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Sobre (O) Postos - Bruna Fontes

Enviado por

Lara Araújo
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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1ª edição

SOBRE(O)POSTOS

Título original: Sobre(O)postos


Copyright © 2017 by Bruna Fontes

Todos os direitos reservados pela editora Duplo Sentido Editorial. Nenhuma parte dessa publicação poderá
ser reproduzida seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia
da editora.

1ª edição – Junho de 2017

Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no
Brasil em 2009.

Diretor Editorial
Vanessa Monteiro

Preparação de texto e revisão


Vanessa Monteiro

Revisão
Tamara Soares
Juliana Sobreira Catalão

Ilustrador
Vanessa Leal Nunes

Diagramação e capa
Vanessa Monteiro

Projeto gráfico
Gabriella Regina
Bruna Fontes

ISBN
978-85-92815-05-9

DUPLO SENTIDO EDITORIAL


E-mail: [email protected]
www.duplosentidoeditorial.com

@duplosentidoED
À minha irmã, Paula, por ser um sopro de felicidade
e juventude na minha vida e por ser minha pessoa
preferida no mundo. Amo você.
E se as quatro paredes de um elevador
pudessem falar, quais histórias de lá sairiam?
1. O Vizinho
Lavínia tinha apenas quase doze anos quando seu vizinho se mudou para o
prédio onde morava em Botafogo. Ela não se lembrava de verdade do dia em
que isso aconteceu, mas gostava de dizer para as amigas que sim. “Foi amor à
primeira vista” ela sempre argumenta, reforçando a ideia de que foi o Destino
quem enviou Eduardo para aquele apartamento: tudo arquitetado para que os
dois pudessem ficar juntos.
Quem ouve até pensa que Lavínia era uma romântica incurável, mas suas
amigas davam risada: “Aham, Lavs. Está escrito nas estrelas”. E quanto mais
elas duvidavam, mais a garota sentia vontade de bater à porta do Eduardo com
uma caneca vazia e dizer “Ei, você pode me emprestar um pouco de açúcar? Ou
simplesmente sacar minhas verdadeiras intenções e, tipo, me beijar de uma
vez?”.
O fato é que Eduardo era uma cara muito atraente. Ele morava no 1108 há
quatro anos, e a cada ano que se passava ia ficando mais bonito. Ou talvez
fossem apenas os hormônios de Lavínia se desenvolvendo enquanto ela entrava
na adolescência. Tanto faz. O importante é que, toda vez que a menina pegava o
elevador, cruzava os dedos para que ele parasse no andar de baixo e Eduardo
entrasse pela porta de metal também. Geralmente era isso mesmo o que
acontecia às segundas, quartas e sextas-feiras, já que o horário dele na faculdade
nesses dias coincidia com a hora em que ela precisava sair para a escola.
Novamente, o Destino.
Não era à toa que ela quase chegava a odiar o período de férias.
A garota estava encostada no espelho do elevador de braços cruzados e fones
no ouvido, emburrada por ter tido que acordar cedo. As primeiras semanas de
volta às aulas eram sempre as piores, Lavínia simplesmente não entendia por
que havia aula antes do carnaval se elas logo teriam que parar de novo.
Mas longe dela reclamar do carnaval. Uma semana inteirinha de vários nadas
a serem feitos era mais do que uma benção.
Ela respirou fundo e encarou o teto, esperando que algo de bom acontecesse
naquele dia. Não esperava, porém, que o elevador fosse parar no 11º andar,
muito menos que Eduardo fosse ser a pessoa a puxar a porta e dar de cara com
ela.
Mas foi isso o que aconteceu.
Exatamente assim.
Ele abriu a porta, usando suas calças caqui e uma camisa xadrez de botões e
mangas curtas. Usava os óculos de grau na frente dos olhos castanhos claros
inchados de sono, e os cabelos castanhos escuros um pouco desgrenhados na
cabeça. É claro que na mão direita havia o seu copo de acrílico de café daqueles
que a Starbucks vendia e custavam os olhos da cara. Eduardo nunca era visto
pela manhã sem o seu bendito copo tamanho grande.
Ele abriu um sorrisinho contido para Lavínia, daqueles que faziam seus olhos
se enrugarem de um jeito extremamente adorável e deixavam o coração da
garota dando pulos desesperados. Ela fechou a boca, piscou para apagar a cara
de tacho que deveria estar fazendo, e se endireitou de pé no elevador enquanto
ele parava ao seu lado.
Lavínia engoliu em seco, gritando dentro da própria cabeça, consciente
demais do corpo gigantesco de Eduardo a centímetros do seu enquanto o
elevador descia. Meu Deus, ele era tão alto. Ela se sentia ainda mais nova do
que seus quase dezesseis anos quando estava ao lado dele e aquilo a enfurecia,
acima de tudo. Garotos não a deixavam nervosa, garotos eram feitos para
Lavínia se divertir.
Mas ali estava ela, sem fala e completamente eufórica quando Eduardo disse:
― Bom dia, Lavínia.
A voz dele era uma coisa de louco.
Ela a ouvia abafada por causa dos headfones em seus ouvidos, e por isso os
tirou imediatamente quando ele falou. Ainda dava para ouvir os gritos das
garotas do AOA, um girlgroup coreano, cantando a música preferida dela na
última quinzena – chamada Heart Attack. Mas pelo menos assim ela poderia
conversar com ele pelos próximos dez segundos.
― Bom dia. Está indo para a faculdade? – ela perguntou, tentando disfarçar a
curiosidade.
Porque veja bem, as universidades federais só iniciavam o calendário de aulas
em março, e aquele ainda era o dia sete de fevereiro.
Eduardo deu um gole em no copo e Lavínia espiou pelo canto de olho
enquanto o líquido descia pela garganta dele e fazia seu pomo de adão se mover.
Deus.
― Não – ele balançou a cabeça. A outra mão estava dentro do bolso da calça
e, realmente, não havia sequer sinal da bolsa lateral que ele carregava quando ia
para a aula. – Vou pegar meu irmão no aeroporto.
Ah. É verdade. A mãe de Lavínia havia dito mesmo que encontrou o Eduardo
esses dias no hall do prédio e ficou sabendo que o irmão dele se mudaria para o
apartamento – ele tem irmãos? Eduardo não era muito de falar sobre si mesmo,
mas sempre respondia com educação e simpatia suficiente para fazer a mãe de
Lavínia o achar “uma gracinha”. “Pena que é muito velho pra você”, ela dizia. O
que irritava a garota profundamente e fazia a vontade de ir pedir açúcar a ele
crescer ainda mais. “Mas talvez o irmão sirva, hein”, completava sua mãe.
― Oh. É mesmo, minha mãe comentou algo sobre isso comi...
O elevador chegara ao térreo antes mesmo que ela pudesse terminar a frase.
Eduardo empurrou a porta e abriu passagem para que ela saísse. Lavínia
agradeceu com um sorriso.
― Bom, boa aula pra ti – ele disse, dando outro gole no seu café.
― É, obrigada.
Os dois se despediram e Eduardo voltou para o elevador, porque desceria até
o estacionamento do prédio. Lavínia soltou o ar em seus pulmões, muito
frustrada, ainda mais mal-humorada do que estava quando saíra de casa por ter
acordado tão cedo. Colocou os fones novamente no ouvido e passou pela
portaria com cara de poucos amigos, tentando não pensar na voz grave do
Eduardo, nos seus olhos quase da cor do mel, ou no modo como o seu pomo de
adão se movia quando ele engolia.
Mas é claro que isso não seria exatamente fácil.
2. Vida Nova
Eduardo odiava acordar cedo, por isso o café. De alguma forma, só o
pensamento do líquido escuro e amargo já o fazia ficar mais ligado – coisa que
não era lá muito fácil de se conseguir às seis da manhã. Eduardo funcionava
devagar, precisava do dobro de tempo para fazer as coisas quando acordava cedo
– mas acordava. Nunca perdia a hora para nada. Depois de um longo banho
quente – ou frio, quando o calor do Rio não permitia a ele nada quente além do
café – e da sua bebida, o dia finalmente podia começar.
Por isso ele ficava sempre muito chocado quando encontrava a garota do
1208 com aqueles fones de ouvido ensurdecedores ligados logo tão cedo. Como
é que ela conseguia raciocinar com aquilo tocando? O rapaz não suportaria a
barulheira às sete da matina nem por um segundo, quiçá três minutos e meio.
Mas ela, a garota, era mesmo chegada a barulhos de qualquer maneira, se é
pra ser sincero. Vivia colocando o som nas alturas ou fazendo o que só podia ser
um ensaio para show de rock, que tremia o teto do apartamento de Edu e tirava a
concentração dele quando tentava estudar tarde da noite. Coisa de adolescente.
Ele achava engraçado o modo como ela estava sempre usando aqueles tênis
vermelhos surrados. Quantos anos eles deviam ter? Fazia lembrá-lo de um amigo
de escola que tinha lá em Assunção e sua camiseta do Pink Floyd que nunca
havia sido vista fora do seu corpo. Os tênis, entretanto, eram legais.
Combinavam com os headfones também vermelhos e a tonalidade das suas
bochechas.
Ela sempre corava perto dele e isso não passava despercebido. Ele estava
acostumado às meninas do prédio dando risadinhas quando aparecia no elevador
ou gritando “Gostoso!” assim que passava. O que o deixava tímido para
caramba, mas ninguém precisava saber desse detalhe específico.
Pelo menos Lavínia conseguia fazer contato visual sem parecer que ia sair
voando, o que já era um alívio para o rapaz.
Ele dirigia pela cidade naquela manhã quente de fevereiro até o aeroporto
Santos Dumont, que, por sorte, ficava bem perto do seu apartamento em
Botafogo. Estava empolgado para receber seu irmão e dividir a moradia com ele
de novo. Fazia tanto tempo que saíra de casa pra morar sozinho que não tinha
como evitar a felicidade por poder ter outra pessoa vivendo junto todos os dias.
Principalmente se essa pessoa fosse o Guto.
Para um cara que crescera com quatro irmãos mais novos, morar sozinho era
quase uma penitência. No início ele achou que seria a sua grande libertação, mas
a realidade era que Eduardo se sentia muito solitário quase que o tempo todo.
Mas isso ninguém precisava saber também.
Quando ele chegou ao aeroporto, tanto Guto quanto Calíope já o estavam
esperando. O sorriso no seu rosto era gigantesco por vê-los ali e Eduardo
cumprimentou o irmão com um abraço e a irmã postiça com dois beijinhos.
― Vocês estão aqui há muito tempo? – ele perguntou, preocupado. Tinha
certeza de que saíra de casa na hora.
― Capaz! O voo adiantou e aproveitamos pra Cali repassar comigo as coisas
que eu não deveria dizer aqui.
― Não diga “piá” – Eduardo o advertiu. – Sério. Ninguém entende.
― Foi a primeira coisa que eu falei! – Cali lançou um olhar desafiador para o
namorado, como quem diz “tá vendo só!”, arrancando uma risada dos dois
irmãos.
― Guria metida essa minha – Guto disse, soando tão apaixonado quanto
Eduardo nunca havia visto antes. O que era de se esperar, já que os dois
passaram por poucas e boas pra poderem ficar juntos, e isso incluía ter que ficar
mais de dez meses longe um do outro.
Eduardo sempre torceu para que tudo desse certo no final, para ser sincero.
Ele não era exatamente um cara romântico como o seu irmão, mas o conhecia
como ninguém. E sabia que era aquilo o que o deixaria feliz.
Mas ah, como era bom poder ouvir o sotaque de Assunção em pleno Rio de
Janeiro! Eduardo adotara a cidade carioca como sua casa e não tinha pretensão
de ir embora, mas às vezes era involuntária a saudade que sentia do interior do
Paraná. Eram sempre as coisas simples o que fazia mais falta. A paz da cidade
pequena onde crescera, os “tu” conjugados, a neblina das noites congelantes de
inverno.
Guto agora estava embarcando na mesma aventura que ele se metera há
quatro anos e meio, pronto para a universidade. Ao contrário de Edu, seu irmão
nunca teve o sonho de fazer faculdade, mas não havia muita escapatória disso
hoje em dia se você quisesse ter um bom emprego no futuro, segundo o pai dos
rapazes. Calíope também seria caloura esse ano, mas o Rio não era novidade
para ela. Ela estava voltando para casa.
― Bom, seja bem-vindo à Cidade Maravilhosa – Edu saudou, balançando o
ombro do irmão, que parecia explodir de felicidade. – Depois de ter viajado o
mundo todo eu acredito que “dificuldades para se ajustar” não faça mais parte do
seu vocabulário.
― Isso nunca fez!
― Você vai vir com a gente, Cali?
― Não – ela parecia desapontada. – Meu irmão vem me buscar, o Hélio.
Tenho que levar minhas coisas pra nossa casa.
― Cali vai dividir a casa antiga dela em Jacarepaguá com os gêmeos – Guto
explicou e Eduardo assentiu. – Sorte a Clara não ter vendido quando eles se
mudaram.
Fará dois anos em agosto que Cali e sua família foram morar em Assunção.
Isso porque a mãe dela – Clara, ex-professora do Eduardo na UFRJ
(Universidade Federal do Rio de Janeiro) – se casou com o pai deles e as duas
famílias passaram a viver juntas – o que dava um total de dez filhos morando
sob o mesmo teto, mais o Eduardo, que ia visitar bastante.
É claro que Guto e Calíope se apaixonarem não fazia parte do pacote
esperado, mas aqui estavam eles. Passaram mais tempo separados do que juntos,
por causa da viagem pelo mundo que o garoto fizera no ano passado, mas desde
que voltou os dois decidiram viver lado a lado o seu amor no Rio de Janeiro. Na
universidade.
Vida nova para todos.
― Sorte mesmo porque o apartamento do vovô ia ficar pequeno – ela disse. –
Mas vocês podem ir andando, o Hélio já deve estar chegando.
Eles bem que tentaram ficar para fazer companhia a ela, mas Calíope insistiu
tanto, dizendo que não era necessário, que os dois foram obrigados a ir embora.
E foi assim que Eduardo acabou rodando com o carro pra mostrar a cidade ao
seu irmão enquanto ouvia todas as últimas notícias sobre a enorme família que
eles tinham. Aparentemente o pai deles havia finalmente parado de surtar sobre
Guto e Cali dormirem na mesma casa todas as noites. As coisas andavam meio
tensas desde que Guto voltara de viagem no último novembro, porque... Bem. A
história era complicada. Ninguém pode negar ou ficar surpreso.
Eduardo levou o irmão para tomar café da manhã na sua padaria preferida,
que ficava somente a uma quadra do prédio deles. Eles deixaram as coisas em
casa e foram para lá a pé, agora conversando sobre a viagem de Guto, que
sempre aparecia no meio de toda e qualquer conversa em que ele estivesse
metido.
Andando pelas calçadas de Botafogo, os dois pararam a espera de que o sinal
fechasse para poderem atravessar a rua. Foi no meio de uma gargalhada por
causa de uma piada que Guto contara sobre sua estadia na Dinamarca que
Eduardo avistou um par de tênis vermelhos do outro lado da rua. Primeiro ele
desviou o olhar, sem captar nenhum reconhecimento. Mas meio segundo depois,
voltou a fitar naquela direção.
Havia um grupo de adolescentes fazendo algazarra e, no centro deles, estava
Lavínia, seus tênis e seus fones de ouvido pendurados no pescoço. Um dos
garotos – o único que não usava uniforme – segurava um engradado de cerveja
como se aquela fosse a maior conquista do mundo, e Eduardo acompanhou todo
o movimento de Lavínia enquanto ela levava uma garrafa à boca
despretensiosamente.
Ele ficou encarando sem nem perceber que estava encarando, surpreso e
tentando se lembrar “quantos anos ela tinha mesmo?”. De jeito nenhum era
maior de idade, disso ele tinha certeza. Assim como também sabia que a essa
hora da manhã ela deveria estar na escola e não... Caramba.
Quando os olhos de Lavínia encontraram os dele, a menina também
congelou; a garrafa pendendo em sua mão na metade do caminho de volta para a
boca. Os dois ficaram assim, olhando um para o outro sem saber qual reação ter
a seguir.
O sinal fechou e as pessoas começaram a atravessar a rua – inclusive o Guto,
que se virou para trás quando percebeu que o irmão ainda estava parado e disse:
― O que houve, pi... Cara?
Mas Eduardo não teve sequer tempo de responder, porque no momento
seguinte, quando seu olhar se desviou por um segundo de volta para o irmão,
Lavínia entregou a garrafa de cerveja a um dos amigos e saiu correndo calçada
afora. Eles gritaram por ela, chamando-a de maluca e rindo das coisas que
adolescentes riem, como se o mundo pertencesse a eles.
Eduardo espiou a frente, enquanto ela se distanciava com os tênis vermelhos
batendo com força no chão de cimento. Ele se moveu também, finalmente
atravessando a rua e pensando no que diabos aquela menina estava fazendo.
3. Força do Pensamento
Lavínia tinha certeza absoluta de que agora estava muito ferrada.
Veja bem, embora ela fosse um espírito livre pairando por essa terra de robôs,
seus pais não faziam exatamente o tipo “liberal”. E se eles soubessem que ela
estava matando aula com a turma dos Capirotos para beber cerveja e dar uns
beijos no Paulo, ela já podia se considerar uma pessoa morta.
A garota corria pela calçada praguejando dentro da própria cabeça e só parou
quando foi vencida pelo próprio fôlego – ou falta dele. Tirou o celular da
mochila e mandou uma mensagem de voz desesperada para Cami, porque era
sempre para ela que Lavínia corria quando as coisas apertavam.
Droga, ela nem gostava assim de cerveja. Tampouco do Paulo. Só estava
querendo curtir um pouco a vida.
― Cami, pelo amor de Deus, me ilumina com a luz da sua sabedoria – ela
pediu, com o desespero e a falta de ar presentes na voz.
Um minuto depois, sua amiga já estava ligando e Lavínia atendeu no primeiro
toque.
― O que você fez dessa vez? – Cami perguntou, com a voz entediada, nem
um pouco surpresa pela amiga estar precisando de ajuda de novo. Quer dizer,
aquele era meio que um acordo não verbalizado entre as duas: Lavínia fazia a
confusão e Cami a ajudava a arrumar a bagunça. O que poderia parecer injusto
que sempre fosse assim, mas Cami era a pessoa mais certinha que existia.
No dia em que Cami se metesse em alguma enrascada e Lavínia a ajudasse a
sair era porque o mundo estava mesmo de cabeça para baixo.
― Você matou aula com os Capirotos, não foi? – sempre certeira. Nesse
momento ela deveria estar trancada em uma das cabines do banheiro feminino da
escola estreitando seus olhos como se o efeito repreensivo deles pudesse chegar
até Lavínia pelo telefone. – Sua maluca, por que você faz essas coisas?
― Você sabe que eu estou super afim do Paulo! – ela se defendeu, mesmo
achando aquela uma desculpa esfarrapada. Nem Lavínia sabia por que fazia
essas loucuras, mas havia algo de prazeroso em descumprir as regras. Uma
sensação de perigo que agitava algo dentro dela e a fazia se sentir no topo do
mundo. – Mas a questão não é essa. O problema é que depois que o Fabrício
conseguiu comprar a cerveja no mercado, eu esbarrei com o meu vizinho!
― Que viz... Ai meu Deus, o Bonitão? – Cami se alterou do outro da linha e
Lavínia agitava os braços, andando de um lado pro outro sem parar. No meio da
rua.
― Sim! E agora? E se ele falar alguma coisa pros meus pais? A minha vida
vai acabar.
― Calma, Nia – Cami pediu, tentando pensar e evitar o caos, embora a
situação a tenha pego de surpresa. Não era pior do que quando teve que mentir
para todo mundo que Lavínia ia dormir na casa dela quando, na verdade, ia
passar a noite com o ex-namorado. Mas ao menos daquela vez nada de ruim
aconteceu. Além, é claro, da úlcera nervosa que Cami ganhou de presente.
― Eu não tô nem um pouco calma!
Ela não sabia se o problema era realmente ter sido pega em flagrante ou se o
agravante principal era o vizinho. A garota se sentia ridícula e totalmente juvenil
sendo vista por ele matando aula e tomando bebida alcoólica como se aquilo
fosse o ápice da sua vida insignificante.
― Ele ainda é jovem, não acho que vai te dedurar pros seus pais. Se fosse o
meu vizinho ranzinza de setenta e sete anos aí com certeza não teria jeito. Mas
há uma chance muito grande do Bonitão “fazer a egípcia” e fingir que não viu
nada.
― Mas e se não? E se ele achar que tem o dever, em nome da boa vizinhança
e dos bons costumes, de alertar os meus pais sobre a péssima conduta da filha
adolescente?
― Você precisa falar com ele, então – Cami concluiu ao mesmo tempo em
que Lavínia continuava:
― Se eles descobrem, minha viagem de carnaval será cancelada.
E Lavínia quase se engasgou com a própria saliva quando se deu conta do que
a amiga havia dito.
― Você ficou maluca?
― Estou perfeitamente sã – Cami não se abalou. – O único jeito é conversar
com ele e pedir que não conte nada, inventa que foi a primeira vez que você fez
algo assim e blábláblá. Faz a boa menina arrependida. Ele tem cara de quem vai
amolecer.
O pior é que ele tinha mesmo.
― Vou parecer uma idiota se eu fizer isso – Lavínia lamentou, mas no fundo
sabia que não haveria outro jeito. Precisava ao menos ter certeza de que o
Eduardo não a deduraria e acabaria com seus planos para o feriado.
― Você me pediu ajuda e eu estou te ajudando. Agora vê se aprende e para de
dar mole saindo com esses desajuizados há duas quadras da sua casa. Às vezes
eu acho que você quer ser pega, não é possível.
Lavínia encolheu os ombros e roeu a unha do dedo indicador parcialmente
pintado de azul anil.
― Eu realmente gosto muito de beijar – ela choramingou. – E o Paulo faz
isso como ninguém. Além do mais, hoje tinha aula de química orgânica.
― Eu sei. Estava no meio dela quando saí correndo pra atender minha amiga
desparafusada.
― Então de nada! Olha só quem está salvando quem dessa vez.
Cami bufou do outro lado da linha e Lavínia abriu um sorriso largo, muito
mais calma agora que pudera conversar com a sua consciência ambulante.
― Vai logo conversar com o Bonitão e vê se não me aparece com mais
problema pelo menos até o fim do dia.
As duas desligaram e Lavínia fez o caminho de volta para casa, andando
dessa vez. Seus pais estavam trabalhando e terça não era o dia em que a diarista
vinha limpar o apartamento, portanto estava livre para passar o resto da manhã
pensando nas consequências dos seus próprios atos e jurando que nunca mais
faria nada imprudente assim.
Ela começou a responder as mensagens dos amigos assim que conectou o
celular no wi-fi de casa, porque seu 3G custava dinheiro do próprio bolso e ela
sempre optava por economizar. Anaju, que estava com ela e os Capirotos
naquela manhã, a tinha bombardeado com mensagens de texto e de voz, mas a
julgar pelas risadas ao fundo, eles não estavam preocupados.
Cami não gostava muito que Lavínia andasse com Anaju porque a achava
uma péssima influência. Só que Lavínia nunca precisou de companhias erradas
para fazer besteira, ela era a própria má influência e gostava bastante da atenção
que recebia de Anaju e sua turminha descolada.
Elas começaram a se falar no final do ano passado, quando o ex-namorado de
Lavínia espalhou para o colégio inteiro que tinha nudes dela no celular e
cobraria 30 reais de cada um que quisesse ver. Isso porque ela havia terminado
tudo e o idiota não sabia lidar com a rejeição. É claro que Lavínia não deixou
por baixo e desafiou o ex-namorado da seguinte maneira: se ele realmente
tivesse nudes dela, ela mesma tiraria a camisa ao vivo para todo mundo que
tivesse pago os 30 reais.
Em pleno pátio do colégio.
É claro que Juliano – o ex – não tinha foto alguma e passou a maior vergonha
perante todos os alunos da escola. Além disso, Lavínia – convencida por Cami –
fez uma queixa formal à diretoria sobre o ocorrido e causou uma suspensão de
uma semana para o idiota. Foi só o ano terminar para ele mudar de colégio tendo
em mente que mexer com Lavínia Lemes era mexer com fogo.
Por causa da repercussão do “mostro meus peitos pra todo mundo se você
tiver fotos deles no seu celular de quinta” – essas foram as exatas palavras dela
naquele dia –, Lavínia acabou virando uma espécie de lenda dentro da escola e
os quinze minutos de fama renderam um convite de Anaju para a social que teria
na sua casa na semana seguinte. Foi assim que elas ficaram amigas e que Lavínia
começou a ficar com o Paulo – um dos garotos Capirotos que eram o maior
terror da diretoria.
Aparentemente Anaju e Fabrício – o Capiroto líder – eram amigos de
infância, e os grupos deles sempre acabavam saindo juntos. Cami não gostava
dos Capirotos porque, bem, eles eram malucos e só faziam merda, e não gostava
do grupo de Anaju porque as achava um bando de falsianes. “Ninguém é amigo
de verdade de ninguém ali”, ela dizia. Mas Lavínia não estava necessariamente
interessada em criar uma amizade verdadeira. Para isso ela tinha Cami e Isabel.
Ela simplesmente gostava de sair com Anaju e, não podia negar, de ser vista com
ela também.
Só um pouquinho.
A garota passou a manhã inteira tentando decidir como abordar Eduardo. É
claro que estivera esperando por anos por um pretexto para falar com ele, mas
não queria que fosse assim nessa situação constrangedora. Por causa disso estava
parada diante do espelho do seu quarto ensaiando o que deveria dizer.
― E aí, gato? Vamos trocar uma ideia sobre aquele assunto hoje de manhã? –
ela tentou, fazendo a linha sedutora.
― Não é nada disso que você está pensando! Eu juro! – improvisou com a
linha desesperada.
― Por favor, eu nunca tinha feito isso antes na vida. Foi a primeira e última
vez – ela disse, batendo os cílios de um jeito tristonho para conquistar a pena
dele com a faceta “cão arrependido”.
Lavínia soltou um suspiro frustrado e se jogou na cama repetindo um mantra
mental – “Não conte para os meus pais. Por favor, não conte para os meus pais.”
– como se isso, de alguma maneira, pudesse ser usado como vodu para
convencer Eduardo.
Não dizem que a força do pensamento é tudo? Lavínia estava desesperada
para provar que isso era verdade.
Ela foi até a cozinha e pegou a caneca vermelha que usava toda manhã para
tomar seu leite. Se teria que fazer isso, faria com a sua companheira de fetiche. E
foi assim que desceu até o 10º andar do prédio e acabou parando na frente do
apartamento do Eduardo, exatamente debaixo do seu.
Ela respirou fundo, tentando se acalmar, e tocou a campainha.
4. Prodígio
Não era tão fácil quanto parecia ser um prodígio. Eduardo sabia disso em
primeira mão, embora já estivesse acostumado a todos se referirem a ele como
“o grande sortudo”. Bem, era mesmo muito confortável, de certa maneira, estar
um passo à frente das outras pessoas, mas, ao mesmo tempo, isso poderia ser
muito... chato.
Eduardo já sabia qual seria o tema do seu trabalho de conclusão de curso
desde o terceiro período na faculdade. Ele começou a fazer pesquisas de
iniciação científica e a receber a bolsa da Universidade no quarto semestre, ao
mesmo tempo em que caiu nas graças de uma das maiores doutoras da área que
o interessava dentro da História. Ele já deveria ter se formado no final do ano
anterior, mas por precisar fazer duas matérias que só tinham turmas no mesmo
horário, teve que ficar um semestre a mais.
Em julho ele receberia seu diploma de historiador – com honras – pela UFRJ
e daria início ao mestrado, como sempre planejou, logo em seguida. Ele era o
orgulho da família, o cara mais centrado e inteligente que todos conheciam.
Responsável, carismático, incrivelmente bonito. Às vezes era até difícil achar
defeitos naquele ser humano feito de perfeições.
Ele trabalhava pesquisando com sua professora orientadora – Glória Padilla, a
tal Doutora referência nos estudos sobre a família Romanov – e ainda fazia
consultoria para uma editora de livros que precisava de um especialista para
desenvolver a sua próxima obra – Eduardo foi escolhido, é claro, por indicação
da Glória.
Não havia sequer uma falha na sua vida acadêmica – a não ser o atraso de um
semestre na formatura, mas isso fora incompetência da faculdade, não dele – e
seus planos de se tornar professor universitário e pesquisador seguiam sólidos
como uma rocha. Talvez ele mesmo escrevesse um livro no futuro, quem sabe
virasse um nome tão importante quanto o de Glória. Ser seu pupilo preferido
certamente ajudaria.
Tudo a respeito da vida de Eduardo – porque toda a vida dele, honestamente,
se resumia aos seus estudos – era tão preciso e exato quanto uma equação
matemática.
E era exatamente aí onde morava o problema.
Enquanto Guto contava sobre suas expectativas para o ano que se iniciava
durante o café da manhã, Eduardo tentou se lembrar como era se sentir assim,
tão animado com o rumo da própria vida que mal conseguia conter o brilho nos
olhos. Era estranhíssimo que o fato de tudo ter corrido perfeitamente bem, sem
pedras no caminho, fosse o motivo pelo qual ele se sentisse tão... vazio.
Tudo ter dado tão certo o fazia sentir como se houvesse algo de errado.
― Tu tá me ouvindo, piá? – Guto chamou a atenção do irmão, franzindo a
testa de um jeito curioso.
― Ah... – Eduardo tentou disfarçar a sua distração com um sorriso amarelo,
mas os dois se conheciam muito bem. – Sim, está tudo bem, eu só estava
divagando. O que você disse mesmo?
― Que é melhor a gente ir andando. Meu celular descarregou e a Cali ficou
de me avisar quando chegasse em casa, mas até agora nada.
Eduardo abriu um sorriso provocante e balançou a cabeça, zombando do
irmão.
― Tu tá com a cabeça virada por essa guria, hein? Quem te viu, quem te vê.
João Augusto lançou um olhar significativo para Eduardo.
― Talvez você devesse seguir o meu exemplo. Sabe, namorar de vez em
quando.
Mas o irmão mais velho apenas deu de ombros como quem diz “fazer o quê”.
Ele não tinha nada contra namoros especificamente, mas relacionamentos eram
muito complicados. Ele podia ser expert em tirar notas máximas em provas
surpresas da faculdade, mas tinha zero desenvoltura para lidar com garotas.
Não era à toa que o Guto, mesmo sendo dois anos mais novo, tivesse muito
mais experiência.
― Eu estou falando sério – o caçula não se deu por vencido. – Não te vejo
empolgado com nenhuma guria desde a Carla. E tu tinhas o quê? 17 anos?
Argh. A Carla.
― Eu tinha 18 – Edu respondeu rápido, não querendo falar sobre aquele
assunto desagradável. – E a gente devia mesmo ir embora.
Ele fez menção de se levantar e guardou o celular dentro do bolso da calça.
Guto levantou também, só observando o irmão com seu olhar julgador.
― Tu não vais escapar de mim tão fácil assim, piá. Espera só eu contar pra
Cali que você precisa de uma namoradinha. Ela tem uma lista de amigas pra te
apresentar.
Eduardo apenas riu e pegou os canhotos pra poder pagar a conta no caixa. Os
dois se direcionaram para lá com o mesmo caminhar despreocupado, os mesmos
cabelos castanhos, os mesmos ombros largos e o mesmo nariz irritantemente
perfeito.
Inegavelmente irmãos.
― Não preciso de uma namorada – ele disse enquanto entregava o cartão pra
moça do caixa. Digitou sua senha rapidamente.
― Precisa ao menos se divertir. Aposto que no tempo livre passa o dia inteiro
dentro de casa lendo sobre pessoas mortas.
― Tu estás muito enganado porque, pra começar, não sei o que é tempo livre
e, quando descubro, o ocupo com Muay Thai.
Guto ficou paralisado por um segundo.
― Você luta Muay Thai? – Começou a rir descontroladamente no momento
em que eles saíram para a rua, de um modo que fez Eduardo se virar para ele,
sem saber qual era a graça. – Desculpa, irmão, mas tu é a pessoa menos atlética
que eu conheço.
Em defesa de Eduardo... Não. Não existia defesa para ele nesse caso. O rapaz
realmente odiava exercícios físicos.
― Está vendo por que não contei nada antes? Já faz mais de um ano, se tu
quer saber, pirralho.
Guto ainda não havia conseguido parar de rir.
― Então foi por isso que tu de repente começasse a ficar todo definido?
Achei que estivesse tomando Whey.
― Desde quando você virou esse piadista? – Eduardo implicou, mas não
conseguiu evitar rir da tirada. – O que andou aprendendo nessa viagem?
― Que nada! Convive com a Cali todo dia e tu fica assim em um segundo.
Os dois voltaram para casa falando sobre Muay Thai, porque Guto ainda
estava chocado com a nova façanha do irmão mais velho. Sua atenção,
entretanto, foi perdida no momento em que ele chegou em casa e colocou o
celular para carregar. Eduardo deixou-o conversando com a namorada e foi
trocar de roupa para estudar um pouco para a prova do mestrado. Ele ainda
estava de férias dos seus deveres na faculdade, portanto tinha tempo de sobra.
É claro que ele estudaria.
Viu as mensagens de alguns amigos o chamando para ir à praia, mas elas
eram de mais cedo e provavelmente eles já estavam lá há horas. Também não era
como se Eduardo estivesse muito a fim de ir, para início de conversa.
Enquanto lavava a pequena louça da noite anterior, o cabo vermelho dos
talheres o fez se lembrar de Lavínia.
Ele havia ficado chocado quando viu a menina onde obviamente não deveria
estar, fazendo o que obviamente não deveria fazer. Ela tinha cara mesmo de ser
doidinha, mas Eduardo não imaginava que fosse tanto. E o modo como ela
correu quando o viu do outro lado da rua? Aquela menina não tinha o mínimo
juízo e se os seus pais descobrissem tudo... Edu podia apostar que eles não eram
o tipo que deixam essas coisas passarem em branco sem uma atitude disciplinar.
No que ela estava pensando?
Provavelmente em nada.
Ele secou a louça e a guardou no armário com calma, ouvindo o irmão dar
risadas no telefone com Calíope. “Isso é tão estranho”, ele pensou com um
sorriso. Guto apaixonado. Ainda estava pensando nisso quando percorreu a sala
para atender a campainha tocando. Quando abriu a porta, deu de cara com a sua
vizinha do andar de cima.
A maluquete fujona.
Lavínia.
Seus cabelos castanhos escuros estavam soltos, selvagens ao redor do rosto
vermelho. Os olhos azuis – ou talvez fossem verdes? – arregalados tentavam
transpassar segurança, mas o modo como ela apertava o cabo da caneca
vermelha que segurava indicava nervosismo.
“Ela é tão baixinha”, foi a primeira coisa que Eduardo pensou quando a viu
ali, parada diante dele na sua porta. A única pessoa mais alta que ele conhecia
era o seu irmão, mas ainda assim a baixeza de Lavínia o chamou a atenção.
O rapaz não soube o que dizer de imediato, foi totalmente pego de surpresa
pela visita. Ele sabia que ela queria falar sobre o ocorrido, mas não imaginava o
que poderia ser dito.
― Você está ocupado? – perguntou, tentando soar comedida.
Deus, ela estava nervosa. E Edu não soube o que fazer com isso.
― Hum – ele se virou para trás, fitando o irmão sentado no sofá ao telefone.
Então voltou a atenção para Lavínia, cauteloso em todos os movimentos. – Não
exatamente.
Ela assentiu e mordeu o lábio inferior sem nem perceber que fizera isso, mas
não passou despercebido para ele. Parecia lutar contra o constrangimento, o que
era engraçado porque a menina sempre esbanjou confiança em todas as suas
ações.
Porém não naquele momento.
Eduardo esperou que ela se manifestasse e Lavínia bem que tentou começar
devagar, mas sutileza não era mesmo o seu forte. Ela suspirou, desistindo de
tentar racionalizar o que deveria dizer, e Eduardo foi surpreendido novamente
quando o olhar intenso e decidido dela o fitou.
― Olha só, eu sei que você me viu hoje de manhã. Não preciso tentar enrolar
sobre isso, né? Eu pisei na bola, eu sei. Não é legal matar aula pra beber com os
amigos.
― Além de ser ilegal – ele comentou e recebeu uma levantada de
sobrancelhas que, meu Deus, o intimidou.
― É. Ilegal. Mas eu juro que não estava fumando, eu não estava e isso que
importa, né?
Os olhos do rapaz se arregalaram na mesma hora.
― Seus amigos de quinze anos estavam fumando?
Lavínia, percebendo a burrada que fizera, quase quis arrancar a própria língua
fora por ela ser tão grande.
― Olha, não é o que você está pensando – ela tentou reparar o estrago, mas
Eduardo já estava horrorizado. – Ah, pelo amor de Deus, você nunca foi
adolescente? Nem faz tanto tempo assim – tentou se defender, visivelmente
estressada.
― O que exatamente tu queres? – ele foi direto ao ponto e mal sabia o
descompasso que causava dentro da menina quando usava aquele sotaque
sulista, assim, sem nem se dar conta.
Lavínia engoliu em seco e cruzou os braços, tentando manter a compostura.
― Você não vai contar aos meus pais, vai?
Ah. Então era isso.
Eduardo cruzou os braços também e se apoiou com o ombro no batente da
porta, fitando-a como quem pensa “agora saquei qual é a sua”. O que, de fato,
era exatamente o que ele estava pensando naquele momento.
― Tu quer que eu te acoberte? – ele indagou, tentando disfarçar o tom de
divertimento na sua voz. Fez de tudo para conter o sorrisinho em seus lábios,
mas Lavínia estava tão nervosa que sequer percebera.
Essa menina é maluca.
― Se você puder fazer essa gentileza eu seria eternamente grata. E todas as
poucas pessoas que já mereceram a minha gratidão até hoje não têm do que
reclamar.
Faltou apenas um pouquinho para Eduardo cair na gargalhada. Mas ele não o
fez, pelo contrário, permaneceu sério com aquele olhar de superioridade que,
como irmão mais velho de dez pessoas, sabia fazer muito bem.
― Posso pedir um tempo pra pensar no assunto?
Lavínia quase se contorcer de angústia, mas respirou fundo. Ela assentiu,
porque não havia nada mais que pudesse ser feito a essa altura do campeonato.
― Quanto tempo?
― Você saberá – ele disse.
― Ótimo – ela respondeu.
Os dois ficaram ali se encarando sem saber mais o que dizer. A tensão tão
grande que era quase sólida, principalmente vindo de Lavínia.
“Quem esse cara pensa que é”, foi a primeira coisa que ela pensou.
“Isso vai ter volta”, foi a segunda.
E, geralmente, quando Lavínia Lemes pensava isso, a coisa pegava fogo.
5. Contrariada
Às vezes, Lavínia odiava a racionalidade da sua melhor amiga.
― É você quem está errada – foi o que Cami disse depois de ela contar o
absurdo de conversa que teve com o Eduardo. Ele foi um verdadeiro... Um
verdadeiro... Idiota.
Embora ainda muito gostoso.
Camila estava mordendo a borracha na extremidade do lápis azul que ganhou
no seu curso de inglês, enquanto tentava resolver os problemas do exercício de
matemática que o professor mandou os alunos fazerem. Para a sorte de Lavínia,
ela era esse tipo de pessoa que conseguia fazer contas complexas e conversar ao
mesmo tempo, embora suas respostas fossem tão pontuais quanto as das
equações.
Seu cabelo gigantesco e tingido de laranja estava amarrado em uma trança
frouxa naquele dia. Cami era alta, magra, tinha um rosto interessante e saía bem
em todas as fotos. Sua pele era amarelada – daquelas que pegavam um
bronzeado maravilhoso, ela usava um piercing no septo e se vestia como as
garotas nas fotos do Tumblr, mesmo sem ter exatamente essa pretensão. Ela era
basicamente uma princesa hipster e irritantemente sensata. Do tipo que sabia
exatamente o que fazer e o que não fazer e não sobrava espaço no seu cérebro
evoluído para dramas adolescentes.
Cami era a pessoa mais chata que Lavínia conhecia, mas também a melhor.
As duas eram tão diferentes que chegava a ser absurdo, mas costumavam
dizer que se completavam. É claro que Lavínia às vezes se sentia uma tampinha
ao lado da criatura esbelta de 1,72 metros de altura que a amiga era. Lavínia
definitivamente não era magra e tinha as pernas grossas e meio compactas, o que
tinha certeza de que a fazia parecer ainda menor. Seus seios eram grandes,
entretanto, e isso ela jogava na cara de Cami, a tábua reta.
Ela fez um coque nos cachos castanhos e prendeu com o seu lápis vermelho –
também do curso de inglês da Cami – enquanto bufava para eliminar a frustração
que era não ter o apoio incondicional da melhor amiga.
Ao menos Isabel podia ficar do lado dela.
A garota se virou para trás e o olhar de Isabel saltou do seu caderno para o
rosto ansioso de Lavínia. Ela revirou os olhos, pois, se conhecia bem a amiga,
sabia que lá vinha alguma história.
― Eu estou tentando terminar o exercício – já foi logo advertindo. – Prometi
à minha mãe que esse ano não ficaria de recuperação.
Lavínia então explicou toda a situação para a amiga de pele negra, que se
assemelhava ao tom moreno da pele da própria Lavs. Seus cachos recentemente
tingidos por californianas cor de mel deixavam Isabel parecendo a própria
Beyoncé, o que era sempre maravilhoso. Aparentemente Lavínia era a única que
ainda tinha o cabelo virgem em toda a escola, coisa que não podia ser dita sobre
outras partes do seu corpo.
Para espanto da garota, o que Isabel fez foi rir.
― Não entendi qual é a graça, ele ainda pode me ferrar!
― Amiga, ele só está brincando com você e pelo visto está conseguindo –
Isabel pontuou, ainda de bom-humor. Antes de voltar a fazer a tarefa de
matemática, ela ainda disse: – Vai ocupar sua cabeça com alguma coisa útil.
― Tudo bem aí, Lavínia? Isabel? – o professor Inácio chamou a atenção delas
e Lavs se virou para frente, nem um pouco satisfeita com suas amigas nada
dispostas a xingar o seu vizinho.
A questão era a seguinte: Lavínia não gostava de ser contrariada e tinha muita
dificuldade em reconhecer a hora de parar. Ela vivia sempre a mil, com os
hormônios à flor da pele, e se algo soasse minimamente como um desafio para a
garota, ela o aceitava e entrava no jogo para ganhar. Eduardo, mesmo que sem
querer – e Lavínia duvidava que ele fosse inocente –, estava mexendo com a
garota. Ele devia mesmo estar rindo da cara dela e seu desespero para que ele
não revelasse aquele segredo sórdido aos seus pais.
E a menina odiava se sentir por baixo.
― E no seu aniversário, vai fazer o que? – Anaju perguntou durante o
intervalo daquela manhã. Ela degustava um croissant de chocolate (seu
preferido) e o cabelo curto e escuro estava, como sempre, muito bem escovado.
Lavínia não fazia ideia de como ela tinha disposição para passar delineador nos
olhos (sem nenhuma imperfeição) logo de manhã cedo, mas Anaju não saía de
casa sem a sua maquiagem.
― Ainda não sei nem se vou estar viva na semana que vem, quanto mais no
mês que vem – ela resmungou e se jogou na mesa redonda de alumínio. Mas
todos os seus amigos mais próximos já tinham dezesseis anos então esse
aniversário era algo pelo qual ela esperava ansiosamente.
― Você podia fazer um acordo com ele em troca do silêncio.
Lavínia levantou a cabeça e encarou a amiga.
― Estou ouvindo.
Anaju, que sempre gostou muito de atenção, se inflou como um galo. Ela
chegou o corpo pra frente como se fosse contar algum segredo.
― Ofereça serviços sexuais, simples assim.
― Ana Júlia!
― Quem está oferecendo serviços sexuais aí? – Paulo chegou por trás de
Lavínia com uma expressão maliciosa e deu um beijo na sua bochecha antes de
se sentar com as duas meninas. Fabrício e André estavam com ele, como sempre.
– Se for pra mim, eu aceito.
Lavínia abriu um sorriso provocador para ele, que levantou uma sobrancelha
como se a estivesse desafiando a beijá-lo bem ali.
Ela bem que gostaria, se não houvesse a regra estúpida contra beijos dentro
do colégio.
― Não é da conta de vocês – Anaju retrucou, mordendo seu croissant e dando
uma cotovelada em Fabrício, que tentava roubar o salgado dela.
Todos ali eram da outra turma do segundo ano e, às vezes, Lavínia lamentava
não dividir a sala com eles. Principalmente o Paulo, que era um moreno, alto,
bonito e sensual e fazia maravilhas com aquela língua na boca dela.
Às vezes Lavínia se achava uma depravada, mas fazer o quê. Ainda bem que
existia o feminismo.
― Está tudo certo pro carnaval né, Aninha? – Fabrício perguntou. Ele era o
único que a chamava assim, mesmo Anaju detestando diminutivos.
― Sim, meus pais já falaram com os pais da Thaís, que era a única que ainda
faltava confirmar.
― Ah, cara, eu queria muito ir. Mas vou viajar com a família pra Porto de
Galinhas – André lamentou.
― E você tá reclamando, leke? – Fabrício deu um tapa no pescoço do amigo.
– Ah, se meus pais viajassem assim também.
― Afinal, quem é que vai viajar? Nós quatro aqui e a Thaís? – Paulo quis
saber. Anaju trocou um olhar solidário com Lavínia antes de responder.
― Bem, sim. Eu, você, Fabrício e Thaís. E a Lavi.
Paulo abriu um sorriso satisfeito e fitou a garota ao seu lado, aquela dos olhos
azuis e temperamento forte que ele adorava.
― Que maravilha – disse. – Uma semana inteira na praia com a maluquinha.
Lavínia normalmente teria incentivado o flerte, estaria também tão
empolgada quanto ele para passarem o carnaval juntos. Mas, no momento,
estava pilhada demais com a possibilidade de não poder ir.
― Por falar nisso, e a Carol? – André indagou. Todo mundo sabia que ele era
a fim da Carol e ele nem fazia questão de disfarçar. – Tem notícias dela?
― Ainda precisa ficar de repouso por causa da cirurgia, mas depois do
carnaval ela volta. Por isso ela não vai com a gente pra minha casa de praia em
Cabo Frio.
― O que foi que ela operou mesmo? – Fabrício fez a sua cara de confuso, tão
característica, e Anaju lançou um olhar fulminante na direção dele.
― Ela tirou as amigdalas, Anta. Cruzes, em que mundo você vive? Não se
esqueça de que amanhã nós vamos visitá-la.
― Sim, senhora – o garoto bateu continência de palhaçada e Anaju revirou os
olhos.
Eles terminaram o intervalo ainda conversando sobre a Carol e a viagem pra
Cabo Frio. Anaju deixou claro que precisavam ter alguma ideia incrível pra
comemorar o aniversário de Lavínia em março e os meninos concordaram em
ajudar a pensar em algo.
Eles se levantaram pra subir para suas salas, mas Paulo puxou Lavínia de
volta. Ela encarou os amigos se distanciando e depois o rosto de Paulo.
― A gente nunca consegue ficar sozinho – ele reclamou. – Que tal pegar um
cineminha na sexta? Eu pago.
Lavínia levantou as duas sobrancelhas, adorando a atenção que ele a dava e o
convite inesperado, e passou os braços pelo seu pescoço.
― Acho que seria uma ótima ideia.
― Te pego no seu curso de inglês? – propôs, segurando-a pela cintura e
morrendo de vontade de beijá-la de uma vez.
Maldito colégio antiquado.
― Esteja lá às 16h em ponto ou então eu vou embora – ela ameaçou,
provocativa, tirando um sorriso sacana dos lábios dele.
― Feito.
6. Sou de Humanas
Beber com os amigos numa quarta-feira à noite não era algo que Eduardo
fazia sempre, mas a chegada do seu irmão ao Rio merecia esse tipo de
comemoração. Ele fez alguns amigos desde que se mudara para a cidade, mas os
mais próximos eram Marcelo, Duda e Felipe. Os quatro foram calouros juntos na
faculdade de História e permaneceram amigos pelos quatro anos que se
seguiram, embora Felipe morasse em Maricá e marcar de sair com ele fosse uma
tarefa praticamente impossível.
― Uma coisa que você vai aprender rapidinho é que quase ninguém se forma
em quatro anos – Marcelo disse, bebendo sua cerveja e alisando a barba, o
verdadeiro amor da sua vida. – Nem o seu irmão se formou em quatro anos.
― Cara, se nem o Eduardo conseguiu, quem é que consegue – Felipe
concordou e todos riram na mesa.
― Só deixando claro que a culpa não foi minha – Edu se defendeu, sem saber
se deveria se sentir orgulhoso ou não da imagem que os amigos faziam dele. –
Culpe a UFRJ.
― Ah, coitadinho, injustiçado pelo sistema – Duda zombou, arrancando um
sorriso meio tímido do Eduardo.
A primeira coisa que chamava a atenção em Duda eram os seus dreads no
cabelo escuro. Ela tinha aquela cara de hippie socialista e, apesar de não ser
socialista de fato, era ativa politicamente em prol dos direitos do cidadão. Mas,
Deus, não ficava enfiando panfletos na cara dos alunos pelos corredores do
prédio da faculdade, isso não. A garota tinha bastante bom senso.
― Você sabe que pegou meu lugar né, pirralho? – Felipe disse ao Guto,
fingindo irritação. – Onde é que eu vou passar a noite agora quando quiser sair?
Não tem ônibus pra Maricá de madrugada.
Guto levantou as mãos como quem se desculpa, com o sorriso dos irmãos
Becker nos lábios.
― Ei, piá, tu podes usar o sofá, tenho certeza que o Edu não se importa.
― Que droga, por que mesmo você tem namorada, hein, Becker Junior? –
Duda comentou, espirituosa como só ela, entre um gole e outro na sua cerveja. –
Dois de vocês é demais pra qualquer uma.
Marcelo quase engasgou com a gargalhada que soltou.
― Segura esses feromônios aí, Maria Eduarda – ele disse. – A namorada do
garoto tá chegando.
― Pois eu quero muito conhecê-la, sou fã! Porque esse daqui – ela apontou
para Eduardo, implicante – nunca vi mais eremita.
― Deixa o moleque se divertir – Felipe saiu em defesa do amigo, dando um
aperto no seu ombro. – Não é todo mundo que já terminou o TCC antes mesmo
de se formar enquanto nós, reles mortais, temos nossas almas sugadas.
― Está tudo pronto porque eu deveria ter me formado em dezembro – Edu
retrucou. – E eu pesquiso com a Glória há dois anos, agora vamos parar de falar
sobre mim? Nunca vi. Se eu não conhecesse vocês, ia achar que os três estão
apaixonados.
― Você ainda não sabe que é o nosso mozão? Eu tô ofendido – Marcelo
brincou, mandando beijinho para o amigo, que riu antes de dar outro gole na sua
cerveja.
― Piá do djanho – Edu praguejou.
― Lá vem – Felipe jogou as mãos para cima, frustrado. – Volta pro
português, amigão.
― Moleque chato – ele traduziu.
― Mas não importa onde tu estejas, a zuação te persegue, hein, irmão – Guto
comentou e o irmão deu de ombros como quem diz “fazer o quê!”.
Então Duda indagou ao Guto:
― Ele já era velho assim desde a adolescência?
― Sempre foi. Já nasceu com trinta e cinco anos. As meninas todas em cima
dele e ele nem percebia.
― Nossa, então não mudou nada – Marcelo riu. – Podia tá comendo o Rio de
Janeiro inteiro, mas fica aí chupando dedo.
― Eu acho que devo ser um excelente objeto de estudo, não é mesmo? –
Eduardo ironizou. – Que tal a gente falar sobre a crise econômica?
― Pelo amor de Deus, Eduardo, a gente aqui querendo falar de mulher e você
me vem com a crise? Leke, tu pede pra ser zoado – Felipe ladrou e todo mundo
na mesa riu, inclusive o próprio Edu, que não podia evitar ser como era.
― Mas e você, Guto, vai estudar o quê? – Duda finalmente mudou o assunto,
para o alívio do amigo. Era uma boa coisa que Eduardo não gostasse de falar
sobre si mesmo porque seus amigos já faziam isso por ele o suficiente. Ou talvez
fosse o contrário, os amigos implicavam tanto com o rapaz justamente porque
dele as palavras não saíam por conta própria.
― Vou cursar geologia na UFF. Não achei que fosse ficar empolgado, mas
não posso negar.
― Ah, vai estudar em Niterói! – Duda aprovou, entortando a cabeça em um
raro momento de meiguice ao falar da cidade vizinha, que ficava do outro lado
da Baía de Guanabara e era ligada ao Rio de Janeiro pela famosa ponte Rio-
Niterói. A UFF (Universidade Federal Fluminense) ficava lá. – Eu amo Niterói,
minha irmã mora lá com meu cunhado.
― Então quer dizer que você é de exatas, Junior? – Marcelo balançou a
cabeça, fingindo desapontamento. – Eu esperava mais você.
Guto apenas riu, pegando um petisco de queijo que eles haviam pedido para
complementar a bebida.
― É, bem, em alguma coisa eu tinha que me sobressair. Porque com esse daí
como sombra a vida inteira – ele apontou para o irmão – sempre foi muito
difícil.
― Pobre, Junior!
O papo de bar foi e voltou, passando pela última garota maluca no currículo
de garotas malucas que o Marcelo tinha, e terminando no desespero do Felipe
pra acabar logo seu TCC e a faculdade. Calíope e sua melhor amiga, uma garota
chamada Helô, chegaram ao bar em Botafogo onde eles estavam – que sempre se
esquecia de checar se os clientes eram maiores de 18 anos – uns trinta minutos
depois. Duda não perdeu tempo em se apresentar pra ela como sua mais nova fã.
Ela se sentou ao lado do namorado, deixando o lugar vago para Helô ao lado
do Eduardo. O que pareceria perfeitamente aleatório se Calíope e Guto não
tivessem trocado um olhar cúmplice (que ninguém percebeu, diga-se de
passagem).
Helô era uma garota bonita. Sua pele marrom indiana era tão sedosa que não
parecia de verdade, como Cali sempre dizia. Seu cabelo castanho, liso e pesado
estava jogado para o lado, deixando o outro ombro e o pescoço expostos e o
perfume de lavanda exalando até o alcance de Eduardo.
Todos foram apresentados e os dois trocaram um olhar. Ela abriu um sorriso
simpático para ele, os olhos grandes um pouco provocativos, certamente
interessados no que estava vendo. É claro que ele não percebeu de primeira, mas
sorriu de volta e gostou do perfume dela. Avistou o olhar de Cali e Guto,
encarando-os, mas os dois viraram a cabeça na hora em que Eduardo percebeu.
Foi aí que ele se deu conta do que estava acontecendo.
Guto disse mesmo que faria isso.
Mas Edu não podia reclamar de alguém tentar juntá-lo com uma garota como
Helô. Não que o rapaz estivesse interessado em romance, mas ele também não
era cego. Nem feito de ferro.
― E você, Helô, vai fazer o que da vida? – Felipe perguntou.
― Publicidade – ela respondeu com sua simpatia natural saltando de cada
letra. – Apesar do meu pai resmungar todo santo dia que eu deveria fazer
medicina já que ele vai ter que pagar uma fortuna de mensalidade todo mês de
qualquer maneira. Mas eu fazendo medicina? – ela soltou uma risada
extrovertida. – Só nascendo de novo, não suporto nem tirar sangue sem ter que
me preparar psicologicamente.
― O Eduardo também odeia tirar sangue – Guto disse, assim como quem não
quer nada, e Helô e Eduardo se entreolharam mais uma vez.
Dessa vez ele correspondeu ao interesse silencioso.
― É mesmo? – Helô pousou o cotovelo na mesa e a mão no queixou,
mordendo a unha do seu dedo mindinho de um jeito que fez Edu quase tropeçar
nas próprias palavras.
Ele deu de ombros e levou a sua garrafa até a boca. O líquido desceu pela sua
garganta de um jeito que não passou despercebido a Helô. E ela gostou.
― Prefiro não ter minhas veias violadas.
― Concordo plenamente. Se é para algo ser violado, melhor que não sejam as
veias.
O sorriso tímido do rapaz cresceu no canto esquerdo da boca e ele assentiu,
sem saber o que dizer em seguida. Felipe revirou os olhos e Marcelo teve que
conter a gargalhada. Assistir a Eduardo em um flerte era algo que eles nunca se
cansariam de fazer.
Ao menos dessa vez ele estava interessado.
Ele e Helô conversaram e, quando não estavam conversando, estavam sendo
empurrados um para o outro por Guto e Calíope. Não aconteceu nada naquela
noite, mas o casal da mesa ficou satisfeito com o encontro planejado e
considerou promissor, já que os dois candidatos a futuro ship pareceram ter se
dado bem.
Já era tarde quando todos se despediram e Duda e Felipe animaram de ir para
uma festa na Lapa. Os outros resolveram ir embora mesmo e Hélio – um dos
irmãos gêmeos da Cali – passou para pegar as meninas, porque estava por perto
com a namorada.
Os irmãos Becker voltaram andando para seu apartamento, que ficava a
exatas duas quadras do bar. Era legal morar numa cidade grande e mesmo assim
estar perto das coisas, Augusto pensou. Os dois entraram no elevador
conversando sobre como Guto e Cali haviam sido descaradamente diretos.
― Ah, mas tu não pode negar que ela é uma gata – o irmão mais novo disse e
Eduardo realmente não negou.
― Ela é linda. Mas da próxima vez eu gostaria de ser consultado primeiro.
Guto fez um som com a boca, descartando essa hipótese.
― A não ser que tu tenhas uma namorada secreta, não tem porque eu ser tão
cuidadoso. Tu deverias me agradecer, isso sim – ele riu.
― Pode parecer chocante pra você, mas eu não tenho problemas em
conseguir garotas – Eduardo se defendeu, cruzando os braços e se apoiando na
parede do elevador.
― Claramente não tem problemas em atrair a atenção delas, mas não parece
muito interessado – Guto retrucou, analisando a postura defensiva do irmão. –
Piá, tu tem que seguir em frente. Ninguém vai quebrar seu coração só porque
você deu uns beijos.
― Não é que eu tenha perdido a fé nos relacionamentos – ele se explicou,
abrindo a porta do elevador quando chegou ao décimo andar. Guto passou e Edu
largou a porta, indo atrás do irmão e vasculhando o bolso da bermuda atrás das
chaves. – É que ainda não encontrei ninguém com quem eu queira... Você sabe –
ele enfiou a chave na fechadura e abriu a porta do apartamento escuro. Tentou
não ruborizar, mas sua pele branquela não tornava isso fácil.
Guto acendeu as luzes da sala e se jogou no sofá enquanto Edu trancava a
porta de volta e ia até a cozinha pegar um copo de água. O buldogue francês
preto de Eduardo veio correndo da varanda, todo feliz por ter companhia de
novo – mais ainda quando ganhou um carinho do Guto.
― Tu só não parece muito aberto – o mais novo continuou. – E eu fico
preocupado porque você só tem vinte e um anos e poderia estar vivendo muito
mais do que se permite detrás dos seus livros de História.
― Eu faço muito mais do que estudar. Eu trabalho, eu pesquiso, saio com
meus amigos...
Guto ficou olhando para ele com o ceticismo escancarado.
― Seus amigos disseram que quase não conseguem te tirar da sua rotina de
trabalho e estudo constante. Não tô inventando nada.
Eduardo deu um último gole na água e deixou o copo em cima da pia, se
juntando ao irmão no outro sofá marrom e gigantesco no meio da sala de estar.
Ele abriu os braços e os apoiou em cima do encosto enquanto seu cachorro
mordiscava a barra da calça de brincadeira.
― Eu estou feliz assim – garantiu, mas sem muita convicção.
― Tu estás acostumado. E devia se arriscar mais. Sair mais, conhecer outras
pessoas. Sair da sua zona de conforto – Guto incentivou e ficou satisfeito porque
sabia que seu irmão estava ouvindo. Talvez ele fosse a única pessoa que Eduardo
ouvisse de verdade. – Não tô dizendo pra você se apaixonar, só pra não ficar
observando a vida passar.
― Eu entendi.
E havia entendido mesmo. Se tinha algo que Eduardo era, era inteligente. E,
no fundo, ele sabia que seu irmão estava certo em tudo, desde ele precisar seguir
em frente dos seus traumas amorosos até ter que sair detrás dos livros de
História. Mas é que lá, fazendo o que ele sabia de melhor, Eduardo se sentia tão
seguro. Era bom poder ter o controle da própria vida, saber que era ele e o seu
próprio esforço quem determinava o rumo das coisas.
Por isso se relacionar com outras pessoas era tão difícil. Não havia controle,
não havia garantias, não havia unilateralidade.
Ele não sabia como ser diferente. Como se “abrir para as possibilidades” do
jeito que Augusto fazia. Era difícil para Eduardo se permitir à vulnerabilidade, se
deixar levar pelas situações sem medir as consequências. Mas talvez, só talvez,
ele devesse tentar.
E aí, quem sabe, alguma coisa boa – e não ruim, como da última vez –
pudesse acontecer na sua vida.
7. Mulher
Lavínia, Camila e Isabel eram amigas desde o segundo ano do Ensino
Fundamental. Agora estavam juntas no segundo ano do Ensino Médio e
nenhuma das três sabia como ainda aguentavam olhar uma para a cara da outra.
As três tinham praticamente a mesma idade e cresceram juntas, mas
cresceram de jeitos completamente diferentes. Cada uma delas era madura à sua
maneira: Cami era responsável, Lavínia desde cedo se envolvia em
relacionamentos com o sexo oposto e Isabel... Bem, Isabel não era lá muito
madura em nada. Era o tipo de garota em quem as pessoas pensavam quando
ouviam a palavra “adolescente”. Eles só se esqueciam de que os jovens nessa
fase da vida não se resumiam a estereótipos.
É claro que, como quaisquer garotas adolescentes na segunda metade da
segunda década do século XXI, as três se divertiam com os memes da internet,
eram viciadas em Instagram e preferiam mil vezes assistir a vlogs no YouTube
ou Netflix do que à programação normal da televisão – alguém ainda assiste
TV?
Mas Cami sempre se sentia profundamente irritada quando não era levada a
sério apenas por ser uma “garotinha de dezesseis anos”. E Lavínia também não
entendia porque todo mundo a recriminava tanto por gostar de rapazes. Além de
ser nova, ela ainda era mulher – uma combinação nada bem vista pela sociedade
se você quisesse ter o controle sobre si mesma.
Não que ela ligasse muito para a opinião alheia.
Tanto que beijou Paulo durante todo o filme que eles foram assistir naquela
sexta-feira – qual era o nome mesmo? – e teria beijado mais se o longa não
tivesse durado apenas uma hora e cinquenta e cinco minutos.
Paulo era um cara legal. E o melhor de tudo: ele queria de Lavínia exatamente
o que Lavínia queria dele – dar uns amassos por aí, quando desse vontade. Ele
não era tão bonito quanto Lucas Santiago – um garoto do terceiro ano – ou como
o vizinho Bonitão, mas sabia exatamente o que estava fazendo com aqueles
lábios.
E era o que tinha para hoje.
Não que Lavínia estivesse reclamando, longe disso. Gostava do Paulo e as
conversas dos dois entre beijos não eram tediosas nem estranhas, eles haviam
virado amigos. Com benefícios, mas ainda assim amigos.
Ele era gentil o suficiente para acompanhar Lavínia até seu prédio antes de ir
pegar o metrô para casa, o que não era algo que se podia dizer de todos os
garotos hoje em dia. Eles pararam em frente à grade de metal preto um pouco
antes das dez e meia, o horário limite que os pais de Lavínia geralmente davam a
ela. Os dois sorriram um para o outro e Paulo segurou o rosto dela para lhe dar
um beijo de despedida.
― A gente devia repetir isso mais vezes – ele disse. – Dar um perdido nos
nossos amigos inconvenientes.
― Você gostou mesmo foi de ficar no escuro comigo que eu sei – ela se
gabou, passando os braços pelo pescoço dele e fazendo-o rir.
― Talvez isso seja verdade.
― Eu sei que é verdade. Aliás, se você fizer o meu trabalho de português eu
posso te pagar com beijos – ela brincou, mas Paulo estava considerando a
possibilidade.
― Eu acho que não sou a pessoa certa pra fazer o trabalho de português de
ninguém. Mas aceito o pagamento adiantado.
Lavínia riu e abriu a boca para responder alguma coisa, mas sua visão
periférica captou duas pessoas se aproximando do portão do prédio pela calçada.
Nos dias de hoje era sempre bom estar alerta na rua, mas não foi preciso nem
mais um segundo para ela perceber que a pessoa em questão era Eduardo. Na
companhia de uma garota morena. O que fez o coração de Lavínia parar na
mesma hora.
Eles estavam rindo juntos. A garota claramente flertava com ele sem nem
hesitar e ele... Bem, ele aparentava estar correspondendo. Quer dizer, ele estava
todo alegrinho e dando risada de alguma coisa que ela estava dizendo. E não
pareceu nem um pouco incomodado quando ela tocou o seu braço enquanto
falava, sem nenhum motivo aparente para isso além de querer tocá-lo.
Desde quando Eduardo tinha uma namorada? Em quatro anos de vizinhança
ele nunca, jamais, trouxe uma garota para o apartamento, pelo menos não que
Lavínia já tenha visto. Quem será que era ela?
Paulo fez menção de virar na direção em que Lavínia pregou o seu olhar, mas
ela foi mais rápida e segurou o queixo dele. Tascou outro beijo, correspondido
muito prontamente, mas os olhos da menina ficaram abertos enquanto
bisbilhotava Eduardo se engraçando com uma garota.
Uma garota bonita e aparentemente da idade dele.
Eduardo e Helô repararam no casal se beijando em frente à grade do prédio e
ele também reconheceu Lavínia depois de alguns segundos. Se não fosse pelos
tênis vermelhos, teria sido pelo olhar azul dela que ele interceptou sem querer.
Era estranho olhar nos olhos de alguém que estava beijando outra pessoa, mas
foi exatamente isso o que aconteceu. E o jeito intenso como ela o encarava fez
parecer que aquele olhar dizia mais do que os lábios em movimento.
Eduardo, constrangido com a situação, desviou sua atenção de volta para a
garota ao seu lado e Lavínia ouviu quando ele perguntou se ela tinha certeza de
que não gostaria de subir. Ela disse que não, que sua carona já estava chegando e
não faria sentido subir para descer dois minutos depois.
Lavínia apertou os dedos nos cabelos de Paulo e ele sugou o lábio inferior
dela na mesma hora.
― Isso é que é um beijo de despedida – ele disse todo satisfeito. A garota
abriu um sorrisinho, mas sua atenção estava na conversa ao lado. Ela não sabia
exatamente o que estava sentindo, era um misto de ansiedade e ciúme. É óbvio
que ela não devia sentir ciúme de Eduardo, ele não era nada dela. Ele mal falava
com ela, verdade seja dita.
Mas não é a pessoa que escolhe o crush. É o crush que escolhe a pessoa.
― Eu preciso subir agora, meus pais daqui a pouco começam a me ligar. Você
sabe como é.
― Aham – Paulo tirou as mãos da cintura dela e Lavínia recolheu seus
braços. Ele deu uma piscadela para ela, charmoso como sempre. – A gente se vê
então, Lavs. Depois te mando por mensagem o nome do ator do filme de hoje.
Os dois se despediram com mais um selinho e Paulo foi embora. Lavínia
tentou se segurar, mas, antes que ela percebesse, seu olhar já estava em Eduardo
de novo e, mais uma vez, o dele se encontrou com o dela naquela noite. Aquela
seria uma situação constrangedora se a garota não estivesse curiosa demais sobre
a companhia do rapaz. Ela o stalkeava regularmente no Facebook e não se
lembrava de ninguém com a cara daquela menina em nenhum dos seus posts
recentes.
Foi Eduardo quem quebrou o contato visual, uma vez que Lavínia e sua falta
de vergonha jamais seriam capazes. Ele estava corando? Parecia que sim –
talvez ele estivesse constrangido por encontrá-la aos beijos no portão do prédio.
Ultimamente ele só andava esbarrando com Lavínia em situações embaraçosas,
mas, dessa vez, ela não se sentia por baixo como na anterior.
A garota inflou o peito e apertou o botão do interfone, para que o porteiro
abrisse a porta. Um segundo depois o portão fez o barulho de quando
destrancava e Lavínia passou por ele e o bateu de volta como se não estivesse
nem aí para o fato de Eduardo estar ali na frente com uma garota.
A verdade oculta, é claro, é que ela estava com o coração a mil por hora.
Ela deu boa noite ao porteiro e apertou o botão do elevador – a essa hora só o
de serviço estava funcionando e, aparentemente, empacado no nono andar. A
garota suspirou, irritada, tentando não pensar no que Eduardo e sua
acompanhante estavam conversando, tentando não se lembrar dos olhos
castanhos claros dele e como eles fizeram seu corpo todo se arrepiar quando se
encontraram com os dela. Tentando não pensar no calor que ela sentia toda vez
que dava de cara com o rosto maravilhoso que ele tinha – como era possível ter
uma genética tão abençoada?
Se o irmão fosse parecido, então aquela família deveria ser preservada como
patrimônio cultural do Brasil.
Ela ouviu passos no piso frio do hall e virou para trás a tempo de vê-lo se
aproximando em toda sua altura, óculos e roupas alinhadas. O elevador chegou
na mesma hora e Lavínia puxou a porta, abrindo passagem para ele. Eduardo
hesitou por um momento, encarando-a com curiosidade por um segundo que
pareceu infinito, mas entrou logo em seguida.
Lavínia fez o mesmo, tirando seu peso da porta e deixando-a bater. Quando
foi apertar o botão do seu andar, percebeu que ele já tinha feito isso, então
simplesmente se apoiou na parede do elevador e cruzou seus braços. Ele estava
encostado na parede oposta, com as mãos dentro dos bolsos da calça jeans.
O elevador começou a subir.
― Obrigada – ela disse, por fim. Referindo-se ao botão apertado.
Eduardo deu ombros.
― Não foi nada.
Silêncio. Ela o analisava e ele fazia o mesmo. Não fazia nem ideia de qual
imagem ele tinha dela, mas, a julgar pela sua expressão curiosa, algo a dizia que
o rapaz estava intrigado.
E Lavínia gostou dessa percepção.
― Você já teve tempo suficiente pra pensar? – ela perguntou, recuperando
sua confiança natural que parecia ir para o espaço quando ele estava por perto.
Ela perdia totalmente o equilíbrio e precisava sempre de um minuto ou dois para
se reorganizar.
Eduardo ergueu uma sobrancelha e a ponta esquerda dos seus lábios.
Aquilo era um sorriso?
― Eu disse que você saberia, não disse?
Lavínia bufou e descruzou os braços para poder pousar as mãos na cintura.
Agora definitivamente ele estava sorrindo, encarando-a como se ela fosse uma
peça de comédia shakespeariana.
― Olha só, eu não sei o que você geralmente faz no carnaval, mas eu tenho
planos. E eles dependem de você ser uma boa pessoa e não me delatar pros meus
pais.
― Boa pessoa? – ele repetiu, não crendo no que estava ouvindo. – Eu acho
que acobertar uma menina de dezesseis anos que mata aula pra ficar bebendo no
meio da manhã é o contrário de ser bom, não? – continuou implicante.
Lavínia trincou os dentes e a chama da irritação ardeu em seus olhos azuis.
Eduardo notou e mais uma vez ficou impressionado com a força que aquele
olhar dela tinha. Como uma tempestade que não pode ser parada.
― Eu não sou uma menina – ela esclareceu taxativa.
― O que você é, então? – ele perguntou, desafiando-a.
― Uma mulher – foi a resposta direta de Lavínia.
O que fez Eduardo soltar uma risada que, não, não foi na intenção de ofendê-
la, mas feriu o seu ego profundamente.
―Você não acredita em mim? Eu posso provar.
A provocação das suas palavras e, principalmente, do seu olhar decidido,
fizeram a risada do rapaz parar na mesma hora. Ele a encarou em silêncio,
tentando entender o que se passava na sua mente, mas Lavínia era uma criatura
tão fluida quanto a água – impossível de se agarrar com as mãos.
Embora seus olhos fossem fogo.
Uma mulher, ela disse. Bem, ela parecia mesmo uma. Ele nunca havia se
permitido olhar para ela por tempo suficiente para reparar nas suas curvas ou nas
pernas grossas – muito menos nos seios fartos. Como ele poderia? Ela era tão
nova.
Mas agora que ela chamava atenção para o fato...
Uma mulher. Seus olhos o penetravam de um jeito tão provocativo e intenso
que, por um momento, ele quase se permitiu acreditar naquelas palavras. Ao
invés disso, Eduardo engoliu em seco e afastou o pensamento tão rápido quanto
ele chegou.
Seu pomo de adão se mexendo fez a estabilidade de Lavínia se abalar e o jogo
virou mais uma vez.
― Eu não conto aos seus pais com uma condição – ele disse.
Mas Lavínia nem chegou a perguntar qual era, porque a luz do elevador
piscou e se apagou antes disso. Na mesma hora, o elevador freou bruscamente,
soltando um guincho alto e fazendo tanto Lavínia quanto Eduardo se
desequilibrarem. Ele se apoiou com a mão na parede e o susto estava presente
em seu rosto.
― O que foi isso? – perguntou; um leve tom de desespero em sua voz
geralmente tão comedida.
― Acho que deve ter faltado luz.
Se faltou mesmo luz e eles estavam ali dentro, então... Ai meu Deus.
Os dois estavam no escuro. Presos dentro do elevador.
8. Segredos
Lavínia começou a apertar o botão de emergência sem parar, mas tudo o que
Eduardo conseguiu fazer foi ficar paralisado. Estava escuro ali dentro e ele só
conseguia ter um vislumbre da silhueta dela. A menina tirou o celular de dentro
do bolso da jaqueta jeans e direcionou a luz da lanterna ao painel de botões, para
ter certeza de que estava apertando o certo.
Ela estava.
Digitou algum número no celular e colocou-o no ouvido, ainda apertando o
botão de emergência.
― Mãe! – ela disse, esquecendo o botão na mesma hora. – Estou presa no
elevador! Não. Não, eu não sei em qual andar, não estava prestando atenção.
Não, o Eduardo do 1108 está aqui comigo – ela olhou para ele quando disse isso
e então assentiu para algo que sua mãe dissera. – Certo, foi a luz mesmo, então?
Eu imaginei. Aham. Não, mãe – ela revirou os olhos, impaciente. – Só liga pro
porteiro e avisa que estamos presos... É, eu sei. Mas não custa nada... Tudo bem.
Enquanto ela falava, Eduardo tentava piscar para ajustar seus olhos à
escuridão. Ele tocava uma das paredes do elevador com uma mão e passou a
outra pelo rosto, tentando ficar calmo. Seu coração estava acelerado e ele não
sabia se fazia tanto calor ali dentro mesmo ou se era só ele.
Lavínia desligou a ligação, mas manteve o telefone ligado, porque era a única
fonte de luz dos dois ali dentro.
― Minha mãe disse que teve uma queda de energia – explicou. – Ela vai
avisar ao porteiro, mas a gente só vai conseguir sair mesmo quando a luz voltar.
O mundo de Eduardo caiu com essa simples frase. Ele assentiu, olhando para
ela, mas sem vê-la de verdade. Seus olhos deviam estar arregalados porque
Lavínia franziu o cenho, tentando entender o que estava acontecendo com o
rapaz.
Quer dizer, ela não gostava de ficar presa no elevador, mas Eduardo parecia
estar à beira de um ataque de nervos.
Ele encostou as costas na parede e fechou os olhos, com os braços colados no
tronco como se fosse uma atitude ensaiada. O rapaz respirou fundo, o rosto um
pouco levantado e um pouco menos tenso agora que seus olhos aterrorizados não
estavam abertos.
Lavínia observou tudo com curiosidade, mas também preocupação. Será que
ele...
O raio do entendimento a atingiu na mesma hora.
― Você está bem? – ela perguntou cautelosa.
Eduardo apenas assentiu, mas a julgar pelo modo como ele estava fazendo um
exercício de respiração estirado na parede do elevador escuro dizia exatamente o
contrário.
― Você é claustrofóbico? – foi mais uma afirmação do que uma pergunta.
― Levemente – ele respondeu, ainda sem abrir os olhos. – Um pouco.
Sua voz soava irregular. Ele deslizou pela parede até tocar os joelhos no chão,
pousou as mãos neles e se inclinou um pouco para frente, procurando ar como
um desesperado.
Eduardo havia perdido totalmente a compostura e Lavínia, é claro, ficou
chocada.
Ele era sempre tão perfeito.
“Ok, ele está tendo um ataque de claustrofobia. Só isso”, Lavínia pensou,
tentando se manter calma porque duas pessoas em pânico seria demais. Ela tirou
a jaqueta e a amarrou na cintura do vestidinho preto de alças. Prendeu os cachos
castanhos em um coque e se agachou de frente para Eduardo. Ele ainda mantinha
os olhos fechados e ela agradeceu por isso, porque de repente não soube o que
fazer com as mãos. Ela devia tocá-lo? O que se faz quando o cara está surtando
diante de você?
― Hum – ela disse, com as mãos na metade do caminho entre seu corpo e o
dele. – O que você está sentindo exatamente?
― Ar... Preciso de ar.
― Tem bastante ar aqui dentro, veja só – ela inspirou com força e soltou o ar
com a boca. – Ah! Veja só que maravilha.
Mas Eduardo sequer respondeu. Apoiou a cabeça na parede do elevador, as
mãos ainda pousadas nos joelhos e o peito subindo e descendo com rapidez.
― Vai com calma – ela disse, mordendo o lábio enquanto pensava no que
fazer. – Respira devagar porque rápido desse jeito você não vai nem sentir o ar
entrando. Seus pulmões agradecem.
Não era como se ele estivesse em condições de ser racional e escutar, mas ao
menos Lavínia estava tentando. Ela ficou olhando para ele, o máximo que ela
conseguia enxergar com a lanterna ligada do seu celular no chão do elevador. Ele
era tão bonito, mesmo quando estava tendo um ataque claustrofóbico.
― Respira devagar – ela tentou de novo, tomando coragem e pousando as
mãos nos ombros do rapaz. Havia lido em algum lugar uma vez que contato
físico era bom para dar segurança à pessoa que estava desestruturada. Com o
contato físico ele saberia que tinha alguém firme ali dando força. Bem, Lavínia
não era a melhor opção, mas era o que tinha para hoje. Ela segurou os ombros
dele com firmeza. – Olha pra mim.
― Não posso abrir os olhos, é como se as paredes estivessem se fechando em
cima de mim. Olhos fechados é a melhor opção – ele disse e então sugou o ar
com força.
― Está tão escuro que você não vai nem ver as paredes direito. Eu não estou
vendo, essa sala parece infinita – ela tentou. Seu coração batia acelerado com o
contato das suas mãos nos ombros dele, aquilo parecia surreal. – Mas tudo bem.
Se você respirar devagar eu já vou ficar satisfeita.
Dessa vez, para a surpresa de Lavínia, Eduardo ouviu. Ela mal pôde acreditar
quando o ritmo da respiração dele diminuiu um pouco, a adrenalina viajava seu
corpo inteiro em questão de segundos.
― Muito bem – ela disse claramente aliviada. – Está vendo como é bem
melhor assim? Posso até ouvir o coro de “Aleluia” dos seus pulmões em
agradecimento.
Se Eduardo não estivesse tão concentrado em colocar oxigênio para dentro,
teria rido. Ela esperou alguns minutos, observando-o atenta enquanto ele parecia
se estabilizar, sentindo a firmeza e o calor dos ombros dele por baixo da camisa e
o próprio coração martelando dentro do peito.
Lavínia o estava ajudando a ficar bem. Como uma pessoa madura deveria
fazer. E se ela era madura o suficiente para lidar com sua claustrofobia com
maestria, por que eles não poderiam se beijar qualquer dia desses?
A medida que ele relaxava, Lavínia também ficava aliviada. Ela fez menção
de recolher suas mãos de volta, mas Edu segurou a esquerda com a sua.
E o coração dela disparou enlouquecido.
Ele abriu os olhos e – graças a Deus – não seria capaz de distinguir a
expressão de choque total no rosto dela. Ainda bem que ele também não
conseguia detectar nível de frequência cardíaca porque Lavínia tinha certeza de
que estava à beira de um enfarte.
― Obrigado – disse.
Aquela voz. No escuro. Seu corpo a centímetros do dela.
Eita.
― Não tem de quê. Não é como se eu fosse te deixar morrer aqui, né? – ela
tentou fazer graça para ver se conseguia voltar a raciocinar propriamente
enquanto a Mão. Dele. Estava. Tocando. A. Sua.
Desde quando Lavínia era tão impressionável por um cara? Nem ela
conseguia entender a si mesma. Lidar com pessoas do sexo oposto nunca foi um
problema para a garota, mas Eduardo... Ele a desestabilizava.
― Isso é constrangedor – ele disse, tirando sua mão de cima da dela. Sentia
uma coisa estranha com a proximidade invisível entre os dois, um certo
nervosismo intrigante. Ele só conseguia vislumbrar a silhueta da garota e as suas
mãos tocando-o nos ombros, mantendo-o inteiro. As ondas da voz dela atingiam
o seu rosto com uma leveza ao mesmo tempo reconfortante e inquietante.
― Eu não vou contar a ninguém se você também não contar sobre meu
momento de rebeldia.
Uma garota, mesmo sob o efeito da paixão, deve saber usar tudo o que tem a
seu favor.
Eduardo ficou olhando para ela com uma vontade imensa de rir. Ele nem
estava pensando em nada disso, mas a menina sempre estava dois passos a sua
frente. Foi bem impressionante o modo como ela o ajudou e de alguma maneira
o fez sentir seguro o suficiente para sair do seu transe. Fazia tempo que ele não
tinha uma crise assim e realmente não gostava de ficar falando sobre isso com as
pessoas. Afinal, ele era um cara reservado por natureza e preferia sempre se
manter neutro.
Mas Eduardo nunca considerou contar aos pais de Lavínia sobre o acontecido
da terça-feira. Ele só queria deixá-la pensar que sim para fazê-la refletir sobre a
gravidade dos próprios atos.
― Bem, tu não se lembra de que eu já tinha uma condição antes?
― Isso foi antes. Agora o jogo virou.
A menina estava ali, ajoelhada de frente para ele, com as palmas calorosas em
seus ombros e falando com uma confiança envolvente.
― Essa é a sua oferta final?
― Sim. É pegar ou largar.
― Certo. Então estamos combinados.
― Temos um segredo então.
― Dois, pra ser mais exato – ele disse e ela levantou uma sobrancelha.
― Você é sempre tão metido a inteligente assim?
Eduardo riu e Lavínia sentiu o tronco dele tremer de leve. Sabia que precisava
deixar de tocá-lo, mas aquela sensação era mágica. E, em defesa da garota, ele
não estava nem um pouco incomodado com o contato. Ambos estavam
envolvidos de um jeito novo, como se aquele elevador tivesse feito uma dobra
no espaço-tempo.
― Eu tenho TOC verbal, digamos assim – ele disse. Ela o divertia muito.
Mas Lavínia franziu o cenho.
― Como é que é?
― Quero dizer que gosto das coisas bem ditas.
― Oh – ela assentiu, entendendo o que ele queria dizer e a chama que se
acendeu em seus olhos teria o intimidado se ele fosse capaz de enxergar. Mas
estava escuro demais. – Então você é um cara direto?
O modo sugestivo como ela falou, entretanto, não passou despercebido ao
rapaz. E foi nesse momento em que Eduardo se sentiu: A) Intrigado e levemente
atraído pela ousadia daquela menina, e B) horrorizado pelos mesmos motivos.
Quer dizer, ela só tinha dezesseis anos, como em sã consciência...
Levado pelos seus instintos da moral e bons costumes, Eduardo, que era um
cara cheio de princípios, finalmente retirou a mão dela dos seus ombros e
quebrou a proximidade entre os dois. Ele não havia percebido de verdade até
agora o quanto estavam próximos um do outro, mas, uma vez que o encanto fora
quebrado, se recriminou por ter deixado isso acontecer.
― Bem, sim, sou direto – respondeu e então coçou sua garganta. – Será que
vai demorar muito pra luz voltar?
Não demorou muito. Os dois ficaram apenas mais uns cinco minutos presos
no elevador e então tudo se acendeu lá dentro. Eduardo suspirou aliviado, mas
Lavínia estava de um jeito... Bem, ele não sabia dizer. Ela parecia satisfeita
consigo mesma e irritada ao mesmo tempo. Não disse mais nada a Edu, mas
insistiu em acompanhá-lo até a porta de casa para ter certeza de que seu vizinho
ficaria bem.
O rapaz não deixou. Ela já havia feito mais do que o suficiente naquela noite.
O elevador, por sorte, já estava praticamente no décimo primeiro andar
quando parou. Ele abriu a porta com as costas e disse:
― Obrigado pela ajuda. De verdade.
Lavínia assentiu e o coque se desmanchou, derramando os cabelos cacheados
volumosos pelo seu ombro de um jeito que ela torceu para ter sido sensual.
A imagem do pomo de adão do Edu subindo e descendo a satisfez o
suficiente.
― Por nada. Não se esqueça do nosso trato.
― Nossos segredos estão guardados.
Então ele fechou a porta do elevador e se direcionou para o seu apartamento,
andando pelo corredor sem entender exatamente o que havia acontecido ali
dentro.
Para ser totalmente honesto, ele nem queria saber!
9. Século XXI
Lavínia agora tinha dois segredos com Eduardo.
Mas para que servem os segredos se não podem ser compartilhados com a
sua melhor amiga?
Foi isso o que ela pensou e, no segundo em que chegou em casa e se trancou
dentro do seu quarto, ligou para Cami para contar exatamente tudo o que havia
acontecido naquela noite. Ela ainda estava eufórica demais e não conseguia parar
quieta. Falava ao telefone andando por todo o quarto, subindo em cima da cama,
abrindo e fechando as portas do armário. Finalmente se sentou na cadeira da sua
escrivaninha e abriu o notebook novo – e rosa – que ganhara de natal da tia rica
de Belo Horizonte.
Se ela conhecesse Lavínia melhor, saberia que a cor certa seria vermelha.
Mas quem era a garota para reclamar de um notebook novinho em folha mesmo
que parecesse um daqueles de brinquedo da Xuxa?
Lavínia não costumava ligar para ninguém quando era muito mais fácil
simplesmente mandar mensagens de texto pelo celular. Mas situações como essa
pediam medidas especiais.
Ela e Eduardo tinham dois segredos. Juntos.
Se esse não era um sinal do Cosmo dizendo que finalmente a hora de
Lavínia atacar havia chegado, então ela não sabia o que mais podia ser. Porque
ela esperava por esse sinal verde há bastante tempo e estava prontíssima para
avançar.
Fazia um calor de 40 graus no sábado e as duas meninas decidiram passar o
dia na piscina do prédio. O prédio de Cami – que ficava a três quadras do dela –
não tinha piscina e por isso as duas sempre iam para a casa de Lavínia quando o
calor ficava insuportável. Pouquíssimas pessoas usavam a piscina, o que estava
ótimo porque assim elas podiam usufruir do espaço quase que só para elas.
Isabel morava em outro bairro, no Meier, e por isso quase nunca estava com
as duas amigas quando elas decidiam se encontrar assim sem mais nem menos.
Lavínia gostaria de poder chamar Anaju, mas sabia que Cami aceitaria a
contragosto e aí não seria legal.
― Sabe o que eu queria ganhar de aniversário? – Lavínia disse e abriu um
sorriso cheio de segundas intenções. – Um beijo do Eduardo.
Cami revirou os olhos e riu, jogando uma lufada de água na cara da amiga.
― Você passa o dia inteiro pensando em beijar, não é possível.
― E você, hein? Não é possível que não tenha um crush em ninguém.
― Se eu tivesse um vizinho como o seu, talvez. Mas os meninos da escola?
– Ela riu com escárnio. – Deus me livre.
― Nem o Lucas Santiago? Ele é maravilhoso – Lavínia levou as mãos até o
coque, apertando-o para que não se desfizesse. Seus cachos estavam lindos
demais para que ela os molhasse naquela água cheia de cloro.
― Ele é lindo sim, mas sei lá. Não sou igual a você que fica aí desesperada
pra enfiar a língua na boca de ninguém – ela disse, rindo. – Uma hora vai
acontecer.
― Eu entendo que você quer esperar por alguém legal, um momento bacana
e tal. Mas é que você não sabe o que está perdendo, de verdade. E você é tão
linda e se veste tão bem, esse alguém legal tem que aparecer logo.
― Às vezes me pergunto como podemos ser amigas – Cami refletiu,
jogando a cabeça para trás para poder molhar o cabelo liso. – Quer dizer, eu não
consigo nem beijar um cara e você está aí pensando em posições sexuais com o
seu vizinho.
Lavínia soltou uma gargalhada alta. Ela amava quando Cami falava desse
jeito desajeitado e engraçado. Repousou os braços na borda da piscina e levantou
o rosto para cima, de olhos fechados, deixando o sol aquecê-lo.
― É por isso que é tão bom viver no século XXI. Cada uma escolhe o que
acha melhor pra própria vida e ninguém tem nada a ver com isso. A gente
continua se amando.
― Isso é verdade. Embora ainda exista muita gente babaca.
― Estou ocupada demais sendo fabulosa para dar ouvido a eles.
― Por favor! – Cami concordou. – Não sou obrigada.
As duas amigas saíram da água apenas na hora do almoço, quando a fome
bateu e a mãe de Lavínia começou a ligar para saber que horas elas subiriam
para comer. Elas se secaram e colocaram seus shorts jeans, seguindo até o hall
do prédio enquanto conversavam sobre as últimas fofocas do colégio.
A porta do elevador já estava se fechando quando elas chegaram e Lavínia
correu para pegá-lo a tempo. Havia um casal de mãos dadas lá dentro. Um casal
que ela nunca tinha visto antes na vida, mas o garoto... Era tão familiar. As
meninas cumprimentaram os dois e apertaram o botão do décimo segundo andar
antes do elevador começar a subir.
Lavínia fitou-os de soslaio. A garota tinha um cabelo ruivo maravilhoso,
preso em um rabo de cavalo apressado. O namorado – eles só podiam ser
namorados – era provavelmente o cara mais alto que ela já vira na vida, mais
ainda do que o...
Eduardo.
Sua ficha finalmente caiu.
A semelhança entre ambos era inegável. O garoto do elevador tinha os olhos
verdes e o cabelo mais liso do que o do Eduardo, mas o nariz era o mesmo, o
formato do maxilar e os ombros largos também. Até o pomo de adão
protuberante era parecido e a maneira como os olhos se enrugavam um
pouquinho quando eles sorriam – ele estava sorrindo agora por algo que a ruiva
dissera.
Esse só podia ser o irmão mais novo do seu vizinho.
E Lavínia estava certa sobre a família dos dois ser abençoada porque ele
também era um gato. É claro que a beleza perfeita do Eduardo era ainda maior –
existe alguém mais bonito do que ele? – mas o irmão mais novo tinha um
charme especial naqueles olhos verdes e sorriso fácil.
Caramba, aquele era o irmão do Eduardo. Lavínia não poderia deixar a
oportunidade passar.
― Vocês são novos aqui? – ela perguntou usando sua simpatia.
O casal a encarou, com o resquício dos sorrisos que estavam trocando ainda
nos lábios.
― Eu sou – ele disse. – Vim morar com o meu irmão no 1108. Tu conheces?
O Eduardo.
Ai, ai, aquele sotaque.
Cami arregalou os olhos ao lado de Lavínia, mas ela continuou agindo com
muita naturalidade.
― Conheço sim! Nossa, vocês dois são parecidos demais – ela comentou. –
Eu sou a Lavínia e essa aqui é minha amiga Camila.
Cami deu um aceno e o casal sorriu.
― Eu sou o João. E essa é a Cali, minha namorada.
― Oi! – a ruiva cumprimentou. – As duas moram aqui também?
― Não, só eu. No apartamento exatamente em cima ao de vocês. Já vou
[1]
pedindo desculpas por ouvir Pixie Roxy alto demais às vezes.
João riu e os olhos da Cali brilharam na mesma hora. Tiro certeiro, Lavínia
pensou. Afinal, que garota no mundo não gostava de Pixie Roxy hoje em dia?
― A gente perdoa só porque é a Roxy.
― Você mencionou a cantora certa, Lavínia – João contou o que ela,
orgulhosamente, já sabia. – Essa guria aqui é a maior fã que eu conheço.
― Sou mesmo. Inclusive, nós iremos ao show esse ano, já vai se preparando
– ela deu um tapinha no peito do garoto.
― Nós com certeza iremos também – essa, aliás, era uma das poucas
certezas na vida de Lavínia. – Podíamos ir todos juntos.
― Eu topo – Cali disse.
― Eu ainda vou precisar ir? – João perguntou, fazendo graça, e recebeu um
olhar certeiro da namorada.
― Até parece que não gosta.
Os quatro se despediram quando o casal parou no décimo primeiro andar e
as duas amigas seguiram até o de cima.
― O que foi isso? – Cami perguntou.
― Isso foi eu socializando.
― Você já sabia que eles eram irmãos, né?
― Descobri quando olhei pra ele. Meu Deus, como pode existir tanta beleza
concentrada num mesmo sobrenome?
Cami riu, torcendo o cabelo laranja para o lado.
― Isso é graças a uma coisinha chamada genética.
Mais tarde, quando já estava quase anoitecendo, Lavínia foi levar Cami até
o portão do prédio. As duas se despediram e a garota voltou para dentro do
saguão no momento em que Eduardo estava saindo do elevador. Ela quase
paralisou quando o viu, mas seguiu adiante sem nem piscar. Seu coração,
entretanto, estava a mil por hora.
― Ei – ela disse tentando soar casual.
Mas Eduardo estava com uma cara estranha. Parecia concentrado demais em
olhar para o rosto dela e foi quando Lavínia se deu conta de que ainda estava
usando apenas a parte de cima do seu biquíni azul e shorts jeans. Um sorriso
levemente malicioso brotou em seus lábios à medida que as bochechas do rapaz
começavam a corar.
― Hum – ele coçou a garganta. – Oi, Lavínia. Meu irmão disse que te
conheceu hoje mais cedo.
― Pois é – ela concordou, achando graça do modo recatado como ele estava
agindo. Nem uma sequer olhadinha para baixo do queixo dela, mesmo sendo
visível o esforço que ele fazia para tal. – Gente boa ele e a namorada.
Eduardo sorriu, concordando. Suas mãos estavam nos bolsos da bermuda e o
cabelo castanho voou de leve com o ventinho que passou pelo saguão.
― Eles também gostaram de você. Inclusive o Guto me disse pra te chamar
pra festa surpresa que vamos fazer pra Cali amanhã. É o aniversário de dezoito
anos dela.
Lavínia franziu o cenho.
― Espera aí. Guto?
― Meu irmão se chama João Augusto – ele explicou.
― Ah sim! – ela riu consigo mesma, pousando as mãos na cintura. – Legal
da parte dele me chamar. Claro que eu irei. Vai ser no seu apartamento mesmo?
― Aham. Você pode aparecer lá pelas seis e meia. É bom que todo mundo
chegue antes da Cali.
― Combinado então. Estarei lá.
Houve silêncio. Os olhos azuis de Lavínia e os castanhos de Eduardo
grudados um no outro.
― Você... – ela começou. Ele já sabia o que viria a seguir e se retesou.
Lavínia mordeu o lábio, sem saber se continuava, mas ela queria mesmo muito
saber a resposta.
― Eu estou bem – ele disse por fim, para alívio da garota. – Não se
preocupe. Aliás, obrigado de novo por ter me ajudado, nem todo mundo sabe
como agir numa hora dessas.
Ele parecia um pouco encabulado, de um jeito que a garota achou adorável.
Eduardo havia ficado mesmo impressionado com a atitude de Lavínia, pois
nunca achou que aquela menina avoada pudesse ter um lado mais centrado. Não
que ele a conhecesse muito, não era o caso. Mas justamente por não conhecê-la
direito é que as impressões se destacavam.
Mas perspectivas mudam.
10. Feliz Aniversário
Como era possível que garotas tão novas tivessem seios tão... Seios.
― Ela nem é tão nova assim, irmão – João Augusto disse enquanto
terminava de colar o barbante com as placas de “Feliz Aniversário” na parede. –
Dezesseis né?
A casa estava toda enfeitada com bexigas azuis e roxas. Algumas foram
cheias com gás hélio e estavam flutuando no teto ou amarradas em qualquer
coisa que as mantivessem em terra firme. A cozinha do apartamento estava uma
bagunça de pratos de salgadinho, pizzas e brigadeiros. Eduardo foi até lá tentar
dar um jeito na situação e arrumar as comidas na bancada entre a cozinha e a
sala, que já estava forrada com uma toalha roxa de cetim que Helô emprestara.
― Quinze, eu acho. Não sei. Mas eu conheço a Lavínia há quatro anos e de
repente ela está assim.
― É o que acontece com essas crianças, elas crescem – João ponderou. – Vê
os nossos irmãos.
― Ainda assim é um pouco chocante.
“Chocante. Sei”, pensou Guto. Até parece que era a surpresa o motivo
principal por Eduardo estar tão impressionado. É claro que ele não se dava conta
disso – ou talvez não quisesse perceber – mas Guto não nascera ontem. E se
divertia secretamente à custa do irmão certinho.
A campainha tocou e Eduardo foi abrir a porta para os irmãos gêmeos da
Cali – Apolo e Hélio – e a namorada do Hélio, que se chamava Julia. Eles
trouxeram um engradado a mais de cerveja e o bolo especial com o desenho do
DeLorean de De Volta Para o Futuro. Hélio, Julia e Edu colocaram tudo na
geladeira enquanto Apolo se acomodava no sofá.
― E aí, o que você comprou pra minha irmã? – ele perguntou ao Guto, que
limpou as mãos uma na outra e se sentou no sofá também.
― Não posso te contar o presente dela sem ser inapropriado.
A princípio, Apolo arregalou os olhos com o susto. Guto não estava dizendo
que... Ah ele estava. Apolo abriu um sorriso safado dos seus e estendeu o punho
fechado para o namorado da irmã, em aprovação.
― Isso aí, leke. Esse é o meu garoto.
― O que o Guto fez? – perguntou Hélio, voltando da cozinha no momento
em que os dois chocavam seus punhos.
― Ele e a Cali vão acasalar – Apolo respondeu, fazendo graça, para o
espanto total do gêmeo. Hélio congelou na mesma hora e seu rosto perdeu toda a
cor existente.
― Como é que é? – ele indagou, encarando Augusto com um olhar
penetrante. Julia tocou o braço do namorado, rindo dele sem nem tentar
esconder.
― Amor, isso é uma coisa normal entre casais, né? Você deveria saber.
― Eu sei, mas é que...
― Piá, se acostuma com a ideia que é melhor – Eduardo deu um tapinha
condescendente nas costas de Hélio, se divertindo com sua reação ultrajada pelo
futuro da irmã.
― Calma aí, gente, eu só estava curtindo com a cara do Apolo – Augusto
explicou, rindo, e Hélio literalmente suspirou de alívio. – A gente ainda não fez.
“Não que faltasse vontade”, era o que o garoto estava pensando. Mas
namorar a filha da sua madrasta não era exatamente a coisa mais fácil do mundo
e eles já precisaram passar por poucas e boas por causa disso. João Augusto e
Calíope foram corajosos em confiar no seu amor, apesar da relação familiar
complicada por serem irmãos postiços, mas faziam de tudo para respeitar seus
pais, seus irmãos e a casa onde moravam juntos como uma família.
Fazer sexo debaixo do teto dos pais, naquelas condições, não estava nos
planos.
― Vai ver é isso o que vai resolver o mau humor da Cali – Apolo comentou.
― Pelo amor de Deus, vamos mudar de assunto.
Como se o universo estivesse atendendo ao pedido de Hélio, a campainha
tocou. Dessa vez eram Helô e os outros amigos mais próximos da Cali, que
chegaram já fazendo barulho. Eduardo notou certa tensão entre seu irmão e o
moreno que parecia surfista em tempo integral. Como era mesmo o nome? Ah...
Maurício! Ex-paixonite da Calíope, não era? Ele cumprimentou Guto com
educação, mas o paranaense parecia ter engolido uma caixa inteira de pregos. E
foi a vez de Eduardo se divertir à custa do irmão ciumento.
Edu foi para cozinha arrumar os novos pratos de comida e bebidas que a
galera de Jacarepaguá trouxera, quando Helô apareceu em seu campo de visão.
Ela era mesmo uma visão dentro daquele macaquinho floral e o cabelo volumoso
e liso jogado para o lado. Os dois sorriram um para o outro e ela roubou um pão
de queijo do prato que ele estava desembrulhando.
― Tem comida demais aqui – a garota se justificou.
― Pois é, acho que seus amigos exageraram.
― Nada que eu não possa resolver – ela disse, pegando outro pão de queijo
e fazendo Eduardo rir.
Eles haviam saído naquela outra noite e, inclusive, trocado alguns beijos.
Helô era uma garota muito divertida e eles se deram bem logo de cara, embora
Edu não se sentisse nem um pouco aberto para um relacionamento no momento.
Não ainda.
Mas ele havia prometido ao irmão que tentaria sair da própria casca, que se
arriscaria mais e sairia da sua zona de conforto pré-estabelecida – mais
conhecida como Livros de História. É claro que não era algo que se fazia da
noite para o dia, mas ele achava que estava se saindo muito bem ao permitir que
Heloísa se aproximasse.
Os dois trocaram um olhar significativo e o canto esquerdo da boca de Edu
se salientou. A garota se aproximou ainda mais dele e o rapaz a enlaçou pelo
pescoço e lhe deu um beijo nos lábios. Um bem simples, já que havia uma dúzia
de pessoas ao redor dos dois, mas, naquele momento, aquele contato humano e
afetivo o fez sentir muito bem.
Os dois sorriram, um pouco tímidos, quando se afastaram, e Helô passou o
cabelo para trás da orelha.
― Me ajuda a colocar tudo na bancada então, espertinha.
― Sim, senhor.
Já estava quase tudo pronto, inclusive o rádio esperando para ser ligado
assim que Cali chegasse. João já tinha saído para buscá-la em casa e eles
passariam no apartamento antes de irem jantar fora porque ele “esqueceu a
carteira e o presente”. Era um plano simples, porém eficaz, e eles esperavam que
Cali não estivesse desconfiando de nada.
A última convidada que faltava chegou no momento em que Edu e Helô
voltavam para a sala, onde o resto dos convidados fazia algazarra. Apolo abriu a
porta e ficou encarando a garota parada de frente para ele com curiosidade.
― E você, quem é? – ele perguntou.
Edu espiou para ver quem era e encontrou os olhos azuis de Lavínia por
uma fração de segundo. Ele gostaria de não ter reparado, mas a presença dela ali
o afetou imediatamente, deixando-o sem saber muito bem o que fazer em
seguida. Primeiramente agradeceu mentalmente por ela não estar usando
nenhum decote, porque sabia bem como Apolo era quando se tratava do sexo
feminino. E Lavínia, bem, podia ter todos aqueles atributos, mas era só uma
menina.
Não que ele estivesse pensando nessa parte específica do corpo dela, mas a
imagem surgia em sua mente sem pedir licença e o assustava por ela, bem, por
ela...
― Lavínia – ela respondeu com simpatia, sem se deixar intimidar. – Vim
para o aniversário da Cali.
Apolo virou para trás e encontrou o olhar do Eduardo, o sorriso sacana já em
seus lábios de um jeito que fez a espinha do Edu gelar.
― A gente deixa essa aqui entrar ou não? – Apolo brincou.
― Oi, Lavínia – Eduardo disse, fazendo um gesto para que ela se
aproximasse. A menina segurava um prato embrulhado com papel alumínio e
Eduardo foi tirá-lo de suas mãos para ajudá-la. – Essa é a minha vizinha de cima
– ele apresentou.
― E aí, Lavínia – os amigos da Cali a cumprimentaram em meio à sua
conversa animada e barulhenta.
― E aí – ela respondeu.
Mas a garota se virou para Eduardo logo em seguida e seu olhar, ele
reparou, pousou em Helô por uma fração demorada de segundo.
― O que é isso? – ele perguntou, referindo-se ao que ela trouxera. – Não
precisava ter trazido nada.
― Minha mãe disse que é falta de educação vir de mãos abanando então eu
fiz um cachorro-quente de forno.
― Você que fez? – Helô perguntou. – Que fofa. Eu adoro cachorro-quente
de forno e a Cali também.
Eduardo notou, pelo gelo nos olhos azuis dela, que Lavínia não gostou nada,
nada do “fofa” – embora Helô não tivesse feito por maldade. O rapaz mordeu o
lábio para não sorrir, mas a sensação o acalmou da tensão que ele nem havia se
dado conta de que estava sentindo.
― É, pois é. Eu sei fazer algumas coisas.
― Já está melhor do que eu que queimo até arroz – o anfitrião comentou,
arrancando um sorriso da sua vizinha que, mesmo pequenino, o deixou satisfeito.
Os olhos dela, ele reparou, estavam muito bonitos com o contorno preto da
maquiagem leve, e os volumosos cabelos cacheados pareciam muito macios. Ela
também estava usando um perfume diferente, um cheiro atraente que ficava
entre o doce e o amadeirado. – Bem, eu vou colocar isso com o resto da comida
e você pode ficar à vontade.
No mesmo momento em que ele disse isso, Apolo passou um braço em
torno dos ombros de Lavínia. Eduardo lançou um olhar de advertência a ele
antes de voltar para cozinha, mas não sabia se havia sido entendido. Esperava
que sim.
― E você hein, moça? Quantos anos você tem?
― Vou fazer dezesseis no início do março – ela respondeu.
Foi quando Hélio se virou do sofá.
― Lavínia, não dê corda a esse pervertido aí. E Apolo, francamente, ela tem
a idade da Hipólita. Nossa irmãzinha – disse o gêmeo de dezenove anos
completos.
― Nem sempre números significam alguma coisa – a garota rebateu,
espirituosa como só ela, e abriu um sorriso sugestivo que fez metade das pessoas
na sala uivarem.
Hélio, é claro, ficou chocado.
― Eu gostei dessa garota – Apolo anunciou. – Lavínia, seja bem-vinda ao
nosso clã.
― Ai, meu Deus, eles estão chegando! – Helô explodiu, pulando com o
celular nas mãos. Eduardo surgiu atrás dela e sua preocupação com a vizinha de
repente cedeu lugar ao real motivo de estarem todos reunidos ali naquele dia
doze de fevereiro.
― Todo mundo levanta!
E eles se levantaram. Eduardo e Helô foram para perto da porta e ele apagou
a luz. Todos ficaram em um silêncio ansioso por quase cinco minutos quando
ouviram o barulho de Guto e Cali se aproximando no corredor. Guto girou a
chave na fechadura e, no momento em que a porta se abriu, Eduardo acendeu a
luz de volta, Hélio ligou o rádio com a música da Xuxa de aniversário e todos
disseram:
― Surpresa!
A cara de surpresa da Cali não negou que ela não havia suspeitado de nada.
Seus amigos e seus irmãos a abraçaram e deram parabéns, e João Augusto a
beijou antes de entregar a caixa com o presente que comprara. Lavínia a
cumprimentou também e, assim, a festa se iniciou de verdade.
Apolo colocou o pen drive de músicas que selecionou para a festa e as
amigas da Cali afastaram a mesinha de centro para poderem dançar, animadas.
O garoto chamado Maurício e Lavínia conversavam perto da comida,
enquanto atacavam as coxinhas. A menina captou com o canto dos olhos o
momento em que Helô puxou Eduardo para dançar e mastigou a coxinha com
tanta vontade que quase quebrou os dentes. É claro que Eduardo não reparou,
embora procurasse pela menina a cada cinco minutos. Queria ter certeza de que
Apolo não a arrastaria para algum canto escuro porque, embora tecnicamente
não fosse ilegal, ele não queria ter que se resolver com os pais dela depois.
Imagina o problemão!
Ele deixou que Helô o fizesse dançar, mesmo sendo muito alto e
desengonçado para uma coisa dessas. No que ele estava pensando? Mas a garota
era o tipo de pessoa que batia o pé quando colocava alguma coisa na cabeça e
não tinha como dizer não. Ela chacoalhou os seus ombros e o fez relaxar com a
sua gargalhada alta e comentários sobre como ele “tinha dois pés esquerdos”.
Eduardo sentiu vontade de beijá-la de novo naquele momento.
E assim o fez, segurando seu rosto entre as mãos gigantes.
― Você é irritantemente bom nisso – ela comentou, com seu jeito
espontâneo de sempre.
Eduardo abriu um sorrisinho de canto de boca que era, sobretudo, muito
charmoso.
― Realmente ninguém nunca reclamou até agora.
Helô passou os braços pela cintura dele e esquivou uma sobrancelha. Ele viu
a sua boca se mexendo enquanto ela dizia algo, mas toda sua atenção foi tomada
pela voz de Apolo ecoando alto na sala:
― Lavínia, você tem que dançar comigo – foi o que ele disse. A menina deu
um gole enorme na sua Coca-Cola antes de pedir licença ao Maurício e ir para a
pista de dança improvisada entre os sofás.
Ele paralisou ali mesmo onde estava e seus músculos dos ombros se
contraíram. Um formigamento de incômodo o acometeu enquanto ele seguia
Lavínia e Apolo com os olhos bem atentos. Eles pareciam estar se divertindo.
― Você ouviu o que eu disse? – Helô indagou, fitando-o com curiosidade.
Eduardo voltou-se para sua acompanhante e abriu um sorriso pálido.
― Desculpa, eu me distraí. O que disse?
― Deixa pra lá, só me beija de novo então.
Ela o puxou pelo pescoço e os dois trocaram o beijo mais caloroso da noite
até então. Edu não gostava de demonstrações públicas de afeto desse jeito, não
era do seu feitio, mas, quando se deu conta, já estava mais do que envolvido no
momento.
A festa fora um sucesso e Calíope estava explodindo de felicidade. Guto
também transbordava alegria por ter feito tudo certinho pela namorada e
ninguém poderia reclamar de falta de animação nem de comida. Os convidados
começaram a ir embora quando foi ficando tarde e Eduardo ouviu quando
Lavínia começou a se despedir dos remanescentes.
― Eu te acompanho até em casa – ele ofereceu. A menina, primeiramente,
pareceu prestes a recusar a oferta. Havia um distanciamento estranho no modo
como ela olhava para ele que o fez repensar se havia feito algo de errado.
Lavínia geralmente era tão audaciosa, sempre tentando invadir o espaço dele.
Ela acabou aceitando a oferta, de modo que os dois deixaram o apartamento
logo depois de os amigos da Cali irem embora – inclusive a Helô. Lavínia
apertou o botão do elevador e os dois ficaram esperando no corredor do décimo
primeiro andar em silêncio.
― Eu poderia simplesmente subir dois lances de escada, você sabe disso,
né?
Eduardo sorriu e os dois se encararam por um breve segundo que, ele notou,
a fez corar. O rapaz achou aquilo tremendamente adorável.
― Seus pais já te deixaram vir. É o mínimo que posso fazer.
Lavínia soltou uma gargalhada e o muro que ela havia construído
brevemente entre os dois desmoronou naquele momento, deixando Eduardo mais
satisfeito do que pensava, por ela, aparentemente, ter “voltado ao normal”.
― Você não precisa fazer nada.
― Eu quero – ele se corrigiu, surpreso consigo mesmo.
Lavínia o fitou de novo, seus olhos azuis intensos sobre o rosto dele.
Eduardo se adiantou para abrir a porta do elevador, mas ela demorou um minuto
a mais para se mover.
Eles ficaram lado a lado de novo, mas sem dizer nada. Da última vez em que
se encontraram dentro daquelas paredes de metal, ela o havia salvado de uma
crise tensa de claustrofobia. E, de certa forma, naquele momento, com a
maquiagem dos olhos um pouco borrada, os cabelos castanhos presos em um
coque folgado e o olhar azul intenso e decidido, Lavínia parecia menos com uma
garotinha.
Ele empurrou a porta com as costas quando o elevador chegou ao décimo
primeiro andar, abrindo passagem para ela. A garota parou diante dele, no
pequeno espaço disponível, e os dois se olharam nos olhos mais uma vez,
liberando uma corrente assustadora de energia pelo corpo dele. Seu coração
começou a bater acelerado de um jeito que não era normal para uma situação
como aquela.
E, no momento em que Lavínia ficou na ponta dos pés e depositou um beijo
no seu rosto, o rapaz não conseguiu se organizar o suficiente para responder. Ele
foi totalmente pego de surpresa e ficou ali parado, chocado demais para dizer
alguma coisa. A tensão em seus ombros era inconfundível e eles estavam tão
perto um do outro que ela podia sentir a sua respiração.
Lavínia sorriu e limpou a leve marca do seu batom que ficou na bochecha
dele.
― Obrigada por hoje – ela disse. – Eu me diverti bastante.
É claro que ela não diria nada sobre estar tendo um ataque cardíaco pelos
seus lábios terem encostado a pele quente e macia do rosto dele. Por terem
roçado a barba por fazer que ele mantinha, e por ela ter tido que se segurar muito
para não continuar o caminho pelo seu rosto e beijar outras partes dele.
Eduardo apenas assentiu, contido como ele sempre era. Tentando entender a
estranheza que era reagir tão inesperadamente à proximidade de Lavínia,
tentando recuperar o juízo que, só pode, tinha ido passear por esse breve
segundo e o deixado a mercê dos seus sentidos aguçados.
Ele piscou algumas vezes e retesou as costas, recuperando a compostura.
Então disse:
― Boa noite, Lavínia.
E ela respondeu:
― Boa noite, Eduardo.
E se virou de costas, deixando-o sozinho dentro do elevador com seus
próprios pensamentos.
11. Rumores
Lavínia só queria terminar de assistir o seu anime em paz, mas desde que
voltara de viagem, sua mãe estava insuportável. Ela já havia pedido à garota para
fazer um milhão de coisas (arrume seu quarto, tire a roupa lavada da máquina,
estenda a roupa no varal, faça um suco de laranja) como se trabalhos domésticos
fossem o que Lavínia mais quisesse fazer no último final de semana antes das
aulas voltarem.
Ela havia viajado na sexta passada e só voltara nesse sábado à noite. Era a
primeira vez que viajava sem os pais e, talvez, sua mãe estivesse apenas
querendo usufruir da sua presença novamente em casa depois de oito dias longe.
A mãe de Lavínia não era exatamente uma pessoa sensível, mas as duas tinham
um ótimo relacionamento. E, como toda mãe, ela sentia saudades da filha
quando passava tanto tempo fora.
O pai da garota era um pouco mais sentimental porque “para ele, ela seria
sempre o seu bebê”. O que era uma coisa muito brega de se dizer, mas também
um tanto fofa. Melhor assim do que se seus pais não dessem a mínima para ela,
não é mesmo?
Ela estava terminando de espremer as últimas laranjas quando sua mãe
adentrou a cozinha. O espremedor elétrico fazia um barulho alto e Lavínia ainda
sentia muito calor por causa da pele queimada de sol. Estava com o rosto todo
esbranquiçado graças ao creme hidratante que a mãe passara para aliviar a
ardência, e deveria estar parecendo uma múmia – mas pelo menos o cheiro de
canela era gostoso.
Teresa parou no batente da porta e cruzou os braços, fitando a filha com
olhos maternos amorosos e observadores. Daqueles que, quando você percebe,
franze a testa e pergunta:
― O que foi?
― Você está muito magra. Tem certeza de que comeu direito durante essa
viagem?
A garota revirou os olhos.
― Mãe! Nós já falamos sobre isso umas três vezes desde ontem, eu já disse
que sim. A mãe da Anaju fazia a gente comer o tempo todo – sem contar que
magra era a última palavra que poderia descrever a menina curvilínea.
― Hum – Teresa resmungou, ainda sem acreditar totalmente. – Vou pedir
uma pizza, você vai querer?
― Claro. Não se diz não pra pizza.
Teresa assentiu, sorrindo, e se aproximou da filha. Fez um carinho em seu
ombro e beijou a cabeça ternamente. Ela era uma mulher muito prática e
inteligente. Trabalhava – muito – como paisagista, mas, como era característico
das mulheres do século XXI, administrava casa, emprego e filhos como se
tivesse 30 horas no dia, ao invés de 24. Estava sempre fazendo alguma coisa,
odiava ficar parada, ao contrário do seu marido, que era muito pacato e achava
que um domingo perfeito era aquele em que passava assistindo a algum jogo de
futebol na TV com sua cerveja do lado. Ele lidava com a vida e seus pacientes
no consultório dentista com muito bom humor.
Nenhum dos dois pensava em ter filhos e, por isso, fecharam a fábrica
depois da surpresa que foi Lavínia. Filhos únicos sofriam o estigma de serem
mimados e autocentrados, mas isso nunca aconteceu na casa dos Lemes. Por
mais que ambos, pai e mãe, fossem muito apegados à sua filhinha.
Educar era bastante difícil. Mas Lavínia nunca deu trabalho aos pais além de
ser muito cabeça-dura. Quando criança cismava com alguma coisa e
argumentava como um adulto até conseguir o que queria. É claro que isso nem
sempre acontecia, porque Teresa não dava mole, mas a menina nunca desistia.
Ela sempre pareceu muito mais crescida do que realmente era e, como dizia seu
avô paterno, “Lala já tinha nascido com trinta e sete anos”.
A menina terminou de espremer as laranjas e colocou o suco na geladeira
antes de voltar para o seu anime. Finalmente estava assistindo Sailor Moon
Crystal, porque havia se viciado nos mangás que pegara emprestado com Isabel
nas férias. Lavínia sabia que Sailor Moon era um anime dos anos 90, antes
mesmo dela ter nascido, mas gostava do gráfico mais moderno do remake que
foi feito em 2015.
Para falar a verdade, ainda estava cansada demais por ter passado a semana
inteira indo para praia e saindo à noite com os amigos ininterruptamente. Nem
tudo havia sido... Bem, nem tudo foi perfeito durante a viagem. Mas a casa dos
pais de Anaju ficava no centro de Cabo Frio e eles conseguiam fazer
praticamente tudo andando – e, por isso, quase não paravam em casa. O que era
ótimo porque, aos dezesseis anos, nenhum deles ainda dirigia.
Dezesseis anos.
Faltava tão pouco para o aniversário dela! Aquela data parecia mágica,
como ultrapassar uma etapa e deixar a fase anterior para trás. Na cultura
brasileira, os quinze anos é que geralmente simbolizavam essa transição, porém
Lavínia sempre teve um carinho especial pelos dezesseis.
Mas ali estava ela, sem ainda fazer ideia de como comemorar o dia primeiro
de março. A garota estava matutando sobre seu aniversário – o dia seguinte já
seria dia 27! – e assistindo Sailor Moon Crystal pelo notebook, deitada na cama,
quando o celular vibrou ao seu lado. Lavínia deu pause no episódio e o pegou na
mesma hora.
Paulo: Lavs ta td certo entre a gente msm né?
A menina fez um som de lamento, desejando não ter visualizado a
mensagem naquele momento. O que ela poderia dizer a ele que já não tivesse
dito na sexta? Foi horrível. Ela nunca se sentiu tão mal assim antes, por mais que
já tivesse passado por uma situação parecida no ano passado. Mas Paulo... Eles
eram amigos e agora ela não sabia como agir com ele sem esconder como estava
se sentindo pelo que aconteceu.
Ela respirou fundo e digitou da maneira mais sucinta.
Lavínia: Claro que sim.
A menina sabia que não o havia convencido porque, apesar de pouco tempo
de convivência, Paulo a conhecia bem. Mas Lavínia não queria falar sobre
aquele assunto naquele momento. Primeiro porque queria tirar a lembrança de
sexta-feira da sua cabeça, segundo porque havia se arrependido.
Nem para Cami ela tinha contado. Só Anaju sabia, porque voltara para casa
para pegar o protetor solar que havia esquecido e acabou... Presenciando.
A viagem como um todo havia sido maravilhosa. Sua amizade com Anaju
só crescia e, até mesmo Thaís, que tinha um pouco de ciúmes dela, fora
agradável. Ela se divertiu tanto que gostaria que aquele feriado não terminasse...
Mas então veio a sexta-feira e acabou com toda a graça. Pelo menos foi o
penúltimo dia.
Lavínia desligou o celular e o colocou no chão pra não sentir quando ele
vibrasse de novo. Então voltou para o seu anime, sentindo o nó que se formara
em seu peito se desfazendo enquanto mergulhava na história da Usagi e do
Mamoru.
Por fim, ela acabou pegando no sono.
E não estava preparada para encontrar o Paulo no dia seguinte.
***
Lavínia chegou à escola com seus fones de ouvido na orelha e os habituais tênis
vermelhos surrados, com uma expressão de poucos amigos no rosto. Ela odiava
quando se sentia insegura sobre como agir, sobre o que fazer, porque sempre fora
decidida, nunca teve medo de nada e gostava de viver assim, sem deixar as
coisas a abalarem.
Naquele dia ela só podia estar na TPM.
Estava um pouco cedo e a garota sentiu alguns olhares a acompanharem
enquanto atravessava o pátio da escola para esperar o sinal tocar. Sentou-se em
um banco livre e segurou a mochila na frente do corpo.
― E aí, Lavagirl – disse Fabrício, esparramando-se ao lado dela no banco.
Tirou os fones pra poder ouvi-lo direito. – Nossa, seu nariz já tá descascando.
Ela estava prestes a responder, mas sua atenção fugiu para um grupinho de
garotas cochichando e olhando para os dois no banco. Lavínia ficou encarando –
porque ela era esse tipo de pessoa – até as meninas se virarem constrangidas. A
garota franziu o cenho.
― Oi – respondeu sem disfarçar o mal humor. – Está todo mundo
cochichando pelos cantos hoje.
Fabrício olhou ao redor por um segundo e deu de ombros.
― A gente tá na escola, é isso o que as pessoas fazem aqui.
Lavínia deixou escapar uma risada pelo nariz e encarou o amigo. É claro
que ainda estava de olho nos cochichos ao seu redor. Ela sabia que, sim, todo
mundo falava de todo mundo pelos cantos do colégio, mas, de alguma maneira,
parecia que todos estavam fofocando sobre ela naquela manhã.
No ano passado, quando seu ex-namorado espalhou o boato das nudes, foi
graças ao movimento estranho do resto dos alunos quando estavam perto dela
que Lavínia se deu conta de que havia algo errado. Então, ok, pode ser que ela
estivesse um pouco paranoica e ainda com sono, mas fatos são fatos.
E o sexto sentido de Lavínia Lemes não costumava falhar.
― Quem precisa estudar, não é mesmo? – ela respondeu, deixando os
ombros caírem e tentando relaxar. A verdade era que a menina não queria
encontrar com o Paulo e isso podia ou não estar mexendo com o seu psicológico.
– Cadê a Anaju?
Ela sabia que Fabrício vinha de carona com a amiga, mas não a estava
vendo em lugar algum no pátio. As pessoas continuavam a encará-la com rostos
curiosos e conversinhas em tom de sussurro.
“Ninguém merece”, Lavínia pensou, bufando. “O que foi que eu fiz dessa
vez?”
Porque claramente ela ser o alvo daquele burburinho não era coisa da sua
cabeça.
― Tá com febre, acredita? É muito mole desde criança, não aguenta uma
piscininha – Fabrício respondeu, rindo da amiga.
― Sério? Vou mandar mensagem pra ela então – Lavínia já estava sacando
o celular do bolso.
― Cara tem uma pele do seu nariz descascado que tá pra cima, deixa eu
tirar...
Ele estendeu a mão na direção do nariz da garota, mas ela a estapeou pra
longe, com uma cara de “o que você fumou, seu doido?”. Fabrício não conseguia
parar de olhar pro nariz dela, o que era muito bizarro e engraçado ao mesmo
tempo, e, no fim das contas, a fez rir.
― Deixa meu nariz em paz – ela ordenou, tapando-o com a mão esquerda.
― Cara, mas tá me dando muito nervoso.
― Lavínia.
A voz de Cami chamou a atenção da menina. Ela encarou, ainda rindo, a
amiga parada um pouco distante do banco. Estava com uma cara séria, mas
Cami não era uma pessoa matutina e sempre parecia a ponto de assassinar um
leão nas primeiras horas depois de levantar.
― Ei, Cami. Chega mais – Lavi chamou.
Fabrício esquivou uma sobrancelha quando fitou a amiga da amiga e abriu
seu sorriso de garoto levado para ela.
― Cabelo legal – ele disse, referindo-se aos fios alaranjados e gigantescos
de Cami, soltos e sedosos demais para uma segunda-feira de manhã. “Como é
que ela conseguia?”, Lavínia sempre se perguntava.
Por um breve momento, Cami registrou a presença de Fabrício ali também e
pressionou os dois lábios um no outro, como quem está pensando em alguma
coisa.
― Valeu – ela disse, mas logo voltou sua atenção para a amiga. – Nia,
podemos conversar?
Lá estava o tom de seriedade de novo. E, dessa vez, Lavínia acreditou.
― Ok – ela disse se virando para Fabrício. – Depois a gente se fala, Brício.
As duas meninas seguiram para o outro lado do pátio, com Cami à frente em
uma postura rígida que dizia... Lavínia não fazia ideia do que aquilo significava.
Será que tinha a ver com todos os cochichos ao seu redor? As pessoas a
encaravam cada vez com menos pudor, como se ela estivesse em um
observatório e não só indo procurar um lugar reservado pra conversar com a
melhor amiga.
E Lavínia odiava essas coisas. Essa necessidade das pessoas no colégio de
ridicularizarem os outros de alguma maneira, como se fofocas fossem o seu
oxigênio e não houvesse nada melhor do que falar “por trás” sobre o que fulano
ou ciclano fez “de errado” no fim de semana.
Fulano podia fazer o que bem entendesse.
E isso não era da conta de ninguém.
Muito menos de adolescentes sem ter mais o que fazer na vida além de
apontar o dedo julgador para o coleguinha.
― Que isso, hein, Lavínia? – um garoto disse com um tom de deboche
irritante na voz. As duas amigas pararam e se viraram para trás, dando de cara
com um grupo de pessoas do terceiro ano. Algumas meninas abafaram o riso e
todos que estavam em volta prestavam atenção na conversa. – Eu sempre soube
que você era fácil, mas tô surpreso. Quero também.
A menina franziu o cenho enquanto as pessoas riam e arfavam diante do
comentário do idiota.
― O que foi que você disse? – ela indagou, da sua maneira intensa e sem
brecha para gracinhas.
Mas o garoto não se intimidou.
― Quero saber quanto custa a hora com a Lavínia Corrimão – ele disse.
Uma das suas amigas não conseguiu se segurar e soltou uma gargalhada
alta. A outra disse:
― Deve ter rendido bem nesse fim de semana, se já tá cobrando.
Mas Lavínia, apesar de morrendo de raiva, não estava entendendo coisa
alguma.
― De que merda vocês estão falando? – ela exigiu saber.
Cami a puxou pra trás pelos ombros, mas a garota se soltou. É ruim que
deixaria as coisas mal ditas daquela maneira. Se estavam inventando fofocas
sobre ela pelo colégio, ao menos ela tinha o direito de saber o que era.
― Nia...
― Do que vocês estão falando? – Lavínia repetiu mais incisiva ainda do que
da primeira vez. Seus olhos azuis eram duas facas de pontas afiadas, prestes a
serem atiradas no primeiro engraçadinho.
― Ah, agora ela está com amnésia, gente – a menina da gargalhada
debochou. Todas as pessoas ao redor reagiram de alguma forma, ora rindo, ora
sussurrando coisas que ela preferia nem ouvir mesmo.
Seu sangue corria quente pelo corpo e o coração estava disparado. De raiva,
de frustração, até mesmo de medo do que estava por vir. Aquilo de novo, não.
Devia haver um limite para as pessoas inventarem coisas sobre as outras. Por
que justo ela?
Será que estavam falando...
― Vai se fazer de desentendida e fingir que não abriu as pernas pro Paulo
no Carnaval? Todo mundo já sabe de tudo.
E então a espinha de Lavínia gelou.
― O quê? – ela disse mecanicamente, sem acreditar no que estava ouvindo.
― É isso mesmo – o garoto que começou todo aquele alvoroço disse, com
um prazer doentio nos olhos por poder ridicularizá-la. Ele riu, debochado. –
Todo o colégio já está sabendo que você pegou o Paulo e o Fabrício nesse
feriado. E eu te pergunto de novo, quanto é que é a hora?
12. Ottoke?
Edu nunca foi o maior fã de carnaval, mas esse ano ele teria se arrependido
se não tivesse cedido ao convite de Felipe para ir passar o feriado em Maricá.
Certamente ser arrastado pelos amigos para os blocos, praias e festas na cidade
era muito melhor do que ficar em casa fazendo vários nadas – até mesmo porque
Helô tinha uma viagem marcada para Ouro Preto com os amigos dela e os dois
não poderiam ficar juntos.
Ele achava até bom, na verdade. Porque o carnaval era aquela época
constrangedora do ano em que os casais que estão em um relacionamento não-
sério precisam ter “A Conversa”. Ou se separavam e cada um ia curtir o feriado
do jeito que bem entendesse, em comum acordo, ou ficavam juntos durante a
semana inteira, e isso era praticamente a mesma coisa de tirar o “não” do “não-
sério”. Provavelmente havia uma terceira opção, mas Eduardo não fazia ideia de
qual era.
Então ficou muito satisfeito por não precisar ter “A Conversa” com Helô e
seguir o rumo da sua vida naturalmente. Não que ele fosse o tipo que saía
pegando meio mundo só porque era carnaval. Edu não era do tipo que saía
pegando meio mundo nem em épocas de paz, aliás.
Mas era carnaval. E não fazia mal algum dar uns beijos por aí.
Essas foram palavras de Duda, não dele. Mas Edu achou que faziam muito
sentido.
Então, por mais que ele gostasse do tempo que passava com Helô, foi muito
melhor ambos seguirem seu rumo sem complicações durante essa semana atípica
na rotina. Depois que ela passasse, quem sabe, eles não voltassem a sair juntos
de novo e aí, talvez, quem sabe... Bem. Não. Ele não queria um relacionamento
sério, mas não havia nada que o impedisse se isso acontecesse sem pretensões.
E essas foram as palavras exatas de João Augusto, não dele. Mas Edu
deixou-as penetrar em seu cérebro bastante perspicaz e reconheceu que, mais
uma vez, seu irmão mais novo tinha certa razão.
O que restava para ele era continuar vivendo, um dia de cada vez. Eduardo
sabia que ele era uma pessoa complicada consigo mesmo, embora fosse adorável
com os outros. Mas chega um ponto na vida de todo mundo que parece que não
existe outra saída além de encarar o que está errado.
E, no caso dele, se permitir.
Por isso ele ficou com Helô. Por isso ele foi passar o carnaval em Maricá
com os amigos malucos.
E por isso ele estava sentado no sofá com Bartolomeu – seu buldogue
francês preto – deitado no seu colo. Os dois encaravam a tela do notebook em
cima da mesinha de centro em uma mistura de choque e surpresa, lendo e
relendo o e-mail aberto uma centena de vezes. Bartolomeu até mesmo levantou
as orelhas e entortou a cabeça, o que, para Edu, foi uma metáfora perfeita do
modo como ele mesmo se sentia por dentro.
Edu fez carinho no pelo do cachorro e as engrenagens da sua cabeça
giravam a mil por hora. Ele leu o e-mail mais uma vez – só pra ter certeza – e
deixou escapar um silvo baixo, jogando as costas no encosto do sofá.
O cachorro virou a cabeça e encarou o dono com aqueles olhos enormes que
pareciam perguntar “O que você vai fazer agora, camarada?”.
― Não olha pra mim – Edu respondeu, fazendo carinho debaixo da orelha
do cão, que balançou o rabo na mesma hora. – Esperava que você pudesse me
dizer o que fazer. Veja bem, é uma decisão difícil de ser tomada.
Bartolomeu levantou o focinho como se dissesse “sim eu entendo sua
situação, só não pare de fazer esse carinho gostoso”.
― Tu tá falando com o cachorro de novo? – João Augusto perguntou,
saindo do seu quarto e indo abrir a geladeira do apartamento.
― Ele é o único que me entende – Edu respondeu, para satisfação de
Bartolomeu, que se inflou todo com a importância que tinha para o dono. Era
bom ser reconhecido de vez em quando. Edu segurou a cabeça do cão com as
duas mãos. – Não é mesmo, camaradinha?
― Qual foi a grande sabedoria canina do dia?
― Ele ainda não me deu uma resposta. Na verdade, tenho a leve impressão
de que, dessa vez, Bart não vai poder me ajudar.
João limpou a boca suja de suco de laranja e bateu o copo na pia.
― Acho que ele não devia mesmo. Depois desse nome horrível que tu desse
a ele, não deveria ter te ajudado nunca.
― Bartolomeu é um nome ótimo – Eduardo protestou. – Bartolomeu Dias
foi o primeiro navegante a cruzar o Cabo da...
― Boa Esperança – João completou a frase do irmão com uma risada. – Já
sei disso, piá. E ainda acho uma porcaria de nome.
― Que nome tu darias a ele, então? – Edu quis saber, se levantando com o
cachorro bem acomodado em seus braços longos. Ele parou diante da bancada
entre a cozinha americana e a sala.
João Augusto pensou por um minuto.
― Sei lá. Falcão?
Eduardo encarou o irmão com uma cara de tédio. Seus óculos pendiam no
nariz.
― Você daria o nome de um animal a outro animal?
João coçou a cabeça, ponderando sua falta de criatividade.
― Bem, tecnicamente, seres humanos também são animais. E tu desse esse
nome a ele por causa de um ser humano.
― Bem, não foi exatamente...
― Meu Deus, nós precisamos fazer algo da vida logo. Olha só o tipo de
conversa que estamos tendo.
E, com isso, Eduardo suspirou e concordou com a cabeça. O irmão mais
novo saiu da cozinha e se jogou no sofá, com uma cara inegável de sono e as
maçãs do rosto todas vermelhas por causa do excesso de sol e praia dos últimos
dias. Até mesmo os cabelos castanhos estavam queimados, coisas que
aconteceram com Eduardo também.
Os dois eram brancos demais.
João e Cali tinham ficado no Rio durante o carnaval. Sozinhos. Pela
primeira vez.
Não é preciso dizer mais nada além disso.
― As aulas voltam semana que vem, logo esse marasmo termina – Edu
garantiu. – Embora eu ache que tédio não seja um mal que te assole no momento
– ele provocou, fazendo um sorriso de canto de boca surgiu no rosto do irmão.
― Cala a boca.
― Eu não disse nada!
― Vai comprar leite, a gente tá sem – ele mudou de assunto assim
descaradamente, o que fez Eduardo rir.
― Desde quando você fica envergonhado? Quem é você? É porque foi
muito especial? – Edu não conseguia se controlar.
Augusto mostrou o dedo do meio para o irmão e Eduardo balançou a
cabeça, rindo ainda mais. O caçula ligou a televisão e cruzou os braços,
recusando-se a responder às provocações do mais velho, mas com aquele
sorrisinho insistente nos lábios.
― Tudo bem, piá. Tô indo lá comprar o leite tão importante.
Ele largou Bartolomeu no chão, que correu com tudo até os pés do João
Augusto. Edu pegou a carteira em cima da bancada e saiu de casa com o bom
humor renovado. Ter seu irmão por perto foi a melhor coisa que aconteceu em
sua vida nos últimos tempos.
Mas, apesar disso, foi apenas colocar os pés para fora de casa, no silêncio do
corredor e do elevador, para os questionamentos do rapaz sobre o e-mail que
recebera voltarem com tudo.
“O que eu devo fazer?”, ele se perguntava, medindo suas possibilidades.
Tomar decisões – principalmente as arriscadas – não era algo com o qual
Eduardo lidasse muito bem. Porque era difícil para ele, muito difícil. Embora
fosse um cara bastante inteligente – ou, talvez, por causa disso – as
oportunidades apareciam na sua vida sem que fosse preciso muito esforço ou
decisão.
E agora, quando ele se via dividido entre duas coisas diferentes, não sabia o
que fazer.
Era nisso que estava pensando quando chegou ao hall do prédio, mordendo
o lábio e coçando o queixo com a barba por fazer pinicando seus dedos. E era
nisso que ele estava pensando quando avistou Lavínia vindo da direção oposta,
passando pelo portão do prédio.
O que seria uma situação completamente corriqueira se ela não estivesse
chorando.
13. Fora de Si
Não havia nada que Lavínia quisesse fazer mais do que partir a cara de
alguém.
Não de uma pessoa aleatória, oh não. Mas do babaca que ousou ofendê-la
sem nenhum propósito. É claro que ela aceitaria a cabeça de qualquer um para
arrastar no asfalto naquele momento, mas era ele quem ela queria. Seria nele em
quem ela estaria pensando durante todo o processo.
Lavínia precisou se segurar – na verdade, esse foi o trabalho de Cami – para
não dar um soco no nariz do garoto e acabar com aquele sorrisinho debochado
enquanto ele a humilhava na frente de todo o colégio. Faltou um tiquinho –
precisamente, dois dedos de distância – para ela conseguir acertá-lo. Lavínia
havia sido possuída pelo espírito da raiva e, se não fosse Cami segurando-a, ela
não poderia responder por si mesma.
O fato é o seguinte: Lavínia não levava desaforo para casa. Era doloroso ter
que engolir as porcarias que são ditas por pessoas de, claramente, menos
inteligência e caráter. Foi por isso que, já que ela não poderia despejar a sua
raiva usando os músculos e as unhas, xingou o sujeito de todos os nomes
possíveis.
Às vezes ela podia ser muito impulsiva e explodir como uma granada.
Foi precisamente nesse momento que o sinal tocou e o inspetor do andar
térreo chegou para acalmar a situação.
― Eu não quero nem saber o que está acontecendo aqui. Vão todos para
suas salas. Agora – disse ele de uma maneira muito enfática, apenas um decibel
abaixo do que seria considerado um grito.
As pessoas ao redor começaram a se dissipar, cochichando sobre o ocorrido,
mas principalmente sobre as fofocas que andavam espalhando a respeito de
Lavínia. O filho da mãe do terceiro ano – seu nome era Wesley – e seus amigos
deixaram a cena rindo, como se fossem os reis do Universo e Lavínia o bobo da
corte.
Ela soltou um rugido, ainda enfurecida, e finalmente conseguiu se livrar das
mãos de Cami quando garantiu que não iria arrancar os olhos de ninguém.
Camila parou em frente à amiga, pálida de nervosismo, sua expressão numa
mistura de terror e incredulidade.
― O que foi que acabou de acontecer? – Lavínia conseguiu dizer depois de
respirar fundo e fazer seu sangue esfriar o suficiente para não atravessar o pátio e
agarrar Wesley pelo cabelo.
Não, ela não tinha a mínima classe.
― Era sobre isso que eu queria conversar com você – Cami explicou, muito
séria. – Esses rumores estão se espalhando como um vírus, eu cheguei na escola
hoje e todo mundo só falava sobre você, o Paulo e o Fabrício. Lavínia, isso...
― Não se atreva a me perguntar se é verdade – ela cortou a amiga, seu olhar
azul se enchendo de fagulhas de novo.
― Eu sei que não é verdade, mas eu precisava confirmar.
― Bom, você não deveria precisar – ela foi afiada e passou pela amiga a
passos duros, engolindo a irritação. Cami foi atrás e tocou o ombro dela,
fazendo-a parar.
― É claro que eu acredito em você, mas se você fez ou não, não faz a
mínima diferença.
― Como não faz? – Lavínia explodiu. – Espalharam um boato sobre mim
que não é verdade, como isso pode não fazer diferença?
― Porque mesmo se você tivesse feito, o resultado seria o mesmo – Cami
explicou, escolhendo bem as palavras para que Lavínia não entrasse em
combustão instantânea de verdade. – Olha – ela continuou, segurando a amiga
pelos ombros. – Tem alguém sendo muito maldoso e usando isso pra te difamar.
Isso é bullying.
― Difamar – Lavínia repetiu e riu com escárnio. – Ninguém tem nada a ver
com o que eu faço ou deixo de fazer! Se eu quiser ficar com todos os garotos da
escola, isso é problema meu. Por acaso tem alguém usando isso para humilhar o
Paulo e o Fabrício também?
― Bem. Não.
― Exatamente! Argh – ela gritou e saiu andando de novo, porque não
conseguiria conter sua irritação se continuasse parada. Cami veio novamente ao
seu encontro e a puxou para entrarem no banheiro feminino assim que chegaram
ao segundo andar. Lavínia andava de um lado para o outro.
― Não acredito que isso está acontecendo de novo. Eu não estou nem aí se
as pessoas me julgam ou deixam de julgar, mas por uma coisa que eu não fiz?
Oh, não. Não mesmo.
― Nia, eu sei que você não se importa de falarem sobre você, porque
ninguém tem nada a ver com isso e tudo mais – Cami mordeu o lábio, tentando
conter o tom preocupado da sua voz, mas estava tudo em seus olhos. – Mas
dessa vez eu estou com uma sensação tão ruim.
― Porque isso é horrível – Lavínia esclareceu, parando em frente à pia e
olhando para Cami pelo espelho. – Eu estou puta da vida.
― Eu te falei que não era boa ideia andar com aquele grupinho.
Lavínia se virou.
― Você está me dizendo que foi...
― É óbvio que foi! Quem mais inventaria algo assim?
― Não, não pode ter sido a Anaju, não depois do que ela viu. Eu sei que não
foi ela.
Cami bufou e cruzou os braços.
― Eles te usaram, Lavínia. Te chamaram pra fazer parte das suas festinhas
só pra poder criar esses boatos sobre você.
― Mas isso não faz sentido!
― Faz pra gente que não tem caráter, que não é amigo de ninguém de
verdade, que gosta de criar polêmica. Está cheio de gente assim nessa escola.
Lavínia balançou a cabeça.
― Mas ela não é assim, você nem a conhece de verdade, Cami.
― Você realmente está defendendo essas pessoas? – Cami parecia não
acreditar. – Depois de “alguém misterioso” espalhar que você é esse tipinho de
garota fácil que abre as pernas pra dois no mesmo fim de semana, você não vai
ficar nem um pouco desconfiada?
Lavínia primeiro ficou encarando a amiga, em estado de choque. Depois ela
deixou escapar um riso sem um pingo de humor, querendo poder apagar os
últimos dez segundos pra não precisar ter ouvido aquilo.
― Tipinho de garota fácil? – ela repetiu, ainda não querendo acreditar que
aquelas palavras saíram da boca justo de Cami. – Então se eu tivesse mesmo
feito o que estão dizendo, era isso o que você acharia de mim?
― Mas você não fez, Lavínia!
― E daí? Então uma garota não pode ter a liberdade de escolher o que faz
com o próprio corpo sem ser julgada?
― Não foi isso o que eu disse, eu não estou apontando o dedo pra você, eu...
― Então é por isso que você estava tão preocupada? Não era porque todo
mundo estava falando mentiras sobre mim e sendo injusto comigo, mas porque
havia a remota possibilidade de ser verdade!
― Não, Nia, presta atenção...
― Eu não quero conversar com você agora – Lavínia se esquivou quando
Cami tentou se aproximar. – Na verdade, eu não quero falar com ninguém agora.
Ela apertou a alça da sua mochila com força e balançou a cabeça,
desnorteada com o rumo daquela conversa logo depois de ter sido atacada
verbalmente por um monte de delinquentes juvenis. É claro que ela sentia raiva
deles, mas sua melhor amiga? Ouvir aquilo de Cami fez seu estômago revirar.
Lavínia se virou e saiu do banheiro, muito decidida, indo direto para a
enfermaria do colégio. Inventou algumas cólicas terríveis – ela já era conhecida
por não conseguir sair da cama por causa dessas dores – e conseguiu autorização
para voltar pra casa, depois da coordenação conseguir contatar seus pais. Eles
estavam trabalhando no momento, então ela simplesmente voltou andando,
como fazia sempre.
E enquanto caminhava as poucas quadras que separavam o Colégio Ernesto
D’ávila do seu prédio, a garota não conseguia parar de pensar no quanto se
sentia enojada por viver em um mundo como esse. Um mundo onde ela e
qualquer outra garota eram oprimidas o tempo inteiro, até mesmo por aqueles
que nem sabiam que estavam fazendo isso.
Lavínia não sabia se estava exagerando ou se merecia ficar tão mexida com
o que Cami dissera, mas ela estava. Porque, se até mesmo Cami pensava daquele
jeito, o que diabos as outras pessoas estariam pensando naquele momento? Que
nomes horríveis estariam usando para descrevê-la e tirarem sarro dela? Por
menos que ela ligasse para a opinião alheia, aquilo era doloroso.
Era tão cruel.
Quem havia começado aqueles boatos? Será que tinha sido mesmo Anaju?
Lavínia não conseguia acreditar nisso. Mas, por outro lado, havia uma pessoa da
qual ela desconfiava. Ela só conhecia uma pessoa com motivo suficiente para
querer machucá-la, depois daquela sexta-feira fatídica. E, mesmo assim, ainda
era difícil de acreditar.
Mas quem mais poderia ter sido?
A cabeça da garota estava cheia de pensamentos enfurecidos e teorias da
conspiração. Ela não podia negar, sentia uma pontada no coração a cada vez que
pensava no que Cami dissera. Era um misto de decepção e mais alguma coisa
que ela não sabia classificar.
Quando Lavínia chegou ao seu prédio, estava chorando. Não sabia se pela
raiva ou por esse tal sentimento não identificável. A garota secou os olhos o mais
rápido possível, quando percebeu as lágrimas, mas já era tarde demais.
Ela já havia sido flagrada. Por Eduardo.
Lavínia levou um susto ao vê-lo, mas naquele dia nem mesmo Eduardo seria
capaz de mexer com ela. A garota estava imersa demais no problemão em que
foi metida e nos próprios sentimentos gritantes.
Os olhos do rapaz estavam arregalados atrás dos óculos, e Lavínia fungou
antes de dizer:
― Oi.
Ao mesmo tempo em que ele perguntou:
― Está tudo bem contigo?
Ela precisou de todo o autocontrole do mundo para não mandá-lo para
aquele lugar, tamanha era sua frustração com o mundo e o seu nervosismo. Ao
invés disso, ela respondeu:
― Oh sim, claro, eu estou apenas vazando pelos olhos. Acontece de vez em
quando.
Eduardo cerrou os lábios, encarando-a um pouco encabulado, sem saber o
que dizer em seguida. Lavínia suspirou, sentindo-se uma idiota por ser tão
grosseira, mas ela não estava com cabeça para conversar. Tudo o que a garota
queria era passar pelo saguão do prédio, chegar em casa e se jogar na sua cama.
― Me desculpa. Eu só não estou boa hoje.
― Você não deveria estar na escola agora?
Já chega. Esse era o máximo que ela podia aguentar para uma manhã só.
― É com isso que você está preocupado? Se eu estou ou não faltando aula?
– ela perguntou, soltando fogo pelas orelhas e pelos olhos intensos. – Por que
você não vai logo de uma vez contar aos meus pais?
Dizendo isso, ela passou por ele e abriu a porta do saguão dos elevadores,
com tanta raiva que poderia derrubar um lutador de sumô em um único golpe.
Ela sempre disse à mãe que deveria ter feito algum tipo de luta quando era
criança para aprender a controlar a raiva, mas ninguém nunca a deu ouvidos.
Vejam só o que aconteceu. Uma garota de dezesseis anos quase completos
partindo pra cima de todo mundo.
Dezesseis anos quase completos. Que maravilha de presente de aniversário
ela ganhara esse ano.
Lavínia apertou o botão para chamar o elevador e cruzou os braços, se
recusando a chorar de novo. Quem ela pensava que era pra ficar chorando por
aí? Odiava esse seu traço, essa droga de mania de derramar lágrimas quando
estava muito irritada. Como se não houvesse nada mais humilhante do que isso.
Ela ouviu quando Eduardo abriu a porta do saguão de novo, vindo atrás
dela. Ele parou ao seu lado e Lavínia trincou os dentes.
― Perdão, Lavínia. Eu só não sei o que fazer quando vejo uma guria
chorando.
― Eu quero ficar sozinha – ela disse, com dureza na voz, sem olhar na
direção dele.
Eduardo deixou o ar sair dos pulmões e endireitou seus óculos, ainda
parecendo bastante desajeitado. Mas Lavínia não conseguia pensar em nada no
momento além de se concentrar em não chorar de novo.
― Ok – ele disse. – Mas... Bem. Se cuida.
Ela assentiu e o elevador chegou na mesma hora. Lavínia puxou a porta e
apertou o botão do décimo primeiro andar. Antes que as portas internas do
elevador se fechassem, seu olhar se cruzou com o de Eduardo, ali parado, vendo-
a partir com uma expressão estranha no rosto. Ela achou que fosse preocupação
ou curiosidade, mas não estava bem o suficiente para discernir.
Lavínia recostou as costas na parede do pequeno cubo de metal e lamentou
consigo mesma, xingando a si mesma por ser tão idiota e não conseguir controlar
as próprias emoções. “Havia algum jeito desse dia ficar pior?”, ela se perguntou,
batendo a palma da mão na testa.
Então seu celular vibrou, anunciando a chegada de uma mensagem que a
faria se arrepender do pensamento anterior.
Porque, não importa o quão ruim as coisas já estejam, sempre – sempre – dá
para piorar.
14. Cibernético
Seria exagero se Eduardo dissesse que só conseguia pensar em Lavínia pelo
resto do dia que se seguiu, mas a verdade é que o rapaz não conseguiu tirar sua
vizinha maluquinha da cabeça com facilidade.
O motivo?
Bem, ela estava chorando.
Veja, todas as pessoas choram. É algo inerente ao corpo humano, isso de
chorar de às vezes. Algumas pessoas choram mais, outras detestam e enxergam o
choro como um ato de fraqueza – coisa que Edu não concordava nem um pouco.
Chorar faz bem, de vez em quando. Mesmo que a maioria dos humanos do sexo
masculino tivesse dificuldade em admitir tal coisa.
Eduardo não conhecia Lavínia muito bem e não podia dizer com
propriedade se ela fazia do tipo chorona. Mas qualquer pessoa que passasse
cinco minutos na sua presença iria, com certeza, pensar exatamente o contrário.
A garota era osso duro de roer. Boa de conversar, mas um poço muito fundo
de força e autoconfiança – e não vamos nem começar a falar sobre a intensidade
daqueles olhos azuis. Ela tinha essa capacidade inata de intimidação e de domar
todo um ambiente, então imagine a surpresa de Eduardo ao vê-la tão... Frágil.
Ah! Era essa a palavra que ele estivera procurando durante todo o seu treino
de muay thai. Fragilidade. Era assim que ele a descreveria naquela manhã e por
isso foi tão desconcertante. Ela sempre pareceu muito alerta e cheia de vigor
quando estava perto dele, mas naquele encontro seus olhos mal se encontraram.
Lavínia passou por Eduardo como se fosse uma vela apagada, e o rapaz não
conseguia parar de se perguntar o que havia acontecido.
Ele não gostava de tomar banho na academia, então completou o seu treino
correndo pelos quarteirões até chegar em casa. Para o irmão sedentário da sua
grande família, Eduardo até que estava se saindo muito bem no mundo fitness.
Ele mesmo se sentia melhor, como se tivesse mais disposição para sair de casa
do que jamais tivera durante toda a adolescência.
Além de, é claro, ocupar o seu maldito tempo livre.
João Augusto estava usando o leite que Eduardo comprara mais cedo para
fazer alguma... coisa na cozinha quando ele chegou. Edu deixou sua bolsa de
academia no sofá e franziu o cenho, encarando a lambança que o irmão estava
fazendo. Bartolomeu veio correndo quando ouviu o barulho da porta sendo
aberta e deu voltas sem parar por entre as pernas dele.
― Você está cozinhando? – perguntou cético.
Guto, ao contrário do irmão mais velho, sempre foi muito ativo, mas
cozinhar não era um dos seus muitos talentos. Ele se virou rapidamente para
Eduardo e logo voltou para a sua massa e seu livro de receitas. A bochecha
estava suja com alguma coisa branca e ainda bem que ele usava uma camisa
velha.
― Tentando. Cali disse que eu não conseguiria, então aqui estou. Ela vem
jantar aqui, aliás.
Edu balançou a cabeça, rindo do irmão, e tirou a camisa molhada de suor
porque, agora que finalmente havia parado, se dava conta do quanto estava
fazendo calor.
O Rio de Janeiro nunca desapontava em brincar de Inferno.
À medida que o corpo do rapaz ia desacelerando, sua mente voltava a
trabalhar a todo vapor, intercalando os pensamentos entre o e-mail que recebera
mais cedo e Lavínia. O encontro com a vizinha havia servido para dar algo a ele
pra pensar ao invés do e-mail infame, portanto Eduardo não estava muito em
posição de reclamar de nada. Porque, se aquilo não tivesse acontecido, ele
provavelmente estaria entrando em colapso de tanto pensar no que fazer a
respeito da proposta que recebera.
E tomar decisões, como já se sabe muito bem, não era o seu maior forte.
Ele jogou a camisa no ombro e estalou os dedos, finalmente tendo uma ideia
para tentar sanar sua curiosidade sobre Lavínia. Pegou seu notebook, ainda em
cima da mesinha de centro, e se jogou no sofá. Bartolomeu subiu no sofá
também e se sentou ao lado do dono.
― Vamos fazer um passeio pelas redes sociais, amigão? – Edu disse. Bart
entortou a cabeça, como se não acreditasse no que estava ouvindo. Edu digitou
seu login e sua senha, dando um suspiro. – É isso mesmo, aqui estou eu entrando
no Facebook. Não me olhe com essa cara, eu tenho meus momentos.
Nesse mesmo instante, o barulho do liquidificador veio alto da cozinha,
fazendo o pobre Bart pular de susto. Ele olhou pra trás, ficando em pé e
apoiando-se no encosto do sofá, rosnando para Guto.
― Não adianta fazer malcriação – Guto gritou da cozinha, ao ouvir os
rosnados. – Senão tu não ganhas nem um pouquinho.
Eduardo soltou uma risada baixa e aproximou a cabeça do cão.
― Está aí sua chance de não sofrer uma intoxicação alimentar.
― Eu ouvi isso!
A página do Facebook se abriu e Eduardo a encarou hesitante. Fazia vários
meses – uns três, talvez? – que ele não acessava aquele site e, pra ser bastante
sincero, poderia continuar assim. O rapaz não era muito ligado em redes sociais,
embora achasse fantástico que pessoas pudessem se achar e se comunicar tão
facilmente mesmo morando em lugares muito distantes.
A magia da internet no século XXI.
Mas para Eduardo, o Facebook era incrivelmente chato. E ele preferia não
compartilhar cada momento da sua vida on-line como alguns amigos faziam.
Eduardo, como a pessoa reservada que era, gostava – e muito – da sua
privacidade.
Embora ela achasse que o Instagram fosse bastante interessante.
Ele se sentiu estranho ao levar o mouse até a barra de busca e digitar o nome
de Lavínia ali em cima. Sequer sabia o sobrenome dela, mas quantas Lavínia
será que estudavam no colégio Ernesto D’ávila? Ele podia restringir a busca, não
podia?
Talvez eles até tivessem amigos em comum, já que a garota estivera na festa
de aniversário de Calíope. Definitivamente a própria Cali e seu irmão sem
vergonha (estamos falando de Apolo, se existe alguma dúvida) poderiam tê-la
adicionado.
Para contentamento de Eduardo, o perfil da sua vizinha foi o primeiro a
aparecer quando ele digitou o nome dela.
E, para sua surpresa, ela já havia mandado uma solicitação de amizade para
ele.
Eduardo encarou o ícone de solicitações piscando em vermelho com o
número 8, mas ele voltaria para lá depois.
Agora era hora de stalkear a sua vizinha de dezesseis anos.
O que não parecia mesmo com algo que Eduardo normalmente faria. E ele
se sentiu estranhamente desconfortável e ansioso com isso, ao mesmo tempo.
Não havia nada demais no perfil dela, apenas fotos engraçadas com amigos
– incluindo uma garota de cabelo laranja que Edu já vira no prédio algumas
vezes. Ela postava pouco, mas compartilhava bastante as postagens de uma
página sobre fazer miçangas para ajudar o povo de humanas. Eduardo flagrou-se
rindo tanto do nome da página, quanto das postagens no mural da menina. Além
disso, havia alguns memes, vídeos de música coreana, Lavínia reclamando sobre
o hambúrguer do Burger King ter diminuído e mais fotos e fotos com amigos –
inclusive na sala de aula.
Em uma delas Lavínia dava um selinho em um garoto moreno – o mesmo
garoto que ela estava beijando no portão naquele dia; será que era seu
namorado? – mas nada no perfil dela indicava algum motivo para tê-la abalado
tanto.
Será que o tal garoto era mesmo seu namorado e havia terminado com ela?
Era uma possibilidade. Uma que Edu não gostou nada porque sabia, por
experiência própria, o quanto era doloroso sofrer por amor.
Já não havia ido com a cara daquele sujeito.
Ele clicou no link que o direcionou até o Instagram da menina, mas,
novamente, não havia nada. Frustrado, Eduardo voltou para o Facebook e
encarou mais uma vez a foto de Lavínia, com o cabelo cacheado solto, os olhos
azuis e o sorriso sem dentes desafiando quem quer que olhasse do outro lado da
tela. O que fez Eduardo sorrir – era essa a Lavínia que ele conhecia – e, em
seguida, ficar ainda mais intrigado com o comportamento dela.
Ela estava muito bonita naquela foto. Parecia uma garota feliz para qualquer
um que fuxicasse seu mural, mas aquela foto de perfil foi a parte favorita de
Eduardo. Ele ficou algum tempo olhando para ela e sentiu-se bobo e energizado,
de alguma maneira voltando à sua adolescência – quando ele passava o tempo
com os amigos na praça do cinema de Assunção e seguia com os olhos as
meninas bonitas que o atraíam.
“Lavínia com certeza teria sido uma delas”, ele pensou, se arrependendo no
mesmo minuto em que as palavras tomaram forma em sua mente.
Foi então que uma informação saltou da tela, destacando-se de todas as
outras e tomando toda a atenção dele. O rapaz franziu a testa, pensando se estava
mesmo lendo certo, e então arregalou os olhos, quando percebeu que sim. Ele
ficou encarando a tela com a cabeça voltando a girar como uma máquina a vapor
e foi então que tivera uma ideia.
Uma ideia que o fazia se sentir levemente estúpido, mas ainda assim era
alguma coisa.
E, se ele não podia descobrir o que havia de errado com Lavínia, ao menos
poderia tomar uma atitude.
15. Ligações Duvidosas
Respire devagar, inspire pelo nariz, expire pela boca. Era isso o que a mãe
de Lavínia sempre dizia a ela quando ficava muito nervosa ou começava a
chorar sem conseguir parar. Geralmente era eficaz, até porque sua mãe sempre
segurava a mão dela e a fitava nos olhos sem desviar.
Sozinha dentro do seu quarto, as coisas não estavam saindo exatamente
bem.
Lavínia estava em pé, olhando para o celular que vibrava sem parar em cima
da sua escrivaninha. A menina roía a unha do polegar, pensando se seria bom
atender ou não –ela não sabia se queria ouvir o que a pessoa tinha a dizer.
Principalmente porque era possível que ela a mandasse ir para o raio que o parta
na primeira frase.
A verdade era que a garota não sabia se queria ouvir a tal pessoa dizer que
era ou que não era culpada. Porque se ela fosse, Lavínia ficaria tremendamente
decepcionada. Mas, por outro lado, se não fosse, ela não tinha mais nenhuma
outra pessoa para desconfiar.
É claro que sempre havia a chance de o suspeito estar mentindo e seu “eu
não tive nada a ver com isso” ser mais fingido do que nota de três reais. E
Lavínia não achava que podia confiar em ninguém no momento.
Nem nela mesma.
A garota suspirou lamentosa, se jogando na cadeira vermelha em frente à
escrivaninha. Ela sabia que havia exagerado no modo como reagiu com Cami,
mas ficara muito magoada com o que a amiga dissera, foi como uma facada no
peito. Logo Cami, que sempre defendia o direito das mulheres, se sentir na
autoridade de chamar uma garota de fácil por ficar com mais garotos do que ela
achava plausível?
Isso não era nada legal, por mais que transar com dois caras no mesmo fim
de semana fosse uma atitude que Lavínia jamais se imaginaria fazendo. Mas não
havia isso de ser fácil ou ser difícil, qualquer um podia – e devia – fazer o que
bem entendesse desde que não ultrapasse o direito dos outros, certo? Em
circunstância nenhuma isso é motivo para fazerem com alguém a humilhação
que Lavínia estava passando.
Quem essas pessoas pensavam que eram?
Se Cami acha que esse tipo de comportamento é justificável então Lavínia
não sabia se conhecia a amiga tão bem assim.
Mas brigar com a única pessoa que sempre esteve ao seu lado em um
momento como esse não era nem um pouco o que a garota precisava. Isabel
também era sua amiga, mas ela nunca sabia o que dizer em momentos de
conflito.
Havia mensagens não lidas dela no celular de Lavínia – além de Anaju,
Fabrício e alguns fofoqueiros. A única pessoa que Lavi conseguiu responder foi
Dani, sua prima mais velha que sempre foi uma espécie de confidente. Mas a
mensagem que ainda estava fazendo tique-taque na sua cabeça como uma bomba
relógio era a seguinte:
Paulo: Preciso muito conversar com você.
É claro que ela não respondeu – e nem pretendia fazer isso. Ficou a manhã
inteira deitada na cama ouvindo Blackpink, K.A.R.D e EXO, cantando em
coreano do seu jeito enrolado de sempre. Nada a fazia enfriar a cabeça melhor
do que o bom e velho K-pop, principalmente assistindo aos videoclipes
psicodélicos e aos vídeos de ensaio das coreografias insanas.
Na próxima vida, Lavínia gostaria de nascer coreana e ter tanta habilidade
assim para dançar.
Ela foi para cozinha esquentar seu almoço quando começou a sentir fome,
deixando o volume no máximo quando começou a tocar Happiness, do Red
Velvet, que a fazia mexer o corpo como se tivesse sido eletrocutada. Foi nesse
momento – exatamente durante a segunda garfada da menina no seu macarrão
com almôndegas – que o telefone começou a tocar.
E não parou mais pelas próximas quatro horas.
Havia incontáveis mensagens de voz na sua caixa postal e Lavínia – já
atingindo o máximo nível de estresse possível – finalmente não aguentou mais e
pegou seu celular com disposição, quando ele começou a vibrar de novo.
― O que é que você quer? – ela disse, com aquela voz de poucos amigos.
O rapaz ficou até desconcertado, pego desprevenido quando a menina
finalmente atendeu.
― Achei que você fosse me fazer ficar ligando o dia inteiro – ele parecia
mais cansado do que qualquer outra coisa.
― Era isso o que tinha pra falar?
― Não! – ele se consertou rapidamente e Lavínia ouviu alguma coisa
caindo do outro lado da linha. – Droga – resmungou, fazendo mais barulho e
deixando o telefone de lado por alguns segundos. Voltou esbaforido. – Lavínia,
você não tá pensando que fui eu que espalhei aquele boato não, né? Porque se
estiver, por favor, não faz isso. Eu jamais faria isso com você.
Era verdade que a voz do Paulo soava bastante apreensiva, mas a garota
trincou os dentes, sem saber se podia acreditar nele. Seu coração batia forte no
peito, recusando-se a crer que ele podia ter sido capaz de algo tão baixo, mas
sem outra pessoa melhor para culpar.
― Eu tô sem ter o que pensar no momento – ela respondeu cortante. – Você
é a única pessoa com um motivo.
― Tá dizendo isso por causa do que aconteceu na sexta? – ele indagou
incrédulo. – Caramba, Lavínia, eu não sou tão filho da puta assim. É claro que
esperava uma resposta diferente de você, mas eu disse que estava tudo bem. A
gente ficou de boa.
― Eu também achei que estávamos de boa! – ela se exaltou, levantando da
cadeira em um rompante. – Mas a próxima coisa que aconteceu foi o colégio
inteiro falando que eu havia aberto as pernas pra você e pro Fabrício. O que,
sinceramente, não pode ter sido aleatório. Pareceu demais com uma vingança,
quem quer que tenha espalhado essa droga de boato fez isso na intenção de me
humilhar diretamente.
Paulo ficou em silêncio do outro lado da linha enquanto Lavínia respirava
pesadamente, inspirando pelo nariz e expirando pela boa.
― Quem quer que tenha espalhado?... Então você não tem certeza de que
fui eu. Você, no fundo, sabe que não fui eu – ele parecia esperançoso e agarrou
essa oportunidade. Lavínia não soube o que dizer. – Lavs, eu...
― Não me chama de Lavs – pediu amargamente. Passava os dedos pela
testa, já prevendo a dor de cabeça que teria pela noite. – Eu estou muito brava
pra conversar, no momento.
― Eu te entendo. Eu quero te ajudar a descobrir quem foi – Paulo insistiu
ansioso. – Eu posso ser muitas coisas, até de cafajeste você pode me chamar,
mas eu não sou covarde. E você me conhece.
A garota riu com escárnio.
― Eu achei que conhecia muitas pessoas, mas, pelo jeito, preciso rever os
meus conceitos. Alguém está tentando mexer comigo e eu não acho que seja
algum desconhecido. Tudo isso é pessoal demais, é coincidência demais rolar
um boato desses justo depois do que aconteceu na viagem.
― Eu não sei o que te dizer – ele admitiu. – Queria ter uma resposta, mas eu
não tenho.
Lavínia pensou em silêncio, mordendo o lábio inferior enquanto as
engrenagens do seu cérebro trabalhavam sem parar. Em breve sua mãe estaria
em casa e ela não queria ter que dar explicações sobre o motivo de estar tão
apática faltando apenas dois dias para seu aniversário.
― Você contou sobre sexta pra alguém? – ela quis saber.
― Não! Só pros garotos.
Lavínia suspirou.
― Os garotos já é gente o suficiente, Paulo. E se for um deles? E se eles
contaram pra mais alguém e aí essa pessoa quis se vingar de mim?
― Se vingar? Mas quem? – Paulo soava cético. Lavínia tinha certeza de que
ele estava franzindo o cenho e ela odiou conhecer tão bem os seus trejeitos. – Eu
tive que contar a eles porque eles sabiam o que ia rolar.
― Paulo, a gente se fala outra hora. Agora eu preciso fazer uma coisa –
disse ela, tendo uma ideia repentina. A garota sabia que os dois não chegariam a
lugar nenhum com conversa e ela precisava fazer algo a respeito de tudo aquilo.
― Tudo bem – ele disse cabisbaixo. – Mas sério, não fui eu. Eu não te
magoaria assim.
― Eu não estou magoada – ela respondeu. – Eu estou puta da vida!
E assim desligou, sem dar a chance de que ele dissesse mais alguma coisa.
Já foi procurando outro número na sua agenda telefônica e ligou na mesma hora
para a única outra pessoa que sabia o que ocorrera na sexta-feira fatídica. Seu
coração batia acelerado e as bochechas estavam coradas. A ligação foi atendida
no quarto toque.
― Lavi, aind...
― Foi você? – ela perguntou, muito direta, cortando a frase de Anaju.
Fez-se silêncio absoluto.
― Você é minha amiga e eu desprezo o imbecil que achou que podia te
atingir com essas mentiras. Ele mexeu com a garota errada.
Pela primeira vez, Lavínia não sabia se acreditava ou não na amiga. Porque,
depois de falar com Paulo e da sinceridade que ela achou ter ouvido em suas
palavras, Lavínia não sabia de mais nada.
Estava tudo uma grande confusão dentro da sua cabeça perspicaz.
― Em primeiro lugar, não é da conta de ninguém se você ficou ou não com
os meninos – Anaju continuou, soando muito irritada com a hipocrisia da
humanidade. – Não se fala em outra coisa na escola além do seu nome, mas não
ouvi sequer um “ai” quando o time inteiro de handebol feminino ficou com o
Lucas Santiago. Como é que pode?
Lavínia não estava em clima para ter uma conversa amigável com alguém
que não sabia – embora quisesse muito – confiar. Por isso, não disse nada.
Apenas se sentou sobre sua cama e concordou com Anaju em silêncio.
― Lavínia, não fui eu. Eu não espalho boatos por aí – ela garantiu, embora
aquilo não fosse bem verdade. – Pelo menos não sobre pessoas que eu gosto –
ela se corrigiu ansiosa, percebendo a pequena falha.
Anaju não era nenhuma santa, mas, francamente, nenhuma pessoa era. O
que Lavínia se perguntava agora era se ela poderia ser tão baixa e dissimulada a
ponto de fingir ser sua amiga mesmo depois de espalhar fofocas sobre ela.
E a garota, por mais que tentasse deixar as palavras de Cami penetrarem na
sua mente, não conseguia acreditar nisso totalmente.
As duas desligaram porque Lavínia inventou qualquer coisa sobre ter que ir
atender a campainha. Ela ficou deitada na sua cama, pensando no quanto aquilo
tudo era uma droga e no quanto estava desapontada consigo mesma por estar se
deixando ser afetada por isso.
Era exatamente o que os fofoqueiros queriam.
Mas, caramba, como ela poderia ignorar? Não dava a mínima para o que os
outros pensavam sobre ela, mas se sentia enraivecida pela injustiça, pelo
machismo de toda a situação. Além do mais, toda a amizade que vinha
construindo com Anaju e os garotos estava sendo posta à prova.
Ela não sabia em quem podia confiar e, pra piorar, brigara com a melhor
amiga.
Lavínia decidiu tomar um banho e tentar relaxar um pouco, porque aquele
dia estava sendo um pesadelo. Ligou o computador enquanto vestia seu pijama e
acessou o Facebook, ainda decidindo se devia ou não mandar uma mensagem
para Cami. A verdade era que ela esperava que fosse Cami quem viesse falar
primeiro, até porque, era ela quem precisava de apoio naquele momento.
Nunca admitiria em voz alta, mas estava magoada pelo silêncio da amiga.
Será que ela achava que Lavínia não merecia o esforço? Tudo bem, a menina
havia exagerado um pouco, mas ela teve motivo. Estava uma pilha de nervos!
Além do mais, Cami foi totalmente injusta em suas palavras, não foi?
No momento, ela se sentia assustadoramente sozinha e triste. Não
acreditando que passaria seu aniversário de dezesseis anos dessa maneira tão
horrível, tão diferente do que esperava. A garota ainda se questionava sobre tudo
isso quando clicou no ícone das notificações do Facebook.
E quase caiu pra trás quando leu a seguinte mensagem:
Eduardo Becker aceitou sua solicitação de amizade.
Ela aproximou a tela do seu rosto sem acreditar no que estava lendo. A
menina já o tinha adicionado há tantos dias que simplesmente perdera as
esperanças de que ele fosse ver e/ou aceitar tão cedo.
Seu coração acelerou de tal maneira que Lavínia achou que ele fosse sair
pela boca a qualquer momento.
E então, em meio a todo o caos, ela fez uma coisa que achou que não fosse
ser capaz naquele dia infame. Uma coisa que achava que demoraria bastante
tempo até conseguir fazer de novo genuinamente.
Lavínia sorriu.
16. Verdade Universal
É uma verdade universalmente conhecida que um homem, há muito tempo
solteiro, pode se esquecer do significado de demonstrar o sinal errado para uma
garota. Um homem solteiro – daqueles convictos – acaba levando tudo na
esportiva, sem enxergar grandes implicações em suas próprias ações ou nas
ações femininas, simplesmente porque para ele “não é nada demais”.
Outra verdade universalmente reconhecida, entretanto, é que as mulheres
tendem a encontrar sinais – existentes ou não – em absolutamente tudo.
Cada pequena palavra ou gesto.
É claro que isso é dito de maneira geral, mas o que seria do mundo sem
generalizações de vez em quando? Elas são necessárias para a reflexão e
compreensão do ser humano e suas tendências curiosas. Isso mesmo, tendências.
Não estamos falando de regras. Mas não há como ignorar os 90% das vezes em
que as pessoas fazem exatamente aquilo que é esperado, não é mesmo?
Era nisso que Eduardo estava pensando durante sua curta viagem de
elevador até o andar de Lavínia. Tudo fora culpa do João Augusto, enfiando
minhocas na cabeça do irmão mais velho quando o mesmo lhe contou o que
planejava fazer. Eduardo, primeiramente, riu nervoso da ideia porque, meu Deus,
ele não estava mesmo tentando dar em cima da sua vizinha adolescente.
Aquilo era uma atitude impensável.
Risível, até.
Pra caramba.
Foi exatamente isso o que ele fez quando ouviu a sugestão saindo da boca
do irmão. Mas João Augusto não se abalou nem um pouquinho, o que acabou
fazendo Edu fechar a boca e parar de rir.
― Qualquer garota estaria sujeita a entender isso errado, piá – Guto insistiu,
esboçando sua expressão sensata de quem sabe bastante.
Ele até que sabia mesmo.
Eduardo não era a pessoa mais ligada do mundo quando se tratava de flertes.
Ele nunca pensava em joguinhos ou em segundas intenções escondidas, era
sempre bastante direito quando se tratava do sexo oposto.
O rapaz era prático demais.
― Calma aí, Guto – ele se defendeu, tentando uma risada novamente, mas
acabou ficando entalada em sua garganta. Sentia-se estranhamente esquisito com
a acusação, colocando-se imediatamente em modo defensivo. Construiu cinco
quilômetros de barreiras de metal somente para afastar a ideia e impedir que sua
pulsação oscilasse sequer um pouquinho.
O resultado? Sucesso parcial.
Eduardo balançou a cabeça, de repente invadida pelos olhos intensos e azuis
da sua vizinha e o modo como ela falava com ele sempre como se o desafiasse.
Lembrou-se de um momento específico, aquela noite no elevador após o
aniversário de Calíope quando ele a levou até seu andar e ela o retribuiu com um
beijo no rosto.
Era engraçado como a vida funcionava. O rapaz enterrou aquele
acontecimento bem fundo no baú das suas memórias, mas, desde o dia anterior,
quando Lavínia o intrigou profundamente e ele acabou visitando suas redes
sociais, a cena e a sensação calorosa e envolvente do beijo em sua bochecha
voltavam a ele com uma frequência inquietante – puxando-o cegamente de volta
para aqueles segundos.
Mas ele, de jeito nenhum, estava tentando flertar com Lavínia.
― Só estou sendo sincero. Se tu não quer que ela tenha ideias, então veja lá
como vai se comportar. Porque a sua ideia por si só é ambígua.
O irmão mais velho encolheu os ombros, agora cheio de dúvidas na cabeça.
E se João estivesse certo? Ele não queria passar a impressão errada, imagina se
os pais dela ficam sabendo e decidem vir tirar satisfações com ele?
Não. Por Deus, não!
― Eu só estava tentando ser gentil – ele se defendeu; os olhos começando a
entrar em pânico. – Agora eu já comprei e a loja não aceita devolução.
― Então entrega pra ela! – João deu de ombros também, ligando a televisão
pelo controle remoto. – Não te disse pra você dar pra trás, piá. Só tô te dando um
toque porque tu és a pessoa mais desligada que eu conheço. Vai que a menina se
apaixona? Ela é nova, você é um gostosão... Só somar dois mais dois.
― Um gost... Que merda é essa? – Eduardo quase se engasgou com a
própria gargalhada nervosa. Sua mente piscava em luzes neon vermelhas com o
alerta da Paixão, fazendo Eduardo quase voltar correndo para a concha onde se
escondia desde... Bem, desde que tomou pavor sequer da menção dessa palavra.
Ainda era melhor do que a palavra com A, pelo menos.
Mas isso era pauta para outro momento.
Um em que Eduardo não estivesse com dúvidas demais para conseguir sair
do próprio lugar.
― Você tem duas opções – João Augusto continuou, com um olho no irmão
e outro na TV. – Ou desiste ou segue com sua ideia muito bonitinha, mas
deixando claras quais são suas intenções. Agora decide.
Eis aí o grande problema.
O rapaz olhou para a pequena sacola em suas mãos, pensando nos prós e nos
contras de ambas as suas opções. Pensou em Lavínia e no quanto ele havia
ficado animado por fazer isso por ela – ele sempre ficava muito feliz em
presentear, não ficava?
Além do mais, fora ela quem o ajudou primeiro, na noite em que ficaram
presos dentro do elevador. Ela foi extraordinária, lidou com ele com uma
firmeza notável, embora também estivesse nervosa. Ele podia apostar que foi a
primeira vez na vida em que a garota presenciou um ataque de claustrofobia e,
mesmo assim, não o deixou sucumbir.
Eduardo apertou a sacola com mais força, finalmente fazendo sua escolha.
Ele se virou e saiu do apartamento, muito decidido. Apertou o botão do elevador
e continuou pensando no que o irmão dissera; sua mente trabalhando sem parar
em teorias e mais teorias. Ele quase desistira de novo, tão nervoso que estava,
quando parou diante da porta da garota. Mas afastou todos os questionamentos
da cabeça e apertou a campainha.
― Você só está sendo gentil – ele disse a si mesmo, encorajando-se.
Um minuto depois, o pai dela apareceu na porta. Os olhos de Eduardo se
arregalaram com o inesperado.
― Oi, Edu – o homem um tanto grisalho na barba e usando uma camisa
cinza do Botafogo o saudou com um sorriso amigável no rosto. Estava surpreso
com a visita atípica, mas Eduardo era um dos vizinhos que ele gostava no prédio.
O mesmo não poderia ser dito do morador da porta em frente à sua.
― O-oi, seu Cláudio.
― Ora, por favor – ele fez um gesto com a mão, descartando a formalidade.
– Não sou tão velho assim, nada de “seu” ou “senhor”. Somente Cláudio, já
falamos sobre isso.
Edu esboçou um sorriso político, daqueles que seu pai o ensinara e que o
fazia driblar qualquer situação e mascarar qualquer nervosismo com maestria.
― Tudo bem. Cláudio, então – ele se rendeu, simpático. – A Lavínia se
encontra?
Foi nesse momento que o olhar de Cláudio foi sugado pela bolsa na mão
esquerda do rapaz. Eduardo engoliu em seco e o homem à sua frente franziu o
cenho, intrigado. Não de um jeito ruim, aparentemente.
Ou talvez não.
Eduardo não queria pagar pra ver.
― Lavínia? – ele repetiu pra confirmar e o rapaz assentiu comedido,
cruzando os braços atrás das costas de um jeito educado e que também servia
para esconder o presente. – Ela está no Play, desceu faz alguns minutos. Eu não
sabia que vocês dois eram amigos...
― Somos sim – Edu confirmou, feliz por ser uma pessoa eloquente. – Bom,
então irei encontrá-la lá. Foi um prazer conversar com o senhor.
E, dessa vez, Cláudio não o corrigiu por causa do “senhor”. Ele estreitou o
olhar apenas o suficiente para Eduardo ter certeza de que ele o estava
observando, e assentiu lentamente.
― Muito bem. – respondeu um pouco mais formal do que outrora. – Diga a
ela para não demorar lá em baixo.
Eduardo fez que sim e se despediu do homem com uma saudação,
tremendamente aliviado por poder ir embora. Lembrou a si mesmo que jamais
teria uma filha e pegou o elevador novamente, descendo até o Play do prédio.
Estava silencioso lá em baixo, tanto no parquinho, quanto na área da piscina
e churrasqueira. Ele procurou Lavínia por todos os cantos, pensando no que
exatamente diria a ela quando a encontrasse. Queria apenas entregar aquele
presente de uma vez, riscar isso da lista de coisas a fazer e ir embora para o seu
apartamento. Detestava a sensação de instabilidade que estava sentindo,
principalmente porque ele não era culpado de nada!
Mas, apesar do que parecia para as pessoas ao seu redor, Eduardo não tinha
o controle sobre si mesmo o tempo inteiro.
Ele encontrou Lavínia sentada em um dos balanços coloridos de metal.
Balançava-se muito lentamente com os pés e segurava as correntes com força.
Não usava seus tênis vermelhos – foi a primeira coisa que o rapaz reparou –, mas
sim um par de chinelos e shorts jeans. Os cachos sedosos estavam presos em um
coque frouxo e ela estava de costas, observando a lua minguante que iluminava
toda a área descoberta.
Eduardo parou, admirando-a por alguns segundos. Seu coração deu um salto
gigantesco, daqueles que parecem uma corrente elétrica e desencadeiam uma
sensação de dormência por todo o corpo. Ele a encarou ali e jamais se sentiu tão
em dúvida e tão certo, ao mesmo tempo, do que estava prestes a fazer.
Tudo dentro dele parecia um tanto descompassado quando ele ergueu a voz
e disse:
― Lavínia?
Ela se assustou de imediato, parando de se balançar, e se virou na direção do
rapaz. Uma mão pousada no peito e os olhos azuis arregalados. Quando o viu,
entretanto, na luz baixa do parquinho, seu corpo se retesou.
― Eduardo?
O rapaz caminhou ao encontro dela, fazendo-se melhor visível. Ainda
escondia a sacola em suas costas quando parou diante dela. A garota o olhava de
baixo, ainda sentada no balanço, e seu rosto era difícil de ler. Havia intensidade,
mas a vulnerabilidade que Eduardo encontrara no dia anterior continuava lá –
embora ela tentasse disfarçá-la.
― Como você me encontrou aqui?
Eduardo piscou algumas vezes, encarando-a e enxergando-a sem o véu que
geralmente nublava a sua visão. Ele se moveu e se sentou no balanço livre ao
lado de Lavínia, o que, para surpresa dele, a fez rir.
― Olha só quem parece um menino agora – ela o alfinetou, fazendo
referência a como ele a havia chamado antes de ficarem presos no elevador.
Eduardo deixou escapar um riso. Segurava a sacola com a mão mais distante
dela, ainda tentando escondê-la com seu corpo.
― Fui até sua casa e seu pai disse que você estava aqui. Fazendo o que, eu
não sei.
― Não se preocupe, não estou usando drogas – ela o provocou de novo,
voltando a se balançar bem devagar. Seus olhares se encontraram certeiros antes
de ela desviar. Mas Eduardo continuou encarando-a, sentindo-se responder à
presença daquela garota de um jeito inquietante e estranhamente prazeroso. Ela
pousou a cabeça na mão que ainda segurava a corrente do balanço e soltou um
riso pelo nariz, mas sem muito humor. – Desculpa. Eu estou azeda hoje, não
quero te dar nenhuma patada de novo.
― Justo hoje? – o rapaz lamentou e Lavínia o fitou na mesma hora,
desconfiada e, como sempre, instigante em cada pequeno gesto. Ele não sabia se
isso era calculado ou se era simplesmente seu jeito espontâneo, mas funcionava.
― O que isso quer dizer?
Edu abriu um sorriso de canto de boca, satisfeito com a vantagem.
― Ora, guria esperta. Tu não sabes de tudo?
Lavínia respirou fundo, séria, e então se virou para frente de novo. Edu
hesitou, com medo de ter dito algo que pudesse ter soasso mal aos ouvidos dela,
mas não reconheceu nada. Ele resolveu então parar de papo furado e ir direto ao
ponto.
― Eu sei que é seu aniversário – ele disse gentil. – É uma informação
pública nas redes sociais.
Lavínia mordeu o lábio inferior, ainda olhando para frente. Balançou-se um
pouco mais rápido, acompanhando o ritmo cardíaco do rapaz sem nem saber.
― Estou ouvindo...
Ele fitou a sacola que segurava, tendo os últimos segundos para se
arrepender. Depois deles, não haveria mais como voltar atrás naquela ideia
ambígua, como João Augusto definira.
Eduardo encarou Lavínia aguardando ao seu lado, fingindo que não estava
alerta a cada mínimo movimento do rapaz. Ele suspirou e se virou de leve,
estendendo o pacote do presente na direção dela.
― Feliz aniversário – ele disse e a cabeça de Lavínia se virou na mesma
hora para a sacola, depois para o rosto dele, depois para a sacola de novo meio
que não acreditando no que estava vendo. Eduardo sorriu, satisfeito e feliz com a
reação dela.
― Isso é uma bomba? – ela se certificou hesitante, antes de acabar se
entregando.
― Sim. Pro seu próximo ataque terrorista com seu grupo de meliantes.
― Meliantes – ela repetiu a palavra e riu do rapaz. – Esse seu vocabulário é
uma maravilha, senhor-década-de-cinquenta.
― Você não vai pegar? – Eduardo balançou a sacola.
Mas Lavínia entortou os lábios, encolhendo os ombros de um jeito tão
hesitante que fez uma ruga de incompreensão surgir na testa dele. Ela realmente
o faria ficar ali totalmente exposto estendendo o presente para ela? Será que o
estava achando ridículo por tê-la comprado um presente assim do nada? Será que
estava zombando dele dentro da sua mente misteriosa enfeitada de cachos
escuros?
Edu engoliu em seco, sentindo vontade de voltar atrás, sentindo-se inseguro
de um jeito como não o acometia há muito tempo. Era por isso que ele evitava
relacionamentos, mas, aparentemente, até mesmo interações inocentes com sua
vizinha o faziam ficar desse jeito agora.
Sua doença estaria progredindo?
No último segundo antes dele realmente recolher o braço e dizer “me
desculpe, boa noite, isso não se repetirá”, Lavínia pegou a sacola, ligeira,
finalmente se rendendo à curiosidade.
Ela abriu o pacote depressa, hesitando mais uma vez quando viu uma caixa
de veludo azul marinho. Com muito cuidado, abriu-a e foi apenas quando ela
arfou ao vislumbrar o presente, que Eduardo mergulhou em águas pacíficas
novamente.
― O que...
― Eu achei a sua cara. Sabe, por causa dos tênis que sempre te vejo usando.
Lavínia, ainda de boca aberta, desvencilhou o olhar do cordão de prata e
encarou o rapaz. Seus olhos azuis não estavam mais nem intensos ou
vulneráveis. Encheram-se de um deleite que Eduardo não sabia nomear, mas
reconheceu imediatamente como um sentimento irmão ao que ele experimentava
naquele momento.
Em uma perfeita sintonia.
― Você gostou?
― Se eu gostei? – ela deixou escapar uma risada maravilhosa e tirou o
cordão da caixa, pousando-a em suas coxas nuas. O pingente era um tênis all-
star vermelho, exatamente igual ao que ela usava. Lavínia estendeu-o para o
rapaz. – Por favor.
Ela se virou de costas, afastando os cabelinhos caídos do coque na nuca.
Edu entendeu na mesma hora o que ela queria e se ajoelhou na grama falsa do
parquinho para se aproximar. Eles são se tocavam, mas a respiração do rapaz
acariciava toda a região da nuca e o alto das costas dela. Ele notou quando seus
pelos se arrepiaram e sentiu uma súbita vontade de passar o polegar pela sua
pele, de descobrir se era tão macia quanto parecia.
Mas não foi isso o que fez.
Ele abriu o fecho do cordão e passou-o pelo pescoço dela, fechando-o de
novo na nuca. As pontas dos dedos acabaram tocando sem querer a pele morena
da garota por alguns segundos, antes de ela se virar de volta e admirar
novamente o pingente, agora pendendo sob seu peito.
― Eu amei – ela disse com sinceridade. Sorrindo para ele como se aquele
fosse o melhor presente do mundo. Como se, de alguma forma, aquele gesto
gentil a tivesse emocionado, a tivesse trazido algo bom a que se agarrar naquele
aniversário, não importa os problemas que estivesse passando. – Muito obrigada
por isso.
Lavínia tocou a mão de Eduardo em cima do joelho e o rapaz a apertou de
volta, em um reflexo involuntário. E, naquele momento, embora nenhum dos
dois soubesse identificar o que estavam sentindo, eles deixaram ser. E Eduardo
se permitiu não usar a razão por alguns minutos porque, apesar do que ele
pensaria no momento em que acordasse no dia seguinte, aquela sensação era
boa. Despretensiosa. Irreconhecível.
Apenas boa.
E ele aproveitou.
17. Sintonia
Para um aniversário fadado ao fracasso total, aquele até que estava
terminando bem demais. Lavínia podia esperar muitas coisas daquele dia – até
porque, mais nada a surpreenderia depois do que andava acontecendo –, mas não
foi capaz de não se surpreender com a surpresa que a vida reservara.
Eduardo Becker comprou um presente de aniversário para ela.
O mesmo Eduardo que fazia o coração da garota disparar toda vez que o via
entrando ou saindo do elevador do prédio e com quem ela fantasiava dar uns
beijos desde que seus hormônios adolescentes precoces começaram a ganhar
vida.
O mesmo Eduardo que, agora, segurava a sua mão sob a luz da lua do céu
de fevereiro. O que seria uma cena absurdamente romântica se ele não estivesse
todo desengonçado sentado no assento do balanço das crianças com suas pernas
enormes.
Mas Lavínia ainda achava tudo aquilo perfeito.
Ela sabia que aquele gesto não significava nada além de Eduardo tentando
ser um cara legal. Mas, de alguma maneira, apenas o fato de ele ter se
preocupado o bastante com ela para lhe comprar um presente tão singular a fazia
querer abraçá-lo bem forte e ficar assim.
Estranhamente, era só isso o que ela desejava fazer naquele momento. Nada
malicioso, apenas o contato afetuoso do corpo dele no dela e o silêncio
reconfortante.
Lavínia devia estar mesmo muito abalada para não fantasiar os lábios
tentadores dele nos seus. Mas, por uma grande ironia, pela primeira vez desde
que os dois se conheceram, ela sentiu que eles haviam rompido a barreira do
“apenas conhecidos”. Talvez fosse somente efeito do momento oportuno, mas
Lavínia saboreou aquela sintonia pura que a aquecia completamente por dentro.
Ela o encarou de soslaio, com medo de se mexer e isso fazer com que
Eduardo desentrelaçasse a sua mão da dela. Ele não parecia inclinado a fazer
isso, dada a expressão serena em seu rosto maravilhoso. Ele olhou para cima,
para a lua crescente que fazia seus olhos castanhos brilharem mais ainda,
umedecendo o lábio inferior.
E lá se foi toda a castidade inusitada de Lavínia.
O coração dela bateu mais forte dentro do seu peito e ela sentiu as
bochechas queimarem quando o rapaz a fitou com um sorrisinho no canto da
boca. “Maldito seja”, a garota pensou. De um jeito ou de outro, acabava sempre
muito vulnerável ao lado dele. Como se perdesse o controle absoluto sobre si
mesma.
O que podia ser muito irritante, mas, naquele momento, parecia apenas
certo.
― Você vai passar o resto do seu aniversário sentada aqui? – ele perguntou
curioso, arrancando um suspiro involuntário da garota.
― Normalmente eu faria algo com meus amigos, mas meio que não tenho
nenhum no momento – ela desabafou antes mesmo de perceber que fizera isso.
Quando se deu conta, fez menção de se desculpar por despejar seus problemas
em cima dele, até mesmo por medo de acabar com aqueles minutos mágicos.
Mas Eduardo assentiu, como se finalmente conseguisse juntar todas as peças
de um quebra-cabeça em sua mente.
― É por isso que tu estavas chorando?
― Sim – ela respondeu, angustiada e triste. – Aconteceram umas coisas
chatas na escola envolvendo meu grupo e eu ainda briguei com a minha melhor
amiga... Nem fui pra escola hoje, usei o “É meu aniversário!” com meus pais e
pude ficar em casa – ela riu sem humor.
― Mas sua amiga não te desejou parabéns?
A menina encolheu os ombros e, sem querer, apertou a mão que segurava a
dele. Eduardo a apertou de volta, vendo-a lutar contra os próprios sentimentos
ruins. Lavínia levou a mão livre até o pingente do cordão recém-ganho e mordeu
o lábio.
― Não. Os outros sim, mas ela não. E sabe o que é pior? Ela é que está
errada! Eu posso ser uma pessoa explosiva, mas ela é que disse coisas que me
decepcionaram e me ignora até mesmo no dia do meu aniversário.
― Ela deve estar pensando no que dizer, talvez nem tenha percebido que
disse algo errado. Acontece, né? As pessoas falam coisas sem se dar conta de
todo o significado que elas têm, principalmente para os outros.
O rapaz olhava para a garota, que encostou o rosto na corrente do seu
balanço. Assentiu, deixando as palavras dele entrarem em sua mente e fazerem
algum efeito. Eduardo tinha a fala mansa, o que deixava sua voz ainda mais
bonita do que já era normalmente. Lavínia poderia ouvi-lo dizer qualquer coisa
com aquela voz e ainda assim acharia sexy.
“Me passe o sal”. “Hasta la vista, Baby”. “As definições de vírus foram
atualizadas”.
Ela achou que ele fosse recuar, mas seus rostos continuaram próximos um
do outro. Seus olhos azuis perderam a instabilidade de antes e o sorrisinho no
rosto de Eduardo se apagou. A tensão que vinha dele a contaminou por completo
e a garota se sentiu, de repente, presa em um magnetismo que a puxava para
perto dele. Ambos ficaram parados, sentindo a densidade calorosa daquele
instante e a deixando se alastrar, mas sem saber que movimento tomar em
seguida.
Lavínia se arrepiou ao se dar conta de que mais um pequeno movimento e
ela poderia beijá-lo bem ali. Aquela possibilidade a atingiu como um raio e, pela
primeira vez em sua vida, ela se sentiu insegura pela perspectiva de beijar um
rapaz.
A garota engoliu em seco e Eduardo piscou algumas vezes, como que se
libertando de um transe. Ele virou o rosto, se afastando um pouco, os olhos
castanhos e encabulados fitando o horizonte. Lavínia retirou sua mão da dele,
ainda sentindo o coração bater tão forte, deixando-a quase surda.
Eduardo respondeu juntando as duas mãos em um movimento nervoso.
― Eu estou com alguns problemas também – ele disse em uma tentativa
impulsiva de se agarrar às palavras como bote salva-vidas e livrá-los do
constrangimento que já começava a se instaurar.
― O que houve?
― Recebi uma proposta de emprego e não sei o que fazer sobre isso – ele
riu sem humor. Lavínia se interessou na mesma hora, elevando suas
sobrancelhas indiscretas.
― Que proposta? É boa?
O rapaz deu de ombros, modesto como só ele.
― Você sabe que eu faço faculdade de História né? – ele perguntou, fitando-
a de soslaio e recebendo uma confirmação com a cabeça. – Pois então, quando a
gente faz licenciatura, ou seja, quando se forma também pra ser professor, tem
que cumprir várias horas de estágio em um colégio do governo. A gente quase
não faz nada, só fica de assistente dos professores mesmo durante as aulas, mas
um deles gostou de mim e me indicou pra dar aula no pré-vestibular de outra
escola que ele trabalha, uma particular.
― Que escola? Aqui em Botafogo mesmo? – a garota se sobressaltou, com
um medo súbito de a tal escola ser a dela.
Por sorte, Eduardo negou.
― Não, é na Tijuca. É uma escola muito conceituada, até. A Padre Antônio,
você conhece?
― Conheço sim – ela respondeu, para surpresa dele. – Tenho família na
Tijuca. Mas então, se você faz licenciatura, por que não está vibrando com o
convite ao invés de ficar tão dividido?
― Ah... – ele começou a explicar, um pouco encabulado. – Eu não sei. Eu
quero dar aula em faculdade, é outra vibe, sabe? Encarar uma turma cheia de
adolescentes... Não é fácil não. E eu teria que largar minha bolsa de pesquisa,
que acaba só no fim do semestre quando eu me formar. Só que...
― Só que...? – Lavínia instigou.
― Eu fiquei tentado pelo desafio. Eu nunca me imaginei fazendo isso, mas
consigo agora, e isso ficou na minha cabeça. Meu irmão diz que eu devo aceitar,
meus amigos falam que é meio loucura... Não sei em quem acreditar.
Lavínia então franziu o cenho e entortou a cabeça. Seu coque havia se
desfeito e ela puxou o cabelo volumoso para frente, encarando-o com
atrevimento.
― Por que você está baseando sua decisão no que as pessoas próximas a
você têm a dizer? – ela perguntou.
O rapaz, pego de surpresa com a indagação certeira, não soube o que dizer
de imediato. De fato, ele abriu levemente a boca, arqueou um pouco as
sobrancelhas e se retesou. Lavínia, muito despretensiosamente, havia tocado em
um ponto chave que nem mesmo Eduardo havia parado para pensar antes.
Ele piscou, ainda com cara de quem acabara de sofrer uma epifania. Lavínia
sorriu, tanto porque gostou do impacto que causara nele, quanto para amenizar a
situação.
― Você tem que fazer o que você acha que é certo – ela continuou, delicada.
– Até porque muitas vezes as pessoas que nos amam acham que sabem o que é
melhor pra gente, mas elas também podem se enganar. É ótimo ouvir as opiniões
dos outros, mas a decisão, no fim das contas, é sua.
Ele a encarou impressionado com tamanha sensatez e, mais uma vez,
Lavínia se apresentava para ele muito diferente da garota que ele a julgava ser.
Havia muitas facetas daquela menina que Edu claramente não conhecia e o
deixava bastante curioso.
Lavínia, que não estava em seu melhor momento pessoal, apenas degustava
aquele presente de aniversário que o Universo lhe deu para compensar as
idiotices que andavam acontecendo. Ela percebia o modo como ele a olhava, tão
diferente de como costumava antes – se é que Eduardo, de fato, prestava atenção
nela. E aquele conhecimento a preencheu com toda a desinibição do mundo
quando eles se atraíram um para o outro novamente naquela noite doida.
Melhor aniversário de dezesseis anos ever.
Ela umedeceu os lábios e moveu a cabeça, deixando a curva do pescoço
exposta. Eduardo fitou a região muito rapidamente, mas logo voltou para os
olhos azuis da garota.
― O que você vai fazer no sábado? – ela perguntou.
― Não tenho nada programado – ele disse, segurando a corrente do seu
balanço com mais força do que o necessário. Engoliu em seco, fazendo seu
pomo de adão se mover. Os olhos presos nos dela sem nenhum temor aparente.
– Por quê?
― Você vai me levar pra comemorar meu aniversário – ela declarou e uma
covinha apareceu no rosto dele quando Eduardo sorriu de lado, completamente
imerso naquele jogo.
― Eu vou?
― Vai – Lavínia confirmou, rindo. – Algum lugar que você goste de ir, de
preferência um que você ache que eu nunca fui. Pode ser? E aí à noite eu te levo
a outro lugar. E nenhum de nós pode reclamar.
Eduardo, apesar de tentado a dizer que sim, hesitou.
― Os seus pais...
― Meus pais me deixam sair – ela o cortou. – E, além do mais, não tenho
outros amigos no momento pra saírem comigo, né? – acrescentou, fazendo uma
leve chantagem emocional. – E aí? O que me diz?
A garota estendeu uma sobrancelha inquisitiva e insistente. E o rapaz
gostaria de dizer que foi sensato o suficiente para recusar, mas a rebeldia
inconsequente e inesperada que crescia dentro dele o fez dizer que sim.
― Ótimo! – Lavínia vibrou e se levantou do seu balanço.
Puxou-o pela mão, fazendo-o ficar de pé também, todos aqueles centímetros
de altura. A garota se prostrou na ponta dos pés e segurou-o pelo pescoço com
vontade, tascando um beijo no rosto dele ainda mais saboroso do que o primeiro.
Seu coração explodia dentro do peito como fogos de artifício.
Ele ficou paralisado de início, pego de surpresa pelos impulsos daquela
menina cheia de vida. Porém, quando Lavínia o abraçou, entrelaçando os braços
em seu pescoço, Eduardo a envolveu pela cintura de volta.
E aquele foi um instante que durou por dois séculos inteiros.
18. Reputação
É claro que depois daquela noite maravilhosa, Lavínia estava ligando muito
menos para o que andava acontecendo em seu colégio. Ela gostaria de dizer que
não se importava nem um pouco, mas ainda não estava falando com Cami nem
havia descoberto quem foi o amigo traidor.
Não falar com Cami era uma perfeita tortura! Lavínia sentia um misto de
frustração, raiva e mágoa pela melhor amiga não ter sequer deixado uma
mensagem no Facebook pelo seu aniversário. Ainda mais porque ela precisava
muito conversar, ainda mais agora. Sentia saudades dela como alguém que sofre
de abstinência.
A aniversariante jantou com os pais e cantou parabéns com o bolo que eles
insistiram em comprar na sua confeitaria preferida. Os avós e a prima Dani
haviam passado no apartamento para lhe darem um abraço durante o dia e Isabel
fez o mesmo quando saiu do colégio. Lavínia se recusou a perguntar sobre Cami
quando, decepcionada, notou que a ruiva não viera junto.
Mas pelo menos Eduardo fizera o imenso favor de salvar do fracasso o seu
aniversário tão esperado de dezesseis anos. E ele nem fazia a menor ideia.
Ela saiu de casa para ir ao colégio no dia seguinte, torcendo para encontrá-lo
no elevador. As aulas do rapaz só começariam na semana seguinte, mas não
custava nada sonhar, não é mesmo? Lavínia sonhava sempre e, melhor ainda, ia
atrás de realizar esses tais sonhos.
De um jeito ou de outro.
Foi com esse senso de determinação e tranquila felicidade que a garota
caminhou até sua escola, ao som eletrizante da música Dream Girl, do SHINee.
Os tênis vermelhos batiam na calçada no ritmo da música, e a réplica ao redor do
pescoço da garota balançava em cima do seu coração. Aquele seria o primeiro
dia de Lavínia na escola após os boatos e ela respirou fundo antes de passar
pelos portões de ferro, com a cabeça erguida e tentando não vacilar.
Se eles a dariam uma reputação ruim, então que assim fosse.
Lavínia não dava a mínima – ou ao menos era isso o que dizia a si mesma.
― Lavagirl – a voz de Fabrício foi a primeira coisa que a garota ouviu ao
chegar ao pátio. Ela não se virou, mas o garoto veio atrás daquele seu jeito
desengonçado, enquanto todos os olhares a acompanhavam entre cochichos. –
Você tá mesmo puta comigo? – ele continuou quando a alcançou.
― Defina puta.
― Anaju disse que você nem respondeu às mensagens dela de aniversário.
A gente tinha planejado fazer algo maneiro todo mundo junto, lembra?
Lavínia então parou e se virou para o garoto com toda a paciência do
mundo, embora fosse tudo ensaiado. Ela não se sentia paciente, nem com
vontade de conversar sobre o que todo mundo já estava conversando. A única
coisa que ela podia fazer no momento era ignorar e viver sua vida o mais
parecido com antes quanto fosse possível.
É claro que na sua mente esse plano havia sido muito mais perfeito do que
agora, enfrentando a realidade. Cada uma das pessoas no pátio da escola tinha a
atenção voltada para ela e não fazia nem questão de esconder que fofocavam e
riam da menina.
Ela observou as pessoas por alguns segundos e apertou com força as alças
da sua mochila, sentindo-se exposta e angustiada com tudo aquilo. Não
permitiria que a segurança deixasse o seu olhar nem por um segundo, embora,
agora, por dentro ela se sentisse muito mais instável do que um minuto atrás.
A escola podia ser uma grande merda às vezes.
Por mais forte que Lavínia fosse, não dava para evitar se afetar um
pouquinho que fosse com tudo aquilo. Ela não estava nem aí para a opinião de
ninguém, mas toda a situação a fazia lembrar demais do que passou com o ex-
namorado e da sensação de estar dentro de um aquário gigante no meio de um
zoológico. Ela não fazia nada do que fazia por atenção, fazia porque ela era
assim e nada mais.
Será que era tão difícil entender que as pessoas podiam – e deviam – ser
diferentes?
Que ninguém tem nada a ver com as escolhas de ninguém?
Se fosse pela sua vontade e quase todas as suas amizades não tivessem sido
abaladas por causa disso, Lavínia simplesmente ligaria o botão do “foda-se” e
usaria uma camiseta branca com o dedo do meio estampado para não precisar
sequer fazer esforço ao lidar com esse bando de idiotas viciados em polêmica.
Mas aquilo a estava incomodando de um jeito estranho. Ela andava
pensando em tudo desde a resposta de Cami sobre defendê-la pelos motivos
errados. Quantas pessoas mais pensavam dessa maneira também? Quanta gente
ali naquela escola, no mundo todo, julgava e segregava as pessoas mesmo sem
saber que estavam fazendo isso? Quantas meninas menos fortes do que ela já
haviam sofrido muito com aquela situação e odiado a si mesmas?
Não é da natureza humana coisíssima nenhuma.
Lavínia queria tomar alguma atitude, mas, uma vez que não queria sair
gritando por aí espalhando a palavra da Igualdade entre Sexos com panfletinhos,
não fazia ideia do que fazer.
Ela bufou e encarou Fabrício à sua frente. Ele parecia alheio a tudo o que
estava acontecendo e Lavi não sabia o que pensar sobre isso. Era bom para não
se estressar nem dar ibope a quem não merecia, mas ruim porque não dava para
simplesmente aceitar calado os absurdos da vida.
Mas Fabrício, é claro, não havia sido afetado por essa doideira toda como
ela.
― Olha, eu não me importaria de sair com vocês se não houvesse um
sociopata em potencial no grupo.
Ele franziu a testa e soltou uma risada.
― Do que você tá falando, doida?
― Da pessoa que acha que é legal ridicularizar garotas por aí.
― Pera lá, você tá achando que foi alguém do grupo que espalhou esse
boato? – ele perguntou incrédulo. Lavínia esquivou sua sobrancelha.
― Migo, eu não sou otária. Foi alguém que estava na viagem, ou seja, você,
Anaju, Thaís ou Paulo. A Thaís não tem motivo, Anaju eu sempre achei que
fosse minha amiga, o Paulo tem todos os motivos, mas pareceu sincero demais e
você... Bem – ela cruzou os braços, inquisitiva e intimidadora do jeito como só
Lavínia sabia ser sem se esforçar nem um pouco. – Você me diz.
Fabrício ficou de boca aberta, ainda sem acreditar nas acusações da amiga.
Ficou claro que nunca se passou pela cabeça do garoto que um dos seus amigos
tivesse feito aquilo, mas Fabrício sempre foi um pouco tapado. Não fazia por
mal.
― Eita, Lavagirl – o garoto assobiou, mexendo no boné que usava na
cabeça. – Que merda. Então por isso o Paulo não quis falar sobre o assunto
comigo... Pô, não faz isso com o cara. Ele tá gamadão em você, impossível ter
feito isso! Você pode até me odiar e tudo mais, mas não trata ele assim.
Lavínia suspirou, tentando empurrar o desconforto e a culpa para dentro de
novo.
Que Paulo estava gamadão ela sabia, mas era exatamente por isso que ela
não conseguia confiar nele.
Tudo começou na sexta-feira de carnaval quando os dois achavam que
estavam sozinhos na casa de praia de Anaju e, após uma sessão muito
apimentada de beijos e amassos, o garoto se declarou para Lavi. A princípio ela
ficou um pouco chocada, porque não estava esperando por aquilo. Ela o adorava,
como pessoa e como beijador, e ficou muito mal por ter que partir o coração
dele, mas o que os dois tinham era tudo o que Lavínia queria de Paulo. Beijos.
Risos. Amizade.
É claro que depois disso ela não conseguiria mais ficar com ele, sabendo
que para o menino aqueles momentos significavam muito mais. De volta em
casa, ela até chegou a se arrepender de tê-lo dispensado, enquanto pensava sem
parar na expressão decepcionada do rosto dele e no fato de que as coisas iriam
mudar entre dois daqui pra frente. Mas o que Lavínia podia fazer?
Segundo Paulo, não havia ressentimentos e ele entendia o lado dela, mas
então, quando voltaram de viagem, toda a escola estava falando sobre como
Lavínia era uma piranha.
Não tinha como isso ser coincidência.
E se Paulo tivesse mentido e, por vingança, espalhou aqueles boatos sobre
ela? E se ele tivesse se arrependido de espalhar os boatos e agora negava tudo
porque sabia que ela não o perdoaria? E se os seus amigos – que eram amigos
dele muito antes de serem dela – tomaram as dores do garoto e algum deles foi o
causador dessa injustiça? Lavínia não sabia em quem confiar e ficava muito
magoada quando se dava conta de que, por mais que não quisesse, uma dessas
alternativas era o que mais fazia sentido no momento.
Ela respirou fundo e não se deixou amolecer, embora estivesse sim muito
vulnerável.
― Bom, então diz pra ele achar o culpado e aí eu vou saber que posso
confiar em vocês de novo. – Lavínia deu um tapinha no ombro de Fabrício e se
virou, indo para outra parte do pátio onde pudesse esperar o sinal bater em paz.
Ela se sentou em um banco de madeira vazio, infelizmente debaixo do sol, e
aumentou o volume da sua música. Foi quando notou que as pessoas não
estavam simplesmente olhando para ela e cochichando, mas fazendo um gesto
com as mãos também. Primeiro foi um grupo de garotos, depois as meninas que
estavam rindo ali perto fizeram o mesmo. Lavínia ficou encarando com sua cara
de poucos amigos, tentando entender qual era a palhaçada da vez.
― Lavínia Maçaneta! – alguém gritou do lado esquerdo e as pessoas no
pátio riram; alguns contidos, outros nem um pouco. Ela se deu conta de onde
reconhecera o gesto, finalmente. Era o movimento que fazíamos com a mão ao
abrir a maçaneta de uma porta.
Primeiro ela ficou chocada, parada em seu banco tentando adivinhar se
aquilo realmente era a vida real em pleno século XXI. Depois se sentiu violada
ao ouvir todas aquelas risadas na sua direção, uma sensação de humilhação
querendo puxá-la para baixo e quase conseguindo.
Em que mundo estamos vivendo, Deus do céu?
A garota não se aguentou parada em seu banco. Não ia se deixar ser
engolida por aquela coerção verbal e gestual. Não ia se deixar ser intimidada e se
sentir um lixo como sabia que acontecia com tantas pessoas ao redor do mundo.
E, embora se sentisse totalmente sufocada e irritada com a falta de justiça e todo
o absurdo da coisa, Lavínia também não se deixou explodir como queria.
Ao invés disso, ela aumentou o volume da sua música até o máximo, abriu
seu melhor sorriso irônico e tocou a mão no peito se fingindo de emocionada.
Enterrou a cara no celular, tentando conter as batidas aceleradas do seu coração e
conversando consigo mesma para não ceder. Ela não cederia, não importava o
quão angustiante fosse ficar ali como atração principal do circo de horrores
colegial.
Ela se sentia uma covarde por não fazer nada ao mesmo tempo em que
também não sabia como agir. A vida inteira Lavínia esteve no meio de polêmicas
pelo seu jeito de agir e o modo de pensar, mas o que estava acontecendo ali
ultrapassava o limite do aceitável.
Aquilo era bullying. Era maldade. Ela se sentia humilhada.
O fato de eles conseguirem atingi-la a assustou um pouco. Ela não sabia
lidar com essa nova realidade em que não estava totalmente no controle de si
mesma e, se Lavínia que sempre foi uma garota tão segura de si podia vacilar,
quão grande seria o estrago em pessoas menos confiantes?
― Será que eu posso falar com você? – a voz familiar chamou e a garota
estendeu o olhar ainda tenso para a pessoa parada a sua frente. Os fios laranja
dela estavam presos em duas tranças e havia uma ruga de preocupação em sua
testa.
O coração de Lavínia de repente parou.
Ela encarou a melhor amiga enquanto as pessoas se dissipavam do pátio,
ainda aos risos e fazendo seus gestos infames. Cami dedicou um olhar irritado
aos que passavam perto e se sentou ao lado de Lavínia sem nem deixá-la
responder.
― Eu sinto muito, sinto muito – a garota disse, avançando para um abraço
inesperado. Lavínia ficou sem reação e não teve nem tempo de abraçá-la de volta
porque Cami já havia se afastado. Não parava de falar, com lágrimas nos olhos.
– Eu não te liguei ontem, me senti tão mal com isso, eu fui tão idiota. Me
desculpa! Foi seu aniversário e eu te tratei como se você nem existisse e...
― Tá, Cami, calma, respira, pelo amor de Deus – Lavínia cortou a amiga,
sacudindo-a de leve pelo braço. Cami calou a boca e assentiu, respirando como
havia sido ordenada. Era estranho vê-la tão descontrolada e vulnerável já que
Cami sempre foi a voz da razão, a pessoa que nunca saía dos eixos.
― Eu fui uma idiota. Senti tanto a sua falta e fui mais besta ainda só porque
não queria dar o braço a torcer e admitir que você estava certa. Você sabe o
quanto é difícil pra mim admitir um erro – ela desabafou derrotada. – E eu fiquei
com raiva de você por brigar comigo, não com seus outros amigos. Eu não
entendi o porquê de você ter ficado bolada.
― Agora você entende? – Lavínia perguntou cautelosa.
Cami, sentindo-se um pouco envergonhada, admitiu que sim com um aceno
de cabeça, para alívio da melhor amiga. Lavínia jogou todo o ressentimento para
o espaço na mesma hora e a enlaçou em um abraço apertado, sentindo-se
completa novamente por ter a sua Cami de volta em sua vida.
Como é que ela enfrentaria o mundo sem a sua cara-metade?
― Eu senti tanta saudade – Lavs falou, com um sorriso enorme no rosto. –
Odeio brigar, eu não sou eu sem você, sua ruiva de farmácia.
― Eu sei, me desculpa! – Cami pediu novamente, ainda não se sentindo
plenamente satisfeita. Ainda havia um peso nas suas costas e ela só o tiraria com
as palavras que estavam saindo sem parar. – Eu fui completamente
preconceituosa! Eu não acho que seja legal qualquer pessoa transar com dois ao
mesmo tempo, não é uma atitude que eu, Camila, faria. Mas não é problema meu
se alguém faz e isso não me dá o direito de ridicularizar ninguém, você estava
totalmente certa sobre isso.
Lavínia afagou as tranças da amiga, concedendo seu perdão de todas as
maneiras possíveis. Porque as pessoas, por melhores que fossem, não estavam
imunes a cometer erros. E quando alguém se desculpa com o coração, Lavínia
perdoa da mesma maneira.
Naquele momento, de mãos dadas com uma das pessoas mais incríveis que
já teve o prazer de conhecer, Lavínia realmente ficou cega a todos os olhares e
surda a todos os cochichos sobre ela ao seu redor.
― E tem mais: Nós vamos desmascarar quem foi o maldito que fez isso
com você – Cami anunciou, socando uma mão na palma da outra com decisão.
Ela tinha certeza de que o culpado era Anaju e não descansaria até provar para a
amiga que, pelo menos nisso, estava certa. – E depois fritar os miolos com óleo
quente de batata-frita.
― Nossa, aprendeu novas técnicas de tortura enquanto ficamos sem nos
falar?
― Sabe como é, sem você e suas loucuras a minha vida fica muito
monótona.
― Por falar nisso – Lavínia se empolgou, quase não conseguindo conter a
ansiedade por poder finalmente contar à amiga todas as novidades.
― Ih, lá vem. – Cami riu, leve como uma pluma ao reaver sua amizade. –
Você não me dá descanso né?
― Não mesmo!
Lavínia abriu a boca e as palavras saíram de lá como enxurradas. Foi assim
que as duas amigas voltaram ao que eram antes como se jamais tivessem
deixado de ser.
19. Sem Controle
Eduardo podia até se enganar sobre isso, mas estava decerto nervoso pelo
encontro com Lavínia. Primeiro porque era uma grande responsabilidade levá-la
para aproveitar o próprio aniversário, somente eles dois. E se Edu escolhesse
algo incrivelmente chato para eles fazerem? E se ela detestasse? Não seria a
primeira vez que alguém acharia seus gostos deveras peculiares.
Por conta desses pensamentos, ele passou os três dias entre quarta-feira e
sábado pensando no assunto e no que diabos faria para agradá-la.
Precisava ser algo legal. Ela não podia passar o próprio aniversário de um
jeito ruim, já bastava o quanto parecia triste no dia primeiro de março antes de
ele entregar o presente que comprara.
Pelo menos isso o rapaz já havia feito certo.
Apesar de todo o nervosismo, Edu estava ansioso para encontrar Lavínia de
novo. Não havia esbarrado com ela nenhuma vez durante esses dias para contar
as boas novas e, bem, ela era a pessoa com quem ele mais queria dividir aquilo –
já que a sua ajuda fora fundamental para fazê-lo tomar uma decisão.
O que, para Eduardo, era algo ainda mais significativo do que para as outras
pessoas.
Lavínia merecia o melhor aniversário de todos.
Eles marcaram pelo WhatsApp de se encontrar no saguão dos elevadores do
estacionamento do prédio às 12h, o que poderia parecer um horário estranho,
mas Edu tinha tudo sob controle – ele esperava. O rapaz estava encostado na
parede encardida com os pés cruzados e as mãos dentro dos bolsos da bermuda
clara. Havia aparado a barba bem rente na noite anterior, já que decidira deixá-la
por um tempo.
Segundo Duda, não havia nada mais charmoso em um homem do que uma
barbinha.
Ele só esperava que o novo adereço não fizesse sua diferença de idade com
Lavínia parecer ainda maior.
Agora que a ideia passava pela sua cabeça, começou a ficar com receio e
quase voltou ao apartamento para tirar tudo.
Não teve tempo, entretanto, porque o elevador chegou no mesmo instante e
a sua acompanhante saiu de lá de dentro. O cordão pendia no pescoço dela,
batendo na camiseta listrada e havia batom rosa realçando sua pele morena. Ela
exalava um cheiro maravilhoso de lavanda, daquele tipo que preenche o
ambiente e faz as pessoas suspirarem. Abriu um sorriso feliz para Edu, que
retribuiu de uma maneira extasiada.
Lavínia era tão bonita de um jeito tão simples.
O rapaz desencostou-se da parede quando ela se aproximou para
cumprimentá-lo. Ela beijou seu rosto, agora barbado, do jeito carinhoso como já
parecia ter se acostumado a fazer. O toque dos seus lábios era quente e o roçar da
sua pele na dele o fez sentir calafrios na espinha.
Involuntariamente ele a beijou de volta, dessa vez tocando os seus lábios no
rosto dela e sentindo o cheiro de lavanda mais forte do que nunca, impregnando-
se nele, fazendo seu peito inflar com uma sensação libertadora e assustadora ao
mesmo tempo.
Assustadoramente boa.
― Do que você tá rindo? – Lavínia perguntou, sendo contagiada pela risada.
― Tu sempre beija a minha bochecha direita – ele disse, achando seu
comentário extremamente idiota, mas esse era o preço a ser pago pela
sinceridade.
Lavínia esquivou uma sobrancelha e o fitou com um olhar engraçado, como
se estivesse mordendo a própria língua para se impedir de dizer o que realmente
se passava pela sua cabeça, mas adorando tudo isso. Eduardo sentiu as
bochechas esquentarem quanto notou, ainda mais quando a garota se aproximou
novamente para beijar a bochecha esquerda.
O beijo, dessa vez, foi mais demorado. Aquele tipo de beijo que se saboreia
pela proximidade, pelo aconchego que inebria o corpo inteiro, pedacinho por
pedacinho. Eduardo sentiu-se ancorado por aquele beijo, deixou escapar um
sorrio silencioso pelo contato direto com aquele ser humano. Lavínia acariciou
seus cabelos ondulados e finos, prendendo os dedos na sua nuca. Edu apertou o
braço dela e seus olhares se encontraram quando ela se afastou, com um sorriso
serelepe no rosto.
― Pronto. O lado esquerdo não precisa mais ficar com ciúmes.
Os dois foram juntos em direção ao carro dele, um Jeep moderno na cor azul
marinho. Eduardo não usava muito o carro, exceto quando não havia outra
escolha. Ele ia para a faculdade de metrô todos os dias e depois que começou a
fazer muay thai, seu novo condicionamento praticamente exigia que ele
caminhasse mais.
Uma mudança e tanto para o adolescente sedentário que ele fora.
― E então, pra onde é que você vai me levar? – Lavínia perguntou,
empolgada, sentada no banco do carona enquanto ele saía do estacionamento do
prédio. Havia certa tensão no rapaz, uma que ele não conseguia esconder muito
bem, mesmo se Lavínia não fosse uma garota muito esperta.
Mas ela era.
― Você me pediu pra eu escolher um lugar que gosto de frequentar, certo? –
ele indagou, só para confirmar mais uma vez. A garota assentiu, puxando os fios
cacheados todos para o lado.
Edu passou a marcha com força, se concentrando no trânsito e tentando não
olhar para ela. Seu pomo de adão se mexeu quando ele engoliu em seco, coisa
que não passou despercebida à menina. Ela mordeu o lábio rapidamente, seus
olhos azuis queimando na pele dele como sirenes de bombeiro.
― Pois então – Edu retomou a fala, coçando a garganta.
“Eu o deixo desconfortável”, ela pensou. E a satisfação disso encheu-a de
uma euforia excitante.
― Não vou te contar senão perde a graça – concluiu, fitando-a de lado de
um jeito adorável. – Aliás, eu preciso te contar uma coisa. Eu aceitei o emprego.
Lavínia se virou para ele, pega de surpresa. Cruzou uma perna debaixo do
corpo e empurrou o ombro do rapaz com uma expressão feliz no rosto.
― Não brinca! Mas você se decidiu mesmo ou só resolveu dar ouvidos ao
seu irmão?
― Me decidi – ele garantiu, dividindo sua atenção entre a rua e o rosto
sorridente de Lavínia. – Pensei no que tu me dissesse e percebi que, no fundo, eu
queria correr o risco.
― É um risco que vale à pena, realmente – ela concordou, sentindo-se
orgulhosa daquela conquista do rapaz. – Eu não disse nada antes pra não te
influenciar, mas teria te dito pra fazer o mesmo. Você, seu irmão e eu estamos
em sintonia.
Eduardo riu.
― O Guto sempre fica no time certo.
― Vocês são bem próximos né? – indagou, analisando o modo afetuoso
como ele falava do irmão. O rapaz assentiu, girando o volante para uma leve
curva à direita.
― Sim, desde pequenos. Sou só dois anos mais velho, a gente vivia junto.
― Eu sempre quis ter irmãos – lamentou, pensando na chatice que era ser
filha única na infância. – Eu tinha uma amiga imaginária e tudo, chamava de
"maninha" – ela confidenciou, divertindo Eduardo.
― Que história triste – ele brincou. – Já eu sou o mais velho de dez.
Lavínia arregalou os olhos, surpresa.
― Você tem dez irmãos? E não enlouqueceu?
― Na verdade só quatro são de sangue, os outros vieram apenas dois anos
atrás. Eu não gostei nada quando as gêmeas nasceram, tinha ciúmes – disse,
parando no sinal vermelho e olhando a garota ao seu lado enquanto contava
histórias sobre a sua família. – Ciúmes do Guto, não dos meus pais – ele riu e
balançou a cabeça ao se lembrar. – Elas são dois anos mais novas do que ele,
meus pais só tiveram filhos em anos ímpares... Até que veio o Leo, o caçulinha.
Mas ele é bem mais novo, hoje está com treze anos e é o melhor carinha que
existe. Ah, que saudade daquela piazada! – O brilho nos olhos do rapaz não
negava a veracidade do seu sentimento. Lavínia achou engraçada e adorável ao
mesmo tempo a palavra que ele usara. Piazada.
― Você os visita bastante, né? Lá na sua cidade no... Paraná? – arriscou.
― Isso mesmo, lembrou certinho – Edu confirmou. – Eu tento ir pelo menos
uma vez ao mês, mas é complicado, né? Dou meu jeito porque sinto muito a
falta deles, meu primeiro ano aqui foi bem difícil.
― Eu tinha vontade de me mudar assim também... Fazer faculdade em outro
estado, começar tudo do zero, sabe. Me reinventar. Só não tenho coragem porque
teria que deixar meus pais sozinhos.
― Ah, se eu fosse filho único também não sei se conseguiria – ele
concordou. – Até porque meu pai é viúvo e muito sentimental. Com o tanto de
cria que tem ele já fica choroso quando um vai embora – Edu passou a marcha e
acelerou quando o sinal ficou verde de novo. A cidade passava pelos vidros das
janelas do carro como borrões coloridos e com cheiro de maresia enquanto os
dois contavam um ao outro histórias sobre suas famílias.
Lavínia ficara maravilhada ao ouvir com detalhes sobre como a família do
rapaz era nada convencional e, atualmente, gigantesca. Apolo já havia contado a
ela sobre Guto e Calíope no dia da festa surpresa da garota, mas ouvir Eduardo
era ainda mais impressionante. Ele sabia muito bem como narrar uma história e
manter o interlocutor não só prestando atenção, mas ávido para saber o que
vinha a seguir.
Ele certamente tinha um dom. E, embora fizesse uso disso, já que queria ser
professor universitário de História, não fazia ideia exata do quanto mandava
bem.
― Então você é praticamente o Cupido da sua família – Lavínia constatou,
aos risos, ainda achando a história toda muito incrível. Afinal fora Eduardo
quem apresentou a atual madrasta ao seu pai.
― Digamos que sim – ele confirmou, orgulhoso da sua façanha. – Tenho um
olho bom para detectar pessoas compatíveis, quando não estou envolvido. Pode
me usar se quiser – ele ofereceu de brincadeira.
Ah, ela queria usá-lo sim. E como.
― Perto de tudo isso eu tô começando a achar que a minha família é mais
chata do que uma reunião anual de "tios do pavê" – ela brincou, arrancando uma
risada do rapaz. – A coisa mais legal que aconteceu foi quando eu e minha prima
da Tijuca reunimos nossas famílias, sem querer, quando começamos a nos falar
pela internet e ficamos amigas. A mãe dela é prima da minha e por algum motivo
não se falavam há anos! Mas isso é tão menos legal do que ser um Cupido que
não tem nem nome, estou com inveja.
Alguns minutos de conversa depois, eles pararam em um guichê de
estacionamento. Eduardo abaixou o vidro para pegar o papel de entrada com o
segurança, deu um bom dia educado e avançou com o carro para dentro.
Estacionou na primeira vaga que viu, sentindo-se ainda mais nervoso agora que
haviam chegado ao destino final. Lamentou ter que parar a conversa no carro
pela metade, com os comentários espirituosos dela sobre tudo o que ele dizia.
Mas, ao mesmo tempo em que se sentia inseguro sobre o rumo do dia, estava
também ansioso para a reação da garota.
― Chegamos ao ponto final, senhorita.
Ela saiu do veículo e fechou a porta, olhando em volta e reconhecendo o
lugar. Havia uma ruga de curiosidade na sua testa, uma que Eduardo preferiu não
interpretar. Ele bateu a porta também e ligou o alarme do Jeep com um clique.
Encarou Lavínia e seus olhos azuis intensos, seus cabelos cacheados ao vento de
março e um sorriso enigmático nos lábios cor-de-rosa.
Não havia mais como voltar atrás. Ele pousou a mão nas costas dela,
conduzindo-a pelo jardim sofisticado e para dentro do prédio de estrutura
moderna.
― Nós estamos no Museu de Arte Moderna? – ela quis conferir.
― Você já veio aqui?
― Não, mas conheço por fotos. Estamos, né? Você me trouxe ao Museu – a
garota constatou, deixando escapar um risinho gostoso. Os músculos do rapaz se
tencionaram e ele engoliu em seco.
― Sim, mas não é o que...
Lavínia parou e o fitou diretamente nos olhos, daquele jeito impactante de
sempre que o puxava perigosamente para perto, mas ao mesmo tempo o
afastava.
― Eu disse a você que me trouxesse a um lugar que gosta de frequentar e
foi o que fez. Era o que eu queria, tô feliz por você me mostrar o que gosta ao
invés de ficar na mesmice de uma saída "segura".
Quantos anos ela tinha quando falava daquele jeito?
― Tu és uma caixinha de surpresas, Lavínia. Mas eu tenho minhas surpresas
também.
A garota esquivou uma sobrancelha, gostando do desafio. Eduardo, para sua
surpresa, fez a mesma coisa.
― Vamos ao tour.
Edu pagou as entradas dos dois e guiou Lavínia pelos dois andares do
Museu, que, no momento, apresentava uma exposição sobre raízes do Brasil. Ele
apontava para os objetos como o estudante apaixonado de História que era e
explicava para sua acompanhante sobre o que representava, o que era aquilo de
fato. Lavínia o seguiu por todo o espaço, sem saber se prestava mais atenção ao
que estava exposto ou ao rapaz ao seu lado que falava com tanta paixão. Ela
sentia um formigamento dentro de si e Eduardo, ao perceber que a menina estava
mesmo gostando do tour, sentiu-se revigorado. O alívio era a sua morfina
predileta.
A obra que Lavínia mais gostou foram as esculturas de cabeças humanas –
representando os escravos, segundo Eduardo dissera – feitas de açúcar e melado.
Elas eram absolutamente impressionantes, tanto pela perfeição dos detalhes
quanto pela surpresa da matéria-prima. Lavínia jamais diria que aquilo era
açúcar queimado.
Os dois chegaram ao final do tour, em uma espécie de varanda do Museu
que contemplava o Aterro do Flamengo logo abaixo, com um gramado
esmeralda, árvores altas e o mar logo adiante. Lavínia encarou aquele visual
impressionante, típico do Rio de Janeiro, com uma expressão serena de
satisfação no rosto. Ventava bastante ali, apesar do sol, e a garota se apoiou
sobre a mureta de pedra.
― Esse lugar é lindo. E você encheu meu cérebro de cultura, vou trocar a
escola por programas culturais com o Eduardo – ela o fez rir, leve como uma
pluma agora que já havia passado o seu nervosismo. Ele se apoiou na mureta
também.
― Se você estudasse na Tijuca, teria a aula e o Eduardo.
― Ah, isso seria terrível – deixou escapar, fazendo o rapaz a encarar.
Lavínia sentia as batidas do coração em praticamente todas as partes do
corpo. Não sabia como lidar com isso, essa sensação nova e inusitada que a
invadia. Ela saía a encontros românticos com rapazes, até mesmo namorou por
meses. Mas sempre estava no controle de tudo, inclusive de si mesma.
O descontrole era o grande protagonista daquela tarde.
Pregava peças na garota e também no rapaz ao seu lado, próximo demais
para o bem das suas sanidades. Eduardo aprendera a ser uma pessoa contida com
o que sentia, embora sempre tenha sido um cara mais reservado. Ele não fazia
por querer, mas não conseguia se abrir tão bem às experiências cotidianas como
as outras pessoas ao seu redor. Prendia-se ao seguro, limitava-se ao já conhecido
por medo do que encontraria ao sair da caixa.
Não era de hoje que seus velhos hábitos de comportamento vinham
sinalizando em luzes vermelhas que ali morava um problema. Mas sua
necessidade por mudança era uma coisa, deixar-se levar por uma garota de
dezesseis anos era outra bem diferente.
João Augusto dissera que ele deveria se permitir mais, que ele deveria viver
a vida para além da sua cerca protetora. Porém desde que Lavínia abrira seus
olhos para o fato de que era ele quem deveria escolher os próprios passos,
Eduardo vinha se perguntando se era isso o que realmente queria.
O que é que ele queria para si, afinal de contas? O que é que faria passar
esse buraco, esse vazio existencial que o deixava completamente dormente,
ansiando por algo que não conhecia?
Lavínia era uma força da natureza. Ela era toda a decisão que faltava nele,
toda a segurança que ele não tinha. Olhar para ela era inspirador, de certo modo.
Era enxergar uma jovem mulher alcançar com tanta maestria aquilo que ele não
conseguia nem decifrar, quem correr atrás. Olhar para ela, em seus olhos
tempestuosos, era sentir a eletricidade de um raio disparando dela diretamente
para ele.
O que é que ele estava fazendo ali? Sentia-se desgovernado naquele
instante, prestes a bater em uma mureta, mas sem conseguir desviar a direção.
Sem controle.
― Vem. O passeio ainda não acabou.
Ele a pegou pela mão, levando-a para acima das escadas que havia no pátio.
Ela já tinha se animado ao ouvir a música coreana que tocava quando eles
chegaram ali, mas, ao se deparar com o que havia lá em cima, Lavínia paralisou.
― O que é isso?
― Quando comecei a procurar um lugar pra te levar, descobri que estava
tendo essa feira coreana aqui no Museu. E aí eu me lembrei das músicas que tu
escutas e pensei... Bom, o Museu é um dos meus lugares preferidos e ela curte a
Coreia. Nada melhor do que...
― Ai, caramba! – ela deu um grito, apertando o braço dele e apontando
para o corredor cheio de mesas de degustação. Não havia muita gente ali em
cima, mas o suficiente para estar agradavelmente cheio. – Tem comida, tem
comida coreana!
― Tem sim – Eduardo se divertiu com o entusiasmo que ela não conseguia
controlar. – Além da degustação, o cardápio do bar é todo coreano
excepcionalmente nos fins de semana da feira. Teve semana passada e esse agora
é o último.
― Você é simplesmente a melhor pessoa – disse ela antes de puxá-lo a todo
vapor direto para as comidas. Eles degustaram tudo, até mesmo um tal de kimchi
que era a coisa mais picante que Eduardo já provara em toda a sua vida e quase o
fez engasgar. Depois daquilo, precisou de muitos copos de água e mesmo assim
não conseguiu saborear plenamente mais nada pelo resto do dia.
Os dois se sentaram em uma mesa do bar, tudo ao ar livre, enquanto telões
passavam videoclipes de grupos coreanos fazendo suas coreografias
absurdamente difíceis. Havia um grupo de quatro garotas dançando em frente,
com perfeição, e outros atrás tentando aprender a dançar junto, como um jogo
coletivo de Just Dance. A Feira era bem pequena e, além disso, havia alguns
estandes com mais conteúdo sobre a cultura pop e tradicional coreana. Eduardo e
Lavínia comeram lula picante com legumes, arroz e outros vegetais tradicionais
do país (como o broto de feijão) enquanto ela dissertava sobre tudo o que sabia
sobre a Coreia, sendo a professora da vez.
Mas foi quando começou a tocar uma música específica, com um som
inicial bastante sensual, que ela não conseguiu se segurar mais.
― Esse é uma das minhas músicas preferidas – disse muito séria, ainda
segurando seu hashi.
Eduardo, captando o que se passava na cabeça dela naquele momento,
apenas se aproximou e disse:
― Tá esperando o que, guria?
Lavínia se levantou na mesma hora, indo alvoroçada em direção ao grupo
dos dançarinos. Se meteu no meio deles, logo se destacando por saber a
coreografia inteirinha – e muito bem. Ela fazia os passos ensaiados com
confiança e requebrava a cintura com um molejo nato. Eduardo, que estivera
observando tudo da sua mesa, primeiro achou graça do entusiasmo da garota,
mas, quando viu a sua desenvoltura, precisou de muito esforço para não deixa o
queixo despencar.
Ela dançava de um jeito fácil, provavelmente já teria ensaiado aqueles
passos em casa várias vezes, já que aquela era uma das suas músicas preferidas
(Se chamava Only You do grupo Miss A). Mas o rapaz não estava preparado para
presenciar tal cena deslumbrante, quando Lavínia se soltou na pista de dança
improvisada.
Seus olhos se encontraram por um breve segundo e Lavínia sorriu para ele,
fazendo com que algo desabrochasse dentro do rapaz pela sua felicidade
contagiante. A euforia, até o momento exclusiva ao lado feminino dessa
equação, agora fazia parte de Eduardo também. E tudo o que o restou fazer foi se
deixar arrastar por aquele mar de sensações ambivalentes e puro deleite ao ser
totalmente envolvido por ela.
Essa, querido Edu, é pra você – era o que os olhos azuis de Lavínia diziam.
E o rapaz mais uma vez foi vencido por tudo aquilo que não podia controlar.
20. Respire!
Quando Lavínia e Eduardo voltaram ao prédio, foram direto para suas
respectivas casas. Haviam passado o dia inteiro fora, ora no Museu (onde
Lavínia dançou e comeu como se não houvesse amanhã), ora andando de
bicicleta pelo Flamengo e Botafogo (a garota sempre quisera alugar aquelas
bicicletas laranjas do banco Itaú que ficavam na rua, mas nunca o fazia). Ainda
houve tempo para uma passada até a praia do Arpoador para assistir ao pôr-do-
sol, uma das cenas preferidas de Eduardo em toda sua experiência de vida.

O que Lavínia achou incrivelmente romântico. E, se não fosse o receio de


afastá-lo, aquele teria sido o momento em que ela o teria beijado.
Os dois se despediram quando o elevador chegou ao andar dele, cansados e
revigorados ao mesmo tempo, sem entender exatamente o que estava
acontecendo ali, mas voluntariamente não pensando sobre isso – o máximo que
fosse possível. Combinaram de se encontrar às 23h30 no saguão do prédio, e foi
aí que Eduardo voltou a prestar atenção em seus pensamentos de novo.

― Essa hora não é muito tarde? – indagou com a testa franzida. – O que
vamos fazer?

Ele já começava a se arrepender de ter concordado com os termos daquela


saída e prometido ir aonde Lavínia quisesse à noite.

Eduardo não confiava naquela louca. Podia achá-la inesperadamente


intrigante e divertida. Desafiadora, até.

Mas não confiava nela.

Talvez uma coisa fosse consequência da outra.

Lavínia abriu um sorriso tranquilizador – que só conseguiu deixá-lo ainda


mais desconfiado – e fez um gesto com a mão indicando que estava tudo bem.

― Relaxa, ok? – como ele era tenso! – E antes que você pergunte, sim, os
meus pais sabem.

É claro que Eduardo não relaxou. Para onde uma menor de idade iria a essa
hora da noite e fazer o quê? Ele vivera seus dias de adolescente em Assunção,
uma cidadezinha muito pequena no interior do Paraná, portanto não conhecia os
possíveis lugares frequentados por Lavínia.

O Rio de Janeiro era enorme e cheio de possibilidades.

Possibilidades demais.

Mas não havia escapatória. De modo que o rapaz voltou para casa e foi tomar
seu banho e descansar um pouco antes de se arrumar. Guto provavelmente tinha
saído com a namorada, já que não se encontrava no apartamento, mas Bart o fez
companhia como o maravilhoso cão parceiro que era.

Ele vestiu uma calça escura e uma camisa de algodão de botões e mangas
curtas como as que gostava de usar. Escolheu uma xadrez em tons de vermelho
porque Lavínia havia dito que era sua cor preferida, e não fazia mal agradá-la.
Eles conversaram bastante, sobre os mais variados assuntos, e Edu, apesar de
receoso com o tipo de passeio que aquela noite reservava, não estava nem um
pouco triste por ter de encontrar a garota novamente.

Muito pelo contrário.

Lavínia, dessa vez, chegou antes dele no local combinado. E o rapaz levou
um susto quando a viu muito bem arrumada em uma saia preta de cintura alta,
uma blusa justa que deixava a barriga um pouco de fora (dessas que as garotas
viviam usando agora) e tênis. O cabelo estava solto, o rosto muito bem
maquiado com direito a batom vermelho, e o cheiro não era de lavanda, mas um
perfume mais sofisticado.

― Quanto tempo – ela disse zombeteira, com seu sorriso malicioso nos lábios
enquanto Edu engolia em seco, mais aterrorizado do que antes. Lavínia soltou
uma gargalhada e pousou as mãos na cintura. – Que foi? Não gostou do meu
visual?

Ele se permitiu dar outra olhada rápida nela e definitivamente seu choque não
tinha nada a ver com não ter gostado do visual. Lavínia parecendo mais velha
assim, vestida desse que ele não via todos os dias, fez acelerar sua circulação
sanguínea e deu um nó na cabeça do pobre rapaz.

Ela estava deixando as coisas cada vez mais difíceis para ele.

― Não é nada. Você só parece mais velha – disse por fim.

Então a garota esquivou as sobrancelhas, como quem esconde um segredo


muito divertido, e entrelaçou o braço no dele.

― É porque hoje eu realmente serei – explicou sem dar explicação nenhuma


de fato. – Vamos indo?
Ela o arrastou para o portão do prédio, onde um táxi amarelo esperava com o
motor ligado. Lavínia abriu a porta e cumprimentou o motorista ao entrar. Fez
um sinal para que Edu a seguisse e, embora todos os seus sentidos o dissessem
que aquilo era uma cilada, ele acabou indo.

Lavínia, por si só, era uma cilada ambulante.

― E pra onde vamos? – perguntou logo após se acomodar ao lado dela, sem
conseguir disfarçar a tensão.

― A uma noite que você não irá esquecer.

Foi só quando o táxi parou em frente ao destino final que Eduardo finalmente
acreditou nela.

― Uma boate? – ele indagou incrédulo. – Na Lapa?

Ela só podia estar de brincadeira.

Eduardo se virou para Lavínia com um olhar zangado e desconcertado.

― Ficou maluca, guria?

A jovem ignorou a reação dele, mordendo o lábio para impedir a risada que
estava presa em sua garganta, doida para sair. Ao invés disso, abriu a bolsa para
pegar o dinheiro do táxi.

― Quanto deu, moço?

― Nós não vamos descer, Lavínia – Eduardo foi taxativo. Seu rosto estava
sério.

Ela o fitou também muito séria.

― Eu vou descer – disse, saboreando cada palavra. – Você vem comigo se


quiser, ou então entro sozinha, você que sabe – deu de ombros, desafiando-o
com um meio sorriso.
E o rapaz teve certeza absoluta de que não podia mesmo confiar nela.

Onde já se viu uma coisa dessas: Ela era maluca.

― De jeito nenhum eles te deixariam entrar – ele cruzou os braços,


segurando-se na sua única vantagem para não ter um ataque do coração. – Você
só tem dezesseis anos.

― Dezesseis? – ela soou chocada. – Na minha carteira de identidade consta


dezenove. Vinte em agosto – completou, deixando um Edu muito confuso e
desesperado ao seu lado. Ela estendeu uma nota ao motorista e abriu um sorriso
simpático. – Muito obrigada, senhor. Você pode ficar com o troco – ofereceu,
generosa. Então encarou Eduardo mais uma vez. – E tu, piá, decide aí se virá
comigo ou não.

A garota piscou para ele e abriu a porta do carro, saindo antes que Eduardo
pudesse dizer alguma coisa. O rapaz permaneceu ali, com a boca aberta, ainda
não acreditando no que estava acontecendo. De jeito nenhum poderia deixar
Lavínia entrar em uma boate sozinha, ainda mais se ela tivesse feito o que ele
achava que tinha feito. Com certeza se meteria em encrenca e depois ele é que
teria que explicar a todos o que estava fazendo com uma menor de idade em um
lugar desses, a essa hora.

Edu passou a mão pelo rosto, arrependendo-se amargamente de não ter dado
ouvidos aos seus instintos. Ele estava tão ferrado.

― E aí, amigão? A gente vai ficar aqui a noite toda? – o taxista quis saber,
irritado com a demora do rapaz.

Edu saiu do carro e foi correndo atrás de Lavínia, já posicionada na fila para
entrar na tal boate onde estava rolando uma festa alternativa. Ele não era muito
fã desse tipo de coisa, mas já havia ido naquele local específico com os amigos
algumas vezes, quando não conseguia convencê-los a ficar só nos bons e velhos
barzinhos de sempre.

Edu passou pela aglomeração de pessoas bebendo e socializando na porta e


segurou Lavínia pelo braço.
― O que tu pensa que tá fazendo? – perguntou, alterado pelo nervosismo. Ele
não costumava sair fácil do seu estado natural de pacificidade, mas não sabia
lidar com o que Lavínia causava dentro de si. Saía totalmente da sua zona de
conforto. – Forjou um documento falso?

― Ah não, pelo amor de Deus – ela descartou a ideia, para alívio de Eduardo.
Abriu a bolsinha preta e tirou de lá de dentro uma carteira de identidade,
estendendo para que o rapaz pudesse ver. Em um primeiro momento, a garota da
foto parecia Lavínia, sem nenhuma contestação. Mas o nome no documento
atendia por Daniela Fernandes Nogueira e a data de nascimento era três anos
antes da vizinha do 1208.

Eduardo franziu a testa, sem entender nada do que estava acontecendo ali.

― Minha prima me emprestou, nós somos super parecidas, né? E não é a


primeira vez que faço isso, então relaxa – ela pediu, balançando o ombro dele e
pegando o objeto das suas mãos para guardar de volta na bolsa.

Eduardo não estava nada relaxado.

― Ei – Lavínia pousou as mãos nos ombros do rapaz.

Fitou Edu nos olhos com seu olhar confiante e amigável, mas o maxilar dele
permanecia trincado. Parecia muito preocupado, mais do que deveria, na
humilde opinião da garota. E é claro que aquilo o tornava ainda mais adorável,
esse seu jeito certinho de ser.

Mas, naquela noite, Lavínia queria quebrar a sua resistência e fazê-lo apenas
se divertir um pouco. Ela chegou mais perto e arrastou suas mãos pelo peito
dele.

― Eu conheci o seu mundo e agora quero que você conheça o meu. Só isso –
disse.

― O que é esse seu mundo exatamente?

Me enlouquecer, ele pensou. Só pode ser isso.


Lavínia entortou a cabeça, pensando.

― Sabe quando você desliga o cérebro e só curte o momento? É como me


sinto quando venho dançar. Não faço muito isso, mas é sempre a melhor coisa do
mundo.

O olhar do rapaz vacilou à menção da palavra "dançar". Involuntariamente a


imagem de Lavínia dançando tão solta e feliz na feira coreana voltou à sua
mente, e ele até tentou permanecer irredutível, mas não conseguiu.

Lavínia, é claro, aproveitou a abertura.

― Prometo que não vou beber nada se for pra te deixar mais tranquilo.

― Você não vai beber mesmo! – ele declarou imediatamente.

Estava muito escuro, barulhento e lotado no interior da boate quando os dois


entraram. Eduardo quase explodiu de tensão quando Lavínia apresentou a
carteira de identidade, mas o segurança a deixou passar depois de três
verificadas no rosto da menina e na foto impressa. Edu respirou aliviado e
Lavínia lançou um olhar para ele que dizia "eu não te falei?".

Ela o puxou pela mão, por entre as pessoas que dançavam enlouquecidas ou
esperavam suas bebidas no bar. Eduardo estava aterrorizado enquanto se
espremia entre outros seres humanos para chegar sabe-se lá onde Lavínia queria.
Uma música não muito recente começou a tocar e a garota se virou para ele na
mesma hora, com uma expressão animada no rosto.

Se notou a cara desesperada de Edu, não disse nada.

― Eu amo essa música! – disse ela, voltando a puxá-lo para um canto menos
lotado da boate. – Dança comigo!

Então Lavínia se remexeu ao som da voz do The Weeknd e do resto das


pessoas lá dentro indo à loucura. Edu estava parado, desconfortável em seu
próprio corpo e pensando que aquela só podia mesmo ser uma forma de
pagamento pelo tipo de pensamento que tivera com relação a Lavínia durante
todo o dia.

Eduardo engoliu em seco, sem ritmo nenhum e sem saber o que fazer com o
próprio corpo desengonçado. Ele havia se divertido muito conversando com ela
e conhecendo-a melhor, seria muito mais fácil se não houvessem momentos
como este para cozinhar o seu bom senso. Ele não se sentia desse jeito
inconstante quando estava perto de Duda, por exemplo.

Ele preferia mil vezes não ter de estar dançando em público.

― Eduardo – Lavínia gritou para ser compreendida. – Para de pensar.

― O quê? – ele gritou de volta, sem ter entendido direito.

Ela se aproximou do ouvido dele e disse:

― Desligue o cérebro! Só sente a música.

Ele ficou encarando a garota com seu jeitão meio nerd, sem saber o que fazer,
apenas sentindo a pele arrepiar por causa da voz dela em seu ouvido, a
respiração em seu pescoço.

Como as pessoas dançavam, afinal?

Lavínia, notando o constrangimento do rapaz, o puxou pelos braços para que


os dois pudessem dançar juntos. Ela rodopiou para longe e depois para perto
dele, enlaçando o braço de Eduardo em sua cintura e fazendo-o seguir o ritmo do
seu corpo. A princípio, Edu ainda estava meio travado, mas foi se soltando à
medida que Lavínia o instigava, fazendo-o se mexer um pouco mais.

Ela gargalhou, o que acabou arrancando uma risada dele também. Balançou a
cintura e os braços em frente a ele e Eduardo mexia os ombros mais livremente
agora, sem parecer tanto um robô. Ele balançou a cabeça, sem acreditar no que
aquela menina maluca o estava fazendo passar, rindo da sua própria situação
inusitada. Lavínia fez um sinal de positivo com o polegar e bateu palminhas para
o desempenho dele, que dessa vez não ficou tão encabulado.
Ela estendeu a mão para ele, que a pegou e rodopiou a menina de surpresa. Os
dois riram juntos dessa vez e Lavínia, de vingança, o fez rodopiar também, com
toda aquela altura que ele tinha. Eduardo estalou seus dedos, tentando sentir a
música como ela o havia dito para fazer e, quando menos esperou, sua mente não
estava mais tão cheia como dois minutos atrás.

Seus sentidos eram tudo o que importava naquele pequeno momento e ele se
sentiu flutuar, estranhamente bem com essa nova perspectiva nunca antes
experimentada desse jeito.

Sentiu-se como se pudesse finalmente soltar o ar depois de muito tempo


prendendo a respiração. E, quando Lavínia girou até os seus braços de novo, às
gargalhadas, naquela noite estranha, Eduardo sentiu como se não tivesse mais
ninguém naquele salão.
21. Desce Mais Uma
Eduardo Becker estava tão cansado quando chegou em casa às três da manhã,
que nem percebeu o corpo dormindo pesadamente em seu sofá.

Ele foi direto para o quarto, movido mais pela vontade de apagar na cama do
que pelos pés propriamente ditos, e seus músculos finalmente relaxaram quando
atingiu o colchão. Ele ainda teve tempo de um único pensamento racional
parecido com "O que foi que aconteceu essa noite?". Mas o sono falou mais alto,
seus olhos pesados se fecharam, e Eduardo mergulhou na inconsciência com
alívio e felicidade.
Que os pensamentos ficassem para depois.

Foi Cali quem o acordou muitas horas depois porque, se dependesse dele,
teria continuado no sono profundo por mais algum tempo.

― Eduardo – ela chamou, sacudindo-o levemente. – Edu, acorda.

Ele fez um grunhido de protesto e abraçou mais forte o travesseiro. Calíope


bufou e o sacudiu com mais intensidade.

― Anda logo, acorda – exigiu, chacoalhando-o sem obter sucesso. Pousou as


mãos na cintura, encarando o corpo do irmão-cunhado e pensando no que fazer
em seguida. Um brilho sádico passou pelos seus olhos quando a garota teve uma
ideia.

Ela saiu do quarto correndo e voltou segurando uma panela de inox e uma
colher gigante de metal. Chegou perto da cabeça de Eduardo e começou a bater
o talher nas paredes da panela incessantemente.

― Acorda, piá! – gritou em meio à barulheira que fazia, e Eduardo deu um


pulo na cama, acordando sobressaltado.

― O que houve? Quem morreu? – o rapaz perguntou com o coração


acelerado. Ele piscou os olhos arregalados e encarou Cali, que tinha uma
expressão satisfeita no rosto. – Cali?

― A própria. Precisei usar minha tática Acorda-Apolo com você, mas a culpa
é toda sua. Que sono pesado – a ruiva comentou, ainda segurando seus objetos
de tortura.

Edu estendeu a mão e pegou seus óculos na mesinha de cabeceira da cama,


ainda sentindo o corpo todo vibrar com o susto. Calíope nunca brincava em
serviço.

― Eu cheguei tarde em casa ontem, guria – ele explicou, deixando escapar


um bocejo em seguida. – Que horas são? Qual a urgência? Vocês botaram fogo
na casa ou o quê?
― Ainda não – ela respondeu, para espanto do mais velho. – Mas tenho
certeza de que seu irmão e o amigo psicopata estão quase conseguindo.

― Quê? – Edu se levantou na mesma hora. Ficou um pouco tonto pela


rapidez dos movimentos, mas se recompôs rapidinho.

Saiu do quarto com a cara de travesseiro amassado e Cali foi atrás segurando
a panela e a colher em posição de ataque, pronta para usar suas armas a qualquer
momento. Bart veio correndo quando o rapaz se aproximou, mas ele teve que
engolir o grito de terror que subiu até sua garganta quando chegou à porta da
cozinha.

João Augusto tentava apagar o pano de prato pegando fogo e alguma coisa
queimava e estalava na frigideira. A pia estava cheia de louça e havia uma poça
de um líquido verde, igual ao que sujava o liquidificador (por dentro e por fora).
O outro garoto voou até o fogão e tirou a frigideira do fogo. Saía de lá uma
fumaça preta e fedorenta que fez Calíope tossir.

― Falei pra você que eles estavam brincando de incêndio – ela disse.

Edu dissipou a fumaça com as mãos enquanto o garoto jogava o conteúdo


quase todo queimado em um prato. Jogou a frigideira na pia e abriu a torneira
para que a água a esfriasse.

― Diogo? O que você tá fazendo aqui?

O garoto de cabelos castanhos claros se virou para Eduardo na mesma hora.


Seus olhos cor de mel se arregalaram quando ele abriu um sorriso cínico que
Edu conhecia bem, desde as fraldas.

― Olha só quem acordou! – Diogo saudou, estendendo os braços. – Já estava


na hora, piá.

― Nós estamos fazendo o almoço – Guto esclareceu, com o pano de prato


queimado em seu ombro e uma expressão traquina no rosto.

Eduardo e Calíope encararam o estado deplorável de bagunça em que a


cozinha se encontrava e fitaram um ao outro como um pedido de socorro.

― Eu não devia ter te desafiado a cozinhar pra mim daquela vez, agora você
ficou viciado – ela reclamou, avançando até o namorado e colocando a panela de
inox prateada na cabeça dele, que nem o Menino Maluquinho.

Eduardo achou muito pertinente.

João riu e puxou Cali pela cintura, depositando um beijo na bochecha dela.
Diogo revirou os olhos e afastou o prato com a... Comida não identificada que
eles haviam preparado.

― Cali tem razão – Edu ponderou, cruzando os braços e fitando o irmão com
preocupação. – Você tem um problema, Guto. Precisa aprender a parar. Sua
comida não é boa.

― De repente me transportei para uma reunião dos Alcoólicos Anônimos –


Diogo soltou o comentário ácido. Eduardo fitou em sua direção.

― Quero saber como foi é que você se transportou até aqui.

― De avião – ele deu de ombros. Edu estreitou os olhos ainda inchados de


sono e Diogo bufou. – Ok, piá. Te conto tudo. Mas, por favor, não antes de a
gente sair pra almoçar alguma coisa decente.

― Eu deveria ficar ofendido – João disse. Todos olharam para ele com as
sobrancelhas levantadas e um olhar cético que o fez suspirar em derrota. – Me
levem logo embora daqui antes que eu invente também uma sobremesa.

Eduardo foi tomar um banho e todos se arrumaram para ir até o restaurante


(deixariam a limpeza da cozinha para depois). Ele ainda não estava entendendo
nada sobre Diogo estar no Rio, mas era uma boa distração para impedi-lo de
pensar na noite anterior pelo menos até que seus neurônios nada matutinos
voltassem a funcionar direito.

Eles se serviram dos seus pratos e sentaram em uma mesa enquanto Diogo
contava sobre o rompimento do seu namoro. Da última vez que Eduardo tivera
notícias do melhor amigo do irmão, ele estava vivendo em Curitiba com Ingrid –
a namorada, também melhor amiga do João Augusto. Ela havia passado no
vestibular pra UFPR (Universidade Federal do Paraná) e se mudou no início do
ano passado. Já Diogo, que não tinha passado em nada e nem nenhuma ideia do
que continuar fazendo em Assunção, acabou indo com ela.

― Vocês sabem que meus pais me apoiaram porque eu ia fazer um cursinho


em Curitiba pra tentar o ENEM de novo. Mas eu nunca quis fazer Faculdade,
não sabia nem para o que tentar concorrer – deu um gole em seu refrigerante. –
Eu estava fazendo uns bicos, cantando em barzinhos e tal. Fazendo o cursinho
também. Mas tudo começou a desandar com a Ingrid e a minha vida estava um
inferno...

― Você e a Ingrid formavam um casal tão fofo – Cali lamentou. Guto ainda
não sabia nem o que dizer sobre o rompimento dos melhores amigos e Eduardo
só queria continuar a ouvir a história.

― É, pois é, nós éramos. Até começarmos a querer nos matar. Nada demais.

― Mas como é que isso fez você acabar vindo pro Rio? – Edu ainda tentava
entender.

Diogo pensou, encarando o peixe no seu prato com mais concentração do que
o normal. E então disse:

― Pra falar a verdade eu só juntei minhas coisas e vim pro primeiro lugar que
pensei que seria bom pra correr atrás do meu sonho de ser músico. Eu e Ingrid
terminamos porque não queríamos acabar também com a nossa amizade de anos
e o amor... O amor nunca dura – ele desabafou com amargura e mau humor. – O
amor é uma grande mentira. É uma invenção da sociedade pra vender chocolate
e fazer as pessoas aceitarem as coisas mais facilmente.

As três outras pessoas na mesa encararam Diogo sem saber o que dizer.

João Augusto e Calíope deram as mãos por debaixo da mesa e Eduardo se


remexeu na cadeira. Diogo deu uma garfada violenta no maldito do peixe que,
com certeza, já tinha amado uma senhora peixe quando era vivo. Antes de ser
pescado e virado comida para jovens adultos paranaenses recém-chegados ao
Rio de Janeiro. Ela o amava ainda depois disso? É claro que não. Porque o amor
não resiste às adversidades da vida.

Nem mesmo à vida de um peixe.

Diogo afastou o prato e Cali deu um tapinha solidário em seu ombro.

― Acho que alguém precisa sair pra beber hoje – João Augusto disse.

― Definitivamente – Eduardo concordou.

E foi assim que eles acabaram parando no bar preferido do irmão mais velho
com Apolo, Hélio, Duda e Marcelo – os dois últimos amigos de faculdade do
Eduardo.

― Desce mais uma rodada de Budweiser, por favor, filhão – Marcelo pediu
ao garçom, que acenou em positivo.

― Eu acho que preciso de alguma coisa mais forte – Diogo refletiu, dando
um gole na sua cerveja.

Guto deu um tapa nas costas do amigo, bebericando seu copo também, e
disse:

― Tem certeza de que quer misturar, piá? Da última vez que tu fizesse isso
não deu muito certo.

― Eu tinha dezessete anos e ainda perdia pra ti nas competições de Skate –


desdenhou. – Eu ainda fazia sexo regularmente sem precisar ter que me
concentrar pra esquecer a voz chata da minha namorada reclamando o dia inteiro
sobre a toalha molhada que deixei em cima da cama e me impedir de mandar ela
ir tomar naquele lugar.

― Eita, querido. A coisa tá feia mesmo, hein? – Duda comentou, também


degustando sua cerveja. – Abra seu coração, conta pra mamãe o que tá
acontecendo.
― Não é disso que ele precisa agora – Apolo se intrometeu, então encarou
Diogo. – Sabe do que você precisa? – ele abriu aquele sorriso sacana com toda
sua pose de Don Juan. Todos o encararam, esperando a tal solução milagrosa. –
Modelos.

A comoção, obviamente, foi positiva.

― A solução pra todos os problemas do Apolo desde que entrou pra esse
mundo tem sido "modelos" – Hélio provocou o irmão.

― Essa é a solução pra todos os problemas do mundo todo – Apolo garantiu,


sem entender como é que Hélio não conseguia enxergar essa verdade absoluta. –
Se um dia você e a Julia terminarem, tenho um catálogo cheio de modelos
gostosas pra te apresentar. E o melhor: Todas já foram testadas por mim!

Todos caíram na gargalhada, até o Hélio, que mesmo assim balançava a


cabeça. Seu irmão não tinha jeito.

― Você é um canalha mesmo – ele disse.

― Elas querem exatamente o mesmo que eu, ninguém engana ninguém –


Apolo deu de ombros, dando um gole na cerveja. – Todo mundo sai ganhando e
aposto que nesse momento estão me recomendando pras amigas também. Assim
espero!

― Você pode me apresentar para os seus coleguinhas masculinos se quiser –


disse Duda com bom humor. – Tô louca pra sair ganhando também, amor.

Apolo sorriu para a garota da mesa, reconhecendo nela uma mente que
pensava igual.

― Tá vendo só? A Duda me entende – disse o gêmeo Medina e os dois


brindaram com seus copos antes de darem mais um gole.

― Que ótimo, porque eu não vou terminar com a Ju – Hélio respondeu,


sereno.
― Você diz isso agora – Diogo disse com a voz meio arrastada. – Mas
quando menos esperar estará sonhando com o dia em que ela vai desaprender a
falar porque o amor...

― Eita, piá – Edu o interrompeu, tentando não achar engraçado, mas sem
conseguir. – Vai com calma, o mundo não é tão ruim assim.

― "O mundo não é tão ruim assim", diz Eduardo Becker, que saiu na noite de
ontem com uma garota de dezesseis anos – Marcelo botou a informação pra jogo
e, de repente, Eduardo e suas bochechas coradas eram o centro das atenções
naquela mesa.

― É mesmo, como que foi ontem? – Duda perguntou empolgada. – Pra onde
a Lavínia te levou?

Eduardo suspirou, sem saber se ria ou se chorava ao se lembrar de tudo. É


claro que havia sido ótimo... Ele não podia mentir e dizer que não. Mas
justamente o fato de ele ter se divertido tanto com ela é que era assustador. Até
porque, só o simples fato de ela estar dentro de uma boate com ele era muito
errado.

Mas, como Apolo vivia dizendo, às vezes o que parece errado é muito mais
certo do que o que parece certo.

Ou algo assim.

Eduardo resumiu o que aconteceu na noite anterior para os amigos, deixando


ocultas todas as informações que envolviam suas próprias emoções. Porque uma
coisa era ele mesmo saber que havia se divertido e que – por Deus – até faria
aquilo de novo algum dia (talvez).

Mas outra bem diferente era contar isso para os amigos e, bem, aceitar essa
maluquice. Porque as coisas se tornavam muito mais reais quando eram ditas.

No fim da história todos eles estavam rindo da situação.

― Esse é o tipo de coisa que só acontece mesmo com Dudu – Marcelo


comentou, ainda aos risos. – A galera tem quase que fazer promessa pra levar ele
pra uma balada, mas ele acaba fazendo isso com a vizinha adolescente. Babá por
uma noite.

― Eu não acredito que você não deu nem um beijinho nela – Apolo parecia
inconformado. – Lavínia é uma gata.

― Ela é meio nova né – Guto ponderou e Hélio concordou na mesma hora. –


Tudo bem que não a conheço direito, mas é meio estranho pensar numa menina
dessa idade como alguém disponível? Quando penso numa guria de dezesseis eu
imagino que ela é uma criança – ele riu.

― Não vejo tanto problema – Diogo discordou. – Quer dizer, tu


mesmo disse que não conhece a guria, idade nem sempre define tudo e aos
dezesseis já dá pra ter alguma maturidade. Como se nós fôssemos muito
maduros também, né? – ele acrescentou com seu humor característico.

― Dá pra ter maturidade, sim – Duda concordou, e a opinião dela, não só por
ser mulher, mas por ser alguém em quem Eduardo confiava muito, surtiu um
efeito de alívio no rapaz. – Mas é preciso ter cuidado, né. Até porque uma garota
dessa idade pode ser impressionável, mesmo sem querer, ainda mais saindo com
um cara mais velho e deslumbrante como o Dudu – explicou. – E daí pra
desencadear um relacionamento abusivo é um pulo, porque existe uma clara
diferença de poder que os caras tiram vantagem.

Houve um silêncio de reflexão entre os rapazes.

― Faz sentido, isso. – Apolo ponderou. – Eu nunca me envolvo com gente


muito nova, até porque é outra vibe. Eles ainda estão em um mundo que eu já
deixei pra trás. Mas a menina é show, juro – saiu em defesa da amiga que fizera
no dia do aniversário de Calíope. – Eu pegaria fácil.

― Eu sou ainda dois anos mais velho do que você – Edu respondeu ao irmão
postiço. – E eu não estava interessado na Lavínia desse jeito. Eu só... Sei lá.

Ele se remexeu na cadeira, desconfortável, e deu um gole na sua cerveja. O


fato é que estivera ouvindo atentamente aos comentários dos seus amigos e não
sabia muito bem o que pensar ou sentir. Desde que começou a conhecê-la
melhor, percebeu que a palavra "adolescente", embora assustadora, não definia
uma pessoa por completo. Idade ou fase de vida nenhuma definia, para dizer a
verdade, e o próprio Eduardo era uma prova viva disso.

21 anos e dez meses completos e, ainda assim, a pessoa menos experiente em


questão de relacionamentos naquela mesa.

― Você não estava interessado nela? – Hélio e sua percepção sempre certeira.
Edu praguejou por dentro ao ser pego em suas próprias palavras. – Quer dizer
que isso mudou?

Ele não respondeu.

― Mas sabe com o que eu fiquei realmente intrigado? – Diogo falou, e Edu
deu graças a Deus por ter sido tirado da berlinda. – Como é que ela entrou na
boate se é menor de idade?

― RG falso, né, filhão – Marcelo constatou o óbvio.

― Ela levou a carteira de identidade de uma prima aí super parecida. Dá pra


acreditar? E não foi nem a primeira vez que fez isso – Edu riu, confirmando o
que o amigo dissera.

― Cada vez eu gosto mais dessa menina – Duda constatou, explodindo em


uma gargalhada que Guto e Apolo acompanharam.

― Pois é. A carteira era de uma tal de Daniela.

Apolo arregalou os olhos e quase cuspiu a cerveja que havia acabado de


colocar para dentro da boca.

― Que isso, piá. Vai um babador aí? – João Augusto ofereceu.

― Você disse Daniela? – Apolo, de repente tenso, quis se certificar. Eduardo


assentiu e o garoto esquivou as duas sobrancelhas em assombro. Virou a cabeça
e encarou o irmão gêmeo na mesma hora. – Tá pensando o mesmo que eu?
Hélio franziu o cenho.

― Acho que não.

― Qual era o sobrenome da Daniela? – Apolo perguntou, voltando


novamente sua atenção ao Eduardo.

― Cara, há limites para a memória de um ser humano.

― Era Fernandes Nogueira, por acaso? Fala sério, leke, você é o prodígio, usa
o seu cérebro.

― Apolo tá me deixando assustado – Diogo comentou, rindo. – Tá com cara


de quem viu um fantasma.

Mas o garoto sequer prestou atenção na zombaria dos amigos ao seu redor.
Apenas descansou as costas na sua cadeira sem conseguir parar de pensar na
possibilidade de estar certo.

Então era por isso que Lavínia sempre lhe pareceu tão familiar? Meu Deus do
céu, que mundo é esse! Ele deu um gole gigante na sua cerveja, atônito demais
para negligenciar o álcool.

― Ah! Acho que sei de que Daniela você tá falando – Hélio teve um minuto
de clarividência, estalando os dedos.

― Mais uma rodada de cerveja no capricho pros compadres – o garçom


anunciou, chegando com a bandeja cheia de garrafas de Budweiser e pousando-
as sobre a mesa dos rapazes, que comemoraram.

― Grande Altair! – Marcelo comemorou.

― Amigo, pode mandar descer uns shots de tequila pra mim e pro meu
parceiro aqui – Apolo disse, sacudindo o ombro do Diogo, que concordou na
mesma hora. Só umas cervejas não estavam sendo o suficiente.

― Eu proponho um brinde ao fim das férias, já que amanhã começa a tortura


tudo de novo – Duda levantou o seu copo em um movimento agridoce.

Férias, por que não eternas?

― Um brinde ao berçário do Edu e à Daniela misteriosa – Diogo acrescentou,


levantando sua garrafa também. Todos eles riram e deram um gole nas suas
bebidas geladas.

No dia seguinte, o ano letivo finalmente começaria para os universitários da


mesa. E, mesmo para aqueles que não o eram, a vida com certeza não daria
nenhum descanso.

Principalmente de ressaca.

Viva à segunda-feira.
22. Que os Jogos Comecem
― Então quer dizer que você anda flertando com o Bonitão? – Cami
perguntou para ter certeza, depois de tudo o que Lavínia havia lhe contado sobre
a última semana e meia.

Lavi ajeitou o short de lycra azul de educação física do colégio, que


conseguia ser mais revelador do que os shorts que ela usava para dormir. A
garota não tinha nenhum problema com o próprio corpo, inclusive era bastante
confiante para desfilar com um shortinho micro desse pela quadra da escola.
Mas não gostava nem um pouco de ficar se preocupando o tempo todo se a sua
bunda estava aparecendo ou de ter que se controlar para não dar na cara dos
meninos engraçadinhos fazendo comentários invasivos sobre os atributos das
meninas. Principalmente depois dos boatos que espalharam sobre ela.

A verdade é que, depois dos boatos, a vida de Lavínia nunca mais foi a
mesma.

Ela suspirou e puxou o cabelo para cima, a fim de fazer um coque alto e
firme. Cami estava sentada na pia do vestiário e Isabel se debruçava sobre as
pernas dela, mexendo no celular. Lavínia usava o espelho e as outras meninas
das duas turmas do segundo ano terminavam de trocar seus uniformes para a
aula de educação física conjunta da quarta-feira.

As duas amigas não a haviam abandonado, mas todas as outras meninas da


turma passaram a tratá-la como se fosse uma leprosa. Não se aproximavam,
cochichavam "disfarçadamente" quando ela entrava no recinto, e trocavam
olhares sugestivos. É claro que Lavínia não dava a mínima para o afastamento
dessas idiotas que costumavam babar o ovo dela quando passou a andar com
Anaju, depois do incidente com seu ex-namorado babaca.

Mas a irritava muito que garotas fizessem isso umas com as outras. Ela se
perguntava como é que podia ter a mesma idade que elas e, mesmo assim, pensar
tão diferente.

Não havia sido sua mãe. As duas tinha um relacionamento ótimo, mas no
geral era Lavínia quem costumava conscientizá-la sobre o quanto coisas
consideradas normais, na verdade, eram erradas. A mãe era de outra geração, de
uma época em que as pessoas não costumavam problematizar essas questões,
mas, graças a Deus, tinha a mente aberta para entender o ponto de vista da filha.

Lavínia chegou a cogitar contar a ela tudo o que andava acontecendo. Em


parte porque se sentia frustrada e queria alguém com quem desabafar além de
Cami e Isabel. Mas ela sabia que a mãe acabaria indo até a escola e faria dessa
situação algo que Lavínia não queria. Por sorte, a menina tinha a prima Daniela,
que sempre cedia seu ombro amigo e a sabedoria de uma mulher alguns anos
mais velha.
Talvez a amizade que as duas iniciaram quando Lavínia tinha treze anos e
Dani dezessete, tenha sido o motivo pelo qual Lavagirl se tornou essa pessoa tão
dona de si.

De qualquer maneira, ela estava ficando cada vez mais desgostosa e


impaciente com essa situação. Para piorar ainda mais, os meninos começaram a
tratá-la diferente também, como se Lavínia fosse um pedaço de carne que tivesse
a obrigação de satisfazê-los.

As piadinhas sobre a bunda das meninas no short de lycra? Com ela era três
vezes pior e mais ofensivo.

Ela encarou as amigas e deu de ombros, com um sorrisinho malicioso nos


lábios.

― Bem, digamos que sim. Nos falamos praticamente todos os dias, mas
agora com esse emprego novo nós mal nos esbarramos pelo prédio – ela
respondeu por fim, lamentando, mas seu peito ainda estava inflado.

Lavínia e flerte eram duas palavras que se encaixavam perfeitamente em uma


frase. Poucas coisas a faziam se sentir tão revigorada quanto o ato de paquerar.

Ainda mais se fosse um crush de longa data como Eduardo.

Era praticamente como receber um presente de Natal fora de época, aquele


que era super caro e você passou anos implorando à sua mãe antes de finalmente
conseguir.

Isabel estendeu o braço e cutucou a barriga da amiga, fazendo um som


malicioso com a boca.

― Essa é a minha garota. Nem acredito que depois de tanto tempo vocês
finalmente estão se falando como pessoas normais. E ele é um homem. Não um
moleque como os meninos da escola – Isabel parecia impressionada e eufórica
ao mesmo tempo. – Não que eu ligue muito pra homens em geral, né.

― Essa parte de ser um homem é ótima por um lado, mas um saco por outro.
― Como assim? – Cami quis saber.

Lavínia bufou.

― Ele não me beijou! – a garota levantou os braços, frustrada, e os deixou


cair ao lado do corpo de novo. – Tenho certeza de que acha que sou muito nova e
que vai me desvirtuar – fez um som que dizia "até parece" e depois começou a
rir. – O que chega até a ser irônico.

Porque Lavínia podia ser tudo, menos inocente.

Cami e Isabel tiveram que concordar.

― Tasca logo um beijo nesse cara! – Isabel sugeriu, o que fez Lavínia se
lembrar de Anaju.

O que foi novamente irônico, já que a garota de cabelos curtos se aproximou


da pia onde as três amigas estavam naquele mesmo momento.

Lavínia nem precisou conferir para saber que era ela mesmo, porque a cara
fechada que Cami fez já dizia tudo. As quatro ficaram em um silêncio
desconfortável enquanto Anaju abria a torneira da pia e lavava suas mãos. Ela
direcionou um olhar hesitante às outras três, sem saber se dizia ou não alguma
coisa. Ainda estava tentando se reaproximar de Lavínia, jurando de pés juntos
que não tivera nada a ver com a origem dos boatos. Para provar sua inocência,
chegou até mesmo a espalhar para todo mundo, com a ajuda de Paulo e Fabrício,
que tudo não passava de uma mentira.

Mas o estrago já estava feito e quase ninguém acreditou – ou preferiu não


acreditar, já que falar mal de Lavínia era muito mais divertido.

Anaju se demorou mais do que o normal lavando as mãos e ajeitando os


cabelos, presos em um rabo de cavalo impecável. Lavínia quase a mandou falar
logo o que diabos queria, mas era resistente o suficiente para se manter calada.
Ela detestava não poder confiar na amiga, até porque sentia mais falta dela do
que imaginava, mas não podia passar por cima dos próprios sentimentos.
Anaju acabou desistindo e voltou para a área dos chuveiros, onde estavam as
outras garotas conversando e rindo animadamente. Elas deixaram o vestiário
todas juntas e Lavínia suspirou, frustrada e triste.

― Eu só queria descobrir quem foi esse maldito que me odeia pra poder
chutar muito o seu traseiro e tudo voltar ao normal – desabafou. Sentia falta de
Anaju e do Paulo, até de Fabrício, Thaís, André e Carol, às vezes. Sentia falta de
como era sua vida sem essa dor de cabeça durando mais do que o desejável, e de
quando ela não precisava lutar todos os dias para não sucumbir à
vulnerabilidade.

O jogo das meninas na educação física dessa semana seria novamente


handebol. Lavínia não era tão chegada a esportes, mas até que conseguia se sair
bem. Isabel, como sempre, foi a capitã do time e escolheu as duas amigas logo
de cara. As meninas se dividiram em três times e o de Isabel ficou na espera do
vencedor da primeira partida para poder jogar.

Elas se sentaram nas laterais da quadra, usando o colete azul, para assistir.

― O time da Thaís vai massacrar o da Amanda – Isabel comentou, roendo as


laterais das unhas como era seu hábito. Ela era excelente em esportes, assim
como Thaís, Anaju e Letícia Andrade – que sempre ficava no time de Isabel,
assim como as duas primeiras também sempre ficavam juntas.

Não deu outra. O time da Thaís realmente massacrou o outro e Isabel e


companhia entraram em quadra. Geralmente a educação física era tranquila, a
competitividade era apenas grande o suficiente para se ter um jogo acirrado. Mas
não dava para negar o clima de tensão entre Lavínia, Anaju e suas respectivas
amigas. Naquela situação, roubar a bola do adversário e fazer um gol ia muito
além de um joguinho escolar que não valia nada. Chegava a ser algo pessoal, por
mais infantil que aquilo soasse.

Eram os hormônios adolescentes.

A professora apitou o jogo e o time de Isabel saiu com a posse de bola. Thaís
estava marcando Lavínia, mais violenta do que seria necessário, mas a garota
preferiu ignorar a princípio. Thaís sempre foi um tanto competitiva demais, mas
o modo como ela lançava olhares de ódio e repulsa para Lavi e avançava para
ela como um touro, não era natural. Seu time saiu na frente com um gol de
Anaju e ela comemorou com um sorriso maligno na direção de Lavínia, antes de
correr de volta para o meio na quadra.

Letícia logo empatou a partida e Isabel virou o jogo um minuto depois, em


um gol de falta. Anaju tentou cortá-la quando ela se aproximou mais uma vez,
mas foi a goleira quem precisou defender a bola. O time adversário saiu trocando
passes e Lavínia correu para marcar Thaís, já que ela já as tinha colocado nessa
posição, conseguindo arrancar a bola e resultando no terceiro gol da sua equipe.

Thaís bufou e bateu o pé na quadra, enfurecida. Lançou um olhar de ódio para


Lavínia, que retribuiu com um levantar sarcástico de sobrancelhas. Ela não sabia
o motivo pelo qual a louca a estava atacando desse jeito e não estava nem um
pouco a fim de dar trela para isso.

É claro que ficou muito mais difícil depois que a garota maluca veio com
tudo para cima dela e a derrubou no chão com uma rasteira.

― Falta! – Isabel gritou para a professora, as bochechas coradas por causa do


esforço.

A professora apitou a falta e Elaine, outra companheira de time de Lavínia, a


ajudou a se levantar. Ela engoliu a raiva e encarou Thaís com um olhar
assassino.

― Qual é o seu problema? – perguntou, intimidadora como sabia muito bem


ser. Sua paciência estava se esgotando.

Thaís balançou o rabo de cavalo e se aproximou com as mãos na cintura.

― Não está acostumada a apanhar? – ela perguntou. Cínica. – Achei que


vadias como você já soubessem como é.

― Eu vou te mostrar quem é a vadia – ela tentou partir para cima de Thaís,
espumando de raiva, mas Cami a impediu.
― Thaís! – Anaju repreendeu a amiga. A essa altura todas as garotas já
haviam parado de jogar e prestavam atenção na discussão. – Ficou maluca?

Thaís não disse nada, apenas abriu um sorrisinho cínico que eletrizou todo o
corpo de Lavínia. Ela precisou de muita força de vontade para não soltar o braço
das mãos de Cami e arrastar a cara daquela garota no chão da quadra.

― Você sabe que é tudo mentira, o Paulo e o Fabrício já disseram mil vezes.
Qual é a tua? – Lavínia vociferou.

― Por que você tá fazendo isso? – Anaju parecia não estar entendendo nada.

― Eu só nunca gostei dessa daí – Thaís fez um gesto desdenhoso com a


cabeça na direção de Lavínia. – E não acredito na santidade dela.

― Quem disse que eu sou santa? – Lavi se defendeu. – Não sou nem nunca
fui. Mas não fiz o que disseram que eu fiz e você sabe disso.

― Vai dizer que você não acredita nas suas amigas? – Isabel concordou com
a amiga, cética sobre a desculpinha esfarrapada de Thaís para atacá-la.

A pergunta que não queria calar era o porquê de a garota estar fazendo isso.

E quando o raio do entendimento atingiu Lavínia em cheio, ela arregalou seus


olhos azuis, abriu a boca em choque e apontou para a dita cuja com muita
determinação.

― Foi você! – constatou, não acreditando que finalmente havia encontrado o


verdadeiro culpado.

Não acreditando também que essa pessoa era Thaís. Quer dizer, as duas nunca
foram amigas ou algo assim, mas que tipo de pessoa faz isso com a outra a troco
de nada?

De repente Lavínia foi consumida pelo espírito da fúria. Soltou-se de Cami


em um rompante e foi em direção a Thaís, que tentou não se intimidar, mas não
foi páreo para o furacão Lavínia.
A garota deu alguns passos para trás enquanto Lavi avançava, e recebeu um
empurrão que quase a desequilibrou.

― Foi você, sua ridícula!

― Você tá louca! – Thaís tentou soar firme, mas sua voz falhou. Lavínia
estava cega e surda para qualquer coisa que ela dissesse, de qualquer maneira.

Só podia ter sido Thaís.

Se ela vira ou não a conversa de Paulo e Lavínia na sexta de carnaval, não


importava. Mas ela estava lá na viagem, provavelmente notou algo diferente no
ar ou até mesmo descobriu tudo, e usou isso a seu favor para inventar uma
história louca sem ser a principal suspeita.

Tudo começava a se encaixar perfeitamente.

Mas para quê? Por quê?

― Qual é o seu problema comigo? Eu nunca te fiz nada, você é doente.

Thaís engoliu em seco.

― E-eu não fiz nada, você não tem como provar nada.

Mas aquela frase foi a cereja que faltava para o bolo de desconfiança de
Lavínia. E a negação de Thaís, de alguma maneira, conseguiu irritá-la ainda
mais do que sua atitude em si.

Mas que covarde.

Quando Lavínia se deu conta, já estava rolando no chão com sua nêmesis,
puxando os cabelos dela totalmente sem controle das próprias ações movidas
pela raiva. As pessoas gritavam ao redor das duas, mas Lavínia não conseguia
enxergar nada além da necessidade de dar o troco naquela maldita.

Quem ela pensava que era para fazer uma coisa dessas?
Ela já devia saber que não se mexe com Lavínia Lemes sem as devidas
consequências. Afinal, seu apelido não era Lavagirl à toa.

Lavi sentiu o peso sendo suspenso por alguma coisa, ainda chutando e
balançando os braços tentando alcançar Thaís. A garota estava sendo segurada
pelo professor dos meninos, que naquela semana estavam fazendo natação na
piscina ao lado da quadra. Um braço masculino a apertava com força na cintura,
e Cami e Isabel se aproximaram para tentar acalmá-la.

― Vocês por acaso perderam a noção? – a professora vociferou, colocando


ordem na situação. A expressão em seu rosto era de severidade e irritação. – As
duas para a coordenação. Agora – ordenou.

― Mas professora, foi ela quem me atacou – Thaís tentou argumentar,


chorando, descabelada e com o rosto todo vermelho.

Sua pose de vítima era tão patética que Lavínia precisou respirar fundo de
novo.

― Não quero nem saber! Vão agora com o inspetor e eu não quero mais nem
um pio sobre esse assunto. – Ela se virou para as outras meninas, firme como
uma rocha. – E vocês voltem ao jogo. Não há mais nada pra olhar aqui.

Antes que alguém pudesse debater, a professora apitou de novo e as meninas,


aos poucos, voltaram a se organizar para o jogo depois de toda a confusão
repentina. Anaju lançou um olhar de surpresa e desculpas a Lavínia, mas a
garota não tinha cabeça para nada disso no momento.

Só conseguia pensar no fato de que finalmente descobrira quem era o


carrasco que espalhou mentiras sobre ela na escola.

E que não sabia o que fazer com isso.


23. Rotina
Contrariando todos os medos que tiraram o sono do rapaz na madrugada
daquela segunda-feira, sua primeira aula como professor tutor do Ensino Médio
no Colégio Primeira Opção fora um sucesso. Eduardo era o tipo de pessoa
ansiosa que achava que tudo daria errado quando saía da sua zona de conforto,
motivo pelo qual raramente fazia isso.

“Essa é, definitivamente, uma péssima ideia”, pensou ele enquanto ponderava


ligar para a escola na primeira hora da manhã e pedir demissão antes mesmo de
começar. Alegaria qualquer coisa, não estava em seu juízo perfeito quando
aceitou a vaga ou recebeu uma proposta para ensinar História a uma tribo
ancestral no Nordeste da Índia. Nem que fosse uma dor de barriga horrorosa,
qualquer coisa servia.

Acabou dando a si mesmo o benefício da dúvida por mais algum tempo e foi
tomar banho quando já era tarde o suficiente. Tomou seu café preto, colocou sua
roupa muito bem passada e penteou o cabelo com os dedos. Respirou fundo
antes de sair de casa com sua bolsa lateral de sempre e foi para a faculdade. Seus
dias de aula seriam apenas às segundas e quartas de nove às onze da manhã, o
que daria tempo suficiente de voltar para casa de metrô, almoçar e pegar o metrô
de novo em direção à Tijuca para estar no colégio às 14 horas em ponto.

Ele fazia a única aula que o separava do seu tão sonhado diploma no Ensino
Superior com Duda e Felipe, que sempre estava de mau humor pela manhã
depois de passar quase três horas no ônibus vindo de Maricá.

― Eu juro pra você que se eu não me formar esse ano, me jogo da ponte Rio-
Niterói – disse carrancudo, cruzando os braços encasacados e esticando o corpo
na carteira ao lado do amigo, que estava uma pilha de nervos.

― Você ameaça fazer isso todo semestre, tá perdendo a credibilidade – Edu


comentou, balançando o lápis entre os dedos.

Recebeu um olhar assassino de Felipe.

― Fica na tua, parceiro. Não fala nada não, quem vive em Botafogo não tem
direito de dar um pio a respeito de moradia.

― Pensa pelo lado positivo, Fe... – Duda começou a dizer.

Os três se encararam em silêncio.

― Tô esperando.

― Eu tô pensando ainda.

Felipe bufou, dando com o caderno na cara da amiga, que começou a rir.
Eduardo provavelmente teria feito o mesmo se não estivesse tão nervoso com o
primeiro dia de trabalho dali a algumas horas.

― Que cara de prisão de ventre é essa, Dudu? – Duda perguntou.

― Eu tô super nervoso com o trabalho novo. Dá um desconto.

Felipe esquivou as sobrancelhas, intrigado.

― Já é hoje? Rapaz... – ele assobiou. – Adolescente é o capeta! Eu até te


desejaria boa sorte, mas você já tem experiência no assunto, né – zombou,
recebendo um olhar de repreensão do amigo e um tapa no ombro dado pela
amiga. Coisa que só o divertiu.

Felipe abriu um sorriso sacana.

― Você vai dar aula pra galera da mesma idade da sua Novinha. Olha que
coisa linda.

A expressão de horror no rosto de Edu foi uma cena impagável, Felipe diria
depois a Marcelo quando os encontrasse. Naquele momento ele apenas soltou
uma gargalhada, dobrando-se sobre a carteira.

― Você nunca cansa de ser um boçal, né, moleque? Impressionante – Duda


revirou os olhos.

― Eu não precisava mesmo pensar nisso – Eduardo se queixou, tentando tirar


aquela informação da mente, mas não havia mais jeito: ela tinha se instalado
feito praga consumindo seus neurônios.

Como se ele já não estivesse nervoso o suficiente antes.

― Ela não é a "minha Novinha" – defendeu-se, estremecendo só de pensar


em Lavínia dentro da sala de aula como uma aluna sua.

Meu Deus. Isso podia mesmo acontecer, já que ele estava se formando
professor e ela ainda estava no segundo ano do Ensino Médio. Era uma situação
perfeitamente plausível, mas então por que ele sentia como se aquele fosse o
maior dos absurdos desse mundo louco? Para ele, a vizinha não era mais apenas
uma garota de dezesseis anos, embora ela fosse isso também.

Mas não apenas isso.

Ainda bem que Lavínia estudava em Botafogo.

― A gente sabe, migo – Duda respondeu ao que Eduardo dissera. – Ela pode
ter a idade das suas alunas, mas não tem nada a ver com elas porque você não
conheceu a Lavínia nesse ambiente escolar. Relaxa.

Eduardo agradeceu pelas palavras de sabedoria, mas ainda estava abalado.

― Seguinte. – Felipe bateu na mesa tendo o que, para ele, era uma ideia
genial. – Por falar em aluna, se tiver alguma muito gata você faz lavagem
cerebral nela pra vir cursar História aqui na UFRJ e aí eu juro que não me jogo
da ponte até o ano que vem.

― Ah, cala a boca – Eduardo revirou os olhos, mas não conseguiu conter o
riso. Duda balançou a cabeça, rindo também, porque seu amigo sem noção não
tinha jeito.

― Eu levo ela pra vender as artes na praia e tudo! – Felipe prometeu,


pousando a mão no peito em tom de zombaria total. – Palavra de Tricolor.

― Você é Vascaíno – a garota rebateu.

― Meu pai é Tricolor e, vai por mim, muito mais confiável do que eu.

― Piá do djanho – Eduardo praguejou, não conseguiu evitar rir do amigo.

― Ih, lá vem!

Felipe podia ser um pé no saco às vezes, mas caiu como uma luva na tentativa
de Eduardo de tentar manter a calma. Os três amigos se despediram no fim da
aula somente depois de Felipe convencer Edu a ir tomar uma cerveja no final do
expediente, já que o morador de Maricá teria aula à tarde naquele dia e valia
muito mais à pena fazer hora pelo Rio até umas sete e meia do que enfrentar o
trânsito das seis da tarde. Duda não estaria presente, pois tinha um trabalho para
terminar, e precisou sair correndo assim que aquela aula terminou.

― É segunda-feira e você tá aí pensando em cerveja. Reveja seus hábitos,


depois morre de cirrose e não sabe por quê – disse Edu.

― Amigo, todo dia é dia de uma cervejinha, aprende isso. Tá no Rio há


quatro anos já, melhore – Felipe sacaneou. – Você pode até chamar o Becker
Junior.

― Por falar nele, hoje é o primeiro dia na faculdade. Estou só imaginando


como que vai ser o trote – Edu disse, rindo ao se lembrar desse detalhe.

― Nada vai superar o Marcelo todo pintado de amarelo plantando bananeira


no pátio. – ele disse, sem conseguir impedir a gargalhada ao se lembrar.
Balançou a cabeça satisfeito. – Ai, ai. Tem gente que o chama de Bob Esponja
até hoje.

― Você não perde uma oportunidade.

― É o meu dever com a sociedade!

Edu foi para casa e depois para o trabalho, uma pilha de nervos ainda maior
do que estivera pela manhã. Tinha medo de não saber lidar tão bem com uma
turma de adolescentes, que eles não o respeitassem como professor e achassem
que podiam fazer o que quisessem durante a aula dele. Lembrava-se o tempo
inteiro de que, caramba, era o irmão mais velho de onze filhos então ficaria
bem, não tinha como ser mais difícil do que os fins de semana em Assunção
quando todos estavam em casa.

E, para seu total alívio, realmente não foi.

Ele chegou meio tímido, mas acabou se entrosando bem com as turmas. Na
segunda e na quarta-feira ele daria aulas de monitoria de uma hora e meia cada
ao primeiro e segundo ano, e ainda ficaria no colégio até às 18h, disponível para
tirar dúvidas dos alunos que quisessem. Às terças e quintas-feiras eram os dias
do nono ano e do terceiro do Ensino Médio, e as suas sextas eram livres. De
primeira, como ele temia, as meninas não o deixaram passar despercebido, mas
Eduardo não deu bola. Até brincou um pouco – isso, é claro, antes de a imagem
de Lavínia aparecer na sua mente.

Maldito seja o Felipe.

A verdade é que, desde o dia em que saíram juntos, alguma coisa havia
mudado na dinâmica entre os dois. Durante toda a semana que se seguiu, eles
conversaram pelo celular e Eduardo flagrou-se rindo com ela mais vezes do que
admitiria depois.

Lavínia era tão... Espirituosa. Havia algo de poderoso sobre ela, algo que ele
não sabia muito bem explicar, mas admirava. Era fácil conversar com a garota
desde as coisas mais triviais (como o seu irmão chegando do trote pintado dos
pés à cabeça com as cores da bandeira do Paraná e Apolo aparecendo de
surpresa o tempo todo no apartamento), até assuntos mais complexos, como o
vagão das mulheres no metrô e as cotas de entrada nas Universidades Públicas.

Ele se impressionou com algumas respostas que ela deu ao tratar sobre um
assunto tão polêmico e difícil de chegar a uma conclusão. Achou que, talvez pela
idade, a menina não pensasse em coisas sérias como essas e gastasse toda a
energia pensando em beijos na boca e Snapchat.

Não que beijar fosse uma coisa ruim.

Era meio louco o modo como os mundos deles dois fossem tão diferentes,
mas se convergissem tão facilmente. Eduardo explicava para ela sobre o quanto
o universo universitário era diferente da escola, sobre como descobriu que queria
ser professor no seu último ano do colégio e percebeu que era apaixonado pelo
passado como por poucas coisas na vida. Contou a ela curiosidades bizarras
sobre a Segunda Guerra Mundial e seu tipo de café preferido com o bolo
Floresta Negra da Starbucks.

Já Lavínia o introduziu a um mundo novo de gírias como otp e shade –


porque Eduardo, apesar de apenas 21 anos de idade, não era dos mais antenados
às tendências do mundo virtual. Os dois riram um bocado com os memes da
internet e Lavínia explicou que todos eles, sem exceção, começavam no Twitter.
Ela falou sobre remakes de animes dos anos 90 e como ele precisava
experimentar a leitura de um mangá pelo menos uma vez na vida.

Edu gostava de Gibis quando era criança, então topou o desafio.

Quatro dias depois e a pequena Lavínia do andar de cima de repente começou


a se transformar em uma pessoa completamente diferente. Alguém que ele não
mais se permitia julgar e com quem ele, surpreendentemente, gostava de
conversar – desejava conversar. Alguém cuja foto do perfil no WhatsApp era
aberta mais vezes do que ele admitiria depois.

Seus olhos azuis eram lindíssimos. Mas foram os lábios o que fizeram uma
sensação borbulhante se espalhar pelo rapaz. Ele deu boa noite para ela e deixou
o celular de lado, se virando para dormir enquanto se perguntava há quantos
anos não sentia aquilo.

No dia seguinte, os dois finalmente se encontraram no prédio. Ele havia se


perguntado, ao sair e voltar para casa, nos dois dias anteriores, se toparia com a
vizinha no elevador ou no hall de entrada. A leve expectativa era algo ao mesmo
tempo gostoso e assustador. As duas Lavínias dançavam em sua mente,
disputando qual seria a vencedora: a Lavínia nova demais ou a que conversava
com ele todas as noites desde o fim de semana sobre todos os assuntos
existentes.

Naquela quinta-feira, Edu estava voltando para casa, cansado do trabalho. O


dia havia sido intenso por causa de um grupo de meninas do terceiro ano que
usaram toda a uma hora vaga dele para tirar dúvidas. O rapaz bateu o portão do
prédio e deu boa noite ao porteiro. Matutava em sua mente sobre uma matéria
que leu na internet a respeito de um conflito entre milícias africanas quando a
porta do elevador se abriu.

Era Lavínia.

Ela saiu de lá usando uma camiseta das Tartarugas Ninja que logo chamou a
atenção dele. Seu cabelo cacheado estava molhado e a pele morena um pouco
corada.

Seus olhos se encontraram em uma faísca certeira e então o rapaz sentiu o


borbulhar de volta dentro do peito quando a garota abrir um sorriso.
24. Me Permite?
― E foi isso o que aconteceu – Lavínia concluiu, depois de ter explicado nos
mínimos detalhes tudo o que vinha se passando dentro daquele colégio.
A coordenadora chamara a psicóloga da escola para auxiliá-la naquela
reunião depois de Lavínia ter explodido e aberto a boca sobre o bullying que
vinha sofrendo por causa da Thaís. As duas estavam muito exaltadas e falavam
ao mesmo tempo, contando diferentes versões do motivo pelo qual se atacaram
no pátio no meio da Educação Física.
Felizmente o ouvido aguçado da coordenadora fez com que sua atenção se
desviasse totalmente para Lavínia quando a garota disse:
― Ela inventou boatos sobre mim na escola e eu tenho vivido um inferno!
Foi aí que a coordenadora percebeu que a situação era mais complicada do
que parecia e, sabiamente, mandou chamar a psicóloga.
Agora, as duas mulheres encaravam as duas meninas depois de Lavi ter
explicado com detalhes o que as pessoas vinham fazendo com ela desde que
voltara da viagem de carnaval. O boato espalhado, as piadinhas ridículas, a
humilhação, o assédio dos garotos e o afastamento das garotas, os olhares
julgadores, os sussurros toda vez que ela se aproximava.
E isso tudo apenas porque uma garota ousou ter uma vida sexual com mais
de um parceiro.
Que grande ultraje!
Uma ofensa à sociedade e à família tradicional brasileira.
O boato era mentiroso, mas isso era o que menos importava para Lavínia. O
que mais a deixava irritada com a situação era a segregação escrachada por parte
de todos os envolvidos, meninos e meninas.
Thaís, felizmente, não tentou negar de novo. Ela ficou em silêncio durante
todo o tempo, apertando a mandíbula e tentando não fazer contato visual com
ninguém. Estava, sem sombra de dúvidas, desconfortável e amedrontada, mas
sabia muito bem que não havia mais para onde fugir.
Fora pega no seu próprio jogo e por erro dela mesma. Tudo por causa do seu
ego gigantesco que não permitiu a ela ficar calada. Não foi o bastante atacar
Lavínia escondida por trás do anonimato, ela precisava ter esse pequeno poder
reconhecido.
Como se estivesse em algum tipo de competição.
A psicóloga as encarava com uma cara de quem estava absorvendo tudo e
pensando a respeito. Qual seria a melhor atitude em um momento como esse?
Como explicar para essas meninas que elas deveriam ajudar uma a outra ao
invés de competirem entre si?
Até quando garotas se veriam como rivais, como uma ameaça, ao invés de
amigas?
Ela trocou um olhar com a coordenadora, que parecia um pouco apavorada.
Havia muitas questões a serem tratadas ali. A ação que acarretou naquilo tudo foi
apenas a explosão de uma bomba de problemas acontecendo dentro do colégio.
Elas, como educadoras, não poderiam se permitir lidar com aquilo do jeito
errado e acabar piorando tudo.
― Thaís, você gostaria de dizer algo? – ela perguntou, sentada em sua mesa,
analisando as duas meninas com cautela.
Lavínia sentia-se tão aliviada por ter falado tudo e finalmente achado um
culpado que estava até mais leve. Thaís apertou as duas mãos em cima das
pernas, tensa, e abaixou o olhar.
― O que te levou a fazer tal coisa com a sua colega? – a psicóloga
perguntou, sentada ao lado da coordenadora, atrás da mesa.
Thaís permaneceu imóvel, exceto pelos seus ombros que se encolheram
levemente.
Estava aí uma pergunta que Lavínia gostaria muito de saber.
― Eu só estava cansada dela se infiltrando entre os meus amigos – disse,
mais sincera do que qualquer um naquela sala esperaria, como se aquela fosse
uma justificativa mais do que convincente. Ela se sentia assim. – Minha melhor
amiga não sabe mais fazer nada sem chamá-la e ela ainda partiu o coração do...
― Ei, eu não parti o coração de ninguém – Lavínia se defendeu, sentindo o
próprio coração batendo forte. – Ele estava bem, ele...
Thaís riu com escárnio.
― O garoto se declara pra você na sexta de carnaval e você acha que ficou
tudo bem depois?
― Você não pareceu nem um pouco preocupada com o Paulo quando me
deixou acreditar que foi ele quem espalhou os boatos sobre mim – Lavínia
rebateu ressentida.
Thaís fechou a boca, encarando-a com desprezo.
― Está aí o motivo pelo qual eu não te aguentava mais – desabafou. – Você
se acha a dona da razão, a rainha do mundo, tão mais evoluída do que todos nós.
Atraiu a atenção de todos os meus amigos e se infiltrou no nosso grupo não sei
por que se já tinha suas amigas. Eu não sou sua amiga e precisei te engolir
porque ninguém se preocupou em perguntar minha opinião.
― E você acha que esse é um motivo grande o suficiente para fazer o que
fez? – a psicóloga perguntou calmamente, sem nenhum tom de julgamento na
voz.
― Eu estava com raiva! – admitiu sobressaltada. Soltou o ar pela boca e
passou as mãos pela testa em sinal de estresse. – Não aguentava mais ter que
conviver com ela e a Anaju só tendo olhos para ela... E ainda teve isso com o
Paulo... Eu...
― Então, de alguma maneira, você se sentia ameaçada pela Lavínia?
Lavínia quase engasgou com a vontade repentina de gargalhar que subiu até
sua garganta. Ela também estava nervosa, afinal de contas. Muito mesmo.
Thaís ficou em silêncio, ou pensando ou sem querer admitir. E a percepção
de que o que a psicóloga dissera podia ser verdade deixou Lavínia perplexa. Ela
encarou Thaís, sem conseguir esconder o choque em seu rosto, os pensamentos
conflitantes sobre o que estivera ali o tempo todo, mas ela nunca vira.
A garota de olhos azuis realmente caíra de paraquedas no grupo de Anaju. E
Thaís realmente nunca deu abertura para que as duas pudessem ser amigas,
como a Carol e os meninos fizeram. Não que aquilo justificasse qualquer coisa,
Lavínia ainda a achava uma doida, mas a surpreendeu bastante saber que Thaís
se sentia assim com relação a ela.
Nunca, jamais, foi sua intenção fazê-la se sentir mal.
― Eu não sei se ameaçada é a palavra correta – Thaís finalmente respondeu,
pálida e um pouco incomodada. Ninguém gostava de expor sua intimidade para
os outros.
Mas a sua reação, ao que parece, foi suficiente para a psicóloga. Ela assentiu
e passou uma mecha do cabelo loiro ondulado para trás da orelha. Trocou outro
olhar com a coordenadora, como se estivesse querendo dizer que já sabia
exatamente o que fazer.
A coordenadora tomou a palavra e cruzou as mãos em cima da mesa.
― Independentemente do motivo pelo qual chegamos a isso, não
achamos nesse colégio que nada deva ser resolvido com violência – ela explicou,
em uma voz controlada e pontual. – Eu e a Dr. Luísa vamos discutir sobre o que
faremos a respeito desse quadro, confesso que estou muito chocada e muito triste
por ver duas meninas tão inteligentes e bonitas passando por isso. Mas, por hora,
terei que suspender as duas pela agressão física. Eu entendo que você ficou com
raiva, Lavínia, mas não podemos tolerar esse tipo de coisa. Agredir sua colega
não traz nenhum benefício ou resolução para o problema.
Lavínia assentiu, sabendo que a coordenadora estava certa, embora tenha
sido revigorante poder canalizar a sua raiva dessa maneira. Ela não se orgulhava
disso, entretanto, e aceitou a culpa de cabeça baixa.
― Quero que as duas peguem suas coisas e voltem para casa. Vou assinar
o bilhete de suspensão e entrar em contato com seus pais. Por hora, é só.
As meninas se levantaram para ir embora, uma Lavínia atônita e uma
Thaís lívida. Elas fizeram como lhes foi dito acompanhadas pelo inspetor, e
Lavínia voltou para casa com a cabeça cheia de questionamentos. Mandou uma
mensagem para Cami e Isabel, loucas para saber o que havia acontecido, e se
preparou em casa para ter uma conversa séria com seus pais quando eles
voltassem do trabalho.
Ela estava indo comprar um sorvete na padaria da esquina, para tentar
diminuir a tensão e o nervosismo, quando encontrou Eduardo chegando ao
prédio. Foi assim que os dois acabaram sentados no balanço do parquinho do
play e que ela finalmente desabafou, contando toda a verdade para ele.
O rapaz parecia chocado ao final da história, mas, ao mesmo tempo,
tinha um brilho caloroso no olhar.
Ele assobiou e passou a mão pelo cabelo, que estava mais cacheado
naquele dia.
― Que doideira, guria – confessou. – Tu segurou essa barra por semanas,
não deve ter sido fácil.
― Não foi – ela arfou, inclinando um pouco a coluna como se sentisse
ainda o peso daquilo tudo em suas costas.
Ela estivera tão empenhada em não se deixar levar, em permanecer forte,
que só agora que tudo estava se resolvendo é que a dimensão do problema a
abalou de jeito. Ela sentiu algo fisgar em seu peito, toda a maldade ignorante dos
seus colegas, toda a confusão de sentimentos que levou Thaís a fazer uma coisa
tão horrível. Era excruciante e extremamente devastador. De um jeito que fazia
seu estômago se revirar e os olhos marejarem de lágrimas.
Lavínia suspirou, balançando a cabeça e secando os olhos.
― Por isso eu acho que mereço uma redenção por ter enfiado a mão na
cara dela, né. Eu já não aguentava mais essa merda e aí a responsável ainda fica
tirando com a minha cara? Eu sou humana – tentou fazer graça. Era a única coisa
que restava.
Edu soltou uma risada, muito fofa aos ouvidos dela. Tanto que a fez
sorrir também, sentindo-se estranhamente aliviada por estar ali com ele.
― Nem vou brigar contigo por isso mesmo – ele prometeu, dando razão
a ela. – Você tem minha redenção.
― Muito obrigada, senhor Eduardo – ela fez uma reverência de
brincadeira.
― Mas o que você acha que vai acontecer agora? Parece que as pessoas
da escola vão tomar alguma atitude.
― Não faço ideia, mas estou ansiosa – confessou. – Desde que isso
começou, eu me sinto tão incomodada, como se tivesse que fazer algo a respeito,
mas sem saber o quê. A Luísa é psicóloga, estou contanto com ela para ter uma
ideia genial.
― Tu tá certa, Lavínia. É muito legal que se importe com a dimensão do
problema como um todo e não apenas em resolver a sua situação – disse ele e lá
estava novamente aquele olhar caloroso.
Um olhar que fez o peito da menina se inflar.
― Tá vendo só? Não sou nenhuma cabeça de vento.
Eduardo abriu um sorrisinho no canto da boca e a garota precisou se
controlar para não se jogar em cima dele.
― Tu és uma caixinha de surpresas.
― E você é muito adorável – disse a menina, sorrindo para ele de um jeito
que realmente era adorável, ele pensou.
Os dois se fitaram nos olhos e a corrente fria do balanço nas mãos dele o fez
sentir um calafrio. Ou talvez fosse a proximidade da garota, tão cheirosa com
aquele perfume de lavanda e os olhos azuis brilhando mesmo na luz baixa do
poste do parquinho do play.
Tudo mudou quando ele sentiu os dedos dela em seu joelho. Eduardo
ameaçou ficar tenso, mas o jeito como ela o encarava não o permitiu sequer
concluir o pensamento. Ele engoliu em seco e notou que ela acompanhou seu
pomo de adão subindo e descendo de um jeito desejoso.
― Não me diz que eu sou a única sentindo isso – as palavras saíram da boca
de Lavínia sem que ela pudesse refletir sobre elas, se era ou não uma boa ideia.
Ela sabia muito bem como o rapaz se sentia a respeito da sua idade e não
queria, de jeito nenhum, afastá-lo. Porque, por mais que ele fosse o seu crush há
anos e ela morresse de vontade de beijá-lo, estava gostando de conhecê-lo de
verdade. De conversar com ele e tê-lo como amigo, como alguém além do rapaz
extremamente lindo que protagonizava suas fantasias.
Mas Eduardo jamais poderia negar. Não tinha ideia do que fazer com aquilo
que o invadia, mas estava tão de mãos atadas quanto nunca.
― Você vai lutar contra? – ela perguntou, subindo um pouquinho os dedos
pelo joelho do rapaz. Sentia-se revigorada, assustada e descontrolada por
permitir-se ousar assim com ele. Era uma sensação que a enchia de energia,
poder flertar com o cara dos seus sonhos, ultrapassar essa linha invisível que ele
determinara entre os dois.
Eduardo estava ainda mais amedrontado do que ela, mas sentindo-se tão
revigorado quanto. Ele segurou sua mão e o olhar dos dois estava preso um no
outro, como uma corrente inquebrável. Ele não sabia o que estava fazendo, mas
não tinha espaço para pensamento.
Naquele momento, Eduardo apenas existiu.
Ele esqueceu os números e enxergou apenas a garota ao seu lado, linda e
calorosa como um dia de verão que o convidava para dar um mergulho. Ele
entrelaçou os dedos nos dela, com força, e Lavínia teria sorrido se não estivesse
incrédula demais por ele não ter se esquivado.
Por ele ter ultrapassado aquela linha também.
Ele se ajoelhou em frente a ela, deixando o balanço para trás, ainda
mergulhado demais naquela sensação para usar seu raciocínio sobre a moral e os
bons costumes. Lavínia passou a mão livre pelo pescoço do rapaz e apertou sua
nuca, os dois praticamente no mesmo nível de altura.
― Lembra quando ficamos presos no elevador e você disse pra mim que era
uma mulher? – ele perguntou.
― É claro – ela respondeu.
― Então – Edu engoliu em seco, deixando a sensação dos dedos dela pela
sua nuca e a proximidade do corpo dela o dominar. Aqueles olhos azuis o
arrepiavam do início ao fim da espinha. – Você ainda não é totalmente uma, e
por isso é tão difícil pra mim admitir que você faz o que faz comigo. Eu não
quero te faltar com respeito, não quero que pense que sou um marmanjo desses
que seduz garotas do Ensino Médio.
Lavi deixou escapar um sorriso ao entender aonde ele queria chegar com
aquela conversa. Ela mordeu o lábio, achando-o a coisa mais adorável do mundo
inteiro, ainda mais do que antes. Ela sabia, tinha plena consciência do quanto ele
a respeitava e nunca fizera nada que pudesse ser mal interpretado. Perceber o
quanto era difícil para ele aceitar que sentia algo por uma adolescente era, para
ela, o maior indício de que ele era um cara decente.
― Eu sei disso. Eu te conheço há anos, você tá sempre preocupado se meus
pais sabem onde eu estou e se eu não tô fazendo besteira por aí. Mas alguma
coisa entre a gente se atrai e você não precisa ter medo disso.
― Então me dá sua permissão – ele pediu. As palavras deixaram sua boca
como um suspiro de alívio, como um cinto que se solta depois de apertar por
muito tempo. O olhar intenso que eles trocaram acompanhava o ritmo frenético
dos seus corações fora de controle. Tudo estava fora de controle. – Então me
permite.
O rapaz soltou a mão de Lavínia e segurou o rosto dela, puxando-a para mais
perto. Suas respirações se misturam e Lavínia apertou a nuca dele no momento
em que seus lábios, muito cautelosos, tocaram os dela. Foi uma explosão de
sensações, a fita de um presente muito aguardado sendo cortada, as veias do seu
corpo carregando o sangue incandescente por todo ele.
A menina desceu as duas mãos pelas costas do rapaz e o pressionou contra o
seu corpo, abrindo as pernas para que seus joelhos não ficassem entre os dois. O
beijo se intensificou como uma locomotiva ganhando velocidade e então apitou
bem alto quando suas línguas se encontraram. Eduardo segurou-a pela cintura,
não conseguindo se impedir de tocá-la, e Lavínia deslizou as mãos pelos seus
braços torneados pelo muay thai.
Os dois mergulharam fundo naquela sensação, no movimento de suas bocas,
nas suas peles se tocando e no quanto tudo aquilo os tirou do mundo real pelo
instante em que durou.
Eduardo paralisou, ainda misturado a ela quando o ar faltou a eles. Lavínia
beijou a sua boca mais uma vez e o manteve preso ali, sem permitir que ele se
atrevesse a se arrepender.
― Isso é permissão o suficiente pra você? – ela perguntou, se inclinando até
o ouvido dele. Mal sabia o que estava causando dentro do rapaz. Mal sabia que a
sua idade não era o único motivo que o afastara dela em primeiro lugar.
Que Eduardo não sabia como se permitir e aquilo, aquele pequeno momento
no espaço-tempo, nos seus quase vinte e dois anos de vida, era um passo
gigantesco para ele.
Ela se manteve incansável, provocando-o e impelindo-o a quebrar as suas
barreiras invisíveis. Oh sim, ele beijava outras garotas de vez em quando, mas o
quanto disso não era apenas para seguir um protocolo do que jovens rapazes
saudáveis deveriam fazer? Ele estava lá fisicamente, mas não verdadeiramente.
Havia se bloqueado anos atrás, sem nem mesmo perceber, e vivia assim desde
então.
Até que veio uma Lavínia e o tirou da inércia à força.
“Isso é permissão o suficiente pra você?”
E a resposta dele foi se inclinar mais uma vez em sua direção e beijá-la até
sua mente se dissolver.
25. Castigo
É claro que Lavínia ficou de castigo pelo que tinha feito.
Não por beijar o seu vizinho gostoso que já estava na faculdade, no meio do
playground do prédio – e como eles se beijaram. Por isso não. Mas por todo o
resto.
Ela já sabia que o castigo viria no momento em que contasse aos pais sobre
a suspensão por ter caído no tapa em plena aula de Educação Física. E não
adiantou nem argumentar sobre a situação toda do bullying com mãe – porque de
jeito nenhum ela explicaria para o seu pai sobre transar ou não transar com
meninos – eis a questão!
Além do mais, do jeito como ele era, era capaz de ter um enfarte.
A mãe de Lavínia, por outro lado, sabia sobre todas as peripécias da filha.
Foi a primeira para quem ela confidenciou que estava pensando em começar as
atividades com o ex-namorado – depois de Cami e Dani, é claro. Foi a Dani
mesma quem a incentivou a conversar com a mãe sobre o assunto, e ela não
poderia ter tomado atitude melhor.
As duas não eram do tipo que ficavam conversando sobre as coisas como
duas amiguinhas e, no início, foi bem constrangedor. Mas Lavínia se sentia
muito mais leve por contar com a sua mãe, era um grande alívio tê-la ao seu lado
para direcioná-la. Teresa sabia das duas vezes em que Lavínia fizera sexo, ambas
com seu ex-namorado – na época, nenhuma das duas sabia o quanto ele era um
babaca.
Coube a ela e a Dani explicar à garota mais nova sobre o quanto começar
uma vida sexual requeria responsabilidade. É claro que Lavínia estava se
descobrindo e isso era algo que não deveria ser reprimido. Mas estava Lavínia
preparada para todas as implicações psicológicas e físicas que vinham com o ato
sexual?
Ela achava que sim.
E sua primeira vez, embora nada perfeita ou memorável, tinha sido boa.
Mas, depois da segunda vez, Lavínia simplesmente não quis fazer de novo. E foi
aí que o ex-namorado mostrou sua Identidade Secreta: O Babacão. O que só fez
a garota ter mais certeza ainda de que não queria mais abrir as pernas para ele
mesmo.
Ela percebeu que não é só porque você tem a liberdade de fazer alguma
coisa que precisa necessariamente fazê-la.
O direito estava lá para quando ela quisesse usá-lo de novo, com sabedoria.
Em algum momento apropriado, com uma pessoa com quem ela se envolvesse
desse jeito.
E, Deus, como ela queria.
Ah, se Paulo não tivesse se declarado naquela sexta-feira...
Ela gostava muito dele, o Paulo. Não estava apaixonada como ele se
mostrou estar, mas tinha muito carinho pelo garoto – afinal, eram amigos – e a
química entre os dois era uma coisa de louco. Tanto que ela até chegou a se
arrepender por ter se assustado e dito “não” à declaração de amor dele logo de
cara.
Sua mãe, apesar do castigo, havia obviamente ficado preocupada com toda a
situação pela qual a menina estava passando. Ligaria para o colégio na primeira
hora da manhã do dia seguinte, indignada por eles não terem entrado em contato
com ela ainda, e ávida para saber quais seriam as providências a serem tomadas.
― Campainha! – Cláudio, o pai de Lavínia, gritou da cozinha, onde estava
terminando de fritar os filés de frango para a janta. A garota, em seu quarto sem
poder usar o celular ou o computador, graças ao bendito castigo, se levantou na
mesma hora da cama para atender a porta.
Não havia nada mais angustiante para um adolescente do século XXI do que
ficar sem o celular. Pior ainda se a adolescente em questão tivesse acabado de
finalmente dar uns beijos no crush e precisasse mais do que tudo nesse mundo
falar com alguma de suas melhores amigas.
Ou ela iria explodir.
Já estava explodindo!
Então é claro que, quando ela chegou à sala e viu sua mãe na porta saudando
a sua prima preferida, Lavínia soltou um grito empolgado.
As três outras pessoas do cômodo olharam para ela, intrigadas, mas Lavínia
não estava nem aí. Foi correndo até a porta, onde Dani se encontrava no colo do
pai, em posição de noiva.
― Que isso, menina! É tudo felicidade por me ver? – perguntou seu tio
enquanto colocava a filha no chão gentilmente. Ela deu um tapa com as costas
da mão no peito dele.
― Hoje não, Faro. A parente legal sou eu e todos nós sempre soubemos
disso – disse Dani, tirando com a cara do pai, que só balançou a cabeça, rindo.
― Desculpa, tio. Te adoro e tudo mais, mas Dani! – Lavínia bateu as palmas
e as segurou acima da cabeça, quase não contendo a enxurrada de coisas que
precisava contar a ela. – Esqueci que você vinha hoje pegar sua identidade.
Para a família das duas garotas, Dani havia esquecido a identidade com Lavi
na última vez em que se encontraram para ir ao cinema no shopping Tijuca. O
que eles não sabiam era que o encontro foi justamente para que Lavi pudesse
pegar a bendita carteira que a permitiu entrar na boate com Edu.
― Você ainda não está passando bem, querida? – Teresa perguntou a Dani,
preocupada. – Vem, vamos entrando – fez um gesto chamando pai e filha para
dentro. – Cláudio está terminando o jantar, a gente coloca mais dois pratos na
mesa pra vocês!
― Agradeço, Teresa, mas vai ter que ficar pra próxima. Só vim trazer a
mocinha aqui – ele alisou o cabelo da filha com carinho e se despediu de todos
com rapidez, pois precisava buscar os filhos mais novos, frutos do segundo
casamento, na aula de judô.
A prima preferida adentrou a casa devagar, ainda um pouco debilitada pelas
crises de saúde que andou tendo nos últimos meses. Teresa a ajudou, alisando as
costas da garota com afeto. Perdera muito tempo de convivência com esse lado
da família no passado, por motivos que nem se lembrava mais. Mas adorava a
amizade que sua filha e a sobrinha construíram de uns anos para cá, coisa que
serviu para uni-los novamente.
As três se sentaram no sofá da sala enquanto Dani falava um pouco da sua
recuperação que estava “indo”.
― Te mandei mensagem pra dizer que meu pai já estava me trazendo pra cá,
mas você não respondeu – ela disse curiosa, já que Lavínia nunca saía daquele
celular.
― Sua prima está de castigo – Teresa informou, em um tom severo-mas-
nem-tanto. Os olhos azuis de Dani cresceram mais curiosos ainda. Algumas
ideias se passaram pela sua cabeça, mas ela não sabia se podia falar na frente de
Teresa.
― O que você arranjou dessa vez?
― Meio que dei uns socos na pessoa que descobri ser a responsável pelos
boatos – Lavi encolheu os ombros, mordendo o lábio para esconder o riso.
E Dani precisou conter a gargalhada, arranhando sua garganta. Encarou o
olhar nada contente de Teresa e se recompôs, estampando um semblante de falsa
repreensão no rosto.
― Lavínia, você sabe que violência não leva ninguém a nada – disse, para
satisfação da tia e deboche da prima. – Mas espera aí – ela se deu conta do fato
mais importante. – Então quer dizer que você descobriu?
― Sim! – Lavi se sobressaltou no assento do sofá. – Hoje foi um dia
daqueles. Eu preciso te contar tanta coisa...
― Bem, mas você está de castigo – Teresa foi taxativa, recebendo da filha o
olhar de pidão mais Gatinho do Shrek que Lavínia conseguiu.
― Por favor, mãe. Eu te imploro, a Dani veio até aqui, coitada, e vai embora
sem saber tudo o que aconteceu? Isso não é justo com a pobre da menina.
― É verdade, tia – Dani entrou no teatrinho, fazendo sua melhor cara de
doente-pobre-coitada. – Ficar curioso não é bom no meu estado, vai consumir
toda a minha energia.
Teresa encarou as duas com um olhar cético e semicerrado, em nenhum
momento caindo no jogo de manipulação das duas cúmplices, mas, por Deus, ela
tinha um coração. E sua filha, apesar do mau comportamento, merecia
compartilhar as aflições com uma amiga.
― Tudo bem. Mas bem rapidinho!
E foi assim que as duas foram para o quarto de Lavínia e ela começou a
despejar tudo em cima de Daniela, no momento em que fechou a porta atrás de
si. Contou primeiro sobre a manhã bizarra, sobre como descobrira que Thaís era
a mau-caráter espalhadora de boatos falsos, a briga na quadra e a conversa na
coordenação. Dani se mostrou bastante contente pelo mistério ter acabado,
embora chateada pela explicação. Não era nada legal descobrir que pessoas são
capazes de coisas assim por pensarem de um jeito tão errado e nocivo.
Então Lavi chegou à parte mais importante: a ficada com Eduardo.
― Não acredito!
― Acredite!
― E ele disse mesmo isso antes do beijo? – ela sacudiu a cabeça em
aprovação. – Achei digno de um ser humano decente. Ponto pro vizinho bonitão.
― Ele deve estar surtando pelo que aconteceu nesse exato momento –
Lavínia supôs e as duas começaram a rir.
― Melhor assim do que se gabando pros amigos por ter conquistado a
“novinha” – Dani ponderou. Seu olhar agora era sério. – Eu sei que você tá
curtindo e tudo mais, e ele parece ser um cara legal, mas toma cuidado, viu,
Lavs? O mundo tá cheio de gente louca.
― Eu tô de olho aberto – garantiu. As duas eram muito parecidas, tanto na
aparência, quanto na personalidade, mas Daniela estava a alguns anos à frente da
prima e, também por isso, já tinha mais maturidade. Sentia-se no dever de cuidar
dela e Lavínia não se importava. Pelo contrário, adorava, afinal de contas, ter
sim uma espécie de irmã mais velha. – Quero aproveitar o momento. E ele é
ainda mais delicioso do que eu imaginava, meu Deus! – exclamou, jogando-se
deitada na cama onde as duas estavam sentadas.
O gosto da boca de Eduardo ainda estava na sua e a lembrança das mãos
dele apertando o seu corpo com tanta firmeza a dava calafrios. Dani esquivou as
sobrancelhas, aprovando, já que de santa também não tinha nada.
― Essa é a minha garota! – disse.
Teresa logo as chamou para jantar, dando fim à trégua que abrira no castigo
da filha. E os dias que se seguiram sem acesso ao mundo exterior foram muito
torturantes. Ela não podia usar o celular, nem o computador, nem sair de casa
para nada. Passara o fim de semana inteiro assistindo na TV os episódios de
Sailor Moon Crystal que faltava para terminar a temporada, e logo engatou na
leitura dos mangás, para poder saber o que acontecia depois.
Tudo o que ela mais queria era poder falar com Cami! A amiga deveria estar
enlouquecendo de curiosidade depois de ter lido as mensagens que Lavi mandou
assim que ficara com Eduardo, mas não estava online para responder. Agora
quem não podia era Lavínia.
Ela até tentou burlar o castigo na sexta-feira – já que não tinha permissão
nem mesmo ir ao colégio, graças à suspensão – mas a mãe ficara em casa
trabalhando. Lavínia colocou os deveres em dia e fez mais trabalhos domésticos
do que em todo o resto da sua vida. Estava desesperada, imaginando se Eduardo
havia mandado alguma mensagem para ela e o que ele estava pensando desse
sumiço repentino.
Será que ele estava pensando nela? Será que achava que ela havia se
arrependido?
Por Deus, se ele achasse isso, ela mesma bateria na sua cara!
Não, não. Melhor. Ela o calaria com o melhor beijo que ele já dera em toda
sua vida.
Ah, Deus, como ela queria poder beijá-lo de novo. Sua mãe não fazia ideia
de que tipo de tortura a estava submetendo. Aquilo era desumano.
A segunda-feira, porém, havia chegado. Lavínia, que não aguentava mais a
restrição das paredes da própria casa, acordou super cedo para ir ao colégio.
Torceu para encontrar Edu no elevador, mas isso não aconteceu. Ficou plantada
no hall do prédio, assim, como quem não quer nada, por quase meia hora,
torcendo para que ele aparecesse.
Mas é claro que isso também não aconteceu.
Foi emburrada e frustrada para escola, com um pouco de medo do que
encontraria por lá quando voltasse. Ela sabia que a psicóloga idealista não
deixaria aquela situação por isso mesmo, mas nenhuma ideia se passava pela sua
cabeça sobre medidas a serem tomadas.
Ela saiu à procura de Cami assim que botou os pés na escola. Imaginava se
os fofoqueiros de plantão já haviam espalhado para todo o corpo discente o que
acontecera, e se, agora, todo mundo sabia a verdade. Mas será que isso fazia
alguma diferença? Ela ainda era o centro das atenções, de uma forma ou de
outra. E não de um jeito muito agradável.
A garota correu pelo pátio atrás de Cami, mas foi interceptada por alguém
antes. Virou-se, um pouco impaciente, prestes a dar uma desculpa rápida a quem
quer que tivesse segurado seu braço, mas paralisou quando viu de quem se
tratava.
― Nós precisamos conversar – disse a pessoa.
E os planos de Lavínia mudaram.
26. Sentiu Saudade?
Eduardo não era exatamente o tipo de pessoa que ficava paranoica quando
uma garota demorava para responder. Para falar a verdade, ele tinha pouquíssima
experiência no assunto, uma vez que, geralmente, as garotas insistiam bastante
na conversa com o rapaz.
Porém, daquela vez, tudo estava sendo diferente.
Ficar com Lavínia foi uma espécie de alívio e ai-meu-Deus-o-que-foi-que-
eu-fiz ao mesmo tempo. Por sorte, o alívio ganhou a batalha e o rapaz se sentiu
leve; leve depois do beijo bem-sucedido. Ele realmente entrou no clima, coisa
que não acontecia com muita facilidade, e, embora levemente assustador, foi
bom.
Muito bom.
Como era ótimo dar um beijo assim que não é apenas um encontro de
salivas, mas mexe com você da cabeça aos pés como um sopro mágico.
Destrancara alguma coisa dentro dele, algo que ele nem sabia exatamente o que
era, embora soubesse que muitas chaves o selavam por dentro. Outras ainda
estavam bloqueadas, mas uma havia sido aberta.
E isso fazia toda a diferença do mundo para Edu.
Ele voltou para casa naquela noite com a mente ainda desnorteada e um
sorriso prazeroso nos lábios. Riu de si mesmo no elevador, ao se lembrar de
quem era Lavínia e todas as implicações a isso. Uma ironia tremenda do destino,
não é mesmo? Justo ela, a menina barulhenta do apartamento de cima.
Lá se vai a política do Eduardo de não se envolver com vizinhos e/ou
colegas de trabalho.
Ele mandou uma mensagem de boa noite a ela com o link de uma matéria
que um médico fez sobre os nomes de pacientes mais bizarros e engraçados que
já encontrou por aí. Ele havia prometido enviar a ela – pois acabaram falando
sobre isso em algum momento – e o fez antes que se esquecesse.
Imagina a surpresa quando, no dia seguinte, a mensagem não havia sequer
sido lida por Lavínia, a viciada em tecnologia. Ele achou estranho, mas seguiu
sua vida como tinha de ser. Pela primeira vez em muito tempo suas sextas
estavam livres para ele fazer o que bem entendesse, e começou o dia indo para o
treino de muay thai. Andou de bicicleta por um tempo antes de voltar para casa,
onde encontrou Diogo ainda roncando no sofá. Tomou um banho, fez o almoço,
Diogo acordou, Guto voltou da faculdade.
E nada de Lavínia responder.
Apolo apareceu sem mais nem menos no apartamento antes de uma sessão
de fotos para fazer sabe-se lá o quê, Edu saiu para passear com Bart, Diogo
tomou coragem para sair atrás de um emprego e voltou para casa com um
abacaxi na mão – literalmente.
― Por que você comprou um abacaxi? – Guto perguntou, pausando o filme
que ele e o irmão estavam vendo na Netflix.
― Eu não comprei, eu ganhei.
Os dois irmãos Becker franziram o cenho ao mesmo tempo.
― Onde é que estão distribuindo abacaxis? – Eduardo indagou cético.
Diogo deu de ombros, pousando a fruta no balcão da cozinha.
― O homem da venda da esquina ficou tão mal por não poder me dar um
emprego que resolveu então me dar um abacaxi. E eu não sei o que isso significa
– Diogo apressou-se em dizer, antes que Eduardo perguntasse.
Ele realmente perguntaria.
― Vai ver é porque eu sou lindo – Diogo continuou com seu tom
zombeteiro, se juntando aos amigos no sofá em frente à TV. – Que merda vocês
estão assistindo?
Os três terminaram um filme, Calíope apareceu depois de ter passado o dia
inteiro estudando na Faculdade de Psicologia da UFRJ, no bairro da Urca,
pertinho de onde eles moravam. Eduardo falou com as irmãs gêmeas pelo Skype,
depois saiu para beber com os amigos.
E nada de Lavínia responder.
Ele começou a ficar paranoico de verdade quando o sábado inteiro passou e
a mesma coisa se repetiu. Então o íntegro e cheio de princípios Eduardo
começou a cogitar a possibilidade de Lavínia ter se arrependido do beijo. De ele
ter ultrapassado os limites e a ofendido de alguma maneira. De ele ter, sei lá,
feito-a se sentir mal.
O número dezesseis estourava em sua mente como uma sucessão de milhos
se transformando em pipoca. Todos os seus questionamentos sobre idade, sobre
o certo e o errado, sobre respeito e menores de idade explodiam na sua cara. O
que estava fazendo seu cérebro fritar, a culpa o inundar e a chave que havia sido
destrancada tremer tentando se fechar de volta.
Sua mãe, quando ainda viva, sempre dizia que não era bom ir dormir com
pensamentos ruins na cabeça, mas Eduardo não foi capaz de evitar. Acordou no
domingo se sentindo bastante angustiado, prestes a ir bater na casa da menina e
pedir desculpas pelo comportamento na quinta-feira – embora não quisesse, de
fato, se desculpar por nada.
Ele havia, afinal, gostado muito daquele momento.
E isso o estava perturbando demais.
Ele acordou no domingo com Bartolomeu lambendo a sua cara. Pegou seu
cachorrinho e saiu com ele logo de manhã para que o pobre pudesse fazer suas
necessidades fisiológicas. Depois os dois voltaram juntos para o sofá de casa,
remoendo os últimos dias, assistindo desenho na televisão e comendo cereal.
― Deixa de ser crianção, a guria não acha que tu violou a integridade dela
nem nada – Diogo disse quando acordou. Cortara o abacaxi e trouxera o prato
com as rodelas para a mesinha de centro da sala. Até que estava docinho. Ele e
Eduardo estavam no segundo pedaço, cada, e Bart cobiçava a fruta com olhos
brilhantes.
― Será então que aconteceu alguma coisa com ela? – ele se questionou. –
Porque isso não é normal, é? Ela não desgruda daquele celular.
Ele, é claro, já tinha mandado mensagem para Duda à procura da sabedoria
de sempre, até porque ele achava que ela seria capaz de entender a cabeça de
Lavínia melhor do que ele. Mas nem mesmo as palavras calmantes da amiga
surtiram muito efeito.
― Sei lá, piá. Vai lá na casa dela perguntar, ora – Diogo disse com a boca
cheia de abacaxi. Sua língua já estava toda ácida e a mão toda melada. Eduardo
comia com muito mais educação do que seu mais novo hóspede.
Nesse mesmo momento, João Augusto e Calíope saíram do quarto dele,
acordando naquela manhã ensolarada de domingo. Guto terminava de vestir a
camisa e os dois deram um selinho antes da garota se sentar ao lado de Diogo.
Ele fitou os dois namorados com uma reprovação provocativa.
― Olha só essas caras de quem mandaram ver ontem à noite enquanto eu
estava aqui no cômodo ao lado. Eu é que me sinto violado.
― Você não devia nem estar aqui, lindo – Cali respondeu, dando um tapinha
na bochecha do amigo, que fez uma careta pra ela e deu outra mordida no seu
abacaxi. Seu humor ainda estava terrível por causa do rompimento com a
namorada e o atual estado sem teto e sem emprego.
Não estava sendo fácil. Ser adulto às vezes era uma merda.
Onde clica para voltar?
― Relaxa que tem Jão pra todo mundo – Guto brincou e então uma das
sobrancelhas de Calíope se levantou.
― Tem alguma coisa que você queira me contar?
Diogo riu, passando o braço pelos ombros dela.
― Quem tu achas que satisfazia as necessidades dele antes de você aparecer,
ruiva?
A garota, primeiro, ficou ultrajada. Depois fechou a cara e empurrou Diogo
para longe, que ria da cara dela. Eduardo riu também, terminando mais outra
rodela do seu abacaxi, mas foi um riso tão desesperado que ninguém soube
exatamente no que ele estava pensando.
― Augusto, eu acho que você devia arranjar amigos melhores, viu – ela
provocou Diogo, que mandou um beijinho em sua direção.
Diogo e Calíope continuaram se implicando enquanto Eduardo e
Bartolomeu assistiam à TV e João Augusto fazia um sanduíche. Depois saíram
todos juntos para a praia da Urca e até mesmo Eduardo foi arrastado, embora
não fosse lá muito fã da coisa.
Mas, segundo Calíope, cairia bem um bronzeado e espairecer a cabeça antes
que a mesma derretesse. Ela tentou convencê-lo de que ele estava sendo
completamente paranoico e se deixando cegar pelas suas dúvidas.
― Você conhece a Lavínia – disse deitada de bruços na canga que trouxera;
o cabelo preso em um coque e óculos escuros nos olhos. Edu estava sentado em
uma canga também, ao lado dela. – Beijar é uma coisa muito normal e ela estava
afim de você já faz tempo. Não creio que se sentiu nem um pouco corrompida,
acho muito mais fácil ela ter corrompido você. Na verdade, foi o que houve
mesmo.
― Como assim? – ele questionou e a irmã-cunhada baixou os óculos para
fitá-lo nos olhos. Seu torso definido, embora um pouco branco demais, estava
exposto, e o sol fazia seus olhos castanhos ficarem mais claros do que já eram. O
cabelo cacheado bagunçado e a barba cerrada o deixavam com um aspecto
desleixado, que só o tornava ainda mais atraente para as meninas que passavam
por eles ali na praia.
Calíope conhecia bem o apelo de um irmão Becker. Além de ter vivido a
vida inteira com seus irmãos gêmeos Medina sendo “a sensação” de qualquer
lugar. Se havia algo com o qual a garota tinha experiência, era com a influência
de caras maravilhosos em outras pessoas.
― Você está aí todo serelepe, o que me faz crer que ficar com ela mexeu
contigo de um jeito muito bom. Um jeito que eu nunca vi acontecendo, na
verdade. Nem o João, desde a sua mítica ex-namorada do mau – ele fechou um
pouco a cara quando Cali disse isso, mas ela não se abalou. – Será que esse
“surto de consciência” na verdade não é o seu cérebro tentando te sabotar porque
a Lavínia te tirou da sua zona de conforto? Será que não tá pensando em pedir
desculpas e colocar um ponto final logo nisso, sem nem deixar acontecer direito,
porque não quer enfrentar as consequências de, de fato, se sentir mexido por
alguém?
A expressão de panqueca de Eduardo foi muito satisfatória. Ela abriu um
sorrisinho no canto da boca e colocou os óculos de novo, contente por ele,
obviamente, estar pensando sobre o assunto. As engrenagens do cérebro do
rapaz trabalhavam um pouco desconfortáveis pelas palavras da menina, e, por
isso mesmo, a possibilidade de elas serem reais era maior ainda.
― Pensa nisso – Cali encerrou o assunto e baixou a cabeça para pegar seu
sol em paz.
E Edu pensou mesmo.
Pensou tanto que ficou meio aéreo pelo resto do dia, porque, se havia algo
que Eduardo Becker sabia fazer como ninguém, era pensar.
Foi, inclusive, trabalhar na segunda-feira ainda matutando sobre o assunto.
Teve certeza absoluta de que Calíope havia escolhido a profissão certa, daria
uma excelente psicóloga se conseguia acertar o ponto sensível dele com apenas
algumas poucas frases e deixá-lo assim, contestando a si mesmo sem parar.
Por que ele fazia isso consigo mesmo? Seria tão mais fácil viver como seu
irmão, livre pelo mundo, aberto para qualquer coisa que viesse a acontecer,
qualquer história, qualquer sentimento. Já Eduardo se escondia atrás dos seus
livros e da sua intelectualidade ímpar, passando anos inteiros se bloqueando.
Porém uma chave havia sido aberta. Ele ouviu o clique, ele sentiu o alívio
de algo que não se dava nem conta de que o restringia tanto assim, antes de se
soltar. E, agora, estava decidido a ir até o apartamento de Lavínia.
Lembrou que a menina tinha sido suspensa na escola e, talvez, tenha ficado
de castigo – mas precisava saber com certeza. Porque, apesar de começar a se
entender melhor, ele ainda não era evoluído o suficiente para se livrar das suas
amarras em um passe de mágica.
Chegou ao prédio decidido a ir até a casa de Lavínia saber se estava tudo
bem, mas não foi preciso tanto. A porta do elevador já estava se fechando
quando alguém a puxou para trás. Tanto Edu quanto a senhorinha do 805
olharam naquela direção, e Lavínia apareceu.
Os dois se encararam e o coração de Eduardo reagiu, espalhando endorfina
pelo corpo dele. Aquela sensação eufórica de alívio o atingiu em cheio e, quando
o rapaz percebeu, estava sorrindo para ela.
A garota sorria de volta, como se não pudesse acreditar na sorte de tê-lo
encontrado ali. Seus olhos azuis intensos pareciam querer dizer muitas coisas – e
Eduardo estava louco para ouvi-las – mas havia uma senhora de sessenta e cinco
anos no meio do caminho.
Lavínia entrou no elevador e apertou o botão 12, seu andar. Ela se apoiou de
costas na parede do elevador e ele fazia o mesmo, do lado oposto. A senhora
estava no meio, olhando para cima enquanto a lata de metal subia lentamente e
os olhares de Lavínia e Eduardo se encontravam como uma explosão química.
Estava quente demais dentro daquele elevador ou é apenas impressão?
A senhora parecia concordar com essa sensação, já que sacou o leque da
bolsa e começou a se abanar. Lavínia mordeu o lábio enquanto balançava o pé
direito. O cabelo estava preso em um de seus coques e ela ainda usava o
uniforme e a mochila da escola. Eduardo segurava a alça da sua bolsa de couro
com força e os dois respiravam forte, em uma sincronia quase perfeita.
Terceiro andar.
O elevador parou, mas ninguém entrou ou saiu. A senhora espiou e fez um
som de reprovação enquanto o elevador continuava subindo. Eduardo e Lavínia
nem haviam percebido nada, tão presos que estavam dentro dos olhos um do
outro.
Quarto andar: Ela passou o cabelo para trás da orelha.
Quinto andar: ele passou os dedos pelos cachos, penteando-os para trás.
Sexto andar: ela trocou o peso do corpo de um pé para outro.
Sétimo andar: ele passou a mão pela nuca e pousou um pé na parede do
elevador.
Oitavo andar.
A senhora se virou para os dois e disse:
― Boa noite.
Empurrou a porta do elevador enquanto o sangue de Edu navegava muito
rápido pelo seu corpo. Enquanto as bochechas de Lavínia coravam levemente e,
eles nem perceberam, mas se curvaram para frente, como um corredor se
preparando para dar a largada.
Então a porta se fechou de novo e a subida continuou, fazendo força sob os
pés de ambos. Um sorriso muito malicioso brotou nos lábios da garota e seus
olhos azuis faiscaram. Os dois avançaram um para o outro, com bolsa e tudo,
mas ela empurrou Eduardo de volta para a parede.
Ele riu muito espontâneo. Ela ficou na ponta dos pés e segurou-o pela nuca,
seus rostos a um milímetro um do outro, e disse:
― Sentiu saudade?
27. Vítima
Quando a psicóloga da escola puxou Lavínia para conversar no início da
manhã de segunda-feira, ela não imaginava que a coisa seria tão grande quanto
acabou sendo. É claro que Luísa explicou tudo a ela, para que não fosse pega de
surpresa, mas saber que algo iria acontecer é muito diferente de ver isso com os
seus próprios olhos.
A maioria dos alunos do Ensino Médio já estava acomodada na
arquibancada do ginásio da escola. A cacofonia das vozes de tantos adolescentes
unidos – tentando entender o que estava acontecendo ou simplesmente fazendo
algazarra com os amigos – estava deixando Lavínia nervosa, com um buraco no
estômago pela perspectiva de encará-los em breve.
Mas era o que ela queria. Quando Luísa explicou seus planos para aquela
manhã, foi a primeira coisa que a menina pediu para fazer, no final. Lavínia
respirou fundo, aliviada por estar ao lado de Cami e Isabel agora. Ela sabia que a
psicóloga tinha planos para aquele dia, mas não conhecia os detalhes e, por isso,
estava bastante ansiosa também.
Lavínia sabia desde o início que algo precisava ser feito e agradecia por pessoas
como Luísa existirem. Toda escola deveria ter alguém preocupado o suficiente
com os alunos quanto a sua, até mesmo a coordenadora pedagógica estava se
mostrando uma pessoa muito consciente – o que foi uma surpresa porque, para
falar a verdade, a imagem que Lavínia tinha dela não era muito boa antes.
Quando as duas pararam na quadra da escola, diante dos mais de cem alunos
reunidos, os inspetores e professores que também estavam ali começaram a pedir
que os estudantes se calassem. Luísa pediu a atenção de todos e as vozes foram
diminuindo aos poucos, até restar apenas um zumbido tímido.
“O que estava acontecendo?”, era o que eles queriam saber.
― Bom dia, alunos. – saudou a psicóloga. – Como vocês sabem, eu sou a
Dra. Luísa, psicóloga desta escola. Convoquei essa pequena reunião antes do
início das aulas de hoje, com o aval da nossa coordenadora Andrea, porque nós
precisávamos conversar um pouquinho. Agradeço a boa vontade dos professores
– disse cordialmente, dirigindo-se a onde os mesmos, vestindo seus jalecos
azuis, estavam. – Logo irei devolvê-los para vocês.
Ela encarou os alunos novamente, com um olhar calmo, porém afiado.
― Acredito que todos aqui estão familiarizados com a palavra “bullying”,
não é? – alguns murmúrios surgiram depois da pergunta retórica. – Bem, chegou
aos meus ouvidos na semana passada que uma aluna vem passando por...
situações bem desagradáveis nas últimas semanas. Acho que muitos de vocês
sabem do que eu estou falando.
Mais murmúrios. Lavínia sentiu os olhares de todos em sua direção, mas
manteve-se de queixo erguido, fitando Luísa sem nem piscar. Jogou uma mecha
do cabelo para trás enquanto seu coração acelerava em expectativa.
― Em primeiro lugar, qualquer prática de bullying e atos de humilhação a
qualquer colega não são toleráveis nem aqui na escola e nem em lugar algum –
explicou. – Vocês sabem disso, no fundo. Talvez muitos de vocês nem percebam
o que estão fazendo, mas usar qualquer situação contra algum colega, agindo
para ofendê-lo e fazê-lo se sentir mal, é muito grave.
Luísa fez uma pausa, fitando com firmeza os rostos jovens que a encaravam
de volta. Ela podia sentir o clima de tensão no ar pelo burburinho quase
inaudível de vozes e pelos semblantes nervosos – e talvez culpados – de vários
alunos. Em seus dez anos trabalhando em escolas como aquela, Luísa já tinha
visto expressões parecidas muitas vezes, e já presenciara os mais diversos casos
de agressão física e psicológica.
Nunca ficava mais fácil para ela.
― Eu sei que vocês sabem que o bullying é errado... Mas todo mundo aqui
entende o porquê? – ela instigou. Ninguém respondeu. – É difícil se colocar no
lugar do outro e perceber que aqueles comentários que você acha tão engraçados
podem estar fazendo alguém sofrer. Imagina se a vítima fosse, por exemplo,
alguém que você gosta muito – continuou, caminhando pela quadra. – Seu irmão
ou sua mãe, porque adultos também sofrem bullying, acreditem. Por outros
adultos que nunca pararam pra pensar, na idade de vocês, no quanto estavam
machucando outro ser humano com “algumas palavras bobas” – disse, fazendo
aspas com os dedos também.
Nesse momento, o auditório inteiro estava em um silêncio desconfortável.
Luísa deu alguns segundos para que suas palavras ecoassem.
Então prosseguiu:
― O que me chamou atenção, além disso, é que não é a primeira nem a
segunda vez que uma garota sofre um tipo de humilhação parecido. Parece que
temos um padrão aqui nesse colégio, com alunos perseguindo meninas quando
elas saem do estereótipo que se espera de uma “garota de bem” – novamente as
aspas. Ela continuou andando. – Aí eu pensei, nos dias de hoje em que discursos
sobre igualdade entre os sexos vêm tomando as redes sociais como nunca antes,
como pode jovens tão conectados vinte e quatro horas por dia, recebendo
informação nova o tempo inteiro, reproduzirem esse comportamento tão
ultrapassado?
Ela encarou a plateia com um tom irônico e certeiro.
― Precisamos falar sobre isso.
Algumas pessoas encararam umas às outras, outras se mexeram na
arquibancada. Alguns não estavam prestando atenção, só queriam que aquilo
acabasse logo, mas havia aqueles que queriam levantar e aplaudir.
― Independentemente do que aconteceu, seja com uma mulher ou um
homem, nada que alguém faça conscientemente a si mesmo, com sua mente ou
seu corpo, é motivo de chacota – disse com firmeza. – A aparência ou os gostos
pessoais de ninguém pode ser motivo de vergonha, usado para diminuí-lo ou
para ridicularizá-lo. Aqui nesse ginásio nós somos mais de cem pessoas
completamente diferentes e é essa diferença o que nos torna especiais. Únicos.
Não estranhos.
Ela parou no centro da quadra novamente.
― A vida já exige demais da gente para que não possamos ser quem
gostaríamos de ser sem sofrer agressões físicas ou verbais por isso – constatou.
Lavínia sentia o coração retumbando dentro do peito e Cami apertou a mão da
amiga, solidária. – Eu quero que vocês parem agora pra pensar, por um minuto,
em algum apelido que já te deram ou algo que já falaram sobre você que foi, de
alguma forma, muito doloroso. Pode ser algo recente ou antigo, o importante é
que tenha mexido com vocês de um jeito negativo, que tenha feito se sentirem
mal. Vocês foram instruídos a descer com papel e caneta, não é? Pois bem, eu
quero que escrevam isso no papel que trouxeram. Vamos lá!
O burburinho começou de novo enquanto os alunos pensavam no que a
psicóloga propôs. Para a maioria foi incrivelmente fácil se lembrar de algo que
os tenha machucado, porque esse tipo de brincadeira sempre foi muito comum
nas salas de aula desde a infância. Algumas pessoas são alvos mais fáceis e vêm
precisando aguentar esse tipo de coisa há muito tempo.
A verdade é que todo mundo tem um calo em que um espertinho alguma vez
já tentou pisar. Todo mundo tem as suas inseguranças e a rapidez com que os
mais de cem alunos do ensino médio do colégio Ernesto D’ávila concluíram
aquela tarefa serviu para comprovar esse fato.
― Muito bem – Luísa disse quando percebeu que eles já haviam acabado. –
Agora eu quero que vocês achem a sua dupla e desçam da arquibancada juntos,
venham aqui para a quadra.
Antes de virem para o ginásio, os professores designaram duplas para cada
aluno de cada turma. Os adolescentes se entreolharam, à procura do seu parceiro,
e fizeram como a psicóloga instruiu – alguns apreensivos, outros fazendo piada.
Todas as duplas haviam sido feitas de maneira que os alunos não ficassem com
seus amigos ou conhecidos próximos, mas com alguém com quem não
costumavam conversar.
― Ok, ok! – Luísa gritou, batendo as palmas para trazer o foco novamente
para continuar a atividade. Ela subiu na arquibancada, olhando-os de cima. –
Fiquem de frente para as suas duplas. Eu quero que vocês olhem bem para a
pessoa que foi escolhida para ser seu parceiro hoje.
Encarar um outro ser humano nos olhos era uma coisa poderosa. Quando se
tratava de alguém com quem você não tinha intimidade, chegava a ser estranho,
desconfortável. Lavínia foi pareada com uma garota chamada Priscila. Elas
estudavam juntas há alguns anos, mas as duas mal se conheciam direito. Eram de
grupos diferentes e até se cumprimentavam quando se viam, como pessoas
civilizadas, mas raramente estavam juntas no mesmo ambiente.
Priscila parecia assustada. Lavínia nunca tinha parado para reparar nela
direito, para ser sincera. Lembrava que ela era bastante esquisita quando entrou
na escola, na sétima série, coisa que mudou bastante, como ela podia constatar
agora que foi obrigada a enxergar a garota. A mão que segurava seu papel estava
inquieta e Lavínia arriscou um sorriso para ela.
A garota respirou fundo.
― Muito bem, vocês estão indo muito bem – Luísa encorajou, levantando
os polegares. A maioria dos alunos estava desajeitada, se acostumando a ficar tão
próximo de alguém que não conhecia direito, sendo obrigados a enxergar aquela
pessoa e, assim, enxergar a si mesmo também através dos olhos dela.
“O que será que ele pensa de mim?”
― Agora eu quero que vocês se apresentem, como se fosse a primeira vez
que estivessem se vendo.
Lavínia piscou e Priscila mudou o peso do corpo de um pé para o outro.
― Eu sou a Lavínia – disse. – Muito prazer – e então riu, hesitante. Priscila
fez o mesmo.
― Muito prazer, eu me chamo Priscila.
Quando todo mundo pareceu já ter se apresentado, Luísa continuou:
― Ótimo! Agora que vocês já se conhecem, vou pedir para que troquem
com as suas duplas os papéis que estão segurando – naquele momento, houve
uma paralização geral, pois os jovens foram pegos de surpresa. – Não fiquem
tímidos ou com medo. Peguem o papel da sua dupla e leiam em voz alta o que
está escrito, olhando diretamente nos olhos dela. Eu quero que vocês sintam a
palavra, na sua boca, na sua língua. Sintam a palavra e pensem sobre ela, sobre o
motivo pelo qual a sua dupla ficou incomodada por ser chamada disso. E digam
seus pensamentos para ela, pra saber se vocês estão certos. Um primeiro. Depois
o outro.
Lavínia e Priscila trocaram seus papéis, mas a primeira não estava
preocupada com o que a segunda leria. Todo mundo na escola sabia do que a
estavam chamando por aí, já não era mais novidade para ninguém. Ela também
imaginava que sabia o que iria encontrar quando lesse o que Priscila escreveu,
mas não estava preparada para tal. Muito menos para chamá-la daquilo assim
desse jeito tão desprotegido.
― Quem vai primeiro, eu ou você? – a garota perguntou. Lavínia achou que
seria melhor tirar o band-aid de uma vez e se voluntariou para começar. Ela
respirou fundo, sentindo-se nervosa, mas não deu outra: o que estava escrito no
papel de Priscila era exatamente o que ela imaginava.
Lavi encarou a garota, já se desculpando com o olhar por dizer isso em voz
alta.
― Gilette – disse. – Macaca.
Ela se lembrava de quando surgiu esse apelido, pouco tempo depois da
menina ter entrado na escola. Foram os meninos do fundão da sala – como
sempre – que começaram a chamá-la assim por causa do seu excesso de pelos no
buço. Lavínia não conseguia nem expressar o quanto aquele apelido era
repulsivo.
― É óbvio que você não gosta de ser chamada assim – disse, se
enraivecendo ao se lembrar das risadas das pessoas quando a chamavam desse
jeito, como se fossem os gênios da comédia. – É ofensivo porque te faz sentir
diminuída, faz você pensar que tem algo de errado com o seu corpo, com você, e
que você precisa corrigir. Mas não precisa! – Lavi foi rápida em rebater. – Você é
ótima de qualquer jeito.
Priscila sorriu de uma maneira que pareceu irônico.
― Engraçado você me dizer isso sendo que já me chamou assim também –
disse. Em seu olhar havia um resquício de ressentimento que não podia ser
mascarado.
Lavínia abriu a boca, chocada. Ela quase se engasgou no ímpeto de negar
isso, porque a pessoa que ela era hoje em dia jamais diria algo tão grotesco para
alguém, jamais machucaria Priscila desse jeito, mesmo que elas fossem
praticamente estranhas uma para a outra. Se foi difícil dizer isso na cara dela só
para a atividade de Luísa, quem dirá dizer para ofender?
Ela queria negar, mas algo a travou. A cor saiu toda do seu rosto e a garota
fechou a boca, sentindo um soco bem no meio do seu estômago. Ela nunca
zombaria de Priscila, mas será mesmo que nunca usou o apelido para se referir à
garota quando estava conversando com outros? Será mesmo que nunca usou
“Gilette” como vocativo para falar com ela, mesmo que não fosse para debochar,
porque era assim que todo mundo a chamava? Será mesmo que nunca riu de
nenhum das piadas dos garotos do fundão, em nenhum momento da sua vida?
Mesmo vendo tudo isso acontecendo naquela época, ela também nunca
mandou que eles parassem. E não podia colocar a mão no fogo pela sua
inocência.
Impactada, Lavínia não soube o que dizer. Não sabia sequer como olhar para
Priscila depois de perceber tudo isso. Quantas pessoas, assim como ela, já não
tinham reproduzido algum discurso ofensivo sem se dar conta das
consequências? Quantas pessoas também já observaram tudo caladas?
Quantas pessoas estavam fazendo isso nesses últimos meses, quando era
Lavínia a vítima?
― Eu sinto muito – disse, pois era a única coisa sincera o suficiente que
podia ser dita naquele momento. – Eu sinto muito mesmo.
Lavínia sempre gostou de pensar em si mesma como uma pessoa que nasceu
descontruída, mas isso não era possível. Ninguém, infelizmente, estava imune a
cometer esses vacilos.
― Eu sei que você sente de verdade – Priscila reconheceu, demonstrando
muito mais compaixão do que Lavínia achava que merecia. – E isso já faz
tempo, eu não imagino que você usaria esse apelido pra mim de novo. O
importante é isso, sabe? Que as pessoas reavaliem essas atitudes e se corrijam.
Com isso Lavínia não podia concordar mais.
Priscila então abriu o papel da colega e suspirou quando viu o que estava
escrito. Encarou Lavínia com um olhar pesaroso, nervoso, que fez a garota se
sentir completamente exposta. Aquele poder de encarar alguém nos olhos tão de
perto podia surtir todo o tipo de efeito, poderia fazer alguém se sentir
completamente vulnerável diante do outro, por esse outro estar sendo capaz de
vê-lo por inteiro.
Lavínia não sabia o que é que Priscila via nela, mas as vozes e as opiniões
de todas as pessoas que um dia já a agrediram ecoavam na sua cabeça enquanto
ela pensava nas palavras que escrevera naquela folha de papel. Ela se sentia tão
cansada de ter que aguentar tudo aquilo, tão saturada de sempre se manter forte.
Era tudo tão injusto.
― Piranha – Priscila disse, a gravidade na sua voz era notável. –
Vagabunda. Lavínia maçaneta.
Priscila amassou o papel na mesma hora e foi quando Lavínia percebeu que
havia lágrimas em seus próprios olhos. Ela tinha ficado sim muito impactada
com a percepção que tivera ainda há pouco, sobre si mesma. Estava sensível,
estava muito vulnerável para ouvir aquelas coisas sem se deixar levar pelo peso
que tinham.
― Isso é ofensivo porque também te faz sentir diminuída – disse Priscila. –
Porque tenta fazer você sentir vergonha por ser dona do seu corpo. Faz as
pessoas te olharem como se você fosse um objeto que pode ser usado, e isso é
horrível. – A menina levantou a bolinha de papel em suas mãos. – É isso o que
eu faço com esses apelidos. Eu jogo eles no lixo.
Lavínia mordeu o lábio para refrear o choro, mas seu peito estava muito
pesado, recebendo de uma vez só o cansaço daqueles últimos meses que ela
tentava tanto não deixá-la abater. Uma lágrima acabou escorrendo dos seus olhos
e ela riu, exausta de tentar ser forte o tempo inteiro e se permitindo aquele
momento de alívio por uma completa desconhecida, a quem ela já feriu no
passado, ser tão solidária. Era tão diferente do comportamento da maioria das
outras pessoas naquele colégio e, por isso, Lavínia se sentia muito grata. Ela
sentia que não estava só e queria poder ter sido para Priscila o que Priscila estava
sendo para ela agora.
A garota sorriu para ela, uma força visível em seus olhos, e Lavínia fez uma
bolinha de papel com os apelidos dela também.
“Para o lixo com tudo isso”, pensou.
As duas meninas acabaram se abraçando e, mais do que nunca, Lavi sentiu a
necessidade esmagadora que tinha de fazer o que pediu a Luísa. Ao redor dela,
as outras duplas também iam terminando suas dinâmicas de maneiras diversas,
mas a grande maioria também parecia bastante impactada – mexida, até, ao ser
obrigada a enfrentar o bullying por outra perspectiva.
Luísa parecia satisfeita e encerrou a atividade daquela manhã com mais
palavras de reforço na necessidade de combater esse tipo de coisa, e de apoio –
sua sala estava aberta a todos que precisassem, a qualquer momento. O olhar
dela se encontrou com o de Lavínia no meio da multidão de alunos, agora
novamente sentados na arquibancada.
― Antes de vocês voltarem para suas salas, tem uma pessoa aqui que me
pediu para dizer algumas palavras. Lavínia, pode vir aqui, por favor?
A psicóloga esticou o braço na direção da garota, que sentiu o corpo inteiro
se aquecer. Seu peito estava inflado com tudo o que acabou de acontecer e ela
marchou até a quadra a passos firmes. Luísa passou o braço pelos seus ombros
quando a alcançou.
Lavínia encarou todas aquelas pessoas, todo o Ensino Médio da sua escola.
Alguns eram seus amigos, outros colegas; outros ela conhecia apenas de vista,
mas cada um ali tinha a sua história. Poucos eram aqueles que ela não sabia
quem era e todos a encaravam de volta, com tantas expressões diferentes que
Lavínia não registrou.
― Fique à vontade – disse a psicóloga, cedendo seu lugar.
O ginásio ficou em silêncio total e Lavínia, primeiro, apenas ficou
encarando todos aqueles rostos de volta. Respirou fundo, pensando no que Thaís
foi capaz de fazer e no quanto queria evitar que aquilo se repetisse. Pensou em
Priscila, em tudo que ela precisou aturar durante anos e no quanto aquilo era
injusto.
Eles não podiam mais fingir que não estavam assistindo aquilo acontecer
bem debaixo dos seus narizes.
― Meu nome é Lavínia Lemes e eu me recuso a ser uma vítima.
Isso, talvez, resolveria.
― Muitos de vocês devem achar que estavam me deprimindo ou me
fazendo chorar todo dia em casa ao tentarem me fazer sentir uma pi... Aquela
palavra com P – corrigiu-se, ao se lembrar de que ainda estava na escola. – Bom,
pra início de conversa, essa palavra já tá toda errada pra ser usada como
xingamento. Porque, bem, quem é você pra me dizer o que é que eu posso ou não
posso fazer? Quero dizer a todos que fizeram terror psicológico comigo, que
tentaram me fazer sentir suja ou desvalorizada, que tudo o que me causaram foi
muita raiva. Não só por mim, por eu me sentir profundamente injustiçada com
essa porcaria toda. Mas por todas as meninas que, no meu lugar, teriam sim se
recriminado, se odiado, se censurado do jeito como vocês fizeram.
Ela soltou todo o ar dos pulmões, tamanho era o sentimento de vigor que
sentia naquele momento.
― Olha só, eu tenho uma mãe que é a pessoa que me auxilia a não fazer
nada que eu não esteja confortável. Que me mostra a seriedade dos meus atos,
pra que eu não faça nada com a minha mente e o meu corpo sem saber aonde é
que tô me metendo. Por sorte, eu tenho uma mãe que me entende e não me diz
que “tenho que me comportar assim e assado porque sou menina”. E, se nem
dela eu toleraria esse tipo de pensamento, não esperem que eu tolere de mais
ninguém.
Algumas pessoas bateram palmas e gritaram palavras de incentivo lá atrás,
nas últimas fileiras da arquibancada. Lavínia ficou muito feliz quando viu que
eram Anaju, Carol e toda a turma dos Capirotos. Do outro lado, ao mesmo
tempo, Cami, Isabel e outras garotas da sua turma faziam o mesmo.
― Eu não tenho que ser bela, comportada e do lar para ser respeitada! Não
preciso ter todos os pelos raspados, estar dentro do peso ideal ou usar as roupas
da moda pra ser digna de aceitação. Eu posso, sim, ser tudo isso se for o que
escolhi pra mim, mas, se não for, mereço o mesmo respeito. Eu só queria dizer a
todos aqui nessa sala que esse é apenas o começo. Nasci em um mundo que me
considera inferior por ter uma bu... Uma genitália feminina e por isso acabo
sendo um alvo fácil para o bullying. Nesse mundo que acha que, por causa da
minha genitália, eu não posso xingar, falar alto ou ter prazeres carnais. Que
acredita que eu nasci pra servir ao meu homem e trata o meu corpo como um
objeto e não como um ser humano. Que acha que eu não mereço receber o
mesmo salário que um homem, ainda que eu exerça a mesma função, e pensa
que ter um filho é um trabalho mais meu do que do pai da criança. Eu não estou
grávida, antes que isso vire um boato imbecil também.
Algumas pessoas riram do comentário e a turma lá de cima da arquibancada
voltou a demonstrar seu apoio, ganhando mais alguns integrantes que resolveram
aderir ao movimento pró-Lavínia.
Ela se sentia tão feliz por poder dizer aquelas palavras, tão aliviada por ter a
sua voz restabelecida que, por um minuto, precisou parar e tomar um fôlego.
Precisou reorganizar os sentimentos que a invadiam e a faziam ser aquela pessoa
ali, parada diante de todo o seu colégio.
― O bullying e o machismo são coisas que eu me recuso a aceitar e, se você
pensa como eu, não permita que outras pessoas passem pelo que eu passei.
Muito obrigada.
Ela terminou o discurso, sendo aplaudida por muitos dos seus colegas. O
olhar de Lavínia se encontrou com o de Priscila, que assentia e aplaudia,
apoiando-a com afinco. A psicóloga parecia bastante orgulhosa, seu rosto
brilhava ainda mais do que antes, e ela disse:
― A partir de agora teremos um grupo de debates nessa escola depois da
aula todas as terças. Não posso obrigá-los a participar, mas seria maravilhoso
que todos viessem para que situações como essa não voltem a se repetir. Nem
com a Lavínia, nem com você ou com ninguém. Se você alguma vez já se sentiu
oprimido de alguma maneira ou se reconhece em si mesmo atitudes opressoras,
venha para o debate. A escolha é toda sua. Tenham um bom dia!
Os alunos se levantaram e o falatório voltou com tudo. Os inspetores e
professores tentavam organizar tudo para que eles voltassem para suas salas sem
que um caos completo se instaurasse, mas todos estavam comentando sobre tudo
o que acabou de acontecer, desde a atividade até o discurso de Lavi. Ninguém
conseguia ficar de boca fechada, mesmo que alguns, de fato, devessem.
A psicóloga deu um abraço em Lavínia e a parabenizou pela sua coragem.
Ela estava caminhando de volta para a massa de alunos quando foi esmagada por
Cami e Isabel de uma vez só, as duas falando sem parar sobre como ela tinha
simplesmente arrasado e o orgulho que sentiam da amiga.
E, para ser sincera, ela também se sentia orgulhosa. Nunca antes em sua vida
ela havia feito algo tão significativo, nunca antes se sentiu tão bem consigo
mesma.
E aquele, como ela própria tinha dito alguns minutos atrás, era apenas o
começo.
28. Uma Mão Lava a Outra
― Sentiu saudade? – ela perguntou daquele jeito maroto e intenso que
Eduardo já estava acostumado. Seus rostos estavam tão próximos um do outro
que ele conseguia sentir o cheiro do chiclete que ela provavelmente havia
acabado de abrir quando entrou no elevador.
Coisas com as quais o rapaz não estava acostumado: Ser rendido na parede
por uma menina de 1,61m de altura.
Ironicamente, ele gostou.
Segurou-a firme pela cintura.
― Você estava no colégio até agora?
― Nada disso, responde a minha pergunta.
O elevador parou no 11º andar – onde Eduardo morava – mas Lavínia não
deixou que ele saísse; o que o fiz rir.
― Tá me fazendo prisioneiro, guria?
― Quem tá na sua casa agora?
Ele pensou enquanto as portas se fechavam e o elevador voltava a subir.
― Meu irmão e o Diogo iam sair hoje, acho que só o Bart me espera.
― Hum – disse ela, com todo jeito de quem estava tendo ideias. Eduardo,
cauteloso, apenas esquivou uma sobrancelha. A menina se desvencilhou dele e
apertou o botão “11” de novo, quando o elevador parou no 12º andar – o dela.
Ela puxou o rapaz para fora e o guiou até a porta do apartamento, quando se
virou para ele com uma expressão maliciosa e brincalhona no rosto. – Você
ainda não respondeu se sentiu saudade ou não.
Edu se aproximou e a puxou pela cintura. Ela passou os braços ao redor do
pescoço dele enquanto os lábios envolviam os dela em um beijo com sabor de
chiclete de uva e muita tensão acumulada. Os pelos de Lavínia se arrepiaram da
cabeça aos pés e Eduardo sentia a adrenalina do seu corpo a níveis altíssimos.
― Isso é saudade suficiente pra você? – imitou o que ela havia dito na
quinta-feira e Lavínia, obviamente, riu com o senso de humor apurado do seu
crush.
Ele enfiou a chave na porta e os dois entraram no apartamento abafado e
escuro. Bart veio correndo cheio de felicidade, balançando o rabinho, e Lavínia
se abaixou para saudar o cachorrinho enquanto Edu fechava a porta e deixava
sua bolsa na mesinha de centro da sala.
Ela ria enquanto o cachorrinho fazia festa e lambia seu rosto, fazendo
carinho no pelo preto e macio. Ele saiu em disparada até Eduardo quando a
menina se levantou, exigindo que o dono se abaixasse para dar boa noite
também.
Edu, ao invés disso, o pegou no colo, fazendo muito carinho debaixo das
orelhas – onde ele mais gostava e ficava com aquela cara de eu-amo-minha-vida-
canina. Depois abriu a porta de vidro da varanda e o trancou lá fora, pedindo que
se comportasse como o bom menino que ele era.
Quando o rapaz se virou, Lavínia estava soltando o cabelo do coque já
frouxo demais para refazê-lo.
― Deixa o cabelo solto – ele disse, assim, muito despretensiosamente. A
menina parou seus movimentos e fez uma expressão de curiosidade. Edu veio
andando em sua direção e passou uma mecha dos cachos dela para trás. – Ele é
muito bonito, o seu cabelo.
Ela até podia ser o tipo de pessoa que se derrete com um comentário desses.
Mas, na realidade, o que Lavínia fez foi empurrar Eduardo, que caiu meio
sentado, meio deitado no sofá, e começar a beijá-lo. Ele a envolveu com seus
braços, pego de surpresa, mas embarcando no joguinho de prazeres e sensações.
Gostava de beijá-la, gostava do jeito impulsivo dela e sentia a química entre os
dois muito nitidamente – era quase palpável. Seus hormônios não mais
adolescentes – porém ainda muito vivos – reagiam frenéticos a tudo o que
Lavínia fazia, desde o olhar intenso até o toque dos lábios.
Ele perdia aos poucos a inibição por tocá-la e suas mãos subiram pelas
costas da garota debruçada em cima dele no sofá. Ela enganchou os dedos entre
os cabelos da sua nuca e desceu pelo seu peito, muito menos preocupada com
“respeito” do que o rapaz. Suas línguas saboreavam-se enquanto as mãos
conheciam o outro um pouco melhor, de um jeito que fazia o fogo de Lavínia se
acender.
― Tu ficasse de castigo? – ele perguntou quando os dois se afastaram um
pouco depois da sessão de beijos.
Ambos se endireitaram, com os braços por cima do encosto do sofá, virados
um para o outro. Lavínia começou a contar tudo o que tinha acontecido, desde o
castigo dos pais até o dia totalmente inesperado na escola. O modo como ela
havia se sentido ao falar no palco e depois, quando seus amigos vieram fazer as
pazes.
― E a tal guria que inventou o boato?
― Ela não foi hoje. Anaju disse que ela não responde as mensagens desde a
suspensão – Lavínia cruzou as pernas no sofá e levantou a cabeça que estava
apoiada sobre a mão. – Mas a Luísa disse que ela será a única pessoa obrigada a
ir ao debate de amanhã. Veremos.
Edu assentiu e Lavínia se aproximou mais dele, de modo que suas pernas se
tocavam. Seus braços também se encontraram em cima do encosto do sofá e ela
começou a traçar uma linha com o dedo pela pele do rapaz. Ele a encarava com
uma expressão curiosa e ao mesmo tempo fascinada. Como se ela fosse algum
tipo de objeto de estudo.
Lavínia sorriu, corando de leve, mas só havia a luz do abajur ligada na sala e
ele não conseguiu ver.
― Tu és tão madura pra certas coisas, mas, por outro lado, faz umas
maluquices que eu não entendo.
― Tipo o quê? – perguntou, encarando os pelinhos dele se arrepiarem
enquanto ela passeava com a unha levemente pelo seu braço. Eduardo podia até
fingir que nada estava acontecendo, mas a sua vontade de segurá-la e beijá-la só
não era maior do que a de entender sua cabecinha.
― Tipo quando te vi matando aula pra ficar bebendo cerveja pela rua – ele
disse, rindo e balançando a cabeça ao se lembrar. – Não sei por que você faz
isso.
Ela parou para pensar por um instante, parou até o que estava fazendo com a
unha, o que Eduardo lamentou.
― Nem eu sei te dizer, pra falar a verdade.
― Vou parecer super chato falando isso, mas qual a necessidade? Tu pode
muito bem sair com seus amigos pra beberem outro momento, já que tu bebe
mesmo, sabe? Você é uma garota muito inteligente, não devia matar aula ou
fazer essas coisas imprudentes se nem você mesma sabe o motivo.
Ela não conseguiu evitar, abriu um enorme sorriso. Eduardo não queria
bancar o responsável ou o careta – embora ele fosse, de fato, essas duas coisas –
mas não conseguia entender porque Lavínia se metia nesse tipo de situação, e se
importava com ela o bastante para dizer o que pensava.
Ele achou que ela fosse chamá-lo de bobo ou zoá-lo pela sua caretice, estava
até mesmo preparado para isso, levaria com o seu bom humor despreocupado de
sempre – embora ela não conhecesse muito bem esse lado da sua personalidade
já que, normalmente, estava sempre preocupado ao lado dela.
Mas não agora.
O que Lavínia fez, entretanto, foi dizer:
― Talvez você tenha razão.
Ele deu um beliscão carinhoso no braço dela, mais contente do que
imaginava.
― Você é um cara bastante sábio, Eduardo... Eduardo do que mesmo?
― Eduardo de Almeida Becker.
― Uau, que nome bonito – ela elogiou e ele fez uma reverência com a
cabeça, agradecendo. – Mas então, você é um cara muito sábio, Eduardo Becker.
Eu queria ser focada e inteligente como você, saber o que quero pra mim tanto
quanto você.
― Talvez tu não estejas pronta pra isso. Eu sempre estive pronto, nunca tive
dúvidas de como queria que fosse meu caminho. Mas, por outro lado, ainda sou
muito mal resolvido com coisas que você lida muito bem.
― Tipo...?
― Tipo isso aqui.
― Por causa da nossa diferença de idade?
Ele negou com a cabeça.
― Isso como um todo.
Lavínia franziu o cenho.
― Ficar com alguém?
― Eu não sei me envolver com pessoas – ele assumiu e, para seu próprio
espanto, não se sentia nem um pouco desconfortável. – Eu fico com pessoas,
mas não me envolvo com elas e não é porque não quero. Não sei se consegue me
compreender.
Mas ela compreendeu. E seu coração deu um salto com a perspectiva de
que, com ela, ele estava se envolvendo.
― Bom, talvez nós devêssemos ajudar um ao outro com essas questões.
Eduardo sorriu e a envolveu com seus braços, puxando-a para juntinho dele.
― Acho que essa pode ser uma ótima ideia.
Os dois continuaram no sofá, ora beijando, ora conversando sobre as mais
variadas coisas. Eduardo adorava ouvir as histórias de Lavínia, o jeito como ela
conseguia trazer diversão para qualquer situação corriqueira. Também adorava o
modo como ela se envolvia com os personagens dos animes e das séries que
assistia – os dois sempre discutiam sobre Sense8, Orphan Black e How to Get
Away with Murder, porque eram as séries que mais gostavam dentre as que
assistiam em comum.
Ela disse que ele precisava dar uma chance aos dramas coreanos, inclusive
já tinha uma lista pronta – começando pelos históricos, que era a praia dele. Já
Edu a incentivou a começar de uma vez a maratona de How I Met Your Mother
que ela sempre adiava por algum motivo. Quando João chegou em casa – o
maior viciado em HIMYM que Eduardo conhecia – reforçou o coro de que não a
deixaria em paz até que Lavínia começasse.
Ele havia chegado com Calíope e uma porção gigantesca de batata
australiana e cebolas empanadas de um restaurante que descobriram ali perto de
casa. Diogo tinha saído com Apolo e algumas modelos e Lavínia foi convidada
para jantar com eles, mas precisava ir para casa antes que a sua mãe tivesse um
chilique.
Então Edu a acompanhou até o elevador do seu andar, ainda tendo que ouvi-
la insistir o tempo inteiro para ele se render à Coreia. Ela só sossegou quando ele
propôs uma troca.
― Que tipo de troca? – perguntou interessada.
― Tu me diz aí um desses dramas, um que você goste bastante, e eu te
indico uma série também. Mas não pense que será HIMYM porque essa você já
ia assistir de qualquer jeito.
― Você vai me indicar uma série histórica chata pra me fazer sofrer, não
vai, Eduardo de Almeida Becker?
Ele abriu um sorrisinho travesso.
― Uma minissérie de uma temporada só. E nada chata, prometo.
― Sobre a família Romanov, imagino eu.
― Ha Ha – forçou uma risada e cutucou a barriga da menina, implicante. –
Muito engraçadinha. Mas não, é sobre a Segunda Guerra, quem não ama
histórias baseadas na Segunda Guerra?
― Você soa muito como um psicopata quando começa a falar assim sobre
Guerras e Revoluções.
Mas ele nem deu bola à implicância zombeteira dela, apenas a puxou para
um beijo de despedida quando o elevador chegou.
― Trato feito? – perguntou.
Lavínia suspirou teatralmente e, é óbvio, concordou.
― Espere meu pen drive amanhã mesmo com todos os vinte e seis episódios
de Boys Over Flowers pra você, guri.
― É piá.
― Como?
― No Paraná se fala piá, não guri.
Lavínia soltou uma gargalhada enorme, porque, convenhamos, não dava
para conter.
― Que tipo de palavra doida é essa? Isso é português? Eu amo o Sul!
― Bem capaz!
Os dois se despediram e cada um voltou para o seu apartamento com aquela
sensação gostosa que as pessoas só sentem depois de passarem um tempo com
outras. Naquele dia, Eduardo foi dormir mais leve do que as penas do seu
travesseiro.
29. Madrastas Más
O primeiro grupo de debates na terça-feira havia sido um tremendo sucesso.
Lavínia foi uma das primeiras a chegar à sala e encontrou as carteiras
organizadas de modo a formarem um círculo. Thaís já estava lá, sentada de
braços cruzados e uma cara nada feliz no rosto. Ela e Lavínia trocaram um olhar
breve, mas a garota logo desviou, encarando os próprios dedos.
Algumas meninas do nono e do terceiro ano também já haviam chegado e
Luísa batia um papo informal com elas. Cumprimentou Lavínia, Cami e Isabel
assim que as viu e as três se sentaram juntas.
Ao todo, vinte e seis pessoas compareceram, o que não era muito se você
pensasse na quantidade de alunos do nono ano e do ensino médio, mas era muito
mais do que a expectativa de Luísa para aquele primeiro encontro – o que a
deixou muito feliz.
Ela começou se apresentando de novo e pedindo que todo mundo fizesse o
mesmo, dizendo o nome, a idade, o ano em que estava e, se quisesse, o motivo
pelo qual decidiu vir. Uma menina do terceiro ano confessou ter passado por
uma situação parecida à de Lavínia no seu colégio antigo e um garoto do
primeiro falou sobre o preconceito que ainda sofria por ser gay, mesmo que as
pessoas nem se dessem conta de que as piadinhas que faziam o ofendiam.
Algumas meninas foram valentes e admitiram terem julgado Lavínia e até
ajudado a perpetuar o bullying, mas que se sentiam tremendamente arrependidas
agora. Houve casos de baixa autoestima, de inconformismo e também os
curiosos, interessados puramente em debater. Havia as meninas declaradamente
feministas, muito contentes por esse tipo de movimento estar acontecendo na
escola. A maioria do grupo era composta por mulheres e a penúltima garota a se
apresentar estava falando quando alguém bateu na porta.
― Dá licença, nós ainda podemos entrar? – disse Anaju, colocando a cabeça
para dentro. – Nos confundimos com o horário.
― Mas é claro que sim! Puxem essas cadeiras que estão sobrando – disse
Luísa.
Anaju, Carol, Fabrício, André e Paulo entraram na sala como uma manada e
arrastaram suas cadeiras. Todos eles trocaram um olhar com Lavínia, como se
quisessem dizer que o motivo principal por estarem ali era ela. A garota sorriu de
volta para os amigos, muito satisfeita com isso, mas logo sua mente vagou até
Thaís. Ela percebeu que a menina encarava os antigos amigos também, com uma
expressão muito dolorida no rosto, e não conseguiu evitar se sentir mal por ela,
mesmo depois de tudo.
Luísa começou puxando um debate sobre o feminismo e os direitos da
mulher na sociedade. Cada um falou o que achava e alguns pensamentos
divergentes resultaram em uma discussão longa e acalorada.
― Não sei dizer se sou feminista – uma menina disse, com sinceridade e um
pouco de timidez. – Porque assim, eu defendo os direitos da mulher, mas não só
da mulher, sabe? Não me considero feminista porque eu defendo a igualdade.
― Mas o feminismo é justamente isso – uma das garotas já engajadas no
movimento, Fernanda, explicou. – Buscar a igualdade entre os gêneros, entre
todos eles, seja homem ou mulher ou qualquer outro.
― Então por que vocês não vão atrás dos direitos dos homens também? –
um garoto perguntou.
― Porque não é preciso! Os homens já têm os seus direitos estabelecidos na
sociedade, é a mulher quem tá em desvantagem, somos nós que precisamos subir
alguns degraus pra conseguirmos estar no mesmo nível social que um homem.
― Sem contar que o feminismo atinge os direitos dos homens sim, do
mesmo jeito que o machismo também os afeta – a amiga ao lado da Fernanda,
Malu, complementou. – Da mesma maneira que defendemos que as mulheres
podem ser tanto empresárias, quanto donas de casa ou motoristas de ônibus, os
homens também estão “autorizados” a fazer o que bem entenderem, mesmo
sendo coisas ditas “feitas pra mulher”.
― Essa diferença entre coisa de menino e coisa de menina me dá nos nervos
– confessou Anaju. – Eu tenho um irmãozinho de cinco anos e ele é obcecado
pela Pequena Sereia, mas meu pai não aceita de jeito nenhum.
― Que nem a minha mãe censurando minha prima – uma menina do
primeiro ano concordou. – Minha prima é considerada “dada” e “perdida” na
minha família porque ela gosta de usar roupas curtas, mesmo estando na moda, e
está sempre ficando com alguém. Segundo minha mãe, isso não é bem visto e
não é coisa de moça direita.
Houve um burburinho de comentários na sala.
― Mas, sei lá, é um pouco feio mesmo ficar pegando todo mundo assim e
usar essas roupas de piriguete. A menina tem que se dar ao respeito porque
senão nenhum cara vai levar ela a sério além de “garota pra pegar” – uma garota
da turma de Anaju disse, causando certo desconforto por parte de outras
meninas.
― Flávia – Luísa interveio. – Você acha que um rapaz não está se dando
respeito quando ele fica com duas ou três meninas numa mesma festa?
Flávia encolheu os ombros.
― Bem, não – respondeu e logo percebeu sozinha a incoerência no seu
discurso anterior. Se não é feio para um homem, por que deve ser feio para uma
mulher?
― Você deixaria de levar um garoto a sério para namorar se soubesse que
ele faz esse tipo de coisa ou pelas roupas que ele usa? – Luísa insistiu e a
resposta de Flávia tornou a ser negativa. – Então isso é um problema. Essa ideia
de que garotas precisam ser recatadas para serem levadas a sério.
― É diferente comigo – Cami acrescentou e todo mundo olhou para ela,
fazendo a menina corar até o couro cabeludo. Lavínia segurou a mão da amiga,
encorajando-a a continuar. – Eu não gosto desse tipo de atitude, acho besta sair
por aí pegando qualquer coisa que se move. Mas eu acho isso “feio” – fez as
aspas com os dedos – seja a pessoa homem ou mulher. Porém também acho que
qualquer um tem o direito de fazer o que quiser, só não me atrai.
Luísa assentiu.
― Sim, isso é um traço da sua personalidade, não um tipo de segregação. É
o que você vê como bom para si mesma. O problema está na relativização,
quando algo é normal para um gênero, mas malvisto para outro. É, inclusive,
esse tipo de pensamento que leva a coisas como a justificação do estupro. Vira e
mexe ainda escutamos pessoas reagindo ao estupro de uma mulher com frases
como “ah, mas ela estava provocando”, “com essa saia curta, o que ela queria?”.
― Isso não faz mesmo o mínimo sentido – Lavínia ouviu Paulo dizer, dentre
todas as pessoas concordando.
― A sociedade devia ensinar seus homens a não estuprarem ao invés de
mandarem suas mulheres se precaverem – ela disse. – Ninguém pede pra ter o
seu corpo violado, a própria definição do estupro é o não consentimento do ato,
então só aí já começa a falta de coerência.
― Eu nunca tinha parado realmente pra pensar sobre isso – alguém disse.
― Bem, é por esse motivo que esse grupo existe – Luísa afirmou. – Pra
gente pensar sobre tudo isso.
A conversa continuou seguindo até que parou em um tópico sensível.
Lavínia fez muita força para não deslizar seu olhar até onde Thaís estava quando
Luísa começou a puxar uma discussão sobre competição feminina.
― Vocês já repararam sobre como nos filmes Hollywoodianos uma mulher
é sempre colocada contra a outra? Nós temos a mocinha e sua antagonista,
ambas geralmente disputando por alguma coisa, seja um homem, uma promoção
no emprego ou beleza e popularidade. E não são competições saudáveis, nós
constantemente vemos mulheres tentando sabotar as outras, se comparando a
outras o tempo inteiro como se nascessem para ser rivais.
Dessa vez, deu para notar que a quantidade de pessoas que jamais tinham
parado para pensar no assunto era maior. Mas Luísa, como dissera, estava ali
para isso, para provocá-los, para apertar os pontos sensíveis talvez nunca vistos e
esperar as reações.
― Existe o senso comum de que garotas são competitivas entre si, né –
alguém disse, divagando. – Como se fosse algo natural.
― E vocês acham que é natural?
Os adolescentes naquela sala olharam uns para os outros, pensando no que
achavam e tentando encontrar respostas nos colegas. Thaís se encolheu mais
ainda, com os braços cruzados, como se tentasse sumir dali. Anaju não foi tão
resistente quanto Lavínia, e seu olhar estava preso na antiga amiga. Já Lavínia,
mordia o canto da unha do dedo indicador.
― Eu não acho – Fernanda foi a primeira a se manifestar. – É claro que é
normal competir, mas não no nível em que acontece no universo feminino.
― E isso gera tanta falsidade e tantos problemas de socialização – outra
pessoa concordou. – A partir do momento que existe essa comparação, alguém é
sempre visto como melhor que o outro. As meninas podem se sentir intimidadas
e inferiores, outras podem, por outro lado, agir como se fossem superiores e isso
é um tipo de segregação.
― Quais das meninas aqui alguma vez já se sentiram intimidada ou
ameaçada por outras garotas serem mais bonitas ou mais magras ou mais
“populares” do que você?
Todos se entreolharam novamente e Flávia foi a primeira a levantar a mão
timidamente. Cami, Malu, Lavínia e todas as outras meninas, uma a uma,
levantaram suas mãos e espantaram-se ao notar, no final, como sem querer
estavam inseridas nessa estatística terrível. Thaís foi a última a se pronunciar e
todos olharam para ela quando fez isso. Os garotos pareceram solidários, embora
um pouco assustados com o resultado.
Luísa encarou todos eles com uma expressão agridoce.
― Isso é terrível, né?
― Seria tão mais fácil se não houvesse essa pressão para ser “melhor” do
que as outras – Isabel disse. – Não sei se tô certa ou errada, mas será que não
tem a ver com o machismo também? Com o fato das mulheres terem sido vistas
por muito tempo como apenas um ornamento?
― Feitas para serem bonitas, contempladas, como um troféu – Nathan, o
rapaz do primeiro ano que sofria com as piadinhas por ser gay, concordou. –
Sem uma utilidade além dessa.
― Pode ser que sim – Luísa ponderou. – Não podemos descartar a ideia.
Mas a grande pergunta é como lidar com essa questão tão enraizada que a gente
nem percebe que está acontecendo. Como disse, está nos filmes, na televisão...
Em todos os lugares. Existe sempre uma garota “ruim” para infernizar a vida da
mocinha.
― Isso me lembrou de quando meu irmão traiu a ex-namorada – Carol
comentou. – Meu irmão é um idiota, mas a ex dele queria matar a menina com
quem ele a traiu e não ele. O ódio dela foi todo pra garota que eu nem sei se
sabia que meu irmão tinha uma namorada. Ela a ameaçou e tudo, foi uma coisa
horrível.
― Esse é um ótimo exemplo – Luísa assentiu.
― Parece que estamos programadas pra pensar que outra mulher está
prestes a roubar algo de nós. O namorado, os amigos, o emprego...
― Mas isso não é verdade – Anaju se pronunciou, encarando Thaís
enquanto falava. Todo mundo percebeu e ficou em silêncio absoluto. Carol e os
Capirotos também encaravam a menina. – As pessoas deviam enxergar o oposto,
enxergar a soma e não a substituição. Ninguém vai parar de ser amigo de alguém
porque fez outra amizade também. Se parar, essa pessoa é uma babaca e não
merece sua amizade, pra início de conversa.
― É isso aí – Fabrício reforçou, apertando o braço da amiga de infância, em
apoio. – Vocês são tão maravilhosas, meninas. Não precisam competir, não
precisam se enxergar como Madrastas Más umas das outras. Sejam todas
Brancas de Neve amigas e poderosas.
Todos caíram na gargalhada com o comentário dele, mas o papo acabou se
encerrando por ali, já que o horário do final da reunião tinha chegado. Os
adolescentes estavam tão envolvidos com a conversa que nem perceberam o
tempo passando e lamentaram o término – até mesmo os Capirotos, as pessoas
que ninguém imaginava ver naquela sala.
Eles todos vieram direto até Lavínia enquanto várias outras pessoas que nem
se conheciam direito antes ainda conversavam entre si, dispersando-se para ir
embora.
― Lavagirl, eu senti tanta saudade! – disse Fabrício, o louco. – Abraço
grupal! – ele propôs e não precisou dizer mais nada.
Em questão de segundos, Paulo, Anaju, André e Carol estavam esmagando
Lavínia em um abraçado superestranho e cheio de “awwwn” zombeteiros dos
meninos. Eles não deixaram as três meninas saírem de dentro do abraço, que
começaram a protestar. Só conseguiram se libertar quando Anaju deu uma
cotovelada na costela do amigo de infância.
― Que bom que vocês vieram – Lavínia disse. – E me desculpa mesmo por
ter desconfiado da amizade vocês – pediu sincera; seu olhar fixando-se
principalmente em Anaju e Paulo.
― Tô feliz da gente poder ser amigo de novo – ele disse, abraçando a
menina de lado. Ela passou o braço pela cintura dele, apertando-o também e
suspirando aliviada por poder fazer isso de novo.
― E pra comemorar, socialzinha na minha casa no sábado – Anaju bateu
palmas e levantou os braços, animada como sempre era. Apontou pra Lavínia
com um jeito mandão. – Ai de você se não for, mocinha.
― Ei, vocês também estão convidadas – Fabrício falou mais alto, dirigindo-
se a Cami e Isabel, que conversavam um pouco afastadas à espera de Lavi. As
duas foram totalmente pegas de surpresa.
― É verdade, vocês estão sempre com a Lavagirl, mas nunca nos falamos –
Carol franziu o cenho e riu, achando aquilo mega louco. – Venham pra social no
sábado.
Cami e Isabel se entreolharam, depois fitaram Lavínia, que tinha um brilho
esperançoso inegável nos olhos. É claro que queria poder juntar todos os seus
amigos, nunca fizera isso antes por causa do preconceito de Cami com eles. Mas
isso, aos poucos, estava mudando.
― Beleza, a gente aparece por lá sim – Cami disse, o que fez Fabrício sorrir
maroto e apontar a mão para ela como se fosse uma arma, piscando um dos
olhos como se estivesse mirando.
― Só quero ver, hein, Rapunzel.
É claro que Cami começou a corar.
Mas ninguém deu importância para isso naquele momento, porque Thaís se
aproximou sorrateiramente do grupo. O ar descontraído se esvaiu e todos a
encararam, sérios, sem saber o que dizer. Ela olhou nos olhos de cada um dos
antigos amigos – inclusive Lavínia, se é que elas já foram amigas um dia.
E disse:
― Será que a gente pode conversar?
30. Fantasmas
Uma das situações mais bizarras que aconteceram na vida de Eduardo
Becker foi quando ele se deu conta de que Lavínia e seus alunos tinham a
mesma idade. Alguns deles, – os do terceiro ano – inclusive, eram até mais
velhos do que a menina. Ele se perguntava como é que era possível garotas da
mesma idade terem um apelo tão diferente assim.
Quer dizer, para Eduardo, seus alunos eram suas crianças. Não importava
quantos anos tivessem, na verdade. Ele jamais conseguiria se imaginar olhando
para eles de uma maneira diferente do que essa; os via como uma extensão – às
vezes indesejada – dos seus múltiplos irmãos mais novos. E nada o causava mais
terror na vida do que imaginar Lavínia no meio da sua sala de aula.
Ele pediria demissão. Com toda certeza pediria.
Estava aí duas coisas que jamais poderiam se misturar para o rapaz.
Então imagine a confusão em seu cérebro quando uma de suas alunas – uma
das mais inteligentes, diga-se de passagem – começou a falar sobre tal drama
coreano histórico que começou a assistir e super se lembrou da aula em que Edu
promoveu um debate sobre ditaduras e comunismo. Para espanto da menina, o
professor já havia ouvido falar do tal drama – quem será que contou para ele? – e
confidenciou que foi desafiado a assistir um tal chamado Boys Over Flowers –
quem será que o desafiou?
A aluna, que se chamava Rebecca, quase teve um ataque histérico. Porque
aquele, aparentemente, era um dos seus dramas preferidos.
Adivinha com quem ela teria muito assunto para conversar?
Eduardo estremeceu só com a ideia.
Ele e Lavínia mal se viram ou se falaram durante o resto da semana –
porque ela ainda estava de castigo, com o celular confiscado pelos pais e
pouquíssimo tempo para fugir de casa e fazer uma visita rápida a ele. Seus
horários simplesmente não batiam; ela ficava a tarde inteira de bobeira, sem os
pais em casa para vigiar o bom cumprimento do castigo, – que envolvia mantê-la
dentro de casa – mas esse era justamente o período do dia em que Edu estava
ocupado dando aulas.
As aulas, aliás, estavam indo muito bem, obrigado. Eduardo estava
empolgado, pesquisando assuntos a ver com a matéria escolar para debater com
os alunos e maneiras interativas de fazê-los prestar atenção e gostar da aula de
verdade. Teve longas conversas com Clara, sua madrasta e ex-professora
preferida, sobre as ideias que andava tendo e como estava sendo sua experiência.
Concordou com ela sobre o quanto era revigorante lecionar para o ensino médio,
ele ficava extasiado cada vez que percebia o poder formador sobre esses
adolescentes que tinha em suas mãos.
Sabia, por experiência própria, que um bom professor era capaz de mudar a
vida de alguém. Não apenas por ser um bom explicador da sua matéria, mas por
ser capaz de passar adiante os valores da educação, de ampliar a mente daqueles
jovens e fazê-los refletir sobre os mais variados temas sob uma nova perspectiva.
Com a História, ele tinha um leque infinito de opções. Já pensava nos
próximos temas polêmicos para promover debates, já que a conversa sobre
ditaduras no segundo ano teve um ótimo resultado. Clara, obviamente, o apoiava
e estava louca para que ele voltasse a Assunção e os dois pudessem conversar ao
vivo.
Por sorte, ele estava indo para lá na sexta-feira. João Augusto e Calíope
iriam junto e as gêmeas também embarcariam de volta naquele fim de semana –
já que as duas, assim como todos os outros, saíram de casa para fazer faculdade.
Otávio e Clara mal estavam sabendo lidar com mais filhos longe do que perto,
uma vez que agora só sobraram quatro naquela casa gigantesca.
Foi difícil quando Hélio e Apolo voltaram para o Rio no ano passado –
pouco tempo depois de Guto sair para viajar pelo mundo. Mas no início desse
ano, quando as gêmeas e Calíope deram adeus a Assunção, foi que o coração dos
progenitores doeu de verdade.
Dessa vez, não estariam todos reunidos novamente – já que Apolo estava
viajando a trabalho e Hélio preso com um projeto da faculdade. Mas Edu estava
mesmo era morrendo de saudade dos pequenos e das suas loirinhas, as gêmeas
Stella e Patrícia. Fazia quase dois meses que ele não os via, já que, com o agito
da mudança de Guto, não foi pra casa nenhuma vez em fevereiro. Só agora,
quase no fim de março, conseguiu se organizar para tal.
Se havia algo pelo qual Eduardo era apaixonado, era pela sua família.
Talvez fosse o modo como Otávio, seu pai, havia mantido ele e os irmãos
unidos depois da morte da mãe. Eles já eram uma família feliz e cheia de amor
antes, mas precisaram se apoiar ainda mais uns nos outros para superarem a
tragédia. Como filho mais velho, ele se sentia mais responsável e os irmãos de
sangue sempre o admiraram muito. Eles sempre foram todos muito amigos e, por
sorte, isso se aplicou aos irmãos postiços que vieram depois também.
― Você não disse que tinha parado de fumar? – Edu perguntou ao amigo
quando tirou um cigarro do pacote. O rapaz acendeu com um isqueiro verde
florescente e soltou a fumaça para cima, segurando o canudo branco entre o
indicador e o dedo médio.
― Parei de fumar em Curitiba, nós estamos em Assunção. Aliás, que
retrocesso, hein. Agora entendo porque tu vivias insistindo pra que eu saísse
daqui logo.
Edu riu e deu um gole na sua cerveja. Ele e Jeff eram amigos desde
pequenos, como quase todo mundo em Assunção começava seu ciclo de
amizades. Ao contrário de Edu, o rapaz nunca se encaixou na cidadezinha de
interior, embora nunca tivesse procurado por aceitação de qualquer maneira. Ele
era conhecido pelo seu cabelo excêntrico – um moicano pontudo azul com as
laterais da cabeça meio raspadas – e as unhas que sempre pintava desde que
ouviu Thiago Oliveira dizer no sexto ano que isso era “coisa de menina”.
“De menina uma ova”, foi o que pensou. Chegou em casa, pintou as unhas
com o esmalte vermelho da mãe por pura rebeldia contra o sistema, mas acabou
gostando de verdade do resultado. A primeira pessoa que procurou para mostrar
a façanha foi Eduardo – pedalou até o antigo casarão dos Becker e mostrou as
mãos para o amigo como quem exibe uma obra de arte. O pequeno Edu franziu a
testa, achando meio estranho a princípio, mas as unhas coloridas combinavam
tanto com Jeff que era como se ele já tivesse nascido assim.
― Tu sabes que não era por isso – Edu respondeu um pouco mais alto por
causa da música. Era dia de Rock dos anos 70 no Beco, o bar descolado de
Assunção, e uma banda de quarentões se apresentava no palco, distante da mesa
dos rapazes. – Mas você passou tempo demais fazendo nada por aqui, nunca
achei que logo tu fosse sentir medo de ir embora.
Jeff soltou a fumaça de novo e balançou os ombros.
― Nem todos nós, pobres mortais, nascemos Eduardo Becker. Bonito, rico e
decidido. Por que nós nunca namoramos mesmo? Eu devia ter dado em cima de
você ao invés de virar seu amigo.
― Talvez seja esse o meu segredo não descoberto para me dar bem em
relacionamentos.
― Por falar em relacionamentos – Jeff se aproximou da mesa, o cigarro no
meio da boca enquanto falava e um olhar irônico por trás dos óculos de armação
amarela. – Nossos antigos amigões do peito voltaram pra casa nesse fim de
semana. Tu recebesse o convite pra festa na casa da Nah amanhã?
Edu trincou o maxilar e expirou pelo nariz, repousando no encosto da
cadeira.
Jeff soltou a fumaça de novo e balançou os ombros.
― Tô sabendo, sim. Cruzei com o Renato hoje quando cheguei e ele me
chamou.
― A Miss Monogamia tá aí e perguntando por ti. Acho que levou um pé do
namorado ricaço que ela exibia como se fosse um chihuahua no Facebook. Você
viu a última foto? – Jeff perguntou e começou a rir. – Os dois foram pra Bali
juntos.
Edu deu outro gole na sua bebida, tenso à menção da dita cuja. Não gostava
de falar dela, nem de nada que o lembrasse do papel de trouxa que prestou por
quase um ano inteiro. E certos “amigos” que sabiam de tudo e nunca contaram
nada para ele agiam como se fosse muito normal.
Não, obrigado.
Jeff era a única pessoa dos tempos de colégio com quem Eduardo ainda se
relacionava. Ele nunca gostou dos outros amigos próximos do rapaz, mas não
criava caso porque não queria chatear Edu. Quando descobriu a baixaria que
Carla – a ex-namorada do mal, Miss Monogamia – estava fazendo, entretanto,
foi o primeiro a descer o barraco e dizer todas as boas verdades que guardou
durante anos.
― Não sei por que você andava com essa gente que claramente só estava
interessada no status da sua família.
― Ser Eduardo Becker não é assim tão glamoroso, afinal de contas.
Jeff encarou o amigo com cara de tédio e soltou a fumaça na cara dele dessa
vez, fazendo-o tossir e reclamar.
― Pra você acordar pra vida – explicou. – A Miss Monogamia não merece
te deixar magoado até hoje, piá.
Edu se remexeu desconfortável na sua cadeira. Ele vinha encarando os
próprios sentimentos desde a semana passada, tentando entender por que agia do
jeito que agia e como fazer para ser diferente do que o incomodava tanto. Mas
não era assim tão fácil quanto Calíope fazia parecer.
― Não estou magoado. Ela só me incomoda, não gosto de lembrar que isso
aconteceu.
― Talvez se você tivesse colocado pra fora ao invés de simplesmente virar
as costas e nunca mais falar sobre isso, se sentisse diferente agora.
Era verdade que ele simplesmente disse “estamos terminados” e literalmente
virou as costas para Carla e seus pedidos de perdão e segunda chance. Era
verdade também que ele nunca dissera de fato, com palavras verbalizadas ao
invés de pensamentos, como se sentia com tudo aquilo – nem mesmo para João
Augusto.
Ele não sabia o que dizer, como dizer ou por que dizer. Estava na cara –
literalmente, mais uma vez – a sua humilhação e decepção. Sua “mágoa”, como
dissera Jeff. Mas o rapaz enterrou aquilo tão fundo dentro de si mesmo que
acabou lhe trazendo consequências inesperadas.
Consequências que alteraram a pessoa que ele costumava ser antes.
― Talvez a gente devesse ir nessa festa pra você virar essa página de uma
vez por todas – Jeff sugeriu. – Dizer na cara dessa oportunista que tu não é
nenhum lulu da Pomerânia.
Edu franziu o cenho e soltou uma risada pelo nariz.
― Não quero ter nada a ver com essa gente. Me deixa aqui quieto no meu
canto.
Jeff apagou seu cigarro no cinzeiro e dedicou sua atenção inteiramente ao
amigo, cruzando as mãos em cima da mesa como se estivesse pensando na
melhor maneira de explicar o óbvio a uma criança.
― Dudu, meu amigão – começou. – Tu sabes que eu te amo e espero ser o
padrinho do seu segundo filho, já que o primeiro vai ser do Número 2 – era
assim que ele chamava Guto. – Mas, pelo amor de Jeová, quando é que você não
fica quieto nesse seu canto? Tu não estás de castigo, tu és a porcaria do dono da
porra toda nessa cidade e fica aí agindo como se precisasse pedir desculpas por
respirar alto demais. – Jeff bateu a palma das duas mãos na mesa, fazendo Edu
piscar. – Enquanto você não parar de se esquivar dessa ferida horrível, não vai
conseguir se libertar.
Eduardo ficou olhando para o amigo todo trabalhado em discursos
motivacionais e não soube o que dizer. Várias coisas se passaram pela sua
mente, mas nenhuma delas ficou por tempo suficiente. Ele era um misto de
sentimentos ambíguos: a dor e a frustração do passado, sua necessidade de
evadir toda vez que se sentia pressionado demais por sentimentos ruins ou bons,
a bola de neve que acabou se tornando, sua incapacidade de se conectar com
alguém novamente. O pé atrás que havia em confiar, a segurança confortável em
se manter distante, as chaves trancando-o por dentro.
Tudo isso caindo do elevador em queda livre quando ele começou a
conhecer Lavínia.
O rapaz piscou, um pouco atordoado por esse último pensamento. O coração
bateu forte no peito e ele deixou escapar um arfar. Carla o incomodava, mas
dessa vez não parecia ser tanto quanto antes. Algo estava diferente, ele estava
diferente. Se fosse antes, o rapaz amarraria a cara e, em um tom sombrio, pediria
para mudar de assunto antes que ele pudesse começar direito.
Mas ali estavam eles discutindo sobre a possibilidade de Eduardo dizer a ela
tudo o que ficou entalado por anos.
Ele não iria, é claro que não. Não se sentia nem um pouco preparado para
isso. Mas estava falando.
― Eu sei que meu cabelo nunca esteve tão bonito, mas eu já tô ficando com
medo – Jeff disse, fitando o amigo com desconfiança. Eduardo, que estivera
encarando o nada por cinco minutos, o fitou de volta com o rosto um pouco
vermelho e um jeito de quem acabou de descobrir a pólvora.
― Vamos pedir comida? Eu meio que estou faminto.
― Isso sim é que é um encontro.
Os dois continuaram conversando sobre suas vidas e relembrando os velhos
tempos, achando estranho estarem ali juntos no Beco depois de tantos anos.
***
O fim de semana seguiu todo pacífico – ou o máximo que isso fosse
possível em uma casa cheia de irmãos como a de Eduardo – e ele conseguiu
matar a saudade das suas crianças.
Lavínia finalmente saiu do castigo naquele sábado e mandou uma foto para
ele usando orelhas de gatinho em uma festa com os amigos. Eduardo respondeu
mandando uma foto dos pés em meias azuis para cima do sofá, com as irmãs
Hipólita, Stella e Maia ao fundo na sessão de cinema em família da noite. Todos
estavam espalhados pela sala e havia pipoca até mesmo dentro do ouvido do
rapaz.
De volta ao Rio, ele saiu bem mais cedo de casa na segunda, pois tinha
combinado de ajudar Duda com um trabalho de uma matéria que ele já tinha
feito no semestre anterior – e passado com louvor. Ainda com o rosto amassado
e seu copo de café da Starbucks cheio e fumegante, nenhum resquício de sono
sobrou dentro dele quando abriu a porta do elevador.
― Eduardo! Há quanto tempo não nos esbarramos – disse a voz feminina.
O sangue do rapaz gelou na mesma hora e seu rosto perdeu a cor. Ele
encarou as duas mulheres dentro do elevador, relativamente parecidas, e suas
sobrancelhas se esquivaram tanto que quase tocaram a raiz do cabelo.
Lavínia e seus olhos azuis intensos o encaravam de um jeito malicioso-
tentando-ser-contido. Ao seu lado, sua mãe tinha um sorriso simpático
estampado no rosto, o mesmo que sempre exibia ao encontrar o vizinho que
tanto gostava.
Ele pensou seriamente em fechar a porta, voltar para casa e fingir que aquilo
nunca aconteceu.
Engoliu em seco, o rosto agora formigando enquanto a cor voltava com
tudo. As engrenagens da sua mente rodavam sem parar e ele balbuciou alguma
coisa esquisita enquanto saía da inércia e entrava no elevador da morte. Jamais
sentiu tanto pânico na vida ao dar três pequenos passos e ver a porta de metal se
fechando.
Sinais de alerta piscavam na sua mente enquanto ele sentia o olhar
totalmente inapropriado de Lavínia em sua direção. Se houvesse uma
competição das situações mais embaraçosas que o rapaz já teve que passar na
vida, aquela com certeza venceria sem nenhum esforço.
Ah, meu Deus.
― Como vai, querido? Nossas rotinas não nos deixam mais nos
encontrarmos.
Até o presente momento, ele não tinha parado para pensar no quanto isso era
um alívio, dadas as circunstâncias. Bem, a sorte não dura para sempre e uma
hora isso aconteceria.
Eduardo só não tinha pensado nisso antes. Imagens da própria língua dentro
da boca de Lavínia poucos dias atrás invadiam sua mente como flashes enquanto
a mãe dela conversava com ele sobre o clima dentro de um cubículo de quatro
paredes.
Ele nunca se sentira tão culpado antes na vida.
Onde é que fora se meter?
A garota, ao contrário dele, parecia se divertir horrores com a situação.
Permaneceu em silêncio durante toda a viagem, mas com cara de quem estava
mordendo a língua para não soltar um comentário, provocando-o com o olhar
descaradamente.
Ele nem se permitiu olhar na direção dela – Deus o proíba – e deu graças
quando as duas continuaram no elevador rumo ao estacionamento. Ele saiu no
térreo.
Soltou um suspiro de alívio tão grande que ficou um minuto inteiro parado
no hall do prédio pensando no que acabara de acontecer. Ele, a ficante de
dezesseis anos e a mãe dela dentro do elevador. Teresa o achava um exemplo a
ser seguido, um amor, uma gracinha. Ha! Ah, se ela soubesse...
Eduardo balançou a cabeça, estremecendo só de imaginar. Quase fez o sinal
da cruz e se imaginou sendo exorcizado pela mãe – e pelo pai! – de Lavínia
antes de conseguir terminar a frase “eu posso explicar!”.
Felizmente não seria naquele dia. Mas, infelizmente, agora ele não
conseguia evitar pensar no fato de que andava beijando uma menor de idade
debaixo do nariz dos pais dela sem que eles sequer soubessem.
Eduardo estava ficando às escondidas.
E aquilo parecia muito, muito errado.
Com uma sensação de incômodo amarrando-o por dentro, ele foi em direção
ao metrô para encontrar a amiga na faculdade. Mas não conseguiu parar de
pensar sobre isso.
31. Miau!
― Então quer dizer que ele tá afim dela? – Lavínia teve que se controlar
para não falar alto demais, mas a situação não era muito favorável.
Primeiro porque o salão de festas do prédio de Anaju estava cheia de
conhecidos do colégio e a música alta ecoava do som. A mãe da garota sempre
pedia para a filha reservar o salão quando ela chamava gente demais para as
sociais na sua casa – o que era o caso dessa vez porque eles precisavam
“comemorar com estilo” as resoluções das últimas semanas.
Alguns alunos do terceiro ano maiores de idade haviam contrabandeado
cerveja e toda a galera dançava, conversava e fazia algazarra juntos. O bom do
salão de festas era que ele ficava no mesmo andar do play e da piscina, então
havia adolescentes espalhados por cada cantinho do andar.
Lavínia não estava bebendo dessa vez. As palavras de Eduardo haviam
entrado em sua cabeça e ela começou a se perguntar o motivo de fazer tudo o
que fazia. Nem ela mesma sabia por que bebia cerveja, já que não curtia muito o
gosto nem sentia nenhum efeito. Então simplesmente decidiu que não beberia e
ponto final.
Sua mãe ficaria orgulhosa.
Anaju a havia puxado para fora do salão, onde o som estava menos alto e as
pessoas mais espalhadas. Lavi estava ansiosa, começando a ficar animada agora
que a informação da amiga fazia efeito.
― Ai, meu Deus! – vibrou, dando uns pulinhos nervosos e empolgados. Os
olhos de Anaju também estavam brilhando. Lavínia sacudiu o braço dela. – Me
conta isso direito.
Anaju passou uma mecha do cabelo chanel castanho para trás da orelha
segurando os braços de Lavínia para que ela parasse quieta e escutasse com
atenção. Fitou-a nos olhos.
― Ele disse pra mim que a achava muito bonita. Perguntou pra mim se eu a
conhecia direito e se eu achava que ela viria hoje, coisa e tal.
Lavínia comprimiu os lábios em uma linha fina e balançou as pernas. Os
olhos vagaram até onde conseguiam alcançar, a procura da sua ruiva de farmácia
preferida. Ela e Isabel haviam ido juntas ao banheiro porque a segunda estava
paranoica por causa da menstruação que decidiu descer justo hoje.
― Você sabe como ele é – Anaju continuou falando, chamando a atenção de
Lavínia novamente. – Ficou só rodeando ao invés de falar com todas as letras
que tá afim dela e tudo mais – revirou os olhos e balançou a cabeça, rindo do
amigo. – A pior pessoa! Por isso tô te convocando pra intervir nisso comigo. Cê
acha que ele tem alguma chance?
Lavi mordeu o lábio, pensando no assunto. Não queria deixar as esperanças
daquele ship maravilhoso morrerem, mas precisava ser realista.
― Bem, ela nunca beijou ninguém. E não que seja uma romântica
incorrigível, mas nunca rolou um momento com alguém que ela quisesse. Então
eu não sei.
Anaju cruzou um braço e segurou o queixo com o outro, analisando a
situação que se abria diante dela. Ana Julia Paiva não era o tipo de garota que
desistia de uma situação quando ela ficava difícil, muito pelo contrário. Ela fazia
o mundo girar do jeito como queria, não importava o quanto custasse.
― Voltamos – a voz de Cami as assustou e as duas meninas trocaram um
olhar cúmplice antes de disfarçarem a conversa anterior. – Por que vocês estão
escondidas aqui?
Lavínia deu uma olhada na sua melhor amiga e ela estava realmente muito
linda. Usava um cropped colorido que combinava perfeitamente com a cor
laranja do cabelo enorme e sedoso. Seu short jeans moderno marcava a cintura
alta e os acessórios e coturnos pretos só completavam seu look tipicamente
hipster.
― Estávamos falando sobre o Lucas Santiago – Anaju improvisou, embora
aquele assunto realmente tivesse sido pauta da conversa antes de ela mencionar a
paixonite de Fabrício. – Ele quer ficar com ela, mas a doida não tá afim.
― Você não tá afim do Lucas? – Isabel quis confirmar, cética. Ele era um
dos garotos mais bonitos da escola na opinião das três amigas, e ela não podia
acreditar que a Lavínia que conhecia fosse dispensá-lo sem um motivo
convincente.
As três meninas a encaravam, esperando uma resposta. Antes que Lavínia
pudesse dizer alguma coisa, entretanto, Cami arregalou os olhos, entendendo
tudo.
― Não vai me dizer que é por causa do Bonitão?
― Quem é Bonitão? – Anaju perguntou.
― O vizinho gato – Isabel respondeu agora ainda mais interessada na
resposta de Lavínia.
Anaju esquivou uma sobrancelha e seu olhar malicioso não precisava de
nenhuma legenda. Lavínia nem tentou esconder o sorrisinho de satisfação em
resposta.
― Sua safada! – Anaju congratulou, empurrando o braço da amiga. – Mas
vocês já estão nessa? Não quer pegar ninguém por causa dele?
― Não! – ela foi rápida em corrigir, fazendo um gesto com as mãos. – Não
é isso. A gente tá ficando e tal, mas eu não quero um namorado agora. Tem sido
bem fofo e eu gosto do jeito como as coisas estão, assim, sem complicações.
Mas eu não quero ficar com ninguém hoje porque eu quero curtir vocês. Porque
tem coisas mais importantes na vida do que beijar todos os garotos da escola.
― Awn – Isabel a abraçou de lado. – Como você tá madura, miga.
― E tem a coisa com o Paulo, né? – Anaju ponderou. – Vocês já
conversaram sobre... Bem...
Sobre ele ter sentimentos por Lavínia. Não, eles não conversaram.
A garota suspirou.
― Nem sei se é uma boa ideia, acho melhor só deixar isso passar. Mas eu
não quero mesmo ficar com outra pessoa na frente dele ainda. Eu gosto demais
do Paulo, vocês sabem.
Anaju afagou o ombro da amiga, compreendendo.
― Faz todo sentido, miga.
Cami ainda não parecia muito satisfeita. Ela cruzou os braços e sua testa
estava franzida.
― Esse cara, o Bonitão. O que ele tá querendo com você? – perguntou
preocupada. Não queria que sua amiga se metesse em roubada e, conhecendo
Lavínia, essa não era uma opção muito absurda. – Tem certeza de que ele é
confiável? Quer dizer, ele é bem mais velho...
― Ele me trata com muito cuidado – Lavínia assegurou. – Cuidado até
demais. Já pensei algumas vezes em ir pro próximo nível com ele, mas acho que
ele ia querer me excomungar se eu sugerisse alguma coisa do tipo – riu. – Fica
apavorado por causa da minha idade.
― E sua mãe sabe que vocês estão ficando?
As três meninas encararam Cami na mesma hora, Anaju parecia
desconcertada.
― O que é? Eu não conheço o cara, como posso confiar? – defendeu-se a
ruiva. – Tudo o que sei é que ele é um homem e ainda é professor! Sei lá.
― Mas ele conhece a sua mãe, não conhece? – Isabel perguntou à Lavínia.
― Sim! Meu pai também, ele é nosso vizinho há anos, meus pais o adoram
– disse. Não queria que Cami tivesse receios quanto à integridade de Eduardo.
Logo Eduardo! A pessoa mais certinha e cheia de princípios que ela conhecia.
Mas no mundo como estava, cheio de homens mais velhos tentando se
aproveitar de garotas como elas, Lavínia entendia as dúvidas da sua amiga
responsável.
Ela sempre foi, afinal de contas, a voz da sua consciência.
― Eu ficaria mais tranquila se a sua mãe soubesse do que está acontecendo,
sabe? – Cami sugeriu, tentando não soar muito neurótica enquanto se explicava.
– Minha irmã já foi aliciada por um personal da academia que frequentava
quando tinha quinze anos. Na época ela achava que ele estava caidinho por ela,
mandava mensagens superinapropriadas por celular, insistia pra eles marcarem
de sair juntos qualquer dia desses e tal. Ele devia ter uns vinte e cinco, vinte e
seis anos e convenceu minha irmã de saírem, finalmente. Ela se sentiu muito
especial por ser notada por um cara mais velho. Ele dizia que ela era uma garota
especial, diferente das outras da idade dela. Ao mesmo tempo, ela também se
sentia um pouco insegura ao lado dele, ela era ainda mais nova do que eu sou
agora! E muito deslumbrada. Enfim, no fim das contas, ele dava em cima de
todas as menininhas da academia, foi processado pelo pai de uma da idade que a
minha irmã tinha, porque ele leu as mensagens no celular da filha. Deu o maior
rolo, minha irmã ficou super mal, e nada disso teria acontecido se ela tivesse
conversado com nossa mãe lá no início.
Todas ficaram em silêncio por um momento e até mesmo Anaju, a doidinha,
precisou concordar que Cami tinha razão. Elas não conheciam Eduardo e não
eram um adulto responsável para julgar a situação como apropriada ou não. É
claro que existiam caras mais velhos que se apaixonavam por meninas mais
novas, até porque nem sempre a idade quer dizer alguma coisa. Mas havia
também muitos homens mal intencionados e meninas que caíam na sua lábia e se
davam muito mal depois.
O cuidado nunca era demais.
É claro que Lavínia não queria contar para sua mãe sobre Eduardo. Não por
se sentir constrangida, ela já contou para a mãe antes sobre meninos. Mas porque
não sabia que atitude ela teria e o que Lavínia menos queria era apressar as
coisas com Edu. Transformar aqueles momentos maravilhosos que os dois
tinham em uma coisa com proporções e seriedades muito maiores do que o
necessário.
Ela não queria estragar tudo.
Mas não podia simplesmente fechar os olhos e fingir que não concordava.
― Bom, acho que o que a Cami disse faz todo sentido – Anaju concordou,
mas não queria trazer seriedade demais para sua festa. Queria, na verdade,
arranjar um jeito de fazer Cami deixar a seriedade por um instantinho, se é que
dá para entender. – Mas não é hora para discutirmos isso! Discutiremos amanhã
que é domingo.
― Sim, vamos nos divertir agora – Isabel assentiu. – E se você não quer o
Lucas Santiago, miga, dá pra mim!
― Você geralmente fica mais interessada por meninas, miga – Cami riu. –
Tá tudo bem?
― Eu gosto das duas frutas, como vocês sabem. E o Lucas Santiago, nossa,
você já olhou pra ele?
Anaju riu e passou um braço pelo ombro de Isabel, como se já fossem
íntimas há muito tempo.
― Você quer mesmo? – perguntou incisiva. Mediu a menina da cabeça aos
pés e assentiu, aprovando. – Eu posso totalmente fazer isso acontecer, você tá
um arraso hoje.
― Ei, vocês aí! – Carol gritou, vindo em direção a elas com Thaís ao seu
lado. Fabrício estava logo atrás, carregando uma caixa de papelão.
Quem olhava a cena jamais diria que, em algum momento, houve problemas
entre aquelas meninas. Thaís havia pedido desculpas e dito que se sentia muito
envergonhada pelo seu comportamento, mas que estava aprendendo a ser uma
pessoa melhor, a vencer seus problemas com Lavínia e outras garotas em geral.
Deus abençoe o grupo de debate.
É claro que ela havia sido perdoada. Primeiro porque fora sincera nas suas
desculpas e segundo porque elas não tinham aprendido justamente sobre o
quanto garotas deveriam ser amigas umas das outras ao invés de rivais como
galos de briga?
Deus abençoe a sororidade.
Thaís ainda se sentia um pouco hesitante, mas ela estava aprendendo a se
descobrir. Trocou um olhar com Lavínia, que sorriu, a fim de deixar bem claro
que não existia mais nenhum tipo de ressentimento entre elas.
Carol abriu a caixa nas mãos de Fabrício e tirou de lá vários arcos com o
contorno de orelhas de gatinho em cima, feito por miçangas brancas que
imitavam pérolas – exatamente iguais aos que a Taylor Swift usava no clipe de
22. Ela entregou um para cada garota, radiante.
― O que é isso? – Cami perguntou curiosa, olhando o objeto em suas mãos.
― Sua identidade felina – Fabrício respondeu brincalhão.
Ele largou a caixa de papelão no chão e tirou o arco das mãos da ruiva falsa,
colocando-o gentilmente na cabeça dela. Cami ficou paralisada, provavelmente
corando, enquanto os dedos do garoto tocavam de raspão a sua pele. Fabrício
esboçou um sorriso torto, fitando-a nos olhos um pouco encabulado – o que não
era nada típico dele.
As outras meninas da rodinha se entreolharam, sentindo o clima que surgiu
de repente. Anaju e Lavínia trocaram um olhar desesperado de empolgação,
como se agora tivessem certeza de que não poderiam deixar isso para lá de jeito
nenhum.
― Enfim – Carol continuou. – Vamos, gatinhas. Coloquem suas orelhas e
vamos dançar a nossa música.
Elas obedeceram.
― E que música seria essa? – Lavi perguntou, o que fez brotar um sorriso
satisfeito nos lábios de Carol.
― Solta o som, DJ! – gritou ela.
Então a música que tocava foi substituída por Like a Cat, uma das músicas
de K-pop que Lavínia mais gostava – do seu girlgroup preferido, AOA. Carol a
puxou pela mão e a rodopiou; as duas começaram a fazer a coreografia que Lavi
estava ensinando a elas, antes de acontecer toda a confusão que as separou.
Em questão de minutos todas elas estavam alinhadas – as que sabiam e as
que não sabiam dançar – se remexendo no ritmo da música. Alguém gritou
incentivando as meninas e logo, pouco a pouco, toda a festa estava olhando para
elas e dançando também. Aquela não era uma música muito conhecida, mas os
movimentos das meninas acabaram contagiando todo mundo que estava por
perto.
Carol pegou a caixa de Fabrício e puxou Thaís para que elas fossem entregar
os outros arcos para as meninas da festa. Todas colocaram suas orelhinhas, rindo,
imitando gatinhas e se juntando para dançar também. Os garotos aplaudiam e
assobiavam, também entrando no clima da dança. Elas batiam palmas e
cantavam na hora do “La La La” e Lavínia, Anaju e Isabel faziam os passos da
música – se divertindo tanto que mal cabiam dentro de si. Fabrício havia puxado
Cami para dançar com ele, usando uma orelhinha de gato nos cabelos escuros
também.
Paulo e André apareceram com Thaís e Carol quando elas voltaram, mas a
essa altura a festa inteira parecia a mesma rodinha, na mesma sintonia, batendo
palmas e cantando “La La La” aos risos. E Lavínia se sentiu tão completa
naquele momento que ela o teria feito durar para sempre.
32. Eduardo e Lavs
Talvez não tenha sido a ideia mais sensata Lavínia ter indicado aquele drama
coreano para Eduardo. A princípio, o rapaz não levou a sério. É claro que veria
porque prometera a ela, mas tinha certeza de que não seria nada demais.
Provavelmente mais uma dessas séries bobinhas com um romance clichê, mas
carismático, que caem nas graças das pessoas por algum motivo desconhecido.

Ele com certeza não estava esperando tanto drama – embora, depois tenha
parado para pensar, muito sabiamente, que esse era de fato o nome que aquele
tipo de produção recebia. Portanto, não deveria ter sido uma surpresa assim tão
grande.

Mas foi.

Uma maior ainda quando ele se viu preso na maldita da história de amor
proibido, melodramática e exagerada da Geum Jan Di e do Go Jun Pyo. Com
direito a um triângulo amoroso de partir o coração, quase-afogamentos
heroicamente impedidos no último segundo, lutas entre gangsters e acidentes
que resultam em amnésia.

Parecia demais. Parecia excessivo. Parecia um insulto à sua inteligência.

Eduardo estava viciado.

Havia sido sugado por inteiro pela onda de emoções que era aquela história
absurda, sem nenhuma maneira de voltar atrás e recuperar todas as horas da sua
vida passadas em frente à TV assistindo-a.

O que é que estava acontecendo com ele, meu Deus? Sem sombra de dúvidas
o seu cérebro havia sido hackeado.

Mas o rapaz não estava mais em condições de ligar para isso ou qualquer
outra trivialidade. Tudo o que queria era assistir ao próximo episódio e saber se
finalmente Jan Di e Jun Pyo ficariam juntos. Estava no sofá abraçado a Bart
assistindo aos episódios finais – porque havia simplesmente devorado tudo nos
últimos dias, e contou as horas para chegar em casa do trabalho e conseguir
terminar.

― Você não acha que seria uma boa ideia, tipo, tomar um banho? – João
Augusto perguntou, implicando com o novo vício do irmão. Eduardo não queria
dar pause para ouvir o que ele tinha a dizer, então simplesmente fez um gesto
para que se calasse, os olhos vidrados na televisão.

― Shhh! Não me desconcentra, piá. Não me desconcentra.

― Acho que ele está doente – Diogo sugeriu. Ele e Guto encaravam o homem
mais velho com surpresa e diversão.
― Ah, meu Deus! – Eduardo exclamou, se aproximando da TV num
rompante, sentado na ponta do sofá. Endireitou os óculos que saíram do lugar e
Bart escondeu o rosto entre seus braços. – Vá logo falar com ela! – apontou pra
TV, em um debate sério com os personagens do drama. – Inacreditável!

― Pode apostar – Diogo concordou, rindo alto do seu "inquilino".

― Vocês dois não têm ideia do que é esse programa, tem magia negra nisso
aqui – exclamou, quase a ponto de roer as unhas tamanho era seu desespero.
Demorou apenas um segundo dedicando sua atenção aos outros dois garotos do
Sul e voltou para a televisão, onde a coisa realmente parecia estar no ápice da
emoção.

Uma garota coreana chorava muito feio.

― Tu só não se atreva a indicar isso pra Cali, ouviu bem? – Guto advertiu,
cruzando os braços. Mas a verdade é que ele mesmo espiava a TV, curioso com o
que é que tanto fizera seu irmão sair dos eixos e agir como se fosse uma fangirl.

Diogo, ao seu lado em posição semelhante, fazia exatamente a mesma coisa.


Os dois se entreolharam, se dando conta do que estava acontecendo, e desviaram
o olhar na mesma hora.

Guto coçou a garganta.

― Vou indo lá encontrar os gêmeos.

― E eu vou cortar o abacaxi.

Os dois se dispersaram, seriamente cogitando a presença de alguma obra


sedutora de Satanás por trás daquele drama coreano. Deixaram Edu e Bart
sozinhos para saborearem com liberdade o final de Boys Over Flowers, gritando
com a TV e sentindo o coração acelerado quase sair pela boca. O rapaz estava
em completo estado de êxtase quando terminou. Deixou os créditos rolando, sem
saber como se expressar verbalmente com coerência depois de tantos
sentimentos ao mesmo tempo. Mandou uma mensagem para Lavínia,
anunciando o término, e em dois minutos a garota estava batendo na porta dele.
Eduardo deixou Bart no chão e se levantou quase correndo. Quando abriu a
porta, sua expressão de completo torpor fez a menina gargalhar. Ela envolveu o
pescoço dele e o puxou para baixo, dando um beijo em seus lábios macios.
Entrou no apartamento muito satisfeita consigo mesma, e se jogou no sofá onde
ainda estava o cobertor de Eduardo.

― Eu sei – ela disse quando ele tentou se explicar. – Assistir Boys Over
Flowers é um teste e você passou com louvor, meus parabéns. Foi iniciado com
sucesso nos dramas coreanos.

Edu ainda estava agitado quando se sentou ao lado dela. Despejou tudo o que
tinha achado sobre o drama e sua experiência inesperada ao assisti-lo.
Discutiram alguns pontos sobre a história e por sorte concordaram sobre a
maioria – principalmente o quanto odiavam a mãe malvada do Jun Pyo.

― Eu não sei se quero ou não quero que você me indique outro – ele confessou,
fazendo a garota rir mais uma vez. Os dois agora estavam na cozinha, ela
sentada na cadeira atrás da bancada e ele fazendo um sanduíche. Lambeu os
dedos sujos de requeijão e se virou para ela. – Tô meio traumatizado, mas de um
jeito bom. Faz sentido?

― Faz todo – Lavínia assentiu. Não conseguia tirar os olhos do modo como a
língua dele tocava os dedos despretensiosamente, limpando a comida. Ela
mordeu o lábio e se levantou, dando a volta na bancada e afastando o prato com
o sanduíche.

Eduardo esquivou uma sobrancelha e pousou as mãos nos quadris dela, em um


movimento muito natural. Eles se moveram de modo que Lavínia ficou presa
entre a pia e o corpo do rapaz; ela pegou impulso e sentou em cima do mármore,
prendendo o rapaz com suas pernas. Edu subiu as mãos pelas coxas da menina e
alcançou a cintura novamente, segurando-a firme como sempre fazia.

― Escalando pias agora, guria?

Ela sorriu e sugou os lábios dele, ainda sujos de requeijão no cantinho. Queria
pegar os dedos dele e lamber ela própria – mesmo que agora eles estivessem
limpos, mas a vontade ainda crescia dentro dela como uma erva daninha.
Quando Eduardo usou esses mesmos dedos para apertar sua cintura, Lavínia se
sentiu satisfeita e insatisfeita ao mesmo tempo.

Satisfeita porque ele a pegava de um jeito que era uma coisa de louco.

Insatisfeita porque ela sabia que ele, ainda que se permitisse viver aquilo, agia de
um jeito muito contido. Como se houvesse um limite que ele não ultrapassava –
enquanto Lavínia queria perfurá-lo com tudo.

Ela o segurou pela nuca quando o beijo se intensificou, agarrando os cachinhos


da parte de trás da cabeça porque já tinha descoberto que aquele era um dos
pontos sensíveis do rapaz. Ele espalmou as duas mãos no azulejo atrás dela e
inclinou o corpo enquanto sua língua e a dela descobriam novas aventuras
maravilhosas e enervantes. Seu corpo latente formigava e a tensão nas suas
costas definidas não deixava enganar o quanto ele a queria.

Lavínia desceu as mãos por essas mesmas costas, debaixo da camiseta verde,
querendo que ele a tocasse assim também. O contato da sua pele na de Eduardo
– quente, muito quente – era revigorante e a garota espremeu seu corpo no dele
mais ainda.

Os lábios do rapaz desceram pelo pescoço dela, com uma vontade ousada, e
chegaram até a clavícula. Lavínia arfou e jogou a cabeça para trás, agradecendo
quando as mãos de Edu tocaram seus braços, se encaixaram na curva da sua
cintura. As dela queriam arrancar a camiseta dele fora, e a garota quase se
desesperou quando ele se esquivou.

― O que foi? – perguntou, alcançando seus lábios macios de novo, puxando-o


pelo pescoço. Nunca parecia o suficiente.

Edu a beijou de volta, em uma nítida batalha entre deixar acontecer o que tivesse
que acontecer e impor um limite ele mesmo. Às vezes queria ser capaz de
esquecer certas coisas, mas, se esquecesse, ele não mais seria Eduardo Becker.
Seria um estranho debaixo da sua pele, alguém pelo qual ele não teria nenhum
orgulho.

O rapaz se afastou, entrelaçando os dedos nos de Lavínia e encostando a testa na


dela. Suas veias pulsavam sangue quente por todo o corpo e ele precisou de
alguns segundos para recuperar o fôlego, para deixar a razão fazer efeito.

― Não sei se devo ou não ficar ofendida – ela disse.

Eduardo abriu os olhos e afastou o rosto para fitá-la. Os azuis de Lavínia


faiscavam com a intensidade característica, mas havia também um quê de
chateação. Edu suspirou e tirou os óculos, pressionando o nariz com o polegar e
o dedo indicador. A garota descruzou as pernas do corpo dele, deixando-o o
livre, e segurou a pia com as duas mãos.

― Não é pessoal. Você sabe disso, eu só...

― Você assume que, por eu ser nova, sou uma garota pura – ela o cortou.
Eduardo parecia mais tenso até do que ela imaginava, mas Lavínia não se
intimidou. – Minha virgindade já foi embora há algum tempo, Edu, e eu queria...

― Para – ele impediu que ela continuasse. Se afastou da pia, encostando no


balcão da cozinha americana que havia em frente. Os dois se encararam em um
silêncio pesado e Eduardo expirou com força. Passou a mão pelo cabelo
cacheado, como se não soubesse o que fazer com seus sentimentos tão
convergentes.

― Qual é o problema? – Lavi perguntou por fim.

― Não posso fazer isso – ele admitiu, traído pelos solavancos do coração em
protesto. – Não posso mesmo. E é tão irônico porque eu finalmente me sinto
preparado.

Ele se aproximou dela e pousou as mãos nos seus joelhos, aqueles joelhos
ossudos demais para uma garota com o corpo carnudo como o de Lavínia. Um
corpo que Eduardo tentava ignorar; tentava resistir a todo o momento a vontade
de senti-lo sob suas mãos e lábios. E aquela vontade reprimida o consumia de
um jeito angustiante.

Ele engoliu em seco, fazendo movimentos circulares com os dedos nos joelhos
dela. Um toque simples, mas que fazia a garota querer puxá-lo de novo para
lambê-lo por inteiro. E como.

Ele encarava os joelhos, os olhos fixos naquele ponto. Lavínia arfou contida,
saboreando o silêncio bem-vindo, impondo barreiras à sua volúpia que queria
tanto se derramar sobre ela até não restar nenhum pedacinho de si imune.

Edu encarou seus olhos azuis e nada precisaria ser dito. Estava estampado,
escrito nos castanhos dele sem espaço para ambiguidades. Ele a queria. Ele a
desejava e se sentia culpado por isso.

Ela poderia até fingir que, apesar de tudo, não se sentiu aliviada pela certeza.
Mas para o raio que o parta com o fingimento.

― Mas por que não pode? Eu já disse, você não é o primeiro. Eu gosto de você,
eu queria poder fazer as coisas sem complicações, sem elas precisarem tomar
proporções tão gigantescas – desabafou. Eduardo entendia.

― Eu sei disso – disse, sentindo-se, de repente, triste. – Mas eu não acho que
seja possível entre nós. Não sem eu me sentir mal, sem eu trair a pessoa que eu
sou.

Lavínia passou os dedos pelo cabelo dele, admirando o quanto Eduardo Becker
conseguia ficar ainda mais lindo quando estava vulnerável. Ambos sentiam o
coração tamborilar, presos na solução que não conseguiam encontrar.

― O que é que te impede?

― A gente não tem nada sério.

― Mas isso é a coisa mais normal no século XXI, seu bobo.

― Eu sei que é – ele concordou, tentando achar as palavras que melhor


explicassem a sua frustração. – Mas não sei como olhar pra tua mãe se a
gente... Bem. – Era impressão dela ou Edu estava corando? – Eu me sinto
estranho só de pensar, como se estivesse me aproveitando de ti. Tu és tão nova,
Lavínia. E tu podes até ser madura pra isso e não ser mais virgem, mas o modo
como eu me sinto também importa. Eu jamais conseguiria – ele desabafou,
sendo mais sincero do que ambos esperavam, ao se despir dos seus medos.
Eduardo, naquele momento, era um livro aberto. Ele apertou os joelhos dela. –
Ao mesmo tempo, não suporto o fato da sua mãe não saber o que está havendo
entre nós dois. Me sinto sujo... Um moleque.

Foi em Cami que Lavínia pensou na mesma hora. Na dúvida da amiga sobre as
intenções do rapaz e também em como ela provavelmente ficaria satisfeita com o
modo como ele se sentia. Ele queria que a mãe de Lavínia soubesse e aquilo era
tão tipicamente Eduardo que Lavínia não conseguiu evitar sorrir.

― Eu vou contar pra minha mãe – ela disse. – Já tinha me decidido, ia te falar
hoje. Mas pra ser bem sincera, eu mesma não sei o que está havendo entre nós
dois. E eu não queria ter que saber, ter que racionalizar. – As mãos dela
desceram lentamente pelo peitoral dele. – Queria apenas viver isso.

― Eu sei – ele passou uma mecha do cabelo dela para trás da orelha,
contemplando seu rosto tão bonito e cheio de uma energia visceral. Lavínia era
uma força da natureza que chacoalhou a sua vida inteira; tremeu como trovões,
arrancou telhas como tempestade, inundou-o como uma enchente devastadora.

Ele adorava aquela garota, cada pedacinho dela. Adorava sua força, sua
personalidade forte e sua persistência. Adorava sua língua afiada e o senso de
humor sempre ligado. Adorava o fato de que ela o puxava para fora da caixa
onde havia se escondido, mesmo sem se dar conta de que fazia isso.

Sobretudo, Eduardo adorava a versão de si mesmo que era quando estava com
ela. A versão que teve de encontrar escondida dentro das suas portas fechadas e
cadeados para sequer conseguir ficar com ela.

Ele era livre. Como não se sentia há muito tempo.

Mas, ainda assim, ele ainda era ele.

Talvez tenha sido a sensação de liberdade que o invadia cada vez mais, ou talvez
fosse o momento de sinceridade absoluta. Mas o fato é que, independentemente
do motivo, Eduardo sentiu uma necessidade muito grande e impulsiva de dizer a
ela um detalhe sobre si mesmo que não costumava compartilhar com as pessoas
em geral.

Eduardo Becker, afinal, era um cara reservado.

― Sabe – começou, sentindo o coração bater mais forte. – Eu


nunca... Bem. Nunca...

O sorriso no rosto dela diminuiu até o momento em que se apagou


completamente. Seus olhos se arregalaram e Edu comprimiu os lábios em uma
linha fina, já arrependido daquele momento de impulsividade. No que ele estava
pensando? Provavelmente não estava.

Primeiro Lavínia ficou chocada, paralisada com a boca levemente aberta. Sua
mente ficou em branco por três segundos e ela piscou, sem acreditar naquilo que
a tal mente a levava a acreditar.

― Nunca?

Ele era um homem saudável de quase vinte e dois anos, a pessoa mais bonita que
a garota já conheceu na vida. Dono de um sotaque que fazia calcinhas se
abaixarem no primeiro "tu", inteligente demais para o próprio bem e simpático
sem fazer esforço algum.

Como é que isso era possível?

Não era possível.

Edu trincou o maxilar, o coração batendo forte pela... Vergonha? Não. Não era
essa a palavra. Ele não se envergonhava disso, foi uma decisão dele mesmo.
Nunca teve vontade com ninguém depois do fim do seu namoro, nunca surgiu
um momento oportuno e em que as travas que o impediam de se conectar com as
mulheres dessem uma trégua.

Eduardo Becker era virgem. E não havia nada de errado com isso.

Mas é claro que, ao contar a novidade para a garota com quem ele admitiu
minutos atrás que sentia, pela primeira vez em anos, vontade de verdade de
deixar essa castidade para trás, ele se sentiu inseguro.

O que Lavínia fez, entretanto, foi rir. E aquilo soou deveras desconcertante aos
ouvidos dele, diga-se de passagem.

O rapaz a encarou, alerta, sem saber o que esperar em seguida. Aquela menina
era mesmo uma caixinha de surpresas ambulante.

Ela puxou a cabeça dele e o beijou, subindo o pé descalço pela sua perna de um
jeito travesso e sensual ao mesmo tempo.

― Nós não poderíamos ser mais opostos, né? – disse. – Quem um dia irá dizer
que existe razão nas coisas feitas pelo coração?

Ele riu, relaxando aliviado com o trecho da música da Legião Urbana saindo dos
lábios dela como um acordo de que estava tudo bem. Edu beijou o a bochecha
dela, depois o cantinho da sua boca.

― E quem irá dizer que não existe razão? – continuou.

Lavínia encarou aquilo com um desafio prontamente aceito. Seus olhos


faiscaram e ela apoiava os braços despretensiosamente sobre ombros dele. Edu,
como de costume, a segurava pela cintura. Toda a seriedade da conversa havia
evaporado e eles eram de novo apenas eles, aproveitando os momentos simples
da vida.

― Eduardo abriu os olhos, mas não quis se levantar, ficou deitado e viu que
horas eram – cantou ela, agora no ritmo da música. –
Enquanto Lavínia surrupiava uma cerveja no outro canto da cidade como eles
disseram...

Edu soltou uma gargalhada alta que iluminou a cozinha inteira. Ele pensou por
um segundo e entrou jogo.

― Eduardo e Lavs um dia se encontraram sem querer e conversaram muito


mesmo pra tentar se conhecer.
― A guria da facul do Eduardo que disse "tem uma festa legal e a gente quer se
divertir".

― Festa estranha com gente esquisita, "eu não tô legal, não aguento mais birita"
- cantou ele, encolhendo os ombros em desculpas por não ter conseguido alterar
nada nessa parte da letra.

Lavínia apenas esquivou a sobrancelha, provocando-o com um sorriso.

― E a Lavínia riu e quis saber um pouco mais sobre o boyzinho que tentava
impressionar.

― E o Eduardo, meio tonto, só pensava em ir pra casa "Amanhã eu tenho que


trabalhar"!

― Eduardo e Lavs trocaram telefone depois telefonaram e decidiram se


encontrar. A Lavínia sugeriu uma lanchonete, mas o Eduardo queria ver o filme
do Goddard – ela revirou os olhos teatralmente e ele riu.

― Se encontraram, então, no centro da cidade, o Eduardo de metrô e a Lavínia


de bicicleta.

― O Eduardo achou estranho e melhor não comentar, mas os fones da menina


estavam altos à beça!

― Eduardo e Lavs – continuou ele, empolgando-se na performance. – eram nada


parecidos, ele era de Gêmeos e ela tinha dezesseis.

― Ele fazia História e falava russo e ela ainda nas aulinhas de inglês.

― Ela gostava de AOA e Red Velvet – disse, fitando-a com um olhar incerto se
havia dito os nomes dos grupos de K-pop corretamente. Lavínia assentiu
impressionada e orgulhosa. – de dramas coreanos e defendia o feminismo.

Ela beijou os lábios dele antes de continuar.

― E o Eduardo gostava de leitura e assistir How I Met Your Mother com o seu
irmão.

― Ele falava coisas sobre o Planalto Central, também cultura e revoluções – Edu
continuou.

― E a Lavínia ainda tava no esquema escola, cinema, crushes, televisão.

― E mesmo com tudo diferente veio mesmo, de repente, uma vontade de se ver
– os dois cantaram juntos e riram juntos de si mesmos.

Lavínia então foi mais rápida e disse o próximo verso:

― E os dois se encontravam no elevador e a vontade crescia como tinha de ser!

Edu a abraçou e beijou seu pescoço, tirando dela uma risada gostosa. Os dois
fecharam os olhos e abriram o coração, se beijando como se aquele fosse o
primeiro beijo que estivessem dando na vida. A juventude e as incertezas
corriam pelas veias de ambos como se fossem uma oração à vida e, naquele
momento, ficaram gratos por terem se conhecido e mudado tanta coisa um no
outro.

Não continuaram a brincar com o resto da música. Em parte porque havia coisas
mais interessantes a se fazer, mas, principalmente, porque o resto da história dos
dois ainda não estava escrita.

E isso era bom.

.
33. Crescendo
Lavínia estava sentada na cadeira da sua escrivaninha, sem saber o que
esperar. No fim das contas, ela se sentia aliviada e satisfeita consigo mesma por
ser sincera. Quer dizer, era realmente complicado continuar aquela situação sem
contar para sua mãe: primeiro porque suas amigas não confiavam em Eduardo.
Segundo porque o próprio Eduardo detestava a posição em que se encontrava.
A garota passou o dia inteiro pensando no melhor jeito de dizer à sua mãe
que estava dando uns pegas no vizinho universitário e queria continuar assim.
“Ei, mãe, sabe o Edu? Tô pegando”. Ela não fazia ideia de qual seria a reação da
sua progenitora porque, por um lado, ela mesma era apaixonada pelo rapaz. Por
outro lado, ela ainda era uma mãe, e mães se preocupavam com possíveis
situações delicadas envolvendo seus filhos.
Cami, Anaju e Isabel obviamente a ajudaram.
― Você podia dizer que ele demorou pacas a se deixar levar pelos
sentimentos – Isabel propôs, para concordância de Anaju. – Quer dizer, é
verdade, não é?
― Sim, é sim.
― Pelo amor de Deus, não vá mentir – Cami advertiu, vestindo seu melhor
olhar de pessoa sensata. – A chave pro sucesso é a honestidade, senão sua mãe
não vai te levar a sério.
― Já pensou se ela surta e te proíbe de continuar vendo o Bonitão? – Anaju
se amedrontou. É claro que Lavínia já tinha pensado nisso.
― O certo é contar – Cami permanecia irredutível. Todas sabiam que ela,
pra variar, tinha razão. – Não importa o que aconteça.
― Sua mãe ainda pode ser legal e só, sei lá, pedir pra você ter cuidado? –
Isabel tentou ter esperança.
Lavínia mordia a unha do dedo indicador, matutando todas as opções
possíveis pós-confissão. Bem lá no fundo, ela já sabia exatamente o que sua mãe
ia fazer, mas não gostava muito dessa possibilidade. Era melhor do que a
proibição total, mas arruinava o tipo de relacionamento que ela queria manter
com Edu. Obrigaria os dois a darem passos em direção a algo que a fazia, na
verdade, querer sair correndo. Não porque ela tinha medo de alguma coisa,
Lavínia não era o tipo de pessoa que se acovardava. Mas porque ela tinha o
direito de querer o que queria, de desejar uma coisa ao invés de outra, e de se
sentir frustrada e incomodada quando o curso parecia seguir uma direção
diferente.
Infelizmente, como Cami dissera, não havia outro jeito. Ou ela contava para
a mãe ou contava para a mãe, e teria que pagar para ver o resultado.
Bem lá no fundo, ela sabia que estava caminhando em direção a um beco
sem saída, à uma encruzilhada onde precisaria fazer uma escolha definitiva e já
sentia nostalgia pelas coisas do jeito que foram até agora.
Bem lá no fundo, ela sabia que tudo estava prestes a mudar.
Lavínia suspirou.
― Vou ter que pagar pra ver – Lavínia disse por fim, dando uma mordida no
seu croissant de frango.
Terça-feira era dia de reunião do grupo de debates e muitas caras novas
se juntaram a eles naquela semana. Aparentemente a notícia de que a reunião
tinha sido incrível se espalhou por todo o colégio, e muita gente finalmente se
animou para ir conferir. Luísa estava muito orgulhosa e feliz, mas não só ela.
Tanto Lavínia e seus antigos amigos, quanto os novos colegas que estava
fazendo graças ao grupo, também sentiam muito orgulho do que estava
acontecendo na sua escola.
Eles se sentiam revolucionários. Sentiam-se irrefreáveis.
Uma galera combinou de ir lanchar depois que a reunião terminou, mas
Lavínia preferiu voltar para casa. Ela estava muito tensa e não ia conseguir se
divertir, era melhor tentar se concentrar para quando sua mãe chegasse. Cami
achava que sair era justamente o que ela deveria fazer para se acalmar, mas
Lavagirl não estava no clima.
Agora, encarando sua mãe sentada na sua cama, a menina se perguntava se
não deveria ter mesmo saído com seus amigos. Ao menos o gosto do hamburgão
da esquina mascararia o gosto amargo em sua boca pela ansiedade.
A mãe de Lavi arqueou as sobrancelhas, processando tudo o que sua filha
havia acabado de contar. Sua expressão demonstrava que Teresa estava surpresa,
mas nem tanto. A mente maquinava à procura da atitude correta, como se um
passo em falso pudesse ser desastroso. Em momentos como esse, Lavínia
questionava seriamente sua vontade de ter filhos. Educar e cuidar de uma criança
deve ser a coisa mais difícil que um ser humano já precisou fazer.
A menina mordeu o lábio e sua mãe a fitou, séria. Um pensamento –
provavelmente um ruim, a julgar pelo modo como ela ficou tensa – se passando
pela sua cabeça.
― Lavínia, o Eduardo... Ele é professor, não é? Ele não...
Lavi arregalou os olhos e balançou a cabeça efusivamente.
― Não, mãe! – respondeu com rapidez, ávida para espantar aquela suspeita.
– Ele não é meu professor, nunca foi. Nós nos conhecemos aqui no prédio, nunca
como aluna e professor. Eu juro.
Teresa assentiu, aliviada. Apesar disso, ela ainda parecia tensa, pressionando
os lábios em uma linha fina. Cruzou as pernas.
― Quando foi que isso começou exatamente? Ele te abordou? O Eduardo
alguma vez deu em cima de você de alguma maneira inapropriada, Lavínia? Ele
te conhece desde sempre, eu nunca pensei...
― Não, mãe – Lavi a interrompeu de novo, sentindo o coração acelerar. –
Eu sempre tive uma queda por ele, mas ele só olhava pra mim como uma
criança. Como se eu fosse nova demais pra ele.
― Você ainda é nova demais – Teresa frisou, massageando as têmporas, e
sua filha suspirou. – Ai, ai, ai, Lavínia. Por que logo um rapaz tão mais velho? E
aquele menino, o moreno bonito, como é mesmo o nome dele?
― Paulo.
― Esse mesmo. Ele parecia gostar de você.
― Mãe...
Teresa inspirou e soltou o ar com força. Tirou seus óculos e massageou a
testa.
― Eu quero saber exatamente o que aconteceu entre vocês. Como foi que
isso começou e o que... Bem, o que está acontecendo.
Lavínia pegou fôlego e contou tudo.
― Não sei exatamente como começou. Como eu falei, eu sempre cobicei o
Edu, mãe, eu sempre tive uma paixonite por ele. Mas daí eu cresci, eu posso não
ser... Bem, uma mulher, mas eu não sou mais uma criança. E nós acabamos
conversando como pessoas normais fazem e eu vi nisso uma oportunidade de me
aproximar dele e... E... – ela engoliu em seco, tentando controlar o nervosismo
explosivo. – Ah, mãe. Ele gostava de falar comigo, sabe? De estar comigo, mas
ele não se deixava aproximar desse jeito. Por causa da idade. Não importava o
quanto tivesse na cara que a gente se curtia assim e não só como amigos. Mas o
Edu é uma pessoa muito certinha.
― Ainda bem! – Teresa falou, como se essa fosse mesmo a atitude esperada.
– Ao contrário de você, né, minha filha?
Lavínia estreitou os olhos e expirou com força.
― De qualquer maneira – Lavi continuou – ele foi muito fofo no meu
aniversário. Me deu um presente – ela puxou o cordão de dentro da camisa da
escola e mostrou para mãe. – E aí, depois de muito custo, acabou cedendo. E eu
sei que ele se culpa por isso até hoje, mas também sei que eu faço bem a ele.
Não por beijar ele, mas por ser alguém que faz ele bem.
― Amigos fazem isso uns pelos outros também.
― Mas eu tenho hormônios e ele também, mãe. Você já olhou pra ele? Eu
não sou cega!
Teresa balançou a cabeça, olhando pra filha com aquela cara de “o que eu
faço com você, menina doida?” e suspirou. Ela reconhecia que Eduardo era sim
um rapaz muito bonito, tinha um charme que conquistou até mesmo a ela – mas
de um jeito diferente, é claro. Entretanto, isso não mudava o fato de que ele era
um homem saindo por aí com a sua filha adolescente.
― Eu juro que ele me respeita muito. Ele é todo cheio de princípios e
limites e foi ele quem falou primeiro sobre conversar com você sobre isso.
Porque não queria que você achasse que ele é um mau-caráter aproveitador.
― Bem, ele não poderia me culpar se eu achasse isso, caso ele não quisesse
que eu soubesse – Teresa se defendeu.
Mas ao ouvir as palavras da filha, não pôde negar que ficou um pouco
menos tensa. Ela conhecia Eduardo há quatro anos, mas apenas por conversas
rápidas em esbarrões pelo prédio. Sempre o achou um rapaz íntegro e
responsável, muito simpático. Mas as pessoas nem sempre eram o que pareciam
e Teresa jamais imaginou essa situação acontecendo.
― Mãe – Lavínia parecia até mesmo um pouco magoada. Ela se sentia
pessoalmente ofendida com qualquer pessoa duvidando da integridade do Edu,
mas não podia culpar a mãe. Era uma situação muito frustrante e estressante e
ela sentia caindo sobre seus ombros a responsabilidade de mostrar a Teresa que
ele era uma pessoa decente.
Teresa a fitou, o olhar intenso igual ao da filha, só que castanho. Sabia que
proibir causaria o efeito reverso e, além do mais, esse não era o tipo de mãe que
ela queria ser. Que ela era. Ficava muito aliviada por sua filha se sentir
confortável o suficiente para se abrir com ela. Não podia trair sua confiança
sendo uma pessoa intransigente, Lavínia estava falando e Teresa ouvia. Ela
conhecia a filha que tinha, suas qualidades e seus defeitos, e sabia que ela não
era facilmente influenciável. Mas tudo na vida podia ter uma primeira vez.
― Quais são as reais intenções dele com você, Lavínia? – perguntou séria.
Não queria que a filha levasse nada disso na brincadeira ou com menos
seriedade do que merecia. Porque não era pouco, era muito. Por mais que toda a
história que a menina contara não a fizesse crer que Eduardo era um
aproveitador de jovenzinhas, ela precisava ter certeza.
Lavínia encolheu os ombros, sentindo o nó apertar seu coração. Ela sabia
que chegariam nessa parte da conversa uma hora ou outra, mas não estava
preparada.
― Ele não tem nenhuma intenção ruim – garantiu. – Eu te disse, nós
estamos apenas curtindo a companhia um do outro.
― Ele alguma vez tentou te forçar a alguma coisa? Ele já tentou...
― Não! – o coração de Lavi acelerou. Bem que ela queria. – Não, nunca.
Ele perguntou com todas as letras se podia me beijar. E me disse, na maior cara
de pau, que eu posso até me achar toda madura, mas eu ainda sou uma garota em
transição.
Teresa assentiu, gostando do que ouvia. É claro que não diria isso, mas ao
menos o rapaz que Lavínia apresentava condizia com o rapaz do andar de baixo
que ela julgava conhecer. Ela segurou as mãos da filha e olhou fundo nos olhos
dela.
― Você tem certeza disso? Promete pra mim que ele nunca te disse ou fez
nada inapropriado? Nunca te forçou a nada nem te fez se sentir desconfortável?
Lavi negou muito certa da sua resposta. Não havia nenhuma dúvida, ela foi
cem por cento honesta com a sua mãe e consigo mesma. Teresa apertou as mãos
da menina, decidindo acreditar nela.
― Certo. Mas eu ainda vou precisar falar com ele, filha. Preciso conversar
com ele pra saber o que ele tem a me dizer.
E, bem desse jeito, a mãe de Lavi proferiu as palavras que ela mais temia.
A menina não conseguiu nem disfarçar a expressão de descontentamento no
seu rosto. Ela mordeu o lábio de novo e Teresa franziu o cenho.
― O que foi? Você não disse que ele mesmo quis que você me contasse?
Acha que não vai querer conversar comigo?
―Não – Lavi corrigiu. – Ele não vai se opor. O problema sou eu, mãe. Eu é
que não queria nada disso, entende?
As sobrancelhas de Teresa arquearam e ela não soube se entendeu ou não o
que a filha tentava dizer. Bom, ela era toda ouvidos.
― Eu não quero trazer um cara aqui pra você conhecer, não quero um
compromisso sério com ninguém, nem mesmo com o Edu. Não agora, não
quando eu estou começando a me conhecer de um jeito diferente – ela
desabafou. – Eu tô crescendo. Eu me sinto tão diferente. Tô curtido meus amigos
e eu quero a liberdade de poder ir aonde quiser sem dar satisfações a ninguém
além de vocês, sabe? Não quero namorar no sofá e ter a obrigação de me
encontrar com meu namorado. Não é isso o que eu quero agora.
Cem por cento honesta com sua mãe e consigo mesma.
Teresa assentiu, afagando os cabeços cacheados da sua menina linda e
inteligente. A coisa mais maravilhosa que ela já fez em toda sua vida. Dava certo
trabalho às vezes, mas era tão forte e decidida, um orgulho quase constante.
E crescendo. Ela realmente estava crescendo e entendendo as coisas que
queria para si.
― E você acha que é isso o que ele quer?
― Eu não sei. Mas sei que você o chamar pra conversar vai trazer uma
seriedade pra nossa relação que eu não quero.
― Eu sinto muito, filha. Mas não existe nada de simples no relacionamento
de vocês dois, do jeito como você queria que fosse. É uma fantasia o que você
está vivendo, mas, se não quer continuar dando os próximos passos, ela tem
prazo de validade – disse Teresa em uma voz macia, afagando os cabelos da
menina. – Eu espero que você saiba que não estou fazendo nada pra te magoar,
mas sim pra te proteger. Um rapaz da idade do Eduardo já está em outra fase da
vida e eu preciso saber o que ele pensa, o que ele quer.
Lavínia sabia disso, ela esperava justamente por isso. Mas, mesmo sabendo
que uma coisa ia acontecer, não tornava o sentimento de frustração menos
verídico. Ela começava a se dar conta de que, sim, esperava que uma coisa
impossível pudesse acontecer. Foi iludida pela sua inocência esperançosa, que a
fazia acreditar que qualquer coisa era possível, que ela poderia driblar qualquer
obstáculo só pela sua força de vontade. Ela tinha certeza de que caso ela – e ele –
quisesse um relacionamento sério, isso aconteceria. Seria complicado, seria
difícil para todos se adaptarem no início, mas não era impossível.
Acontece que não era isso o que ela desejava.
E, como Eduardo mesmo dissera no dia anterior, o que ela sente importa.
Lavínia abraçou sua mãe, que a apertou forte e beijou sua cabeça. A menina
deixou que o amor materno a acolhesse e pensou novamente sobre coisas que
adultos faziam e a deixavam totalmente intimidada. Percebeu, com surpresa, que
ela mesma havia experimentado o sabor daquilo e o quanto era esmagador e
agridoce. Deixava um gosto amargo na boca, quando não havia certo ou errado,
quando o que era deixado para trás era algo ainda muito querido. Quando ela
queria poder ter uma opção diferente, mas precisava se contentar com as que
existiam.
Lavínia fez uma escolha. Como adultos faziam o tempo todo.
E se sentiu feliz e triste, ao mesmo tempo, por isso.
Ela estava crescendo.
34. Os Medina-Becker
Era dia seis de maio e todos os Medina-Becker finalmente estavam reunidos
de novo.
Era também o aniversário de treze anos da Maia e quatro dias após o
aniversário de quatorze do Leo. “Quando eles haviam crescido tanto?”, Eduardo
se perguntava. Se sentia um idoso quando pensava essas coisas, mas não podia
evitar. Suas irmãzinhas já estavam na faculdade e, agora, a única criança de fato
da família era Selene.
Aquele seria um final de semana bastante festivo.
Era o segundo ano em que Leo e Maia comemoravam seus aniversários após
a junção dos Becker e dos Medina. Portanto, era o segundo ano em que os dois
faziam sua festa juntos. Em 2016, os dois quiseram uma festa de arromba, com
direito a paintball e carrocinhas de churros. Esse ano, porém, nenhum dos dois
queria nada além de uma sessão privada no cinema com os amigos – com
comida liberada – e, é claro, reunir a família inteira em casa no fim de semana
para assoprarem as velinhas.
Até mesmo o avô Medina estava em Assunção – foi uma exigência da Maia.
Ele e a vovó Becker, aliás, se adoravam. Passavam horas conversando sobre os
tempos de TV Manchete – os dois chegaram a trabalhar lá, só que não na mesma
época – e como era a vida nos anos sessenta. Falavam também sobre suas
maravilhosas descobertas tecnológicas, já que ambos estavam aprendendo a usar
o Facebook com seus netos do século XXI.
A trupe do Rio de Janeiro foi a última a chegar, no sábado de manhã. Otávio
foi buscá-los no aeroporto de Curitiba, feliz da vida por suas crianças todas
estarem em casa – embora ninguém ali mais fosse criança de verdade.
― Tô pensando seriamente em nos mudarmos pro Rio também – disse ele,
já em casa depois que todos se acomodaram.
Clara, Vovó Becker e Vovô Medina estavam na cozinha terminando de
preparar a receita dele especial de cação ao leite de coco. Inês, a ajudante da
casa, deixara praticamente tudo preparado durante a semana, mas vovô fazia
questão de preparar o peixe que sua neta amava. Veio do Rio no dia anterior só
para poder levantar cedo no sábado para cozinhar, e é claro que a vovó Becker
ficou feliz em ajudar. Ele não permitia muitas pessoas na sua cozinha, mas abriu
uma exceção para a excelente cozinheira sulista.
Clara estava dando seu apoio moral.
― Nós vamos pro Rio? – Maia e Leo perguntaram quase em uníssono. Os
dois, com a pele morena e de cabelos castanhos, pareciam mais irmãos do que os
irmãos de sangue do menino. Exceto pelas bochechas gordinhas da Maia e seus
olhos cor de mel, e a altura do Leo que só fazia aumentar agora que ele entrou na
adolescência.
Qualquer dia desses passaria até mesmo João Augusto – se é que isso era
possível.
Mas o fato era que Maia e Leo não se desgrudaram desde que se
conheceram. Eles eram a terceira dupla de gêmeos da casa – só que postiços – e
a proximidade do dia dos seus aniversários só fazia a coisa toda parecer mais
real.
― Sua mãe e eu temos conversado sobre o assunto – Otávio explicou. –
Sobre nos mudarmos de Assunção.
Os onze irmãos e irmãs Medina-Becker arregalaram seus olhos em surpresa
e, como se tivessem combinado, começaram a falar ao mesmo.
― Mas como assim sair de Assunção? – Guto queria explicações.
― Pra onde vocês iriam? E a nossa casa? – Patrícia disse.
― Eu não quero deixar meus amigos de novo – Hipólita protestou.
― Acham que isso é uma boa ideia? – Hélio, o sensato, ponderou.
―Calma, calma, piazada – Otávio gesticulou, pondo ordem na cacofonia de
vozes tirando conclusões precipitadas. – É só uma ideia por enquanto. Não falta
tanto pra Hipólita ir pra faculdade e então só sobrariam Maia, Leo e Selene em
casa. Nós estamos considerando todas as opções, pra gente não ficar tão longe de
todos.
Fazia sentido.
― Por que vocês não vêm pra Florianópolis então? – Stella sugeriu. – É
mais perto do que o Rio.
― Mas Floripa é uma cidade nova pra todo mundo, né. O Rio é a casa da
Clara – Edu contra-argumentou, cruzando os braços.
― Eu acho que seria ótimo – Cali ponderou, ajeitando seus óculos de leitura
que estavam caindo. João Augusto, que estava sentando ao lado da garota,
lançou um olhar de choque e traição pra ela. – O que foi? – ela perguntou ao
namorado. – Eu acho mesmo ótimo, sei que eles se sentem sozinhos aqui.
― Mas aqui é a minha casa. Nossa casa – ele olhou para seus outros irmãos
de sangue. – Onde a gente cresceu. Não tô preparado pra dizer adeus.
Cali fez carinho nos cabelos dele, compadecida pelo seu sentimento de
perda. Ela sabia exatamente como era deixar o lugar que amava sem saber
quando voltaria. Mas a garota e seus irmãos aprenderam com isso que lar é
muito mais do que uma cidade ou uma casa.
― Sua casa é onde nós estivermos juntos, Guto – Patrícia disse, como se
tivesse lido a mente de Cali. – Você mesmo disse isso pra Cali, foi embora daqui
com ela porque não seria feliz aqui sem ela.
Isso era verdade.
― Mas deixar Assunção pra trás... Não ter mais uma raiz aqui, pra voltar
sempre que a gente pode... Isso é muito pra processar – Stella não se deixava
convencer. Ao contrário da sua irmã gêmea, deixar o ninho foi algo
extremamente difícil para ela. Apolo, ao seu lado, afagou seu ombro e puxou a
irmã postiça para um abraço solidário.
― Crianças, fiquem calmas – Otávio tentou confortá-los. Ele abriu um
sorriso paternal, daqueles amorosos e confiantes. – Não tem nada decidido, mas
de qualquer maneira nunca vamos deixar Assunção pra trás. Podemos voltar aqui
sempre, eu não planejo me desfazer da casa, muito menos da fazenda que está há
gerações na nossa família.
Uma onda de alívio passou por todos eles, mas não completamente.
― Agora me contem de vocês! Apolo, sua mãe disse que sua carreira está
deslanchando.
O gêmeo Medina abriu um dos seus sorrisos sacanas e sedutores, claramente
muito satisfeito consigo mesmo.
― Fazer o quê? Ninguém resiste a essa carinha aqui – ele segurou o próprio
queixo, fazendo uma cara de modelo.
― Há controvérsias sobre isso – Hélio, o outro dono da cara teoricamente
irresistível, rebateu, fazendo seus irmãos rirem.
― Você é que não sabe usá-la direito – Apolo sentenciou, dando uma
piscadela. – Quem mandou nascer Hélio ao invés de Apolo?
― Pfff, por favor – Stella deu um tapa no peito dele, tentando sair do
gancho dos seus braços, mas Apolo a prendeu com força. – Seu ridículo, me
solta – ela se contorceu, não conseguindo evitar as gargalhadas quando Apolo
começou a fazer cosquinhas. Leo, Maia e Selene, sentados no tapete, riram da
cena.
― Ei, cuidado aqui comigo! – Patrícia, do outro lado de Stella, reclamou.
― Cuidado pra não se machucarem – Otávio advertiu. – Mas e vocês,
filhas? Estão gostando de Floripa?
― Amando, pai – Pat abriu um sorrisão nos lábios, brilhando como um raio
de sol. – A Faculdade já começou puxada, tô surtando um pouco pra
acompanhar, mas amo a cidade. Sinto falta de vocês, mas tô amando a
experiência de me lançar no mundo sozinha. Quer dizer, não totalmente sozinha
– ela entrelaçou o braço com o da gêmea, que apenas abriu um sorriso contido.
― Você dá conta, irmãzinha – Edu disse visivelmente orgulhoso. – Vocês
duas.
― Eu não vejo a hora de ir pra faculdade também – Hipólita desabafou, com
uma fagulha de empolgação nos olhos. – Quero ser adulta logo como vocês!
― Olha só! – Otávio fingiu ofensa. – Querendo ir embora logo, assim meu
pobre coração não aguenta.
A menina mandou um beijo carinhoso para o padrasto e ele sorriu.
― Você já sabe pra onde quer ir, Li? – Cali perguntou.
― Ainda não decidi, mas todos os meus amigos querem ir pra Curitiba.
Talvez eu vá também, se não criar um desejo louco de ir pra uma universidade
em outra cidade.
― Vem pra UFRJ! – chamou Hélio, o garoto-propaganda. Edu assentiu,
concordando plenamente.
― Não, vem pra UFF! – Guto discordou, defendendo seu peixe Niteroiense.
― Não, vem pra UFSC! – Patrícia era team Santa Catarina. Guto cutucou a
batata da perna dela com o pé e a menina o empurrou.
― Ah, Deus, essas crianças! – Cali brincou, trocando um olhar cúmplice
com Maia. As duas reviraram os olhos teatralmente e riram.
― Vamos almoçar? – Clara apareceu na sala, radiante como um dia de
verão. Nada a deixava mais feliz do que todos os seus filhos reunidos e felizes
daquele jeito. Selene se levantou do tapete e foi correndo na direção da mãe,
abraçando-a pela cintura.
Edu se levantou também, assim como todos os seus irmãos e irmãs, e foram
para a sala de jantar comer o delicioso almoço preparado pelos avós. Era sempre
bom estar em casa, mas mais ainda quando ele se sentia tão leve consigo mesmo.
Ele tinha a sensação de que um ciclo estava se fechando, uma espécie de
conclusão de algo em que esteve metido por muito tempo. Ele sentia que
finalmente conseguia mover os pés, tirá-los das poças de lama onde eles tinham
se acostumado a ficar e nem se davam mais conta de que, na verdade, estavam
submersos nela.
A família Medina-Becker almoçou em meio ao som das vozes das pessoas
que mais amavam, entre conversas longas, curtas e piadas internas. Entre
brincadeiras, implicâncias e sorrisos sinceros. Era incrível como Assunção era
capaz de trazê-lo de volta para essa bolha de conforto e amor, de segurança,
como nenhum outro lugar. Ou, talvez, não fosse a cidade, mas sim as pessoas ao
seu redor. E, talvez, o fato de que agora ele se sentia livre e feliz fora da bolha,
transformasse o efeito dela ainda mais mágico.
Porque era o efeito dele sobre si mesmo também.
Faltava apenas uma coisa a ser feita. Uma pendência largada no modo de
espera por anos e que Eduardo não se permitia pensar até pouco tempo atrás.
Não conseguia tirar da cabeça, entretanto, a sua covardia e o quanto não queria
mais ser aquele homem de novo. O quanto queria consertar as coisas, não por
alguma outra pessoa, mas por ele mesmo. Pela pessoa que mais importava fazer
ficar bem.
No encerramento daquele ciclo, não havia espaço para conflitos não
resolvidos. Não havia mais espaço dentro dele para caroços, fechaduras e cordas
opressoras.
― Feliz aniversário, Maia! Feliz aniversário, Leo! – a família entoou o coro
quando o bolo veio à tarde, depois de cantarem os parabéns e baterem muitas
palmas.
― Façam um pedido!
― Assoprem as velas!
Os dois deram as mãos e olharam um para o outro. Fecharam os olhos e
fizeram seus pedidos preciosos e ainda levemente infantis. Assopraram as velas
com vontade, para explosão de palmas e vivas dos seus entes queridos. Clara deu
um beijo na bochecha de cada um e o primeiro pedaço do bolo foi cortado.
― Pra quem vai o primeiro pedaço, hein, guria?
Havia algo de mágico naquele momento, Eduardo Becker pensou. Deixou-
se contaminar pela sensação e imaginou qual seria o seu próprio pedido, se
tivesse que fazer um. Seu aniversário estava chegando também, no final daquele
mesmo mês, e ele tinha muitos pedidos a serem feitos. Um em específico se
passou pela sua cabeça enquanto ele comia o bolo de chocolate e ria com os seus
irmãos.
Um pouco mais tarde, ao invés de aceitar jogar Twister, ele tomou uma
decisão.
Saiu pelas ruas de Assunção rumo ao seu destino, à conclusão que tanto
desejava e já adiara demais. Parou em frente à casa que costumava frequentar
muito na adolescência, se perguntando se ainda continuava a mesma por dentro.
Ele tocou a campainha, o coração batendo forte pela adrenalina repentina.
Quando a garota abriu a porta, não conseguiu esconder a surpresa ao vê-lo.
― Eduardo? – ela perguntou incerta se estava enxergando bem.
― Carla – disse ele, convicto do que estava fazendo. – Nós precisamos
conversar.
A garota piscou, ainda sem reação ao que estava acontecendo. Assentiu
lentamente e abriu a porta da sua casa para que ele pudesse entrar.
35. Miss Monogamia
Eduardo Becker nunca ligou para os rótulos que o definiram durante toda a
sua vida. Ele sabia que não era apenas o filho de Otávio Becker, ou o Riquinho
Rico da sua turma, muito menos o nerd que nunca parava de aprender. Ele sabia
que a sua pessoa não era apenas a caricatura que os outros enxergavam, mas uma
mistura de tudo isso e mais um pouco, que ele mesmo não fazia ideia de como
definir.
Houve uma vez, porém, em que finalmente os rótulos importaram de tal
maneira que ele sequer soube como lidar com isso.
Carla o levou para dentro da sua casa, ainda atônita pela visita inesperada.
Ele cumprimentou os pais da garota, que estavam na sala de estar, mas seguiu
atrás dela até o quintal de trás do terreno. Tudo parecia muito igual a quando ele
visitava aquele lugar quase todos os dias. Ele se lembrou na mesma hora de
quando ficava com Carla no banco de madeira perto da piscina, namorando e
rindo de coisas bobas como os adolescentes que eram.
Edu não sabia se ela se lembrava disso também, mas foi nesse mesmo banco
que se sentou. O rapaz encarou o assento ao lado dela e respirou fundo, deixando
que as lembranças o inundassem como uma enchente, cansado de sufocá-las
dentro de si como se nunca tivessem existido pelo medo do que o fariam sentir
se viessem à tona. Surpreendentemente, ele se sentia muito bem.
Ele se sentia livre.
― Tu deves estar se perguntando o que eu estou fazendo aqui – ele disse
enquanto se sentava. Carla mordia o lábio, uma mania que tinha desde a infância
e costumava fazer Edu derreter. Não dessa vez.
Ele olhava aquela garota que um dia foi a pessoa que ele mais adorava em
todo o mundo e se sentiu esquisito ao perceber o quanto aquele sentimento, hoje,
era apenas um eco. A garota ainda estava a sua frente, bonita demais com aquele
cabelo loiro escuro comprido e os olhos insistentes, num tom escuro de verde. O
nariz sempre foi um pouco grande e os ombros muito protuberantes, mas isso só
adicionava personalidade à sua figura esbelta e altiva. Carla tinha a forma de
uma princesa, agora ainda mais sedutora do que na adolescência, mais segura,
mais sólida.
Ela sempre gostou de dinheiro – sempre gostou do dinheiro dele. Talvez
esse tenha sido o seu grande defeito, o que transformou tudo em um grande caos
que deu a Eduardo o rótulo que ele não soube suportar.
Traído.
― Eu não sabia se o Jeff te contou ou não da reunião que eu e o pessoal da
escola fizemos umas semanas atrás, mas imaginei que tu tivesse decidido ignorar
– ela confessou. – Então sim, me surpreende que você esteja aqui.
Os dois ficaram em silêncio e Carla desviou o olhar. Havia certa culpa no
modo como ela o encarava, como se estivesse feliz pela visita inesperada, mas
também constrangida. Eduardo notou isso, mas não seria ele a pedir desculpas.
A educação teria que ficar para depois.
― Eu percebi que estive te evitando por quase quatro anos – ele começou
falando, uma espécie de explicação. – E isso se tornou um grande problema pra
mim, que estou começando a encarar só agora.
Ela o fitou de novo, sentado ao seu lado naquele banco que costumavam
dividir com tanta vontade.
― Nós nunca conversamos sobre o que aconteceu; eu nunca te dei a chance
de me explicar o porquê de ter feito aquilo comigo. E então essa história toda, na
verdade, nunca terminou, pelo menos não pra mim. Ficou um espinho dentro de
mim esse tempo todo, me incomodando, me impedindo de me abrir pra outras
pessoas... – Eduardo suspirou estranhamente nem um pouco incomodado pela
crueza da sua sinceridade. As palavras saíam de dentro dele com uma
simplicidade ímpar, como se soubessem de cor o caminho de saída. E ele gostou
muito disso.
O mesmo não podia ser dito sobre Carla. A garota engoliu em seco e tentava
disfarçar o remorso e o desconforto constrangido em seu rosto.
― Eu sinto muito – disse. – Sempre quis poder ter essa conversa, mas nunca
consegui. Não que eu te culpe por não querer mais me ver nem pintada de ouro
na sua frente.
― O ouro não faz diferença – Edu determinou e os dois se encararam em
um olhar tenso e cheio de significado. Carla levantou o queixo, mas deixou os
ombros caírem, e Edu se manteve firme em sua postura, firme sob a pessoa que
ele era. – Você em algum momento me amou de verdade ou eu era só o seu
troféu de status social?
Edu sabia que para ele tudo havia sido real desde o início. Ele se apaixonara
de verdade pela garota e acreditou que ela sentisse o mesmo, mas depois da
traição nunca mais conseguiu conter a dúvida se ele não foi, na verdade,
enganado desde o início. Ele não queria acreditar que ela jamais o amou porque
isso doía. Imaginar que todos os momentos dos dois juntos naquele banco de
madeira foi uma mentira o fazia tentar dissipar o pensamento na mesma hora.
Mas não mais. Agora, isso não o incomodava mais. Agora, isso não era mais
algo que o fazia sofrer. E ele queria saber a verdade, porque não havia nada
melhor do que conhecer exatamente a sua própria história. Entretanto,
independentemente do que Carla dissesse, não mudaria o que Edu sentiu
enquanto esteve com ela. Para ele não foi uma mentira e ele não se arrepende de
ter sido a pessoa que foi. A pessoa que ele queria reencontrar.
Não mais.
― É claro que eu te amei – ela garantiu, parecendo sincera. Edu escolheu
acreditar. – Mas quando você foi embora estudar no Rio, o sentimento não
sobreviveu... Eu acabei me envolvendo com o Tadeu e o resto você sabe.
― Você me traiu com ele durante quatro meses até que eu finalmente
descobri pela boca de terceiros – de Jeff, mais precisamente. Carla engoliu em
seco e respirou fundo. Assentiu e Eduardo continuou. – Porque tu, apesar de não
me amar mais, ainda amavas o fato de ser a minha namorada.
Pelo status. Pelo dinheiro. Por todas as coisas que vinham com o posto de
ser a namorada de um Becker em uma cidade como Assunção. O amor por
Eduardo Becker, o rapaz, não foi forte o suficiente. Mas o amor por Eduardo
Becker, o nome, jamais deixou de existir.
A garota assentiu de novo, não orgulhosa de si mesma, mas sem poder
mentir.
― Eu passei esses anos todos arrependida do que fiz, porque você sempre
foi um piá tão incrível comigo e tu não merecias isso depois da nossa história
juntos. Eu era uma garota boba e deslumbrada, com medo de perder a posição
social que estava acostumada a ter, os presentes, as viagens – ela piscou,
encarando-o com firmeza. – Talvez isso faça de mim uma pessoa horrível, mas
eu sei que errei contigo. E eu peço desculpas agora de coração, por todo mal que
te causei naquela época e depois.
Edu encarou aquela garota, tão bonita sob suas longas pernas e cabelos da
cor do mel. Aquela garota que ele costumava venerar aos dezessete anos e podia
pedir qualquer coisa com sua vozinha doce que ele faria de olhos fechados. Ela
sempre tivera um poder enorme sobre ele, mesmo depois de terem acabado,
mesmo quando ele tentou seguir em frente e acabou se atrapalhando consigo
mesmo. Ele encarou aquela garota e percebeu, com o peso saindo do seu peito,
que o apelo não existia mais.
O incômodo não existia mais. Tampouco a dor, o rancor, a humilhação.
Existia apenas Eduardo Becker, o homem, e Carla Delaroli, a primeira
garota que um dia ele amou.
Existia apenas a última chave que ainda faltava ser destrancada dentro dele e
o peso do mundo sair pelos seus pulmões, pelas suas narinas, pela sua boca. Foi
embora, desacorrentando-o dos fantasmas que um dia o fizeram se sentir
derrotado, que o fizeram parar de ser uma pessoa capaz de se entregar sem sentir
tanto medo.
Existia apenas o sopro de liberdade e a lama em seus pés finalmente sendo
totalmente lavada.
Ele respirou fundo e abriu um sorriso involuntário. Carla não entendeu o
motivo do riso, mas era melhor do que a alternativa que ela imaginava.
― Eu te perdoo, embora seja eu quem precise mais disso do que você –
disse ele, rindo de si mesmo. – Eu te perdoo e me perdoo também e agora nós
podemos colocar uma pedra em cima dessa história e nunca mais voltar.
A garota concordou, esboçando um sorriso aliviado também. Ela tomou
coragem e a liberdade de segurar a mão dele, que não se afastou.
Os dois se fitaram nos olhos; duas pessoas que se despediam ali.
― Eu espero que tu se cuide, piá. Eu fui uma vaca, mas nem todas as gurias
são assim.
― Eu sei que não – ele garantiu. – E eu vou me cuidar. Você faça o mesmo.
Espero que tenha aprendido com os seus erros.
Ela assentiu, a expressão em seu rosto um pouco mais pesada do que antes.
― É difícil vencer certos vícios, mas a gente vive um dia de cada vez.
― Um dia de cada vez – Edu concordou.
***
De volta ao Rio de Janeiro, o rapaz mal pôde esperar para comemorar a
nova dinâmica que estava encontrando consigo mesmo. Parecia que ele estivera
esse tempo todo em um casulo deixando as escamas de lagarta para trás e se
transformando em um nova e bela borboleta, com asas que mal conseguiam
conter o ímpeto de sair voando por aí.
― E aí, Mozão, isso significa que você finalmente vai passar o número da
ex gostosa pro amigo aqui? – perguntou Felipe, batendo no próprio peito. Ele,
Edu, Marcelo e Duda estavam no seu bar de esquina preferido, como nos velhos
tempos de início de faculdade quando os quatro estavam juntos o tempo inteiro.
― Cara, você é completamente sem noção – Marcelo reclamou, dando um
tapa na nuca do amigo que quase cuspiu o gole que tinha acabado de dar na sua
cerveja. – O telefone da ex gostosa é meu.
― É meu e essa discussão se encerra por aqui – Duda disse, para espanto
dos seus amigos. – Que que foi?
― Não sabia que você cortava pros dois lados, Dudinha – Marcelo falou e
fez um cara de aprovação.
― Não corto, mas faço tudo pra ganhar qualquer coisa de vocês – sorriu
vitoriosa. Tinha cortado os dreads há pouco tempo e assumido um visual estilo
Joãozinho. Bem, na opinião dela o cabelo era tão Mariazinha quanto, porque
quem era alguém para dizer que um corte era masculino ou feminino?
― Acho que o importante aqui é como eu me sinto, não a minha ex-
namorada – Edu alfinetou, esquivando uma sobrancelha zombeteira para os
amigos universitários.
― Cacete, agora tô me sentindo tão insensível – Felipe fez cara de choro,
com a mão no coração. – Vamos todos lá pro apartamento trançar nossos cabelos
e contar nossos sentimentos um pro outro, o que você acha, Marcelão?
― Tamo junto, parceiro. Mas só se pudermos fazer as unhas dos pés
também – ele objetou com uma cara muito séria. – Não saio de casa sem estar
divando com o tom vermelho paixão.
Todos soltaram uma gargalhada e Felipe bateu palmas.
― Vocês são ridículos – Duda revirou os olhos, dando um gole sorridente na
sua cerveja. – Mas falando sério agora, Dudu, tô orgulhosa de você.
― Ai caralho, já começamos a compartilhar nossos sentimentos aqui no
bar? – Felipe se exaltou. – Como a gente se ama, né?
― Tu que dissesse que eu sou seu mozão, agora aguenta aí, piá – Edu
contra-atacou, recebendo um olhar de “boa jogada” do amigo.
― Eu prefiro o Junior – Marcelo esnobou, lambendo o resquício de bebida
nos seus lábios. A barba negra estava maior do que da última vez em que se
viram. – Mas falando sério, quando que a gente vai dar uns roles de novo lá pelo
Sul?
― Só marcar – Edu deu de ombros, abrindo um sorrisão. – Meu pai adora
visita mesmo.
― Seu pai adora gente dentro de casa, né, amigão – Felipe riu. – Mas pela
Clara, até eu...
― Saudades Clarinha na UFRJ – Marcelo lamentou. – Você roubou ela de
nós.
― O que eu posso fazer? Meu pai é irresistível.
― Foi dele que você herdou o charme, né? – Duda piscou para o amigo, que
deu de ombros, um pouco vermelho. Ela gargalhou e deu um beijo na sua
bochecha, o abraçando de lado. Estava feliz demais por vê-lo feliz e isso bastava
para aquela noite ser perfeita. Afinal, era isso o que faziam os amigos. Ficavam
felizes uns pelos outros e se amavam entre si, acima de tudo.
― Vamos pedir mais uma rodada? – Marcelo sugeriu.
E eles pediram, beberam suas cervejas e falaram as mesmas besteiras de
sempre quando se encontravam. Marcelo estava começando a se apaixonar pela
garota com quem andava ficando há dois meses, mas ainda não sabia se queria
assumir um relacionamento. Felipe decidiu finalmente se mudar de Maricá, já
que conseguiu um emprego no centro da cidade do Rio e moraria na república
de uns amigos. Duda continuava sem a mínima ideia do que fazer da vida, mas
tinha planos diferentes a cada dia que se passava. E isso era o suficiente para ela
por enquanto.
Eduardo voltou para sua casa se sentindo leve naquela noite de domingo,
assim como na anterior, quando fazia o caminho para sua casa também, só quem
em Assunção. O paralelo da situação o fez rir sozinho na rua.
O rapaz abriu o portão do seu prédio e o celular vibrou dentro do bolso da
bermuda. Ele deu olá para o porteiro e sacou o aparelho, ainda zumbindo em
suas mãos. Ficou feliz quando viu a pessoa que o estava ligando, embora não
soubesse o que é que ela tinha a dizer. As coisas estavam instáveis, mas, pela
primeira vez, isso não assustava o rapaz.
Não totalmente.
― Oi – ele saldou ao atender a ligação.
― Oi, piá – ela o saldou de volta. A voz parecia um pouco séria demais,
embora ela não conseguisse ser cem por cento. – Você tá em casa?
― Acabei de chegar.
Ele apertou o botão do elevador e esperou.
― Onde você tá exatamente?
― No saguão do térreo, encostado na parede, olhando os números do
elevador descerem.
― Que específico. Gosto assim – ela disse e ele riu.
― E você, onde exatamente está?
― Você não vai acreditar – ela fez mistério.
― Eu acredito facilmente nas coisas, você não acreditaria.
Foi a vez da menina rir.
― Vou te fazer uma surpresa – disse. – Tá preparado?
― Pode mandar.
Então ela ficou em silêncio, tempo suficiente para o elevador descer do
andar onde estava naquele momento – o terceiro – até o térreo. O sininho de
quando ele chegou até lá soou e a porta de dentro se abriu. Edu puxou a porta de
fora e deu de cara com Lavínia segurando o celular em seu ouvido, abrindo um
sorriso sacana e lindo para ele.
― Surpresa – ela disse.
Ele sorriu de volta, aquela menina tão cheia de luz.
― Eu teria acreditado se tu tivesse dito – ele ponderou.
Ela assentiu e o puxou pela mão para dentro do elevador, aquele elevador
que parecia fazer parte da própria história dos dois.
Então ela olhou no alto dos olhos do rapaz, respirou fundo e disse:
― Nós precisamos conversar.
E a tensão em sua voz não poderia ter sido ignorada por Eduardo nem se ele
quisesse. A expressão em seu rosto endureceu e o coração acelerou. Ele já
esperava por aquilo, se era para ser totalmente sincero. Lavínia ficou de
conversar com a mãe e eles ainda não tinham se falado desde que ela, de fato,
fizera isso – porque Edu viajara para Assunção.
Agora ele estava de volta e ali estavam eles juntos de novo.
Eduardo apertou o botão do play do prédio e a porta do elevador se fechou
às suas costas. Ele segurou a mão de Lavínia e seus dedos se entrelaçaram. Então
ele disse, olhando fundo nos olhos dela:
― Vamos conversar.
E os dois esperaram, com a sensação agridoce daquele prenúncio agitando
seu interior, até que o elevador parou de novo.
26.

36. Luxúria
Será que era possível gostar muito de alguém e mesmo assim não querer
namorar essa pessoa?
Era essa a pergunta que Lavínia vinha matutando desde que tivera a conversa
sobre Eduardo com sua mãe. Ela vinha pensando sobre ele, sobre tudo o que ele
representava na sua vida, mas tudo o que havia na sua mente era um grande nó
de confusão e dúvidas – muitas dúvidas.
― Acredite, é muito possível. E já aconteceu comigo – foi o que Dani
respondeu quando a garota fez a pergunta a ela, pelo telefone, quando não
aguentou mais ficar sozinha com os próprios pensamentos. A qualquer momento
Lavínia ia acabar explodindo algum neurônio.
Ela suspirou após ouvir a resposta, estirada na cama como se fosse a
protagonista de um videoclipe dramático.
― Pra você namorar alguém não basta só o sentimento ou a atração – Dani
continuou, notando que a situação da prima estava crítica. – Você pode gostar
muito de alguém e a química ser monstra, mas mesmo assim não estar em um
momento da sua vida em que queira um compromisso. Antes de mais nada, é
uma decisão que você toma consigo mesma.
― É assim que eu me sinto, eu acho – desabafou, olhando para o teto se
sentindo desolada. Tudo dentro dela estava vivo, mas queimava como as penas
de uma fênix já em chamas. – Eu quero me descobrir primeiro, antes de ter outro
relacionamento sério, sabe? E eu gosto muito do Edu, mas eu não...
― Não está perdidamente apaixonada por ele pra ficar cega pelo fogo da
paixão – Dani completou, arrancando uma risada contida da prima. – Lavs, você
pode ter outras prioridades no momento e isso é ok. Não se culpa por isso. Se
você quiser namorar o Edu, ótimo. Se não, ótimo também.
A garota levantou o corpo, apoiando seu peso no cotovelo.
― Eu fico me perguntando se eu tenho certeza – disse, sincera. – E sabe o
que é mais irônico? Quando eu tô com ele, quando a gente conversa, ele me faz
querer ser uma pessoa melhor, me faz questionar quem eu sou e o que eu quero
pra mim porque ele é um ser humano tão inspirador e focado. Mas é exatamente
por causa dessas asas que ele me faz querer abrir, pra enxergar um mundo muito
maior do que o meu, que eu não quero me comprometer com ninguém agora.
Não é irônico?
É sim muito irônico e Daniela concordava. Era nítido para ela a mudança na
prima e já gostava do tal vizinho Eduardo se ele tinha alguma coisa a ver com
isso, por menor que fosse. Lavínia era uma garota moderna, mas seu pecado
sempre foi a inconsequência, a impulsividade eletrizante demais, às vezes.
Agora, entretanto, ela parecia mais leve.
― Ele vai continuar sendo importante pra você, não importa o que aconteça –
foi o que Dani disse.
E aquelas palavras permaneceram com Lavínia mesmo quando ela desligou o
telefone. Mesmo quando o dia terminou e ela e Eduardo finalmente se
encontraram para conversar sobre os últimos acontecimentos. Aquilo cresceu
dentro dela e se consolidou como se tivesse virado um dos seus órgãos, e ela
tinha certeza de que sabia como aquela conversa ia terminar.
Mas quando Eduardo Becker disse:
― Então vamos falar com a sua mãe.
A garota simplesmente não soube como reagir.
Ela havia contado a ele toda a conversa que teve com a mãe sobre o
“relacionamento” dos dois. Eduardo, é claro, não ficou nem um pouco surpreso
com a reação de Teresa, pelo pouco que conhecia dela e do modo como criava a
sua filha. Ele a admirava, assim como sempre admirou Clara – que hoje vinha a
ser sua madrasta.
Lavínia olhava para o rapaz de um jeito desconfiado. Ele parecia... Bem,
diferente. Alguma coisa tinha acontecido naquela viagem, disso ela teve certeza
só de passar cinco segundos na presença de Edu. Ele estava, de fato, muito
diferente de quando conversaram de verdade pela primeira vez. Foi um
movimento gradativo, não uma coisa que acontece de uma hora para outra, mas
ainda assim a diferença de antes e depois daquele fim de semana era notável.
Ele parecia tão... Livre.
Havia essa qualidade em seu semblante, o jeito como o olhar dele parecia
leve, o modo como o corpo fluía muito menos mecânico e o sorriso saía mais
fácil. Eduardo estava claro, límpido como águas cristalinas. E Lavínia ficou não
apenas curiosa, mas atraída por isso.
Como se Eduardo Becker precisasse de mais algum atributo atraente.
Tornava aquilo que Lavínia queria fazer muito mais difícil.
A garota piscou seus olhos azuis, o coração acelerado quando se deu conta do
que ele havia dito.
― Você quer falar com a minha mãe? – Lavínia pediu confirmação, incerta de
quais eram as intenções dele. Só conseguia pensar, entretanto, no modo decidido
como ele havia falado, desprovido das suas habituais neuroses e milhares de
travas.
Aquilo o deixava tão sexy.
Lavínia tinha chegado num ponto da sua vida em que começava a não sair
que nem maluca atrás de garotos, mas como lidar com Eduardo Becker agindo
desse jeito tão desconcertantemente seguro? É claro que os hormônios da
menina se agitaram na mesma hora, porque ela ainda era humana.
― Eu acho que preciso falar com a sua mãe depois de tudo isso. Ou então ela
vai ficar ainda mais desconfiada de mim – disse a voz da razão. A menina às
vezes se esquecia de que estava lidando não somente com um jovem adulto, mas
um muito responsável.
Ela piscou algumas vezes, tentando focar em alguma coisa que não fossem os
lábios do rapaz, tão apetitosos. Sentia um enorme conflito dentro de si mesma
porque, ao mesmo tempo em que vinha se questionando tanto sobre aquilo que
não queria, estava se sentindo rendida pela necessidade de dar uns beijos no dito
cujo ao seu lado.
Ela mordeu o lábio enquanto seus neurônios fritavam, e Edu segurou a sua
mão, passando confiança.
― Fica tranquila, vai dar tudo certo.
É claro que ouvir Eduardo Becker te dizendo isso com aquela voz
maravilhosa dele, e ainda tocando em você, surtia um efeito muito maior do que
se fosse qualquer outro ser humano. Ainda mais com aquela confiança recém-
achada dele, que simplesmente surgiu do nada e Lavínia não estava conseguindo
saber lidar.
Sua estrutura emocional estava abalada. Ela só conseguia encarar o rapaz sem
saber mais o que deveria fazer.
Bem, havia uma coisa que ela queria fazer.
Lavínia mordeu o lábio e se levantou do seu assento no balanço – que já tinha
virado o point dos dois quando precisavam ter uma conversa séria longe de todo
mundo. Uma conversa séria no meio do parquinho era, no mínimo, irônico, mas
combinava perfeitamente com Eduardo e Lavs.
A garota se sentou no colo do rapaz e passou seus braços pelo pescoço dele,
prendendo os dedos nos cachinhos da nuca. O olhar desejoso em seu rosto era
inegável e Edu, embora tenha sido pego de surpresa por essa atitude súbita no
meio da conversa, respondeu ao enlaçá-la pela cintura com as suas mãos fortes, e
firmes, e calorosas e...
Caramba.
Antes mesmo que ela pudesse tomar mais uma atitude, foi Edu quem tomou
os lábios da menina nos seus e os fogos de artifício dentro dela explodiram como
se fosse festa de Réveillon em Copacabana.
A sensação das línguas se encontrando, a rispidez da barba por fazer dele, a
firmeza das mãos deslizando levemente pelo dorso dela... Lavínia simplesmente
fechou os olhos e se deixou levar, carregada pelos seus desejos luxuriantes que
tomavam conta dela sem igual.
Quando a menina se deu conta, estava num caminho sem volta, tão rendida
pelos “prazeres da carne” que acabou sentada no sofá da própria casa com
Eduardo ao seu lado, sem fazer ideia de como aquela conversa havia terminado
exatamente do jeito como ela achava que jamais terminaria.
― Eu queria ter certeza de que tu soubesses que eu não tenho nenhuma
intenção ruim com a Lavínia – foi o que o Eduardo afirmou, com bastante
convicção, à mãe da garota.
Teresa não queria dar o braço a torcer muito fácil e, por isso, fez um discurso
sobre como uma situação dessas é problemática para ela, que é uma mãe
preocupada. Edu, obviamente, entendia tudo, dizendo que ele mesmo teria
ressalvas e ia ficar alerta se ouvisse alguma de suas alunas falando sobre se
envolver com um cara mais velho como ele.
― Vocês não têm nenhuma ligação escolar mesmo não, né? – quis se
certificar.
― Mãe. Eu já te disse que não – Lavínia protestou.
A menina, para falar a verdade, mal havia falado. Os adultos conversavam
enquanto ela ficava de braços cruzados, se perguntado como é que tinha ido
parar ali, naquela situação que queria mais do que tudo evitar.
Bem, ela sabia muito bem como. E agora, enquanto toda a conversa se
desenrolava e a mãe de Lavínia de algum jeito os convencia a tentarem se
conhecer melhor formalmente, ela não conseguia evitar sentir que não estava
fazendo a coisa certa – embora fosse o que parecesse.
O que ela tinha dito mesmo à mãe dias atrás sobre o que queria para si?
Não era exatamente o contrário disso?
Mas então a garota encarou Eduardo e seu charme devastador, se lembrou dos
beijos quentes menos de uma hora atrás no play do prédio, e sentiu os joelhos e o
coração fraquejarem mais uma vez. Engoliu em seco, tomada pela confusão de
sentimentos e desejos que se colidiam e não poderiam coexistir. As engrenagens
do seu cérebro a levaram a crer que, talvez, seguir o conselho da sua mãe não
fosse uma má ideia... Certo? Ela gostava do Edu, certamente amava dar uns
pegas nele sempre que possível, e os dois se davam muito bem. Havia uma
conexão inegável, apesar da diferença de idade.
Ele a fitou e seus olhares se encontraram por uma fração de segundo. Lavínia
não fazia ideia dos pensamentos que se escondiam por trás dos seus olhos
castanhos, mas ele parecia relaxado. Ela tinha certeza de que ele também não foi
até ali para pedi-la formalmente em namoro, queria apenas ser a pessoa íntegra
que sempre foi e se explicar para Teresa. Mas as palavras da mulher sobre eles se
darem uma chance “formal” pareceram surtir um efeito no rapaz também.
Lavínia só não sabia se era por vontade própria dele ou pela sensação de
dever.
A segunda opção fez um calafrio percorrer a sua espinha... Mas então os
dedos dele no sofá tocaram os dedos dela e Lavagirl só conseguia pensar que
queria aquelas mãos percorrendo seu corpo inteiro.
“É possível gostar muito de alguém e não querer namorar essa pessoa?”, foi o
que ela perguntou para Dani, que respondeu “sim”. Mas ficava muito difícil
saber o que ela queria ou não quando a atração entre os dois a distraía tanto.
Depois do que pareceram cinco anos e meio de conversa, Lavínia foi
acompanhar Eduardo até o elevador do andar dela. Os dois caminharam lado a
lado no corredor em um silêncio esquisito que a menina não soube nomear, mas
logo de cara já achou rude.
Eles pararam em frente à porta de metal e se encararam. A menina não sabia
muito bem o que o fazer ou dizer, porque, para falar a verdade, ainda estava
processando tudo o que tinha acontecido naquela noite. Ela sentia como se
estivesse dentro de um filme, esperando os roteiristas darem um rumo a esse plot
twist que ela mesma não conseguiu prever sozinha.
Piscou seus olhos azuis e Edu puxou a porta, já que o elevador tinha chegado.
Ele estendeu a outra mão para que ela se aproximasse e Lavínia foi em um
movimento mecânico, respondendo ao estímulo.
― Tudo bem? – Edu perguntou.
― Aham – ela disse. Como poderia começar a explicar se ela mesma estava
uma confusão de hormônios e dúvidas? O que mais poderia fazer além de dar
um beijo no seu ficante-formal-que-acabou-de-conversar-com-a-sua-mãe-sobre-
suas-boas-intenções?
Bem, foi isso o que fez.
Beijar Eduardo era sempre uma ótima resposta.
E ele retribuiu.
Infelizmente depois do beijo ela ainda tinha todos os questionamentos de
antes na cabeça. Eduardo, por outro lado, parecia simplesmente exausto, o que
fez a menina segurar sua língua grande e atrevida prestes a despejar todas as
coisas contidas nela mesma.
“O que muda entre nós dois a partir de agora?”, era o que ela queria saber.
― Você tá cansado da viagem, né? – foi o que de fato perguntou.
O rapaz assentiu.
― Tô morto, guria. Só consigo pensar no meu chuveiro e na minha cama.
Ela assentiu.
― Então nos falamos depois.
― Nos falamos depois.
Eles se encararam em silêncio e trocaram outro beijo. Edu entrou no elevador
e acenou para a menina antes da porta se fechar. E Lavínia, que costumava ser o
tipo de pessoa que nunca ficava sem palavras diante de uma situação,
simplesmente não soube o que dizer nem para si mesma.
O que ela fez foi traçar o caminho de volta para sua casa e se entupir com o
lanche que o seu pai trouxe, dois minutos depois.
37. Liberdade, Liberdade
É uma verdade universalmente conhecida que Eduardo Becker é a pessoa
mais politicamente correta que já pisou em terras tupiniquins. De modo que,
quando se trata de se sentir responsável e fazer aquilo que é o mais certo perante
a sociedade, Edu é campeão irrefutável.
O que, às vezes, não é exatamente uma coisa boa.
Pela primeira vez, o menino do Sul estava livre. Ele nunca havia entendido
completamente o conceito dessa palavra, já que sempre se considerou uma
pessoa independente e dona do próprio nariz. Mas era somente agora que ele
finalmente resolveu suas questões do passado – aquelas que o mantinham preso
dentro de si mesmo – que Edu entendeu o significado da liberdade mais
verdadeira.
Não era algo conquistado pela confiança dos seus pais ou o direito de morar
sozinho em uma cidade desconhecida. Não era a possibilidade de tomar as suas
próprias decisões sem pedir permissão ou poder frequentar qualquer lugar que
desse na telha. A liberdade que mais fazia diferença era aquela que permitíamos
a nós mesmos, quando finalmente paramos de tentar podar aquilo que somos, ou
as nossas emoções.
Era isso o que, enfim, Eduardo Becker sentia.
Até que seu senso de dever o sabotou novamente.
Veja bem, ele gostava de Lavínia de verdade. Ela era uma pessoa importante
na sua vida – afinal, sem a ajuda dela, ele não sabia se teria chegado a esse
momento de autonomia e confiança. Quando o rapaz decidiu conversar com a
mãe dela para esclarecer toda a situação do “relacionamento” deles, não
esperava que Teresa fosse ter a reação que teve. Quer dizer, a última coisa que
ele imaginava era que ela fosse insistir para que eles tentassem “se conhecer
melhor do jeito certo”.
O que era o jeito certo, afinal de contas?
O rapaz não sabia. Mas como o adulto nessa amizade colorida e a pessoa
sobre quem recaíam todas as suspeitas – e com razão – ele não podia dizer que
não. Ele não podia simplesmente dizer que só queria se divertir um pouco com
uma garota de dezesseis anos e ir embora – como ele conseguiria conviver com
isso? Jamais.
Mas então, o que é que ele queria para si, afinal de contas?
Eduardo também não sabia até que, no dia seguinte, estava no sofá de Lavínia
de novo, com ela ao seu lado de braços cruzados e os pais dela no outro sofá
assistindo a TV. Havia um cheiro de frango muito bom pela casa – a janta
daquela noite – e o pai da garota olhava para eles de soslaio o tempo inteiro. Um
olho na novela, outro no novo casal.
Edu estava se sentindo muito estranho, como se tivesse voltado no tempo. O
início do seu namoro com Carla foi exatamente assim, no sofá da sala de estar,
com os pais dela supervisionando tudo. Foi assim quando Stella e Hipólita
começaram a namorar e seria assim com Maia, Leo e Selene quando eles
passassem por isso também. O procedimento padrão parecia perfeitamente
normal para Eduardo... Exceto pelo fato de que ele não se encaixava mais nisso.
Ele era não somente um homem de quase vinte e dois anos, mas um que
acabara de recuperar a sua liberdade interior.
Naquele momento, a última coisa que Eduardo Becker se sentia era livre.
Lavínia tampouco parecia feliz e os dois mal estavam conversando. Eles
trocaram algumas mensagens pelo celular durante o dia e agora estavam ali,
cercados pelo ambiente claustrofóbico da sala dela – que parecia tão grande
antes do pai crescer como um gigante e sua presença tomar conta do espaço
inteiro.
Edu engoliu em seco, incomodado demais com a situação estranha. Ele podia
não saber o que queria daqui para frente, mas definitivamente não era isso.
― Você tá com uma cara tão miserável – Apolo zombou, rindo do irmão
postiço com seu bom humor inabalável.
Bem. Eduardo não podia contestar aquela afirmação. Ele tinha sim uma
expressão desolada no rosto, sendo consumido mais uma vez pelos seus próprios
questionamentos. Deu um gole grande na sua cerveja e bateu o copo na mesa do
bar com um estrondo. Suspirou, piscando os olhos por trás dos óculos.
― Confesso que eu só sei que... Nada sei.
― Bem-vindo de volta ao maravilhoso mundo dos relacionamentos sérios –
Diogo deu um tapinha no ombro do amigo.
― Diz o piá que ficou quatro anos feliz ao lado da namorada – Guto contra-
argumentou, recebendo uma cara feia resmungona como resposta do melhor
amigo amargurado.
― Eu não tenho nada contra relacionamentos sérios – Edu deixou claro. – Eu
nunca tive, eu quero namorar de novo um dia. Mas sinto que acabei de terminar
com a Carla só agora e eu queria... Eu não sei, eu me sinto disposto a todas as
novas experiências pela primeira vez em anos.
― Mas e essa nova experiência com a Lavínia? – Guto indagou otimista. –
Vai que ela é o amor da sua vida?
Apolo quase cuspiu a cerveja.
― Eu quero vomitar – Diogo disse.
― João Augusto, o eterno romântico – Eduardo riu.
― Me desculpa se eu acredito no amor – o acusado se defendeu, dando de
ombros. – Vocês dizem isso porque ainda não encontraram alguém que amam
como eu amo a Cali e eu acho que o Edu merece isso.
Diogo deu um tapa na nuca do amigo.
― Ei!
― Obrigado – Apolo agradeceu o gesto que ele mesmo teria feito se estivesse
ao lado do Guto.
― O que é que tu tá dizendo, piá? – Diogo protestou incrédulo. – Ele merece
é abrir as pernas finalmente, isso sim.
― Eu agradeço o interesse de vocês na minha vida, como sempre, mas acho
que essa é uma coisa que eu preciso resolver sozinho – disse Edu.
Tomar as rédeas da sua vida era o que ele estava tentando fazer. Não que os
conselhos dos seus amigos não fossem bons, mas a primeira pessoa que Eduardo
precisava ouvir atentamente era ele mesmo.
― Eu acho que, na verdade, você já resolveu, né? – Apolo disse.
Edu o encarou, pego de surpresa por essa declaração repentina. Seu coração
acelerou e se apertou ao mesmo tempo, porque ele sabia que estava pensando o
mesmo que Apolo. Ele sabia que sabia exatamente o que queria e o que não
queria, mas detestava a perspectiva de ter que lidar com isso. Detestava as
atitudes que teria que tomar para fazer valer a sua vontade interior e o quanto ele
se sentia traindo a si mesmo, de certa forma, por seguir os próprios sentimentos.
O politicamente correto nem sempre era a melhor opção.
― O que o Romântico Incorrigível e o Militante Anti-Amor aqui não estão
levando em consideração é o que você quer, cara – Apolo continuou. – Pô, você
não precisa namorar nem odiar relacionamentos, sacou? Tava dando certo
enquanto era informal, mas não tá mais agora e isso só pode significar que a
coisa toda seguiu por uma direção diferente da que você queria. E de que adianta
ficar aí todo miserável?
― Vocês estão mesmo numa monogamia? – Guto perguntou. – Já
conversaram sobre isso?
― Não exatamente – Edu encolheu os ombros. – Digamos que isso é um test-
drive, mas eu nunca que conseguiria pegar alguém enquanto “tô” com a Lavínia
e olhar na cara dos pais dela depois. É uma questão de princípios, eu não
consigo... Mas nós não conversamos sobre nada ainda.
― Então basicamente você tá se sujeitando a algo só em respeito aos pais da
garota que tá pegando, mas com ela mesmo você não consegue mais conversar?
– Apolo disse. – Algo de errado não está certo.
― Vivi pra ver o dia em que Apolo Medina aconselha Eduardo Becker – João
Augusto deixou escapar o comentário e Apolo abriu um sorrisinho.
Não era, de fato, a ironia das ironias?
― Eu uso minha sabedoria apenas quando necessário.
Edu terminou de beber sua cerveja e encheu o copo de novo com o resto da
garrafa. Ele saboreou a liberdade por tão pouco tempo antes de acabar se
metendo de novo em uma situação que o condicionava a restringir os próprios
desejos. Por que será que ele fazia isso consigo mesmo? Seria essa uma espécie
de auto sabotagem involuntária? Dessa vez, porém, ele estava de olhos bem
abertos e não poderia fechá-los novamente.
Dessa vez ele estava ciente de quem era e de como precisava se libertar dos
seus demônios. Havia feito isso no último fim de semana e agora Eduardo
Becker era grande demais para caber dentro da caixa que tentava contê-lo.
Ele havia aprendido a ouvir a si mesmo e era o que pretendia fazer daqui para
frente.
“O que há de mal em relacionamentos abertos”, foi o que Apolo perguntou.
Algumas pessoas eram românticas como João Augusto e encontravam a sua
“Cali” logo cedo na vida. Outras viviam como Apolo, sem se apegar a ninguém
de verdade, não porque tentava fugir do amor, mas porque isso, aparentemente,
nunca tinha acontecido ainda. Eduardo não sabia aonde se encaixava nessa, mas
se namorar uma pessoa o fazia se sentir daquela maneira incômoda, então por
qual motivo ele estava fazendo isso?
Pela primeira vez em anos, quando ele entrou naquele bar que sempre
frequentou, o olhar de Eduardo Becker estava diferente. Ele via as pessoas, as
enxergava como seres vivos e cheios de histórias que ele poderia vir a conhecer
ao invés de apenas serem parte da decoração. Ele cruzou olhares com outras
mulheres e sentiu vontade de conhecê-las; foi surpreendido por risadas altas do
outro lado do estabelecimento e quis saber o motivo da piada; sentiu e foi atraído
pelos cheiros dos perfumes, os barulhos desconhecidos que a cidade fazia, o
gosto de comidas que nunca tinha provado.
Ele se sentia livre e seu coração estava ansioso, sedento pelo próximo
capítulo da sua própria história.
Pela primeira vez em anos, o rapaz queria tudo o que suas mãos poderiam
alcançar e infelizmente não teria como fazer isso ao lado de Lavínia, sua
maravilhosa vizinha e amiga adolescente, cuja vida ainda era tão diferente da
dele. O mundo era um lugar muito vasto e ele estava cansado de se sentir
culpado por querer explorá-lo por inteiro e precisar deixar certas coisas para trás.
Eduardo Becker pensava tanto em jamais faltar com respeito às outras
pessoas que acabou se esquecendo de respeitar a si mesmo.
― Vamos de mais uma rodada? – ele sugeriu.
Os rapazes beberam e jogaram conversa fora, mas quando Edu chegou em
casa a primeira coisa que fez foi mandar uma mensagem para Lavínia.
Eduardo: Tá acordada?
2 minutos depois a menina respondeu.
Lavagirl: Deus me livre dormir antes das 11
Ele riu e o seu coração se aqueceu por aquela frase simples, por ela ser um
reflexo da garota que ele tanto adorava ao invés da pessoa estranha com a qual
andava lidando nos últimos dias.
Eduardo: Precisamos conversar, de vdd dessa vez.
1 minuto inteiro se passou entre o momento em que ela leu a mensagem e
quando começou a digitar.
Lavagirl: Me encontra no play agr?
Eduardo: To descendo.
Ele colocou o celular no bolso e deu meia volta para fora do apartamento. E
enquanto descia as escadas naquela noite amena de maio, mais uma página da
sua história era virada.
38. Pressa
Lavínia não estava nada, nada satisfeita com a atual situação da sua vida e
não conseguia sequer disfarçar. Ela nunca foi uma pessoa de meia palavras: era 8
ou 80, ou tudo ou nada. No momento, o nada estava ganhando com uma
vantagem espetacular.
Mas o pavio da menina cujo apelido era Lavagirl só podia ser curto.
― Quem foi que fez essa playlist? – ela ouviu um garoto do outro segundo
ano perguntar com uma cara feia.
― Quem mais? K-pop só pode ter vindo da Lavínia – a amiga dele, que
claramente partilhava do seu desgosto pelos grupos coreanos, respondeu.
Lavi arqueou uma sobrancelha e se virou para os dois com uma expressão de
muitos poucos amigos.
― Se você quer ouvir funk ou sertanejo universitário, vai pra uma balada
hétero.
Ela empinou o nariz e se virou de costas antes mesmo que eles pudessem
responder. Não estava com paciência naquele dia para engolir sapos e sua
metralhadora pessoal estava no modo “ativar”. Foi até a mesa da sala e encheu
um copo de Fanta Laranja enquanto vários adolescentes da sua escola riam em
um jogo possivelmente polêmico de verdade ou consequência.
Lavínia odiava a verdade, e a única consequência que ela conseguia imaginar
no momento era um soco na cara do primeiro que tentasse bancar o
engraçadinho.
― Vai com calma aí no corante, miga – Cami brincou, se aproximando da
melhor amiga com cara de quem estava se divertindo muito.
Lavínia revirou os olhos e deu um gole na sua Fanta. Ela costumava ser a
alma da festa nas sociais na casa da Anaju, mas não dessa vez. Cami franziu a
testa, reparando no comportamento estranho da amiga.
― Tá tudo bem?
Lavínia engoliu depressa.
― Por que não estaria?
Cami estreitou os olhos.
― Eu conheço você, sei muito bem que quando tá frustrada fica nesse mau-
humor terrível, descontando em cima de todo mundo. Nem adianta mentir pra
mim.
Lavínia, às vezes, odiava não conseguir mentir para Cami e sua perspicácia.
Ela bufou e pousou as duas mãos na cintura. Fitou a amiga nos olhos, daquele
seu jeito sincero e intenso de sempre.
― O que você faz quando quer sua antiga vida de volta, mas não existe um
botão de reset na vida real ainda?
Cami fez uma careta solidária.
― Tá tão ruim assim?
― Eu estou odiando.
― Mas você não é, tipo, louca pra dar pra ele?
― É, mas eu nunca quis namorar. Tentei ouvir minha mãe e dar uma chance,
mas eu sinto aqui dentro – ela tocou a região do coração com a ponta dos dedos
– que não quero isso agora. E não tem nada a ver com ele, tem a ver comigo.
Cami ponderou e apoiou a mão na mesa. Uma explosão de gargalhadas no
jogo de verdade ou consequência as fez levar um susto, mas as duas voltaram
rapidamente para sua conversa séria no meio da social hipster de Anaju.
― Bem, você não precisa.
Lavínia suspirou, lastimosa. Ela havia ligado para a prima mais de uma
semana atrás à procura de conselhos quando estava se sentindo em dúvida,
quando não conseguia entender as coisas que estava sentido e o que ela queria de
verdade. Mas agora era diferente; agora ela sabia muito bem o que seu coração
estava dizendo, só não sabia o que fazer com isso.
Era óbvio que ela gostava de Edu e jamais se cansaria de beijar aquela boca,
mas tudo estava indo por água abaixo. Ao invés de se sentir ansiosa para vê-lo,
como antes, ela ficava estressada com a nova dinâmica, com o envolvimento dos
seus pais e a necessidade de seguir um protocolo de relacionamento. Ao invés de
aproveitar o máximo que podia, de viver cem por cento, Lavínia não se sentia à
vontade.
Ela já havia namorado antes, por mais que o seu ex tenha sido um maldito no
final. Mas ela quis estar com ele no início e, por isso, sabia como era esse tipo de
comprometimento com alguém, quando genuíno. Não parecia uma obrigação
como Lavínia se sentia agora. Era algo que a libertava e a fazia sentir bem, que a
trazia conforto ao invés de fazê-la sentir como se estivesse sendo impedida de
viver o que queria.
Assim não era bom. Assim não era certo.
Era bom quando Edu costumava ser uma parte da sua vida para onde a garota
ia quando dava vontade, para onde ela ia quando sentia saudade. Era bom
quando a conversa entre os dois fluía fácil, não agora quando Lavínia sentia que
ela era algo pelo qual ele se sentisse responsável. O comportamento do rapaz
havia mudado, assim como o dela também devia estar diferente e, quando ela se
lembrava do que eles costumavam ter antigamente, sentia apenas vontade de
voltar no tempo.
Havia um tempo em que ele costumava inspirá-la a ser a melhor pessoa que
conseguisse e era esse o seu desejo agora. Queria ficar com ele como antes, sim,
mas também queria estar aberta a todas as outras possibilidades que a vida tinha
a oferecer. Lavínia queria, acima de tudo, explorar a pessoa que ela era.
― Eu odeio essa situação – ela admitiu, bastante chateada. – E nem posso
afogar minhas frustrações na boca de outra pessoa.
― Você não faz mais isso, lembra? – Cami advertiu, divertindo-se no fundo.
– Não resolvemos tudo beijando o primeiro coleguinha que aparece na nossa
frente. Resolvemos nossos problemas lidando com eles.
Lavínia fez uma careta e revirou os olhos de novo. Estava prestes a dar uma
resposta, mas sua expressão mudou de repente. Ela abriu um sorriso malicioso
que Cami não entendeu nada.
― E beijar o primeiro coleguinha que aparecer atrás? Isso pode?
― Do que você tá fal...
― E aí, moças – Fabrício chegou por trás da garota de cabelo laranja, tocando
o ombro dela suavemente. Cami parou de falar na hora, sendo pega de surpresa,
e lançou um olhar de entendimento para a amiga. Suas bochechas coraram
imediatamente, o que só fez Lavínia ter que se controlar para não soltar uma
gargalhada.
Era disso que ela estava falando.
― Oi – Cami respondeu, nitidamente nervosa agora que ele estava ali. Ele,
aliás, não conseguia tirar os olhos dela.
― E aí, Fabrício – Lavi saudou de um jeito sugestivo. – Ouvi dizer que você
é louco numa Fanta Laranja.
Ele a encarou sem entender, mas Cami captou na hora a referência indireta à
cor dos seus cabelos. Arregalou os olhos em um pedido silencioso para que a
amiga parasse com aquilo ou então seus dias estavam contados.
“Dias contados são os da sua boca virgem”, era o que Lavínia queria dizer.
― Vocês já viram o último vídeo da Jout Jout? – Anaju gritou se jogando em
cima dos dois pombinhos como uma bomba-humana.
― Cacete, que susto! – Fabrício protestou. – Sua maluca.
― Eu já vi – Lavínia respondeu.
― E vocês dois? – perguntou de novo, abraçando-os.
― Não, eu...
― Então vão assistir! – gritou de novo, dando seu celular para Cami e os
arrastando até o único sofá vazio, no canta mais afastado da sala, onde o barulho
provavelmente era menor. Lavínia assistiu enquanto Anaju fazia uma Cami e um
Fabrício muito confusos se sentarem um ao lado do outro, com as cabeças
coladas para assistirem juntos ao vídeo na telinha do celular.
― O que tá havendo? – Paulo perguntou, se aproximando de Lavínia junto
com Isabel. Os dois tinham visto o pequeno escândalo da amiga maluca.
― Não faço ideia – Lavínia admitiu, rindo.
Anaju veio na direção deles com uma expressão triunfante no rosto.
― Pronto. Agora eles estão sozinhos. E eu juro pra vocês que se esses dois
não saírem do zero a zero hoje eu mesma pressiono a boca de um na do outro –
explicou, fazendo seus amigos gargalharem.
Todo mundo sabia que Cami e Fabrício estavam loucos para se pegarem, mas
nenhum dos dois sabia como tomar a iniciativa. A própria Cami tinha admitido
para Lavínia que finalmente se sentia pronta para dar o primeiro beijo e que
gostaria muito que fosse com ele.
Anaju planejava ser, naquela noite, a fada madrinha que transforma sonhos
em realidade.
― Como é que eu não gostava de você antes? – Isabel se indagou.
― Melhor pessoa – Paulo concordou. – Ajeita minha vida também, já que
essa daqui não quer meu corpo moreno, alto, bonito e sensual – ele apontou pra
Lavínia, desdenhoso. Agora que os dois tinham voltado a ser amigos, tudo
parecia tão mais fácil. Graças aos céus eles eram o tipo de pessoa que não se
constrangiam com esse tipo de brincadeira.
― Você tá ficando com a Fernanda, é você que não me quer mais – Lavi
rebateu e Paulo encolheu os ombros como quem diz “fazer o quê, sou gato
demais”. Bom, ele realmente era.
― Pior sou eu que tenho certeza da minha bissexualidade, mas nunca peguei
uma menina – Isabel desabafou.
Os três rostos olharam para ela surpresos.
― Nunca? – Lavínia estava incrédula. – Mas eu achei que você tivesse ficado
com a menina das férias ano passado!
― Como assim nunca pegou uma menina? Tem, tipo, trezentas na nossa
escola – Paulo estava chocado. – Tá esperando o quê?
― Eu só não sei como chegar nelas!
― A gente vai resolver isso hoje mesmo – Anaju respondeu, com uma
expressão determinada, mas também um brilho... diferente no olhar. – Você
ainda quer a minha ajuda?
Isabel também notou a diferença no tom de voz de Anaju, mas parecia tão
determinada quanto. Ela demorou um pouco mais para responder, talvez
pensando nas consequências de cada uma das opções de resposta. Mas quando
ela disse:
― Com certeza.
Anaju se aproximou e a puxou pela cintura e pelo pescoço. Abriu um
sorrisinho vitorioso e então as duas começaram a se beijar bem ali entre Paulo e
Lavínia. Os dois se encararam na mesma hora, um mais chocado do que o outro
e ambos quase explodindo de empolgação.
― Puta merda! – ele exclamou, rindo.
― Olha, a Cami e o Fabrício também! – A garota apontou para os pombinhos
no sofá, também envolvidos nos lábios um do outro. Lavínia não conseguiu nem
começar a descrever o tamanho da felicidade que sentia pelos amigos.
Camila ainda não tinha perdido o seu BV porque queria que acontecesse no
momento certo, quando ela sentisse de verdade que era isso o que queria. Bom,
parece que o momento certo foi agora. Lavínia foi testemunha do modo como
ela e Fabrício se olhavam e de como ela tinha finalmente chegado ao ponto que
queria, sem nunca ter se cobrado para acelerar ou tentar fazer acontecer por
conta da pressão alheia.
Ela respeitou os seus limites, respeitou o seu próprio tempo, e havia ganhado
como recompensa um momento incrível que, apesar das brincadeiras da Anaju,
aconteceu só porque os dois queriam acima da vontade de qualquer um.
Para que correr, afinal de contas? Por que as pessoas tinham tanta pressa o
tempo inteiro? Pressa por crescer, pressa por querer viver tudo ao mesmo tempo,
o mais cedo e mais rápido possível. Lavínia mesma tinha essa ânsia de querer
mais e mais e mais. Agora ela finalmente estava aprendendo a desacelerar e a
aproveitar o momento da vida em que se encontrava. Sem querer ir além do que
o necessário, sem precisar dar um passo maior do que as pernas.
Ela olhou de volta para Isabel e Anaju em seu beijo caliente e riu. Paulo
estava ao seu lado e passou um braço pelos seus ombros, os dois sozinhos,
porém juntos. Ela suspirou e olhou seu amigo nos olhos, satisfeita por estar onde
estava e com a coragem necessária para resolver todas as coisas fora do lugar.
― E você? Não vai atrás da Fernanda já que todo mundo decidiu dar uns
amassos de uma só vez? – brincou.
Mas o rapaz apenas abriu um sorrisinho no canto do rosto e disse:
― Nah. Eu tô com meus amigos agora e isso também é muito precioso.
Lavínia não podia concordar mais.
E pela primeira vez na sua vida ela se sentiu plenamente satisfeita por ser ela
mesma. Sem tirar nem pôr. Sem querer correr para lugar nenhum ou afogar as
frustrações em algum dos seus vícios pessoais.
Ela era Lavínia Lemes. Moradora do bairro do Botafogo no Rio de Janeiro.
Amava K-pop, tinha os melhores amigos do mundo, queria aprender a dançar
profissionalmente e amava propagar os direitos das mulheres por aí. Ela não
fazia ideia de para onde iria depois da escola, mas a vida era uma caixinha de
surpresas maravilhosa.
Ela não estava mais com pressa.
Um passo de cada vez.
39. Ironia
Enquanto Lavínia descia o elevador pronta para encontrar Eduardo, um
flashback se passava pela sua cabeça. A presença dele estava ali dentro junto
com ela e a garota se perguntava se algum dia conseguiria entrar em um elevador
sem acabar se lembrando do vizinho. Seu coração acelerou quando ela pensou
no jeito todo certinho dele, no modo como ele era uma pessoa diferente de todas
que ela já conheceu até hoje e como fazia seu corpo vibrar por inteiro quando
estava por perto.
“Ele sempre vai ser uma pessoa importante na sua vida”, foi o que disseram
para ela poucos dias atrás. E Lavínia sabia que não havia nada mais verdadeiro
do que aquelas palavras, assim como tudo o que ela sentia por ele seria para
sempre especial.
Para sempre viveria.
Quando ela chegou ao play do prédio e o viu sentado em um dos balanços,
sentiu um pouco de medo. Não porque ela não sabia o que queria, mas porque o
futuro era algo que não podia ser previsto. Ela sabia exatamente sobre o que eles
iriam conversar, soube no mesmo momento em que recebeu a mensagem de Edu.
Talvez as coisas tivessem saído um pouco do controle e ameaçado ruir, mas se
havia algo que Lavínia se orgulhava era de conhecer aquele rapaz muito bem.
Ela sabia que ele sentia o mesmo que ela, mas, ainda assim, não era fácil
colocar tudo aquilo em palavras. Não era fácil colocar pontos finais, mesmo
quando eram inevitáveis na frase.
― Não é que eu não goste de você – disse Lavínia, um tempo depois de
arranjar coragem para ir ao encontro de Edu. Ela apertou a corrente do balanço
onde se sentou, não sabendo como continuar falando de um jeito que deixasse
bem claro quais eram os seus sentimentos. – Eu acho você uma pessoa
maravilhosa.
― Eu também te acho maravilhosa – ele disse. Estava sentado no balanço ao
lado da garota, como de praxe, mas parecia bem mais tranquilo do que ela.
Deixou escapar uma risada que a deixou um tanto confusa.
― Do que você tá rindo?
Edu balançou a cabeça, ainda com o riso estampado em todo seu rosto. Ele a
encarava com adoração, com a intimidade cúmplice que os dois haviam
construído durante esses meses de amizade colorida. Era como se ele
conseguisse sentir o gosto dela na sua língua, agora, só de fitar aqueles olhos
azuis, e isso o confortava, ao mesmo tempo em que o fazia sentir pesar por
precisar deixar para trás.
Para Lavínia, Eduardo desejava apenas as melhores coisas, mas ele não era
uma delas no momento.
― É que eu me torturei pensando nessa conversa e em como seria difícil, em
como eu não sabia como tu ia reagir... Mas pelo jeito você estava pensando
exatamente a mesma coisa que eu. Não é irônico?
Lavínia conseguia enxergar a ironia e todo o motivo da graça. Muita coisa
andava sendo irônica entre eles dois e era mesmo muito doido que eles
estivessem em sintonia justo sobre algo como terminar, quando demoraram tanto
para começar alguma coisa porque Eduardo simplesmente não conseguia cruzar
a barreira.
Entretanto, aquela sintonia não surpreendia Lavínia em nada. Eles, ao mesmo
tempo em que eram pessoas completamente diferentes, encontraram no balanço
da sua oposição uma maneira de descobrir um caminho semelhante para suas
vidas. Talvez influenciados um pelo outro.
A pessoa que eles eram hoje dia não era mais a mesma de quando se
conheceram de verdade meses atrás. Eles foram modificados para sempre por
tudo o que aconteceu em suas vidas e também um pelo outro. E aquilo não tinha
preço.
A tensão em seus ombros diminuiu e ela conseguiu relaxar o suficiente para
sorrir também, se deixando levar pela sensação de paz que ele sempre fazia
invadi-la.
― Vai ver, no fim das contas, somos almas gêmeas e só não percebemos isso
ainda – ela brincou.
Ah, como ele adorava o seu senso de humor.
― É possível que percebamos isso daqui cinco anos – ele entrou na
brincadeira. – Quando nossos mundos estiverem prontos para se colidirem dessa
maneira.
Lavínia assentiu e a percepção do quanto as palavras de Eduardo eram
verdadeiras caiu sobre ela como raio. A garota não conseguiu sequer disfarçar o
impacto que elas tiveram e Edu percebeu na mesma hora.
― Tudo bem?
Ela expirou o ar enquanto as engrenagens do seu cérebro trabalhavam a todo
vapor. Uma frase simples às vezes podia fazer toda a diferença.
― Tudo – garantiu. – Só fiquei pensando nisso que você acabou de dizer. Eu
tinha minha vida, você tinha a sua e elas se cruzavam de vez em quando no
nosso universo particular, mas quando tentamos convergir as duas à força tudo
desandou de um jeito negativo.
Edu assentiu, impressionado como não tinha pensado tão a fundo no que ele
mesmo dissera. Mas fazia todo o sentido, era exatamente isso o que sentia, mas
não conseguia explicar de uma maneira eloquente o suficiente antes.
Havia dois tipos diferentes de colisão entre eles que o rapaz conseguia
distinguir agora. Lavínia o tirou completamente dos trilhos quando entrou na sua
vida, fez Eduardo remexer em coisas que não se permitia antes, e encontrar a
absolvição de si mesmo que tanto procurava. Ela era coragem, era força, era
ousadia. Ele era foco, era calma, era responsabilidade. Eles eram tudo o que
faltava no outro e juntos foram uma combinação perfeita até que, juntos, não
foram mais capazes de caber no mundo que forçava ainda mais aquela colisão.
Eduardo suspirou, sentindo alívio por finalmente encontrar as palavras, pois
elas eram uma coisa muito poderosa. Quando as pessoas as encontravam e
colocavam para fora o que estavam pensando, tudo se tornava mais fácil. As
palavras transformavam as coisas subjetivas em reais e somente elas eram
capazes de trazer o entendimento do ser humano sobre si mesmo.
De que adiantaria pensar e saber todas as coisas se elas não fossem ditas?
Viveriam para sempre no mundo das ideias e jamais se tornariam realidade.
Aquilo ali, agora, no play do prédio, era o mundo real.
― Será possível sentir falta de alguém que está tão perto de você? – Edu se
questionou, entrando no seu modo filosófico graças ao gatilho que Lavínia
ativara. Ironicamente, ele também havia acionado o dela sem querer.
Eduardo amava ironias.
Os olhares dos dois se encontraram, ali submersos pela luz da lua. Lavínia
mexia de leve a perna, balançando o balanço, e o peito de Edu se inflou. Ela
sentia o coração batendo forte dentro do peito, mas de uma maneira que a
acalmava. De uma maneira agridoce e saudosista.
― Do que você tá falando exatamente? – ela perguntou.
― De você – ele respondeu, olhando nos olhos dela com ternura e fazendo a
pele de ambos se arrepiar. – Eu senti falta essa semana inteira de ti sendo que tu
não tinha ido a lugar nenhum. Tecnicamente, estava mais perto do que nunca.
A menina encostou a cabeça da corrente do balanço, devolvendo o olhar dele
com o mesmo carinho que recebia, com a mesma eletricidade que sempre
percorria seu corpo quando fazia isso. Ele era tão bonito, isso ela sempre soube
desde o início. Foi o que a fizera ter um crush pesado no rapaz e cobiçá-lo como
nunca desde mais nova. Mas Eduardo Becker era ainda mais bonito por dentro, e
o valor que ele tinha para ela agora ia muito mais além do que os beijos que
dava.
― Você sentia falta de quem eu era na sua vida antes – ela esclareceu. – No
minuto que forçamos demais acabamos nos afastamos um do outro porque não
conseguimos lidar. Não era isso o que queríamos, né?
Edu piscou, orgulhoso do quanto Lavínia havia amadurecido nesses poucos
meses em que começaram aquele relacionamento que não cabia em nenhum
rótulo que ele conseguia imaginar.
― Sim. Acho que você está certa.
Os dois ficaram em silêncio, olhando um para o outro sem dizer uma palavra
sequer, todas as sensações à flor da pele por aquela proximidade íntima e
confortável entre eles. Lavínia queria dizer muitas coisas, mas não sabia como.
Eduardo não queria dizer nada porque nada seria o suficiente para expressar o
alívio que ele estava sentindo.
Os sentimentos, diferentemente dos pensamentos, não precisavam de
palavras.
― Eu queria poder ser mais velha pra podermos voltar a nos pegar
ocasionalmente sem você sentir que está traindo sua índole imaculada – ela disse
por fim e Eduardo não conseguiu conter a gargalhada.
― Às vezes, Lavínia, você me deixa sem palavras. Esse é um desses
momentos.
A garota sorriu maliciosa e vitoriosa, provocando um turbilhão de euforia
dentro dele, uma revolução inteira cantando seu brado de vitória.
― É uma arte. Você pode aprender também.
― Quem sabe um dia? – ele disse.
― Quem sabe um dia – ela concordou.
Lavínia encarou a lua no céu por algum tempo, deixando que a sua luz
permeasse em cima deles tanto quanto as mensagens subliminares. Sentia quase
como se conseguisse notar o mundo girando naquele mesmo momento, um
silêncio tranquilo e carregado de um entendimento que somente ela e Eduardo
conseguiriam compreender.
Havia uma infinidade de possibilidades à sua espera, um mundo vasto e
inteiro esperando por ela, pelas esquinas que viraria em busca do
autoconhecimento e dos próximos desafios. Ela sabia que um dia iria querer
ficar com alguém de todos os jeitos que duas pessoas podem ficar juntas, mas no
momento a pessoa que Lavínia mais queria desesperadamente descobrir e amar
era ela mesma.
Eduardo ajeitou os óculos que caíam do rosto e deixou que a lua o iluminasse
também, como um pedido para que todos os seus dias fossem dignos dessa luz e
que ele nunca mais sentisse medo de colocar os pés para fora da cobertura que o
prevenia dela. Era tão estranho passar por esses momentos de definição, porque
fazia parecer que depois deles toda a sua vida estava escrita, quando na verdade
a vida em si nada mais era do que a compilação de instantes. Alguns decisivos
como esse determinavam o seu rumo até que ele topasse com o próximo.
Finais felizes eram apenas começos disfarçados de palavras bonitas.
― Tem algo que eu preciso fazer antes que a gente vá embora do play.
― É estranho deixar ele pra trás assim – Edu pensou. Balançou a cabeça,
sentindo-se muito juvenil. – Mas diz, do que tu precisa?
A menina então se levantou e o puxou para que ele fizesse o mesmo também.
Ele cresceu na sua altura indiscutível e foi pego de surpresa quando os braços de
Lavínia o envolveram em um abraço apertado. Os braços de Lavínia o
envolveram do seu jeito caloroso e ele a abraçou de volta, subindo as mãos pelas
costas da menina e deixando que o ar saísse dos seus pulmões, deixando que ela
entrasse dentro dele e torcendo para que, de alguma maneira, ela ficasse sempre
ali.
Eles fecharam os olhos e ouviram apenas as batidas do coração um do outro,
entregues àquele momento em que nada havia mais no mundo além dos dois.
Então se permitiram sentir mais uma vez a intensidade daquele sentimento que
dividiam e que seria importante não importa o que aconteça.
Eduardo a abraçou de volta e deixou a cabeça pender sobre a dela, sentindo o
calor daquela menina cheia de vida o cativar também.
E os minutos se passaram lentamente como se fossem horas enquanto aquele
abraço durou. Aquele abraço que dizia tanto mesmo sem dizer nada, e era a
maior confirmação de que nenhum dos dois se enganou no que estavam fazendo
– nem na perspectiva de quem era aquele outro ser humano que queriam tanto
bem. Aquele abraço que trazia tanto e deixava tanto para trás, como uma
renovação de um ciclo que chegava ao fim e se iniciava de novo. Aquele abraço
que foi inspirador e fez florescer o que havia de melhor dentro dos seus
protagonistas.
Aquele abraço feito de memórias, de sensações e sentimentos. De pessoas que
passavam a conhecer a si mesmas e aceitavam suas próprias limitações. De
pessoas que romperam suas próprias barreiras e se tornaram outras, maiores e
mais sábias, um segundo mais evoluídas do que no instante anterior. Pessoas que
eram tão diferentes e nessa diferença encontraram o gatilho que os fez ser a
melhor versão de si mesmos.
Essa nunca foi uma história de amor. Essa sempre foi uma história de
crescimento.
E naquele momento, Eduardo e Lavs finalmente deixaram o casulo e voaram
alto para onde quer que o vento os levasse.
Epílogo
1 mês depois
Tudo começou dentro de um elevador e fazia total sentido que terminasse
assim também.
Lavínia estava ouvindo sua música ensurdecedora logo cedo da manhã e o
rosto inchado não a deixava disfarçar o sono que sentia. Ela estava exausta, para
ser totalmente franca. Andava estudando como uma condenada, já que a
temporada de provas daquele bimestre estava só começando. Seus pais estavam
orgulhosos da sua dedicação – embora mal soubessem que isso só estava
acontecendo por causa da bomba que a menina levou nas provas do mês
passado.
Bem, uma garota tem direito aos seus pequenos segredinhos.
Ela estava respondendo as mensagens de Cami – que andava meio feliz
demais agora que começou a ficar com o Fabrício – quando a porta do elevador
se abriu no décimo primeiro andar. A menina subiu o olhar do telefone a tempo
de ver a porta de metal se abrindo e nada mais, nada menos do que Eduardo
Becker, o vizinho delicioso, apareceu.
Ela tirou os fones do ouvido quando ele sorriu simpático e acabou deixando
Cami falando sozinha. Ah, aquele sorriso. Sempre um tiro certeiro nas estruturas
emocionais da garota que, sim, estava de boas com o fato dos dois agora serem
apenas amigos, mas ainda era humana.
Uma garota tem direito também de saber apreciar a vista.
― Bom dia, Lavínia – ele disse com aquela voz maravilhosa. Filho da mãe.
― Bom dia, piá – ela implicou. Ele deu um gole no seu copo de acrílico da
Starbucks provavelmente cheio do café que o rapaz tanto amava.
Os dois estavam há algum tempo sem se falar direito ou se esbarrar pelos
passeios de elevador da vida, a última vez que conversaram foi na semana
anterior quando ele fez aniversário, no dia 26 de maio. Finalmente vinte e dois!
― Por que acordou tão cedo numa sexta-feira?
Edu mordeu o lábio, como se estivesse escondendo alguma coisa – o que,
obviamente, só deixou Lavínia mais curiosa. Ele a encarou de soslaio,
ponderando se diria ou não o que se passava na sua mente. Acabou desistindo de
guardar o tal pensamento para si.
― Tá, eu vou te contar uma coisa que poucas pessoas sabem. Fiquei sabendo
antes de ontem e ainda não espalhei a notícia, mas... Bem, eu vou fazer
mestrado.
Lavínia ficou encarando o rapaz, piscando seus grandes olhos azuis tentando
entender qual era a novidade.
― Na Inglaterra – ele completou.
Aí estava ela.
― Wow! – ela disse, pega de surpresa. Bastou um segundo para que a
empolgação pela conquista do rapaz viesse com tudo e Lavínia praticamente
pulou em cima do braço dele, soltando um gritinho. – Caramba, isso é muito
incrível! E é tão a sua cara que eu não sei por que fiquei surpresa – ela riu. –
Parabéns, nerd.
Edu riu também, com toda sua modéstia e timidez aparentes em seu rosto
maravilhoso. Bem, ele estava também muito feliz e orgulhoso de si mesmo, o
que era ótimo. Não havia ninguém que merecesse mais uma carreira acadêmica
brilhante do que o dedicado Eduardo Becker.
― Obrigado. Surgiu uma bolsa e eu acabei passando, ainda tô processando o
fato de que estarei na Inglaterra no fim do mês, estudando em Cambridge. Dá
pra acreditar? Uns dos maiores centros de pesquisa sobre a família Romanov
está lá, foi onde minha orientadora fez o mestrado também. Foi ela quem fez
essa oportunidade ser possível pra mim, na verdade.
― Você, o queridinho da professora fodona, quem iria imaginar? – Lavínia
brincou, fazendo Eduardo rir. – Mas sério, você merece tudo isso, embora eu vá
sentir saudades quando estiver por lá.
― Prometo que te trago um presente quando voltar.
Os olhinhos dela brilharam.
― Eu vou cobrar!
― Mas e você, como anda? – perguntou. Lavínia deu de ombros e estremeceu
ao pensar novamente nas suas provas.
― Estudando e esperando ansiosamente pela próxima festa. Alguns de nós,
pobres mortais, não temos o intelecto de um Eduardo de Almeida Becker.
Os dois trocaram um olhar cúmplice e ele balançou a cabeça, dando outro
gole no seu café. A música saía estrondosa dos fones de ouvido no pescoço da
menina e aquela cena parecia tão igual à primeira de todas, mas ambos estavam
tão diferentes por dentro.
Era tudo uma questão de perspectiva.
O elevador chegou ao térreo e Edu empurrou a porta com o ombro. Lavínia
passou e se virou para trás, para onde ele ainda estava parado segurando a porta.
Os dois se encararam e sorriram um para o outro, contemplativos.
― Meu irmão vai fazer uma festa de despedida pra mim na sexta que vem –
ele disse. – Se tu puder vir, ia me fazer muito feliz.
Ela jamais recusaria um convite como esse.
― Eu já tinha combinado da minha prima vir passar o fim de semana aqui,
será que eu posso levar ela também?
― É claro que sim. Sem problemas.
― Então estarei lá. Não perderia isso por nada, Eduardo Becker.
Ele sorriu para ela, com os lábios e também com os olhos, com todo o seu
rosto e toda a sua alma, pois aquelas palavras eram genuínas. Lavínia suspirou,
tão feliz por tê-lo encontrado naquele dia que mal poderia expressar. Era uma
excelente maneira de começar uma sexta-feira que tinha tudo para ser
estressante, mas acabou se tornando a portadora de boas notícias.
Ela queria que ele fosse longe. Torcia para que ele encontrasse todas as coisas
que procurava e que fosse muito, muito feliz.
― Foi muito bom te ver, Lavínia – ele disse, tão verdadeiro quanto a garota.
Eles eram esse tipo de pessoa que sempre extraíam verdades e tudo o que havia
de melhor um do outro. E ele se sentia orgulhoso dela, orgulhoso de ter visto
com os próprios olhos ela se tornando essa pessoa tão determinada.
― Foi bom te ver também – ela concordou. Apontou para ele e arqueou uma
sobrancelha adversativa. – E eu vou cobrar o meu presente inglês.
É claro que Edu soltou uma gargalhada.
― Eu não irei me esquecer.
“Não irei me esquecer de você”, era o que ele queria dizer com a boca. Mas
os olhos fizeram o trabalho de um jeito muito melhor que Lavínia compreendeu
sem precisar de releitura.
“Até parece que eu ia deixar”, era a resposta dela.
Os dois se despediram naquele dia e Eduardo entrou de volta no elevador,
indo até o estacionamento. Ela caminhou para fora do prédio, rumo à sua escola,
aos seus amigos e ao seu futuro ainda não tão brilhante quanto o do seu amigo
do sul.
Para lados opostos eles seguiram, carregados pelos ventos do futuro e do
presente que se convergiam. Leves como plumas eles seguiram adiante, sem
olhar para trás, e seus destinos eram uma página em branco sendo escrita um
pouquinho mais a cada dia.
Começos em forma de finais; capítulos que ficavam para trás. Histórias que
eram belas e marcavam, mesmo que efêmeras.
Eduardo e Lavs.
Agradecimentos
Antes de mais nada, agradeço às meninas da Duplo Sentido Editorial pelo lindo
trabalho que viemos fazendo juntas; em especial à Vanessa S. Marine, por ter
cuidado desse livro com tanto carinho e me mostrado caminhos tão incríveis
para melhorar a história que fez o trabalho se tornar diversão. Estou muito
orgulhosa de nós, miga.
Agradeço à Vanessa Leal pelas ilustrações maravilhosas que dão vida a esse
livro e à Juliana Sobreira Catalão e Thayssa Zaro por todo o carinho e apoio.
Obrigada a Tamara Soares por compartilhar comigo todos os estágios do meu
processo criativo, e tanto a ela quanto a Marcele Cambeses por terem sido
conselheiras fiéis sobre SOP desde o dia um, e por terem me tirado do escuro
quando me perdi. Obrigada também a Júlia Braga, Mel Geve e Verena Belfort
por completarem o melhor coven secreto de amigas escritoras que você respeita!
Agradeço aos meus pais pelo amor, paciência e apoio incondicional desde 1993.
E à minha irmã Paula, por ter se tornado uma garota tão inspiradora (apesar de
aquariana) de quem me orgulho muito. Obrigada a Aline Santos, Franciellen
Amorim, Nádia Perez, Thainá Castro e todos os outros amigos que fazem a
minha vida mais bonita. Esse livro, afinal, fala sobre amizade e o quanto as
pessoas que conhecemos são capazes de mudar a nossa vida e nos fazer crescer.
Amo cada uma das pessoas aqui citadas e me sinto muito sortuda por tê-las
comigo.
E finalmente eu não poderia deixar de agradecer aos verdadeiros donos de tudo:
meus leitores, que vestiram a camisa dos Medina-Becker no Wattpad e hoje são
parte cativa no meu coração. Eu nunca pensei em tratar sobre feminismo nesse
livro, mas a Lavínia tem vida própria, né? E posso dizer que eu mesma aprendi
demais com o processo de escrita. Eu vi com meus próprios olhos muitos de
vocês mudarem também, presenciei tanta gente descobrindo coisas sobre si
mesmo e parando para pensar pela primeira vez em questões que nos afetam
diariamente. Jamais me esquecerei disso enquanto viver.
Obrigada por me permitirem falar e por quererem ouvir, por terem feito de
Sobre(O)postos (nosso queridinho SOP) um capítulo tão bonito e importante na
minha vida. A Lavínia que há em mim saúda a Lavínia que há em você aí, lendo
isso. Que a nossa voz nunca se cale e que a gente nunca desista de fazer o mundo
ser um lugar melhor para todos. E, é claro, que sejamos todos feministas.
Beijos e queijos, câmbio desligo.
Sobre a autora
Conteúdo Extra
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Leia os outros livros da série Medina-Becker:


1. Sob o Mesmo Teto
2. Sobre[o]postos
3. Superlativo
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[1]
Personagem do livro “La La Land – O Sonho Americano”, também da autora Bruna Fontes.

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