Revista Proarq - CP - 38
Revista Proarq - CP - 38
38
N.38 | Julho 2022
CADERNOS
38
CADERNOS
38
Reitora Denise Pires de Carvalho
Vice-reitor Carlos Frederico Leão Rocha
Pró-Reitoria de Pós-graduação e Pesquisa Denise Maria Guimarães Freire
Decano do Centro de Letras e Artes Cristina Grafanassi Tranjan
FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO
FACULTY OF ARCHITECTURE AND URBANISM
FICHA CATALOGRÁFICA
Copyright@2021 dos autores
Author’s Copyright@2021 Cadernos do PROARQ Rio de Janeiro
Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Arquitetura
Cadernos PROARQ e Urbanismo, Programa de Pós-Graduação em Arquitetura – No.1
(setembro 1997) -versão impressa / No. 38 (julho 2022) - versão
Av. Pedro Calmon, 550 - Prédio da FAU/ Reitoria, sl.433
eletrônica
Cidade Universitária, Ilha do Fundão N.38 ( julho, 2022) 289p
ISSN: 1679-7604 (impresso)
CEP 21941-901 - Rio de Janeiro, RJ - Brasil
ISSN: 2675-0392 (online)
Tel.: + 55 (21) 3938-0288 1-Arquitetura - Periódicos. 2-Urbanismo - Periódicos.
Universidade Federal do Rio de Janeiro. Programa de Pós-
Website: http://www.proarq.fau.ufrj.br/revista
graduação em Arquitetura. 2022.
E-mail: [email protected] CDD 720
CADERNOS
38
Comitê Científico
Scientific Committee
Aline Werneck Barbosa de. Carvalho, UFV Luis Otávio Cocito de Araújo, POLI/UFRJ
Carlos Eduardo Dias Comas, UFRGS Maria Cristina Schicchi, PUC Campinas
Claudio Antonio Lima Carlos, UFRRJ Marta Adriana Bustos Romero, UNB
Fernando Oscar Ruttkay Pereira, UFSC Paulo Roberto Ferreira Carneiro, POLI/UFRJ
Jardel Pereira Gonçalves, UFBA Silvia Tavares, James Cook University – Australia
Laura Novo Azevedo, Oxford Brookes University Vera Bins Ely, UFSC
38
Avaliadores - Revista 38
Evaluators - Edition 38
1 O LabLugares, coordenado pela profa. Dra. Ana M. G. Albano Amora e pelo prof. Rafael Barcellos Santos, é um grupo
de pesquisa em arquitetura e urbanismo, sediado no CNPq, que aborda a temática da arquitetura e das cidades a par-
tir de uma perspectiva histórica sobre a construção de lugares e das ideias, consubstanciadas nos projetos de edifícios
e urbanos.
2 Infelizmente, por conta de problemas pessoais, não pudemos contar, ao longo de todo o processo, com a participação
da larga experiência de Claudia Carvalho, arquiteta aposentada da Casa de Rui Barbosa e pesquisadora do PROARQ,
mas é inegável a sua colaboração na produção das ideias presentes no texto da chamada para a publicação deste
número.
3 Claudia Carvalho é autora da tese Preservação da Arquitetura Moderna: edifícios de escritório construídos no Rio
de Janeiro entre 1930 e 1960, defendida em 2006 na USP; Ana M. G Albano Amora defendeu sua tese O Nacional e
o Moderno: a arquitetura e saúde no Estado Novo nas cidades catarinenses em 2006 no IPPUR da UFRJ; e é de 2007
a tese de Helio Herbst Pelos salões das bienais, a arquitetura ausente nos manuais: expressões da arquitetura
moderna brasileira expostas nas bienais paulistanas (1951-1959), defendida na USP.
4 Carlos Eduardo Comas disserta sobre o assunto no artigo “Protótipo e monumento, um ministério, o ministério”
(1987), inserido na publicação Textos fundamentais sobre história da arquitetura moderna brasileira – parte 1,
organizada em 2010 por Abílio Guerra.
5 Cabe aqui lembrar de Le Goff e sua assertiva em relação às diferenças entre documento e monumento, já que do-
cumentos são alçados à condição de monumentos pelo poder e pelas instituições. No nosso caso, consideramos que as
edificações, monumentais ou não, podem ser documentos de determinadas formas do fazer arquitetônico. Do autor,
sugerimos a leitura de História e memória, publicado em 1996.
CADERNOS
38
V
Editores convidados
6 No livro A salvação do belo, publicado em 2019, Byung-Chul Han fala de uma estética do ‘liso’ assimilável pelo
grande público. Esta estética não provoca controvérsias, pois anestesia a percepção e configura um mundo de pura
positividade (imaginária).
CADERNOS
38
VI
1 LabLugares, coordinated by prof. Dr. Ana M. G. Albano Amora and by Prof. Rafael Barcellos Santos is a research
group in architecture and urbanism, based at CNPq, which addresses the theme of architecture and cities from a
historical perspective on the construction of places and ideas, embodied in building and urban projects.
2 Unfortunately, due to personal problems, we could not count, throughout the process, with the participation of the
wide experience of Claudia Carvalho, a retired architect from Casa de Rui Barbosa and a researcher at PROARQ, but
her collaboration in the production of the ideas present in the text of the call for publication of this issue.
3 Claudia Carvalho is the author of the thesis Preservation of Modern Architecture: office buildings built in Rio de
Janeiro between 1930 and 1960, defended in 2006 at USP; Ana M. G Albano Amora defended her thesis The National
and the Modern: architecture and health in the Estado Novo in the cities of Santa Catarina in 2006 at the IPPUR
of UFRJ; and the 2007 thesis by Helio Herbst For the salons of the biennials, architecture absent from manuals:
expressions of modern Brazilian architecture exhibited at the São Paulo biennials (1951-1959), defended at USP.
4 Carlos Eduardo Comas talks about the subject in the article “Prototype and monument, a ministry, the ministry”
(1987), included in the publication Fundamental texts on the history of Brazilian modern architecture – part 1,
organized in 2010 by Abílio Guerra.
5 It is worth remembering Le Goff and his assertion regarding the differences between document and monument since
documents are elevated to the status of monuments by power and institutions. In our case, we consider that buildings,
monumental or not, can be documents of certain forms of architectural work. From the author, we suggest reading
History and Memory, published in 1996.
CADERNOS
38
VII
to talk about the Jorge Machado Moreira building, designed to house the Faculty of
Architecture and Urbanism and which today, after fires and little maintenance, finds
It is in a precarious state of conservation and is home to other UFRJ institutions,
in addition to the FAU/UFRJ. Our interest was to guide international actions to a
concrete case of great scope and that we experience in the day to day of our teaching
work.
Another issue that permeated our inquiries is related to the constant cult of novelty
and an aesthetic of the new by contemporary6 society. Although modern buildings
bring a formal and/or technical expression opposed to the old one, the marks that
time imposes on them are not welcome in a context where the common place of
white, glazed and clean real estate developments is in the imagination of the
population. On the other hand, buildings over 70 years old, despite the technical
constructive qualities, present needs for adaptations and renovations beyond the
taste of those most attentive to their aesthetic qualities.
We believe, therefore, when looking at the set of approved articles, that all
cooperate strongly to substantiate the three thematic axes developed for the call
for submissions and allow, with a great scope, to discuss and propose ideas for: 1)
Values, History and Theory of Patrimony; 2) Preservation of Modern Heritage; 3)
Education and Heritage.
Take advantage of the contributions of our colleagues who are dedicated to Modern
Heritage, to whom we are grateful for the quality of their work, in view of a context
of reflection on Brazilian culture. We wish you all a great read!
Guest Editors
6 In the book The Salvation of the Beauty, published in 2019, Byung-Chul Han talks about an aesthetic of the ‘smooth’
that can be assimilated by the general public. This aesthetic does not provoke controversy, as it anesthetizes perception
and configures a world of pure (imaginary) positivity.
CADERNOS
38
VIII Editorial
O volume 38, que chega a todos os leitores neste momento, traz dois marcos:
a celebração dos 35 anos de existência do PROARQ e a completude da edição
especial do Cadernos PROARQ Perspectivas do Patrimônio Moderno, pensada e
organizada de modo a reacender uma discussão importante e emergente sobre
o impacto de diversas ações governamentais de apagamento do valor de nossas
instituições, grande parte delas alojadas em edifícios e em cenários demarcados
pelo legado do Movimento Modernista Nacional e pela Arquitetura Moderna.
Nossos editores especiais, profs. Ana M. G. Albano Amora e Helio Herbst,
convidados para tecer, alinhavar e organizar todas as discussões propostas
por artigos submetidos e aprovados nesta temática, organizaram este dossiê
temático a partir de eixos estruturantes, em seções da revista, que reforçam o
papel da reflexão e das proposições no âmbito da pesquisa em arquitetura e
urbanismo, em suas muitas articulações com o conceito de patrimônio.
Para nos falar sobre as outras duas organizações, contamos com a contribuição
de Leonardo Castriota e Flávio Carsalade. No artigo “Os desafios da preservação
do moderno: a atuação do Icomos/Brasil”, os autores dissertam sobre os esforços
empreendidos para a preservação de manifestações culturais tão próximas no
tempo, superando entraves advindos das tecnologias construtivas e confrontando
as inúmeras conotações, positivas e negativas, atribuídas a esse tipo de
arquitetura. O diálogo estabelecido a partir da atuação de Tostões, Castriota
e Carsalade nos órgãos de defesa do patrimônio citados, constitui o ponto de
partida das discussões sobre o tema proposto para a revista, “Perspectivas do
Patrimônio Moderno”.
CADERNOS
38
IX Editorial
CADERNOS
38
X Editorial
“Onde está o edifício moderno e para onde foi a cidade? Arquitetura moderna
e centralidades em Juazeiro do Norte – Ceará”, de Hévila Ribeiro, Wylnna
Vidal e Lucy Donegan, analisa as dinâmicas urbanas associadas à difusão da
arquitetura moderna na região do Cariri cearense, observando-se, por meio da
Análise Sintática do Espaço (ASE), a lógica de implantação dos edifícios na malha
urbana da cidade de Juazeiro do Norte.
O terceiro eixo, “Ensino e Patrimônio”, reúne três artigos nos quais se discute
a fundamentação teórica e as práticas ensino de Arquitetura e Urbanismo
relacionadas à preservação do patrimônio. Os artigos aqui reunidos examinam
a apreensão de conteúdos históricos vinculados a questões teóricas e práticas
do campo ampliado da Arquitetura e Urbanismo, relacionando-as com o
entendimento de problemas específicos do campo do Patrimônio, bem como de
uma agenda de atuação sobre as obras patrimonializadas sob diversos pontos
de vista da atividade projetual, em termos de recuperação, de restauro, ou de
intervenção, com a inserção de novas construções.
CADERNOS
38
XI Editorial
Por fim, “Um breve panorama sobre o ensino superior de patrimônio no Brasil no
contexto Latino-Americano”, de Flávio Carsalade, encerra o eixo e a revista 38,
apresentando resultados do projeto de pesquisa “Por uma nova epistemologia no
campo do Patrimônio Cultural, seu ensino e o cenário internacional”, centrado na
análise do ensino de patrimônio cultural no Brasil, nos níveis de graduação e pós-
graduação e na América Latina, e oferecendo um breve diagnóstico sobre a educação
em patrimônio no hemisfério sul.
Comissão Editorial
Helio Herbst
Editores convidados
Coordenação Executiva
Secretaria executiva
CADERNOS
38
XII Editorial
V olume 38, which is now available to all readers, brings two milestones: the
celebration of PROARQ's 35 years of existence and the completion of the special
edition of Cadernos PROARQ, Perspectivas do Patrimônio Moderno, designed and
organized in order to reignite an importante and emerging discussion on the impact
of various governmental actions to erase the value of our institutions, most of them
housed in buildings and in scenarios demarcated by the legacy of the National
Modernist Movement and by the Modern Architecture. Our special editors, profs.
Ana Albano Amora and Helio Herbst, invited to weave, stitch and organize all the
discussions proposed by submitted and approved articles on this topic, managed
to put together many structuring ideas in sections of the Journal that reinforce the
role of reflection and propositions in the scope of the research in architecture and
urbanism.
On this occasion, the first anchor article shows the essay “Memory and transferences”
by Ana Tostões. In it, the professor discusses her experience at the head of Docomomo
Internacional and discusses the value of the architecture of the Modern Movement,
understood as an instrument for the sustainable transformation of globalized societies.
To tell us about the other two organizations, we have the contribution of Leonardo
Castriota and Flávio Carsalade. In the article “The challenges of preserving the modern:
the performance of Icomos/Brasil”, the authors discuss the efforts undertaken to
preserve cultural manifestations so close in time, overcoming obstacles arising from
constructive technologies and confronting the numerous connotations, positive and
negative. negative, attributed to this type of architecture. The dialogue established
from the performance of Tostões, Castriota and Carsalade in the aforementioned
heritage defense agencies constitutes the starting point of the discussions
on the theme proposed for the magazine, “Perspectives of Modern Heritage”.
To tell us about the other two organizations, we have the contribution of Leonardo
Castriota and Flávio Carsalade. In the article “The challenges of preserving the modern:
the performance of Icomos/Brasil”, the authors discuss the efforts undertaken to
preserve cultural manifestations so close in time, overcoming obstacles arising from
constructive technologies and confronting the numerous connotations, positive and
negative. negative, attributed to this type of architecture. The dialogue established
from the performance of Tostões, Castriota and Carsalade in the aforementioned
heritage defense agencies constitutes the starting point of the discussions
on the theme proposed for the magazine, “Perspectives of Modern Heritage”.
CADERNOS
38
XIII Editorial
The first axis, “Values, History and Theory of Heritage”, brings together four articles
that resort to referential sources to formulate proposals for reading and valuing the
modern architectural heritage, contributing to the search for new paths, among which
are inscribed texts that approach the decolonial perspective, gender issues and a less
focused view on European formulations, guided by the understanding of the specificity
of modern architectural objects and the local conditions for their preservation.
Thus, the first axis brings together new interpretative and value-added formulations
for heritage. The article “Considerations on the conservation of modern architecture:
counterpoints between Docomomo and Icomos/ISC20C”, by Ana Carolina de Souza
Bierrenbach and Julia Pela Meneghel, complements the discussions raised by the
anchor articles by discussing the theoretical and practical guidelines established by
Docomomo and Icomos, showing counterpoints and similarities in the theoretical
orientations about the specificities for conservation and intervention in the heritage.
In turn, the article “Technological utopias, strategies and realities of the heritage
of modern Brazilian architecture: a graphic analysis of the housing of the future
proposed by the architect Eduardo Longo”, signed by Carlos Teixeira, Rafael
Perrone and Renato Vizioli, investigates, through graphic analysis, strategy and
design approach of the so-called “Habitações do Futuro”, emphasizing the legacy
launched by Eduardo Longo to question socially established habits and values.
CADERNOS
38
XIV Editorial
Thus, “Modern housing and the challenges of preservation. The IAPI Vila Guiomar,
Santo André/SP”, by Flávia Brito do Nascimento, Larissa Silva-Dias and Ana Beatriz
Costa, analyzes the processes of implantation, occupation, transformation and
preservation of the Vila Guiomar Residential Complex, the work being investigated
not only the from its materiality, as well as in dialogue with its residents, seen
as the main agents of interaction, modification and attribution of meanings.
“Where is the modern building and where has the city gone? Modern
architecture and centralities in Juazeiro do Norte – Ceará”, by Hévila Ribeiro,
Wylnna Vidal and Lucy Donegan, analyzes the urban dynamics associated
with the diffusion of modern architecture in the Cariri region of Ceará,
observing, through the Syntactic Analysis of Space ( ASE), the logic of
implantation of buildings in the urban fabric of the city of Juazeiro do Norte.
The article “Affonso Eduardo Reidy’s weekend residence and its passage in time”, signed
by Marta Cristina Guimarães, proposes the analysis, in the light of the patrimonial
field, of a seminal work in the trajectory of Affonso Eduardo Reidy, focusing on the
total de-characterization undertaken after the transfer of ownership, presenting the
history of the work from the original project to the changes made by the current owners.
The third axis, “Education and Heritage”, brings together three articles in which the
theoretical foundation and teaching practices of Architecture and Urbanism related
to heritage preservation are discussed. The articles gathered here examine the
apprehension of historical contents linked to theoretical and practical issues in the
expanded field of Architecture and Urbanism, relating them to the understanding
of specific problems in the field of Heritage, as well as an action agenda on the
heritage works under different points of view of the design activity, in terms of
recovery, restoration, or intervention, with the insertion of new constructions.
CADERNOS
38
XV Editorial
The article “The GT-Brasília in the trajectory of patrimonialization of the capital: a look
at Brasília patrimony”, by Jéssica da Silva,Ana Elisabete Medeiros and Maria Fernanda
Derntl, deals with the methodology used in the analysis of the different morphologies
of the Federal District - Brazil , focusing on the Plano Piloto, observing the team's
contribution to the recognition and safeguarding of the Urbanistic Complex of Brasília.
Finally,“A brief overview of higher education on heritage in Brazil in the Latin American
context”, by Flávio Carsalade, closes the axis and the journal 38, presenting results
of the research project “For a new epistemology in the field of Cultural Heritage , its
teaching and the international scenario”, focused on the analysis of cultural heritage
education in Brazil, at the undergraduate and graduate levels and in Latin America,
and offering a brief diagnosis on heritage education in the southern hemisphere.
Editorial Committee
Helio Herbst
Guest Editors
Executive Coordination
Executive Secretariat
CADERNOS
38
XVI
CADERNOS
CADERNOS
18
38
Sumário Contents
1
Memória e transferências
127
58 Habitação moderna e os desafios da preservação:
o IAPI Vila Guiomar, Santo André/SP
A valorização de uma arquitetura em madeira
representativa do período inicial da construção de Modern Housing and the challenges of preservation:
Brasília: entre “barraco” e patrimônio cultural IAPI Vila Guiomar, Santo André/SP
Ana Beatriz Pahor Pereira da Costa, Larissa Cristina
The valuation of a wooden architecture representative da Silva-Dias e Flávia Brito do Nascimento
of the early period of the construction of Brasilia:
between "shack" and cultural heritage
Daniela Pereira Barbosa e Maria Fernanda Derntl
CADERNOS
38
CADERNOS
CADERNOS
18
38
Sumário Contents
152
Restauro do concreto aparente do patrimônio
moderno:aspectos técnicos de casos práticos
233
Rosana Muñoz e Marcos Tognon
CADERNOS
38
CADERNOS
38
ANA TOSTÕES
Memória e transferências
Memory and transfers
Memoria y transferencias
ANA TOSTÕES
Memória e transferências
2 Memory and transfers
Memoria y transferencias
Ana Tostões
Arquiteta (ESBAL,1982) e historiadora de arquitetura
(UNL,1995), professora catedrática no Intituto Superior
Técnico da Universidade de Lisboa onde coordena o
Doutorado em Arquitetura. Entre 2010 e 2021 presidiu
o Docomomo Internacional, sendo responsável
pela editoria do Docomomo Journal. Durante o seu
mandato, o Docomomo passou de uma organização
maioritariamente europeia para uma rede de escala
global coordenando 74 países nos cinco continentes
(www.docomomo.com).
CADERNOS
38
ANA TOSTÕES
Memória e transferências
3 Memory and transfers
Memoria y transferencias
Ana Tostões
Architect (ESBAL, 1982) and architectural historian (UNL,
1995), full professor at the Instituto Superior Técnico of the
University of Lisbon where she coordinates the Doctorate in
Architecture. Between 2010 and 2021, Tostões chaired Do-
comomo International, being responsible for the editorship
of the Docomomo Journal. During her tenure, Docomomo
grew from a mostly European organization to a global scale
network coordinating 74 countries on five continents (www.
docomomo.com).
CADERNOS
38
ANA TOSTÕES
Memória e transferências
4 Memory and transfers
Memoria y transferencias
Ana Tostões
Arquitecta (ESBAL, 1982) e historiadora de la arquitectura
(UNL, 1995), profesora titular del Instituto Superior Técnico
de la Universidad de Lisboa donde coordina el Doctorado en
Arquitectura. Entre 2010 y 2021 presidió Docomomo Inter-
nacional, siendo responsable por la edición de Docomomo
Journal. Durante su mandato, Docomomo pasó de ser una
organización mayoritariamente europea a una red de esca-
la mundial que coordina 74 países en los cinco continentes
(www.docomomo.com).
CADERNOS
38
ANA TOSTÕES
Memória e transferências
5 Memory and transfers
Memoria y transferencias
Resumo
O patrimônio moderno tem de ser reconhecido como um modelo ou um manifesto, um
símbolo vital para um desenvolvimento arquitetónico e urbano duradouro, capaz de
redefinir o papel vital desta herança no conforto e o bem-estar sustentável das sociedades
globalizadas. Como é sabido, a conservação e a transmissão do património é uma tarefa
difícil que reclama por parte da sociedade a compreensão e o julgamento claro do valor
da arquitetura do Movimento Moderno. Encarada como um estimulante projeto coletivo,
uma das qualidades originais da própria natureza primeira do projeto moderno em si, a
arquitetura do Movimento Moderno permanece um projeto inovador em termos sociais,
espaciais e tecnológicos que está diretamente implicado com a comunidade e o desafio de
um mundo melhor.
Abstract
Modern heritage must be recognized as a model or a manifesto, a vital symbol for lasting
architectural and urban development, capable of redefining the vital role of this heritage in the
comfort and sustainable well-being of globalized societies. As is well known, the conservation
and transmission of heritage is a difficult task that requires society to understand and clearly
judge the value of the architecture of the Modern Movement. Viewed as a stimulating collective
project, one of the original qualities of the very first nature of the modern project itself, the ar-
chitecture of the Modern Movement remains an innovative project in social, spatial, and tech-
nological terms that is directly involved with the community and the challenge of a world best.
Resumen
El patrimonio moderno debe ser reconocido como un modelo o un manifiesto, un símbolo vital
para un desarrollo arquitectónico y urbano duradero, capaz de redefinir el papel vital de este
patrimonio en el confort y el bienestar sostenible de las sociedades globalizadas. Como es bien
sabido, la conservación y transmisión del patrimonio es una tarea difícil que requiere que la
sociedad comprenda y juzgue con claridad el valor de la arquitectura del Movimiento Moderno.
Visto como un proyecto colectivo estimulante, una de las cualidades originales de la primera
naturaleza del propio proyecto moderno, la arquitectura del Movimiento Moderno sigue siendo
un proyecto innovador en términos sociales, espaciales y tecnológicos que está directamente
involucrado con la comunidad y el desafío. de un mundo mejor.
CADERNOS
38
ANA TOSTÕES
Memória e transferências
6 Memory and transfers
Memoria y transferencias
Introdução
A importância do DOCOMOMO, como uma organização mundialmente reconhecida, e
a sua capacidade para desenvolver iniciativas de intercâmbio de ideias e de experiências
implicam chamar a atenção pública, interessando todas as pessoas envolvidas nos
processos de conservação patrimonial, dos investigadores aos quadros técnicos e à
opinião pública que, ainda hoje, vêm o património do século XX com um certo grau de
indiferença. Neste sentido, o património moderno tem de ser reconhecido como um
modelo ou um manifesto, um símbolo vital para um desenvolvimento arquitetónico
e urbano duradouro, capaz de redefinir o papel vital desta herança no conforto e o
bem-estar sustentável das sociedades globalizadas. Como é sabido, a conservação e
a transmissão do património é uma tarefa difícil que reclama por parte da sociedade
a compreensão e o julgamento claro do valor da arquitetura do Movimento Moderno.
Encarada como um estimulante projeto coletivo, uma das qualidades originais da
própria natureza primeira do projeto moderno em si, a arquitetura do Movimento
Moderno permanece um projeto inovador em termos sociais, espaciais e tecnológicos
que está diretamente implicado com a comunidade e o desafio de um mundo melhor.
A estratégia do meu mandato iniciado em 2010 assentava, assim, nessa ambição de abrir
o DOCOMOMO ao mundo, a todas as geografias, procurando reconhecer a dimensão
global do fenómeno da modernidade. Um dos aspetos importantes neste processo
foram os parceiros institucionais e também os membros internacionais. Agora ao fim
de 12 anos, o DOCOMOMO tem 31 novos working parties, contemplando um total de 77.
CADERNOS
38
ANA TOSTÕES
Memória e transferências
7 Memory and transfers
Memoria y transferencias
A modernidade africana
Para um melhor conhecimento e compreensão da diáspora do Movimento Moderno, é
essencial revisitar, analisar e documentar o importante património moderno edificado
na África subsariana, onde o debate se verificou e os modelos arquitetónicos foram
reproduzidos, em muitos casos sujeitos às metamorfoses suscitadas pelas geografias
além-mar.
1 O projeto EWV – Exchanging Worldwide Visions foi um projeto de investigação sobre arquitetura moderna na
África lusófona, procurando estabelecer relações com o Brasil e o que foi a explosão de modernidade trazida
ao mundo pela arquitetura brasileira. Ver Ana Tostões (ed.), Arquitetura Moderna em África. Angola e Moçam-
bique, Lisboa, Caleidoscópio, 2013.
2 Sobre este assunto ver Ana Tostões, Os Verdes Anos na Arquitectura Portuguesa dos Anos 50, Porto, FAUP,
1997; Ana Tostões, Arquitectura Moderna Portuguesa 1920-1970, Lisboa, IPPAR, 2004; Ana Tostões, A Idade
Maior. Cultura e Tecnologia na Moderna Arquitetura Portuguesa, Porto, FAUP, 2015.
3 O pós-guerra foi também o tempo da contestação ao regime. O Estado Novo que politicamente sobrevive à
guerra, e ao que este facto significou politicamente no quadro da derrota dos fascismos, é uma realidade
social, económica e política bem distinta da dos anos 30, abrindo-se a primeira crise grave e global, em que a
questão do poder se coloca de alguma forma para as oposições. Cf. TOSTÕES, Ana. A Idade Maior. Cultura e
Tecnologia na Arquitectura Moderna Portuguesa, op. cit., p. 368
CADERNOS
38
ANA TOSTÕES
Memória e transferências
8 Memory and transfers
Memoria y transferencias
Hoje, uma nova consciência emerge do facto de que é necessário incluir África nos
nossos esforços para atingir uma compreensão abrangente da “diáspora moderna”4.
De facto, como tem sido reconhecido5, a partir da década de 90 os historiadores
descobriram a produção arquitetónica moderna em África como parte de uma
produção cultural relacionada com o colonialismo. Com a introdução da teoria pós-
colonial na historiografia da arquitetura, teve lugar uma crítica insistentemente
ideológica que refreou o desenvolvimento de uma autonomia disciplinar, inibindo um
olhar objetivo sobre esse património moderno. Recentemente, o desenvolvimento de
conceitos como híbrido ou “o outro”6 tem vindo a promover uma análise histórica
diferenciada sobre a arquitetura e a política no século XX em África7 permitindo
afrontar o reconhecimento de a arquitetura do Movimento Moderno no seu impulso
civilizador serviu sempre a colonização8 o que implica repensar o princípio básico
de bem-estar em que a sociedade moderna assenta, a ser assegurado por uma
arquitetura praticada como missão, ou seja, um serviço social capaz de garantir um
futuro melhor para todos. Importa, pois, indagar como foram cruzados os princípios
modernos, resultantes de uma cultura eurocêntrica, com as culturas ancestrais do
Oriente e da África. Além disso, deve-se dizer que o caso da África subsariana de
expressão lusófona começa agora a ser estudado em profundidade, sendo possível
encarar uma visão mais global destes universos ditos periféricos: Portugal e as ex-
colônias africanas, o Brasil e a América do Sul.
4 SHARP, Dennis; COOKE, Catherine (Eds.). DOCOMOMO: The Modern Movement in Architecture. Rotterdam:
010 Publishers, 2000.
5 LAGAE, Johan; AVERMAETE, Tom (Eds.). L’Afrique, c’est Chic. Architecture and Planning in Africa 1950-1970.
Rotterdam: NAi Publishers, 2010.
6 Ver “Other” Modernisms. INTERNATIONAL DOCOMOMO CONFERENCE, 9, 2006. Proceedings […]. Ankara: Do-
comomo International, 2006.
7 ARAEEN, Rasheed, A New Beginning: Beyond Postcolonial Cultural Theory and Identity Politics. Third Text, Lon-
don, v. 14, n. 50, p. 2-20, 2008. Apud LAGAE, Johan. Kulturmann and After. On the Historiography of 1950’s and
1960’s Architecture in Africa. In: LAGAE, Johan; AVERMAETE, Tom (Eds.), op. cit., p. 5-15.
8 KULTERMANN, Udo; FRAMPTON Kenneth. World Architecture 1900-2000: A Critical Mosaic. Wien: New York:
Springer Verlag, 2000. (Central and Southern Africa, v. 6), p. XXII.
CADERNOS
38
ANA TOSTÕES
Memória e transferências
9 Memory and transfers
Memoria y transferencias
Como refere Antoni Folkers, “a última era da colonização em África, cujo fim começa
em 1960, caracterizou-se por um esforço colonial destinado a adiar as independências,
introduzindo as bases de construção de um moderno estado-providência” 15. Devido,
quer à ausência de investimento ocidental em infraestruturas em África, quer à
negação do significado de uma tradicional cultura africana, foram introduzidas
infraestruturas completamente novas baseadas nos parâmetros ocidentais de
modernidade desenvolvidas frequentemente fora do contexto cultural africano.
9 Idem, p. XVIII.
10 Sobre este tema ver FOLKERS, Antoni. Modern Architecture in Africa. Amsterdam: Sun, 2010, p. 24-39.
12 A cidade teve a designação oficial de Nova Lisboa entre 1928 e 1975. Norton de Matos foi governador geral da
província em 1912-1915 e 1921-1923 e em 1948-1949 foi candidato da oposição às eleições presidenciais.
13 Cf. FOLGADO, Deolinda. A Nova Ordem Industrial no Estado Novo. Lisboa: Horizonte, 2012.
14 O I Plano de Fomento (1953-1958), é seguido pelo II Plano de Fomento (1959-1964), depois pelo Plano Intercalar de
Fomento (1965-1967) e finalmente pelo III Plano de Fomento, iniciado em 1968 acompanhando a era Marcelista
CADERNOS
38
ANA TOSTÕES
Memória e transferências
10 Memory and transfers
Memoria y transferencias
Um laboratório colonial
A receção e, hoje em dia, a reinterpretação da arquitetura do Movimento Moderno
implica a preservação física, concetual e identitária. Quando falamos da África
colonial o paradoxo surge pelo facto da arquitetura do Movimento Moderno conter em
si a pulsão de uma afirmação ideológica de liberdade e valores democráticos já que,
como considera Udo Kultermann (1927-2013), a “arquitetura do Movimento Moderno
fazia parte da ideologia colonial, na medida em que serviu exclusivamente a minoria
branca”17. A questão é a de compreender como é que esta expressão moderna pôde
então ser um veículo de colonização e dominação. Como Anatole Kopp defendeu, a
arquitetura moderna não é uma estética mas a proposta de um melhor quadro de
vida para todos18. Temos a consciência que vivemos num período pós-colonial. Por
outras palavras, somos antigas colônias ou países colonizadores que atravessam uma
era pós-colonial. Creio que a mais estimulante aproximação ao tema se faz através de
conceitos como identidade, memória e troca19 . Portugal manteve um regime colonial
ao longo do século XX até meados dos anos 70. Este passado colonial talvez seja ainda
muito recente, até agora, demasiado próximo para uma adequada análise crítica
e histórica. Talvez por isso, em termos de bibliografia, a experiência da moderna
arquitetura nas colônias portuguesas começa agora a ser estudada para além das
fronteiras atuais do país20.
18 KOPP Anatole. Quand le Moderne n’était Pas un Style mais une Cause. Paris: ENSBA, 1988. Ver TOSTÕES, Ana
(Coord.). Fundação Calouste Gulbenkian. Os Edifícios. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2006.
19 CARLOS, Isabel (Ed.). Exchanging Visions. Lisboa: Instituto Camões Autores e Artistas, 2007.
20 MATOS, Madalena Cunha. Colonial Architecture and Amnesia Mapping the Work of Portuguese Architects in
Angola and Mozambique. In: LAGAE, Johan; AVERMAETE, Tom (Eds.), op. cit., 2010.
CADERNOS
38
ANA TOSTÕES
Memória e transferências
11 Memory and transfers
Memoria y transferencias
Este ciclo moderno teve lugar no contexto de uma política internacional muito
contestada, iniciada a partir da criação das Nações Unidas em 1945 e reforçada a
partir de 1961 com o desencadear da Guerra Colonial (1961-1974) e do tardio processo
de industrialização do país e das colônias no quadro de quatro sucessivos Planos de
Fomento. Como refere Udo Kultermann “os acontecimentos que sucedem a guerra, e
sobretudo a fundação das Nações Unidas em 1945, tiveram uma intensa reverberação
na mudança de estatuto de diversas partes de África. Entre os que se bateram pela
liberdade estavam Kwame Nkrumah no Ghanda, Leopold Senghor (1906-2001) no Senegal
e Julius Nyerere (1922-1999) na África Oriental. A Guerra Fria que se seguiu teve o maior
impacto na independência dos estados africano das leis coloniais. A Líbia conseguiu a
indepêndência em 1952, o Ghana em 1957 e em rápida sucessão diversos outros estados
africanos, como a Costa do Marfim, a República Centro-Africana, a Nigéria, o Congo,
o Gabão, a Mauritânia e o Senegal, conquistaram a independência no ano de 1960,
um ano muito importante para a África em geral”22 . Depois da II Guerra Mundial, a
orientação da política colonial portuguesa deve ser entendida sob a intensa pressão das
Nações Unidas. Tentando mitigar essa crítica, a ditadura portuguesa procurou, nos anos
50, formar a ideia de uma identidade lusitana usando, nomeadamente e como discurso
de referência, o luso-tropicalismo de Gilberto Freyre (1900-1987).
21 A realização do I Congresso Nacional de Arquitectura, em maio de 1948 em Lisboa teve as maiores conse-
quências na afirmação da arquitetura moderna em Portugal, tendo sido um facto de consequências deter-
minantes no entendimento da produção arquitetónica dos anos 50 e que importa analisar no contexto de
agitação cultural que se seguiu ao fim da guerra, cf. Ana Tostões, Os Verdes Anos na Arquitectura Portuguesa
dos Anos 50, op. cit., 50. Nesse momento de viragem na reconquista da liberdade de expressão dos arquitetos
e simultaneamente do espaço para afirmar a inevitabilidade da arquitetura moderna, os arquitetos reclamam
a industrialização e a sua participação na resolução do problema da habitação sem constrangimentos nem
obrigatoriedades de estilo. Reivindica-se a intervenção a uma outra escala que não a do edifício isolado, isto
é, o direito à escala da cidade. Citou-se Le Corbusier e a sua utopia da sua Ville Radieuse. E, recorrentemente
a Carta de Atenas como dogma urbanístico para situar a urgência de uma nova racionalidade urbanística e
arquitetónica, com o sentido de manifesto e ortodoxia que comportam, cf. TOSTÕES, Ana. A Idade Maior.
Cultura e Tecnologia na Moderna Arquitetura Portuguesa, op. cit., p. 369. Ver também SIMÕES, João, LOBO,
José Huertas, RODRIGUES, Francisco Castro. O alojamento colectivo. In: TOSTÕES, Ana (Coord.). CONGRESSO
NACIONAL DE ARQUITECTURA, 1. Teses [...]. Lisboa: Ordem dos Arquitectos, 2008 [1948].
23 GOODWIN, Philip L.; KIDDER SMITH, George E. Brazil Builds. Architecture New and Old, 1652-1942. New York:
MoMA, 1943. Seguem-se as monografias dedicadas ao tema: L’ARCHITECTURE D’AUJOURD’HUI. Paris, n. 13/14,
set. 1947; L’ARCHITECTURE D’AUJOURD’HUI. Paris, n. 42/43, ago. 1952. Em Portugal: PALLA, Vítor. Lugar da
tradição. Arquitectura, Lisboa, n. 28, abr. 1949; ARQUITECTURA Moderna Brasileira (Exposição no IST). Ar-
quitectura, Lisboa, n. 29, fev./mar. 1949; LEVI, Rino. A Arquitectura é uma Arte e uma Ciência. Arquitectura,
Lisboa, n. 36, nov. 1950; NIEMEYER, Oscar. Bloco de Habitações na Praia da Gávea, Arquitectura, Lisboa, n.
41, mar. 1952; I BIENAL de S. Paulo - Exposição Internacional de Arquitectura. Arquitectura, Lisboa, n. 41,
mar. 1952; COSTA, Lucio. O Arquitecto e a Sociedade Contemporânea. Arquitectura, Lisboa, n. 47, jun. 1953; O
PINTOR Burle Marx e os seus Jardins. Arquitectura, Lisboa, n. 52, fev./mar. 1954; EXPOSIÇÃO de Arquitectura
Contemporânea Brasileira. Arquitectura, Lisboa, n. 53, nov./dez. 1954; VASCONCELOS, Silvio de. Arquitectura
Brasileira Contemporânea. Arquitectura, Lisboa, n. 88, mai./jun. 1965. Também a revista Técnica da Asso-
ciação de Estudantes do Instituto Superior Técnico: VIEIRA, Aníbal. Brasília, Cidade Modelo. Técnica, Lisboa,
n. 287, dez. 1958. E mais tarde diversos números da Binário: BORÓBIO, Luís. Arquitectura da América entre
CADERNOS
38
ANA TOSTÕES
Memória e transferências
12 Memory and transfers
Memoria y transferencias
Importa, pois, entender esta produção dentro do contexto africano, num processo de
transformação abrangente apostado numa ação dirigida segundo uma orientação
verdadeira e progressista, concretizada através de obras pioneiras com grande significado
urbano e social, num quadro duplamente colonizador: da política e da arquitetura. A
arquitetura moderna na sua vontade de uniformizar conforma uma ação colonizadora
e transformadora que reserva pouco espaço para a valorização das culturas ancestrais
e locais, designadamente em relação à cultura africana. Como considera John Lagae
“de um ponto de vista eurocêntrico em que a África é encarada como continente sem
história, o debate sobre a arquitetura na colônia belga entendia que o Congo não tinha
uma cultura construtiva significante, era visto como território virgem”28 .
Entretanto, ao longo dos anos 60 começou a surgir um genuíno interesse pela arte e
pela arquitetura africanas num quadro que anunciava uma reação à uniformização
do internacionalismo, enunciando tendências conducentes à descoberta da cultura
vernacular, do organicismo e da identificação do conceito que virá a ser designado
de regionalismo crítico. Este quadro que se esboça na arquitetura portuguesa
de um modo claro a partir de meados dos anos 50, tem eco africano na figura de
Pancho Guedes (1925-2015)29 que descreve a sua motivação para a criação de uma
interpretação africana da arquitetura moderna a partir da necessidade de responder
ao desejo africano dos edifícios serem símbolos, mensagens, memórias, espaço para
ideias e sentimentos.
Câncer e Capricórnio. Binário, Lisboa, n. 12, set. 1959; COSTA, Lucio. Brasília, Capital do Futuro. Binário, Lisboa,
n. 22, jul. 1960 (número monográfico dedicado a Brasília); 50 ANOS de Arquitectura Brasileira. Binário, Lisboa,
n. 62, mar. 1972.
24 TOSTÕES, Ana. Os Verdes Anos na Arquitectura Portuguesa dos Anos 50, op. cit., 1997.
25 FERNANDES, José Manuel. Geração Africana. Arquitectura e cidades em Angola e Moçambique, 1925-1975.
Lisboa: Livros Horizonte, 2002.
26 GOODWIN, John. Architecture and Construction Technology in West África. Docomomo Journal, Paris, n. 28,
2005 (Modern Heritage in Africa edition).
28 LAGAE, Johan. Modern Architecture in Belgian Congo. Docomomo Journal, Paris, n. 28, 2005. (Modern Heritage
in Africa Edition)
29 TOSTÕES, Ana. Correspondences by Pancho Guedes. In: EAHN FAUSP CONFERENCE, 2013. Proceedings […]. São
Paulo: EAHN: FAUUSP, 2013.
CADERNOS
38
ANA TOSTÕES
Memória e transferências
13 Memory and transfers
Memoria y transferencias
Esta modernidade de influência brasileira que vai acontecer também numa região tropical,
como vimos em Angola e Moçambique, pois há uma consonância de natureza e cultura
entre todos estes lugares. Nos anos 40 e 50 assiste-se a uma criação muito inspirada nas
experiências brasileiras, nomeadamente nas questões da ventilação permanente, na
criação de dispositivos de sombreamento, na atenção cuidada a uma implantação correta
em relação aos ventos dominantes para controlar a malária, a entrada de mosquitos, as
pandemias. Na sequência da emergência da modernidade brasileira, o mundo anglo-
saxónico abraça igualmente esta questão. Um exemplo é o livro de Victor Olgyay Design
with Climate: Bioclimatic Approach to Architectural Regionalism.
CADERNOS
38
ANA TOSTÕES
Memória e transferências
14 Memory and transfers
Memoria y transferencias
Referências
50 ANOS de Arquitectura Brasileira. Binário, Lisboa, n. 62, mar. 1972.
ARAEEN, Rasheed, A New Beginning: Beyond Postcolonial Cultural Theory and Identity
Politics. Third Text, London, v. 14, n. 50, p. 2-20, 2008.
CARLOS, Isabel (Ed.). Exchanging Visions. Lisboa: Instituto Camões Autores e Artistas, 2007.
COSTA, Lucio. Brasília, Capital do Futuro. Binário, Lisboa, n. 22, jul. 1960.
FOLGADO, Deolinda. A Nova Ordem Industrial no Estado Novo. Lisboa: Horizonte, 2012.
GOODWIN Philip; KIDDER SMITH, George E. Brazil Builds: Architecture New and Old,
1652-1942. New York: MoMA, 1943.
KOPP, Anatole. Quand le Moderne n’était Pas un Style mais une Cause. Paris: ENSBA, 1988.
LAGAE, Johan; AVERMAETE, Tom (Eds.). L’Afrique, c’est Chic. Architecture and
Planning in Africa 1950-1970. Rotterdam: NAi Publishers, 2010.
LAGAE, Johan. Modern Architecture in Belgian Congo. Docomomo Journal, Paris, n. 28,
2005. (Modern Heritage in Africa Edition)
CADERNOS
38
ANA TOSTÕES
Memória e transferências
15 Memory and transfers
Memoria y transferencias
LEVI, Rino. A Arquitectura é uma Arte e uma Ciência. Arquitectura, Lisboa, n. 36, nov. 1950.
NIEMEYER, Oscar. Bloco de Habitações na Praia da Gávea, Arquitectura, Lisboa, n. 41, mar. 1952.
O PINTOR Burle Marx e os seus Jardins. Arquitectura, Lisboa, n. 52, fev./mar. 1954.
TOSTÕES, Ana. Os Verdes Anos na Arquitectura Portuguesa dos Anos 50. Porto: FAUP, 1997
VIEIRA, Aníbal. Brasília, Cidade Modelo. Técnica, Lisboa, n. 287, dez. 1958.
Submetido em 29/05/2022
Aprovado em 20/06/2022
CADERNOS
38
CADERNOS
38
CADERNOS
38
LEONARDO BARCI CASTRIOTA E FLÁVIO DE LEMOS CARSALADE
Resumo
Ao se reconhecer no moderno o caráter patrimonial nas obras do Movimento Moderno
e se postular sua preservação, está-se desvelando, de forma acentuada, a dialética que
preside toda operação de preservação – aquela entre mudança e continuidade. Como
sabemos, no caso do acervo do século XX as dificuldades são muitas e de ordens variadas:
desde o próprio conceito – controverso – de moderno, até a dificuldade de se encarar a
preservação de manifestações culturais tão próximas no tempo, passando por problemas
advindos das tecnologias construtivas empregadas e as inúmeras conotações, positivas e
negativas, atribuídas a esse tipo de arquitetura. Nas últimas décadas, esses desafios têm
sido encarados com seriedade por várias instituições de patrimônio ao redor do mundo,
com a multiplicação de inventários, simpósios científicos, publicações e propostas de
preservação e intervenção sobre esse patrimônio. Este artigo pretende apresentar a atuação
institucional do ICOMOS/BRASIL no que se refere ao patrimônio do século XX, mostrando
como também aqui multiplicam-se as ações dessa instituição. Para isso, partimos de uma
rápida exposição sobre a (re)organização institucional do Comitê Brasileiro do ICOMOS, em
curso desde 2015, para abordar os esforços sistemáticos deste, como a criação do Comitê
Científico Brasileiro do Patrimônio do Século XX, os relatórios de monitoramento dos sítios
patrimônio da humanidade e a realização de simpósios científicos anuais, destacando-se
o de 2018, cujo tema foi justamente “Os desafios da preservação do moderno”. Além disso,
o artigo se debruça sobre dois projetos específicos que encaram esse desafio: a “Missão
Pampulha”, que se dispõe a criar um Sistema de Monitoramento Preventivo/ Gestão
Turística Sustentável para os sítios patrimônios da humanidade, tomando como estudo de
caso piloto o Conjunto Moderno da Pampulha; e as “Jornadas França-Brasil”, onde se cria
uma cooperação entre os dois países para o aprofundamento dos estudos e propostas para
a preservação do patrimônio moderno em concreto armado
Abstract
By recognizing the heritage character in the works of the Modern Movement and postulat-
ing their preservation, the dialectic that presides over every preservation operation - the one
between change and continuity - is being unveiled. As we know, in the case of the 20th cen-
tury heritage, the difficulties are many and varied: from the very - controversial - concept
of modern, to the difficulty of facing the preservation of cultural manifestations so close in
time, to problems arising from the construction technologies used and the many connotations,
positive and negative, attributed to this type of architecture. In the last decades, these chal-
lenges have been taken seriously by several heritage institutions around the world, with the
multiplication of inventories, scientific symposia, publications, and proposals for preservation
and intervention on this heritage. This article intends to present the institutional presence of
ICOMOS/BRAZIL regarding the 20th century heritage, showing how the actions of this institu-
tion are also multiplied here. To do so, we start from a quick exposition on the institutional
(re)organization of the Brazilian Committee of ICOMOS, underway since 2015, to address its
systematic efforts, such as the creation of the Brazilian Scientific Committee on 20th-Century
Heritage, the monitoring reports of the World Heritage Sites, and the realization of annual
scientific symposia, highlighting the 2018 one, whose theme was precisely "The challenges of
preserving the modern". In addition, the article delves into two specific projects that face this
challenge: the "Pampulha Mission", which sets out to create a Preventive Monitoring System/
Sustainable Tourism Management for World Heritage Sites, taking as a pilot case study the
Pampulha Modern Ensemble; and the "France-Brazil Journeys", where a cooperation between
the two countries is created for the deepening of studies and proposals for the preservation of
modern heritage in reinforced concrete
CADERNOS
38
LEONARDO BARCI CASTRIOTA E FLÁVIO DE LEMOS CARSALADE
Resumen
Al reconocer el carácter patrimonial de las obras del Movimiento Moderno y postular su
preservación, se revela de manera marcada la dialéctica que preside toda operación de preser-
vación: la que existe entre el cambio y la continuidad. Como sabemos, en el caso del conjunto
del siglo XX, las dificultades son muchas y variadas: desde el propio -polémico- concepto de
moderno, hasta la dificultad de afrontar la conservación de manifestaciones culturales tan
cercanas en el tiempo, pasando por los problemas derivados de las tecnologías constructivas
utilizadas y las múltiples connotaciones, positivas y negativas, atribuidas a este tipo de arqui-
tectura. En las últimas décadas, estos retos han sido tomados en serio por varias instituciones
patrimoniales de todo el mundo, multiplicándose los inventarios, los simposios científicos, las
publicaciones y las propuestas de conservación e intervención sobre este patrimonio. Este artí-
culo pretende presentar la actuación institucional de ICOMOS/BRAZIL en lo que se refiere al
patrimonio del siglo XX, mostrando cómo también aquí se multiplican las acciones de esta in-
stitución. Para ello, partimos de una rápida exposición sobre la (re)organización institucional
del Comité Brasileño de ICOMOS, en curso desde 2015, para abordar sus esfuerzos sistemáti-
cos, como la creación del Comité Científico Brasileño del Patrimonio del Siglo XX, los informes
de seguimiento de los Sitios del Patrimonio Mundial y la realización de simposios científicos
anuales, destacando el de 2018, cuyo tema fue precisamente "Los desafíos de la preservación
de lo moderno". Además, el artículo se centra en dos proyectos concretos que se enfrentan a
este reto: la "Misión Pampulha", que se propone crear un Sistema de Vigilancia Preventiva/
Gestión del Turismo Sostenible para los Sitios del Patrimonio Mundial, tomando como caso de
estudio piloto el Conjunto Moderno de Pampulha; y las "Jornadas Francia-Brasil", en las que
se crea una cooperación entre los dos países para la profundización de estudios y propuestas
de preservación del patrimonio moderno en hormigón armado
CADERNOS
38
LEONARDO BARCI CASTRIOTA E FLÁVIO DE LEMOS CARSALADE
Introdução
Em 2008, o DOCOMOMO articulou sua décima conferência bianual internacional
em torno do tema “O desafio da mudança”, através do qual procurava-se lidar com
a complexa questão da preservação do legado do Movimento Moderno. Durante
três dias, um grupo multidisciplinar, composto por arquitetos, historiadores da arte,
entre outros, reuniram-se em Roterdã para examinar o paradoxo de se lidar com o
“monumento moderno”, discutindo os múltiplos desafios – teóricos e práticos –
colocados pela tarefa de se preservar, renovar e transformar edifícios produzidos no
Século XX. Como pano de fundo, encontrava-se a questão do inesperado anacronismo
de bens arquitetônicos e conjuntos urbanos que, ao serem construídos, pretendiam
responder aos reclamos do seu tempo, colocando-se como respostas contemporâneas
aos problemas sociais. É como explica Maristella Casciato, então presidente do
DOCOMOMO Internacional:
Com isso, fazia-se imperioso reconhecer que conservar aqueles bens e conjuntos
significaria reconhecer essas mudanças estruturais, muito mais que tentar manter,
de forma estrita, o patrimônio moderno em seu estado original. De certa maneira, ao
se reconhecer no moderno um caráter de patrimônio, e se postular sua preservação,
estaríamos desvelando, num grau exacerbado, a dialética que presidiria toda operação
de preservação – aquela entre mudança e continuidade. Como sabemos, no caso do
acervo do século XX as dificuldades são muitas e de ordens variadas: desde o próprio
conceito – controverso – de moderno, até a dificuldade de se encarar a preservação de
manifestações culturais tão próximas no tempo, passando por problemas advindos
das tecnologias construtivas empregadas e as inúmeras conotações, positivas e
negativas, atribuídas a esse tipo de arquitetura.
As questões trazidas pela arquitetura do movimento moderno não são alheias também
à ação do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS), organização
que reúne especialistas em patrimônio do mundo todo, e que, especialmente desde
os anos 1980, tem se envolvido intensivamente com o patrimônio do século XX
através de conferências nacionais e internacionais, respostas a casos concretos de
risco e indicações à inscrição como patrimônio mundial junto à UNESCO. O trabalho
sistemático do ICOMOS com o patrimônio moderno tem sido capitaneado, no âmbito
da instituição, pelo Comitê Científico Internacional do Século XX (ISC20), grupo
interdisciplinar, que “reconhece a diversidade da expressão regional e cultural no
patrimônio do século XX1” . Esses esforços culminaram em vários encontros, entre
os quais, cabem se citar o Seminário sobre o Patrimônio do Século XX, realizado em
Helsinki em 1995, e o Seminário de Experts no Patrimônio do Século XX, realizado
no México em 1996, que abordaram temas centrais para a preservação desse tipo de
patrimônio, tais como as questões da autenticidade, da materialidade e da significação
do projeto original. Também digno de nota foi o programa para a identificação,
documentação e promoção do patrimônio construído dos séculos XIX e XX, lançado
CADERNOS
38
LEONARDO BARCI CASTRIOTA E FLÁVIO DE LEMOS CARSALADE
2 Aqui é importante anotarmos que o termo “monumento histórico” usado na Carta de Veneza de 1964 foi
reinterpretado pelo ICOMOS em 1965 como “monumento” e “sítio” e pela UNESCO em 1968 como “bem cul-
tural”, de maneira a incluir tanto os bens móveis quanto os bens imóveis. Essa discrepância terminológica foi
resolvida pela Convenção do Patrimônio Mundial de 1972.
CADERNOS
38
LEONARDO BARCI CASTRIOTA E FLÁVIO DE LEMOS CARSALADE
da preservação do patrimônio, das normas e das técnicas para cada tipo de bem
do patrimônio cultural: edifícios, cidades históricas, paisagens culturais e sítios
arqueológicos. Em dezembro de 2020, o ICOMOS tinha 10.489 membros individuais
e 248 membros institucionais em 151 países, 104 Comitês Nacionais e 28 Comitês
Científicos Internacionais3.
4 Durante sua existência, o ICOMOS/BRASIL teve os seguintes presidentes: Arquiteto Augusto da Silva Telles
(1978-1982-RJ); Arquiteto Vivaldo da Costa Lima (1992 - PE - afastado por doença); Arquiteto José Luiz Mota
Menezes (vice-presidente em exercício e titular de 1984-1986 - PE); Fernanda Colagrossi (1986-1988 e 1988-
1991-RJ); Arquiteto Dalmo Vieira Filho (1991-1993 -SC); Fernanda Colagrossi (1993-1996 -RJ); Suzanna do Ama-
ral Cruz Sampaio (1996-1999 -SP); Maria Adriana Almeida Couto de Castro (1999-2001-BA), reeleita para o
triênio 2002-2005; Arquiteta Rosina Coeli Alice Parchen (2006-2009 – PR), reeleita para o triênio 2009-2012;
Arquiteto Eugênio de Ávila Lins (2012-2015 - BA); Arquiteto Leonardo Barci Castriota (2015-2018; 2018-2021 -
MG); Flávio de Lemos Carsalade (2021-... - MG).
5 Em abril de 2015 foi eleita a seguinte chapa, que assumiu a Direção do ICOMOS/BRASIL no biênio 2015-2018:
Presidente: Leonardo Barci Castriota; Vice-Presidente: Flavio de Lemos Casarlade; Secretária Geral: Maria Cris-
tina Cairo; Diretoria Financeira: Selma Melo Miranda; Diretor de Projetos: Marcos Olender; Diretor de Comitês
Temáticos: Silvio Mendes Zancheti. Conselheiros Regionais. Região Norte: Edithe da Silva Pereira (PA); Região
Nordeste: Nivaldo Vieira de Andrade Junior (BA); Região Sudeste: Júlio César Ribeiro Sampaio (RJ); Região
Centro-Oeste: Henrique Oswaldo de Andrade (DF); Região Sul: Rosina Coeli Alice Parchen (PR).
6 No âmbito dessa ação de fortalecimento institucional do ICOMOS/BRASIL, cabe destacar ainda a quitação dos
débitos existentes junto ao ICOMOS Internacional, com o que conseguimos que nosso Comitê tivesse de volta
o direito de voto nas instâncias internacionais, bem como garantimos a emissão das carteiras internacionais
dos associados de nosso país.
CADERNOS
38
LEONARDO BARCI CASTRIOTA E FLÁVIO DE LEMOS CARSALADE
Desde sua fundação no Brasil, o ICOMOS tem organizado simpósios científicos, fazendo
jus à sua missão de promover o avanço científico da área do patrimônio cultural. A
partir de 2017, o ICOMOS/BRASIL tem repetido a prática do ICOMOS internacional,
passando a organizar um simpósio científico anual, sempre em parceria com os vários
programas de pós-graduação existentes no país. Em 2017, o tema geral do simpósio,
emulando o simpósio do ICOMOS internacional, foi a destruição do patrimônio cultural
através de desastres naturais e humanos e conflitos armados. O Simpósio de 2017 teve
um grande sucesso, tendo reunido os principais pesquisadores da área do patrimônio
cultural do país e recebido mais de 700 propostas de comunicações, das quais foram
selecionados 450 trabalhos, que foram apresentados e publicados em forma de anais
8 Os comitês científicos implantados junto ao ICOMOS/BRASIL são: Paisagens Culturais; Patrimônio do Século
XX; Interpretações do patrimônio; Teoria e filosofia da conservação e da restauração; Cidades e vilas históri-
cas; Educação; Pinturas Murais; Turismo Cultural; Patrimônio Industrial; Fortificações e patrimônio militar;
Preparação para o Risco; Arquitetura Vernacular; Patrimônio cultural imaterial; Mudanças Climáticas e Riscos
ao Patrimônio; Economia da conservação. Além disso, foram criados dois Grupos de Trabalho, com temáticas
transversais: GT Patrimônio para as nossas gerações e GT Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. Neste
contexto, o Comitê para Preservação do Patrimônio do Século XX do ICOMOS/BRASIL tem feito esforços para
refletir sobre essa questão considerando as especificidades nacionais, considerando, nas palavras de seu
Coordenador, Arquiteto Silvio Oskman, sobretudo a “dificuldade de compreender que o século XX é mais
abrangente do que a arquitetura moderna reconhecida nos grandes manuais”.
CADERNOS
38
LEONARDO BARCI CASTRIOTA E FLÁVIO DE LEMOS CARSALADE
eletrônicos. O evento teve ainda edições em 2018, 2019 e 2020, cabendo anotar que
neste último ano, o evento teve formato online, devido à pandemia do COVID19.
FIGURA 1 – Abertura do
2º Simpósio Científico do
ICOMOS/BRASIL, abril 2018
Fonte: ICOMOS/BRASIL
FIGURA 2 – 2º Simpósio
Científico do ICOMOS/BRASIL,
abril 2018
Fonte: ICOMOS/BRASIL
CADERNOS
38
LEONARDO BARCI CASTRIOTA E FLÁVIO DE LEMOS CARSALADE
Dentre as questões que foram tematizadas nesta edição, podemos destacar: o legado
do Movimento Moderno no Brasil e no mundo, a questão da mudança e continuidade:
o destino do patrimônio moderno; cidades e paisagens modernas; mudanças
nos programas e flexibilidade; tecnologia e sustentabilidade na preservação do
patrimônio moderno; restauro, reciclagem e revitalização do patrimônio moderno;
a gestão do patrimônio moderno; o patrimônio moderno e a UNESCO no Brasil e no
mundo. Este tema, que galvanizou as discussões do Colóquio de 20189, foi retomado
no ano seguinte, no âmbito do 3º Simpósio Científico do ICOMOS/BRASIL, quando se
convidaram especialistas do país e do mundo que se reuniram durante uma semana
em Belo Horizonte, onde participaram também da chamada “Missão Pampulha”,
grupo de trabalho especial instituído pelo ICOMOS/BRASIL para criar um sistema de
monitoramento para os sítios patrimônio da humanidade no país, tendo como estudo
de caso inicial, justamente o Conjunto Moderno da Pampulha.
9 Sob a coordenação do Arquiteto Flávio Carsalade, que liderou a candidatura do conjunto da Pampulha a pat-
rimônio da humanidade, a mesa-redonda sobre a preservação do patrimônio moderno, acontecida no último
dia do evento, reuniu os arquitetos e pesquisadores Nivaldo Andrade (UFBA), Silvio Oskman (ESC.CIDADE),
Andrea Borde (UFRJ) e Cláudia Carvalho (Casa Rui Barbosa).
CADERNOS
38
LEONARDO BARCI CASTRIOTA E FLÁVIO DE LEMOS CARSALADE
FIGURA 3 – Conjunto Urbano da Os conceitos utilizados na abordagem metodológica utilizada para a construção do
Pampulha
sistema de indicadores foram marcos estabelecidos a partir de marcos da área e sua
Fonte: IPHAN, 2016 significância cultural e declaração de significância; os atributos, a integridade e a
autenticidade dos bens culturais. No que se refere aos primeiros, cabe se ressaltar que
se entende por significância cultural o conjunto de valores resultantes do julgamento
e da validação social dos significados culturais, passados e presentes, de um objeto.
Lembrando-se que esse julgamento é feito no presente e utiliza como referência os
significados do passado, sustentados por instrumentos de memória reconhecidos
pela sociedade (ZANCHETI et al., 2019). A declaração de significância, por sua vez,
operacionaliza o conceito através dos seguintes meios operacionais: identifica
significados culturais específicos nos objetos; identifica conflitos sociais em torno
dos significados culturais, avalia, no presente, os valores dos significados dos objetos,
de acordo com uma escala de importância, indicando os conflitos de avaliação mais
relevantes, e explica as mudanças do significado do passado para o presente. Desta
forma, a declaração será o produto de uma visão da cultura como um fluxo contínuo
CADERNOS
38
LEONARDO BARCI CASTRIOTA E FLÁVIO DE LEMOS CARSALADE
Assim, a avaliação de valor proposta pode ser resumida a partir de seis passos:
verificação das narrativas, identificação de atributos, avaliação da integridade e da
autenticidade, seleção dos tipos de valores atribuídos e organização de uma escala
de importância dos atributos. A avaliação é, portanto, uma organização da ordem dos
significados culturais e, portanto, da importância social das séries ou listas; isto é, sua
importância relativa. Para tanto, normalmente, são utilizados dois tipos de escalas,
a escala nominal, que simplesmente atribui nomes ou categoriza os tipos de valores
e a escala ordinal, que mostra a ordem de importância dos objetos sem, entretanto,
estabelecer "distâncias mensuráveis" entre os valores.
CADERNOS
38
LEONARDO BARCI CASTRIOTA E FLÁVIO DE LEMOS CARSALADE
FIGURA 4 – Igreja São A aplicação da metodologia se deu em oficinas realizadas com um grupo de atores
Francisco de Assis, limitado e diverso, constando de representantes dos três grupos acima citados
Pampulha. e de técnicos do ICOMOS, incluindo membros internacionais. As oficinas foram
Fonte: Pixabay, Creative coordenadas pelos urbanistas Silvio Zancheti e Flavio Carsalade. Os resultados
Commons foram apresentados em duas partes: a primeira trata dos indicadores do estado
de conservação patrimonial do Conjunto Moderno da Pampulha e a segunda dos
indicadores de turismo sustentável.
CADERNOS
38
LEONARDO BARCI CASTRIOTA E FLÁVIO DE LEMOS CARSALADE
• Calcularam os pesos dos elementos e dos atributos significantes com base nos
resultados dos trabalhos de grupo;
CADERNOS
38
LEONARDO BARCI CASTRIOTA E FLÁVIO DE LEMOS CARSALADE
de conservação. Pouco mais que vinte anos depois, em 2017, retomou-se esse tema,
num seminário e colóquio internacional, realizado desta vez em Grenoble, cidade
localizada no maciço dos Alpes e fortemente marcada por uma cultura do concreto
que vem desde o século XIX. Naquele encontro se discutiram também a questão do
envelhecimento do concreto e a necessidade de sua restauração, bem como os novos
desafios colocados pela questão da sustentabilidade: se o concreto representa uma
parte não desprezível da economia francesa e mundial, não há como se desconsiderar
a contribuição dessa indústria para o aumento do efeito estufa e consequente
aquecimento global (Béton, 2017, p. 4).
CADERNOS
38
LEONARDO BARCI CASTRIOTA E FLÁVIO DE LEMOS CARSALADE
FIGURA 6 – Teatro Nacional Cabe registrar que a primeira parte do evento já foi realizada, em dezembro de 2021,
Claudio Santoro, 2012 na forma de um webinar internacional "Restauração dos edifícios históricos em
Fonte: Creative Commons concreto de Brasília: troca de experiências Brasil-França", que reuniu especialistas
franceses, brasileiros e latino-americanos. Essa primeira jornada científica apresentou
casos de restauração do concreto, tendo como foco a sítios históricos patrimônio da
humanidade na Europa, América Latina e, principalmente, no Brasil11 . No segundo
encontro, que terá caráter presencial em Brasília, prevê-se o aprofundamento da
10 A primeira nos permitiu criar um grupo de trabalho, com o LabRac, visando à realização da análise da con-
servação dos edifícios a serem escolhidos como estudos de caso, que hoje já conta com 16 doutorandos e
mestrandos. Já a parceria como o SINDUSCON permitirá integrar as instituições de patrimônio, a academia e
a iniciativa privada com vistas ao estabelecimento de parâmetros para a restauração de edifícios históricos,
bem como a realização de seis oficinas com experts brasileiros para promover esses parâmetros. Além disso,
cabe se destacar o apoio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF, da Superintendência do IPHAN-
DF e da Embaixada da França à iniciativa.
CADERNOS
38
LEONARDO BARCI CASTRIOTA E FLÁVIO DE LEMOS CARSALADE
troca de experiência nos quatro eixos propostos, já se havendo escolhido dois edifícios
icônicos do Movimento Moderno brasileiro, que serão objetos de análise e proposições:
o Teatro Nacional e o Museu da Cidade, que compõe o conjunto urbanístico da Praça
dos Três Poderes.
No entanto, há ainda um esforço que necessita ser feito por todos os braços
internacionais do ICOMOS e que é indicado pela baixa representatividade do moderno
na lista do patrimônio mundial. Em 1997, o ICOMOS mobilizou o DOCOMOMO para
relatar tópico específico no documento “Modern Movement and the World Heritage List”.
O relatório identificou quatro obras de arquitetos e cerca de vinte edifícios modernos,
sítios ou conjuntos que poderiam ser reconhecidos pelos seus “valores universais
excepcionais”. Ainda assim, em 2005, o relatório do ICOMOS denominado “The World
Heritage List: Filling the gaps” apontou a sub-representação do patrimônio moderno
na lista: somente uma dúzia entre os 700 sítios listados foram identificados como
patrimônio moderno.
Incluir o moderno cada vez mais nos debates patrimoniais, pesquisar sobre suas
características especiais e reforçar sua significância em ações cotidianas certamente
nos ajudará a corrigir estas distorções.
Referências
Béton(s). Architectures en bétons dans les Alpes; restaurer les bétons, la masse et
l'épiderme. Proceedings of the international symposium organized by ICOMOS
France, Labex AE&CC and the Ecole Nationale Supérieure d'Architecture de Grenoble
in Grenoble, France, on 23-24 November 2017. Lagneau, Jean-François (ed.). Paris,
ICOMOS France, 2017. 181 p., illus. (Les Cahiers d'ICOMOS France, No. 29).
VAN HEUVEL, Dirk et alli. (ed.). The Challenge of Change: Dealing with the Legacy
of the Modern Movement - Proceedings of the 10th International DOCOMOMO.
Rotterdam: DOCOMOMO, 2008.
CADERNOS
38
LEONARDO BARCI CASTRIOTA E FLÁVIO DE LEMOS CARSALADE
Submetido em 30/04/2022
Aprovado em 02/07/2022
CADERNOS
38
CADERNOS
38
Eixo temático
Valores, História e Teoria do Patrimônio
CADERNOS
38
CADERNOS
38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL
CADERNOS
38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL
Resumo
Este artigo enfoca a discussão teórica em torno da conservação e intervenção no
patrimônio moderno baseado em duas instituições vinculadas ao tema, ambas de
representação internacional – o DOcumentação e COnservação de edifícios, sítios e
unidades de vizinhança do MOvimento MOderno (Docomomo) e o International Council
on Monuments and Sites/ International Scientific Committee on Twentieth Century Heritage
(Sistema Icomos/ISC20C). Constatando a recorrente predominância das teorias
italianas no debate sobre a preservação no contexto contemporâneo brasileiro, esse
artigo pretende expandir a discussão, incorporando outras referências. A intenção
principal é traçar um panorama sobre a atuação de tais organizações e rastrear
seus posicionamentos frente às especificidades para conservação e intervenção no
patrimônio moderno. Tal leitura se dá com base em documentos oficiais das próprias
instituições, bem como através das atuações teórico-práticas de profissionais
diretamente vinculados a essas. No caso do Docomomo, explora-se as manifestações
de Hubert Jan-Henket, Wessel de Jonge, John Allan e Theodore Prudon; e quanto ao
Icomos/ISC20C, aquelas de Susan Macdonald e Sheridan Burke. Esse artigo também
pretende identificar as consonâncias e dissonâncias desses discursos. Enquanto o
Docomomo delimita seu recorte no legado do Movimento Moderno, o Icomos/ISC20C
abrange sua leitura ao “patrimônio arquitetônico do século XX”. Temas relativos à leitura
dos significados e aos conceitos de autenticidade e integridade são determinantes
para a discussão, aparecendo recorrentemente nos discursos analisados. Também
constam particularidades referentes à necessidade de uma teoria alternativa,
que afeta as formas de intervir, que se pautam em valores tangíveis e intangíveis,
considerados caso a caso. Embora alguns autores certifiquem um alinhamento de
opiniões, a aproximação aqui proposta pretende demonstrar que existem nuances,
revelando as particularidades de cada pensamento, muitas possivelmente associadas
ao próprio escopo de cada organização. A abordagem caso a caso e o reconhecimento
da ampliação do conceito de autenticidade estão presentes em ambos os discursos. No
entanto, revela-se o discurso assertivo do Docomomo versus a abordagem ponderada
e mais abrangente do Icomos/ISC20C. Assim, temos a priorização da intenção do
projeto em oposição a multiplicidade de significados vinculados ao edifício, percebido
em suas diferentes temporalidades. A exaltação da ideia do arquiteto em contraste
a valorização dos vários atores associados à construção e o uso continuado do
edifício. A partir do reconhecimento das aproximações e contrapontos, compreende-
se a postura do Icomos/ISC20C e das autoras citadas como sensata e realista em
relação ao contexto contemporâneo, pautando-se em pesquisas aprofundadas e no
reconhecimento dos significados, em suas múltiplas associações e temporalidades.
Estima-se que o contraponto aqui estabelecido contribua para ampliação do debate
acerca da intervenção no patrimônio moderno, para além das teorias já estabelecidas
na contemporaneidade, especialmente no cenário brasileiro. Além disso, espera-se
incitar as instituições e pesquisadores locais ao enfrentamento da questão, ainda
incipiente no país.
CADERNOS
38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL
Abstract
This article focuses on the theoretical discussion on conservation and intervention in modern
architectural heritage, based on two organizations related to the theme, both with interna-
tional representation – the International Working Party for DOcumentation and COnservation
of buildings, sites and neighbourhoods of the MOdern MOvement (Docomomo) and the Inter-
national Council on Monuments and Sites/ International Scientific Committee on Twentieth
Century Heritage (Icomos/ISC20C System). Observing the recurrent predominance of Italian
theories on the subject in the Brazilian context, this article intends to expand them to other
references. The main intention is to draw an overview of the performance of such organiza-
tions and outline their positions in the face of the specifics of conservation and intervention in
modern heritage. This approach is based on institutional official documents, as well as on the
theoretical and practical contributions of professionals directly linked to these organizations.
In the case of Docomomo, the article mentions Hubert Jan-Henket, Wessel de Jonge, John Allan
and Theodore Prudon; and as for Icomos/ISC20C, it refers to Susan Macdonald and Sheridan
Burke. The article also intends to identify the consonances and dissonances of these discourses.
While the Docomomo delimits its focus of interest on the legacy of the Modern Movement, the
Icomos/ISC20C deals with the "architectural heritage of the 20th Century". Themes related to
the apprehension of significance and the concepts of authenticity and integrity are decisive for
the discussion, repeatedly appearing in the analyzed discourses. There are also particularities
regarding the need for an alternative theory, which affects the forms of intervention, which
are based on tangible and intangible values, that should be considered case by case. Although
some authors attest to an alignment of opinions, the approach proposed in this article intends
to clarify that there are nuances, revealing the particularities of each idea, many possibly as-
sociated with the scope of each organization. The case-by-case approach and the recognition
of the expansion of the concept of authenticity are present in both discourses. However, the
assertive discourse of Docomomo versus the balanced and more comprehensive approach of
Icomos/ISC20C is revealed. Thus, one highlights the design intent, while the other, in opposi-
tion, prioritizes the multiplicity of meanings linked to the analyzed building, perceived in its
different temporalities. One exalts the architect's idea, in contrast with the appreciation of the
various actors associated with the building, during construction and continued use. After rec-
ognizing the approaches and counterpoints, we understand the position of Icomos/ISC20C and
the aforementioned authors as sensible and realistic in relation to the contemporary context,
based on in-depth research and recognition of significance, in their multiple associations and
temporalities. We intend that the counterpoint established here between these two important
institutions will contribute to the expansion of the debate on modern heritage intervention,
beyond the theories already established in contemporary times, especially in the Brazilian
scenario. In addition, we hope to encourage local institutions and researchers to address the
topic, which is still incipient in the country.
CADERNOS
38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL
Resumen
Este artículo se centra en la discusión teórica alrededor de la conservación e intervención en
el patrimonio moderno a partir de dos instituciones vinculadas al tema, ambas de represent-
ación internacional – el International Working Party for DOcumentation and COnservation of
buildings, sites and neighbourhoods of the MOdern Movement (Docomomo) y el International
Council on Monuments and Sites/ International Scientific Committee on Twentieth Century
Heritage (Sistema Icomos/ISC20C). Observando el predominio recurrente de las teorías itali-
anas en el debate sobre la preservación en el contexto brasileño contemporáneo, este artículo
pretende ampliar la discusión, incorporando otras referencias. La intención principal es trazar
una visión general de las acciones de tales organizaciones y seguir sus posiciones frente a las
especificidades para la conservación e intervención en el patrimonio moderno. Esta lectura se
basa en documentos oficiales de las propias instituciones, así como en las acciones teóricas y
prácticas de profesionales directamente vinculados a las mismas. En el caso de Docomomo,
se exploran las manifestaciones de Hubert Jan-Henket, Wessel de Jonge, John Allan y Theo-
dore Prudon; y sobre el Icomos/ISC20C, se observan las aportaciones de Susan Macdonald
y Sheridan Burke. Este artículo también tiene como objetivo identificar las consonancias y
disonancias de estos discursos. Mientras el Docomomo delimita su recorte en el legado del
Movimiento Moderno, el Icomos/ISC20C cubre su lectura al "patrimonio arquitectónico del
siglo XX". Los temas relacionados con la lectura de significados y los conceptos de autenti-
cidad e integridad son determinantes para la discusión, se destacando repetidamente en los
discursos analizados. También hay particularidades relacionadas con la necesidad de una
teoría alternativa, que afecta a las formas de intervenir, que se basan en valores tangibles e
intangibles, considerados caso por caso. Aunque algunos autores certifican una alineación de
opiniones, el enfoque aquí propuesto pretende demostrar que existen matices, revelando las
particularidades de cada pensamiento, muchos posiblemente asociados al propio alcance de
cada organización. El enfoque caso por caso y el reconocimiento de la expansión del concepto
de autenticidad están presentes en ambos discursos. Sin embargo, el discurso asertivo de
Docomomo se revela frente al enfoque más ponderado e integral del Icomos/ISC20C. Así, se
subraya la priorización de la intención del proyecto frente a la multiplicidad de significados
vinculados al edificio, percibidos en sus diferentes temporalidades. La exaltación de la idea del
arquitecto contrasta con la valorización de los diversos actores asociados a la construcción y
el uso continuado del edificio. A partir del reconocimiento de aproximaciones y contrapuntos,
entendemos la postura de Icomos/ISC20C y de las autoras citadas como sensible y realista
en relación con el contexto contemporáneo, a partir de la investigación en profundidad y del
reconocimiento de significados, sobre sus múltiples asociaciones y temporalidades. Se estima
que el contrapunto aquí establecido contribuya a la expansión de debate sobre la intervención
en el patrimonio moderno, más allá de las teorías ya establecidas en los tiempos contemporá-
neos, especialmente en el escenario brasileño. Además, se espera incentivar a las instituciones
e investigadores locales a abordar el tema, que aún es incipiente en el país.
CADERNOS
38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL
Introdução
No Brasil as discussões referentes ao patrimônio arquitetônico e urbano são muito
influenciadas pelas teorias italianas. No que diz respeito ao patrimônio arquitetônico
moderno, essas teorias também começam a ser influentes1. Mas, paralelamente,
despontam outras referências teóricas que podem colaborar para fomentar os debates.
Essas estão relacionadas principalmente com duas instituições2 que têm assumido
um importante papel no cenário internacional: o International Council on Monuments
and Sites/ International Scientific Committee on Twentieth Century Heritage (sistema
Icomos/ISC20C) e o DOcumentação e COnservação de edifícios, sítios e unidades de
vizinhança do MOvimento MOderno (Docomomo) (na sua formação internacional e
nos seus núcleos nacionais).
O tema tratado neste texto já foi apresentado com outros enfoques. Ressalta-se
especialmente os artigos de Carvalho (2017, 2018) que dão indicações aprofundadas
sobre os principais atores e pautas das discussões sobre o patrimônio arquitetônico
moderno entre o final do século passado e o princípio do século XX5. Nossa intenção
é realizar uma aproximação histórica e de caráter crítico que possa fomentar esse
debate ainda incipiente - e necessário - no Brasil.
1 Tais teorias são muito difundidas, especialmente a partir dos Programas de Pós-Graduação brasileiros e seus
profissionais articulados. São, por exemplo, os casos do PPGAU-UFBA e do Programa de Pós-Graduação da
FAU-USP. Ambos mantêm contatos intensos com representantes da corrente do Restauro Crítico-Conserva-
tivo, como Giovanni Carbonara e Simona Salvo. A última tem uma produção que se debruça especificamente
sobre o patrimônio arquitetônico moderno, trazendo questionamentos sobre as posturas defendidas pelo
Docomomo e pelo Icomos/ISC20C (Salvo, 2008).
2 Existem outras instituições que atuam no campo do patrimônio arquitetônico do século XX, principalmente
na Europa e nos Estados Unidos. São os casos do Council of Europe, da Association for Preservation Technol-
ogy (APT), do International Union of Architects (UIA), do International Committee for the Conservation of
Industrial Heritage (Ticcih) e do Getty Conservation Institute (GCI).
3 Adota-se neste texto os termos “patrimônio arquitetônico moderno”, ou “arquitetura moderna” entendendo
que esses possuem uma maior amplitude, capaz de abarcar os diferentes termos usados pelas instituições
aqui examinadas. Também estamos conscientes da limitação da nossa análise ao patrimônio arquitetônico,
mesmo sabendo que as diferentes instituições ampliaram o campo para outras dimensões, como nos casos
do patrimônio urbano, industrial etc
4 Carvalho (2018) ressalta em seu texto que a utilização de determinadas expressões em detrimento de outras
não se dá indiscriminadamente, mas demonstra entendimentos diferenciados sobre qual é o patrimônio que
se pretende preservar e como fazê-lo.
5 Entre os autores que abordam o tema, ressaltamos os trabalhos de MARINHO, 2018; MOREIRA, 2011; OKSMAN,
2017; SILVA, 2016; SOARES; TINEM, 2018; ZANCHETTI, 2014.
CADERNOS
38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL
A atuação do Docomomo
Em um contexto de crescente atenção à arquitetura moderna e de tomada de
consciência da degradação de seus exemplares, é estabelecido, em 1988, o Docomomo
– DOcumentação e COnservação de edifícios, sítios e unidades de vizinhança do
MOvimento MOderno – uma organização não-governamental que propõe tratar
especificamente da documentação, conservação e preservação do legado do
Movimento Moderno. É fundado por um grupo de profissionais europeus, liderados
por arquitetos holandeses, Hubert-Jan Henket e Wessel de Jonge, ambos vinculados
à Escola de Arquitetura da Technical University in Eindhoven, na Holanda6, e ocupando,
respectivamente, os cargos de Presidente e Secretário-Geral por 14 anos7. A organização
rapidamente se expande internacionalmente, obtendo suporte da Unesco a partir de
19898.
6 Entre 1988-1996, permanecem vinculados à Technical University in Eindhoven (NL) e, em seguida, transferem-
se à Delft University of Technology (NL), ali permanecendo até 2001.
7 Após a Holanda, a diretoria do Docomomo Internacional passa para a França (2002-2009), com presidente
Maristella Casciato, secretário geral Émilie d’Orgeix; e diretora Anne-Laure Guillet; em seguida, transfere-se
para Barcelona (2010-2014), e Lisboa (2014-2021), com presidência de Ana Tostões e secretários-gerais Ivan
Blasi e Zara Ferreira; este ano, 2022, a diretoria retorna à Holanda, sediada na Delft University of Technology,
tendo como presidente atual Uta Pottgiesser e Secretário geral Wido Quist.
9 Seus objetivos são: “levar o significado da arquitetura do Movimento Moderno a público - às autoridades, aos
profissionais e à comunidade; identificar e promover o registro das obras do Movimento Moderno; promover a
conservação e o reuso dos edifícios e sítios do Movimento Moderno; opor-se à destruição e descaracterização
de obras significativas; fomentar e disseminar o desenvolvimento de técnicas e métodos apropriados para
a conservação e reuso adaptável/adaptativo; atrair financiamento para documentação, conservação e reuso;
explorar e desenvolver novas ideias para um futuro de um ambiente construído sustentável, baseado nas
experiências passadas do Movimento Moderno” (Docomomo Internacional, tradução nossa) Disponível em:
https://Docomomo.com/organization/. Acesso em 10 abr. 2022
CADERNOS
38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL
Assim, para discutir a atuação teórico/prática dessa instituição, parte-se dos discursos
e práticas dos personagens aqui identificados. Nesta escala, nossa hipótese é a
existência de uma aproximação conceitual entre os indivíduos citados, e assim entre
os departamentos nacionais que representam, cujas nuances podem nos indicar uma
abordagem representativa da postura da organização Docomomo como um todo.
Opta-se por abordá-los de forma prioritária devido à dificuldade de acesso a muitos
documentos importantes do Docomomo Internacional.
CADERNOS
38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL
Para Henket (1991, p.53), tais princípios se pautam na sua compreensão de que os
edifícios modernos a serem preservados são aqueles que representam um conceito
claro que ecoa o clima social e cultural de sua época. A partir disso, entende que é a
intenção do arquiteto em relação a função, espaço, tecnologia, economia, produção
etc., que está cristalizada na materialidade da obra e representa um determinado
momento da história, portanto é tal intenção que deve ser mantida para o futuro
(HENKET, 1991, p.53).
CADERNOS
38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL
remoção de todo o material histórico (PRUDON, 2008, p.36). Ainda assim, compreende
que a ênfase no projeto resulta em uma abordagem menos restritiva em relação à
conservação material (PRUDON, 2008, p.26). Para Prudon (2008, p.45), a restauração
dos edifícios modernos deveria refletir seu próprio processo de construção, levando
em consideração o sistema integrado que os caracteriza. Para tanto, é preciso garantir
a ênfase no edifício como um todo, olhando sua performance enquanto sistema e sua
aparência pretendida, e, portanto, seu projeto (PRUDON, 2008, p.45).
Assim, do ponto de vista do Docomomo, nos parece que a leitura dos significados
e o estabelecimento dos princípios de intervenção se concentram no momento
de definição do projeto, no tempo relativo à ação do arquiteto, diminuindo a
importância do tempo da execução, bem como daquele posterior, percorrido até a
contemporaneidade. Diminui-se também a valorização do papel dos diferentes atores
e contextos na realização da obra. Finalmente, não são assumidos como relevantes os
valores intangíveis agregados por diferentes sujeitos no decorrer do tempo.
CADERNOS
38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL
A atuação do Icomos/ISC20C
No decorrer do tempo se conforma um sistema para a proteção do patrimônio
mundial. Esse se dá a partir da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência
e Cultura (Unesco), instituição que abriga o Centro de Patrimônio Mundial, que tem
como uma das suas missões formular a Lista de Patrimônio Mundial (WHL), com
exemplares naturais e culturais. Esses são selecionados a partir da detecção do “valor
universal extraordinário” (OUV), sendo o entendimento sobre tal valor variável. Entre
as instituições que prestam consultoria para a Unesco está o Conselho Internacional
de Monumentos e Sítios (Icomos). Essas instituições também fomentam políticas de
proteção patrimonial e as monitoram (BURKE, 2007)11.
10 Utzon Design Principles, que estabelecia quatro requisitos fundamentais para intervenções bem sucedidas,
baseados na intenção original do arquiteto; e o Venue Improvement Plan, destinado às necessidades imedia-
tas da Opera House de Sydney.
11 A Unesco foi fundada em 1945 e o Icomos em 1964, sendo que o último tem como base doutrinária inicial a
Carta de Veneza. A Unesco formulou a partir de 1978 os critérios para nomeação na World Heritage List (WHL),
fixando o Outstanding Universal Value (OUV). Destaca-se também a existência do World Heritage Committee
on 20th Century Heritage.
12 O foco principal da Unesco e do Icomos é a definição dos significados do patrimônio arquitetônico do século
XX, tendo em vista as nomeações para a WHL. Como secundário aparecem as indicações sobre a conservação
e a intervenção em tal patrimônio. Destacam-se alguns documentos produzidos em reuniões, seminários
e conferências (aqueles consultados em negrito) que sintetizam seus resultados. Phuket (Tailândia, 1994);
Helsinki (Finlândia, 1995); Cidade do México (México, 1996); Sydney (Australia, 2000); Montreal (Canadá, 2000);
Adelaide (Australia, 2001); Paris (França, fev. e out. 2001); Paris (França, 2004); Paris (França, 2011); Florença
(Itália, 2014) – foi ratificado o Documento de Madrid de 2011, formulado pelo ISC20C; Berlim (Alemanha, 2018)
– Icomos Alemanha.
CADERNOS
38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL
Outro aspecto destacado é que o patrimônio do século XX não pode se limitar apenas
a arquitetos excepcionais ou edifícios icônicos, sendo também necessário incorporar
arquitetos menos conhecidos e edifícios mais correntes. Nesse sentido, há um reforço
sobre a importância de se pensar a cultura arquitetônica do século XX como um todo,
tanto aquela mais elitista quanto aquela mais comum, alinhada com a proposta de
reforma social defendida pelo modernismo.
13 ISC20C - seu estatuto foi aprovado em 2005 e revisto em 2008. Xi´an (China, 2005); Quebec (Canadá, 2008);
Sydney (Austrália, 2009); Dublin (Irlanda, 2010); Madrid (Espanha, 2011) – foi formulado o Documento Madrid,
a partir da publicação da International Conference Intervention Approaches for the Conservation of Twenti-
eth-Century Architectural Heritage; Los Angeles (EUA, 2011), parceria com o Getty Conservation Institute; Hel-
sinque (Finlândia, 2012); Chandigarh (Índia, 2013); Tóquio (Japão, 2015); Dudley (Reino Unido, 2016); Florença
(Itália, 2016); Nova Deli (Índia, 2017) - Foram finalizadas as revisões do Documento Madrid – Approaches for
the Conservation of Twentieth-Century Architectural Heritage. A primeira versão foi feita em 2011, a segunda
em 2014; Trento e Bolzano (Itália, 2018); Harazem (Marrocos,2019); Sydney (Austrália, 2020); (Reunião Virtual,
2021); Porto (Portugal, 2022) – previsão da próxima reunião. Atualmente o ISC20C é presidido por Jack Pyburn
(Estados Unidos – 2021-2023) (BURKE, 2021).
CADERNOS
38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL
Não se dá muita importância para a ideia dos arquitetos e suas intenções projetuais,
embora tais questões apareçam em determinadas ocasiões. No Documento Madrid-
Nova Deli (2017) aparece uma indicação de que é necessário considerar certos
princípios específicos, como aqueles arquitetônicos (ICOMOS/ISC20C, 2017, p.6).
CADERNOS
38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL
CADERNOS
38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL
Considerações Finais
Ao analisarmos as ponderações sobre a conservação e intervenção no patrimônio
moderno realizadas pelo Docomomo e pelo Icomos/ISC20C, notamos que existem
pontos dissonantes e consonantes.
Entre os primeiros está a própria natureza do discurso de cada uma das instituições.
Aquele proferido pelo Docomomo se direciona para um público mais específico,
com um tema delimitado, e traz um caráter mais contundente nas suas afirmações.
Aquele pronunciado pelo Icomos/ISC20C responde a públicos e temas mais amplos,
apresentando-se de um modo mais ponderado.
Destacamos também o menor alcance dos termos comumente usados pelo primeiro,
que se limita a tratar da produção arquitetônica do Movimento Moderno, enquanto
o segundo usa constantemente um termo mais abrangente, "patrimônio do século
XX”, incorporando edificações que se utilizam de princípios e soluções diferenciadas.
Quanto ao Docomomo, especialmente nos seus primeiros anos, há um foco nos
edifícios icônicos. Isso se articula diretamente com os princípios de conservação
defendidos pelos autores mencionados, que priorizam a conservação da arquitetura
do Movimento Moderno como uma ideia, um manifesto. No caso do Icomos/ISC20C,
mencionam-se os edifícios icônicos, mas também a necessidade de incluir aqueles
CADERNOS
38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL
mais correntes, fato que também se relaciona com os princípios defendidos pela
instituição, que pretende conservar tais edifícios a partir de uma compreensão
mais ampla dos seus significados, articulando-os com os contextos nos quais foram
produzidos e utilizados.
CADERNOS
38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL
As críticas proferidas por Salvo estão relacionadas com os preceitos difundidos pelo
Restauro Crítico-conservativo e pelo seu teórico atual mais conhecido, o italiano
Giovanni Carbonara. Entende-se que a crítica que se faz ao DOCOMOMO e ao ICOMOS/
ISC20C está bastante relacionada com o conceito de autenticidade formulado
pelo Restauro Crítico-conservativo. Para essa corrente, a autenticidade encontra-
se diretamente no objeto do restauro. Assim, acredita-se que é necessário que a
consistência material de tais objetos seja transmitida do modo mais intacto possível,
mas sempre considerando que essa é portadora de uma imagem característica, que
deve ser mantida do modo mais íntegro possível. Assim, o restauro (inclusive do
patrimônio moderno) tem que se dar a partir de um reconhecimento dos significados
existentes no próprio objeto, não a partir da formulação de uma imagem ideal ou da
incorporação de significados intangíveis alheios a ele, difundidos pelas instituições
examinadas neste artigo14.
14 Além do Restauro Crítico-conservativo, existem outras importantes correntes italianas que, nas suas dis-
cussões teóricas, tratam indiretamente do restauro da arquitetura moderna. Entre essas, destaca-se aquela
da Pura Conservação, difundidas por Marco Dezzi Bardeschi e Amedeo Bellini e a da Manutenção-Repristina-
ção, propagada por Paolo Marconi.
15 Interpretação feita a partir da leitura dos anais de congressos e publicações vinculadas às instituições, espe-
cialmente os seminários do Docomomo Brasil e simpósios do ICOMOS Brasil.
CADERNOS
38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL
Referências
ALLAN, John. Conservation of Modern Buildings in England. ICOMOS – Cadernos do
XXIV Comitê Nacional Alemão (Hefte des Deutschen Nationalkomitees), Munique: v.
24, p. 94-101, 1998. Disponível em: <https://www.icomos.de/admin/ckeditor/plugins/
alphamanager/uploads/pdf/HefteXXIV.pdf>. Acesso em 18 fev. 2022.
BUMBARU, Dinu. Montreal Action Plan. Quebec, set. 2001. p.1-2. Disponível em:
<https://www.icomos.org/20th_heritage/20th_c_survey.htm>. Acesso em 10 abr. 2022.
CADERNOS
38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL
HENKET, Hubert-Jan. 20th Century architecture requires a new conservation policy and
approach. In: Henket, H. A. J., & de Jonge, W. (Org.). DOCOMOMO: First international
conference, September 12-15, 1990. Eindhoven: DOCOMOMO International, 1991,
pp.51-54.
HENKET, Hubert-Jan. Has the Modern Movement any Meaning for Tomorrow?.
ICOMOS – Cadernos do XXIV Comitê Nacional Alemão (Hefte des Deutschen
Nationalkomitees), Munique: v. 24, p. 22-25, 1998. Disponível em: <https://www.
icomos.de/admin/ckeditor/plugins/alphamanager/uploads/pdf/HefteXXIV.pdf>.
Acesso em 18 fev. 2022.
HENKET, Hubert-Jan. Back from Utopia: the Challenge of the Modern Movement. In:
ANDRIEUX, Jean-Yves. CHEVALLIER, Fabienne (Org.). The Reception of Architecture of
the Modern Movement: Image, Usage, Heritage. Seventh International Docomomo
Conference. Saint-Étienne: Université de Saint-Etienne, 2005, pp.69-72.
HENKET, Hubert-Jan. When the Oppressive New and the vulnerable Old Mett; a Plea
for Sustainable Modernity. Docomomo Journal. Lisboa: Docomomo International,
n.52, pp.14-19, 2015/1.
ICOMOS. Moderne neu denken. Architektur und Stadtebau des 20. Jahrhunderts.
Rethinking Modernity. Architecture and urban planning of the 20th Century. Berlim,
ICOMOS, 2019. Disponível em: <https://www.icomos.de/icomos/pdf/icomosmoderne-
neu-denken_web_5nov2019.pdf>. Acesso em 10 abr. 2022.
_______. Seminar on 20th Century Heritage. Helsinki, ICOMOS, 18-19 jun. 1995.
Disponível em: <https://www.icomos.org/20th_heritage/helsinki_1995.htm>. Acesso
em 10 abr. 2022.
_______. Seminar on 20th Century Heritage. Cidade do México, ICOMOS, 10-13 jun.
1996. Disponível em: <https://www.icomos.org/20th_heritage/mexico_1996.htm>
Acesso em 10 abr. 2022.
_______. The Dublin Principles. Paris, ICOMOS, 2011. Disponível em: <https://
www.icomos.org/Paris2011/GA2011_ICOMOS_TICCIH_joint_principles_EN_FR_
final_20120110.pdf>. Acesso em 10 abr. 2022.
_______. The world heritage list: filling the gaps – an action plan for the future. An
analysis by ICOMOS. Paris, ICOMOS, fev. 2004. Disponível em: <http://www.icomos-
isc20c.org/pdf/ISC20CHelsinkiMM2012.pdf>. Acesso em 10 abr. 2022.
_____________. AGM Trento – minutes. Trento, ICOMOS ISC 20C, 2 set. 2018. Disponível
em: <http://www.icomos-isc20c.org/wp-content>. Acesso em 10 abr. 2022.
_____________. Annual Meeting. Draft minutes. Chandigarh, ICOMOS ISC 20C, 1 out.
2013. Disponível em: <http://www.icomosisc20c.org/pdf/isc20cmeetingminuteschand
igarh_2013knsbgettydraft3.pdf>. Acesso em 10 abr. 2022.
CADERNOS
38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL
____________. Annual meeting. Florença, ICOMOS ISC 20C, 10 a 13 mar. 2016. Disponível
em: <http://www.icomos-isc20c.org/conference/>. Acesso em 10 abr. 2022.
___________. Committee Meeting. Final Minutes. Sydney, ICOMOS ISC20C, 7 jul. 2009.
Disponível em: <http://www.icomos-isc20c.org/pdf/meetingminutes.pdf>. Acesso em
10 abr. 2022.
_________. Twentieth Century Heritage. Revised Satutes. Quebec, out. 2008. Disponível
em: <http://www.icomos-isc20c.org/pdf/ISC20CStatutesOct2008-Final.pdf> Acesso
em 10 abr. 2022.
CADERNOS
38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL
_______. Convention Concerning the protection of the world heritage of the world
cultural and natural heritage. Phuket, Tailândia, 12-17 dez. 1994. pp.1-8. Disponível
em: <https://whc.unesco.org/archive/1994/whc-94-conf003-inf12e.pdf>. Acesso em 10
abr. 2022.
USOKOVICH, Sandra. ICOMOS action plan on the 20th Century heritage / Survey.
Strategies for the World´s Cultural Heritage. Preservation in a globalised world:
principles, practicies and perspectives. Madrid, 13th ICOMOS General Assembly
CADERNOS
38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL
and Scientific Symposium. Actas. Comité Nacional Español del ICOMOS. pp.345-348.
Disponível em: <https://openarchive.icomos.org/id/eprint/617/> Acesso em 10 abr.
2022
Submetido em 27/04/2022
Aprovado em 14/07/2022
CADERNOS
38
CADERNOS
38
A valorização de uma arquitetura em madeira representativa do período inicial da construção de Brasília: entre “barraco” e patrimônio cultural
59 The valuation of a wooden architecture representative of the early period of the construction of Brasilia: between "shack" and cultural heritage
La valoración de una arquitectura en madera representativa del período inicial de la construcción de Brasilia: entre "chabola" y patrimonio cultural
CADERNOS
38
DANIELA PEREIRA BARBOSA E MARIA FERNANDA DERNTL
A valorização de uma arquitetura em madeira representativa do período inicial da construção de Brasília: entre “barraco” e patrimônio cultural
60 The valuation of a wooden architecture representative of the early period of the construction of Brasilia: between "shack" and cultural heritage
La valoración de una arquitectura en madera representativa del período inicial de la construcción de Brasilia: entre "chabola" y patrimonio cultural
Resumo
Este artigo analisa o processo de formulação do que veio a ser considerada uma arquitetura
representativa do período inicial da construção de Brasília, composta por construções de
madeira erguidas em fins da década de 1950, incorporando preceitos do modernismo.
A análise considera esse processo no campo patrimonial, a partir do discurso expresso
em dossiês de tombamento, nossa fonte primária de análise. Trata-se dos seguintes
bens tombados: Catetinho, Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira, Igreja São Geraldo,
Centro de Ensino Metropolitana e Igreja São José Operário. O método consistiu em análise
documental, coletando-se nos dossiês informações alusivas à importância arquitetônica
dos bens, cotejando-se o resultado com a bibliografia. Os primeiros tombamentos
ocorreram a despeito da identificação de um dos bens como “barraco”. Em seguida, a
incipiente valorização dessa arquitetura nos anos 1970-1980 conviveu com ameaças de
demolição de edificações. A valorização desses edifícios enquanto patrimônio, por fim, se
deu como arquitetura representativa do período inicial da construção de Brasília, associada
a noções de pioneirismo e de expectativa quanto ao futuro da nova capital.
Abstract
This article analyzes the process of formulating what came to be considered architecture rep-
resentative of the initial period of construction of Brasília, composed of wooden buildings built
in the late 1950s, which incorporated precepts of the modern movement. This analysis looks
at this process in the field of heritage, based on the discourse expressed in dossiers for pres-
ervation, which were our primary source of analysis. Listed properties analyzed here were:
Catetinho Palace, Juscelino Kubitschek de Oliveira Hospital, São Geraldo Church, Educational
Centre Metropolitana and São José Operário Church. The method based on document analysis,
by drawing on dossiers information alluding to the architectural importance of those build-
ings and comparing the results with what is stated in bibliography. The first preservation
acts occurred despite identification of the building as a “shack”. Later, incipient appreciation
of that architecture in the 1970s-1980s coexisted with threats of demolition of buildings. The
appreciation of these buildings as heritage, finally, took place through recognition of them as
representative architecture of the initial period of the construction of Brasília, associated with
notions of pioneering spirit and hope regarding the future of the new capital.
Resumen
Este artículo analiza el proceso de formulación de lo que llegó a ser considerado una arquitec-
tura representativa del período inicial de la construcción de Brasilia, compuesta por construc-
ciones de madera erigidas a fines de la década de 1950, incorporando preceptos del modernis-
mo. El análisis considera este proceso desde una perspectiva patrimonial, a partir del discurso
expresado en los expedientes de registro, nuestra principal fuente de análisis. A continuación,
listamos las construcciones catalogadas: Catetinho, Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira,
Igreja São Geraldo, Centro de Ensino Metropolitana y Igreja São José Operário. El método
consistió en el análisis documental, recogiéndose en los expedientes información alusiva a la
importancia arquitectónica de las construcciones, cotejándose el resultado con la bibliografía.
El primer registro se produjo a pesar de su identificación como “chabola”. Luego, la incipiente
apreciación de esta arquitectura en los años 1970-1980 coexistió con amenazas de demolición
de edificios. La valoración de estos edificios como patrimonio, finalmente, tuvo lugar como ar-
quitectura representativa del período inicial de la construcción de Brasilia, asociada a nociones
de espíritu pionero y expectativa sobre el futuro de la nueva capital.
CADERNOS
38
DANIELA PEREIRA BARBOSA E MARIA FERNANDA DERNTL
A valorização de uma arquitetura em madeira representativa do período inicial da construção de Brasília: entre “barraco” e patrimônio cultural
61 The valuation of a wooden architecture representative of the early period of the construction of Brasilia: between "shack" and cultural heritage
La valoración de una arquitectura en madera representativa del período inicial de la construcción de Brasilia: entre "chabola" y patrimonio cultural
Introdução
Brasília, cidade moderna construída para ser a nova capital do Brasil e inaugurada em
1960, teve seu núcleo inicial, o Plano Piloto, reconhecido como Patrimônio Mundial
pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO)
em 1987. A cidade possui edifícios emblemáticos que sustentam sua imagem
moderna e monumental, muitos projetados por Oscar Niemeyer. O patrimônio
cultural de Brasília, contudo, não se limita ao Plano Piloto, pois contempla bens
localizados para além daquele núcleo central, como construções centenárias erguidas
no que antes era o estado de Goiás, edificações em madeira que remetem ao período
inicial da construção de Brasília e equipamentos para fornecimento de serviços a
núcleos satélites. Esse patrimônio, referente a épocas e estilos variados, amplia as
possibilidades de leitura da imagem patrimonial da capital do país.
FIGURA 1 – Patrimônio em
madeira de Brasília. A construção de Brasília, iniciada em 1956, acarretou mudanças profundas no
Fonte: Autores, 2020 território do recém-criado Distrito Federal, área até então pertencente a Goiás. A
Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap), empresa pública responsável
por gerenciar as obras, implementou uma série de pontos de apoio ao redor do imenso
canteiro de obras para a edificação de Brasília.
CADERNOS
38
DANIELA PEREIRA BARBOSA E MARIA FERNANDA DERNTL
A valorização de uma arquitetura em madeira representativa do período inicial da construção de Brasília: entre “barraco” e patrimônio cultural
62 The valuation of a wooden architecture representative of the early period of the construction of Brasilia: between "shack" and cultural heritage
La valoración de una arquitectura en madera representativa del período inicial de la construcción de Brasilia: entre "chabola" y patrimonio cultural
CADERNOS
38
DANIELA PEREIRA BARBOSA E MARIA FERNANDA DERNTL
A valorização de uma arquitetura em madeira representativa do período inicial da construção de Brasília: entre “barraco” e patrimônio cultural
63 The valuation of a wooden architecture representative of the early period of the construction of Brasilia: between "shack" and cultural heritage
La valoración de una arquitectura en madera representativa del período inicial de la construcción de Brasilia: entre "chabola" y patrimonio cultural
Contudo, ainda em 1959, quando o Catetinho foi tombado por solicitação presidencial,
a relação da edificação com o modernismo não era tão evidente. Além disso não se
parece haver, no discurso patrimonial daquele período, consenso quanto à necessidade
de preservação cultural de uma arquitetura representativa dos primórdios da
construção de Brasília.
O tombamento do Catetinho
No dossiê de tombamento do Catetinho, de 1959, a valorização da edificação está
relacionada com seu simbolismo em razão de sua precedência em Brasília. Conforme
ofício enviado pelo Iphan – à época, DPHAN – à Novacap, o tombamento do Catetinho
justificava-se por “ter sido não só a primeira construção erigida na área da Nova
Capital, mas também a primeira sede da administração pública no local” (DISTRITO
FEDERAL, 1991, s.p.). A arquitetura da edificação, contudo, é tida como frágil pelo seu
caráter inicialmente provisório, pois
CADERNOS
38
DANIELA PEREIRA BARBOSA E MARIA FERNANDA DERNTL
A valorização de uma arquitetura em madeira representativa do período inicial da construção de Brasília: entre “barraco” e patrimônio cultural
64 The valuation of a wooden architecture representative of the early period of the construction of Brasilia: between "shack" and cultural heritage
La valoración de una arquitectura en madera representativa del período inicial de la construcción de Brasilia: entre "chabola" y patrimonio cultural
[u]ma vez que a construção foi feita com materiais ligeiros por se destinar a simples
“barracão”, recomenda-se à DPHAN providenciar desde logo o estudo dos meios
adequados à sua proteção, considerando-se que seria inadmissível reconstruir a
edificação periodicamente. (DISTRITO FEDERAL, 1991, s.p.)
O trecho reforça que não havia a intenção inicial de manter a edificação, que, por isso,
ela tinha sido projetada com materiais não duráveis. Além disso, não há a identificação
do Catetinho como um importante exemplar do Movimento Moderno, mas, sim, como
um “simples barracão”.
o objetivo mais amplo da medida adotada é garantir e cultivar, por meio da proteção
dos marcos expressivos do desenvolvimento da civilização nacional, a memória
luminosa da identidade do Brasil do futuro com o do passado, estabelecendo a ligação
entre as aspirações gloriosas alcançadas e as realizações toscas e modestas de que se
originaram. (DISTRITO FEDERAL, 1991, s.p.)
Para o DPHAN, o Catetinho seria um elo simbólico entre o passado e o futuro da nação,
e sua arquitetura é um ponto importante nesse discurso, pois assinala-se ser possível
construir um futuro desenvolvido a partir de bases modestas. O valor patrimonial
da edificação estaria então muito mais associado à simbologia de esperança de uma
nova era do que a uma arquitetura excepcional.
Ademais, ainda que o Catetinho tenha sido projetado por Oscar Niemeyer, o dossiê
não menciona a autoria do projeto. O mesmo texto do pronunciamento cita Niemeyer
para destacar que couberam ao arquiteto “os monumentos principais de Brasília”,
não havendo alusão à excepcionalidade do projeto arquitetônico do Catetinho. Assim,
em que pesem as características arquitetônicas do Catetinho terem um sentido
menor no momento do tombamento, elas adquiriram importância posteriormente,
na bibliografia.
O Catetinho foi reconhecido como patrimônio nacional em 1959, com Brasília ainda
em construção, e a manutenção da edificação inicialmente provisória trazia desafios
do ponto de vista da conservação. Contudo, isso não inaugurou o debate sobre a
manutenção permanente da arquitetura em madeira no Brasil. Oscar Ferreira (2019)
chama a atenção para projetos que antecederam a construção da capital, como o
Park Hotel São Clemente em Nova Friburgo, projetado por Lucio Costa e inaugurado
em 1944. Para Ferreira (2019), foi a partir desse projeto que Costa lançou as bases
para a arquitetura moderna em madeira no Brasil, e o autor, inclusive, reconhece no
Catetinho uma composição semelhante.
CADERNOS
38
DANIELA PEREIRA BARBOSA E MARIA FERNANDA DERNTL
A valorização de uma arquitetura em madeira representativa do período inicial da construção de Brasília: entre “barraco” e patrimônio cultural
65 The valuation of a wooden architecture representative of the early period of the construction of Brasilia: between "shack" and cultural heritage
La valoración de una arquitectura en madera representativa del período inicial de la construcción de Brasilia: entre "chabola" y patrimonio cultural
O fato de o Catetinho ser de madeira não representava, por si só, uma inovação na
problemática da conservação do material, pois o projeto citado por Ferreira (2019)
havia sido um precedente importante. No entanto, como vimos, não se identificava no
Catetinho um exemplar de uma arquitetura representativa da construção de Brasília,
mas, sim, um prelúdio da monumentalidade da nova capital.
Viviane Ceballos (2005, p. 91) reforça que as investidas oficiais para erradicação de
acampamentos de obras estavam consubstanciadas pela necessidade de fazer do
Plano Piloto de Brasília “um espaço livre dos vícios, livre das invasões e de todos
os símbolos que pudessem representar o subdesenvolvimento e os problemas que
caracterizavam as grandes cidades brasileiras”. Na esteira desse debate, Edson Beú
(2013, p. 15) assinala que, “logo após a inauguração, os governos locais começaram a
colocar em prática a política de extinguir os antigos acampamentos de operários, uma
ameaça que se fazia latente desde a pós-inauguração”. Embora as investidas contra
esses locais tenham logrado êxito em diminuir consideravelmente seu território e
controlar parte das ocupações, a falta de fiscalização e de uma política habitacional
eficiente fez com que muitos deles resistissem ao desmonte (EPSTEIN, 1973). Por
fim, o processo de fixação desses núcleos, conforme José Nunes (2005, p. 155), foi
resultado de “lutas cotidianas [dos moradores] pela conquista de espaços na cidade”.
A discussão dos autores sobre a fixação desses núcleos ressalta principalmente as
tensões envolvendo governantes e moradores e aponta para um processo marcado
pela luta e resistência da população.
CADERNOS
38
DANIELA PEREIRA BARBOSA E MARIA FERNANDA DERNTL
A valorização de uma arquitetura em madeira representativa do período inicial da construção de Brasília: entre “barraco” e patrimônio cultural
66 The valuation of a wooden architecture representative of the early period of the construction of Brasilia: between "shack" and cultural heritage
La valoración de una arquitectura en madera representativa del período inicial de la construcción de Brasilia: entre "chabola" y patrimonio cultural
A proposta de Mello fazia coro com outras iniciativas do período. Aloísio Magalhães,
que viria a ser presidente do Iphan em 1979 idealizou, naquele mesmo ano e ainda
no Centro Nacional de Referência Cultural (CNRC), o projeto Estudo da Construção
de Brasília. Conforme análise de Thiago Perpétuo (2015), a proposta consistia em
levantamento e documentação referente ao período inicial da construção da cidade,
considerando o que estava sendo entendido como modo específico de vida dos
candangos da Cidade Livre, atual Núcleo Bandeirante, e dos canteiros de obra,
propondo-os como primeiros elementos socioculturais marcantes da identidade local.
(PERPÉTUO, 2015, p. 156)
Além das iniciativas de Mello e de Magalhães, outro estudo análogo estava em curso
na Universidade de Brasília no final dos anos 1970, o de Muhdi Koosah, professor
serra-leonês da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. A sua pesquisa, intitulada
Proposta para uma documentação (historiográfica) dos assentamentos humanos construídos
precários e/ou deteriorados do DF, tinha como intuito abordar anteriores acampamentos
de obras já em uma perspectiva de preservação. (SILVA, 2019)
Essas inciativas, concentradas no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, demonstram
o despontar de um interesse por exemplares arquitetônicos e elementos sociais do
período inicial da construção de Brasília. A preocupação em documentar a história de
Brasília, contudo, não se resumiu às construções em madeira, pois conforme Perpétuo
(2015), houve estudos com enfoque nos problemas de uma incipiente metrópole e pela
preservação de Brasília, em especial do Plano Piloto. O autor destaca como principais
eventos o I Seminário de Estudos dos Problemas Urbanos de Brasília, realizado em 1973,
com participação de Lúcio Costa, e o Simpósio Brasília: concepção, realidade e destino,
realizado em 1985 já com a perspectiva de patrimonialização da cidade (PERPÉTUO,
2015). Mas, além disso, a valorização de outras referências culturais e históricas se
destacaram no período. A Secretaria de Cultura do Distrito Federal, em 1982, realizou
o tombamento de três construções centenárias em Planaltina, cidade originariamente
goiana, o Museu Histórico e Artístico, a Igreja São Sebastião e a Pedra Fundamental.
Antes disso, ainda em 1981, um estudo sobre o patrimônio de Brasília foi estruturado
de modo mais efetivo pelo Grupo de Trabalho para Preservação do Patrimônio Histórico
e Cultural de Brasília, o GT-Brasília, criado com o propósito de definir critérios de
preservação a serem adotados na capital (DISTRITO FEDERAL, 1981). O GT-Brasília
é discutido por Ribeiro (2005), Perpétuo (2015) e Silva (2019) como responsável por
inovações na proposta da preservação da cidade, embora a legislação de proteção
depois sancionada não tenha seguido de todo seus estudos. Essa legislação baseou-
CADERNOS
38
DANIELA PEREIRA BARBOSA E MARIA FERNANDA DERNTL
A valorização de uma arquitetura em madeira representativa do período inicial da construção de Brasília: entre “barraco” e patrimônio cultural
67 The valuation of a wooden architecture representative of the early period of the construction of Brasilia: between "shack" and cultural heritage
La valoración de una arquitectura en madera representativa del período inicial de la construcción de Brasilia: entre "chabola" y patrimonio cultural
CADERNOS
38
DANIELA PEREIRA BARBOSA E MARIA FERNANDA DERNTL
A valorização de uma arquitetura em madeira representativa do período inicial da construção de Brasília: entre “barraco” e patrimônio cultural
68 The valuation of a wooden architecture representative of the early period of the construction of Brasilia: between "shack" and cultural heritage
La valoración de una arquitectura en madera representativa del período inicial de la construcción de Brasilia: entre "chabola" y patrimonio cultural
CADERNOS
38
DANIELA PEREIRA BARBOSA E MARIA FERNANDA DERNTL
A valorização de uma arquitetura em madeira representativa do período inicial da construção de Brasília: entre “barraco” e patrimônio cultural
69 The valuation of a wooden architecture representative of the early period of the construction of Brasilia: between "shack" and cultural heritage
La valoración de una arquitectura en madera representativa del período inicial de la construcción de Brasilia: entre "chabola" y patrimonio cultural
Para Molinas, o fato de o HJKO ter sido o primeiro hospital de Brasília não deveria ser
considerado importante, pois a cidade toda, um dia, havia sido um grande canteiro de
obras, e, nessa ótica, o local seria apenas um “barraco” semelhante a outros.
CADERNOS
38
DANIELA PEREIRA BARBOSA E MARIA FERNANDA DERNTL
A valorização de uma arquitetura em madeira representativa do período inicial da construção de Brasília: entre “barraco” e patrimônio cultural
70 The valuation of a wooden architecture representative of the early period of the construction of Brasilia: between "shack" and cultural heritage
La valoración de una arquitectura en madera representativa del período inicial de la construcción de Brasilia: entre "chabola" y patrimonio cultural
A campanha pelo tombamento deu visibilidade à luta por moradia dos habitantes
e pode ser vista como eficaz, pois eles foram assentados na recém regularizada
Candangolândia, em 1984. Como já se disse, ao tombamento, em 1985, seguiu-se a
recuperação do Hospital e transformação no Museu Vivo da Memória Candanga, em
1990. Contudo, conforme a Ação Popular que deu início ao processo, pelo menos parte
da comunidade ansiava pela transformação do local em um posto de saúde, pois
o hospital “poderá e haverá de ser restaurado, e instalado um Posto de Saúde para
atender a comunidade das imediações” (DISTRITO FEDERAL, 1985, s. p.). A defesa da
instalação de um posto de saúde indica o anseio da comunidade pela implementação
de serviços públicos e gratuitos nos arredores.
A criação do museu fez, porém, parte de aspirações no período, para que a memória
da construção de Brasília viesse fomentar o turismo no Distrito Federal. Como vimos,
iniciativas com relação à transformação de exemplares da construção da capital em
pontos turísticos remontam, pelo menos aos anos 1970. O próprio Catetinho de certo
modo exemplifica isso, pois foi tombado em 1959 e, em 1972, tornou-se o Museu do
Catetinho.
CADERNOS
38
DANIELA PEREIRA BARBOSA E MARIA FERNANDA DERNTL
A valorização de uma arquitetura em madeira representativa do período inicial da construção de Brasília: entre “barraco” e patrimônio cultural
71 The valuation of a wooden architecture representative of the early period of the construction of Brasilia: between "shack" and cultural heritage
La valoración de una arquitectura en madera representativa del período inicial de la construcción de Brasilia: entre "chabola" y patrimonio cultural
O discurso dessa reportagem nos remete ao trabalho de Derntl (2019), que considerou
os relatos de moradores sobre a formação de Regiões Administrativas de Brasília.
A autora aponta que, em diversas ocasiões, “o atributo de pioneirismo serviu para
reforçar a necessidade de prover o lugar de equipamentos urbanos ou reclamar maior
atenção política” (DERNTL, 2019, p. 28). Verifica-se ser justamente o caso da campanha
pela reforma do Centro de Ensino, o que reforça a ideia de que a noção do pioneirismo
foi um importante valor simbólico para justificar uma efetiva prestação de serviços
educacionais.
CADERNOS
38
DANIELA PEREIRA BARBOSA E MARIA FERNANDA DERNTL
A valorização de uma arquitetura em madeira representativa do período inicial da construção de Brasília: entre “barraco” e patrimônio cultural
72 The valuation of a wooden architecture representative of the early period of the construction of Brasilia: between "shack" and cultural heritage
La valoración de una arquitectura en madera representativa del período inicial de la construcción de Brasilia: entre "chabola" y patrimonio cultural
A história atribuída a elas está em sintonia com uma imagem heroica da construção
de Brasília difundida em discursos políticos veiculados em fins dos anos 1950, em que
operários e denominados pioneiros teriam vindo para o Planalto Central motivados
pelo sonho da transferência da capital. Luísa Videsott (2009) aponta como o discurso
midiático oficial da época foi eficiente ao associar a Brasília imagens positivas como
progresso e desenvolvimento do país nas quais os operários eram retratados como
heróis anônimos e parceiros do então presidente.
Outro ponto a considerar é que o discurso dos dossiês traz à tona tanto o processo
de erradicação de acampamentos de obras quanto a luta da população pela fixação,
embora de modo sutil. No dossiê de tombamento da Igreja São Geraldo do Paranoá,
o relato sobre a trajetória de formação da Vila do Paranoá sugere uma ambivalência
entre pioneirismo e invasão com relação ao espaço. O documento Histórico descreve
o núcleo ora como acampamento pioneiro, ora como invasão, a depender do período
ao qual se refere:
O trecho citado indica que, com o tempo, o Paranoá teria se tornado uma invasão,
referindo-se à expansão do espaço e à chegada de novos moradores. Em seguida, o
mesmo documento assinala que a Igreja São Geraldo “é reconhecidamente um marco
histórico para a memória daquele núcleo pioneiro” (DISTRITO FEDERAL, 1993, s. p.),
em um processo que buscaria associar o bem ao caráter pioneiro do local.
Considerações Finais
Este artigo buscou analisar e discutir a formulação de imagens patrimoniais relativas
a uma arquitetura representativa da construção inicial de Brasília em dossiês
pertinentes ao seu tombamento.
CADERNOS
38
DANIELA PEREIRA BARBOSA E MARIA FERNANDA DERNTL
A valorização de uma arquitetura em madeira representativa do período inicial da construção de Brasília: entre “barraco” e patrimônio cultural
73 The valuation of a wooden architecture representative of the early period of the construction of Brasilia: between "shack" and cultural heritage
La valoración de una arquitectura en madera representativa del período inicial de la construcción de Brasilia: entre "chabola" y patrimonio cultural
Em seguida, os tombamentos nos anos 1990 foram realizados em locais que já haviam
sido regularizados e o discurso de proteção desses bens buscou aliar representatividade
histórica e memória pioneira. A imagem do pioneiro e o seu modo de vida deram força
simbólica a movimentos de preservação, reforçando a importância daqueles núcleos
e de exemplares arquitetônicos originais. Nesse momento, já havia sido estabelecida
uma noção de importância atrelada à representatividade de uma arquitetura relativa
à construção de Brasília, de madeira e de inspiração moderna. Contudo, ainda que
o Catetinho seja fortemente associado ao Movimento Moderno na bibliografia, é
nos respectivos dossiês dos demais bens tombados que tal informação se destacou.
Evidenciou-se como a importância histórica dessa arquitetura passou a embasar
tombamentos, sem deixar de destacar o pioneirismo dos espaços e as conquistas da
população. A arquitetura representativa do período inicial de construção de Brasília,
para além de sua materialidade e seus aspectos construtivos, está associada ao
universo simbólico de esperança e pioneirismo que singularizou a nova capital.
Referências
ARAÚJO, Carlos. E a memória de Brasília? Monumentos históricos jazem sob o efeito
implacável do tempo. Correio Braziliense. Brasília, edição 6.246, Caderno Fim de
semana, p. 3, 16 mar. 1980.
BEÚ, Edson. Os filhos dos candangos: Brasília sob o olhar da periferia. Brasília:
Editora Universidade de Brasília, 2013.
CADERNOS
38
DANIELA PEREIRA BARBOSA E MARIA FERNANDA DERNTL
A valorização de uma arquitetura em madeira representativa do período inicial da construção de Brasília: entre “barraco” e patrimônio cultural
74 The valuation of a wooden architecture representative of the early period of the construction of Brasilia: between "shack" and cultural heritage
La valoración de una arquitectura en madera representativa del período inicial de la construcción de Brasilia: entre "chabola" y patrimonio cultural
EPSTEIN, David. Brasília: plan and reality. A study of planned and spontaneous
urban development. Los Angeles: University of California Press, 1973.
FERREIRA, Oscar Luís. A Madeira no Patrimônio Moderno: O caso de Brasília. In: 13º
Seminário Docomomo Brasil Arquitetura Moderna Brasileira. Anais do 13º Seminário
Docomomo Brasil: Arquitetura Moderna Brasileira. 25 anos do Docomomo Brasil.
Todos os mundos. Um só mundo. Salvador/BA: Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB),
2019. v. 1.
CADERNOS
38
DANIELA PEREIRA BARBOSA E MARIA FERNANDA DERNTL
A valorização de uma arquitetura em madeira representativa do período inicial da construção de Brasília: entre “barraco” e patrimônio cultural
75 The valuation of a wooden architecture representative of the early period of the construction of Brasilia: between "shack" and cultural heritage
La valoración de una arquitectura en madera representativa del período inicial de la construcción de Brasilia: entre "chabola" y patrimonio cultural
Submetido em 27/04/2022
Aprovado em 02/07/2022
CADERNOS
38
CADERNOS
38
CADERNOS
38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES
CADERNOS
38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES
Resumo
O objetivo do presente artigo é investigar a produção de hotéis projetados por Paulo
Casé ao longo da década de 1970, enfatizando o valor cultural desses edifícios em um
panorama de modernização suscitado pelas políticas públicas de turismo, bem como
compreender como a atuação do arquiteto revela transformações no contexto da
arquitetura moderna no Brasil. Os pressupostos teóricos compreendem: o debate sobre o
discurso desenvolvimentista pelo viés do turismo, identificando as condicionantes sociais
(econômicas, políticas e simbólicas) e enfatizando as políticas públicas de incentivo ao
turismo e à hotelaria com o advento da Embratur a partir de 1966 e à expansão das redes
hoteleiras nacionais e internacionais, além da consideração dos agentes, inclusive o papel
do próprio arquiteto; a discussão sobre as mutações no desenvolvimento da arquitetura
moderna brasileira, enfocando a atitude crítica (trans)moderna de Casé. Os procedimentos
metodológicos se alicerçam em levantamento historiográfico, consulta a jornais e fontes
primárias do acervo do arquiteto, analisando os hotéis em geral e enfatizando o caso do
Bahia Othon Palace Hotel (1973), em Salvador, Bahia. O trabalho almeja contribuir para
o resgate da produção dos hotéis mais emblemáticos de Paulo Casé, realçando ainda a
condição atual desse acervo face às dinâmicas urbanas e turísticas na atualidade quando se
verifica um processo de desvalorização, degradação e, inclusive, demolição de exemplares
significativos. Por fim, os resultados constituem subsídios para produção de conhecimento
sobre a relação entre turismo, arquitetura moderna e meios de hospedagem, numa
perspectiva em que a documentação é premissa fundamental para conservação desses
hotéis de inegável valor cultural para a memória da atividade turística, da arquitetura e
do arquiteto.
Abstract
The objective of this paper is to investigate the production of hotels designed by Paulo Casé
throughout the 1970s, emphasizing the cultural value of these buildings in a panorama of
modernization raised by tourism public policies, as well as to understand how the architect's
performance reveals transformations in the context of modern architecture in Brazil. The theo-
retical assumptions include: the debate about the development discourse through tourism,
identifying the social conditions (economic, political and symbolic), emphasizing the public
policies to encourage tourism and hospitality with the advent of Embratur from 1966 and the
expansion of national and international hotel chains, as well as the consideration of agents,
including the role of the architect Casé; the discussion about the mutations in the development
of Brazilian modern architecture, focusing on the critical (trans)modern attitude of Casé. The
methodological procedures are based on a historiographical survey, newspapers and primary
sources from the architect's collection, analyzing hotels in general and emphasizing the case
of the Bahia Othon Palace Hotel (1973), in Salvador, Bahia. The work aims to contribute to the
rescue of the production of Paulo Casé's most emblematic hotels, highlighting also the current
condition of this collection in face of the urban and tourist dynamics nowadays, where there
is a process of devaluation, degradation, and even demolition of significant examples. Finally,
the results are subsidies for the production of knowledge about the relationship between tour-
ism, modern architecture and lodging facilities, in a perspective in which documentation is a
fundamental premise for the conservation of these hotels of cultural value for the memory of
tourism, architecture and the architect himself.
CADERNOS
38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES
Resumen
El objetivo de este artículo es investigar la producción de los hoteles diseñados por Paulo Casé
a lo largo de la década de 1970, destacando el valor cultural de estos edificios en un panorama
de modernización planteado por las políticas públicas de turismo, así como comprender cómo
la actuación del arquitecto revela las transformaciones en el contexto de la arquitectura mod-
erna en Brasil. Los supuestos teóricos incluyen: el debate sobre el discurso del desarrollo a
través del turismo, identificando las condiciones sociales (económicas, políticas y simbólicas),
haciendo hincapié en las políticas públicas de fomento del turismo y la hostelería con la lle-
gada de Embratur a partir de 1966 y la expansión de las cadenas hoteleras nacionales e inter-
nacionales, y la consideración de los agentes, incluyendo el papel del arquitecto; la discusión
sobre las mutaciones en el desarrollo de la arquitectura moderna brasileña, centrándose en la
actitud crítica de Casé (trans)moderna. Los procedimientos metodológicos se basan en un es-
tudio historiográfico, periódicos y fuentes primarias de la colección del arquitecto, analizando
los hoteles en general y haciendo hincapié en el caso del Hotel Bahia Othon Palace (1973), en
Salvador, Bahía. El trabajo pretende contribuir al rescate de la producción de los hoteles más
emblemáticos de Paulo Casé, destacando también la condición actual de esta colección frente
a la dinámica urbana y turística de hoy, donde hay un proceso de devaluación, degradación e
incluso demolición de ejemplos significativos. Finalmente, los resultados son subsidios para la
producción de conocimiento sobre la relación entre el turismo, la arquitectura moderna y las
instalaciones de alojamiento, en una perspectiva que considera la documentación una premisa
fundamental para la conservación de este conjunto de valor cultural para la memoria de la
actividad turística, la arquitectura y el arquitecto.
CADERNOS
38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES
Introdução
A obra do arquiteto Paulo Hamilton Casé (1931-2018) é indissociável do conjunto de
projetos de importantes hotéis no Brasil entre as décadas de 1970 e 1990. Dentre as
diversas encomendas da firma Paulo Casé & Luiz Acioli – Arquitetos Associados1, a
tipologia hoteleira teve lugar privilegiado na trajetória profissional do arquiteto titular
do escritório.
2 Faziam parte do grupo: Paulo Casé, Arthur Lício Pontual (1935-1972) e Edison Musa (1934).
CADERNOS
38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES
O júri salienta nesse projeto o acentuado espírito de criação, com excelentes resultados
de unidade formal e riqueza plástica, e reconhece ainda a validade de tentativa do
arquiteto, que, fugindo de soluções mais convencionais, conseguiu a integração entre
o projeto, o terreno e a paisagem (BRITTO, 2011, p. 62).
FIGURA 1 – Desenhos e 3 O arquiteto atuou como crítico de arquitetura em um veículo de comunicação não especializado: o Jornal do
Maquetes do Hotel Porto do Brasil.
Sino (1966), em Jurujuba, 4 O projeto foi publicado na Revista do Instituto de Arquitetos do Brasil chamada Arquitetura, no número 56, de
Niterói, Rio de Janeiro. fevereiro de 1967
Fonte: Acervo Escritório 5 Ainda que não tenha sido executado recebeu menção honrosa na Bienal Internacional de Arquitetos do Brasil
em Belo Horizonte em 1968. Foi premiado também na categoria H1, tendo obtido uma menção honrosa pela
Paulo Casé.
Residência Arnaldo Wright em 1965, pelo IAB-GB.
CADERNOS
38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES
Diante do exposto, optou-se por não associar a produção de Casé nesses anos ao pós-
moderno, uma vez que esses hotéis se inserem em um contexto de hegemonia da
arquitetura moderna no país, onde “canonizava-se e burocratizava-se uma postura
6 Paulo Casé projetou na década de 1980 o Hotel Hilton Belém. Na década de 1990, concebeu o Hotel Caesar Park
Cabo de Santo Agostinho, na praia de Tatuoaca, litoral sul de Pernambuco e o Hotel Marriot, no Rio de Janeiro,
entre outros.
CADERNOS
38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES
arquitetônica” (SEGAWA, 1998, p.190). A atuação de Casé, quase como uma raridade,
expressa, como o próprio prefixo “trans” sugere, indicativos de uma transição, indícios
de um deslocamento e uma mutação da condição moderna para a pós-moderna.
Assim sendo, esses chamados hotéis trans(modernos) de Casé exprimem uma forma
híbrida, transitória e não binária na arquitetura brasileira.
No segundo período, a política específica voltada para o turismo no Brasil tem como
marco o Decreto-Lei n. 55, de 18/11/1966, à época da Ditadura Militar, no governo
do Presidente Castelo Branco. O instrumento legal instituiu a Empresa Brasileira de
Turismo (Embratur) e o Conselho Nacional de Turismo (CNTur). Assim, a criação da
Embratur foi um estímulo estatal para o desenvolvimento do turismo no Brasil num
cenário em que a industrialização tinha primazia. As ações do órgão eram variadas
e redundaram em impactos importantes na hotelaria existente e na construção de
novos meios de hospedagem. As primeiras medidas do órgão foram:
CADERNOS
38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES
7 Como exemplos: Empresa de Turismo da Bahia S.A. (Bahiatursa) criada em 1968; Empresa Cearense de Tur-
ismo S.A. (EMCETUR), criada em 1971 e; a nível municipal, a Empresa de Turismo do Município do Rio de
Janeiro S.A. (Riotur), criada em 1972.
8 Nesse cenário, cabe sublinhar a atuação do Arquiteto Henrique Mindlin, que projetou o Hotel Sheraton (1968),
construído na Avenida Niemeyer próximo à Gávea, bem como no Hotel Intercontinental (1971), na Praia de
São Conrado
CADERNOS
38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES
Não por acaso, diversas revistas especializadas na década de 19709 e 198010, além da
imprensa voltada ao grande público, como o Jornal do Brasil, Correio da Manhã, entre
outros, passaram a publicar conteúdos sobre o tema, destacando a importância do
escritório de Casé.
Verifica-se que os hotéis concebidos por Casé na década de 1970 possuíam uma
linguagem arquitetônica vinculada à tradição da arquitetura moderna brasileira,
mas com uma atitude mais crítica, pragmática e simbólica. Ele mesmo admitia que
a linguagem - sem se referir ao modernismo – de alguns hotéis era a mesma, embora
existissem mudanças nos programas.
9 Prédio em Y traz o sol para dentro; projeto de Paulo H. Casé Luiz Acioli e L. A. Rangel. Projeto e Construção
(23): 32-5, out. 1972; No Jardim Oceania, o Ondina Praia Hotel; projeto de Paulo Casé e Luiz Acioli, arqs. Projeto
e Construção (28): 35-7, mar. 1973; Hotéis de nível internacional com tecnologia brasileira; projeto de Paulo
Casé, Luiz Acioli e L. A. Rangel. Arquitetos Associados Ltda. A Construção em São Paulo (1391): 13-6, 7-10-1974;
Hotel Termas de Mossoró, RN; projeto de Paulo H. Casé, Luis Acioli e L. A. Rangel. arqs. Projeto 113: 30•1, jun./
jul. 1979.
10 Na década de 1980 ainda foram publicados projetos do arquiteto e uma síntese da produção hotéis. Bahia
Othon Palace Hotel, Salvador, BA; projeto de Paulo H. Casé, Luiz Acioli e L. A. Rangel., arqs. AB Arquitetura do
Brasil (12); 60-3, 1981; O novo Copa; projeto de Paulo H. Casé, Luiz Acioli e L. A. Rangel, arqs. Projeto (26): 14-
5,jan. 1981; Vários hotéis; projetos de Paulo H. Casé, Luiz Acioli e L. A. Rangel, arqs. AB Arquitetura Brasileira
(10): 39-48, 197711978. (ed. 1981) Hotéis / Editores: Vicente Wissenbach, Vivaldo Tsukumo. São Paulo: Projeto,
1987.
CADERNOS
38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES
À época, o hotel se afirmava cada vez mais como um produto imobiliário. O esquema
de negócios dos hotéis no Brasil se dava por meio da venda de quartos (ações), mas
Casé considerava que não se tratava de um empreendimento primordialmente para
fins de venda, mas muito mais para prestação de serviços.
FIGURA 2 – Le Méridien
Copacabana (1973),
Copacabana, Rio de Janeiro.
CADERNOS
38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES
CADERNOS
38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES
Esses aspectos conceituais propostos por Casé e a maneira como ele os materializa
revelam uma postura crítica em relação ao programa, ao lugar, à construção e
evidentemente, à forma. Ao comparar o Hotel Porto do Sol de Vitória e o Porto do Sol
de Guarapari, Casé afirma que:
Ele assegurava que o hotel urbano tinha que ser um prolongamento da rua, integrado
ao meio ambiente, assim como seus serviços precisavam ser estendidos a um maior
número de pessoas, e não só aos hospedes. Essa integração seria possível por meio
dos usos distintos incorporados ao programa do hotel, como as lojas, o open bar,
boates, restaurantes, áreas de lazer, bem como os espaços destinados a eventos. A
expressão material dessa atitude se revelava frequentemente na base da maioria dos
hotéis projetados pelo arquiteto, criando e valorizando os espaços interiores da parte
pública do empreendimento, traduzidos em pés-direitos generosos, na integração
entre pavimentos e na presença de vazios.
CADERNOS
38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES
fonte d’água natural a 47°C para as piscinas, que se tornaram ponto de atração
de toda a região. Todo o projeto foi orientado no sentido de adaptação e exploração
das condições adversas do clima, extremamente seco e quente, através de recursos
naturais, ecológicos. (ZEIN, 1983, p. 3).
FIGURA 6 – Fotos Maquete do Hotel Termas de Mossoró (1979), Mossoró, Rio Grande do Norte
CADERNOS
38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES
De modo geral, ainda que essas premissas em relação ao sítio estejam presentes no
seu discurso, ao afirmar que evitava agressões à paisagem, verifica-se em alguns casos,
sobretudo nos dois hotéis de Salvador e no de Guarapari, soluções de implantação em
que os edifícios se situam muito próximos ao mar, favorecendo, inclusive uma relativa
privatização dos usos e das visuais para praia. Se propostos atualmente, dificilmente
atenderiam às exigências das legislações ambientais.
Diante do exposto, a obra de Paulo Casé concebida durante a década de 1970 tem
como exemplos da sua atitude crítica em relação à arquitetura moderna brasileira
a produção de importantes hotéis (trans)modernos, ou seja, edifícios hoteleiros
que expressam simultaneamente assimilações e transformações no âmbito do
modernismo arquitetônico, abrindo distintas possibilidades de interpretações e
revisões historiográficas. Para o arquiteto, “existe toda uma tradição arquitetônica
que deve ser reinterpretada na arquitetura moderna, cujos erros devem ser
questionados” (CADERNOS BRASILEIROS DE ARQUITETURA, 1987, p. 38). Como estudo
de caso, segue uma breve reflexão sobre o caso do Bahia Othon Palace Hotel, que
testemunha tanto as transformações suscitadas pelas políticas públicas da Embratur
e a internacionalização da atividade turística, como as metamorfoses verificadas na
arquitetura moderna no Brasil.
Os primeiros hotéis da rede, que vieram a se transformar numas das principais cadeias
de hotéis nacional, foram o Hotel Aeroporto Othon, inaugurado em 1944 no centro do
Rio de Janeiro, nas proximidades do Aeroporto Santos Dumont; o Hotel São Paulo,
implantado na Rua São Francisco, esquina como Largo Riachuelo em 1946, tendo sido
projetado e construído pela firma Dacio A. de Morais & Cia Ltda (REVISTA ACRÓPOLE,
1946) e o Othon Palace São Paulo, inaugurado em 1954, próximo ao Viaduto do Chá e
projetado pelo arquiteto alemão Philipp Lohbauer (1906-1978).
Ao longo da década de 1950 e 1960, o grupo ampliou a sua rede no Rio de Janeiro,
mas somente na década de 1970 houve um incremento na construção de hotéis de
luxo, expandindo a rede para Belo Horizonte, Salvador, Recife, Fortaleza e Maceió. O
Rio Othon Palace Hotel11, de 1968, foi emblemático na inauguração desse conjunto de
hotéis mais sofisticados. O projeto foi escolhido em meio um concurso vencido pela
Pontual Arquitetos, tendo o escritório de Paulo Casé participado do certame.
No caso específico de hotéis, antes de o projeto surgir, existe toda uma tarefa de
levantamento de dados, pesquisa de programas, estudo dos objetivos a serem
atingidos. Para o primeiro grande projeto, o do Bahia Othon Palace, foram realizadas
11 O Hotel foi projetado pelos arquitetos Arthur Lício Pontual, Davino Pontual, Paulo de Souza Pires, Sérgio Porto
e Flávio Ferreira e construído pela SISAL Engenharia.
CADERNOS
38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES
várias viagens a países da América Central e do Norte que possuem hotéis localizados
em semelhantes condições físicas e socioculturais. A análise do projeto, do ponto-de-
vista técnico, foi feita por um arquiteto americano contratado pela cadeia Othon12.
(ARQUITETOS COMEÇAM A SE ESPECIALIZAR EM ARQUITETURA HOTELEIRA,
1973, p. 4).
Provavelmente, o contato firmado com o grupo foi facilitado pela Construtora Sisal,
parceira antiga de Casé, que lhe conferiu visibilidade no mercado imobiliário do Rio.
A empresa, por sua vez, foi contratada pela cadeia para construir o Leme Palace Hotel
(1964) no Rio de Janeiro, de autoria dos arquitetos Vicente Gambardella, Salvador
Ary Cornelio e Paulo Lemos (REVISTA ACRÓPOLE, 1964), bem como o supracitado
Rio Othon Palace Hotel. Some-se a isso a notoriedade alcançada com o projeto do
Méridien em Copacabana.
O Hotel (Figura 8), implantado na Praia de Ondina, na orla de Salvador, teve sua pedra
fundamental lançada em fevereiro de 1972 e contou inclusive com a presença do
Presidente da Embratur à época, Paulo Manoel Potássio e do então Governador da
Bahia Antônio Carlos Magalhães, revelando a articulação coordenada entre o Estado,
por meio de políticas públicas, incentivos fiscais e financeiros e o mercado. O projeto
teve apoio da Embratur e da Sudene por intermédio dos seus programas de incentivo
ao turismo e à hotelaria.
CADERNOS
38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES
CADERNOS
38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES
CADERNOS
38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES
Agradecimentos
À CAPES, que financiou a pesquisa de pós-doutorado “Turismo e arquitetura
transatlântica: o hotel moderno no Brasil e em Portugal” e à Marcela Casé, neta de
Paulo Casé, que cedeu imagens e informações sobre o acervo dos projetos de hotéis
do arquiteto.
Referências
AMORIM, Luiz Manuel do Eirado. Obituário arquitetônico. Pernambuco modernista.
Recife, Editora UFPE, 2007, p. 162.
CADERNOS
38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES
BARBOSA, Antônio A. Entrevista com o arquiteto Paulo Casé. Entrevista, São Paulo,
ano 13, n. 049.02, Vitruvius, jan. 2012 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/
entrevista/13.049/4185>.
BRITTO, Alfredo. Paulo Casé: o permanente encontro com a arquitetura. In: ZAPPA,
Regina; BRITTO, Alfredo; SEGRE, Roberto. Paulo Casé. 80 anos: vida, obra, pensamento.
Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2011.
CRUZ, Rita de C. A. da. Política de turismo e território. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2000.
MOURA, Éride; SERAPIÃO. Entrevista Paulo Casé. Projeto Design. v. 282. ago. 2003.
OTHON LANÇA PEDRA. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 24 de fevereiro de 1972. Edição
272. Caderno de Turismo.
REVISTA ACRÓPOLE. Hotel no Rio de Janeiro, v. 308, ano 26, jul, 1964, p. 38-41.
REVISTA ACRÓPOLE. Hotel São Paulo, v. 99, ano 9, jul, 1946, p. 67-74.
CADERNOS
38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES
SEGRE, Roberto. Paulo Casé: sociedade, cultura, arquitetura e cidade. In: ZAPPA, Regina;
BRITTO, Alfredo; SEGRE, Roberto. Paulo Casé. 80 anos: vida, obra, pensamento. Rio
de Janeiro: Casa da Palavra, 2011
ZAPPA, Regina. Arquitetura de um homem: tempo, formas e afetos. In: ZAPPA, Regina;
BRITTO, Alfredo; SEGRE, Roberto. Paulo Casé. 80 anos: vida, obra, pensamento. Rio
de Janeiro: Casa da Palavra, 2011.
ZAPPA, R; BRITTO, A ; SEGRE, R. Paulo Casé. 80 anos: vida, obra, pensamento. Rio de
Janeiro: Casa da Palavra, 2011, p. 190-212.
Submetido em 29/04/2022
Aprovado em 14/07/2022
CADERNOS
38
CADERNOS
38
CARLOS MARCELO CAMPOS TEIXEIRA, RENATO VIZIOLI E RAFAEL ANTONIO CUNHA PERRONE
Utopias Tecnológicas, Estratégias e Realidades do Patrimônio da Arquitetura Moderna Brasileira: Uma Análise Gráfica da
99 Habitação do Futuro Proposta pelo Arquiteto Eduardo Longo
Tech-Utopias, Strategies and Realities of the Modern Brazilian Architecture Heritage: A Graphic Analysis of the House of the Future Proposed by
Architect Eduardo Longo
Utopías Tecnológicas, Estrategias y Realidades del Patrimonio de la Arquitectura Moderna Brasileña: Un Análisis Gráfico de la Vivienda del
Futuro Propuesta por el Arquitecto Eduardo Longo
CADERNOS
38
CARLOS MARCELO CAMPOS TEIXEIRA, RENATO VIZIOLI E RAFAEL ANTONIO CUNHA PERRONE
Utopias Tecnológicas, Estratégias e Realidades do Patrimônio da Arquitetura Moderna Brasileira: Uma Análise Gráfica da
100 Habitação do Futuro Proposta pelo Arquiteto Eduardo Longo
Tech-Utopias, Strategies and Realities of the Modern Brazilian Architecture Heritage: A Graphic Analysis of the House of the Future Proposed by
Architect Eduardo Longo
Utopías Tecnológicas, Estrategias y Realidades del Patrimonio de la Arquitectura Moderna Brasileña: Un Análisis Gráfico de la Vivienda del
Futuro Propuesta por el Arquitecto Eduardo Longo
Renato Vizioli
CADERNOS
38
CARLOS MARCELO CAMPOS TEIXEIRA, RENATO VIZIOLI E RAFAEL ANTONIO CUNHA PERRONE
Utopias Tecnológicas, Estratégias e Realidades do Patrimônio da Arquitetura Moderna Brasileira: Uma Análise Gráfica da
101 Habitação do Futuro Proposta pelo Arquiteto Eduardo Longo
Tech-Utopias, Strategies and Realities of the Modern Brazilian Architecture Heritage: A Graphic Analysis of the House of the Future Proposed by
Architect Eduardo Longo
Utopías Tecnológicas, Estrategias y Realidades del Patrimonio de la Arquitectura Moderna Brasileña: Un Análisis Gráfico de la Vivienda del
Futuro Propuesta por el Arquitecto Eduardo Longo
CADERNOS
38
CARLOS MARCELO CAMPOS TEIXEIRA, RENATO VIZIOLI E RAFAEL ANTONIO CUNHA PERRONE
Utopias Tecnológicas, Estratégias e Realidades do Patrimônio da Arquitetura Moderna Brasileira: Uma Análise Gráfica da
102 Habitação do Futuro Proposta pelo Arquiteto Eduardo Longo
Tech-Utopias, Strategies and Realities of the Modern Brazilian Architecture Heritage: A Graphic Analysis of the House of the Future Proposed by
Architect Eduardo Longo
Utopías Tecnológicas, Estrategias y Realidades del Patrimonio de la Arquitectura Moderna Brasileña: Un Análisis Gráfico de la Vivienda del
Futuro Propuesta por el Arquitecto Eduardo Longo
Resumo
Este artigo trata da prospecção do futuro, mesmo que de forma utópica, no universo
da arquitetura e urbanismo. Uma série de profissionais a usaram como pano de fundo,
para experimentar suas criações e assim deixar um legado de soluções, de grande
teor inovativo, sempre inspirados na precisão e nos processos de desenvolvimento
tecnológico provenientes da indústria. O objetivo geral desse artigo, é investigar por
meio de análise gráfica, baseada nos diagramas criados pelos Professores Roger Clark e
Michel Pause, a estratégia e a abordagem projetual quanto a definição da espacialidade
do objeto arquitetônico, das chamadas “Habitações do Futuro”, propostas por dois
emblemáticos arquitetos, o americano Richard Buckminster Fuller e o brasileiro
Eduardo Longo, que de forma muito intensa, questionaram hábitos, valores e processos
e criaram a partir daí, ambientes muito particulares, envoltos em uma aura tecnológica.
Dentre uma série de outros projetos que antecipavam cenários, sinalizando utopias de
um futuro distante, foram escolhidos e analisados sequencialmente, a Casa Dymaxion
(1946) de Buckminster Fuller, localizada em Wichita, Estados Unidos e a Casa Bola (1974)
de Eduardo Longo, localizada em São Paulo, Brasil. Ambas propostas, embora diversas
no tempo e na utilização de recursos tecnológicos, trazem em seu DNA além de uma
sinergia formal entre si, um alto grau de provocação e ruptura com os paradigmas
instituídos na época, e por sua vez, tornaram-se expoentes de uma cultura de busca
por inovações de construtibilidades diversas, com finalidade específica de definição
de forma experimental, novos arranjos espaciais aplicáveis no âmbito da arquitetura
e urbanismo. Num primeiro momento, foram investigadas as possíveis intenções dos
arquitetos ao proporem os projetos supracitados, na perspectiva de visualizar qual teor
de seus discursos a cerca do futuro e que tipo de técnicas, tecnologias e processos,
haviam embarcado em suas propostas. Após uma análise cruzada das obras, que se
desenrolaram em épocas distintas, identificaram-se diferenças, quanto a limitações
de acesso na escolha e emprego de materiais, métodos e processos para viabilidade
e execução técnico-financeira dos empreendimentos; e similaridades, no processo
estratégico de pesquisa e difusão dos conceitos, além da investigação de recursos
formais para amparar o partido. Tal análise evidencia o importante papel do arquiteto
paulistano Eduardo Longo, no cenário mundial das vanguardas tecnológicas, pois
inspirado de certa forma pelas ideias de uma série de profissionais, elege Fuller como
referência, deixando assim, um legado, através de suas proposições que ainda hoje são
objetos de debate, no seleto acervo de patrimônio da Arquitetura Moderna Brasileira.
Abstract
This article deals with the prospect of the future, even if in a utopian way, in the universe of
architecture and urbanism. Several professionals used it as a backdrop to experiment with
their creations and thus leave a legacy of highly innovative solutions, always inspired by
precision and technological development processes from the industry. The general goal of this
article is to investigate, through graphic analysis, based on diagrams created by Professors
Roger Clark and Michel Pause, the strategy and design approach regarding the definition of
the spatiality of the architectural object, of the so-called "Housings of the Future", proposed
by two emblematic architects, the American Richard Buckminster Fuller and the Brazilian
Eduardo Longo, who very intensely questioned habits, values and processes and created, from
there, very particular environments, wrapped in a technological aura. Among a series of other
projects that anticipated scenarios, signaling utopias of a distant future, the Dymaxion House
(1946) by Buckminster Fuller, located in Wichita, United States and the Casa Bola (1974) by
Eduardo Longo, located in São Paulo, Brazil. Both proposals, although different in time and
CADERNOS
38
CARLOS MARCELO CAMPOS TEIXEIRA, RENATO VIZIOLI E RAFAEL ANTONIO CUNHA PERRONE
Utopias Tecnológicas, Estratégias e Realidades do Patrimônio da Arquitetura Moderna Brasileira: Uma Análise Gráfica da
103 Habitação do Futuro Proposta pelo Arquiteto Eduardo Longo
Tech-Utopias, Strategies and Realities of the Modern Brazilian Architecture Heritage: A Graphic Analysis of the House of the Future Proposed by
Architect Eduardo Longo
Utopías Tecnológicas, Estrategias y Realidades del Patrimonio de la Arquitectura Moderna Brasileña: Un Análisis Gráfico de la Vivienda del
Futuro Propuesta por el Arquitecto Eduardo Longo
in the use of technological resources, bring in their DNA, in addition to a formal synergy
between them, a high degree of provocation and rupture with the paradigms established at
the time, and in turn, became exponents of a culture of search for innovations of diverse
constructibilities, with the specific purpose of defining in an experimental form, new spatial
arrangements applicable in the scope of architecture and urbanism. At first, the possible
intentions of the architects when proposing the projects were investigated, with a view to
visualizing the content of their discourses about the future and what type of techniques,
technologies and processes they had embarked on in their proposals. After a cross-analysis of
the works, which took place at different times, differences were identified in terms of access
limitations in the choice and use of materials, methods and processes for the feasibility
and technical-financial execution of the projects; and similarities, in the strategic process of
research and dissemination of concepts, in addition to the investigation of formal resources
to support the party. Such analysis highlights the important role of the São Paulo architect
Eduardo Longo, in the world scenario of technological vanguards, as inspired in a way by
the ideas of a series of professionals, he chooses Fuller as a reference, thus leaving a legacy,
through his propositions that still today are objects of debate, in the select collection of heritage
of Brazilian Modern Architecture.
Resumen
Este artículo trata de la prospección de futuro, aunque sea de forma utópica, en el universo de
la arquitectura y del urbanismo. Una serie de profesionales la utilizaron como trasfondo, para
experimentar sus creaciones y así dejar un legado de soluciones, con un gran contenido in-
novador, siempre inspiradas en los procesos de precisión y desarrollo tecnológico de la industria.
El objetivo de este artículo es investigar, por intermedio del análisis gráfico, a partir de esque-
mas elaborados por los profesores Roger Clark y Michel Pause, la estrategia y el planteamiento
proyectual en cuanto a la definición de la espacialidad del objeto arquitectónico, de las denomi-
nadas "Viviendas del Futuro”, propuesta por dos arquitectos emblemáticos, el estadounidense
Richard Buckminster Fuller y el brasileño Eduardo Longo, quienes cuestionaron muy intensa-
mente hábitos, valores y procesos y crearon, a partir de ahí, ambientes muy particulares, en-
vueltos en un aura tecnológica. Entre una serie de otros proyectos que anticiparon escenarios,
señalando utopías de un futuro lejano, se escogieron y analizaron secuencialmente la Casa
Dymaxion (1946) de Buckminster Fuller, ubicada en Wichita, Estados Unidos y la Casa Bola
(1974) de Eduardo Longo, ubicado en Sao Paulo, Brasil. Ambas propuestas, aunque diferentes
en el tiempo y en el uso de los recursos tecnológicos, traen en su ADN, además de una sinergia
formal entre ellas, un alto grado de provocación y ruptura con los paradigmas establecidos en
su momento y, a su vez, se convirtieron en exponentes de una cultura de búsqueda de innova-
ciones de diferentes constructividades, con el propósito específico de definir experimentalmente
nuevos arreglos espaciales aplicables en el ámbito de la arquitectura y del urbanismo. En un
primer momento, se indagaron las posibles intenciones de los arquitectos al plantear los proyec-
tos mencionados, con el fin de visualizar el contenido de sus discursos sobre el futuro y qué tipo
de técnicas, tecnologías y procesos habían emprendido en sus propuestas. Luego del análisis
cruzado de las obras, se identificaron diferencias en cuanto a limitaciones de acceso a la elección
y uso de materiales, métodos y procesos para la factibilidad y ejecución técnico-económica de los
proyectos; y similitudes, tanto en el proceso estratégico de investigación y difusión de conceptos,
como en la investigación de recursos formales de apoyo al partido arquitectónico. Tal análisis de-
staca el importante papel del arquitecto paulista Eduardo Longo en el escenario mundial de las
vanguardias tecnológicas pues, inspirado por las ideas de distintos profesionales, elige a Fuller
como referencia, dejando así un legado, a través de su proposiciones que aún hoy son objeto de
debate, en el selecto acervo del patrimonio de la Arquitectura Moderna Brasileña.
CADERNOS
38
CARLOS MARCELO CAMPOS TEIXEIRA, RENATO VIZIOLI E RAFAEL ANTONIO CUNHA PERRONE
Utopias Tecnológicas, Estratégias e Realidades do Patrimônio da Arquitetura Moderna Brasileira: Uma Análise Gráfica da
104 Habitação do Futuro Proposta pelo Arquiteto Eduardo Longo
Tech-Utopias, Strategies and Realities of the Modern Brazilian Architecture Heritage: A Graphic Analysis of the House of the Future Proposed by
Architect Eduardo Longo
Utopías Tecnológicas, Estrategias y Realidades del Patrimonio de la Arquitectura Moderna Brasileña: Un Análisis Gráfico de la Vivienda del
Futuro Propuesta por el Arquitecto Eduardo Longo
Introdução
De onde vem o interesse dos arquitetos em prospectarem o futuro por meio de
projetos disruptivos para a sua época? O que os levou a romper com o status quo,
desenvolvendo assim um novo modus operandi de pesquisa e desenvolvimento para a
arquitetura?
foi movida pela energia utópica proveniente das vanguardas culturais, artísticas e
políticas. Essa energia se esgotou? Por quê? Tudo parece ter sido virado pelo avesso,
talvez pelo excesso de velocidade, o no futuro vemos as sombras de um passado que
acreditávamos estar enterrado. (BERARDI, 2019, p.11)
Influenciados pela crença na alta tecnologia, até então disseminada pela obra de
Buckminster Fuller2 uma série de arquitetos se encantaram com tais ações se tornando
fiéis adeptos a essa vertente. Prova disso é quando Montaner em seu livro Depois do
Movimento Moderno de Arquitetura, na Segunda Metade do Século XX, identifica que
os projetos apresentados, de forma fantasiosa, pelo grupo inglês Archigram liderado
por Peter Cook, vislumbravam incorporar a alta tecnologia, ao ato de habitar, por meio
de um sistema de cápsulas adaptáveis (plug-in city), abrindo, com suas conjecturas, o
campo propositivo a uma mobilidade exacerbada, se tornando uma continuidade das
ideias radicais de inovação tecnológica, defendida por Fuller no final dos anos 1920.
1 “Em 20 de fevereiro de 1909, Filippo Tommaso Marinetti publicou no jornal parisiense Le Figaro o primeiro
Manifesto Futurista. Podemos considerar esse texto, a primeira declaração consciente de um movimento que,
nas décadas seguintes, se espalharia pela Europa com o nome de vanguarda. Podemos considerá-lo também,
em certo sentido, o primeiro ato consciente do século que acreditou no futuro. O século XX, linha de chegada
e realização das promessas da modernidade, começa realmente quando os futuristas bradam com arrogân-
cia o advento do reino da máquina, da velocidade e da guerra.” Trecho extraído do livro Depois do Futuro, de
Franco Berardi, 2019. p.13.
2 Nascido em Massachusetts, Estados Unidos, em 1895, Richard Buckminster Fuller, foi pensador, inventor,
arquiteto, professor, filósofo, poeta, cientista, futurista, e grande influenciador até os dias de hoje.
CADERNOS
38
CARLOS MARCELO CAMPOS TEIXEIRA, RENATO VIZIOLI E RAFAEL ANTONIO CUNHA PERRONE
Utopias Tecnológicas, Estratégias e Realidades do Patrimônio da Arquitetura Moderna Brasileira: Uma Análise Gráfica da
105 Habitação do Futuro Proposta pelo Arquiteto Eduardo Longo
Tech-Utopias, Strategies and Realities of the Modern Brazilian Architecture Heritage: A Graphic Analysis of the House of the Future Proposed by
Architect Eduardo Longo
Utopías Tecnológicas, Estrategias y Realidades del Patrimonio de la Arquitectura Moderna Brasileña: Un Análisis Gráfico de la Vivienda del
Futuro Propuesta por el Arquitecto Eduardo Longo
[...] depois de se ter produzido nas fábricas tantos canhões, aviões, caminhões,
vagões, dizemo-nos: não poderia fabricar casas? [...] Se arrancarmos do coração e
do espírito os conceitos imóveis da casa, e se encararmos a questão de um ponto
de vista crítico e objetivo, chegaremos à casa-instrumento, casa em série acessível
a todos, incomparavelmente mais sadia que a antiga (moralmente também) e bela
pela estética dos instrumentos de trabalho que acompanham nossa existência.
(CORBUSIER, 1981, p. 160-166)
... a inspiração, entretanto, não estava na natureza, mas sim na confiança na alta
tecnologia e no futuro: esse tipo de produção, tal como a segunda fase da obra
de Longo, estava ancorada na contracultura. Esses profissionais – entre os quais
alguns dos mais inteligentes projetistas da época - produziram arquitetura como
manifestação artística sem compromisso com a realidade. Ou seja, abandonaram
a prática profissional tradicional e entregaram-se a projetos como forma de arte.
(SERAPIÃO, 2013 p.106).
Fuller fez uso de análise experimental em modelos reduzidos para validar seus
conceitos. Primeiramente analisando a forma e volumetria, e posteriormente
validando a eficiência e desempenho do produto.
CADERNOS
38
CARLOS MARCELO CAMPOS TEIXEIRA, RENATO VIZIOLI E RAFAEL ANTONIO CUNHA PERRONE
Utopias Tecnológicas, Estratégias e Realidades do Patrimônio da Arquitetura Moderna Brasileira: Uma Análise Gráfica da
106 Habitação do Futuro Proposta pelo Arquiteto Eduardo Longo
Tech-Utopias, Strategies and Realities of the Modern Brazilian Architecture Heritage: A Graphic Analysis of the House of the Future Proposed by
Architect Eduardo Longo
Utopías Tecnológicas, Estrategias y Realidades del Patrimonio de la Arquitectura Moderna Brasileña: Un Análisis Gráfico de la Vivienda del
Futuro Propuesta por el Arquitecto Eduardo Longo
3 A palavra dymaxion foi cunhada por um profissional de publicidade em uma loja de departamentos onde
Bucky estava mostrando um modelo de sua casa proposta. A palavra foi criada combinando partes das pala-
vras dynamic (DY), maximum (MAX) e tension (ION), que eram três das palavras favoritas de Bucky.
CADERNOS
38
CARLOS MARCELO CAMPOS TEIXEIRA, RENATO VIZIOLI E RAFAEL ANTONIO CUNHA PERRONE
Utopias Tecnológicas, Estratégias e Realidades do Patrimônio da Arquitetura Moderna Brasileira: Uma Análise Gráfica da
107 Habitação do Futuro Proposta pelo Arquiteto Eduardo Longo
Tech-Utopias, Strategies and Realities of the Modern Brazilian Architecture Heritage: A Graphic Analysis of the House of the Future Proposed by
Architect Eduardo Longo
Utopías Tecnológicas, Estrategias y Realidades del Patrimonio de la Arquitectura Moderna Brasileña: Un Análisis Gráfico de la Vivienda del
Futuro Propuesta por el Arquitecto Eduardo Longo
Após sua primeira proposição conceitual da Casa Dymaxion, em 1927, Fuller inicia o
desenvolvimento das Unidades Dymaxion, a partir da década de 1940, suas verdadeiras
versões das máquinas de morar pré-fabricadas. No ano de 1946, uma indústria
americana de aeronaves4 , aceita fabricar uma versão simplificada da Casa Dymaxion
em Wichita, Kansas. Concebida dentro das mesmas técnicas de desenvolvimento de
ferramental, materiais e montagem das peças de uma aeronave, conforme mostra a
[figura 02], a “Wichita House”, era formada pelos tubos de aço, o mastro de 6,60 metros
de altura que suportava o peso da casa e mais o equivalente a 120 pessoas em seu
interior.
FIGURA 2 – Imagens do A Dymaxion House não entrou em fase de produção e distribuição porque alguns
interior e do exterior da Casa aspectos do projeto não foram solucionados, tanto do ponto de vista de Fuller quanto
Dymaxion Wichita.
do fabricante. Ambos os protótipos foram adquiridos pelo investidor William Graham5.
Fonte: FRACALOSSI, Igor. Em 1991, a família doou a casa com todos os componentes sobressalentes originais
"Clássicos da Arquitetura: para o Museu Henry Ford em Dearborn, Michigan, que atualmente exibe a versão
Casa Dymaxion 4D /
inicial totalmente restaurada.
Buckminster Fuller"
[AD Classics: The
Dymaxion House /
Buckminster Fuller] 29
Mai 2013. ArchDaily Brasil.
Acessado 24 Nov 2021. 4 Dymaxion Wichita House, “deveria ser produzida em massa pela Beech Aircraft Factory em Wichita, Kansas.
No coração da economia americana do pós-guerra em expansão, a fábrica esperava entrar no mercado imo-
<https://www.archdaily. biliário com os planos de produzir 60.000 unidades por ano. Apenas dois protótipos foram produzidos antes
com.br/br/01-130267/ que a empresa decidisse encerrar o projeto, convencida de que o público ainda não estava pronto para habitar
classicos-da-arquitetura- um objeto semelhante a uma máquina...” (KAAL, 2008. Nossa tradução de http://sebastiaankaal.nl)
casa-dymaxion-4d-slash- 5 Em 1948, William Graham, comprou os dois protótipos Dymaxion por US$ 2.000. Ele os remendou para criar
buckminster-fuller> ISSN uma casa de dois andares fora de Wichita para sua família, acrescentando uma ala convencional, isolamento
0719-89060719-8906 e ar-condicionado. Ele instalou um ventilador menor, enraizou a casa em uma base sólida e dispensou a
maioria das partes móveis – exatamente como os engenheiros pediram. (WEBB, 2001. Nossa tradução de
https://www.nytimes.com)
CADERNOS
38
CARLOS MARCELO CAMPOS TEIXEIRA, RENATO VIZIOLI E RAFAEL ANTONIO CUNHA PERRONE
Utopias Tecnológicas, Estratégias e Realidades do Patrimônio da Arquitetura Moderna Brasileira: Uma Análise Gráfica da
108 Habitação do Futuro Proposta pelo Arquiteto Eduardo Longo
Tech-Utopias, Strategies and Realities of the Modern Brazilian Architecture Heritage: A Graphic Analysis of the House of the Future Proposed by
Architect Eduardo Longo
Utopías Tecnológicas, Estrategias y Realidades del Patrimonio de la Arquitectura Moderna Brasileña: Un Análisis Gráfico de la Vivienda del
Futuro Propuesta por el Arquitecto Eduardo Longo
Como pode ser observado na figura 03, seu processo de projeto sempre esteve muito
vinculado a representação gráfica de ideias por meio de desenhos. Faz uso intensivo
do croqui, em busca de soluções durante o desenvolvimento, combinando a precisão
dos detalhes técnicos, presentes nas ilustrações com uma forma bem-humorada de
humanizar os espaços representando seus ocupantes.
FIGURA 3 – Croquis da Casa Pensando em novos materiais e process