0% acharam este documento útil (0 voto)
77 visualizações307 páginas

Revista Proarq - CP - 38

Caderno do PROARQ, Rio de Janeiro Universidade de Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo N 1, Setembro 1997, versão impessa n 38, juljo 2022

Enviado por

jc.santtana
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
77 visualizações307 páginas

Revista Proarq - CP - 38

Caderno do PROARQ, Rio de Janeiro Universidade de Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo N 1, Setembro 1997, versão impessa n 38, juljo 2022

Enviado por

jc.santtana
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

1

38
N.38 | Julho 2022

EDIÇÃO TEMÁTICA "Perspectivas do Patrimônio Moderno"

CADERNOS

38
CADERNOS

38
Reitora Denise Pires de Carvalho
Vice-reitor Carlos Frederico Leão Rocha
Pró-Reitoria de Pós-graduação e Pesquisa Denise Maria Guimarães Freire
Decano do Centro de Letras e Artes Cristina Grafanassi Tranjan
FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO
FACULTY OF ARCHITECTURE AND URBANISM

Diretor Editores convidados


Dean Guest Editors
Guilherme Carlos Lassance Ana Albano Amora, UFRJ
Vice Diretor Helio Herbst, UFRRJ
Vice Dean
Alexandre José Pessoa Equipe Executiva
Executive Team
Coordenação Geral do PROARQ
Bárbara Thomaz (coordenação executiva)
General Coordination PROARQ
Clarissa Mulbauer (secretaria executiva)
Coordenadora Ethel Pinheiro Santana Thiago Rangel (secretaria executiva)
Vice-coordenador Marcos Martinez Silvoso Domitila Gomes Almenteiro (apoio executivo)
Mylenna Linhares Merlo (apoio executivo)
Coordenação Adjunta
Adjoint Coordinators Revisão
Editoria Rubens de Andrade Revision
Ensino Priscilla Peixoto Ethel Pinheiro Santana
Extensão Lucas Rosse Caldas Maria Júlia de Oliveira Santos
Pesquisa Aline Pires Vérol Aline Calazans Marques
Bárbara Thomaz
Câmara de Editoria
Board of Editors Tradução
Ethel Pinheiro Santana Translation
Aline Calazans Marques Ethel Pinheiro Santana
Rubens de Andrade Bárbara Thomaz

Conselho Editorial Editoração / Projeto Gráfico


Editorial Council Desktop publishing / Graphic Design
Ceça Guimaraens, UFRJ Ethel Pinheiro Santana
Cristiane Rose Duarte, UFRJ Aline Calazans Marques
Evelyn Furquim Werneck Lima, UNIRIO Bárbara Thomaz
Gabriela Celani, Unicamp Domitila Gomes Almenteiro
Jean-Paul Thibaud, ENSAG Mylenna Linhares Merlo
José Manuel Pinto Duarte, PennState University
Julio Arroyo, Universidad Nacional del Litoral Design Original: Plano B [plano-b.com.br]
Leopoldo Bastos, UFRJ
Marta Adriana Bustos Romero, UnB
Capa
Raquel Rolnik, USP
Cover
Edificio Gustavo Capanema. Pilotis e Painel de Cândido Porti-
Comissão Editorial
nari vistos desde o saguão de acesso ao bloco de exposições.
Editorial Committee
Ethel Pinheiro Santana Fotografia de Marta Cristina Guimarães
Aline Calazans Marques Gustavo Capanema Building. Pilotis and Panel by Cândido Portinari.
Maria Júlia de Oliveira Santos View from the entrance hall to the exhibition block
Photography of Marta Cristina Guimarães

FICHA CATALOGRÁFICA
Copyright@2021 dos autores
Author’s Copyright@2021 Cadernos do PROARQ Rio de Janeiro
Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Arquitetura
Cadernos PROARQ e Urbanismo, Programa de Pós-Graduação em Arquitetura – No.1
(setembro 1997) -versão impressa / No. 38 (julho 2022) - versão
Av. Pedro Calmon, 550 - Prédio da FAU/ Reitoria, sl.433
eletrônica
Cidade Universitária, Ilha do Fundão N.38 ( julho, 2022) 289p
ISSN: 1679-7604 (impresso)
CEP 21941-901 - Rio de Janeiro, RJ - Brasil
ISSN: 2675-0392 (online)
Tel.: + 55 (21) 3938-0288 1-Arquitetura - Periódicos. 2-Urbanismo - Periódicos.
Universidade Federal do Rio de Janeiro. Programa de Pós-
Website: http://www.proarq.fau.ufrj.br/revista
graduação em Arquitetura. 2022.
E-mail: [email protected] CDD 720
CADERNOS

38
Comitê Científico
Scientific Committee

Alfredo Akira Ohnuma Junior, UERJ Lídia Quieto Viana, UFBA

Alice Brasileiro, UFRJ Lucia Costa, EBA UFRJ

Alice Theresinha Cybis Pereira, UFSC Luciana Andrade, UFRJ

Alina Santiago, UFSC Luciene Pimentel da Silva, UERJ

Aline Werneck Barbosa de. Carvalho, UFV Luis Otávio Cocito de Araújo, POLI/UFRJ

Ana Albano Amora, UFRJ Luiz Eirado Amorim, UFPE

Ana Gabriela Godinho Lima, Mackenzie SP Maisa Veloso, UFRN

Andrey Rosenthal Schlee, UNB Marcelo Gomes Miguez, COPPE-UFRJ

Angélica Tannus Benatti Alvim, Mackenzie SP Márcio Fabricio, USP

Antonio Carlos Carpintero, UNB Marcos Martinez Silvoso, UFRJ/Coppe

Antonio Tarcísio Reis, UFRGS Maria Angela Dias, UFRJ

Beatriz Oliveira, UFRJ Maria Angela Faggin Leite, IEB/USP

Benamy Turkienicz, UFRGS Maria C. Guimaraens, UFRJ

Carlos Eduardo Dias Comas, UFRGS Maria Cristina Schicchi, PUC Campinas

Circe M. Gama Monteiro, UFPE Maria Lucia Malard, UFMG

Claudia Barroso-Krause, UFRJ Maria Luisa Trindade Bestetti, USP

Cláudia Piantá Cabral, UFRGS Maria Maia Porto, UFRJ

Claudio Antonio Lima Carlos, UFRRJ Marta Adriana Bustos Romero, UNB

Cristiane Rose Duarte, UFRJ Marta Peixoto, UFRGS

Denise de Alcântara, UFFRJ Monica Bahia Schlee, Pref RJ

Douglas Vieira de Aguiar, UFRGS Monica Pertel, POLI/UFRJ

Edson Mahfuz, UFRGS Monica Salgado, UFRJ

Eduardo Grala da Cunha, UFPel Nivaldo de Andrade, UFBA

Elaine Garrido Vasquez, POLI/UFRJ Osvaldo Silva, UFRJ

Eloisa Petti Pinheiro, UFBA Paola Berenstein Jacques, UFBA

Emilio Haddad, USP Patrizia di Trapano, UFRJ

Fernando Diniz Moreira, UFPE Paula Uglione, UFRJ

Fernando Freitas Fuão, UFRGS Paulo Afonso Rheingantz, UFRJ

Fernando Oscar Ruttkay Pereira, UFSC Paulo Roberto Ferreira Carneiro, POLI/UFRJ

Flávia Brito do Nascimento, FAU USP Reila Vargas Velasco, UFRJ

Frederico Holanda, UNB Renato Tibiriçá de Saboya, UFSC

Gabriela Celani, Unicamp Ricardo Cabús, UFAL

Gilberto Yunes, UFSC Roberto Righi, Mackenzie SP

Giselle Arteiro Azevedo, UFRJ Rodrigo Gonçalves, UFSC

Gleice Azambuja Elali, UFR Romulo Krafta, UFRGS

Guilherme Chagas Cordeiro, UENF Roselyne de Villanova, Valle de Seine

Guilherme Lassance, UFRJ Rosina Trevisan Ribeiro, UFRJ

Gustavo Rocha-Peixoto, PROARQ/UFRJ Ruth Verde Zein, Mackenzie SP

Helio Herbst, UFRRJ Sergio Leusin, UFF

Italo Caixeiro Stephan, UFV Sheila Walbe Ornstein, USP

Jardel Pereira Gonçalves, UFBA Silvia Tavares, James Cook University – Australia

Jean-Paul Thibaud, ENSAG Silvio Soares Macedo, USP

Jonathas Magalhães, PUC Campinas Sonia HilfSchulz, UFRJ

José Merlin, PUC Campinas Sylvia Rola, UFRJ/Coppe

Laís Bronstein, PUC Rio Tulio Marcio de Salles Tiburcio, UFV

Laura Novo Azevedo, Oxford Brookes University Vera Bins Ely, UFSC

Leandro Medrano, Unicamp Vera Tangari, UFRJ

Leandro Torres Di Gregorio, POLI/UFRJ Vinicius Netto, UFF

Leonardo Salazar Bittencourt, UFAL Wilson Florio, Unicamp

Leopoldo Eurico Gonçalves Bastos, UFRJ Yvonne Maggie, UFRJ


CADERNOS

38

Avaliadores - Revista 38
Evaluators - Edition 38

Adriano Tomitão Canas, UFU


Alina Santiago, UFSC
Amanda Saba Ruggiero, USP
Andréa da Rosa Sampaio, UFF
Ana Albano Amora, UFRJ
Anna Beatriz Ayroza Galvão, FAPESP *
Eline Maria Mora Pereira Caixeta, UFG
Ethel Pinheiro Santana, UFRJ
Flávia Brito do Nascimento, USP
Gabriel Girnos Elias de Souza, UFRRJ
Guilah Naslavsky, Columbia University
Helio Herbst, UFRRJ
Juarez Moara Santos Franco, UFRRJ
Julio Cesar Ribeiro Sampaio, ICOMOS
Karine Arimateia, UFRJ
Lídia Quieto Viana, UFBA
Luiz Eduardo Fontoura Teixeira, UFSC
Maria Beatriz Camargo Cappello, UFU
Marta Silveira Peixoto, UNIRITTER
Melissa Laus Mattos, UFFS
Monica Salgado, UFRJ
Natalia Miranda Vieira de Araújo, UFPE
Paulo Afonso Rheingantz, UFRJ
Rafael Barcellos Santos, UFRJ
Rodrigo Gonçalves, UFSC
Wilson Florio, Unicamp
IV

Palavra dos Editores Convidados

A ideia de um número especial do CADERNOS PROARQ sobre o Patrimônio


Moderno foi gestada sob o impacto das ações de desmonte de nossas instituições
e de apagamento da memória coletiva, sendo também fruto de longa reflexão
e parcerias em que contemplamos a ampliação desse campo de estudos no
âmbito da pesquisa e do ensino de pós-graduação e graduação. Essa proposta,
porém, teve início com as nossas preocupações e discussões no grupo de
pesquisa Lablugares1, em diálogos que trouxeram à superfície questões ainda
não contempladas, com a participação de estudantes e colaboradores como a
professora Dra. Claudia Carvalho2, e depois o professor Dr. Helio Herbst (UFRRJ),
a partir de um longo comprometimento com a produção moderna em teses
alinhadas3 ao assunto. Temos, assim, uma trajetória pautada pela discussão dos
fundamentos do moderno e de sua conservação.

Em 2021, quando tivemos ciência da proposta de alienação de diversos próprios


federais modernos, inclusive do edifício icônico do antigo Ministério da Educação
e Saúde, atual Palácio Capanema, considerado por Carlos Eduardo Comas (2010)4
não só como monumento da arquitetura moderna, mas como documento de uma
forma de fazer arquitetura5 , fizemos um primeiro movimento ao organizarmos
a mesa “Rumos do Patrimônio Moderno” no 12º Colóquio de Pesquisas do
PROARQ. Ensejando aprofundar e ampliar a discussão, convidamos a professora
Ana Tostões da Universidade Técnica de Lisboa, naquele momento presidente
do Docomomo Internacional, e o professor Silvio Oksman da Universidade
Presbiteriana Mackenzie, que é também membro do Comitê do Século XX do
Icomos. Também contamos nessa mesa com a participação da professora Dra.
Andrea Queiroz Rêgo, na época diretora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo

1 O LabLugares, coordenado pela profa. Dra. Ana M. G. Albano Amora e pelo prof. Rafael Barcellos Santos, é um grupo
de pesquisa em arquitetura e urbanismo, sediado no CNPq, que aborda a temática da arquitetura e das cidades a par-
tir de uma perspectiva histórica sobre a construção de lugares e das ideias, consubstanciadas nos projetos de edifícios
e urbanos.

2 Infelizmente, por conta de problemas pessoais, não pudemos contar, ao longo de todo o processo, com a participação
da larga experiência de Claudia Carvalho, arquiteta aposentada da Casa de Rui Barbosa e pesquisadora do PROARQ,
mas é inegável a sua colaboração na produção das ideias presentes no texto da chamada para a publicação deste
número.

3 Claudia Carvalho é autora da tese Preservação da Arquitetura Moderna: edifícios de escritório construídos no Rio
de Janeiro entre 1930 e 1960, defendida em 2006 na USP; Ana M. G Albano Amora defendeu sua tese O Nacional e
o Moderno: a arquitetura e saúde no Estado Novo nas cidades catarinenses em 2006 no IPPUR da UFRJ; e é de 2007
a tese de Helio Herbst Pelos salões das bienais, a arquitetura ausente nos manuais: expressões da arquitetura
moderna brasileira expostas nas bienais paulistanas (1951-1959), defendida na USP.

4 Carlos Eduardo Comas disserta sobre o assunto no artigo “Protótipo e monumento, um ministério, o ministério”
(1987), inserido na publicação Textos fundamentais sobre história da arquitetura moderna brasileira – parte 1,
organizada em 2010 por Abílio Guerra.

5 Cabe aqui lembrar de Le Goff e sua assertiva em relação às diferenças entre documento e monumento, já que do-
cumentos são alçados à condição de monumentos pelo poder e pelas instituições. No nosso caso, consideramos que as
edificações, monumentais ou não, podem ser documentos de determinadas formas do fazer arquitetônico. Do autor,
sugerimos a leitura de História e memória, publicado em 1996.

CADERNOS

38
V

– FAU/UFRJ, já que seria importante falarmos sobre o edifício Jorge Machado


Moreira, idealizado para acolher a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e que
hoje, após incêndios e pouca manutenção, encontra-se em estado de conservação
precário e abriga outras instituições da UFRJ, além da FAU/UFRJ. Nosso interesse
era balizar as ações internacionais a um caso concreto de grande envergadura e
que vivenciamos no dia a dia do nosso trabalho docente.

Outra questão que permeou nossas indagações está relacionada ao constante


culto à novidade e de uma estética do novo pela sociedade contemporânea6 .
Apesar dos edifícios modernos trazerem uma expressão formal e/ou técnica
contraposta ao antigo, as marcas que o tempo lhes impõe não são bem-vindas
em um contexto em que o lugar comum dos empreendimentos imobiliários
brancos, envidraçados e limpos está no imaginário da população. Por outro lado,
as edificações com mais de 70 anos, apesar das qualidades técnicas construtivas,
apresentam necessidades de adaptações e renovações para além do gosto dos
mais atentos às suas qualidades estéticas.

Assim, neste número do CADERNOS PROARQ, ao sermos convidados como


editores especiais, mantivemos a proposta de expandir a chamada para artigos
das organizações da sociedade civil que, aliadas à academia, discutem as
problemáticas do Patrimônio Moderno, como o Docomomo e o Icomos, e ainda o
Fórum de Entidades em Defesa do Patrimônio Cultural Brasileiro.

Acreditamos, assim, ao ver o conjunto de artigos aprovados, que todos cooperam


fortemente para consubstanciar os três eixos temáticos desenvolvidos para a
chamada de submissões e permitem, com uma grande envergadura, discutir e
propor ideias para: 1) Valores, História e Teoria do Patrimônio; 2) Preservação do
Patrimônio Moderno; 3) Ensino e Patrimônio.

Aproveitem as contribuições de nossos colegas que se dedicam ao Patrimônio


Moderno, a quem agradecemos a qualidade de seus trabalhos, tendo em vista
um contexto de reflexão sobre a cultura brasileira. Desejamos a todos uma ótima
leitura!

Ana M. G. Albano Amora (UFRJ) e Helio Herbst (UFRRJ)

Editores convidados

6 No livro A salvação do belo, publicado em 2019, Byung-Chul Han fala de uma estética do ‘liso’ assimilável pelo
grande público. Esta estética não provoca controvérsias, pois anestesia a percepção e configura um mundo de pura
positividade (imaginária).

CADERNOS

38
VI

A word from the guest editors

T he ideia of a special issue of CADERNOS PROARQ on Modern Heritage


was conceived under the impact of the actions of dismantling our institutions
and erasing the collective memory, being also the result of long reflection and
partnerships in which we contemplate the expansion of this field of study in the
scope of research and teaching at postgraduate and undergraduate levels. This
proposal, however, began with our concerns and discussions in the Lablugares1
research group, in dialogues that brought to the surface issues that had not yet been
addressed, with the participation of students and collaborators such as Professor
Dr. Claudia Carvalho2, and later Professor Dr. Helio Herbst (UFRRJ), based on a long
commitment to modern production in thesis which are aligned3 to the subject. Thus,
we have a trajectory guided by the discussion of the foundations of the modern and
its conservation.

In 2021, when we became aware of the proposed alienation of several modern


federal buildings, including the iconic building of the former Ministry of Education
and Health, currently the Capanema Palace, considered by Carlos Eduardo Comas
(2010)4 not only as a monument of modern architecture, but as a document of a
way of doing architecture5, we made a first move by organizing the roundtable
“Rumos do Patrimônio Moderno” at the 12th Research Colloquium of PROARQ. In
order to deepen and broaden the discussion, we invited Professor Ana Tostões from
Universidade Técnica de Lisboa, at that time president of Docomomo Internacional,
and professor Silvio Oksman from Universidade Presbiteriana Mackenzie, who is
also a member of the Icomos 20th Century Committee. We also count on this table
with the participation of Professor Dr. Andrea Queiroz Rêgo, at the time director of
the Faculty of Architecture and Urbanism – FAU/UFRJ, since it would be important

1 LabLugares, coordinated by prof. Dr. Ana M. G. Albano Amora and by Prof. Rafael Barcellos Santos is a research
group in architecture and urbanism, based at CNPq, which addresses the theme of architecture and cities from a
historical perspective on the construction of places and ideas, embodied in building and urban projects.

2 Unfortunately, due to personal problems, we could not count, throughout the process, with the participation of the
wide experience of Claudia Carvalho, a retired architect from Casa de Rui Barbosa and a researcher at PROARQ, but
her collaboration in the production of the ideas present in the text of the call for publication of this issue.

3 Claudia Carvalho is the author of the thesis Preservation of Modern Architecture: office buildings built in Rio de
Janeiro between 1930 and 1960, defended in 2006 at USP; Ana M. G Albano Amora defended her thesis The National
and the Modern: architecture and health in the Estado Novo in the cities of Santa Catarina in 2006 at the IPPUR
of UFRJ; and the 2007 thesis by Helio Herbst For the salons of the biennials, architecture absent from manuals:
expressions of modern Brazilian architecture exhibited at the São Paulo biennials (1951-1959), defended at USP.

4 Carlos Eduardo Comas talks about the subject in the article “Prototype and monument, a ministry, the ministry”
(1987), included in the publication Fundamental texts on the history of Brazilian modern architecture – part 1,
organized in 2010 by Abílio Guerra.

5 It is worth remembering Le Goff and his assertion regarding the differences between document and monument since
documents are elevated to the status of monuments by power and institutions. In our case, we consider that buildings,
monumental or not, can be documents of certain forms of architectural work. From the author, we suggest reading
History and Memory, published in 1996.

CADERNOS

38
VII

to talk about the Jorge Machado Moreira building, designed to house the Faculty of
Architecture and Urbanism and which today, after fires and little maintenance, finds
It is in a precarious state of conservation and is home to other UFRJ institutions,
in addition to the FAU/UFRJ. Our interest was to guide international actions to a
concrete case of great scope and that we experience in the day to day of our teaching
work.

Another issue that permeated our inquiries is related to the constant cult of novelty
and an aesthetic of the new by contemporary6 society. Although modern buildings
bring a formal and/or technical expression opposed to the old one, the marks that
time imposes on them are not welcome in a context where the common place of
white, glazed and clean real estate developments is in the imagination of the
population. On the other hand, buildings over 70 years old, despite the technical
constructive qualities, present needs for adaptations and renovations beyond the
taste of those most attentive to their aesthetic qualities.

Thus, in this issue of CADERNOS PROARQ, when we were invited as special


editors, we maintained the proposal to expand the call for articles by civil society
organizations that, allied to the academy, discuss the issues of Modern Heritage,
such as Docomomo and Icomos, and and the Forum of Entities in Defense of
Brazilian Cultural Heritage.

We believe, therefore, when looking at the set of approved articles, that all
cooperate strongly to substantiate the three thematic axes developed for the call
for submissions and allow, with a great scope, to discuss and propose ideas for: 1)
Values, History and Theory of Patrimony; 2) Preservation of Modern Heritage; 3)
Education and Heritage.

Take advantage of the contributions of our colleagues who are dedicated to Modern
Heritage, to whom we are grateful for the quality of their work, in view of a context
of reflection on Brazilian culture. We wish you all a great read!

Ana M. G. Albano Amora (UFRJ) e Helio Herbst (UFRRJ)

Guest Editors

6 In the book The Salvation of the Beauty, published in 2019, Byung-Chul Han talks about an aesthetic of the ‘smooth’
that can be assimilated by the general public. This aesthetic does not provoke controversy, as it anesthetizes perception
and configures a world of pure (imaginary) positivity.

CADERNOS

38
VIII Editorial

Novas Perspectivas para


ações conjugadas sobre o
Patrimônio Moderno

O volume 38, que chega a todos os leitores neste momento, traz dois marcos:
a celebração dos 35 anos de existência do PROARQ e a completude da edição
especial do Cadernos PROARQ Perspectivas do Patrimônio Moderno, pensada e
organizada de modo a reacender uma discussão importante e emergente sobre
o impacto de diversas ações governamentais de apagamento do valor de nossas
instituições, grande parte delas alojadas em edifícios e em cenários demarcados
pelo legado do Movimento Modernista Nacional e pela Arquitetura Moderna.
Nossos editores especiais, profs. Ana M. G. Albano Amora e Helio Herbst,
convidados para tecer, alinhavar e organizar todas as discussões propostas
por artigos submetidos e aprovados nesta temática, organizaram este dossiê
temático a partir de eixos estruturantes, em seções da revista, que reforçam o
papel da reflexão e das proposições no âmbito da pesquisa em arquitetura e
urbanismo, em suas muitas articulações com o conceito de patrimônio.

Neste ensejo, o primeiro artigo-âncora mostra o ensaio “Memória e transferências”


de Ana Tostões. Nele, a professora discorre sua experiência à frente do Docomomo
Internacional e discute o valor da arquitetura do Movimento Moderno, entendida
como instrumento de transformação sustentável das sociedades globalizadas.

Para nos falar sobre as outras duas organizações, contamos com a contribuição
de Leonardo Castriota e Flávio Carsalade. No artigo “Os desafios da preservação
do moderno: a atuação do Icomos/Brasil”, os autores dissertam sobre os esforços
empreendidos para a preservação de manifestações culturais tão próximas no
tempo, superando entraves advindos das tecnologias construtivas e confrontando
as inúmeras conotações, positivas e negativas, atribuídas a esse tipo de
arquitetura. O diálogo estabelecido a partir da atuação de Tostões, Castriota
e Carsalade nos órgãos de defesa do patrimônio citados, constitui o ponto de
partida das discussões sobre o tema proposto para a revista, “Perspectivas do
Patrimônio Moderno”.

Os demais artigos selecionados para a edição 38 foram correlacionados a cada


um dos três eixos temáticos: 1) Valores, História e Teoria do Patrimônio; 2)
Preservação do Patrimônio Moderno; 3) Ensino e Patrimônio.

O primeiro eixo, “Valores, História e Teoria do Patrimônio”, reúne quatro artigos


que recorrem às fontes referenciais para formular propostas de leitura e de
valoração do patrimônio arquitetônico moderno, contribuindo para a busca por

CADERNOS

38
IX Editorial

novos caminhos, entre os quais se inscrevem textos que abordam a perspectiva


decolonial, questões de gênero e um olhar menos centrado nas formulações
europeias, pautando-se pelo entendimento da especificidade dos objetos
arquitetônicos modernos e das condições locais para a sua preservação.

Assim, o primeiro eixo reúne novas formulações interpretativas e de valor para o


patrimônio. O artigo “Considerações sobre a conservação da arquitetura moderna:
contrapontos entre Docomomo e Icomos/ISC20C”, de Ana Carolina de Souza
Bierrenbach e Julia Pela Meneghel, complementa as discussões postas pelos
artigos âncora ao discorrer sobre as orientações teóricas e práticas instituídas
pelo Docomomo e Icomos, mostrando contrapontos e similaridades nas
orientações teóricas acerca das especificidades para conservação e intervenção
no patrimônio.

No artigo “A valorização de uma arquitetura em madeira representativa


do período inicial da construção de Brasília: entre “barraco” e patrimônio
cultural”, Daniela Barbosa e Maria Fernanda Derntl analisam os dossiês de
tombamento do Catetinho, entre outras referenciais na implantação da Capital
Federal, observando-se os processos de construção de valor desses edifícios
enquanto patrimônio e indicando o avanço na significação de uma arquitetura
representativa do período inicial da construção de Brasília, associado ao
pioneirismo e simbologia da esperança depositada nesta nova capital.

“Paulo Casé e a produção de hotéis (trans)modernos no Brasil”, de Ricardo


Paiva e Beatriz Diógenes, examina a produção de hotéis projetados por Paulo
Casé ao longo da década de 1970, enfatizando o valor cultural desses edifícios
e a contribuição do arquiteto para a proposição de novos paradigmas para a
produção arquitetônica moderna no Brasil.

Por sua vez, o artigo “Utopias tecnológicas, estratégias e realidades do patrimônio


da arquitetura moderna brasileira: uma análise gráfica da habitação do futuro
proposta pelo arquiteto Eduardo Longo”, assinado por Carlos Teixeira, Rafael
Perrone e Renato Vizioli, investiga, por meio de análise gráfica, a estratégia e
a abordagem projetual das chamadas “Habitações do Futuro”, enfatizando o
legado lançado por Eduardo Longo para o questionamento de hábitos e valores
socialmente consagrados.

O segundo eixo, “Preservação do Patrimônio Moderno” é formado por cinco artigos


e examina as ações sistemáticas de inventário, seleção e tutela, transcorridas
por mais de três décadas nas práticas de preservação do patrimônio moderno.
Encontram-se agrupados artigos que discutem os princípios correntes de
preservação, problematizando questões relacionadas à autenticidade, à
materialidade e à significância do projeto original, fatores que têm impulsionado
diferentes interpretações, decorrentes da grande variedade de manifestações e
especificidades técnicas e funcionais. Este eixo reúne reflexões e trabalhos que
abordem o tema de forma ampliada, incluindo levantamentos, inventários,
conservação e restauração.

CADERNOS

38
X Editorial

Assim, “Habitação moderna e os desafios da preservação. O IAPI Vila Guiomar,


Santo André/SP”, de Flávia Brito do Nascimento, Larissa Silva-Dias e Ana
Beatriz Costa, analisa os processos de implantação, ocupação, transformação
e preservação do Conjunto Residencial Vila Guiomar, sendo a obra investigada
não apenas a partir de sua materialidade, como também em diálogo com seus
moradores, vistos como principais agentes de interação, modificação e atribuição
de significados.

No artigo “Restauro do concreto aparente do patrimônio moderno: aspectos


técnicos de casos práticos”, Rosana Muñoz e Marcos Tognon apresentam
relevante contribuição relacionada aos procedimentos técnicos de conservação
e restauro de estruturas de concreto armado aparente, valendo-se da análise de
duas intervenções internacionais em conjuntos residenciais de interesse social,
com vistas ao paralelismo com a realidade nacional.

“Onde está o edifício moderno e para onde foi a cidade? Arquitetura moderna
e centralidades em Juazeiro do Norte – Ceará”, de Hévila Ribeiro, Wylnna
Vidal e Lucy Donegan, analisa as dinâmicas urbanas associadas à difusão da
arquitetura moderna na região do Cariri cearense, observando-se, por meio da
Análise Sintática do Espaço (ASE), a lógica de implantação dos edifícios na malha
urbana da cidade de Juazeiro do Norte.

“A casa da arquiteta Maria Nadir de Carvalho em Curitiba (1975)”, assinado por


Felipe Sanqueta, Fernanda Stival e João Carlos Cesar, disserta sobre a contribuição
de Maria Nadir de Carvalho (1952-2021) para a produção arquitetônica moderna
paranaense, tendo como objeto de estudo a documentação historiográfica e a
análise descritiva do projeto de sua própria residência.

O artigo “A residência de fim de semana de Affonso Eduardo Reidy e sua passagem


no tempo”, assinado por Marta Cristina Guimarães, propõe a análise, à luz do
campo patrimonial, de uma obra seminal na trajetória de Affonso Eduardo
Reidy, com foco na descaracterização total empreendida após a transferência
da propriedade, apresentando o histórico da obra desde o projeto original até as
alterações realizadas pelos atuais proprietários.

O terceiro eixo, “Ensino e Patrimônio”, reúne três artigos nos quais se discute
a fundamentação teórica e as práticas ensino de Arquitetura e Urbanismo
relacionadas à preservação do patrimônio. Os artigos aqui reunidos examinam
a apreensão de conteúdos históricos vinculados a questões teóricas e práticas
do campo ampliado da Arquitetura e Urbanismo, relacionando-as com o
entendimento de problemas específicos do campo do Patrimônio, bem como de
uma agenda de atuação sobre as obras patrimonializadas sob diversos pontos
de vista da atividade projetual, em termos de recuperação, de restauro, ou de
intervenção, com a inserção de novas construções.

Nesse sentido, “Inventário da Arquitetura Moderna Paulista como experiência


acadêmica”, de Fernando Vázquez Ramos, Mirthes Baffi, Maria Isabel
Imbronito, Eneida de Almeida e Andrea Tourinho, discute os procedimentos de

CADERNOS

38
XI Editorial

pesquisa utilizados para a documentação e análise de obras referenciais da produção


arquitetônica moderna na cidade de São Paulo, particularizando diversos formatos,
lógicas e grupos por trás do processo de inventariação.

O artigo “O GT-Brasília na trajetória de patrimonialização da capital: um olhar sobre


a Brasília patrimônio”, de Jéssica da Silva, Ana Elisabete Medeiros e Maria Fernanda
Derntl, versa sobre a metodologia utilizada na análise das diferentes morfologias do
Distrito Federal - Brasil, com foco no Plano Piloto, observando-se a contribuição da
equipe para o reconhecimento e salvaguardo do Conjunto Urbanístico de Brasília.

Por fim, “Um breve panorama sobre o ensino superior de patrimônio no Brasil no
contexto Latino-Americano”, de Flávio Carsalade, encerra o eixo e a revista 38,
apresentando resultados do projeto de pesquisa “Por uma nova epistemologia no
campo do Patrimônio Cultural, seu ensino e o cenário internacional”, centrado na
análise do ensino de patrimônio cultural no Brasil, nos níveis de graduação e pós-
graduação e na América Latina, e oferecendo um breve diagnóstico sobre a educação
em patrimônio no hemisfério sul.

Esperamos que leitores iniciados na temática, instigados ou aspirantes à pesquisa


encontrem nas reflexões de nossos colegas, que se dedicam ao Patrimônio Moderno,
a densidade das análises revelam caminhos, propostas e soluções para os dilemas
recentes do patrimônio nacional. Uma boa leitura a todos!

Ethel Pinheiro Santana, chefe de editoria

Aline Calazans Marques, co-chefe de editoria

Comissão Editorial

Ana Albano Amora

Helio Herbst

Editores convidados

Maria Julia Santos e Barbara Thomaz

Coordenação Executiva

Thiago Rangel, Clarice Muhlbauer, Domitila Almenteiro e Mylenna Merlo

Secretaria executiva

CADERNOS

38
XII Editorial

New Perspectives for


Combined Actions on Modern
Heritage

V olume 38, which is now available to all readers, brings two milestones: the
celebration of PROARQ's 35 years of existence and the completion of the special
edition of Cadernos PROARQ, Perspectivas do Patrimônio Moderno, designed and
organized in order to reignite an importante and emerging discussion on the impact
of various governmental actions to erase the value of our institutions, most of them
housed in buildings and in scenarios demarcated by the legacy of the National
Modernist Movement and by the Modern Architecture. Our special editors, profs.
Ana Albano Amora and Helio Herbst, invited to weave, stitch and organize all the
discussions proposed by submitted and approved articles on this topic, managed
to put together many structuring ideas in sections of the Journal that reinforce the
role of reflection and propositions in the scope of the research in architecture and
urbanism.

On this occasion, the first anchor article shows the essay “Memory and transferences”
by Ana Tostões. In it, the professor discusses her experience at the head of Docomomo
Internacional and discusses the value of the architecture of the Modern Movement,
understood as an instrument for the sustainable transformation of globalized societies.

To tell us about the other two organizations, we have the contribution of Leonardo
Castriota and Flávio Carsalade. In the article “The challenges of preserving the modern:
the performance of Icomos/Brasil”, the authors discuss the efforts undertaken to
preserve cultural manifestations so close in time, overcoming obstacles arising from
constructive technologies and confronting the numerous connotations, positive and
negative. negative, attributed to this type of architecture. The dialogue established
from the performance of Tostões, Castriota and Carsalade in the aforementioned
heritage defense agencies constitutes the starting point of the discussions
on the theme proposed for the magazine, “Perspectives of Modern Heritage”.

To tell us about the other two organizations, we have the contribution of Leonardo
Castriota and Flávio Carsalade. In the article “The challenges of preserving the modern:
the performance of Icomos/Brasil”, the authors discuss the efforts undertaken to
preserve cultural manifestations so close in time, overcoming obstacles arising from
constructive technologies and confronting the numerous connotations, positive and
negative. negative, attributed to this type of architecture. The dialogue established
from the performance of Tostões, Castriota and Carsalade in the aforementioned
heritage defense agencies constitutes the starting point of the discussions
on the theme proposed for the magazine, “Perspectives of Modern Heritage”.

CADERNOS

38
XIII Editorial

The other articles selected for issue 38 were correlated to each of


the three thematic axes: 1) Heritage Values, History and Theory;
2) Preservation of Modern Heritage; 3) Education and Heritage.

The first axis, “Values, History and Theory of Heritage”, brings together four articles
that resort to referential sources to formulate proposals for reading and valuing the
modern architectural heritage, contributing to the search for new paths, among which
are inscribed texts that approach the decolonial perspective, gender issues and a less
focused view on European formulations, guided by the understanding of the specificity
of modern architectural objects and the local conditions for their preservation.

Thus, the first axis brings together new interpretative and value-added formulations
for heritage. The article “Considerations on the conservation of modern architecture:
counterpoints between Docomomo and Icomos/ISC20C”, by Ana Carolina de Souza
Bierrenbach and Julia Pela Meneghel, complements the discussions raised by the
anchor articles by discussing the theoretical and practical guidelines established by
Docomomo and Icomos, showing counterpoints and similarities in the theoretical
orientations about the specificities for conservation and intervention in the heritage.

In the article “The valorization of a representative wooden architecture of the


initial period of the construction of Brasília: between “shack” and cultural
heritage”, Daniela Barbosa and Maria Fernanda Derntl analyze the dossiers on
Catetinho’s heritage status, among other references in the implementation of the
Federal Capital. , observing the processes of construction of the value of these
buildings as heritage and indicating the advance in the meaning of an architecture
representative of the initial period of the construction of Brasília, associated with
the pioneering spirit and symbolism of the hope deposited in this new capital.

“Paulo Casé and the production of (trans)modern hotels in Brazil”, by


Ricardo Paiva and Beatriz Diógenes, examines the production of hotels
designed by Paulo Casé throughout the 1970s, emphasizing the cultural
value of these buildings and the contribution of the architect for the
proposition of new paradigms for modern architectural production in Brazil.

In turn, the article “Technological utopias, strategies and realities of the heritage
of modern Brazilian architecture: a graphic analysis of the housing of the future
proposed by the architect Eduardo Longo”, signed by Carlos Teixeira, Rafael
Perrone and Renato Vizioli, investigates, through graphic analysis, strategy and
design approach of the so-called “Habitações do Futuro”, emphasizing the legacy
launched by Eduardo Longo to question socially established habits and values.

The second axis, “Preservation of Modern Heritage” is made up of five articles


and examines the systematic actions of inventory, selection and guardianship,
over more than three decades in the practices of preserving modern heritage.
There are grouped articles that discuss the current principles of preservation,
questioning issues related to authenticity, materiality and significance of the
original project, factors that have driven different interpretations, resulting from

CADERNOS

38
XIV Editorial

the wide variety of manifestations and technical and functional specificities.


This axis brings together reflections and works that approach the subject in
a broader way, including surveys, inventories, conservation and restoration.

Thus, “Modern housing and the challenges of preservation. The IAPI Vila Guiomar,
Santo André/SP”, by Flávia Brito do Nascimento, Larissa Silva-Dias and Ana Beatriz
Costa, analyzes the processes of implantation, occupation, transformation and
preservation of the Vila Guiomar Residential Complex, the work being investigated
not only the from its materiality, as well as in dialogue with its residents, seen
as the main agents of interaction, modification and attribution of meanings.

In the article “Restoration of exposed concrete in modern heritage: technical aspects of


practical cases”, Rosana Muñoz and Marcos Tognon present a relevant contribution
related to technical procedures for the conservation and restoration of exposed
reinforced concrete structures, using the analysis of two international interventions in
residential complexes of social interest, with a view to paralleling the national reality.

“Where is the modern building and where has the city gone? Modern
architecture and centralities in Juazeiro do Norte – Ceará”, by Hévila Ribeiro,
Wylnna Vidal and Lucy Donegan, analyzes the urban dynamics associated
with the diffusion of modern architecture in the Cariri region of Ceará,
observing, through the Syntactic Analysis of Space ( ASE), the logic of
implantation of buildings in the urban fabric of the city of Juazeiro do Norte.

“The house of the architect Maria Nadir de Carvalho in Curitiba (1975)”,


signed by Felipe Sanqueta, Fernanda Stival and João Carlos Cesar, talks about
the contribution of Maria Nadir de Carvalho (1952-2021) to the modern
architectural production of Paraná, having as object of study the historiographical
documentation and the descriptive analysis of the project of his own residence.

The article “Affonso Eduardo Reidy’s weekend residence and its passage in time”, signed
by Marta Cristina Guimarães, proposes the analysis, in the light of the patrimonial
field, of a seminal work in the trajectory of Affonso Eduardo Reidy, focusing on the
total de-characterization undertaken after the transfer of ownership, presenting the
history of the work from the original project to the changes made by the current owners.

The third axis, “Education and Heritage”, brings together three articles in which the
theoretical foundation and teaching practices of Architecture and Urbanism related
to heritage preservation are discussed. The articles gathered here examine the
apprehension of historical contents linked to theoretical and practical issues in the
expanded field of Architecture and Urbanism, relating them to the understanding
of specific problems in the field of Heritage, as well as an action agenda on the
heritage works under different points of view of the design activity, in terms of
recovery, restoration, or intervention, with the insertion of new constructions.

In this sense, “Inventory of Modern Paulista Architecture as an academic experience”,


by Fernando Vázquez Ramos, Mirthes Baffi, Maria Isabel Imbronito, Eneida de Almeida
and Andrea Tourinho, discusses the research procedures used for the documentation
and analysis of reference works of architectural production. in the city of São Paulo,
particularizing different formats, logics and groups behind the inventorying process.

CADERNOS

38
XV Editorial

The article “The GT-Brasília in the trajectory of patrimonialization of the capital: a look
at Brasília patrimony”, by Jéssica da Silva,Ana Elisabete Medeiros and Maria Fernanda
Derntl, deals with the methodology used in the analysis of the different morphologies
of the Federal District - Brazil , focusing on the Plano Piloto, observing the team's
contribution to the recognition and safeguarding of the Urbanistic Complex of Brasília.

Finally,“A brief overview of higher education on heritage in Brazil in the Latin American
context”, by Flávio Carsalade, closes the axis and the journal 38, presenting results
of the research project “For a new epistemology in the field of Cultural Heritage , its
teaching and the international scenario”, focused on the analysis of cultural heritage
education in Brazil, at the undergraduate and graduate levels and in Latin America,
and offering a brief diagnosis on heritage education in the southern hemisphere.

We hope that readers initiated in the subject, instigated or aspiring to


research, will find in the reflections of our colleagues, who are dedicated
to Modern Heritage, the density of analyzes reveal paths, proposals and
solutions to the recent dilemmas of national heritage. A good read to all!

Ethel Pinheiro Santana

Aline Calazans Marques

Editorial Committee

Ana Albano Amora

Helio Herbst

Guest Editors

Maria Julia Santos and Barbara Thomaz

Executive Coordination

Thiago Rangel, Clarice Muhlbauer, Domitila Almenteiro, Mylenna Merlo

Executive Secretariat

CADERNOS

38
XVI
CADERNOS
CADERNOS

18
38

Sumário Contents

1
Memória e transferências

Memory and transfers


Ana Tostões 76
Paulo Casé e a produção de hotéis (trans)modernos
no Brasil

16 Paulo Casé and the production of (trans)modern hotels


in Brazil
Os desafios da preservação do moderno. A
atuação do ICOMOS/BRASIL Ricardo Alexandre Paiva e Beatriz Helena Nogueira
Diógenes

The challenges of preserving the modern: the work of


ICOMOS/BRAZIL
Leonardo Barci Castriota e Flávio Lemos Carsalade
98
Utopias Tecnológicas, Estratégias e Realidades do
Patrimônio da Arquitetura Moderna Brasileira:

35 Uma Análise Gráfica da Habitação do Futuro


Proposta pelo Arquiteto Eduardo Longo
Considerações sobre a conservação da
Arquitetura Moderna: Contrapontos entre Tech-Utopias, Strategies and Realities of the Modern
Docomomo e Icomos/ISC20C Brazilian Architecture Heritage: A Graphic Analysis
of the House of the Future, Proposed by Architect
Eduardo Longo
Considerations on Modern Architecture conservation:
Counterpoints between Docomomo and Icomos/ Carlos Marcelo Campos Texeira, Renato Vizioli e
ISC20C Rafael Antonio Cunha Perrone
Ana Carolina de Souza Bierrenbach e Júlia Pela
Meneghel

127
58 Habitação moderna e os desafios da preservação:
o IAPI Vila Guiomar, Santo André/SP
A valorização de uma arquitetura em madeira
representativa do período inicial da construção de Modern Housing and the challenges of preservation:
Brasília: entre “barraco” e patrimônio cultural IAPI Vila Guiomar, Santo André/SP
Ana Beatriz Pahor Pereira da Costa, Larissa Cristina
The valuation of a wooden architecture representative da Silva-Dias e Flávia Brito do Nascimento
of the early period of the construction of Brasilia:
between "shack" and cultural heritage
Daniela Pereira Barbosa e Maria Fernanda Derntl

CADERNOS

38
CADERNOS
CADERNOS

18
38

Sumário Contents

152
Restauro do concreto aparente do patrimônio
moderno:aspectos técnicos de casos práticos

Restoration of modern heritage’ exposed concrete:


technical aspects of practical cases

233
Rosana Muñoz e Marcos Tognon

Inventário da Arquitetura Moderna Paulista como


experiência acadêmica
173
Heritage Listing of Modern Paulista Architecture as an
Onde está o edifício moderno e para onde foi a
academic experience
cidade? Arquitetura moderna e centralidades em
Juazeiro do Norte – Ceará, Brasil Fernando Guillermo Vázquez Ramos, Andréa de Oliveira
Tourinho, Eneida de Almeida, Maria Isabel Imbronito e
Mirthes Ivany Soares Baffi
Where is the modern building and where has the city
gone? Modern architecture and centralities in Juazeiro
do Norte – Ceará, Brazil
Hévila Rayana Cruz Ribeiro, Lucy Donegan e Wylnna
Carlos Lima Vidal
253
O GT-Brasília na trajetória de patrimonialização da
capital

194 The GT-Brasília in the capital’s patrimonialization


A casa da arquiteta Maria Nadir de Carvalho em Jéssica Gomes da Silva, Maria Fernanda Derntl e Ana
Curitiba (1975) Elisabete De Almeida Medeiros

The house of the architect Maria Nadir de Carvalho in


Curitiba (1975)
Felipe Taroh Inoue Sanquetta, João Carlos de Oliveira
Cesar e Fernanda Bertoli Stival 273
Um breve panorama sobre o ensino superior de
patrimônio no Brasil no contexto Latino-Americano

213 A brief overview of higher education in


heritage in Brazil in the Latin American context.
A Residência de Fim de Semana de Affonso E. Flávio de Lemos Carsalade, Rafael Almeida de Oliveira e
Reidy e sua Passagem no Tempo Ana Beatriz Rocha Moreira.

Affonso E. Reidy’s Weekend House and its Passage in


Time
Marta Cristina Guimarães

CADERNOS

38
CADERNOS

38

ANA TOSTÕES

Memória e transferências
Memory and transfers
Memoria y transferencias
ANA TOSTÕES

Memória e transferências
2 Memory and transfers
Memoria y transferencias

Ana Tostões
Arquiteta (ESBAL,1982) e historiadora de arquitetura
(UNL,1995), professora catedrática no Intituto Superior
Técnico da Universidade de Lisboa onde coordena o
Doutorado em Arquitetura. Entre 2010 e 2021 presidiu
o Docomomo Internacional, sendo responsável
pela editoria do Docomomo Journal. Durante o seu
mandato, o Docomomo passou de uma organização
maioritariamente europeia para uma rede de escala
global coordenando 74 países nos cinco continentes
(www.docomomo.com).

É Professora convidada na Universidade de Tóquio, na


École Polytechnique Fédérale de Lausanne, Katholik
University Leuven, University of Texas at Austin
School of Architecture, Rice School of Architecture de
Houston, Escola Tècnica Superior d'Arquitectura de
Barcelona, Escuela Técnica Superior de Arquitectura da
Universidad de Navarra e na Faculdade de Arquitetura
da Universidade do Porto.

O seu campo de pesquisa é a história da arquitetura e


do urbanismo modernos. Sobre estes temas publicou
livros e artigos científicos, foi curadora de uma dezena
de exposições e participou em júris, comités científicos
e palestras em Universidades Europeias, Africanas,
Americanas e Asiáticas. Destaca-se a curadoria das
Exposições “Arquitectura do Século XX em Portugal”,
patente no Centro Cultural de Belém e no Deutsches
Architektur Museum em Frankfurt, “Sede e Museu
Gulbenkian, a arquitectura dos anos 60” celebrando o
cinquentenário da Fundação Gulbenkian, “Lisbon 1758,
the Baixa Plan today” comemorativa dos 250 anos do
plano de reconstrução da cidade.

Depois do volume Verdes anos na Arquitectura


Portuguesa (ed. FAUP, 1997), publicou Idade Maior,
Cultura e Tecnologia na Arquitectura Moderna
Portuguesa (FAUP, 2015) galardoada com o Prémio da X
Bienal Ibero-Americana de Arquitectura y Urbanismo
e editou Arquitectura Moderna em África: Angola
e Moçambique distinguido com o prémio Prémio
Gulbenkian da Academia Portuguesa de História (2014).
Atualmente é investigadora responsável do projecto
“Cure and Care” focado no estudo dos equipamentos de
saúde construídos em Portugal no século XX e na sua
reabilitação. Em 1994 recebeu o Prémio Municipal Júlio
de Castilho de Olisipografia.

Foi membro do Conselho Consultivo do IPPAR, Vice-


presidente da Ordem dos Arquitetos e da Secção
Portuguesa da AICA. Em 2006 foi agraciada pelo
Presidente da República com o grau de comendador da
Ordem do Infante Dom Henrique pelo seu trabalho de
investigação e divulgação da arquitetura

CADERNOS

38
ANA TOSTÕES

Memória e transferências
3 Memory and transfers
Memoria y transferencias

Ana Tostões
Architect (ESBAL, 1982) and architectural historian (UNL,
1995), full professor at the Instituto Superior Técnico of the
University of Lisbon where she coordinates the Doctorate in
Architecture. Between 2010 and 2021, Tostões chaired Do-
comomo International, being responsible for the editorship
of the Docomomo Journal. During her tenure, Docomomo
grew from a mostly European organization to a global scale
network coordinating 74 countries on five continents (www.
docomomo.com).

She is a visiting professor at the University of Tokyo, École


Polytechnique Fédérale de Lausanne, Katholik University
Leuven, University of Texas at Austin School of Architecture,
Rice School of Architecture, Houston, Escola Tècnica Superior
d'Arquitectura de Barcelona, Escuela Técnica Superior de Ar-
quitectura da University of Navarra and at the Faculty of
Architecture of the University of Porto.

Her field of research is the history of modern architecture and


urbanism. On these topics she has published books and sci-
entific articles, curated a dozen exhibitions and participated
in juries, scientific committees and lectures at European, Afri-
can, American and Asian Universities. The curatorship of the
exhibitions “Architecture of the 20th Century in Portugal”, at
the Centro Cultural de Belém and the Deutsches Architektur
Museum in Frankfurt, “Headquarters and Gulbenkian Mu-
seum, the architecture of the 60s” celebrating the 50th an-
niversary of the Gulbenkian Foundation, “ Lisbon 1758, the
Baixa Plan today” commemorating the 250th anniversary of
the city's reconstruction plan.

After the volume Verdes anos na Arquitectura Portuguesa


(FAUP ed., 1997), she published Age Maior, Cultura e Tec-
nologia na Arquitectura Moderna Portuguesa (FAUP, 2015),
which was awarded the X Bienal Ibero-Americana de Arqui-
tectura y Urbanismo and edited Arquitectura Moderna in
Africa: Angola and Mozambique awarded the Gulbenkian
Prize of the Portuguese Academy of History (2014). She is
currently the researcher in charge of the “Cure and Care”
project focused on the study of healthcare facilities built in
Portugal in the 20th century and their rehabilitation. In 1994
she received the Júlio de Castilho Municipal Prize for Olisi-
pografia.

She was a member of the Advisory Board of IPPAR, Vice-


President of the Ordem dos Arquitetos and of the Portuguese
Section of AICA. In 2006, she was awarded by the President
of the Republic with the degree of Commander of the Order
of Infante Dom Henrique for her work of research and dis-
semination of architecture.

CADERNOS

38
ANA TOSTÕES

Memória e transferências
4 Memory and transfers
Memoria y transferencias

Ana Tostões
Arquitecta (ESBAL, 1982) e historiadora de la arquitectura
(UNL, 1995), profesora titular del Instituto Superior Técnico
de la Universidad de Lisboa donde coordina el Doctorado en
Arquitectura. Entre 2010 y 2021 presidió Docomomo Inter-
nacional, siendo responsable por la edición de Docomomo
Journal. Durante su mandato, Docomomo pasó de ser una
organización mayoritariamente europea a una red de esca-
la mundial que coordina 74 países en los cinco continentes
(www.docomomo.com).

Es profesora invitada en la Universidad de Tokio, École Poly-


technique Fédérale de Lausanne, Katholik University Leuven,
University of Texas at Austin School of Architecture, Rice
School of Architecture, Houston, Escola Tècnica Superior
d'Arquitectura de Barcelona, Escuela Técnica Superior de Ar-
quitectura da Universidad de Navarra y en la Facultad de
Arquitectura de la Universidad de Oporto.

Su campo de investigación es la historia de la arquitectura


moderna y el urbanismo. Ha publicado libros y artículos
científicos sobre estos temas, curado una docena de exposi-
ciones y participado en jurados, comités científicos y confer-
encias en universidades europeas, africanas, americanas y
asiáticas. La curaduría de las exposiciones “Arquitectura del
siglo XX en Portugal”, en el Centro Cultural de Belém y el
Deutsches Architektur Museum de Frankfurt, “Sede y Museo
Gulbenkian, la arquitectura de los años 60” con motivo del
50 aniversario de la Fundación Gulbenkian, “Lisboa 1758, el
Plan Baixa hoy” con motivo del 250 aniversario del plan de
reconstrucción de la ciudad.

Tras el volumen Verdes anos na Arquitectura Portuguesa


(FAUP ed., 1997), publicó Age Maior, Cultura e Tecnologia
na Arquitectura Moderna Portuguesa (FAUP, 2015), que fue
premiado en la X Bienal Iberoamericana de Arquitectura y
Urbanismo y editó Arquitectura Moderna en África: Angola
y Mozambique premiados con el Premio Gulbenkian de la
Academia Portuguesa de la Historia (2014). Actualmente es
la investigadora responsable del proyecto “Cure and Care”
centrado en el estudio de los equipos de salud construidos en
Portugal en el siglo XX y en su rehabilitación. En 1994 recibió
el Premio Municipal Júlio de Castilho de Olisipografia.

Fue miembro del Consejo Asesor de IPPAR, Vicepresidente de


la Ordem dos Arquitetos y de la Sección Portuguesa de AICA.
En 2006 fue condecorada por el Presidente de la República
con el grado de Comandante de la Orden del Infante Dom
Henrique por su labor de investigación y divulgación de la
arquitectura.

[email protected]

CADERNOS

38
ANA TOSTÕES

Memória e transferências
5 Memory and transfers
Memoria y transferencias

Resumo
O patrimônio moderno tem de ser reconhecido como um modelo ou um manifesto, um
símbolo vital para um desenvolvimento arquitetónico e urbano duradouro, capaz de
redefinir o papel vital desta herança no conforto e o bem-estar sustentável das sociedades
globalizadas. Como é sabido, a conservação e a transmissão do património é uma tarefa
difícil que reclama por parte da sociedade a compreensão e o julgamento claro do valor
da arquitetura do Movimento Moderno. Encarada como um estimulante projeto coletivo,
uma das qualidades originais da própria natureza primeira do projeto moderno em si, a
arquitetura do Movimento Moderno permanece um projeto inovador em termos sociais,
espaciais e tecnológicos que está diretamente implicado com a comunidade e o desafio de
um mundo melhor.

Palavras-chave: Património. Arquitetura. Movimento Moderno.

Abstract
Modern heritage must be recognized as a model or a manifesto, a vital symbol for lasting
architectural and urban development, capable of redefining the vital role of this heritage in the
comfort and sustainable well-being of globalized societies. As is well known, the conservation
and transmission of heritage is a difficult task that requires society to understand and clearly
judge the value of the architecture of the Modern Movement. Viewed as a stimulating collective
project, one of the original qualities of the very first nature of the modern project itself, the ar-
chitecture of the Modern Movement remains an innovative project in social, spatial, and tech-
nological terms that is directly involved with the community and the challenge of a world best.

Keywords: Heritage. Architecture. Modern Movement.

Resumen
El patrimonio moderno debe ser reconocido como un modelo o un manifiesto, un símbolo vital
para un desarrollo arquitectónico y urbano duradero, capaz de redefinir el papel vital de este
patrimonio en el confort y el bienestar sostenible de las sociedades globalizadas. Como es bien
sabido, la conservación y transmisión del patrimonio es una tarea difícil que requiere que la
sociedad comprenda y juzgue con claridad el valor de la arquitectura del Movimiento Moderno.
Visto como un proyecto colectivo estimulante, una de las cualidades originales de la primera
naturaleza del propio proyecto moderno, la arquitectura del Movimiento Moderno sigue siendo
un proyecto innovador en términos sociales, espaciales y tecnológicos que está directamente
involucrado con la comunidad y el desafío. de un mundo mejor.

Palabras clave: Patrimonio. Arquitectura. Movimiento Moderno..

CADERNOS

38
ANA TOSTÕES

Memória e transferências
6 Memory and transfers
Memoria y transferencias

Introdução
A importância do DOCOMOMO, como uma organização mundialmente reconhecida, e
a sua capacidade para desenvolver iniciativas de intercâmbio de ideias e de experiências
implicam chamar a atenção pública, interessando todas as pessoas envolvidas nos
processos de conservação patrimonial, dos investigadores aos quadros técnicos e à
opinião pública que, ainda hoje, vêm o património do século XX com um certo grau de
indiferença. Neste sentido, o património moderno tem de ser reconhecido como um
modelo ou um manifesto, um símbolo vital para um desenvolvimento arquitetónico
e urbano duradouro, capaz de redefinir o papel vital desta herança no conforto e o
bem-estar sustentável das sociedades globalizadas. Como é sabido, a conservação e
a transmissão do património é uma tarefa difícil que reclama por parte da sociedade
a compreensão e o julgamento claro do valor da arquitetura do Movimento Moderno.
Encarada como um estimulante projeto coletivo, uma das qualidades originais da
própria natureza primeira do projeto moderno em si, a arquitetura do Movimento
Moderno permanece um projeto inovador em termos sociais, espaciais e tecnológicos
que está diretamente implicado com a comunidade e o desafio de um mundo melhor.

Fazer um balanço do trabalho desenvolvido pelo DOCOMOMO implica pensar que


o DOCOMOMO – Documentação e Conservação do Movimento Moderno – foi criado
há 30 anos, para assumir um papel fundamental: o da primeira e única organização
dedicada à conservação do património da arquitetura do Movimento Moderno.

Relembrando a constituição do DOCOMOMO, esta resume a sua missão: identificar,


promover e opor-se à destruição e desfiguramento do património moderno; trabalhar
para a disseminação do desenvolvimento de técnicas apropriadas para a reabilitação
e o reuso da arquitetura do Movimento Moderno; criar e chamar a atenção de meios
financeiros para o desenvolver; e explorar e desenvolver novas ideias para um
futuro do ambiente construído sustentável baseado nas experiências do passado do
Movimento Moderno.

Durante os 12 anos do meu mandato enquanto presidente do DOCOMOMO procurei


desenvolver uma dupla estratégia. Por um lado, importava promover ações de
reabilitação e transformação, isto é, intervenções sustentáveis e exemplares em
edifícios, conjuntos urbanos e paisagens do Movimento Moderno. O Prémio Europa
Nostra atribuído à reabilitação da Fábrica Van Nelle, em Roterdão, ou à intervenção
no conjunto habitacional do Lignon em Genebra, premiando obras de recuperação
de património moderno, constituem a confirmação dessa capacidade. Por outro lado,
apostei na continuação da tarefa de alargamento territorial, convocando outros
territórios culturais e geográficos onde a arquitetura do Movimento Moderno teve um
papel significativo. O objetivo de integrar novas geografias permitiu encarar o sentido
global da arquitetura do Movimento Moderno assegurando o reconhecimento da
diversidade de identidades culturais modernas no mundo.

A estratégia do meu mandato iniciado em 2010 assentava, assim, nessa ambição de abrir
o DOCOMOMO ao mundo, a todas as geografias, procurando reconhecer a dimensão
global do fenómeno da modernidade. Um dos aspetos importantes neste processo
foram os parceiros institucionais e também os membros internacionais. Agora ao fim
de 12 anos, o DOCOMOMO tem 31 novos working parties, contemplando um total de 77.

Muito importante na missão do DOCOMOMO tem sido o trabalho desenvolvido através


de um dos órgãos disseminadores, o Docomomo Journal. Publicado duas vezes por
ano, a partir de 2010 construído a partir de temas com a colaboração de editores
convidados, os temas dos journals são muito diversos, desde temáticos por regiões a
temáticos por tipologia ou autor, reforçando a ideia de que o Movimento Moderno não
é uma criação europeia, mas sim uma resposta ao mundo contemporâneo surgindo
em todos os continentes.

CADERNOS

38
ANA TOSTÕES

Memória e transferências
7 Memory and transfers
Memoria y transferencias

Outro aspeto valorizado na ação do DOCOMOMO é o da divulgação para um público


generalista do que é o trabalho erudito do DOCOMOMO. A virtual exhibition MoMove,
aplicação móvel criada em 2014, teve essa ambição, tendo tido grande sucesso,
funcionando em grande parte através da passagem da informação das fichas register
em informação muito simples para um público alargado. Outro aspeto fundamental
na ação do DOCOMOMO são as campanhas do património em perigo que, no fundo,
conduzem a sua atividade. E como sabem, decorrida em agosto e setembro de 2021,
a grande campanha conduzida com o Docomomo Brasil teve o objetivo de preservar
o edifício do Ministério da Educação e Saúde Publica (MESP)/Palácio Capanema
enquanto marco internacional da afirmação do Movimento Moderno no mundo,
alertou para a manutenção de um programa compatível com o valor do Bem. A
campanha chamou mundialmente à atenção para a ameaça à integridade do edifício
– um Bem Patrimonial que está na vanguarda da afirmação do Movimento Moderno
como símbolo público com impacto na cidade e no mundo, designadamente no que
podemos designar a modernidade e africana – e apelou à sua preservação.

A modernidade africana
Para um melhor conhecimento e compreensão da diáspora do Movimento Moderno, é
essencial revisitar, analisar e documentar o importante património moderno edificado
na África subsariana, onde o debate se verificou e os modelos arquitetónicos foram
reproduzidos, em muitos casos sujeitos às metamorfoses suscitadas pelas geografias
além-mar.

Com o objetivo de contribuir para a documentação, conhecimento e consequente


preservação do património arquitetónico moderno, o trabalho de investigação
conduzido no projeto EWV – Exchanging Worldwide Visions analisou a produção
arquitetónica filiada nos códigos do Movimento Moderno edificada nas cidades de
Angola e Moçambique, projetada e construída a partir da segunda metade do século
passado1. Destacam-se a modernidade dos programas arquitetónico, urbano e social
e, também, a pesquisa formal e tecnológica que a fundamentou, constituindo um
património caraterizador da arquitetura moderna nestes jovens países que começa a
ser internacionalmente reconhecido.

Com efeito, depois do estudo da arquitetura do Movimento Moderno em Portugal2 surgiu


um interesse em alargar a investigação à produção arquitetónica moderna realizada
nas ex-colônias portuguesas em África. É o caso de Angola e Moçambique, grandes
territórios da África subsariana que testemunharam um impulso desenvolvimentista
significativo no período entre o final da II Guerra Mundial e a revolução democrática
que transformou Portugal no 25 de Abril de 1974, conduzindo à independência desses
países no ano seguinte. Esta corrente apostada no desenvolvimento teve lugar num
processo tardio de afirmação colonial, desenvolvido no quadro político do Estado
Novo que sobrevive à guerra 3 e que, no que respeita a produção arquitetónica, ocorre
na circunstância do pós I Congresso Nacional de Arquitectura que teve lugar em 1948.

1 O projeto EWV – Exchanging Worldwide Visions foi um projeto de investigação sobre arquitetura moderna na
África lusófona, procurando estabelecer relações com o Brasil e o que foi a explosão de modernidade trazida
ao mundo pela arquitetura brasileira. Ver Ana Tostões (ed.), Arquitetura Moderna em África. Angola e Moçam-
bique, Lisboa, Caleidoscópio, 2013.

2 Sobre este assunto ver Ana Tostões, Os Verdes Anos na Arquitectura Portuguesa dos Anos 50, Porto, FAUP,
1997; Ana Tostões, Arquitectura Moderna Portuguesa 1920-1970, Lisboa, IPPAR, 2004; Ana Tostões, A Idade
Maior. Cultura e Tecnologia na Moderna Arquitetura Portuguesa, Porto, FAUP, 2015.

3 O pós-guerra foi também o tempo da contestação ao regime. O Estado Novo que politicamente sobrevive à
guerra, e ao que este facto significou politicamente no quadro da derrota dos fascismos, é uma realidade
social, económica e política bem distinta da dos anos 30, abrindo-se a primeira crise grave e global, em que a
questão do poder se coloca de alguma forma para as oposições. Cf. TOSTÕES, Ana. A Idade Maior. Cultura e
Tecnologia na Arquitectura Moderna Portuguesa, op. cit., p. 368

CADERNOS

38
ANA TOSTÕES

Memória e transferências
8 Memory and transfers
Memoria y transferencias

Hoje, uma nova consciência emerge do facto de que é necessário incluir África nos
nossos esforços para atingir uma compreensão abrangente da “diáspora moderna”4.
De facto, como tem sido reconhecido5, a partir da década de 90 os historiadores
descobriram a produção arquitetónica moderna em África como parte de uma
produção cultural relacionada com o colonialismo. Com a introdução da teoria pós-
colonial na historiografia da arquitetura, teve lugar uma crítica insistentemente
ideológica que refreou o desenvolvimento de uma autonomia disciplinar, inibindo um
olhar objetivo sobre esse património moderno. Recentemente, o desenvolvimento de
conceitos como híbrido ou “o outro”6 tem vindo a promover uma análise histórica
diferenciada sobre a arquitetura e a política no século XX em África7 permitindo
afrontar o reconhecimento de a arquitetura do Movimento Moderno no seu impulso
civilizador serviu sempre a colonização8 o que implica repensar o princípio básico
de bem-estar em que a sociedade moderna assenta, a ser assegurado por uma
arquitetura praticada como missão, ou seja, um serviço social capaz de garantir um
futuro melhor para todos. Importa, pois, indagar como foram cruzados os princípios
modernos, resultantes de uma cultura eurocêntrica, com as culturas ancestrais do
Oriente e da África. Além disso, deve-se dizer que o caso da África subsariana de
expressão lusófona começa agora a ser estudado em profundidade, sendo possível
encarar uma visão mais global destes universos ditos periféricos: Portugal e as ex-
colônias africanas, o Brasil e a América do Sul.

Na verdade, o Brasil em particular e a América Latina no geral, formam um universo


estimulante no contexto da cultura arquitetónica e da cidade modernas, que tem
sido esquecido pela historiografia e encarado por demasiado tempo como periferia.
Recentemente, vários investigadores argumentam pelo contrário a centralidade
destas inovações, de tal modo que é possível sustentar uma ideia de uma modernidade
transcontinental que congrega esses lugares e culturas, bem como a sua arquitetura
e urbanismo num quadro de influências partilhadas não só pela língua comum,
como também por modos de vida que decorrem da miscigenação de culturas que
caraterizou a colonização portuguesa.

A relação entre a África e a Europa teve um enorme papel no desenvolvimento


dos dois continentes, mantendo-se inseparavelmente ligados e influenciando-se
continuamente. Como é sabido, no final do século XV a influência europeia sobre
África entrou numa fase de exploração unilateral. Os portugueses, na procura de uma
rota marítima e alternativa para a Índia, começaram por volta de 1450 o período da
expansão, marcando o início da interferência europeia na África subsariana. Foram
depois seguidos pelos holandeses, franceses, espanhóis, ingleses: as costas africanas
foram despojadas e saqueadas começando no século seguinte a diáspora forçada
de milhões de africanos para as plantações do continente americano, durando até
ao século XIX. Mais tarde, a ocupação de África pelos europeus na sequência da
Conferência de Berlim (1884-1885) conduziu à partilha deste território pelos poderes
mundiais do tempo: Grã-Bretanha, França, Bélgica, Alemanha, Itália, Espanha
e Portugal. As fronteiras geográficas então definidas não refletiram a população

4 SHARP, Dennis; COOKE, Catherine (Eds.). DOCOMOMO: The Modern Movement in Architecture. Rotterdam:
010 Publishers, 2000.

5 LAGAE, Johan; AVERMAETE, Tom (Eds.). L’Afrique, c’est Chic. Architecture and Planning in Africa 1950-1970.
Rotterdam: NAi Publishers, 2010.

6 Ver “Other” Modernisms. INTERNATIONAL DOCOMOMO CONFERENCE, 9, 2006. Proceedings […]. Ankara: Do-
comomo International, 2006.

7 ARAEEN, Rasheed, A New Beginning: Beyond Postcolonial Cultural Theory and Identity Politics. Third Text, Lon-
don, v. 14, n. 50, p. 2-20, 2008. Apud LAGAE, Johan. Kulturmann and After. On the Historiography of 1950’s and
1960’s Architecture in Africa. In: LAGAE, Johan; AVERMAETE, Tom (Eds.), op. cit., p. 5-15.

8 KULTERMANN, Udo; FRAMPTON Kenneth. World Architecture 1900-2000: A Critical Mosaic. Wien: New York:
Springer Verlag, 2000. (Central and Southern Africa, v. 6), p. XXII.

CADERNOS

38
ANA TOSTÕES

Memória e transferências
9 Memory and transfers
Memoria y transferencias

nativa nem a sua cultura9 , e o processo de colonização caraterizou-se por uma


progressiva exploração, ocupação e penetração. No período entre as duas grandes
Guerras Mundiais do século XX, a África colonial foi sendo desenvolvida em fases de
grande escala, testemunhando a construção de estradas, caminho-de-ferro, portos,
complexos governamentais, plantações, escolas e hospitais10 .

As colônias portuguesas desenvolvem-se em velocidade mais moderada que as


demais europeias, assinalando-se em Moçambique, dois anos depois da Conferência
de Berlim, a transferência da capital da Ilha de Moçambique para Lourenço Marques,
atual Maputo, e a fundação da cidade com o Plano Araújo (1887) a marcar uma
estratégia clara de investimento no sul da colônia e na relação com a África do Sul, em
detrimento da ilha de Moçambique ou do Vale do Zambeze, onde, na era da expansão,
tinham sido fundadas Quelimane ou Tete. Tal como outras ocupações europeias que
ocorreram posteriormente à “partição” pós Conferência de Berlim, como Joanesburgo,
Durban, Salisbúria, Kaduna ou Lusaca, Lourenço Marques desenhava-se em grelha,
lembrando algumas cidades europeias11 , ou coloniais de fundação ocidental. No
advento do período republicano o acento é colocado em Angola na sequência
dos esforços de Norton de Matos (1867-1955) com a criação de Nova Lisboa (atual
Huambo)12 , com Plano de Carlos Roma Machado (1912) assinalando a vontade
desenvolvimentista do novo regime, através da penetração no território com a
fundação de um importante pólo de expansão no planalto fértil do Huambo. Em 1929,
a ocupação de Moçambique é reforçada com o Plano para a Beira, de Carlos Rebelo de
Andrade (1887-1971), seguido do Plano para Porto Amélia (1936), de Januário Moura,
no quadro da política de planeamento do Estado Novo e da publicação em 1930 do
Acto Colonial, a legislação que organizava o papel do Estado nas colônias portuguesas,
antecedendo a nova Constituição do Estado Novo de António Salazar (1889-1970) em
1933. Contudo, o investimento desenvolvimentista de expressão contemporânea
só tem lugar efetivo a partir dos anos 40 do século XX, acompanhando a estratégia
metropolitana na mudança, de uma política baseada na exploração rural, para um
desenvolvimento de cariz industrial, seguindo a estratégia de Ferreira Dias com a
criação do Ministério da Indústria em 1942, afirmando-se assim, pela primeira vez,
uma política de claro acento industrial13 . Como se verá adiante, a criação do Gabinete
de Urbanização Colonial (GUC) dois anos depois, e a partir de 1953 o lançamento dos
Planos de Fomento14 que passam a integrar uma política baseada numa estratégia
acelerada de desenvolvimento nas colônias africanas com um reforço significativo de
ações, estão na base dos empreendimentos relacionados com o surto de arquitetura
e urbanismo modernos.

Como refere Antoni Folkers, “a última era da colonização em África, cujo fim começa
em 1960, caracterizou-se por um esforço colonial destinado a adiar as independências,
introduzindo as bases de construção de um moderno estado-providência” 15. Devido,
quer à ausência de investimento ocidental em infraestruturas em África, quer à
negação do significado de uma tradicional cultura africana, foram introduzidas
infraestruturas completamente novas baseadas nos parâmetros ocidentais de
modernidade desenvolvidas frequentemente fora do contexto cultural africano.

9 Idem, p. XVIII.

10 Sobre este tema ver FOLKERS, Antoni. Modern Architecture in Africa. Amsterdam: Sun, 2010, p. 24-39.

11 KULTERMANN, Udo; FRAMPTON, Kenneth, op. cit., p. 18.

12 A cidade teve a designação oficial de Nova Lisboa entre 1928 e 1975. Norton de Matos foi governador geral da
província em 1912-1915 e 1921-1923 e em 1948-1949 foi candidato da oposição às eleições presidenciais.

13 Cf. FOLGADO, Deolinda. A Nova Ordem Industrial no Estado Novo. Lisboa: Horizonte, 2012.

14 O I Plano de Fomento (1953-1958), é seguido pelo II Plano de Fomento (1959-1964), depois pelo Plano Intercalar de
Fomento (1965-1967) e finalmente pelo III Plano de Fomento, iniciado em 1968 acompanhando a era Marcelista

15 FOLKERS, Antoni, op. cit., p. 40. (Tradução livre).

CADERNOS

38
ANA TOSTÕES

Memória e transferências
10 Memory and transfers
Memoria y transferencias

Acresce referir que a implementação destas infraestruturas durante o período colonial


surge associada a uma política de separatismo implantada pelos poderes coloniais
que introduzem o apartheid. A cidade moderna africana de fundação ocidental, era
dividida numa área formal e noutra informal, na periferia da primeira, destinadas
respetivamente a brancos (os colonos) e a pretos (os “indígenas”). Esta divisão deixou
marcas violentas no desenho urbano das metrópoles modernas africanas, como se
verá adiante.

Até à II Guerra Mundial, os edifícios coloniais na África subsariana refletiam muitas


influências. A arquitetura do Movimento Moderno teve uma influência reduzida
com exceção da produção conduzida pelo chamado Transvaal Group, na África do
Sul, onde se destaca a figura de Rex Martiensen (1905-1942) e dos seus colegas (John
Fassler (1910-1971), Gordon Mclntoshe (1864-1926) e Bernard Cooke (1910-2011),
todos eles seguidores de Geoffrey Eastcott Pearse (1885-1968)), influenciados pelas
ideias de Le Corbusier (1887-1965), e pelos objetivos internacionais do Movimento
Moderno baseados nas formas puristas e numa linguagem tecnológica que procurava
programaticamente transcender identidades locais e regionais. Rex Martienssen
tornou-se editor da revista South African Architectural Record em 1932, tendo
realizado com o seu grupo até aos anos 40 um número significativo de obras. A sua
obra, Martiessen House em Greenside (1939-1940), foi inclusivamente publicada na
revista portuguesa Arquitectura16 , confirmando o facto da arquitetura do Movimento
Moderno ser introduzida na África lusófona em grande escala depois da II Guerra
Mundial.

Um laboratório colonial
A receção e, hoje em dia, a reinterpretação da arquitetura do Movimento Moderno
implica a preservação física, concetual e identitária. Quando falamos da África
colonial o paradoxo surge pelo facto da arquitetura do Movimento Moderno conter em
si a pulsão de uma afirmação ideológica de liberdade e valores democráticos já que,
como considera Udo Kultermann (1927-2013), a “arquitetura do Movimento Moderno
fazia parte da ideologia colonial, na medida em que serviu exclusivamente a minoria
branca”17. A questão é a de compreender como é que esta expressão moderna pôde
então ser um veículo de colonização e dominação. Como Anatole Kopp defendeu, a
arquitetura moderna não é uma estética mas a proposta de um melhor quadro de
vida para todos18. Temos a consciência que vivemos num período pós-colonial. Por
outras palavras, somos antigas colônias ou países colonizadores que atravessam uma
era pós-colonial. Creio que a mais estimulante aproximação ao tema se faz através de
conceitos como identidade, memória e troca19 . Portugal manteve um regime colonial
ao longo do século XX até meados dos anos 70. Este passado colonial talvez seja ainda
muito recente, até agora, demasiado próximo para uma adequada análise crítica
e histórica. Talvez por isso, em termos de bibliografia, a experiência da moderna
arquitetura nas colônias portuguesas começa agora a ser estudada para além das
fronteiras atuais do país20.

16 CASA na África do Sul. Arquitectura, 2ª série, Lisboa, n. 30, 1949.

17 KULTERMANN, Udo; FRAMPTON, Kenneth, op. cit., p. 22.

18 KOPP Anatole. Quand le Moderne n’était Pas un Style mais une Cause. Paris: ENSBA, 1988. Ver TOSTÕES, Ana
(Coord.). Fundação Calouste Gulbenkian. Os Edifícios. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2006.

19 CARLOS, Isabel (Ed.). Exchanging Visions. Lisboa: Instituto Camões Autores e Artistas, 2007.

20 MATOS, Madalena Cunha. Colonial Architecture and Amnesia Mapping the Work of Portuguese Architects in
Angola and Mozambique. In: LAGAE, Johan; AVERMAETE, Tom (Eds.), op. cit., 2010.

CADERNOS

38
ANA TOSTÕES

Memória e transferências
11 Memory and transfers
Memoria y transferencias

De facto, os pressupostos formais, tecnológicos e ideológicos do Movimento Moderno


começaram a revelar-se expressivamente em obras construídas na África lusófona a
partir de finais de 40. Personificando liberdade e simbolizando esperança num futuro
democrático, a arquitetura moderna era vista como uma forma de lutar contra o
regime totalitarista do Estado Novo de Salazar. A ligação entre arquitetura e revolução
transformou-se numa evidência e a afirmação da arquitetura moderna reconhecida
por muitos dos arquitetos portugueses no Congresso de 194821 converteu-se num
objetivo, também ele político, num compromisso que pretendia não só resolver o
problema da habitação, como ampliar a sua ação para o desenho da cidade e para o
planeamento do território.

Este ciclo moderno teve lugar no contexto de uma política internacional muito
contestada, iniciada a partir da criação das Nações Unidas em 1945 e reforçada a
partir de 1961 com o desencadear da Guerra Colonial (1961-1974) e do tardio processo
de industrialização do país e das colônias no quadro de quatro sucessivos Planos de
Fomento. Como refere Udo Kultermann “os acontecimentos que sucedem a guerra, e
sobretudo a fundação das Nações Unidas em 1945, tiveram uma intensa reverberação
na mudança de estatuto de diversas partes de África. Entre os que se bateram pela
liberdade estavam Kwame Nkrumah no Ghanda, Leopold Senghor (1906-2001) no Senegal
e Julius Nyerere (1922-1999) na África Oriental. A Guerra Fria que se seguiu teve o maior
impacto na independência dos estados africano das leis coloniais. A Líbia conseguiu a
indepêndência em 1952, o Ghana em 1957 e em rápida sucessão diversos outros estados
africanos, como a Costa do Marfim, a República Centro-Africana, a Nigéria, o Congo,
o Gabão, a Mauritânia e o Senegal, conquistaram a independência no ano de 1960,
um ano muito importante para a África em geral”22 . Depois da II Guerra Mundial, a
orientação da política colonial portuguesa deve ser entendida sob a intensa pressão das
Nações Unidas. Tentando mitigar essa crítica, a ditadura portuguesa procurou, nos anos
50, formar a ideia de uma identidade lusitana usando, nomeadamente e como discurso
de referência, o luso-tropicalismo de Gilberto Freyre (1900-1987).

Nas colônias portuguesas a ênfase colocada nas infraestruturas de grande escala


foi acompanhada por uma expressão moderna, agora renovada sob a influência
brasileira após a publicação do livro Brazil Builds (1943) e da grande difusão das
obras sul-americanas23 . Ao longo dos anos 50, muitos arquitetos que convictamente

21 A realização do I Congresso Nacional de Arquitectura, em maio de 1948 em Lisboa teve as maiores conse-
quências na afirmação da arquitetura moderna em Portugal, tendo sido um facto de consequências deter-
minantes no entendimento da produção arquitetónica dos anos 50 e que importa analisar no contexto de
agitação cultural que se seguiu ao fim da guerra, cf. Ana Tostões, Os Verdes Anos na Arquitectura Portuguesa
dos Anos 50, op. cit., 50. Nesse momento de viragem na reconquista da liberdade de expressão dos arquitetos
e simultaneamente do espaço para afirmar a inevitabilidade da arquitetura moderna, os arquitetos reclamam
a industrialização e a sua participação na resolução do problema da habitação sem constrangimentos nem
obrigatoriedades de estilo. Reivindica-se a intervenção a uma outra escala que não a do edifício isolado, isto
é, o direito à escala da cidade. Citou-se Le Corbusier e a sua utopia da sua Ville Radieuse. E, recorrentemente
a Carta de Atenas como dogma urbanístico para situar a urgência de uma nova racionalidade urbanística e
arquitetónica, com o sentido de manifesto e ortodoxia que comportam, cf. TOSTÕES, Ana. A Idade Maior.
Cultura e Tecnologia na Moderna Arquitetura Portuguesa, op. cit., p. 369. Ver também SIMÕES, João, LOBO,
José Huertas, RODRIGUES, Francisco Castro. O alojamento colectivo. In: TOSTÕES, Ana (Coord.). CONGRESSO
NACIONAL DE ARQUITECTURA, 1. Teses [...]. Lisboa: Ordem dos Arquitectos, 2008 [1948].

22 KULTERMANN Udo; FRAMPTON, Kenneth, op. cit., p. 23. (Tradução livre).

23 GOODWIN, Philip L.; KIDDER SMITH, George E. Brazil Builds. Architecture New and Old, 1652-1942. New York:
MoMA, 1943. Seguem-se as monografias dedicadas ao tema: L’ARCHITECTURE D’AUJOURD’HUI. Paris, n. 13/14,
set. 1947; L’ARCHITECTURE D’AUJOURD’HUI. Paris, n. 42/43, ago. 1952. Em Portugal: PALLA, Vítor. Lugar da
tradição. Arquitectura, Lisboa, n. 28, abr. 1949; ARQUITECTURA Moderna Brasileira (Exposição no IST). Ar-
quitectura, Lisboa, n. 29, fev./mar. 1949; LEVI, Rino. A Arquitectura é uma Arte e uma Ciência. Arquitectura,
Lisboa, n. 36, nov. 1950; NIEMEYER, Oscar. Bloco de Habitações na Praia da Gávea, Arquitectura, Lisboa, n.
41, mar. 1952; I BIENAL de S. Paulo - Exposição Internacional de Arquitectura. Arquitectura, Lisboa, n. 41,
mar. 1952; COSTA, Lucio. O Arquitecto e a Sociedade Contemporânea. Arquitectura, Lisboa, n. 47, jun. 1953; O
PINTOR Burle Marx e os seus Jardins. Arquitectura, Lisboa, n. 52, fev./mar. 1954; EXPOSIÇÃO de Arquitectura
Contemporânea Brasileira. Arquitectura, Lisboa, n. 53, nov./dez. 1954; VASCONCELOS, Silvio de. Arquitectura
Brasileira Contemporânea. Arquitectura, Lisboa, n. 88, mai./jun. 1965. Também a revista Técnica da Asso-
ciação de Estudantes do Instituto Superior Técnico: VIEIRA, Aníbal. Brasília, Cidade Modelo. Técnica, Lisboa,
n. 287, dez. 1958. E mais tarde diversos números da Binário: BORÓBIO, Luís. Arquitectura da América entre

CADERNOS

38
ANA TOSTÕES

Memória e transferências
12 Memory and transfers
Memoria y transferencias

acreditavam na capacidade transformadora da arquitetura, viajaram para as


colônias africanas onde a expressão arquitetónica era mais livre de se afirmar que na
metrópole. Também as especificidades geográficas e climáticas africanas promoveram
diferentes sentidos para o vocabulário moderno, que adquiriu novas expressões
e escalas24 . Estes territórios mostravam-se tanto mais disponíveis à modernização
quanto mais afastados se encontravam da influência direta do poder central. Numa
sociedade aparentemente menos restritiva, os arquitetos partilharam a possibilidade
de construir com base na universalidade do ideário moderno.

Este período constituiu um extraordinário desafio para a “geração africana”25 , que


não só teve a possibilidade de trabalhar de acordo com uma linguagem fundada no
discurso progressista, igualitário e universal da modernidade, como se viu envolvida
em encomendas de grande escala. Estimulados, ainda, pela imensidão da paisagem
africana, estes arquitetos puderam acreditar que estavam a construir um novo lugar,
um novo mundo que cumpriria os desígnios que reclamavam e os mergulharia na
contemporaneidade. Na aventura do desenho e da construção, criariam a utopia
moderna em África. Vivia-se uma atmosfera de liberdade arquitetónica e com a
possibilidade de experimentar. Se “África era o paraíso dos arquitectos”26 , a verdade
é que a maioria dos que foram trabalhar para África como “bons missionários”27 ,
primeiro para apoiar o colonial welfare e depois para apoiar em muitos casos as novas
nações independentes em nome do progresso humano e da justiça, partilhavam os
ideais do Movimento Moderno.

Importa, pois, entender esta produção dentro do contexto africano, num processo de
transformação abrangente apostado numa ação dirigida segundo uma orientação
verdadeira e progressista, concretizada através de obras pioneiras com grande significado
urbano e social, num quadro duplamente colonizador: da política e da arquitetura. A
arquitetura moderna na sua vontade de uniformizar conforma uma ação colonizadora
e transformadora que reserva pouco espaço para a valorização das culturas ancestrais
e locais, designadamente em relação à cultura africana. Como considera John Lagae
“de um ponto de vista eurocêntrico em que a África é encarada como continente sem
história, o debate sobre a arquitetura na colônia belga entendia que o Congo não tinha
uma cultura construtiva significante, era visto como território virgem”28 .

Entretanto, ao longo dos anos 60 começou a surgir um genuíno interesse pela arte e
pela arquitetura africanas num quadro que anunciava uma reação à uniformização
do internacionalismo, enunciando tendências conducentes à descoberta da cultura
vernacular, do organicismo e da identificação do conceito que virá a ser designado
de regionalismo crítico. Este quadro que se esboça na arquitetura portuguesa
de um modo claro a partir de meados dos anos 50, tem eco africano na figura de
Pancho Guedes (1925-2015)29 que descreve a sua motivação para a criação de uma
interpretação africana da arquitetura moderna a partir da necessidade de responder
ao desejo africano dos edifícios serem símbolos, mensagens, memórias, espaço para
ideias e sentimentos.

Câncer e Capricórnio. Binário, Lisboa, n. 12, set. 1959; COSTA, Lucio. Brasília, Capital do Futuro. Binário, Lisboa,
n. 22, jul. 1960 (número monográfico dedicado a Brasília); 50 ANOS de Arquitectura Brasileira. Binário, Lisboa,
n. 62, mar. 1972.

24 TOSTÕES, Ana. Os Verdes Anos na Arquitectura Portuguesa dos Anos 50, op. cit., 1997.

25 FERNANDES, José Manuel. Geração Africana. Arquitectura e cidades em Angola e Moçambique, 1925-1975.
Lisboa: Livros Horizonte, 2002.

26 GOODWIN, John. Architecture and Construction Technology in West África. Docomomo Journal, Paris, n. 28,
2005 (Modern Heritage in Africa edition).

27 FOLKERS, Antoni. Modern Architecture in Africa, op. cit., p. 163.

28 LAGAE, Johan. Modern Architecture in Belgian Congo. Docomomo Journal, Paris, n. 28, 2005. (Modern Heritage
in Africa Edition)

29 TOSTÕES, Ana. Correspondences by Pancho Guedes. In: EAHN FAUSP CONFERENCE, 2013. Proceedings […]. São
Paulo: EAHN: FAUUSP, 2013.

CADERNOS

38
ANA TOSTÕES

Memória e transferências
13 Memory and transfers
Memoria y transferencias

O Moderno brasileiro: valorização e preservação


Para os arquitetos preocupados com a questão do património, encarado enquanto
manifestação cultural de uma comunidade, pois é nessa medida que o património é
absolutamente fundamental para garantir o futuro, a preservação do património implica
a identificação do passado e da memória ativa que passamos às gerações futuras de
modo a assegurar a sustentabilidade do ambiente construído e assim abraçando não só
o objeto patrimonial, mas sim a dimensão de uma vasta e rica cultura.

É possível identificar uma clara relação entre Portugal, a Europa em modernização e


a explosão criativa que acontece a partir da América, sobretudo da América Latina
designadamente do caso do Brasil. O livro Brazil Builds é a referência – ícone reconhecido
unanimemente numa Europa sedente de emoção. A partir deste momento sucedem-
se as publicações sobre o Brasil com destaque para o MESP, mas também para a
obra de Eduardo Afonso Reidy, com destaque para o MAC do Rio de Janeiro ou para o
conjunto do Pedregulho, recentemente restaurado, para a fantástica obra de Roberto
Burle Marx – apresentado na primeira exposição de arquitetura contemporânea
brasileira feita em Lisboa no Instituto Superior Técnico enquanto o momento da
descoberta do paisagismo moderno. O respeito pela modernidade contida em Brasília
é ainda realçado com a publicação de artigos em revistas de arquitetura portuguesa
ou mesmo números inteiramente dedicados ao Brasil.

Esta modernidade de influência brasileira que vai acontecer também numa região tropical,
como vimos em Angola e Moçambique, pois há uma consonância de natureza e cultura
entre todos estes lugares. Nos anos 40 e 50 assiste-se a uma criação muito inspirada nas
experiências brasileiras, nomeadamente nas questões da ventilação permanente, na
criação de dispositivos de sombreamento, na atenção cuidada a uma implantação correta
em relação aos ventos dominantes para controlar a malária, a entrada de mosquitos, as
pandemias. Na sequência da emergência da modernidade brasileira, o mundo anglo-
saxónico abraça igualmente esta questão. Um exemplo é o livro de Victor Olgyay Design
with Climate: Bioclimatic Approach to Architectural Regionalism.

A descoberta da moderna arquitetura brasileira pela jovem geração de arquitetos


portugueses teve as maiores consequências na cultura arquitetónica portuguesa.
Bálsamo de liberdade, foi o sinal da esperança e de possibilidade de futuro a que os
arquitetos se agarraram para combater “heroicamente” o regime do Estado Novo.

Hoje equacionamos o modo de valorizar e identificar estas obras como património


numa situação muitas vezes de grande escassez. Importa, pois, justificar esta
ambiguidade ressaltando a pertinência e razão de ser destas obras enquanto
património da humanidade envolvendo os poderes públicos e a comunidade no
investimento para a reabilitação destas obras.

Voltando ao ano de 1936, e ao edifício do MESP no Rio de Janeiro da equipa de Lúcio


Costa com a assessoria de Le Corbusier, é essencial reforçar a ideia de que esta
obra representou a grande chance de modernizar o mundo. O MESP foi a primeira
obra moderna do mundo marcando o centro da cidade com uma nova expressão
arquitetónica e criando um espaço público de grande intensidade. Com efeito, é a
primeira obra moderna alguma vez erguida numa capital. Pensando no mundo
eurocêntrico como centro de criação do Movimento Moderno, não existiam aí em
1936 edifícios modernos com a mesma repercussão e importância no centro da cidade
como o MESP. Logo ele é o momento de afirmação da arquitetura moderna no Brasil
e no mundo. É assim uma obra única no Mundo, que cria uma praça como ponto de
encontro no centro da cidade de Rio de Janeiro, rompendo o tradicional quarteirão do
Plano de Donat-Alfred Agache, e que responde através da arquitetura à demanda do
clima, dotando o edifício de um sistema de ventilação passiva permanente, de grandes
arcadas no piso térreo e incluindo grandes murais cerâmicos no espaço público.

CADERNOS

38
ANA TOSTÕES

Memória e transferências
14 Memory and transfers
Memoria y transferencias

O Capanema reúne em si futuro e modernidade, arquitetura e arte, espaço público na


cidade e uma arquitetura responsável e capaz de responder às exigências do clima,
sendo, portanto, um símbolo da arquitetura moderna no mundo que tem que ser
preservado.

Referências
50 ANOS de Arquitectura Brasileira. Binário, Lisboa, n. 62, mar. 1972.

ARAEEN, Rasheed, A New Beginning: Beyond Postcolonial Cultural Theory and Identity
Politics. Third Text, London, v. 14, n. 50, p. 2-20, 2008.

ARQUITECTURA Moderna Brasileira (Exposição no IST). Arquitectura, Lisboa, n. 29,


fev./mar. 1949.

BORÓBIO, Luís. Arquitectura da América entre Câncer e Capricórnio. Binário, Lisboa,


n. 12, set. 1959.

CARLOS, Isabel (Ed.). Exchanging Visions. Lisboa: Instituto Camões Autores e Artistas, 2007.

CASA na África do Sul. Arquitectura, 2ª série, Lisboa, n. 30, 1949.

COSTA, Lucio. Brasília, Capital do Futuro. Binário, Lisboa, n. 22, jul. 1960.

COSTA, Lucio. O Arquitecto e a Sociedade Contemporânea. Arquitectura, Lisboa, n.


47, jun. 1953.

EXPOSIÇÃO de Arquitectura Contemporânea Brasileira. Arquitectura, Lisboa, n. 53,


nov./dez. 1954.

FERNANDES, José Manuel, Geração Africana. Arquitectura e cidades em Angola e


Moçambique, 1925-1975. Lisboa: Livros Horizonte, 2002

FOLGADO, Deolinda. A Nova Ordem Industrial no Estado Novo. Lisboa: Horizonte, 2012.

FOLKERS, Antoni. Modern Architecture in Africa. Amsterdam: Sun, 2010.

GOODWIN Philip; KIDDER SMITH, George E. Brazil Builds: Architecture New and Old,
1652-1942. New York: MoMA, 1943.

GOODWIN, John. Architecture and Construction Technology in West África. Docomomo


Journal, Paris, n. 28, 2005 (Modern Heritage in Africa edition)

I BIENAL de S. Paulo - Exposição Internacional de Arquitectura. Arquitectura, Lisboa,


n. 41, mar. 1952.

INTERNATIONAL DOCOMOMO CONFERENCE, 9, 2006. Proceedings […]. Ankara:


Docomomo International, 2006. Tema: “Other” Modernisms.

KOPP, Anatole. Quand le Moderne n’était Pas un Style mais une Cause. Paris: ENSBA, 1988.

KULTERMANN, Udo; FRAMPTON Kenneth. World Architecture 1900-2000: A Critical


Mosaic. Wien: New York: Springer Verlag, 2000. (Central and Southern Africa, v. 6)

L’ARCHITECTURE D’AUJOURD’HUI. Paris, n. 13/14, set. 1947. (numéro spécial Brésil)

L’ARCHITECTURE D’AUJOURD’HUI. Paris, n. 42/43, ago. 1952. (numéro spécial Brésil)

LAGAE, Johan; AVERMAETE, Tom (Eds.). L’Afrique, c’est Chic. Architecture and
Planning in Africa 1950-1970. Rotterdam: NAi Publishers, 2010.

LAGAE, Johan. Modern Architecture in Belgian Congo. Docomomo Journal, Paris, n. 28,
2005. (Modern Heritage in Africa Edition)

CADERNOS

38
ANA TOSTÕES

Memória e transferências
15 Memory and transfers
Memoria y transferencias

LEVI, Rino. A Arquitectura é uma Arte e uma Ciência. Arquitectura, Lisboa, n. 36, nov. 1950.

NIEMEYER, Oscar. Bloco de Habitações na Praia da Gávea, Arquitectura, Lisboa, n. 41, mar. 1952.

O PINTOR Burle Marx e os seus Jardins. Arquitectura, Lisboa, n. 52, fev./mar. 1954.

OLGYAY, Victor. Design with Climate: Bioclimatic Approach to Architectural


Regionalism. Princeton: Princeton University Press, 2015 [1963].

PALLA, Vítor. Lugar da tradição. Arquitectura, Lisboa, n. 28, abr. 1949.

SHARP, Dennis; COOKE, Catherine (eds.). Docomomo: The Modern Movement in


Architecture. Rotterdam: 010 Publishers, 2000.

SIMÕES, João; LOBO, José Huertas; RODRIGUES, Francisco Castro. O alojamento


colectivo. In: TOSTÕES, Ana (Coord.). CONGRESSO NACIONAL DE ARQUITECTURA, 1.
Teses [...]. Lisboa: Ordem dos Arquitectos, 2008 [1948]

TOSTÕES Ana (Coord.). Fundação Calouste Gulbenkian. Os Edifícios. Lisboa: Fundação


Calouste Gulbenkian, 2006.

TOSTÕES, Ana (Ed.). Arquitetura Moderna em África. Angola e Moçambique, Lisboa,


Caleidoscópio, 2013.

TOSTÕES, Ana. A Idade Maior. Cultura e Tecnologia na Moderna Arquitetura


Portuguesa. Porto: FAUP, 2015.

TOSTÕES, Ana. Arquitectura Moderna Portuguesa 1920-1970. Lisboa: IPPAR, 2004.

TOSTÕES, Ana. Correspondences by Pancho Guedes. In: EAHN FAUSP CONFERENCE,


2013. Proceedings […]. São Paulo: EAHN: FAUUSP, 2013.

TOSTÕES, Ana. Os Verdes Anos na Arquitectura Portuguesa dos Anos 50. Porto: FAUP, 1997

VASCONCELOS, Silvio de. Arquitectura Brasileira Contemporânea. Arquitectura,


Lisboa, n. 88, mai./jun. 1965.

VIEIRA, Aníbal. Brasília, Cidade Modelo. Técnica, Lisboa, n. 287, dez. 1958.

RESPONSABILIDADE INDIVIDUAL E DIREITOS AUTORAIS

A responsabilidade da correção normativa e gramatical do texto é de inteira


responsabilidade do autor. As opiniões pessoais emitidas pelos autores dos artigos são
de sua exclusiva responsabilidade, tendo cabido aos pareceristas julgar o mérito das
temáticas abordadas. Todos os artigos possuem imagens cujos direitos de publicidade
e veiculação estão sob responsabilidade de gerência do autor, salvaguardado o direito
de veiculação de imagens públicas com mais de 70 anos de divulgação, isentas de
reivindicação de direitos de acordo com art. 44 da Lei do Direito Autoral/1998: “O prazo
de proteção aos direitos patrimoniais sobre obras audiovisuais e fotográficas será de
setenta anos, a contar de 1° de janeiro do ano subsequente ao de sua divulgação”.

O CADERNOS PROARQ (ISSN 2675-0392) é um periódico científico sem fins


lucrativos que tem o objetivo de contribuir com a construção do conhecimento nas
áreas de Arquitetura e Urbanismo e afins, constituindo-se uma fonte de pesquisa
acadêmica. Por não serem vendidos e permanecerem disponíveis de forma online
a todos os pesquisadores interessados, os artigos devem ser sempre referenciados
adequadamente, de modo a não infringir com a Lei de Direitos Autorais.

Submetido em 29/05/2022

Aprovado em 20/06/2022

CADERNOS

38
CADERNOS

38

LEONARDO BARCI CASTRIOTA E FLÁVIO DE LEMOS CARSALADE

Os desafios da preservação do moderno. A atuação


do ICOMOS/BRASIL
The challenges of preserving the modern: the work of ICOMOS/BRAZIL
Los retos de la conservación de lo moderno: el trabajo de ICOMOS/BRAZIL
LEONARDO BARCI CASTRIOTA E FLÁVIO DE LEMOS CARSALADE

Os desafios da preservação do moderno. A atuação do ICOMOS/BRASIL


17 The challenges of preserving the modern: the work of ICOMOS/BRAZIL
Los retos de la conservación de lo moderno: el trabajo de ICOMOS/BRAZIL

Leonardo Barci Castriota


Arquiteto-urbanista e doutor em Filosofia pela
Universidade Federal de Minas Gerais, onde é
atualmente professor titular na Escola de Arquitetura.
Pesquisador 1 do CNPq. Vice-presidente do ICOMOS
internacional. Autor de numerosos artigos, livros e
projetos na área do patrimônio cultural.

Architect-urbanist and PhD in Philosophy from the Federal


University of Minas Gerais, where he is currently a full pro-
fessor at the School of Architecture. Researcher 1 of the CNPq.
Vice President of ICOMOS International. Author of numerous
articles, books and projects in the area of cultural heritage.

Arquitecto-urbanista y Doctor en Filosofía por la Universi-


dad Federal de Minas Gerais, donde actualmente es profe-
sor titular en la Escuela de Arquitectura. Investigador 1 del
CNPq. Vicepresidente de ICOMOS Internacional. Autor de
numerosos artículos, libros y proyectos en el área del patri-
monio cultural.

[email protected]

Flávio de Lemos Carsalade


Arquiteto-urbanista pela Universidade Federal de
Minas Gerais, onde é atualmente professor titular, e
doutor em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade
Federal da Bahia. Pesquisador do CNPq. Presidente do
ICOMOS Brasil. Autor de numerosos artigos, livros e
projetos na área do patrimônio cultural.

Architect-urbanist from the Federal University of Minas


Gerais, where he is currently a full professor, and PhD in
Architecture and Urbanism from the Federal University of
Bahia. Researcher of the CNPq. President of ICOMOS Brazil.
Author of numerous articles, books and projects in the area
of cultural heritage.

Arquitecto-urbanista por la Universidad Federal de Minas


Gerais, donde actualmente es profesor titular, y Doctor en Ar-
quitectura y Urbanismo por la Universidad Federal de Bahia.
Investigador del CNPq. Presidente de ICOMOS Brasil. Autor
de numerosos artículos, libros y proyectos en el área del pat-
rimonio cultural.

[email protected]

CADERNOS

38
LEONARDO BARCI CASTRIOTA E FLÁVIO DE LEMOS CARSALADE

Os desafios da preservação do moderno. A atuação do ICOMOS/BRASIL


18 The challenges of preserving the modern: the work of ICOMOS/BRAZIL
Los retos de la conservación de lo moderno: el trabajo de ICOMOS/BRAZIL

Resumo
Ao se reconhecer no moderno o caráter patrimonial nas obras do Movimento Moderno
e se postular sua preservação, está-se desvelando, de forma acentuada, a dialética que
preside toda operação de preservação – aquela entre mudança e continuidade. Como
sabemos, no caso do acervo do século XX as dificuldades são muitas e de ordens variadas:
desde o próprio conceito – controverso – de moderno, até a dificuldade de se encarar a
preservação de manifestações culturais tão próximas no tempo, passando por problemas
advindos das tecnologias construtivas empregadas e as inúmeras conotações, positivas e
negativas, atribuídas a esse tipo de arquitetura. Nas últimas décadas, esses desafios têm
sido encarados com seriedade por várias instituições de patrimônio ao redor do mundo,
com a multiplicação de inventários, simpósios científicos, publicações e propostas de
preservação e intervenção sobre esse patrimônio. Este artigo pretende apresentar a atuação
institucional do ICOMOS/BRASIL no que se refere ao patrimônio do século XX, mostrando
como também aqui multiplicam-se as ações dessa instituição. Para isso, partimos de uma
rápida exposição sobre a (re)organização institucional do Comitê Brasileiro do ICOMOS, em
curso desde 2015, para abordar os esforços sistemáticos deste, como a criação do Comitê
Científico Brasileiro do Patrimônio do Século XX, os relatórios de monitoramento dos sítios
patrimônio da humanidade e a realização de simpósios científicos anuais, destacando-se
o de 2018, cujo tema foi justamente “Os desafios da preservação do moderno”. Além disso,
o artigo se debruça sobre dois projetos específicos que encaram esse desafio: a “Missão
Pampulha”, que se dispõe a criar um Sistema de Monitoramento Preventivo/ Gestão
Turística Sustentável para os sítios patrimônios da humanidade, tomando como estudo de
caso piloto o Conjunto Moderno da Pampulha; e as “Jornadas França-Brasil”, onde se cria
uma cooperação entre os dois países para o aprofundamento dos estudos e propostas para
a preservação do patrimônio moderno em concreto armado

Palavras-chave: Arquitetura. Modernidade. ICOMOS. Brasil. Pampulha.

Abstract
By recognizing the heritage character in the works of the Modern Movement and postulat-
ing their preservation, the dialectic that presides over every preservation operation - the one
between change and continuity - is being unveiled. As we know, in the case of the 20th cen-
tury heritage, the difficulties are many and varied: from the very - controversial - concept
of modern, to the difficulty of facing the preservation of cultural manifestations so close in
time, to problems arising from the construction technologies used and the many connotations,
positive and negative, attributed to this type of architecture. In the last decades, these chal-
lenges have been taken seriously by several heritage institutions around the world, with the
multiplication of inventories, scientific symposia, publications, and proposals for preservation
and intervention on this heritage. This article intends to present the institutional presence of
ICOMOS/BRAZIL regarding the 20th century heritage, showing how the actions of this institu-
tion are also multiplied here. To do so, we start from a quick exposition on the institutional
(re)organization of the Brazilian Committee of ICOMOS, underway since 2015, to address its
systematic efforts, such as the creation of the Brazilian Scientific Committee on 20th-Century
Heritage, the monitoring reports of the World Heritage Sites, and the realization of annual
scientific symposia, highlighting the 2018 one, whose theme was precisely "The challenges of
preserving the modern". In addition, the article delves into two specific projects that face this
challenge: the "Pampulha Mission", which sets out to create a Preventive Monitoring System/
Sustainable Tourism Management for World Heritage Sites, taking as a pilot case study the
Pampulha Modern Ensemble; and the "France-Brazil Journeys", where a cooperation between
the two countries is created for the deepening of studies and proposals for the preservation of
modern heritage in reinforced concrete

Keywords: Architecture. Modernity. ICOMOS. Brazil. Pampulha.

CADERNOS

38
LEONARDO BARCI CASTRIOTA E FLÁVIO DE LEMOS CARSALADE

Os desafios da preservação do moderno. A atuação do ICOMOS/BRASIL


19 The challenges of preserving the modern: the work of ICOMOS/BRAZIL
Los retos de la conservación de lo moderno: el trabajo de ICOMOS/BRAZIL

Resumen
Al reconocer el carácter patrimonial de las obras del Movimiento Moderno y postular su
preservación, se revela de manera marcada la dialéctica que preside toda operación de preser-
vación: la que existe entre el cambio y la continuidad. Como sabemos, en el caso del conjunto
del siglo XX, las dificultades son muchas y variadas: desde el propio -polémico- concepto de
moderno, hasta la dificultad de afrontar la conservación de manifestaciones culturales tan
cercanas en el tiempo, pasando por los problemas derivados de las tecnologías constructivas
utilizadas y las múltiples connotaciones, positivas y negativas, atribuidas a este tipo de arqui-
tectura. En las últimas décadas, estos retos han sido tomados en serio por varias instituciones
patrimoniales de todo el mundo, multiplicándose los inventarios, los simposios científicos, las
publicaciones y las propuestas de conservación e intervención sobre este patrimonio. Este artí-
culo pretende presentar la actuación institucional de ICOMOS/BRAZIL en lo que se refiere al
patrimonio del siglo XX, mostrando cómo también aquí se multiplican las acciones de esta in-
stitución. Para ello, partimos de una rápida exposición sobre la (re)organización institucional
del Comité Brasileño de ICOMOS, en curso desde 2015, para abordar sus esfuerzos sistemáti-
cos, como la creación del Comité Científico Brasileño del Patrimonio del Siglo XX, los informes
de seguimiento de los Sitios del Patrimonio Mundial y la realización de simposios científicos
anuales, destacando el de 2018, cuyo tema fue precisamente "Los desafíos de la preservación
de lo moderno". Además, el artículo se centra en dos proyectos concretos que se enfrentan a
este reto: la "Misión Pampulha", que se propone crear un Sistema de Vigilancia Preventiva/
Gestión del Turismo Sostenible para los Sitios del Patrimonio Mundial, tomando como caso de
estudio piloto el Conjunto Moderno de Pampulha; y las "Jornadas Francia-Brasil", en las que
se crea una cooperación entre los dos países para la profundización de estudios y propuestas
de preservación del patrimonio moderno en hormigón armado

Palabras clave: Arquitectura. La modernidad. ICOMOS. Brasil. Pampulha

CADERNOS

38
LEONARDO BARCI CASTRIOTA E FLÁVIO DE LEMOS CARSALADE

Os desafios da preservação do moderno. A atuação do ICOMOS/BRASIL


20 The challenges of preserving the modern: the work of ICOMOS/BRAZIL
Los retos de la conservación de lo moderno: el trabajo de ICOMOS/BRAZIL

Introdução
Em 2008, o DOCOMOMO articulou sua décima conferência bianual internacional
em torno do tema “O desafio da mudança”, através do qual procurava-se lidar com
a complexa questão da preservação do legado do Movimento Moderno. Durante
três dias, um grupo multidisciplinar, composto por arquitetos, historiadores da arte,
entre outros, reuniram-se em Roterdã para examinar o paradoxo de se lidar com o
“monumento moderno”, discutindo os múltiplos desafios – teóricos e práticos –
colocados pela tarefa de se preservar, renovar e transformar edifícios produzidos no
Século XX. Como pano de fundo, encontrava-se a questão do inesperado anacronismo
de bens arquitetônicos e conjuntos urbanos que, ao serem construídos, pretendiam
responder aos reclamos do seu tempo, colocando-se como respostas contemporâneas
aos problemas sociais. É como explica Maristella Casciato, então presidente do
DOCOMOMO Internacional:

Deve-se recordar que o objetivo principal da maioria dos arquitetos do Movimento


Moderna era construir projetos que eram racionais, funcionais, inovadores e ricos,
com forte identidade política e cultural – futuristas em todos os sentidos e a todo custo,
mergulhados numa fé otimista no progresso. Assim, o desafio que sua conservação
gera é o confronto entre seu status de patrimônio (como bens a serem transmitidos
às gerações futuras) em uma sociedade que modificou sua própria escala de valores
(por exemplo, a da condição pós-colonial), e como um contexto físico, econômico e
funcional de rápida transformação. (CASCIATO, 2008, p. xiii)

Com isso, fazia-se imperioso reconhecer que conservar aqueles bens e conjuntos
significaria reconhecer essas mudanças estruturais, muito mais que tentar manter,
de forma estrita, o patrimônio moderno em seu estado original. De certa maneira, ao
se reconhecer no moderno um caráter de patrimônio, e se postular sua preservação,
estaríamos desvelando, num grau exacerbado, a dialética que presidiria toda operação
de preservação – aquela entre mudança e continuidade. Como sabemos, no caso do
acervo do século XX as dificuldades são muitas e de ordens variadas: desde o próprio
conceito – controverso – de moderno, até a dificuldade de se encarar a preservação de
manifestações culturais tão próximas no tempo, passando por problemas advindos
das tecnologias construtivas empregadas e as inúmeras conotações, positivas e
negativas, atribuídas a esse tipo de arquitetura.

As questões trazidas pela arquitetura do movimento moderno não são alheias também
à ação do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS), organização
que reúne especialistas em patrimônio do mundo todo, e que, especialmente desde
os anos 1980, tem se envolvido intensivamente com o patrimônio do século XX
através de conferências nacionais e internacionais, respostas a casos concretos de
risco e indicações à inscrição como patrimônio mundial junto à UNESCO. O trabalho
sistemático do ICOMOS com o patrimônio moderno tem sido capitaneado, no âmbito
da instituição, pelo Comitê Científico Internacional do Século XX (ISC20), grupo
interdisciplinar, que “reconhece a diversidade da expressão regional e cultural no
patrimônio do século XX1” . Esses esforços culminaram em vários encontros, entre
os quais, cabem se citar o Seminário sobre o Patrimônio do Século XX, realizado em
Helsinki em 1995, e o Seminário de Experts no Patrimônio do Século XX, realizado
no México em 1996, que abordaram temas centrais para a preservação desse tipo de
patrimônio, tais como as questões da autenticidade, da materialidade e da significação
do projeto original. Também digno de nota foi o programa para a identificação,
documentação e promoção do patrimônio construído dos séculos XIX e XX, lançado

1 Mais sobre o ISC20: https://isc20c.icomos.org/about

CADERNOS

38
LEONARDO BARCI CASTRIOTA E FLÁVIO DE LEMOS CARSALADE

Os desafios da preservação do moderno. A atuação do ICOMOS/BRASIL


21 The challenges of preserving the modern: the work of ICOMOS/BRAZIL
Los retos de la conservación de lo moderno: el trabajo de ICOMOS/BRAZIL

conjuntamente pelo Centro do Patrimônio Mundial da UNESCO, ICOMOS e Docomomo,


entre 2000 e 2005, que resulta na publicação “Identificação e Documentação do
Patrimônio Moderno” e na realização de encontros regionais, realizados em 2002 em
Monterrey (México); em 2003 em Chandigarh (Índia); em 2004 em Asmara (Eritréia) e
em Miami Beach e Coral Gables, EUA; em 2005 em Alexandria no Egito.

Tomando o caso brasileiro, este artigo procura apresentar a atuação institucional


do ICOMOS/BRASIL no que se refere ao patrimônio do século XX, mostrando como
também aqui multiplicam-se as ações dessa instituição. Para isso, partimos de
uma rápida exposição sobre a (re)organização institucional do Comitê Brasileiro do
ICOMOS, em curso desde 2015, para abordar os esforços sistemáticos deste, como
a criação do Comitê Científico Brasileiro do Patrimônio do Século XX, os relatórios
de monitoramento dos sítios patrimônio da humanidade e a realização de simpósios
científicos anuais, destacando-se o de 2018, cujo tema foi justamente “Os desafios da
preservação do moderno”. Além disso, o artigo se debruça sobre dois projetos específicos
que encaram esse desafio: a “Missão Pampulha”, que se dispôs a criar um Sistema de
Monitoramento Preventivo/ Gestão Turística Sustentável para os sítios patrimônios da
humanidade, tomando como estudo de caso piloto o Conjunto Moderno da Pampulha;
e as “Jornadas França-Brasil”, onde se cria uma cooperação entre os dois países para o
aprofundamento dos estudos e propostas para a preservação do patrimônio moderno
em concreto armado.

O ICOMOS/BRASIL: reorganização institu-


cional e monitoramento dos sítios patrimônio
da humanidade
O ICOMOS (International Council on Monuments and Sites, ou Conselho Internacional
de Monumentos e Sítios, em português) é uma organização internacional não-
governamental que reúne profissionais dedicados, como seu nome já diz, à conservação
dos monumentos e sítios históricos do mundo. Neste sentido, é a única organização
não governamental global deste gênero, dedicada à promoção da aplicação da teoria,
metodologia e técnicas científicas para a conservação do patrimônio arquitetônico e
arqueológico. O ICOMOS é organismo consultor do Comitê do Patrimônio Mundial para
a implementação da Convenção do Patrimônio Mundial da UNESCO e, como tal, avalia
e dá parecer sobre as nomeações ao patrimônio cultural mundial da humanidade
e acompanha o estado de conservação dos bens. Além disso, participa ativamente
no desenvolvimento da doutrina, evolução e divulgação de ideias, e realiza ações de
sensibilização e defesa do patrimônio, baseando seu trabalho em vários documentos
doutrinais produzidos ao longo dos anos, em especial nos princípios consagrados
na “Carta Internacional para a Conservação e Restauro de Monumentos e Sítios",
conhecida como Carta de Veneza, que foi produzida pelo 2º Congresso Internacional
de Arquitetos e Técnicos dos Monumentos Históricos, em 19642.

O ICOMOS se estrutura como uma rede de especialistas, que se beneficia do


intercâmbio interdisciplinar entre os seus membros, entre os quais estão arquitetos,
historiadores, arqueólogos, historiadores de arte, geógrafos, antropólogos, engenheiros,
urbanistas, entre outros. Os membros do ICOMOS contribuem para o aperfeiçoamento

2 Aqui é importante anotarmos que o termo “monumento histórico” usado na Carta de Veneza de 1964 foi
reinterpretado pelo ICOMOS em 1965 como “monumento” e “sítio” e pela UNESCO em 1968 como “bem cul-
tural”, de maneira a incluir tanto os bens móveis quanto os bens imóveis. Essa discrepância terminológica foi
resolvida pela Convenção do Patrimônio Mundial de 1972.

CADERNOS

38
LEONARDO BARCI CASTRIOTA E FLÁVIO DE LEMOS CARSALADE

Os desafios da preservação do moderno. A atuação do ICOMOS/BRASIL


22 The challenges of preserving the modern: the work of ICOMOS/BRAZIL
Los retos de la conservación de lo moderno: el trabajo de ICOMOS/BRAZIL

da preservação do patrimônio, das normas e das técnicas para cada tipo de bem
do patrimônio cultural: edifícios, cidades históricas, paisagens culturais e sítios
arqueológicos. Em dezembro de 2020, o ICOMOS tinha 10.489 membros individuais
e 248 membros institucionais em 151 países, 104 Comitês Nacionais e 28 Comitês
Científicos Internacionais3.

Em cada um dos países membros, o ICOMOS se organiza através de Comitês Nacionais,


organizações que congregam membros individuais e institucionais, oferecendo-
lhes um fórum para a discussão e a troca de informações e pontos de vista sobre os
princípios e práticas da área. Cada Comitê Nacional adota suas próprias regras de
procedimento e elabora o seu programa de acordo com os objetivos e fins do ICOMOS,
devendo se comprometer ainda a implementar os programas propostos pelo Comitê
Consultivo e pelo Conselho de Administração do ICOMOS. No que se refere ao Comitê
Brasileiro do ICOMOS, depois da reforma estatutária de 1995, denominado ICOMOS/
BRASIL, este foi fundado em 17 de agosto de 1978 no Rio de Janeiro, e registrado em 2
de maio de 1980 em Brasília, Capital da República. Nestes quarenta anos de atividade
no Brasil, o ICOMOS/BRASIL teve várias diretorias, sediadas em diferentes estados da
Federação4.

Desde que assumimos a Direção do ICOMOS/Brasil, em abril de 20155 , temos nos


empenhado fortemente em recompor a Instituição, que se encontrava bastante
esvaziada em nosso país. O fato é que, por razões diversas, nosso Comitê tinha
apenas 70 membros ativos naquele momento, número que não refletia nem de longe
a extensão da comunidade que se ocupa com o patrimônio cultural no Brasil. Assim,
nossa primeira tarefa foi ampliar esse número, atraindo novos membros. Antes disso,
no entanto, identificamos como indispensável a reorganização do banco de dados do
ICOMOS/BRASIL, com o recadastramento dos associados, muitos dos quais haviam
perdido o contato com a entidade nos últimos anos.

Com o banco de dados reorganizado, conseguimos, então, realizar um balanço da


situação de cada um dos antigos membros, e fizemos um recadastramento geral,
bem como nos lançamos na tarefa de atrair ativamente profissionais com trajetória
compatível às exigências do ICOMOS, que foram convidados a ingressar em nossa
organização, alcançando, assim, nosso Comitê rapidamente a marca de 140 membros
ativos já em 2016 6. Aqui é importante assinalar algo que nos parece decisivo nesse
movimento: já em nossa primeira reunião do Conselho Deliberativo, votamos uma
resolução que estabelecia critérios claros e objetivos para a filiação. Assim, hoje, podem
solicitar seu ingresso no Comitê Brasileiro do Conselho Internacional de Monumentos
e Sítios aqueles profissionais que tenham trajetória na área do patrimônio, tanto

3 Confira a esse respeito: https://www.icomos.org/en/about-icomos/mission-and-vision/mission-and-vision

4 Durante sua existência, o ICOMOS/BRASIL teve os seguintes presidentes: Arquiteto Augusto da Silva Telles
(1978-1982-RJ); Arquiteto Vivaldo da Costa Lima (1992 - PE - afastado por doença); Arquiteto José Luiz Mota
Menezes (vice-presidente em exercício e titular de 1984-1986 - PE); Fernanda Colagrossi (1986-1988 e 1988-
1991-RJ); Arquiteto Dalmo Vieira Filho (1991-1993 -SC); Fernanda Colagrossi (1993-1996 -RJ); Suzanna do Ama-
ral Cruz Sampaio (1996-1999 -SP); Maria Adriana Almeida Couto de Castro (1999-2001-BA), reeleita para o
triênio 2002-2005; Arquiteta Rosina Coeli Alice Parchen (2006-2009 – PR), reeleita para o triênio 2009-2012;
Arquiteto Eugênio de Ávila Lins (2012-2015 - BA); Arquiteto Leonardo Barci Castriota (2015-2018; 2018-2021 -
MG); Flávio de Lemos Carsalade (2021-... - MG).

5 Em abril de 2015 foi eleita a seguinte chapa, que assumiu a Direção do ICOMOS/BRASIL no biênio 2015-2018:
Presidente: Leonardo Barci Castriota; Vice-Presidente: Flavio de Lemos Casarlade; Secretária Geral: Maria Cris-
tina Cairo; Diretoria Financeira: Selma Melo Miranda; Diretor de Projetos: Marcos Olender; Diretor de Comitês
Temáticos: Silvio Mendes Zancheti. Conselheiros Regionais. Região Norte: Edithe da Silva Pereira (PA); Região
Nordeste: Nivaldo Vieira de Andrade Junior (BA); Região Sudeste: Júlio César Ribeiro Sampaio (RJ); Região
Centro-Oeste: Henrique Oswaldo de Andrade (DF); Região Sul: Rosina Coeli Alice Parchen (PR).

6 No âmbito dessa ação de fortalecimento institucional do ICOMOS/BRASIL, cabe destacar ainda a quitação dos
débitos existentes junto ao ICOMOS Internacional, com o que conseguimos que nosso Comitê tivesse de volta
o direito de voto nas instâncias internacionais, bem como garantimos a emissão das carteiras internacionais
dos associados de nosso país.

CADERNOS

38
LEONARDO BARCI CASTRIOTA E FLÁVIO DE LEMOS CARSALADE

Os desafios da preservação do moderno. A atuação do ICOMOS/BRASIL


23 The challenges of preserving the modern: the work of ICOMOS/BRAZIL
Los retos de la conservación de lo moderno: el trabajo de ICOMOS/BRAZIL

aqueles envolvidos com atividades acadêmicas, quanto aqueles dedicados a atividades


profissionais e de administração na área, usando-se como critérios de admissão,
a análise do currículo do interessado e a comprovação de cinco anos de atuação e
produção continuada7.

Outra das atribuições do ICOMOS, como organização que congrega especialistas


em patrimônio, é acompanhar sistematicamente a conservação dos monumentos
e sítios patrimoniais. Nesta linha, o ICOMOS/BRASIL, ainda em 2015, adotou como
dinâmica de trabalho a produção de dossiês avaliativos sobre os sítios patrimônio da
humanidade em nosso país, a partir dos quais pretendem se propor caminhos para sua
preservação. Os dois primeiros sítios analisados foram o Centro Histórico de Salvador
e Ouro Preto. As versões preliminares desses dossiês foram apresentadas e discutidas
na Reunião Geral dos Associados do ICOMOS-BRASIL, e disponibilizados online para
todos os associados para suas contribuições. Uma vez incorporadas as contribuições,
os documentos foram consolidados e entregues ao Instituto do Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional, numa reunião em 28 de julho de 2016, entre o Presidente do
ICOMOS/BRASIL e a então presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional (Iphan), Kátia Bogéa.

O ICOMOS/BRASIL: os comitês científicos e


os simpósios anuais
Os Comitês Científicos do ICOMOS desempenham um papel central na instituição,
constituindo o espaço de discussão e desenvolvimento da abordagem doutrinária
e metodológica da conservação patrimonial. O Brasil, nos últimos anos criou uma
grande massa crítica de pensadores, pesquisadores e especialistas na conservação
patrimonial que se refletiu na enorme produção científica apresentada em
conferências, seminários e outros encontros. Para catalisar essa produção e aumentar
a sua capacidade de formulação doutrinária, o ICOMOS/ BRASIL tem se empenhado,
desde 2018, na formação de Comitês Científicos nacionais, que atuem como
contraparte dos Comitês Internacionais existentes no ICOMOS, conseguindo formar
15 comitês científicos desde então8.

Desde sua fundação no Brasil, o ICOMOS tem organizado simpósios científicos, fazendo
jus à sua missão de promover o avanço científico da área do patrimônio cultural. A
partir de 2017, o ICOMOS/BRASIL tem repetido a prática do ICOMOS internacional,
passando a organizar um simpósio científico anual, sempre em parceria com os vários
programas de pós-graduação existentes no país. Em 2017, o tema geral do simpósio,
emulando o simpósio do ICOMOS internacional, foi a destruição do patrimônio cultural
através de desastres naturais e humanos e conflitos armados. O Simpósio de 2017 teve
um grande sucesso, tendo reunido os principais pesquisadores da área do patrimônio
cultural do país e recebido mais de 700 propostas de comunicações, das quais foram
selecionados 450 trabalhos, que foram apresentados e publicados em forma de anais

7 Mais sobre a atuação do ICOMOS/BRASIL, confira: CASTRIOTA, 2018.

8 Os comitês científicos implantados junto ao ICOMOS/BRASIL são: Paisagens Culturais; Patrimônio do Século
XX; Interpretações do patrimônio; Teoria e filosofia da conservação e da restauração; Cidades e vilas históri-
cas; Educação; Pinturas Murais; Turismo Cultural; Patrimônio Industrial; Fortificações e patrimônio militar;
Preparação para o Risco; Arquitetura Vernacular; Patrimônio cultural imaterial; Mudanças Climáticas e Riscos
ao Patrimônio; Economia da conservação. Além disso, foram criados dois Grupos de Trabalho, com temáticas
transversais: GT Patrimônio para as nossas gerações e GT Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. Neste
contexto, o Comitê para Preservação do Patrimônio do Século XX do ICOMOS/BRASIL tem feito esforços para
refletir sobre essa questão considerando as especificidades nacionais, considerando, nas palavras de seu
Coordenador, Arquiteto Silvio Oskman, sobretudo a “dificuldade de compreender que o século XX é mais
abrangente do que a arquitetura moderna reconhecida nos grandes manuais”.

CADERNOS

38
LEONARDO BARCI CASTRIOTA E FLÁVIO DE LEMOS CARSALADE

Os desafios da preservação do moderno. A atuação do ICOMOS/BRASIL


24 The challenges of preserving the modern: the work of ICOMOS/BRAZIL
Los retos de la conservación de lo moderno: el trabajo de ICOMOS/BRAZIL

eletrônicos. O evento teve ainda edições em 2018, 2019 e 2020, cabendo anotar que
neste último ano, o evento teve formato online, devido à pandemia do COVID19.

Em 2018, o Simpósio do ICOMOS/BRASIL teve como enfoque específico “O desafio


da preservação do patrimônio moderno”, tema da mais alta importância para o
patrimônio do Brasil. Como sabemos, nosso país não só possui um grande acervo
modernista, mas foi um dos primeiros países das Américas a instituir políticas
voltadas à preservação do patrimônio cultural, com a criação do SPHAN (atual
IPHAN), em 1937. Foi também um dos pioneiros, em escala mundial, na proteção de
exemplares da arquitetura moderna, com o tombamento da Igreja de São Francisco
de Assis, na Pampulha, em Belo Horizonte, em 1947. Dentre os bens e sítios brasileiros
inscritos como patrimônios da humanidade, encontram-se não só o conjunto de
Brasília, inscrito pioneiramente pela UNESCO na década de 1980, mas também o
conjunto da Pampulha e a paisagem cultural do Rio de Janeiro, que inclui importantes
traços modernistas. No entanto, apesar da importância do patrimônio moderno a sua
preservação enfrenta inúmeras dificuldades no Brasil, que vão desde a conservação
física desses exemplares até a sua gestão. Como se sabe, o grande desafio é como lidar
com o patrimônio moderno em relação ao seu contexto em constantes mudanças,
que incluem mudanças físicas, econômicas e funcionais, mas também mudanças
socioculturais, políticas e científicas.

FIGURA 1 – Abertura do
2º Simpósio Científico do
ICOMOS/BRASIL, abril 2018

Fonte: ICOMOS/BRASIL

FIGURA 2 – 2º Simpósio
Científico do ICOMOS/BRASIL,
abril 2018

Fonte: ICOMOS/BRASIL

CADERNOS

38
LEONARDO BARCI CASTRIOTA E FLÁVIO DE LEMOS CARSALADE

Os desafios da preservação do moderno. A atuação do ICOMOS/BRASIL


25 The challenges of preserving the modern: the work of ICOMOS/BRAZIL
Los retos de la conservación de lo moderno: el trabajo de ICOMOS/BRAZIL

Dentre as questões que foram tematizadas nesta edição, podemos destacar: o legado
do Movimento Moderno no Brasil e no mundo, a questão da mudança e continuidade:
o destino do patrimônio moderno; cidades e paisagens modernas; mudanças
nos programas e flexibilidade; tecnologia e sustentabilidade na preservação do
patrimônio moderno; restauro, reciclagem e revitalização do patrimônio moderno;
a gestão do patrimônio moderno; o patrimônio moderno e a UNESCO no Brasil e no
mundo. Este tema, que galvanizou as discussões do Colóquio de 20189, foi retomado
no ano seguinte, no âmbito do 3º Simpósio Científico do ICOMOS/BRASIL, quando se
convidaram especialistas do país e do mundo que se reuniram durante uma semana
em Belo Horizonte, onde participaram também da chamada “Missão Pampulha”,
grupo de trabalho especial instituído pelo ICOMOS/BRASIL para criar um sistema de
monitoramento para os sítios patrimônio da humanidade no país, tendo como estudo
de caso inicial, justamente o Conjunto Moderno da Pampulha.

Monitorando um patrimônio moderno: a pro-


posta para a Pampulha
Uma das importantes missões do ICOMOS em cada país é acompanhar aqueles
que são seus patrimônios da humanidade. Embora o ICOMOS Brasil já houvesse
emitido relatórios de acompanhamento de alguns deles, surgiu a necessidade de
criar uma metodologia que unificasse os padrões de análise. Esta necessidade
motivou a instituição a realizar uma oficina, em Belo Horizonte, tendo como piloto
o Conjunto Moderno da Pampulha que, naquele momento, iniciava a elaboração
de seu primeiro relatório pós-dossiê e pós reconhecimento pela Assembleia Geral
da UNESCO em 2016. A oficina, denominada “Missão Pampulha” teve como objetivo
precípuo o aprimoramento do Patrimônio, Gestão Turística e Desenvolvimento
Local do Conjunto Moderno da Pampulha, através da metodologia desenvolvida
pelo ICOMOS Brasil, coordenada por Silvio Zancheti, para auxiliar na gestão dos
patrimônios da humanidade brasileiros, denominada de Sistema de Monitoramento
Preventivo/ Gestão Turística Sustentável. A metodologia parte da observação do bem
em suas diversas dimensões: como paisagem cultural, como excepcional conjunto
arquitetônico, em sua integridade física e estado de conservação, em seu significado
cultural para a sociedade, bem como em suas imensas potencialidades, entre as quais
a sua atratividade turística potencial, interagindo com os técnicos e agentes locais
de maneira a capacitá-los com insumos metodológicos para o melhor desempenho
do Conjunto em estudo. Todos esses elementos são articulados num sistema de
monitoramento, um instrumento poderoso que permite aos diversos atores envolvidos
contribuir e acompanhar os desenvolvimentos do processo de gestão do conjunto.

O monitoramento e a avaliação da gestão da conservação urbana são atividades que


devem fazer parte das ações de gestão de um sítio patrimonial. O monitoramento
trata das mudanças no objeto foco do processo, neste sentido é fundamentalmente,
uma atividade que envolve a medição e a avaliação de mudanças. Da maneira como
foi apresentado o dossiê à UNESCO, o conjunto integra arte, edifícios e paisagem e
é composto por pelo espelho d’água do lago urbano artificial e pela orla trabalhada
com paisagismo e quatro edifícios que abrigam a Igreja de São Francisco de Assis,
o Cassino (atual Museu da Pampulha), a Casa do Baile (atual Centro de Referência

9 Sob a coordenação do Arquiteto Flávio Carsalade, que liderou a candidatura do conjunto da Pampulha a pat-
rimônio da humanidade, a mesa-redonda sobre a preservação do patrimônio moderno, acontecida no último
dia do evento, reuniu os arquitetos e pesquisadores Nivaldo Andrade (UFBA), Silvio Oskman (ESC.CIDADE),
Andrea Borde (UFRJ) e Cláudia Carvalho (Casa Rui Barbosa).

CADERNOS

38
LEONARDO BARCI CASTRIOTA E FLÁVIO DE LEMOS CARSALADE

Os desafios da preservação do moderno. A atuação do ICOMOS/BRASIL


26 The challenges of preserving the modern: the work of ICOMOS/BRAZIL
Los retos de la conservación de lo moderno: el trabajo de ICOMOS/BRAZIL

em Urbanismo, Arquitetura e Design de Belo Horizonte) e o Iate Clube, através da


contribuição de grandes profissionais que trabalharam integradamente tais como
Oscar Niemeyer, Burle Marx, dentre outros. O Conjunto se apresenta como um parque
aberto à malha urbana, em torno de um lago, criando um percurso agradável entre
os equipamentos urbanos criados ao longo das margens da lagoa. Com o tempo, o
Conjunto da Pampulha se tornou ícone da cidade e grande ponto de atração daqueles
que visitam a cidade. Por sua qualidade e importância, foi reconhecida como
Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO em 2016, por ser um momento
seminal da história da arquitetura, original e historicamente coerente com a história
do país.

FIGURA 3 – Conjunto Urbano da Os conceitos utilizados na abordagem metodológica utilizada para a construção do
Pampulha
sistema de indicadores foram marcos estabelecidos a partir de marcos da área e sua
Fonte: IPHAN, 2016 significância cultural e declaração de significância; os atributos, a integridade e a
autenticidade dos bens culturais. No que se refere aos primeiros, cabe se ressaltar que
se entende por significância cultural o conjunto de valores resultantes do julgamento
e da validação social dos significados culturais, passados e presentes, de um objeto.
Lembrando-se que esse julgamento é feito no presente e utiliza como referência os
significados do passado, sustentados por instrumentos de memória reconhecidos
pela sociedade (ZANCHETI et al., 2019). A declaração de significância, por sua vez,
operacionaliza o conceito através dos seguintes meios operacionais: identifica
significados culturais específicos nos objetos; identifica conflitos sociais em torno
dos significados culturais, avalia, no presente, os valores dos significados dos objetos,
de acordo com uma escala de importância, indicando os conflitos de avaliação mais
relevantes, e explica as mudanças do significado do passado para o presente. Desta
forma, a declaração será o produto de uma visão da cultura como um fluxo contínuo

CADERNOS

38
LEONARDO BARCI CASTRIOTA E FLÁVIO DE LEMOS CARSALADE

Os desafios da preservação do moderno. A atuação do ICOMOS/BRASIL


27 The challenges of preserving the modern: the work of ICOMOS/BRAZIL
Los retos de la conservación de lo moderno: el trabajo de ICOMOS/BRAZIL

e mutável, envolvendo um conjunto de significados, processos e valores e não um


conjunto de elementos estáticos.

Examinaram-se, também, os critérios de Integridade e autenticidade de objetos


patrimoniais, onde integridade significa que não haja parte faltante que impeça
o reconhecimento do bem, enquanto autenticidade refere-se ao caráter do que é
genuíno e verdadeiro (UNESCO, 2005). Todos esses elementos compõem aquilo que
a UNESCO chama de Valor Universal Excepcional (VUE) que é a base da declaração
de significância, síntese do reconhecimento do bem como patrimônio mundial,
que baseia a importância cultural e/ou natural extraordinária que transcende as
fronteiras nacionais e se torna importante para as gerações presentes e futuras de
toda a humanidade (Art.49 das Diretrizes Operacionais para a Proteção do Património
Mundial, janeiro de 2008).

Assim, a avaliação de valor proposta pode ser resumida a partir de seis passos:
verificação das narrativas, identificação de atributos, avaliação da integridade e da
autenticidade, seleção dos tipos de valores atribuídos e organização de uma escala
de importância dos atributos. A avaliação é, portanto, uma organização da ordem dos
significados culturais e, portanto, da importância social das séries ou listas; isto é, sua
importância relativa. Para tanto, normalmente, são utilizados dois tipos de escalas,
a escala nominal, que simplesmente atribui nomes ou categoriza os tipos de valores
e a escala ordinal, que mostra a ordem de importância dos objetos sem, entretanto,
estabelecer "distâncias mensuráveis" entre os valores.

Estes atributos e valores estão inseridos em um contexto urbano de desenvolvimento


que os deixa propensos à pressão devido à mudança de uso e da configuração
espacial; estão sujeitos à emergência e ação de vários atores interessados que atuam
de forma competitiva no uso e na apropriação dos valores econômicos gerados no
centro histórico.

A identificação e seleção dos objetos que compõem os conjuntos de uma determinada


paisagem não é uma atividade trivial. Ela deve expressar o consenso social dos
atores envolvidos e ter interesse na dinâmica de conservação e desenvolvimento da
paisagem. Assim, a gestão pública é necessária, com base no uso de ferramentas de
pesquisa e análise científica que possam apoiar uma negociação entre atores para a
formação de um consenso sobre a seleção de elementos e atributos significantes que
representem a declaração de significância da paisagem cultural urbana. Esses atores
envolvidos são aqueles que têm interesses no Conjunto (moradores, empresários etc.),
técnicos e os responsáveis diretos pela conservação do Conjunto.

A construção de indicadores, no caso da Pampulha, optou por uma diretriz


metodológica heurística que utiliza uma abordagem de descoberta, aprendizado e
solução de problemas que usa regras, estimativas ou suposições qualificadas para
encontrar uma solução satisfatória para um problema específico, estruturado em
diálogos entre os atores. A primeira fase se destina a identificar os indicadores do
estado de conservação do sítio patrimonial e do turismo sustentável e a segunda,
busca estabelecer a importância relativa (o peso) de cada indicador dentro do conjunto
buscando alcançar um consenso intersubjetivo entre os sujeitos patrimoniais sobre
os indicadores, a serem escolhidos, e seus respectivos pesos dentro do sistema de
indicadores, que leva em conta a declaração de significância cultural e a Identificação
de uma lista preliminar de elementos significantes (objetos materiais ou imateriais)
que expressem/representem a declaração de significância. A partir daí, atribui-se
um valor relativo numérico a respeito da capacidade de expressão de cada elemento
significante em representar os conteúdos/significados culturais da declaração de
significância do bem.

CADERNOS

38
LEONARDO BARCI CASTRIOTA E FLÁVIO DE LEMOS CARSALADE

Os desafios da preservação do moderno. A atuação do ICOMOS/BRASIL


28 The challenges of preserving the modern: the work of ICOMOS/BRAZIL
Los retos de la conservación de lo moderno: el trabajo de ICOMOS/BRAZIL

Inicialmente foram apontados os seguintes atributos significantes, avaliados quanto


ao seu estado (características físicas, ambientais etc.) e processos (significados, usos
etc.): espelho d’água, margens da lagoa, paisagem circundante, Cassino (Museu de Arte
da Pampulha), Casa do Baile, Iate Tênis Clube, Igreja da Pampulha, Casa Kubitscheck,
clima de modernismo/ ícone urbano e função urbana.

FIGURA 4 – Igreja São A aplicação da metodologia se deu em oficinas realizadas com um grupo de atores
Francisco de Assis, limitado e diverso, constando de representantes dos três grupos acima citados
Pampulha. e de técnicos do ICOMOS, incluindo membros internacionais. As oficinas foram
Fonte: Pixabay, Creative coordenadas pelos urbanistas Silvio Zancheti e Flavio Carsalade. Os resultados
Commons foram apresentados em duas partes: a primeira trata dos indicadores do estado
de conservação patrimonial do Conjunto Moderno da Pampulha e a segunda dos
indicadores de turismo sustentável.

Os resultados sobre os indicadores do estado de conservação resultaram de um


trabalho em duas fases. A primeira fase, realizada durante a Jornada de Trabalho
e da simulação, consistiu em estabelecer revisar a lista de elementos e atributos
significantes e determinar o valor da importância relativa de cada um deles para
expressar a Declaração de Valores Universais Excepcionais do Conjunto Moderno da
Pampulha. Esse trabalho foi realizado durante a simulação e contou com a participação

CADERNOS

38
LEONARDO BARCI CASTRIOTA E FLÁVIO DE LEMOS CARSALADE

Os desafios da preservação do moderno. A atuação do ICOMOS/BRASIL


29 The challenges of preserving the modern: the work of ICOMOS/BRAZIL
Los retos de la conservación de lo moderno: el trabajo de ICOMOS/BRAZIL

de três grupos de especialistas. A segunda fase, consistiu em uma reelaboração crítica


do resultado da primeira fase. Foi elaborada pelos coordenadores do trabalho que:

• Calcularam os pesos dos elementos e dos atributos significantes com base nos
resultados dos trabalhos de grupo;

• Procuraram similitudes entre os elementos e os atributos significantes, de forma a


eliminar redundâncias, e por conseguinte reduzir a possibilidade de indicadores que
representem estado de conservação similares. Isso levou basicamente a eliminação e
a agregação de elementos e atributos em uma lista menor que a preliminar;

• Recalcularam os pesos dos elementos e atributos significantes da lista reduzida;

• Estabeleceram o formato dos indicadores de estado de conservação.

Os indicadores dos atributos significantes foram calculados de forma primária, isto é,


com levantamento de informações coletados diretamente por meio de levantamento
de dados, enquetes com especialistas e enquete com usuários.

A lista preliminar de indicadores de turismo sustentável foi apresentada e discutida


pelos três grupos de especialistas que participaram da oficina de trabalho. O resultado
do trabalho dos grupos foi analisado e retrabalhado pelos coordenadores do trabalho
de forma a encontrar similaridades entre os indicadores apresentado pelos grupos e
então foram agrupados em indicadores sintéticos.

O resultado do trabalho foi considerado altamente satisfatório como piloto da


metodologia a ser adotada na avaliação dos patrimônios da humanidade no Brasil,
embora envolvam, para sua consecução, uma sinergia entre as prefeituras onde esses
patrimônios se localizam e os órgãos de patrimônio.

A tradição da preservação do concreto


armado: a colaboração França-Brasil
Outra importante iniciativa do ICOMOS/BRASIL voltada para a preservação do
patrimônio moderno foi o projeto de cooperação entre França e Brasil que enfocou
a conservação e a restauração do concreto armado, tema já abordado há mais de
25 anos pelo ICOMOS França através de uma série de encontros e seminários. De
fato, este material tem permitido, incontestavelmente, desde o início do século XX,
a realização de obras arquitetônicas “sensíveis e refinadas”, como reconhece Jean-
François Lagneau, antigo Presidente do ICOMOS França. Neste sentido o concreto
se identifica fortemente com a arquitetura moderna, tendo sido o “companheiro
de proezas notáveis e audácias arquiteturais”, como aquelas de Perret ou de Le /
Corbusier, na medida em que permite “a síntese dos condicionamentos de flexibilidade
e resistência”. (Béton, 2017, p. 3) No entanto, apesar de sua importância e por ter sido
o material privilegiado pela construção em massa dos anos 1950, o concreto armado
se encontra hoje marcado por uma imagem muitas vezes negativa, “desvalorizada, de
banalização e de mediocridade”.

Frente a esse quadro, o ICOMOS França tem se debruçado sobre a problemática


do concreto armado, destacando-se como primeira iniciativa a organização de um
colóquio em 1996, realizado em Havre, cidade também intimamente associada a
esse material. Naquele momento, já se discutiam suas patologias, suas degradações,
bem como métodos de diagnóstico para fazer frente a elas e garantir a conservação
do concreto. Também foram debatidos com rigor as questões do valor estético da
arquitetura em concreto, seus usos, sua reabilitação e os problemas de restauração e

CADERNOS

38
LEONARDO BARCI CASTRIOTA E FLÁVIO DE LEMOS CARSALADE

Os desafios da preservação do moderno. A atuação do ICOMOS/BRASIL


30 The challenges of preserving the modern: the work of ICOMOS/BRAZIL
Los retos de la conservación de lo moderno: el trabajo de ICOMOS/BRAZIL

de conservação. Pouco mais que vinte anos depois, em 2017, retomou-se esse tema,
num seminário e colóquio internacional, realizado desta vez em Grenoble, cidade
localizada no maciço dos Alpes e fortemente marcada por uma cultura do concreto
que vem desde o século XIX. Naquele encontro se discutiram também a questão do
envelhecimento do concreto e a necessidade de sua restauração, bem como os novos
desafios colocados pela questão da sustentabilidade: se o concreto representa uma
parte não desprezível da economia francesa e mundial, não há como se desconsiderar
a contribuição dessa indústria para o aumento do efeito estufa e consequente
aquecimento global (Béton, 2017, p. 4).

FIGURA 5 – Anais do Seminário


“Architectures en Béton dans les
Alpes”, 2017.

Fonte: ICOMOS France

Considerando essa experiência acumulada, o ICOMOS/BRASIL resolveu se aproximar


do ICOMOS França para desenvolver uma cooperação neste tema, tão caro também ao
nosso país, marcado por uma forte cultura construtiva em concreto armado. Assim,
em março de 2020, num primeiro encontro acontecido na Cité de l'architecture & du
patrimoine, em Paris, os presidentes dos dois comitês, Leonardo Castriota (ICOMOS/
Brasil) e Jean-François Lagneau (ICOMOS França), decidiram firmar uma parceria para
troca de experiências nesse campo. A ideia era articular um programa que abordasse
o concreto armado tanto do ponto de vista de sua conservação e restauração, quanto
considerando-o como um material atual da construção civil.

Se a França é detentora de uma larga tradição de uso do concreto armado e o seu


Comitê Nacional tematiza há mais de 25 anos a questão da restauração do concreto,
o Brasil não fica atrás, tendo uma das experiências mais interessantes e consolidadas
do uso do material, cujo uso livre se tornou mesmo a marca da arquitetura moderna
de nosso país frente aos olhos do mundo. Aqui, cabe se destacar a experiência de
Brasília, maior conjunto urbanístico sítio patrimônio da humanidade, com 112,25
km² e aproximadamente 400 monumentos, em torno do qual se decidiu organizar, no
âmbito da cooperação Brasil-França, a “Jornada Científica Brasília patrimônio cultural da

CADERNOS

38
LEONARDO BARCI CASTRIOTA E FLÁVIO DE LEMOS CARSALADE

Os desafios da preservação do moderno. A atuação do ICOMOS/BRASIL


31 The challenges of preserving the modern: the work of ICOMOS/BRAZIL
Los retos de la conservación de lo moderno: el trabajo de ICOMOS/BRAZIL

humanidade: sobre manutenção e restauração do concreto em edifícios históricos”, cuja ideia


é reunir reflexão teórico-metodológica e análises práticas sobre casos escolhidos.
Para se garantir o caráter teórico-prático do evento, foram estabelecidas parceiras:
com o Grupo do Laboratório do Ambiente Construído (LabRac) da Universidade de
Brasília (UNB) e com o Sindicato da Indústria e da Construção Civil do Distrito Federal
(SINDUSCON DF)10 . Para se garantir uma abordagem ampla do tema, o encontro
se estrutura em torno de quatro pontos principais: a relação entre arquitetura,
engenharia, urbanismo e paisagismo; o tratamento de concreto e histórico do processo;
os conceitos arquitetônicos e as técnicas construtivas do concreto e a necessidade de
laboratório/s de pesquisa técnica.

FIGURA 6 – Teatro Nacional Cabe registrar que a primeira parte do evento já foi realizada, em dezembro de 2021,
Claudio Santoro, 2012 na forma de um webinar internacional "Restauração dos edifícios históricos em
Fonte: Creative Commons concreto de Brasília: troca de experiências Brasil-França", que reuniu especialistas
franceses, brasileiros e latino-americanos. Essa primeira jornada científica apresentou
casos de restauração do concreto, tendo como foco a sítios históricos patrimônio da
humanidade na Europa, América Latina e, principalmente, no Brasil11 . No segundo
encontro, que terá caráter presencial em Brasília, prevê-se o aprofundamento da

10 A primeira nos permitiu criar um grupo de trabalho, com o LabRac, visando à realização da análise da con-
servação dos edifícios a serem escolhidos como estudos de caso, que hoje já conta com 16 doutorandos e
mestrandos. Já a parceria como o SINDUSCON permitirá integrar as instituições de patrimônio, a academia e
a iniciativa privada com vistas ao estabelecimento de parâmetros para a restauração de edifícios históricos,
bem como a realização de seis oficinas com experts brasileiros para promover esses parâmetros. Além disso,
cabe se destacar o apoio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF, da Superintendência do IPHAN-
DF e da Embaixada da França à iniciativa.

11 Mais sobre o evento, confira: https://www.sinduscondf.org.br/ld/webinar-restauracao-do-concreto.

CADERNOS

38
LEONARDO BARCI CASTRIOTA E FLÁVIO DE LEMOS CARSALADE

Os desafios da preservação do moderno. A atuação do ICOMOS/BRASIL


32 The challenges of preserving the modern: the work of ICOMOS/BRAZIL
Los retos de la conservación de lo moderno: el trabajo de ICOMOS/BRAZIL

troca de experiência nos quatro eixos propostos, já se havendo escolhido dois edifícios
icônicos do Movimento Moderno brasileiro, que serão objetos de análise e proposições:
o Teatro Nacional e o Museu da Cidade, que compõe o conjunto urbanístico da Praça
dos Três Poderes.

Desafios futuros: conclusões


Conforme exposto, a questão da preservação do moderno deve ser enfrentada por
diversas frentes e envolve diferentes instituições. O ICOMOS Brasil tem procurado
realizar esforços conjuntos com outras instituições oficiais e organizações não
governamentais e as que apresentamos aqui mostram ações conjuntas com órgãos
do patrimônio e com instituições parceiras como o DOCOMOMO, dentre outras, no
sentido de abordar as diferentes questões que afetam esse patrimônio, apontadas na
introdução, tais como as tecnológicas, de ressignificação e de gestão.

No entanto, há ainda um esforço que necessita ser feito por todos os braços
internacionais do ICOMOS e que é indicado pela baixa representatividade do moderno
na lista do patrimônio mundial. Em 1997, o ICOMOS mobilizou o DOCOMOMO para
relatar tópico específico no documento “Modern Movement and the World Heritage List”.
O relatório identificou quatro obras de arquitetos e cerca de vinte edifícios modernos,
sítios ou conjuntos que poderiam ser reconhecidos pelos seus “valores universais
excepcionais”. Ainda assim, em 2005, o relatório do ICOMOS denominado “The World
Heritage List: Filling the gaps” apontou a sub-representação do patrimônio moderno
na lista: somente uma dúzia entre os 700 sítios listados foram identificados como
patrimônio moderno.

Incluir o moderno cada vez mais nos debates patrimoniais, pesquisar sobre suas
características especiais e reforçar sua significância em ações cotidianas certamente
nos ajudará a corrigir estas distorções.

Referências
Béton(s). Architectures en bétons dans les Alpes; restaurer les bétons, la masse et
l'épiderme. Proceedings of the international symposium organized by ICOMOS
France, Labex AE&CC and the Ecole Nationale Supérieure d'Architecture de Grenoble
in Grenoble, France, on 23-24 November 2017. Lagneau, Jean-François (ed.). Paris,
ICOMOS France, 2017. 181 p., illus. (Les Cahiers d'ICOMOS France, No. 29).

CARSALADE, F. L.; MORAIS, P. H. A. . Conjunto Moderno da Pampulha: um conjunto


paisagístico como patrimônio da humanidade. Leituras Paisagísticas (UFRJ), v. 1, p.
75-100, 2017.

CASTRIOTA, Leonardo Barci. Patrimônio em tempos difíceis: a atuação do ICOMOS/


BRASIL desde 2015. In: FRONER, Yaci-ara (Org.). Patrimônio cultural e sustentabilidade:
ação integrada entre Brasil e Moçambique. 1ed.Belo Horizonte: IEDS; Editora São
Jerônimo, 2018, v. 1, p. 61-76.

VAN HEUVEL, Dirk et alli. (ed.). The Challenge of Change: Dealing with the Legacy
of the Modern Movement - Proceedings of the 10th International DOCOMOMO.
Rotterdam: DOCOMOMO, 2008.

CADERNOS

38
LEONARDO BARCI CASTRIOTA E FLÁVIO DE LEMOS CARSALADE

Os desafios da preservação do moderno. A atuação do ICOMOS/BRASIL


33 The challenges of preserving the modern: the work of ICOMOS/BRAZIL
Los retos de la conservación de lo moderno: el trabajo de ICOMOS/BRAZIL

RESPONSABILIDADE INDIVIDUAL E DIREITOS AUTORAIS

A responsabilidade da correção normativa e gramatical do texto é de inteira


responsabilidade do autor. As opiniões pessoais emitidas pelos autores dos artigos são
de sua exclusiva responsabilidade, tendo cabido aos pareceristas julgar o mérito das
temáticas abordadas. Todos os artigos possuem imagens cujos direitos de publicidade
e veiculação estão sob responsabilidade de gerência do autor, salvaguardado o direito
de veiculação de imagens públicas com mais de 70 anos de divulgação, isentas de
reivindicação de direitos de acordo com art. 44 da Lei do Direito Autoral/1998: “O prazo
de proteção aos direitos patrimoniais sobre obras audiovisuais e fotográficas será de
setenta anos, a contar de 1° de janeiro do ano subsequente ao de sua divulgação”.

O CADERNOS PROARQ (ISSN 2675-0392) é um periódico científico sem fins


lucrativos que tem o objetivo de contribuir com a construção do conhecimento nas
áreas de Arquitetura e Urbanismo e afins, constituindo-se uma fonte de pesquisa
acadêmica. Por não serem vendidos e permanecerem disponíveis de forma online
a todos os pesquisadores interessados, os artigos devem ser sempre referenciados
adequadamente, de modo a não infringir com a Lei de Direitos Autorais.

Submetido em 30/04/2022

Aprovado em 02/07/2022

CADERNOS

38
CADERNOS

38

Eixo temático
Valores, História e Teoria do Patrimônio
CADERNOS

38

ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL

Considerações sobre a conservação da Arquitetura Moderna:


Contrapontos entre Docomomo e Icomos/ISC20C
Considerations on Modern Architecture conservation: Counterpoints between
Docomomo and Icomos/ISC20C
Consideraciones sobre la conservación de la Arquitectura Moderna:
Contrapuntos entre Docomomo e Icomos/ISC20C
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL

Considerações sobre a conservação da Arquitetura Moderna: Contrapontos entre Docomomo e Icomos/ISC20C


36 Considerations on Modern Architecture conservation: Counterpoints between Docomomo and Icomos/ISC20C
Consideraciones sobre la conservación de la Arquitectura Moderna: Contrapuntos entre Docomomo e Icomos/ISC20C

Ana Carolina de Souza Bierrenbach

Arquiteta e urbanista (FAU-MACK, 1993), historiadora


(FFLCH-USP, 1995), mestre (PPGAU-UFBA, 2001),
doutora (ETSAB-UPC, 2006) e pós-doutora (UNIVERSITÀ
DEGLI STUDI DI NAPOLI FEDERICO II – 2016-2017).
Atualmente realiza pós-doutorado (UFF, 2022). Atua
como professora associada III da FAUFBA e professora
permanente do PPGAU-UFBA. Suas pesquisas focam na
produção arquitetônica de Lina Bo Bardi, na arquitetura
moderna de Salvador e nas teorias e práticas sobre o
restauro da arquitetura moderna.

Architect and urban Planner (FAU-MACK, 1993) and his-


torian (FFLCH-USP, 1995). Has a master’s degree (PPGAU-
UFBA, 2001), a PhD (ETSAB-UPC, 2006) and postdoctoral
degree (UNIVERSITÀ DEGLI STUDI DI NAPOLI FEDERICO II
– 2016-2017). She is currently conducting postdoctoral stud-
ies (UFF, 2022). She works as an associate professor III at
FAUFBA and as permanent professor at PPGAU-UFBA. Her
research focuses on the architectural production of Lina Bo
Bardi, modern architecture in Salvador and the theories and
practices on the restoration of modern architecture.

Arquitecta y urbanista (FAU-MACK, 1993), historiadora


(FFLCH-USP, 1995), maestra (PPGAU-UFBA, 2001), docto-
ra (ETSAB-UPC, 2006) y postdoctora (UNIVERSITÀ DEGLI
STUDI DI NAPOLI FEDERICO II – 2016-2017). En la actuali-
dad hace investigaciones postdoctorales (UFF, 2022). Actúa
como profesora asociada III de la FAUFBA y profesora per-
manente en el PPGAU-UFBA. Su investigación se centra en
la producción arquitectónica de Lina Bo Bardi, la arquitectura
moderna en Salvador y las teorías y prácticas sobre la res-
tauración de la arquitectura moderna.

[email protected]

CADERNOS

38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL

Considerações sobre a conservação da Arquitetura Moderna: Contrapontos entre Docomomo e Icomos/ISC20C


37 Considerations on Modern Architecture conservation: Counterpoints between Docomomo and Icomos/ISC20C
Consideraciones sobre la conservación de la Arquitectura Moderna: Contrapuntos entre Docomomo e Icomos/ISC20C

Julia Pela Meneghel

Arquiteta e urbanista (UFES, 2019 | IUAV, 2015-2016);


atualmente realiza mestrado no PPGAU-UFBA, na
área de concentração Conservação e Restauro. Suas
pesquisas focam no estudo da arquitetura moderna no
Espírito Santo, a produção arquitetônica de Maria do
Carmo Schwab e nas teorias e práticas sobre o restauro
da arquitetura moderna.

Architect and urban Planner (UFES, 2019 | IUAV, 2015-


2016); currently enrolled as a Master’s student in Conser-
vation and Restoration study area at PPGAU-UFBA. Her
research focuses on the study of modern architecture in Es-
pírito Santo, the architectural production of Maria do Carmo
Schwab and the theories and practices on the restoration of
modern architecture.

Arquitecta y urbanista (UFES, 2019 | IUAV, 2015-2016); ac-


tualmente realiza su máster en el PPGAU-UFBA, en el área
de concentración Conservación y Restauración. Sus investig-
aciones se centran en el estudio de la arquitectura moderna
en Espírito Santo, en la producción arquitectónica de Maria
do Carmo Schwab y en las teorías y prácticas sobre la res-
tauración de la arquitectura moderna.

[email protected]

CADERNOS

38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL

Considerações sobre a conservação da Arquitetura Moderna: Contrapontos entre Docomomo e Icomos/ISC20C


38 Considerations on Modern Architecture conservation: Counterpoints between Docomomo and Icomos/ISC20C
Consideraciones sobre la conservación de la Arquitectura Moderna: Contrapuntos entre Docomomo e Icomos/ISC20C

Resumo
Este artigo enfoca a discussão teórica em torno da conservação e intervenção no
patrimônio moderno baseado em duas instituições vinculadas ao tema, ambas de
representação internacional – o DOcumentação e COnservação de edifícios, sítios e
unidades de vizinhança do MOvimento MOderno (Docomomo) e o International Council
on Monuments and Sites/ International Scientific Committee on Twentieth Century Heritage
(Sistema Icomos/ISC20C). Constatando a recorrente predominância das teorias
italianas no debate sobre a preservação no contexto contemporâneo brasileiro, esse
artigo pretende expandir a discussão, incorporando outras referências. A intenção
principal é traçar um panorama sobre a atuação de tais organizações e rastrear
seus posicionamentos frente às especificidades para conservação e intervenção no
patrimônio moderno. Tal leitura se dá com base em documentos oficiais das próprias
instituições, bem como através das atuações teórico-práticas de profissionais
diretamente vinculados a essas. No caso do Docomomo, explora-se as manifestações
de Hubert Jan-Henket, Wessel de Jonge, John Allan e Theodore Prudon; e quanto ao
Icomos/ISC20C, aquelas de Susan Macdonald e Sheridan Burke. Esse artigo também
pretende identificar as consonâncias e dissonâncias desses discursos. Enquanto o
Docomomo delimita seu recorte no legado do Movimento Moderno, o Icomos/ISC20C
abrange sua leitura ao “patrimônio arquitetônico do século XX”. Temas relativos à leitura
dos significados e aos conceitos de autenticidade e integridade são determinantes
para a discussão, aparecendo recorrentemente nos discursos analisados. Também
constam particularidades referentes à necessidade de uma teoria alternativa,
que afeta as formas de intervir, que se pautam em valores tangíveis e intangíveis,
considerados caso a caso. Embora alguns autores certifiquem um alinhamento de
opiniões, a aproximação aqui proposta pretende demonstrar que existem nuances,
revelando as particularidades de cada pensamento, muitas possivelmente associadas
ao próprio escopo de cada organização. A abordagem caso a caso e o reconhecimento
da ampliação do conceito de autenticidade estão presentes em ambos os discursos. No
entanto, revela-se o discurso assertivo do Docomomo versus a abordagem ponderada
e mais abrangente do Icomos/ISC20C. Assim, temos a priorização da intenção do
projeto em oposição a multiplicidade de significados vinculados ao edifício, percebido
em suas diferentes temporalidades. A exaltação da ideia do arquiteto em contraste
a valorização dos vários atores associados à construção e o uso continuado do
edifício. A partir do reconhecimento das aproximações e contrapontos, compreende-
se a postura do Icomos/ISC20C e das autoras citadas como sensata e realista em
relação ao contexto contemporâneo, pautando-se em pesquisas aprofundadas e no
reconhecimento dos significados, em suas múltiplas associações e temporalidades.
Estima-se que o contraponto aqui estabelecido contribua para ampliação do debate
acerca da intervenção no patrimônio moderno, para além das teorias já estabelecidas
na contemporaneidade, especialmente no cenário brasileiro. Além disso, espera-se
incitar as instituições e pesquisadores locais ao enfrentamento da questão, ainda
incipiente no país.

Palavras-chave: Patrimônio Moderno. Conservação. Docomomo. Icomos/ISC20C.

CADERNOS

38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL

Considerações sobre a conservação da Arquitetura Moderna: Contrapontos entre Docomomo e Icomos/ISC20C


39 Considerations on Modern Architecture conservation: Counterpoints between Docomomo and Icomos/ISC20C
Consideraciones sobre la conservación de la Arquitectura Moderna: Contrapuntos entre Docomomo e Icomos/ISC20C

Abstract
This article focuses on the theoretical discussion on conservation and intervention in modern
architectural heritage, based on two organizations related to the theme, both with interna-
tional representation – the International Working Party for DOcumentation and COnservation
of buildings, sites and neighbourhoods of the MOdern MOvement (Docomomo) and the Inter-
national Council on Monuments and Sites/ International Scientific Committee on Twentieth
Century Heritage (Icomos/ISC20C System). Observing the recurrent predominance of Italian
theories on the subject in the Brazilian context, this article intends to expand them to other
references. The main intention is to draw an overview of the performance of such organiza-
tions and outline their positions in the face of the specifics of conservation and intervention in
modern heritage. This approach is based on institutional official documents, as well as on the
theoretical and practical contributions of professionals directly linked to these organizations.
In the case of Docomomo, the article mentions Hubert Jan-Henket, Wessel de Jonge, John Allan
and Theodore Prudon; and as for Icomos/ISC20C, it refers to Susan Macdonald and Sheridan
Burke. The article also intends to identify the consonances and dissonances of these discourses.
While the Docomomo delimits its focus of interest on the legacy of the Modern Movement, the
Icomos/ISC20C deals with the "architectural heritage of the 20th Century". Themes related to
the apprehension of significance and the concepts of authenticity and integrity are decisive for
the discussion, repeatedly appearing in the analyzed discourses. There are also particularities
regarding the need for an alternative theory, which affects the forms of intervention, which
are based on tangible and intangible values, that should be considered case by case. Although
some authors attest to an alignment of opinions, the approach proposed in this article intends
to clarify that there are nuances, revealing the particularities of each idea, many possibly as-
sociated with the scope of each organization. The case-by-case approach and the recognition
of the expansion of the concept of authenticity are present in both discourses. However, the
assertive discourse of Docomomo versus the balanced and more comprehensive approach of
Icomos/ISC20C is revealed. Thus, one highlights the design intent, while the other, in opposi-
tion, prioritizes the multiplicity of meanings linked to the analyzed building, perceived in its
different temporalities. One exalts the architect's idea, in contrast with the appreciation of the
various actors associated with the building, during construction and continued use. After rec-
ognizing the approaches and counterpoints, we understand the position of Icomos/ISC20C and
the aforementioned authors as sensible and realistic in relation to the contemporary context,
based on in-depth research and recognition of significance, in their multiple associations and
temporalities. We intend that the counterpoint established here between these two important
institutions will contribute to the expansion of the debate on modern heritage intervention,
beyond the theories already established in contemporary times, especially in the Brazilian
scenario. In addition, we hope to encourage local institutions and researchers to address the
topic, which is still incipient in the country.

Keywords: Modern Heritage. Conservation. Docomomo. Icomos/ISC20C.

CADERNOS

38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL

Considerações sobre a conservação da Arquitetura Moderna: Contrapontos entre Docomomo e Icomos/ISC20C


40 Considerations on Modern Architecture conservation: Counterpoints between Docomomo and Icomos/ISC20C
Consideraciones sobre la conservación de la Arquitectura Moderna: Contrapuntos entre Docomomo e Icomos/ISC20C

Resumen
Este artículo se centra en la discusión teórica alrededor de la conservación e intervención en
el patrimonio moderno a partir de dos instituciones vinculadas al tema, ambas de represent-
ación internacional – el International Working Party for DOcumentation and COnservation of
buildings, sites and neighbourhoods of the MOdern Movement (Docomomo) y el International
Council on Monuments and Sites/ International Scientific Committee on Twentieth Century
Heritage (Sistema Icomos/ISC20C). Observando el predominio recurrente de las teorías itali-
anas en el debate sobre la preservación en el contexto brasileño contemporáneo, este artículo
pretende ampliar la discusión, incorporando otras referencias. La intención principal es trazar
una visión general de las acciones de tales organizaciones y seguir sus posiciones frente a las
especificidades para la conservación e intervención en el patrimonio moderno. Esta lectura se
basa en documentos oficiales de las propias instituciones, así como en las acciones teóricas y
prácticas de profesionales directamente vinculados a las mismas. En el caso de Docomomo,
se exploran las manifestaciones de Hubert Jan-Henket, Wessel de Jonge, John Allan y Theo-
dore Prudon; y sobre el Icomos/ISC20C, se observan las aportaciones de Susan Macdonald
y Sheridan Burke. Este artículo también tiene como objetivo identificar las consonancias y
disonancias de estos discursos. Mientras el Docomomo delimita su recorte en el legado del
Movimiento Moderno, el Icomos/ISC20C cubre su lectura al "patrimonio arquitectónico del
siglo XX". Los temas relacionados con la lectura de significados y los conceptos de autenti-
cidad e integridad son determinantes para la discusión, se destacando repetidamente en los
discursos analizados. También hay particularidades relacionadas con la necesidad de una
teoría alternativa, que afecta a las formas de intervenir, que se basan en valores tangibles e
intangibles, considerados caso por caso. Aunque algunos autores certifican una alineación de
opiniones, el enfoque aquí propuesto pretende demostrar que existen matices, revelando las
particularidades de cada pensamiento, muchos posiblemente asociados al propio alcance de
cada organización. El enfoque caso por caso y el reconocimiento de la expansión del concepto
de autenticidad están presentes en ambos discursos. Sin embargo, el discurso asertivo de
Docomomo se revela frente al enfoque más ponderado e integral del Icomos/ISC20C. Así, se
subraya la priorización de la intención del proyecto frente a la multiplicidad de significados
vinculados al edificio, percibidos en sus diferentes temporalidades. La exaltación de la idea del
arquitecto contrasta con la valorización de los diversos actores asociados a la construcción y
el uso continuado del edificio. A partir del reconocimiento de aproximaciones y contrapuntos,
entendemos la postura de Icomos/ISC20C y de las autoras citadas como sensible y realista
en relación con el contexto contemporáneo, a partir de la investigación en profundidad y del
reconocimiento de significados, sobre sus múltiples asociaciones y temporalidades. Se estima
que el contrapunto aquí establecido contribuya a la expansión de debate sobre la intervención
en el patrimonio moderno, más allá de las teorías ya establecidas en los tiempos contemporá-
neos, especialmente en el escenario brasileño. Además, se espera incentivar a las instituciones
e investigadores locales a abordar el tema, que aún es incipiente en el país.

Palabras clave: Patrimonio Moderno. Conservación. Docomomo. Icomos/ISC20C.

CADERNOS

38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL

Considerações sobre a conservação da Arquitetura Moderna: Contrapontos entre Docomomo e Icomos/ISC20C


41 Considerations on Modern Architecture conservation: Counterpoints between Docomomo and Icomos/ISC20C
Consideraciones sobre la conservación de la Arquitectura Moderna: Contrapuntos entre Docomomo e Icomos/ISC20C

Introdução
No Brasil as discussões referentes ao patrimônio arquitetônico e urbano são muito
influenciadas pelas teorias italianas. No que diz respeito ao patrimônio arquitetônico
moderno, essas teorias também começam a ser influentes1. Mas, paralelamente,
despontam outras referências teóricas que podem colaborar para fomentar os debates.
Essas estão relacionadas principalmente com duas instituições2 que têm assumido
um importante papel no cenário internacional: o International Council on Monuments
and Sites/ International Scientific Committee on Twentieth Century Heritage (sistema
Icomos/ISC20C) e o DOcumentação e COnservação de edifícios, sítios e unidades de
vizinhança do MOvimento MOderno (Docomomo) (na sua formação internacional e
nos seus núcleos nacionais).

Este texto pretende traçar um panorama da atuação teórica dessas instituições


vinculadas à conservação e à intervenção no patrimônio arquitetônico moderno.3
Enquanto o Icomos/ISC20C atua dentro de uma delimitação mais ampla, tratando
do patrimônio arquitetônico de todos os tempos, incluindo aquele do século XX, o
Docomomo possui um foco mais limitado, lidando especificamente com a produção
arquitetônica do Movimento Moderno4.

O tema tratado neste texto já foi apresentado com outros enfoques. Ressalta-se
especialmente os artigos de Carvalho (2017, 2018) que dão indicações aprofundadas
sobre os principais atores e pautas das discussões sobre o patrimônio arquitetônico
moderno entre o final do século passado e o princípio do século XX5. Nossa intenção
é realizar uma aproximação histórica e de caráter crítico que possa fomentar esse
debate ainda incipiente - e necessário - no Brasil.

Inicialmente, traçamos um panorama histórico das referidas instituições, dos seus


profissionais atuantes e das relações que estabelecem entre si. A seguir rastreamos
como se apresenta a questão da especificidade da conservação e da intervenção
no patrimônio arquitetônico moderno. Finalmente concluímos com uma síntese a
respeito dessas questões, notando pontos de dissonância e concordância, além de
trazermos uma discussão crítica em relação aos assuntos elencados.

Entende-se que o Docomomo e o Icomos/ISC20C se pronunciam tanto a partir dos


seus documentos institucionais quanto pelas manifestações dos profissionais que
se articulam com essas entidades. No caso do Docomomo, tomamos como base
principalmente as manifestações de profissionais associados à organização: Hubert-
Jan Henket, Wessel de Jonge, John Allan e Theodore Prudon. Em relação ao Icomos/
ISC20C, acompanhamos seus documentos institucionais e as declarações de duas
profissionais associadas a essas instituições: Sheridan Burke e Susan Macdonald.

1 Tais teorias são muito difundidas, especialmente a partir dos Programas de Pós-Graduação brasileiros e seus
profissionais articulados. São, por exemplo, os casos do PPGAU-UFBA e do Programa de Pós-Graduação da
FAU-USP. Ambos mantêm contatos intensos com representantes da corrente do Restauro Crítico-Conserva-
tivo, como Giovanni Carbonara e Simona Salvo. A última tem uma produção que se debruça especificamente
sobre o patrimônio arquitetônico moderno, trazendo questionamentos sobre as posturas defendidas pelo
Docomomo e pelo Icomos/ISC20C (Salvo, 2008).

2 Existem outras instituições que atuam no campo do patrimônio arquitetônico do século XX, principalmente
na Europa e nos Estados Unidos. São os casos do Council of Europe, da Association for Preservation Technol-
ogy (APT), do International Union of Architects (UIA), do International Committee for the Conservation of
Industrial Heritage (Ticcih) e do Getty Conservation Institute (GCI).

3 Adota-se neste texto os termos “patrimônio arquitetônico moderno”, ou “arquitetura moderna” entendendo
que esses possuem uma maior amplitude, capaz de abarcar os diferentes termos usados pelas instituições
aqui examinadas. Também estamos conscientes da limitação da nossa análise ao patrimônio arquitetônico,
mesmo sabendo que as diferentes instituições ampliaram o campo para outras dimensões, como nos casos
do patrimônio urbano, industrial etc

4 Carvalho (2018) ressalta em seu texto que a utilização de determinadas expressões em detrimento de outras
não se dá indiscriminadamente, mas demonstra entendimentos diferenciados sobre qual é o patrimônio que
se pretende preservar e como fazê-lo.

5 Entre os autores que abordam o tema, ressaltamos os trabalhos de MARINHO, 2018; MOREIRA, 2011; OKSMAN,
2017; SILVA, 2016; SOARES; TINEM, 2018; ZANCHETTI, 2014.

CADERNOS

38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL

Considerações sobre a conservação da Arquitetura Moderna: Contrapontos entre Docomomo e Icomos/ISC20C


42 Considerations on Modern Architecture conservation: Counterpoints between Docomomo and Icomos/ISC20C
Consideraciones sobre la conservación de la Arquitectura Moderna: Contrapuntos entre Docomomo e Icomos/ISC20C

A atuação do Docomomo
Em um contexto de crescente atenção à arquitetura moderna e de tomada de
consciência da degradação de seus exemplares, é estabelecido, em 1988, o Docomomo
– DOcumentação e COnservação de edifícios, sítios e unidades de vizinhança do
MOvimento MOderno – uma organização não-governamental que propõe tratar
especificamente da documentação, conservação e preservação do legado do
Movimento Moderno. É fundado por um grupo de profissionais europeus, liderados
por arquitetos holandeses, Hubert-Jan Henket e Wessel de Jonge, ambos vinculados
à Escola de Arquitetura da Technical University in Eindhoven, na Holanda6, e ocupando,
respectivamente, os cargos de Presidente e Secretário-Geral por 14 anos7. A organização
rapidamente se expande internacionalmente, obtendo suporte da Unesco a partir de
19898.

Promovendo Conferências Internacionais bianuais, a primeira, realizada em Eindhoven


(1990), gera um grande interesse entre os profissionais da área, tendo representantes
de 13 países, com maior participação europeia. Durante esse encontro é assinada
a Declaração de Eindhoven, fixando os objetivos da organização, sendo atualizada
na 13ª Conferência Internacional em Seul, em 2014, onde é aprovada a Declaração
Eindhoven-Seoul9.

O Docomomo é uma organização internacional que conta com representações


nacionais. Possui Comitês Científicos e realiza publicações periódicas. Ainda assim,
o discurso teórico/prático vinculado ao tema da conservação e intervenção do
patrimônio moderno é melhor percebido através dos indivíduos representantes e mais
atuantes nos contextos nacionais e internacionais. Claramente, Hubert Jan-Henket e
Wessel de Jonge são os primeiros a serem considerados, cuja atuação parte desde a
fundação e segue bastante ativa até os dias de hoje. Outro nome recorrente é o de John
Allan, primeiro coordenador (1989-91) do Docomomo-Reino Unido (1989) e arquiteto
diretor (1983-2011) do Avanti Architects, em Londres, com experiência prática na
intervenção do patrimônio moderno. Sua participação contínua, desde a Conferência
de 1990 até publicações mais recentes, fora sua atuação prática, servem como
indicativos de sua representatividade no grupo ligado ao Docomomo Internacional.
Também destacamos o norte-americano Theodore Prudon, membro do Docomomo
Internacional e presidente fundador do Docomomo-EUA (1995). Especialista na
preservação da arquitetura moderna, tem experiência na intervenção do patrimônio
moderno e é professor na Universidade de Columbia e no Pratt Institute. Em seu livro
Preservation of Modern Architecture (2008) bem explicita seu ponto de vista a respeito
da preservação do legado moderno, discutindo questões referentes à autenticidade,
funcionalidade, materialidade e intenção de projeto.

6 Entre 1988-1996, permanecem vinculados à Technical University in Eindhoven (NL) e, em seguida, transferem-
se à Delft University of Technology (NL), ali permanecendo até 2001.

7 Após a Holanda, a diretoria do Docomomo Internacional passa para a França (2002-2009), com presidente
Maristella Casciato, secretário geral Émilie d’Orgeix; e diretora Anne-Laure Guillet; em seguida, transfere-se
para Barcelona (2010-2014), e Lisboa (2014-2021), com presidência de Ana Tostões e secretários-gerais Ivan
Blasi e Zara Ferreira; este ano, 2022, a diretoria retorna à Holanda, sediada na Delft University of Technology,
tendo como presidente atual Uta Pottgiesser e Secretário geral Wido Quist.

8 CARVALHO, 2005, p.37.

9 Seus objetivos são: “levar o significado da arquitetura do Movimento Moderno a público - às autoridades, aos
profissionais e à comunidade; identificar e promover o registro das obras do Movimento Moderno; promover a
conservação e o reuso dos edifícios e sítios do Movimento Moderno; opor-se à destruição e descaracterização
de obras significativas; fomentar e disseminar o desenvolvimento de técnicas e métodos apropriados para
a conservação e reuso adaptável/adaptativo; atrair financiamento para documentação, conservação e reuso;
explorar e desenvolver novas ideias para um futuro de um ambiente construído sustentável, baseado nas
experiências passadas do Movimento Moderno” (Docomomo Internacional, tradução nossa) Disponível em:
https://Docomomo.com/organization/. Acesso em 10 abr. 2022

CADERNOS

38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL

Considerações sobre a conservação da Arquitetura Moderna: Contrapontos entre Docomomo e Icomos/ISC20C


43 Considerations on Modern Architecture conservation: Counterpoints between Docomomo and Icomos/ISC20C
Consideraciones sobre la conservación de la Arquitectura Moderna: Contrapuntos entre Docomomo e Icomos/ISC20C

Assim, para discutir a atuação teórico/prática dessa instituição, parte-se dos discursos
e práticas dos personagens aqui identificados. Nesta escala, nossa hipótese é a
existência de uma aproximação conceitual entre os indivíduos citados, e assim entre
os departamentos nacionais que representam, cujas nuances podem nos indicar uma
abordagem representativa da postura da organização Docomomo como um todo.
Opta-se por abordá-los de forma prioritária devido à dificuldade de acesso a muitos
documentos importantes do Docomomo Internacional.

Discussões sobre as especificidades do


Patrimônio Arquitetônico Moderno
O Docomomo é uma organização dedicada à documentação e conservação do legado do
Movimento Moderno. Os profissionais ligados à instituição utilizam frequentemente as
expressões “edifícios do Movimento Moderno” ou “arquitetura moderna” para tratar do
assunto, embora o termo “arquitetura do século XX” também apareça ocasionalmente
(HENKET, 1990, p.51). Assim, trata de uma produção específica, não associada à ideia
de um estilo, mas sim a uma forma de pensar, um projeto de civilização socialmente
orientado (HENKET, 1998, p.24). Portanto, o Docomomo valoriza o caráter inovador
dos edifícios do Movimento Moderno, com base em suas dimensões sociais, técnicas e
estéticas - as três dimensões da modernidade (DE JONGE, 2017, p.64).

Embora essas dimensões suponham a possibilidade de inclusão de uma diversidade


de obras entre os seus interesses, há uma tendência à valorização daquelas mais
paradigmáticas, que representam manifestos do próprio Movimento Moderno.
Segundo Prudon (2008, p.65), a princípio, a organização tem uma compreensão restrita
sobre o patrimônio moderno, visto apenas como os exemplares dos anos 1920 e 1930,
tendo o trabalho de documentação e registro contribuído para a ampliação dessa
percepção, indo além dos edifícios ícones.

Desde a 1ª Conferência Internacional do Docomomo em Eindhoven (1990), a


necessidade de uma especificidade para a preservação da arquitetura moderna é
apontada. Um de seus fundadores, Henket (1991, p.51), associa essa necessidade às
grandes transformações sociais e culturais ocorridas no último século. Tais alterações
resultam no deslocamento do foco para a funcionalidade e a economia (HENKET,
1991, p.52), sendo esses os princípios da nova arquitetura. Ao mesmo tempo, na
demanda crescente por mudanças, a ideia de permanência é substituída pela lógica
da transformação, com novas técnicas, materiais e formas de construir. Esses pontos
esclarecem as mudanças que ocorrem na arquitetura do século XX, contribuindo
para o entendimento de que a abordagem direcionada à conservação da arquitetura
moderna deve ser diferente daquela do passado (HENKET, 1991, p.52).

De Jonge corrobora a opinião sobre tal especificidade, apontando que as transformações


dadas em resposta à industrialização, como o surgimento de novos materiais e
métodos de construção, requerem técnicas específicas aos edifícios da era industrial.
Sugere ainda, considerando as ideias próprias ao Movimento Moderno, a intervenção
nessa arquitetura exige uma abordagem própria (DE JONGE, 1990, p.84).

John Allan (2007, p.16-17) também comenta as especificidades da arquitetura


moderna e da sua conservação, em comparação com a arquitetura histórica. Destaca
a natureza experimental do projeto moderno, as inovações tecnológicas e materiais,
a ideia dominante da funcionalidade e da produção em massa, industrializada;
elementos que associa a questões ideológicas.

CADERNOS

38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL

Considerações sobre a conservação da Arquitetura Moderna: Contrapontos entre Docomomo e Icomos/ISC20C


44 Considerations on Modern Architecture conservation: Counterpoints between Docomomo and Icomos/ISC20C
Consideraciones sobre la conservación de la Arquitectura Moderna: Contrapuntos entre Docomomo e Icomos/ISC20C

Em concordância, Prudon acrescenta algumas questões específicas que exigem


aproximação e conduta diversas. De forma geral, compreende que a diferença basilar
entre a preservação da arquitetura moderna e aquela de períodos anteriores se
encontra numa mudança de perspectiva em relação aos aspectos que determinam
a preservação, considerando que o significado do moderno gravita em torno do
conceito, enquanto é encontrado historicamente na realidade física do edifício
(PRUDON, 2008, p.25).

Guillet complementa, a proximidade temporal que se dá com tal produção impede


o entendimento de seu pertencimento ao passado. Assim, o estudo e pesquisa
da arquitetura moderna requerem novas ferramentas e métodos, uma vez que os
critérios de identificação e seleção diferem dos comumente adotados, do ponto de
vista cronológico, histórico e estético (GUILLET, 2007, p.152).

Para Henket (1991, p.53), tais princípios se pautam na sua compreensão de que os
edifícios modernos a serem preservados são aqueles que representam um conceito
claro que ecoa o clima social e cultural de sua época. A partir disso, entende que é a
intenção do arquiteto em relação a função, espaço, tecnologia, economia, produção
etc., que está cristalizada na materialidade da obra e representa um determinado
momento da história, portanto é tal intenção que deve ser mantida para o futuro
(HENKET, 1991, p.53).

Allan entende que não há princípios universais para a conservação da arquitetura


moderna. Defende que cada caso é um caso (ALLAN, 2007, p.16), acreditando que a
utilização de determinados princípios em detrimento de outros varia (ALLAN, 1998,
p.95), supondo o estabelecimento de prioridades e o julgamento do arquiteto. Também
os contextos das intervenções influenciam, considerando a cultura de gestão na qual
elas ocorrem (ALLAN, 1998, p.100). Porém, isso não supõe a inexistência de princípios
orientadores. Para o autor, esses se fundamentam na determinação da essência e não
na substância dos edifícios, ou seja, pautam-se mais nas suas realizações intelectuais
do que nas suas conformações materiais (ALLAN, 1998, p.101).

Ao refletir sobre os princípios para a preservação da arquitetura do Movimento


Moderno, Prudon (2008, p.53) aborda teóricos do século XIX, além da teoria italiana
e da Carta de Veneza (1964), compreendendo-os como determinantes para a
consolidação da teoria de preservação contemporânea. Aos poucos, a teoria teria
progredido em direção a leituras mais abrangentes a respeito do significado, da
autenticidade e da integridade (PRUDON, 2008, p.54). Todavia, entende que sua
aplicação na preservação do moderno ainda não foi suficientemente explorada.
Defendendo o enfrentamento da questão caso a caso, levanta a discussão em torno
da autenticidade, destacando a Carta de Burra (1980) e o Documento de Nara (1994)
como importantes marcos por reconhecerem a diversidade cultural e a consequente
relatividade do conceito de significado, expandindo o entendimento da autenticidade
para além do campo material.

Os princípios defendidos por Prudon acompanham essa transformação da


compreensão da autenticidade. Indica uma transição da priorização dos significados
do material para o imaterial, para o intangível. Isso se justifica por três mudanças
contextuais: pela proeminência do papel do arquiteto, visto como principal criador;
a dominância da industrialização, com a utilização de materiais e componentes
estandardizados no lugar daqueles artesanais; e, como consequência, a ascensão
geral do projeto sobre o trabalho dos artesãos (PRUDON, 2008, p.35). Considerando
a ideia original como representação do papel criativo do arquiteto, relaciona-
se à importância da integridade visual do edifício (PRUDON, 2008, p.25). Assim,
destaca-se a intenção do projeto e a experiência visual como um dos aspectos mais
importantes no processo de preservação, lembrando que isso não pode justificar a

CADERNOS

38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL

Considerações sobre a conservação da Arquitetura Moderna: Contrapontos entre Docomomo e Icomos/ISC20C


45 Considerations on Modern Architecture conservation: Counterpoints between Docomomo and Icomos/ISC20C
Consideraciones sobre la conservación de la Arquitectura Moderna: Contrapuntos entre Docomomo e Icomos/ISC20C

remoção de todo o material histórico (PRUDON, 2008, p.36). Ainda assim, compreende
que a ênfase no projeto resulta em uma abordagem menos restritiva em relação à
conservação material (PRUDON, 2008, p.26). Para Prudon (2008, p.45), a restauração
dos edifícios modernos deveria refletir seu próprio processo de construção, levando
em consideração o sistema integrado que os caracteriza. Para tanto, é preciso garantir
a ênfase no edifício como um todo, olhando sua performance enquanto sistema e sua
aparência pretendida, e, portanto, seu projeto (PRUDON, 2008, p.45).

O destaque conferido à intenção de projeto, à ideia e ao conceito, nas aproximações


à preservação do patrimônio moderno é uma constante entre os diferentes autores
vinculados ao Docomomo. Embora outros agentes da sociedade sejam lembrados em
certos discursos (ALLAN, 2007, p.15; HENKET, 1991, p.51), identificando sua importância
e a do contexto para a produção da obra, bem como para sua continuidade ao futuro,
o significado atribuído aos edifícios e aos princípios para intervir neles voltam-se a
uma perspectiva do “gênio criativo”, relacionando-o diretamente à intenção original
do arquiteto.

Cada um com sua especificidade, os autores mencionados se contrapõem à prevalência


da autenticidade material comum na abordagem aos edifícios antigos, defendendo
também a autenticidade conceitual no contexto do Movimento Moderno. Atestam a
importância de ambos os aspectos do patrimônio, cuja interpretação deve ser feita de
forma particularizada, porém, enfatizam a priorização da intenção do projeto original
para a preservação da arquitetura moderna.

Assim, do ponto de vista do Docomomo, nos parece que a leitura dos significados
e o estabelecimento dos princípios de intervenção se concentram no momento
de definição do projeto, no tempo relativo à ação do arquiteto, diminuindo a
importância do tempo da execução, bem como daquele posterior, percorrido até a
contemporaneidade. Diminui-se também a valorização do papel dos diferentes atores
e contextos na realização da obra. Finalmente, não são assumidos como relevantes os
valores intangíveis agregados por diferentes sujeitos no decorrer do tempo.

Como bom exemplo dessa perspectiva, tem-se a intervenção realizada na Penguin


Pool (1934), no London Zoo, projetada por Berthold Lubetkin e Tecton. Construída em
1934, é restaurada em 1987 pela equipe do Avanti Architects, incluindo John Allan,
contando com a colaboração do próprio Lubetkin. Duas questões são levantadas por
Allan ao abordar essa obra. Primeiro, trata-se da intervenção no projeto, entendendo,
mesmo que o arquiteto autor esteja disponível para orientação, a melhor proposta
ainda pode derivar do projeto original (ALLAN, 1998, p.96). Em segundo, aborda o
campo do restauro. Em uma aproximação ao objeto arquitetônico, compreende-se
que a intervenção não se daria no reparo da matéria autêntica, já sobreposta por
múltiplas camadas; mas sim no restauro do projeto original, cuja delicada espessura
da estrutura é ponto fundamental. Para tanto, realiza-se a remoção das inúmeras
camadas de revestimento até um substrato sólido, restabelecendo, em seguida,
a superfície de forma a se assemelhar ao acabamento original. Aqui, portanto, “foi
restaurado o conceito - uma proposição ideal [...]” (ALLAN, 1998, p.96, tradução nossa).

Outro exemplo interessante é a abordagem vista na Opera House de Sydney (1959),


projeto do arquiteto Jorn Utzon. Comentado por Prudon, reforça-se a visão do
arquiteto como o motivo do edifício ter se transformado no marco cultural que é hoje.
Desde o plano de conservação desenvolvido por James Kerr, em 1993, a importância
do projeto original é levada em consideração. Mais adiante, o arquiteto Richard
Johnson, buscando estabelecer princípios de planejamento para o edifício, atesta que
a abordagem mais próxima a conservação seria a de reforçar as ideias originais de
Utzon (PRUDON, 2008, p.390), que logo em seguida integra-se à discussão, junto a seu

CADERNOS

38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL

Considerações sobre a conservação da Arquitetura Moderna: Contrapontos entre Docomomo e Icomos/ISC20C


46 Considerations on Modern Architecture conservation: Counterpoints between Docomomo and Icomos/ISC20C
Consideraciones sobre la conservación de la Arquitectura Moderna: Contrapuntos entre Docomomo e Icomos/ISC20C

filho Jan, chegando a contribuir para a construção de dois documentos10. Embora


incomum, Prudon compreende que a participação de Utzon permite a impressão de
suas ideias na preservação e no futuro do edifício, de sua autoria. As intervenções
posteriores, tendo o plano de conservação de Kerr como guia, demonstram que
as alterações podem ser feitas sem comprometer o significado arquitetônico e
histórico da estrutura ou da intenção original de projeto (PRUDON, 2008, p.392).
Partindo dessa obra, indica, no cenário australiano, a prevalência dos princípios
da Carta de Burra, que fazem possível uma abordagem apropriada, mas flexível,
garantindo a preservação dos ícones modernos, ao mesmo tempo que seu uso
continuado.

A atuação do Icomos/ISC20C
No decorrer do tempo se conforma um sistema para a proteção do patrimônio
mundial. Esse se dá a partir da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência
e Cultura (Unesco), instituição que abriga o Centro de Patrimônio Mundial, que tem
como uma das suas missões formular a Lista de Patrimônio Mundial (WHL), com
exemplares naturais e culturais. Esses são selecionados a partir da detecção do “valor
universal extraordinário” (OUV), sendo o entendimento sobre tal valor variável. Entre
as instituições que prestam consultoria para a Unesco está o Conselho Internacional
de Monumentos e Sítios (Icomos). Essas instituições também fomentam políticas de
proteção patrimonial e as monitoram (BURKE, 2007)11.

Chama-se atenção para o fato do patrimônio arquitetônico e urbano do século XX ter


sido inserido na WHL tardiamente. Entre os marcos iniciais estão Parque Güell (1984),
em Barcelona, e Brasília (1987) (UNESCO, 2003, p.140). No início da década de 2000,
ainda se ressente a falta de tal patrimônio e é mencionada a necessidade de ampliar
a sua participação, considerando que esse já tem história (ICOMOS, 2004, p.6). Tal
ampliação tem acontecido pouco a pouco.

Embora a questão do patrimônio arquitetônico e urbano do século XX tenha sido


tratada de um modo disperso pelo Icomos antes da década de 1990, a situação começa
a se transformar durante esse período, quando passam a ser realizados seminários e
reuniões que enfocam mais o assunto12.

Em 2001 se constitui em Montreal o Action Plan 20 (MAP20) com o intuito de


inventariar e fomentar as discussões e ações sobre o patrimônio do século XX.
A partir disso, pondera-se que é necessário formar um comitê dentro do Icomos
direcionado especificamente para a produção do século XX. Nesse sentido se

10 Utzon Design Principles, que estabelecia quatro requisitos fundamentais para intervenções bem sucedidas,
baseados na intenção original do arquiteto; e o Venue Improvement Plan, destinado às necessidades imedia-
tas da Opera House de Sydney.

11 A Unesco foi fundada em 1945 e o Icomos em 1964, sendo que o último tem como base doutrinária inicial a
Carta de Veneza. A Unesco formulou a partir de 1978 os critérios para nomeação na World Heritage List (WHL),
fixando o Outstanding Universal Value (OUV). Destaca-se também a existência do World Heritage Committee
on 20th Century Heritage.

12 O foco principal da Unesco e do Icomos é a definição dos significados do patrimônio arquitetônico do século
XX, tendo em vista as nomeações para a WHL. Como secundário aparecem as indicações sobre a conservação
e a intervenção em tal patrimônio. Destacam-se alguns documentos produzidos em reuniões, seminários
e conferências (aqueles consultados em negrito) que sintetizam seus resultados. Phuket (Tailândia, 1994);
Helsinki (Finlândia, 1995); Cidade do México (México, 1996); Sydney (Australia, 2000); Montreal (Canadá, 2000);
Adelaide (Australia, 2001); Paris (França, fev. e out. 2001); Paris (França, 2004); Paris (França, 2011); Florença
(Itália, 2014) – foi ratificado o Documento de Madrid de 2011, formulado pelo ISC20C; Berlim (Alemanha, 2018)
– Icomos Alemanha.

CADERNOS

38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL

Considerações sobre a conservação da Arquitetura Moderna: Contrapontos entre Docomomo e Icomos/ISC20C


47 Considerations on Modern Architecture conservation: Counterpoints between Docomomo and Icomos/ISC20C
Consideraciones sobre la conservación de la Arquitectura Moderna: Contrapuntos entre Docomomo e Icomos/ISC20C

estabelece em 2004 o “Comitê Científico Internacional para o Patrimônio do Século


XX” (ISC20C) (BURKE, 2007)13.

Assim, esse texto acompanha a produção do Icomos/ISC20, detectando o


posicionamento da instituição e de duas de suas associadas mais proeminentes:
Sheridan Burke e Susan Macdonald, ambas australianas. A primeira é vice-presidente
do Icomos (1996-2005); presidente do ISC20C (2005-2017) e secretária geral da mesma
instituição (2017-2020), além de ser vice-presidente do Docomomo Austrália (2014-
2017). A segunda é membro do Docomomo Internacional, Docomomo Austrália e EUA.
Atualmente é vice-presidente do ISC20C e presidente do Getty Conservation Institute.

Discussões sobre as especificidades do


Patrimônio Arquitetônico Moderno
O Icomos/ISC20C tem acompanhado a ampliação do conceito de patrimônio ocorrida
a partir de meados do século XX. No que diz respeito ao patrimônio arquitetônico,
a expansão do entendimento sobre o assunto permitiu a inclusão de edifícios que
se conectam com diferentes características históricas, sociais, culturais, artísticas,
temporais etc.

A expressão “patrimônio arquitetônico do século XX” é a mais utilizada nos


documentos, embora também apareçam os termos “arquitetura moderna” ou
“patrimônio moderno” (CARVALHO, 2018, p.6784, p.6786). Isso demonstra que o
Icomos/ISC20C não atua a partir de delimitações precisas para seleção de edifícios
a serem listados e conservados. O que existe é um entendimento de que os edifícios
têm que ser manifestações importantes da cultura do século XX, representantes de
uma era peculiar, que corresponde com a ascensão da industrialização e com todos
os impactos associados a isso.

Outro aspecto destacado é que o patrimônio do século XX não pode se limitar apenas
a arquitetos excepcionais ou edifícios icônicos, sendo também necessário incorporar
arquitetos menos conhecidos e edifícios mais correntes. Nesse sentido, há um reforço
sobre a importância de se pensar a cultura arquitetônica do século XX como um todo,
tanto aquela mais elitista quanto aquela mais comum, alinhada com a proposta de
reforma social defendida pelo modernismo.

De todos os modos, os documentos assinalam que o patrimônio arquitetônico do


século XX introduz importantes mudanças. Indica-se, durante esse período, uma
explosão na quantidade dos edifícios e nos seus tipos. Constantemente são feitas
referências às profundas transformações materiais, técnicas, estruturais, formais
e espaciais de tal patrimônio. Também são salientados aspectos relacionados à
produção industrializada, massificada, pré-fabricada e temáticas correlacionadas.

A partir dessas ponderações, considera-se se existe ou não a necessidade de uma teoria


diferenciada para tratar o patrimônio arquitetônico do século XX. De modo recorrente,

13 ISC20C - seu estatuto foi aprovado em 2005 e revisto em 2008. Xi´an (China, 2005); Quebec (Canadá, 2008);
Sydney (Austrália, 2009); Dublin (Irlanda, 2010); Madrid (Espanha, 2011) – foi formulado o Documento Madrid,
a partir da publicação da International Conference Intervention Approaches for the Conservation of Twenti-
eth-Century Architectural Heritage; Los Angeles (EUA, 2011), parceria com o Getty Conservation Institute; Hel-
sinque (Finlândia, 2012); Chandigarh (Índia, 2013); Tóquio (Japão, 2015); Dudley (Reino Unido, 2016); Florença
(Itália, 2016); Nova Deli (Índia, 2017) - Foram finalizadas as revisões do Documento Madrid – Approaches for
the Conservation of Twentieth-Century Architectural Heritage. A primeira versão foi feita em 2011, a segunda
em 2014; Trento e Bolzano (Itália, 2018); Harazem (Marrocos,2019); Sydney (Austrália, 2020); (Reunião Virtual,
2021); Porto (Portugal, 2022) – previsão da próxima reunião. Atualmente o ISC20C é presidido por Jack Pyburn
(Estados Unidos – 2021-2023) (BURKE, 2021).

CADERNOS

38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL

Considerações sobre a conservação da Arquitetura Moderna: Contrapontos entre Docomomo e Icomos/ISC20C


48 Considerations on Modern Architecture conservation: Counterpoints between Docomomo and Icomos/ISC20C
Consideraciones sobre la conservación de la Arquitectura Moderna: Contrapuntos entre Docomomo e Icomos/ISC20C

o Icomos/ISC20C compreende que, devido às suas inovações, tal patrimônio traz um


desafio constante, mas que ainda assim é possível contar com as teorias e princípios
difundidos pelas cartas patrimoniais existentes (ICOMOS, 1995, p.2; ICOMOS/ISC20C,
2016, ICOMOS/ISC20C, 2011, p.2; ICOMOS/ISC20C, 2017 p.3). O Documento Madrid -
Nova Deli reafirma o mesmo, especificando que “reconhece os documentos existentes
de conservação do patrimônio” e, ao mesmo tempo, “identifica muitos dos problemas
especificamente envolvidos na conservação do patrimônio do século XX” (ICOMOS/
ISC20C, 2017, p.3, tradução nossa).

Burke e Macdonald reconhecem a existência de polêmicas sobre a adoção das teorias e


princípios tradicionais quando aplicados para a conservação do patrimônio do século
XX, como se dá no caso do Docomomo (BURKE, 2007, p. 147; MACDONALD, 2009, p.2).
Macdonald concorda com a posição defendida pelo Icomos/ISC20C, pois compreende
que as teorias sobre o patrimônio recente são as mesmas do passado. Entretanto,
considera necessário atentar-se aos desafios específicos impostos pelo patrimônio
arquitetônico do século XX (MACDONALD, 1996; MACDONALD, 2009; MACDONALD,
2013a; MACDONALD, 2013b).

A aceitação das teorias consolidadas implica em uma atuação sobre o patrimônio


arquitetônico do século XX que se dá caso a caso, a partir da pesquisa, documentação
e identificação dos seus significados. O reconhecimento de quais são tais significados
se transforma no decorrer do tempo, mas sempre transita entre aspectos tangíveis
e intangíveis. Os significados também se articulam com os entendimentos sobre
a integridade e a autenticidade, noções que passam por alterações de sentido,
manifestadas na Carta de Burra (1980) e na Carta de Nara (1994), referenciadas
anteriormente. A integridade é definida nos Documentos de Madrid e Madrid-Nova
Deli como “uma medida do estado original na sua totalidade (...) dos seus atributos e
valores”; e a autenticidade como “a capacidade de um local de patrimônio expressar
seu significado cultural por meio dos atributos materiais e valores intangíveis de
maneira crível e verdadeira” (ICOMOS/ISC20C, 2017, p.12).

Desde que o tema do patrimônio arquitetônico do século XX aparece nas reuniões


da Unesco nos anos 1990, existe o reconhecimento de peculiares características
materiais, associadas a dimensões mais tangíveis, destacando-se aspectos técnicos-
materiais e qualidades estético-formais das soluções arquitetônicas. Na mesma
época, identificam-se outros significados, referindo-se às características econômicas,
políticas, sociais, históricas e antropológicas. Reforça-se também a importância da
cultura, da memória e do imaginário coletivo para o patrimônio arquitetônico do
século XX. Esse passa a ser “considerado como a base da vida social, relacionando-se
com o patrimônio intangível” (ICOMOS/ISC20C, 1996, p.1, tradução nossa).

O Documento Madrid-Nova Deli (ICOMOS/ISC20C, 2017) sintetiza essas duas


possibilidades de atribuição de significados: aqueles tangíveis, “incluindo localização
física, vista, design (por exemplo forma e relações espaciais; esquemas de cores [...]
sistemas de construção, materiais, equipamentos técnicos, bem como qualidades
estéticas)" e aqueles que incluem “associações históricas, sociais, científicas ou
espirituais ou [as] evidências de gênio criativo e/ou [...] seus valores intangíveis”
(ICOMOS/ISC20C, 2017, p.3, tradução nossa).

Não se dá muita importância para a ideia dos arquitetos e suas intenções projetuais,
embora tais questões apareçam em determinadas ocasiões. No Documento Madrid-
Nova Deli (2017) aparece uma indicação de que é necessário considerar certos
princípios específicos, como aqueles arquitetônicos (ICOMOS/ISC20C, 2017, p.6).

Na edição do referido documento de 2017, é mencionado o papel dos designers


criadores, além de outros profissionais associados com os projetos, como os

CADERNOS

38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL

Considerações sobre a conservação da Arquitetura Moderna: Contrapontos entre Docomomo e Icomos/ISC20C


49 Considerations on Modern Architecture conservation: Counterpoints between Docomomo and Icomos/ISC20C
Consideraciones sobre la conservación de la Arquitectura Moderna: Contrapuntos entre Docomomo e Icomos/ISC20C

construtores, os clientes, a comunidade etc. Afirma-se que suas contribuições são


relevantes, mas “uma abordagem cautelosa é necessária ao integrar o ponto de vista
dos criadores. Deve-se tomar cuidado ao avaliar a intenção do design original em
relação ao local físico encontrado, para garantir que todos os valores que contribuem
para o significado sejam considerados” (ICOMOS/ISC20C, 2017, p.5). Ou seja, dá-
se importância ao papel dos arquitetos, às suas intenções, mas esses devem ser
entendidos em articulação com as contribuições de outros profissionais relacionados
com o projeto e com o edifício que foi de fato construído e transformado no decorrer
do tempo.

Nesse sentido, Burke compreende que a prioridade dada às intenções projetuais


pode supor uma perda na autenticidade material dos edifícios, assim como o
enfraquecimento ou perda dos elos estabelecidos com os construtores e usuários
iniciais e posteriores (BURKE, 2007, p.147).

Macdonald dá maior atenção ao assunto, afirmando que existe na teoria da conservação


uma disputa entre aqueles que defendem a autenticidade dos princípios projetuais
dos edifícios modernos (especialmente o Docomomo) e aqueles que defendem a
autenticidade dos materiais (MACDONALD, 1996, p.42). Aponta que é necessário ter
certa precaução para a compreensão de quais são de fato as características de cada
edifício. Entende que, em diferentes circunstâncias, os princípios difundidos pelo
modernismo não se concretizam na prática.

A autora trata ainda de determinadas questões que interferem na conservação da


arquitetura moderna, citando a lógica funcionalista, a experimentação material
técnica e a obsolescência prevista em certos usos/programas, por exemplo. Tais
particularidades acrescentam dificuldades à intervenção, em decorrência da falta de
pesquisas, bem como dos altos custos envolvidos.

Outro princípio importante mencionado se relaciona com a transformação estética


da arquitetura moderna, articulada com uma expressão abstrata e uma qualidade
espacial diferenciada. Para Macdonald, tal aspecto estético, que trata dos edifícios
como monumentos e seus arquitetos como celebridades, tem que ser considerado,
mas não pode se sobrepor ao reconhecimento de outros significados relevantes
para tal arquitetura (MACDONALD, 1996; MACDONALD, 2009; MACDONALD, 2013a;
MACDONALD, 2013b; MACDONALD; OSTERGREN, 2011).

Assim, Burke e Macdonald se posicionam em um sentido similar ao Icomos/ISC20C.


Entendem que as ideias dos arquitetos e suas intenções projetuais têm que ser
consideradas. Inclusive, os arquitetos ainda atuantes podem explicar as razões de
ser dos seus edifícios, suas características definidoras, incluídas as estéticas (BURKE;
MACDONALD, 2014, p.35; MACDONALD, 2009, p.7-8). Entretanto, salientam que tais
contribuições têm que ser entendidas a partir de uma compreensão ampla, que
considere cada edifício como um todo, incorporando a multiplicidade dos seus
significados, os tangíveis e intangíveis. Para Macdonald, é “importante envolver
os criadores quando possível, também é importante colocar os seus conselhos em
um quadro referencial ou contextual para tomar decisões sobre a conservação e
reconhecer as diferenças entre o criador e o conservador” (MACDONALD, 2009, p.8,
tradução nossa).

A avaliação dos significados é, assim, “o centro da decisão” (MACDONALD, 2013a,


p.36-37), aquilo que finalmente pode permitir uma decisão apropriada com relação
à preservação da sua integridade e da sua autenticidade, balanceando os conflitos
existentes.

Salientamos que o Icomos/ISC20C e as autoras referenciadas reconhecem que os


significados que sustentam os princípios de intervenção podem ser identificados em

CADERNOS

38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL

Considerações sobre a conservação da Arquitetura Moderna: Contrapontos entre Docomomo e Icomos/ISC20C


50 Considerations on Modern Architecture conservation: Counterpoints between Docomomo and Icomos/ISC20C
Consideraciones sobre la conservación de la Arquitectura Moderna: Contrapuntos entre Docomomo e Icomos/ISC20C

diferentes momentos e circunstâncias da existência do patrimônio arquitetônico


do século XX. Pode estar articulado com um momento preliminar, definido
pelas ideias e intenções de arquitetos e demais profissionais envolvidos com os
projetos; no momento da construção do edifício, que materializa as suas diferentes
características; no decorrer da sua existência, com as transformações somadas às
suas materialidades; a partir de significados imputados por indivíduos, comunidades
e grupos envolvidos.

Retoma-se o exemplo da Opera House de Sydney, agora comentada por Burke


e Macdonald (2014). As autoras tratam dos inúmeros desafios para enfrentar
uma intervenção em um edifício complexo, como é o caso do Opera. Reforçam o
entendimento de que a participação de Jorn Utzon é importante, assim como
aquela do seu filho Jan, que também acompanha o processo. Entendem que os
criadores podem indicar como o edifício foi construído e como pode se modificar
(BURKE; MACDONALD, 2014, p.34). Embora considerem que suas participações
são necessárias, incluem outras questões. Afirmam que também é importante
prestar atenção nas alterações posteriores, especialmente aquelas conduzidas pelo
arquiteto Peter Hall. As autoras mencionam que as contribuições desses arquitetos
têm que ser assimiladas, mas isso tem que ocorrer simultaneamente à incorporação
de outros significados tangíveis e intangíveis, para que a autenticidade da obra seja
de fato assegurada. Um desses significados relaciona-se com o uso da Opera - que
é sua razão de existir - que tem que se manter eficiente e atualizado. Entretanto,
afirmam que esses pontos têm que ser ponderados, considerando-se também
a atribuição de outros significados, como a forma, a matéria e a ambientação da
Opera (BURKE; MACDONALD, 2014, p.33). Assim, seguindo as ponderações teóricas
do ICOMOS, do ISC20C, as autoras reforçam o entendimento manifestado de que
as intervenções na Opera têm que se dar do modo mais equilibrado possível, a
partir do reconhecimento das perspectivas dos criadores, mas também daquela dos
conservadores (MACDONALD; NORMANDIN, 2013a, p.38). Suas ponderações, assim,
diferenciam-se daquelas pronunciadas por Prudon, mesmo que todos reconheçam a
necessidade de assimilar as ideias de Utzon na intervenção.

Considerações Finais
Ao analisarmos as ponderações sobre a conservação e intervenção no patrimônio
moderno realizadas pelo Docomomo e pelo Icomos/ISC20C, notamos que existem
pontos dissonantes e consonantes.

Entre os primeiros está a própria natureza do discurso de cada uma das instituições.
Aquele proferido pelo Docomomo se direciona para um público mais específico,
com um tema delimitado, e traz um caráter mais contundente nas suas afirmações.
Aquele pronunciado pelo Icomos/ISC20C responde a públicos e temas mais amplos,
apresentando-se de um modo mais ponderado.

Destacamos também o menor alcance dos termos comumente usados pelo primeiro,
que se limita a tratar da produção arquitetônica do Movimento Moderno, enquanto
o segundo usa constantemente um termo mais abrangente, "patrimônio do século
XX”, incorporando edificações que se utilizam de princípios e soluções diferenciadas.
Quanto ao Docomomo, especialmente nos seus primeiros anos, há um foco nos
edifícios icônicos. Isso se articula diretamente com os princípios de conservação
defendidos pelos autores mencionados, que priorizam a conservação da arquitetura
do Movimento Moderno como uma ideia, um manifesto. No caso do Icomos/ISC20C,
mencionam-se os edifícios icônicos, mas também a necessidade de incluir aqueles

CADERNOS

38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL

Considerações sobre a conservação da Arquitetura Moderna: Contrapontos entre Docomomo e Icomos/ISC20C


51 Considerations on Modern Architecture conservation: Counterpoints between Docomomo and Icomos/ISC20C
Consideraciones sobre la conservación de la Arquitectura Moderna: Contrapuntos entre Docomomo e Icomos/ISC20C

mais correntes, fato que também se relaciona com os princípios defendidos pela
instituição, que pretende conservar tais edifícios a partir de uma compreensão
mais ampla dos seus significados, articulando-os com os contextos nos quais foram
produzidos e utilizados.

Outra dissonância aparece na discussão sobre a definição de uma teoria alternativa


para intervenção no patrimônio moderno. Ambas instituições destacam questões
específicas a serem consideradas no tratamento da arquitetura moderna,
especialmente referente às inovações técnicas, materiais e estéticas, porém diferem
sobre as formas de intervir. Para o Docomomo, a arquitetura moderna exige abordagem
autônoma. Ainda assim, não são assertivos quanto à criação de uma teoria alternativa,
nem propõem diretamente uma metodologia própria. Para o Icomos/ISC20C e para as
autoras estudadas, a arquitetura moderna deve ser enfrentada dentro da teoria da
restauração contemporânea, a mesma aplicada aos edifícios históricos, mesmo que
seja necessário atentar para as suas peculiaridades.

Existe também uma dissonância na aplicação do conceito de autenticidade.


Embora ambas instituições reconheçam a ampliação desse conceito, defendendo
a consideração da autenticidade material e da autenticidade da ideia/intenção de
projeto em cada caso, no discurso do Docomomo, há uma priorização da última em
detrimento da primeira, concentrando-se nas intenções inovadoras do arquiteto
e nas suas concretizações. Enquanto para o Icomos/ISC20C, a compreensão é
mais abrangente, a autenticidade pode ser encontrada nas ideias, mas também
na concretude dos significados sedimentados na edificação, além das associações
que a ela se articulam com o tempo. Isso resulta na consideração de outros atores
pertencentes ao processo além dos arquitetos, da construção ao seu uso continuado,
incorporados aos valores do Icomos/ISC20C e esquecidos pelo Docomomo.

Entretanto, cada uma à sua maneira, as instituições assimilam as transformações


ocorridas no conceito de autenticidade difundidos pelas Cartas de Burra e de Nara.
Embora a primeira não seja oficialmente adotada pela Assembleia Geral do Icomos
(SALVO, 2008, p.202), suas considerações são tidas como relevantes tanto pelo
Docomomo quanto pelo Icomos/ISC20C (ICOMOS/ISC20C, 2017, p.15).

Diante do exposto, concordamos parcialmente com o posicionamento proferido pela


italiana Simona Salvo, representante do Restauro Crítico-conservativo italiano. Em
texto escrito em 2008, portanto anterior a uma série de documentos e posicionamentos
aqui tratados, a autora afirma que no final dos anos 1990 se dá uma convergência entre
o Docomomo e o Icomos, sendo o “Docomomo considerado como braço “científico”
e “especializado” naquilo que concerne ao patrimônio moderno, fato a conduzir à
afirmação definitiva das posições retrospectivas e repristinatórias iniciais” (SALVO,
2008, p.202).

De fato, consideramos que essa convergência existe diante da assimilação do sentido


ampliado da noção de autenticidade e das suas relações tangíveis e intangíveis,
fazendo com que essas instituições se afastem dos princípios e procedimentos
mais característicos do Restauro Crítico-conservativo, que foca sua atenção no
reconhecimento do objeto “tal como se encontra, [com] os valores testemunhais
preciosos para a memória, individual e coletiva” (SALVO, 2008, p.200).

Porém, compreendemos que existem mais nuances entre os posicionamentos do


Docomomo e do Icomos/ISC20C. No caso dos últimos, especialmente nos discursos
difundidos pelo Documento Madrid-Nova Deli (2014) e por Macdonald, existe uma
postura mais crítica e cautelosa em relação aos princípios difundidos pelo Docomomo.
Assimilam que as ideias e intenções dos arquitetos têm que ser tomadas em
consideração, mas captam as contradições e limitações dos termos defendidos pelo
Docomomo, que terminam comprometendo a permanência dos valores testemunhais

CADERNOS

38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL

Considerações sobre a conservação da Arquitetura Moderna: Contrapontos entre Docomomo e Icomos/ISC20C


52 Considerations on Modern Architecture conservation: Counterpoints between Docomomo and Icomos/ISC20C
Consideraciones sobre la conservación de la Arquitectura Moderna: Contrapuntos entre Docomomo e Icomos/ISC20C

acima mencionados. Assim, pretendem superar tal problemática a partir da


identificação dos significados dos edifícios, sejam esses tangíveis e/ou intangíveis, e os
tomar como fundamento para as intervenções.

Deste modo, concordando com Salvo, entendemos que os princípios manifestados


pelo Docomomo são muito limitadores, e terminam desconsiderando e distorcendo
conteúdos históricos e testemunhais que são importantes para a conservação dos
edifícios modernos, produzindo, em muitas ocasiões, autênticas repristinações.

Entretanto, compreendemos que as posturas do Icomos/ISC20C e das autoras


estudadas são mais ponderadas, cautelosas e realistas do que aquelas difundidas
pelo Docomomo. Pautam-se em pesquisas aprofundadas e procuram considerar
os diferentes atores e disputas que se apresentam em cada caso. De fato suas
posições partem do reconhecimento do objeto tal como se encontra no momento da
intervenção, mas que também assumem outras associações e valores intangíveis.
Entendemos ser necessário reconhecer tal abordagem, referente à posição do Icomos/
ISC20C, como essencial nas discussões contemporâneas, tendo que ser considerada
para que o patrimônio moderno possa de fato ser transmitido ao futuro.

As críticas proferidas por Salvo estão relacionadas com os preceitos difundidos pelo
Restauro Crítico-conservativo e pelo seu teórico atual mais conhecido, o italiano
Giovanni Carbonara. Entende-se que a crítica que se faz ao DOCOMOMO e ao ICOMOS/
ISC20C está bastante relacionada com o conceito de autenticidade formulado
pelo Restauro Crítico-conservativo. Para essa corrente, a autenticidade encontra-
se diretamente no objeto do restauro. Assim, acredita-se que é necessário que a
consistência material de tais objetos seja transmitida do modo mais intacto possível,
mas sempre considerando que essa é portadora de uma imagem característica, que
deve ser mantida do modo mais íntegro possível. Assim, o restauro (inclusive do
patrimônio moderno) tem que se dar a partir de um reconhecimento dos significados
existentes no próprio objeto, não a partir da formulação de uma imagem ideal ou da
incorporação de significados intangíveis alheios a ele, difundidos pelas instituições
examinadas neste artigo14.

Conforme indicamos no princípio do texto, no contexto brasileiro, a vertente


Crítica-conservativa é predominante nos discursos especializados, seja atrelada
a instituições ou profissionais dedicados à discussão do patrimônio. Em relação ao
patrimônio moderno, entretanto, parece faltar uma sistematização da abordagem a
ser adotada. Mesmo as instituições aqui tratadas, em seus núcleos nacionais, não
possuem um discurso coeso e representativo enquanto grupos nesse sentido. Focam
na documentação, nas especificidades do projeto moderno e no patrimônio em risco15,
porém, sem se aprofundar nos princípios para intervenções práticas, com poucas
exceções. Sem contar a rara inclusão das teorias contemporâneas no debate.

Concluindo, pretendemos com esse texto, por um lado, apresentar e discutir as


contribuições do Docomomo, do Icomos/ISC20C, e dos profissionais articulados a
tais instituições. Por outro, acreditamos que a contraposição de tais contribuições
nos oferece uma excelente oportunidade de ampliar o debate sobre o tema no Brasil,
ainda muito centrado nas teorias italianas. Consideramos que isso se faz necessário,
inclusive para que se possa tensionar as instituições que se ocupam da intervenção
da arquitetura moderna no país.

14 Além do Restauro Crítico-conservativo, existem outras importantes correntes italianas que, nas suas dis-
cussões teóricas, tratam indiretamente do restauro da arquitetura moderna. Entre essas, destaca-se aquela
da Pura Conservação, difundidas por Marco Dezzi Bardeschi e Amedeo Bellini e a da Manutenção-Repristina-
ção, propagada por Paolo Marconi.

15 Interpretação feita a partir da leitura dos anais de congressos e publicações vinculadas às instituições, espe-
cialmente os seminários do Docomomo Brasil e simpósios do ICOMOS Brasil.

CADERNOS

38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL

Considerações sobre a conservação da Arquitetura Moderna: Contrapontos entre Docomomo e Icomos/ISC20C


53 Considerations on Modern Architecture conservation: Counterpoints between Docomomo and Icomos/ISC20C
Consideraciones sobre la conservación de la Arquitectura Moderna: Contrapuntos entre Docomomo e Icomos/ISC20C

Referências
ALLAN, John. Conservation of Modern Buildings in England. ICOMOS – Cadernos do
XXIV Comitê Nacional Alemão (Hefte des Deutschen Nationalkomitees), Munique: v.
24, p. 94-101, 1998. Disponível em: <https://www.icomos.de/admin/ckeditor/plugins/
alphamanager/uploads/pdf/HefteXXIV.pdf>. Acesso em 18 fev. 2022.

ALLAN, John. Points of Balance: Patterns of Practice in the Conservation of Modern


Architecture. Journal of Architectural Conservation. Londres: v. 13, n. 2, p. 13-46, 2007.
DOI: http://dx.doi.org/10.1080/13556207.2007.10784994.

BIERRENBACH, Ana Carolina. Debates recentes sobre o restauro da arquitetura


moderna na Itália. Revista Thesis, v.2, n.3, pp.137-157, 2017. Disponível em : <file:///C:/
Users/acbie/Downloads/152-Texto%20do%20artigo-434-480-10-20171011.pdf>.
Acesso em 04 jul.2022. DOI : https://doi.org/10.51924/revthesis.2017.v2.152

BUMBARU, Dinu. Montreal Action Plan. Quebec, set. 2001. p.1-2. Disponível em:
<https://www.icomos.org/20th_heritage/20th_c_survey.htm>. Acesso em 10 abr. 2022.

BURKE, Sheridan; MACDONALD, Susan. Creativity and Conservation: Managing


Significance at the Sydeny Opera House. Bulletin of the Association for Preservation
Technology, Springfield, 45 (2/3), fev. 2014. pp.31-37. Disponível em: <https://www.
researchgate.net/publication/340418099_Creativity_and_Conservation_Managing_
Significance_at_the_Sydney_Opera_House>. Acesso em 10 abr. 2022.

BURKE, Sheridan. MAP20. 2022. [S.I.], 2022. Disponível em: <https://isc20c.icomos.org/


education_items/map20/>. Acesso em 10 abr. 2022.

_____________. Timeline of development and activity of ICOMOS ISC20C. [S.I], 2021


Disponível em: <History of ISC20C – ICOMOS ISC on 20th Century>. Acesso em 10 abr.
2022.

_____________. ICOMOS. Twentieth Century Heritage International Scientific


Committee. In: MACDONALD, Susan; NORMANDIN, Kyle; KINDRED, Bob. Conservation
of Modern Architecture. Shaftsbury, Donhead Publishing, 2007. pp.143-150.

CARVALHO, Claudia S. Rodrigues. Preservação da Arquitetura Moderna: Edifícios de


Escritórios no Rio de Janeiro construídos entre 1930-1960. São Paulo: FAUUSP, 2005,
448p. Tese (Doutorado).Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo,
Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.

CARVALHO, Juliano L. Universalidade e diversidade dos princípios do restauro: O debate


nos seminários Docomomo Brasil, 1995-2016. In: Anais do Simpósio Científico Icomos
Brasil. Belo Horizonte, pp.1-15, 2017. Disponível em: <https://www.even3.com.br/
anais/eventosicomos/>. Acesso em 10 abr. 2022. DOI: http://dx.doi.org/10.29327/15538

CARVALHO, Juliano L. Recente, contemporânea, do século XX: nomes e disputas da


arquitetura moderna enquanto patrimônio. In: Anais do 2º Simpósio Científico do
ICOMOS Brasil. Belo Horizonte, pp.6776-6803, 2018. Disponível em: <https://www.
academia.edu/40713385/Recente_contempor%C3%A2nea_do_s%C3%A9culo_XX_
nomes_e_disputas_da_arquitetura_moderna_enquanto_patrim%C3%B4nio>. Acesso
em 10 abr. 2022.

DE JONGE, Wessel. Contemporary requirements and the conservation of typical


technology of the Modern Movement. In: Henket, H. A. J., & de Jonge, W. (Org.).
DOCOMOMO: First international conference, September 12-15, 1990. Eindhoven:
DOCOMOMO International, 1991, pp.84-89.

CADERNOS

38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL

Considerações sobre a conservação da Arquitetura Moderna: Contrapontos entre Docomomo e Icomos/ISC20C


54 Considerations on Modern Architecture conservation: Counterpoints between Docomomo and Icomos/ISC20C
Consideraciones sobre la conservación de la Arquitectura Moderna: Contrapuntos entre Docomomo e Icomos/ISC20C

DE JONGE, Wessel. Sustainable renewal of the everyday Modern. Journal of


Architectural Conservation. Londres: v. 23, n. 1-2, p. 62-105, 2017. DOI: http://doi.org/
10.1080/13556207.2017.1326555.

GUILLET, Anne-Laure. Docomomo International. Journal of Architectural


Conservation. Londres: v. 13, n.2, p. 151-156, 2007. DOI: http://dx.doi.org/10.1080/13
556207.2007.10785002.

HENKET, Hubert-Jan. 20th Century architecture requires a new conservation policy and
approach. In: Henket, H. A. J., & de Jonge, W. (Org.). DOCOMOMO: First international
conference, September 12-15, 1990. Eindhoven: DOCOMOMO International, 1991,
pp.51-54.

HENKET, Hubert-Jan. Has the Modern Movement any Meaning for Tomorrow?.
ICOMOS – Cadernos do XXIV Comitê Nacional Alemão (Hefte des Deutschen
Nationalkomitees), Munique: v. 24, p. 22-25, 1998. Disponível em: <https://www.
icomos.de/admin/ckeditor/plugins/alphamanager/uploads/pdf/HefteXXIV.pdf>.
Acesso em 18 fev. 2022.

HENKET, Hubert-Jan. Back from Utopia: the Challenge of the Modern Movement. In:
ANDRIEUX, Jean-Yves. CHEVALLIER, Fabienne (Org.). The Reception of Architecture of
the Modern Movement: Image, Usage, Heritage. Seventh International Docomomo
Conference. Saint-Étienne: Université de Saint-Etienne, 2005, pp.69-72.

HENKET, Hubert-Jan. When the Oppressive New and the vulnerable Old Mett; a Plea
for Sustainable Modernity. Docomomo Journal. Lisboa: Docomomo International,
n.52, pp.14-19, 2015/1.

ICOMOS. Moderne neu denken. Architektur und Stadtebau des 20. Jahrhunderts.
Rethinking Modernity. Architecture and urban planning of the 20th Century. Berlim,
ICOMOS, 2019. Disponível em: <https://www.icomos.de/icomos/pdf/icomosmoderne-
neu-denken_web_5nov2019.pdf>. Acesso em 10 abr. 2022.

_______. Seminar on 20th Century Heritage. Helsinki, ICOMOS, 18-19 jun. 1995.
Disponível em: <https://www.icomos.org/20th_heritage/helsinki_1995.htm>. Acesso
em 10 abr. 2022.

_______. Seminar on 20th Century Heritage. Cidade do México, ICOMOS, 10-13 jun.
1996. Disponível em: <https://www.icomos.org/20th_heritage/mexico_1996.htm>
Acesso em 10 abr. 2022.

_______. The Dublin Principles. Paris, ICOMOS, 2011. Disponível em: <https://
www.icomos.org/Paris2011/GA2011_ICOMOS_TICCIH_joint_principles_EN_FR_
final_20120110.pdf>. Acesso em 10 abr. 2022.

_______. The world heritage list: filling the gaps – an action plan for the future. An
analysis by ICOMOS. Paris, ICOMOS, fev. 2004. Disponível em: <http://www.icomos-
isc20c.org/pdf/ISC20CHelsinkiMM2012.pdf>. Acesso em 10 abr. 2022.

ICOMOS/ISC20C. Abordagens para a conservação do patrimônio cultural do século


XX. Documento Madrid-Nova Deli. Nova Deli, ICOMOS ISC20C, 2017. Disponível em:
<https://isc20c.icomos.org/wp-content/uploads/2022/03/MNDD_PORTUGUESE.pdf>.
Acesso em 10 abr. 2022.

_____________. AGM Trento – minutes. Trento, ICOMOS ISC 20C, 2 set. 2018. Disponível
em: <http://www.icomos-isc20c.org/wp-content>. Acesso em 10 abr. 2022.

_____________. Annual Meeting. Draft minutes. Chandigarh, ICOMOS ISC 20C, 1 out.
2013. Disponível em: <http://www.icomosisc20c.org/pdf/isc20cmeetingminuteschand
igarh_2013knsbgettydraft3.pdf>. Acesso em 10 abr. 2022.

CADERNOS

38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL

Considerações sobre a conservação da Arquitetura Moderna: Contrapontos entre Docomomo e Icomos/ISC20C


55 Considerations on Modern Architecture conservation: Counterpoints between Docomomo and Icomos/ISC20C
Consideraciones sobre la conservación de la Arquitectura Moderna: Contrapuntos entre Docomomo e Icomos/ISC20C

____________. Annual meeting. Florença, ICOMOS ISC 20C, 10 a 13 mar. 2016. Disponível
em: <http://www.icomos-isc20c.org/conference/>. Acesso em 10 abr. 2022.

____________. Approaches for the conservation of Twentieth-Century Architectural


Heritage. Madrid Document. Madrid, ICOMOS ISC 20C, 2011. Disponível em: <http://
www.icomosisc20c.org/pdf/madriddocumentforpublication2012with2011copyright.
pdf>. Acesso em 10 abr. 2022.

___________. Committee Meeting. Draft minutes. Helsinque, ICOMOS ISC20C, 6


ago. 2012. Disponível em: <http://whc.unesco.org/uploads/activities/documents/
activity-590-1.pdf>. Acesso em 10 abr. 2022.

___________. Committee Meeting. Final Minutes. Sydney, ICOMOS ISC20C, 7 jul. 2009.
Disponível em: <http://www.icomos-isc20c.org/pdf/meetingminutes.pdf>. Acesso em
10 abr. 2022.

_________. ICOMOS International Scientific Committee on Twentieth Century


Heritage. SEM [S.I.], ICOMOS ISC 20C, [201-?]. Disponível em: <IntroductionSheet_
ICOMOS20C-NOV-2017.pdf (icomos-isc20c.org)>. [20--] Acesso em 10 abr. 2022.

_________. Twentieth Century Heritage. Revised Satutes. Quebec, out. 2008. Disponível
em: <http://www.icomos-isc20c.org/pdf/ISC20CStatutesOct2008-Final.pdf> Acesso
em 10 abr. 2022.

MACDONALD, Susan. Integrating Modern Heritage into the Continuum of


Conservation Practice. In: NORMANDIN, Kyle; MACDONALD, Susan. A Colloquium to
Advance the Practice of Conserving Modern Heritage. Los Angeles, Getty Center, Los
Angeles, California, 6-7 mar. 2013a. pp.34-41. Disponível em: <https://www.getty.edu/
conservation/publications_resources/pdf_publications/pdf/colloquium_report.pdf>.
Acesso em 10 abr. 2022.

________________. Materiality, monumentality and modernism: continuing challenges


in conserving twentieth-century places. Los Angeles, Getty Conservation Institute,
2009. Disponível em: <http://www.aicomos.com/wp-content/uploads/2009_
UnlovedModern_Macdonald_Susan_Materiality_Paper.pdf>. Acesso em 10 abr. 2022.

________________. Modern Matters: Breaking the Barriers to Conserving Modern


Heritage. Los Angeles: The Getty Conservation Institute, abr. 2013b. Disponível em:
<https://www.academia.edu/43780730/Modern_Matters_Breaking_the_Barriers_to_
Conserving_Modern_Heritage>. Acesso em 10 abr. 2022.

________________. Reconciling Authenticity and Repair in the Conservation of Modern


Architecture. In: Journal of Architectural Conservation, [S.I.] n.1. mar.1996. pp. 36-54.
DOI: 10.1080/13556207.1996.10785152

MACDONALD, Susan; BURKE, Sheridan; LARDONOIS, Sara; McCOY, Chandler.


Recent Efforts in Conserving 20th-Century Heritage. In: Built Heritage, [S.I.], fev.
2018. Disponível em: <https://www.researchgate.net/publication/340417539_
Recent_Efforts_in_Conserving_20_th_Century_Heritage_The_Getty_Conservation_
Institute%27s_Conserving_Modern_Architecture_Initiative>. Acesso em 10 abr. 2022.
DOI: http://dx.doi.org/10.1186/BF03545694

MACDONALD, Susan; OSTERGREN, Gail. Developing an Historic Thematic Framework


to Assess the Significance of Twentieth-Century Cultural Heritage: An Initiative of
the ICOMOS International Scientific Committee on Twentieth-Century Heritage. Los
Angeles, The Getty Foundation Institute /ICOMOS, 10-11 mai. 2011. pp.1-22. Disponível
em: <https://www.getty.edu/conservation/publications_resources/pdf_publications/
developing_historic.html>. Acesso em 10 abr. 2022.

CADERNOS

38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL

Considerações sobre a conservação da Arquitetura Moderna: Contrapontos entre Docomomo e Icomos/ISC20C


56 Considerations on Modern Architecture conservation: Counterpoints between Docomomo and Icomos/ISC20C
Consideraciones sobre la conservación de la Arquitectura Moderna: Contrapuntos entre Docomomo e Icomos/ISC20C

MACDONALD, Susan; SPEARRITT, Peter. The Twentieth-Century Historic Thematic


Framework. A tool for Assessing Heritage Places. Los Angeles, Getty Conservation
Institute, 2021. Disponível em: <https://www.getty.edu/conservation/publications_
resources/pdf_publications/twentieth_century_historic_thematic_framework.html>.
Acesso em 05 abr. 2022.

MARINHO, Silvino. Práticas de preservação da arquitetura e do urbanismo modernos.


O aumento de bens do Movimento no Moderno na Lista do Patrimônio Mundial e
o debate sobre a autenticidade. In: Anais do 12º Seminário Docomomo Brasil,
Uberlândia, pp.1-12, 2017.

MOREIRA, Fernando D. Os desafios postos pela conservação da arquitetura moderna.


Revista CPC, São Paulo, n.11, pp. 152-187, nov. 2010/abr. 2011. Disponível em: <https://
www.revistas.usp.br/cpc/article/view/15676>. Acesso em 10 abr. 2022. DOI: https://
doi.org/10.11606/issn.1980-4466.v0i11p152-187

NORMANDIN, Kyle; MACDONALD, Susan. A Colloquium to Advance the Practice of


Conserving Modern Heritage. Los Angeles, Getty Center, Los Angeles, 6-7 mar. 2013.
Disponível em: <https://www.getty.edu/conservation/publications_resources/pdf_
publications/pdf/colloquium_report.pdf>. Acesso em 10 abr. 2022.

OKSMAN, Silvio. Contradições na preservação da arquitetura moderna. São Paulo:


FAUUSP, 217p. Tese (Doutorado). Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e
Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo , 2017. Disponível em: <https://www.
teses.usp.br/teses/disponiveis/16/16133/tde-01062017-164550/publico/SilvioOksman.
pdf>. Acesso em 10 abr. 2022.

PRUDON, Theodore. Preservation of Modern Architecture. Hoboken: John Wiley &


Sons, 2008.

SALVO, Simona. A intervenção na arquitetura contemporânea como tema emergente


do restauro. São Paulo, Pós – Revista do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura
e Urbanismo da FAUSP, jun. 2008. pp.199- 211. Disponível em: <https://www.revistas.
usp.br/posfau/issue/view/3583/928>. Acesso em 10 abr. 2022.

SILVA, Paula Maciel. Atributos da arquitetura moderna e a ação da conservação. In:


Anais do 11º Seminário Docomomo Brasil, Recife, pp. 17-22 abr. 2016. Disponível em:
<http://seminario2016.docomomo.org.br/artigos_apresentacao/sessao%208/DOCO_
PE_S8_MACIEL%20SILVA.pdf>. Acesso em 10 abr. 2022.

SOARES, Carolly; TINEM, Nelci. Análise da Conservação e Restauração da


Arquitetura Moderna nas perspectivas de Theodore Prudon e John Allan.
CARVALHO, Juliano L. Recente, contemporânea, do século XX: nomes e disputas da
arquitetura moderna enquanto patrimônio. In: Anais do 2º Simpósio Científico
do ICOMOS Brasil. Belo Horizonte, pp.1782-1803. 2018. Disponível em: <588860_
e7c2f0d09940425684b76f5aeb7e7033.pdf (icomos.org.br)>. Acesso em 10 abr. 2022.

UNESCO. Identification and Documentation of Modern Heritage. World Heritage


Papers, n.5. Paris, UNESCO, 2003. Disponível em: <https://whc.unesco.org/en/
documents/12>. Acesso em 10 abr. 2022.

_______. Convention Concerning the protection of the world heritage of the world
cultural and natural heritage. Phuket, Tailândia, 12-17 dez. 1994. pp.1-8. Disponível
em: <https://whc.unesco.org/archive/1994/whc-94-conf003-inf12e.pdf>. Acesso em 10
abr. 2022.

USOKOVICH, Sandra. ICOMOS action plan on the 20th Century heritage / Survey.
Strategies for the World´s Cultural Heritage. Preservation in a globalised world:
principles, practicies and perspectives. Madrid, 13th ICOMOS General Assembly

CADERNOS

38
ANA CAROLINA DE SOUZA BIERRENBACH E JULIA PELA MENEGHEL

Considerações sobre a conservação da Arquitetura Moderna: Contrapontos entre Docomomo e Icomos/ISC20C


57 Considerations on Modern Architecture conservation: Counterpoints between Docomomo and Icomos/ISC20C
Consideraciones sobre la conservación de la Arquitectura Moderna: Contrapuntos entre Docomomo e Icomos/ISC20C

and Scientific Symposium. Actas. Comité Nacional Español del ICOMOS. pp.345-348.
Disponível em: <https://openarchive.icomos.org/id/eprint/617/> Acesso em 10 abr.
2022

ZANCHETI, Silvio. A Teoria Contemporânea da Conservação da Arquitetura Moderna.


Texto para Discussão V.58, Série 2 – Gestão de Restauro. Olinda, CECI, 2014. pp.1-13.
<(PDF) A TEORIA CONTEMPOR NEA DA CONSERVAÇÃO E A ARQUITETURA MODERNA
(researchgate.net)> Acesso em 10 abr. 2022>.

RESPONSABILIDADE INDIVIDUAL E DIREITOS AUTORAIS

A responsabilidade da correção normativa e gramatical do texto é de inteira


responsabilidade do autor. As opiniões pessoais emitidas pelos autores dos artigos são
de sua exclusiva responsabilidade, tendo cabido aos pareceristas julgar o mérito das
temáticas abordadas. Todos os artigos possuem imagens cujos direitos de publicidade
e veiculação estão sob responsabilidade de gerência do autor, salvaguardado o direito
de veiculação de imagens públicas com mais de 70 anos de divulgação, isentas de
reivindicação de direitos de acordo com art. 44 da Lei do Direito Autoral/1998: “O prazo
de proteção aos direitos patrimoniais sobre obras audiovisuais e fotográficas será de
setenta anos, a contar de 1° de janeiro do ano subsequente ao de sua divulgação”.

O CADERNOS PROARQ (ISSN 2675-0392) é um periódico científico sem fins


lucrativos que tem o objetivo de contribuir com a construção do conhecimento nas
áreas de Arquitetura e Urbanismo e afins, constituindo-se uma fonte de pesquisa
acadêmica. Por não serem vendidos e permanecerem disponíveis de forma online
a todos os pesquisadores interessados, os artigos devem ser sempre referenciados
adequadamente, de modo a não infringir com a Lei de Direitos Autorais.

Submetido em 27/04/2022

Aprovado em 14/07/2022

CADERNOS

38
CADERNOS

38

DANIELA PEREIRA BARBOSA E MARIA FERNANDA DERNTL

A valorização de uma arquitetura em madeira representativa


do período inicial da construção de Brasília: entre “barraco” e
patrimônio cultural
The valuation of a wooden architecture representative of the early period of the construction
of Brasilia: between "shack" and cultural heritage
La valoración de una arquitectura en madera representativa del período inicial de la
construcción de Brasilia: entre "chabola" y patrimonio cultural
DANIELA PEREIRA BARBOSA E MARIA FERNANDA DERNTL

A valorização de uma arquitetura em madeira representativa do período inicial da construção de Brasília: entre “barraco” e patrimônio cultural
59 The valuation of a wooden architecture representative of the early period of the construction of Brasilia: between "shack" and cultural heritage
La valoración de una arquitectura en madera representativa del período inicial de la construcción de Brasilia: entre "chabola" y patrimonio cultural

Daniela Pereira Barbosa

Professora visitante do Departamento de Design


da Universidade de Brasília e membro do grupo de
pesquisa Capital e Periferia (CNPQ/UnB). Consultora
em Design de Interfaces no Programa das Nações
Unidas para o Desenvolvimento – PNUD Brasil. Doutora
em Arquitetura e Urbanismo (UnB, 2021) e Mestre em
Design (UnB, 2015).

Profesora visitante del Departamento de Diseño de la Uni-


versidad de Brasilia y miembro del grupo de investigación
Capital y Periferia (CNPQ/UnB). Consultora en diseño de
interfaces en el Programa de las Naciones Unidas para el
Desarrollo - PNUD Brasil. Doctorado en Arquitectura y Ur-
banismo (UnB, 2021) y Máster en Diseño (UnB, 2015).

Visiting professor at the Department of Design at the Uni-


versity of Brasília and member of the research group Capital
city and Periphery (CNPQ/UnB). Consultant in Interface De-
sign at the United Nations Development Programme - UNDP
Brazil. PhD in Architecture and Urbanism (UnB, 2021) and
Master in Design (UnB, 2015).

[email protected]

Maria Fernanda Derntl

Professora e pesquisadora da Faculdade de Arquitetura


e Urbanismo da Universidade de Brasília desde
2010. Autora do livro Método e Arte: urbanização e
formação de territórios na capitania de São Paulo,
1765-1811(Alameda/ FAPESP, 2013.) Líder do grupo de
pesquisa Capital e Periferia (CNPQ/UnB). Vencedora do
X Prêmio Milton Santos (Anpur, 2021) pelo artigo Brasília
e suas unidades rurais (Anais do Museu Paulista, 2020).

Profesora e investigadora de la Facultad de Arquitectura y


Urbanismo de la Universidad de Brasilia desde 2010. Autora
del libro Método e Arte: urbanização e formação de territóri-
os na capitania de São Paulo, 1765-1811 [Método y Arte: Ur-
banización y Formación del Territorio en la Capitanía de São
Paulo, 1765-1811] (Alameda/ FAPESP, 2013.) Líder del grupo
de investigación Capital y Periferia (CNPQ/UnB). Ganadora
del X Premio Milton Santos (Anpur, 2021) por el artículo Bra-
sília e suas unidades rurais [Brasilia y sus unidades rurales]
(Anais do Museu Paulista, 2020).

Professor and researcher at the School of Architecture and


Urban Desgn at the University of Brasília since 2010. Author
of the book Método e Arte: urbanização e formação de ter-
ritórios na capitania de São Paulo, 1765-1811 [Method and
Art: Urbanization and Territory Formation in the Captaincy
of São Paulo, 1765-1811] (Alameda/ FAPESP, 2013.) Leader
of the research group Capital city and Periphery (CNPQ/
UnB). Winner of the X Milton Santos Award (Anpur, 2021)
for the article Brasília e suas unidades rurais [Brasília and its
rural units] (Anais do Museu Paulista, 2020).

[email protected]

CADERNOS

38
DANIELA PEREIRA BARBOSA E MARIA FERNANDA DERNTL

A valorização de uma arquitetura em madeira representativa do período inicial da construção de Brasília: entre “barraco” e patrimônio cultural
60 The valuation of a wooden architecture representative of the early period of the construction of Brasilia: between "shack" and cultural heritage
La valoración de una arquitectura en madera representativa del período inicial de la construcción de Brasilia: entre "chabola" y patrimonio cultural

Resumo
Este artigo analisa o processo de formulação do que veio a ser considerada uma arquitetura
representativa do período inicial da construção de Brasília, composta por construções de
madeira erguidas em fins da década de 1950, incorporando preceitos do modernismo.
A análise considera esse processo no campo patrimonial, a partir do discurso expresso
em dossiês de tombamento, nossa fonte primária de análise. Trata-se dos seguintes
bens tombados: Catetinho, Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira, Igreja São Geraldo,
Centro de Ensino Metropolitana e Igreja São José Operário. O método consistiu em análise
documental, coletando-se nos dossiês informações alusivas à importância arquitetônica
dos bens, cotejando-se o resultado com a bibliografia. Os primeiros tombamentos
ocorreram a despeito da identificação de um dos bens como “barraco”. Em seguida, a
incipiente valorização dessa arquitetura nos anos 1970-1980 conviveu com ameaças de
demolição de edificações. A valorização desses edifícios enquanto patrimônio, por fim, se
deu como arquitetura representativa do período inicial da construção de Brasília, associada
a noções de pioneirismo e de expectativa quanto ao futuro da nova capital.

Palavras-chave: Brasília. Acampamentos de obras. Patrimônio moderno em madeira.


Documentação.

Abstract
This article analyzes the process of formulating what came to be considered architecture rep-
resentative of the initial period of construction of Brasília, composed of wooden buildings built
in the late 1950s, which incorporated precepts of the modern movement. This analysis looks
at this process in the field of heritage, based on the discourse expressed in dossiers for pres-
ervation, which were our primary source of analysis. Listed properties analyzed here were:
Catetinho Palace, Juscelino Kubitschek de Oliveira Hospital, São Geraldo Church, Educational
Centre Metropolitana and São José Operário Church. The method based on document analysis,
by drawing on dossiers information alluding to the architectural importance of those build-
ings and comparing the results with what is stated in bibliography. The first preservation
acts occurred despite identification of the building as a “shack”. Later, incipient appreciation
of that architecture in the 1970s-1980s coexisted with threats of demolition of buildings. The
appreciation of these buildings as heritage, finally, took place through recognition of them as
representative architecture of the initial period of the construction of Brasília, associated with
notions of pioneering spirit and hope regarding the future of the new capital.

Keywords: Brasilia. Construction camps. Modern wooden heritage. Documentation.

Resumen
Este artículo analiza el proceso de formulación de lo que llegó a ser considerado una arquitec-
tura representativa del período inicial de la construcción de Brasilia, compuesta por construc-
ciones de madera erigidas a fines de la década de 1950, incorporando preceptos del modernis-
mo. El análisis considera este proceso desde una perspectiva patrimonial, a partir del discurso
expresado en los expedientes de registro, nuestra principal fuente de análisis. A continuación,
listamos las construcciones catalogadas: Catetinho, Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira,
Igreja São Geraldo, Centro de Ensino Metropolitana y Igreja São José Operário. El método
consistió en el análisis documental, recogiéndose en los expedientes información alusiva a la
importancia arquitectónica de las construcciones, cotejándose el resultado con la bibliografía.
El primer registro se produjo a pesar de su identificación como “chabola”. Luego, la incipiente
apreciación de esta arquitectura en los años 1970-1980 coexistió con amenazas de demolición
de edificios. La valoración de estos edificios como patrimonio, finalmente, tuvo lugar como ar-
quitectura representativa del período inicial de la construcción de Brasilia, asociada a nociones
de espíritu pionero y expectativa sobre el futuro de la nueva capital.

Palabras clave: Brasilia. Campos de construcción. Patrimonio moderno de madera. Documentación.

CADERNOS

38
DANIELA PEREIRA BARBOSA E MARIA FERNANDA DERNTL

A valorização de uma arquitetura em madeira representativa do período inicial da construção de Brasília: entre “barraco” e patrimônio cultural
61 The valuation of a wooden architecture representative of the early period of the construction of Brasilia: between "shack" and cultural heritage
La valoración de una arquitectura en madera representativa del período inicial de la construcción de Brasilia: entre "chabola" y patrimonio cultural

Introdução
Brasília, cidade moderna construída para ser a nova capital do Brasil e inaugurada em
1960, teve seu núcleo inicial, o Plano Piloto, reconhecido como Patrimônio Mundial
pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO)
em 1987. A cidade possui edifícios emblemáticos que sustentam sua imagem
moderna e monumental, muitos projetados por Oscar Niemeyer. O patrimônio
cultural de Brasília, contudo, não se limita ao Plano Piloto, pois contempla bens
localizados para além daquele núcleo central, como construções centenárias erguidas
no que antes era o estado de Goiás, edificações em madeira que remetem ao período
inicial da construção de Brasília e equipamentos para fornecimento de serviços a
núcleos satélites. Esse patrimônio, referente a épocas e estilos variados, amplia as
possibilidades de leitura da imagem patrimonial da capital do país.

Este trabalho concentra-se no patrimônio de madeira, ou seja, edificações do período


inicial da construção da cidade feitas para dar apoio às obras. O primeiro tombamento
dessa série foi o do Catetinho, em 1959, pelo Iphan – à época, DPHAN. Os demais foram
em nível local pela Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Distrito
Federal (SECEC): os remanescentes do Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira
(HJKO), tombado em 1985; a Igreja São Geraldo no Paranoá, em 1993; o Centro de
Ensino Metropolitana, em 1995; e a Igreja São José Operário, em 1998.

FIGURA 1 – Patrimônio em
madeira de Brasília. A construção de Brasília, iniciada em 1956, acarretou mudanças profundas no
Fonte: Autores, 2020 território do recém-criado Distrito Federal, área até então pertencente a Goiás. A
Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap), empresa pública responsável
por gerenciar as obras, implementou uma série de pontos de apoio ao redor do imenso
canteiro de obras para a edificação de Brasília.

Esses locais objetivavam proporcionar suporte às pessoas que se deslocavam para o


Planalto Central para participar da construção da cidade ou visitar o local. Todas as
edificações eram de madeira, indicativo de seu caráter provisório, pois deveriam ser
demolidas após a inauguração. Mas isso não ocorreu de todo como previsto, pois ainda
em 1959, antes mesmo da inauguração de Brasília e por determinação presidencial,
tombou-se o Catetinho. Anos mais tarde, nas décadas de 1980 e 1990, as demais
edificações analisadas neste trabalho foram tombadas.

CADERNOS

38
DANIELA PEREIRA BARBOSA E MARIA FERNANDA DERNTL

A valorização de uma arquitetura em madeira representativa do período inicial da construção de Brasília: entre “barraco” e patrimônio cultural
62 The valuation of a wooden architecture representative of the early period of the construction of Brasilia: between "shack" and cultural heritage
La valoración de una arquitectura en madera representativa del período inicial de la construcción de Brasilia: entre "chabola" y patrimonio cultural

Tendo como suporte a bibliografia e documentação específica sobre o tombamento


dessas edificações, analisamos como se deu o processo de reconhecimento e
valorização de uma arquitetura representativa do período inicial da construção de
Brasília. Este trabalho busca contribuir com o debate sobre preceitos e características
dessa arquitetura, tendo como suporte fundamental o modo como isso se apresenta
em processos de tombamento.

Fonte primária de análise e método


O método consiste em análise bibliográfica e documental relativa ao patrimônio
cultural em madeira referente ao período inicial da construção de Brasília. Uma série
de arquivos de tipos e origens diversas – matérias de jornal, fonte iconográfica, plantas
arquitetônicas, etc. – constitui nossa fonte primária de análise, pois compõe os dossiês
de tombamento. Esse material, organizado em fichários, encontra-se sob a égide da
SECEC, e por não possuir cópias digitalizadas e não ser permitida a sua retirada do
local, a consulta e coleta de dados foi realizada nas dependências da instituição, entre
2018 e 2021. Cada dossiê é relativo a uma edificação, totalizando cinco dossiês.

FIGURA 2 – Capas dos dossiês


Cada um dos dossiês é composto por material de origens diversas e sua montagem
analisados.
foi realizada por diferentes profissionais atuantes no Iphan ou na SECEC, entre 1958
Fonte: Autores, 2020
e 1998. Os profissionais, ao longo dos anos, foram responsáveis por realizar a coleta e
elaboração de material com o intuito de fundamentar os tombamentos.

Diante da diversidade da documentação, privilegiamos a análise dos registros


documentais que indicam o modo como a arquitetura dos bens teria sido tratada
no momento do tombamento. A análise documental permitiu uma apreciação dos
arquivos não pela linearidade e sequencialidade da informação, mas pelos pontos
mais significativos identificados nessa fonte. A bibliografia específica foi essencial
para complementar a análise documental e expandir as possibilidades de discussão.

A formulação de preceitos para uma arqui-


tetura representativa do período inicial da
construção de Brasília
Tanto o Iphan quanto a bibliografia buscam identificar parâmetros que caracterizaram
a urbanização de núcleos de apoio do período inicial da construção de Brasília. As
descrições destacam aspectos positivos desses espaços e de suas unidades construtivas,
pois havia a pretensão de justificar a sua importância histórica. O Iphan aponta que

CADERNOS

38
DANIELA PEREIRA BARBOSA E MARIA FERNANDA DERNTL

A valorização de uma arquitetura em madeira representativa do período inicial da construção de Brasília: entre “barraco” e patrimônio cultural
63 The valuation of a wooden architecture representative of the early period of the construction of Brasilia: between "shack" and cultural heritage
La valoración de una arquitectura en madera representativa del período inicial de la construcción de Brasilia: entre "chabola" y patrimonio cultural

Tais acampamentos, apesar de serem constituídos de construções provisórias que


deveriam ser desativadas e desmontadas assim que as obras fossem concluídas,
foram organizados à feição de pequenas cidades tradicionais, de modo a tentar
recriar, para os operários e suas famílias, a ambiência a que estavam acostumados
em suas cidades natais. (Iphan, 2016, p. 17).

Além de destacar essas feições tradicionais, assinala-se a referência ao modernismo


na concepção desses espaços, e reforça-se a existência de um padrão construtivo
alinhado com preceitos em voga no período, pois “as edificações de madeira que, via
de regra, tinham feição rústica, traziam consigo parte dos preceitos do racionalismo
modernista, com suas linhas sóbrias e livres de ornamentações” (2016, p. 5).
Nesse discurso, a vinculação de edificações “de feição rústica” ao modernismo foi
fundamental para sua valorização, o que tende a reforçar o alinhamento entre tais
edificações e Brasília, cidade moderna.

A associação entre os anteriores acampamentos de obras e o Movimento Moderno


também aparece na bibliografia, a exemplo do estudo de Maria Kohlsdorf (2010)
sobre as várias imagens urbanas que caracterizam Brasília. Com relação à malha
urbana dos acampamentos, a autora aponta que “são expressões do Movimento de
Arquitetura Moderna nas predominâncias de regularidade, ortogonalismo e pequeno
número de elementos básicos de composição” (KOHLSDORF, 2010, p. 257).

Percebe-se, pelas descrições, um esforço em assinalar a relevância histórica e estilística


de edifícios da época, em uma tentativa de compreender e classificar sua formulação.
Um discurso análogo se repete em outras análises, em especial sobre exemplares
projetados por Niemeyer. Maritza Dantas e Ana Medeiros (2019, p. 10) apontam que “a
arquitetura em madeira produzida por Niemeyer na nova capital trazia consigo suas
constantes projetuais e mostrava o esforço do arquiteto em realizar obras relevantes
tanto para sua carreira, como para a vertente modernista da arquitetura brasileira”.
De modo semelhante, com relação ao Catetinho, Adrián Gorelik (2003, p. 54) reconhece
suas qualidades ao descrevê-lo como uma “feliz conjunção de critérios modernos e
tradicionais”, formado por uma “elegante tira de uma só água sobre pilotis, com uma
ampla galeria em toda a sua extensão e uma escada exterior, com materiais ‘pobres’,
madeira e chapa”. Os autores, assim como o Iphan, reconhecem o valor arquitetônico
de exemplares de madeira do período, associando-os ao Movimento Moderno.

Contudo, ainda em 1959, quando o Catetinho foi tombado por solicitação presidencial,
a relação da edificação com o modernismo não era tão evidente. Além disso não se
parece haver, no discurso patrimonial daquele período, consenso quanto à necessidade
de preservação cultural de uma arquitetura representativa dos primórdios da
construção de Brasília.

O tombamento do Catetinho
No dossiê de tombamento do Catetinho, de 1959, a valorização da edificação está
relacionada com seu simbolismo em razão de sua precedência em Brasília. Conforme
ofício enviado pelo Iphan – à época, DPHAN – à Novacap, o tombamento do Catetinho
justificava-se por “ter sido não só a primeira construção erigida na área da Nova
Capital, mas também a primeira sede da administração pública no local” (DISTRITO
FEDERAL, 1991, s.p.). A arquitetura da edificação, contudo, é tida como frágil pelo seu
caráter inicialmente provisório, pois

CADERNOS

38
DANIELA PEREIRA BARBOSA E MARIA FERNANDA DERNTL

A valorização de uma arquitetura em madeira representativa do período inicial da construção de Brasília: entre “barraco” e patrimônio cultural
64 The valuation of a wooden architecture representative of the early period of the construction of Brasilia: between "shack" and cultural heritage
La valoración de una arquitectura en madera representativa del período inicial de la construcción de Brasilia: entre "chabola" y patrimonio cultural

[u]ma vez que a construção foi feita com materiais ligeiros por se destinar a simples
“barracão”, recomenda-se à DPHAN providenciar desde logo o estudo dos meios
adequados à sua proteção, considerando-se que seria inadmissível reconstruir a
edificação periodicamente. (DISTRITO FEDERAL, 1991, s.p.)

O trecho reforça que não havia a intenção inicial de manter a edificação, que, por isso,
ela tinha sido projetada com materiais não duráveis. Além disso, não há a identificação
do Catetinho como um importante exemplar do Movimento Moderno, mas, sim, como
um “simples barracão”.

A fragilidade do Catetinho, apesar de ser colocada como um problema a ser resolvido


em termos de conservação, auxiliou na elaboração de um discurso alusivo ao
desenvolvimento da região. Conforme pronunciamento do então diretor do DPHAN
Rodrigo Andrade, na ocasião de tombamento do Catetinho, cuja transcrição está
anexada ao dossiê, “estranhar-se-á que tão cedo, enquanto o empreendimento
grandioso ainda se encontra distante da conclusão, já se lhe pretenda comemorar a
história”. Contudo, a despeito desse possível estranhamento inicial,

o que se visou foi, em pleno desenvolvimento da tarefa gigantesca da construção


de Brasília, proteger a tempo a pequena edificação em que nossos compatriotas do
futuro conhecerão a origem rústica e quase humilde da majestade da nova capital.
(DISTRITO FEDERAL, 1991, s.p.)

O Catetinho, construção considerada “tosca” e “humilde”, foi valorizado enquanto


prelúdio da monumentalidade vindoura de Brasília. Em outro trecho do mesmo
pronunciamento, Andrade aponta que

o objetivo mais amplo da medida adotada é garantir e cultivar, por meio da proteção
dos marcos expressivos do desenvolvimento da civilização nacional, a memória
luminosa da identidade do Brasil do futuro com o do passado, estabelecendo a ligação
entre as aspirações gloriosas alcançadas e as realizações toscas e modestas de que se
originaram. (DISTRITO FEDERAL, 1991, s.p.)

Para o DPHAN, o Catetinho seria um elo simbólico entre o passado e o futuro da nação,
e sua arquitetura é um ponto importante nesse discurso, pois assinala-se ser possível
construir um futuro desenvolvido a partir de bases modestas. O valor patrimonial
da edificação estaria então muito mais associado à simbologia de esperança de uma
nova era do que a uma arquitetura excepcional.

Ademais, ainda que o Catetinho tenha sido projetado por Oscar Niemeyer, o dossiê
não menciona a autoria do projeto. O mesmo texto do pronunciamento cita Niemeyer
para destacar que couberam ao arquiteto “os monumentos principais de Brasília”,
não havendo alusão à excepcionalidade do projeto arquitetônico do Catetinho. Assim,
em que pesem as características arquitetônicas do Catetinho terem um sentido
menor no momento do tombamento, elas adquiriram importância posteriormente,
na bibliografia.

O Catetinho foi reconhecido como patrimônio nacional em 1959, com Brasília ainda
em construção, e a manutenção da edificação inicialmente provisória trazia desafios
do ponto de vista da conservação. Contudo, isso não inaugurou o debate sobre a
manutenção permanente da arquitetura em madeira no Brasil. Oscar Ferreira (2019)
chama a atenção para projetos que antecederam a construção da capital, como o
Park Hotel São Clemente em Nova Friburgo, projetado por Lucio Costa e inaugurado
em 1944. Para Ferreira (2019), foi a partir desse projeto que Costa lançou as bases
para a arquitetura moderna em madeira no Brasil, e o autor, inclusive, reconhece no
Catetinho uma composição semelhante.

CADERNOS

38
DANIELA PEREIRA BARBOSA E MARIA FERNANDA DERNTL

A valorização de uma arquitetura em madeira representativa do período inicial da construção de Brasília: entre “barraco” e patrimônio cultural
65 The valuation of a wooden architecture representative of the early period of the construction of Brasilia: between "shack" and cultural heritage
La valoración de una arquitectura en madera representativa del período inicial de la construcción de Brasilia: entre "chabola" y patrimonio cultural

O fato de o Catetinho ser de madeira não representava, por si só, uma inovação na
problemática da conservação do material, pois o projeto citado por Ferreira (2019)
havia sido um precedente importante. No entanto, como vimos, não se identificava no
Catetinho um exemplar de uma arquitetura representativa da construção de Brasília,
mas, sim, um prelúdio da monumentalidade da nova capital.

O despertar da discussão sobre uma arqui-


tetura representativa do período inicial da
construção de Brasília
Um ano após o tombamento do Catetinho, Brasília foi inaugurada. Com o passar dos
anos os resquícios da construção da cidade foram se deteriorando, situação agravada
pelo fato de os anteriores acampamentos de obras terem sido considerados irregulares,
passando a ser alvo de recorrentes tentativas de destruição por sucessivos governos.

Viviane Ceballos (2005, p. 91) reforça que as investidas oficiais para erradicação de
acampamentos de obras estavam consubstanciadas pela necessidade de fazer do
Plano Piloto de Brasília “um espaço livre dos vícios, livre das invasões e de todos
os símbolos que pudessem representar o subdesenvolvimento e os problemas que
caracterizavam as grandes cidades brasileiras”. Na esteira desse debate, Edson Beú
(2013, p. 15) assinala que, “logo após a inauguração, os governos locais começaram a
colocar em prática a política de extinguir os antigos acampamentos de operários, uma
ameaça que se fazia latente desde a pós-inauguração”. Embora as investidas contra
esses locais tenham logrado êxito em diminuir consideravelmente seu território e
controlar parte das ocupações, a falta de fiscalização e de uma política habitacional
eficiente fez com que muitos deles resistissem ao desmonte (EPSTEIN, 1973). Por
fim, o processo de fixação desses núcleos, conforme José Nunes (2005, p. 155), foi
resultado de “lutas cotidianas [dos moradores] pela conquista de espaços na cidade”.
A discussão dos autores sobre a fixação desses núcleos ressalta principalmente as
tensões envolvendo governantes e moradores e aponta para um processo marcado
pela luta e resistência da população.

Para além dos anteriores acampamentos de obras contemplados neste trabalho


– Candangolândia, Metropolitana e Paranoá – houve, de modo precursor, a fixação
da Cidade Livre em 1961, com o novo nome de Núcleo Bandeirante. O local surgiu
como um núcleo de comércios e serviços criado pela Novacap e a exitosa campanha
pela sua fixação foi encabeçada em grande parte por comerciantes do núcleo, que
fizeram uso de pressões políticas (CEBALLOS, 2005). Os moradores mobilizaram, em
sua campanha para regularização, o valor simbólico do tópico do pioneiro de Brasília,
indicando a necessidade de valorizar aqueles que teriam ajudado a construir a nova
capital com seu esforço e trabalho

Os anteriores acampamentos de obras em análise, por sua vez, foram regularizados


na década de 1980. Antes disso, ainda nos anos 1970 e em meio a tentativas de
destruição desses locais, uma discussão sobre o seu valor histórico começou a ganhar
espaço por meio de iniciativas diversas. Em 1975, no âmbito da Secretaria da Cultura
do DF, foi criada a Divisão do Patrimônio Histórico e Artístico do Distrito Federal, hoje
extinta e que precedeu setores responsáveis pelo patrimônio na atual Secretaria de
Estado de Cultura e Economia Criativa do DF, a SECEC. Em 1978 o arquivista Walter
Mello assumiu a diretoria daquela Divisão interessando-se, primordialmente, pelos
vestígios em madeira do período da construção da cidade, e, pensando na proteção

CADERNOS

38
DANIELA PEREIRA BARBOSA E MARIA FERNANDA DERNTL

A valorização de uma arquitetura em madeira representativa do período inicial da construção de Brasília: entre “barraco” e patrimônio cultural
66 The valuation of a wooden architecture representative of the early period of the construction of Brasilia: between "shack" and cultural heritage
La valoración de una arquitectura en madera representativa del período inicial de la construcción de Brasilia: entre "chabola" y patrimonio cultural

deles, idealizou um projeto denominado Raízes Históricas. O projeto, conforme


reportagem de 1980 intitulada E a memória de Brasília? Monumentos históricos jazem sob
o efeito implacável do tempo (ARAÚJO, 1980), tinha como intuito a recuperação física de
algumas construções em madeira. Conforme depoimento de Mello para a reportagem,

há uma preocupação em preservar os pontos históricos de Brasília. Por isso, a


recuperação da igreja da Metropolitana, da Escola Julia Kubitschek e de núcleos
pioneiros está dentro do plano de comemoração dos vinte anos de Brasília. (ARAÚJO,
1980, s.p.)

Destaca-se, no Projeto Raízes, não apenas o anseio pelo registro da memória de


acampamentos de obras, mas, também, a alegação de um potencial turístico não
explorado nesses espaços. Conforme a mesma reportagem, previa-se incrementar
o turismo em Brasília pela transformação de casas de madeira em bom estado em
museus (ARAÚJO, 1980). Assim, buscou-se aliar a preservação desses exemplares ao
desenvolvimento turístico local.

A proposta de Mello fazia coro com outras iniciativas do período. Aloísio Magalhães,
que viria a ser presidente do Iphan em 1979 idealizou, naquele mesmo ano e ainda
no Centro Nacional de Referência Cultural (CNRC), o projeto Estudo da Construção
de Brasília. Conforme análise de Thiago Perpétuo (2015), a proposta consistia em
levantamento e documentação referente ao período inicial da construção da cidade,

considerando o que estava sendo entendido como modo específico de vida dos
candangos da Cidade Livre, atual Núcleo Bandeirante, e dos canteiros de obra,
propondo-os como primeiros elementos socioculturais marcantes da identidade local.
(PERPÉTUO, 2015, p. 156)

Além das iniciativas de Mello e de Magalhães, outro estudo análogo estava em curso
na Universidade de Brasília no final dos anos 1970, o de Muhdi Koosah, professor
serra-leonês da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. A sua pesquisa, intitulada
Proposta para uma documentação (historiográfica) dos assentamentos humanos construídos
precários e/ou deteriorados do DF, tinha como intuito abordar anteriores acampamentos
de obras já em uma perspectiva de preservação. (SILVA, 2019)

Essas inciativas, concentradas no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, demonstram
o despontar de um interesse por exemplares arquitetônicos e elementos sociais do
período inicial da construção de Brasília. A preocupação em documentar a história de
Brasília, contudo, não se resumiu às construções em madeira, pois conforme Perpétuo
(2015), houve estudos com enfoque nos problemas de uma incipiente metrópole e pela
preservação de Brasília, em especial do Plano Piloto. O autor destaca como principais
eventos o I Seminário de Estudos dos Problemas Urbanos de Brasília, realizado em 1973,
com participação de Lúcio Costa, e o Simpósio Brasília: concepção, realidade e destino,
realizado em 1985 já com a perspectiva de patrimonialização da cidade (PERPÉTUO,
2015). Mas, além disso, a valorização de outras referências culturais e históricas se
destacaram no período. A Secretaria de Cultura do Distrito Federal, em 1982, realizou
o tombamento de três construções centenárias em Planaltina, cidade originariamente
goiana, o Museu Histórico e Artístico, a Igreja São Sebastião e a Pedra Fundamental.

Antes disso, ainda em 1981, um estudo sobre o patrimônio de Brasília foi estruturado
de modo mais efetivo pelo Grupo de Trabalho para Preservação do Patrimônio Histórico
e Cultural de Brasília, o GT-Brasília, criado com o propósito de definir critérios de
preservação a serem adotados na capital (DISTRITO FEDERAL, 1981). O GT-Brasília
é discutido por Ribeiro (2005), Perpétuo (2015) e Silva (2019) como responsável por
inovações na proposta da preservação da cidade, embora a legislação de proteção
depois sancionada não tenha seguido de todo seus estudos. Essa legislação baseou-

CADERNOS

38
DANIELA PEREIRA BARBOSA E MARIA FERNANDA DERNTL

A valorização de uma arquitetura em madeira representativa do período inicial da construção de Brasília: entre “barraco” e patrimônio cultural
67 The valuation of a wooden architecture representative of the early period of the construction of Brasilia: between "shack" and cultural heritage
La valoración de una arquitectura en madera representativa del período inicial de la construcción de Brasilia: entre "chabola" y patrimonio cultural

se sobretudo nas ideias do arquiteto Ítalo Campofiorito, com anuência de Lucio


Costa, para delimitar escalas de preservação referentes ao Plano Piloto e seu entorno
imediato.

O GT-Brasília, atuante até 1988, considerou a preservação não apenas do Plano


Piloto, mas de antigas fazendas, de algumas construções de cidades originariamente
goianas, da paisagem natural e de anteriores acampamentos de obras. A inovação na
proposta do Grupo estava na constatação de que Brasília deveria ser preservada pela
“preservação dinâmica”, que considerava as principais características dos espaços
e, conforme o Grupo, permitiria o desenvolvimento da cidade (RIBEIRO, 2005). Com
relação aos acampamentos, a proposta do GT articulava a importância histórica desses
espaços à conquista da população por moradia. De acordo com o texto originalmente
publicado no Relatório do GT em 1985, de autoria de Márcio Vianna,

a preservação e fixação destes acampamentos pioneiros significam, de sua parte,


um resgate da memória da construção de Brasília, além de preservação também do
espaço conquistado por parte da população pioneira em sua parcela remanescente
nas proximidades da área ‘nobre’. (VIANNA, 2016, p. 138)

O Grupo, em seus estudos, sintonizou a formulação de anteriores acampamentos


de obras ao Movimento Moderno, associação que, de fato, integrou definitivamente
o discurso de proteção desses resquícios. Com relação à configuração espacial de
acampamentos de obras, seriam espaços, no seu entender:

totalmente realizados em madeira, de construção simples e bem adaptados ao


clima da região e à condição básica de provisoriedade, bem como às tendências
arquitetônicas da época: pelo desenho que apresentavam, as edificações poderiam ser
consideradas aplicação imediata, em madeira, da leitura dos princípios arquitetônicos
do Movimento de Arquitetura Moderna tão em voga na época – a geometria simples
e não raro cartesiana, o uso de elementos vazados (cobogós, inclusive) e varandas
fazendo a transição interior/exterior, racionalização da produção do espaço. (VIANNA,
2016, p. 136)

No cenário de regularização de anteriores acampamentos de obras houve também, em


1988, a fixação definitiva e tombamento de todo o perímetro urbano da Vila Planalto
(DISTRITO FEDERAL, 1988), núcleo derivado de acampamentos de obras localizado
entre a Praça dos Três Poderes e o Palácio da Alvorada, na área tombada de Brasília.

Sandra Zarur (1991) discutiu como, a partir de 1985, o GT-Brasília se empenhou na


fixação da Vila Planalto, levando adiante estudos para o seu tombamento em parceria
com a população. Sandra Ribeiro (2005), por sua vez, destacou o papel da população
residente, pois a sua prévia organização favoreceu um trabalho em conjunto com
o GT-Brasília. Para as autoras, a intervenção do GT foi um canal de comunicação
fundamental entre a população e os governantes. Já Christiane Coêlho (2006) ressalva
que parte da população se mostrou desfavorável ao tombamento, pois ansiava
pela possibilidade de reformar suas casas de madeira; mas, convencidos de ser o
tombamento a única forma de garantir sua fixação, acabaram por acatar a ideia.
Atualmente apenas algumas edificações conservam o material original, como a Igreja
Nossa Senhora do Rosário da Pompeia.

As iniciativas pela valorização de anteriores acampamentos de obras coexistiram com


investidas pela sua erradicação. O discurso de valorização e proteção desses espaços
fez parte de esforços para recuperar a história de Brasília, ampliando a imagem da
cidade capital para além do Plano Piloto. Nesse discurso, os resquícios do período
inicial da cidade passaram a ser descritos como memória viva e sua formulação
associada ao Movimento Moderno.

CADERNOS

38
DANIELA PEREIRA BARBOSA E MARIA FERNANDA DERNTL

A valorização de uma arquitetura em madeira representativa do período inicial da construção de Brasília: entre “barraco” e patrimônio cultural
68 The valuation of a wooden architecture representative of the early period of the construction of Brasilia: between "shack" and cultural heritage
La valoración de una arquitectura en madera representativa del período inicial de la construcción de Brasilia: entre "chabola" y patrimonio cultural

O tombamento do Hospital Juscelino


Kubitschek de Oliveira (HJKO)
Em meio a um cenário de valorização de vestígios em madeira da construção de
Brasília houve, em 1983, uma tentativa de destruição dos remanescentes do Hospital
Juscelino Kubitschek de Oliveira (HJKO), hospital de campanha inaugurado em 1957.
A trajetória do HJKO, de hospital abandonado a patrimônio e museu, foi analisada por
Maria Gabrielle (2012), que relata como, após a sua desativação em 1973 e abandono
pelo poder público, o local foi ocupado principalmente por antigos empregados. Em
seguida houve a tentativa de derrubada do conjunto e expulsão dos moradores pelo
Instituto de Administração Financeira da Previdência e Assistência Social (IAPAS),
proprietário da área, em 1983. A investida gerou reação dos moradores, e, a partir de
Ação Popular assinada pelo líder comunitário Nilton Rosa, impediu-se a demolição.
Concomitantemente, Rosa solicitou o tombamento ao SPHAN e o processo foi levado
adiante em parceria com o GT-Brasília e o DePHA, nome do órgão local do patrimônio
à época. O HJKO foi tombado em 1985 e, em 1990, transformado no Museu Vivo da
Memória Candanga.

A Ação Popular, que se coloca como fruto da organização da coletividade de moradores,


está anexada ao dossiê de tombamento. O texto atribui ao antigo hospital valores
relacionados ao seu papel ao longo da construção de Brasília e reforça os sacrifícios
aos quais teriam sido submetidos os operários. Aponta, ainda, como o HJKO havia sido
testemunha de um processo marcado não só por provações e dificuldades, mas por
esperança e realizações:

neste Hospital JK nasceram os primeiros brasilienses e morreram os primeiros


candangos, cujo sangue foi dado em holocausto àquela geração emergente de uma
nova era. Além disso, foi ali que os candangos feridos em acidentes no trabalho
receberam socorros e puderam tornar aos andaimes da construção, animados por
um sonho lépido, às vezes, transformado em choro fúnebre. (DISTRITO FEDERAL,
1985, s.p.)

O discurso de valorização do hospital, em documentos elaborados pelo DePHA, foi


formulado tendo como principal referência a memória “operária” de Brasília, pois:

o HJKO, foi o primeiro da nova capital. Equipamento de importância fundamental para


a dinâmica sócio urbana da época, comparece hoje como um dos poucos testemunhos
do viver operário que escreveu a história popular deste período. (DISTRITO FEDERAL,
1985, s.p.)

Com relação ao estado de conservação do conjunto, apesar de alguns textos


constatarem problemas estruturais, prevalece a valorização da arquitetura do
HJKO. Alguns documentos chamam a atenção para o fato de essa arquitetura ser
representativa da época da construção de Brasília, como o Parecer do SPHAN, de 1983,
que ressalta as qualidades arquitetônicas do local:

o conjunto das residências e hospital são elementos significativos para a memória


de Brasília no sentido em que dão importante testemunho do momento inicial da
construção e da vida da cidade. O conjunto se constitui em um monumento de uma
urbanização, de uma arquitetura e de uma técnica construtiva únicas, desenvolvidas
na ocasião e nas circunstâncias específicas da mudança da capital. (DISTRITO
FEDERAL, 1985, s. p.)

CADERNOS

38
DANIELA PEREIRA BARBOSA E MARIA FERNANDA DERNTL

A valorização de uma arquitetura em madeira representativa do período inicial da construção de Brasília: entre “barraco” e patrimônio cultural
69 The valuation of a wooden architecture representative of the early period of the construction of Brasilia: between "shack" and cultural heritage
La valoración de una arquitectura en madera representativa del período inicial de la construcción de Brasilia: entre "chabola" y patrimonio cultural

Para o SPHAN, a importância arquitetônica do HJKO residiria no fato de o hospital


representar um momento único da história do Brasil, em que circunstâncias da época
teriam exigido um modo específico de projetar, construir e habitar.

De modo similar, outro documento intitulado Aspectos físicos descreve a arquitetura


do HJKO como representativa “pela singeleza da escala, pela severidade do traço
arquitetônico e pelo material empregado: oportuna combinação entre madeira,
alvenaria, telhas de barro ou zinco, pisos em cimento liso” (DISTRITO FEDERAL, 1985,
s.p.). Percebe-se um esforço em dotar o HJKO de um valor arquitetônico relativo ao
período da construção de Brasília, exaltando tanto a simplicidade do traço e da escala
quanto os materiais utilizados.

Constata-se uma diferença em relação ao processo de tombamento do Catetinho,


de 1959, na valorização da arquitetura. A bibliografia reconheceu as qualidades
arquitetônicas do Catetinho posteriormente ao tombamento, enquanto seu dossiê
ressaltou seu caráter “rústico” e “tosco”. Em contrapartida, no dossiê do HJKO há uma
atenção mais clara em descrever e explicar as características arquitetônicas e técnicas
construtivas, valorizando a composição do conjunto. Isso indica que a discussão sobre
a representatividade da arquitetura de madeira do período transformou-se com o
tempo, e apenas anos após a inauguração da cidade houve um efetivo reconhecimento
de suas qualidades construtivas.

Contudo, apesar da existência, na década de 1980, de grupos favoráveis à proteção


de um equipamento referente à memória da construção de Brasília, a perspectiva
de tombamento do HJKO gerou divergências de opiniões na sociedade local. Em
reportagens de jornais, anexadas ao dossiê, as opiniões divergentes são geralmente
atribuídas a especialistas na área, que se dividiam entre julgar que o hospital não
passava de uma ruína de madeira ou enfatizar sua representatividade. Entre as
opiniões, destacamos aquela do arquiteto Raul Molinas, do DePHA, que se posicionou
contra o tombamento. Seu relato integra uma reportagem do Jornal do Brasil, de
agosto de 1984, intitulada Tombamentos em Brasília são causa de divergência, na qual,
segundo Molinas,

o hospital é um barraco. E se é histórico é mórbido. Ainda estamos estudando a


possibilidade de tombá-lo provisoriamente, mas pergunto, tombá-lo para que? Para
fazer um museu? É preciso entender que Brasília foi um canteiro de obras, e não
podemos tombar tudo quanto é barraco de madeira. Nem tudo que foi primeiro tem
valor histórico e artístico. (DISTRITO FEDERAL, 1985, s. p.)

Para Molinas, o fato de o HJKO ter sido o primeiro hospital de Brasília não deveria ser
considerado importante, pois a cidade toda, um dia, havia sido um grande canteiro de
obras, e, nessa ótica, o local seria apenas um “barraco” semelhante a outros.

Outras reportagens apresentam apreciações favoráveis ao tombamento, como a de


José Coutinho, membro do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB). Em matéria de um
jornal de 1983 não identificado intitulada Entidades pedem tombamento: HJKO, Coutinho
lamenta a demora do GDF em dar um posicionamento favorável ao tombamento
e aponta que o valor do conjunto seria “bem mais histórico do que arquitetônico”
(DISTRITO FEDERAL, 1985, s. p.). Na reportagem, o arquiteto defende a proteção do
conjunto, alegando que os vestígios da construção de Brasília estariam desaparecendo.
Essas reportagens permitem perceber os embates com relação ao valor do conjunto
hospitalar, retratado ora como barraco, ora como exemplar significativo da construção
de Brasília.

O alegado valor histórico e cultural do conjunto justificou as vantagens para o


tombamento. O documento Recuperação/preservação relativiza os problemas referentes
à fragilidade do material e privilegia as vantagens de recuperação:

CADERNOS

38
DANIELA PEREIRA BARBOSA E MARIA FERNANDA DERNTL

A valorização de uma arquitetura em madeira representativa do período inicial da construção de Brasília: entre “barraco” e patrimônio cultural
70 The valuation of a wooden architecture representative of the early period of the construction of Brasilia: between "shack" and cultural heritage
La valoración de una arquitectura en madera representativa del período inicial de la construcción de Brasilia: entre "chabola" y patrimonio cultural

As dificuldades para a preservação do conjunto do HJKO – totalmente construído com


material que requer cuidados permanentes para sua conservação – podem ser minorados
pelo fato de tratar-se de aglomerado de pequenas dimensões, se comparado com outros
acampamentos. Diante da convicção do valor cultural deste conjunto e da importância
de sua preservação, o custo de sua restauração torna-se perfeitamente justificável.
(DISTRITO FEDERAL, 1985)

A campanha pelo tombamento deu visibilidade à luta por moradia dos habitantes
e pode ser vista como eficaz, pois eles foram assentados na recém regularizada
Candangolândia, em 1984. Como já se disse, ao tombamento, em 1985, seguiu-se a
recuperação do Hospital e transformação no Museu Vivo da Memória Candanga, em
1990. Contudo, conforme a Ação Popular que deu início ao processo, pelo menos parte
da comunidade ansiava pela transformação do local em um posto de saúde, pois
o hospital “poderá e haverá de ser restaurado, e instalado um Posto de Saúde para
atender a comunidade das imediações” (DISTRITO FEDERAL, 1985, s. p.). A defesa da
instalação de um posto de saúde indica o anseio da comunidade pela implementação
de serviços públicos e gratuitos nos arredores.

Embora os moradores tenham sido vitoriosos na campanha pelo tombamento


e na conquista por moradia, a transformação do HJKO em museu foi motivo de
arrependimento para uma parte da população. Maria Fernanda Derntl (2019) aponta
como houve um ressentimento por parte de alguns habitantes, pois, conforme um deles
assinalou, “um hospital teria seria melhor do que um Museu Vivo” e outro declarou:
“a gente precisava mesmo que tivessem restaurado o hospital, não aconteceu”. (apud
DERNTL, 2019, p. 27)

A criação do museu fez, porém, parte de aspirações no período, para que a memória
da construção de Brasília viesse fomentar o turismo no Distrito Federal. Como vimos,
iniciativas com relação à transformação de exemplares da construção da capital em
pontos turísticos remontam, pelo menos aos anos 1970. O próprio Catetinho de certo
modo exemplifica isso, pois foi tombado em 1959 e, em 1972, tornou-se o Museu do
Catetinho.

Os tombamentos do HJKO em 1985 e da Vila Planalto, em 1988, abriram espaço para


outras iniciativas de proteção de remanescentes da construção de Brasília. Mais
do que isso, a noção de que a memória operária de Brasília teria valor patrimonial
tornou-se orientação importante na atuação do DePHA, que deu sequência uma
prática guiada por esse princípio com o tombamento da Igreja São Geraldo no Paranoá
em 1993, do Centro de Ensino Metropolitana em 1995 e da Igreja São José Operário na
Candangolândia, em 1998.

Os tombamentos realizados nos anos 1990


As edificações em análise tombadas na década de 1990 estão localizadas em anteriores
acampamentos de obras cuja regulamentação havia ocorrido na década de 1980,
o que garantiu a permanência da população sob a alegação de que se tratavam de
“pioneiros de Brasília”. A imagem do pioneiro deu sentido à assimilação dos anteriores
acampamentos como parte da memória de Brasília também no discurso patrimonial,
pois fundamentou o tombamento de vestígios de madeira.

Isso fica evidente no dossiê do Centro de Ensino Metropolitana, em que uma


reportagem de 1988 anexada ao processo aponta um anseio antigo de recuperação
daquele espaço, descrito como pioneiro. A reportagem, intitulada sugestivamente
Pioneira e abandonada, denuncia a falta de manutenção do edifício, pois

CADERNOS

38
DANIELA PEREIRA BARBOSA E MARIA FERNANDA DERNTL

A valorização de uma arquitetura em madeira representativa do período inicial da construção de Brasília: entre “barraco” e patrimônio cultural
71 The valuation of a wooden architecture representative of the early period of the construction of Brasilia: between "shack" and cultural heritage
La valoración de una arquitectura en madera representativa del período inicial de la construcción de Brasilia: entre "chabola" y patrimonio cultural

o fato de ser pioneira não livrou a escola da falta de conservação. O passado


histórico também não foi suficiente para impedir a danificação dos sistemas elétricos
e hidráulicos, as infiltrações em toda a extensão do prédio e a falta de segurança
verificada na escola. (DISTRITO FEDERAL, 1995, s. p.)

O texto indica que o estado de conservação insatisfatório do local estaria relacionado


ao descaso com a história e a memória pioneira de Brasília. Isso evidencia-se em relato
para a reportagem da então diretora Dalva Rodrigues, que lamenta que “ninguém leva
a sério esse pioneirismo”, reforçando a urgência de valorização e recuperação física do
local (DISTRITO FEDERAL, 1995, s. p.).

O discurso dessa reportagem nos remete ao trabalho de Derntl (2019), que considerou
os relatos de moradores sobre a formação de Regiões Administrativas de Brasília.
A autora aponta que, em diversas ocasiões, “o atributo de pioneirismo serviu para
reforçar a necessidade de prover o lugar de equipamentos urbanos ou reclamar maior
atenção política” (DERNTL, 2019, p. 28). Verifica-se ser justamente o caso da campanha
pela reforma do Centro de Ensino, o que reforça a ideia de que a noção do pioneirismo
foi um importante valor simbólico para justificar uma efetiva prestação de serviços
educacionais.

O dossiê do Centro de Ensino Metropolitana também buscou valorizar a escola como


integrante de um conjunto de vestígios do período da construção de Brasília, que seria
formado também pela Igreja Nossa Senhora Aparecida da Metropolitana, de madeira,
e pelo campo de futebol, todos em lotes contíguos. A noção de uma arquitetura
representativa, associada à Igreja e à Escola se mostra no documento intitulado
Histórico:

os dois barracões da escola, construídos em madeira em estilo rústico, típicos da


época, são considerados, pela comunidade, como um dos últimos e principais
testemunhos históricos e simbólicos desse acampamento pioneiro, como também
o são a Igreja Nossa Senhora Aparecida, o Campo de Futebol e a Praça da Igreja.
(DISTRITO FEDERAL, 1995, s. p.)

O documento identifica a arquitetura do local como sendo “rústica” e “típica da época”.


Nesse prisma, a coletividade do núcleo é descrita como um grupo de origens similares,
que teria vivenciado os anos iniciais da construção de Brasília e se orgulharia de sua
história.

O dossiê de tombamento da Igreja São José Operário, de modo análogo, compreende


quatro igrejas remanescentes da construção de Brasília como parte de um conjunto
representativo: além da São José Operário, a São Geraldo no Paranoá, tombada em
1993; a Nossa Senhora Aparecida da Metropolitana, localizada na área de tutela
do Centro de Ensino Metropolitana; e a Nossa Senhora do Rosário da Pompeia, na
Vila Planalto. O texto do dossiê assinala a importância dos acampamentos de obras
no suporte à construção de Brasília e identifica as quatro igrejas como elementos
representativos dos primórdios da cidade, pois

estas igrejas se constituem como bens de natureza arquitetônica representativos,


testemunhos autênticos da fase pioneira de Brasília. Neste período, implantaram-
se assentamentos de caráter provisório, os chamados acampamentos pioneiros,
destinados a abrigar os trabalhadores que construíram a cidade, entre eles
engenheiros, dirigentes da Novacap e operários de toda espécie. (DISTRITO FEDERAL,
1998, s. p.)

As igrejas são entendidas no documento como edificações autênticas de um modo de


viver e projetar alusivo ao período inicial da construção e elementos fundamentais
para a configuração do espaço.

CADERNOS

38
DANIELA PEREIRA BARBOSA E MARIA FERNANDA DERNTL

A valorização de uma arquitetura em madeira representativa do período inicial da construção de Brasília: entre “barraco” e patrimônio cultural
72 The valuation of a wooden architecture representative of the early period of the construction of Brasilia: between "shack" and cultural heritage
La valoración de una arquitectura en madera representativa del período inicial de la construcción de Brasilia: entre "chabola" y patrimonio cultural

A história atribuída a elas está em sintonia com uma imagem heroica da construção
de Brasília difundida em discursos políticos veiculados em fins dos anos 1950, em que
operários e denominados pioneiros teriam vindo para o Planalto Central motivados
pelo sonho da transferência da capital. Luísa Videsott (2009) aponta como o discurso
midiático oficial da época foi eficiente ao associar a Brasília imagens positivas como
progresso e desenvolvimento do país nas quais os operários eram retratados como
heróis anônimos e parceiros do então presidente.

Outro ponto a considerar é que o discurso dos dossiês traz à tona tanto o processo
de erradicação de acampamentos de obras quanto a luta da população pela fixação,
embora de modo sutil. No dossiê de tombamento da Igreja São Geraldo do Paranoá,
o relato sobre a trajetória de formação da Vila do Paranoá sugere uma ambivalência
entre pioneirismo e invasão com relação ao espaço. O documento Histórico descreve
o núcleo ora como acampamento pioneiro, ora como invasão, a depender do período
ao qual se refere:

a Vila Paranoá é um dos raros locais remanescentes da época da construção de Brasília.


Foi fundada em 1957 quando da implantação dos canteiros de obras para a construção
da barragem do lago Paranoá, tornando-se, mais tarde, a maior invasão do Distrito
Federal. (DISTRITO FEDERAL, 1993, s. p.)

O trecho citado indica que, com o tempo, o Paranoá teria se tornado uma invasão,
referindo-se à expansão do espaço e à chegada de novos moradores. Em seguida, o
mesmo documento assinala que a Igreja São Geraldo “é reconhecidamente um marco
histórico para a memória daquele núcleo pioneiro” (DISTRITO FEDERAL, 1993, s. p.),
em um processo que buscaria associar o bem ao caráter pioneiro do local.

O texto, assim, se reveste de ambiguidades ao se referir ao Paranoá, o que nos


permite constatar que as descrições de anteriores acampamentos de obras podiam
variar conforme a referência e o propósito. A oficialização de um patrimônio teve de
considerar ambiguidades e contradições de Brasília ao elaborar discursos centrados
na memória operária da construção. Isso pode ser percebido como uma prática que
incluiu o trabalhador construtor da cidade no discurso preservacionista da nova
capital, por meio da preservação de espaços inicialmente provisórios, o que viria
legitimar a fixação de uma comunidade. Contudo, ao delimitar um período e um
grupo específico – os trabalhadores do período inicial da construção de Brasília –, tal
discurso tendeu a restringir a legitimidade do direito de ocupação desses espaços a
então denominada “população pioneira”, tendo como principal fundamento o seu
papel na implantação da nova capital.

Considerações Finais
Este artigo buscou analisar e discutir a formulação de imagens patrimoniais relativas
a uma arquitetura representativa da construção inicial de Brasília em dossiês
pertinentes ao seu tombamento.

A construção de uma imagem do que seria uma arquitetura representativa daquele


período ganhou força a partir do final dos anos 1970, com destaque para a atuação
do GT-Brasília. Nesse cenário, os preceitos de valorização dessa arquitetura foram
se estruturando, numa mescla de elementos modernos e tradicionais, abarcando
a regularidade, o ortogonalismo e um pequeno número de elementos básicos
de composição. O mesmo período, contudo, foi marcado por ambivalentes ações
governamentais para eliminação de anteriores acampamentos de obras.

CADERNOS

38
DANIELA PEREIRA BARBOSA E MARIA FERNANDA DERNTL

A valorização de uma arquitetura em madeira representativa do período inicial da construção de Brasília: entre “barraco” e patrimônio cultural
73 The valuation of a wooden architecture representative of the early period of the construction of Brasilia: between "shack" and cultural heritage
La valoración de una arquitectura en madera representativa del período inicial de la construcción de Brasilia: entre "chabola" y patrimonio cultural

O tombamento do HJKO, em 1985, foi, como se viu, um marco ao evidenciar o


valor da memória operária da construção de Brasília e seu dossiê ressalta tanto as
características daquela arquitetura quanto sua importância histórica. Esse processo
foi marcado pelo engajamento da população residente, que pleiteou o tombamento
em um processo de luta pelo direito à moradia e por serviços de saúde. Contudo,
o HJKO tornou-se um museu e não um posto de saúde, o que frustrou parte dos
moradores.

Em seguida, os tombamentos nos anos 1990 foram realizados em locais que já haviam
sido regularizados e o discurso de proteção desses bens buscou aliar representatividade
histórica e memória pioneira. A imagem do pioneiro e o seu modo de vida deram força
simbólica a movimentos de preservação, reforçando a importância daqueles núcleos
e de exemplares arquitetônicos originais. Nesse momento, já havia sido estabelecida
uma noção de importância atrelada à representatividade de uma arquitetura relativa
à construção de Brasília, de madeira e de inspiração moderna. Contudo, ainda que
o Catetinho seja fortemente associado ao Movimento Moderno na bibliografia, é
nos respectivos dossiês dos demais bens tombados que tal informação se destacou.
Evidenciou-se como a importância histórica dessa arquitetura passou a embasar
tombamentos, sem deixar de destacar o pioneirismo dos espaços e as conquistas da
população. A arquitetura representativa do período inicial de construção de Brasília,
para além de sua materialidade e seus aspectos construtivos, está associada ao
universo simbólico de esperança e pioneirismo que singularizou a nova capital.

Referências
ARAÚJO, Carlos. E a memória de Brasília? Monumentos históricos jazem sob o efeito
implacável do tempo. Correio Braziliense. Brasília, edição 6.246, Caderno Fim de
semana, p. 3, 16 mar. 1980.

BEÚ, Edson. Os filhos dos candangos: Brasília sob o olhar da periferia. Brasília:
Editora Universidade de Brasília, 2013.

BRASIL. Lei nº 4.020, de 20 de dezembro de 1961. Considera cidade satélite o chamado


Núcleo Bandeirante, no atual Distrito Federal, 1961.

CEBALLOS, Viviane Gomes de. “E a história se fez cidade...”: a construção histórica e


historiográfica de Brasília. Campinas, SP: [s.n.], 2005.

COÊLHO, Christiane Machado. Changements dans les coulisses de Brasilia : les


ambiguïtés du processus de maintien de Vila Planalto (1956-2006). Orientação:
Robert Castel. École des Hautes Etudes en Sciences Sociales (Paris). Mémoire de thèse
(version d’origine), 2006.

DANTAS, Maritza; MEDEIROS, Ana Elisabete de Almeida. Brasília modernista e o uso


da madeira: tombamento e desafios na preservação do Catetinho. In: 13 Seminário
Docomomo Brasil, 2019, Salvador. Anais do 13 Seminário Docomomo Brasil, 2019.

DERNTL, Maria Fernanda. Dos espaços modernistas aos lugares da comunidade:


memórias da construção das cidades-satélites de Brasília. Resgate – Revista
Interdisciplinar de Cultura, v. 1, p. 11-34, 2019.

DISTRITO FEDERAL. 594-T-1959. Brasília, Departamento de Patrimônio Histórico e


Artístico (DePHA), 1991.

DISTRITO FEDERAL. Decreto n° 11.079, de 21 de abril de 1988. Dispõe sobre o


tombamento do conjunto da Vila Planalto e dá outras providências, 1988.

CADERNOS

38
DANIELA PEREIRA BARBOSA E MARIA FERNANDA DERNTL

A valorização de uma arquitetura em madeira representativa do período inicial da construção de Brasília: entre “barraco” e patrimônio cultural
74 The valuation of a wooden architecture representative of the early period of the construction of Brasilia: between "shack" and cultural heritage
La valoración de una arquitectura en madera representativa del período inicial de la construcción de Brasilia: entre "chabola" y patrimonio cultural

DISTRITO FEDERAL. Decreto nº 5.819, de 24 de fevereiro de 1981. Cria o Grupo


de Trabalho para estudar, propor e adotar medidas que visem a preservação do
Patrimônio Histórico e Cultural de Brasília, 1981.

DISTRITO FEDERAL. Processo nº 13.553/1983. Brasília, Departamento de Patrimônio


Histórico e Artístico (DePHA), 1985.

DISTRITO FEDERAL. Processo nº 147.000.594/98. Brasília, Departamento de


Patrimônio Histórico e Artístico (DePHA), 1998.

DISTRITO FEDERAL. Processo nº 150.000.276/93. Brasília, Departamento de


Patrimônio Histórico e Artístico (DePHA), 1993.

DISTRITO FEDERAL. Processo nº 150.000.370/1995. Brasília, Departamento de


Patrimônio Histórico e Artístico (DePHA), 1995.

EPSTEIN, David. Brasília: plan and reality. A study of planned and spontaneous
urban development. Los Angeles: University of California Press, 1973.

FERREIRA, Oscar Luís. A Madeira no Patrimônio Moderno: O caso de Brasília. In: 13º
Seminário Docomomo Brasil Arquitetura Moderna Brasileira. Anais do 13º Seminário
Docomomo Brasil: Arquitetura Moderna Brasileira. 25 anos do Docomomo Brasil.
Todos os mundos. Um só mundo. Salvador/BA: Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB),
2019. v. 1.

GABRIELE, Maria Cecília. Musealização do patrimônio construído: inclusão social,


identidade e cidadania: Museu Vivo da Memória Candanga. Tese (Doutorado em
Museologia) – Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias. Lisboa, 2012.

GORELIK, Adrián. Brasília O museu da Vanguarda 1950 e 1960. Margens/Márgenes:


Revista de Cultura (2002-2007), n. 4, p. 50-59, 2003.

NUNES, José Walter. Patrimônios subterrâneos em Brasília. São Paulo: Annablume,


2005.

PERPÉTUO, Thiago Pereira. Uma cidade construída em seu processo de


patrimonialização: modos de narrar, ler e preservar Brasília. 2015. Dissertação
(Mestrado) – Curso de Mestrado Profissional em Preservação do Patrimônio Cultural,
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Rio de Janeiro, 2015.

RIBEIRO, Sandra Bernardes. Brasília: memória, cidadania e gestão do patrimônio


cultural. São Paulo: Annablume, 2005.

SILVA, Jéssica Gomes da. O GT-Brasília na trajetória de patrimonialização da capital.


2019. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) – Faculdade de Arquitetura
e Urbanismo, Universidade de Brasília, Brasília, 2019.

VIANNA, Márcio. Conjuntos representativos da época da construção de Brasília. In:


INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL. Superintendência
do IPHAN no Distrito Federal. GT Brasília: memórias da preservação do patrimônio
cultural do Distrito Federal. Organização de Carlos Reis et al; textos de Briane Bicca et
al. Brasília: IPHAN, 2016, p. 136-142.

VIDESOTT, Luísa. Narrativas da construção de Brasília: mídia, fotografias, projetos


e história. Tese (Doutorado em Teoria e História da Arquitetura e do Urbanismo) –
Escola de Engenharia de São Carlos. Universidade de São Paulo, São Carlos, 2009.

ZARUR, Sandra Beatriz Barbosa. A sobrevivência da Vila Planalto: de acampamento


pioneiro a bairro histórico de Brasília. 1991. 234 f., il. Dissertação (Mestrado em
Planejamento Urbano) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de
Brasília, Brasília, 1991.

CADERNOS

38
DANIELA PEREIRA BARBOSA E MARIA FERNANDA DERNTL

A valorização de uma arquitetura em madeira representativa do período inicial da construção de Brasília: entre “barraco” e patrimônio cultural
75 The valuation of a wooden architecture representative of the early period of the construction of Brasilia: between "shack" and cultural heritage
La valoración de una arquitectura en madera representativa del período inicial de la construcción de Brasilia: entre "chabola" y patrimonio cultural

RESPONSABILIDADE INDIVIDUAL E DIREITOS AUTORAIS

A responsabilidade da correção normativa e gramatical do texto é de inteira


responsabilidade do autor. As opiniões pessoais emitidas pelos autores dos artigos são
de sua exclusiva responsabilidade, tendo cabido aos pareceristas julgar o mérito das
temáticas abordadas. Todos os artigos possuem imagens cujos direitos de publicidade
e veiculação estão sob responsabilidade de gerência do autor, salvaguardado o direito
de veiculação de imagens públicas com mais de 70 anos de divulgação, isentas de
reivindicação de direitos de acordo com art. 44 da Lei do Direito Autoral/1998: “O prazo
de proteção aos direitos patrimoniais sobre obras audiovisuais e fotográficas será de
setenta anos, a contar de 1° de janeiro do ano subsequente ao de sua divulgação”.

O CADERNOS PROARQ (ISSN 2675-0392) é um periódico científico sem fins


lucrativos que tem o objetivo de contribuir com a construção do conhecimento nas
áreas de Arquitetura e Urbanismo e afins, constituindo-se uma fonte de pesquisa
acadêmica. Por não serem vendidos e permanecerem disponíveis de forma online
a todos os pesquisadores interessados, os artigos devem ser sempre referenciados
adequadamente, de modo a não infringir com a Lei de Direitos Autorais.

Submetido em 27/04/2022

Aprovado em 02/07/2022

CADERNOS

38
CADERNOS

38

RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES

Paulo Casé e a produção de hotéis (trans)modernos no Brasil


Paulo Casé and the production of (trans)modern hotels in Brazil
Paulo Casé y la producción de hoteles (trans)modernos en Brasil
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES

Paulo Casé e a produção de hotéis (trans)modernos no Brasil


77 Paulo Casé and the production of (trans)modern hotels in Brazil
Paulo Casé y la producción de hoteles (trans)modernos en Brasil

Ricardo Alexandre Paiva

Arquiteto e Urbanista pela Universidade Federal do


Ceará (1997), mestrado (2005) e doutorado (2011) em
Arquitetura e Urbanismo pela FAUUSP. Realizou o Pós
Doutorado (2019) com Bolsa de Professor Visitante
Junior da CAPES, junto ao IST-Universidade de Lisboa
- Portugal e no DOCOMOMO International. É Professor
Associado do Curso de Arquitetura e Urbanismo
da Universidade Federal do Ceará, Bolsista de
Produtividade em Pesquisa 2 do CNPq, Coordenador
do Programa de Pós Graduação em Arquitetura e
Urbanismo e Design da UFC - PPGAU+D-UFC (2015-
2018) e (2021-2023). Coordena o LoCAU (Laboratório
de Crítica em Arquitetura, Urbanismo e Urbanização)
do DAUD-UFC. Atua como líder do grupo de pesquisa
LoCAU - UFC e como integrante do CILITUR (Cidades
Litorâneas e Turismo) do MDU-UFPE, cadastrados
no CNPq. É pesquisador do LABCOM (Laboratório de
Comércio e Cidade) da FAUUSP. É Membro do Conselho
Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS-
BRASIL) e do DOCOMOMO International. Exerce o cargo
de Conselheiro Fiscal no DOCOMOMO Brasil (2022-2023)
e é um dos editores da Revista DOCOMOMO Brasil.

Architect and Urbanist from the Federal University of Ceará


(1997), master (2005) and a Phd (2011) in Architecture and
Urbanism from the Faculty of Architecture and Urbanism of
the University of São Paulo (FAUUSP). He was a Junior Visit-
ing Professor with a CAPES scholarship at IST-UL - Portugal
and DOCOMOMO International - Pos Doc (2018-2019). He is
Associate Professor at Architecture and Urbanism and De-
sign Department at the Federal University of Ceará (DAUD-
UFC), Research Productivity Fellow - CNPq and Coordinator
of the Graduate Program in Architecture and Urbanism and
Design at UFC - PPGAU+D-UFC (2015-2018) and (2021-
2023). He coordinates the LoCAU (Laboratory of Critics in Ar-
chitecture, Urbanism and Urbanization) of the DAUD-UFC.
He acts as leader of the research groups LoCAU and member
at CILITUR (Coastal Cities and Tourism) of the MDU-UFPE.
He is a researcher at LABCOM (Commerce and City Labora-
tory) of FAUUSP. He is a member of the International Council
on Monuments and Sites (ICOMOS-BRAZIL) and DOCOMO-
MO International. He holds the position of Fiscal Councilor
at DOCOMOMO Brasil (2022-2023). He is a member of the
Editorial Board of Revista DOCOMOMO Brasil.

Arquitecto y Urbanista por la Universidad Federal de Ceará


(1997), Máster (2005) y Doctor (2011) en Arquitectura y Ur-
banismo por la FAUUSP. Realizó su Post Doctorado (2019)
con una Beca CAPES de Profesor Visitante Junior, en el IST-
Universidad de Lisboa - Portugal y en DOCOMOMO Inter-
nacional. Es Profesor Asociado del Curso de Arquitectura y
Urbanismo de la Universidad Federal de Ceará, Becario de
Productividad de Investigación 2 del CNPq, Coordinador del

CADERNOS

38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES

Paulo Casé e a produção de hotéis (trans)modernos no Brasil


78 Paulo Casé and the production of (trans)modern hotels in Brazil
Paulo Casé y la producción de hoteles (trans)modernos en Brasil

Programa de Posgrado en Arquitectura y Urbanismo y Dis-


eño de la UFC - PPGAU+D-UFC (2015-2018) y (2021-2023).
Coordina el LoCAU (Laboratorio de Crítica en Arquitectura,
Urbanismo y Urbanización) del DAUD-UFC. Es el líder del
grupo de investigación LoCAU - UFC y miembro de CILITUR
(Ciudades Costeras y Turismo) del MDU-UFPE, registrado
en el CNPq. Es investigador del LABCOM (Laboratorio de
Comercio y Ciudad) de la FAUUSP. Es miembro del Consejo
Internacional de Monumentos y Sitios (ICOMOS-BRAZIL) y
de DOCOMOMO Internacional. Ocupa el cargo de Consejero
Fiscal en DOCOMOMO Brasil (2022-2023) y es uno de los
editores de la Revista DOCOMOMO Brasil.

[email protected]

Beatriz Helena Nogueira Diógenes

Arquiteta e Urbanista pela Universidade Federal do


Ceará (1978), mestrado (2005) e doutorado (2012) em
Arquitetura e Urbanismo pela FAUUSP. Realizou o Pós-
doutorado (2019) na FAUUSP. É Professora Associada
do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade
Federal do Ceará e do Programa de Pós-graduação em
Arquitetura e Urbanismo e Design da UFC - PPGAU+D-
UFC. Integrante do LoCAU (Laboratório de Crítica em
Arquitetura, Urbanismo e Urbanização) do DAUD-UFC
e do CILITUR (Cidades Litorâneas e Turismo) do MDU-
UFPE, cadastrados no CNPq.

Architect and Urbanist graduated from the Federal Univer-


sity of Ceará (1978), with masters (2005) and Phd (2012) in
Architecture and Urbanism from the Institute of Architecture
and Urbanism of the University of São Paulo (FAUUSP). Pos
Doc (2019) from the Institute of Architecture and Urbanism
of the University of São Paulo (FAUUSP). Associate Professor
at the Architecture and Urbanism and Design Department
from Federal University of Ceará (DAUD-UFC) and at Pos
Graduate Program in Architecture and Urbanism and Design
from UFC - PPGAU+D-UFC. Member of the LoCAU (Labora-
tory of Critics in Architecture, Urbanism and Urbanization)
of the DAUD-UFC and member of CILITUR (Coastal Cities
and Tourism) of the MDU-UFPE.

Arquitecta y Urbanista por la Universidad Federal de Ceará


(1978), Máster (2005) y Doctor (2012) en Arquitectura y
Urbanismo por la FAUUSP. Realizó una beca postdoctoral
(2019) en la FAUUSP. Es profesora asociada del Curso de Ar-
quitectura y Urbanismo de la Universidad Federal de Ceará
y del Programa de Posgrado en Arquitectura y Urbanismo
y Diseño de la UFC - PPGAU+D-UFC. Miembro del LoCAU
(Laboratorio de Crítica en Arquitectura, Urbanismo y Urban-
ización) del DAUD-UFC y del CILITUR (Ciudades Costeras y
Turismo) del MDU-UFPE, registrado en el CNPq.

[email protected]

CADERNOS

38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES

Paulo Casé e a produção de hotéis (trans)modernos no Brasil


79 Paulo Casé and the production of (trans)modern hotels in Brazil
Paulo Casé y la producción de hoteles (trans)modernos en Brasil

Resumo
O objetivo do presente artigo é investigar a produção de hotéis projetados por Paulo
Casé ao longo da década de 1970, enfatizando o valor cultural desses edifícios em um
panorama de modernização suscitado pelas políticas públicas de turismo, bem como
compreender como a atuação do arquiteto revela transformações no contexto da
arquitetura moderna no Brasil. Os pressupostos teóricos compreendem: o debate sobre o
discurso desenvolvimentista pelo viés do turismo, identificando as condicionantes sociais
(econômicas, políticas e simbólicas) e enfatizando as políticas públicas de incentivo ao
turismo e à hotelaria com o advento da Embratur a partir de 1966 e à expansão das redes
hoteleiras nacionais e internacionais, além da consideração dos agentes, inclusive o papel
do próprio arquiteto; a discussão sobre as mutações no desenvolvimento da arquitetura
moderna brasileira, enfocando a atitude crítica (trans)moderna de Casé. Os procedimentos
metodológicos se alicerçam em levantamento historiográfico, consulta a jornais e fontes
primárias do acervo do arquiteto, analisando os hotéis em geral e enfatizando o caso do
Bahia Othon Palace Hotel (1973), em Salvador, Bahia. O trabalho almeja contribuir para
o resgate da produção dos hotéis mais emblemáticos de Paulo Casé, realçando ainda a
condição atual desse acervo face às dinâmicas urbanas e turísticas na atualidade quando se
verifica um processo de desvalorização, degradação e, inclusive, demolição de exemplares
significativos. Por fim, os resultados constituem subsídios para produção de conhecimento
sobre a relação entre turismo, arquitetura moderna e meios de hospedagem, numa
perspectiva em que a documentação é premissa fundamental para conservação desses
hotéis de inegável valor cultural para a memória da atividade turística, da arquitetura e
do arquiteto.

Palavras-chave: Turismo. Arquitetura moderna. Hotel. Paulo Casé.

Abstract
The objective of this paper is to investigate the production of hotels designed by Paulo Casé
throughout the 1970s, emphasizing the cultural value of these buildings in a panorama of
modernization raised by tourism public policies, as well as to understand how the architect's
performance reveals transformations in the context of modern architecture in Brazil. The theo-
retical assumptions include: the debate about the development discourse through tourism,
identifying the social conditions (economic, political and symbolic), emphasizing the public
policies to encourage tourism and hospitality with the advent of Embratur from 1966 and the
expansion of national and international hotel chains, as well as the consideration of agents,
including the role of the architect Casé; the discussion about the mutations in the development
of Brazilian modern architecture, focusing on the critical (trans)modern attitude of Casé. The
methodological procedures are based on a historiographical survey, newspapers and primary
sources from the architect's collection, analyzing hotels in general and emphasizing the case
of the Bahia Othon Palace Hotel (1973), in Salvador, Bahia. The work aims to contribute to the
rescue of the production of Paulo Casé's most emblematic hotels, highlighting also the current
condition of this collection in face of the urban and tourist dynamics nowadays, where there
is a process of devaluation, degradation, and even demolition of significant examples. Finally,
the results are subsidies for the production of knowledge about the relationship between tour-
ism, modern architecture and lodging facilities, in a perspective in which documentation is a
fundamental premise for the conservation of these hotels of cultural value for the memory of
tourism, architecture and the architect himself.

Keywords: Tourism. Modern Architecture. Hotel. Paulo Casé.

CADERNOS

38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES

Paulo Casé e a produção de hotéis (trans)modernos no Brasil


80 Paulo Casé and the production of (trans)modern hotels in Brazil
Paulo Casé y la producción de hoteles (trans)modernos en Brasil

Resumen
El objetivo de este artículo es investigar la producción de los hoteles diseñados por Paulo Casé
a lo largo de la década de 1970, destacando el valor cultural de estos edificios en un panorama
de modernización planteado por las políticas públicas de turismo, así como comprender cómo
la actuación del arquitecto revela las transformaciones en el contexto de la arquitectura mod-
erna en Brasil. Los supuestos teóricos incluyen: el debate sobre el discurso del desarrollo a
través del turismo, identificando las condiciones sociales (económicas, políticas y simbólicas),
haciendo hincapié en las políticas públicas de fomento del turismo y la hostelería con la lle-
gada de Embratur a partir de 1966 y la expansión de las cadenas hoteleras nacionales e inter-
nacionales, y la consideración de los agentes, incluyendo el papel del arquitecto; la discusión
sobre las mutaciones en el desarrollo de la arquitectura moderna brasileña, centrándose en la
actitud crítica de Casé (trans)moderna. Los procedimientos metodológicos se basan en un es-
tudio historiográfico, periódicos y fuentes primarias de la colección del arquitecto, analizando
los hoteles en general y haciendo hincapié en el caso del Hotel Bahia Othon Palace (1973), en
Salvador, Bahía. El trabajo pretende contribuir al rescate de la producción de los hoteles más
emblemáticos de Paulo Casé, destacando también la condición actual de esta colección frente
a la dinámica urbana y turística de hoy, donde hay un proceso de devaluación, degradación e
incluso demolición de ejemplos significativos. Finalmente, los resultados son subsidios para la
producción de conocimiento sobre la relación entre el turismo, la arquitectura moderna y las
instalaciones de alojamiento, en una perspectiva que considera la documentación una premisa
fundamental para la conservación de este conjunto de valor cultural para la memoria de la
actividad turística, la arquitectura y el arquitecto.

Palabras clave: Turismo. Arquitetura Moderna. Hotel. Paulo Casé.

CADERNOS

38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES

Paulo Casé e a produção de hotéis (trans)modernos no Brasil


81 Paulo Casé and the production of (trans)modern hotels in Brazil
Paulo Casé y la producción de hoteles (trans)modernos en Brasil

Introdução
A obra do arquiteto Paulo Hamilton Casé (1931-2018) é indissociável do conjunto de
projetos de importantes hotéis no Brasil entre as décadas de 1970 e 1990. Dentre as
diversas encomendas da firma Paulo Casé & Luiz Acioli – Arquitetos Associados1, a
tipologia hoteleira teve lugar privilegiado na trajetória profissional do arquiteto titular
do escritório.

Filho de Ademar Casé (1902-1993) - pernambucano, um dos pioneiros no rádio no


Brasil e parceiro de Assis Chateaubriand (1892-1968) -, Paulo Casé se diplomou em
1958 na então Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, no Rio
de Janeiro, num momento em que a arquitetura moderna brasileira alcançava grande
prestígio internacional.

A formação de Casé ocorreu em um período em que coexistiam na Faculdade


valores conservadores relacionados ao academicismo, com a presença de professores
catedráticos como Archimedes Memoria (1893-1960) e as ideias modernas plantadas
ainda no início da década de 1930, por ocasião da tentativa de reforma da Escola
Nacional de Belas Artes empreendida por Lúcio Costa (1902-1998). Segundo Regina
Zappa (2011), com base no relato do arquiteto, a Universidade contribuiu bastante
para o seu conhecimento acerca das técnicas e materiais de construção, mas para
aquisição da sua visão sobre a arquitetura de então, cooperou de forma decisiva a
participação em um grupo de estudos2 e as visitas a obras e diálogos com arquitetos
eloquentes na década de 1950, como Oscar Niemeyer (1907-2012), Sérgio Bernardes
(1919-2002), Afonso Eduardo Reidy (1909-1964), entre outros, constituindo uma
espécie de formação paralela.

A dissociação entre o corpo docente e o discente, segundo Casé, era, portanto,


total. Os últimos não admitiam o moderno, fosse por desinteresse, acomodação ou
conservadorismo, e os primeiros buscavam Le Corbusier e Frank Lloyd Wright, que a
eles chegavam em francês e em inglês, respectivamente, numa linguagem, de acordo
com o arquiteto, por vezes de difícil interpretação (MACHADO, 2009, p. 120).

Em 1964 ele iniciou a carreira de professor na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo


(FAU) da UFRJ, já transferida em 1961 da Praia Vermelha para o edifício projetado
por Jorge Moreira, no Fundão, tendo ministrado a disciplina de Grandes Composições,
atividade que desempenhou até 1969 (BARBOSA, 2012). Juntamente com arquitetos de
formação moderna, como Acácio Gil Borsoi (1924-2009), Severiano Mario Porto (1930-
2020), João Filgueiras Lima (1932-2014), Luiz Paulo Conde (1934-2015), Edison Musa
(1934), entre outros, Casé faz parte de uma segunda geração de arquitetos brasileiros
formados no Rio (cariocas e de outros estados) de significativa expressão, tanto pela
atuação e abrangência territorial do conjunto da obra, como pela influência que seus
projetos exerceram no cenário nacional.

Entre as diversas funções que desempenhou, Casé foi Presidente do Instituto de


Arquitetos – Seção da Guanabara (1970-1971) e representou o Brasil na Bienal
Internacional de Paris em 1967, com o projeto da Casa Redonda em Itaipava. Essa obra
expressava a sua influência em relação ao organicismo preconizado por Frank Lloyd
Wright que, à época, se destacava no debate arquitetônico como um contraponto ao
racionalismo identificado com o International Style.

1 Muitos projetos contaram com a coautoria do arquiteto Luiz Antônio Rangel.

2 Faziam parte do grupo: Paulo Casé, Arthur Lício Pontual (1935-1972) e Edison Musa (1934).

CADERNOS

38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES

Paulo Casé e a produção de hotéis (trans)modernos no Brasil


82 Paulo Casé and the production of (trans)modern hotels in Brazil
Paulo Casé y la producción de hoteles (trans)modernos en Brasil

O início da atuação projetual de Casé3 esteve vinculado, em grande medida, à


Construtora Sisal, onde trabalhou por dezesseis anos, desde quando entrou na
empresa como estagiário. A firma, que também era uma imobiliária, foi responsável
pela incorporação e construção de importantes edifícios habitacionais, comerciais
e hoteleiros concebidos pelo arquiteto. Destacam-se os emblemáticos conjuntos de
edifícios residenciais "Estrelas": Estrela do Mar (1958), Estrela de Ouro (1959), Estrela
de Ipanema (1967), Estrela da Lagoa (1970), todos na cidade do Rio de Janeiro.

A produção do arquiteto relacionada ao programa arquitetônico hoteleiro se iniciou


em 1966, com o projeto para o Hotel Porto do Sino4, em Jurujuba, Niterói, Rio de Janeiro
(Figura 1), premiado à época na categoria B2 – Habitação Coletiva pelo Departamento
da Guanabara do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-GB)5. Esse projeto expressava,
em certa medida, a maneira transgressora de Casé, conforme pode ser admitido pelo
parecer da comissão julgadora.

O júri salienta nesse projeto o acentuado espírito de criação, com excelentes resultados
de unidade formal e riqueza plástica, e reconhece ainda a validade de tentativa do
arquiteto, que, fugindo de soluções mais convencionais, conseguiu a integração entre
o projeto, o terreno e a paisagem (BRITTO, 2011, p. 62).

FIGURA 1 – Desenhos e 3 O arquiteto atuou como crítico de arquitetura em um veículo de comunicação não especializado: o Jornal do
Maquetes do Hotel Porto do Brasil.
Sino (1966), em Jurujuba, 4 O projeto foi publicado na Revista do Instituto de Arquitetos do Brasil chamada Arquitetura, no número 56, de
Niterói, Rio de Janeiro. fevereiro de 1967

Fonte: Acervo Escritório 5 Ainda que não tenha sido executado recebeu menção honrosa na Bienal Internacional de Arquitetos do Brasil
em Belo Horizonte em 1968. Foi premiado também na categoria H1, tendo obtido uma menção honrosa pela
Paulo Casé.
Residência Arnaldo Wright em 1965, pelo IAB-GB.

CADERNOS

38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES

Paulo Casé e a produção de hotéis (trans)modernos no Brasil


83 Paulo Casé and the production of (trans)modern hotels in Brazil
Paulo Casé y la producción de hoteles (trans)modernos en Brasil

Na década de 1970, o arquiteto realizou importantes projetos de hotéis em várias


cidades brasileiras, destacando-se: o Bahia Othon Palace Hotel (1973) e o Hotel Le
Méridien Bahia (1975), ambos em Salvador; o Le Méridien Copacabana (1973) no Rio de
Janeiro; o Hotel Esplanada (1973-1978), em Fortaleza, demolido em 2014; o Hotel Porto
do Sol (1975), em Guarapari-ES e o Porto do Sol (1978) em Vitória, além do Termas
Hotel de Mossoró (1979), entre outros6 . Muitos desses hotéis são representações e
expressões da atitude crítica do arquiteto em relação ao modernismo, assimilando e ao
mesmo tempo transformando os seus pressupostos, em um momento de significativo
incentivo ao turismo no Brasil. Esse conjunto de hotéis - demolidos, abandonados e
alguns ainda em uso - é um importante testemunho da memória da diversidade da
arquitetura moderna e do turismo no país.

Assim, os principais questionamentos desse trabalho se direcionam para compreender:


como as políticas públicas de turismo se relacionam dialeticamente com a construção
de hotéis no Brasil na década de 1970? Qual o valor cultural desses hotéis no processo
de modernização pelo viés do turismo? Como os hotéis mais emblemáticos concebidos
pelo arquiteto expressam transformações na cultura arquitetônica moderna? Qual a
condição atual deste acervo face às dinâmicas urbanas e turísticas contemporâneas?

Isto posto, o objetivo do artigo é investigar a produção arquitetônica de Paulo


Casé associada à arquitetura hoteleira ao longo da década de 1970, enfatizando o
valor cultural desses edifícios em um panorama de modernização suscitado pelas
políticas públicas de turismo, bem como compreender como a sua atuação revela
transformações no contexto da arquitetura moderna no Brasil.

O aporte teórico se sustenta na compreensão do discurso desenvolvimentista pelo


viés do turismo, a fim de entender as condicionantes mais gerais e específicas do
fenômeno relacionado à construção de hotéis no país, sobretudo na década de
1970, tanto em relação ao incremento das políticas de incentivo à hotelaria com o
advento da Embratur a partir de 1966, como também no que concerne à expansão
das redes hoteleiras nacionais e internacionais. Ainda nesse âmbito, cabe discutir
as manifestações e metamorfoses verificadas nesses hotéis ditos (trans)modernos,
enfatizando o caso do Bahia Othon Palace Hotel.

O termo (trans)moderno neste trabalho é empregado como um argumento conceitual


para qualificar os hotéis produzidos por Casé nos anos de 1970, considerando-os como
expressão da postura do arquiteto em relação aos valores do modernismo, adotando
ao mesmo tempo características de apropriação e transgressão, mas também como
sintoma das transformações verificadas no modernismo face à dinâmica intrínseca
do conceito de modernidade. O emprego do prefixo “trans” se presta, portanto, para
reforçar transformações, transgressões e transmutações, no termos sugeridos por
Novak (2000) para adjetivar a arquitetura transmoderna, muito embora ele os utilize
para descrever os efeitos contemporâneos da tecnologia na arquitetura.

Ainda que o debate sobre o pós-modernismo, como expressão cultural da pós-


modernidade, se inicie na década de 1970, verifica-se à época, no Brasil, em razão
do isolamento e do escasso diálogo cultural - próprio de um regime autoritário - um
retardo e rarefeita assimilação das tendências teóricas e práticas do pós-modernismo
arquitetônico, seja como ruptura ou como continuidade quanto à tradição moderna.

Diante do exposto, optou-se por não associar a produção de Casé nesses anos ao pós-
moderno, uma vez que esses hotéis se inserem em um contexto de hegemonia da
arquitetura moderna no país, onde “canonizava-se e burocratizava-se uma postura

6 Paulo Casé projetou na década de 1980 o Hotel Hilton Belém. Na década de 1990, concebeu o Hotel Caesar Park
Cabo de Santo Agostinho, na praia de Tatuoaca, litoral sul de Pernambuco e o Hotel Marriot, no Rio de Janeiro,
entre outros.

CADERNOS

38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES

Paulo Casé e a produção de hotéis (trans)modernos no Brasil


84 Paulo Casé and the production of (trans)modern hotels in Brazil
Paulo Casé y la producción de hoteles (trans)modernos en Brasil

arquitetônica” (SEGAWA, 1998, p.190). A atuação de Casé, quase como uma raridade,
expressa, como o próprio prefixo “trans” sugere, indicativos de uma transição, indícios
de um deslocamento e uma mutação da condição moderna para a pós-moderna.
Assim sendo, esses chamados hotéis trans(modernos) de Casé exprimem uma forma
híbrida, transitória e não binária na arquitetura brasileira.

Por fim, pretende-se, com base em um levantamento historiográfico, consulta a jornais


e fontes primárias do acervo do arquiteto, contribuir para resgatar a produção dos
hotéis mais emblemáticos de Paulo Casé, destacando ainda a condição de preservação
e conservação desse acervo face às dinâmicas urbanas e turísticas na atualidade.

A Embratur e a construção de hotéis no Brasil


Os hotéis concebidos por Paulo Casé na década de 1970 foram construídos em
condições nacionais e internacionais favoráveis ao desenvolvimento do turismo e,
consequentemente, da hotelaria. Para Cruz (2000), as ações para o incremento da
atividade turística no Brasil podem ser compreendidas em três períodos: o primeiro de
1938 até 1966, marcado por ações pontuais e relacionado ao Decreto-lei 406/1938 no
período do Estado Novo; o segundo, de 1966 a 1991, que teve como ponto de inflexão
a criação da Embratur e a consideração do turismo como atividade econômica de
relevância no projeto desenvolvimentista e; o terceiro, a partir de 1991, com a Lei
8181/1991, que reestruturou a Embratur e deu início à era Prodetur.

No segundo período, a política específica voltada para o turismo no Brasil tem como
marco o Decreto-Lei n. 55, de 18/11/1966, à época da Ditadura Militar, no governo
do Presidente Castelo Branco. O instrumento legal instituiu a Empresa Brasileira de
Turismo (Embratur) e o Conselho Nacional de Turismo (CNTur). Assim, a criação da
Embratur foi um estímulo estatal para o desenvolvimento do turismo no Brasil num
cenário em que a industrialização tinha primazia. As ações do órgão eram variadas
e redundaram em impactos importantes na hotelaria existente e na construção de
novos meios de hospedagem. As primeiras medidas do órgão foram:

Isenção do Imposto de Circulação de Mercadorias (ICM) para restaurantes e casas


noturnas do Rio de Janeiro; Isenção de impostos para o setor hoteleiro, como forma
de estímulo à modernização dos hotéis; Realização, em 1967, do I Encontro Nacional
de Turismo, com a participação de ministros, governadores, presidentes de entidades
e empresas do setor; Criação do Programa Turismo, que estabelece previsões
e proposições para o parque hoteleiro do País, mercado nacional de férias, zonas
balneárias, estâncias hidrominerais e termais, além de reservas e parques nacionais;
Aprovação da construção de hotéis de padrão internacional em vários locais turísticos
do País, como Sheraton, no Rio de Janeiro, Tropical, em Manaus, e Hilton, em São
Paulo. (EMBRATUR, 2016. p. 29).

A concessão de incentivos fiscais e financeiros (mimetizando o caráter


desenvolvimentista das políticas industriais), por meio de agências de desenvolvimento
e financiamento, favoreceu sobremaneira a construção de hotéis em todo o Brasil. A
consideração do turismo como uma “indústria” emergente ficava evidente no Decreto
55/1966, no Art. 23.

A construção, ampliação ou reforma de hotéis, obras e serviços específicos de


finalidades turísticas constituindo atividades econômicas de interêsse (sic) nacional,
desde que aprovadas pelo Conselho Nacional de Turismo, ficam equiparadas à
instalação e ampliação de indústrias básicas e, assim, incluídas no item IV do artigo
25 da lei nº 2.973, de 26 de novembro de 1956.

CADERNOS

38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES

Paulo Casé e a produção de hotéis (trans)modernos no Brasil


85 Paulo Casé and the production of (trans)modern hotels in Brazil
Paulo Casé y la producción de hoteles (trans)modernos en Brasil

Na década de 1970, outras leis viabilizaram os incentivos fiscais e financeiros, como


o Decreto-Lei n. 1.191/71, que criou o Fundo Geral de Turismo (Fungetur) e o Decreto-
Lei n. 1.376/74, que estabeleceu o Fundo de Investimento do Nordeste (Finor). A
Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e Superintendência de
Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) foram também aparatos estatais importantes
para o incremento da atividade turística e da hoteleira, além de funcionarem como
instrumentos da política de integração nacional e mitigação das desigualdades
regionais no território pelo viés do turismo. Os incentivos fiscais estabelecidos pela
Embratur variavam de 8% a 50% na isenção de dedução de imposto de renda para as
empresas e, no Norte e no Nordeste, chegavam ao teto da percentagem estabelecida
por lei.

A política nacional de turismo suscitou ainda a criação de órgãos e secretarias


municipais e estaduais de turismo7, como forma de articular as ações do Estado e
funcionar como uma espécie de agente junto ao setor privado, sobretudo em relação
ao setor hoteleiro e às agências de viagens.

Este período corresponde também ao surgimento e/ou consolidação de cadeias de


hotéis nacionais, como a Companhia Tropical de Hotéis, subsidiária da Varig, o Grupo
Othon Palace e a Rede Eldorado, entre outras. Some-se a isto, um maior incremento nas
infraestruturas de transporte aeroviário e rodoviário, acompanhado pelo crescimento
da aviação comercial e pela construção de aeroportos, como também a hegemonia
do uso do carro, face aos investimentos na indústria automobilística do país desde a
segunda metade da década de 1950.

Destaca-se ainda, a partir da década de 1970, a penetração no Brasil de grandes redes


hoteleiras internacionais, como a cadeia de hotéis Hilton (subsidiária da TWA), Le
Méridien (subsidiária da Air France), Sheraton e Intercontinental8. Estas mudanças
induziram a construção de diversos hotéis, que atendiam simultaneamente aos fluxos
turísticos e de negócios, potencializados por uma maior penetração de multinacionais
no país.

No período do chamado “milagre econômico”, houve um aumento significativo na


construção de hotéis no país: “57 projetos de novos hotéis são aprovados entre 1972
e 1973, totalizando 4.620 unidades (quartos para hospedagem), o que representa a
criação de 20 mil empregos” (Embratur, 2016, p.42). Para Araújo (2012, p. 149), entre
1967 e 1987, o “número de hotéis passou de 164 para 1.980 hotéis classificados, e 70%
desses foram construídos mediante os incentivos fiscais ou financeiros”.

Paulo Casé: um arquiteto de hotéis


No início da década de 1970, o arquiteto Paulo Casé começou a ganhar notoriedade
como um especialista em projetos de hotéis de grande porte, de elevada complexidade
programática e destinados a grandes cadeias hoteleiras nacionais e internacionais.

7 Como exemplos: Empresa de Turismo da Bahia S.A. (Bahiatursa) criada em 1968; Empresa Cearense de Tur-
ismo S.A. (EMCETUR), criada em 1971 e; a nível municipal, a Empresa de Turismo do Município do Rio de
Janeiro S.A. (Riotur), criada em 1972.

8 Nesse cenário, cabe sublinhar a atuação do Arquiteto Henrique Mindlin, que projetou o Hotel Sheraton (1968),
construído na Avenida Niemeyer próximo à Gávea, bem como no Hotel Intercontinental (1971), na Praia de
São Conrado

CADERNOS

38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES

Paulo Casé e a produção de hotéis (trans)modernos no Brasil


86 Paulo Casé and the production of (trans)modern hotels in Brazil
Paulo Casé y la producción de hoteles (trans)modernos en Brasil

Não por acaso, diversas revistas especializadas na década de 19709 e 198010, além da
imprensa voltada ao grande público, como o Jornal do Brasil, Correio da Manhã, entre
outros, passaram a publicar conteúdos sobre o tema, destacando a importância do
escritório de Casé.

Em matéria intitulada “Arquitetos começam a se especializar em arquitetura hoteleira”


no Jornal do Brasil de 22 de março de 1973, Casé declarou que “a especialização em
arquitetura não representa senão um dos instrumentos necessários para se criar os
espaços, meta da arquitetura e resultado das necessidades do apelo” (ARQUITETOS
COMEÇAM A SE ESPECIALIZAR EM ARQUITETURA HOTELEIRA, 1973, p. 4). Em outra
passagem, Casé revela grande modéstia ao se referir à especialização: “devido ao
mercado tão reduzido, [...], seria um esnobismo se fazer um escritório dirigido a um
determinado programa” (id ibidem).

Entretanto, essa especialização pode ser compreendida como uma maior


profissionalização no processo de gerenciamento do projeto do hotel como um
empreendimento de grande complexidade programática e funcional. O escritório
passou a prestar serviços de forma mais abrangente aos clientes, por meio da
coordenação geral do processo e do produto, incluindo desde os estudos de viabilidade
econômica, o suporte no atendimento à legislação e fiscalização, a articulação com
projetos complementares e com a arquitetura de interiores, envolvendo inclusive a
concepção e a instalação do mobiliário, da decoração, além do paisagismo.

Ainda que o contato com as experiências e as inovações técnicas dos hotéis


internacionais tenham sido relevantes para Casé, ele advogava a necessidade de
adaptação à realidade brasileira: “[...] aproveitando esse conjunto de conhecimentos
que existem na tecnologia hoteleira, e colocando-os a serviço do hóspede brasileiro,
integrado ao espaço brasileiro”. (ZEIN, 1983, p. 2).

Verifica-se que os hotéis concebidos por Casé na década de 1970 possuíam uma
linguagem arquitetônica vinculada à tradição da arquitetura moderna brasileira,
mas com uma atitude mais crítica, pragmática e simbólica. Ele mesmo admitia que
a linguagem - sem se referir ao modernismo – de alguns hotéis era a mesma, embora
existissem mudanças nos programas.

Em várias entrevistas de Casé, sua postura perante o modernismo arquitetônico


brasileiro é de muita deferência, mas com ressalvas e críticas, ao ponto de se
considerar como um dos primeiros a ter uma postura “pós-moderna”: “descobri que
fui pós-moderno desde 1964, mas no sentido correto do termo, como movimento
crítico do moderno” (MOURA; SERAPIÃO, 2003, p. 3).

Os hotéis de Casé foram um campo importante para as suas experimentações


projetuais e de alguns apelos formais, facilitados de certo modo por se tratar de
uma tipologia representativa dos espaços de consumo, comércio e lazer, programas
historicamente alijados pela historiografia da arquitetura moderna.

9 Prédio em Y traz o sol para dentro; projeto de Paulo H. Casé Luiz Acioli e L. A. Rangel. Projeto e Construção
(23): 32-5, out. 1972; No Jardim Oceania, o Ondina Praia Hotel; projeto de Paulo Casé e Luiz Acioli, arqs. Projeto
e Construção (28): 35-7, mar. 1973; Hotéis de nível internacional com tecnologia brasileira; projeto de Paulo
Casé, Luiz Acioli e L. A. Rangel. Arquitetos Associados Ltda. A Construção em São Paulo (1391): 13-6, 7-10-1974;
Hotel Termas de Mossoró, RN; projeto de Paulo H. Casé, Luis Acioli e L. A. Rangel. arqs. Projeto 113: 30•1, jun./
jul. 1979.

10 Na década de 1980 ainda foram publicados projetos do arquiteto e uma síntese da produção hotéis. Bahia
Othon Palace Hotel, Salvador, BA; projeto de Paulo H. Casé, Luiz Acioli e L. A. Rangel., arqs. AB Arquitetura do
Brasil (12); 60-3, 1981; O novo Copa; projeto de Paulo H. Casé, Luiz Acioli e L. A. Rangel, arqs. Projeto (26): 14-
5,jan. 1981; Vários hotéis; projetos de Paulo H. Casé, Luiz Acioli e L. A. Rangel, arqs. AB Arquitetura Brasileira
(10): 39-48, 197711978. (ed. 1981) Hotéis / Editores: Vicente Wissenbach, Vivaldo Tsukumo. São Paulo: Projeto,
1987.

CADERNOS

38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES

Paulo Casé e a produção de hotéis (trans)modernos no Brasil


87 Paulo Casé and the production of (trans)modern hotels in Brazil
Paulo Casé y la producción de hoteles (trans)modernos en Brasil

À época, o hotel se afirmava cada vez mais como um produto imobiliário. O esquema
de negócios dos hotéis no Brasil se dava por meio da venda de quartos (ações), mas
Casé considerava que não se tratava de um empreendimento primordialmente para
fins de venda, mas muito mais para prestação de serviços.

Muitos desses hotéis ganharam destaque na imprensa por meio de propagandas,


afim de captar investidores. As políticas da Embratur possuíam com meta conceder,
para pessoas jurídicas, dedução de no mínimo 8% do imposto a ser pago ao governo.
Esses incentivos fiscais eram captados geralmente por um “pool” de bancos. No caso
do Le Méridien Copacabana (Figura 2), o Banco Nacional Brasileiro e Metropolitano
de Investimentos S.A, apresentando como garantia a Sisal Rio Hotéis Turismo S.A.,
empresa do Grupo Sisal, em associação ao Hambros Bank e Banque Nationale de Paris
(MÉRIDIEN COPACAPANA, 1973, p. 5).

FIGURA 2 – Le Méridien
Copacabana (1973),
Copacabana, Rio de Janeiro.

Fonte: Acervo Escritório


Paulo Casé

A preocupação de Casé com as especificidades urbanas e o lugar era evidente,


tanto nos hotéis projetados em grandes capitais, como em Salvador (Bahia Othon
Palace Hotel, 1973 e o Hotel Le Méridien Bahia - 1975) (Figura 3), no Rio (Le Méridien
Copacabana - 1973), em Vitória (Hotel Porto do Sol – 1979-1980) (CADERNOS
BRASILEIROS DE ARQUITETURA, 1987) e em Fortaleza (Hotel Esplanada - 1973-
1978) (Figura 4), notadamente com características mais cosmopolitas, traduzidas na
complexidade programática e na verticalidade; como em cidades menores, como é
o caso de Guarapari-ES (Hotel Porto do Sol - 1975) e Mossoró-RN (Termas Hotel de
Mossoró - 1979), em que se verificava a utilização de um partido mais integrado à
escala e aos recursos materiais e humanos disponíveis.

CADERNOS

38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES

Paulo Casé e a produção de hotéis (trans)modernos no Brasil


88 Paulo Casé and the production of (trans)modern hotels in Brazil
Paulo Casé y la producción de hoteles (trans)modernos en Brasil

FIGURA 3 – Le Méridien Bahia


(1975), Salvador, Bahia

Fonte: Acervo Escritório


Paulo Casé

FIGURA 4 – Fotos do Hotel


Esplanada (1973-1978),
Fortaleza, Ceará – Destaque
para a primeira foto do edifício
em construção, com placas
indicando o financiamento da
Sudene e Embratur, além da
construção pela Sisal.

Fonte: Acervo dos autores

Em depoimento publicado em um número especial sobre hotéis do Cadernos Brasileiros


de Arquitetura (1987), organizado por Vicente Wissenbach e Adail Rodrigues da
Motta, Paulo Casé preconizava princípios norteadores tanto para os projetos urbanos,
como “rurais”, a saber: o atendimento às especificidades do programa, buscando
responder às demandas do cliente, dos hóspedes, mas também adequando-o ao tipo
de hotel; a preocupação com o lugar e o contexto e, especificamente, o terreno e a sua
localização; e o apropriado uso das tecnologias e materiais construtivos em razão das
condicionantes dos dois primeiros princípios.

CADERNOS

38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES

Paulo Casé e a produção de hotéis (trans)modernos no Brasil


89 Paulo Casé and the production of (trans)modern hotels in Brazil
Paulo Casé y la producción de hoteles (trans)modernos en Brasil

Esses aspectos conceituais propostos por Casé e a maneira como ele os materializa
revelam uma postura crítica em relação ao programa, ao lugar, à construção e
evidentemente, à forma. Ao comparar o Hotel Porto do Sol de Vitória e o Porto do Sol
de Guarapari, Casé afirma que:

A despeito de termos utilizado o mesmo apoio conceitual para a implantação das


duas edificações em seus meios específicos (sustentação teórica que a priori impõe
uma expressão simbólica própria para cada caso), seu relacionamento com realidades
ambientais diferentes – uma de característica rural, outra urbana -, correspondência
sempre relevante, tanto impôs a eleição dos respectivos processos construtivos
– alvenaria de tijolo, pré-moldados de concreto e estrutura de concreto armado - ,
como apontou as condições adequadas para a integração da obra ao seu entorno
(CADERNOS BRASILEIRO DE ARQUITETURA, 1987, p. 75).

Portanto, infere-se que Casé preocupava-se com as preexistências ambientais e com


o lugar, buscando adequar a linguagem e as técnicas construtivas a essas realidades,
promovendo atitudes mais contextualistas e transformações simbólicas na prática da
arquitetura moderna.

Nos hotéis urbanos, valorizava partidos verticais em contextos de densidade e fluxos


de ócio e negócio, valendo-se do concreto armado como elemento estrutural, mas
também como expressão formal, sem, no entanto, conferir-lhe primazia. Inclusive,
ele critica o uso “estilístico” do concreto ao afirmar que a utilização do material na
arquitetura moderna brasileira “quando feita estereotipadamente na presunção de
realizar uma arquitetura nacional, é lamentavelmente equivocada” (CADERNOS
BRASILEIROS DE ARQUITETURA, 1987, p. 75).

Isto posto, o uso do concreto aparente, explicitando os elementos estruturais e


a modulação própria da tipologia hoteleira ratificam a permanência de valores da
arquitetura moderna, mas não o suficiente para considerá-los brutalistas. Aliás, Casé
rechaçava esses rótulos, ao se esquivar frequentemente de certos enquadramentos,
muito embora CASTELLOTTI (2006) atribua essa condição brutalista a algumas obras
de Casé, sem se referir aos hotéis.

Ele assegurava que o hotel urbano tinha que ser um prolongamento da rua, integrado
ao meio ambiente, assim como seus serviços precisavam ser estendidos a um maior
número de pessoas, e não só aos hospedes. Essa integração seria possível por meio
dos usos distintos incorporados ao programa do hotel, como as lojas, o open bar,
boates, restaurantes, áreas de lazer, bem como os espaços destinados a eventos. A
expressão material dessa atitude se revelava frequentemente na base da maioria dos
hotéis projetados pelo arquiteto, criando e valorizando os espaços interiores da parte
pública do empreendimento, traduzidos em pés-direitos generosos, na integração
entre pavimentos e na presença de vazios.

Nos hotéis “não-urbanos”, recorreu à horizontalidade e a soluções mais próximas da


tipologia residencial e das suas técnicas construtivas mais tradicionais, como o uso
de alvenarias, telhados com estruturas de madeiras e telhas cerâmicas. Assim como
no Porto do Sol de Guarapari (Figura 5), no projeto para o Hotel Termas de Mossoró
(Figura 6 e 7) preconizava uma escala mais atenta às condições ambientais e culturais
do lugar.

No caso de hotéis realizados no Rio Grande do Norte, entre os quais se destaca o


Hotel Termas de Mossoró, [...] a grande preocupação dos arquitetos foi criar uma
arquitetura adaptada o clima, em contato com a natureza, inclusive melhorando
as condições de conforto térmico através do plantio de espécies locais de rápido
crescimento, garantindo sombreamento e climatização natural, e aproveitando uma

CADERNOS

38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES

Paulo Casé e a produção de hotéis (trans)modernos no Brasil


90 Paulo Casé and the production of (trans)modern hotels in Brazil
Paulo Casé y la producción de hoteles (trans)modernos en Brasil

fonte d’água natural a 47°C para as piscinas, que se tornaram ponto de atração
de toda a região. Todo o projeto foi orientado no sentido de adaptação e exploração
das condições adversas do clima, extremamente seco e quente, através de recursos
naturais, ecológicos. (ZEIN, 1983, p. 3).

FIGURA 5 – Fotos do Hotel Porto do Sol (1975), Guarapari, Espírito Santo

Fonte: Acervo Escritório Paulo Casé

FIGURA 6 – Fotos Maquete do Hotel Termas de Mossoró (1979), Mossoró, Rio Grande do Norte

Fonte: Acervo Escritório Paulo Casé

FIGURA 7 – Foto do Hotel


Termas de Mossoró (1979),
Mossoró, Rio Grande do Norte

Fonte: Acervo dos autores

CADERNOS

38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES

Paulo Casé e a produção de hotéis (trans)modernos no Brasil


91 Paulo Casé and the production of (trans)modern hotels in Brazil
Paulo Casé y la producción de hoteles (trans)modernos en Brasil

De modo geral, ainda que essas premissas em relação ao sítio estejam presentes no
seu discurso, ao afirmar que evitava agressões à paisagem, verifica-se em alguns casos,
sobretudo nos dois hotéis de Salvador e no de Guarapari, soluções de implantação em
que os edifícios se situam muito próximos ao mar, favorecendo, inclusive uma relativa
privatização dos usos e das visuais para praia. Se propostos atualmente, dificilmente
atenderiam às exigências das legislações ambientais.

Diante do exposto, a obra de Paulo Casé concebida durante a década de 1970 tem
como exemplos da sua atitude crítica em relação à arquitetura moderna brasileira
a produção de importantes hotéis (trans)modernos, ou seja, edifícios hoteleiros
que expressam simultaneamente assimilações e transformações no âmbito do
modernismo arquitetônico, abrindo distintas possibilidades de interpretações e
revisões historiográficas. Para o arquiteto, “existe toda uma tradição arquitetônica
que deve ser reinterpretada na arquitetura moderna, cujos erros devem ser
questionados” (CADERNOS BRASILEIROS DE ARQUITETURA, 1987, p. 38). Como estudo
de caso, segue uma breve reflexão sobre o caso do Bahia Othon Palace Hotel, que
testemunha tanto as transformações suscitadas pelas políticas públicas da Embratur
e a internacionalização da atividade turística, como as metamorfoses verificadas na
arquitetura moderna no Brasil.

O Bahia Othon Palace Hotel: turismo, arqui-


tetura e significado
Embora o Grupo Othon tenha atuado no ramo agroindustrial, têxtil e comércio
varejista desde 1905, a princípio em Pernambuco e depois em São Paulo, somente em
1943 o Sr. Othon Lynch Bezerra de Mello (1880-1952) fundou a Companhia Brasileira
de Novos Hotéis, conhecida posteriormente como Hotéis Othon (PINHEIRO, 2012).

Os primeiros hotéis da rede, que vieram a se transformar numas das principais cadeias
de hotéis nacional, foram o Hotel Aeroporto Othon, inaugurado em 1944 no centro do
Rio de Janeiro, nas proximidades do Aeroporto Santos Dumont; o Hotel São Paulo,
implantado na Rua São Francisco, esquina como Largo Riachuelo em 1946, tendo sido
projetado e construído pela firma Dacio A. de Morais & Cia Ltda (REVISTA ACRÓPOLE,
1946) e o Othon Palace São Paulo, inaugurado em 1954, próximo ao Viaduto do Chá e
projetado pelo arquiteto alemão Philipp Lohbauer (1906-1978).

Ao longo da década de 1950 e 1960, o grupo ampliou a sua rede no Rio de Janeiro,
mas somente na década de 1970 houve um incremento na construção de hotéis de
luxo, expandindo a rede para Belo Horizonte, Salvador, Recife, Fortaleza e Maceió. O
Rio Othon Palace Hotel11, de 1968, foi emblemático na inauguração desse conjunto de
hotéis mais sofisticados. O projeto foi escolhido em meio um concurso vencido pela
Pontual Arquitetos, tendo o escritório de Paulo Casé participado do certame.

O know-how do escritório Paulo Casé, Luiz Acioly e L. A. Rangel Arquitetos Associados


se consolidou em virtude da encomenda da rede Hotéis Othon S.A para o projeto do
Bahia Othon Palace Hotel.

No caso específico de hotéis, antes de o projeto surgir, existe toda uma tarefa de
levantamento de dados, pesquisa de programas, estudo dos objetivos a serem
atingidos. Para o primeiro grande projeto, o do Bahia Othon Palace, foram realizadas

11 O Hotel foi projetado pelos arquitetos Arthur Lício Pontual, Davino Pontual, Paulo de Souza Pires, Sérgio Porto
e Flávio Ferreira e construído pela SISAL Engenharia.

CADERNOS

38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES

Paulo Casé e a produção de hotéis (trans)modernos no Brasil


92 Paulo Casé and the production of (trans)modern hotels in Brazil
Paulo Casé y la producción de hoteles (trans)modernos en Brasil

várias viagens a países da América Central e do Norte que possuem hotéis localizados
em semelhantes condições físicas e socioculturais. A análise do projeto, do ponto-de-
vista técnico, foi feita por um arquiteto americano contratado pela cadeia Othon12.
(ARQUITETOS COMEÇAM A SE ESPECIALIZAR EM ARQUITETURA HOTELEIRA,
1973, p. 4).

Provavelmente, o contato firmado com o grupo foi facilitado pela Construtora Sisal,
parceira antiga de Casé, que lhe conferiu visibilidade no mercado imobiliário do Rio.
A empresa, por sua vez, foi contratada pela cadeia para construir o Leme Palace Hotel
(1964) no Rio de Janeiro, de autoria dos arquitetos Vicente Gambardella, Salvador
Ary Cornelio e Paulo Lemos (REVISTA ACRÓPOLE, 1964), bem como o supracitado
Rio Othon Palace Hotel. Some-se a isso a notoriedade alcançada com o projeto do
Méridien em Copacabana.

A assinatura do contrato para a construção do Bahia Othon Palace Hotel se deu


em fins de dezembro de 1971 entre o Hotéis Othon S.A. e a Construtora Norberto
Odebrecht S.A. Comércio e Indústria. O evento teve grande repercussão na imprensa
nacional e anunciava-se como um grande empreendimento: 301 apartamentos, duas
suítes presidenciais e treze suítes de luxo (BAHIA OTHON PALACE HOTEL, 1971).

O Hotel (Figura 8), implantado na Praia de Ondina, na orla de Salvador, teve sua pedra
fundamental lançada em fevereiro de 1972 e contou inclusive com a presença do
Presidente da Embratur à época, Paulo Manoel Potássio e do então Governador da
Bahia Antônio Carlos Magalhães, revelando a articulação coordenada entre o Estado,
por meio de políticas públicas, incentivos fiscais e financeiros e o mercado. O projeto
teve apoio da Embratur e da Sudene por intermédio dos seus programas de incentivo
ao turismo e à hotelaria.

FIGURA 8 – Foto do Bahia


Othon Palace Hotel (1973),
Salvador, Bahia

Fonte: Acervo dos autores

12 O projeto contou com a consultoria de William B. Tablet Architects de Nova York.

CADERNOS

38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES

Paulo Casé e a produção de hotéis (trans)modernos no Brasil


93 Paulo Casé and the production of (trans)modern hotels in Brazil
Paulo Casé y la producción de hoteles (trans)modernos en Brasil

Na passagem da década de 1960 para 1970, a internacionalização do turismo no Brasil


era evidente nos discursos desses agentes políticos, inclusive ao se referirem à presença
de cadeias hoteleiras internacionais, como foi o caso do Hilton, Intercontinental e Le
Meridien (OTHON LANÇA PEDRA, 1972).

A implantação do hotel se deu em sítio privilegiado, uma formação rochosa


inclinada no limite do mar num local que forma uma pequena enseada. Os usos e
acessos públicos do empreendimento buscavam se adequar a essas especificidades
da topografia. O edifício é composto por uma base que abriga os usos sociais e de
serviço e uma torre que se desenvolve em 12 pavimentos-tipo, com 24 apartamentos
cada, em forma de “Y’ afim de permitir as melhores visuais da paisagem da orla de
Salvador. Aliás, na maioria dos hotéis de Casé, a marcação base, corpo e coroamento
é recorrente.

FIGURA 9 – Foto do Bahia


Othon Palace Hotel (1973),
Salvador, Bahia

Fonte: Acervo dos autores

Em matéria no Jornal do Brasil, intitulada “Hotéis de Paulo Casé, espaços com


significado”, há a menção na narrativa com relação aos arcos do Bahia Othon
Palace Hotel como uma aproximação ao lugar, como uma referência simbólica aos
arcos coloniais dos velhos sobrados de Salvador (Figura 10). Para o arquiteto: “Se o
hotel está em Salvador, não pode ter uma forma arquitetônica que agrida a Bahia.
O hóspede, mesmo dentro do hotel, deve sentir como é o lugar que visita. Um hotel
não pode ser um corpo estranho numa cidade” (HOTÉIS DE PAULO CASÉ/ESPAÇOS
COM SIGNIFICADO, 1973). Em outro depoimento, Casé revela outras “citações”
simbólicas que são incorporadas ao projeto do hotel: “achava importante fazer
referências às etapas históricas relacionadas à Bahia. Mas como traduzir essa
tradição para a verticalidade de um hotel? Assim, pensei em conjugar elementos
variados, como os arcos, os azulejos, as janelas de madeira entrelaçadas como
rendas” (BRITTO, 2011, p. 88).

CADERNOS

38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES

Paulo Casé e a produção de hotéis (trans)modernos no Brasil


94 Paulo Casé and the production of (trans)modern hotels in Brazil
Paulo Casé y la producción de hoteles (trans)modernos en Brasil

FIGURA 10 – Foto arcos do


Bahia Othon Palace Hotel
(1973), Salvador, Bahia

Fonte: Acervo dos autores

A atitude arquitetônica de Casé no projeto do Bahia Othon Palace Hotel expressa


paradoxalmente a permanência de valores da arquitetura moderna, mas aponta,
conscientemente, para a valorização de aspectos relativos ao significado na/da
arquitetura, suscitando transformações no modernismo arquitetônico.

A morte dos hotéis de Casé: à guisa de


conclusão.
A atitude (trans)moderna de Casé se converte em uma postura de fato alinhada
às tendências da arquitetura pós-moderna desde o final da década de 1980. Essa
virada do arquiteto fica mais visível a partir dos projetos do Caesar Tower Hotel
em Recife (1990), da Confederação Nacional do Comércio (1997) em Brasília e do
RIO Metropolitan (1994). Não se trata mais de uma maneira híbrida de referências
modernas e certas transgressões, mas corresponde ao que ele denomina “o ciclo auto-
crítico do movimento moderno” (ZAPPA; BRITTO; SEGRE, 2011, p. 136). Para Segre (2011,
p. 197), “Casé se identificou com os conteúdos pluralistas da cultura pós-moderna e
com a capacidade de integração das manifestações estéticas dessemelhantes – cultas
e populares, cosmopolitas e regionais, históricas e utópicas”.

No caso dos edifícios hoteleiros, um completo distanciamento da postura arquitetônica


do modernismo se verifica no caso do Marriot Hotel (2001) em Copacabana. É possível
afirmar que a autonomia crítica de Casé em relação ao modernismo esteve sempre
presente na sua trajetória e, no caso de projetos de hotéis, desde o Hotel Porto do
Sino de 1966, em que há um alinhamento a uma mais perspectiva mais orgânica e
contextualista.

Em síntese, os resultados aqui apresentados compreendem um breve inventário sobre


os hotéis de autoria do arquiteto Paulo Casé produzidos especificamente na década
de 1970, evidenciando não apenas os atributos arquitetônicos em transformação,
mas contextualizando-os com as condicionantes econômicas, políticas, simbólicas e
urbanas atreladas ao incremento da atividade turística, assim como o incentivo à
construção de hotéis.

CADERNOS

38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES

Paulo Casé e a produção de hotéis (trans)modernos no Brasil


95 Paulo Casé and the production of (trans)modern hotels in Brazil
Paulo Casé y la producción de hoteles (trans)modernos en Brasil

A relevância deste artigo se sustenta em alguns aspectos essenciais, como as escassas


pesquisas específicas sobre a relação entre o turismo e a arquitetura moderna no
Brasil, inclusive sobre a tipologia hoteleira, o papel dos arquitetos e a necessidade
de discutir como as transformações e dinâmicas socioespaciais contemporâneas
têm provocado e ameaçado, gradativamente e aceleradamente a manutenção e
conservação deste importante legado, sendo o estudo destes hotéis (trans)modernos
uma premissa para a sua preservação e inserção nas dinâmicas recentes do turismo.

Neste aspecto específico, verifica-se um processo em curso de ameaça aos edifícios,


uma vez que o Hotel Esplanada (PAIVA; DIÓGENES, 2017), em Fortaleza, foi demolido
em 2014 para dar lugar a uma torre residencial a ser construída com índice de
aproveitamento quase três vezes maior que o permitido pela legislação, em função
de um dispositivo legal intitulado “outorga onerosa”, que tem criado um novo ciclo
de valorização imobiliária na capital cearense (PAIVA, 2017). Em Salvador, o Bahia
Othon Palace Hotel, embora tenha uma implantação passível de questionamentos,
encontra-se fechado e vulnerável aos diversos processos de degradação. O mesmo
acontece com o antigo Hotel Le Méridien, também na capital baiana, atualmente
desativado. Esses distintos processos são manifestações de variadas formas de “óbito”
desses “entes arquitetônicos”. Para Luiz Amorim (2007, 162) o “óbito arquitetônico
pode ser entendido como desaparecimento do corpo edilício em sua totalidade ou em
suas partes”.

Como exemplo de permanência, o Le Méridien Copacabana adquirido desde 2017


pela cadeia Hilton, continua, pela potência do projeto, capaz de se adaptar às
transformações verificadas nas dinâmicas do turismo sem perder a sua dignidade e
os seus valores culturais e arquitetônicos intrínsecos.

A consciência do valor cultural e material desses hotéis (trans)modernos cria


perspectivas de conservação e preservação, tanto por meio da manutenção de seus
usos, como pela mudança de sua destinação, o que exige projetos de intervenção
consistentes e comprometidos com o passado, o presente e o futuro e, como tal,
constituem importantes agentes no processo de desenvolvimento urbano e turístico
sustentáveis, ancorados na memória, na identidade, na preservação do patrimônio
cultural edificado e na promoção da qualidade ambiental urbana.

Agradecimentos
À CAPES, que financiou a pesquisa de pós-doutorado “Turismo e arquitetura
transatlântica: o hotel moderno no Brasil e em Portugal” e à Marcela Casé, neta de
Paulo Casé, que cedeu imagens e informações sobre o acervo dos projetos de hotéis
do arquiteto.

Referências
AMORIM, Luiz Manuel do Eirado. Obituário arquitetônico. Pernambuco modernista.
Recife, Editora UFPE, 2007, p. 162.

ARAUJO, Cristina P. Da Embratur à Política Nacional de Turismo. PÓS. Revista do


Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da FAUUSP, v. 31, p. 146-
163, 2012.

CADERNOS

38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES

Paulo Casé e a produção de hotéis (trans)modernos no Brasil


96 Paulo Casé and the production of (trans)modern hotels in Brazil
Paulo Casé y la producción de hoteles (trans)modernos en Brasil

ARQUITETOS COMEÇAM A SE ESPECIALIZAR EM ARQUITETURA HOTELEIRA, Jornal


do Brasil, Rio de Janeiro, 22 de março de 1973. Edição 331.

BAHIA OTHON PALACE HOTEL. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 29 de dezembro de


1971. Edição 226.

BARBOSA, Antônio A. Entrevista com o arquiteto Paulo Casé. Entrevista, São Paulo,
ano 13, n. 049.02, Vitruvius, jan. 2012 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/
entrevista/13.049/4185>.

BRASIL. Decreto-Lei Nº 55, 18 de novembro de 1966. Define a política nacional de


turismo, cria o Conselho Nacional de Turismo e a Emprêsa Brasileira de Turismo, e dá
outras providências. Brasília, DF, 1966.

BRITTO, Alfredo. Paulo Casé: o permanente encontro com a arquitetura. In: ZAPPA,
Regina; BRITTO, Alfredo; SEGRE, Roberto. Paulo Casé. 80 anos: vida, obra, pensamento.
Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2011.

CADERNOS BRASILEIROS DE ARQUTIETURA. Hotéis, v. 19, São Paulo, Projetos Editores


Associados Ltda., 1987.

CASTELLOTTI, Flavio Spilborghs. Arquitetura moderna no Rio de Janeiro: a dimensão


brutalista. Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro, UFRJ, 2006.

CRUZ, Rita de C. A. da. Política de turismo e território. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2000.

EMBRATUR. Embratur 50 anos – uma trajetória do turismo no Brasil. Brasília:


Ministério do Turismo, 2016.

HOTÉIS DE PAULO CASÉ/ESPAÇOS COM SIGNIFICADO. Jornal do Brasil, 13 de novembro


de 1973. Edição 219. Caderno B.

MACHADO, Marise F. Escritório Edison Musa, 1963-1983: Como trabalhava um


escritório de arquitetura de grande porte no Rio de Janeiro pós-Brasília. Rio de
Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2009. Dissertação (Mestrado em
Arquitetura). UFRJ, Rio de Janeiro, 2009.

MÉRIDIEN COPACAPANA. Jornal do Brasil, 27 de novembro de 1973. Edição 233. 1°


Caderno.

MOURA, Éride; SERAPIÃO. Entrevista Paulo Casé. Projeto Design. v. 282. ago. 2003.

NOVAK, Marcos. Transarquiteturas e transmoderno. 2000. Disponível em <http://


www.sescsp.com.br/sesc/hotsites/brasmitte/portugues/novak_texto01.htm>.
Acessado em: 21 abr. 2004.

OTHON LANÇA PEDRA. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 24 de fevereiro de 1972. Edição
272. Caderno de Turismo.

PAIVA, Ricardo A. Ostentação e delito: ícones imobiliários em Fortaleza. MINHA


CIDADE, v. 17.203, p. 6583, 2017.

PAIVA, Ricardo; DIOGENES, Beatriz H. Vida e morte do Hotel Esplanada, de Paulo


Casé, em Fortaleza. ARQ.URB, v. 1, p. 47-60, 2017.

PINHEIRO, João L. A. Hotelaria - Um Estudo de caso da Rede Othon de Hotéis. Rio


de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2012. Dissertação (Mestrado em Administração).
FGV, Rio de Janeiro, 2012.

REVISTA ACRÓPOLE. Hotel no Rio de Janeiro, v. 308, ano 26, jul, 1964, p. 38-41.

REVISTA ACRÓPOLE. Hotel São Paulo, v. 99, ano 9, jul, 1946, p. 67-74.

SEGAWA, Hugo. Arquiteturas No Brasil 1900-1990. São Paulo: Edusp, 1998.

CADERNOS

38
RICARDO ALEXANDRE PAIVA E BEATRIZ HELENA NOGUEIRA DIÓGENES

Paulo Casé e a produção de hotéis (trans)modernos no Brasil


97 Paulo Casé and the production of (trans)modern hotels in Brazil
Paulo Casé y la producción de hoteles (trans)modernos en Brasil

SEGRE, Roberto. Paulo Casé: sociedade, cultura, arquitetura e cidade. In: ZAPPA, Regina;
BRITTO, Alfredo; SEGRE, Roberto. Paulo Casé. 80 anos: vida, obra, pensamento. Rio
de Janeiro: Casa da Palavra, 2011

ZAPPA, Regina. Arquitetura de um homem: tempo, formas e afetos. In: ZAPPA, Regina;
BRITTO, Alfredo; SEGRE, Roberto. Paulo Casé. 80 anos: vida, obra, pensamento. Rio
de Janeiro: Casa da Palavra, 2011.

ZAPPA, R; BRITTO, A ; SEGRE, R. Paulo Casé. 80 anos: vida, obra, pensamento. Rio de
Janeiro: Casa da Palavra, 2011, p. 190-212.

ZEIN, Ruth V. Projeto de Hotéis: adequação entre arquitetura e economia de custos.


Revista Projeto, v. 49, março 1983.

RESPONSABILIDADE INDIVIDUAL E DIREITOS AUTORAIS

A responsabilidade da correção normativa e gramatical do texto é de inteira


responsabilidade do autor. As opiniões pessoais emitidas pelos autores dos artigos são
de sua exclusiva responsabilidade, tendo cabido aos pareceristas julgar o mérito das
temáticas abordadas. Todos os artigos possuem imagens cujos direitos de publicidade
e veiculação estão sob responsabilidade de gerência do autor, salvaguardado o direito
de veiculação de imagens públicas com mais de 70 anos de divulgação, isentas de
reivindicação de direitos de acordo com art. 44 da Lei do Direito Autoral/1998: “O prazo
de proteção aos direitos patrimoniais sobre obras audiovisuais e fotográficas será de
setenta anos, a contar de 1° de janeiro do ano subsequente ao de sua divulgação”.

O CADERNOS PROARQ (ISSN 2675-0392) é um periódico científico sem fins


lucrativos que tem o objetivo de contribuir com a construção do conhecimento nas
áreas de Arquitetura e Urbanismo e afins, constituindo-se uma fonte de pesquisa
acadêmica. Por não serem vendidos e permanecerem disponíveis de forma online
a todos os pesquisadores interessados, os artigos devem ser sempre referenciados
adequadamente, de modo a não infringir com a Lei de Direitos Autorais.

Submetido em 29/04/2022

Aprovado em 14/07/2022

CADERNOS

38
CADERNOS

38

CARLOS MARCELO CAMPOS TEIXEIRA, RENATO VIZIOLI E RAFAEL ANTONIO CUNHA PERRONE

Utopias Tecnológicas, Estratégias e Realidades do Patrimônio


da Arquitetura Moderna Brasileira: Uma Análise Gráfica da
Habitação do Futuro Proposta pelo Arquiteto Eduardo Longo
Tech-Utopias, Strategies and Realities of the Modern Brazilian Architecture Heritage: A Graphic Analysis of
the House of the Future Proposed by Architect Eduardo Longo

Utopías Tecnológicas, Estrategias y Realidades del Patrimonio de la Arquitectura Moderna Brasileña: Un


Análisis Gráfico de la Vivienda del Futuro Propuesta por el Arquitecto Eduardo Longo
CARLOS MARCELO CAMPOS TEIXEIRA, RENATO VIZIOLI E RAFAEL ANTONIO CUNHA PERRONE

Utopias Tecnológicas, Estratégias e Realidades do Patrimônio da Arquitetura Moderna Brasileira: Uma Análise Gráfica da
99 Habitação do Futuro Proposta pelo Arquiteto Eduardo Longo
Tech-Utopias, Strategies and Realities of the Modern Brazilian Architecture Heritage: A Graphic Analysis of the House of the Future Proposed by
Architect Eduardo Longo
Utopías Tecnológicas, Estrategias y Realidades del Patrimonio de la Arquitectura Moderna Brasileña: Un Análisis Gráfico de la Vivienda del
Futuro Propuesta por el Arquitecto Eduardo Longo

Carlos Marcelo Campos Teixeira

Arquiteto e Urbanista com mestrado em arquitetura,


tem 31 anos de experiências criativas nos ramos de
Arte, Arquitetura e Design, atuando nas áreas de gestão,
estratégia & inovação, concepção e desenvolvimento
de produtos, ambientes e transportation (aeronaves).
Especialista em mercado de luxo, foi por 10 anos o Head
Designer da Embraer trabalhando em conjunto com
renomados escritórios como BMW DesignworksUSA na
California, Infusion Design em Kansas City, Priestman
Goode em Londres e VRDResearch no Brasil. Foi
membro do júri do Prêmio de Design do Museu da
Casa Brasileira em 3 edições. Ministrou disciplinas em
programas de graduação e pós-graduação do Senac,
IED e FAAP, onde coordenou o curso de Pós em Design
de Interiores em Gestão da Inovação. Atualmente é
Doutorando do Programa de Pós-Graduação Stricto
Sensu em Arquitetura e Urbanismo da Universidade
Presbiteriana Mackenzie, leciona nos cursos de
graduação em Arquitetura e Design da FAU Mackenzie
além de ser o Chefe de Inovação e Diretor Criativo do
Studio que leva seu nome.

Architect and Urbanist with master’s degree in architecture,


he has 31 years of creative experience in the areas of Art, Ar-
chitecture and Design, working with management, strategy
& innovation, design and development of products, environ-
ments, and transportation design (aircraft interior). Special-
ist in the luxury market, he was Embraer's Head Designer
for 10 years, working together with renowned offices such
as BMW DesignworksUSA in California, Infusion Design in
Kansas City, Priestman Goode in London and VRDResearch
in Brazil. He was a member of the juries for the Museu da
Casa Brasileira Design Award in 3 editions. He is professor
in undergraduate, graduate and master program at Senac,
IED and FAAP, where he coordinated the graduate program
in Interior Design Innovation Management. He currently is
PhD student in Architecture and Urbanism at Mackenzie
Presbyterian University, teaches in the undergraduation in
Architecture and Design at FAU Mackenzie, in addition to be-
ing the Head of Innovation and Creative Director of the Studio
Marcelo Teixeira.

Arquitecto y Urbanista, maestro en arquitectura, cuenta con


31 años de experiencia creativa en los campos del Arte, de
la Arquitectura y del Diseño, actuando en áreas de gestión,
estrategia e innovación, diseño y desarrollo de productos, am-
bientes y transporte (aviones). Especialista en el mercado de
lujo, fue Head Designer de Embraer durante 10 años traba-
jando junto con empresas de renombre como BMW Design-
worksUSA en California, Infusion Design en Kansas City,
Priestman Goode en Londres y VRDResearch en Brasil. Fue

CADERNOS

38
CARLOS MARCELO CAMPOS TEIXEIRA, RENATO VIZIOLI E RAFAEL ANTONIO CUNHA PERRONE

Utopias Tecnológicas, Estratégias e Realidades do Patrimônio da Arquitetura Moderna Brasileira: Uma Análise Gráfica da
100 Habitação do Futuro Proposta pelo Arquiteto Eduardo Longo
Tech-Utopias, Strategies and Realities of the Modern Brazilian Architecture Heritage: A Graphic Analysis of the House of the Future Proposed by
Architect Eduardo Longo
Utopías Tecnológicas, Estrategias y Realidades del Patrimonio de la Arquitectura Moderna Brasileña: Un Análisis Gráfico de la Vivienda del
Futuro Propuesta por el Arquitecto Eduardo Longo

miembro de los jurados del Premio de Diseño Museu da Casa


Brasileira en 3 ediciones. Impartió cursos de pregrado y pos-
grado en Senac, IED y FAAP y coordinó el Posgrado en Diseño
de Interiores y Gestión de La inovacíon. Actualmente es alum-
no de doctorado en el Programa de Postgrado en Arquitectura
y Urbanismo de la Universidade Presbiteriana Mackenzie,
profesor en los cursos de graduación en Arquitectura y Diseño
en la FAU Mackenzie, además de ser el Jefe de Innovación y
Director Creativo del Estudio que lleva su nombre.

[email protected]

Renato Vizioli

Arquiteto e Urbanista pela Universidade de São Paulo


(FAUUSP - 1991), é graduado em Engenharia Química
pela Universidade de São Paulo (1986), possui mestrado
(Poli USP - 2001) e doutorado (Poli USP - 2019). É professor
na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e Design
na Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor
convidado no Programa de Educação Continuada da
Poli e professor de Arquitetura e Urbanismo na UNICEP.

Architect and Urbanist from the University of São Paulo


(FAUUSP-1991), he has degree in Chemical Engineering from
the University of São Paulo (1986), a master's degree (Poli
USP - 2001) and PhD (Poli USP - 2019). He is a professor
at the Faculty of Architecture and Urbanism and Design at
Mackenzie Presbyterian University, a guest professor at the
Continuing Education Program at Poli and professor of Ar-
chitecture and Urbanism at UNICEP.

Arquitecto y Urbanista (FAUUSP, 1991) e Ingeniero Químico


por la Universidad de São Paulo (Poli USP, 1986), Maestría
(Poli USP, 2001) y Doctorado (Poli USP, 2019). Es profesor
de la Facultad de Arquitectura y Urbanismo y Diseño de la
Universidade Presbiteriana Mackenzie, profesor invitado del
Programa de Educación Continuada de la Escuela Politécnica
y profesor de Arquitectura y Urbanismo de UNICEP.

[email protected]

Rafael Antonio Cunha Perrone

Arquiteto e Urbanista pela Universidade de São Paulo


(FAUUSP, 1973), mestrado em Administração Pública e
Planejamento Urbano pela Fundação Getulio Vargas - SP
(1984), doutorado (FAUUSP, 1993) e livre docência (2008)
em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São
Paulo. É professor associado da Universidade de São
Paulo, professor adjunto da Universidade Presbiteriana
Mackenzie e consultor da FAPESP. Além da experiência
acadêmica, atua profissionalmente desenvolvendo

CADERNOS

38
CARLOS MARCELO CAMPOS TEIXEIRA, RENATO VIZIOLI E RAFAEL ANTONIO CUNHA PERRONE

Utopias Tecnológicas, Estratégias e Realidades do Patrimônio da Arquitetura Moderna Brasileira: Uma Análise Gráfica da
101 Habitação do Futuro Proposta pelo Arquiteto Eduardo Longo
Tech-Utopias, Strategies and Realities of the Modern Brazilian Architecture Heritage: A Graphic Analysis of the House of the Future Proposed by
Architect Eduardo Longo
Utopías Tecnológicas, Estrategias y Realidades del Patrimonio de la Arquitectura Moderna Brasileña: Un Análisis Gráfico de la Vivienda del
Futuro Propuesta por el Arquitecto Eduardo Longo

trabalhos na área de arquitetura. Recebeu diversas


premiações de projetos pelo Instituto de Arquitetos do
Brasil (1983,1987,1989, 1994, 1999, 2000, 2002, 2004, 2006).
Em 1999 recebeu o Prêmio Carlos Barjas Milan do IAB-SP,
em 2003 o Prêmio Votorantim da V Bienal Internacional
de Arquitetura de São Paulo e em 2006 o Prêmio do
Júri da XXX Bienal Latinoamericana de Arquitetura.
Foi membro de júris do Prêmio MOVESP, do Prêmio de
Design do Museu da Casa Brasileira e da premiação IAB-
SP (1987). Publicou os livros Fundamentos de Projeto:
Arquitetura e Urbanismo (2014, 2016) e o livro Os croquis
e os processos de projeto de arquitetura em 2018.

Architect and Urbanist from the University of São Paulo


(1973), a master’s degree in Public Administration and Ur-
ban Planning from the Getulio Vargas Foundation - SP (1984),
a PhD (1993) and a full professorship (2008) in Architecture
and Urbanism from the University of São Paulo. He is cur-
rently an associate professor at the University of São Paulo,
an adjunct professor at the Mackenzie Presbyterian Univer-
sity and a consultant at FAPESP. In addition to academic
experience, he works professionally developing works in the
field of architecture. He received several project awards from
the Instituto de Arquitetos do Brasil (1983, 1987, 1989, 1994,
1999, 2000, 2002, 2004, 2006). In 1999 he received the Carlos
Barjas Milan Prize from the IAB-SP, in 2003 the Votorantim
Prize at the V International Biennial of Architecture of São
Paulo and in 2006 the Jury Prize at the XXX Bienal Latino-
americana de Arquitetura. He was a member of the juries for
the MOVESP Award, the Museu da Casa Brasileira Design
Award and the IAB-SP award (1987). Author of books Funda-
mentos de Projeto: Arquitetura e Urbanismo (2014, 2016) and
the Os croquis e os Processos de Projeto de Arquitetura (2018).

Arquitecto y Urbanista (FAUUSP, 1973), Maestría en Admin-


istración Pública y Urbanismo (FGV SP, 1984), Doctorado
(FAUUSP, 1993) y Livre Docencia (FAUUSP, 2008). Profesor
asociado en la Universidad de São Paulo, profesor adjunto
en la Universidad Presbiteriana Mackenzie y consultor de
la FAPESP. Arquitecto premiado por el IAB – Instituto de Ar-
quitetos do Brasil (1983, 1987, 1989, 1994, 1999, 2000, 2002,
2004, 2006), recibió el Premio Carlos Barjas Milán (IAB-SP,
1999), el Premio Votorantim en la V Bienal Internacional de
Arquitectura de São Paulo (2003) y el Premio del Jurado en
la XXX Bienal Latinoamericana de Arquitectura (2006), en-
tre otros. Fue miembro de los jurados del Premio MOVESP,
del Premio de Diseño Museu da Casa Brasileira y del premio
IAB-SP (1987). Autor de los libros Fundamentos de Projeto:
Arquitetura e Urbanismo (2014, 2016) y Os croquis e os Pro-
cessos de Projeto de Arquitetura (2018).

[email protected]

CADERNOS

38
CARLOS MARCELO CAMPOS TEIXEIRA, RENATO VIZIOLI E RAFAEL ANTONIO CUNHA PERRONE

Utopias Tecnológicas, Estratégias e Realidades do Patrimônio da Arquitetura Moderna Brasileira: Uma Análise Gráfica da
102 Habitação do Futuro Proposta pelo Arquiteto Eduardo Longo
Tech-Utopias, Strategies and Realities of the Modern Brazilian Architecture Heritage: A Graphic Analysis of the House of the Future Proposed by
Architect Eduardo Longo
Utopías Tecnológicas, Estrategias y Realidades del Patrimonio de la Arquitectura Moderna Brasileña: Un Análisis Gráfico de la Vivienda del
Futuro Propuesta por el Arquitecto Eduardo Longo

Resumo
Este artigo trata da prospecção do futuro, mesmo que de forma utópica, no universo
da arquitetura e urbanismo. Uma série de profissionais a usaram como pano de fundo,
para experimentar suas criações e assim deixar um legado de soluções, de grande
teor inovativo, sempre inspirados na precisão e nos processos de desenvolvimento
tecnológico provenientes da indústria. O objetivo geral desse artigo, é investigar por
meio de análise gráfica, baseada nos diagramas criados pelos Professores Roger Clark e
Michel Pause, a estratégia e a abordagem projetual quanto a definição da espacialidade
do objeto arquitetônico, das chamadas “Habitações do Futuro”, propostas por dois
emblemáticos arquitetos, o americano Richard Buckminster Fuller e o brasileiro
Eduardo Longo, que de forma muito intensa, questionaram hábitos, valores e processos
e criaram a partir daí, ambientes muito particulares, envoltos em uma aura tecnológica.
Dentre uma série de outros projetos que antecipavam cenários, sinalizando utopias de
um futuro distante, foram escolhidos e analisados sequencialmente, a Casa Dymaxion
(1946) de Buckminster Fuller, localizada em Wichita, Estados Unidos e a Casa Bola (1974)
de Eduardo Longo, localizada em São Paulo, Brasil. Ambas propostas, embora diversas
no tempo e na utilização de recursos tecnológicos, trazem em seu DNA além de uma
sinergia formal entre si, um alto grau de provocação e ruptura com os paradigmas
instituídos na época, e por sua vez, tornaram-se expoentes de uma cultura de busca
por inovações de construtibilidades diversas, com finalidade específica de definição
de forma experimental, novos arranjos espaciais aplicáveis no âmbito da arquitetura
e urbanismo. Num primeiro momento, foram investigadas as possíveis intenções dos
arquitetos ao proporem os projetos supracitados, na perspectiva de visualizar qual teor
de seus discursos a cerca do futuro e que tipo de técnicas, tecnologias e processos,
haviam embarcado em suas propostas. Após uma análise cruzada das obras, que se
desenrolaram em épocas distintas, identificaram-se diferenças, quanto a limitações
de acesso na escolha e emprego de materiais, métodos e processos para viabilidade
e execução técnico-financeira dos empreendimentos; e similaridades, no processo
estratégico de pesquisa e difusão dos conceitos, além da investigação de recursos
formais para amparar o partido. Tal análise evidencia o importante papel do arquiteto
paulistano Eduardo Longo, no cenário mundial das vanguardas tecnológicas, pois
inspirado de certa forma pelas ideias de uma série de profissionais, elege Fuller como
referência, deixando assim, um legado, através de suas proposições que ainda hoje são
objetos de debate, no seleto acervo de patrimônio da Arquitetura Moderna Brasileira.

Palavras-chave: Utopias. Análise Gráfica. Casa Bola.

Abstract
This article deals with the prospect of the future, even if in a utopian way, in the universe of
architecture and urbanism. Several professionals used it as a backdrop to experiment with
their creations and thus leave a legacy of highly innovative solutions, always inspired by
precision and technological development processes from the industry. The general goal of this
article is to investigate, through graphic analysis, based on diagrams created by Professors
Roger Clark and Michel Pause, the strategy and design approach regarding the definition of
the spatiality of the architectural object, of the so-called "Housings of the Future", proposed
by two emblematic architects, the American Richard Buckminster Fuller and the Brazilian
Eduardo Longo, who very intensely questioned habits, values ​​and processes and created, from
there, very particular environments, wrapped in a technological aura. Among a series of other
projects that anticipated scenarios, signaling utopias of a distant future, the Dymaxion House
(1946) by Buckminster Fuller, located in Wichita, United States and the Casa Bola (1974) by
Eduardo Longo, located in São Paulo, Brazil. Both proposals, although different in time and

CADERNOS

38
CARLOS MARCELO CAMPOS TEIXEIRA, RENATO VIZIOLI E RAFAEL ANTONIO CUNHA PERRONE

Utopias Tecnológicas, Estratégias e Realidades do Patrimônio da Arquitetura Moderna Brasileira: Uma Análise Gráfica da
103 Habitação do Futuro Proposta pelo Arquiteto Eduardo Longo
Tech-Utopias, Strategies and Realities of the Modern Brazilian Architecture Heritage: A Graphic Analysis of the House of the Future Proposed by
Architect Eduardo Longo
Utopías Tecnológicas, Estrategias y Realidades del Patrimonio de la Arquitectura Moderna Brasileña: Un Análisis Gráfico de la Vivienda del
Futuro Propuesta por el Arquitecto Eduardo Longo

in the use of technological resources, bring in their DNA, in addition to a formal synergy
between them, a high degree of provocation and rupture with the paradigms established at
the time, and in turn, became exponents of a culture of search for innovations of diverse
constructibilities, with the specific purpose of defining in an experimental form, new spatial
arrangements applicable in the scope of architecture and urbanism. At first, the possible
intentions of the architects when proposing the projects were investigated, with a view to
visualizing the content of their discourses about the future and what type of techniques,
technologies and processes they had embarked on in their proposals. After a cross-analysis of
the works, which took place at different times, differences were identified in terms of access
limitations in the choice and use of materials, methods and processes for the feasibility
and technical-financial execution of the projects; and similarities, in the strategic process of
research and dissemination of concepts, in addition to the investigation of formal resources
to support the party. Such analysis highlights the important role of the São Paulo architect
Eduardo Longo, in the world scenario of technological vanguards, as inspired in a way by
the ideas of a series of professionals, he chooses Fuller as a reference, thus leaving a legacy,
through his propositions that still today are objects of debate, in the select collection of heritage
of Brazilian Modern Architecture.

Keywords: Utopias. Graphic Analysis. Ball House.

Resumen
Este artículo trata de la prospección de futuro, aunque sea de forma utópica, en el universo de
la arquitectura y del urbanismo. Una serie de profesionales la utilizaron como trasfondo, para
experimentar sus creaciones y así dejar un legado de soluciones, con un gran contenido in-
novador, siempre inspiradas en los procesos de precisión y desarrollo tecnológico de la industria.
El objetivo de este artículo es investigar, por intermedio del análisis gráfico, a partir de esque-
mas elaborados por los profesores Roger Clark y Michel Pause, la estrategia y el planteamiento
proyectual en cuanto a la definición de la espacialidad del objeto arquitectónico, de las denomi-
nadas "Viviendas del Futuro”, propuesta por dos arquitectos emblemáticos, el estadounidense
Richard Buckminster Fuller y el brasileño Eduardo Longo, quienes cuestionaron muy intensa-
mente hábitos, valores y procesos y crearon, a partir de ahí, ambientes muy particulares, en-
vueltos en un aura tecnológica. Entre una serie de otros proyectos que anticiparon escenarios,
señalando utopías de un futuro lejano, se escogieron y analizaron secuencialmente la Casa
Dymaxion (1946) de Buckminster Fuller, ubicada en Wichita, Estados Unidos y la Casa Bola
(1974) de Eduardo Longo, ubicado en Sao Paulo, Brasil. Ambas propuestas, aunque diferentes
en el tiempo y en el uso de los recursos tecnológicos, traen en su ADN, además de una sinergia
formal entre ellas, un alto grado de provocación y ruptura con los paradigmas establecidos en
su momento y, a su vez, se convirtieron en exponentes de una cultura de búsqueda de innova-
ciones de diferentes constructividades, con el propósito específico de definir experimentalmente
nuevos arreglos espaciales aplicables en el ámbito de la arquitectura y del urbanismo. En un
primer momento, se indagaron las posibles intenciones de los arquitectos al plantear los proyec-
tos mencionados, con el fin de visualizar el contenido de sus discursos sobre el futuro y qué tipo
de técnicas, tecnologías y procesos habían emprendido en sus propuestas. Luego del análisis
cruzado de las obras, se identificaron diferencias en cuanto a limitaciones de acceso a la elección
y uso de materiales, métodos y procesos para la factibilidad y ejecución técnico-económica de los
proyectos; y similitudes, tanto en el proceso estratégico de investigación y difusión de conceptos,
como en la investigación de recursos formales de apoyo al partido arquitectónico. Tal análisis de-
staca el importante papel del arquitecto paulista Eduardo Longo en el escenario mundial de las
vanguardias tecnológicas pues, inspirado por las ideas de distintos profesionales, elige a Fuller
como referencia, dejando así un legado, a través de su proposiciones que aún hoy son objeto de
debate, en el selecto acervo del patrimonio de la Arquitectura Moderna Brasileña.

Palabras clave: Utopías. Análisis Gráfico. Casa Bola.

CADERNOS

38
CARLOS MARCELO CAMPOS TEIXEIRA, RENATO VIZIOLI E RAFAEL ANTONIO CUNHA PERRONE

Utopias Tecnológicas, Estratégias e Realidades do Patrimônio da Arquitetura Moderna Brasileira: Uma Análise Gráfica da
104 Habitação do Futuro Proposta pelo Arquiteto Eduardo Longo
Tech-Utopias, Strategies and Realities of the Modern Brazilian Architecture Heritage: A Graphic Analysis of the House of the Future Proposed by
Architect Eduardo Longo
Utopías Tecnológicas, Estrategias y Realidades del Patrimonio de la Arquitectura Moderna Brasileña: Un Análisis Gráfico de la Vivienda del
Futuro Propuesta por el Arquitecto Eduardo Longo

Introdução
De onde vem o interesse dos arquitetos em prospectarem o futuro por meio de
projetos disruptivos para a sua época? O que os levou a romper com o status quo,
desenvolvendo assim um novo modus operandi de pesquisa e desenvolvimento para a
arquitetura?

São questionamentos como esses que geraram um interesse primário de investigação


nos projetos que carregaram em si, uma abordagem especulativa a respeito de um
futuro, de certa forma utópico, em termos do emprego de novos materiais e novos
processos de cunho tecnológico, mas que se tornaram grandes exemplares de uma
arquitetura futurista, agora não mais como um estilo formado no início do século XX,
pelo manifesto do futurismo de Marinetti1, mas com uma abordagem arquitetônica
leve e diferente de tudo o que se havia feito até então.

Berardi (2019) apresenta em sua obra Depois do Futuro, o mesmo questionamento a


respeito dessa efervescência proposta e vivida no século XX, onde segundo ele,

foi movida pela energia utópica proveniente das vanguardas culturais, artísticas e
políticas. Essa energia se esgotou? Por quê? Tudo parece ter sido virado pelo avesso,
talvez pelo excesso de velocidade, o no futuro vemos as sombras de um passado que
acreditávamos estar enterrado. (BERARDI, 2019, p.11)

Para Teixeira (2004), é fato que,

a discussão tecnológica no campo da arquitetura eclodiu literalmente entre as


décadas de 1950 e 1970, onde alguns pensadores vislumbraram, mesmo que de
forma utópica, uma mudança paradigmática em seu conceito, devido à incorporação
das novas tecnologias ao ato de habitar e de produzir espaços. Eles fundamentavam
que, com o advento de novos materiais, ferramentas e técnicas de construção, a
arquitetura poderia ser executada similarmente a qualquer outro objeto de consumo,
integrando-se totalmente às leis da fabricação seriada e alcançando dessa forma, a
perfeição de encaixes presentes nos produtos industriais. (TEIXEIRA, 2003. p. IV)

Com isso, o ideário de uma arquitetura leve, descartável, substituível e transportável


assume sua forma contemporânea.

Influenciados pela crença na alta tecnologia, até então disseminada pela obra de
Buckminster Fuller2 uma série de arquitetos se encantaram com tais ações se tornando
fiéis adeptos a essa vertente. Prova disso é quando Montaner em seu livro Depois do
Movimento Moderno de Arquitetura, na Segunda Metade do Século XX, identifica que
os projetos apresentados, de forma fantasiosa, pelo grupo inglês Archigram liderado
por Peter Cook, vislumbravam incorporar a alta tecnologia, ao ato de habitar, por meio
de um sistema de cápsulas adaptáveis (plug-in city), abrindo, com suas conjecturas, o
campo propositivo a uma mobilidade exacerbada, se tornando uma continuidade das
ideias radicais de inovação tecnológica, defendida por Fuller no final dos anos 1920.

1 “Em 20 de fevereiro de 1909, Filippo Tommaso Marinetti publicou no jornal parisiense Le Figaro o primeiro
Manifesto Futurista. Podemos considerar esse texto, a primeira declaração consciente de um movimento que,
nas décadas seguintes, se espalharia pela Europa com o nome de vanguarda. Podemos considerá-lo também,
em certo sentido, o primeiro ato consciente do século que acreditou no futuro. O século XX, linha de chegada
e realização das promessas da modernidade, começa realmente quando os futuristas bradam com arrogân-
cia o advento do reino da máquina, da velocidade e da guerra.” Trecho extraído do livro Depois do Futuro, de
Franco Berardi, 2019. p.13.

2 Nascido em Massachusetts, Estados Unidos, em 1895, Richard Buckminster Fuller, foi pensador, inventor,
arquiteto, professor, filósofo, poeta, cientista, futurista, e grande influenciador até os dias de hoje.

CADERNOS

38
CARLOS MARCELO CAMPOS TEIXEIRA, RENATO VIZIOLI E RAFAEL ANTONIO CUNHA PERRONE

Utopias Tecnológicas, Estratégias e Realidades do Patrimônio da Arquitetura Moderna Brasileira: Uma Análise Gráfica da
105 Habitação do Futuro Proposta pelo Arquiteto Eduardo Longo
Tech-Utopias, Strategies and Realities of the Modern Brazilian Architecture Heritage: A Graphic Analysis of the House of the Future Proposed by
Architect Eduardo Longo
Utopías Tecnológicas, Estrategias y Realidades del Patrimonio de la Arquitectura Moderna Brasileña: Un Análisis Gráfico de la Vivienda del
Futuro Propuesta por el Arquitecto Eduardo Longo

Outra personalidade que externou suas ideias sobre os rumos da arquitetura


moderna, bem como sobre a organização dos espaços, vislumbrando um futuro
repleto de estreitas relações entre ela e a alta tecnologia, produto-chave da indústria,
foi o arquiteto francês Le Corbusier. Ele além de escrever o livro Por uma Arquitetura
no qual fez uma série de considerações e proposições para a arquitetura moderna,
conceituou a casa como uma máquina de morar, depois de questionar o atual
processo de desenvolvimento da arquitetura e propor uma produção futura embasada
em conceitos advindos da indústria:

[...] depois de se ter produzido nas fábricas tantos canhões, aviões, caminhões,
vagões, dizemo-nos: não poderia fabricar casas? [...] Se arrancarmos do coração e
do espírito os conceitos imóveis da casa, e se encararmos a questão de um ponto
de vista crítico e objetivo, chegaremos à casa-instrumento, casa em série acessível
a todos, incomparavelmente mais sadia que a antiga (moralmente também) e bela
pela estética dos instrumentos de trabalho que acompanham nossa existência.
(CORBUSIER, 1981, p. 160-166)

No Brasil, o arquiteto Eduardo Longo, com seu vasto repertório de influências


internacionais, após ter tido um contato com Fuller, em sua vinda à São Paulo em
meados da década de 1970, tornou-se um grande adepto da contracultura e um
entusiasta dos conceitos do difusor das cúpulas geodésicas.

Os apontamentos de Serapião, (2013) revelam que:

... a inspiração, entretanto, não estava na natureza, mas sim na confiança na alta
tecnologia e no futuro: esse tipo de produção, tal como a segunda fase da obra
de Longo, estava ancorada na contracultura. Esses profissionais – entre os quais
alguns dos mais inteligentes projetistas da época - produziram arquitetura como
manifestação artística sem compromisso com a realidade. Ou seja, abandonaram
a prática profissional tradicional e entregaram-se a projetos como forma de arte.
(SERAPIÃO, 2013 p.106).

Em suma, com o intuito de decifrar as relações e contrapontos desses projetos


inovadores, que ainda hoje são objeto de debate e que tornaram seus idealizadores
expoentes da cultura de alta tecnologia, o corrente artigo apresentará a análise gráfica
de dois emblemáticos projetos desenvolvido entre os anos de 1946 e 1979, a Casa
Dymaxion de Buckminster Fuller, localizada em Wichita, Estados Unidos e a Casa Bola
de Eduardo Longo, localizada em São Paulo, Brasil.

Possíveis Interpretações da Obra de Fuller


Como citado anteriormente, muito dessa inquietação e crença na temática do futuro,
nasce da influência direta dos conceitos difundidos por Fuller. Como um visionário,
rompeu os paradigmas de sua época, reforçando na Arquitetura o pensamento de
racionalidade produtiva, emprego de novas tecnologias e materiais, produção em larga
escala e precisão dimensional, valores bem próximos àqueles praticados na indústria.
Seu interesse em pesquisa, tanto de novos materiais quanto processos, viabilizou seu
legado, uma verdadeira revolução técnica-cientifica que marcou a visão de parte de
uma geração de profissionais.

Fuller fez uso de análise experimental em modelos reduzidos para validar seus
conceitos. Primeiramente analisando a forma e volumetria, e posteriormente
validando a eficiência e desempenho do produto.

CADERNOS

38
CARLOS MARCELO CAMPOS TEIXEIRA, RENATO VIZIOLI E RAFAEL ANTONIO CUNHA PERRONE

Utopias Tecnológicas, Estratégias e Realidades do Patrimônio da Arquitetura Moderna Brasileira: Uma Análise Gráfica da
106 Habitação do Futuro Proposta pelo Arquiteto Eduardo Longo
Tech-Utopias, Strategies and Realities of the Modern Brazilian Architecture Heritage: A Graphic Analysis of the House of the Future Proposed by
Architect Eduardo Longo
Utopías Tecnológicas, Estrategias y Realidades del Patrimonio de la Arquitectura Moderna Brasileña: Un Análisis Gráfico de la Vivienda del
Futuro Propuesta por el Arquitecto Eduardo Longo

Fuller não tinha a menor preocupação com as particularidades de nenhum contexto e


projetou sua casa como se ela fosse um protótipo para a produção em série. Hexagonal
em plantas e comprida entre duas plataformas ocas, era suspensa e triangulada,
segundo o princípio da roda de arame, a partir de um mastro central. (FRAMPTON,
2000 p.290.)

Um dos grandes exemplos de seu portfólio futurístico é o conceito da 4-D Casa


Dymaxion3, uma casa pré-fabricada, executada de forma econômica, com materiais
leves, cerca de 3.000 libras (1.360kg), com a ideia de ser produzida industrialmente e
que pudesse ser comercializada como os automóveis da época. Seu desenho marcante
e layout fora dos padrões, tinham como objetivo principal, facilitar o transporte e a
montagem dos kits, adequando-se a qualquer terreno. Modelo totalmente oposto ao
disponível até então, pois as casas eram caras, imóveis, às vezes insalubres e exigiam
quantidades consideráveis de mão de obra, materiais e capital para serem construídas.

Fabricada com materiais utilizados na indústria automobilística e aeronáutica,


e acolhendo um programa composto de dois quartos, sala de jantar, sala de estar,
biblioteca e cozinha com área de preparo e de armazenamento com prateleiras
giratórias exclusivas projetadas por Bucky. A Casa Dinâmica apresentava um auto
rigor de precisão e grande potencial tecnológico representado na figura 01, como
descreve Fracalossi (2013):

Um pilar hexagonal central sustenta toda a casa. [...] A casa desenvolve-se no


segundo piso como uma expansão da forma do pilar hexagonal. Surgem ambientes
trapezoidais e romboidais. Toda a configuração do edifício surge de um módulo de
triângulo equilátero. O material escolhido para concretizar o projeto foi o alumínio.
Leveza física e visual, aptidão à reciclagem, eficiência de montagem são as
características que levaram a essa decisão. O pilar hexagonal é elevador de acesso
ao nível superior, caixa d'água, iluminação indireta através de refletores, renovador
e climatizador de ar, núcleo de instalações. [...] Este é o princípio Dymaxion de fazer
muito mais com menos peso. (FRACALOSSI, 2013)

FIGURA 1 – Imagens da casa e


banheiro Dymaxion

Fonte: FRACALOSSI, Igor.


"Clássicos da Arquitetura:
Casa Dymaxion 4D /
Buckminster Fuller"
[AD Classics: The
Dymaxion House /
Buckminster Fuller] 29
Mai 2013. ArchDaily Brasil.
Acessado 24 Nov 2021.
<https://www.archdaily.
com.br/br/01-130267/
classicos-da-arquitetura-
casa-dymaxion-4d-slash-
buckminster-fuller> ISSN
0719-8906

3 A palavra dymaxion foi cunhada por um profissional de publicidade em uma loja de departamentos onde
Bucky estava mostrando um modelo de sua casa proposta. A palavra foi criada combinando partes das pala-
vras dynamic (DY), maximum (MAX) e tension (ION), que eram três das palavras favoritas de Bucky.

CADERNOS

38
CARLOS MARCELO CAMPOS TEIXEIRA, RENATO VIZIOLI E RAFAEL ANTONIO CUNHA PERRONE

Utopias Tecnológicas, Estratégias e Realidades do Patrimônio da Arquitetura Moderna Brasileira: Uma Análise Gráfica da
107 Habitação do Futuro Proposta pelo Arquiteto Eduardo Longo
Tech-Utopias, Strategies and Realities of the Modern Brazilian Architecture Heritage: A Graphic Analysis of the House of the Future Proposed by
Architect Eduardo Longo
Utopías Tecnológicas, Estrategias y Realidades del Patrimonio de la Arquitectura Moderna Brasileña: Un Análisis Gráfico de la Vivienda del
Futuro Propuesta por el Arquitecto Eduardo Longo

Conforme conceituou Verschleisser (2008), a habitação era um projeto radical, que


apresentava inovações disruptivas para a época podendo ser visualizadas na figura 01.

O banheiro era todo montado na fábrica, o que incluía as tubulações, e simplesmente


pendurado no seu local dentro da casa. O piso era composto por duas camadas de cabos
tensionados tendo, entre eles, um colchão pneumático e, sobre eles, placas sólidas que
compunham o assoalho. A casa Dymaxion foi pensada para ser aerotransportada
para qualquer lugar do Planeta. (VERSCHLEISSER, 2008, p.95)

Após sua primeira proposição conceitual da Casa Dymaxion, em 1927, Fuller inicia o
desenvolvimento das Unidades Dymaxion, a partir da década de 1940, suas verdadeiras
versões das máquinas de morar pré-fabricadas. No ano de 1946, uma indústria
americana de aeronaves4 , aceita fabricar uma versão simplificada da Casa Dymaxion
em Wichita, Kansas. Concebida dentro das mesmas técnicas de desenvolvimento de
ferramental, materiais e montagem das peças de uma aeronave, conforme mostra a
[figura 02], a “Wichita House”, era formada pelos tubos de aço, o mastro de 6,60 metros
de altura que suportava o peso da casa e mais o equivalente a 120 pessoas em seu
interior.

FIGURA 2 – Imagens do A Dymaxion House não entrou em fase de produção e distribuição porque alguns
interior e do exterior da Casa aspectos do projeto não foram solucionados, tanto do ponto de vista de Fuller quanto
Dymaxion Wichita.
do fabricante. Ambos os protótipos foram adquiridos pelo investidor William Graham5.
Fonte: FRACALOSSI, Igor. Em 1991, a família doou a casa com todos os componentes sobressalentes originais
"Clássicos da Arquitetura: para o Museu Henry Ford em Dearborn, Michigan, que atualmente exibe a versão
Casa Dymaxion 4D /
inicial totalmente restaurada.
Buckminster Fuller"
[AD Classics: The
Dymaxion House /
Buckminster Fuller] 29
Mai 2013. ArchDaily Brasil.
Acessado 24 Nov 2021. 4 Dymaxion Wichita House, “deveria ser produzida em massa pela Beech Aircraft Factory em Wichita, Kansas.
No coração da economia americana do pós-guerra em expansão, a fábrica esperava entrar no mercado imo-
<https://www.archdaily. biliário com os planos de produzir 60.000 unidades por ano. Apenas dois protótipos foram produzidos antes
com.br/br/01-130267/ que a empresa decidisse encerrar o projeto, convencida de que o público ainda não estava pronto para habitar
classicos-da-arquitetura- um objeto semelhante a uma máquina...” (KAAL, 2008. Nossa tradução de http://sebastiaankaal.nl)
casa-dymaxion-4d-slash- 5 Em 1948, William Graham, comprou os dois protótipos Dymaxion por US$ 2.000. Ele os remendou para criar
buckminster-fuller> ISSN uma casa de dois andares fora de Wichita para sua família, acrescentando uma ala convencional, isolamento
0719-89060719-8906 e ar-condicionado. Ele instalou um ventilador menor, enraizou a casa em uma base sólida e dispensou a
maioria das partes móveis – exatamente como os engenheiros pediram. (WEBB, 2001. Nossa tradução de
https://www.nytimes.com)

CADERNOS

38
CARLOS MARCELO CAMPOS TEIXEIRA, RENATO VIZIOLI E RAFAEL ANTONIO CUNHA PERRONE

Utopias Tecnológicas, Estratégias e Realidades do Patrimônio da Arquitetura Moderna Brasileira: Uma Análise Gráfica da
108 Habitação do Futuro Proposta pelo Arquiteto Eduardo Longo
Tech-Utopias, Strategies and Realities of the Modern Brazilian Architecture Heritage: A Graphic Analysis of the House of the Future Proposed by
Architect Eduardo Longo
Utopías Tecnológicas, Estrategias y Realidades del Patrimonio de la Arquitectura Moderna Brasileña: Un Análisis Gráfico de la Vivienda del
Futuro Propuesta por el Arquitecto Eduardo Longo

Eduardo Longo e a Casa Bola: Análise e


Resultados Obtidos
Formado na Universidade Presbiteriana Mackenzie, na década de 1966, Eduardo
Longo passou por um período de muito questionamento interior a respeito de seus
ideais profissionais, e por suas reflexões, resolveu romper com padrões tradicionais
e mergulhar no conceito de contracultura. O arquiteto, declarou em uma entrevista,
concedida a Carranza em 2001, que se interessava pelas ideias dos metabolistas
japoneses, dos ingleses do grupo Archigram, pelas malhas suspensas de Yona
Friedman, e principalmente pelas ousadias tecnocráticas do norte-americano
Buckminster Fuller.

Como pode ser observado na figura 03, seu processo de projeto sempre esteve muito
vinculado a representação gráfica de ideias por meio de desenhos. Faz uso intensivo
do croqui, em busca de soluções durante o desenvolvimento, combinando a precisão
dos detalhes técnicos, presentes nas ilustrações com uma forma bem-humorada de
humanizar os espaços representando seus ocupantes.

FIGURA 3 – Croquis da Casa Pensando em novos materiais e process