NULIDADES – PROCESSO PENAL
São os vícios que contaminam determinados atos processuais, praticados sem a
observância da forma prevista em lei, podendo levar à sua inutilidade e consequente
renovação.
Dividem-se em:
a) nulidades absolutas, aquelas que devem ser proclamadas pelo magistrado, de ofício ou a
requerimento de qualquer das partes, porque produtoras de nítidas infrações ao interesse
público na produção do devido processo legal. Ex.: não conceder o juiz ao réu a ampla defesa,
cerceando a atividade do seu advogado;
b) nulidades relativas, aquelas que somente serão reconhecidas caso arguidas pela parte
interessada, demonstrando o prejuízo sofrido pela inobservância da formalidade legal
prevista para o ato realizado.
Ex.: o defensor não foi intimado da expedição de carta precatória para a inquirição de
testemunha de defesa, cujos esclarecimentos referiam-se apenas a alguns parcos aspectos da
conduta social do réu, tendo havido a nomeação de defensor ad hoc para acompanhar o ato.
Nessa hipótese, inexistindo demonstração de prejuízo, mantém-se a validade do ato, incapaz de
gerar a sua renovação, vale dizer, embora irregular a colheita do depoimento, sem a presença do
defensor constituído, nenhum mal resultou ao acusado, até pelo fato da testemunha quase nada
ter esclarecido.
PRINCÍPIOS QUE REGEM AS NULIDADES
Não há nulidade provocada pela parte
Por várias razões, dentre as quais o princípio da economia processual, não se proclama a
existência de uma nulidade, buscando-se refazer o ato – com perda de tempo e gastos materiais
para as partes – caso não advenha qualquer prejuízo concreto. É o conteúdo do art. 563 do
Código de Processo Penal.
Art. 563. Nenhum ato será declarado nulo, se da nulidade não resultar prejuízo para
a acusação ou para a defesa.
Registremos que a forma prevista em lei para a concretização de um ato processual não é um
fim em si mesmo, motivo pelo qual se a finalidade para a qual se pratica o ato foi atingida,
inexiste razão para anular o que foi produzido. Logicamente, tal princípio deve ser aplicado com
maior eficiência e amplitude no tocante às nulidades relativas, uma vez que o prejuízo, para o
caso das nulidades absolutas, é presumido pela lei, não se admitindo prova em contrário.
Assim, quando houver uma nulidade absoluta, deve ela ser reconhecida tão logo seja
cabível, pois atenta diretamente contra o devido processo legal. Entretanto, havendo uma
nulidade relativa, somente será ela proclamada, caso requerida pela parte prejudicada,
tendo esta o ônus de evidenciar o mal sofrido pelo não atendimento à formalidade legal.
Não há nulidade provocada pela parte
Preceitua o art. 565 do Código de Processo Penal que a parte não poderá arguir nulidade a
que haja dado causa ou para que tenha concorrido, demonstrando, com razão, dever
prevalecer a ética na produção da prova, afastando-se a má-fé.
Art. 565. Nenhuma das partes poderá argüir nulidade a que haja dado causa, ou
para que tenha concorrido, ou referente a formalidade cuja observância só à parte
contrária interesse.
Não há nulidade por omissão de formalidade que só interesse à parte contrária
Por outro lado, ainda que não seja a causadora do vício processual, não cabe a uma parte
invocar nulidade, que somente beneficiaria a outra, mormente quando esta não se interessa
em sua decretação (ex.: argui nulidade o promotor por não ter sido a defesa intimada da
expedição de carta precatória para ouvir testemunhas em outra Comarca, embora afirme o
defensor que nenhum prejuízo sofreu a defesa do réu. Ainda que possa representar um ponto
de cerceamento de defesa, somente a esta interessa requerer o seu reconhecimento).
Não há nulidade de ato irrelevante para o deslinde da causa
De acordo com o art. 566 do Código de Processo Penal, não se proclama nulidade de ato
processual que não houver influído na apuração da verdade real ou na decisão da causa.
Art. 566. Não será declarada a nulidade de ato processual que não houver influído
na apuração da verdade substancial ou na decisão da causa.
Baseado no princípio geral de que, sem prejuízo, não há que se falar em nulidade, é possível
haver um ato processual praticado sem as formalidades legais, que, no entanto, foi
irrelevante para chegar-se à verdade real no caso julgado. Assim, preserva-se o
praticado e mantém-se a regularidade do processo. Exemplo: A testemunha que se
pronunciar em idioma estrangeiro deve ter intérprete (art. 223). É a formalidade do ato. Se
ela for ouvida sem o intérprete, mas seu depoimento foi considerado irrelevante pelo juiz e
pelas partes, não se proclama a nulidade.
A nulidade de ato processual relevante pode desencadear a dos consequentes
O princípio da causalidade significa que a nulidade de um ato pode ocasionar a nulidade
de outros que dele decorram, constituindo mostra da natural conexão dos atos realizados
no processo, objetivando a sentença. É o que se denomina, também, de nulidade originária e
nulidade derivada.
Art. 573. Os atos, cuja nulidade não tiver sido sanada, na forma dos artigos anteriores,
serão renovados ou retificados.
§ 1o A nulidade de um ato, uma vez declarada, causará a dos atos que dele
diretamente dependam ou sejam conseqüência.
§ 2o O juiz que pronunciar a nulidade declarará os atos a que ela se estende.
O art. 573, § 1.º, do CPP, utiliza o termo “causará”, demonstrando que a nulidade de um
ato deve provocar a de outros, quando estes dele dependam diretamente ou sejam
consequência natural do anulado. Assim, é preciso verificar, na cadeia de realização dos
vários atos processuais, se o eivado de nulidade trouxe, como decorrência outros, ou não.
O interrogatório do réu é feito com base na denúncia. Se esta é anulada, naturalmente o
interrogatório também precisa ser refeito. Entretanto, se uma testemunha é ouvida sem a
presença do réu, não intimado, provocando a impossibilidade do reconhecimento, por
exemplo, anula-se o ato, o que não prejudica outra audiência que se tenha seguido àquela,
cujas partes compareceram regularmente. ADA, SCARANCE e MAGALHÃES afirmam,
com razão, que a nulidade de atos postulatórios (como a denúncia) propaga-se para os atos
subsequentes, enquanto a nulidade dos atos instrutórios (como a produção de provas) nem
sempre infecta os demais (As nulidades no processo penal, p. 26).
Cabe ao magistrado ou tribunal que reconhecer a nulidade ocorrida mencionar,
expressamente, todos os atos que serão renovados ou retificados, ou seja, cabe-lhe
proclamar a extensão da nulidade.
DESATENDIMENTO DE NORMAS CONSTITUCIONAIS
Provoca, como regra, nulidade absoluta, justamente porque o sistema processual
ordinário não tem possibilidade de convalidar uma infração à Constituição Federal.
Entretanto, em algumas hipóteses, outros princípios igualmente constitucionais podem ser
utilizados para contrapor a inobservância de regra estabelecida na Constituição, havendo a
harmonização das normas e dos princípios, sem que um seja considerado superior ao outro.
Ex.: um tratamento privilegiado dado ao réu, no plenário do Tribunal do Júri, em
cumprimento ao princípio da plenitude de defesa, pode contrapor-se ao princípio geral da
igualdade das partes no processo. Trata-se da harmonização dos princípios, razão pela qual
não se pode considerar nulo o ato processual.
NULIDADE EM INQUÉRITO POLICIAL
Tratando-se de mero procedimento administrativo, destinado, primordialmente, a formar a
opinião do Ministério Público, a fim de saber se haverá ou não acusação contra alguém, não
apresenta cenário para a proclamação de nulidade de ato produzido durante o seu
desenvolvimento.
NULIDADES ABSOLUTAS
Incompetência
Em cumprimento ao princípio do juiz natural, garantido constitucionalmente, ninguém será
processado ou julgado senão pelo juiz indicado previamente pela lei ou pela própria
Constituição. Por isso, é fundamental que as regras de competência sejam observadas, sob
pena de nulidade.
No mais, não sendo competência prevista diretamente na Constituição, deve-se dividir a
competência em absoluta (em razão da matéria e de foro privilegiado), que não admite
prorrogação, logo, se infringida é de ser reconhecido o vício como nulidade absoluta, e
relativa, aquela que admite prorrogação, pois referente apenas ao território. Não
aventada pelas partes, nem proclamada pelo juiz, é incabível a anulação dos atos praticados,
uma vez que se considera prorrogada.
Coisa julgada e incompetência
Normalmente, a coisa julgada convalida as eventuais nulidades do processo. E somente o
réu, através da revisão criminal e do habeas corpus, pode rever o julgado, sob a alegação de
ter havido nulidade absoluta (não ocorre o mesmo, quando se trata de nulidade relativa,
pois, não alegada no prazo, consolida-se). Entretanto, a incompetência constitucional, que
considera o praticado pelo juiz como atos inexistentes, em tese, não poderia ser sanada pela
coisa julgada, justamente porque a sentença que colocou fim ao processo não existiu
juridicamente. Assim ocorrendo, quando em favor do acusado, não há dúvida de que o
processo deve ser renovado.
Anulação dos atos decisórios em caso de incompetência territorial
Se a incompetência territorial gera nulidade relativa, sendo possível haver prorrogação,
caso não alegada pelas partes, é natural que os atos instrutórios, proferidos por
magistrado incompetente, possam ser aproveitados no juízo competente, por economia
processual. Os decisórios, no entanto, precisam ser necessariamente refeitos (art. 567,
CPP).
Art. 567. A incompetência do juízo anula somente os atos decisórios, devendo o
processo, quando for declarada a nulidade, ser remetido ao juiz competente.
Assim, somente em casos de competência relativa (territorial), pode-se aproveitar os atos
instrutórios, anulando-se os decisórios. Noutras situações, tratando-se de incompetência
absoluta, em razão da matéria ou da prerrogativa de foro, é fundamental renovar toda a
instrução.
Suspeição e impedimento
Quando houver impedimento, por estar o magistrado proibido de exercer, no processo, a sua
jurisdição (art. 252, CPP), trata-se de ato inexistente qualquer ato ou decisão sua.
Entretanto, tratando-se de suspeição, é motivo de nulidade, desde que a parte interessada
assim reclame, através da exceção cabível. Se o juiz suspeito for aceito, deixa de existir
razão para anulação dos atos por ele praticados.
Suborno do juiz
Subornar é dar dinheiro ou alguma vantagem para obter favores indevidos. Insere--se, pois,
no contexto da corrupção, razão pela qual não deixa de ser um motivo especial de
suspeição. Assim, conhecido pela parte, a qualquer momento, pode ser invocado para anular
o que foi praticado pelo magistrado subornado