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Impacto Psicológico da Internação Prolongada

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Catiele Reis
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE

PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA

COORDENAÇÃO DE PESQUISA

HOSPITAL UNIVERSITÁRIO DE SERGIPE

RICHARD ALEXANDRE NUNES

EXPERIÊNCIAS DE PACIENTES EM INTERNAÇÃO PROLONGADA

ARACAJU

2024
RICHARD ALEXANDRE NUNES

EXPERIÊNCIAS DE PACIENTES EM INTERNAÇÃO PROLONGADA

Trabalho de Conclusão da Residência


Multiprofissional no Programa de Atenção à Saúde
do Adulto e Idoso da Universidade Federal de
Sergipe (UFS).

Orientador: Walter Lisboa Oliveira

Coorientadora: Fernanda Cristina Nunes Simião.

ARACAJU

2024
O Trabalho de Conclusão da Residência (TCR) corresponde a um dos requisitos para conclusão
da especialização no programa de Saúde do Adulto e do Idoso (SAI) vinculado ao Hospital
Universitário de Sergipe (HU-UFS) e é realizado pelo residente, sob orientação docente, de
acordo com as normas estabelecidas na instrução normativa n° 01/21.

Após a defesa, esse trabalho será submetido à Revista Psicologia e Saúde (ISSN 2177-093X).
Resumo

Esta pesquisa objetivou compreender o impacto psicológico em pacientes com internação


prolongada. Participaram 10 pacientes maiores de idade, hospitalizados no Hospital
Universitário de Sergipe, Brasil. No método, foram utilizados como instrumentos um
questionário sociodemográfico e clínico e um roteiro de entrevista semiestruturada. As
entrevistas foram transcritas na íntegra e seu conteúdo foi analisado por meio do programa
IRAMUTEQ, através do qual se obtiveram classes de léxicos que, quando agrupados,
revelaram alguns aspectos referentes às experiências de pacientes em internação prolongada.
Dentre os resultados, os participantes apontaram para a importância: dos sistemas de apoio
diante das mudanças físicas e emocionais ocorridas durante o tratamento; de se considerar os
antecedentes psicológicos e psiquiátricos numa hospitalização; e do acolhimento e apoio dos
profissionais da saúde envolvidos no processo de internação, evidenciando-se o apoio
psicológico nesse contexto. A partir desses resultados, reafirma-se a relevância das relações de
suporte, tanto por parte dos profissionais, quanto da rede de apoio, no favorecimento da
adaptação ao ambiente hospitalar e na promoção do bem-estar e da saúde durante o
tratamento.

Palavras-chave: Hospitalização; Tempo de Internação; Intervenção Psicológica; Qualidade da


Assistência à Saúde.

Abstract
This research aimed to understand the psychological impact on patients with prolonged
hospitalization. Ten adult patients hospitalized at the University Hospital of Sergipe, Brazil,
participated in the study. The method involved the use of a sociodemographic and clinical
questionnaire and a semi-structured interview. The interviews were fully transcribed, and their
content was analyzed using the IRAMUTEQ program, which generated lexical classes that,
when grouped, revealed the experiences of patients with prolonged hospitalization.
Participants emphasized the importance of support systems in coping with the physical and
emotional changes during treatment, the relevance of considering psychological and
psychiatric backgrounds in hospitalization, and the significance of receiving support and
empathy from healthcare professionals involved in the hospitalization process. The results
reaffirm the importance of supportive relationships, both from professionals and the support
network, in facilitating adaptation to the hospital environment and promoting well-being and
health during treatment.
Keywords: Prolonged Hospitalization; Hospital stay; Psychosocial Intervention; Quality of
health care.
Experiências De Pacientes Em Internação Prolongada

No cenário complexo dos corredores hospitalares, em meio à esperança e incertezas, a

internação emerge como um momento singular na vida dos pacientes, marcado por diversas

experiências relacionadas a seus diagnósticos e tratamentos (Miranda et al., 2019). A

internação hospitalar é frequentemente necessária para estabilizar o quadro clínico dos

pacientes, visando identificar os problemas de saúde subjacentes e estabelecer planos de

cuidados para promover a saúde e permitir a alta hospitalar. Contudo, a duração do tempo de

internação não apenas reflete a eficiência do cuidado prestado, mas também pode influenciar

as condições psicológicas dos pacientes, especialmente quando se trata de internações

prolongadas (Khan, 2023).

O tempo de permanência hospitalar é considerado um indicador crucial de eficiência e

efetividade nos cuidados de saúde, conforme apontado por Silva et al. (2014). Os fatores que

podem prolongar o tempo de internação hospitalar são diversos, abrangendo características

como idade, gênero, condição clínica dos pacientes, diagnóstico, assistência prestada, e

disponibilidade de recursos no hospital. Há aspectos suscetíveis a aprimoramento, como os

procedimentos institucionais e a disponibilidade de recursos, que abrangem situações como,

por exemplo, o cancelamento ou atraso de cirurgias e demais procedimentos, e demora na

condução e entrega de resultados de exames diagnósticos (Silva et. al., 2014).

Durante um período prolongado de hospitalização, surgem diversos fatores de risco

que podem comprometer a saúde e o bem-estar do paciente. Um dos principais desafios é a

exposição a riscos evitáveis, destacando-se a ameaça de infecções hospitalares. Além disso, a

qualidade da assistência pode ser prejudicada quando influenciada pelas características

individuais e pela procedência do paciente, impactando negativamente na eficácia dos

cuidados proporcionados. Nesse cenário, não apenas a saúde do paciente, mas também o

aumento dos custos associados ao tempo de hospitalização, torna-se uma preocupação


significativa, juntamente com o potencial aumento da morbidade e mortalidade (Bahlis et al.,

2014).

Além dos custos e dos desafios médicos, a convivência prolongada com o ambiente

hospitalar, as limitações físicas decorrentes do tratamento, o afastamento do convívio familiar

e da comunidade e a incerteza sobre o futuro estão entre os fatores que podem impactar

significativamente na experiência dos pacientes (Júnior et al., 2021).

A depressão pode surgir como uma consequência significativa da hospitalização

prolongada, sendo influenciada por uma variedade de fatores, como dor crônica, restrições

físicas, isolamento social e a necessidade de apoio emocional. Estudos demonstram que o

prolongamento da hospitalização pode intensificar as emoções dos pacientes, resultando em

um aumento nos sentimentos de depressão e ansiedade (Silva et. al., 2018). Além disso, há a

possibilidade de desenvolvimento de condições como a Síndrome Pós-Hospitalar e o

Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), que podem persistir mesmo após a alta

hospitalar e impactar negativamente a qualidade de vida dos pacientes (Alzahrani, 2021;

Krumholz, 2013; Chang, 2019).

Nesse sentido, de acordo com estudo conduzido em uma enfermaria de clínica médica

do Hospital das Clínicas (HC) da Unicamp, as reações de ajustamento são comuns entre

pacientes internados no ambiente hospitalar geral. Dos 78 pacientes internados

consecutivamente, 31 (39%) manifestaram sintomas de ansiedade e/ou depressão em níveis

que demandariam intervenção específica (Botega, 2012).

Destaca-se, ainda, que o sofrimento psíquico pode surgir em pacientes com internação

prolongada, o que evidencia a importância de um suporte emocional e social adequado para

evitar transtornos psicológicos que possam retardar e/ou prejudicar o processo de recuperação

e a alta hospitalar (Silva et. al., 2018).


Outrossim, ressalta-se que a compreensão da experiência dos pacientes que estão

nessas condições torna-se crucial para o desenvolvimento de estratégias de intervenções

psicológicas que possam promover bem-estar e saúde mental. Diante desse panorama, o

objetivo dessa pesquisa foi compreender a experiência de pacientes com internação

prolongada no Hospital Universitário de Sergipe, de modo a identificar os fenômenos e

sentimentos vivenciados por eles e seus recursos de enfretamentos diante desse cenário.

Método

Participantes

Participaram dessa pesquisa 10 pacientes de qualquer gênero, maiores de idade,

hospitalizados no Hospital Universitário da Universidade Federal de Sergipe (HU-UFS).

Foram adotados como critérios de inclusão: a) ter mais de 18 anos; e b) estar internado há

mais de sete dias, o que, para essa pesquisa, se caracteriza como uma internação prolongada; e

como critérios de exclusão: a) pacientes que não estejam contactantes (devido à sua condição

clínica); e b) pacientes admitidos há menos de uma semana. A determinação do tamanho da

amostra seguiu o critério de saturação, de modo que a inclusão de novos participantes foi

interrompida no momento em que as respostas coletadas começaram a apresentar repetições

ou redundâncias (Fontanella et al., 2008).

Instrumentos

Questionário sociodemográfico e clínico

O pesquisador elaborou um questionário sociodemográfico e clínico abordando as

seguintes variáveis: nome, idade, gênero, estado civil/situação conjugal, presença de filhos,

ocupação, setor/clínica de atendimento, histórico de internações prévias, diagnóstico e tempo

de internação.

Roteiro de entrevista semiestruturada


A entrevista semiestruturada proporciona uma interação mais próxima entre o

pesquisador e o participante da pesquisa, permitindo uma investigação aprofundada de

saberes, crenças, representações e valores relacionados ao fenômeno estudado (Laville e

Dionne, 1999).

A partir dessa premissa, o pesquisador elaborou um roteiro da entrevista com 12

perguntas voltadas para a exploração da experiência dos pacientes diante da hospitalização

prolongada e das possíveis repercussões emocionais decorrentes do período de internação.

Procedimentos

O pesquisador, que desempenha o papel de psicólogo no HU-UFS (instituição onde a

pesquisa foi realizada) e possui acesso ao sistema de prontuários, inicialmente, explorou os

registros ativos no sistema para identificar pacientes hospitalizados por sete dias ou mais, já

que esse era um dos critérios de inclusão dessa pesquisa.

Após essa identificação inicial, os pacientes (possíveis participantes da pesquisa)

foram abordados em seus leitos e convidados a participar da pesquisa em um horário que

houvesse privacidade no setor, excluindo a presença de acompanhantes e/ou familiares.

Todos os pacientes que aceitaram participar da pesquisa manifestaram seu

consentimento mediante a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido

(TCLE). A realização das entrevistas foi iniciada somente após a aprovação do Comitê de

Ética em Pesquisa (Parecer n. 6.133.427).

As entrevistas foram gravadas com a autorização dos participantes e, posteriormente,

transcritas em sua totalidade pelo pesquisador para posterior análise. Cada entrevista durou

em média 15 minutos, a mais longa durou 20 minutos e a mais curta 9 minutos.

Análise de dados

Os dados sociodemográficos e clínicos foram analisados descritivamente considerando

as médias e frequências. Os dados da entrevista compuseram um corpus que foi analisado


através do programa Interface de R pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de

Questionnaires (Iramuteq), método informatizado para análise de textos que busca apreender

a estrutura e a organização do discurso, avaliando o conteúdo verbal e informando as relações

entre os mundos lexicais mais frequentemente enunciados pelos participantes da pesquisa e

oferecendo caminhos para serem percorridos durante a análise dos dados (Salviati, 2017).

Para este estudo, foi empregada a análise por Classificação Hierárquica Descendente

(CHD), permitindo a organização das classes geradoras de sentido em um dendrograma com

base em suas semelhanças e frequências. Foi utilizada também a Análise de Especificidade,

que estabelece associações diretas entre os textos do banco de dados e as variáveis descritivas

para cada participante.

Essa abordagem possibilita a análise da produção textual com base em características

específicas. Trata-se de uma análise de contrastes, em que o corpus é subdividido conforme

uma variável selecionada pelo pesquisador (Camargo e Justo, 2013). Nesse trabalho, a

amostra foi analisada a partir da variável gênero (masculino e feminino) e da variável situação

conjugal, dividida em pessoas com relacionamento (casado, namorando) e pessoas solteiras.

Resultados

Perfil Amostral

A Tabela 1 apresenta os dados do perfil sociodemográfico e clínico da amostra

composta por 10 pacientes, com média de idade em torno de 33,4 anos (Desvio Padrão [DP]

=16,09), sendo a idade mínima 18 anos e a máxima 63 anos. Metade dos participantes estava

em uma relação conjugal (casado ou namorando) (n = 5), enquanto os demais estavam

solteiros ou divorciados (n = 5). Quanto à escolaridade, 5 (cinco) participantes possuem

ensino fundamental completo ou incompleto, 3 (três) possuem ensino médio completo ou

incompleto e 2 (dois) possuem superior incompleto. Em relação aos acompanhantes, 3 (três)

pacientes estavam com seus cônjuges, 3 (três) estavam acompanhados pela mãe, 3 (três)
estavam sem acompanhantes e 1 (uma) participante estava acompanhada do filho. O tempo

médio de internação dos participantes foi de 33 dias, variando de 20 a 55 dias. Metade dos

participantes possuem antecedentes psicológicos e/ou psiquiátricos (n = 5), enquanto os

demais não possuem histórico de acompanhamento em saúde mental. A maioria dos

participantes possui histórico de internações hospitalares prévias (n = 6) e os demais estavam

internados pela primeira vez.

Tabela 1
Perfil sociodemográfico e clínico dos participantes

N. Idade Situação Relação com Tempo total


Escolaridade
Part. (gênero) Conjugal acompanhante (dias)
1 55 (m) Casado Fundamental Completo Esposa 35
2 19 (f) Solteira Médio Incompleto sem acompanhante 28
3 29 (f) Divorciada Médio Completo sem acompanhante 26
4 33 (m) Casado Fundamental Incompleto Esposa 55
5 31 (m) Casado Fundamental Incompleto sem acompanhante 23
6 46 (f) Solteira Fundamental Completo Mãe 26
7 18 (f) Solteira Superior Incompleto Mãe 41
8 63 (f) Divorciada Fundamental Completo Filho 50
9 20 (f) Casada Médio Incompleto Esposo 20
10 20 (f) Namorando Superior Incompleto Mãe 22
Fonte: Autoria própria.

Análise de Conteúdo

O corpus analisado teve 10 Unidades de Contexto Iniciais (entrevistas)que foram

inseridas no programa IRAMUTEQ, resultando em 319 segmentos de texto (ST), com

aproveitamento de 261 ST (81,82%). Foram registradas 1559 ocorrências com 11070 formas

distintas. O dendrograma gerado pelo programa a partir das semelhanças dos segmentos de

texto (Figura 1) apresentou 6 (seis) classes de segmentos de texto: classe 1 (Ajustamento à

internação); classe 2 (Interrupção do cotidiano e dos aspectos da vida); classe 3 (Impacto da

hospitalização); classe 4 (Desafios do adoecimento); classe 5 (Estratégias de Enfrentamento);

e classe 6 (Mudanças nas expectativas).


Além desse dendrograma, é possível identificar também o conteúdo lexical de cada

classe através da aba “Perfis” na interface de resultados (Camargo e Justo, 2013).

Sendo assim, a partir da utilização do método de Classificação Hierárquica Descendente

(CHD) do IRAMUTEQ, que resultou na elaboração do dendrograma (Figura 1), foram

selecionadas para apresentação as 10 primeiras palavras evidenciadas. Os trechos de texto

representando as falas dos participantes (que serão apresentados ao longo das seções de

Resultados e Discussão) foram gerados na aba “Perfis”. Essa abordagem permite examinar os

segmentos que incluem a palavra expressa em uma classe específica do dendrograma,

possibilitando a recuperação do contexto associado (Camargo e Justo, 2013).

Como já mencionado, a análise de CHD resultou num dendrograma composto por 06

classes. O corpus foi dividido em dois subcorpora: o primeiro abrangeu as classes 2 e 5; e o

segundo subcorpora abrangeu as classes 6, 4, 3 e 1.

Figura 1
Dendrograma da Classificação Hierárquica Descendente do corpus “Impactos Psicológicos
da Internação Prolongada”

Fonte: Autoria própria.

Classe 1 – Ajustamento à internação


A classe 1 representou 14,2% (37 STs) dos segmentos de texto analisados, abrangendo

o ajustamento dos pacientes à internação. Apareceram como principais expressões: “hoje”,

“hospital”, “casa”, “conformar”, “aqui”, “triste”, “cuidar”, “como”, “bem”e “feliz”. A palavra

mais importante dessa classe foi “hoje” (X2 = 90,95). Foram observados conteúdos

relacionados ao ajustamento dos participantes à internação, os quais fizeram contrapontos

entre os momentos iniciais e atuais do período de hospitalização. Os participantes relataram

sentir tristeza pela chegada ao hospital e prolongamento da internação por conta do

afastamento domiciliar. Entretanto, relataram felicidade no momento da realização das

entrevistas, conformando-se por perceberem o cuidado da equipe, o que foi expresso por meio

das palavras “hoje” e “feliz”.

Hoje me acostumei mais um pouco, mesmo assim eu já estava agoniando de novo. Foi

difícil ficar preso aqui, já tem dois meses que estou aqui, mas com fé em Deus, deixa

ver se vão liberar. (P4)

Me conformei mais em estar aqui, para terminar o tratamento e ir para casa bem [...].

(P3)

Sobre como me sinto aqui hoje no hospital, eu me sinto bem, feliz, à vontade, aqui é um

hospital muito bom, as pessoas tratam muito bem, cuida bem. E aqui é muito bom, é um

hospital grande e além de ser grande as pessoas estão ali junto, apoiando. (P9)

Classe 2 – Interrupção do cotidiano e dos aspectos da vida


A classe 2 representou 16,1% (42 STs) dos segmentos de texto analisados, abrangendo

a interrupção nos aspectos da vida diária. Apareceram como principais expressões: “parado”,

“embora”, “vontade”, “desespero”, “filho”, “dormir”, “causar”, “resolver”, “vida” e

“ansioso”. A palavra mais importante dessa classe foi “parado” (X2 = 32,02). Os participantes

mencionaram sentirem ansiedade para resolverem pendências e cuidados relativos ao

trabalho, estudos ou família, principalmente em relação aos filhos. Também surgiram

sentimentos de desespero pela interrupção do cotidiano e a apresentação de insônia. Além da


associação com a dificuldade de dormir, a palavra “dormir” apareceu como um processo de

fuga utilizado pelos pacientes para não sentirem a passagem do tempo.

O que considero mais difícil é não ter nada para fazer durante todo esse tempo, só sofrer,

injeção, é o mais difícil, e ver a vida parada. Quanto mais tempo aqui, mas a vida para.

Eu estou me sentindo presa, presa, uma pessoa que comete um crime e fica presa, ver o

mundo pelas grades. Ficar vendo o mundo pelas grades. (P7)

[...] Dá ansiedade, dá desespero, vontade de ir para casa, de arrancar tudo e de pedir o

papel para assinar para eu ir embora, de querer evasão. (P7)

Classe 3 – Impacto da hospitalização


A classe 3 representou 17,2% (45 STs) dos segmentos de texto analisados, abrangendo

o impacto emocional causado pela hospitalização. Apareceram como principais expressões:

“cabeça”, “nunca”, “jeito”, “acabar”, “então”, “coisa”, “sempre”, “internei”, “agora” e “dia”.

A palavra mais importante dessa classe foi “cabeça” (X2 = 44,74). Os conteúdos apresentados

estavam relacionados a pensamentos referentes à hospitalização, retratados por expressões

como “na minha cabeça”. Os pacientes expressaram suas reflexões sobre as oportunidades

perdidas, suas escolhas e atitudes ao longo da vida. Dentre esses pensamentos, eles

questionaram-se sobre como estão vivendo suas vidas atualmente. Os pacientes que nunca

tinham sido internados antes evidenciaram que agora se viam daquele “jeito”(sic),

enfatizando o estado de fragilidade que se encontravam ocasionado pelo adoecimento.

Que passa momentos na sua cabeça, que você poderia ter feito coisas e não fez, agora

está aqui de todo jeito, não sai, poderia ter aproveitado mais. (P4)

Porque na minha cabeça, eu convivo com pessoas que têm ansiedade e eu achava que

eu não tinha, eu achava que eu não tinha como ter aquilo, porque eu sempre fui tranquilo

e nunca tive problema com nada, minha cabeça nunca ficou esquentada com uma coisa

por muito tempo, então era novo e ao mesmo tempo não era porque eu já vi aquilo em

outras pessoas, mas nunca senti aquilo. E você sentir aquilo pela primeira vez você fica
impactado. Você vê como a cabeça da pessoa é impressionante, você achava que você

era tão bom para não sentir isso, só que você está sentindo agora. (P10)

Classe 4 – Desafios do Adoecimento


A classe 4 representou 16,5% (43 STs) dos segmentos de texto analisados, abrangendo

os desafios ocasionados pelo adoecimento. Apareceram como principais expressões: “deus”,

“exame”, “vir”, “subir”, “dar”, “graça”, “febre”, “melhorar”, “lá” e “pensar”. A palavra mais

importante dessa classe foi “deus” (X2 = 32,43). Nessa categoria, surgiram conteúdos

relacionados às complicações e sintomas desconfortantes vivenciados durante o período de

internação. O coping religioso/espiritual foi utilizado para suportar momentos de estresse e a

palavra “deus” também esteve presente na expressão “graças a Deus”, locução adverbial com

um sentido equivalente a “felizmente”. Algumas experiências desagradáveis, como exames,

febre e procedimentos invasivos, também foram citadas como adversidades decorrentes da

hospitalização prolongada. A palavra “melhora” apareceu a partir das pontuações sobre a

evolução e o prognóstico durante o período de internação: alguns pacientes se sentiam

melhores com o tempo, enquanto outros lamentavam ver outras pessoas melhorando enquanto

acompanhavam o declínio da sua saúde.

Estou aqui há 24 dias, já deu uma melhorada bastante, graças a Deus. Eu achava que

não iria ser esse tempo todo. Esperava que iria para casa, porque vinha num dia e no

outro dia já estava em casa. Dessa vez não. (P5)

Desa vez estava demais, atacou muito a asma. Dessa vez foi pior, nunca tive isso, dessa

vez foi pior. Já tive, mas era fraquinha. Nunca pensei que iria adoecer forte desse jeito,

dessa vez veio para matar. (P5)

[...] Às vezes tenho febres aqui de trinta e nove graus, tenho enjoos, ânsia de vômito,

náuseas que são horríveis, mas estou ali: poxa vamos lá, daqui a pouco acaba, aí vem,

toma remédio, respiro fundo e me mantenho firme ali na expectativa de que vai acabar,
está acabando, está acabando, está acabando, já esteve mais longe, fico repetindo isso

para mim mesmo para tentar me iludir, acho até um pouco de querer acabar logo. (P10)

Classe 5 – Estratégias de Enfrentamento


A classe 5 representou 18,8% (49 STs) dos segmentos de texto analisados, abrangendo

as estratégias e os recursos de enfretamento utilizados pelos pacientes. Apareceram como

principais expressões: “preferir”, “acompanhar”, “vivenciar”, “conversar”, “gosto”,

“sozinho”, “precisar”, “ajuda”, “pessoa” e “pai”. A palavra mais importante dessa classe foi

“preferir” (X2 = 53,24). O destaque dessa categoria foram as preferências de cada paciente em

relação a como vivenciar o processo de hospitalização. Nessa classe, foram mencionadas

também algumas estratégias utilizadas para passar o tempo ocioso no hospital, como

“conversar” com a/o acompanhante. Outro destaque foi para a importância da rede de apoio,

que foi pontuada pelo uso das palavras “ajudar” e “precisar”. Em contraponto, alguns

participantes destacaram preferir vivenciara internação (ou ter alguns momentos) sozinhos

para lidarem com algumas emoções e refletirem sobre a vida.

Eu precisei do suporte emocional do psicólogo, porque ele viu como eu estava, me

abalando demais, pelo fato de estar aqui há muito tempo. Eu tive essa ajuda, porque eu

precisei muito. (P3)

Acompanhamento é a melhor coisa do mundo. Ficar acompanhado é sem comparações,

ruim é ficar sozinho. (P5)

[...] por uma parte eu acho bom está sozinha, porque fico só e aí eu penso na minha vida

e eu consigo relaxar minha mente, mas é bom também tá acompanhada, porque você

tem alguém, para ficar conversando, mas tem sempre alguém no quarto e eu fico

distraída. (P2)

Classe 6 – Mudanças nas expectativas


A classe 6 representou 17,2% (45 STs) dos segmentos de texto analisados, abrangendo

um contrapondo entre o início e o momento atual do processo de hospitalização. Apareceram


como principais expressões: “início”, “internação”, “mudar”, “longo”, “atual”, “menos”,

“momento”, “relação”, “ao” e “demorar”. A palavra mais importante dessa classe foi “início”

(X2 = 64,68). Nas falas dos participantes foram observados conteúdos relacionados à quebra

de expectativas iniciais, dando destaque para o que mudou do início da internação até o

momento atual de internação (quando foram entrevistados). Outro fator destacado pelos

participantes foi que a internação estava se prolongando além do esperado, o que ficou

expresso pelo uso da palavra “demora”.

Mudou tudo, eu estou bem melhor, estou ganhando peso, estou conseguindo me

alimentar bem. Não estou com dor, não estou mais com nódulo, não está aparecendo

mais. Então eu estou bem comparado ao que cheguei. (P2)

[...] no começo eu tinha expectativa de sair logo, de melhorar, descobrir e sair. E agora

se melhorar, melhorou, se não melhorar tanto faz. Estou ficando mais desanimada,

porque se criar expectativa é pior. A gente cria no início. a gente cria uma expectativa,

aí acaba se decepcionando, então agora eu não crio mais expectativa, é melhor se

surpreender do que se decepcionar. Eu me decepcionei porque achava que ia ser uma

internação rápida e foi uma internação longa, e pelo visto ainda vai demorar mais um

pouco. (P7)

Análise de Especificidades

O corpus da pesquisa foi submetido à análise de especificidades, a qual destacou as

comparações entre gênero e situação conjugal. Na comparação por gênero, os resultados

mostraram que as participantes do gênero feminino utilizaram mais as palavras “triste” e

“chorar”, denotando a tristeza pela hospitalização. E com relação à análise relativa à situação

conjugal, a utilização da palavra “triste” também apareceu na fala de mulheres solteiras (ou

divorciadas), indicando a importância do apoio social para a manutenção de um estado

emocional regulado.
Outro resultado decorrente da análise de especificidades foi que pessoas solteiras

utilizaram mais a palavra “mãe” ao longo da entrevista, ressaltando a importância da sua

companhia durante a internação, como pode ser observado no trecho a seguir:

Eu prefiro vivenciar a internação acompanhada, que não me sinto só, nem insegura. Eu
me sinto segura com minha mãe, eu não gosto de ficar aqui sem ela não. Sozinha eu não
me sinto à vontade, não consigo dormir, sinto falta dela. Ela me ajuda em tudo. (P6)

Discussão

Estudos recentes indicam uma tendência preocupante: as taxas de hospitalização

tendem a aumentar significativamente entre os indivíduos com menor nível de escolaridade.

Esse fenômeno, como destacado por Dias et al. (2023), suscita importantes reflexões sobre as

disparidades de saúde que permeiam nossa sociedade. Metade dos pacientes participantes

dessa pesquisa possuem ensino fundamental completo ou incompleto, dado que reflete a

natureza de um hospital público. A correlação entre nível educacional e saúde é complexa e

multifacetada, envolvendo uma interseção de fatores socioeconômicos, acesso a cuidados de

saúde, comportamentos e outros determinantes. Assim, compreender essa relação torna-se

importante para implementar políticas e intervenções eficazes que visem a redução das

desigualdades em saúde e a garantia do acesso equitativo aos serviços de saúde para todos os

estratos da população (Silva et al., 2021).

A literatura também evidencia que as variáveis sociodemográficas como gênero

feminino e pertencimento a grupos socialmente desfavorecidos (escolaridade, renda e classe

social) apontam para os fatores de risco mais consistentemente para transtornos mentais.

(Nunes et al., 2016; Real et al., 2023) .

Sobre esses transtornos, metade dos pacientes entrevistados, principalmente as

pacientes de gênero feminino, referiram ter antecedentes psicológicos ou psiquiátricos, o que

desperta atenção, uma vez que, no contexto hospitalar, a exposição do indivíduo a


determinadas contingências de tratamento aumenta a probabilidade da evocação de respostas

indicadoras de ansiedade (Caires et al., 2023).

A partir da análise da CHD, mais especificamente na categoria relacionada ao

ajustamento dos pacientes à internação, identificou-se nas falas dos participantes mudanças

significativas percebidas ao longo da estadia hospitalar, fazendo um contraponto entre os

momentos iniciais e atuais do período de hospitalização. Inicialmente, os pacientes

enfrentaram dificuldades devido ao impacto inesperado da situação. No entanto, à medida que

se perceberam acolhidos pela equipe de saúde e compreenderam a necessidade da

hospitalização, tornaram-se mais resignados. A entrada no ambiente hospitalar

frequentemente está associada a uma gama de sintomas de ansiedade, que surgem como uma

resposta temporária a situações adversas. Esses sintomas, moldados pelo tipo de tratamento e

pela história pessoal do paciente, manifestam-se de maneiras variadas, refletindo padrões de

resposta singulares (Walker et al., 2021).

De acordo com a literatura, a percepção de cuidado recebido pelos profissionais da

saúde tem efeito protetor na saúde mental dos pacientes (AlRuthia et al., 2020). Esse achado é

relevante, visto que a percepção de estar sendo cuidado pode resultar em uma melhor adesão

ao tratamento e adaptação à hospitalização (Chou et al., 2018; Zolnierek e DiMatteo, 2009).

Isso endossa a necessidade de que os profissionais de saúde se atentem para estabelecer

relações de confiança e reconheçam as necessidades dos usuários, o que, por sua vez, se

alinha às diretrizes e propostas da Política Nacional de Humanização (PNH) (Ministério da

Saúde, 2004).

No que diz respeito à interrupção do cotidiano, os pacientes entrevistados

evidenciaram sentir ansiedade associada ao desejo de resolver pendências para além do

ambiente hospitalar. Ao adoecer e se hospitalizar, o paciente frequentemente se depara com

uma ruptura súbita do seu ambiente familiar e da sua rotina (Gomes et al., 2016). Nesse
contexto, a ansiedade representa uma resposta temporária normal e esperada decorrente de

experiências que geram estresse, podendo funcionar como um estímulo necessário para a

adaptação e o enfrentamento de situações inesperadas.

No caso de pacientes internados, é comum observar a manifestação de ansiedade

associada à inserção em um ambiente desconhecido, porém, essa ansiedade tende a diminuir

em até 24 horas após a hospitalização, especialmente se forem realizadas medidas

psicológicas preventivas, como acolhimento inicial, suporte emocional, avalição psicológica e

promoção de uma boa relação, baseada no respeito e na confiança, estabelecida com a equipe

de saúde (Alzahrani, 2021; Cabrera e Sponholz Júnior, 2012; Delfini et al., 2009).

Para que esse ajustamento psicológico aconteça, torna-se necessária a presença do

cuidado psicológico, principalmente para os pacientes que apresentarem uma dificuldade

maior de se acomodar o ambiente hospitalar. Dentre as formas de intervenção que podem

favorecer a adaptação a esse contexto está a mediação de possíveis preocupações com o

ambiente externo ao hospital, através da rede de apoio desses pacientes (Gomes et al., 2016).

Sobre o impacto emocional causado pela hospitalização, os participantes da pesquisa

referiram que, em decorrência do processo de internação, passaram a refletir acerca das

oportunidades perdidas, suas escolhas e atitudes ao longo da vida. Isso pode ser explicado

pelo fenômeno psicológico conhecido como “ruminação”, no qual os indivíduos tendem a

fixar-se repetidamente em pensamentos negativos, repetitivos, incontroláveis, estando focados

em sensações negativas e preocupações sobre eventos passados, presentes ou futuros.

Associado a isso, a hospitalização, ao ser uma experiência disruptiva e muitas vezes

imprevista, pode desencadear um processo de ruminação intensificado, levando os pacientes a

refletirem sobre suas circunstâncias atuais, as decisões que os levaram até ali e as

consequências de suas escolhas. Esses pensamentos podem amplificar o impacto emocional


da hospitalização e contribuir para o aumento do estresse e da ansiedade dos pacientes durante

o período de internação (Opdebeeck et al., 2015).

Outro aspecto a ser destacado é que a experiência de receber um diagnóstico médico e

enfrentar uma condição de saúde pode representar um ponto de virada crucial na vida de um

indivíduo. Assim, fornecer aconselhamento e orientação ao paciente sobre a importância da

incorporação de uma rotina com hábitos saudáveis torna-se essencial, não apenas para a

promoção da saúde, mas também para a redução do risco de mortalidade, de desenvolver

transtornos psíquicos e de apresentar recorrência de doenças, além de minimizar a

necessidade de hospitalizações futuras. Esse suporte não apenas influencia positivamente o

bem-estar físico, mas também contribui para a melhoria da qualidade de vida e para o

fortalecimento da resiliência emocional do paciente diante dos desafios de saúde (Nhépes,

2019).

Os participantes da pesquisa ressaltaram uma variedade de desafios enfrentados

durante uma hospitalização prolongada. Primeiramente, destacam-se as experiências

desagradáveis associadas a exames médicos, febre e procedimentos invasivos, que contribuem

para o desconforto físico e emocional. A influência desses processos sobre o estado de humor

é frequente durante a hospitalização, podendo causar ansiedade, medo e uma sensação de

vulnerabilidade, afetando negativamente o bem-estar geral do paciente. Contudo, é importante

sublinhar que a dor e outros sintomas não podem ser plenamente compreendidos apenas

através de sensações corporais isoladas, visto que essa experiência deve ser percebida como

uma totalidade unificada, pois as sensações físicas estão entrelaçadas com aspectos da psique

(Espinha & Amatuzzi, 2008; Graças, 1997).

Além disso, a palavra “melhora” emergiu como um tema significativo nos relatos dos

pacientes entrevistados. Por um lado, alguns pacientes expressam uma sensação de progresso

e otimismo ao longo do tempo, observando melhorias em sua condição de saúde e


prognóstico. Essa percepção positiva pode fortalecer a resiliência e a esperança do paciente,

atribuindo um propósito ou significado para hospitalização e facilitando sua adaptação.

Por outro lado, para alguns pacientes, a palavra “melhora” estava associada a

sentimentos de frustração e desesperança por testemunharem a recuperação de outros

pacientes ao seu redor, enquanto experimentavam um declínio em sua própria saúde. Essa

disparidade entre a experiência pessoal e a observação das melhorias de saúde alheias pode

gerar uma variedade de emoções, incluindo inveja, tristeza e até mesmo ressentimento.

Isso posto, destaca-se a complexidade da experiência do paciente durante uma

hospitalização prolongada. Eles enfrentam uma série de desafios físicos e emocionais e

podem experimentar uma ampla gama de reações e emoções em relação ao seu progresso de

saúde e ao de outros ao seu redor. Compreender e abordar essas experiências, promovendo um

espaço seguro para discorrerem sobre tais frustações, é essencial para fornecer um cuidado

centrado no paciente, visando promover um ambiente de escuta e acolhimento.

Durante a hospitalização prolongada, os pacientes não apenas lidam com uma

enfermidade aguda ou crônica, que pode impactar significativamente os sistemas fisiológicos,

mas também enfrentam uma considerável carga de estresse. São privados de sono,

experimentam desequilíbrios nos ritmos circadianos normais, enfrentam desnutrição, dor e

outros desconfortos, além de se depararem com uma série vivências psicológicas

desafiadoras. A administração de medicamentos que podem afetar a cognição e a condição

física, juntamente com a imobilização decorrente do repouso prolongado no leito , contribuem

para a perda de aptidão física. Cada um desses aspectos pode prejudicar a saúde mental e

resultar em dificuldades significativas (Krumholz, 2013).

No que se refere à maneira de lidar e atravessar o processo de hospitalização, os

participantes da pesquisa expressaram suas preferências e abordaram sobre as estratégias

empregadas para ocuparem o tempo ocioso durante a estadia hospitalar, incluindo a prática de
interagir e conversar com seus acompanhantes, estratégia essa que destaca a importância do

suporte social durante a hospitalização. Sobre isso, a partir da análise de especificidades dos

dados da pesquisa, identificou-se que os participantes solteiros ressaltaram a importância da

presença de suas mães como companhia durante a internação. Sendo assim, destaca-se que,

durante sua permanência no hospital, esses pacientes buscaram recursos de enfrentamento

para encontrarem tranquilidade, seja por meio de suas crenças religiosas ou do apoio social.

Referente a isso, a literatura aponta que as interações sociais, em suas diversas

manifestações, mostraram-se como indicadores sólidos de saúde entre os pacientes,

favorecendo uma melhor adaptação social e fornecendo proteção contra os efeitos adversos do

estresse, além de reduzir tanto a incidência quanto a gravidade de problemas de saúde (Delfini

et al., 2009; Dantas et al., 2012).

Por fim, destaca-se, que a presença de alguém como acompanhante durante a

internação não só proporciona companhia e conforto emocional, mas também funciona como

uma fonte de distração e apoio prático (Pacheco et al., 2023). Essa constatação ressalta a

importância de uma rede de suporte sólida para a promoção de bem-estar e para a adaptação

do paciente ao ambiente hospitalar, reconhecendo a necessidade essencial, tanto de um

suporte social, quanto de intervenções psicológicas, visando um melhor enfrentamento das

hospitalizações prolongadas.

Considerações Finais

Este estudo teve como objetivo compreender a experiência vivida por pacientes

submetidos a internações prolongadas, bem como o impacto psicológico decorrente dessa

vivência. Mostrou-se que a internação prolongada afeta de maneira significativa a vida dos

pacientes, seja interrompendo sua rotina habitual ou exacerbando comorbidades psicológicas,

no entanto, foi observada uma melhora na adaptação ao contexto hospitalar quando são

implementadas medidas de suporte social e emocional.


Os resultados apontaram para a importância indispensável do suporte emocional e do

apoio psicológico na facilitação da adaptação dos pacientes ao ambiente hospitalar, que é

caracterizado por uma série de desafios como procedimentos invasivos, incertezas e

angústias. Diante desses contextos adversos, medidas preventivas e intervenções direcionadas

aos processos psicológicos prévios à internação, bem como durante o período de

hospitalização, emergem como fundamentais para mitigar possíveis repercussões negativas na

saúde mental dos pacientes.

Assim, este estudo destaca a necessidade premente de uma abordagem integrada na

assistência aos pacientes hospitalizados. Tal abordagem deve transcender a preocupação

exclusiva com os aspectos físicos da doença e considerar também o bem-estar psicológico e

demais dimensões que compõem o sujeito (sociais, culturais, religiosos, espirituais etc.) como

uma parte essencial do processo de recuperação. Ao fornecer suporte emocional e

intervenções psicológicas adequadas, os profissionais de Psicologia podem auxiliar os

pacientes a enfrentarem os desafios emocionais associados à hospitalização, promovendo uma

melhor qualidade de vida e uma recuperação mais integral.

Em contrapartida, a falta de suporte psicológico pode ter um impacto substancial no

surgimento de distúrbios psicológicos, especialmente em internações com duração superior a

cinco dias. Por sua vez, isso pode prejudicar ainda mais o processo de recuperação do

paciente e afetar o tempo necessário para receber alta hospitalar.

Apesar dos resultados pertinentes obtidos nesse estudo, é importante reconhecer que a

coleta de dados baseado em entrevistas não favorece inferências causais ou generalizações

amplas, o que limita a aplicabilidade dos resultados a uma amostra específica e a um contexto

particular. Por outro lado, o uso desse instrumento permite uma exploração profunda das

experiências dos participantes e oferecido uma visão significativa da realidade vivenciada.

Além disso, a amostragem por conveniência com coleta de dados em leito associado à
principal característica procurada para participar da pesquisa que é o de estar em internação

prolongada pode ter influenciado na representatividade e ocorrência de vieses, o que se

procurou contornar através da Classificação Hierárquica Descendente (CHD) e da Análise de

Especificidade (métodos de análise). Ainda assim, embora esse estudo forneça conhecimentos

relevantes, é importante interpretar seus resultados com cautela e considerar suas limitações

ao extrapolar as conclusões para contextos diferentes ou populações diversas.

Destaca-se que essa pesquisa não teve a intenção de esgotar as discussões em torno do

tema ou tampouco fazer uma análise tão proba. Visto que existem pontos a serem discutidos

que não foram citados na lide em tela, como, por exemplo, a experiência e o impacto na vida

de familiares e cuidadores de pacientes que estão internados por um logo período, dado que o

estresse emocional e a sobrecarga resultantes da longa permanência no ambiente hospitalar

podem impactar significativamente o bem-estar desses indivíduos.

Nesse cenário, salienta-se a necessidade de implementação de estratégias de apoio

psicossocial não apenas para os pacientes, mas também para as pessoas que compõem a sua

rede de apoio, considerando ainda a tríade paciente, família e equipe de saúde, visando

mitigar os efeitos negativos dessa experiência prolongada para todos. Somado a isso, frisa-se

o quanto é necessário um aprofundamento em modelos teóricos que ajudem a compreender a

experiência de pacientes nesse contexto.

Por fim, sugere-se que futuras pesquisas explorem os efeitos do suporte emocional e

psicológico durante hospitalizações prolongadas, investigando não apenas sua influência na

adaptação dos pacientes, mas também como esse suporte afeta o processo de recuperação da

saúde e a eficácia dos tratamentos. Além disso, recomenda-se examinar as intervenções

específicas que podem ser implementadas para promover suporte emocional e psicológico

durante a hospitalização, incluindo programas de apoio ao paciente, intervenções terapêuticas

e treinamento para os profissionais de saúde.


Por fim, em termos de ações institucionais e governamentais, os resultados desse

estudo ressaltam a importância da implementação de políticas e práticas que promovam o

suporte emocional e psicológico como parte integrante do cuidado hospitalar. Isso pode

incluir a elaboração de programas de apoio psicossocial, a integração de serviços de saúde

mental às instituições hospitalares e o treinamento de profissionais de saúde para

identificarem, reconhecerem, abordarem e responderem às necessidades emocionais e sociais

dos pacientes. Todos esses aspectos interligados contribuirão para a promoção de um

ambiente mais acolhedor e resiliente, resultando, assim, em uma experiência de internação

mais positiva e, consequentemente, em uma melhor qualidade de vida durante e após o

período hospitalar.
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