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Comenius e sua influência na educação atual
Jaqueline Petrochelli CABRAL1
Suélen GERALDINI2
Victória Aparecida Chiarini BARBOSA3
Pablo Rodrigo GONÇALVES4
Josiane Tomasella BORDIGNON5
Resumo: Neste artigo, temos como foco analisar a forma como os ensinamentos
de Comenius influenciam a Educação atual, principalmente a didática, que é
o campo da Pedagogia que trata do ensino, ou segundo Comenius, “a arte de
ensinar”. Comenius busca desenvolver um novo método de ensino, conhecido
como Didática Magna, na qual ele propõe o ensino de tudo a todos totalmente.
De que forma os ensinamentos de Comenius influenciam a Educação atual? Para
que a Educação fosse vista como um campo da ciência e atingisse o status de
algo indispensável na vida do ser humano foi necessário reflexões e discussões
desde os séculos passados, uma vez que ciência é um conjunto sistematizado
de conhecimentos obtidos por meio de observações e pesquisas acumulados ao
longo do tempo. O objetivo dessa pesquisa foi apresentar as marcas e influências
dos estudos de Comenius na didática atual; para isso, contextualizamos o período
histórico em que viveu Comenius, evidenciando seus ensinamentos e quais
permanecem, evoluíram ou que foram modificados. Demonstra-se que existe
uma influência dos ensinamentos e métodos de Comenius na Educação atual. A
pesquisa foi realizada por meio de revisão bibliográfica.
Palavras-chave: Comenius. Didática. Educação.
1
Jaqueline Petrochelli Cabral. Licencianda em Pedagogia pelo Claretiano – Centro Universitário de
Rio Claro. E-mail:
[email protected].
2
Suélen Geraldini. Licencianda em Pedagogia pelo Claretiano – Centro Universitário de Rio Claro.
E-mail:
[email protected].
3
Victória Aparecida Chiarini Barbosa. Licencianda em Pedagogia pelo Claretiano – Centro
Universitário de Rio Claro. E-mail:
[email protected].
4
Pablo Rodrigo Gonçalves. Mestre em Engenharia de Produção pela Universidade de São Paulo (USP).
Especialista em Gestão Educacional pelo Claretiano – Centro Universitário. Bacharel em Planejamento
Administrativo e Programação Econômica pelo Claretiano – Centro Universitário. Licenciado em
Pedagogia pelo Claretiano – Centro Universitário. Coordenador do Núcleo de Pesquisa e Iniciação
Científica (Nupic) do Claretiano – Centro Universitário de Rio Claro. Coordenador Adjunto da Comissão
Própria de Avaliação – CPA do Claretiano – Centro Universitário de Rio Claro. Docente do Claretiano
– Centro Universitário de Rio Claro e do Claretiano – Colégio de Rio Claro. E-mail: pablogoncalves@
claretiano.edu.br.
5
Josiane Tomasella Bordignon. Mestra em Educação pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de
Mesquita Filho” (UNESP). Especialista em Alfabetização pela Universidade Estadual Paulista “Júlio
de Mesquita Filho” (UNESP). Licenciada em Pedagogia pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de
Mesquita Filho” (UNESP). Supervisora de Ensino da Prefeitura Municipal de Rio Claro. Docente do
Claretiano – Centro Universitário de Rio Claro. E-mail:
[email protected].
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Comenius and its influence on current
education
Jaqueline Petrochelli CABRAL
Suélen GERALDINI
Victória Aparecida Chiarini BARBOSA
Pablo Rodrigo GONÇALVES
Josiane Tomasella BORDIGNON
Abstract: In this article we focus on analyzing the way that Comenius’ teachings
influence current education, mainly Didactics, which is the field of Pedagogy
that deals with teaching, or according to Comenius “the art of teaching”.
Comenius seeks to develop a new teaching method known as Didactic Magna in
which he proposes teaching everything to everyone totally. How do Comenius’
teachings influence today’s education? For Education to be seen as a field of
science and achieve the status of something indispensable in the life of human
beings, reflections and discussions have been necessary since the past centuries,
since science is a systematic set of knowledge obtained through observations and
research accumulated over time. The objective of this research was to present the
marks and influences of Comenius’ studies in the current Didactics, for that we
contextualize the historical period that Comenius lived, evidencing his teachings
and which ones remain, evolved or were modified. It is demonstrated that there is
an influence of the teachings and methods of Comenius in the current education.
This research will be carried out through bibliographic review.
Keywords: Comenius. Didactics. Education.
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1. INTRODUÇÃO
Neste artigo, temos como foco analisar a forma como
os ensinamentos de Comenius influenciam a Educação atual,
principalmente a didática, que é o campo da Pedagogia que trata
do ensino, ou segundo Comenius “a arte de ensinar”.
Jan Amos Comenius (1592-1670) foi educador, teólogo
e pregador e pertenceu à União dos Irmãos (grupo religioso
pequeno no reino de Morávia – atual República Tcheca). Durante
o período da guerra entre protestantes e católicos em 1618, a qual
os católicos vencem fez com que Comenius e seu grupo religioso
fossem expulsos do reino.
Nesse momento conturbado, ele busca, por meio de textos,
incentivar todos a não desistirem e acreditava que somente por meio
do conhecimento é que o ser humano se tornaria mais semelhante
à imagem de Deus. Comenius busca, então, desenvolver um novo
método de ensino, conhecido como Didática Magna, em que
ele propõe o ensino de tudo a todos totalmente. Nesse método,
a preocupação principal é o ensino, esses ensinamentos foram
inovadores para sua época e, de certa forma, deixaram marcas na
Educação que se estendem até hoje.
Segundo Dias (2018), a Educação moderna tem como
propósito que tudo pode ser ensinado e aprendido e que é
necessário métodos de ensino aprimorados para acompanhar
as mudanças da sociedade, no entanto é possível ver marcas da
concepção de didática de Comenius na didática atual, já que foi a
partir dele que esse campo foi se configurando.
Sendo assim, são essas influências que evidenciaremos
durante o desenvolvimento do artigo, analisando os ensinamentos
de Comenius e a didática moderna, e fazendo uma comparação
entre eles. Desse modo, pretendemos investigar de que forma os
ensinamentos de Comenius influenciam a Educação atual.
Para que a Educação fosse vista como um campo da ciência
e atingisse o status de algo indispensável na vida do ser humano
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foi necessário reflexões e discussões desde os séculos passados,
uma vez que ciência é um conjunto sistematizado de conhecimentos
obtidos por meio de observações e pesquisas acumulados ao longo
do tempo. Tudo o que aprendemos e ensinamos tem influências
passadas; não é algo que simplesmente surgiu, mas sim que necessita
de constantes aprimoramentos para se adequar às mudanças da
sociedade.
A presente pesquisa tem como objetivo apresentar quais
as marcas e influências Comenius deixou na didática atual,
contextualizando sua época, evidenciando seus ensinamentos e
quais permanecem, evoluíram ou foram modificados. Demonstra-
se que existe uma influência dos ensinamentos e métodos de
Comenius na Educação atual. Esta pesquisa será realizada por meio
de revisão bibliográfica.
2. DESENVOLVIMENTO
Contextualização histórica de Comenius
Jan Amos Comenius nasceu em 1592 na cidade de Nivnice
no reino da Morávia (pertencente a atual República Tcheca) e
morreu em 1670 em Naarden (Holanda), foi um educador, teólogo
e pregador, pertencente à União dos Irmãos, grupo religioso do
século XV que acreditava que o mundo estava corrompido, e a
solução seria isolar-se do mundo e viver uma vida comunitária,
portanto no século XV eles decidem se isolar do mundo, abrindo-
se somente no século XVI, permitindo visitação das pessoas e
entrando em contato com outros grupos, expandindo e criando
igrejas e escolas próprias e começam a escrever e traduzir textos
para a língua materna (tcheco), uma vez que até o momento todos
os textos eram escritos em latim, o que restringia o número de
pessoas que tinham acesso a eles.
No século XVII, mais precisamente no ano de 1616,
Comenius é ordenado e torna-se um pregador (sacerdote) da União
dos Irmãos. A partir de 1618, inicia-se a guerra entre protestantes
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e católicos na Europa, conhecida como Guerra dos 30 anos, o
que marca a transição do feudalismo para a Idade Moderna,
em que se inicia o grande período da emancipação do passado,
transformando o processo educativo em algo mais próximo da
realidade, exigindo conhecimento das coisas antes do que as
palavras, rejeitando o ensino verbal e a memorização, insistindo
na simplificação do ensino e na valorização da língua materna (e
não mais o latim).
No ano de 1620, ocorre a Batalha da Montanha Branca,
quando os exércitos tchecos (protestantes) perdem para os
católicos, e os reinos tchecos ficam sob o domínio dos católicos,
o que acarreta o exílio dos grupos protestantes, que em grande
parte mudam-se para a Polônia, ao mesmo tempo que os Jesuítas
são enviados para os reinos tchecos com o intuito de catolizar
a população. Comenius, após ser expulso, acaba perdendo seus
manuscritos, e sua esposa e seus dois filhos vêm a falecer, sendo
assim ele assume a responsabilidade de líder religioso e escreve
os livros Labirinto do Mundo – onde apresenta a ideia de que o
mundo está corrompido – e Paraíso do Coração – onde relaciona
a existência de pessoas boas com os ideais da União dos Irmãos.
O mundo aparece à primeira vista a Comenius como um
labirinto obscuro e corrompido; mas ele confia no poder
da natureza humana que permite a qualquer homem
interpretar o mundo e encontrar nele não só a imagem
divina – contrapondo-se ao “Deus escondido” dos franceses
da época –, como a sua própria condição original, isto é,
a de homem do Paraíso, que tinha um coração humilde
e estava unido ao Criador (HILSDORF, 2012, p. 130-131,
aspas do autor).
Segundo Comenius, através do conhecimento universal (total)
é que o homem estaria mais próximo da imagem de Deus, portanto
todos deveriam se preparar ao longo de toda a vida, do nascimento
até a morte, e a sabedoria, a moralidade e a religião devem
explicitar-se numa ciência universal, no entanto o conhecimento só
seria verdadeiro se as coisas fossem conhecidas tais como são, na
sua conexão harmoniosa, em que o ensino é realista e se pauta na
natureza.
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No ano de 1632, Comenius escreve a Didática tcheca,
manual que propõe melhorar as Escolas dos Irmãos, e, em 1638,
traduz o livro para o latim como Didática Magna, para que
assim se espalhasse para o mundo. Ele então se torna famoso nas
universidades, escrevendo diversos livros, um deles é o Orbis
sensualium pictus (Mundo dos sentidos em imagens), uma cartilha
que associa desenhos com as palavras, o primeiro livro didático
infantil, uma vez que Comenius acreditava que deveria se ensinar
desde a infância:
[...] as crianças, que ainda não estão corrompidas pelos
pecados e pela incredulidade, são proclamadas herdeiras
diretas do Reino de Deus: desde que saibam conservar
a graça divina que receberam e continuar puras entre os
pecados do mundo. Ensinar isso às crianças, ainda não
corrompidas pelos maus hábitos, é mais fácil que aos
outros (COMENIUS, 2006, p. 28-29).
Comenius acreditava que era muito mais fácil ensinar as
crianças do que os adultos, uma vez que, como uma árvore já
crescida não se deixa modificar, os adultos também não deixam
de lado os seus hábitos e conhecimentos adquiridos durante a vida.
Em 1645, Comenius escreve De rerum humanarum, um
dos capítulos desse livro é a “Pampaedia”, “educação universal
de todo o gênero humano” (COMENIUS, 2006, p. 39), que seria
uma evolução do pensamento dele com relação à Didática Magna,
focando mais o conceito do ensino de todos, enquanto a Didática
Magna tem o foco maior no tudo.
Didática comeniana
Entre os séculos XV e XVII, época em que ocorreu a passagem
da Idade Média para a Idade Moderna (período Renascentista),
com a decadência do feudalismo e o surgimento do mercantilismo,
com o foco maior no comércio, e o ressurgimento das cidades,
surgiu a necessidade de um novo método de ensino para adequar as
necessidades da nova estrutura social com novos ideais de educação
com relação a classe social, profissional, e colocando a razão como
principal forma de alcançar o conhecimento.
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Comenius foi um dos principais teóricos desse novo ideal
educacional. Para ele, o processo educativo deve ser fácil e seguro,
o ensino é realista e se pauta na natureza, deixando de lado os “livros
mortos” e valorizando a prática, pois somente se aprende fazendo,
e o conhecimento só será verdadeiro quando as coisas forem
conhecidas tais como são. O processo deve levar em consideração
o pensar, o falar e o atuar.
Comenius, movido pela visão religiosa do mundo e pelo
componente místico e ascético de sua mentalidade, adotou
dois outros procedimentos: a analogia, o tradicional meio
de manifestação da religiosidade profética que permite “ver
com os olhos da mente” o que está na natureza, pois tudo,
todo o universo, integra o Uno (Deus); e o procedimento
natural de conhecimento, o qual, reproduzindo o caminho
ordenado e graduado da natureza, que procede por etapas,
sem saltos, sem rupturas, possibilita ir das coisas sensíveis
à representação espiritual (HILSDORF, 2012, p. 130).
O método comeniano é norteado pelo ensino de conteúdos
que vão gradativamente do simples aos mais complexos, uma vez
que, para ele não se separa o ensinar do aprender, só ocorre o ensino
quando as pessoas aprendem.
Com base nessas ideias, Comenius desenvolveu o conceito
de didática como sendo:
[...] ensinar de modo certo, para obter resultados; de ensinar
de modo fácil, portanto sem que docentes e discentes se
molestem ou enfadem, mas, ao contrário, tenham grande
alegria; de ensinar de modo sólido, não superficialmente,
de qualquer maneira, mas para conduzir à verdadeira
cultura, aos bons costumes, a uma piedade mais profunda.
Finalmente, demonstramos essas coisas a priori, partindo
da própria natureza imutável das coisas […] (COMENIUS,
2006, p. 13-14).
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Quadro 1. A didática segundo Comenius.
ARTE DE ENSINAR TUDO A TODOS (TOTALMENTE)
Tekhné Učit se “um pouco de Toda a espécie “integral” –
(saber fazer) (tcheco) cada coisa”, aprofundado,
humana, todos
Método: Significa para que a completo
Fácil para ensinar e pessoa saiba devem aprender, (mente, corpo e
conhecer e aprender, minimamente sentimento)
independentemente
ensinar não se sobre tudo e
(segue a separam. saiba a de gênero, classe
natureza) e ligação entre
social, com
seguro, as coisas.
garante que deficiência ou não
funciona.
Fonte: elaborada pelos autores.
Com o intuito de divulgar esse novo método de ensino e o
novo modelo de escola, Comenius escreveu a Didática Magna,
livro em que ele dissemina a ideia de ensino universal (pansófico)
em que a educação deveria ser natural e intuitiva, estando sempre
em harmonia com a natureza e transformando os conhecimentos
enciclopédicos (reunião de todo saber que a humanidade produziu)
em conhecimentos acessíveis para todos e não mais só para alguns,
o que vai contra as Escolas de Humanidades, que eram chamadas
de escolas comuns, pois não ensinavam tudo, apenas aquilo que
tornava os alunos bons, selecionando conteúdos. Já a escola de
Comenius, por sua vez, buscava ensinar tudo. Comenius, em seu
livro Didática Magna disserta a respeito de sua ideia de ensino e o
que vem a ser didática:
Didática Magna que mostra a arte universal de ensinar
tudo a todos, ou seja, o modo certo e excelente para criar
em todas as comunidades, cidades ou vilarejos de qualquer
reino cristão escolas tais que juventude dos dois sexos, sem
excluir ninguém, possa receber uma formação em letras,
ser aprimorada nos costumes, educada para piedade e,
assim, nos anos da primeira juventude, receba a instrução
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sobre tudo o que é da vida presente e futura, de maneira
sintética, agradável e sólida. Os princípios de tudo o que
se aconselha são extraídos da própria natureza das coisas;
a verdade demonstrada através de exemplos paralelos das
artes mecânicas a ordem (dos estudos) é disposta segundo
anos, meses, dias, horas; o caminho, enfim, fácil e seguro,
é mostrado para pôr essas coisas em prática com bom êxito
(COMENIUS, 2006, p. 11).
Comenius organiza a Didática Magna em quatro partes, sendo
que na primeira parte ele fundamenta o seu conceito de didática e a
forma como deveria ser o ensino das Sagradas Escrituras, colocando
que esta vida seria a preparação para a vida eterna, e, portanto,
todos os seres humanos deveriam “1) conhecer todas as coisas; 2)
dominar as coisas e a si mesmo; 3) reconduzir a si mesmo, levando
consigo todas as coisas para Deus, que é fonte de todas as coisas”
(COMENIUS, 2006, p. 55).
Na segunda parte, Comenius expõe os princípios da didática
e como as escolas existentes, embora pudessem ser reformadas e
melhoradas, não atendiam ao propósito do ensino universal, uma
vez que só atendiam uma pequena parte da sociedade, utilizavam
como objeto de ensino livros “antigos”, nelas o ensino era visto na
prática e não estava em harmonia com a natureza:
[...] essa ordem que desejamos como ideia universal da
arte de ensinar e de aprender tudo só pode ser extraída da
escola da natureza. Feito isto as coisas artificiais ocorrerão
com facilidade e espontaneidade, assim como ocorrem
com facilidade e espontaneidade as coisas naturais
(COMENIUS, 2006, p. 131).
Segundo Comenius (2006), para que fosse possível seguir
a facilidade e espontaneidade da natureza seria necessário que
se ensinasse desde cedo, partindo dos conteúdos gerais para os
mais detalhados e dos mais simples para os mais complexos, sem
sobrecarregar e seguindo os desejos de acordo com a idade e o
método, mostrando sempre sua utilidade, com um único método.
A terceira parte do livro apresenta o método para ensinar
ciências, artes, as línguas, a moral e a piedade, e como a escola
deveria se organizar. Uma das coisas que Comenius valorizava era
que se levasse em consideração o tempo da criança para as coisas e
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que o ensinar/aprender fosse algo prazeroso tanto para o professor,
quanto para o aluno, assim como ele era contra punições, visto que
o ensino deveria ser quase que espontâneo.
Propomos uma organização escolar tal que: I. Toda a
juventude nela seja educada. II. Seja educada em todas
as coisas que podem tornar o homem sábio, honesto e
piedoso. III. Essa formação, que é a preparação para a vida,
seja concluída antes da idade adulta. IV. E seja tal que se
desenvolva sem severidade e sem pancadas, sem nenhuma
coarctação, com a máxima delicadeza e suavidade, quase
de modo espontâneo. […] V. Todos sejam educados para
uma cultura não vistosa, mas verdadeira, não superficial
mas sólida, de tal sorte que o homem, como animal
racional, seja guiado por sua própria razão e não pela de
outrem e se habitue não só a ler e a entender nos livros
as opiniões alheias […] VI. Que essa educação não seja
cansativa, mas facílima (COMENIUS, 2006, p. 109-110).
A quarta parte do livro fala sobre os planos de estudo
determinados para cada fase da vida: infância, meninice,
adolescência e juventude. Em cada fase, os conteúdos devem ser
adaptados para que não sejam algo complexo ou “forçado” para
cada faixa etária:
Dividiremos o período do crescimento em quatro
momentos: infância, meninice, adolescência e juventude;
cada um deles dura seis anos e tem sua escola: I. Para a
infância a escola deve ser o regaço materno. II. Para a
meninice a escola deve ser o exercício literário, ou seja, a
escola vernácula pública. III. Para a adolescência a escola
deve ser a escola latina, ou ginásio. IV. Para a juventude a
escola deve ser a Academia e as viagens.
A escola materna deve estar em todas as casas; a vernácula,
em todas as comunidades, burgos ou aldeias; o ginásio,
em todas as cidades; a academia, em todos os reinos e nas
províncias maiores (COMENIUS, 2006, p. 320).
Comenius acreditava na necessidade de um conteúdo básico
de ensino, em que, mesmo em diferentes escolas, as disciplinas
ensinadas seriam as mesmas, ainda que de modo diferente. Para que
isso fosse possível, ele escreveu diversos livros para o auxílio dos
professores no ensino, sendo um deles o Orbis pictus, o primeiro
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livro didático infantil com ilustrações, para facilitar o ensino/
aprendizagem das línguas. Segundo Comenius (2006), deveriam
estudar na escola materna e na vernácula jovens de ambos os
sexos, já na latina somente os que almejassem trabalhos superiores
aos manuais, e por fim nas academias deveriam estudar somente
aqueles que buscavam ser professores ou assumir cargos em que
atuariam em funções de direção nas Igrejas, escolas ou Estados.
Comparação entre a didática comeniana e a contemporânea
Comenius viabilizou a Educação como ciência e não mais como
parte da Filosofia. Desse modo, passaram a existir mais pesquisas
voltadas essencialmente para regulamentar a prática de ensino e os
conteúdos a serem ensinados, visando sempre ao aprimoramento
dos conteúdos e das formas de ensinar, acompanhando a evolução
da sociedade. A didática é a parte da Educação que tem como
foco o ensino e, portanto, deve estar em constante transformação,
buscando sempre se modificar considerando as necessidades dos
estudantes e do ambiente em que estão inseridos.
Segundo Dias (2018), as escolas vêm se modificando ao
longo dos tempos até chegar à escola que conhecemos atualmente,
na qual encontramos um modelo que se estruturou no decorrer dos
últimos quinhentos anos. No princípio, as escolas eram restritas a
uma pequena parcela da sociedade, a elite, e somente no século
XIX é que as escolas foram de fato abertas para todos, o que mudou
a forma como os professores deveriam agir em sala de aula, uma
vez que as turmas não são mais homogêneas e apresentam uma
diversidade de classes sociais e culturais.
No Brasil, a educação atual é estruturada em educação
infantil (4 meses a 6 anos); ensino fundamental (6 a 14 anos);
ensino médio (14 a 17 anos). No ano de 2018, foi desenvolvida
por diversos pesquisadores e professores a Base Nacional Comum
Curricular com a intenção de unificar os conteúdos a serem
desenvolvidos pelos professores nas escolas de todo Brasil, o que,
de certa forma, está ligado a uma das propostas de Comenius que
foi a universalização do ensino de modo que, independentemente
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da região, o aluno aprenda o mesmo conteúdo variando somente a
didática do professor.
A palavra ‘didática’ vem do grego didasko e tem como
significado ensinar ou instruir, sendo que foi Comenius quem
primeiro denominou didática como sendo a arte de ensinar e
afirmou que deveria ter como foco as formas de se transmitirem
conhecimentos de modo mais sistematizado. Sobre isso, Dias
(2018, p. 90, aspas do autor) ressalta:
Ao mencionar a arte de ensinar em seu trabalho,
Comenius, parece estar caracterizando o professor como
um profissional especializado, capaz de dominar sua
função e realizá-la com competência. Desse modo, o
professor adquire, desde o início da Didática, a posição de
quem conhece e domina um ofício, sendo o ensino pensado
como uma profissão.
É a partir de Comenius que o professor passa a ser visto como
alguém que detém o conhecimento e que deve ser capaz de lidar
com diversos alunos ao mesmo tempo por meio de métodos que
possibilitem o ensino/aprendizagem da melhor forma possível e
que atinjam o maior número de indivíduos, sem ignorar o limite de
cada um, colocando o professor em um papel essencial, uma vez
que ele passa a exercer uma função intelectual e não mais técnica,
precisando assim planejar e compreender os assuntos a serem
ensinados.
Por meio das críticas feitas por Comenius e suas reflexões
acerca das instituições educacionais existentes é que surgiu um novo
modelo em que os alunos ficariam um tempo determinado dentro da
escola que fosse suficiente para o aprendizado sem que se tornasse
tedioso e exaustivo, e que instigasse a busca pelo conhecimento
visando a um melhor aproveitamento do estudo, assim como o
respeito pelas faixas etárias e as etapas de aprendizagem de cada
aluno, o que deixou marcas na escola que temos atualmente.
Segundo Dias (2018), a didática hoje em dia está bem
estabelecida no âmbito educacional, sendo assim, adquire
responsabilidades sobre a organização do processo de ensino, as
práticas pedagógicas, a avaliação, a formação dos professores, e
o ensino e aprendizagem. Porém, ainda falta muito para realmente
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chegarmos no conceito da Didática Magna, que era a arte de ensinar
tudo a todos.
Pensando no Brasil e na nossa realidade educacional. […]
Nosso sistema educacional ainda não foi capaz de criar
uma escola plenamente democrática, não só no acesso, mas
também na qualidade da educação. Nos industrializamos
rapidamente, superamos problemas econômicos que
pareciam insolúveis, mas temos uma enorme dívida com
a educação que vem de séculos e até agora – apesar de
várias reformas – não foram equacionados. Por tudo isso
e tantos outros problemas podemos verificar que se quer a
proposta básica da Didática Magna foi ainda plenamente
consolidada entre nós, ou seja, “a arte de ensinar tudo a
todos” (GARCIA, 2014, p. 322, aspas do autor).
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Jan Amos Comenius (1592-1670), embora tenha vivido em
uma época em que a Educação ainda não era vista como um campo
científico, propôs ideias inovadoras e de certo modo revolucionárias,
que conduziram a Educação para que se tornasse objeto de pesquisa
e que fosse criado um campo específico separando-a da Filosofia.
Através da Didática Magna, Comenius expôs suas principais
ideias e o que acreditava ser ideal para que fosse alcançado o ensinar
tudo a todos: o ensino deveria ser algo gradativo, indo do mais
fácil para o mais complexo e levando em consideração o tempo
de aprendizado de cada aluno, sem que fosse algo entediante ou
forçado; deveria também estar em harmonia com a natureza, sendo
assim, tudo poderia ser um objeto de estudo; era importante os
alunos vivenciarem o que estavam estudando, e não mais somente
por livros antigos; e de forma que abrangesse um número maior da
população.
Não é possível estudar o campo da didática sem que se
mencione Comenius e sua Didática Magna, uma vez que ele foi
o precursor desse campo, principalmente por pensar na Educação
de uma forma mais democrática, o que é algo que buscamos na
Educação atual; embora já tenhamos evoluído nesse quesito, é
evidente que ainda não alcançamos esse objetivo completamente.
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No decorrer dos anos e devido às pesquisas realizadas no
campo da Educação, iniciadas por Comenius, foi possível que o
professor alcançasse uma função primordial dentro do âmbito
educacional sendo um mediador em sala de aula e na busca constante
por métodos inovadores e que acompanhem o desenvolvimento da
sociedade.
Em suma, Comenius deixou marcas relevantes para a didática
atual, uma vez que concebeu esse campo como sendo “a arte de
ensinar”. Através da presente pesquisa, foi possível perceber que a
didática dentro da Educação atual alcançou um lugar de destaque
por necessitar sempre evoluir para acompanhar as mudanças da
sociedade e atingir o maior número de pessoas, embora ainda falte
muito para a Educação alcançar o que Comenius idealizou em sua
Didática Magna, o “ensinar tudo a todos totalmente”. Conclui-se
que a educação ainda que não tenha alcançado o que Comenius
idealizou, está em constante desenvolvimento e mudança.
REFERÊNCIAS
COMENIUS, J. A. Didática Magna. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
DIAS, J. C. Os ecos das propostas de Comenius na construção da didática
moderna. Educa – Revista Multidisciplinar em Educação, Porto Velho, v. 5, n.
10, p. 82-93, jan./abr. 2018.
GARCIA, R. A. G. A Didática Magna: uma obra precursora da Pedagogia
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HILSDORF, M. L. S. O aparecimento da escola moderna: uma história ilustrada.
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