Agropecuária Científica no Semiárido
Centro de Saúde e Tecnologia Rural
[Link]
ISSN: 1808-6845
Deposição de serapilheira em áreas de Caatinga no Núcleo de Desertificação do Seridó.
Whenderson Thalmer de Medeiros Silva¹, Francisco de Assis Pereira Leonardo¹, Jacob Silva Souto¹, Patrícia
Carneiro Souto¹, Josias Divino Silva de Lucena¹, Pedro Hermógenes de Medeiros Neto1
RESUMO: O material orgânico proveniente do processo de deposição é um componente importante dentro dos ecossistemas
florestais, no qual compreende o material precipitado pela biota, incluindo principalmente folhas, frutos, flores, galhos,
sementes e resíduos animais. Em florestas tropicais a deposição de serapilheira se torna um dos aspectos mais importantes no
processo de ciclagem de nutrientes. O presente trabalho tem como objetivo quantificar a produção de serapilheira em
vegetação de caatinga em diferentes estágios sucessionais de regeneração natural, no Estado da Paraíba. O experimento foi
desenvolvido na Fazenda Cachoeira de São Porfírio, em Várzea-PB, em três áreas, caracterizadas como estágio inicial, médio e
avançado de regeneração natural. Para a coleta de serapilheira depositada foram distribuídos de forma aleatória 24 coletores de
1,0 m x 1,0 m em cada área, as quais foram subdivididas em tres blocos com oito coletores. As coletas foram realizadas
mensalmente e durante o período de agosto de 2015 a julho de 2016. Os valores foram transformados em kg ha -1 para a
estimativa mensal e anual da produção de serapilheira. Foi avaliada a produção mensal e anual de serapilheira. A fração folhas
apresentou o melhor percentual de serapilheira independente do estágio de regeneração natural. Os meses subsequentes ao final
do período chuvoso apresentam a maior produção de serapilheira, independente do estágio de regeneração natural. A produção
de serapilheira aumenta com o avanço do estágio sucessional.
Palavras-chave: produção de serapilheira; semiárido brasileiro; Zenaida auriculata.
Deposition of litter in Caatinga areas in Seridó Desertification Nucleus
ABSTRACT: Organic material from the deposition process is an important component within forest ecosystems, which
comprises material precipitated by biota, including mainly leaves, fruits, flowers, twigs, seeds and animal residues. In tropical
forests the deposition of litter becomes one of the most important aspects in the process of nutrient cycling. The present work
has as objective to quantify the litter production in caatinga vegetation in different successional stages of natural regeneration,
in the Paraíba State. The experiment was developed at Cachoeira de São Porfírio Farm, in Várzea-PB, in three areas,
characterized as initial, medium and advanced stages of natural regeneration. For the deposited litter collection, 24 collectors
of 1.0 mx 1.0 m were randomly distributed in each area, which were subdivided into three blocks with eight collectors. The
collections were carried out monthly and during the period from august 2015 to july 2016. The values were transformed into
kg ha-1 for the monthly and annual estimation of litter production. The monthly and annual production of litter was evaluated.
The leaves fraction presented the best percentage of litter independent of the natural regeneration stage. The months following
the end of the rainy season show the highest production of litter, independent of the natural regeneration stage. The production
of litter increases with the advancement of the successional stage.
Keywords: Litterfall; Brazilian semiarid; Zenaida auriculata
INTRODUÇÃO Desertificação do Seridó está localizado no centro do
“Polígono das Secas”, em partes entre o interior dos
O bioma Caatinga é considerado o ecossistema de Estados do Rio Grande do Norte e da Paraíba. A área e
maior influência na região Nordeste, seu domínio população afetada por esse fator é bastante considerável,
geoecológico ocupa uma área de 1.037.517,80 km², sob ocupando cerca de 2.987 km² com 260.000 habitantes.
as latitudes subequatoriais, compreendidas entre 2º 45’ e Segundo Silveira et al. (2015) e Perez-Marim et al.
17º 21’ S. Sua área corresponde aproximadamente 70% (2012), a desertificação neste Núcleo está relacionada
da Região Nordeste e a 13% do território brasileiro, particularmente a fatores climáticos, processos
dentro do denominado Polígono das Secas e engloba os pedogenéticos e atividades humanas ocasionando, em
Estados da Paraíba, Rio Grande do Norte, Piauí, geral, a falta de água para as necessidades humanas,
Pernambuco, Ceará, Sergipe, Alagoas e Bahia, além do animal, e vegetal.
norte do Estado de Minas Gerais (ALVES, 2007). As plantas da Caatinga, durante o período de
Na região Nordeste nos estados do Ceará, Piauí, estiagem na região, apresentam um mecanismo
Pernambuco, e nas regiões do Seridó abrangendo os fisiológico denominado de caducifolia, que nada mais é
estados do Rio Grande do Norte e Paraíba, estão do que a perca das folhas por parte das plantas para
localizadas as áreas que apresentam uma elevada evitar elevadas taxas de transpiração (HENRIQUES et
susceptibilidade à desertificação, sendo estas chamadas al., 2016). Andrade et al. (2008) relatam que o material
de Núcleo de Desertificação. O Núcleo de orgânico proveniente do processo de deposição, é um
Aceito para publicação em 07/04/2017
¹ Universidade Federal de Campina Grande (UFCG)
*email: [Link]@[Link]
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componente importante dentro dos ecossistemas sucessionais de regeneração natural, no Estado da
florestais, no qual compreende o material precipitado Paraíba.
pela biota, incluindo principalmente folhas, frutos,
flores, galhos, sementes e resíduos animais. MATERIAL E MÉTODOS
Esse material é o principal fator responsável pela
transferência no fluxo de nutrientes e fundamentais para Caracterização da área de estudo
sustentabilidade da biodiversidade de uma floresta, pois
permite que, ocorra o retorno de nutrientes ao solo, em A pesquisa foi desenvolvida na Fazenda Cachoeira
partes significativas para a absorção das plantas de São Porfírio, município de Várzea, mesorregião do
(FERREIRA et al., 2007). Sertão Paraibano, localizada entre as coordenadas
Das variáveis climáticas, a precipitação é a que 06º48’35” S e 36º57’15” W, a 271 m de altitude.
exerce maior influência na deposição do material, A área apresenta uma vegetação de caatinga
principalmente nos períodos em que há a ausência dela, hiperxerófila com diferentes graus de antropismo. O
porém, logo que chegam as primeiras chuvas, a clima da região de acordo com a classificação de
vegetação começa a readquirir suas folhas e o material Köppen se enquadra no tipo BSh, semiárido,
proveniente da deposição é degradado pelos apresentando médias térmicas anuais superiores a 25 C°
microrganismos decompositores, não havendo grande (ALVARES et al., 2013). Segundo Ferreira et al.
acúmulo de material orgânico na superfície do solo (2014) as chuvas são irregulares com pluviosidade
(CORREIA; ANDRADE, 1999; SOUTO, 2006). média menor do que 800 mm por ano.
Em áreas de Caatinga é notória a escassez de estudos
que avaliem à deposição da serapilheira, a fim de Áreas de estudo
quantificar a produção desse componente tão importante
para o processo da ciclagem de nutrientes. Somente Para a realização do estudo foram selecionadas três
através da junção de dados será possível ordenar e áreas, com vegetação em diferentes estágios
generalizar os resultados de caráter isolado, de forma sucessionais. As áreas foram caracterizadas quanto aos
que se construa um modelo geral da função da estágios de regeneração natural conforme Ferreira et al.
serapilheira dentro do ecossistema, obtendo informações (2014), baseado em alguns aspectos descritos na
valiosas para futuros projetos com vista à conservação e resolução CONAMA de nº 10 de 01 de outubro de 1993
preservação do bioma caatinga. (BRASIL, 1993), assim caracterizadas: área em estágio
Diante do exposto, o presente trabalho teve como inicial de regeneração natural (EIRN), área em estágio
objetivo, quantificar a produção de serapilheira em médio de regeneração natural (EMRN), e área em
vegetação de caatinga em diferentes estágios estágio avançado de regeneração natural (EARN),
(Figura 1).
Figura 1. Localização das áreas de estudo, indicando nas cores amarela, preta e branca, para os estágios de regeneração inicial, médio e
avançado, respectivamente.
Fonte: Google Earth (2016)
Barroso (2017) classificou os solos das áreas em EIRN, e CAMBISSOLO FLÚVICO Ta eutrófico típico,
NEOSSOLO FLÚVICO Ta eutrófico típico para o para as áreas em EMRN e EARN.
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As áreas foram cercadas para que não ocorresse coletor foi presa uma tela de sombrite com malha de 1,0
presença de animais pastejando sobre o local. mm, permitindo acondicionar o material formador da
Para a coleta de serapilheira depositada em cada área serapilheira, sem permitir o acúmulo de água, evitando,
de investigação, foram distribuídos no interior da o início do processo de decomposição do material,
vegetação de forma aleatória, três blocos com oito como também impedir a entrada de material da
coletores de 1,0 m x 1,0 m. Estes foram constituídos de superfície do solo no interior do coletor e a saída deste
uma moldura de ferro de forma quadrada, fixados no pela ação do vento (Figura 2).
local, a uma altura de 25,0 cm a partir do solo. Em cada
Figura 2. Coletor utilizado no estudo de deposição do material decíduo, na Fazenda Cachoeira de São Porfírio, Várzea - PB.
Fonte: Dados da pesquisa.
e estágio avançado de regeneração natural (EARN),
As coletas foram realizadas mensalmente respectivamente. As médias desses valores assim como
compreendendo o período de agosto de 2015 a julho de as percentagens de cada fração (folhas, galhos, material
2016. reprodutivo e miscelânea).
As amostras de serapilheira coletadas foram Ao analisar a produção de cada uma das frações
separadas em folhas, galhos, material reprodutivo observa-se que a fração folhas se destacou pela maior
(frutos, sementes, flores) e miscelânea (material < 2,0 produção de serapilheira, seguida de galho, material
mm de diâmetro, de difícil identificação, e excretas). reprodutivo e miscelânea, respectivamente. O que difere
Após a triagem, as frações foram acondicionadas em do estudo desenvolvido por Maciel et al. (2012) em uma
sacos de papel, diretamente etiquetadas e encaminhadas área de caatinga no semiárido pernambucano, no qual
ao Laboratório de Nutrição Mineral de Plantas encontraram resultados superiores para a fração galhos
(LabNut) do CSTR/UFCG para secagem em estufa a em comparação aos demais, e assemelhasse ao estudo
65º C até atingir peso constante. O peso de cada fração desenvolvido por Lima et al. (2015) em área de caatinga
foi determinado em balança com precisão de duas casas no sul do Piauí, onde encontraram a maior produção das
decimais. Os dados obtidos permitiram estimar as frações em mesma ordem de resultados encontrados
médias mensais e anual de serapilheira produzida pela neste estudo.
vegetação estudada e a percentagem de cada uma das Pode-se observar que a fração folhas apresentou uma
frações avaliadas. produção abaixo de 70 %, fato este que não é comum
Foi calculada a média mensal e a serapilheira total em estudos dessa natureza, como destacaram Henriques
(soma das frações). Os valores foram transformados em et al. (2016) em estudo desenvolvido em área de
kg ha-1 para a estimativa mensal e anual da produção de caatinga em uma Unidade de Conservação no Estado da
serapilheira. Paraíba, apresentando uma produção de folhas em
Os dados foram submetidos à análise de variância e 2.079,61 kg ha-1 o que representou 77,23 % da
aplicado o teste tukey para comparar as médias das estimativa total para a fração.
áreas. A produção de serapilheira apresentada deve-se a
influência fatores climáticos, que agem no
RESULTADOS E DISCUSSÃO comportamento fisiológico da vegetação da área
estudada. A vegetação da Caatinga apresenta em
A produção de serapilheira apresentou diferenças períodos de estiagem, uma adaptação fisiológica para
durante o período de estudo, sendo estimada em permitir a sobrevivência das plantas, com isso, em
1507,66 kg ha-1, 2017,69 kg ha-1, e 3177,93 kg ha-1 para resposta ao déficit hídrico às plantas perdem as folhas,
as áreas em estágio inicial de regeneração natural com consequente aumento considerável da produção de
(EIRN), estágio médio de regeneração natural (EMRN), serapilheira em áreas com este tipo de vegetação.
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Santana e Souto (2011), ao analisarem a produção de et al. (2015) em fragmento de Mata Atlântica em
serapilheira em área de Caatinga na Estação Ecológica diferentes estágios sucessionais obtiveram produção de
do Seridó, Serra Negra do Norte – RN, também serapilheira da ordem de 7470,00 kg ha-1 para o estágio
encontraram uma produção de serapilheira em torno de inicial, 8960,00 kg ha-1 para o estágio médio e 14700,00
2068,55 kg ha-1, assim como Silva et al. (2015) que ao kg ha-1 para o estágio avançado de sucessão, pode-se
realizar o mesmo estudo em um fragmento de Caatinga observar que são resultados relativamente altos quando
no município de Cajazeirinhas – PB, encontraram comparados aos encontrados neste estudo, fato este
valores superiores (1630,5 kg ha-1) aos encontrados na justificado pela presença de indivíduos de maior porte
área em estágio inicial de regeneração natural no neste bioma.
presente estudo. Os resultados e discussões acima estão apresentados
Valores superiores aos encontrados neste estudo na tabela 1.
foram encontrados por Maciel et al. (2012) em uma área
de caatinga no semiárido de Pernambuco, onde
destacaram uma produção total de 6671,86 kg ha-1.
Em comparação aos resultados encontrados em outro
bioma brasileiro, em estudo desenvolvido por Machado
Tabela 1. Produção total de serapilheira em kg ha-1 e em percentual durante o período de agosto/2015 a julho/2016 em áreas de Caatinga no
Núcleo de Desertificação do Seridó, Várzea – PB.
EIRN EMRN EARN
Frações Serapilheira (%) Serapilheira (%) Serapilheira (%)
Folhas 751,73 49,86 1085,03 53,78 1861,82 58,59
Galhos 314,80 20,88 423,05 20,97 583,34 18,36
M. Reprod. 263,67 17,49 320,58 15,89 386,89 12,17
Miscelânea 177,46 11,77 189,03 9,37 345,88 10,88
TOTAL 1507,66 100,00 2017,69 100,00 3177,93 100,00
EIRN: Estágio Inicial de Regeneração Natural. EMRN: Estágio Médio de Regeneração Natural. EARN: Estágio Avançado de Regeneração Natural.
Fonte: Dados da pesquisa
Observa-se na figura 3, que a área EARN apresentou diferindo significativamente pelo teste Tukey ao nível
maiores valores para a produção total, para as frações de 5% de significância.
folhas, galhos, material reprodutivo e miscelânea,
Figura 3. Produção anual de serapilheira nas diferentes frações e estágios de sucessão durante o período de agosto/2015 a julho/2016.
Médias seguidas de mesmas letras nas colunas (entre as áreas) não diferem entre si pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade.
EIRN: Estágio Inicial de Regeneração Natural. EMRN: Estágio Médio de Regeneração Natural. EARN: Estágio Avançado de Regeneração Natural.
Fonte: Dados da pesquisa
Os resultados encontrados são justificados pela encontrada nos estágios inicial e médio. Segundo
ocorrência de um maior número de árvores na área em Nascimento et al. (2013), o grande porte das árvores,
estágio avançado, atribuindo a uma parte aérea em refletindo em uma parte aérea bem desenvolvida, pode
estágio mais desenvolvido do que a vegetação ser mais importante na produção de serapilheira do que
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a predominância de espécies pioneiras, o que relaciona período chuvoso. Observa-se também uma produção
os maiores valores de produção de serapilheira muito baixa da fração nos últimos meses do ano de
encontrados na área em estágio avançado de sucessão 2015. Isto ocorre por causa da redução do conteúdo de
neste estudo. água no solo e a falta de folhas nas plantas, que é a
A sazonalidade na deposição de folhas é apresentada fração responsável pela maior parte da serapilheira,
na figura 4, no qual se verifica que a maior produção de como comprovado neste estudo.
folhas foi obtida nos meses posteriores ao final do
Figura 4. Produção mensal da fração folhas e precipitação de ocorrência durante o período experimental.
Fonte: Dados da pesquisa
Diferentemente dos valores encontrados na produção
Nascimento et al. (2013) ao trabalharem na mensal de folhas, pode-se observar que a fração galhos
quantificação da serapilheira em diferentes áreas no (Figura 5) apresentou maiores resultados nos meses de
Parque Nacional Serra de Itabaiana, Sergipe, ocorrência de chuvas no período compreendido entre
ressaltaram que a produção da fração folhas está aliada dezembro/2015 a fevereiro/2016. Este fato pode ser
a redução da precipitação somada à redução do explicado por uma maior presença de ventanias no
fotoperíodo, o que contribuem para o estresse hídrico da período chuvoso como também um maior acúmulo de
formação florestal, acarretando uma maior deposição de água sobre o vegetal, o que acaba ocasionando um
material nos períodos mais críticos do ano. maior atrito entre os galhos e a posterior quebra dos
mesmos.
Figura 5. Produção mensal da fração galhos e precipitação de ocorrência durante o período experimental.
Fonte: Dados da pesquisa
Henriques et al. (2016) em estudo semelhante em períodos entre o início do período seco e o começo do
área de caatinga em uma Unidade de Conservação no período chuvoso na região.
Estado da Paraíba, encontraram resultados semelhantes Assim como as folhas a fração material reprodutivo
aos encontrados neste estudo, destacando uma sofre um aumento ao final do período chuvoso em
sazonalidade na deposição da fração, compreendendo os
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decorrência do período de floração das árvores acontecerem em maior parte neste período (Figura 6).
Material Reprodutivo (kg ha-1)
Figura 6. Produção mensal da fração material reprodutivo e precipitação de ocorrência durante o período experimental.
Fonte: Dados da pesquisa
Após o período de floração ocorre a chegada do estudo semelhante em área de caatinga, onde
período de frutificação das espécies o que contribui para destacaram que a partir destes resultados encontrados
o aumento na produção dessa fração nos meses não se pode afirmar com certeza que a produção desta
subsequentes ao final do período chuvoso, este fato é fração está inteiramente relacionada com os fatores
algo importante para a manutenção da diversidade local, pluviométricos, tendo em vista que houve queda desse
pois há um aumento na troca de fluxo génico entre as material em maior quantidade nos períodos secos.
áreas, além de garantir através do processo de A fração miscelânea apresentou resultados variáveis
regeneração natural, um equilíbrio ao meio, fornecendo durante o período de estudo, destacando os meses de
a flora e fauna local um ambiente equilibrado para o seu fevereiro de 2016 e junho de 2016 com a maior
desenvolvimento, mesmo nos períodos mais críticos produção desta fração. Pode-se observar que ocorre uma
para a região. maior produção da fração nos meses em que não há
Pode-se observar também, que ocorreu produção ocorrência de chuvas, ou nos meses em que há
desta fração durante todo o período de estudo, fato este ocorrência de baixa precipitação (Figura 7).
também observado por Henriques et al. (2016) em
Figura 7. Produção mensal da fração miscelânea e precipitação de ocorrência durante o período experimental.
Fonte: Dados da pesquisa
Resultados distintos aos encontrados neste estudo A grande quantidade da fração miscelânea pode ser
foram encontrados por Lopes et al. (2009) e Henriques justificada pela elevada população de aves encontradas
et al. (2016) no qual ao analisarem a produção de nas áreas, principalmente a espécie Zenaida auriculata,
serapilheira em áreas de Caatinga apresentaram valores popularmente conhecida como arribaçã, que nos meses
baixos (22,57 kg ha-1) e (17,4 kg ha-1) de produção desse de período migratório, contribuíram bastante para o
material. aumento dos valores da fração. Vale destacar a
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importância da manutenção do bioma caatinga como maior troca de fluxo gênico entre as áreas, auxiliando no
área de pousio e postura das aves, tendo em vista que equilíbrio do ecossistema (Figura 8).
estas são grandes dispersoras e proporcionam uma
A B
Figura 8. Árvore de pousio próxima ao coletor (A). Excretas + material vegetal dentro do coletor utilizado no experimento (B).
Fonte: Dados da pesquisa
Em estudo desenvolvido por Santos et al. (2011) serapilheira, independente do estágio de regeneração
em área de caatinga em Pernambuco pode-se natural;
observar uma alta produção da fração miscelânea, A produção de serapilheira aumenta com o
sendo encontrados valores superiores (3419,40 kg ha- avanço do estágio sucessional.
1
) as demais frações.
A influência da precipitação na produção de REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
serapilheira é evidente, contudo, não é imediata,
sendo observada nos meses subsequentes, variando ALVES, J. J. A. Geoecologia da caatinga no semi-árido do
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Santana e Souto (2011) em estudo semelhante na v. 2, n. 1, p. 58-71, 2007.
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ANDRADE, R. L.; SOUTO, J. S.; SOUTO, P. C.;
maiores taxas da queda do material decíduo
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em diferentes fragmentos de vegetação do Parque <[Link]
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que as maiores quedas do material decíduo também florestas_geral_202.pdf>. 09.12.2016.
ocorreram nos períodos de redução das chuvas. BARROSO, R. F. Atributos e classificação de perfil do
Destaca-se assim a forte relação da precipitação com solo em áreas de caatinga no semiárido da Paraíba. 2017.
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Unidade Acadêmica de Engenharia Florestal, Universidade
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A fração folhas apresentou o maior CORREIA, M. E. F; ANDRADE, A. G; SANTOS, G. A.
percentual da serapilheira independente do estágio Formação de serapilheira e ciclagem de nutrientes.
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