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Efeitos Jurídicos da União Poliafetiva

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UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA

WILLYANE SMANIOTTO FIRMINO

UNIÃO POLIAFETIVA E SEUS EFEITOS JURÍDICOS E PRÁTICOS

Tubarão
2021
WILLYANE SMANIOTTO FIRMINO

UNIÃO POLIAFETIVA E SEUS EFEITOS JURÍDICOS E PRÁTICOS

Monografia apresentada ao Curso de Direito da


Universidade do Sul de Santa Catarina como
requisito parcial à obtenção do título de
Bacharel em Direito.

Linha de pesquisa: Justiça e Sociedade

Orientadora: Prof. Terezinha Damian Antonio, Msc

Tubarão
2021
Aos meus familiares e amigos.
AGRADECIMENTOS

Agradeço aos meus pais e meus irmãos, por sempre estarem ao meu lado, me ajudando
a superar todas as etapas da minha vida. Agradeço especialmente à minha grande inspiração,
minha mãe, por me ensinar a importância da família na vida do indivíduo e me transmitir valores
indispensáveis para a construção do meu caráter e, acima de tudo, pelo apoio incondicional.
Nada disso teria sentido se todos eles não existissem na minha vida.
Agradeço ao meu namorado, que sempre esteve ao meu lado durante meu percurso
acadêmico, além de me incentivar nas horas mais difíceis de desânimo e de cansaço.
À minha professora orientadora, Terezinha Damian Antonio, por acreditar na minha
capacidade, me incentivar e me auxiliar no desenvolvimento deste trabalho e, principalmente,
pela valiosa contribuição que teve em minha vida.
A todos os meus amigos do curso de graduação, em especial minha amiga Mayara
Maria, que compartilharam os inúmeros desafios que enfrentamos, sempre com espírito
colaborativo.
A Deus, por me proporcionar perseverança durante toda a minha vida. O amor de Deus
me ensinou a respeitar todas as diferenças e ter empatia pelo próximo.
Também quero agradecer à Universidade do Sul de Santa Catarina – Unisul e ao seu
corpo docente, que demonstrou estar comprometido com a qualidade e excelência do ensino.
RESUMO

OBJETIVO: Analisar os efeitos jurídicos e práticos decorrentes da união poliafetiva no


ordenamento jurídico brasileiro. MÉTODO: Trata-se de uma pesquisa exploratória, de
abordagem qualitativa; quanto ao procedimento, classifica-se como uma coleta de dados
bibliográficos, documentos e artigos referentes à legislação e às decisões do Tribunal de Justiça
do Estado de Santa Catarina. RESULTADOS: Ao longo dos anos, o conceito de família passou
por várias mudanças graduais e significativas nos mais diversos aspectos, levando, com isso, a
um reflexo na produção social construtiva. Os múltiplos arranjos familiares sempre existiram,
e novas formas de amor têm sido experimentadas pela sociedade e ainda não são reconhecidas
pelo Direito. A jurisprudência tem se dividido quanto a considerar lícita ou ilícita essa
simultaneidade de relacionamentos familiares. CONCLUSÃO: Embora não haja dispositivo
legal no ordenamento jurídico brasileiro que trate da união poliafetiva, sendo esta realmente
considerada por muitos como algo incomum e fora dos padrões tradicionalistas e
conservadores, não há como negar a existência e a necessidade de regulamentação dessa relação
privada. Com relação à resolução dos conflitos envolvendo questões patrimoniais nesse tipo de
família, entende-se que se poderia utilizar a mesma linha de raciocínio da triação adotada na
união paralela, partilhando-se o patrimônio amealhado na concomitância das relações a todos
os envolvidos. Afinal, embora a triação aluda à repartição dos bens em três partes, nada impede
que a divisão do patrimônio ocorra em mais partes, sendo proporcional ao número de
companheiras que integram a relação poliamorosa.

Palavras-chave: Família. Monogamia. União Poliafetiva.


ABSTRACT

OBJECTIVE: To analyze the legal and practical effects resulting from polyaffective union in
the Brazilian legal system. METHOD: This is an exploratory research with a qualitative
approach; as for the procedure, classified as a collection of data, bibliographies, documents and
articles, based on the legislation and decisions of the Court of Justice of the State of Santa
Catarina. RESULTS: Over the years, the concept of family has undergone several gradual and
significant changes in the most diverse aspects, mainly representing a reflection of constructive
social production. Multiple family arrangements have always existed and new forms of love
have been experienced by society and are still not recognized by law. The jurisprudence has
been divided as to whether this simultaneity of family relationships is lawful or unlawful.
CONCLUSION. Although there is no legal provision, in the Brazilian legal system, that deals
with polyaffective union, and which is really considered by many to be uncommon and outside
traditionalist and conservative standards, there is no way to deny the existence and need to
regulate this private relationship. Regarding the resolution of conflicts involving property issues
in this type of family, it is understood that the same line of reasoning as adopted in the parallel
union could be used; sharing the assets gathered in the concurrency of the relationships with all
those involved, because although the triage alludes to the division of assets into three parts,
nothing prevents the division of assets from occurring in more parts, being proportional to the
number of partners who are part of the relationship polyamorous.

Keywords: Family. Monogamy. Polyaffective union.


SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................. 9
2 O INSTITUTO DA FAMÍLIA........................................................................................ 14
2.1 EVOLUÇÃO DO CONCEITO DE FAMÍLIA ............................................................. 14
2.2 PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS DO DIREITO DE FAMÍLIA.............................. 19
2.3 MODELOS DE FAMÍLIA NO ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO ........... 24
3 PRINCÍPIO DA MONOGAMIA E PRINCÍPIO DA AFETIVIDADE NAS
RELAÇÕES FAMILIARES .............................................................................................. 27
3.1 PRINCÍPIO DA MONOGAMIA E CASAMENTO ..................................................... 27
3.2 PRINCÍPIO DA MONOGAMIA E UNIÃO ESTÁVEL .............................................. 28
3.3 PRINCÍPIO DA MONOGAMIA EM OUTRAS RELAÇÕES CONJUGAIS ............... 31
3.4 PRINCÍPIO DA AFETIVIDADE NAS RELAÇÕES PARALELAS ........................... 32
4 A UNIÃO POLIAFETIVA E SEUS EFEITOS JURÍDICOS E PRÁTICOS ............ 36
4.1 CONCEITO E CONFIGURAÇÃO .............................................................................. 36
4.2 A ESCRITURA PÚBLICA DE UNIÃO POLIAFETIVA ............................................. 38
4.3 RECONHECIMENTO DA UNIÃO POLIAFETIVA E SEUS EFEITOS JURÍDICOS E
PRÁTICOS .......................................................................................................................... 42
5 CONCLUSÃO .............................................................................................................. 52
REFERÊNCIAS ................................................................................................................. 55
9

1 INTRODUÇÃO

Esta monografia trata da união poliafetiva e seus efeitos jurídicos e práticos.


O Direito de família tende a acompanhar a evolução da sociedade,
regulamentando as práticas e garantindo a proteção legal das pessoas, adequando-se aos
comportamentos, conceitos, valores e relações, os quais se modificam com o passar do
tempo, o que torna esse ramo do Direito mutável, em constante transformação,
principalmente em relação ao conceito de família.
No passado, a única forma de constituição da família era por meio do casamento.
Não eram considerados os sentimentos das pessoas, ou seja, não havia preocupação com
afeto, amor ou felicidade daqueles que se uniam para constituir uma família. O que
realmente contava eram os interesses econômicos e a possibilidade de aquisição de
patrimônio tanto para a família do marido como para a família da esposa.
Vale destacar que por muito tempo o homem foi visto como o chefe da família, e
todos deveriam ser submissos a ele. No século XVIII, período em que ocorreu a
Revolução Industrial, o homem foi perdendo esse posto à medida que a mulher passou a
participar mais ativamente no mercado de trabalho. Assim, com a mulher exercendo
funções nas fábricas e indústrias, o homem deixou de ser o único provedor da família.
No Brasil, durante a vigência do Código Civil/1916 (Art. 233), a família era uma
instituição patriarcal e hierarquizada, na qual o marido ocupava a posição de chefe
conjugal, sendo o casamento civil obrigatório para o reconhecimento dos filhos e da
sociedade conjugal. Somente a partir da Constituição Federal/1988 ocorreram algumas
mudanças nesse cenário, quando se passou a considerar o afeto como valor jurídico.
A Carta Magna representou um marco no conceito de família, estabelecendo três
tipos de entidades familiares: a família matrimonial, a união estável e a família
monoparental, abrindo caminho para o reconhecimento de outros modelos, pela doutrina
e jurisprudência.
Entende-se que, atualmente, não há um conceito formado sobre o modelo de
família, e a afetividade acabou se tornando um dos requisitos para a configuração dessa
entidade. Desse modo, além dos modelos constitucionais, admitem-se outros arranjos
familiares, tais como as famílias anaparental, homoafetiva, paralela, reconstruída e
poliafetiva.
Entre os tipos, dar-se-á destaque, aqui, à família poliafetiva, foco deste estudo,
que se constitui por três ou mais pessoas, do mesmo gênero ou não, que se relacionam
10

amorosamente entre si, com o consentimento e a vontade de todos os envolvidos.


Compreende-se que, na ausência de modelos familiares definidos, o relacionamento
poliafetivo pode se caracterizar como uma entidade familiar. O objetivo dessa nova
modalidade de família são as múltiplas relações afetivas simultâneas. Os pressupostos
básicos para a formação desse tipo de união são: amor, carinho, afeto e respeito.
Entretanto, há controvérsias no que diz respeito ao poliamor, havendo correntes
doutrinárias e jurisprudências favoráveis e desfavoráveis em relação ao seu
reconhecimento. Desse modo, alguns autores defendem a impossibilidade de realização
desse tipo de união, entendendo que a escritura pública de união poliafetiva é
inconstitucional, devendo prevalecer o princípio da monogamia, ordenador da conduta
humana, não havendo dispositivo de lei que reconheça a validade de uma relação
poliafetiva (TAVAREZ, 2020; MADALENO, 2020).
Nesse mesmo sentido, o Conselho Nacional de Justiça (2018) compreende que se
trata de uma relação imoral, capaz de ferir a moral e os bons costumes, por configurar
uma relação poligâmica; e, além de não ter previsão legal, é considerada um tipo de
relação conjugal que fere o princípio da monogamia.
Destaca-se que no município de Tupã/SP, no ano de 2012, foi registrada a primeira
escritura pública de união poliafetiva e, posteriormente, outras também foram registradas,
tendo sido declaradas inconstitucionais, apesar de já lavradas. Foi alegado pela
Associação de Direito de Família e das Sucessões (ADFAS) que a união poliafetiva não
possui eficácia jurídica e fere os princípios familiares.
Nessa direção, o Conselho Nacional de Justiça entendeu que a união poliafetiva,
por abranger um número maior de envolvidos, não apresenta possibilidade de
reconhecimento de efeitos jurídicos, como também:

[...] viola o direito em vigência no país, que veda expressamente a


possibilidade de mais de um vínculo matrimonial simultâneo e proíbe, por
analogia, uniões estáveis múltiplas. O entendimento jurisprudencial dos
tribunais pátrios também repele a existência de uniões estáveis simultâneas ao
casamento. (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2018, p. 23).

Por outro lado, não são todos que concordam com esse entendimento. Dias (2018),
vice-presidente do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM), afirma que a
decisão do Conselho Nacional de Justiça representa um retrocesso a todos os avanços que
vêm acontecendo, discorrendo que
11

O significado do julgamento é uma sentença de reprovabilidade com relação a


algo que existe, sempre existiu e vai continuar existindo, com escritura pública
ou sem escritura pública. No momento em que tais situações baterem às portas
do Poder Judiciário caberá à Justiça dizer se existirão efeitos jurídicos daquela
manifestação. É de lastimar que órgão administrativo maior do Poder
Judiciário tenha uma visão tão conservadora da sociedade de fato, como ela é.
(DIAS, 2018).

Para Dias (2018), apesar de não existir uma previsão constitucional e


infraconstitucional para a proteção legal desses outros modelos de família, o Judiciário
deve acolhê-los, sob pena de cometer injustiças e chancelar o enriquecimento indevido,
considerando-se também os princípios constitucionais da autonomia privada, da
pluralidade, da igualdade entre as famílias e da não interferência do Estado na família.
Nessa mesma linha de pensamento, Azevedo (2019) defende que se trata de um
núcleo familiar formado por três ou mais pessoas, de forma consensual, baseado no amor
e na ética, em que todos os envolvidos têm uma ligação afetiva. Ademais, segundo
Gonçalves (2017, p. 36), “Não há problemas em se garantir direitos e obrigações a uma
relação contínua e duradoura, só porque ela é composta por mais de duas pessoas. Os
indivíduos dessa entidade familiar trabalham, contribuem e são iguais a quaisquer outras
pessoas”, não podendo o direito chancelar a injustiça.
Refletindo sobre essas questões, definiu-se como pergunta norteadora desta
pesquisa: Quais os efeitos jurídicos e práticos decorrentes da união poliafetiva no
ordenamento jurídico?
Esta monografia encontra justificativas para sua realização por se tratar de um tipo
de família que não tem previsão legal e para o qual não é permitida a elaboração de
escritura pública para estabelecer os direitos e deveres entre seus integrantes. Estudos
acerca da temática podem, nesse sentido, contribuir para se conhecer os entendimentos
jurisprudenciais e doutrinários a respeito, o que poderá embasar os pedidos quanto aos
efeitos jurídicos e práticos decorrentes dessa relação.
Ademais, esta pesquisa também é relevante para o meio acadêmico, considerando
que há poucos trabalhos científicos que discutem o tema, o que poderá oportunizar seu
aprofundamento, bem como a avaliação das discussões doutrinárias e jurisprudenciais em
torno do princípio da monogamia. Para a sociedade e para as famílias, este estudo é
interessante por representar mais uma fonte de pesquisa e conhecimento, o que poderá
servir como ponto de orientação para aqueles que desejam se unir a esse tipo de relação.
Ante o exposto, traçou-se como objetivo geral nesta pesquisa: Analisar os efeitos
jurídicos e práticos decorrentes da união poliafetiva no ordenamento jurídico
12

brasileiro. Para alcançar esse propósito, foram elencados os seguintes objetivos


específicos: descrever a evolução do conceito de família; destacar os princípios
constitucionais do direito de família; evidenciar os modelos de família no ordenamento
jurídico brasileiro; estudar os institutos do casamento e da união estável segundo o que
estabelecem as disposições da legislação civil quanto ao princípio da monogamia;
destacar a importância do princípio da afetividade na formação das relações conjugais;
mostrar como se configuram a relação poliafetiva e o seu reconhecimento doutrinário e
jurisprudencial.
Destaca-se que o delineamento desta monografia apresenta as seguintes
características: quanto ao nível, trata-se de uma pesquisa exploratória, que tem como
finalidade proporcionar um maior entendimento sobre o objeto da pesquisa, nesse caso,
os principais conceitos a respeito do instituto da família, do casamento, da união estável,
do princípio da monogamia e da união poliafetiva; quanto à abordagem, trata-se de uma
pesquisa qualitativa, pois é mais subjetiva, levando em consideração informações como
sentimentos, intenções, percepções, entre outros; quanto à coleta de dados, foram
utilizadas as pesquisas bibliográfica e documental. Segundo Severino (2007), a pesquisa
bibliográfica se realiza a partir do:

[...] registro disponível, decorrente de pesquisas anteriores, em documentos


impressos, como livros, artigos, teses etc. Utilizam-se dados de categorias
teóricas já trabalhadas por outros pesquisadores e devidamente registrados. Os
textos tornam-se fontes dos temas a serem pesquisados. O pesquisador trabalha
a partir de contribuições dos autores dos estudos analíticos constantes dos
textos. (SEVERINO, 2007, p. 122).

A pesquisa bibliográfica aqui realizada se baseou na doutrina e em artigos de


autores como Gonçalvez (2019); Moreira (2018); Monte (2015); Rodrigues (2004);
Tartuce (2019); Viegas e Ceolin (2018). No que tange à pesquisa documental, Severino
(2007, p. 122) a compreende como uma

[...] fonte documentos no sentido amplo, ou seja, não só de documentos


impressos, mas, sobretudo, de outros tipos de documentos, tais como jornais,
fotos, filmes, gravações, documentos legais. Nestes casos, os conteúdos dos
textos ainda não tiveram nenhum tratamento analítico, são ainda matéria-
prima, a partir da qual o pesquisador vai desenvolver sua investigação e
análise.

Neste estudo, a pesquisa documental foi realizada a partir do que pressupõem a


legislação e a jurisprudência brasileiras. Assim, foram utilizadas as seguintes leis: artigo
13

3 (Brasil, 1988), artigo 5 (Brasil, 1988), artigo 7 (Brasil, 1988), artigo 191 (Brasil, 1988),
artigo 226 (Brasil, 1988), artigo 1.723 (Brasil, 2002), artigo 1.566 (Brasil, 2002), artigo
1.565 (Brasil, 2002), artigo 1.567 (Brasil, 2002), artigo 1.724 (Brasil, 2002), entre outros.
Ainda, foram analisados os entendimentos dos magistrados dos Tribunais de
Justiça brasileiros (superiores, regionais, estaduais, do Distrito Federal e territórios), sem
data específica, em relação à configuração, ao reconhecimento e aos efeitos jurídicos e
práticos manifestados nas decisões encontradas no site do Jusbrasil utilizando-se a
expressão “união poliafetiva”. Na pesquisa preliminar, foram encontradas 11 decisões,
sendo excluídas as repetidas e outras que não têm relação com o tema, restando apenas
três decisões para embasar este estudo.
Esta monografia conta com cinco capítulos. O primeiro é este, que se refere à
introdução, no qual foram expostos o tema, o problema, a hipótese, a justificativa, os
objetivos e o delineamento da pesquisa. O segundo discorrerá sobre o instituto da família,
e nele serão abordados a evolução do conceito de família, os princípios constitucionais
do direito de família e os modelos de família no ordenamento brasileiro. O terceiro
discorrerá sobre os institutos do casamento e da união estável e o princípio da monografia.
O quarto apresentará a união poliafetiva e seus efeitos jurídicos e práticos, em termos de
conceito e configuração, bem como a escritura pública de união Poliafetiva e seu
reconhecimento doutrinário e jurisprudencial. Por fim, o quinto capítulo contemplará a
conclusão do estudo.
14

2 O INSTITUTO DA FAMÍLIA

Este capítulo retrata a evolução do conceito de família, os princípios


constitucionais do direito de família e os tipos de família existentes no ordenamento
jurídico brasileiro, como se passa a expor.

2.1 EVOLUÇÃO DO CONCEITO DE FAMÍLIA

Ao longo dos anos, o conceito de família passou por várias mudanças graduais e
significativas nos mais diversos aspectos, representando, principalmente, um reflexo da
produção social construtiva. Lidar de forma satisfatória com as mudanças aceleradas e
drásticas que estão ocorrendo no ambiente familiar parece ser um grande desafio para o
sistema jurídico contemporâneo, considerando que o Judiciário não tem base para julgar
as disputas que lhe são impostas, levando-as a julgamentos heterogêneos de causas
semelhantes.
Naturalmente, à medida que mudam a natureza e as diretrizes da família, também
mudam os vínculos entre seus membros, seja entre cônjuges, seja entre pais e filhos.
Dessa forma, no modelo familiar hierárquico, os filhos buscam agir à semelhança do pai.
No cenário social em que as pessoas se preocupam com a própria imagem, estão ocultos
valores sociais e direitos humanos, e o tratamento dado aos familiares adquiriu uma
identidade completamente diferente daquela do passado.
Nessa perspectiva, compreende-se que a origem da família remete a um passado
incomensurável, esquecido pelo tempo, devido à impossibilidade de definir seu alcance.
Porém, a ideia de que os seres vivos se unem e se conectam a partir de sua origem é única,
seja pelo instinto de perpetuarem as espécies, seja pelo desejo de não viverem sozinhos,
o que, muitas vezes, é dado como algo certo, que só pode ocorrer entre duas pessoas.
Segundo Morgan (2005 [1877], p. 49), partes da família humana existiram num estado de
selvageria; outras partes, em um estado de barbárie; e outras, ainda, no estado de
civilização, por isso a história tende à conclusão de que a humanidade teve início na base
da escala e seguiu um caminho ascendente, desde a selvageria até a civilização, por meio
de acumulações de conhecimento e experimentos, invenções e descobertas.
O sistema moderno está enraizado no período bárbaro, e a origem do período
bárbaro é transmitida a partir do período anterior; ou seja, por meio do declínio linear é
revelado o desenvolvimento lógico do sistema, assim como a situação na família. Morgan
15

(2005 [1877]) introduziu uma ordem precisa a respeito da pré-história da humanidade,


subdividindo-a em três épocas principais: estado selvagem, barbárie e civilização,
subdividindo as duas primeiras em fases inferior, média e superior, de acordo com os
progressos alcançados.
Na família consanguínea, os grupos conjugais classificavam-se por gerações, e as
relações de matrimônio eram realizadas entre esses grupos, sendo considerados todos os
avós e avôs, por exemplo, nos limites da família, maridos e mulheres entre si, e assim
sucessivamente. Os ascendentes e descendestes eram os únicos excluídos dessas relações,
ou seja, irmãos, irmãs, primos, primas e demais colaterais – relações horizontais – eram
considerados casais mutuamente, excluindo-se as relações entre pais e filhos – relações
verticais.
Com a evolução da família consanguínea, surgiu a punaluana. Esse modelo
familiar manteve o casamento entre grupos, sendo, entre eles, considerados comuns
maridos e mulheres, no entanto passou a excluir as relações conjugais mantidas entre
irmãos. Naturalmente, esse regime de matrimônio gerou uniões em que o homem tinha
uma mulher “principal” entre as outras várias mulheres, e vice-versa (ENGELS, 1984).
Esses tipos de casamento em grupo são caracterizados como selvagens. Nesse
estágio histórico da família, grande importância é dada ao reconhecimento da filiação
materna, pois, por questões naturais, somente à mãe era possível atribuir a filiação. Além
disso, é difícil dizer quem trai e quem é traído. O adultério era condenado e, em alguns
grupos étnicos, o casamento misto era proibido, o que tornava o casamento entre grupos
étnicos mais difícil, substituindo, eventualmente, a família punaluana pela família
sindiásmica.
Como forma de garantir a paternidade e o posterior direito à herança pela filiação
paterna, ocorreu a transição para a família patriarcal, típica da civilização. Antes, a mulher
era o centro; agora, o homem passou a desempenhar papel fundamental na família, sendo
conferido a ele o pátrio poder (poder de vida e de morte) sobre toda sua família. Silva
(2004, p. 128-129) retrata com exímia propriedade a característica da estrutura familiar
patriarcal, realçando seu caráter salutar ao afirmar que:

O elo familiar era voltado apenas para a coexistência, sendo imperioso para o
“chefe” a manutenção da família como espelho de seu poder, como condutor
ao êxito nas esferas política e econômica. Os casamentos e as filiações não se
fundavam no afeto, mas na necessidade de exteriorização do poder, ao lado –
e com a mesma conotação e relevância – da propriedade. [...] Os vínculos
jurídicos e os laços de sangue eram mais importantes e prevaleciam sobre os
16

vínculos de amor. O afeto, na concepção da família patriarcal, era presumido,


tanto na formação do vínculo matrimonial e na sua manutenção como nas
relações entre pais e filhos. Quando presente, não era exteriorizado, o que
levava a uma convivência formal, distante, solene, substanciada quase que
unicamente numa coexistência diária.

Como sacerdote do lar, o pai não reconhecia nenhuma autoridade superior, pois
era o chefe supremo da religião doméstica – autoridade pontífice –, era, simultaneamente,
uma unidade econômica, religiosa, política e jurisdicional. Cabe ressaltar, porém, que
esse não era um poder arbitrário, tendo seu princípio e limites nas mesmas crenças.
A religião doméstica proibia que duas famílias se unissem, já que cada lar tinha
seu próprio deus; mas era possível que elas, sem nada sacrificar de sua religião particular,
celebrassem um culto que lhes fosse comum, por meio de uma divindade superior a todos.
Por isso, alguns grupos começaram a se formar – os gregos os chamavam
de fratria ou cúria. Várias gerações se passaram e, como a religião ordenava que o lar
tivesse um sacerdote, a religião da cidade também deveria ter um pontífice, e a esse
sacerdote do lar público era dado o nome de rei. Além disso, a lei, que a princípio era
parte da religião, começou a ser aplicada tanto no culto quanto nas relações da vida civil,
pois era consequência direta e necessária da crença, sendo aplicada a todas as relações
humanas (COULANGES, 2006).
Modificações ocorreram no direito privado, sendo introduzido o código das doze
tábuas, que sinalizava o direito evoluindo conforme a sociedade, em suas instituições,
costumes e crenças. Antes, a lei era decreto da religião; agora, ela tem por princípio o
interesse dos homens, e por fundamento, o consentimento da maioria. Conservou-se o
poder do pai, porém a tradição não tinha mais força, e a religião não governava mais. Não
demorou muito para que a democracia sucedesse à dominação da aristocracia religiosa.
Com o Cristianismo, o sentimento religioso foi reavivado, ganhando uma expressão mais
alta e menos material; Deus passou a ser concebido como verdadeiramente estranho à
natureza humana, e o divino foi definitivamente colocado fora da natureza visível e acima
de tudo e todos.
Livre da religião, portanto, a velha lei autocrática tornou-se irreconciliável, e o pai
perdeu a autoridade absoluta que lhe foi dada pelo sacerdócio, só retendo o que lhe foi
dado pela natureza, ou seja, para cuidar das necessidades de seu filho. Com a restrição do
poder patrilinear, o Estado passou a participar mais das relações familiares, dando maior
autonomia às mulheres e crianças. Por meio das regulamentações aprovadas, as mulheres
passaram a gozar de plena autonomia, como a permissão para a participação na vida social
17

e política, a possibilidade de divórcio por mútuo consentimento e a autorização da guarda


dos filhos.
Obviamente, o patriarcado não foi superado, mas o despatriarcado da família está
latente e agora se concentra na questão dos direitos. Assim, desenvolveram-se a
monogamia e a família nuclear; a partir daquele momento, a família deixou de ser uma
grande extensão. O modelo familiar foi construído para atender aos interesses do Estado,
uma vez que, fortalecendo a família, o Estado, consequentemente, estaria mais forte.
Barros (2002, p. 07) assevera que:

Com o patriarcalismo principiou a asfixia do afeto. Os patriarcas deram início


à prática dos casamentos por conveniência, que com o passar do tempo
proliferaram ainda mais, quando se somaram aos motivos patrimoniais os
motivos políticos. Nessa evolução histórica, do primitivo casamento afetivo,
passou-se ao casamento institucional, com o qual se buscou assegurar o
patrimônio, dando origem à ideologia da família parental, patriarcal, senhorial,
patrimonial. Esta se define pela existência de um pai e uma mãe com seus
filhos sob o poder pátrio, fruindo de um patrimônio familiar, que deve ser
mantido como base física e para segurança econômica da família. A família
assim concebida e praticada acabou por revestir e mascarar interesses
meramente patrimoniais, que muitas vezes deslocam, degeneram, sufocam ou
até substituem as relações de afeto.

Nessa linha, no Brasil, o Código Civil de 1916 era norteado pelo patrimonialismo
e o individualismo. A família era caracterizada pela figura do pai detentor do poder
patriarcal – semelhante ao do pater famílias no Direito romano; como consequência, as
relações familiares eram baseadas nos mesmos princípios, em que pai, mãe e filhos
tinham papéis específicos. Foram produzidas diversas regras a fim de que fosse mantida
a conservação da família formalmente constituída, por meio, por exemplo, da proibição
do divórcio. Tudo tinha como objetivo ter um chefe (homem) que concedia poderes aos
demais membros da família. Não havia apenas a preponderância do cônjuge em sua
estrutura de poder, mas principalmente a falta de identidade dos outros membros, e isso
justificava a preponderância dos interesses do Estado sobre o indivíduo.
A Constituição Federal de 1934 dispôs acerca da família, com isso o modelo
familiar permaneceu patriarcal, porém passou a ter proteção jurídica (artigos 144 a 147),
sendo estabelecidas regras, por exemplo, do casamento indissolúvel. A Carta Magna de
1937 trouxe pela primeira vez os direitos iguais entre mulheres e homens, o regime de
separação obrigatória de bens, o direito aos alimentos da mulher desquitada, a dissolução
do casamento, além de conferir tratamento igualitário entre os filhos naturais e legítimos,
18

prevendo ainda a observância do dever de cuidado e garantias especiais à criança e ao


adolescente, assegurando a eles uma vida digna.
Ainda, a Constituição Federal de 1946 possibilitou a extensão dos efeitos civis ao
casamento religioso celebrado. Ademais, a Carta Magna de 1967 não trouxe inovações,
mas garantiu o exercício do poder político e sua perpetuação. Ocorre que, durante o
regime militar, foi promulgada a Constituição Federal de 1969, cuja Emenda
Constitucional n. 1 possibilitou a criação da Lei do Divórcio, Lei n. 6. 515/77, trazendo
de modo inovador a possibilidade de separação dos cônjuges.
Por outro lado, a Constituição Federal de 1988 começou a desconstituir a
ideologia patriarcal, edificada em uma família monogâmica, parental, centralizada na
figura paterna e patrimonial, e trouxe em seu texto princípios importantes relacionados à
família, como a dignidade da pessoa humana, bem como o valor jurídico dado à
afetividade e à solidariedade familiar, cuidando, ainda, em capítulos específicos, da
proteção à família, à criança, ao adolescente, além da igualdade entre homens e mulheres
em direitos e deveres.
O pátrio poder passou a ser denominado poder familiar, com regulamentação no
Código Civil de 2002, que estabeleceu o complexo de direitos e deveres que compete aos
pais frente a seus filhos menores no exercício do poder familiar. A nova expressão deixa
clara a ideia de que compete a ambos os cônjuges o exercício de guarda e cuidado de seus
filhos, ao passo que o pátrio poder se refere, etimologicamente, à figura do pai. Portanto,
os pais deixam de exercer “poder” sobre os filhos para assumirem “um dever natural e
legal de proteção da sua prole, acompanhando seus filhos durante o natural processo de
amadurecimento e formação de sua personalidade” (MADALENO, 2017, p. 688).
Sendo assim, o patriarcalismo que outrora havia feito com que a sociedade
esquecesse a atração natural entre os seres humanos – affectus – abriu-se a novas formas
de constituição, mais flexíveis e plurais, baseadas nos laços de afetividade entre seus
membros. A família, que antes existia apenas para ser transmissora de bens, passou a ser
local de relacionamento. Tal mudança determinou novas feições principiológicas da
norma constitucional e infraconstitucional, e o Direito passou a incorporar valores sociais,
como um reflexo dessa mudança de paradigmas, voltando os olhos para o novo.
Por essa razão, a função social da família é tão importante, dado que é um
mecanismo que permite a incorporação desses novos valores sociais para dentro do
ordenamento jurídico, a fim de que se possa interpretar o direito a partir do
19

reconhecimento do atual conceito de família, inferido na Constituição Federal de 1988, a


fim de tornar coerentes as normas do ordenamento jurídico – direito como integridade.
Nessa perspectiva, compreende-se que a sociedade do século XXI é uma
sociedade plural, complexa, diferenciada; logo, é evidente que, para haver família, não é
preciso haver homem e mulher, pai e mãe, apenas pessoas conjugando suas vidas
intimamente, por um afeto que as enlaça. Barros (2002, p. 09) afirma, nessa instância,
que:

O afeto é que conjuga. Apesar da ideologia da família parental de origem


patriarcal pensar o contrário, o fato é que não é requisito indispensável para
haver família que haja homem e mulher, nem pai e mãe. Há famílias só de
homens ou só de mulheres, como também sem pai ou mãe. Ideologicamente, a
atual Constituição brasileira, mesmo superando o patriarcalismo, ainda exige
o parentalismo: o biparentalismo ou o monoparentalismo. Porém, no mundo
dos fatos, uma entidade familiar forma-se por um afeto tal – tão forte e estreito,
tão nítido e persistente – que hoje independe do sexo e até das relações sexuais,
ainda que na origem histórica tenha sido assim. Ao mundo atual, tão absurdo
é negar que, mortos os pais, continua existindo entre os irmãos o afeto que
define a família, quão absurdo seria exigir a prática de relações sexuais como
condição sine qua non para existir família, Portanto, é preciso corrigir ou,
dizendo com eufemismo, atualizar o texto da Constituição brasileira vigente
[...].

Na sociedade contemporânea, novos valores inspiram a sociedade. Funda-se uma


nova ordem social, rompendo com a concepção tradicional de família. A característica
fundamental da família passa a ser o afeto. Desse modo, pouco importa a “espécie” ou
“tipo” de família na qual o indivíduo está inserido, o que deve ser levado em consideração
é o seu fundamento, devendo ser a plena realização do ser humano, a fim de concretizar
o bem-estar de seus membros. A única finalidade é a realização pessoal de cada um de
seus membros, o respeito ao outro e a proteção de suas individualidades, por isso o afeto
passou a ser parâmetro dentro das relações familiares, não sendo mais o biológico que
impera.

2.2 PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS DO DIREITO DE FAMÍLIA

Para Bonavides (2001), “os princípios constitucionais foram convertidos em


alicerce normativo sobre o qual se assenta todo o edifício jurídico do sistema
constitucional”. No âmbito do Direito de Família, tais princípios demonstram seus
reflexos, seja de forma explícita, seja implicitamente, sendo dotados da mesma
importância. A Carta Magna de 1998 trouxe inovações relativas ao conceito e concepção
20

de família, desvinculando-se do pensamento tradicional de família, que seria composta


somente por um homem e uma mulher, selados pelo matrimônio.
Assim sendo, existem princípios específicos a embasar e estimular um maior
amparo e afetividade nas relações parentais, sendo relevante a explanação de tais normas
abstratas para melhor compreensão do exposto nesta pesquisa: 1- Da dignidade da pessoa
humana; 2- Igualdade e respeito à diferença; 3- Solidariedade familiar; 4- Do pluralismo
das entidades familiares; 5- Da proteção integral às crianças, adolescentes e idosos; 6- Da
proibição do retrocesso social; 7- Da afetividade; 8 - Da igualdade; 9 – Da liberdade e da
autonomia privada. Discutiremos brevemente, abaixo, cada uma dessas normas:
1 – A dignidade da pessoa humana é considerada um alicerce de todo o
ordenamento jurídico; ela faz com que surjam os demais princípios, tendo em vista que
produz efeitos sobre todas as relações jurídicas que permeiam a sociedade, portanto o
Estado usa tal princípio tanto para limitar quanto para nortear sua atuação. Respeitar e
proteger a dignidade humana de todos é a meta eterna da humanidade, do país e da lei.
Esse princípio de destaca por ser um conceito aberto e indeterminado, não sendo possível
mensurá-lo, o que torna inviável restringir quais situações ele abarca, agindo mais como
um padrão de conduta a ser seguido. Nesse ponto, Flávio Tartuce afirma que

A partir desse conceito, entendemos que a dignidade humana é algo que se vê


nos olhos da pessoa, na sua fala e na sua atuação social, no modo como ela
interage com o meio que a cerca. Em suma, a dignidade humana concretiza-se
socialmente, pelo contato da pessoa com a sua comunidade. (TARTUCE,
2017, p. 18).

Logicamente, por escoar em toda a legislação brasileira, tem influência também


no direito civil, principalmente quando se trata de direito de família. A partir da
perspectiva humanizada trazida pela Constituição, o princípio refletiu diretamente no que
se tinha como seio familiar. Tartuce (2017) elenca alguns exemplos que evidenciam a
influência do comentado princípio no ramo do direito aqui estudado, sendo eles: direito à
busca pela felicidade, a mitigação da culpa em ações de separação judicial, a união
poligâmica, a tese de abandono paterno-filial etc.
2 – A igualdade e o respeito à diferença, além de estar no preâmbulo da
Constituição Brasileira, está também presente em seu artigo quinto caput, o qual diz que
todos são iguais perante a lei, ficando evidente a preocupação em garantir o direito de
igualdade. Na verdade, ainda existem diferenças entre os gêneros, então a lei não pode
ignorá-las. No entanto, a discriminação está sendo marginalizada, pois os princípios da
21

igualdade e do respeito às diferenças devem ser preservados, o que produz o ideal de


justiça.
3 – A solidariedade familiar é uma constituição que se refere à “sociedade
fraterna”, que ampara legalmente esse princípio, o qual traz ideias de fraternidade e
reciprocidade. O presente princípio foi tema principal do VI Congresso Brasileiro do
IBDFAM, dada sua relevância, cabendo mencionar o preâmbulo constitucional, que, em
sua redação, vai assegurar uma sociedade fraterna. Lôbo (2011, p. 62) reflete sobre a
inserção da solidariedade no ordenamento jurídico:

A solidariedade, como categoria ética e moral que se projetou para o mundo


jurídico, significa um vínculo de sentimento racionalmente guiado, limitado e
autodeterminado que compele à oferta de ajuda, apoiando-se em uma mínima
similitude de certos interesses e objetivos, de forma a manter a diferença entre
os parceiros na solidariedade.

O Estado promove essa gama de direitos recíprocos entre os componentes da


entidade familiar, até certo ponto, para transferir a responsabilidade a ela e ficar em
segundo plano, desvencilhando-se da exclusividade de cuidar dos seus cidadãos,
repassando para a família grande parcela de responsabilidade na formação dos seus
integrantes. Seguindo essa linha, a Carta Magna/1988 (art. 277) estabelece ser dever
também da família assegurar à criança, ao jovem e ao adolescente direitos como
dignidade, convivência familiar e profissionalização, dispositivo que pode ser aplicado
analogicamente aos idosos, dada sua situação de vulnerabilidade.
4 – O pluralismo das entidades familiares, com as constantes mudanças na
sociedade e a expansão de costumes e conceitos, mostra que o casamento representando,
efetivamente, a única forma de constituição de uma entidade familiar passa a ser um
pensamento superado à medida que novos núcleos familiares começam a surgir e são
reconhecidos pela Constituição; logo, essa exclusividade vai sendo eliminada. Com
efeito, na perspectiva do pluralismo, o reconhecimento e a confiança de várias
organizações familiares assentam os laços afetivos e surgem de forma cada vez mais forte
nos meios sociais, fato que não pode ser ignorado pela sociedade e pelos legisladores.
5 – A proteção integral às crianças, adolescentes e idosos fundamenta-se nos
direitos fundamentais assegurados a esse grupo de pessoas, considerados em
desenvolvimento, conforme dispõe a Constituição Federal/1988 (art. 227). Esses direitos
constituem as verdadeiras diretrizes para a gestão das diversas relações existentes entre
crianças e jovens na família, na sociedade e no país. A saúde, a educação, o lazer e a
22

formação profissional são garantias que devem ser aplicadas de forma eficaz e visando
ao seu interesse superior. Tanto para as crianças e adolescentes como para os idosos existe
uma legislação específica. De um lado, há o Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei n.
8.069/90, de outro, o Estatuto do Idoso, Lei n. 10.741/03, o que revela o quanto essas
pessoas merecem uma atenção especial do ordenamento jurídico.
Os jovens precisam de amparo principalmente durante seu desenvolvimento, que
passa por uma série de vertentes, existindo diversos elementos fundamentais dos pontos
de vista material e afetivo. Já os idosos passam por um processo natural da vida de
fragilização do corpo humano, e é certo que com o passar dos anos seja comum o
aparecimento de algumas enfermidades; muitas vezes, algumas são tão agressivas que
podem comprometer a vida da pessoa que a adquire. Pensando nesse processo de
debilidade inerente ao ciclo da vida, enquadra-se o idoso como um ser vulnerável,
necessitando de tratamento diferenciado, inclusive da estrutura jurídica do país. A
proteção integral garantida pelo Estatuto do Idoso materializa a tutela específica que
merece essa parcela da população, atingindo suas necessidades na totalidade.
6 – A proibição do retrocesso social se refere à impossibilidade de se desconstruir
as orientações constitucionais que norteiam o Direito de família, nomeadamente a
igualdade entre homens e mulheres na vida familiar, a diversidade das entidades
familiares que devem ser protegidas e a igualdade de tratamento entre os filhos. Portanto,
por serem subjetivas, as normas que tratam dos sujeitos precisam ser não restritivas, sem
que haja qualquer outra forma de restringi-las, pois estão consagradas como normas
constitucionais. Sobre o assunto, Streck (2013, p. 97) afirma que “nenhum texto
proveniente do constituinte originário pode sofrer retrocesso que lhe dê alcance jurídico
social inferior ao que tenha originariamente, proporcionando retrocesso ao estado pré-
constituinte”.
Nessa linha de pensamento, acredita-se que ao mesmo tempo que o Estado protege
esses direitos sociais, também deve estar atento para que eles sejam realizados com
sucesso, pois estão além do âmbito das obrigações puramente positivas, e sua efetiva
realização não pode ser ignorada. A proteção integral trazida com o Estatuto do Idoso
materializa a tutela específica que merece essa parcela da população, atingindo suas
necessidades na totalidade.
7 – A afetividade não está expressa no texto constitucional, mas é o princípio
fundamental das relações familiares. Nesse sentido, a Constituição Federal/1988
formulou diretrizes sobre a igualdade entre homens e mulheres na vida familiar e sobre a
23

diversidade de entidades familiares, estabelecendo direitos pessoais e sociais, a fim de


garantir a dignidade da pessoa humana. Nessa perspectiva, Tartuce (2017, p. 28) afirma
que:

O afeto talvez seja apontado, atualmente, como o principal fundamento das


relações familiares. Mesmo não constando a expressão afeto do Texto 18
Maior como sendo um direito fundamental, pode-se afirmar que ele decorre da
valorização constante da dignidade humana.

Nessa linha, a aceitação de uniões estáveis, famílias monoparentais e outros se


fundamenta no princípio da afetividade, elevando-se o afeto à categoria de direito
fundamental quando ligado à garantia da felicidade. Contudo, verificam-se divergências
na doutrina, pois a afetividade não está prevista expressamente no corpo de leis do
ordenamento jurídico nacional. Seu conceito é construído a partir da doutrina, dos
costumes, da interpretação das normas positivadas e princípios, da jurisprudência, e até
da apreciação de questões econômicas, políticas e sociais. Entretanto, é possível enxergar
sua concretização em determinados dispositivos normativos, tais como na Constituição
Federal/1988 (art. 226, § 3º), que prevê a união estável entre o homem e a mulher como
uma entidade familiar, afastando-se da limitação clássica da família matrimonial;
também, a Carta Magna (art. 227 § 4º) dispõe sobre a família monoparental, formada por
um dos genitores e seus filhos. Sendo assim, o princípio da afetividade está criando suas
raízes e já influencia as decisões nos Tribunais.
8 – No que tange à igualdade entre os filhos e entre os cônjuges, a Carta Magna
proibiu a rotulação dos filhos pela condição dos pais. Portanto, adotando não apenas o
princípio da isonomia, mas, sobretudo o da dignidade da pessoa humana, definiu o texto
constitucional ser incabível dar tratamento diferenciado às várias formas de filiação.
Segundo Giancoli (2009, p. 223), “a igualdade entre os filhos é absoluta, não se admitindo
quaisquer distinções. Deste modo, devem os filhos receber igual tratamento, formal e
material”. Portanto, o filho não pode sofrer discriminação relativa ao fato ou às
circunstâncias de seu nascimento. Traz, então, a igualdade de filiação, uma vez que não
se pode favorecer o filho “legítimo” ou penalizar o “ilegítimo”.
9 – Da liberdade e da autonomia privada, o princípio da liberdade se correlaciona
com o princípio da autonomia privada, no qual o particular pode escolher e
autorregulamentar sua vida, trazendo para si o que melhor lhe convém, sem nenhuma
intervenção. Diniz (2011) destaca que:
24

O princípio da liberdade refere-se ao livre poder de formar comunhão de vida,


a livre decisão do casal no planejamento familiar, a livre escolha do regime
matrimonial de bens, a livre aquisição e administração do poder familiar, bem
como a livre opção pelo modelo de formação educacional, cultural e religiosa
da prole.

Já o da autonomia privada significa independência, autodeterminação, aquilo que


é regido por leis próprias. Nas lições de PINTO (1999), a autonomia é a essência do
direito civil, ramo responsável por reger as relações contratuais, e deve ser compreendida
como o poder de compor, conjuntamente ou por ato unilateral, interesses próprios.

2.3 MODELOS DE FAMÍLIA NO ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO

Os múltiplos arranjos familiares sempre existiram, e novas formas de amor têm


sido experimentadas pela sociedade e ainda não são reconhecidas pelo Direito. A
jurisprudência tem se dividido quanto a considerar lícita ou ilícita essa simultaneidade de
relacionamentos familiares. O Superior Tribunal de Justiça e o Supremo Tribunal Federal
não estão reconhecendo algumas entidades familiares que conflitam com o princípio da
monogamia, especialmente.
Com a evolução das famílias no ordenamento jurídico brasileiro, cabe citar as
modalidades existentes e reconhecidas pela jurisprudência e doutrinadores: 1- Família
matrimonial: decorrente do casamento; 2- Família informal: decorrente da união estável;
3- Família homoafetiva: decorrente da união de pessoas do mesmo sexo; 4 - Família
monoparental: constituída pelo vínculo existente entre um dos genitores com seus filhos,
no âmbito de especial proteção do Estado; 5 - Família anaparental: decorrente da ausência
de genitores; 6 - Família recomposta: formadora de múltiplos vínculos biológicos e
socioafetivos; 7 - Família paralela ou simultânea; 8 – Família poliafetiva: decorrente da
união entre mais de duas pessoas (GONÇALVES E SANTOS, 2017).
1 – A família matrimonial é o modelo apoiado pelo Código Civil de 1916, que
prevê, basicamente, apenas um modelo composto pelo casamento, sob uma configuração
hierárquica e hereditária. Nesse caminho, o homem, considerado o chefe da família, é a
referência daquela entidade particular, mesmo que duas pessoas se juntem em uma; pelo
casamento, era o “chefe” (homem) quem a identificava. Mulheres de outro grupo são
menos capazes (ou, às vezes, ignoradas) e não têm o direito de se envolver em atividades
de trabalho, muito menos gerenciar seus próprios bens. Em teoria, o objetivo principal da
25

família é preservar seus bens e permitir que os filhos se tornem as ferramentas para atingir
esse objetivo.
2 – A família informal se refere à entidade formada por casais homossexuais ou
heterossexuais, configurada na convivência pública, contínua e duradoura e estabelecida
com o objetivo de constituição de família, de acordo com o que estabelece o Código
Civil/2002 (art. 1.723) (BRASIL, 2002). Apresenta semelhanças ao casamento,
estabelecendo a relação de companheiros. De acordo com Lamartine e Muniz (2002), a
relação “família-matrimônio” não é mais um parâmetro a ser seguido à risca, pois
casamento e família são situações distintas.
Cabe ressaltar que o Código Civil/2002 (art. 1.726) prevê a conversão da união
estável em casamento. Também derivadas de textos extensos, existem leis gerais que
regulamentam o assunto, como a “Lei dos companheiros”, Lei n. 8.971/1994, que trata
do direito à pensão alimentícia de sócios e assuntos correlatos; e a Lei de Convivência,
Lei n. 9.278/1996, que regulamenta o compartilhamento de itens onerosos adquiridos
durante a integração de conviventes com outras vertentes do gênero.
3 – A família homoafetiva é aquela entre pessoas do mesmo sexo. A sexualidade
é um direito fundamental e decorre da natureza humana. Dias (2016, p. 199) afirma que
“as relações homossexuais se sujeitam à deficiência de normação jurídica, sendo deixadas
à margem da sociedade e à míngua do direito”, tendo dificuldade de ter seu espaço no
mundo do Direito. Como refere Dias (2014, p. 37), “As uniões homoafetivas não são uma
novidade, mas sua visibilidade sim, o que, na prática, as transmutam em fatos novos”.
O legislador brasileiro por muito tempo omitiu a abordagem do tema nas
legislações do país. Essas uniões já fazem parte do cotidiano da sociedade, são
reconhecidas e têm status de família. As ações tramitam nas varas de família, e o
Judiciário brasileiro teve, por meio de jurisprudência, que regularizar as relações
homoafetivas em face da omissão legislativa no país, o que ocorreu por meio da decisão
do Supremo Tribunal Federal/2011.
4 – A família monoparental é hoje reconhecida pela legislação brasileira. Com as
mudanças advindas da cultura, que facilitou o processo de divórcio, cada vez mais se
encontra esse tipo de família. A Constituição Federal/1988 (art. 226, § 4º) dispõe que:
“[...] entende-se, também, como entidade familiar as comunidades formadas por qualquer
dos pais e seus descendentes” (BRASIL, 1988). A formação desse tipo familiar pode
decorrer da separação judicial ou do divórcio, situações em que haja a perda do poder
familiar de um dos genitores, do abandono do lar, da morte de um dos cônjuges, da adoção
26

unilateral por pessoa solteira, ou de uma mãe solteira que decidiu cuidar dos filhos
sozinha (SILVA, 2016).
5 – A família anaparental é aquela em que “não há a presença de alguém que ocupe
a posição de ascendente. É o caso, por exemplo, de dois irmãos que vivem juntos ou de
duas amigas idosas que decidem compartilhar as suas vidas até o dia de suas mortes” (SÁ,
2019, p. 06). Trata-se, assim, de um núcleo familiar diferente daquele constituído por
vínculo afetivo-sexual, por casamento ou por ascendência ou descendência, encontra-se
mais próximo da linha colateral, de mesmo grau, mas podendo ser formado por vínculo
apenas afetivo. A existência da proteção, no ordenamento jurídico brasileiro, desse tipo
de família, é questionada. Dias (2006 apud SÁ, 2009) entende que o rol do artigo 226 da
Constituição Federal é exemplificativo, estando a legitimação da família anaparental
vinculada a uma questão meramente interpretativa, que não necessita ser contra legem,
pois a Constituição Federal não utiliza termos excludentes na abordagem. Trata-se de um
tipo familiar que não tem amparo legal que não seja de interpretação extensiva dos
dispositivos ou de princípios constitucionais do direito.
6 – Família recomposta, também conhecida como família reorganizada ou família
com vários pais, é uma estrutura familiar derivada do casamento ou união estável de um
casal em que um ou dois membros têm filhos em um ou mais relacionamentos anteriores
e, posteriormente, na oportunidade formada surge uma nova família.
7 – O conceito de família paralela, de acordo com o conhecimento da monogamia,
pode ser contextualizado como sendo aquela que se opõe ao princípio da monogamia, na
qual um dos cônjuges é paralelo à primeira família e participa como cônjuge de outra
família.
8 – A família poliafetiva, entre todos esses tipos, é constituída por três ou mais
pessoas, sendo do mesmo gênero ou não, com o objetivo de se relacionarem
amorosamente entre si, havendo o consentimento e a vontade de todos os envolvidos.
27

3 PRINCÍPIO DA MONOGAMIA E PRINCÍPIO DA AFETIVIDADE NAS


RELAÇÕES FAMILIARES

Este capítulo retrata os princípios da monogamia e do casamento, da monogamia


e da união estável, da monogamia em outras relações conjugais e, por fim, o princípio da
afetividade e das relações paralelas.

3.1 PRINCÍPIO DA MONOGAMIA E CASAMENTO

Para dar continuidade ao assunto, é preciso entender o que é o princípio da


monogamia. Nele, o matrimônio com mais de duas pessoas é proibido, sendo
imprescindível que elas sejam fiéis umas às outras, ou seja, as relações de afeto, carnais,
bem como os deveres e obrigações do matrimônio, devem ocorrer com um único cônjuge.
Sousa, Hattori e Mota (2009, p. 121) conceituam a monogamia como um tipo de
associação em que cada um dos sexos monopoliza somente um indivíduo do sexo oposto
para sua reprodução, havendo a formação de um relacionamento exclusivo de longa
duração. A monogamia é um dos dogmas do Direito de Família. Os tribunais costumam
mencioná-la como um princípio jurídico que orienta a formação das relações familiares,
no entanto, em relação às doutrinas, são poucos os autores que realizam um procedimento
metodológico que comprove a natureza do princípio da monogamia.
Não há um estudo aprofundado hoje acerca da natureza jurídica, tampouco sobre
sua repercussão no sistema normativo. Foi de extrema dificuldade encontrar um
doutrinador que não tratasse esse princípio de forma esdrúxula e básica, sendo poucos
aqueles que se debruçam de forma detalhada nas práticas sexuais da sociedade
contemporânea à luz de teorias antropológicas e sociológicas do desenvolvimento. Nesse
viés, Pamplona Filho (2019, p. 58) afirma que:

A monogamia não se sustenta como princípio jurídico, sobretudo, por não ser
considerada um “deve ser” imposto pelo Estado a todas as relações familiares.
No primado da dignidade da pessoa humana, não é possível compelir um
indivíduo a formar uma família essencialmente monogâmica, quando esta não
for a sua essência de vida.

Porém, foi por meio desse “princípio” que surgiu a principal forma de constituição
da família, o casamento tradicional, sendo consideradas famílias apenas as uniões
originadas pelo matrimônio. Nesse sentido, qualquer outra união, senão o matrimônio,
28

era discriminada, por fugir à regra da época. No Código Civil de 1916, havia uma parte
tratando do direito de família, em que somente o casamento era considerado uma forma
de união, com direitos e deveres legais. O princípio da monogamia ultrapassou a tutela
cível, alcançando a esfera penal. No Código Penal de 40, os crimes contra o casamento,
como bigamia e adultério, apareciam em um capítulo, e sobre eles será discorrido mais
adiante.
Nesse modelo, os cônjuges, necessariamente heterossexuais, se unem perante a lei
em matrimônio. Rodrigues (2004, p. 19) define o casamento como um “contrato de direito
de família que tem por fim promover a união do homem e da mulher de conformidade
com a lei, a fim de regularem suas relações sexuais, cuidarem da prole comum e se
prestarem mútua assistência”. Num sentido literal, a monogamia significa estar casado
com uma pessoa. E o casamento é entendido como uma instituição social que envolve um
compromisso legal entre duas pessoas. Nenhuma dessas definições menciona o amor ou
o sexo (BRANDON, 2010, p. 07-08).
Nesse entendimento, a pessoa casada não poderá constituir-se em união estável,
por exemplo, pois o ordenamento jurídico brasileiro não admite que uma pessoa forme
dois núcleos familiares, isto é, dois casamentos, um casamento e uma união estável ou
duas uniões estáveis, fato que viola o princípio da monogamia, que está em questão.
Coelho (2006, p. 139) explica, nessa instância, que, “No direito brasileiro, a relação
monogâmica ainda é essencial à configuração do vínculo de conjugalidade, ninguém pode
manter simultaneamente dois casamentos, um casamento e uma união estável ou duas
uniões estáveis. Esta é a Lei”.
Atualmente, o princípio da monogamia determina muitos efeitos na esfera da
família, principalmente no que se refere ao instituto do casamento, no entanto, com a
mutabilidade do conceito de família e do caso concreto, sua aplicação deixa de ter
originária importância para dar lugar ao princípio da afetividade.

3.2 PRINCÍPIO DA MONOGAMIA E UNIÃO ESTÁVEL

O casamento antigamente era visto como uma única forma de constituir uma
família. Assim, aqueles que viviam juntos sem se casar, mas que mantinham a intenção
de formar família, eram nomeados concubinos – relação hoje conhecida como união
estável. Concubino também era o nome dado à relação do homem que se casava com sua
amante, fazendo com que essas uniões não fossem consideradas dignas perante a
29

sociedade da época. Por esse motivo, os doutrinadores estabeleceram duas espécies de


concubinato, já que o legislador ainda se mantinha “cego” diante dessas uniões, sendo
elas: concubinato puro e concubinato impuro. O primeiro refere-se àquele que não possui
nenhum impedimento para um possível casamento, mantendo a relação apenas por opção;
já o segundo é aquele que possui impedimentos para a realização do matrimônio, como o
adultério, conforme já mencionado.
O Supremo Tribunal Federal criou, assim, uma Súmula, aprovada no ano de 1964,
que diz: “Súmula 380: Comprovada a existência de sociedade de fato entre os concubinos,
é cabível a sua dissolução judicial, com a partilha do patrimônio adquirido pelo esforço
comum” (BRASIL, 1964). Fica o questionamento para aquela relação em que não ocorre
a partilha dos bens, como no caso da amante que recebia uma indenização por serviços
domésticos prestados, comprovada a caracterização da mulher como dona de casa e sua
prestação de serviços no ambiente doméstico.
O Judiciário, após algum tempo, buscou meios para garantir direitos quando do
matrimônio por concubinato impuro, para que não houvesse enriquecimento ilícito do
adúltero em meio a uma relação na qual se obteve algum patrimônio da relação impura.
A única alternativa foi reconhecer as uniões mencionadas como sociedades de fato,
fazendo com que todo o patrimônio adquirido em conjunto e em comum esforço em uma
relação duradoura fosse repartido entre ambos. Isso evidencia a dificuldade de se
estabelecer uma união familiar sem o casamento dos cônjuges, que, ao não aderirem ao
casamento, para não ficarem à mercê da lei, optavam por uma sociedade, visando se
enquadrar nas obrigações da vara cível, por não existir a união de fato pela vara da família.
A união com o objetivo de constituir família só surgiu após a Constituição de 88,
em conjunto com o Código Civil de 2002, trazendo uma base legal no artigo 226 da
Constituição Federal: “Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do
Estado. § 3º – Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o
homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em
casamento” (BRASIL, 1988).
Já o nome união estável surgiu por meio do Código Civil de 2002, quando se
passou a se considerar o concubinato puro como sendo uma entidade familiar, não
havendo mais a necessidade do casamento para a devida caracterização. Assim, conforme
Gonçalves (2007, p. 539), a união estável configura “a união prolongada entre o homem
e a mulher, sem casamento”. A união estável passa a ser uma entidade familiar protegida
pelo Estado, conceituando o legislador sobre o assunto em seu artigo 1.723 do Código
30

Civil: “Art. 1.723. É reconhecida como entidade familiar a união estável entre o homem
e a mulher, configurada na convivência pública, contínua e duradoura e estabelecida com
o objetivo de constituição de família” (BRASIL, 2002).
Essas três condições são essenciais na jurisprudência para o reconhecimento do
vínculo familiar e consequentes direitos e deveres entre os conviventes, conforme é
possível observar no julgado abaixo:

EMENTA: APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DECLARATÓRIA DE


RECONHECIMENTO UNIÃO ESTÁVEL. Presentes os elementos
caracterizadores previstos no art. 1.723 do Código Civil, quais sejam,
convivência pública, contínua e duradoura da autora com o réu, com
assistência mútua e com objetivo de constituir família, é de ser reconhecida a
união estável. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS AO DEFENSOR
PÚBLICO QUE ATUOU COMO CURADOR ESPECIAL. Descabimento.
Apelação da Sucessão parcialmente provida e do INSS desprovida. (TJRS AC
70031329154. Relator(a): Jorge Luís Dall’Agnol. Publicação: Diário da
Justiça do dia 18/06/2010. Órgão Julgador: Sétima Câmara Cível) (RIO
GRANDE DO SUL, 2010).

A legislação veio trazendo diversos direitos a esse novo tipo de família, e o fato
de o artigo a que se refere essa união ser muito parecido com o do casamento de fato
facilitou a conversão da união estável para o casamento. Os direitos e deveres garantidos
aos conviventes são, em regra, equiparados aos do casamento. Com isso, é indiscutível a
equivalência das duas entidades familiares, o que leva a crer que, entre essas formações
familiares, não existe hierarquia jurídica, ainda que seja claro o incentivo do legislador
ao casamento. A partir desse momento, não havia mais por que tratar o relacionamento
como sociedade de fato ou até mesmo um contrato obrigatório para uma possível
indenização por serviços domésticos, passando a ser tratado como união estável, sendo
uma união afetiva.
E, por fim, o legislador não deixou passar o concubinato impuro, já caracterizado
anteriormente, diferenciando totalmente a união estável desse tipo de relação, por meio
do que aponta o Código Civil: “Art. 1.727. As relações não eventuais entre o homem e a
mulher, impedidos de casar-se, constituem concubinato” (BRASIL, 2002). Sendo assim,
o concubinato impuro passou a ser chamado apenas de concubinato, enquanto o
concubinato puro passou a ser denominado união estável, tornando-se uma nova entidade
familiar protegida pelo Estado.
31

3.3 PRINCÍPIO DA MONOGAMIA EM OUTRAS RELAÇÕES CONJUGAIS

O princípio da monogamia proíbe o matrimônio com mais de uma pessoa,


determinando que elas sejam fiéis umas às outras. Atualmente, o que se leva em
consideração para que haja um relacionamento é o afeto, que atua como um laço,
vinculando as pessoas em razão da união de vários sentimentos: amor, felicidade,
proteção, entre outros que originam a vontade de uma pessoa querer estar junto de outra
e manter uma relação.
Na família homoafetiva, o vínculo afetivo que a une é o mesmo vínculo que
mantém a união estável e até mesmo a família matrimonial, aplicando-se parcialmente o
princípio da monogamia, pois ainda se trata de um casal, porém do mesmo sexo, conforme
o entendimento do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, em Agravo de
Instrumento 599075496, como segue:

EMENTA: RELAÇÕES HOMOSSEXUAIS. COMPETÊNCIA PARA


JULGAMENTO DE SEPARAÇÃO DE SOCIEDADE DE FATO DOS
CASAIS FORMADOS POR PESSOAS DO MESMO SEXO. EM SE
TRATANDO DE SITUAÇÕES QUE ENVOLVEM RELAÇÕES DE
AFETO, MOSTRASE COMPETENTE PARA O JULGAMENTO DA
CAUSA UMA DAS VARAS DE FAMÍLIA, A SEMELHANÇA DAS
SEPARAÇÕES OCORRIDAS ENTRE CASAIS HETEROSSEXUAIS.
AGRAVO PROVIDO. (Agravo de Instrumento No 599075496, Oitava
Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Breno Moreira Mussi,
Julgado em 17/06/1999). (RIO GRANDE DO SUL, 1999).

A família pluriparental/mosaico é constituída por entidades formadas a partir de


um casal egresso de casamentos anteriores, que possui filhos do atual casamento e do
anterior. Segundo Dias (2010, p. 51), “[...] nestas novas famílias, a tendência é considerar,
ainda, como monoparental o vínculo do genitor com o seu filho, até porque o novo
casamento dos pais não importa em restrições aos direitos e deveres com relação aos
filhos”.
Na família paralela, a monogamia não se aplica, tendo em vista que esse tipo de
família existe, concomitantemente, a uma família matrimonializada ou em união estável
cujo homem ou mulher mantém relação concubinária impura com o companheiro. Nesse
tipo de relação, incidem somente as normas negativas, ou seja, aquelas que negam direitos
ou excluem características.
Na família parental/anaparental, composta por parentes ou ainda pessoas que,
mesmo não sendo parentes, buscam uma comunhão de vida, não há qualquer conotação
32

sexual, a formação de um casal ou a criação de prole, todavia não se pode afastar o vínculo
afetivo que une tal entidade familiar.
A família eudemonista deixa de ser vista como um contrato com deveres e
obrigações hereditárias, núcleo de economia e reprodução. Nesse sentido, Letícia
Ferrarini (2010, p. 92) discorre que

Não se pode olvidar, todavia, que a crise do sistema monogâmico se apresenta


patente. Paulatinamente, a situação de exclusividade do casamento exclusivo,
monogâmico e indissolúvel vem crescendo. Na realidade, a família brasileira,
no plano social, sempre foi plural, tendo como fonte não apenas o matrimônio,
mas também relacionamentos de fato, de variados perfis, relacionamentos estes
que se manifestavam tanto imitando a família matrimonializada quanto
paralelamente à união conjugal.

Levando isso em consideração, a constituição familiar se dá por meio do afeto


entre duas ou mais pessoas, independentemente de seu sexo biológico. Conforme
compreendem Gutierrez, Ferrão e Rocha (2011, p. 184), “A família passa a ser
necessariamente uma instituição plural que abriga diversos modelos. Não há mais um
vínculo palpável e negociável unindo a família, mas um vínculo afetivo cujo núcleo é a
vontade dos membros daquela entidade”.
Por fim, é preciso se desvencilhar dessa concepção clássica e inquestionável da
monogamia, sob pena de se admitir a exclusão de sujeitos de direitos fundamentais de
devida proteção que o direito lhes deve assegurar, instrumentalizando a entidade familiar
à promoção de valores ultrapassados, cuja rigidez diz respeito a setores preconceituosos
da sociedade.

3.4 PRINCÍPIO DA AFETIVIDADE NAS RELAÇÕES PARALELAS

A união de afeto ou amorosa que existe concomitantemente a outra é chamada de


união paralela. Os humanos são seres sociais, portanto constroem relacionamentos com
outras pessoas por meio da unidade, do afeto e do amor. Por causa disso e de seus
instintos, algumas pessoas optam por buscar a felicidade em mais de um relacionamento,
dependendo das circunstâncias específicas. Como se referem Gagliano e Pamplona Filho
(2012, p. 63):

Observamos, então, que, em virtude do processo de constitucionalização por


que passou o Direito Civil nos últimos anos, o papel a ser desempenhado pela
família ficou mais nítido, podendo-se, inclusive, concluir pela ocorrência de
33

uma inafastável repersonalização. Vale dizer, não mais a (hipócrita) tentativa


de estabilização matrimonial a todo custo, mas sim a própria pessoa humana,
em sua dimensão existencial e familiar, passaria a ser a especial destinatária
das normas de Direito de Família.

Ainda, é o que ressalta, inclusive, Oliveira (2003, p. 128):

O mesmo se diga das uniões desleais, isto é, de pessoa que viva em união
estável e mantenha uma outra simultânea relação amorosa. Uma prejudica a
outra, descaracterizando a estabilidade da segunda união, caso persista a
primeira, ou implicando eventual dissolução desta, não só pelas razões
expostas, como pela quebra dos deveres de mútuo respeito. Do que ficou
exposto, conclui-se que não é possível que simultaneidade de casamento e
união estável, ou 11 de mais de uma união estável. Mas cumpre lembrar a
possibilidade de união estável putativa, à semelhança do casamento putativo,
mesmo em casos de nulidade ou anulação da segunda união, quando haja boa-
fé por parte de um ou de ambos os cônjuges, com reconhecimento de direitos
(art. 221 do CC/16; art. 1.561 do NCC). A Segunda, terceira ou múltipla união
de boa-fé pode ocorrer em hipótese de desconhecimento, pelo companheiro
inocente, da existência de casamento ou de anterior ou paralela união estável
por parte do outro. Subsistirão, em tais condições, os direitos assegurados por
lei ao companheiro de boa-fé, desde que a união por ele mantida se caracterize
como duradoura, contínua, pública e com o propósito de constituição de
família, enquanto não reconhecida ou declarada a nulidade.

Independentemente de serem consideradas antiéticas pela maior parte das pessoas,


dado o fato de a monogamia ser arraigada em nossa sociedade, tais famílias são realidade
e necessitam de proteção jurídica. Nesse sentido, ressalta Dias (2009, p. 51), em relação
às famílias paralelas, que: “[...] é preciso operar a apreensão jurídica dessas duas
realidades. São relações que repercutem no mundo jurídico, pois os companheiros
convivem, muitas vezes têm filhos, e há construção patrimonial comum”.
Isso posto, apesar de muitas vezes repudiadas, as famílias simultâneas devem ser
devidamente tuteladas. Ignorar sua existência seria privilegiar uma em detrimento da
outra, ferindo-se, assim, os princípios da igualdade e dignidade da pessoa humana. Dias
(2007, p. 48) ainda acrescenta que:

Os relacionamentos paralelos, além de receberem denominações pejorativas,


são condenados à invisibilidade. Simplesmente a tendência é não reconhecer
sequer sua existência. Somente na hipótese de a mulher alegar
desconhecimento da duplicidade das vidas do varão é que tais vínculos são
alocados no direito obrigacional e lá tratados como sociedades de fato. [...]
Uniões que persistem por toda uma existência, muitas vezes com extensa prole
e reconhecimento social, são simplesmente expulsas da tutela jurídica

Desse modo, verifica-se que atualmente a afetividade assume uma importância


fundamental nas relações familiares, por ser um dos elementos fundamentais para a
34

formação de uma família. No entanto, as doutrinas ainda trazem dúvidas no que se refere
à natureza jurídica, de modo que alguns negam sua força normativa, como o faz Cristiano
Chaves de Farias e Nelson Rosenvald (2013, p. 155), fragilizando-a e, ainda, limitando
sua aplicação: “[...] não se imagine, porém, que o afeto seja exigível juridicamente, uma
vez que o seu caráter espontâneo impedirá qualquer provocação judicial para impor a
alguém dedicar afeto (amor) a outra pessoa”. Nesse sentido:

Tão importante quanto as prescrições legais, os vínculos decorrentes da


afetividade passaram a ser reconhecidos pelo direito, de que é exemplo cabal
a união estável. Gerada por laços afetivos, a união entre homem e mulher sem
casamento chegou a ser considerada imoral no início do século passado, e só
após décadas de batalhas judiciais foi reconhecida como entidade familiar,
passando pelo concubinato, pelo companheirismo e chegando finalmente à
união estável. (BARBOZA, 2009, p. 25-26).

O afeto une as pessoas, fazendo com que estas compartilhem esperanças e


objetivos afins, gerando uma união tão forte entre seus membros que caracteriza a
existência de uma entidade familiar (DIAS, 2017). Cumpre esclarecer que a afetividade,
sob o ponto de vista jurídico, não se confunde com o afeto; este último se configura em
um fato psicológico, de ocorrência real e necessária; em seu turno, a afetividade é um
princípio jurídico que possui força normativa, impondo dever e obrigação aos membros
da família (BARROS, 2002).
Quando há o objetivo de constituir família, isso pode afetar o campo familiar
apenas para alcançar a satisfação sexual. Quando se trata de famílias paralelas, não se está
falando de relações furtivas ou casuais, mas em vínculos fortes, baseados no afeto. A
família paralela é aquela que se opõe ao princípio da monogamia sobre o qual se discorreu
anteriormente, pois um dos cônjuges participa, paralelamente à primeira família, como
cônjuge de outra(s) família(s).
Ademais, como diz Fachin (1999, p. 10), “não é mais o indivíduo que existe para
a família e para o casamento, mas a família e o casamento existem para o seu
desenvolvimento pessoal, em busca de sua aspiração à felicidade”. Para além desse
caráter eudemonista que a família contemporânea passou a ter, outras transformações
também contribuíram para a repersonalização das relações familiares. Entre elas,
agiganta-se a afetividade, que ganhou foro de princípio jurídico na expressão e retrato da
família como ela é atualmente (CALDERON, 2018).
Em arremate, “[...] a nova família está pautada sob os laços de afetividade, no
reconhecimento da liberdade e da natureza participativa de cada membro da família diante
35

dos demais” (PEREIRA, 2004, p. 161). Portanto, a realização pessoal da afetividade, no


ambiente de convivência e solidariedade, é a função básica da família no século XXI;
observa-se que suas antigas funções (econômica, política, religiosa e procracional)
desapareceram ou desempenham papel secundário (LÔBO, 2017).
36

4 A UNIÃO POLIAFETIVA E SEUS EFEITOS JURÍDICOS E PRÁTICOS

Este capítulo abarca o conceito e as configurações da união poliafetiva, trazendo


à discussão a escritura pública de união poliafetiva, o reconhecimento doutrinário e
jurisprudencial e, por fim, os efeitos jurídicos e práticos que organizam esse tipo de união.

4.1 CONCEITO E CONFIGURAÇÃO

Por se tratar de um tema relativamente recente, não há, ainda, um entendimento


formado sobre o conceito de união poliafetiva. De forma sucinta, seriam “uniões
decorrentes de muitos, vários afetos” (TIZZO; BERTOLINI, 2017, p. 15). Para Madaleno
(2018, p. 25), a união poliafetiva é compreendida da seguinte forma:

Esta é a família poliafetiva, integrada por mais de duas pessoas que convivem
em interação afetiva dispensada da exigência cultural de uma relação de
exclusividade apenas entre um homem e uma mulher, ou somente entre duas
pessoas do mesmo sexo, vivendo um para o outro, mas sim de mais pessoas
vivendo todos sem as correntes de uma vida conjugal convencional.

A união poliafetiva se trata de uma relação amorosa que possui três ou mais
pessoas, as quais convivem simultaneamente, de forma consensual, recíproca e
igualitária. Não possui a monogamia como princípio, tampouco como necessidade, e
estabelece seu próprio código, pela falta de um, preando pela lealdade e pelo respeito
entre si, numa relação amorosa e de afeto. A união poliafetiva é a união decorrente de
vários afetos e tem os mesmos requisitos das uniões estável e homoafetiva, porém a
poliafetividade se constitui por mais de duas pessoas, do mesmo gênero ou não, e todos
os membros dessa união formam uma família (CHATER, 2015).
Nesse tipo de união, todos os envolvidos da relação se consideram, juntos, uma
família, não existindo pré-requisito para tal, isto é, não há obrigação de o núcleo familiar
ser formado por duas mulheres e um homem ou dois homens e uma mulher. Inclusive, a
união pode ser de três pessoas ou mais do mesmo sexo (DOMITH, 2014).
Santiago (2014) entende que o elemento mais importante e norteador do Direito
de família é o afeto, sendo este fundamental para o reconhecimento jurídico do poliamor,
uma vez que essa entidade está baseada em tal sentimento.
37

Portanto, diante da divergência doutrinária quanto à sua natureza jurídica, faz-


se mister demonstrar, com apoio na teoria dos princípios do professor gaúcho
Humberto Ávila, que a afetividade é um princípio 12 norteador do Direito de
Família, providência imprescindível para o reconhecimento jurídico do
poliamor, já que essa identidade relacional se funda no afeto. (SANTIAGO,
2014, p. 10).

Destaca-se que a união poliafetiva se difere da família paralela. As famílias


paralelas são aquelas formadas por diferentes núcleos familiares, que possuem ao menos
um integrante comum, o qual mantém comunhão de vida e interesses com esses núcleos
distintos. Já a união poliafetiva é aquela formada por três ou mais pessoas que mantêm
comunhão de vida e interesses entre si. Ou seja, na união poliafetiva um único núcleo
familiar possui três ou mais pessoas em comunhão, enquanto nas famílias paralelas há
mais de um núcleo familiar, no qual pelo menos uma pessoa mantém comunhão de vida
e interesses com pessoas distintas, sem que todas se relacionem entre si (VECCHIATTI,
2017).
A poliafetividade é decorrente do poliamor, que se trata de duas ou mais pessoas
que convivem de forma amorosa, simultaneamente, com consentimento para essa relação.
A base do poliamor é o amor, a ética, lealdade e a honestidade.

A poliafetividade, por sua vez, decorre do poliamor qualificado pelo objetivo


de constituir família, ou seja, um núcleo familiar formado por três ou mais
pessoas, que manifestam livremente a vontade de constituir família,
partilhando objetivos comuns, fundados na afetividade, boa-fé e solidariedade.
(PAMPLONA FILHO, 2020, p. 46).

“O poliamor surgiu após o enfraquecimento do amor exclusivo, possibilitando que


as pessoas amassem e se relacionassem sexualmente com mais de uma pessoa ao mesmo
tempo” (CAMELO, 2020, p. 129). Nesse entendimento, “O poliamor, então, significa o
amor consentindo e sabido entre várias pessoas que optam por viver esse tipo de
relacionamento, havendo respeito, lealdade e felicidade entre eles” (SANTOS, 2020, p.
20). Camelo (2020, p. 131) chama atenção para o fato de que “Os relacionamentos
poliamorosos não possuem apenas conotação sexual, eles se referem aos sentimentos dos
envolvidos, de modo que um dos aspectos fundamentais dessa modalidade de
relacionamento é o amor”.
Já em relação à poligamia e à poliginia, na primeira o homem possui várias
parceiras; e na outra, a mulher possui vários parceiros. A poliafetividiade se difere desses
tipos de relação porque na poligamia e na poliginia o homem ou a mulher escolhem seus
parceiros sem o consentimento da primeira esposa ou do marido. “Na poligamia, em
38

regra, não existe uma relação circular (envolvimento amoroso recíproco entre todos os
envolvidos), mas sim um centro de “poder" (o homem, no caso) que pode estabelecer
múltiplas relações simultâneas independentemente da aceitação dos demais envolvidos”
(PASSOS, 2014, p. 10).
Na união denominada poliafetiva, é constituído apenas um núcleo familiar, e todos
os integrantes residem na mesma casa, de modo que o referido relacionamento pode ser
equiparado ao casamento, visto que a única diferença é o número de integrantes da
relação. Assim, o tratamento dispensado às diversas entidades familiares reconhecidas
pelo ordenamento jurídico brasileiro também deve ser conferido às uniões poliafetivas
(SANTIAGO, 2015).
Levando em consideração tudo o foi mencionado e, ainda, considerando os
princípios da pluralidade de entidades familiares e da liberdade, os relacionamentos
poliafetivos, ou seja, aquelas relações de três ou mais pessoas que se envolvem de forma
consensual, instruídos com amor e honestidade, requerem o mesmo respeito concedido
às demais entidades familiares formadas livremente pela afetividade de seus membros.

4.2 A ESCRITURA PÚBLICA DE UNIÃO POLIAFETIVA

O primeiro registro de uma união poliafetiva no Brasil ocorreu em um Cartório de


Notas, na cidade de Tupã, interior de São Paulo, quando um trio formado por duas
mulheres e um homem lavrou “Escritura Declaratória de União Poliafetiva”; a relação já
existia há mais de três anos sob o mesmo teto.
Pereira (2012), ao comentar acerca da escritura de união poliafetiva lavrada na
cidade de Tupã, afirma que não existe inconstitucionalidade, afinal trata-se de mera
declaração de vontade para a formação de núcleo afetivo, não devendo o Estado interferir
na vida privada das pessoas. A tabeliã responsável por lavrar aludida escritura considera
que a união se entende apenas como um contrato entre três pessoas, que visa atribuir os
efeitos da união estável ao trio, como maneira de possibilitar a igualdade aos que fazem
parte dessa relação, já que a lei é omissa nesse ponto (BERTOLINI e TIZZO, 2013).
Outras uniões foram oficializadas no Brasil, a exemplo de uma entre três
mulheres, em outubro de 2015, em um cartório na cidade do Rio de Janeiro, ocasião em
que realizaram, até mesmo, testamento para regularizar futuras nuances sucessórias (DAL
PIVA, 2015). Também, em abril de 2016, foi lavrada, na mesma cidade, união poliafetiva
entre duas mulheres e um homem (G1, 2016). Em 2015, Fernanda de Freitas Leitão, que
39

também é tabeliã em cartório extrajudicial, acabou por firmar uma união entre três
mulheres, fazendo isso com base no princípio da dignidade da pessoa humana, bem como
na visão de que o conceito de família é plural e aberto, visto que aquilo que não está
vedado faz-se permitido pelo ordenamento pátrio (ERLICHMAN, 2016).
De acordo com o IBDFAM (2012), uma frase retirada da Escritura Pública
Declaratória de União Poliafetiva resume o desejo das partes em tornar pública uma
relação que consideram familiar e de união estável:

Os declarantes, diante da lacuna legal no reconhecimento desse modelo de


união afetiva múltipla e simultânea, intentam estabelecer as regras para
garantia de seus direitos e deveres, pretendendo vê-las reconhecidas e
respeitadas social, econômica e juridicamente, em caso de questionamentos ou
litígios surgidos entre si ou com terceiros, tendo por base os princípios
constitucionais da liberdade, dignidade e igualdade.

Como se pode observar, a escritura trata dos direitos e deveres dos conviventes
sobre as relações patrimoniais, bem como dispõe sobre a dissolução da união poliafetiva
e os efeitos jurídicos desse tipo de união. Nesse caso, decidem que um dos coabitantes
exercerá os direitos de gestão de ativos. Os direitos e deveres dos conviventes incluem a
assistência material e emocional, em última instância, para o bem-estar pessoal e comum,
cabendo à lealdade manter a convivência dos três. Nesse mesmo sentido, Vecchiatti
(2012, p. 157) ensina que:

Assim, ao elaborar determinado texto normativo, pode ter o legislador se


omitido quanto a determinado ponto, o que não significa que essa situação
omitida deva ser tida como proibida, uma vez que em Direito não existem
“proibições implícitas” e, ainda, ante a existência da interpretação extensiva e
da analogia como técnicas de interpretação jurídica, que visam garantir que
situações idênticas ou fundamentalmente idênticas àquelas expressamente
regulamentadas recebam o mesmo tratamento jurídico, como sucedâneo da
isonomia constitucionalmente consagrada.

A destacada escritura teve como objetivo tornar pública a relação entre os três
indivíduos, estipulando direitos e deveres dos conviventes, regime patrimonial – tendo
sido adotado a comunhão parcial, em analogia aos artigos 1.658 a 1.666 da Codificação
Civil –, dever de lealdade e manutenção da harmonia entre as três pessoas, elegendo-se,
ademais, um dos conviventes para exercer a administração dos bens (TARTUCE, 2012).
Todavia, em 2016, o Conselho Nacional de Justiça sugeriu a suspensão da
lavratura das escrituras públicas de poliafetividade, conforme esclareceu Andrigui (2018,
p. 01): “Essa é apenas uma sugestão aos tabelionatos, como medida de prudência, até que
40

se discuta com profundidade esse tema tão complexo que extrapola os interesses das
pessoas envolvidas na relação afetiva”. Essa decisão ocorreu em função da preocupação
de que o direito dos integrantes dessa união tenha reflexos nas áreas do direito de Família,
Sucessões e Previdência, devendo a questão ser discutida e regulamentada para que
ninguém seja lesado. Isso, porém, não diminui a importância do reconhecimento desse
tipo de união.
Embora esse tipo de relação não seja tão aparente, ela começou a acontecer com
mais frequência e, em razão disso, o Conselho Nacional de Justiça, em 2018, por meio do
pedido de providência n. 0001459-08.2016.2.00.0000 proibiu os cartórios de lavrarem
tais escrituras, como se o fato fosse impedir com que esse tipo de relação existisse.
Segundo o entendimento do Conselho Nacional de Justiça no citado Pedido de
Providência, os poucos casos existentes no país e a falta de amadurecimento do debate
inabilitam o poliafeto como instituidor de entidade familiar, sendo esse tipo de união
sobre repulsa social, o que dificulta a concessão de status tão importante a essa
modalidade de relacionamento.
Além disso, a sociedade brasileira tem a monogamia como elemento estrutural e
os tribunais repelem relacionamentos que apresentam paralelismo afetivo, o que limita a
autonomia da vontade das partes e veda a lavratura de escritura pública que tenha por
objeto a união poliafetiva. Desse modo, o fato de os declarantes afirmarem seu
comprometimento uns com os outros perante o tabelião não faz surgir uma nova
modalidade de família, e a posse da escritura pública não gera efeitos de Direito de
Família para os envolvidos, como segue:

PEDIDO DE PROVIDÊNCIAS. UNIÃO ESTÁVEL POLIAFETIVA.


ENTIDADE FAMILIAR. RECONHECIMENTO. IMPOSSIBILDADE.
FAMÍLIA. CATEGORIA SOCIOCULTURAL. IMATURIDADE SOCIAL
DA UNIÃO POLIAFETIVA COMO FAMÍLIA. DECLARAÇÃO DE
VONTADE. INAPTIDÃO PARA CRIAR ENTE SOCIAL. MONOGAMIA.
ELEMENTO ESTRUTURAL DA SOCIEDADE. ESCRITURA PÚBLICA
DECLARATÓRIA DE UNIÃO POLIAFETIVA. LAVRATURA.
VEDAÇÃO. 1. A Constituição Federal de 1988 assegura à família a especial
proteção do Estado, abarcando suas diferentes formas e arranjos e respeitando
a diversidade das constituições familiares, sem hierarquizá-las. 2. A família é
um fenômeno social e cultural com aspectos antropológico, social e jurídico
que refletem a sociedade de seu tempo e lugar. As formas de união afetiva
conjugal – tanto as “matrimonializadas” quanto as “não matrimonializadas” –
são produto social e cultural, pois são reconhecidas como instituição familiar
de acordo com as regras e costumes da sociedade em que estiverem inseridas.
3. A alteração jurídico-social começa no mundo dos fatos e é incorporada pelo
direito de forma gradual, uma vez que a mudança cultural surge primeiro e a
alteração legislativa vem depois, regulando os direitos advindos das novas
conformações sociais sobrevindas dos costumes. 4. A relação “poliamorosa”
41

configura-se pelo relacionamento múltiplo e simultâneo de três ou mais


pessoas e é tema praticamente ausente da vida social, pouco debatido na
comunidade jurídica e com dificuldades de definição clara em razão do grande
número de experiências possíveis para os relacionamentos. 5. Apesar da
ausência de sistematização dos conceitos, a “união poliafetiva” – descrita nas
escrituras públicas como “modelo de união afetiva múltipla, conjunta e
simultânea” – parece ser uma espécie do gênero “poliamor”.94 6. Os grupos
familiares reconhecidos no Brasil são aqueles incorporados aos costumes e à
vivência do brasileiro e a aceitação social do “poliafeto” importa para o
tratamento jurídico da pretensa família “poliafetiva”. 7. A diversidade de
experiências e a falta de amadurecimento do debate inabilita o “poliafeto”
como instituidor de entidade familiar no atual estágio da sociedade e da
compreensão jurisprudencial. Uniões formadas por mais de dois cônjuges
sofrem forte repulsa social e os poucos casos existentes no país não refletem a
posição da sociedade acerca do tema; consequentemente, a situação não
representa alteração social hábil a modificar o mundo jurídico. 8. A sociedade
brasileira não incorporou a “união poliafetiva” como forma de constituição de
família, o que dificulta a concessão de status tão importante a essa modalidade
de relacionamento, que ainda carece de maturação. Situações pontuais e
casuísticas que ainda não foram submetidas ao necessário amadurecimento no
seio da sociedade não possuem aptidão para ser reconhecidas como entidade
familiar. 9. Futuramente, caso haja o amadurecimento da “união poliafetiva”
como entidade familiar na sociedade brasileira, a matéria pode ser disciplinada
por lei destinada a tratar das suas especificidades, pois a) as regras que regulam
relacionamentos monogâmicos não são hábeis a regular a vida amorosa
“poliafetiva”, que é mais complexa e sujeita a conflitos em razão da maior
quantidade de vínculos; e b) existem consequências jurídicas que envolvem
terceiros alheios à convivência, transcendendo o subjetivismo amoroso e a
vontade dos envolvidos. 10. A escritura pública declaratória é o instrumento
pelo qual o tabelião dá contorno jurídico à manifestação da vontade do
declarante, cujo conteúdo deve ser lícito, uma vez que situações contrárias à
lei não podem ser objeto desse ato notarial. 11. A sociedade brasileira tem a
monogamia como elemento estrutural e os tribunais repelem relacionamentos
que apresentam paralelismo afetivo, o que limita a autonomia da vontade das
partes e veda a lavratura de escritura pública que tenha por objeto a união
“poliafetiva”. 12. O fato de os declarantes afirmarem seu comprometimento
uns com os outros perante o tabelião não faz surgir nova modalidade familiar
e a posse da escritura pública não gera efeitos de Direito de Família para os
envolvidos. 13. Pedido de providências julgado procedente. (CNJ – PP:
0001459-08.2016.2.00.0000, Relator: João Otávio de Noronha Data de
Julgamento: 26/06/2018). (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2018, p.
01).

De acordo com a votação, o placar final se deu da seguinte forma: sete votos pela
proibição do registro; cinco votos para permitir o registro; e apenas o voto do conselheiro
Luciano Frota foi totalmente divergente. O entendimento formado pelos conselheiros é
de que esse tipo de documento atesta um ato de fé pública e por isso implica o
reconhecimento de direitos garantidos a casais formados por casamento ou união estável
como direitos sucessórios e previdenciários (CNJ, 2018).
42

4.3 RECONHECIMENTO DA UNIÃO POLIAFETIVA E SEUS EFEITOS JURÍDICOS


E PRÁTICOS

A grande dificuldade de se reconhecer direitos às famílias poliafetivas é colocar o


princípio da monogamia em xeque, pois todo o sistema jurídico brasileiro está organizado
com base na monogamia. Por não serem relações monogâmicas, as uniões poliafetivas
são vistas com um olhar de discriminação, pois se acredita que as relações poligâmicas
são imorais e que não é correto se relacionar com mais de uma pessoa ao mesmo tempo
(CHATER, 2015).
Prova dessa discriminação é que as uniões poliafetivas não podem mais ser
levadas ao cartório para a lavratura da escritura pública de declaração de união estável,
conforme decisão do Conselho Nacional de Justiça (VENOSA, 2020).
Vale dizer que tais direitos não afrontam a ética, podendo ir contra a moral
religiosa estabelecida. Seriam, assim, contra a ética e contra os princípios constitucionais
se não fosse respeitada a liberdade dos sujeitos de estabelecerem suas famílias como
quisessem, devendo as regras jurídicas se adaptar aos costumes. Contudo, apesar de a
escritura pública de união poliafetiva ter sido considerada inexistente, indecente, nula e
rotulada como afrontosa à moral e aos bons costumes, Dias (2020), Pamplona Filho e
Viegas (2019, p. 64) afirmam que deve ser

Reconhecida a natureza de família à união poliafetiva – composta por


múltiplos parceiros, fundada na convivência pública, contínua, duradoura e
com animus de constituir família – a sua formalização, por meio de escritura
pública, é mera consequência que gera segurança jurídica para as partes [...].

É indiscutível o fato de que as uniões poliafetivas já existiam há muito tempo no


Brasil, porém, a questão só veio à tona após essas primeiras escrituras públicas
documentando as uniões que foram lavradas de fato. Com o devido registro público dessa
união, esta passou a ter os mesmos direitos e deveres pertencentes às uniões estável e
homoafetiva. Nesse sentido:

Os declarantes, diante da lacuna legal no reconhecimento desse modelo de


união afetiva múltipla e simultânea, intentam estabelecer as regras para
garantia de seus direitos e deveres, pretendendo vê-las reconhecidas e
respeitadas social, econômica e juridicamente, em caso de questionamentos ou
litígios surgidos entre si ou com terceiros, tendo por base os princípios
constitucionais da liberdade, dignidade e igualdade”. (IBDFAM, 2012, p. 01).
43

Todavia, entende-se que a decisão exagerada se coaduna com a aversão à família


não monogâmica apresentada pelos religiosas e pelos conservadores. Ocorre que “moral
e religião não podem atrapalhar a promoção da dignidade dos indivíduos que escolheram
viver no âmbito de uma conjugalidade múltipla” (VIEGAS, 2017, p. 191), pois, embora
esse tipo de relação não seja tão aparente, começou a aumentar, e a família não pode ficar
à margem do direito. Nesse sentido, as perspectivas futuras indicam que as famílias
poliafetivas, assim como ocorreu com as famílias homoafetivas, reclamam por
reconhecimento (POLI; HAZAN, 2016).
No que toca aos posicionamentos favoráveis ao reconhecimento da união
poliafetiva como entidade familiar, estes estão ligados, especialmente, aos princípios
norteadores do Direito de Família. Deste modo, conforme destaca Madaleno (2013), o
princípio do pluralismo das entidades familiares, estampado pela Carta Magna, destacou
no matrimônio apenas uma das maneiras de constituir família, tornando-se admissível
outros modelos além dos disciplinados pela Constituição Federal.
Pereira (2012), ao comentar acerca da escritura de união poliafetiva lavrada na
cidade de Tupã, afirma que não existe inconstitucionalidade, afinal trata-se de mera
declaração de vontade para formação de núcleo afetivo, não devendo o Estado interferir
na vida privada das pessoas. Por sua vez, Figueiredo e Fermentão (2015, p. 604) entendem
que:

A declaração é um ato jurídico perfeito, sem qualquer mácula de


constitucionalidade e o interesse jurídico restringe-se à sua legalidade, sem
enveredar para o campo da moralidade, do conservadorismo e do preconceito
que um dia já regeu o Direito de Família. A leitura do Código Civil deve ser
norteada pelos princípios de liberdade e igualdade, sem espaços para
preconceito ou moralismo, em face da força gravitacional do princípio da
dignidade da pessoa humana, previsto já no marco inicial da atual Constituição
Federal.

Silva (2012) afirma, em sua tese de doutorado na Universidade do Estado do Rio


de Janeiro, intitulada “Da superação da monogamia como princípio estruturante do
estatuto jurídico da família”, que o princípio jurídico da monogamia legitima a dominação
masculina, além de apontar o fato de que as concubinas são excluídas da condição de
sujeito de direito, permanecendo à margem da sociedade.
Em contrapartida, o deputado Vinícius Carvalho (2021, p. 01) apresentou um
projeto de lei com o objetivo de proibir o reconhecimento da união poliafetiva,
justificando sua pretensão ao alegar que:
44

[...] o objetivo de impedir que seja reconhecido pelos cartórios no Brasil a


chamada União Poliafetiva formada por mais de dois conviventes. Registros
dessa natureza vem sendo feitos ao arrepio da legislação brasileira, embora
algumas opiniões entendam que com a decisão do Supremo Tribunal Federal
de reconhecer “outras formas de convivência familiar fundadas no afeto’.
Entendemos que reconhecer a Poligamia no Brasil é um atentado que fere de
morte a família tradicional em total contradição com a nossa cultura e valores
sociais [...]. (BRASIL, 2016).

De acordo com a concepção de Moreira-Filho (2018), a monogamia é apenas um


valor e uma conduta moral que varia de gradação e de importância para cada indivíduo;
assim, a afirmação de que o ordenamento jurídico proíbe expressamente o poliamor é
falaciosa. Para o autor, o poliamor e a bigamia não se confundem.
Conforme orienta Vecchiatti (2014), a Constituição Federal não protegeu somente
uma espécie de família, visto que a tradição discriminatória estampada pelo Código Civil,
em seu artigo 1.521, inciso VI e pelo artigo 1.723, §1º, demonstra-se ilegítima e, até
mesmo, inconstitucional, por não respeitar a isonomia. Portanto, nessa linha de análise,
desde que a família poliafetiva não gere opressão a nenhum de seus integrantes, deve
haver seu reconhecimento pelo Estado, consubstanciado no princípio da pluralidade de
entidades familiares e na ausência de motivação lógico-racional que possa justificar seu
não reconhecimento (VECCHIATTI, 2013).
Nessa discussão, Silva (ano) é contrária à utilização da escritura pública de união
estável para registro de uniões poliafetivas, considerando o que dispõe a Constituição
Federal (art. 226, § 3º), para a qual a união estável é a união entre duas pessoas, o que
tornaria a escritura inconstitucional e, por consequência, o registro feito pelos cartórios
de Tupã e da Barra da Tijuca, pois estariam violando o preceito constitucional pelo fato
de sua constituição envolver mais de três pessoas, como segue:

[...] Esse tipo de união, poliafetiva, não tem direitos de família e a sucessões.
Elas dizem que os três, esses chamados trisal, têm dever e direitos de lealdade,
fidelidade, assistência, presunção de partilha de patrimônio entre os membros
[...]. No entanto, essas pessoas não têm esses direitos, é um engodo, estão
fazendo pessoas incidirem em erro, saem de lá achando que têm esse direito,
quando não têm. Acham que a lei vale para elas, quando não vale1.

Outrossim, segundo Espírito Santo (2016, p. 01), em sua representação, a ADFAS


alegou, entre outras razões, que a união poliafetiva não possui eficácia jurídica e fere os
princípios familiares, como segue:

1
Disponível em: https://oglobo.globo.com/brasil/poliafetivos-nao-tem-direito-de-familia-diz-advogada-
contraria-as-unioes-19360291. Acesso em 17 out. 2021.
45

A escritura pública dessas “uniões poliafetivas” é inválida à luz dos elementos


constitucionais e infraconstitucionais brasileiros. Escrituras públicas de trios
ou mais pessoas não têm eficácia jurídica, violam os mais básicos princípios
familiares, as regras constitucionais sobre família, a dignidade da pessoa
humana e as leis civis, assim como contrariam a moral e os costumes da nação
brasileira, como se passará a demonstrar.

Por sua vez, o Conselho Nacional de Justiça (2018, p. 23) manifestou


entendimento pela impossibilidade de se aplicar de forma analógica as regras da relação
monogâmica às relações poliafetivas, uma vez que as uniões poliafetivas são mais
complexas, por terem um número maior de envolvidos, por isso não poderia haver efeitos
jurídicos:

Hoje, a união poliafetiva viola o direito em vigência no país, que veda


expressamente a possibilidade de mais de um vínculo matrimonial simultâneo
e proíbe, por analogia, uniões estáveis múltiplas. O entendimento
jurisprudencial dos tribunais pátrios também repele a existência de uniões
estáveis simultâneas ao casamento.

Ainda, Madaleno (2017) alega que o princípio da monogamia é ordenador de


uma conduta humana ao menos preferencial da organização das relações
jurídicas da família do mundo ocidental, e que somente o Poder Judiciário está
capacitado para reconhecer circunstanciais efeitos jurídicos aos contratos de relações
poliafetivas.
Contudo, questiona-se a interferência do Estado nas relações derivadas de um
determinado relacionamento, especialmente nas uniões poliafetivas. Essa intromissão é
vista também no Código Penal (art. 235), quando tipifica o crime de bigamia. Por outro
lado, a inserção desse tipo penal pode ser analisada juntamente com o comportamento
que se espera das pessoas ao viverem em sociedade.
Nessa perspectiva, Moreira-Filho (2018, p. 19) afirma que

As relações familiares estão em constante mutação, as opções de vida, as


crenças religiosas e a forma de definição da opção sexual mudam a cada dia e
nem por isso deixam de ser protegidas juridicamente. Até bem pouco tempo
atrás, a definição de família era única, ou seja, a comunidade formada pelos
pais e seus filhos. Contudo, hoje temos uma definição exata do que seja
família? Existem conceitos e requisitos imutáveis para defini-la jurídica e
conceitualmente? Lógico que não! [...] Vejam que a dificuldade de
conceituação e das várias acepções do que seja atualmente família não retiram
sua proteção jurídica e por que deveria sê-lo com o poliamor?
46

Apesar disso, nem sempre as medidas do Estado retratam os anseios da sociedade.


A Constituição preceitua a autonomia, a dignidade, a solidariedade, o pluralismo familiar
e a não intervenção estatal na família, no entanto pode-se observar que o legislador
interfere de forma excessiva na família, impondo comportamentos que nem sempre estão
ligados à realidade de fato da maioria da sociedade. O legislador, assim, se mostra inerte
ao negar direitos às novas famílias, por influências de valores sociais e religiosos.
É plausível mencionar que o Tribunal de Justiça do Estado de Pernambuco, em
Apelação civil n. 1960072, de relatoria de José Fernandes, deu reconhecimento à união
paralela, pautando-se a decisão nos princípios do moderno direito de família, que
ampliam a visão de entidade familiar, considerando que em uma democracia pluralista o
sistema jurídico-positivo deve acolher as multifárias manifestações familiares cultivadas
no meio social, abstendo-se de, pela defesa de um conceito restritivo de família, pretender
controlar a conduta dos indivíduos no campo afetivo:

DIREITO DE FAMÍLIA. PRELIMINARES REJEITADAS. UNIÕES


ESTÁVEIS PARALELAS. RECONHECIMENTO.1. Estando demonstrada,
no plano dos fatos, a coexistência de duas relações afetivas públicas,
duradouras e contínuas, mantidas com a finalidade de constituir família, é
devido o seu reconhecimento jurídico à conta de uniões estáveis, sob pena de
negar a ambas a proteção do Direito. [...]3. Os princípios do moderno Direito
de Família, alicerçados na Constituição de 1988, consagram uma noção
ampliativa e inclusiva da entidade familiar, que se caracteriza, diante do
arcabouço normativo constitucional, como o lócus institucional para a
concretização de direitos fundamentais. Entendimento do STF na análise das
uniões homoafetivas (ADI 4277/DF e ADPF 132/RJ). 4. Em uma democracia
pluralista, o sistema jurídico- positivo deve acolher as multifárias
manifestações familiares cultivadas no meio social, abstendo - se de, pela
defesa de um conceito restritivo de família, pretender controlar a conduta dos
indivíduos no campo afetivo. 5. Precedentes do TJDF e do TJRS. 6. Apelação
a que se nega provimento. (TJ - PE -APL: 1960072 PE, Relator: José
Fernandes, Data de Julgamento: 12/06/2013, 5ª Câmara Cível, Data de
Publicação: 11/07/2013). (PERNAMBUCO, 2013).

Ante essa decisão, questionam-se as razões pelas quais o Poder Judiciário inclina-
se a aceitar a união paralela, que, embora se diferencie da união poliafetiva, possui, de
certa forma, a mesma problemática.
Contudo, apesar de a legislação se omitir sobre o tema, é possível realizar uma
interpretação de maneira a estender os direitos previstos aos integrantes das relações
monogâmicas aos das relações poliamorosas. De acordo com Martinez (2016), os
aspectos relacionados à poliafetividade não têm gerado muito interesse entre os
especialistas de Direito Previdenciário e Sucessório, sobretudo porque os casos oficiais
de poligamia são raros e possuem poucos desdobramentos na ordem social.
47

O novo Código Civil silencia a respeito; não há tratamento do assunto, embora


a codificação seja de 2002. Quando de debates patrimoniais, os juízes não terão
esse farol para ajudá-lo nesse labirinto jurídico. Terão de se utilizar da analogia
e da exegese teleológica. Quem se verá em palpos de aranha é o INSS, sempre
um dos primeiros a ser acionado, com algum pedido de inscrição de
dependentes ou até mesmo de um requerimento da pensão por morte ou do
auxílio-reclusão. (MARTINEZ, 2016, p. 9).

Pereira (2012, p. 20), ao se referir a evolução proporcionada pela jurisprudência


no ordenamento jurídico, introduzindo novos termos, destacou a partilha de bens na forma
de triação.
Conforme o julgado da Apelação Cível n. 70.039.284.542 de 2010, proveniente
do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, pode-se destacar o entendimento no sentido
de se reconhecer a união paralela e a partilha dos bens na forma de triação:

Reconhecimento de união dúplice que impõe partilha de bens na forma de


triação, em sede de liquidação de sentença, com a participação obrigatória da
esposa formal. Precedentes jurisprudências. Ex-companheira que está afastada
há muitos anos do mercado de trabalho, e que tem evidente dependência
econômica, inclusive com reconhecimento expresso disso no contrato
particular de união estável firmado entre as partes. De rigor a fixação de
alimentos em prol dela. Adequado o valor fixado a título de alimentos em prol
do filho comum, porquanto não comprovada a alegada impossibilidade
econômica do alimentante, que inclusive apresenta evidentes sinais exteriores
de riqueza. APELO DO RÉU DESPROVIDO. APELO DA AUTORA
PROVIDO. EM MONOCRÁTICA. (PEREIRA, 2012, p. 51).

Sobre o termo triação, Alves (2015, p. 01) esclarece que:

A expressão triação foi cunhada em decisão do des. Rui Portanova (2005),


quando demonstrada a existência de outra união estável em período
concomitante a uma primeira união estável. Admitiu-se, então, que os bens
adquiridos na constância das uniões dúplices fossem partilhados entre as
companheiras e o de cujus. (TJRS, 8ª Câmara Cível, Apelação Cível nº
70011258605, j. Em 25/08/2005). Naquele mesmo ano, o tribunal gaúcho já
houvera reconhecido efeitos jurídicos às uniões paralelas.

É fato que a maior parte das decisões judiciais proferidas pelos tribunais
brasileiros são contrárias ao reconhecimento das uniões paralelas e negam efeitos
patrimoniais, entretanto a teoria da triação é vista, em alguns julgados, quando ocorre a
existência de dois relacionamentos simultâneos, reconhecendo-se essas uniões. Em vez
de tutelar os direitos para apenas um dos conviventes, protegeu-se todos os envolvidos na
relação, uma vez que não haveria como negá-los ou exclui-los. Observa-se, nessa decisão
do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, em Apelação civil n. 70038296141, que os
bens adquiridos na constância da união dúplice são partilhados entre as companheiras e o
48

de cujus, sendo que, nesse caso, a meação se transmuda em triação, pela duplicidade de
uniões; ou seja, havendo duplicidade de uniões estáveis, é cabível a partição do
patrimônio amealhado na concomitância de todas as relações envolvidas, pois o Poder
Judiciário não pode se esquivar de tutelar as relações baseadas no afeto, inobstante as
formalidades muitas vezes impingidas pela sociedade para que uma união seja digna de
reconhecimento judicial, como segue:

APELAÇÃO. UNIÃO DÚPLICE. UNIÃO ESTÁVEL. PROVA. “MEAÇÃO”


TRIAÇÃO. SUCESSÃO. PROVA DO PERÍODO DE UNIÃO E UNIÃO
DÚPLICE A prova dos autos é robusta e firme a demonstrar a existência de
união entre a autora e o de cujus em período concomitante a outra união estável
também vivida pelo de cujus. Reconhecimento de união dúplice. Precedentes
jurisprudências. MEAÇÃO (TRIAÇÃO) Os bens adquiridos na constância da
união dúplice são partilhados entre as companheiras e o de cujus. Meação que
se transmuda em triação, pela duplicidade de uniões. DERAM
PROVIMENTO À APELAÇÃO. POR MAIORIA. (SEGREDO DE
JUSTIÇA) (BRASIL, TJRS. 2005). UNIÃO ESTÁVEL.
RECONHECIMENTO. DUPLICIDADE DE CÉLULAS FAMILIARES. O
Judiciário não pode se esquivar de tutelar as relações baseadas no afeto,
inobstante as formalidades muitas vezes impingidas pela sociedade para que
uma união seja" digna "de reconhecimento judicial. Dessa forma, havendo
duplicidade de uniões estáveis, cabível a partição do patrimônio amealhado na
concomitância das duas relações. Negado provimento ao apelo (SEGREDO
DE JUSTIÇA) (BRASIL, APELAÇÃO CIVIL, Nº 70038296141. (RIO
GRANDE DO SUL, 2011).

Outrossim, Portanova (2011, p. 01) justifica a aplicação da triação no caso


concreto:

Quando se trata de uma união está consagrada o uso da palavra meação.


Contudo, como estamos diante de uma divisão por três estou utilizando a
palavra triação. Com efeito, não pode haver divisão pelo meio que dá origem
à palavra meação. A presente decisão, em face da peculiaridade, fará uma
divisão por três. Logo, triação.

Embora a triação aluda à repartição dos bens em três partes, nada impede que a
divisão do patrimônio ocorra em mais partes, sendo proporcional ao número de
companheiras que integrarem a relação poliamorosa. Nesse endimento, em se tratando de
união poliafetiva, poderia se utilizar a mesma linha de raciocínio, partilhando-se o
patrimônio amealhado na concomitância das relações a todos os envolvidos.
No entanto, o Superior Tribunal de Justiça entende que tal procedimento é
inconstitucional, considerando o princípio da monogamia, conforme destaca: “Recurso
Especial. Direito de Família. Uniões Estáveis Paralelas. Impossibilidade. Violação do
49

Princípio da Monogamia. Precedentes Específicos desta Corte. Recurso Especial


Parcialmente Conhecido e, Nessa Extensão, Provido” (BRASIL, 2011).
Para Alexandre (2015), por outro lado, quando o Poder Judiciário analisa essa
situação fática, se preferir declarar a inexistência da união entre mais de duas pessoas,
acarretará retrocesso ao direito das famílias, visto que a busca pela felicidade não pode
ficar adstrita a ideais patriarcais e religiosos. Neste contexto, no que se refere à autonomia
da vontade das partes, o Estado deve intervir o mínimo possível, devendo reconhecer a
supramencionada união, sob pena de lesão aos direitos fundamentais.
Outrossim, por mais que se defenda um ideal no país e se inadmita a manutenção
de relações poliafetivas, o que ocorre é que tanto no Brasil quanto no mundo a quantidade
de pessoas que participam dessas relações é incontável. Mesmo que se rejeite essa ideia
em razão da cultura ocidental, que trouxe a imposição da monogamia para as sociedades,
os anseios por relações simultâneas passam a ser mais comuns do que se imagina,
independentemente da existência ou não de casamento, pois essas relações podem ocorrer
quando há uniões coexistentes com o casamento, denominadas uniões concubinárias, ou
até mesmo quando existem uniões estáveis concomitantes, chamadas também de
poliafetivas, logo a doutrina costuma diferenciar a família poliafetiva das uniões estáveis
concomitantes (AZEVEDO, 2019).
De outro norte, Dias (2012) defende a utilização da escritura pública de registro
de união poliafetiva, sob o ponto de vista do direito familista, sucessório e contratual,
afirmando que:

Negar a existência de famílias poliafetivas como entidade familiar é


simplesmente impor a exclusão de todos os direitos no âmbito do direito das
famílias e sucessório. Pelo jeito, nenhum de seus integrantes poderia receber
alimentos, herdar, ter participação sobre os bens adquiridos em comum. Sequer
seria possível invocar o direito societário com o reconhecimento de uma
sociedade de fato, partilhando-se os bens adquiridos na sua constância,
mediante a prova da participação efetiva na constituição do acervo patrimonial.

Nesse sentido, entende-se que, embora não haja dispositivo legal, no ordenamento
jurídico brasileiro, que trate da união poliafetiva, relacionamento considerado por muitos
como sendo bastante incomum e fora dos padrões tradicionalistas e conservadores, não
há como se negar a existência e a necessidade de regulamentação dessa relação privada.
Nessa perspectiva, é notória a necessidade de tutela para esse tipo de entidade familiar
pelo Código Civil.
50

Compreende-se que não é porque alguns juristas possuem posicionamento


desfavorável a esse tipo de união que ela deixará de coexistir junto aos outros tipos,
tampouco esta irá parar de gerar seus efeitos na vida prática e jurídica. É imprescindível
que esse novo conceito de família seja amparado por lei, de modo que os sujeitos da
relação possam usufruir de seus direitos familiares e sucessórios, bem como viver com
dignidade humana, conforme preza a Constituição Federal.
Nessa linha de entendimento, Dias (2012) afirma que:

Temos que respeitar a natureza privada dos relacionamentos e aprender a viver


nessa sociedade plural reconhecendo os diferentes desejos. Afinal, somos
compostos por pessoas de diferentes histórias, crenças, raças e etnias,
orientações sexuais, gêneros, entre outros. Certo é que a diversidade representa
a união dessas pluralidades, convivendo em harmonia, com respeito ao que é
diferente e, sobretudo, visando a uma sociedade mais justa.

Da mesma maneira, Dias (2012) aponta que a monogamia não está de forma literal
na Constituição Federal, sendo um viés cultural, e que o Código Penal considera crime o
casamento entre pessoas já casadas, o que não é o caso da união poliafetiva, uma vez que
as pessoas que se relacionam nesse formato de união trabalham e contribuem,
sobremaneira, para o Estado, devendo ter seus direitos garantidos, pois a justiça não pode
chancelar a injustiça.
Ainda, é inquestionável que, em regra, a regulamentação jurídica ocorre
posteriormente ao fato social que lhe ensejou. Sob esta vertente, “[...] o direito não pode
ficar à espera da lei. Deve acompanhar o momento social. Como sempre, em uma
perspectiva histórica, o fato social antecipa -se ao jurídico e a jurisprudência antecede a
lei” (DIAS, 2013, p. 210). Ademais, o IBDFAM (2018) entende que a decisão vai em
sentido contrário a todos os avanços que vêm acontecendo neste século, como expõe:

O significado do julgamento é uma sentença de reprovabilidade com relação a


algo que existe, sempre existiu e vai continuar existindo, com escritura pública
ou sem escritura pública. No momento em que tais situações baterem às portas
do Poder Judiciário caberá à Justiça dizer se existirão efeitos jurídicos daquela
manifestação. É de lastimar que órgão administrativo maior do Poder
Judiciário tenha uma visão tão conservadora da sociedade de fato, como ela é.

Nesse mesmo sentido, Pereira (2018) sustenta que a decisão do CNJ representa
um retrocesso, além de permitir que as injustiças históricas no Direito de Família
continuem se repetindo, como segue:
51

O Direito funciona como um sistema de limites e freios e é também um


instrumento ideológico de inclusão e exclusão de pessoas no laço social. Ele
sempre se pautou por uma moral religiosa e seus dogmas, para sustentar,
inclusive relações de poder e de dominação. E agora, o CNJ repete fato
histórico semelhante ao da ilegitimação de filhos. As uniões poliafetivas
existem no mundo fático, mas não podem existir no jurídico. É como se
dissesse: fechem os olhos para esta realidade pois ela afronta a moral e os bons
costumes. Este importante órgão da justiça parece não querer enxergar que
proibir de se lavrar escrituras de três ou mais pessoas vivendo juntas numa
relação amorosa não vai fazer com que as pessoas deixem de viver desta forma.

Ainda, Leitão, em matéria publicada pelo IBDFAM (2018), também entende que
a decisão representa um retrocesso, pois a união poliafetiva é uma realidade social, sendo
um novo formato familiar, a qual “converge perfeitamente com as decisões do Supremo
Tribunal Federal exaradas na ADI nº 4.277, na ADPF nº 132”.
Assim, encerra-se esta monografia e passa-se à conclusão.
52

5 CONCLUSÃO

O objetivo desta monografia foi: analisar os efeitos jurídicos e práticos


decorrentes da união poliafetiva no ordenamento jurídico brasileiro.
A partir do segundo capítulo do presente trabalho, foi possível observar diversos
aspectos inerentes ao direito de família de modo geral, incluindo sua evolução histórica,
podendo ser observado que, ao longo dos anos, muitas coisas foram mudando, o
casamento foi deixando de ser um contrato social, passando a ser algo prazeroso, que leva
em consideração o afeto entre os cônjuges.
Foram apresentados os princípios que norteiam o Direito de família, como por
exemplo o princípio da dignidade da pessoa humana, a igualdade e o respeito à diferença,
a solidariedade familiar, o pluralismo das entidades familiares, a proteção integral às
crianças e idosos, a proibição do retrocesso social, da afetividade, da igualdade e da
liberdade e da autonomia privada. Além disso, também foi possível discorrer sobre os
inúmeros tipos existentes de família no ordenamento jurídico, citando-se como exemplo
a família matrimonial, aquela que nasce com o casamento dos pais e a concepção do filho,
como também a união estável, conhecida como família informal, e a família
monoparental, previstas na Carta Magna. Outrossim, existem outros tipos admitidos pela
doutrina e pela jurisprudência, tais como a família anaparental, a família recomposta, a
família homoafetiva, a família paralela ou simultânea e a família poliafetiva.
Ademais, destaca-se que a família poliafetiva se trata de uma união amorosa em
que três ou mais pessoas convivem simultaneamente, de forma consensual, recíproca e
igualitária, baseadas no afeto, ou seja, todos compartilham do mesmo relacionamento.
Não pode ser caracterizada, por exemplo, a relação de uma amante como uma união
poliafetiva, pois naquela não ocorre o consentimento de todos, não havendo afeto entre
as três pessoas, de fato.
No terceiro capítulo, o tema discorrido foi sobre o princípio da monogamia no
casamento, na união estável e em outras relações conjugais, como também o princípio da
afetividade nas relações paralelas. O princípio da monogamia proíbe o matrimônio de
mais de duas pessoas e estabelece ainda que elas sejam fiéis umas às outras, impondo,
então, que as relações de afeto, carnais, os deveres e obrigações do matrimônio ocorram
apenas com um cônjuge. Nesse entendimento, a pessoa casada não poderá constituir-se
em união estável, por exemplo, pois o ordenamento jurídico brasileiro não admite que
uma pessoa forme dois núcleos familiares, isto é, dois casamentos, um casamento e uma
53

união estável ou duas uniões estáveis, fato que viola o princípio da monogamia, que está
em questão.
Atualmente, o princípio da monogamia gera muitos efeitos na esfera da família,
principalmente no que se refere ao instituto do casamento, no entanto, com a mutabilidade
do conceito de família e do caso concreto, sua aplicação deixa de ter originária
importância para dar lugar ao princípio da afetividade. Considera-se que esse princípio
sustenta a união paralela e, além disso, também entende-se que essa união é aquela que
se opõe ao princípio da monogamia, pois um dos cônjuges participa, paralelamente à
primeira família, como cônjuge de outra(s) família(s).
Por derradeiro, o quarto e último capítulo do trabalho trouxe que a relação
poliafetiva ganhou destaque nacional e no direito brasileiro, sobretudo no ano de 2012,
quando foi lavrada a primeira escritura pública de união estável de um “trisal”, na cidade
de Tupã, no interior de São Paulo. No entanto, em 2018 o Conselho Nacional de Justiça
optou por impedir que os cartórios realizassem esse tipo de escritura pública.
Sobre o tema, verifica-se que há divergência. Aqueles que são favoráveis utilizam
como argumento o fato de que vários princípios constitucionais, especialmente o da
dignidade da pessoa humana, como a da pluralidade familiar, garantem o reconhecimento
da união poliafetiva. Aqueles que se posicionam contrários ao reconhecimento defendem
que isso fere o ordenamento jurídico, assim como também os costumes da sociedade.
Após uma análise do texto da lei, sobretudo do Código Civil, verificou-se que as
normas legais foram construídas pensando em relações monogâmicas. O que se observa
é a inexistência de qualquer tipo de regulamentação específica acerca das uniões
poliafetivas, de modo que, se elas forem reconhecidas como família, as consequências
que acarretariam não podem ser medidas. Restará à jurisprudência resolver a questão
quando a situação chegar ao Poder Judiciário. Ou, ainda, caso o Legislativo se adiante e
regulamente a questão, caberá aplicar a lei ao caso concreto.
As pessoas em geral acreditam que o Direito possui a obrigação de proteger a
particularidade e a vulnerabilidade do ser humano. O Estado não deve privar os
indivíduos de sua liberdade de escolha e do direito à dignidade, assim como ignorar a
realidade social porque esta foge aos padrões estabelecidos, pois o princípio da dignidade
humana, além das restrições, também representa um guia para as ações nacionais.
Portanto, porque a aliança multiemocional pode proporcionar afeto familiar, amor e
desenvolvimento saudável para seus membros, acredita-se que seja necessário atribuí-la
às características da família e às possíveis consequências jurídicas.
54

Com relação à resolução dos conflitos envolvendo questões patrimoniais nesse


tipo de família, entende-se que se poderia utilizar a mesma linha de raciocínio da triação
adotada na união paralela, partilhando-se o patrimônio amealhado na concomitância das
relações a todos os envolvidos. Embora a triação aluda à repartição dos bens em três
partes, nada impede que a divisão do patrimônio ocorra em mais partes, sendo
proporcional ao número de companheiras que integrem a relação poliamorosa.
55

REFERÊNCIAS

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ALVES, Jones Figueirêdo. Triação de Bens. Pernambuco: IBDFAM, 2014. Disponível


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