em 2005 na PUC-SP, com
a orientação de Jerusa Pires Ferreira. O livro traz, além do estudo teórico
sobre o tema da malandragem e preguiça, contos populares do acervo
do NEO e do PEPLP que foram analisados na tese.

6 Contos e causos da Bahia


Desse modo, os contos populares da Bahia, recolhidos nas últi-
mas três décadas por pesquisadores das duas universidades envolvidas,
foram parcialmente editados, mas grande parte continua acessível ape-
nas aos pesquisadores que trabalham com o acervo. Para dar continui-
dade ao trabalho do NEO, com o objetivo de organizar e disponibilizar os
textos do acervo para a comunidade, foi criado, no Campus II, o Acervo
de Memória e Tradições Orais na Bahia (AMTRO), que está vinculado ao
grupo de pesquisa Núcleo das Tradições Orais e do Patrimônio Imaterial
da Bahia – NUTOPIA. O NUTOPIA integra a Linha de Pesquisa Literatura,
produção cultural e modos de vida, do Mestrado em Crítica Cultural (Pós-
Crítica), acolhendo hoje pesquisadores docentes e discentes da gradua-
ção e pós-graduação.
Os textos que vêm à luz nesta coletânea ainda estavam inéditos e
foram recolhidos por pesquisadores do NEO em Inhambupe, Alagoinhas
e Irará, cidades do Território de Identidade que compreende nossa área
de atuação. Da pesquisa de campo, coordenada por mim, entre 1998 e
2005, participaram estudantes da graduação em Letras e História, tam-
bém auxiliares na pesquisa em suas diferentes fases.
Por fim, cabe ressaltar que esta edição de narrativas orais do
Acervo de Memória e Tradições Orais na Bahia foi possível graças ao
acordo de cooperação do Pós-Lit/UFMG com o Pós-Crítica/UNEB, através

Vozes da Bahia 7
do Procad. Trata-se do desdobramento do trabalho iniciado durante o
Estágio Pós-Doutoral, supervisionado pela Profa. Dra. Sônia Queiroz,
coordenadora do Laboratório de Edição – LABED – FALE/UFMG.
Foram selecionadas treze narrativas, entre contos e causos, reco-
lhidos nos já citados municípios de Alagoinhas, Inhambupe e Irará. A
maior parte das histórias foram coletadas na zona rural. Os narradores
são, em sua maioria, lavradores com pouca escolaridade. Essa situação
social deixa marcas na linguagem das narrativas, que se buscou a todo
custo preservar. No entanto, a riqueza de gestos, de entonações de voz
e posturas, não poderá ser representada, pois é sabido que a transcri-
ção de um texto oral, por mais cuidadosa que seja, deve submeter-se
às limitações dos sinais gráficos utilizados na escrita. Para a transcrição,
procurou-se seguir as normas do PEPLP, elaboradas criteriosamente pela
Profa. Maria del Rosário Albán, por exemplo, em seu artigo “Um velho
tema em debate: isenção e fidelidade na transcriação grafemática de
textos orais”. O critério norteador dessa difícil tarefa foi conservar o dia-
leto e/ou o idioleto do narrador, sem discriminar sua fala em relação à
norma padrão. Desse modo, não foram marcadas as realizações gene-
ralizadas no português falado na Bahia, a exemplo da queda do -r do
infinitivo verbal e ao final de palavras como caçador. Também não foi
marcada a monotongação de –ou (~ô) e –ei (~ê), por considerar que

8 Contos e causos da Bahia


essas formas estão presentes na fala culta, assim como o alçamento das
vogais pré-tônicas.
A meu ver, o debate sobre a melhor forma de representar na
escrita as narrativas orais ainda está longe de ser esgotado, e as trans-
formações da língua na dinâmica social provoca a contínua reflexão
sobre o tema. A fixação do texto, aqui posta em prática, tenta conservar,
ainda que precariamente, o momento da performance, ou pelo menos
lembrar aquele momento e, ao mesmo tempo, não afastar o leitor com o
estranhamento frente à linguagem oral representada, tornando a leitura
mais confortável e fluente.
Porém, alguns problemas de registros somente puderam ser mini-
mizados com a inserção da voz desta pesquisadora que, fez a transcria-
ção do texto, valendo-se da memória da performance.
Dentre as narrativas, há algumas que são contadas como acon-
tecimentos verdadeiros e que trazem como ingrediente particular o
sobrenatural ou extraordinário. Esse aspecto diferencia essas narrativas,
chamadas de causos, dos contos, pois, embora possam trazer o maravi-
lhoso, os causos são acontecimentos datados e geograficamente situa-
dos, muito próximos da pessoa que narra.
No conto de encantamento ou de fadas, encontramos o aju-
dante mágico, personificado ou diluído em elementos maravilhosos, que

Vozes da Bahia 9
integram a narrativa, remetendo o ouvinte/leitor para um tempo/espaço
em que tudo pode acontecer. Do mesmo modo, os contos de animais são
acontecimentos “do tempo em que os bichos falavam”.
Diferentemente dos contos, os causos são fatos vividos ou acon-
tecidos com pessoas próximas, sempre narrados com algum tipo de
comprovação de sua veracidade. Assim, os contos, sejam de animais
ou de encantamento, estão situados em um tempo imemorial ou mítico,
enquanto que nos causos – de assombração, de caçadas, de Caipora ou
de Lobisomem – o tempo é o vivido. O sobrenatural ali expresso é incor-
porado à história de vida dos narradores e tratado com a “naturalidade”
dos acontecimentos cotidianos.
A maior parte das histórias foram coletadas na zona rural. Desse
modo, os causos que envolvem o ambiente da mata, como as histórias
de Caipora, ocupam lugar de destaque, mas também registramos cau-
sos de caçadores e encontros com animais falantes, histórias de assom-
bração que caracterizam o lugar e relatos de transformação de pessoas
conhecidas em lobisomens.
Os contos de animais apresentam personagens com atitudes e
comportamentos humanizados. Narrativas como “O Macaco e a Onça”
encenam uma lição de moral e ensinam que a inteligência vence a força.
No entanto, a esperteza do Macaco, não está associada à ética. Animais

10 Contos e causos da Bahia


pequenos, espertos e enganadores, muitas vezes cometem ações con-
denáveis contra um animal maior, mas são vistos com simpatia pelos
ouvintes. A situação desprivilegiada do pequeno justificaria suas ações,
e o riso decorrente de sua vitória – porque improvável ou pelo menos
surpreendente – acomoda e equilibra as tensões que poderiam resultar
em condenações. É assim nos contos “O Macaco e a Onça”, “A Onça e o
Coelho”, “O Coelho e o Bode”.
O conto “A Cabra e o Lobo” tem um enredo um pouco diferente e
a lição de moral também. Ao se ver ameaçada pelo Lobo, a Cabra pede
ajuda aos outros bichos, como o galo e o cavalo, que se negam a ajudar.
É a Formiga quem ajuda, mordendo “naquele lugar por trás no cabo”. Ou
seja, não é exatamente pela esperteza, mas pelo uso de uma habilidade
específica, que um animal minúsculo, porém corajoso, enfrenta o Lobo,
que não tem armas para se defender.
A narrativa “A Raposa e o Lenhador” foge um pouco da configura-
ção das anteriores. Conta a história de amizade entre uma raposa e um
lenhador, que, por causa de um mal-entendido e da influência da vizi-
nhança, que desaconselhava a confiança na Raposa, termina por matar a
amiga a machadadas. Ao descobrir o engano, arrependido, ele “enterrou
a foice, o machado e a Raposa tudo numa cova só”. Esse conto alerta

Vozes da Bahia 11
que não se deve confiar no que os outros pensam ou dizem e que não
se deve precipitar em relação às aparências, mas investigar a verdade.
Em todas essas narrativas, o que podemos perceber são os valo-
res morais bem definidos que elas encenam e reforçam, seja através do
riso ou do final trágico. Ameniza e disfarça essa moral a estratégia de
usar animais como personagens, porém os comentários dos narradores
e a forma como conduzem a narração, deixam claro que o texto não é
um simples entretenimento.
O único conto de encantamento desta coletânea, “Espelho
Cristalino”, integra o ciclo da menina atormentada que, como em todo
conto de encantamento, encontra o final feliz. Trata-se de uma versão
do conto “Branca de Neve”, em que não há o casamento com o príncipe,
mas o final feliz é representado pela santificação da heroína e o castigo
da mãe:
Foi que ela virou santa. Aí a mãe se apaixonou, quando a mãe
viu mesmo que num deu mais jeito mesmo que ela virou santa e
ela chegou se desmalhou. Aí morreu, a mãe morreu. No final da
história a mãe que morreu.

O que caracteriza uma comunidade narrativa é o fato dos textos


fazerem parte de um repertório comum, seja entre os mais velhos, os
adultos ou os jovens. Todos compartilham do saber, embora o direito à

12 Contos e causos da Bahia


palavra e a credibilidade da mensagem seja atribuída principalmente ao
ancião. Nas comunidades tradicionais, “antiguidade é posto”. O respeito
aos mais velhos é a tradução do respeito aos antepassados e ao saber
ancestral. No caso de dona Elvira e suas amigas, elas estão num mesmo
patamar e por isso gozam do mesmo direito à voz, uma iniciando, outra
interrompendo e complementando, sem conflitos (pelo menos para elas).
A partir dessa forma peculiar de narrar, podemos discutir a questão de
autoria nos textos, mas isso será tema para outra ocasião. Por ora vamos
tentar destecer alguns fios dessas narrativas para compreender de que
modo esses sujeitos em comunidades tradicionais vivenciam o sobrena-
tural “naturalizado” no seu cotidiano.
Como foi dito, diferentemente dos contos, os causos costumam
ser narrados como acontecimentos verdadeiros, que aconteceram com
o próprio narrador (que nesse caso diz que viu ou viveu a situação) ou
com alguém próximo a ele que lhe contou uma situação vivenciada. Nas
comunidades litorâneas são comuns causos de pescador, assim como na
zona rural os causos de Caipora ou Lobisomem.
Diversos causos são também histórias de assombração. Eles têm
se mantido com bastante força no universo urbano e são o que chama-
mos de lendas urbanas, narrativas que abordam temas relacionados à
sociedade atual.

Vozes da Bahia 13
Uma análise preliminar das narrativas permite compreender que
a vivência do sobrenatural está tão arraigada nas comunidades a ponto
de entes como a Caipora e o Lobisomem serem descritos com a proxi-
midade e naturalidade de pessoas conhecidas e que convivem no meio
social dos entrevistados.
Dona Altamira Miranda dos Reis narra um causo de Caipora acon-
tecido com ela mesma e com a prima, numa ocasião em que foram à
mata buscar lenha, em um lugar de nome Três Moradas:
Ali chamava As Três Moradas. Era um mato ali que a gente entrava
e não sabia sair [...] minha mãe saia com a gente pra caçar lenha.
Aí ela tirava aquele bocado de lenha e ajuntando e a gente ia car-
regando pra casa. Vinha eu e uma prima minha. Ela mora até em
Ouriçangas hoje, era menina. Aí ela vinha mais eu, carregando a
lenha pra casa. Aí, quando foi um dia, que a gente saiu, pelejou
pra sair pra chegar de junto da mãe da gente, mas não acertou
[...] Um chamava Altamira, outro chamava Nenzinha e nós duas
louca dentro do mato, sem saber onde sair. Aí eu falei assim:
– Que diacho foi isso, Nenzinha, que pegou a gente hoje? Que a
gente não pode sair daqui hoje?

A narrativa, protagonizada pelo próprio sujeito que narra, é enri-


quecida com os detalhes da memória de infância da narradora quando ia,
em companhia da prima, ajudar a mãe a recolher lenha. Trata-se de uma
memória familiar que envolve outros sujeitos (a mãe e a prima, também

14 Contos e causos da Bahia


enganada pela Caipora). Ela mapeia os lugares como Três Moradas e
Ouriçangas (cidade próxima a Alagoinhas e Irará). Note-se que a infor-
mação sobre onde mora a prima hoje nada acrescenta aos fatos narra-
dos, no entanto, é relevante para dar verossimilhança ao personagem da
história e credibilidade à narradora. Quanto mais detalhes forem agrega-
dos à narrativa mais consistência o fato terá para quem escuta. A prima,
além de personagem, é também testemunha do fato e, embora ausente,
poderá confirmar a história, uma vez que também viveu a experiência.
Nesse causo, não há uma fórmula encantatória ou ritual como artifí-
cio para livrar-se da Caipora, mas a palavra tem uma função essencial, pois
é revelando que se sabe da existência do ser sobrenatural e nomeando-o
que se consegue escapar de seu encanto:
Aí [Nenzinha] era mais espertinha do que eu [...] Aí, ela disse:
– Ô Mi, diz que tem uma bicha que chama Caipora, Mi, e foi ela
que pegou a gente aqui.
E é assim que a pessoa se livra, se na hora que a pessoa lembrou
que foi ela, falar, ela some. Aí, quando ela acabou de falar assim,
demorou um pouquinho, nós saímos de dentro do mato [...] Foi
ela que tava rodeando a gente. Aí só se livra assim, se falar que foi
a Caipora que pegou a gente, na hora ela some. Mas, se ninguém
lembrar que foi a Caipora, nego bate o dia todo, bate o dia todo.
Agora, eu nunca vi ela não. Não vou mentir. Não, nunca vi nem

Vozes da Bahia 15
há de ver, num gosto não, é coisa ruim a gente não quer ver, né?
Quem quer ver coisa ruim?

Reafirma-se, assim, a força da palavra que, uma vez pronunciada,


tem o poder de realizar transformações. Dizer o nome da Caipora para
quebrar o encanto pode ser interpretado como se ela, a Caipora, qui-
sesse ser reconhecida, ter seu lugar e seu poder admitido pela pessoa
que invade seu espaço. A menina, ao dizer “foi a Caipora que pegou a
gente”, está reconhecendo que foi encantada pela Caipora e que pode
jogar o seu jogo para inverter a situação de adversidade com a palavra.
Altamira ressalta a esperteza da prima (“Nenzinha era mais espertinha
do que eu”) e é a esperteza da menina que salva ambas de ficarem per-
didas na mata.
Outro aspecto marcante dessa narrativa é que a narradora afirma
não ter visto a Caipora. Ou seja, a rigor não foi “testemunha ocular”, mas
não precisa ver para acreditar nela e, assim, afirma com convicção: “Foi
ela que tava rodeando a gente”. Por outro lado, revela que não deseja
vê-la, por se tratar de uma “coisa ruim”, pois ela não associa, como
outros narradores, a Caipora com a Dona da Mata, entidade protetora. A
narrativa nos impele a compreender a Caipora como um ser relacionado
à esfera do mal, que espreita, atrapalha as pessoas e faz com que elas
se percam na mata, podendo provocar sofrimento e até mesmo a morte.

16 Contos e causos da Bahia


Por fim, as narrativas de Caipora indicam que há uma delimitação
de territórios: dentro da mata e fora da mata, humano e não-humano,
natural e sobrenatural. No entanto, essas fronteiras são permeáveis e há
convivência em espaços comuns e sobreposições. Os sujeitos transitam
entre esses espaços do natural que abriga o sobrenatural, embaralhando
os territórios, um espaço onde dois mundos se encontram, um dando
sustentação ao outro e oferecendo possibilidades de compreensão do
outro. Isso se dá porque há uma dependência das pessoas em relação ao
mundo natural, pois a sobrevivência dos sujeitos na zona rural depende
da mata de onde tiram elementos essenciais para seu sustento, como a
lenha e a caça.
Diferentemente dessa relação de interdependência, e situado
no espaço de convivência direta com os sujeitos, está o Lobisomem.
Esse ser não é uma entidade que ocupa o espaço restrito e interdito
ao homem. O Lobisomem é um homem que se metamorfoseia. Um ser
amaldiçoado, cuja porção animal que ele carrega em si manifesta-se em
momento determinado, o que torna tensa a convivência com seus pares,
que sabem, ou ao menos desconfiam, da maldição.
As narrativas de Lobisomem são bastante difundidas no Brasil
e na Europa, sendo inclusive tema de livros e filmes. O Lobisomem é
um ser híbrido, como o nome indica, meio homem e meio animal. Na

Vozes da Bahia 17
tradição oral do Brasil, encontramos muitos registros. A narrativa aqui
apresentada é constituída de vários episódios, de vários lobisomens dife-
rentes, todos eles conhecidos e, em quase todos os casos, o narrador foi
testemunha ocular.
Lobisomem sempre aparecia, mas agora não. Quando eu morava
lá na Queimada [...] Agora eu conheci um e conheço até hoje, ele
vira por pata [...] Porque um vira por sina e outro vira por oração
braba [...] Ave Maria! E nem quero saber! [risos] É qualquer
oração braba. É só mesmo quem tem esses livro da capa preta,
do São Supriano

Inicialmente, relata-se dois tempos, um antes e um depois:


antigamente aparecia Lobisomem, agora não mais. E dois lugares: o
aqui (em Irará) e o lá (em Queimadas). Por fim, a atualização do fato:
“conheci um e conheço até hoje, ele vira”.
Podemos interpretar a metamorfose do homem em animal (porém
sem perder totalmente sua parte humana) como uma maneira de dizer
que somos também animais que, embora racionais, guardamos um lado
instintivo e animalesco que pode se manifestar em algum momento.
Note-se que a metamorfose pode ser um ato voluntário ou involuntário.
Pode ser uma espécie de maldição (sina) ou consequência da evoca-
ção das rezas brabas aprendidas no livro da Capa Preta, o livro de São
Cipriano. O livro se constitui assim como um instrumento para o domínio

18 Contos e causos da Bahia


de certas instâncias do sobrenatural. Em seu estudo sobre O Livro de
São Cipriano: uma legenda de Massas (p. xvii), Jerusa Pires Ferreira
afirma que:
No Brasil, sua expansão está ligada à umbanda, que se afirma
cada vez mais como uma grande religião do povo brasileiro. Passa
então o Livro de São Cipriano a ser uma espécie de Bíblia (ou
anti-Bíblia), um instrumento indispensável para o enfrentamento
da vida em sociedades complexas, um fetiche, uma arma, um
sucedâneo múltiplo, compensação de muitas frustrações.

Assim, o sujeito torna-se um ser especial, ainda que amaldiçoado,


condenado para o resto da vida a se espojar como jumento, porém com
um poder que o torna diferente dos demais, e isso se traduz também
como poder de enfrentamento das agruras da vida, que desperta nas
pessoas temor e admiração.
O narrador faz um comentário, aparentemente sem propósito,
sobre outro sujeito, identificado por como Dudu Lauriano:
E outra vez, viu falar em... (já morreu todos dois) Viu falar em
Dudu Louriano que cortava fato, num viu? Ele era muito conhe-
cido. Ele era machão de boi forte. Ele comprava boiada fechada,
com as porteira fechada, ia contar depois. Ele muito vaidoso, se
quebrou, né? Pegou, passou cortar fato, aí botaro o nome de Dudu
Louriano, cortava fato.

Vozes da Bahia 19
Nesse caso, a narrativa faz um adendo ao causo do Lobisomem
para informar que Dudu Louriano faliu por ser vaidoso e arrogante: com-
prava boiada sem contar. Ao narrar o caso da mulher de Dudu Louriano,
que viu o Lobisomem, seu Vavá não se furta de fazer sua condenação à
vaidade, um dos pecados capitais: ele era rico, porém vaidoso. Por isso
faliu, só lhe restando a alternativa de “cortar fato”, a parte mais despri-
vilegiada do boi. Também essa construção, além de envolver os ouvintes
(“viu falar em Dudu Louriano [...] num viu?”), dá consistência à história:
“ele era muito conhecido”. E continua:
Quando ele saiu pra cortar fato, um dia, véspera de São Pedro,
esse dia eu tava até lá, boca da noite. Aí... Eu não tava lá nesse
dia não. Aí ele deixou ele, esse cara que virava Lobisomem pra
ficar mais a mulher pra fazer companhia até mais tarde que ele
num ia chegar, que ele ia pra rua de sexta-feira só chegava no
sábado de tarde e ficar lá fazendo companhia. Tá bem. Tá certo.
A criatura disse conde deu base de oito horas em diante, o cara
lá ficou agoniado. O cara ia no fundo do cara, o cara rodava na
casa, o cara ia numa moita de bananeira... todo agoniado, ia de
junto dela, tornava voltar, que ela ficou até com medo. Daqui a
pouco, diz que ele falou assim:
– Neném... – ela chamava Neném. – Neném, eu vou ali e volto
nestante, viu? Eu vou ali, volto nestante.
Aí se jogou, já era ele voltar. Ele inda deve virar, tá vivo ainda.

20 Contos e causos da Bahia


A riqueza dos detalhes, a presença (“esse dia eu tava até lá”), o
nome da mulher, noite de sexta-feira, véspera de dia santo, a agonia
do amaldiçoado, tudo isso são elementos que envolvem os ouvintes em
uma atmosfera de realismo em que o sobrenatural se encaixa. Em rela-
ção aos tempos de antes e agora, ele arremata: “Ele inda deve virar, tá
vivo ainda”.
A descrição da metamorfose coincide com a maioria das narrati-
vas registradas no Brasil:
E depois outra vez, tava ela na rua também e uma colega dela,
até de Feira, a criatura foi saindo do quintal, tá aquele jegue
preto [risos] no fundo da casa, aquele jeguinho feio, quando a
criatura viu aquele jeguinho lá, entrou doida pra dentro de casa,
bateu a porta. Ele virado Lobisomem. Disse que esse pessoal que
vira Lobisomem, vira na escorreira de jegue, coisa de cavalo, em
chiqueiro de porco.

O último episódio serve como estratégia para provar que um


determinado sujeito, suspeito de ser Lobisomem, o é de fato. A estraté-
gia é marcá-lo, como acontece com Dodô, cuja pata teria sido quebrada:
Ali embaixo tinha um, quebraram a pata dele, ele chama Dodô,
apelido dele é Dodô. Ele virava Lobisomem [...] O bicho só anda
com a cabeça dentro das perna. Só vê quem vai atrás dele. Então
o Dodô virava Lobisomem. Toda mão levava o primo em casa. O
primo vinha da casa da namorada e ele acompanhava, paco-paco-

Vozes da Bahia 21
paco. Chegava em casa, quando ele entrava, ele voltava. Quando
é um dia, falou: “vou quebrar a pata dele”. Quando é um dia, vai
ele, vai ele, que ele parou assim, olhou:
– Eu conheço esse sem-vergonha. Esse sem-vergonha aqui é
Dodô! [risos]
Ele ficou de mal um bocado de tempo, ele nunca mais virou Lobi-
somem. [risos] Ele mora aqui perto de Joel, ouviu falar de Joel?
Joel é irmão de Nozinho mais Maíca. Nozinho que tem um cereal
aí no calçadão. Maíca tem um mercadinho e a padaria no calçadão.

Além da vergonha, pelo escárnio dos conhecidos, Dodô nunca


mais virou Lobisomem, talvez por cautela, talvez por impossibilidade –
seu encanto teria sido quebrado com a revelação? Ao final, o narrador dá
mais detalhes e endereços, ampliando a rede de conhecidos – Joel, Maíca
e Nozinho – que nada têm a ver com o caso, a não ser o fato de serem
vizinhos do Lobisomem e serem comerciantes da cidade, o que implica
em dizer que eles têm uma moradia fixa e respeitabilidade, dando mais
credibilidade à voz do narrador, porque, se necessário, também pode-
riam testemunhar a favor do que está sendo dito. Seria o equivalente a
dizer: “Tá aí Joel, Maíca e Nozinho que não me deixam mentir”. O nar-
rador tem, portanto, consciência de que sua história é extraordinária e
que necessita do respaldo que o testemunho ou a crença coletiva lhe dá.

22 Contos e causos da Bahia


A última narrativa que irei comentar é um causo de caçada nar-
rado por Dona Elvira Caldas. Uma pequena anedota transcrita a seguir:
Eu tinha um cunhado, irmão de Januário, Craúdio conheceu ele
agora, irmão de Januário. Ele caçava, caçava e caçava mesmo.
Mas quando ele ia caçar, ele levava agrado pra o dono do Mato.
Bom, mas levou uns dias que ele:
– Nhé, levar caça pra dono do mato!!
Que quando ele chegou ali, láaa nesse meio de mundo, nos Tan-
quinho, um lugar que tem aí, que tem a mata, é mata fechada!
Aí ele viu, avistou duas macaca. Uma em cima do pau, enorme!
Disse que com o fiim dando mama e a outra, de outro lado. Ele
aqui disse:
– Você tá aí, veio na minha frente, me fazendo figa? Peraí.
Disse que pegou a espingarda, pra que tava dando mama o fiinho.
E a outra assim, a de lá gritou:
– Minha comadre, toma aqui Maria de Lima. Deixe eu dá resposta
a esse cara aqui!... [risos] Se este tiro me pega, camarada, que
é que havera de ser?
Ele correu, está correndo até agora coitado! [risos] [...]
Agora hoje, pra vocês isso é história, mas tem muitas coisas do
tempo velho que existia muito.

Diferente das histórias que teriam ocorrido “no tempo em que os


bichos falavam”, esse causo se passa no passado próximo, no “tempo velho”.
A narradora usa uma técnica bastante eficiente de construção da narrativa
para aproximar sua história do real: localiza o acontecimento no espaço

Vozes da Bahia 23
físico (Tanquinho), estabelece redes de relações familiares (o cunhado),
nomeia os envolvidos, envolve os presentes (“Cráudio conheceu”).
O causo começa estabelecendo essa ponte com o real e revelando
práticas pertinentes às atividades do caçador, que, sendo constante em
sua função (“caçava, caçava e caçava mesmo”), deve honrar o pacto
com a entidade protetora da mata, levando uma oferenda para o Dono
do Mato (“ele levava agrado pra o Dono do Mato”).
Porém, algo quebra o frágil equilíbrio dessa relação. Ao ofender
uma mãe que amamentava (a macaca), o caçador desrespeita as leis
de convivência com os habitantes da mata e, por conseguinte, rompe
o pacto, pagando um preço por desagradar o Dono do Mato. O acon-
tecido se dá no recôndito da floresta (“mata fechada”), no lugar mais
distanciado da esfera “civilizada”, mas onde também as fronteiras entre
o natural e o cultural são invertidas. A macaca não só fala, como tem
linhagem humanizada e possui nome e sobrenome. Os papéis são tro-
cados, o homem tem atitude bárbara, animalesca e violenta, enquanto
a macaca tem comportamento humano, solicitando ajuda à comadre e
criticando o caçador por sua atitude. Essa inversão de papéis é que dá o
tom humorístico ao causo.
O humor suplanta o medonho do texto, embora o medo do caça-
dor, que foge assombrado, seja a principal motivação do riso. O susto do

24 Contos e causos da Bahia


caçador chega ao ouvinte do causo como um castigo justo. O Dono do
Mato exerce assim uma função fiscalizadora, reguladora e punitiva, mas
nem mesmo aparece no episódio. É citado na narrativa, mas a ação toda
se desenrola apenas com a macaca e o caçador.
Em todas as narrativas acima apresentadas há o elemento fantás-
tico, pois se não se tratasse de uma história extraordinária, não valeria
a pena ser narrada. Como se os seres de um mundo oculto ficassem em
evidência por um instante para mostrar aos sujeitos que há muitos mis-
térios que escapam à nossa compreensão. Por outro lado, o valor sim-
bólico dessas narrativas procura explicar algo que estaria muito próximo
de nós e nos deixa uma lição de como proceder em relação à natureza.
Os Lobisomens nos mostram não só a proximidade, como a inte-
gração do homem ao mundo natural, não-humano, animalesco, que
estaria dentro de cada um. É possível que o mito dos lobisomens tenha
sua origem em distúrbios psíquicos em uma época ou lugar em que a
explicação para certos fenômenos é o sobrenatural, através de metáfo-
ras personificadas em nossos vizinhos e conhecidos. Deixar escapar essa
porção animalesca em certos momentos (sexta-feira, noite, dia santo,
etc.) significa a rebeldia de entrar em contato com esse outro mundo,
extraordinário, interior.

Vozes da Bahia 25
Seres como a Caipora, o Curupira ou o Saci são guardiões das matas
e protegem os animais e as plantas da ação predatória do homem. Nos
causos de Caipora, a mulher que vai catar lenha, ao entrar na mata tem
que pedir licença, deixar um pedaço de fumo em um toco de árvore, que
é um “agrado” para ela. Do mesmo modo, o caçador que leva a caça como
oferta para o Dono do Mato. O gesto é sinal de respeito e de consciência
de que aquele espaço não lhe pertence. É uma troca: se o homem entra
na mata para tirar algo deve recompensar deixando um “pagamento”. A
mata representa o espaço do primitivo, do animalesco, o não-social. O
homem tem uma relação primordial com os seres que lá habitam. É da
mata que vem o alimento, ela é necessária para a sobrevivência da huma-
nidade e, por isso, deve ser preservada, tratada respeitosamente.
A arte de narrar nos permite atravessar as fronteiras do mundo
real, toscamente marcado pelos limites da mata ou da noite de sexta-
-feira, para nos embrenharmos no universo do extraordinário, porém
sem perdermos as conexões com a vida prática. Os narradores deslizam
entre dois mundos, com leveza, mas também com a convicção de que
suas histórias extraordinárias só poderão ser entendidas se os ouvintes
os acompanharem na viagem, compactuando o mesmo código cultural.
Daí o olhar atento ao outro que ouve e o cuidado de checar a credi-
bilidade da história no meio social. Para quem escuta com um ouvido

26 Contos e causos da Bahia


sensível, essas narrativas, para além do entretenimento, nos revelam de
que modo se explica a complexidade do ser humano e sua relação com a
natureza e com os outros seres nas comunidades tradicionais. Assim, a
palavra encena o cotidiano e nos revela mistérios que só podemos captar
através da poesia da vida.

Edil Silva Costa

Vozes da Bahia 27
O Macaco e a Onça

O Macaco tava sentado numa estrada. Aí evém a Onça... Aí quando a


Onça avistou com ele aí ele disse:
− Ãnh... ãnh... [choramingando]
Aí a Onça chegou, disse:
− Amigo Macaco, por que você tá chorando?
− Eu tou chorando porque disse que hoje vai ter uma ventania que
os bichim pequininim vai avuá tudo!
Aí ele disse:
− Amigo Macaco, vamo fazer um negócio? Nós entra aqui, tira o
cipó e quando acabar, nós se amarra que é pro vento num tirar nós pra
jogar no mato.
Aí ele disse:
− É.
Aí chegou, foro tirar o cipó. Tirou o cipó, quando acabou, ele disse:
−Ó Amiga Onça, você me marra primeiro que eu sou pequeno.
Ele disse:
− Não, você vai me amarrar primeiro!
Aí ele pegou, inlenhou, inlinhou ela, inlenhou; quando chegou no
pescoço, ele arrochou assim, cand’acabou, disse:
− Amiga Onça, tá bem marrado?
− Tá.
− Se remexa...
Ela disse:
− Tou marrado mesmo!
Aí ele disse:
− Num vai ter nada! É mentira! Num vai ter nada! Eu fiz assim pra
você não me comer. [risos]

Narrado por Agenor Feliciano, em Lagoa – Inhambupe, 27 ago. 1997.


.
Recolhido por Edil Silva Costa e Nayara Barros Dantas

32 Contos e causos da Bahia


A Onça e o Coelho

A Onça vivia danada pra pegar o Coelho. Vivia danada! Pelejava pra pegar
o Coelho, nada! Aí, ela inventou assim: ela vai morrer, fazer que vai mor-
rer. E vocês (os outros bichos, né?) vem fazer sentinela. Que quando o
Coelho chegar aqui, a gente levanta e pega ele. Mas o Coelho também
que era sabido que era danado. Lá se vai. A Onça morreu. Aí a notícia:
– A Onça morreu, a Onça morreu!
Lá vai os outros bichos pra lá fazer sentinela. Daí, Amigo Coelho
chegou por último! Ela estava esticada lá, no banco, toda coberta. Aí
ele ficou, não entrou não, não é? Sabido também que é danado. Ele não
entrou não, ficou na porta. Botou o guarda-chuva assim, botou o braço
em cima e ficou. Ficou, disse:
– Venha cá... Boa noite, gente!
– Boa noite!
Todo mundo respondeu “boa noite!”
– Amiga Onça morreu, né?
Ele disse:
– É, morreu.
– Será que ela morreu mesmo?
– Morreu sim.
– Ah! Me diga uma coisa, que eu vou perguntar a vocês, quando
ela morreu, bufou?
Aí disse:
– Será?! Não.
– Aaaah, porque meu avô, quando morreu, bufou!
Ela empinou [palma], danada [risos], pra pegar o Coelho. O
Coelho é aqui, ó [risos]. O Coelho saiu que saiu fino, ela sentou o pé
atrás pra pegar. Como é que pega? [risos] Então pronto! [risos] Que meu
avô, quando morreu, bufou. Ela bufou? Não! Então pronto! [risos]

Narrado por Lélia, em Boa União – Alagoinhas, 25 out. 1998. Recolhido por
Edil Silva Costa, Ana Débora Ferreira, Cláudio Pinto, Nayara Barros Dantas.

34 Contos e causos da Bahia


O Coelho e o Bode

Então, que é o seguinte: o Compadre do Coelho plantou uma roça de


amendoim. Um amendoim maduro, quando tava pra madurecer, um
amendoim bonito!... Aí tinha um bicho comendo a roça do Compadre. Aí
o Compadre de ir tocaiá sozinho, foi mais o Coelho.
– Pera, Compadre, que eu vou mais o senhor.
Aí foi os dois. Chegou lá, a roça toda comida, o Compadre começou
a se maldizer.
– Eu vou lhe ensinar um jeito que o senhor pega esse sem-vergonha
que tá comendo sua roça, Compadre.
– Cumé, compadre Coelho?
– Peraí, o senhor vai ver, eu vou lhe ensinar. Nós vamo fazer um
laço, vamo botar aqui onde ele comeu; que ele vem, cai aqui no laço e o
senhor pega; quando o senhor chegar, ele tá no laço.
O Compadre combinou. Ele fez o laço, chegou no lugar que tava
comido, ele pá, botou o laço, e foi embora mais o Compadre. Quando o
Compadre entrava pra casa, ele fazia que ia pra casa e vortava pra roça
do Compadre, chegava no lugar bonito, comia de novo.
Da outra vez, évai o Compadre mais ele:
– Quá-quá-quá, comero minha roça de novo! Que é que faz?
– Né nada não, Compadre, vamo mudar o laço, vamo botar aqui.
Mudou o laço, botou no outro lugar, ele comeu de novo. Ele tor-
nou voltar, comeu no outro lugar. Aí o Compadre quando desconfiou, foi
e descobriu:
– E quem tá comendo minha roça é Compadre Coelho! Peraí que
eu vou dar... dextá que eu dou o troco dele. É ele quem tá comendo
minha roça!
Compadre voltou mais ele pra casa, quando veio, logo em cima
do rastro, o Compadre voltou primeiro de que ele. Voltou, pegou o laço,
chegou no lugar bonito, botou o laço. E tinha uma festa de um bicho do
mato (não sei qual foi nome do bicho). Uma festa de aniversário, um
negócio e eles disse que iam tudo pra essa festa. Então, os outro, condê
chamou:
– Eu vou, Coelho, eu vou! Eu também vou pra festa.
Tudo bem. O Compadre tá em casa. Aí, o que é que faz o Coelho?
Foi pra roça pra comer bem, pra encher a barriga, pra poder ir pra festa.
Chegou na roça caiu no laço. Caiu no laço, foi lá, vem cá, num pode sair.

36 Contos e causos da Bahia


Mas a estrada que os bicho ia passar era de junto. Os outo foi tudo pra
festa, ficaram lá, fizeram a farra deles, quando era quatro hora da manhã,
evém. Quando o Coelho viu que a turma ia passar de junto, o Coelho
meteu pé no laço, foi lá, vem cá: ruco-ruco-ruco.
Os outo tudo:
– Ô Coelho, Amigo Coelho, por que num foi na festa?
– Ah, rapaz! Achei um conforto desse aqui vou pra festa, sou
nenhum abestalhado? Ficar aqui me distraindo para ir pra festa?
Os outo olhou assim, caiu fora e foi embora. Amigo Bode é de
passar o caminho dele, ir embora, ficou:
– Ô Amigo Coelho, me dá, Amigo Coelho, uma volta aí, Amigo
Coelho!
Amigo Coelho de treita:
– Num dou!
– Me dá, Amigo Coelho!
– Eu num dou, rapaz! Um negócio bom desse eu vou lhe dar?
– Me dá, Amigo Coelho!
Começou a atentar o Coelho, o Coelho falou:
– Ói, se eu lhe der, você me devolve de novo?
O Bode:
– Devolvo!

O Coelho e o Bode 37
– Então folgue aqui!
O Bode feito besta, folgou.
– Folgue ali...
Folgou.
– Folgue ali...
Folgou. E saiu.
– Entre aqui.
Quando o Bode, quando botou ele, paco! bateu lá. Quando bateu
lá, que o Bode viu o aperto, foi lá, vem cá, ele caiu no mundo [palmas].
– Peguei, meu Compadre, o descarado ladrão! (Vá desculpando as
palavras, viu?) Peguei, meu Compadre, o descarado ladrão! Peguei, meu
Compadre, o descarado ladrão!
E riscou na casa do Compadre. E o ladrão era ele, né? Chegou lá...
(É o mesmo caso dessas novela que passa aí. Imitando a mesma coisa.)
Chegou em casa:
– Compadre, peguei o descarado ladrão que tá comendo sua roça
de amendoim toda, meu compadre!
– Quem é?
– É Amigo Bode, meu Compadre!
– Peraí, que eu vou dar...

38 Contos e causos da Bahia


– Peraí Compadre, peraí! Leva um cacete, leva um cacete que ele
tem o queixo duro, meu Compadre!
Aí o Compadre garrou o cacete e évai apavorado, quando chegou
lá que vai metendo cacete no Bode, o Bode:
– Peraí, deixe eu contar o caso!
– Peraí, bate no queixo dele, meu Compadre, que ele tem o queixo
duro, meu Compadre.
Quanto mais o Bode bê-bê-bê, que não acertava falar, ele tome
porrada. Deixou o Bode morto de tanto dar porrada. O Bode ficou todo
quebrado e nunca descobriu que foi o Coelho. Ficou o Bode que comeu
a roça dele.

Narrado por Nelson Sebastião (seu Vavá), em Mangabeira – Irará, 29 out.


2005.Recolhido por Edil Silva Costa, Cristiane Tavares, Nara Silva.

O Coelho e o Bode 39
A Cabra e o Lobo

[Sei da Cabra, que era três cabrinha.] Aí uma chamava Maria, Joaninha e
Isabel. Aí a mãe saía pra trabalhar e deixava as três dentro de casa, quando
foi um dia apareceu um Lobo pra pegar as meninas. E a Cabra avisou:
– Ói minhas filhas, quando chegar uma pessoa aqui da voz grossa,
não responda, não abra a porta que vem pra lhe pegar.
Aí isso mesmo ela fazia. Ficava dende casa todas três com medo,
coitadinhas. Aí daqui a pouco apareceu um Lobo. Quando o Lobo apareceu,
chegou e cantou. Quando o Lobo chegou, aí chegou cantando:
– Maria, Joaninha
Isabel, Isabel
Abri mais a porta
Tua mãe que te pariu
Traz leite no peito
Sal no vidro
E lenha no [...]
Aí uma falava assim:
– Ô Maria aqui tem uma [...] cantando, vem ver! Vamo ver quem é?
Uma falava:
– Não que mamãe avisou que a gente não saísse lado de fora.
Aí a outra falava:
– Vambora, Maria!
A outra:
– Não Joaninha, que mamãe avisou pra nós não sair.
Aí passou assim três dias. Aí quando o Lobo viu que ele não ia con-
seguir roubar elas, comer elas, ele chegou mandou num ferreiro molar
bem a ponta dele pra ficar bem alisinha que era pra fala ficar fininha.
Aí ele chegou:
– Maria, Joaninha [voz grave]
Isabel, Isabel
Abri mais a porta
Tua mãe que te pariu
Traz leite no peito
Sal no vidro
E lenha no [...]
Todo esparramado pra comer. Aí uma começou:
– É mamãe!

42 Contos e causos da Bahia


A outra:
– Né não!
– É mamãe!
A outra:
– Num é não!
Aí duas vez, nas três vez ela se bestaiaram. Aí quando ele acabou
de amolar bem a ponta mesmo, que ele chegou, chegou com a vozinha,
fininha. Começou:
– Maria, Maria
Joaninha, Joaninha
Isabel, Isabel
Abri mais a porta
Tua mãe que te pariu
Traz leite no peito
Sal no vidro
E lenha no [...]
Aí as meninas falou, elas disseram:
– É mamãe! É mamãe!
Aí foram abrir a porta, que quando elas foram abrir a porta, a pon-
tinha da porta que ela meteu a cara, quando ela meteu a cara que elas
viu o chifre, ficaro com medo dizendo que não era.

A Cabra e o Lobo 43
Aí evém a Cabra chegando, quando a Cabra foi chegando se
assustou de vez, que ela já ia pra comer as meninas, as filhas dela. Aí se
assustaram, que quando elas se assustaram, ela disse assim:
– E agora que que a gente vai fazer minhas fia? O Lobo vai comer
com a gente, que que a gente vai fazer aqui agora?
Aí começou chamando:
– Ô Amigo Galo – tinha um Galo cantando. – Ô Amigo Galo, me
acuda pelo amor de Deus! [voz chorosa]
O Galo:
–Eu tou cantando, não vou lá não! [risos]
Aí daqui a pouco apareceu um cavalo, aí começaram:
– Ô Amigo Cavalo! Amigo Cavalo! Chegue aqui ligeiro que o Lobo
vai comer minhas filhas. [voz chorosa]
– Num vou lá não que eu tou berrando.
Eu sei que cada um deu uma desculpa. Aí quando ela chamou a
Amiga Formiguinha... aí chamou a Formiga:
– Ô Amiga Formiga, pelo amor de Deus, me acuda aqui, Amiga
Formiga, que o Lobo vai comer a gente.

44 Contos e causos da Bahia


Aí ela vieram correndo, quando vieram correndo, agarraram
naquele lugar por trás no cabo e ele corre dum lado, corre do outro. Aí
foi quem salvou ela foi a Formiguinha.

Narrado por Altamira Miranda dos Reis, em Fazenda Barrado – Irará, 29 out.
2005.Recolhido por Edil Silva Costa, Cristiane Tavares, Nara Silva.

A Cabra e o Lobo 45
A Raposa e o Lenhador

A pessoa pode ser ruim como for. Numa comparação, se eu gosto dessa
menina, eu não importo o que o povo fale dela. Se eu gosto e confio nela,
tenho que confiar nela. Não tem negócio que você falar, “Ah, eu num
gosto dela. Ah, ela é assim, ela é assado, ela é cozida, ela frita”. Tem?
Eu confio nela, tenho que gostar dela e confiar em você.
Aí um homem diz que ela tinha um filho e não tinha quem ficasse
com o filho dele. Que ele tinha filhinho, mas não tinha esposa, vivia sozi-
nho. Aí diz que um dia, ele travou na frente da porta, falou:
– Ô minha Nossa Senhora!
Ele era catador de lenha.
– Eu quero cortar uma lenha e não tenho quem tome conta de
meu filho. E agora? O que é que ele vai fazer?
Aí diz que apareceu uma raposa. Aí diz que a Raposa disse:
– Vá cortar a lenha que eu tomo conta do seu filho.
Aí diz que o vizinho falou:
–Tu é doido, Fulano? Não deixe teu filho com um bicho feroz desse
não. Como é que você vai deixar uma criança com uma raposa?
Ele disse:
– Mas eu tou confiando, eu confio nela. Ela não disse que toma
conta de meu filho? Eu vou confiar.
Aí diz que a Raposa dizia:
– Pode confiar.
Que os bicho no começo diz que falava.
– Pode ir que eu tomo conta de seu filho.
Aí diz que ele se arrumava e saía, deixava a Raposa, ficava meni-
ninho lá. Aí diz que ia cortar sua lenha, quando era de tarde, suado, diz
que chegava, que ela tava na frente da porta com a cauda balançando,
toda sacudindo. Que quando ele chegava, que ela ia certo na cama, diz
que ele olhava, tava o menininho lá quieto na cama, todo arrumadinho,
dormindo. E diz que o povo falando. Ele disse:
– Não, mas eu tou confiando nela, não tem conversa, eu tou con-
fiando na Raposa.
Aí quando foi no outro dia, ele foi, chegou de novo, o menininho
lá todo satisfeito. Quando foi no quarto dia, ele foi. Quando ele vem de
lá pra cá, distraído, tá ela, coitadinha, em pé na porta, diz que toda sor-
rindo, mas diz que toda lavada de sangue. Aí, ele falou:

48 Contos e causos da Bahia


- Bem os vizinho falou, a Raposa matou meu filho!
Mas foi engano que ele não foi logo no quarto. Diz que na danação
que ele chegou, diz que pegou o machado bateu na Raposa, matou. Aí,
quando ele matou a Raposa que deixou no chão, que entrou dentro do
quarto, que chegou de junto do berço do menino, tá o tamanho da cobra
que lá ia pra pegar o menino. Ela matou a cobra, deixou cá e ficou na
porta, mas ele já tinha matado a raposa.
Aí diz que se desgostou, enterrou a foice, o machado e a Raposa
tudo numa cova só. Quer dizer que ele tava confiando, mas por as coisas
que o povo falava ele sempre, ele ficava pensando naquilo. Mas não foi
como ele pensou. Ela matou a cobra, não foi o menino.

Narrado por Andrelina Rosenda S. dos Santos, em Fazenda Loja – Irará,


30out. 2005. Recolhido por Edil Silva Costa, Cristiane Tavares, Nara Silva.

A Raposa e o Lenhador 49
Espelho Cristalino

Essa daí era de Branca de... Era “Meu Espelho Cristalino. Viu falar “Meu
Espelho Cristalino”? Branca de Neve e Sangue Subiras Neves. Sangue
Subiras Neves era uma moça. Ela era bonita, aí o nome dela era Sangue
Subiras Neve, Branca de Neve, chamava de Branca de Neve, a moça. Aí
foi indo, foi indo, ela apareceu grávida e ela sempre gostava de ir no
Espelho Cristalino, se reparava toda e falava assim:
– Meu Espelho Cristalino, no mundo terás uma moça mais linda
do que eu?
O Espelho falava que não. Aí, vez em quando, ela ia no Espelho,
em vez em quando, ela se arrumava e ia no Espelho, o Espelho dizendo
que não.
– Tem uma moça mais linda do que eu?
O Espelho Cristalino dizia:
– Não!
Aí foi indo, foi indo, ela apareceu grávida. Quando ela apareceu
grávida, teve uma menina, a coisa mais linda do mundo! Mais linda do
que ela ainda. Aí ela botou o nome da menina Sangue Subiras Neve. Aí,
quando ela botou o nome da menina Sangue Subiras Neves, que ela foi
no espelho e perguntou:
– Meu Espelho Cristalino, no mundo terás uma moça mais linda
do que eu?
Ele falou:
– Tem!
Aí ela perguntou:
– Quem é?
Ele respondeu:
– Sangue Subiras Neves.
Que era filha dela. Aí o que foi que ela fez? Ela chegou com inveja,
né? Da filha. Que até no princípio do homem, já vem, num é? Do princí-
pio do mundo, já vem a usura também até dos pais. Aí ela chegou, falou
que ia mandar matar a menina, que era pra quando ela ir no Espelho,
o Espelho num falar com ela que tinha a filha dela era mais bonita. Aí
ela contratou com um empregado dela, mandou carregar essa menina
pra longe, pra um mato que era pra onça comer a menina. Isso mesmo
ele fez: pegou a menina, chegou atrás duma oca da onça e colocou a

54 Contos e causos da Bahia


menina. Aí diz que a onça vinha, olhava, virava prum canto, virava pro
outro e via aquela menina tão linda, que não bolia nem com a menina.
Aí ela chegou, falou assim:
– Venha cá, empregado. Sabe o que é que tá bom de fazer? É você
chegar lá, matar esta menina e tirar a língua dela e trazer pra eu saber
se você matou a menina mesmo.
Aí isso mesmo ele fez. Saiu. Aí quando ele chegou lá o coração
dele falou: “Eu num vou matar.” Aí que foi que ele fez? Ele pegou uma
cachorrinha, chegou lá e tirou a linguinha da cachorra e trouxe pra dar
à mãe e falou que era da menina, pra num matar a menina. Aí num foi
nada não... Aí ela foi pro Espelho e ela doida no Espelho:
– Meu Espelho Cristalino, no mundo terás uma moça mais linda
do que eu?
Ele:
– Tem.
Ela disse:
– Esse home não matou essa menina!
Danou... Porque viu a língua era de prova, né? E ainda ela viu a
língua e num viu... E o Espelho só dizendo que tinha [...] Aí o que foi que
ela fez? Ela chegou e falou:
– Espia o que é que eu vou fazer...

Espelho Cristalino 55
Aí chegou, improvisou uma velha que disse que era muito feiti-
ceira. A velha era gente ruim e mandou a velha percurar saber onde essa
menina andava. Aí a velha saiu andando, vai num canto, vai no outro; vai
num canto, vai no outro, mas num tinha encrontado a menina ainda.
Aí vai passando uns ladrão. Quando os ladrão vai passando, que viu a
menina atrás da oca da onça, carregou a menina. Carregou a menina,
chegou dentro da casa dele, colocou a menina, escondeu e falou com
ela que ela num botasse a cara pra fora de jeito nenhum, pra num sair
que ele ia trabalhar e dava de tudo à menina dentro de casa, trancada,
mas que ela num saísse que era tão bonita que uma pessoa ia roubar a
menina. Aí isso mesmo ela fez. Ficou, coitadinha, ficou, ficou dende casa.
Quando é um certo dia, chegou a infeliz da feiticeira. Quando che-
gou na porta, com um sapatinho pequenininho, chamando a menina pra
a menina botar o pezinho pela janela pra ver se o sapatinho dava no pé
da menina. Aí a menina chegou, ficou com medo, ficou com medo, só
lembrando que os irmão num queria que ela saísse. Era doze ladrão que
criava essa menina.
Aí ela chegou ficou, ficou. Quando foi no outro dia, no mesmo
horário, chegou a velha de novo castigando a menina:

56 Contos e causos da Bahia


– Venha, minha filha. Venha, num vou lhe bulir não. Abra aqui a
janelinha, abra aqui, minha filha, deixe eu ver se esse sapatinho dá no
seu pé...
Aí ela veio, quando ela veio, que botou o pezinho na janela, a
velha matou a menina. Aí puxou ela pra fora, quando ela puxou, deixou
a menina aí morta. Aí pronto. Quando os ladrão chegou, que viu aquilo...
mas foi um chororô e foi aquele cramor:
– O que é que foi que a gente faz? O que é que a gente faz?
Aí pegou a menina, fez um caixão muito bonito de ouro, levou a
menina pro sumitério. Quando chegou lá, num enterrou a menina, colo-
cou ela em cima de uma carneira e deixou lá... Aí num foi nada não... Aí
quando pensou que não, chegou o cavador de cova, chegou o zelador
do sumitério aí viu aquele caixão muito bonito lá, ficaro chorando, se
acabando que disse que nunca viu uma coisa linda daquela. Carregou
o caixão do cemitério e botou dentro da casa da mãe dele. (A história é
cumprida, viu?) Botou dentro da casa da mãe dele, trancou esse caixão e
disse que não queria que a irmã entrasse de jeito nenhum, no quarto dele
pra varrer, pra num ver esse caixão dentro de casa. Aí as irmã falou assim:
– Ô Fulano, o que é que tem...? Por que é que tu num quer que eu
varra de jeito nenhum esse quarto? Coisa que a gente é acostumado a
entrar pra varrer o quarto.

Espelho Cristalino 57
– Não, não, num quero não que tem um segredo aqui. Num quero
que ninguém veja.
Aí ela foi indo, foi indo, depois ele esqueceu a chave. Quando ele
esqueceu a chave do quarto, ela pegou a chave, destrancou pra varrer o
quarto. Quando ela vai ver, o caixão de ouro dentro do quarto. Aí pronto,
ficaro esse povo tudo se acabando. Onde foi que ele achou, onde foi que
ele num achou... Aí a menina chegou, virou uma santa. A menina virou
uma santa... e a mãe doida lá no Espelho só perguntando. Ói, o Espelho
só deixou de falar com ela, que ela era mais bonita do que a menina
depois que a menina morreu mesmo. Mas depois que a menina virou
santa que ela foi no Espelho e perguntou:
– Meu Espelho Cristalino, no mundo terás uma moça mais linda
do que eu?
Ele falou:
– Tem.
– Quem é?
– Sangue Subiras Neves.
Foi que ela virou a santa. Aí a mãe se apaixonou, quando a mãe viu
mesmo que num deu jeito mesmo que ela virou santa e ela chegou se des-
malhou. Aí morreu, a mãe morreu. No final da história a mãe que morreu.

58 Contos e causos da Bahia


Narrado por Altamira Miranda dos Reis, em Fazenda Barrado – Irará, 29 out.
2005.Recolhido por Edil Silva Costa, Cristiane Tavares, Nara Silva.

Espelho Cristalino 59
O Cavaleiro Assombrado

Minha filha, aqui de vez em quando aparece. Aparece um cavaleiro que


desce aqui, ói. Isso é desde que eu aqui cheguei. Já tou com cinquenta
e seis anos aqui. De meia noite em diante, é um homem amontado,
aquele bolo amontado. Dizem... que eu nunca vi! Diz que é aquele bolo,
aquele negócio em cima do cavalo e o cavalo estala aqui nesse asfalto,
parece que é um homem mesmo que vem montado, desce aqui que vai
s’embora. Diversas pessoas viram. A mãe dela mesmo viu! A mãe dela
viu. Tarde da noite sim. Disse que aquele bolo, em cima assim, cavalo
selado, aquele bolo em cima do cavalo, do animal e o animal pactá,
pactá, aquelas estribeiras. Isso é velho aqui [...] Cavalo mesmo, cavalo
mesmo. Mas é cavalo, cavalo de quatro pé, mesmo [risos] como os
outros [...] Eu não sei, eu nunca vi. Mamãe via, mas... Não faz nada com
ninguém. Desce e passa pelo caminho. Só assombrar, porque quem vê
se assombra mesmo [...] Eu não quero contar nada a vocês não. Vocês
são muito jovens. Deixe isso pra lá... [...] É alguém que já tem muitos
anos já, já tem tempo. Já tem tempo... Eu tou com cinquenta e dois anos
que tou aqui, já cheguei aqui, já achei isso... Agora, com essa folia que a
polícia tá pra cima e pra baixo... [risos] não tem aparecido não. Mas ele
só aparece mais... isso aqui só aparece mais é na Quaresma [...] Porque
é coisa do outro mundo... [risos] Porque, minha filha, qualquer coisa,
qualquer pessoas faz aí suas diabruras, pelo mundo que que vai ser?
Não é coisa daqui da terra. Quem bem fizer aqui, pra si é, quem má fizer
também pra si é. Alguma coisa que fez. Tá cumprindo... Os problema
que fazem porque as pessoas que fazem o bem aqui, só acha... quem
faz o bem, acha o bem, e quem não faz... E quem faz o mal também,
encontra o mal.

Narrado por Elvira Caldas, em Boa União – Alagoinhas, 25 out. 1998.


Recolhido por Edil Silva Costa, Ana Débora Ferreira, Cláudio Pinto, Nayara
Barros Dantas.

64 Contos e causos da Bahia


Histórias da Caipora

Aqui teve uma velha que passou três dia no mato. O povo toooodo pro-
curando!... Três dia, o quê? Ela passou uma semana! Ela entrou, foi pra
lenha... Eu morava na Roncaria, nome de um lugar por nome Roncaria
que tem aí pra baixo. E aí, ela passou a cancela e subiu, passou assim
na porta... Coitadinha, foi quebrar lenha, ela e um menino, um neto. Aí,
eu disse:
– Pra onde vai, dona Isília?
Ela disse:
– Minha filha, eu vou pra lenha.
Disse:
- Com esse sol quente?
- Ela disse:
- É. Porque lá no mato tem sombra, né?
- Tá bom. Vá embora.
Ela foi, saiu [...] Passou segunda-feira, terça, quarta, quinta,
sexta... no mato, perdida. Ela entrou lá na Roncaria, subiu a ladeira,
ganhou a mata, ela foi sair no Mangalô, em Alagoinhas. Foi, pensei que
era três dias... e o pessoal... Uma semana toda e todo mundo lá, as
filhas tudo procurando e sem encontrar. Pensando que ela tinha morrido.
Quando foi um dia, no final da semana, ela saiu no Mangalô. Então, de
primeiro aqui os leiteiros carregava leite era na lata, nos animais. Vinha
de lá um leiteiro pra’qui, já de tarde, ela disse:
– Meu filho, onde eu tou aqui?
Ele disse:
– A senhora está em Alagoinhas, no Mangalô, dona Isília.
– Ô meu filho, me leve pra casa.
Ele aí veio assim, olhe: o burro, um passo hoje, outro amanhã.
Porque já estava coitadinha, desmandiocada, pra cair e pra morrer, de
fome! Ela e o menininho. Ele pegou o menino, botou de garupa e ela veio
andando, até aqui. Quando foi chegando aqui, o batalhão de gente vinha
cá em baixo pra encontrar. Mas foi aquela agonia, foi choro, foi grito, não
foi véa? Até aqui assim. Aí desceram com ela. O pessoal todo desceu
com ela pra casa. A bichinha custou de fortalecer.
Aqui tem uma dona do mato. Se pegar um aqui, vai levar pra Sítio
Novo. E ela disse que é todo o caminho bonito que ela vê, que aparece

66 Contos e causos da Bahia


na vista dela, aqueles caminhos limpo, aquelas areia, aquelas flores...
bonita! A Caipora é uma bicha sem-vergonha. [risos] Uma vez eu vinha
pra’qui, prum enterro aqui. Eu, de lá, ela não me levou pra uma fazenda
aqui, pra Gobiraba? A minha valença é que eu ia com Aurinha [...] Ela
tapa o caminho pra onde você quer ir. Ói minha filha, você não fica em
si não. Você tá no caminho, você não fica em si. Parece que é aquela
nuvem que passa nos olhos da gente e a gente só enxerga caminhos e
matos, diferente. Você vai seguindo por aquele caminho [...] Ela faz isso
porque é marvada. Porque é sem-vergonha. [risos] Se ela não fosse
sem-vergonha, ela não fazia isso. Porque não levou um pedaço de fumo
pra ela! [risos] É, nós vinhemos aqui, prum enterro aqui, aí em cima,
que quando chegou aí, Januário me disse:
– Elvira você não vai pra o cemitério?
Eu digo:
– Eu não vou não, daqui eu vou pra casa.
Aí eu estava com Aurinha, ela me levou pra mais de duas léguas
aqui, que quando eu cheguei lá, que eu conheci a Fazenda da Guabiraba,
eu digo:
– Espera aí, Aurinha minha filha, nós tomos lesada!
Aí comecei a xingar: “Essa... essa assim assim! Tá se fazendo
besta, égua? Tu tá me fazendo besta?” Aí tirei o casaco, virei pelo avesso,

Histórias da Caipora 67
foi que eu vim acertar o meu caminho. Eu, essa que estou aqui, já velha,
quer dizer, não estava velha assim... Se fosse hoje, ela me matava por
aí, pelo meio do caminho. Só andando, só andando, só vendo beleza pelo
mato. Se vê bater, se vê cantar, se vê assoviar. Tudo! Aquelas belezas
e a gente andando, empolgada [...] A Petrobrás esburacou isso tudo aí.
Esbandalhou tudo! Está tudo aberto... Não tem mais lugar dela se escon-
der. Ela se muda. Mas mesmo assim... Ela é a Dona do Mato. Tem a Dona
do Mato, tem o Dono do Mato.
O Dono do Mato, se vocês vêm de noite, ele passar, mas é porque
na rua a gente não sente, nem nada. Mas se vocês vê de noite, tarde
da noite, ele passar, e assoviar, aquele assoveio vai longe...! [...] Não
faz nada. Ele, o dono do mato, não. É a Caipora. Porque você sabe:
me discurpa que eu diga mas, nós mulher somos mais saída do que os
homens. [risos] Tem mais saimento do que os homens. [risos] Ele passa
mas dá aquele assuveio! É ou não é Lélia? Só faz assoviar, não bole com
ninguém, não. Aquele assoveio, que prende que é o dono do mato. O
assuveio diferente, o assuveio bonito, alto [...] Caçador, se não pedir
licença, não caça, né! E a dona do mato vai jogar eles nas pedra de fogo.
Eles que mangue, não peça. [risos] Vão joga eles, os caçador, nas pedra
de fogo [...]

68 Contos e causos da Bahia


Eu peguei o jegue, um dia de domingo de manhã, eu peguei
o jegue, eu disse “agora eu vou na Guabiraba”. Peguei o jegue, botei
os meninos, botei tudo, dentro dos caixão, em cima na cangalha e fui
andando. Eu saí de manhã, fui pela baixa, subi a ladeira e descambei pra
lá. Quando eu cheguei na mata, no lugar onde eu entrava todo dia pra ir
buscar lenha, oxém, eu não entrei pra lugar nenhum. A mata fechou se
trançou toda daquela coisa que faz balaio. Como é que chama? Tissuma.
Entrançou o mato assim, chegou ficar assim entrançado, de tissuma.
Eu digo: “Mas isso não é uma tentação?! Eu num vim aqui ontem esse
caminho não estava aberto, o que foi que fechou?” Mas eu nem me lem-
brei da sujeita da Caipora. Fiquei. Mas menina, eu bestei, o dia todo de
Deus! Eu ia lá e vinha cá, nada que eu não achava passagem pra lugar
nenhum! Quando eu vim chegar em casa era cinco horas da tarde [risos]
com os meninos com fome... [risos] Não fui pra canto nenhum que ela
não deixou eu passar.
Quando foi no outro dia, Alfredo disse:
–Vamo pra Guabiraba?
Eu disse:
–Vumbora, pegue o jegue.
Ele pegou o jegue, arrumou, botou os meninos, ele montou na
cangalha, botou os meninos dentro dos caixão, botou um na garupa,

Histórias da Caipora 69
botou um aqui no colo e foi-s’embora. Eu fui de pé. Quando nós chega-
mos na baixa, no lugar que eu entrava direto, o caminho todo aberto!
Quando ela quer pra brincar, ela faz assim. Ah! Mas rapaz, eu fiquei com
um ódio!

Essa história, assim como outras narradas por Elvira Caldas, contou com
a efetiva participação de Lélia (sem dados), Alice Rocha de Jesus, Regina
(sem dados), além da interação com os pesquisadores, em Boa União –
Alagoinhas, 25 out. 1998. Recolhido por Edil Silva Costa, Ana Débora Ferreira,
Cláudio Pinto, Nayara Barros Dantas.

70 Contos e causos da Bahia


A Caipora e o Caçador

Aqui, nunca por aqui num tem não, mas lá no lugar que eu residia lá pro
lado do..., lá existia muito... Diz que ela só tem uma banda, é uma perna,
é um braço, é uma banda de cá. Eu mesmo nunca vi. Ela vem tuco-
tuco-tuco... feito um pilão. Por aqui não conheço não. Nunca vi, não.
Nunca vi não, porque quando eu me entendi, fui embora pra Salvador...
Agora, lá tinha uma mata que tinha. O menino que se abestalhasse
no mato ela prendia, pegava o cara no mato e dava surra. Caçador ia
com os cachorro e prendia os cachorro, dava surra nos cachorro e se
ela pegava a pessoa e procurava que era qui-qui-qui ou cá-cá-cá. Qui-
qui-qui é cócega, cá-cá-cá é chorar [risos], era bater. E qui-qui-qui era
fazer cócega. Agora, já me perdi no mato, lá em Salvador. Tinha Pituba,
eu morava na Fazenda de Brotas, tinha Pituba pra lá e a Fazenda, tinha
um morro pra vim pro lado de [...] Hoje em dia é pista, pra do lado da
rodoviária e vem cá pra Pituba e pra o Rio Vermelho. Aí tem uma mata
fechada, tinha jaqueira, tinha de tudo, cajueiro, tinha as fábricas deles
fazer dendê lá dentro dos matos. O repórter num saía dali de dentro,
nêgo matava gente e joga ali dentro [...] E agora tudo é cidade, acabou
com os matos. Até sessenta e oito ainda tinha mata por lá. Já descobriu
tudo, loteou tudo ali. Eu saí mais um colega, [...] de polícia e outro, três.
E um colega com uma espingarda e um diacho de um revólver e foi pro
mato caçar. Quando chega no mato e tá muito bem, subimo. Quando
chegou, a gente entrou aqui, seguiu, seguiu, seguiu aqui, depois fez
a curva. Foi lá um tabuleiro alto, um morro. Aí a gente olhou um lugar
limpo, num tinha muito mato fechado, o lugar de mato fechado a gente
ia sair. Aí viu um buraco. Um buraco, olhou:
– Ali tem um teiú. É um teiú. Ói lá, ói lá.
Puxou o teiú. Aí virou a espingarda dentro do buraco e passou-
-lhe fogo.
– Agora vamo a gente arranjar um pau de gancho, pau de gancho...
O gancho tinha uma vara com um gancho que fica desse jeito, pra
gente puxar assim. Aí arranjou uma vara com gancho, ajeitou, enfiou
nesse lugar; ainda hoje luta, ainda hoje luta, ainda hoje luta pra tirar esse
teiú dentro do buraco. Quando a gente chegou arrancar o teiú, era uma
jia fogo. A gente falou: “Jia num tabuleiro seco desse?!” Mas eu num tava
com malícia de nada. Oxente! A gente entrou sete hora do dia no mato,
pra quando veio conseguir sair de lá foi duas horas da tarde. A gente ia

72 Contos e causos da Bahia


aqui num acertava, zanzando o mato todo depois que viu essa jia, que a
gente viu que num era teiú, a gente jogou pra lá! Aí zanzou o mato todo,
évai, évai... vai num canto, vai no outro, vai num canto, vai no outro, vai
num canto, vai no outro e nada! O supervisor ficou doido sem acertar sair
do dendo mato, os outros colega. Depois, tava na faixa de duas hora, ele
queria ir pro outro canto, falei:
– Não, me acompanhe, nós vai é por aqui! O caminho é aqui,
vambora!
Eu já fiquei mais ou menos, né?
– Vambora, me acompanhe!
– Venha cá...
– Não, me acompanhe por aqui.
E foi mais eu, conseguimo sair de dendo mato. Seguimo lutando,
saimo de dendo do mato duas horas da tarde. [Foi a Caipora que pegou?]
Foi ela mesmo! A gente num vê que ela envortou numa jia dentro do
buraco. Inda tirou pensando que era um teiú e num foi e ela envortou lá
dentro do buraco. Ela faz a gente ver o que a gente quiser [...] Quando
a pessoa desconfiar dela, pega uma pindoga e marra na perna. Pindoba
de licuri. Pega uma pindoba daquela e marra na perna. Ou a pessoa,
quando ir pro mato, ir perparado, porque nesse dia eu num fui, levar um
dente de alho, uma capa de fumo, um charuto no bolso. Ela num ataca não.

A Caipora e o Caçador 73
Narrado por Nelson Sebastião (seu Vavá), em Mangabeira – Irará, 29 out.
2005.Recolhido por Edil Silva Costa, Cristiane Tavares, Nara Silva.

74 Contos e causos da Bahia


A Caipora e as Meninas

Aqui em cima. Quando a senhora vem da rua, não vê umas casa aqui
pra cima? Ali chamava As Três Moradas. Era um mato ali que a gente
entrava e não sabia sair. De candeia, aquelas lenha boa de candeia. Aí a
minha mãe ia pra lá. Até dia de domingo minha mãe saia com a gente
pra caçar lenha. Aí ela tirava aquele bocado de lenha e ajuntando e a
gente ia carregando pra casa. Vinha eu e uma prima minha. Ela mora
até em Ouriçangas hoje, era menina. Aí ela vinha mais eu, carregando a
lenha pra casa. Aí, quando foi um dia, que a gente saiu, pelejou pra sair
pra chegar de junto da mãe da gente, mas não acertou. Aí começou ela:
– Altamira, Altamira! Altamira, Altamira!
Me chamando, e a outra Nenzinha. E vó:
– Cadê Nenzinha? Cadê Nenzinha? Ô Nenzinha, ô Nenzinha!
Um chamava Altamira, outro chamava Nenzinha e nós duas louca
dentro do mato, sem saber onde sair. Aí eu falei assim:
– Que diacho foi isso, Nenzinha, que pegou a gente hoje? Que a
gente não pode sair daqui hoje?
Aí ela era mais espertinha do que eu. Não sei quem foi que tinha
já contado isso pra ela que a gente era criança ainda. Nesse tempo nós
tava de seus nove a dez anos. Aí, ela disse:
– Ô Mi, diz que tem uma bicha que chama Caipora, Mi, e foi ela
que pegou a gente aqui.
E é assim que a pessoa se livra, se na hora que a pessoa lembrou
que foi ela, falar, ela some. Aí, quando ela acabou de falar assim, demo-
rou um pouquinho, nós saímos de dentro do mato. Aí ficou vó:
– O que foi que vocês viu? O que foi que voces viu?
– Nós num viu nada, vó.
– O que foi que vocês viu, meninas? Que vocês foi levar essa lenha
em casa e não quis voltar?
Foi ela que tava rodeando a gente. Aí só se livra assim, se falar
que foi a Caipora que pegou a gente, na hora ela some. Mas, se ninguém
lembrar que foi a Caipora, nego bate o dia todo, bate o dia todo. Agora,
eu nunca vi ela não. Não vou mentir. Não, nunca vi nem há de ver, num
gosto não, é coisa ruim a gente não quer ver, né? Quem quer ver coisa
ruim? Ninguém, né? Diz o povo que ela só tem um lado só. Nas escola
mesmo me perguntaram assim também, se eu já tinha visto Caipora.

76 Contos e causos da Bahia


Eu não, agora lá nos livros né, no livro do colégio, é que ela mostrava
Caipora a gente. Era o... tinha o Saci, tinha a Caipora, aquelas história
da Caipora que elas contava, no colégio. [risos] Mas eu nunca vi não,
nem quero ver. E o Lobisomem também eu nunca vi. Eu vejo contar que
ele é assim: que ele só anda abaixado com a cara pra trás, por dentro
pernas. Quem vier na frente dele ele não enxerga, só enxerga quem
vier atrás dele, que a cara dele é dentro das pernas, olhando pra trás. Aí
tenha medo, pode encrontrar de frente e não tenha medo, mas se você
vier atrás dele...

Narrado por Altamira Miranda dos Reis, em Fazenda Barrado – Irará, 29 out.
2005.Recolhido por Edil Silva Costa, Cristiane Tavares, Nara Silva.

A Caipora e as Meninas 77
O Caçador e o Dono do Mato

Eu tinha um cunhado, irmão de Januário, Craúdio conheceu ele agora,


irmão de Januário. Ele caçava, caçava e caçava mesmo. Mas quando ele
ia caçar, ele levava agrado pra o Dono do Mato. Bom, mas levou uns dias
que ele:
– Nhé, levar caça pra Dono do Mato!!
Que quando ele chegou ali, láaa nesse meio de mundo, nos
Tanquinho, um lugar que tem aí, que tem a mata, é mata fechada! Aí ele
viu, avistou duas macaca. Uma em cima do pau, enorme! Disse que com
o fiim dando mama e a outra, de outro lado. Ele aqui disse:
– Você tá aí, veio na minha frente, me fazendo figa? Peraí.
Disse que pegou a espingarda, pra que tava dando mama o fiinho.
E a outra assim, a de lá gritou:
– Minha comadre, toma aqui Maria de Lima. Deixe eu dá resposta
a esse cara aqui!... [risos] Se este tiro me pega, camarada, que é que
havera de ser?
Ele correu, está correndo até agora coitado! [risos] Disse que
quando chegou em casa, (Januário sempre contava esse caso) quando
chegou em casa, foi todo obrado! Ô, coitado! De medo! “Se esse tiro me
pega?” Porque ele disse bem... Não pegou não, não pega!
– Toma aqui, Maria... Toma aqui, minha comadre, Maria de Lima.
Se esse tiro me pega camarada, que é que havera ser de nós?!
Aniceto [...] todo o domingo ele tinha obrigação de ir pro mato
caçar. Todo domingo, todo domingo. Quando foi um dia, ele foi pro mato,
carregou a espingarda, botou no ombro e se mandou. Quando chegou
lá no mato, ele viu um veado, sentado assim na mata. Aí encarou pro
veado, o veado encarou pra ele, ficou olhando. Ele de cá pêe, o tiro pas-
sou longe do veado. Aí o veado disse:
– Ha, ha ha, Aniceto, que este tiro me pega! [risos]
Ele voltou que voltou danado correndo! Chegou em casa todo
mijado, de medo! [risos]
Ah, deu uma risadinha assim pra ele: “Ha, ha, ha. Ah, Aniceto, se
esse tiro me pega!” Ave Maria, mas ele voltou foi por conta correndo, pra
casa. Ficou em casa assim ó, nunca mais saiu pra caçar dia de sábado.
Nunca mais! Teve medo. Chega lá encontrar outro veado [...]

80 Contos e causos da Bahia


Agora hoje, pra vocês isso é história, mas tem muitas coisas do
tempo velho que existia muito.

Narrado por Elvira Caldas, em Boa União – Alagoinhas, 25 out. 1998.


Recolhido por Edil Silva Costa, Ana Débora Ferreira, Cláudio Pinto, Nayara
Barros Dantas.

O Caçador e o Dono do Mato 81


Histórias de Lobisomem

É. E ele vai pra casa de farinha... Ia pra casa de farinha, não sei se
tá existindo ainda. No meu tempo mesmo, uma vez mesmo, eu vi um
roendo beiju em cima de um forno, da casa da minha vó. Eles entram
pra casa de farinha, come beiju, come aquelas crueira que fica em cima
do forno, ele come tudo, e comia também menino mole. Menino mole,
em cima da cama, se ele entrasse pra dentro de casa, diz que ele comia
até menino mole [...] Ele é grande, é igual um jegue, mesma coisa de
um jegue, só que as patas dele é pra dentro assim, pra dentro isolada,
e ele só enxerga por de trás. É, enxerga por trás. Na frente ele não vê
ninguém, só vê por trás [...]
Foi perto mesmo, isso faz tempo, eu era menina ainda. Aí, a gente
evinha um dia com a lua bonita, e ele também só gosta de sair com lua
bonita, com a lua bonita que ele gosta de passear. Aí eu evinha mais
uma irmã minha, que ela foi criada junto comigo. Aí, quando a gente
evém, evém aquele negócio, com aquele rastro, a gente só via o rastro
dele. Aí eu falei:
– O que é isso, Ninha, que evai aqui?
Ninha disse:
– Isso é um jegue.
Aí, que quando a gente olhou, só viu aquelas orelhona, aquela
orelhona desse tamanho assim, ele tem uma orelha maior do que a do
jegue. E agora ele, isolado com a cara pra trás. Aí nós é aqui [palmas],
nós abriu. Esse Lobisomem era um vizinho que virava, viu? Lobisomem
não é bicho, é gente que vira Lobisomem. É gente. Era um hominho
velhinho que chamava Justino, ele morava vizinho da gente. Do tempo
que ele morreu! Quando eu alcancei, ele já tava velhinho, chamava
Justino. Assim não comparando mal, da sua qualidade assim, bem assim
branquinho. Aí, quando ele via a gente, a gente bulia com ele também.
Um dia ele apareceu porque a gente buliu com ele. Sabe criança não
é mole, né? Aí, quando foi um dia que a gente passou, viu ele a gente
falou assim:
– Seu Justino, vai virar Lobisomem hoje?
Ó minha filha, pra que nós falou? [risos] Foi. “Vai virar Lobisomem
hoje?” Ah minha filha, se mãe soubesse de uma cena dessa, nós tinha
tomado uma surra, que não é mole. Foi Deus que ele não contou a mãe.

84 Contos e causos da Bahia


Ele já tava bem velhinho. Mas no dia que ele tirava pra virar, já sabia.
Diz que ele espoja, espoja assim num lugar que nem um cavalo. Espoja,
espoja, espoja, depois vira o bicho. E quando a pessoa vai pra ele des-
virar, a gente olha pra ele e fala. Se ele falar assim: “Vou matar um
homem”. Não, fala assim: “Eu matei um bicho”. Ele fala:
– Você matou um homem.
Aí, a gente responde:
– Eu matei um bicho.
E ele só dizendo que matou um homem. Quer dizer que ele é
homem, ele fala que tá matando um homem. A gente fala:
– Nós vai é matar um bicho.
E aí agora, pronto. Ele demora, demora, desvira de novo. Tem o horá-
rio certo dele virar. Diz que é onze horas da noite que ele vira Lobisomem,
onze da noite. É na lua cheia, é lua cheia. E nesse tempo, ele é a mesma
coisa do cachorro doido. O cachorro doido, é na lua cheia, não é? Ele gosta
de sair doido. E assim também é o Lobisomem. Tem um dia certo, diz que
é quarta-feira e sexta que ele vira e sábado. Três dias na semana. Quarta,
sexta e sábado. Nunca ouvi falar que ele protege ninguém não. Sangra,
assim a pessoa luta com ele, e ele toma raiva da pessoa.
Um tio meu mesmo, uma ocasião... Um correu atrás dele pra
matar ele, ele se valeu com uma faquinha de sete tostões. Sim, que eu ia

Histórias de Lobisomem 85
contar da faca. A gente só se livra, a gente pode pegar foice, pode pegar
cacete, o que for pra bater no Lobisomem, não mata ele não. Não mata.
Agora, uma faquinha de sete tostões ele não quer conta. Essas faquinha
deste tamanho que a gente tem em casa, que era de antigamente de
eu cortar fumo, de época de cortar fumo. É dessas pequenininha. Apois,
a gente só se livra com essa faca. Ele não quer conta. Se você chegou,
botou a faca aí em cima. Ele é aqui [palmas], aí agora some. Mas, cacete
nem facão nem nada disso. Eu quero é prova. Não tem medo de nada,
só mesmo de uma faquinha. Agora, porque ele tem medo da faquinha,
eu não sei, né? Porque a faquinha é pequenininha, ele podia ter medo de
uma arma mais grande, né? Mas, não tem. Não tem.

Narrado por Altamira Miranda dos Reis, em Fazenda Barrado – Irará, 29 out.
2005.Recolhido por Edil Silva Costa, Cristiane Tavares, Nara Silva.

86 Contos e causos da Bahia


O Lobisomem de Irará

Lobisomem sempre aparecia, mas agora não. Quando eu morava lá na


Queimada [...] Agora eu conheci um e conheço até hoje, ele vira por
pata [...] Porque um vira por sina e outro vira por oração braba. Ele
uma vez caminhou pra mim, ele disse à mim que num tinha um vivente
que caminhasse mais que ele na noite, ele imita qualquer animal. Que
andasse mais do que ele na noite. Ave Maria! E nem quero saber! [risos]
É qualquer oração braba. É só mesmo quem tem esses livro da capa
preta, do São Supriano, que ali aquele livro diz que tanto ensina como
mata também. Esses livro forte assim demais se ele num souber pegar,
ele mesmo se mata. Então, ele ia dormir, por exemplo, ele deitava logo
cedo, aí dizia pra companheira dele:
– Fulana, quando der dez horas, você chama lá-ele.
– Tá certo!
Quando dava dez horas, chamava. Quando dava dez horas, ele
saía. Esse dia, ele mandou pra dez horas chamar. Ela tava apavorada,
dormia toda noite sozinha, só dava quatro horas da manhã. Esse dia
ela num chamou. Ela ficou calada. Quando foi quatro horas da manhã,
a hora dele chegar, ela acordou. Ele acordou, acho que o negócio ficou,
tocou. Aí falou:
– Ô Fulana, que hora é essa?
Ela:
– Deve ser umas quatro horas.
Ih rapaz...! Diz ela, assim contava ela, que só fartou bater nela.
E outra vez, viu falar em... (já morreu todos dois) Viu falar em Dudu
Louriano que cortava fato, num viu? Ele era muito conhecido. Ele era
machão de boi forte. Ele comprava boiada fechada, com as porteira
fechada, ia contar depois. Ele muito vaidoso, se quebrou, né? Pegou,
passou cortar fato, aí botaro o nome de Dudu Louriano, cortava fato.
Quando ele saiu pra cortar fato, um dia, véspera de São Pedro, esse dia
eu tava até lá, boca da noite. Aí... Eu não tava lá nesse dia não. Aí ele
deixou ele, esse cara que virava Lobisomem pra ficar mais a mulher pra
fazer companhia até mais tarde que ele num ia chegar, que ele ia pra
rua de sexta-feira só chegava no sábado de tarde e ficar lá fazendo com-
panhia. Tá bem. Tá certo. A criatura disse conde deu base de oito horas
em diante, o cara lá ficou agoniado. O cara ia no fundo do cara, o cara
rodava na casa, o cara ia numa moita de bananeira... todo agoniado, ia

88 Contos e causos da Bahia


de junto dela, tornava voltar, que ela ficou até com medo. Daqui a pouco,
diz que ele falou assim:
– Neném... – ela chamava Neném. – Neném, eu vou ali e volto
nestante, viu? Eu vou ali, volto nestante.
Aí se jogou, já era ele voltar. Ele inda deve virar, tá vivo ainda.
E depois outra vez, tava ela na rua também e uma colega dela, até
de Feira, a criatura foi saindo do quintal, tá aquele jegue preto [risos]
no fundo da casa, aquele jeguinho feio, quando a criatura viu aquele
jeguinho lá, entrou doida pra dentro de casa, bateu a porta. Ele virado
Lobisomem. Disse que esse pessoal que vira Lobisomem, vira na escor-
reira de jegue, coisa de cavalo, em chiqueiro de porco. Se virar num
chiqueiro de porco é do tamanho dum porco, agora corre. E é o maior
amigo é o Lobisome. Se o Lobisome gostar da senhora ou dele ali, tiver
amizade, pode viajar corqué hora da noite, lugar que der, ele leva em
casa. [Ele não faz mal.] Não, ele bole com quem ele tiver cisma, mas se
for um amigo, for um primo e nunca maltratou dele, ou prima, a pessoa
vem tarde da noite sozinha, ele vai. Agora, não acompanhe pro cara
ter medo, ele dá distância de umas dez braça, né? Que ele vai andando
devagarzinho, devagarzinho, dando distância, distância, quando o cara
fica perto de casa, ele fica esperando entrar em casa. O cara acaba de
entrar dende casa, ele vorta, vai embora.

O Lobisomem de Irará 89
Ali embaixo tinha um, quebraram a pata dele, ele chama Dodô,
apelido dele é Dodô. Ele virava Lobisomem [...] O bicho só anda com a
cabeça dentro das perna. Só vê quem vai atrás dele. Então o Dodô virava
Lobisomem. Toda mão levava o primo em casa. O primo vinha da casa
da namorada e ele acompanhava, paco-paco-paco. Chegava em casa,
quando ele entrava, ele voltava. Quando é um dia, falou: “vou quebrar a
pata dele”. Quando é um dia, vai ele, vai ele, que ele parou assim, olhou:
– Eu conheço esse sem-vergonha. Esse sem-vergonha aqui é
Dodô! [risos]
Ele ficou de mal um bocado de tempo, ele nunca mais virou
Lobisomem. [risos] Ele mora aqui perto de Joel, ouviu falar de Joel? Joel
é irmão de Nozinho mais Maíca. Nozinho que tem um cereal aí no calça-
dão. Maíca tem um mercadinho e a padaria no calçadão.

Narrado por Nelson Sebastião (seu Vavá), em Mangabeira – Irará, 29 out.


2005.Recolhido por Edil Silva Costa, Cristiane Tavares, Nara Silva.

90 Contos e causos da Bahia


Outras publicações de narrativas orais da Bahia

ALCOFORADO, Doralice F. Xavier; ALBÁN, Maria del Rosário Suarez. Contos populares brasileiros:
Bahia. Recife: Joaquim Nabuco; Massangana, 2001.

COSTA, Edil Silva. Cinderela nos entrelaces da tradição. Salvador: Secretaria de Cultura; EGBa, 1998.

COSTA, Edil Silva (Org.). Contos de Dona Luiza. Salvador: EDUNEB, 2009. (Coleção Histórias do
Fundo do Baú, v. 1)

COSTA, Edil Silva (Org.). Contos de animais: no tempo em que os bichos falavam. Salvador:
EDUNEB, 2009. (Coleção Histórias do Fundo do Baú, v. 2)

COSTA, Edil Silva (Org.). Contos de Dona Carlota. Salvador: EDUNEB, 2009. (Coleção Histórias
do Fundo do Baú, v. 3)

COSTA, Edil Silva (Org.). Históriasde Pedro Malasartes. Salvador: EDUNEB, 2009. (Coleção Histórias
do Fundo do Baú, v. 4)

COSTA, Edil Silva (Org.). Contos de Dona Sônia. Salvador: EDUNEB, 2009. (Coleção Histórias do
Fundo do Baú, v. 5)

COSTA, Edil Silva. Ensaios de malandragem e preguiça. Curitiba: Appris, 2015.


Publicações Viva Voz de
interesse para a área de estudos da oralidade

Histórias de sabidos:
transcrições e transcriações de contos orais
Sônia Queiroz (Org.)

Negros pelo Vale


3a ed. revista e ampliada
Josiley Souza (Org.)

Literarização da oralidade,
oralização da literatura
Jean Derive

Vissungos
Cantos afrodescendentes em Minas Gerais
3a ed. revista e ampliada
Neide Freitas
Sônia Queiroz (Org.)
Composto em caracteres Verdana e

impresso a laser em papel reciclado

75 g/m2 (miolo). Acabamento em kraft

420 g/m 2 (capa) e costura artesanal

com cordão encerado. Acompanha CD .


As publicações Viva Voz acolhem textos de alunos e professores da Faculdade

de Letras, especialmente aqueles produzidos no âmbito das atividades

acadêmicas (disciplinas, estudos orientados e monitorias). As

edições são elaboradas pelo Laboratório de Edição da

FALE / UFMG , constituído por estudantes de Letras –

bolsistas e voluntários – supervisionados


p o r d o c e n t e s d a á r e a d e e d i ç ã o.

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