NÚCLEO DE PÓS-GRADUAÇÃO
CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO
Coordenação Pedagógica – IBRA
DISCIPLINA
ÉTICA PROFISSIONAL
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO .............................................................................................. 03
1 O QUE É ÉTICA? ..................................................................................................07
1.1 Origens .......................................................................................................07
1.2 Definições ...................................................................................................10
1.3 O pensamento dos filósofos .......................................................................12
1.4 Valores éticos .............................................................................................16
2 ÉTICA NA EDUCAÇÃO .......................................................................................20
2.1 A ética nos Parâmetros Curriculares Nacionais .........................................24
2.2 Pressupostos vinculados a ética .................................................................27
3 RELAÇÕES HUMANAS, TRABALHO EM EQUIPE,
QUALIDADE NO ATENDIMENTO PÚBLICO .....................................................29
REFERÊNCIAS CONSULTADAS E UTILIZADAS ..............................................31
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INTRODUÇÃO
Seja bem-vindo ao IBRA, queremos reafirmar os esforços do Instituto
Brasil de Ensino - IBRA em oferecer um material condizente com a
graduação daqueles que se candidataram a esta especialização e
procuramos referências atualizadas, embora saibamos que os clássicos são
indispensáveis ao curso.
As ideias aqui expostas, como não poderiam deixar de ser, não são
neutras, afinal, opiniões e bases intelectuais fundamentam o trabalho dos
diversos institutos educacionais, mas deixamos claro que não há intenção de
fazer apologia a esta ou aquela vertente, estamos cientes e primamos pelo
conhecimento científico, testado e provado pelos pesquisadores.
Não obstante, o curso tenha objetivos claros, positivos e específicos,
nos colocamos abertos para críticas e para opiniões, pois temos consciência que
nada está pronto e acabado e com certeza críticas e opiniões só irão
acrescentar e melhorar nosso trabalho.
Como os cursos baseados na Metodologia da Educação a Distância,
vocês são livres para estudar da melhor forma que possam organizar-se,
lembrando que: aprender sempre, refletir sobre a própria experiência se somam
e que a educação é demasiado importante para nossa formação e, por
conseguinte, para a formação dos nossos/ seus alunos.
Deste modo, a apostila em questão traz os seguintes conteúdos: Ética:
origens, definições, o pensamento dos filósofos, valores éticos. Ética na
educação, pela ótica dos parâmetros curriculares nacionais, os pressupostos
vinculados à ética e as relações humanas, o trabalho em equipe e a qualidade no
atendimento público.
O módulo tem como objetivo geral levar o profissional a perceber que a
ética permeia todo a vida do sujeito, quer seja no ambiente pessoal quanto
profissional.
Trata-se de uma reunião do pensamento de vários autores que
entendemos serem os mais importantes para a disciplina.
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Para maior interação com o aluno deixamos de lado algumas regras de
redação científica, mas nem por isso o trabalho deixa de ser científico.
Desejamos a todos uma boa leitura e caso surjam algumas lacunas, ao
final da apostila encontrarão nas referências consultadas e utilizadas aporte
para sanar dúvidas e aprofundar os conhecimentos.
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Inferências iniciais...
A Ética é a ciência da verdade; não existe uma ética da mentira, nem a
meia ética e ambas, ética e verdade são a essência da consciência humana.
Ninguém lhes pode ser indiferente.
A omissão da consciência é tão dolorosa que o homem, quando não
consegue seguir seus ditamos, inventa simulacros de ética e de verdade. Cria
caricaturas da ética, sacrificando a verdade por meio de retóricas ideológicas, assim,
prevalecem as exteriorizações que nada mais são do que a relativização da ética,
que corresponde à elasticidade da consciência.
A ética e a verdade, por habitarem a consciência, vêm de dentro, têm a ver
com o ser: ou é ou não se é! (MATOS, 2008).
A ética é o fundamento da sociedade!
Não há possibilidade de vida social sem que haja observância de princípios
éticos.
A sociedade apoia-se em três conceitos, seus pilares éticos:
1. É essencial que ela seja justa – que haja oportunidade para todos;
2. É essencial que ela seja livre – que a vontade educada torne a liberdade
responsável;
3. É vital que ela seja solidária – que haja compromisso com o bem pessoal e o
bem comum.
Ética da simulação ou meia-ética são mentiras inteiras que não
resistem à verdade, no tempo, mas estão ai camufladas no meio social e nosso
interesse é justamente levá-los a refletir que o compromisso com a sociedade,
o respeito à dignidade humana passam necessariamente pela ética, onde quer
que esteja o profissional, na educação, nos serviços de saúde, na administração
pública, no meio empresarial, ele deve permear seu viver na ética.
Para que sejam cumpridas as funções básicas da sociedade, são
imprescindíveis desenvolverem-se, igualmente, três capacidades, eminentemente
éticas:
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Liderança integrada – não basta que haja líderes, eles devem estar
integrados por verdades comuns;
Organização flexível – que as estruturas estimulem a participação, a
criatividade, a descentralização e a delegação de autoridade;
Visão e ação estratégicas – que se desenvolva simultaneamente a
percepção diagnóstica (saber o que está acontecendo) e o pensamento
estratégico (saber definir cenários do porvir e tomar decisões eficazes)
(MATOS, 2008).
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1 O QUE É ÉTICA?
Desde suas origens entre os filósofos da antiga Grécia, a Ética é um tipo
de saber normativo, isto é, um saber que pretende orientar as ações dos seres
humanos. A moral também é um saber que oferece orientações para a ação, mas
enquanto ela propõe ações concretas em casos concretos, a Ética – como Filosofia
moral – remonta à reflexão sobre as diferentes morais e as diferentes maneiras de
justificar racionalmente a vida moral, de modo que sua maneira de orientar a ação é
indireta: no máximo, pode indicar qual concepção moral é mais razoável para que,
a partir dela, possamos orientar nossos comportamentos (CORTINA; MARTÍNEZ,
2009).
Portanto, em princípio, a Filosofia moral ou Ética não tem motivos para
ter uma incidência imediata na vida cotidiana, pois seu objetivo último é esclarecer
reflexivamente o campo da moral. No entanto, esse esclarecimento, certamente
pode servir de modo indireto como orientação moral para os que pretendam agir
racionalmente no conjunto da sua vida.
1.1 Origens
Ética é uma palavra de origem grega, com duas origens possíveis. A
primeira é a palavra grega éthos, com e curto, que pode ser traduzida por costume,
a segunda também se escreve éthos, porém com e longo, que significa
propriedade do caráter. A primeira é a que serviu de base para a tradução latina
Moral, enquanto que a segunda é a que, de alguma forma, orienta a utilização
atual que damos a palavra Ética (GOLDIM, 2000).
Ética é a investigação geral sobre aquilo que é bom.
Ética significa modo de ser, caráter, comportamento. É o ramo Da
filosofia que busca estudar e indicar o melhor modo de viver no cotidiano e na
sociedade.
Diferencia-se da moral, pois enquanto esta se fundamenta na obediência
a normas, tabus, costumes ou mandamentos culturais, hierárquicos ou religiosos
recebidos, a ética, ao contrário, busca fundamentar o bom modo de viver pelo
pensamento humano.
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Na filosofia clássica, a ética não se resume ao estudo da moral
(entendida como “costume”, do latim mos, mores), mas a todo o campo do
conhecimento que não é abrangido na física, metafísica, estética, na lógica e nem
na retórica.
Assim, a ética abrangia os campos que atualmente são denominados
antropologia, psicologia, sociologia, economia, pedagogia, educação física e até
mesmo política, em suma, campos direta ou indiretamente ligados a maneiras de
viver.
Porém,com a crescente profissionalização e especialização do
conhecimento que se seguiu à revolução industrial, a maioria dos campos que
eram objeto de estudo da filosofia, particularmente da ética, foram estabelecidos
como disciplinas científicas independentes. Deste modo, é comum que atualmente
a ética seja definida como “a área da filosofia que se ocupa do estudo das normas
morais nas sociedades humanas” e busca explicar e justificar os costumes de
um determinado agrupamento humano, bem como fornecer subsídios para a
solução de seus dilemas mais comuns. Neste sentido, ética pode ser definida
como a ciência que estuda a conduta humana e a moral é a qualidade desta
conduta, quando julga-se do ponto de vista do Bem e do Mal.
A ética também não deve ser confundida com a lei, embora com
certa frequência a lei tenha como base princípios éticos. Ao contrário do que
ocorre com a lei, nenhum indivíduo pode ser compelido, pelo Estado ou por
outros indivíduos, a cumprir as normas éticas, nem sofrer qualquer sanção pela
desobediência a estas; por outro lado, a lei pode ser omissa quanto a questões
abrangidas no escopo da ética.
Modernamente, a maioria das profissões tem o seu próprio código de
ética profissional, que é um conjunto de normas de cumprimento obrigatório,
derivadas da ética, frequentemente incorporados à lei pública. Nesses casos, os
princípios éticos passam a ter força de lei; note-se que, mesmo nos casos em que
esses códigos não estão incorporados à lei, seu estudo tem alta probabilidade de
exercer influência, por exemplo, em julgamentos nos quais se discutam fatos
relativos à conduta profissional. Ademais, o seu não cumprimento pode resultar
em sanções executadas pela sociedade profissional, como censura pública e
suspensão temporária ou definitiva do direito de exercer a profissão.
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A Ética tem por objetivo facilitar a realização das pessoas. Que o ser
humano chegue a realizar-se a si mesmo como tal, isto é, como pessoa. (...) A Ética
se ocupa e pretende a perfeição do ser humano.
Ética existe em todas as sociedades humanas, e, talvez, mesmo entre
nossos parentes não humanos mais próximos. Podemos abandonar o pressuposto
de que a Ética é unicamente humana.
A Ética pode ser um conjunto de regras, princípios ou maneiras de pensar
que guiam, ou chamam a si a autoridade de guiar, as ações de um grupo em
particular (moralidade), ou é o estudo sistemático da argumentação sobre como nós
devemos agir (filosofia moral).
É extremamente importante saber diferenciar a Ética da Moral e do Direito.
Estas três áreas de conhecimento se distinguem, porém têm grandes vínculos e até
mesmo sobreposições (GOLDIM, 2003).
Tanto a Moral como o Direito baseiam-se em regras que visam estabelecer
uma certa previsibilidade para as ações humanas. Ambas, porém, se diferenciam.
A Moral estabelece regras que são assumidas pela pessoa, como uma
forma de garantir o seu bem-viver. A Moral independe das fronteiras geográficas e
garante uma identidade entre pessoas que sequer se conhecem, mas utilizam este
mesmo referencial moral comum.
O Direito busca estabelecer o regramento de uma sociedade delimitada
pelas fronteiras do Estado. As leis tem uma base territorial, elas valem apenas para
aquela área geográfica onde uma determinada população ou seus delegados vivem.
O Direito Civil, que é referencial utilizado no Brasil, baseia-se na lei escrita. A
Common Law, dos países anglo-saxões, baseia-se na jurisprudência. As sentenças
dadas para cada caso em particular podem servir de base para a argumentação de
novos casos. O Direito Civil é mais estático e a Common Law mais dinâmica.
Alguns autores afirmam que o Direito é um sub-conjunto da Moral. Esta
perspectiva pode gerar a conclusão de que toda a lei é moralmente aceitável.
Inúmeras situações demonstram a existência de conflitos entre a Moral e o Direito.
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A desobediência civil ocorre quando argumentos morais impedem que
uma pessoa acate uma determinada lei. Este é um exemplo de que a Moral e o
Direito, apesar de referirem-se a uma mesma sociedade, podem ter perspectivas
discordantes.
Sintetizando: A Ética é o estudo geral do que é bom ou mau. Um dos
objetivos da Ética é a busca de justificativas para as regras propostas pela Moral e
pelo Direito. Ela é diferente de ambos - Moral e Direito - pois não estabelece regras.
Esta reflexão sobre a ação humana é que a caracteriza (GOLDIM, 2003).
1.2 Definições
Ético (ethos): disciplina filosófica que estuda o valor das condutas
humanas, seus motivos e finalidades. Reflexão sobre os valores e justificativas
morais, aquilo que se considera o bem.
Análise da capacidade humana de escolher, ser livre e responsável por sua
conduta entre os demais. Para alguns autores, o mesmo que moral (MARTINS, 2002).
Anti-ético: contra uma ética estabelecida ou contra a ideia (da ética)
de estabelecer o que devemos fazer ou quem queremos ser levando os outros em
consideração. Muitas vezes, o antiético têm ideias éticas próprias.
Aético: sem ética, mas não contra uma ou outra ética.
Para o Professor de Filosofia Alfredo de Oliveira Moraes (2000) o termo
ética provém de outro, mais especificamente de ethos, o qual por sua vez
corresponde, em nosso idioma, a uma transliteração dos dois vocábulos gregos,
sejam: ethos com eta inicial cuja raiz semântica remete ao significado de morada do
homem, sendo o ethos designativo da casa do homem, resumido na bela
expressão – o homem habita sobre a terra acolhendo-se ao recesso seguro do
ethos.
Na visão do teólogo Leonardo Boff (2000) “O centro do ethos o
bem (Platão), pois somente ele permite que alcancemos nosso fim, que
consiste em sentirmo-nos em casa. E nos sentirmos bem em casa (temos um ethos,
realizamos o fim almejado) quando criarmos mediações adequadas, como hábitos,
certas normas e maneiras constantes de agir. Por elas, habitamos o mundo, que pode
ser a casa concreta, ou o nosso nicho ecológico local, regional ou nossa casa maior,
o planeta Terra”. Ética é a ciência da moral (SILVA, 1999)
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Dalai Lama (2000), de maneira simples nos diz que ético “ aquele que
não prejudica a experiência ou a expectativa de felicidade de outras pessoas”.
Robert Henry Srour (2000) ensina que a moral vem a ser um conjunto
de valores e de regras de comportamento, um código de conduta que
coletividades adotam, quer sejam uma nação, uma categoria social, uma
comunidade religiosa ou uma organização. Enquanto a ética diz respeito à disciplina
teórica, ao estudo sistemático, a moral correspondente às representações
imaginárias que dizem aos agentes sociais o que se espera deles, quais
comportamentos são bem-vindos e quais não. Em resumo, as pautas de a ão
ensinam o “o bem fazer” ou o “fazer virtuoso”, a melhor maneira de agir
coletivamente; qualificam o bem e o mal, o permitido e o proibido, o certo e o
errado, a virtude e o vício.
Para José Renato Nalini (1999) a ética é uma ciência, pois tem objeto
próprio, leis próprias e método próprio. O objeto da ética é a moral. A moral é dos
aspectos do comportamento humano. A expressão deriva da palavra romana mores,
com o sentido de costumes, conjunto de normas adquiridas pelo hábito reiterado de
sua prática.
A ética e a moral não devem ser confundidas. Segundo os estudiosos
do assunto, a ética não cria a moral (MARTINS, 2002).
O Professor de ética Mário Alencastro (2000) assevera que toda moral
supõe determinados princípios, normas ou regras de comportamento, não é a ética
que os estabelece numa determinada comunidade. A ética depara com
uma experiência histórico-social no terreno da moral, ou seja, com uma série de
práticas morais já em vigor e, partindo delas, procura determinar a essência da
moral, sua origem, as condições objetivas e subjetivas do ato moral, as fontes da
avaliação moral, a natureza e a função dos juízos morais, os critérios de justificação
destes juízos e o princípio que rege a mudança e a sucessão de diferentes
sistemas morais.
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“Os problemas ticos, ao contrário dos prático-morais são
caracterizados pela sua generalidade. Por exemplo, se um indivíduo
está diante de uma determinada situação, deverá resolvê-la por si
mesmo, com a ajuda de uma norma que reconhece e aceita
intimamente, pois o problema do que fazer numa dada situação é
um problema prático-moral e não teórico-ético. Mas, quando
estamos diante de uma situação, como, por exemplo, definir o
conceito de Bem, já ultrapassamos os limites dos problemas
morais e estamos num problema geral de caráter teórico, no
campo de investigação da ética. Tanto assim, que diversas teorias
éticas organizaram-se em torno da definição do que é Bem. Muitos
filósofos acreditaram que, uma vez entendido o que é Bem,
descobriríamos o que fazer diante das situações apresentadas
pela vida. As respostas encontradas não são unânimes e as
definições de Bem variam muito de um filósofo para outro. Para uns,
Bem é o prazer, para outros o til e assim por diante”
(ALENCASTRO, 2000).
1.3 O pensamento dos filósofos
Na antiguidade, todos os filósofos entendiam a ética como o estudo
dos meios de se alcançar a eudaimonia1 e investigar o que significa felicidade.
Porém, durante a Idade Média, a filosofia foi dominada pelo cristianismo e pelo
islamismo, e a ética se centralizou na moral (interpretação dos mandamentos e
preceitos religiosos).
No renascimento e no século XVII, os filósofos redescobriram os temas
éticos da antiguidade, e a ética foi entendida novamente como o estudo dos meios
de se alcançar o bem estar e a felicidade.
A seguir são descritas brevemente as teorias éticas de alguns filósofos
clássicos:
1 O fenômeno da felicidade
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Para a escola cirenaica2, a felicidade consistia no gozo de todo prazer
imediato. Defendia, porém, um controle racional sobre o prazer para que não se
desenvolvesse uma dependência dos prazeres.
Demócrito de Abdera afirmava que, ao buscarmos ser felizes, devemos
fazer poucas coisas afim de que o que fizermos não ultrapasse nossas forças e não
nos leve inquieta ão. Dizia que “é sábio quem não se aflige com o que lhe falta e se
alegra com o que possui” e que “a moderação aumenta o gozo e acresce o prazer”.
Afirmava que a agressividade insensata porque “enquanto se busca prejudicar o
inimigo, esquecemos o nosso próprio interesse”.
Aristóteles, em sua obra Ética a Nicômaco, afirma que a felicidade
(eudemonia) não consiste nem nos prazeres, nem nas riquezas, nem nas honras,
mas numa vida virtuosa. A virtude (areté), por sua vez, se encontra num justo meio
entre os extremos, que será encontrada por aquele dotado de prudência (phronesis)
e educado pelo hábito no seu exercício.
Aristóteles faz uma distinção entre os saberes teóricos, poiéticos e
práticos que nos levam a entender melhor que tipo de saber constitui a ética.
Os saberes teóricos (do grego theorein: ver, contemplar) ocupam-
se de averiguar o que são as coisas, o que ocorre de fato no mundo e quais são as
causas objetivas dos acontecimentos. São saberes descritivos, mostram-nos o que
existe, o que é, o que acontece. As diferentes ciências da natureza (Física, Química,
Biologia, Astronomia, etc.) são saberes teóricos na medida em que o que
buscam é, simplesmente, mostrar-nos como é o mundo.
Aristóteles dizia que os saberes teóricos versam sobre “o que não pode
ser de outra maneira”, ou seja, o que assim porque assim o encontramos no
mundo, não porque assim o dispôs a nossa vontade: o sol aquece, os animais
respiram a água se evapora, as plantas crescem... tudo isso é assim e não
podemos mudá-lo a nosso bel-prazer. Podemos tentar impedir que uma coisa
concreta seja aquecida pelo sol, utilizando para tanto quaisquer meios que
tenhamos a nosso alcance, mas que o sol aqueça ou não aqueça não depende de
nossa vontade: pertence ao tipo de coisas que “não podem ser de outra maneira”.
2 Escola de pensamento fundada em Atenas, por Aristipo de Cirene. Foi a partir do nome desta cidade que os
cirenaicos receberam sua denominação. É considerada pela tradição uma das chamadas escolas
socráticas, juntamente com os cínicos e os megáricos. Tais escolas recebem esta denominação por se configurar,
cada uma delas, como uma determinada interpretação dos ensinamentos de Sócrates, especialmente no que
concerne à correlação entre conhecimento e virtude.
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Em contrapartida, os saberes poiéticose práticos versam, segundo
Aristóteles, sobre “o que pode ser de outra maneira”, ou seja, sobre o que podemos
controlar à vontade. Os saberes poiéticos (do grego poiein: fazer, fabricar, produzir)
são aqueles que nos servem de guia para a elaboração de algum produto, de
alguma obra, quer seja algum tipo de artefato útil (como construir uma roda ou tecer
uma manta) ou simplesmente um objeto belo (como uma escultura, uma pintura ou
um poema) (CORTINA; MARTÍNEZ, 2009).
As técnicas e as artes são saberes desse tipo. O que hoje chamamos de
“tecnologias” são igualmente saberes que abarcam tanto a simples técnica -
baseada em conhecimentos teóricos - como a produção artística.
Os saberes poiéticos, diferentemente dos saberes teóricos, não
descrevem o que existe, mas procuram estabelecer normas, padrões e orientações
sobre como se deve agir para atingir o fim desejado (ou seja, uma roda ou uma
manta bem feitas, uma escultura, uma pintura ou um poema belos). Os saberes
poiéticos são normativos, porém não pretendem servir de referência para toda a
nossa vida, mas unicamente para a obtenção de certos resultados que supostamente
buscamos.
Por sua vez, os saberes práticos (do grego práxis: atividade, tarefa,
negócio), que também são normativos, são aqueles que procuram orientar-nos
sobre o que devemos fazer para conduzir nossa vida de uma maneira boa e justa,
como devemos agir, qual decisão é a mais correta em cada caso concreto para que a
própria vida seja boa em seu conjunto. Tratam do que deve existir, do que deveria ser
(embora ainda não seja), do que seria bom que acontecesse (segundo alguma
concepção do bem humano). Tentam nos mostrar como agir bem, como nos
conduzir adequadamente no conjunto de nossa vida (CORTINA; MARTÍNEZ, 2009).
Na classificação aristotélica, os saberes práticos eram agrupados sob
o rótulo “filosofia prática”, rótulo que abarcava não só a Ética (saber prático destinado
a orientar a tomada de decisões prudentes que nos levam a conseguir uma vida
boa), mas também a Economia (saber prático encarregado da boa administração
dos bens da casa e da cidade) e a Política (saber prático que tem por objeto o bom
governo da pólis).
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3
Para Epicuro a felicidade consiste na busca do prazer, que ele definia
como um estado de tranquilidade e de libertação da superstição e do medo
(ataraxia), assim como a ausência de sofrimento (aponia). Para ele, a felicidade não
é a busca desenfreada de bens e prazeres corporais, mas o prazer obtido pelo
conhecimento, amizade e uma vida simples. Por exemplo, ele argumentava
que ao comermos, obtemos prazer não pelo excesso ou pelo luxo culinário
(que leva a um prazer fortuito, seguido pela insatisfação), mas pela moderação,
que torna o prazer um estado de espírito constante, mesmo se nos alimentarmos
simplesmente de pão e água.
Para os filósofos cínicos, a felicidade era identificada com o poder sobre
si mesmo ou autossuficiência (em grego, autárkeia) e é alcançada eliminando-se
da vontade todo o supérfluo, tudo aquilo que fosse exterior. Defendiam um
retorno à vida da natureza, errante e instintiva, como a dos cães. Desacreditavam as
conquistas da civilização, suas estruturas jurídicas, religiosas e sociais.
Para os estóicos, a felicidade consiste em viver de acordo com a lei
racional da natureza e aconselha a indiferença (apathea) em relação a tudo que é
externo. O homem sábio obedece à lei natural reconhecendo-se como uma peça na
grande ordem e propósito do universo, devendo assim manter a serenidade e
indiferença perante as tragédias e alegrias.
Espinoza, em sua obra Ética, afirma que a felicidade é encontrada
através da alegria ativa, que nos possibilita ultrapassar as paixões (tristeza e
alegria passivas). A alegria ativa consiste em compreender e ativamente criar as
condições/oportunidades exteriores que levam à alegria e ao amor (o amor é
definido por ele como a alegria que associamos a uma causa exterior a nós), contra
a tristeza e o ódio (o ódio é definido por ele como a tristeza que associamos a uma
causa exterior a nós). Ele criticava severamente os filósofos cristãos medievais que
afirmavam que a tristeza e o sofrimento são bons (como em Cristo).
Para Espinoza, unicamente a alegria nos leva ao amor no cotidiano e na
convivência com os outros, enquanto a tristeza nunca é boa, intrinsecamente
relacionada ao ódio, à tristeza sempre é destrutiva para nós e para os outros.
3Um filósofo grego do período helenístico. Seu pensamento foi muito difundido e numerosos centros epicuristas
se desenvolveram na Jônia, no Egito e, a partir do século I, em Roma, onde Lucrécio foi seu maior divulgador.
16
1.4 Valores éticos
A ética aristotélica afirma que existe moral porque os seres humanos
buscam inevitavelmente a felicidade, a ventura, e para alcançar plenamente esse
objetivo necessitam das orientações morais.
Mas, além disso, ela nos proporciona critérios racionais para averiguar que
tipo de comportamentos, quais virtudes, em suma, que tipo de caráter moral é
o adequado para essa finalidade.
Desse modo, Aristóteles entende a vida moral como um modo de “auto-
realiza ão” e por isso dizemos que a tica aristot lica pertence ao grupo de ticas
eudemonistas, porque assim se aprecia melhor a diferença em relação a outras
éticas. Para ele os valores seriam:
1-Próprias do intelecto teórico:
Inteligência (nous)
Ciência (episteme)
Sabedoria (Sofia)
2-Próprias do intelecto prático:
Prudência (frónesis)
Arte ou técnica (tekne)
Discrição (gnome)
Perspicácia (euboulía)
3-Próprias do autodomínio:
Fortaleza ou coragem (andreía)
Temperança ou moderação (sofrosine)
Pudor (aidos)
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4-Próprias das relações humanas:
Justiça (dikaiosine)
Generosidade ou liberdade (eleutheríotes)
Amabilidade (filia)
Veracidade (aletheía)
Bom humor (eutrapelía)
Afabilidade ou doçura (praotes)
Magnificência (megaloprepéia)
Magnanimidade (megalofijía) (CORTINA; MARTÍNEZ, 2009).
Para Scheler4, existe uma ciência pura dos valores, uma axiologia pura,
que se sustenta em três princípios:
1. Todos os valores são negativos ou positivos;
2. Valor e dever estão relacionados, pois a captação de um valor não realizado é
acompanhada pelo dever de realizá-lo;
3. Nossa preferência por um valor e não por outro verifica-se porque nossa
intuição emocional capta os valores já hierarquizados. A vontade de realizar
um valor moral superior em vez de um inferior constitui o bem moral, e seu
contrário é o mal. Não existem, portanto, valores especificamente morais.
Esse modelo ético foi seguido e ampliado por pensadores como Nicolai
Hartmann, Hans Reiner, Dietrich Von Hildebrand e José Ortega y Gasset, que
chamou a intui ão emocional de “estimativa” e incluiu os valores morais na
hierarquia objetiva, diferentemente de Scheler, como mostra o quadro abaixo.
4 Max Scheller (1874-1928) foi um filósofo fenomenologista, preocupado especialmente com a filosofia dos
valores.
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Valores positivos e negativos
Capaz – incapaz
Úteis Caro – barato
Abundante – escasso
Saudável – doente
Selecionado – vulgar
Vitais
Cheio de energia – inerte
Forte – fraco
Conhecimento – erro
Intelectuais Exato – aproximado
Evidente – provável
Bom – mau
Bondoso – maldoso
Morais Justo – injusto
Espirituais
Escrupuloso – negligente
Leal – desleal
Bonito – feio
Gracioso – tosco
Estéticos
Elegante – deselegante
Harmonioso – desamôrnico
Santo ou sagrado – profano
Divino – demoníaco
Religiosos
Supremo – derivado
Milagroso – mecânico
Fonte: ORTEGA y GASSET (1993, p. 334)
19
Surgida na década de 1970 a ética do discurso propõe encarnar
na sociedade os valores e liberdade, justiça e solidariedade por meio do diálogo,
como único procedimento capaz de respeitar a individualidade das pessoas e, ao
mesmo tempo, sua inegável dimensão solidária, porque em um diálogo precisamos
contar com pessoas, mas também com a relação que existe entre elas, a qual,
para ser humana, deve ser justa.
Esse diálogo nos permitirá questionar as normas vigentes em uma
sociedade e distinguir quais são moralmente válidas, porque acreditamos realmente
que humanizam.
Obviamente, não é qualquer forma de diálogo que nos levará a distinguir
o socialmente vigente do moralmente válido, por isso a ética discursiva tentará
apresentar o procedimento dialógico adequado para alcançar essa meta, e mostrar
como ele deveria funcionar nos diferentes âmbitos da vida social. Por isso, divide
sua tarefa em duas partes: uma dedicada à fundamentação – à descoberta do
princípio ético – e outra à aplicação deste à vida cotidiana (CORTINA; MARTÍNEZ,
2009).
20
2 ÉTICA NA EDUCAÇÃO
Um dos problemas que se coloca na sociedade brasileira contemporânea
é o do como educar para o respeito às diferenças e para o respeito a todos os seres
humanos, sem violência. Essa questão é central para ética.
Nas escolas, atualmente, não são incomuns ações de violência e
desrespeito sob todas as formas: agressões, uso de drogas, ameaças,
discriminações, desrespeito aos professores e aos alunos. Como a ética pode nos
auxiliar a construção uma educação contra a violência?
O artigo 1º da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) diz
que a educação abrange os processos formativos que se desenvolvem em várias
esferas (família, convivência, trabalho, escola, movimentos sociais etc.).
O artigo 2º da LDB considera que, inspirada nos princípios da liberdade
e nos ideais de solidariedade humana, é finalidade da educação nacional o pleno
desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua
qualificação para o trabalho.
A educação para a cidadania, e os programas educacionais voltados
para esse fim, pressupõe a crença na tolerância, a marca do bom senso, da razão e
da civilidade que faz com que os homens possam se relacionar entre si.
Pressupõe, também, a crença na possibilidade de formar este homem, ensinando a
tolerância e a civilidade dentro do espaço e do tempo da escola. A ideia clássica
de formação nos auxilia a compreender esse tópico (SANTOS, 2001).
A proposta de educação do homem como membro de uma cultura foi
apresentada primeiramente pelos gregos como paidéia (forma ão). “Os gregos viram
pela primeira vez que a educação tem de ser também um processo de construção
consciente. Constituído de modo correto e sem falhas, nas mãos, nos pés e no
espírito‟ (...). Só a este tipo de educa ão se pode aplicar com propriedade a palavra
formação, tal como a usou Platão pela primeira vez em sentido metafórico,
aplicando-a à ação educadora” (JAEGER, 1986, p. 09-10).
Ao longo da filosofia clássica, sempre esteve presente a pergunta
sobre como formar os jovens, o que lhes deveria ser ensinado para alcançarem a
virtude.
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1
Portanto, paidéia e areté, educação e virtude, não poderiam ser
pensadas separadamente. Toda a sociedade e a cultura estavam presentes na
formação do homem e do cidadão. Era este ideal de excelência e perfeição que
os grego buscavam através da educação: a excelência do homem, das
instituições, das cidades. Entretanto, não era apenas como fim que este ideal
se fazia presente na educação grega, ele era meio, princípio, forma e ação. Ou
seja, o homem grego devia ser educado para a virtude, de modo virtuoso, por
pessoas virtuosas, praticando ações virtuosas e fazendo sua cidade virtuosa
(SANTOS, 2001).
A questão da educação para a virtude e para a cidadania volta à baila
quando, em nossos tempos, a LDB institui que a escola é um espaço de formação
de cidadãos e difusão de valores que expirem cidadania e ética, mas não considera
que a ideia da educação como formação do homem e do cidadão pressupõe que a
escola, local onde esta formação ocorrerá (ao menos parcialmente, como diz a Lei),
também deva ser pensada como um espaço/instituição no qual estes valores
estejam presentes. Para que a escola seja inspiradora de valores éticos, é preciso
que ela também seja um espaço ético, operando por meios éticos. De acordo com
os clássicos, isso não poderia ocorrer de outro modo.
Contudo, o que se observa é que a sociedade brasileira é marcada
pela violência e que esta violência também se faz presente nas escolas. Marilena
Chaui (1998) no artigo “Ética e violência” explica que podemos entender como
violência os atos de brutalidade, sevícia e abuso físico e/ou psíquico contra
alguém, opressão, intimidação pelo medo e pelo terror. São as ações que
retiram dos sujeitos sua autonomia, tratam as pessoas, os seres humanos,
como se fossem coisas como desprovidos de razão e de vontade, por isso a
violência é o exato oposto da ética. A mesma autora afirma que a sociedade
brasileira que “é marcada pela estrutura hierárquica do espaço social que
determina a forma de uma sociedade fortemente verticalizada em todos os seus
aspectos: nela, as relações sociais e intersubjetivas são sempre realizadas como
relação entre um superior, que manda, e um inferior, que obedece. As
diferenças e assimetrias são sempre transformadas em desigualdades que
reforçam essas relações.
“O outro jamais é reconhecido como sujeito nem como sujeito de direitos,
jamais é reconhecido como subjetividade nem como alteridade” (CHAUÍ, 2000, p.
89).
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2
Isso nos convida a refletir sobre quem, nas escolas, seriam os
educadores para a formação dos cidadãos. Infelizmente, a resposta
convencional de que os educadores seriam os próprios professores não é
suficiente para esvaziar a pergunta e nos conduz a outras. Se a virtude (a areté,
a cidadania) pode ser ensinada, os professores estariam preocupados, como os
filósofos clássicos, em se tornarem eles mesmos virtuosos, sábios, despojados de
seus preconceitos e de suas ilusões em busca do conhecimento do que é a
virtude e do como ensiná-la ou seriam como os sofistas ensinando porque recebem
para isso, mas, de fato, não oferecendo seu assentimento às ideias que
pronunciam ou não crendo na perenidade do que é ensinado?
As atuais discussões sobre como adequar as instituições de ensino e
capacitar‟ os professores de acordo com o que pede a Lei se aparenta com esta
querela: como vamos transformar nossos professores em cidadãos aptos a ensinar
cidadania e nossas escolas em espaços democráticos que auxiliem a resolver o
problema da ausência de ética e da violência presentes na sociedade? Como fazer
com que os educandos passem a desejar o bem e a virtude e a praticá-los para que
nossa sociedade não se transforme no reino da barbárie? (SANTOS, 2001).
Para que tudo isso se efetive e se faça cumprir é necessário o
comprometimento dos professores. É preciso que os professores acreditem que é
possível ensinar a virtude, que é possível ensinar cidadania.
Não se pode ignorar que o professor, a escola e os profissionais
que ali atuam detenham o poder de formar cidadãos. E, mais ainda, que os
professores, mesmo sendo pessoas, quando no exercício público da razão, podem
edevem ter uma responsabilidade ética pelo que ensinam, transmitem, opinam.
Desde a antiguidade clássica, a ideia de educação implica a busca de uma ação
moderada, menos corrompida, menos influenciada pelas paix es. Entretanto, hoje „a
educação foi quase inteiramente identificada com escolariza ão‟ (PRADO JÚNIOR,
1985, p. 99).
Desta forma, a questão do papel do professor ganha uma relevância
ainda maior porque será a partir dele, de suas atitudes, da forma como lida com
conteúdos, como elabora suas aulas, como se relaciona com seus alunos, da forma
como lida com seus preconceitos e conceitos que outros valores, vícios e virtudes
poderão ser definidos.
23
Quando se admite que a educação, em nossos tempos, é praticamente
idêntica à escolarização e se transfere para a escola e para os profissionais ali
presentes a tarefa de educar para a formação do cidadão (ou seja, a formação ética
e política), em decorrência, passa-se a colocar em evidência a postura ética
daqueles que, como responsáveis pela educação, serão modelos de conduta,
espelhos de caráter, difusores de valores. Por isso cabe perguntar o que significa
transferir para os professores a exigência das virtudes, da justiça e da
responsabilidade pela formação dos cidadãos e em que medida as virtudes dos
educadores, expressas em seu trabalho, seriam responsáveis pelas mudanças no
perfil de seus alunos (SANTOS, 2001).
Se a educação é projeto e utopia, uma resposta para uma educação ética
e, portanto, contrária à violência, talvez resida na democratização das instituições
de ensino e na efetivação de uma educação inclusiva.
A proposta de uma educação inclusiva parece assinalar para uma saída,
não só porque contempla a utopia presente em todo projeto pedagógico, como
também acena para a alteração do paradigma educacional das sociedades
autoritárias porque pressupõe que a transformação social deva implicar na
transformação e na democratização de todas as relações sociais (SANTOS, 2001).
Transformar a escola em um espaço efetivamente plural seria uma das
formas mais eficazes de uma educação ética ou para a ética, porque permitira a
expressão das diferenças num espaço público de modo a incorporar todos os
valores sem hierarquiza-los.
Se a escola não está separada do mundo e a ética se constrói através
da livre expressão de ideias e projetos no espaço das cidades e da cidadania,
uma educação ética também implicaria a formação de cidadãos através do livre
exercício da atividade política ou a ampliação de espaços públicos de
manifestação das diferenças (SANTOS, 2001).
Dito isso, pensar a correlação entre ética e educação na sociedade
brasileira significa pensar a sociedade como um todo e todos os seus espaços
públicos como agentes de educação que devem ser livremente acessados pelos
diferentes componentes da espera pública da sociedade, de toda a sua
diversidade. A educação para a ética ou uma educação ética pressupõe a
construção de sociedades verdadeiramente democráticas (SANTOS, 2001).
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Nesse sentido, podemos dizer que a tradição filosófica nos ensinou algo
que talvez seja sábio recuperar: a ética se ensina permitindo o convívio entre os
diferentes nos diferentes espaços públicos nos quais se possam expressar os
valores e construir o bem comum (SANTOS, 2001).
2.1 A ética nos Parâmetros Curriculares Nacionais
Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) trazer a ética para
o espaço escolar significa enfrentar o desafio de instalar, no processo de ensino e
aprendizagem que se realiza em cada uma das áreas de conhecimento, uma
constante atitude crítica, de reconhecimento dos limites e possibilidades dos sujeitos
e das circunstâncias, de problematização das ações e relações e dos valores e
regras que os norteiam.
Configura-se, assim, a proposta de realização de uma educação moral
que proporcione às crianças e adolescentes condições para o desenvolvimento de
sua autonomia, entendida como capacidade de posicionar-se diante da realidade,
fazendo escolhas, estabelecendo critérios, participando da gestão de ações
coletivas. O desenvolvimento da autonomia é um objetivo de todas as áreas e temas
transversais e, para alcançá-lo, é preciso que elas se articulem. A mediação
representada pela Ética estimula e favorece essa articulação (BRASIL, 1998, p. 61).
Ao ingressar no campo da ética no ensino escolar, as atividades
persecutórias esbarram-se em limitações, não sendo totalmente livres para agirem.
Deve haver respeito coma individualidade e a realidade posta a cada aluno. Como
também com a realidade de cada sociedade.
Logo ao nascer, o ser humano se relaciona com regras e valores da
sociedade em que está inserido. A família é o primeiro espaço de convivência da
criança. Ao lado da família, outras instituições sociais veiculam valores e
desempenham um papel na formação moral e no desenvolvimento de atitudes. A
presença constante dos meios de comunicação de massa nos espaços públicos e
privados, conferem a eles um grande poder de influência e de veiculação de valores,
de modelos de comportamento. A religião contribui da mesma forma.
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As várias instituições sociais, motivadas por interesses diversos
concorrem quando buscam desenvolver atitudes que expressam valores. Os
indivíduos transitam por algumas dessas instituições durante toda a sua vida; em
outras, por períodos determinados; e em outras, ainda, nunca transitarão
(CAMARGO E FONSECA, 2006).
A ética depende do tipo de relação social que o indivíduo mantém com
os demais e, segundo os autores acima, existem tantos tipos de moral como de
relações sociais. A moral é imposta a partir do exterior como um sistema de regras
obrigatórias, muitas vezes difícil de ser compreendida. Tamanha é a interferência da
diversidade cultural que é explanado no PCN:
O fato é que, inevitavelmente, os indivíduos se constituem como tais
convivendo simultaneamente com sistemas de valores que podem ser convergentes,
complementares ou conflitantes, dentro do tecido complexo que é o social. As
influências que as instituições e os meios sociais exercem são fortes, mas não
assumem o caráter de uma predeterminação. A constituição de identidades, a
construção da singularidade de cada um, se dá na história pessoal, na relação com
determinados meios sociais; configura-se como uma interação entre as pressões
sociais e os desejos, necessidades e possibilidades afetivo-cognitivas do sujeito
vivida nos contextos socioeconômicos, culturais e políticos (BRASIL, 1998, p. 62).
Ao trabalhar a ética na educação em sala de aula, o professor se
depara com a questão do choque de valores. Os diversos valores, normas,
modelos de comportamento que o indivíduo compartilha nos diferentes meios sociais
a que está integrado ou exposto colocam-se em jogo nas relações cotidianas. A
percepção de que determinadas atitudes são contraditórias entre si ou em relação
a valores ou princípios expressos pelo próprio sujeito não é simples e nem óbvia.
Para isso requer uma elaboração, implicando reconhecer os limites para
a coexistência de determinados valores e identificar os conflitos e a
incompatibilidade entre outros.A forma de operar com a diversidade de valores por
vezes conflitantes também é dada culturalmente, ainda que do ponto de vista
do sujeito dependa também do desenvolvimento psicológico. Os preconceitos,
discriminações, o negar-se a dialogar com sistemas de valores diferentes daqueles
do seu meio social, o agir de forma violenta com aqueles que possuam valores
diferentes, são aprendidos
(BRASIL, 1998, p. 64).
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A escola, como uma instituição pela qual espera-se que passem todos
os membros da sociedade, coloca-se na posição de ser mais um meio social na
vida desses indivíduos. Também ela veicula valores que podem convergir ou
conflitar com os que circulam nos outros meios sociais que os indivíduos
frequentam ou a que são expostos. Deve, portanto, assumir explicitamente o
compromisso de educar os seus alunos dentro dos princípios democráticos. Se
entendida como apenas mais um meio social que veicula valores na vida das
pessoas que por ela passam, a escola encontra seu limite na legitimidade que
cada um dos indivíduos e a própria sociedade conferir a ela (CAMARGO E
FONSECA, 2006).
Se entendida como espaço de práticas sociais em que os alunos não
apenas entram em contato com valores determinados, mas também aprendem a
estabelecer hierarquia entre valores, ampliam sua capacidade de julgamento e a
consciência de como realizam escolhas, ampliam-se as possibilidades de atuação
da escola na formação moral, já que se ocupa de uma formação ética, para
formação de uma consciência moral reflexiva cada vez mais autônoma, mais capaz
de posicionar-se e atuar em situações de conflito.
A escola de hoje está deixando um pouco de lado a construção
moral e a educação ética, atribuí-se prioridades a outros assuntos como o
vestibular, a mensalidade escolar, mas esquece que a formação do indivíduo
é a mais importante, e que permeará por toda a sua vida. (BOELTER, 2008).
A criança que educa-se eticamente torna-se um adulto capaz de ir ao
encontro do outro, reconhece-se com seu igual e não assume as regras morais
como regras obrigatórias. Portanto, o educador possui um papel fundamental na
formação ética e moral do indivíduo, principalmente na educação infantil, onde inicia-
se a vida escolar.
Boelter (208) acredita que trabalhamos a ética e a moral na educação
infantil vivendo-as, demonstrando-as aos nossos alunos através dos nossos atos, da
nossa postura, das atitudes e dos valores aos quais acreditamos. Não ensina-se
moral e ética, vivencia-se.
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Portanto, se a escola deixa de cumprir o seu papel de educador em
valores, a referencia ética de seus alunos estará limitada à convivência humana
que pode ser rica em se tratando de vivências pessoas, mas pode estar também
carregada de desvios de postura, atitude, comportamento ou conduta, e mais,
quando os valores não são bem formal ou sistematicamente ensinados, podem
ser encarados pelos educandos como simples conceitos ideais ou abstratos,
principalmente para aqueles que não os vivenciam, sejam por simulações de práticas
sociais ou vivenciados no cotidiano (BOELTER, 2008)
2.2 Pressupostos vinculadas à etica
Segundo Camargo e Fonseca (2006) todos têm direitos e deveres no
meio em que vivem. Cabe a escola questionar como eles se apresentam. Até que
ponto a comunidade onde se está inserido não está abnegando estes direitos,
cada um cumpre com os seus deveres para cobrar os seus direitos? Questões
como esta podem ser levantadas constantemente pela escola.
Alguns pressupostos estão vinculados à ética como:
A justiça;
A solidariedade;
O respeito mútuo e,
O diálogo.
Temas importantes para serem inseridos nas aulas de diferentes
disciplinas de maneira transversal, permitindo desmitificar a questão ética como
sendo restrita à área da Filosofia.
A justiça já era uma preocupação dos filósofos gregos, pois Platão em
sua República já pensava como deveria ser tratado um ato justo, qual a relação
entre justiça e injustiça. No entanto, há de ser questionado como despertar no
educando a noção de justiça. A escola pode propiciar situações onde seja
exercitada a criticidade do educando oportunizando-lhe a distinção entre um ato
justo e um injusto. Fazer essa distinção na escola faz com que o educando reflita
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sobre a diferença e possa a partir de suas vivências criar relações que
exemplifiquem tais questões (CAMARGO E FONSECA, 2006).
A escola pública possui uma diversidade cultural, étnica, religiosa, sexual
e social muito grande. Nesse contexto, a solidariedade assume um lugar de
comprometimento com o aprendizado. Ser solidário no ambiente escolar é respeitar
as diferenças que constituem os atores educacionais, não ocultando a sua
existência, mas trabalhando estas diferenças no coletivo.
A partir da solidariedade os educadores irão sentir-se mais confiantes
no que realmente podem ser enquanto profissionais da educação comprometidos
com a vida de cada um de seus educandos. Faz-se necessário superar as barreiras
do Capitalismo, do corre-corre diário, de competição desenfreada, onde a
vantagem está em primeiro lugar, para triunfar a solidariedade, a compreensão e
o respeito. Respeito mútuo. Sem ser unilateral. Respeitar com reciprocidade
(CAMARGO E FONSECA, 2006).
E ainda, dialogar. Manter o diálogo em sala de aula é uma atividade
muito importante para criar condições de discussão, sobre temas relacionados a
questões sociais, políticas e econômicas.
Essas discussões criam conceitos ou os reformulam, ou até mesmo
constroem outros a partir da vivência de cada um.
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3 RELAÇÕES HUMANAS, TRABALHO EM EQUIPE, QUALIDADE NO
ATENDIMENTO PÚBLICO
Segundo Pepe (2008), cada pessoa tem uma história de vida, uma
maneira de pensar a vida e assim também o trabalho é visto de sua forma
especial. Há pessoas mais dispostas a ouvir, outras nem tanto, há pessoas que se
interessam em aprender constantemente, outras não, enfim as pessoas têm
objetivos diferenciados e nesta situação muitas vezes priorizam o que melhor lhes
convém e às vezes estará em conflito com a própria empresa.
Como observado por Bom Sucesso, o autoconhecimento e o
conhecimento do outro são componentes essenciais na compreensão de como a
pessoa atua no trabalho, dificultando ou facilitando as relações. Dentre as
dificuldades mais observadas, destacam-se: a falta de objetivos pessoais, dificuldade
em priorizar e dificuldade em ouvir.
É bom lembrar também que o ser humano é individual, é único e que,
portanto também reage de forma única e individual a situações semelhantes.
Para Bom Sucesso (1997, p. 176) no cenário idealizado de pleno
emprego, mesmo de ótimas condições financeiras, conforto e segurança, alguns
trabalhadores ainda estarão tomados pelo sofrimento emocional. Outros,
necessitados, cavando o alimento diário com esforço excessivo, ainda assim se
declaram felizes, esperançosos.
Nesse contexto e de acordo com os processos dinâmicos e interativos de
gerir pessoas (agregar, recompensar, desenvolver, manter e monitorar)
estabelecidos por Chiavenato (2005), a promoção da socialização do funcionário ou
colaborador também agrega valor às inter-relações no ambiente de trabalho, ou seja,
as empresas precisam promover a socialização dos novos funcionários, o que pode
acontecer através de vários programas de integração, quer sejam do tipo formal ou
informal; individual ou coletivo; uniforme ou variável, dentre outros.
Um ambiente saudável, rico, tranquilo e ao mesmo tempo desafiador,
que leve o indivíduo a buscar novas conquistas, a satisfazer novas necessidades
favorece não só as relações pessoais, mas o bom desenvolvimento, a fruição dos
trabalhos e o atendimento dos objetivos da administração quer seja ela pública
ou privada.
31
3
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