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Trabalho

O documento discute os desafios da democracia e liberdade de expressão em tempos de desinformação nas redes sociais, especialmente durante eleições. Aborda como as fake news se espalham mais rápido que notícias verdadeiras e podem influenciar votações. Defende que combater a desinformação é proteger esses direitos democráticos.

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Trabalho

O documento discute os desafios da democracia e liberdade de expressão em tempos de desinformação nas redes sociais, especialmente durante eleições. Aborda como as fake news se espalham mais rápido que notícias verdadeiras e podem influenciar votações. Defende que combater a desinformação é proteger esses direitos democráticos.

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Faculdade de Ciências Humanas e Sociais de Igarassu – FACIG

Aluno: João Paulo Uchoa Costa

Jose Leidisandro Cesar

Disciplina: Direitos Humanos

Professor: Flavio Guerra

2ª Atividade Avaliativa – Direitos Humanos

Inicialmente, salienta-se que a presente atividade avaliativa fora solicitada pelo


professor da respectiva disciplina, instruindo o aluno a pesquisar, abordar, e
dissertar de forma clara e objetiva uma análise sobre o tema "Democracia e
Liberdade de Expressão: O Voto em tempo de “Fake News”.

Boatos, lendas urbanas e mentiras espalhadas maliciosamente –


inclusive no contexto eleitoral – sempre existiram. Desenho datado de 1894 do
pioneiro cartunista americano Frederick Burr Opper, colaborador dos melhores
jornais da época, já ilustrava um cidadão segurando um jornal com o
termo fake news, representando o alvoroço criado pelos boatos.

A novidade deste século é que o avanço tecnológico, a expansão da internet e


das redes sociais ampliaram exponencialmente o poder de propagação desse
tipo de conteúdo. Estudo produzido por pesquisadores do Massachusetts
Institute of Technology (MIT) a respeito das notícias distribuídas pelo
Twitter entre 2006 e 2017 mostrou que notícias falsas têm 70% mais chances
de serem retuitadas do que notícias verdadeiras.

Pesquisa realizada pela IDEIA Big Data divulgada em maio de 2019 revela que
mais de dois terços das pessoas receberam fake news pelo Whatsapp durante
a campanha eleitoral brasileira de 2018.

Nesse contexto, a sociedade como um todo – poderes públicos, entidades


privadas e sociedade civil – precisa se engajar na compreensão do fenômeno e
na formulação de ferramentas adequadas para seu enfrentamento.

Trata-se de tarefa desafiadora, dadas as peculiaridades da nova era da


informação. Conforme afirma o historiador Yuval Harari, “A revolução da
internet foi dirigida mais por engenheiros do que por partidos políticos. O
sistema democrático ainda está se esforçando por entender o que o atingiu”.

Na seara jurídica, a abordagem do tema traz complexidades peculiares, como


a relação entre o combate às notícias falsas e a liberdade de expressão.

O conhecimento da realidade é o que permite à população formular opiniões


sobre o funcionamento das instituições e a atuação de governos eleitos
democraticamente. Mas o caráter disruptivo das novas tecnologias
proporcionou, além de inúmeras possibilidades de benefícios, uma série de
ameaças. Enfrentar falsos perfis e informações nas redes é um dever da
sociedade na busca para proteger a democracia e garantir a liberdade.

Neste contexto, evitando juridiquês, é importante pontuar que o Direito, esse


conjunto de regras e princípios que regulam a vida em sociedade e que estão
repousados na Constituição Federal, nos Códigos, decretos etc., nada mais é
do que uma trincheira normativa que separa o que é permitido do que é
proibido.

O regime democrático pressupõe um ambiente de livre trânsito de idéias, no


qual todos tenham direito a voz. De fato, a democracia somente se firma e
progride em um ambiente em que diferentes convicções e visões de mundo
possam ser expostas, defendidas e confrontadas umas com as outras, em um
debate rico, plural e resolutivo.

Nesse sentido, é esclarecedora a noção de “mercado livre de idéias”, oriunda


do pensamento do célebre juiz da Suprema Corte Americana Oliver Wendell
Holmes, segundo o qual idéias e pensamentos devem circular livremente no
espaço público para que sejam continuamente aprimorados e confrontados em
direção à verdade.

Além desse caráter instrumental para a democracia, a liberdade de expressão


é um direito humano universal – previsto no artigo XIX da Declaração Universal
dos Direitos Humanos, de 1948, sendo condição para o exercício pleno da
cidadania e da autonomia individual.

A liberdade de expressão está amplamente protegida em nossa ordem


constitucional. As liberdades de expressão intelectual, artística, científica, de
crença religiosa, de convicção filosófica e de comunicação são direitos
fundamentais (art. 5º, incisos IX e XIV) e essenciais à concretização dos
objetivos da República Federativa do Brasil, notadamente o pluralismo político
e a construção de uma sociedade livre, justa, solidária e sem preconceitos de
origem, raça, sexo, cor, idade ou quaisquer outras formas de discriminação
(art. 3º, incisos I e IV).

A liberdade de expressão é um dos grandes legados da Carta Cidadã, resoluta


que foi em romper definitivamente com um capítulo triste de nossa história em
que esse direito – dentre tantos outros – foi duramente sonegado ao cidadão.
Graças a esse ambiente pleno de liberdade, temos assistido ao contínuo
avanço das instituições democráticas do país. Por tudo isso, a liberdade e os
direitos dela decorrentes devem ser defendidos e reafirmados firmemente.

O Supremo Tribunal Federal tem construído uma jurisprudência consistente em


defesa da liberdade de expressão: declarou a inconstitucionalidade da antiga
lei de imprensa, por possuir preceitos tendentes a restringir a liberdade de
expressão de diversas formas (ADPF 130, DJe de 6/11/2009); afirmou a
constitucionalidade das manifestações em prol da legalização da maconha,
tendo em vista o direito de reunião e o direito à livre expressão de pensamento
(ADPF 187, DJe de 29/5/14); dispensou diploma para o exercício da profissão
de jornalismo, por força da estreita vinculação entre essa atividade e o pleno
exercício das liberdades de expressão e de informação (RE 511.961, DJe de
13/11/09); determinou, em ação de minha relatoria, que a classificação
indicativa das diversões públicas e dos programas de rádio e TV, de
competência da União, tenha natureza meramente indicativa, não podendo ser
confundida com licença prévia (ADI 2404, DJe de 1/8/17) – para citar apenas
alguns casos.

No entanto, a liberdade de expressão deve ser exercida em harmonia com os


demais direitos e valores constitucionais. Ela não deve respaldar a alimentação
do ódio, da intolerância e da desinformação. Essas situações representam o
exercício abusivo desse direito, por atentarem, sobretudo, contra o princípio
democrático, que compreende o “equilíbrio dinâmico” entre as opiniões
contrárias, o pluralismo, o respeito às diferenças e a tolerância.

Essa compreensão foi uma das razões pelas quais o STF, no julgamento do
HC 82.424 (DJ de 19/3/04), conhecido como Caso Ellwanger, manteve a
condenação de um escritor e editor julgado pelo crime de racismo por publicar,
vender e distribuir material anti-semita. A garantia da liberdade de expressão
foi afastada em nome dos princípios da dignidade da pessoa humana e da
igualdade jurídica.

É também do célebre Juiz Oliver Wendell Holmes, grande defensor da


liberdade de expressão, a idéia de que esse direito pode ceder nos casos em
que a manifestação de pensamento implique perigo evidente e atual capaz de
produzir males gravíssimos. Entendo ser esse o caso de determinadas notícias
fraudulentas, tendo em vista os sérios danos à democracia que o
compartilhamento massivo desses conteúdos pode causar.

Ademais, correlata da liberdade de expressão, a liberdade de informação


também está amplamente protegida em nossa ordem constitucional. Com
efeito, a Carta assegura a todos o acesso à informação, de natureza pública ou
de interesse particular (art. 5º, incisos XIV e XXXIII, e art. 93, inciso IX). No
contexto da comunicação social, a Constituição confere “acentuada marca de
liberdade na organização, produção e difusão de conteúdo informativo” (ADI
4451, DJe de 6/3/19), proibindo qualquer restrição à manifestação do
pensamento, à criação, à expressão e à informação (art. 220).

As liberdades de expressão e de informação fidedigna são complementares. A


desinformação turva o pensamento; coloca-nos no círculo vicioso do engano;
seqüestra a razão. A dificuldade de discernir o real do irreal e a desconfiança
prejudica nossa capacidade de formar opinião e de nos manifestar no espaço
público. Por isso, combater a desinformação é garantir o direito à informação,
ao conhecimento, ao pensamento livre, dos quais depende o exercício pleno da
liberdade de expressão.

É preciso união e articulação entre os governos, empresas e sociedade civil,


além da conscientização. É dever de todos exigir que o Estado e as instituições
utilizem mecanismos constitucionais para não permitir campanhas pelo fim da
democracia ou que ataquem poderes estabelecidos. Diante da desinformação,
não podemos cair em inação. A saúde da democracia, da política e de todos os
brasileiros depende disso.

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