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Lei Berenice Piana e Educação Inclusiva TEA

O documento analisa a Lei Berenice Piana e o direito à educação de pessoas com Transtorno do Espectro Autista no Brasil. A lei instituiu a Política Nacional de Inclusão dessas pessoas e trouxe benefícios como o direito à educação. O texto discute o histórico do autismo e da educação inclusiva, as características do transtorno, e as ações e diretrizes da lei para a escolarização de alunos com TEA.

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Lei Berenice Piana e Educação Inclusiva TEA

O documento analisa a Lei Berenice Piana e o direito à educação de pessoas com Transtorno do Espectro Autista no Brasil. A lei instituiu a Política Nacional de Inclusão dessas pessoas e trouxe benefícios como o direito à educação. O texto discute o histórico do autismo e da educação inclusiva, as características do transtorno, e as ações e diretrizes da lei para a escolarização de alunos com TEA.

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A LEI BERENICE PIANA E O DIREITO À EDUCAÇÃO DOS INDIVÍDUOS COM TRANSTORNO DO

ESPECTRO AUTISTA NO BRASIL

THE BERENICE PIANA LAW AND THE RIGHT TO EDUCATION OF PEOPLEWITH AUTISM SPECTRUM
DISORDER (ASD) IN BRAZIL

Wallace Pereira Sant’ Ana


<[email protected]>
Graduação em Pedagogia
Universidade Estadual de Goiás (UEG)
http://lattes.cnpq.br/0532468228220435
Cristiane da Silva Santos
<[email protected]>
Doutora em Educação
Universidade Federal de Uberlândia (UFU)
Professora da Universidade Federal de Goiás (Campus Catalão - UFG/ CAC)
http://lattes.cnpq.br/4195177879316640

RESUMO
ABSTRACT
O presente trabalhotem como objetivo analisar as
Thepresent paperaims to analyze the actions and
ações e diretrizes previstas na Lei Federal n°
guidelines stated in the Federal Law Nr.
12.764/12,abordandoos objetivos e os
12.764/12, which describes the objectives and
mecanismos para a efetivação dos direitos à
mechanisms for the maintenance of the right to
educação das pessoas com o Transtorno do
education of peoplewith Autism Spectrum
Espectro Autista no Brasil e a inclusão escolar
Disorder (ASD) and their scholar inclusion in
desses sujeitos no espaço educativo. É uma
learning environments. It is a bibliographic review
revisão bibliográfica que conduz à reflexão das
leading to a debate on inclusion policies
políticas de inclusão das pessoas com TEA, por
forpeoplewith Autism Spectrum Disorder (ASD)
meio de uma análise sistemática das ações e
through systematic analysis of actions and
diretrizes da lei n° 12.764/12 (Lei Berenice Piana),
guidelines of the Federal Law Nr. 12.764/12
que instituiu a Política Nacional de Inclusão das
(Berenice Piana Law), which establishes the
Pessoas com o Transtorno do Espectro Autista.
National Policy for the Inclusion of Peoplewith
Para isso, fizemos uma abordagem teórica do
Autism Spectrum Disorder. To achieve this, we
processo histórico da educação inclusiva e do
took a theoretical approach of the historical
autismo; a caracterização, o diagnóstico e as
process of inclusive education and autism; also of
mudanças do autismo sofridas ao longo do tempo
the characterization, diagnosis and changes in
até se concretizar como Transtorno do Espectro
autism overtime until it was eventually known as
Autista (TEA); e analisamos as legislações que
Autism Spectrum Disorder (ASD); we also analyzed
abordam os direitos das pessoas com deficiência
legislations concerning the rights of people with
e, principalmente, a lei Berenice Piana, que trata
disabilities, especially, the Berenice Piana Law,
dos direitos dos indivíduos com TEA. A
which focuses on the rights of peoplewith ASD.
escolarização dos indivíduos com TEA a partir da
The schoolingprocess of peoplewith ASD, based
promulgação da referida legislação traz
on the promulgation of the above mentioned
importantes benefícios, dentre eles o direito a
legislation, may bring important benefits, among
educação, principal aspecto enfatizado no referido
which the right to education, main aspect
trabalho.
highlighted in the present work.
PALAVRAS-CHAVE:Transtorno do Espectro Autista
KEY-WORDS: Autism Spectrum Disorder (ASD);
(TEA), Direito à Educação, Inclusão Escolar, Lei
Right to Education; School Inclusion; Berenice
Berenice Piana.
Piana Law.
SANT'ANA, Wallace; SANTOS, Cristiane. Educação e Transtorno do Espectro Autista | Artigo

INTRODUÇÃO

O presente trabalho tem como tema a Lei Berenice Piana (Lei Federal n° 12.764/12) e o
direito à escolarização das pessoas com o Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Brasil. O
processo histórico da educação especial se iniciou a partir século XVI, porém as discussões sobre
ainclusão escolardas pessoas com deficiência se tornam mais visíveisa partir do século XX,através
de movimentos sociais contra a discriminação e a segregação das pessoas com deficiência e em
defesa de uma sociedade inclusiva.

Nesse contexto, houve avanços significativos em termos jurídico-normativoscom vistas


a assegurar a inclusão escolar das pessoas com deficiência. Entretanto,apesar da elaboração dos
instrumentos legais, as pesquisas e a realidade educacional evidenciam a exclusão
dessesindivíduos no contexto escolar, na prática, essas pessoas ainda vivenciam asegregação e a
exclusão, seja atitudinal, moral, estrutural ou educacional.

A inclusão escolar de crianças com o Transtorno do Espectro Autista tem sido um tema
bastante debatido e um grande desafio a ser enfrentado nos últimos anos, principalmente após a
promulgação e aprovação em 27 de dezembro 2012 da Lei Federal n° 12.764/12 (Lei Berenice
Piana), que instituiu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do
Espectro Autista. A partir dessa lei, esses indivíduos têm o direito legal de serem incluídos na
escola regular e de acompanhamento especializado, quando for necessário.

O direito à educação se torna obrigatório, fazendo com que os órgãos responsáveis se


articulem para a compreensão da temática,a capacitação dos profissionais e a adequação de suas
estruturas física e pedagógica, para proporcionar uma inclusão eficaz das pessoas com o TEA no
ambiente escolar.

Nesse sentido, este estudo tem como objetivo analisar as ações e diretrizes previstas
na Lei Federal n° 12.764/12, tendo como eixo central de análise os objetivos e os mecanismos para
efetivação dos direitos à escolarização das pessoas com o Transtorno do Espectro Autista. Mais
especificamente buscamos:

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1. Refletir sobre o processo histórico do Autismo até a promulgação da Lei Federal N°


12.764/12, tendo como eixo central a escolarização das pessoas com TEA;
2. Apresentar uma visão geral das características e aspectos do Transtorno do Espectro
Autista;
3. Identificar as ações e diretrizes previstas na Lei n° 12.764/12 e suas implicações na
organização do ambiente escolar visando à escolarização dos alunos com TEA.

A intenção aqui é refletir sobre os direitos à educação dos alunos com autismo e as
condições para a inclusão escolar desses sujeitos, com foco principal na lei supracitada.

CARACTERIZAÇÃO DO TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA E AS IMPLICAÇÕES PARA O


PROCESSO DE ESCOLARIZAÇÃO

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um distúrbio do neurodesenvolvimento,


caracterizado principalmente por um desvio no desenvolvimento das relações sociais. Segundo
Silva, Gaiato e Reveles (2012, p. 159):

A palavra “autismo” deriva do grego “autos”, que significa “voltar-se para si


mesmo”. A primeira pessoa a utilizá-la foi o psiquiatra austríaco EugenBleuler, em
1911, para descrever uma das características de pessoas com esquizofrenia, se
referindo ao isolamento social dos indivíduos acometidos.

O autismo é uma “disfunção neurológica de base orgânica, que afeta a sociabilidade, a


linguagem, a capacidade lúdica e a comunicação”1. Os sintomas variam de indivíduo para
indivíduo, em diferentes graus, podendo haver convulsões associada a problemas neurológicos e
neuroquímicos, falta de reação à dor, a dificuldade de reconhecer situações de perigo e à
repetição estereotipada de certos movimentos do corpo (CUNHA, 2013). Por isso que o autismo
não é apenas um transtorno de ordem educacional, sendo também acometido por problemas de
saúde, psicológicos, psiquiátricos, nutricionais, etc.

O transtorno do espectro autista compreende um conjunto de comportamentos


agrupados em uma tríade principal: 1 – comprometimentos na comunicação; 2 –
dificuldades na interação social;3 – atividades restritas e repetitivas (uma forma
rígida de pensar e estereotipias). (CUNHA, 2013, p. 23)

O diagnóstico do autismo é um procedimento clínico, realizado através de observação


direta do comportamento do autista e de uma entrevista com os pais ou responsáveis. Os

1
Classificação Internacional de Doenças – CID.

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sintomas podem ser diagnosticados já por volta dos 18 meses de idade.

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM),criado pela


Associação Americana de Psiquiatria para o diagnóstico de transtornos mentais, está em sua V
edição, lançado em 22 de maio de 2013, o qual inclui mudanças significativas nos critérios de
diagnósticodo autismo, conforme o quadro abaixo:

Fig. 1.

Fonte: Disponível em: http://www.cuidare.com/2013/06/autismo-dsm5-nova-classificacao.html. Acesso em: 11 Mar. 2015.

Conforme podemos verificar, por meio da imagem supracitada, anteriormente, o DSM-


IV era caracterizado por cinco transtornos do espectro do autismo, cada qual com um diagnóstico
único: Transtorno Autista (autismo clássico), Síndrome de Asperger, Transtorno Invasivo do
Desenvolvimento, Síndrome de Rett e Transtorno Desintegrativo da Infância.

No DSM-V, esses transtornos não existem como diagnósticos distintos no espectro do


autismo. Agora, são todos caracterizados como Transtorno do Espectro do Autismo, em que os
níveis de comportamentos são classificados em leve, moderado ou grave, com exceção da
Síndrome de Rett, que se torna agora uma entidade própria de transtorno, deixando de ser
caracterizada como espectro do autismo.

O tratamento deve ser realizado por meio dodesenvolvimento de um trabalho


multidisciplinar, envolvendo médicos, psicólogos, nutricionistas e professores,em procedimentos
de diagnose e de um atendimento específico para cadaindivíduo com TEA.

Crianças com quadro de autismo que recebem atendimento precoce apresentam

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melhoras significativas, desenvolvem a linguagem, integram-se ao meio ambiente,


frequentam escolas e, quando adultas, perdem grande parte das características
de autista conseguindo, então, se integrar socialmente.2

A conduta autística é marcada por uma relação singular com o mundo


externo.Segundo Cunha (2013, p. 28) o indivíduo com autismo “Fixa-se em rotinas que trazem
segurança, não interage normalmente com as pessoas, inclusive os pais, nem manuseia objetos
adequadamente, gerando problemas na cognição, com reflexos na fala, na escrita e em outras
áreas. Aprende de forma singular”.

O indivíduo com TEA tem dificuldades comunicativas, que o impede de realizar ações
simples, como escovar os dentes e vestir-se. A dificuldade de ler, escrever e falar também são
características encontradas em pessoas com TEA. A intervenção da família se torna fundamental
nesses casos, pois o ajudará a desenvolvê-las de maneira organizada, estabelecendo rotinas
diárias, como tomar café, almoçar e jantar em horários estabelecidos.

Considerando essas características, os indivíduos com esse transtorno necessitam de


atendimento educacional especializado no seu processo de escolarização. Isso requer da escola a
elaboração de práticas pedagógicas específicas para o aluno com TEA, direcionadas à aquisição de
habilidades para a inclusão familiar, social e escolar.

Os educadores podem contribuir para a percepção de possíveis sintomas do TEA, pois


nos primeiros anos de escolarização o trabalho com a interação social das crianças é realizado com
maior ênfase. Segundo Cunha (2013, p. 23) “O diagnóstico precoce é o primeiro grande
instrumento da educação”. Com isso, o papel do professor é fundamental no encaminhamento de
crianças que apresentem sintomas do autismo, sendo primordial o conhecimento clínico,
comportamental e interacional dessas crianças em suas relações sociais, sendo possível perceber
com mais clareza as singularidades comportamentais desses indivíduos.

A inclusão escolar promove às crianças com TEA oportunidades de convivência


com outras crianças da mesma idade, tornando-se um espaço de aprendizagem e
desenvolvimento social. Possibilita-se o estímulo de suas capacidades interativas,
impedindo o isolamento contínuo. Acredita-se que as habilidades sociais são
passíveis de serem adquiridas pelas trocas que acontecem no processo de
aprendizagem social. A oportunidade de interação com pares é a base para o
desenvolvimento de qualquer criança. (SCHIMIDT, 2013, p. 134)

2
Extraído de: <http://mariaholthausen.blogspot.com.br/2012/11/autismo-uma-muralha-de-silencio.html> Acesso em:
11 Março 2015.

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Sabe-se que a educação é o caminho para a construção social, intelectual e afetiva de


qualquer indivíduo. A escola é uma das instituições educacionais que estão incumbidas de
promover a inclusão das pessoas com deficiência em seus espaços, pois pode contribuir para a
melhora dos quadros clínicos desses indivíduos, através de práticas pedagógicas voltadas à
inclusão e o respeito à diversidade. E no que se refere à inclusão escolar de crianças com TEA, caso
não haja intervenção pedagógica correta, poderão ser discriminadas, excluídas do ambiente
escolar.

EDUCAÇÃO INCLUSIVA E AUTISMO: CONTEXTO HISTÓRICO E LEGAL

A Educação Especial começou a ser pensada a partir do século XVI, porém somente na
segunda metade do século XX, mais especificamente na década de1960, que a sociedade começou
a perceber que crianças com deficiência deveriam ser integradas no mesmo espaço escolar das
outras crianças sem deficiência.

Esse processo ficou conhecido como“integração escolar”e tinha como pressuposto


dois fatores:a inserção das crianças com deficiência dentro da escola, não necessariamente nas
classes regulares, apenas em classes especiais, pois eram vistas como pessoas que não teriam o
mesmo aprendizado das outras crianças; e o de que os alunos com deficiência inseridos nas
classes regulares deveriam se adequar aos recursos disponíveis aos alunos sem deficiência na
escola.Assim, a educação especial ainda era vista como “*...+ um sistema paralelo ao ensino
comum, muito em decorrência dos estigmas e das questões morais vigentes na sociedade daquela
época” (CUNHA, 2013, p. 33).

Na década de 1990, o termo “integração escolar” começa a ser criticado e debatido,


principalmente por representar na prática um serviço segregado e excludente. Assim, surgiram
vários movimentos que reivindicavam igualdade de direitodas pessoas com deficiêncianas classes
regulares de ensino,reivindicandoum sistema único de ensino para todos,através de
transformações políticas, econômicas, culturais, éticas, sexuais e comportamentais na vida desses
indivíduos.Com isso,

[...] iniciaram-se movimentos no mundo com ênfase na consciência e o respeito à


diversidade, produzindo mudanças no papel da escola que passou a responder
melhor às necessidades de seus estudantes. Começa a surgir o conceito de
inclusão. [...] Tal modelo trazia em seu bojo o ingresso de todos os estudantes em

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classes comuns, deixando, no entanto, abertas as oportunidades para os


estudantes serem ensinados em outros ambientes, atendendo a planos
educacionais individualizados. (CUNHA, 2013, p. 35)

Vários argumentos contribuíram para se criar bases morais, políticas e argumentativas


em torno da equidade de participação tanto de pessoas com e sem deficiência em programas
educacionais e de práticas de inclusão. Segundo Stainback e Stainback (1999, p. 21) a “educação
inclusiva pode ser definida como “a prática da inclusão de todos” – independente de seu talento,
deficiência, origem socioeconômica ou cultural – em escolas e salas de aula provedoras, onde as
necessidades desses alunos sejam satisfeitas”.

A Declaração de Salamanca, documento produzido na Conferência Mundial sobre


Necessidades Educativas Especiais: Acesso e Qualidade, em Salamanca, na Espanha,em 1994,
influenciou significativamente na elaboração de políticas de inclusão, difundindo uma reflexão em
torno de uma educação inclusiva. Em seu preâmbulo diz que:

[...] as crianças e jovens com necessidades educativas especiais devem ter acesso
às escolas regulares, que a elas se devem adequar através duma pedagogia
centrada na criança, capaz de ir ao encontro destas necessidades; [...] as escolas
regulares, seguindo esta orientação inclusiva, constituem os meios mais capazes
para combater as atitudes discriminatórias, criando comunidades abertas e
solidárias, construindo uma sociedade inclusiva e atingindo a educação para
todos; além disso, proporcionam uma educação adequada à maioria das crianças
e promovem a eficiência, numa ótima relação custo-qualidade, de todo o sistema
educativo. (BRASIL, 1994, p. 1)

A valorização da educação inclusiva também está prevista na Lei N° 9.394, de 20 de


dezembro de 1996, que rege sobre as Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a qual expressa
que os alunos da educação especial devem ser inseridos na rede regular de ensino e, sempre que
possível, nas classes regulares de ensino. O Art. 4° aborda sobre os deveres do Estado, dentre os
quais podemos destacar em seu inciso III o “atendimento educacional especializado gratuito aos
educandos com necessidades especiais, preferencialmente na rede regular de ensino” (BRASIL,
1996, p. 2).

A necessidade de organização educacional para a inserção de alunos com deficiência,


transtornos globais do desenvolvimento (incluem-se nesse grupo os alunos com autismo,
síndromes do espectro do autismo e psicose infantil) e altas habilidades/superdotaçãoestá
prevista nos aportes legais da “Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação

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Inclusiva”3, a qual apresenta os avanços históricos de lutas sociais, propondo a constituição de


políticas públicas que visem uma educação de qualidade a todos os alunos. Tem como objetivo
assegurar o acesso, a participação e a aprendizagem desse público nas escolas regulares,
propondo algumas ações que os sistemas de ensino devem executar para oferecer uma educação
de qualidade, ratificando que as instituições de ensino devem se organizar em todos os aspectos
para atenderem os que necessitarem de atendimento educacional especializado, por meio da
implantação das salas de recursos multifuncionais para a realização do Atendimento Educacional
Especializado (AEE). Ressalta ainda que “esse dinamismo exige uma atuação pedagógica voltada
para alterar a situação de exclusão, enfatizando a importância de ambientes heterogêneos que
promovam a aprendizagem de todos os alunos”4.

O ensino de pessoas com deficiência deve ter como primícias a formação global do
aluno e sua inclusão em classes regulares de ensino, para que o mesmo possa se socializar e
desenvolver potenciais necessários a sua autonomia e cidadania.

O ensino especial é inclusivo quando se ocupa da autonomia do aluno e o capacita


para o ensino regular, para a vida familiar e para a vida social. Dessa forma, o
ensino cumpre seu papel quando atende à diversidade discente com equidade,
sem preconceitos, observando as especificidades de cada indivíduo, buscando sua
formação integral. (CUNHA, 2013, p. 38)

No Brasil, as políticas públicas no processo de inclusão devem abarcar ações


educacionais eficientes e eficazes, e que tenham como finalidade proporcionar um ensino que
esteja de acordo com a peculiaridade de cada educando. Para Cunha (2013, p. 37) essas políticas
de inclusão “*...+ permitem o fortalecimento de suportes de serviços por intermédio da formação e
da atuação dos seus professores”.

Mais especificamente no que se refere à escolarização da pessoa com TEA, o termo


“autismo” surgiu pela primeira vez em 1911, por Eugene Bleuler, o qual descreve o transtorno
como um sintoma negativo da esquizofrenia.Em 1943, o autismo começa a ser descrito como uma
perturbação inata do contato afetivo, por meio de um estudo realizado pelo psiquiatra austríaco
Leo Kanner, queanalisou o isolamento de crianças desde o início da vida, o apego a situações

3
Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva – MEC/2008. Documento elaborado
pelo Grupo de Trabalho nomeado pela Portaria Ministerial nº 555, de 5 de junho de 2007, prorrogada pela Portaria nº
948, de 09 de outubro de 2007.
4
Ibid., p. 7.

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rotineiras, o distanciamento das pessoas, entre outros aspectos.

Em 1944, o austríaco Hans Asperger publicou um estudo avaliando os padrões de


comportamento e habilidades em crianças, descrevendo mudança de personalidade nesses
indivíduos, o que incluía a ausência de empatia, pouca capacidade de fazer amizades, dificuldade
na coordenação motora, etc. Segundo Silva, Gaiato e Reveles (2012, p. 160) “Hans Asperger
cunhou o termo psicopatia autísticae chamava as crianças que estudou de ‘pequenos mestres’,
devido à sua habilidade de discorrer sobre um tema minuciosamente”.

Após a década de 60 foram publicados textos importantíssimos para um estudo mais


específico do autismo. A psiquiatra inglesa LornaWing, que tinha uma filha autista, foi a primeira
pessoa a desenvolver uma tríade para os transtornos do espectro autista: alterações nas relações
sociais, comunicação e linguagem e padrões alternados de comportamento. Esses sintomas
podem ocorrer em diversos graus de intensidade e podem se manifestar de diferentes formas.
Rottaet al. (2006, p. 423) diz que “os diferentes graus de possibilidades na comunicação, nas
habilidades sociais e nos padrões de comportamento na criança autista movimentavam a
expressão transtornos globais de desenvolvimento (TGDs), que constituem o espectro dos
transtornos autistas”.

Na década de 1980, o Brasil intensifica as mobilizações para a compreensão e


conscientização sobre o autismo, o quegerou um aumento cada vez maior de adeptos e de
pessoas engajadas na luta e no reconhecimento de direitos das pessoas com Transtorno do
Espectro Autista. A Organização das Nações Unidas (ONU) decretou o dia 2 de abril como o dia
Mundial de Conscientização do Autismo.

A primeira organização brasileira foi a Associação de Amigos do Autista (AMA), em


São Paulo, oficialmente fundada em 8 de agosto de 1983, por um grupo de pais, a
maioria com filhos portadores de autismo. [...] Em novembro de 1984 ocorreu o “I
Encontro de Amigos do Autista”, promovido pelo AMA. Este encontro reuniu
médicos e outros profissionais do país que estudavam o autismo naquela época, e
algumas instituições que atendiam crianças com o transtorno. (SILVA; GAIATO;
REVELES, 2012, p. 163)

A AMA busca uma formação de profissionais para uma apropriação de ferramentas


adequadas para a promoção de tratamento efetivo de pessoas com autismo. Outra associação de
pais e amigos, a Associação Brasileira de Autismo (Abra), também congrega os mesmos princípios
da Associação dos Amigos do Autista, apresentando todos que lutam pelos direitos de indivíduos

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que têm o Transtorno do Espectro Autista em âmbito nacional.

Em 2008, o Deputado Federal Hugo Leal solicitou que se realizasse uma audiência
pública para discutir a falta de políticas públicas para as pessoas com autismo, com o intuito de
viabilizar uma Legislação Federal que as amparassem. No entanto, o deputado não conseguiu a
realização da audiência pública, porém se mostrou sensibilizado com o sofrimento das pessoas
com autismo.

Os direitos das pessoas com deficiência são os mesmos de qualquer outro


cidadão. Entretanto, essas pessoas têm necessidades específicas, pela sua própria
condição, que devem ser levados em consideração sob pena de permanecerem
excluídos do convívio social. Pensando nisso e voltando o olhar para a história
exclusão desse grupo social, pessoas, movimentos, organizações governamentais
e não governamentais vêm, ao longo de séculos, lutando para que essas pessoas
tenham assegurados seus direitos básicos. (COSTA, 2013, p. 114)

Após várias lutas de pais, mães e políticos, algumas ações civis públicas foram
realizadas para que se viabilizassem políticas públicas para pessoas com autismo no Brasil. Várias
audiências públicas também foram realizadas, onde pais levaram seus filhos com autismo,
discutindo-se a priorização de um tratamento adequado para esse público, a falta de políticas
públicas e a necessidade de se viabilizar uma legislação para a efetivação de seus direitos.

Segundo Costa (2013, p. 110) “A luta para permitir que as famílias sem recursos
financeiros para arcar com os altos custos dos tratamentos específicos para o autismo fossem
atendidas teve um tremendo impacto *...+”. Assim, foi encaminhado ao Senador Paulo Paim por
Berenice Piana um Projeto de Lei, em março de 2010, para que fosse analisado e adequado às
necessidades das pessoas com autismo.

Após vários embates e discussões entre pais, familiares, políticos e a comunidade,


finalmente foi promulgada a Lei Federal n° 12.764, em 27 de dezembro de 2012 (Lei Berenice
Piana), que institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do
Espectro Autista, estabelecendo diretrizes e ações para que as políticas inclusivas se concretizem.
Dentre as conquistas podemos citar: a implantação nos postos de saúde de um diagnóstico
precoce nas consultas de puericultura, para que se evidenciassem possíveis casos de autismo em
crianças; a criação de Centros de Tratamento Multidisciplinar para estudos de diagnóstico
precoce, tratamento, capacitação e pesquisas sobre a temática; a inserção do mediador escolar
nos centros de tratamento de casos do transtorno do espectro autista; a criação de oficinas e

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residências assistidas; a capacitação de serviços de atendimento público às crianças com autismo,


como bombeiros, policiais, etc; a implementação de políticas públicas para que a lei seja cumprida
e que as conquistas cheguem na vida dessas crianças que sofreram com o descaso durante muito
tempo.

A LEI N° 12.764/12 E OS DIREITOS DAS PESSOAS COM TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA

Do ponto de vista normativo, a Lei 12.764/12 (Lei Berenice Piana) representa um


avanço das políticas públicas inclusivas para as pessoas com o Transtorno do Espectro Autista. A
partir de sua promulgação, as pessoas com TEA passam a gozar dos mesmos direitos das outras
pessoas com deficiência, garantido pelo § 2°, Art. 1°, da referida lei, o qual estabelece que “A
pessoa com transtorno do espectro autista é considerada pessoa com deficiência, para todos os
efeitos legais” (BRASIL, 2012, p. 1). Este dispositivo garante direitos essenciais à vida desses
indivíduos, como o acesso à educação, à moradia, ao mercado de trabalho, à previdência e
assistência social, dentre outros.

Com isso, os indivíduos com TEA passam a se enquadrar no conceito descrito na


Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência – CDPD (ONU/2006, p. 6): Pessoas com
deficiência “são aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental,
intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua
participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas”.5

Na alínea “a”, inciso IV do Art. 3° é especificado o direito à educação e ao ensino


profissionalizante. Além disso, outro expressivo avanço é o direito a um acompanhante
especializado para esse público conforme termos do inciso IV do art. 2°. Com isso, os sistemas de
ensino além de assegurar matrícula para pessoas com TEA nas classes regulares de ensino, devem
oferecero atendimento educacional especializado e o profissional de apoio , desde que
comprovada a necessidade, visando o atendimento de cuidados especiais, como higiene,
alimentação e locomoção, acarretando aos gestores penalidades caso esse direito não seja
atendido. “O gestor escolar, ou autoridade competente, que recusar matrícula de aluno com

5
Convenção sobre os direitos das pessoas com deficiência. Disponível em:
<http://www.pessoacomdeficiencia.sp.gov.br/usr/share/documents/CONVENCAO_ONU_SOBRE_OS_DIREITOS_DAS_P
ESSOAS_COM_DEFICIENCIA.pdf>. Acesso em: 24 Jan.2015.

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transtorno do espectro autista, ou qualquer outro tipo de deficiência, será punido com multa de 3
(três) a 20 (vinte) salários-mínimos” (Art. 7°, Lei n° 12.764/12).

O Atendimento Educacional Especializadoestá previsto na Lei n° 7.611 de 17 de


novembro de 2011, sendo dever do poder público e das instituições se articular para oferecer um
atendimento de qualidade, baseado nas diretrizes da lei supracitada, às pessoas com deficiência
que dele necessitarem.

O atendimento educacional especializado deve integrar a proposta pedagógica da


escola, envolver a participação da família para garantir pleno acesso e participação
dos estudantes, atender às necessidades específicas das pessoas público-alvo da
educação especial, e ser realizado em articulação com as demais políticas
públicas. (Art. 2° da Lei 7.611/2011)

No ambiente escolar é necessário que haja adaptações curriculares e estratégias


adequadas para uma inclusão dos indivíduos com TEA. A Lei Federal n° 12.764/12, em seu Art. 2°
estabelece algumas diretrizes que devem orientar as escolas para uma inclusão escolar de
qualidade:

I - a intersetorialidade no desenvolvimento das ações e das políticas e no


atendimento à pessoa com transtorno do espectro autista; II - a participação da
comunidade na formulação de políticas públicas voltadas para as pessoas com
transtorno do espectro autista e o controle social da sua implantação,
acompanhamento e avaliação; [...]VII - o incentivo à formação e à capacitação de
profissionais especializados no atendimento à pessoa com transtorno do espectro
autista, bem como a pais e responsáveis; VIII - o estímulo à pesquisa científica,
com prioridade para estudos epidemiológicos tendentes a dimensionar a
magnitude e as características do problema relativo ao transtorno do espectro
autista no País.

A intersetorialidade na gestão de políticas públicas diz respeito à integração de


diferentes áreas – saúde, educação, assistência e previdência social, transportes – na formulação e
implementação de ações voltadas às pessoas com TEA, isto é, a articulação de diferentes áreas se
torna fator necessário para a consecução da inclusão escolar das pessoas com TEA.

A participação da comunidade nessas ações também é essencial para a inclusão


escolar do aluno com TEA, as quais devem se concretizam com o envolvimento de todos –
professores, gestores, pais e comunidade em geral.

A formação e capacitação de profissionais é outra questão importante na efetivação


dos direitos dos alunos com TEA. A formação continuada deve visar alguns aspectos necessários,

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como a construção de processos de significação; a mediação pedagógica na organização de


atividades de recreação e alimentação; a implementação de parâmetros para a avaliação
pedagógica, valorizando cada progresso do autista; a relação permanente com a família no
processo de escolarização; a intervenção pedagógica com foco nas relações sociais e
comunicativas no cotidiano escolar e demais ambientes; a interlocução entre as diversas áreas
para a troca de informações; o acompanhamento dos estudantes com TEA frente ao fazer
pedagógico da Escola. Segundo Cunha (2013, p. 16) “O professor é essencial para o sucesso das
ações inclusivas, não somente pela grandeza do seu ofício, mas também em razão da função social
de seu papel. O professor precisa ser valorizado, formado e capacitado”.

O trabalho pedagógico do professor em sala de aula regular ou especial com crianças


com TEA requer ações e práticas específicas, direcionadas à convivência compartilhada, para a
inclusão social, familiar e escolar desses indivíduos. Os contatos sociais no ambiente escolar
devem favorecer tanto para seu desenvolvimento quanto para que as outras crianças convivam e
aprendam com as diferenças.

O movimento para a promoção da inclusão escolar das pessoas com deficiência tem
suscitado novas práticas pedagógicas, para se quebrar paradigmas, como a de que aluno especial
deve aprender como aluno regular.

Promover a inclusão significa, sobretudo, uma mudança de postura e de olhar


acerca da deficiência. Implica quebra de paradigmas, reformulação do nosso
sistema de ensino para a conquista de uma educação de qualidade, na qual, o
acesso, o atendimento adequado e a permanência sejam garantidos a todos os
alunos, independentemente de suas diferenças e necessidades. (SCHMIDT, 2013,
p. 136)

Para a inclusão escolar de pessoas com deficiência, mais especificamente as com TEA,
a instituição educacional precisa ter profissionais capacitados, para o desenvolvimento eficaz de
ações pedagógicas inclusivas no ambiente escolar. No entanto, o ensino de crianças com TEA, tem
sido marcado por muitas dúvidas e insegurança por parte do professor, o que tem provocado
dificuldades em sua prática docente.

A formação do educador e o seu conhecimento científico a respeito do assunto


tornam-se essenciais para a identificação da síndrome. Da mesma sorte, sua
capacitação pedagógica no exercício docente possibilitará uma educação
adequada. Apesar de níveis de comprometimentos dissimilares, é comum o aluno
com autismo apresentar algumas características mais marcantes que inicialmente
poderão interferir na sua aprendizagem: o déficit de atenção, a hiperatividade, as

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estereotipias e os comportamentos disrruptivos. (CUNHA, 2013, p. 25)

Além de formação específica para o exercício docente de crianças com TEA, o


educador deve conhecer seus afetos, suas ações e seus interesses. Conhecendo-os, poderá aplicar
atividades que possibilitará uma maior atenção e participação nos afazeres escolares. A
afetividade, ou seja, a relação entre professor/aluno é fundamental para o desenvolvimento
intelectual, moral e afetivo dos alunos. As crianças com TEA tem déficit de atenção, o que requer
do educador um trabalho com atividades diferenciadas para conseguir a atenção e participação
desses alunos nas atividades propostas.

Trabalhos artísticos estimulam o foco de atenção de qualquer aprendente, pois


demandam proficuamente a concentração, servindo como mediação pedagógica.
Na pintura, no desenho, nas atividades com massa ou na música, os canais
sensoriais são os melhores receptores da aprendizagem. (CUNHA, 2013, p. 26)

Ações de estereotipias, como alegria, ansiedade, frustrações, excitação (que podem


provocar a regressão e o bloqueio de ações motoras), devem ser evitadas, pois causam
cerceamento e irritação nessas crianças. O barulho, as frustrações e as mudanças de rotinas são
fatores que as motivam, pois o autista cria formas próprias de se relacionar com o mundo em sua
volta.

O processo de inclusão escolar das pessoas com TEA deve acontecer por meio de
práticas pedagógicas voltadas ao cotidiano dos alunos, tendo por base suas experiências e ações
do dia a dia, para a promoção do desenvolvimento da criança como pessoa e não como deficiente.
Para isso, além do que simplesmente colocá-las dentro do espaço escolar, é preciso proporcionar
uma aprendizagem significativa, baseada em suas potencialidades e práticas cotidianas, pois,
como afirma Freire, (1992, p. 11) “a leitura de mundo procede a leitura da palavra, *…+”.

Portanto, a Lei Berenice Piana trouxe vários avanços para a escolarização das crianças
com TEA no Brasil. Agora, as pessoas com TEA são consideradas com deficiência para todos os
efeitos legais, sendo a escola obrigada a promover a matrícula desses indivíduos às classes
regulares de ensino, além de, quando necessário, tereme direito de um professor especializado
para acompanhá-los em sala de aula. Além disso, a escola deve capacitar seus professores para
promover uma inclusão eficaz, por meio de ações voltadas às pessoas com TEA, e de um modelo
colaborativo entre escola, família e profissionais da saúde.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Esse trabalho objetivou descrever as estruturas legaisdo processo de inclusão escolar


de indivíduos com o Transtorno do Espectro Autista, refletindo sobre os benefícios e as conquistas
que a Lei Berenice Piana(Lei n° 12.764/12) conferiu às crianças com TEA no Brasil.

Ainda são várias as dúvidas no que concerne à inclusão escolar das crianças com TEA,
principalmente após a promulgação da Lei Berenice Piana. Por ser uma legislação recente, ainda
não houve preparação profissional para atuar diretamente com pessoas autistas, tampouco há
materiais pedagógicos específicos; e o mais crítico é a pouca disseminação dessa lei nas escolas.

Em relação ao ensino dos alunos com TEA, ainda há muitas dúvidas e insegurança por
parte do professor, o que acaba interferindo em sua prática. O que se percebe é que a efetivação
dessas práticas educativas ainda não se arrola sem conflitos e dificuldades. Para tanto, é
necessário rever e reformular as políticas públicas atuais, para que seja garantido aos educadores
o conhecimento e a formação adequada, e que esses alunos não sejam apenas incluídos no
ambiente escolar, mas que, por meio de ações pedagógicas específicas, possam aprender,
desenvolver e ampliar seus conhecimentos.

Enfim, a sanção de uma lei é uma grande vitória, porém ainda há muito que se fazer.
Os direitos estão no papel. Agora, o próximo passo a ser dado é efetivá-los na prática. Para isso, é
necessária a integração entre escola/governo/comunidade na articulação de ações que efetivem
esses direitos, por meio da cobrança de todas as instâncias, a formação de profissionais
capacitados, a apropriação de materiais pedagógicos para o desenvolvimento de práticas
inclusivas, dentre outras.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Lei N° 12.764, de 27 de dezembro de 2012. Institui a Política Nacional de Proteção dos
Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista; e altera o § 3 o do art. 98 da Lei no 8.112,
de 11 de dezembro de 1990. 2012.

_________. Decreto Nº 7.611, de 17 de novembro de 2011. Dispõe sobre a educação especial, o


atendimento educacional especializado e dá outras providências. Disponível em:
<www.planalto.gov.br >. Acesso em: 11 Março 2015.

_________. Lei N° 9394, de 20 de dezembro de 1996. Lei de Diretrizes e Bases da Educação


Nacional. Disponível em: <www.planalto.gov.br >. Acesso em: 05 Jan. 2015.

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_________. Ministério da Educação e do Desporto. Coordenadoria Nacional para a Integração da


Pessoa Deficiente (CORDE), e da Secretaria de Educação Especial/MEC (SESP). Declaração de
Salamanca e Linha de Ação sobre necessidades educativas especiais. Brasília, 1994.

COSTA, Ulisses. Autismo no Brasil:um grande desafio. Rio de Janeiro: Wak, 2013.

CUNHA, Eugênio. Autismo na Escola: um jeito diferente de aprender, um jeito diferente de ensinar
– ideias e práticas pedagógicas. 2 ed. Rio de Janeiro: Wak, 2013.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez:
Autores Associados, 1992. (Coleção Polêmicas do nosso tempo)

ROTTA, Newra Tellechea. et al. Transtornos da Aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 2006. 480 p.

SCHMIDT, Carlo (Org.). Autismo, educação e transdisciplinaridade. In: BELIZÁRIO FILHO, José;
LOWENTHAL, Rosane. Inclusão Escolar e os Transtornos do Espectro do Autismo. Campinas:
Papirus, 2013. p. 125-143.

SILVA, Ana Beatriz Barbosa; GAIATO, Mayra Bonifácio; REVELES, Leandro Thadeu. Mundo singular:
entenda o autismo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012. 287 p.

STAINBACK, S.; STAINBACK, W. Inclusão:um guia para educadores. Porto Alegre: Artmed, 1999.

Artigo recebido para publicação em 23 de maio de 2015


Aprovado para publicação em 03 de agosto de 2015

COMO CITAR ESTE ARTIGO?


SANT'ANA, Wallace Pereira; SANTOS, Cristiane da Silva. A Lei Berenice Piana e o Direito à Educação dos Indivíduos
com Transtorno do Espectro Autista No Brasil. Revista Temporis [Ação] (Periódico acadêmico de História, Letras e
Educação da Universidade Estadual de Goiás). Cidade de Goiás; Anápolis. V. 15, n. 02, p. 99-114 de 207, jul./dez.,
2015. Disponível em:
<http://www.revista.ueg.br/index.php/temporisacao/issue/archive> Acesso em: < inserir aqui a data em que você
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