Prática de Autoconferência Cristã
Prática de Autoconferência Cristã
Autoconferência ............................................................................................................................ 3
Louvor............................................................................................................................................ 5
Nenhum Benefício a Menos .......................................................................................................... 9
Perdão ......................................................................................................................................... 15
Cura ............................................................................................................................................. 20
O Resgate da Vida ....................................................................................................................... 25
Vida Abundante........................................................................................................................... 30
Vida longa e próspera ................................................................................................................. 35
Libertação .................................................................................................................................... 42
Lei ................................................................................................................................................ 50
Prodígios ...................................................................................................................................... 54
Condescendência ........................................................................................................................ 57
Soberania .................................................................................................................................... 61
Doxologia..................................................................................................................................... 65
Autoconferência
Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e tudo o que há em mim bendiga ao seu santo nome...
O Salmo 103, no início, não é uma oração nem um cântico. É uma meditação na qual o autor fala
diretamente consigo mesmo. Ele diz “Bendize, ó minha alma, ao Senhor”, e “não te esqueças de
nenhum dos seus benefícios”. O seu primeiro destinatário não é Deus nem a congregação, e sim
a sua própria alma.
O descompasso entre o ritmo da alma encontrando o seu repouso e o ritmo dos estímulos que
a atraem em tantas direções opostas é a causa do nosso estado de atordoamento, de
perplexidade diante do imenso vale existencial e, por consequência, de nossas ansiedades,
preocupações, estresses e precipitações. Então entramos em contradição e confusão, sabendo
de um modo, sentindo de outro, desejando e temendo, com esperança e conformismo, como
os uivos indistintos de uma matilha em guerra civil.
A nossa alma é rebelde contra si mesma nessa cisão. Ela precisa ouvir uma voz clara que ressoe
acima de todas as outras e que imponha ordem no caos. Ela precisa ser disciplinada e ouvir um
bom sermão, ou então de um mediador que organize esse diálogo interno e dê forma à inefável
discussão. É isso que fazemos nessa dramatização que geralmente se chama de
autoconferência.
Em outros tempos, era comum dedicar tempo à solitude. Na solitude, permanecemos afastados
das outras pessoas e de outras vozes e simplesmente ficamos refletindo sozinhos. Uma pessoa
madura lida muito bem com a solitude e encontra paz e ordem, porque pratica a
autoconferência. O cristianismo trouxe a centralidade de Deus para essa prática, porque o
cristão sabe que a voz de Deus é a única capaz de verdadeiramente impor sentido e paz na alma
humana. Assim, a solitude cristã é permeada de orações, cânticos, leitura bíblica e meditações.
Atualmente, a ideia do “momento devocional” diário é o resquício mais popular da
autoconferência.
Essa prática encontra-se moribunda nos nossos dias. A rotina corrida da metrópole e os meios
de entretenimento midiático cada vez mais numerosos e invasivos operam contra a solitude.
Nós nos acostumamos a estarmos sempre estimulados por imagens e sons. Sempre há uma tela
ligada, e sempre há uma música tocando. Não apenas isso, mas os principais problemas que os
meios de entretenimento analisam e resolvem são problemas de personagens fictícios. Isso é
conveniente para os ímpios se distraírem dos lembretes da sua consciência de que haverá um
dia em que Deus julgará vivos e mortos. O silêncio é intolerável para os ímpios. Em seus
momentos mais silenciosos à noite, eles estão buscando pessoas com quem interagirem na
Internet, e se divertem observando a vida alheia nas redes sociais. Eles sentem horror à solitude
por saberem que não há nada entre a sua alma e os olhos de Deus. O entretenimento e o
trabalho excessivo são as novas folhas de figueira para os novos filhos de Adão.
Esse perigo também envolve os cristãos, que não raro se deixam levar por essa moda. Às vezes,
eles justificam tais distrações alegando que são “para a glória de Deus”, ou “Coram Deo”, ou
qualquer coisa semelhante. Mas eles amam o entretenimento tanto quanto os ímpios, apenas
não admitem. E quanto às devocionais que mencionei acima, são frequentemente tão curtas e
adocicadas que mal arranham a superfície da alma. Com efeito, “devocional” tornou-se
antônimo de “estudo profundo e pesado”. Concedo que é melhor do que nada. Mas o Salmo
103, dentre outros, indica um caminho superior.
Essa é a primeira coisa que precisamos considerar. O cristão deve praticar a autoconferência.
Ele deve falar à sua própria alma. Ele não irá confiar que a sua alma encontrará o seu caminho
espontaneamente, sem ordem nem conteúdo claro. Por mais ocupada que seja a sua vida, ele
será deliberado em separar um momento de solitude e falar consigo mesmo. Ele irá desligar a
música ambiente, colocar o seu celular de lado e dizer algumas coisas em silêncio. É possível
fazer isso não apenas em momentos especificamente destinados à solitude, mas também ao
longo do dia enquanto se ocupa com atividades manuais. Nossas mãos não atrapalham a nossa
mente.
Louvor
Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e tudo o que há em mim bendiga ao seu santo nome...
A conversa com a nossa alma requer um conteúdo específico. É isso que iremos considerar a
partir de agora.
Técnicas de meditação oriental geralmente exigem que o indivíduo esvazie a sua mente e tente
não pensar em nada. Já a meditação bíblica requer a fixação do pensamento em verdades
reveladas por Deus. Ela demanda um engajamento intencional da nossa mente na palavra de
Deus, para que assimilemos as implicações da revelação até que sejamos transformados.
Do mesmo modo, não podemos pensar que um mero descanso mental esteja em vista aqui.
Quando nossos pensamentos são tão numerosos e emocionalmente carregados que nos
atordoam, ou quando experimentamos o estresse do acúmulo de problemas ou irritações
cotidianas, normalmente tentamos prover um momento de silêncio para relaxarmos. Isso não
está errado, mas também não é a interlocução com a alma que a Escritura ensina, e não é uma
prática que nos santifica verdadeiramente. Não basta separar um tempo para repouso mental.
A autoconferência bíblica precisa orbitar o conteúdo bíblico, as proposições reveladas por Deus,
e isso requer um despendimento de energia mental. É algo volitivo, deliberado, e não
acontecerá sem esforço. Mas esse é o chamado para todo cristão. O homem bem-aventurado
medita na lei de Deus dia e noite, e tem prazer nisso (Sl 1.2).
Qual é, então, o conteúdo da autoconferência de acordo com esse salmo? É um louvor a Deus
por todas as suas bênçãos.
Em primeiro lugar, consideremos um ponto básico: devemos sim dizer à nossa alma para que
ela bendiga ou louve a Deus. Se não formos determinados na nossa busca por Deus, nossa alma
tenderá a pensar menos em Deus e a não o reconhecer em todas as coisas. Deus merece a nossa
atenção principal e a nossa adoração ininterrupta. O cristão precisa se exercitar na declaração
da glória de Deus, na proclamação da sua grandeza – para si mesmo, para a própria alma.
Quando tudo ao nosso redor tentar desviar o nosso foco, quando as insanidades de um mundo
que jaz no maligno gritarem aos nossos ouvidos, quando o diabo sussurrar falsidades para nos
induzir ao pecado, devemos dizer a nós mesmos: há um Deus sobre este mundo. Há um Ser
supremo que governa todas as coisas e que está em aliança comigo. Ele é soberano, ele é
grandioso, e é nele que toda a vida subsiste. Ele merece meu temor, não os riscos deste mundo.
Ele merece a minha reverência, não os poderosos da sociedade. Ele merece a minha devoção
absoluta, não as ideologias e tradições ao meu redor. Ele merece o meu amor máximo, não as
pessoas nem as coisas que participam do meu ambiente.
A expressão ao “seu santo nome” enfatiza a transcendência de Deus. Pelo contexto, “santo” não
se refere à perfeição moral de Deus, e sim à sua distinção com relação a todo o resto da criação.
Deus é infinitamente maior do que tudo o que podemos ver, ouvir ou tocar. Ele é imutável e
eterno. Ele é todo-poderoso e permeia todas as coisas. Ele é o ponto de referência de toda a
realidade. Logo, ele merece nosso amor, nossa alegria, nossa adoração e confiança em todo
tempo.
Se é o conteúdo referente a Deus e à sua revelação que devemos trazer à mente na
autoconferência, logo é crucial que busquemos aprendê-lo. A leitura da Bíblia e a compreensão
de todo o seu sistema de verdades deveria ser prioridade para todo cristão. A reflexão teológica
é a atividade mais importante que existe1. Como alguém pode bendizer o santo nome de Deus
sem saber, com profundidade e detalhes, quem Deus é, ou o que significa ser santo? A leitura
de teologias sistemáticas pode ajudar nisso (exceto quando elas estão erradas, e elas
frequentemente estão), mas a Escritura é a fonte infalível de Deus para o nosso conhecimento
dele. Conheça quem Deus é. Conheça a Trindade. Conheça os atributos de Deus. Conheça os
atos redentivos de Deus na história. Conheça também o que ele já fez na sua vida, o que ele já
operou no seu coração, o lugar glorioso para o qual ele trouxe você após salvá-lo da sentença
do inferno. E então agradeça e louve a Deus por todas essas coisas.
Note também que o salmista diz “todo o meu ser”, ou “tudo o que há em mim”. Isso ecoa o
principal mandamento: “Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua
alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força” (Mc 12.30). Todas as nossas faculdades
físicas e anímicas devem render louvor a Deus. Aqui, temos de corrigir o erro comum de
seccionar a nossa parte imaterial, como se ela fosse composta de várias partes distintas. Nesse
esquema, nossa alma é uma coisa, nosso espírito é outra, nosso coração é outra e nossa mente
é ainda outra. Em realidade, todos esses termos são sinônimos2. Dependendo do contexto, cada
termo pode enfatizar um aspecto ou função em particular, mas isso não significa que sejam
partes diferentes. Nossa alma é o nosso coração, que é o nosso espírito, que é a nossa mente. A
Bíblia não nos ensina a distinguir entre essas “partes” e atribuir funções diferentes a cada uma.
Antes, todas as funções pertencem a essa nossa única parte imaterial, que é chamada de todos
esses termos. Vamos chamá-la de alma aqui. As funções da nossa alma precisam bendizer a
Deus. Devemos amar e bendizer a Deus com o nosso intelecto, com nossas emoções, com nossos
desejos, com nossas decisões.
Isso parece abstrato demais? Daniel Ritchie, na sua obra A Conquered Kingdom, aplicou o maior
mandamento na área da educação formal. Ele diz que um dos motivos pelos quais não devemos
enviar nossos filhos à escola do Estado é que a escola, pretendendo ser “neutra” sobre religião,
acaba por incutir a ideia de que o verdadeiro Deus é irrelevante para o conhecimento do mundo;
ora, se há uma área do nosso aprendizado no qual Deus é visto como irrelevante, logo nós não
estamos amando Deus com toda a nossa mente, mas apenas com uma porção dela. Perceba que
amar e bendizer a Deus com todo o nosso ser envolve uma transformação que resulta em
decisões bastante práticas na nossa vida.
Aplique o mesmo princípio em tudo o mais que você faz. Os seus pensamentos e sonhos
refletem um amor por Deus? O tempo que você gasta em redes sociais e na televisão impedem
você de louvar e agradecer a Deus com a totalidade do seu ser? Os planos que você traçou para
a sua família ou para a sua carreira estão contribuindo para a causa de Deus, ou são uma área
independente do que você pensa que deva ser dedicado a Deus? Se há algo que divide o seu
foco, de modo que você não consegue se dedicar à adoração com toda a sua alma, então reavalie
as suas prioridades. Mesmo que algo não seja necessariamente pecado, se atrapalha a sua
atenção que você deveria dedicar a Deus, então não faça essa coisa.
Do mesmo modo, todo o nosso corpo deve bendizer o santo nome de Deus. Paulo deixa isso
muito claro em 1Coríntios 6, quando argumenta que a imoralidade sexual é um pecado que
1
Teologia Sistemática, de Vincent Cheung.
2
Ibid.
cometemos contra o próprio corpo. Nosso corpo foi resgatado por Deus pelo preço do sangue
de Jesus. Ele não pertence a nós, e sim a ele. Ele foi feito templo do Espírito Santo. Portanto,
devemos glorificar a Deus com o nosso corpo (1Co 6.18-20). Logo, pecados de natureza sexual
são especialmente ofensivos a Deus, pois depreciam toda a obra de salvação e purificação que
ele efetuou pelo nosso corpo. Em outra passagem, Tiago afirma que a nossa boca não pode
bendizer ao Senhor e maldizer os homens, que são feitos à imagem dele (Tg 3.9-12). Os pecados
da calúnia, da difamação, dos mexericos, da semeadura de contendas também nos impedem de
bendizer ao santo nome de Deus com a nossa boca.
A Bíblia fala muito sobre o louvor a Deus com gestos do nosso corpo, como o levantar das mãos,
ajoelhar-se, prostrar-se e as danças. Cristãos têm errado de todas as formas ao abordar essas
coisas. Aqueles que são de linha mais carismática ou renovada se dão mais liberdade com esses
gestos, porém, não raro caem em excessos que não são bíblicos. Especialmente em igrejas que
pensam ser seu dever “atrair os jovens”, é comum que ministros de louvor incentivem, ou até
constranjam, o público a fazer certas danças ou estripulias no momento dos cânticos. Nessas
ocasiões, as expressões físicas rapidamente caem em bagunça, gracejos e brincadeiras. Essas
coisas não são feitas por causa de Deus, e sim para infundir um ânimo artificial que nada tem a
ver com o culto. É evidente que badernas na adoração merecem repreensão e disciplina. Um
cristão nunca deve participar dessas coisas. Afinal, estamos bendizendo “o seu santo nome”,
não um nome banal, e a santidade de Deus é ofendida quando não nos portamos com respeito
diante dele.
Existem pessoas que batem palmas, levantam as mãos, gemem e dançam para chamar a
atenção. Mas há pessoas que fazem isso em sincera adoração a Deus. E existem pessoas que
louvam a Deus com o corpo rígido como pedra porque são tímidos diante dos outros ou porque
não querem ser associados com os “incircuncisos” carismáticos. Mas há pessoas que fazem isso
simplesmente porque combina mais com a sua personalidade e estão adorando a Deus
sinceramente. É ridículo que a cristandade tenha chegado ao ponto em que cristãos reclamem
do jeito como o outro adora, quando a Bíblia permite as duas formas. Se você estiver focado em
bendizer o santo nome do Senhor, não importa se os gestos do seu corpo sejam mais livres ou
mais tesos. Mas, se você estiver preocupado com etiqueta social ou com provar a si mesmo de
alguma forma, então a sua adoração está centrada no seu ego. Já passou da hora de
amadurecer.
E sim, as danças individuais são perfeitamente bíblicas. Míriam dançou, Davi dançou e o salmo
150 nos diz para dançarmos. Você diz, “Mas isso não foi no culto público!”. Certo, mas você
admite essas coisas no culto particular? Você se alegra com irmãos que dançam diante de Deus,
mesmo que você não seja muito dado a dançar? Ou você zomba, faz memes e os considera como
crentes de segunda classe? Aliás, o que impede você de dançar diante de Deus quando algo
maravilhoso acontece, inclusive em público? É apenas o seu temperamento, ou é vergonha
mesmo? Veja, o motivo por que danças litúrgicas não são adequadas no culto coletivo é que elas
não edificam os irmãos. Elas não fazem nada por quem está assistindo. Elas não comunicam
nada (os cânticos já estão comunicando) e elas não operam nada. Mas um indivíduo pode muito
bem dançar de alegria diante de Deus espontaneamente, mesmo na frente dos outros. É o
mesmo princípio da fala em línguas de 1Coríntios 14: quem for movido pelo Espírito a dançar,
que o faça no seu lugar, sem tentar se exibir no palco para a igreja inteira – o que não quer dizer
que a pessoa deve se envergonhar ou que os outros possam acusá-la.
A história de Davi e Mical em 2Samuel 6 é de extrema relevância para corrigir os pecados dos
crentes tradicionais. Davi dançou, em público, na frente de outras mulheres, durante uma
procissão inteira, cheio de alegria. E ele não dançou como Baryshnikov. Com certeza ele foi
“ridículo”. Ao que parece, ele até revelou um pouco demais do corpo. Então Mical, toda
conservadora (com um coque na cabeça?), ralhou com Davi por estar se exibindo na frente das
servas. Suas palavras sarcásticas focam no fato de que Davi era rei e não se portou galantemente
como rei. Não houve a menor demonstração de felicidade pelo motivo disso tudo – o retorno
da arca de Deus após anos de exílio. Ela provou que a glória de Deus não significava nada para
ela, mas somente a etiqueta social do rei. Claramente, ela aprendeu com o pai dela a se importar
mais com a autoimagem do que com Deus. A consequência da sua conduta é que ela nunca
conseguiu ter filhos. Ela foi castigada por Deus com esterilidade. Agora, como alguém pode ler
esse texto e não perceber a correlação que existe entre a esterilidade de tantos cessacionistas
e a postura condenatória e escarnecedora que eles demonstram contra as danças dos
pentecostais?
Parece que nos desviamos do salmo, mas estamos explorando maneiras como podemos cumprir
o verso “todo o meu ser bendiga o seu santo nome”. O objetivo aqui foi exemplificar como a
totalidade da nossa vida deve orbitar o louvor a Deus. Assim, falamos de uma mente que estuda,
aprende e medita nas maravilhas de Deus e que se mantém moralmente pura. Falamos de uma
boca que abençoa os irmãos, não os amaldiçoa, e que canta em júbilo perante Deus. Falamos
de um corpo que dirige suas posturas de adoração conforme o modelo bíblico. Falamos inclusive
de decisões práticas na vida que refletem a supremacia da relevância de Deus – como não enviar
os filhos para o Estado educar. É claro que seria possível escrever milhares de páginas
esmiuçando a ideia, mas penso essas reflexões são suficientes para satisfazer a demonstração
do ponto.
Reflita nessas coisas quando estiver em autoconferência. Como estou cantando louvores a
Deus? Como a minha oração bendiz a Deus? Quais tentações estão ao meu redor que me
desviam de focar em Deus ou de obedecer à lei de Deus? Como a gestão da minha casa reflete
a prioridade que Deus merece?
Nenhum Benefício a Menos
Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e não te esqueças de nem um só de seus benefícios.
Dentre todas as coisas a respeito de Deus que podem ser objeto de meditação, o salmista
escolhe rememorar os benefícios de Deus, ou as bênçãos de Deus. Esse é o tema que une o
salmo todo.
O salmista diz a si mesmo: “não te esqueças”. Isso supõe que a nossa alma pode, se não nos
acautelarmos, esquecer-se dos benefícios de Deus. O fluxo da vida espiritual pode cair em uma
rotina mecânica na qual começamos a nos esquecer de que o verdadeiro Deus é um Deus de
benefícios. “Deus” não é um mero som. Não é meramente a peça de que precisamos para prover
integração à nossa cosmovisão. Não é um mero símbolo que nos confere autoidentidade apenas
para nos distinguir de ateus e pagãos. Não é o dispositivo que você usa para combater
evolucionistas e progressistas. Sim, Deus pode ser estudado e discutido sob todos esses
aspectos, mas há algo de relacional em Deus que não pode ser escanteado pela aridez do
ritualismo e da erudição acadêmica teológica. Deus é um Deus de benefícios. Ele é um Deus de
bênçãos. Ele é um Deus que se relaciona conosco em manifestações de bênçãos. Ele realmente
faz coisas boas por nós. Ele nos beneficia. Ele melhora a nossa existência. E ele quer ser lembrado
por isso.
Se o esquecimento involuntário recebe uma repreensão aqui, quanto mais o ataque deliberado
e virulento contra as bênçãos de Deus! Observamos com uma frequência alarmante pregadores
e linhas teológicas inteiras que manifestam repúdio contra o tema das bênçãos de Deus. São
aqueles pastores e teólogos que estão sempre criticando o “evangelho barato” das igrejas
neopentecostais, sempre enfatizando o que Deus não faz por nós, o que Deus nunca prometeu.
Para eles, Deus não faz nada de concreto por nós, exceto enviar sofrimentos e nos manter em
ignorância até a morte. São os que dizem que devemos querer o Deus das bênçãos, não as
bênçãos de Deus – no mesmo fôlego em que pregam um Deus sem bênçãos. Esse espírito de
incredulidade e de pessimismo sente repugnância pela ideia de bênçãos. É como se as bênçãos
de Deus fossem nos desviar de Deus, como se a fixação do pensamento nas bênçãos de Deus
fosse um passo no gelo fino para a libertinagem e o materialismo. Esses agentes do diabo
querem subverter a mensagem bíblica para “esqueça todos, ou pelo menos a maioria dos seus
benefícios”. E eles enganam muita, muita gente.
Deixe-me dar uma dica. Quando um pastor começar uma frase com “Deus nunca prometeu
que”, levante-se e vá embora. Você já ouviu o suficiente. Nada de bom vai se seguir depois disso.
Isso porque Paulo descreve Deus como “Aquele que pode fazer por nós muito mais do que
pedimos ou pensamos” (Ef 3.20). Supondo que Deus nunca prometeu uma certa coisa, e daí?
Paulo quer que pensemos em Deus como aquele que fará muito mais do que podemos pedir ou
até imaginar. Não sei você, mas eu consigo imaginar muita coisa. É antievangélico pregar o Deus
que “nunca prometeu”, especialmente quando a intenção é jogar o balde de água fria nos nossos
sonhos e expectativas. Acrescente-se a isso o fato de que Deus prometeu atender a tudo o que
pedirmos com fé e em nome de Jesus, incluindo milagres e até mover montanhas. Pense em
Josué: Deus prometeu que derrubaria as muralhas de Jericó, e derrubou mesmo. Mas ele nunca
havia prometido que pararia o sol, e mesmo assim parou. É esse o Deus que você conhece? É
esse o Deus que estão pregando para você? As promessas de Deus são apenas o ponto de
partida para o que podemos receber dele. Expanda a sua imaginação. Sonhe alto. Voe longe.
Deus faz coisas grandiosas por nós além da nossa imaginação. Somente idiotas usam as
promessas de Deus para sufocar o seu ânimo.
Nenhum relacionamento pode durar com base em uma previsibilidade que não ultrapassa as
promessas. Eu nunca prometi, por exemplo, que nunca espancaria a minha esposa. E ela nunca
prometeu que nunca tentaria matar um filho nosso. Nossos votos de casamento foram curtos e
gerais. Mas imagine se nós ignorássemos toda a história que temos um com o outro, tudo o que
conhecemos, todos os nossos valores, e começássemos a fazer coisas horrendas só porque
nunca foram explicitamente vetadas em promessas. Em realidade, nem mesmo em um
relacionamento superficial, como o de colegas de trabalho, o raciocínio da “ausência de
promessas” funciona. Nenhum colega de trabalho prometeu que nunca pegaria uma tesoura no
almoxarifado e cortaria minha orelha. Mas, para todos os fins práticos, nós assumimos certo
grau de razoabilidade.
Então, o Deus dos cessacionistas nunca pode ser conhecido intimamente. Nenhum
relacionamento, do mais íntimo ao mais superficial, se sustenta quando não há alguma medida
de previsibilidade. Para os cessacionistas, a soberania de Deus significa a sua imprevisibilidade
absoluta. Não importa o quanto Deus tenha curado enfermos, atendido a orações, enchido de
riquezas materiais, infundido de coragem e tenacidade, fulminado inimigos, operado milagres
nos elementos da natureza, falado com voz audível e se manifestado em visões por toda a
Escritura: cada oração e cada expectativa são incertas, com uma chance de 50% de Deus atender
ou de Deus fazer o exato oposto. Esse é o deus dos deístas. Cessacionismo é apenas iluminismo
insincero. Nada mais.
Para piorar, esses pregadores não se contentam com aquilo que Deus explicitamente prometeu
e combatem até mesmo isso. Eles dizem: “Deus nunca prometeu a cura de todas as doenças”.
Mas ele prometeu isso sim, bem aqui, no próximo versículo deste salmo. “Deus nunca prometeu
prosperidade”. Mais dois versículos e você chegou lá. E nem estou citando a Bíblia inteira! “Deus
nunca prometeu uma vida sem dificuldades”. Bem, eu nunca vi nenhum evangélico, por mais
alucinado que fosse, dizer o contrário. Mas Deus prometeu sim que nos daria vitória sobre todas
as dificuldades, por exemplo, no Salmo 34.19. “Deus nunca prometeu que você entenderia
tudo”. Bem, fale por si mesmo: você nunca conseguiria entender tudo, ou 0,001% de tudo,
porque você não tem o Espírito de Cristo. Mas aquele que recebeu o Espírito do Senhor tem a
mente de Cristo e consegue discernir as coisas espirituais que Deus revelou (1Co 2.12-16). Então,
nesse esquema, não é apenas que Deus se atém somente ao que ele prometeu – nem isso ele
faz! A soberania de Deus, para esses tradicionais, significa o direito que Deus tem de mentir.
Sim, é bom pensar nos benefícios de Deus. É bom pensar no que Deus faz por nós. É correto e
louvável fixarmos nosso apreço naquilo que vem de Deus e nos faz bem. É belo meditar naquilo
que podemos ganhar de Deus! Não há nada de antropocêntrico, interesseiro ou egoísta nisso.
Ao contrário, é uma atitude de perfeita humildade pensar desse modo, porque significa que a
nossa consciência da dependência de Deus está afiada. Quanto mais nós pensamos sobre o que
podemos receber de Deus, mais nos esvaziamos da soberba e da pretensão de conseguirmos
essas coisas sem Deus, pela nossa força ou engenho. Aqueles que fingem ser humildes e imunes
ao desejo por coisas, pairando acima das nuvens em um estoicismo angelical (sem querer
ofender os anjos, por favor), vão atrás de receber coisas – saúde, dinheiro, inteligência, boa
reputação, relacionamentos, terreno e casa própria etc. – pela capacidade humana. Eles podem
pedir para Deus “abençoar” essas coisas, mas, no fim das contas, o fator determinante é o
quanto eles fazem e conseguem, porque sem isso Deus não faz nada. Receber de Deus como
uma criança inteiramente dependente ofende a soberba mal disfarçada deles. Se eles admitem
que só conseguem as coisas boas se Deus assim permitir, então por que hesitam tanto em
exaltar a Deus e ensinar sobre Deus nesse tema? Por que tantos “nãos” e “mas”?
Tais pregadores poderão reconhecer as bênçãos de Deus somente no seu passado. Eles dizem,
por exemplo, que tudo de bom que recebemos de Deus é por graça. Correto. Mas, para eles, a
graça continua sendo imprevisível, sem promessas nem alianças. Nesse contexto, eles gostam
de esbravejar, “Deus não lhe deve nada! Você não tem direitos diante de Deus! Seu único direito
é o de ir para o inferno! Tudo o que Deus faz por você é graça dele, não direito seu”. Para
teólogos que se acham tão argutos, é incrível como eles usam a ideia de “direito” somente
dentro dos limites de “direito natural” ou “direito universal”. Nem lhes passa pela mente que
pode haver algo como o direito contratual. Mas como então eles podem se gabar tanto dos seus
estudos sobre “teologia da aliança”? Ora, se Deus entrou em aliança comigo e fez promessas e
exigências, então ele mesmo gerou, contratualmente, o meu direito de esperar que ele cumpra
as suas promessas, assim como ele tem o direito de esperar que eu obedeça e confie na sua
palavra. Isso sim é graça de Deus! Sua graça é tal que revela para mim os benefícios que eu ainda
terei no futuro, e sobre uma base sólida de expectativas, que é a sua aliança.
Foi exatamente por isso que Deus confirmou a sua aliança com Abraão por meio de um
juramento: para que Abraão – e todos nós, os descendentes de Abraão – tivéssemos uma
“âncora da alma” a respeito da determinação de Deus em cumprir a sua palavra. As bênçãos de
Deus são o nosso direito sim, um direito que ele nos concedeu por graça. E é um direito redigido
com letras de sangue, o sangue do Filho de Deus, Jesus Cristo de Nazaré, aquele que tomou
sobre si os nossos “direitos naturais” – a morte e o inferno – para nos dar os seus próprios
direitos – a vida, a glória e a bênção. Como diz Gálatas 3.13-14, “Cristo nos resgatou da maldição
da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar... para que a bênção de Abraão chegasse
aos gentios, em Jesus Cristo, a fim de que recebêssemos, pela fé, o Espírito prometido”. Isso é
expiação. Isso é aliança. Isso é graça. Aqueles que negam esse direito negam também que há
uma aliança e colocam a si mesmos sob a mesma lei do pecado e da morte que pesa sobre a
vida dos ímpios. Eles se proclamam órfãos espirituais, mendigos que recebem esmolas e não
têm futuro algum. E eles querem arrastar você para a mesma fossa, apenas para continuarem
desempenhando o papel pomposo de guias de cegos, instruídos e mestres (Rm 2.17-24).
Deus quer ser conhecido como aquele que nos dá coisas. Você não pode fingir que louva os
atributos de Deus enquanto receia ou ataca os modos pelos quais Deus manifesta esses
atributos. Você não pode dizer que Deus é bom se você encara com suspeição todo o bem que
Deus promete fazer. Você não pode dizer que Deus é misericordioso se você incentiva as pessoas
a não esperarem que Deus misericordiosamente cure suas doenças. Você não pode dizer “a
alegria do Senhor é a nossa força” e então pregar que a depressão é normal e que Deus não
resolve isso sem a ajuda dos pagãos evolucionistas de jaleco. Você não pode dizer que Deus é
onipotente e ao mesmo tempo pregar contra a expectativa de milagres. Do contrário, você está
pregando um Deus que está alheio a nós, que não se doou a nós na forma de uma aliança e por
meio do seu Filho.
Note agora que o salmista diz para não nos esquecermos de “nem um só”. Deus quer ser
conhecido e lembrado por todos os seus benefícios, sem exceção. Quando nos convertemos a
Deus, ele vem com um pacote completo de benefícios. Não fica nada de fora. É por isso que a
Bíblia nos incentiva a sempre querer e conhecer mais e mais, ao passo que os teólogos
tradicionais nos mandam contentar-nos com menos e menos. Paulo quer que apreendamos
cada vez mais da altura, largura e profundidade do amor de Deus para conosco, ao passo que os
pregadores querem que nos recolhamos à nossa insignificância, desprezando todo um enorme
escopo de atos de amor divino.
Quantas vezes você já ouviu pregadores enfatizando salvação (isto é, o aspecto da regeneração
e justificação) e santificação como obras que se opõem a cura, prosperidade, revelações,
milagres e vitórias terrenas? Eles estão jogando benefícios de Deus uns contra os outros. Eles
exaltam uma fração dos benefícios – conversão, santidade, fraternidade cristã, a ressurreição
final – com o fim de depreciar outra fração dos benefícios. Mas o salmista diz: “nem um só”. O
salmista não vê nenhuma dificuldade em falar, no mesmo fôlego, do Deus que perdoa todas as
nossas iniquidades e que, além disso, nos dá a cura das doenças, prosperidade financeira,
rejuvenescimento, milagres e uma vida plena. Em vez de usar a salvação ou “Jesus” para nos
afastar dos demais benefícios, Paulo raciocina deste modo: se Deus não poupou seu próprio
Filho, antes o deu para nós, como não nos daria todas as demais coisas? Isso sim é raciocínio
lógico de crente! Os pregadores tradicionais, com efeito, fazem com que os benefícios materiais
de Deus sejam mais caros a Deus do que o próprio Jesus. É como se fosse normal aceitar que
Deus se dispôs a nos dar Jesus, mas “querer demais” aceitar que Deus nos dará os demais
benefícios menores. Quem, então, está “idolatrando” as bênçãos de Deus? Quem, então, está
dando importância demais às bênçãos “terrenas”? Parece que o jogo virou. Dividir as bênçãos
de Deus para colocá-las em conflito é a expressão de um coração politeísta.3
Aprenda isto: todos os benefícios de Deus dependem do caráter de Deus, da sua aliança de
graça, da expiação de Jesus Cristo e da fé. Esses fatores são constantes do Gênesis ao Apocalipse.
Logo, nenhum teólogo tem autorização para dilacerar o pacote de benefícios de Deus, jogar
alguns em uma dispensação, outros para após a ressurreição, outros para o período dos
apóstolos, e só as migalhas para nós hoje. Se há alguma distinção temporal na concessão dos
benefícios de Deus, então verifique se Deus disse algo a respeito. Do contrário, a linha teológica
que ousar arrogar para si esse direito é blasfema e satânica. É uma ideologia diabólica, pois é o
diabo quem – por meio dos seus servos! – vem para roubar, matar e destruir. Nunca permita
que um engravatado com doutorado em teologia roube você dos benefícios de Deus “para a
glória de Deus” e mate você no processo.
Os benefícios de Deus serão enumerados no restante do salmo, e isso nos traz outro ponto de
reflexão: as bênçãos de Deus são específicas e concretas. Elas têm nome. Quando você
cumprimenta ou se despede de outro cristão dizendo “Deus te abençoe”, isso não é uma
abstração. Essa expressão, utilizada tantas vezes de modo automático, deveria ter mais peso
para nós. Do mesmo modo, quando um filho pede “a bênça” (sic) para os pais, e eles respondem,
“Deus te abençoe, meu filho”, não é um ritual qualquer, e nem diz respeito principalmente à
relação entre pais e filhos, e sim aos muitos benefícios que temos em Deus. Quando
abençoamos alguém, estamos desejando que o interlocutor receba de Deus tudo o que este
salmo diz. Não faz sentido dizer “Deus te abençoe” como se fosse apenas a expressão idiomática
crente do “oi” e “tchau”.
João foi específico quando cumprimentou Gaio desejando “saúde e prosperidade” (3Jo 2). Se
você cumprimentar um cessacionista dessa forma, ele só não irá responder “Tá repreendido,
Satanás!” porque nem em repreender Satanás ele crê, então ele irá apenas retribuir com um
sorriso amarelo e talvez uma correção suave. Mas quando dizemos “Deus te abençoe”, é isso
que queremos que aconteça com a pessoa. Estamos sintetizando o conteúdo deste salmo e de
todos os demais benefícios espalhados pela Bíblia. Estamos dizendo, “Que Deus lhe dê saúde,
prosperidade, felicidade, relacionamentos saudáveis, filhos numerosos e fortes, a realização dos
3
Cf. Christian Heathenism: The God of the Hills, de Vincent Cheung.
seus sonhos, a vitória em todas as áreas da vida” e muito mais. É com essa atitude que você diz
“Deus te abençoe” aos seus irmãos?
Para encerrar este capítulo, note agora o que está faltando. Qual é o benefício de Deus que não
está aí? O sofrimento. Isso porque o sofrimento não é um benefício, e todos os teólogos que
fazem propaganda a favor do sofrimento estão mentindo.
Isso não é um argumento do silêncio. É claro que este salmo não é exaustivo – há muitos
benefícios de Deus que não estão nele. Mas não podemos dizer que o sofrimento é um
“benefício” ausente, porque os benefícios que estão presentes são justamente aqueles que
combatem o sofrimento. Iniciando por um sobre o qual ninguém disputa, o perdão dos pecados
destrói o sofrimento da condenação eterna e da culpa na consciência. Então vêm os demais: a
cura das doenças destrói o sofrimento das doenças; o resgate da vida destrói o sofrimento da
violência; uma vida coroada de amor e graça destrói o sofrimento de uma vida de frustrações e
depressões; a prosperidade material remove o sofrimento da pobreza; o rejuvenescimento
destrói o sofrimento do decaimento do corpo. Esse salmo é antissofrimento do início ao fim.
Na medida em que os pregadores atacam as bênçãos de Deus, eles exaltam o sofrimento. Para
eles, o sofrimento é a única coisa concreta e visível que podemos esperar de Deus. Isso é
insanidade, porque a Bíblia fala de uma série de benefícios de Deus que estão disponíveis para
os crentes, benefícios estes que melhoram a nossa vida e removem sofrimentos. E quanto à vida
dos ímpios? Ela não é incomparavelmente mais sofrida? Quando os pregadores dizem coisas
como “Se você for fiel a Jesus, você vai sofrer”, ou “Se você quer uma religião que o deixe
confortável, não venha para o cristianismo”, eles querem dar a entender que a alternativa – ser
um ímpio e permanecer sob o jugo de Satanás – é mais confortável e aprazível? A vida sem Deus
é uma porcaria! Só posso imaginar que esses homens estão com saudades das cebolas e pepinos
do Egito, para falarem tão mal da vida com Deus e insinuarem que a vida sem Deus tem seu lado
vantajoso.
Quando a Bíblia fala do sofrimento, é necessário identificar a que ela se refere especificamente.
Existe o sofrimento que vem da perseguição por causa da justiça. Esse é o único sofrimento que
é realmente resultado da vida piedosa e no qual há glória (At 5.41). Se você estiver pensando no
“espinho na carne” de Paulo, saiba que é exatamente esse tipo de sofrimento que está em vista,
não uma doença ou “dificuldades” em geral4. Em outros lugares, a Bíblia fala do sofrimento que
é resultado da disciplina de Deus contra algum pecado, e que nos leva ao arrependimento. Isso
aparece no Salmo 32, no Salmo 119.67 (“Antes de ser afligido, andava errado, mas agora guardo
a tua palavra”) e no Salmo 73, por exemplo. Mas é inteiramente diferente dizer que esse
sofrimento tem de fazer parte da vida cristã, e que nós não podemos esperar a remoção dele. O
Salmo 32 deixa bem claro que o autor só precisou sofrer para se arrepender porque ele foi burro.
Você não precisa ser burro. A fonte da sabedoria e da integridade é a instrução de Deus, como
está claro em todo o livro de Provérbios. Naquilo que você for obediente a Deus, não é
necessário que você sofra para você aprender a lição. E naquilo que você for desobediente,
aprenda a lição pelo sofrimento e assim pare de sofrer.
Essa é a disciplina não só de Deus, mas de todos os seres pensantes sóbrios. Se o meu filho nunca
me desobedecer, então eu nunca vou precisar dar palmadas. Mas ele me desobedece às vezes,
então eu dou palmadas. Eu não dou palmadas como uma constante da vida dele de forma
4
Conforme expliquei em Introdução ao Cristianismo Sobrenatural. Confira também Cristo, Aquele que
Cura, de F. F. Bosworth, e A Thorn in the Flesh, de Vincent Cheung.
independente da atitude dele. O pior é que os teólogos cessacionistas dão a entender que,
quanto mais você obedece, mais Deus faz você sofrer. Eles romantizam o sofrimento como se
houvesse algo de piedoso no mero sofrer, ou como se o sofrimento fosse imprescindível para
haver santificação. Essa atitude é inteiramente contraproducente, mesmo para a perspectiva
deles. Se o cristão está sempre sofrendo, então o sofrimento perde o papel pedagógico que eles
alardeiam. Se, não importa o quanto você obedecer a Deus, você irá sofrer do mesmo jeito,
então a obediência perde muito do seu incentivo. Podemos facilmente testemunhar como os
cristãos tomam o seu sofrimento como uma confirmação da sua piedade, ou então como algo
inteiramente independente da sua piedade, de modo que não conseguem perceber que são os
seus pecados e as suas decisões estúpidas que os fizeram sofrer em primeiro lugar. E não se dão
conta de que podem acabar com esse sofrimento por meio do arrependimento, da fé e da
obediência. Eles se justificam pelo seu sofrimento. E esses pregadores dizem “Paz, paz”, quando
não há paz (Jr 8.11). Qual é a postura correta? Toda vez em que um pregador disser que nós só
aprendemos a ser maduros por meio do sofrimento, responda “Fale por você”. Essa ideia não é
bíblica, é apenas autobiográfica. Invista bastante no aprendizado da palavra de Deus e no
crescimento da sua fé, e assim você não precisará sofrer muito. E, quando o sofrimento vier,
acabe com ele. Você acaba com ele respondendo-lhe com a palavra de Deus, seja em decisões
que procedam da palavra de Deus, seja expulsando-o pela oração da fé na palavra de Deus.
“Venha para Jesus e pare de sofrer”. Esse clichê (que eu nunca vi na vida real, mas apenas nas
caricaturas dos críticos) pode ser mal entendido sem contexto, mas ele traz verdades. Uma vida
com Jesus é incomparavelmente menos sofrida do que uma vida sem ele. Jesus trouxe consigo
todas as bênçãos de Abraão que foram descritas detalhadamente por Moisés. Eu não conheço
um Jesus que não venha com todos os benefícios. Ele veio sim para destruir as obras do diabo
(1Jo 3.8), as mesmas obras que tanto nos fazem sofrer. Ele veio para acabar com o nosso
sofrimento. Embora isso se complete somente na eternidade, a vida presente já goza do início
do processo. A expectativa da vida cristã é que você sofra cada vez menos e apreenda cada vez
mais dos benefícios de Deus. Não se esqueça de nem um só! E se você tiver de sofrer o ódio do
mundo por causa da sua fidelidade, não perca de vista a perspectiva: é muito melhor ser odiado
e perseguido pelo mundo do que ser odiado e perseguido por Deus. A religião cristã é sim a mais
confortável, a única confortável que existe.
Perdão
Ele é quem perdoa todas as tuas iniquidades...
O primeiro e mais importante benefício de Deus é o perdão dos pecados. Essa é a porta de todas
as bênçãos. Se esta porta estiver fechada, não há mais nada para você. Se ela estiver aberta,
você terá tudo.
Precisamos discorrer detalhadamente sobre o sentido desse benefício, pois ele é fundamental
para a vida cristã inteira.
Primeiro, perceba o sujeito da frase. É ELE, DEUS, quem perdoa todas as iniquidades. Disso
decorre que toda iniquidade é cometida contra Deus, e que Deus é o juiz que pode cobrá-las ou
perdoá-las. Deus é quem tem essa prerrogativa. Ele é quem sentencia. Ele é quem tem poder
para castigar ou para libertar. Ele é quem pode determinar como essa ofensa será cancelada.
Ele é quem impõe os termos. O perdão dos pecados está ancorado na soberania de Deus.
O homem não pode, portanto, perdoar pecados (Mc 2.8) e nem os cobrar. É somente em um
sentido relativo e subordinado que a Bíblia fala sobre o perdão de pecados entre irmãos. O
perdão que estendemos uns pelos outros é apenas a nossa sujeição ao perdão já declarado por
Deus. Eu não posso perdoar um pecado que Deus não perdoou. Eu posso ignorá-lo e entregar o
julgamento a ele, mas isso não cancela a ofensa. O inverso também é verdadeiro: eu tenho o
dever de perdoar alguém que Deus perdoou. Eu não tenho poder nem direito para cobrar uma
ofensa que Deus apagou. Esse é o padrão de relacionamento humano.
O homem natural não pode suportar que Deus seja aquele que perdoa pecados. Embora ele
pareça apreciar a ideia do perdão de Deus, ele chama de “perdão” uma mera condescendência
que ele julgue que Deus deva ter. Ele arroga para si mesmo o direito de conceder perdão e então
determina que Deus concorde com ele. Isso porque o homem natural deseja, sobretudo, o
perdão por si mesmo sem que precise se sujeitar a Deus. Então, todas as vezes em que ele erra,
segundo o seu próprio padrão, ele justifica a si mesmo. Quando ele não consegue sentir a paz
dessa autojustiça, ele paga um psicólogo para lhe dizer que deve “perdoar a si mesmo”. O
homem usurpa o ofício de juiz supremo sobre os próprios pecados. E, uma vez que ele se fez lei
para si mesmo, o perdão que ele estende a outros é segundo a sua própria vontade. Ele perdoa
quando quer e revoga o perdão quando quer. E mesmo esse ato de perdão é autocentrado: é
uma maneira de se sentir bem consigo mesmo, de remover a amargura do coração. É nesses
termos que os mundanos explicam o perdão.
A verdade é que não pode haver verdadeiro perdão, verdadeira libertação, se não há satisfação.
A demanda da justiça precisa ser cumprida. O homem é incapaz de oferecer satisfação pelos
seus próprios pecados e de aceitar satisfação de outras pessoas, pois “todos pecaram e estão
destituídos da glória de Deus” (Rm 3.23). A culpa na consciência do homem resulta de ele saber
que é transgressor contra o padrão de Deus, e nenhum consolo dos homens ou de si mesmo
pode atenuar essa culpa5. Por mais que ele se se distraia com o aplauso dos outros e busque
padrões alternativos que lhe forneçam uma base para justiça própria, o aguilhão de Deus
permanece lá. Não há descanso para o ímpio. Somente Deus pode perdoar e justificar, e
somente o perdão de Deus é de fato um benefício.
Segundo, Deus é o punidor e, precisamente por isso, ele é também o perdoador. Deus só pode
perdoar porque ele pode cobrar e punir. E isso ele fez quando ofereceu o seu Filho.
Uma vez que é impossível ao homem fazer expiação pelos seus pecados, a única via de escape
da justa ira de Deus é a propiciação que ele mesmo ofereceu. Somente Deus poderia prover a
satisfação. Se o pecado é fundamentalmente contra Deus, e Deus é santíssimo e soberano,
segue-se que a gravidade do pecado é proporcionalmente imensa. Ainda que um homem
pudesse naturalmente fazer boas obras, estas jamais seriam suficientes para cobrir o seu
pecado. Suas boas obras, ao contrário, apenas aumentam sua dívida contra Deus, pois o pecado
impregna toda a sua vida, até mesmo suas supostas melhores intenções. Não há saída alguma
para o homem, a não ser aquela que Deus mesmo, pela sua graça, concedeu.
Uma vez que Deus é vida (1Jo 1.2), e que gravidade do pecado é infinita, a punição para o pecado
tem de ser a morte eterna no inferno. Todos aqueles que permanecem debaixo do pecado terão
de passar a eternidade sofrendo os mais terríveis tormentos no inferno para que a justiça de
Deus seja satisfeita. Mesmo no inferno, o homem jamais poderá expiar o seu pecado, razão pela
qual será uma agonia perpétua. Portanto, para que haja verdadeira expiação, para que a dívida
que o homem tem com Deus seja plenamente quitada, é necessário que uma oferta de valor tão
grande como o próprio Deus sofra a morte no lugar do homem. O homem precisa de um
substituto, de alguém que não venha corrompido pelo pecado e que possa satisfazer a exigência
da lei como seu representante. E esse alguém tem de ser santo, glorioso e digno como o próprio
Deus.
Portanto, o salvador do homem tem de ser o próprio Deus e, ao mesmo tempo, plenamente
homem. Como Deus, ele tem poder e grandeza infinita para destruir o poder da morte e atender
à santidade de Deus. Como homem, ele representa os demais homens, prestando obediência e
sofrendo o castigo da morte. Logo, foi necessário que o próprio Deus viesse em carne e vivesse
como homem, sujeito às mesmas tentações e vencendo todas elas. Esse homem, porém, não
poderia vir corrompido pelo pecado, do contrário sua pureza teria sido comprometida desde a
sua concepção. Ele teria de ser, além de Deus santíssimo, um homem puro e perfeito.
Assim, Deus enviou o seu próprio Filho, Jesus Cristo. Ele, mesmo sendo Deus eterno, fez-se
homem (Jo 1.14), assumindo a forma de servo (Fp 2.7). Ele nasceu de uma virgem, foi
perfeitamente obediente, agiu no poder do Espírito proclamando a salvação e entregou a si
mesmo a uma morte maldita (Gl 3.13). Ele ofereceu a sua própria vida pura como um sacrifício
agradável a Deus, sofrendo o tormento do inferno pendurado na cruz. Por haver prestado
satisfação, ele morreu e ressuscitou ao terceiro dia, provando assim ter vencido o poder da
morte e conquistado a justiça para nós (Rm 4.26). Nossos pecados foram castigados nele, e a
retidão dele é abençoada em nós. A nossa morte foi dele, e a vida dele tornou-se nossa. E hoje,
ele vive para sempre, reinando sobre nós e intercedendo por nós com base no seu sacrifício
definitivo.
5
Cf. The Politics of Guilt and Pity, de R. J. Rushdoony.
Essas são as boas novas da libertação que há em Jesus. O sacrifício de Cristo é o fim do nosso
sacrifício! A morte de Cristo é a garantia que não morreremos para sempre, antes temos a
certeza da vida eterna. A maldição de Cristo garante a bênção para nós. Nós estamos
inocentados, purificados, justificados diante do tribunal de Deus. Se hoje pecamos, não caímos
em desespero, antes, confiamos que Jesus resolveu nossa situação com Deus. Somos livres do
medo, da angústia e da culpa. Agora, o seu passado não define quem você é. Os pecados que
você ainda comete não são o verdadeiro você. O verdadeiro você é perfeito, glorioso e
vivificado. É assim que Deus vê você. Deus enxerga você pelo filtro de Jesus Cristo. Ele ama você
como ama o seu próprio Filho. Ele abençoa você como abençoa o seu próprio Filho. Ele glorifica
e exalta você como glorifica e exalta o seu próprio Filho. Você tem muito mais do que uma ficha
limpa. Você é rei e sacerdote de uma nova cidade, a cidade celestial que vencerá o mundo e
durará para sempre.
Terceiro, esse perdão está condicionado a essa satisfação. Embora isso sejam boas novas para
aqueles que confiam em Jesus Cristo, para os demais, é uma sentença definitiva e irrevogável
de condenação eterna. Jesus é o único caminho e o único mediador. Deus não ofereceu um meio
alternativo. Deus não irá enviar outro salvador. Deus não irá se acomodar a visões diferentes.
Todas as religiões que ensinam outro meio de salvação serão condenadas por Deus. Todos os
homens que tentarem expiar os seus pecados por seus próprios meios, ou que rejeitarem o
verdadeiro Jesus para pregar outro evangelho, serão condenados a sofrerem no inferno para
sempre. Por essa razão, importa que anunciemos a mensagem de libertação a todas as nações.
Quarto, a ênfase em todas as iniquidades nos alegra com a notícia de que nenhum pecado é tão
grave que não possa ser perdoado. Há perdão, justiça e glória para homicidas, adúlteros,
homossexuais, pedófilos, comunistas, atrizes pornôs, feiticeiros, satanistas, traficantes, índios
canibais – para todos. Do mesmo modo, há perdão para conservadores bem comportados,
cidadãos honestos e pais de família tradicionais. Diante de Deus, todos são pecadores e
merecem o inferno, porém todos podem ser perdoados se colocarem sua fé no sacrifício
expiatório de Jesus. Uma vez em Cristo, não há espaço para vanglória diante dos demais. O
perdão dos pecados concedido por Deus com base na obra de Cristo é o único poder que traz
verdadeira reconciliação e paz a todos os tipos de pessoas.
Há somente uma exceção ao perdão: a blasfêmia contra o Espírito Santo (Mt 12.31-32). Jesus
deixou muito claro que, quando a Escritura afirma que todos os pecados dos homens podem ser
perdoados, ela não está abarcando esse pecado singular da blasfêmia contra o Espírito Santo.
Isso deve qualificar inclusive como lemos 1João 1.9. A blasfêmia contra o Espírito, longe de ser
um pecado virtualmente impossível de ser cometido, acontece todos os dias em púlpitos do
mundo inteiro. Quando homens atribuem a obra milagrosa do Espírito Santo ao poder dos
demônios e se opõem a ela – “falam contra” – eles cometem esse pecado, e não há qualquer
sacrifício expiatório para eles. Não é difícil cometer esse pecado. Você não precisa mencionar o
Espírito Santo – basta que você mencione um homem que está agindo sob o poder do Espírito
e afirme que ele faz milagres pelo poder de demônios. Basta que você condene como inspiradas
pelo diabo aquelas obras do Espírito – profecias, línguas, curas, visões, milagres em geral – e
você incorrerá nessa culpa perpétua.
Por essa razão, não há ninguém mais próximo do inferno do que os cessacionistas. Todas as
pessoas horríveis da nossa sociedade podem ser perdoadas, mas os cessacionistas mais zelosos
na sua apologética contra os carismáticos não poderão jamais ser perdoados. Você acha isso um
exagero? Mas foi Jesus quem disse que as prostitutas estavam entrando no reino do céu
enquanto os respeitáveis membros da elite teológica estavam ficando de fora (Mt 21.31).
Muitos cessacionistas, inclusive dos mais famosos e celebrados internacionalmente, já
cometeram esse pecado, e não há mais volta. Aqueles que não cometeram estão pisando
constantemente em gelo fino. Cada vez que eles abrem a boca para expor a Escritura é um salto
de paraquedas, e alguma hora o paraquedas pode não abrir. Você pode imaginar que a mais
nojenta das feministas, ou o mais promíscuo transsexual, pode se arrepender e reinar com
Cristo, e então julgar no último dia o reverendo cessacionista que passou a vida toda se opondo
à obra do Espírito?
Quinto, retomando o final do segundo ponto, perceba que grande ousadia o perdão dos pecados
confere à nossa personalidade. Se você é perdoado por Deus, logo ninguém pode condenar
você. Se você é perdoado por Deus, você não deve se abalar nem um pouco com o que os outros
julgam em você. Se você está justificado diante de Deus, o diabo não pode acusar a sua
consciência e o mundo não pode condená-lo. Se todos odeiam você, Deus ama você, e ele é
quem diz quem você é. O perdão dos pecados é o fundamento da verdadeira autoestima.
Além disso, considere como você pode ser ousado nas orações. Se Deus vê você como alguém
perfeitamente justo e santo como o próprio Jesus, então o que é que Deus não lhe daria? Toda
vez que você pedir algo a Deus, você pode ter a certeza de que será atendido do mesmo modo
como Deus sempre atende a Jesus. Ele mesmo disse antes de ressuscitar Lázaro, “Eu sei que
sempre me ouves”. Você pode alcançar milagres porque você está na mesma posição de filho
amado e justo diante de Deus. Tudo o que Deus prometeu a Jesus é nosso. Ele prometeu a
herança do mundo e o domínio sobre os confins da terra (Sl 2.8; Rm 8.17). Tudo o que é de Jesus
é nosso. Esse é o efeito do perdão dos pecados. Ter a justiça de Cristo imputada é estar na
mesma posição de exaltação e privilégio diante do trono do Pai.
Portanto, nunca permita que um pregador desanime você apelando à sua condição de pecador.
Tantos pastores instilam dúvida e hesitação no seu coração, lançando na sua face que você é
um pecador, que você tem um “coração idólatra”, ou que você é uma mera criatura. Eles
inserem um obstáculo entre você e Deus que Jesus removeu quando rasgou o véu do templo!
Eles fazem com que você se sinta distante de Deus, como se você não pudesse almejar milagres
e vitórias com Deus porque você é um pecador e uma criatura. Eles chamam você de arrogante.
“Você é um verme! Você é um nada! Você está diante do Deus soberano e santo! Olhe com
quem você está falando!”. Esses homens podem erguer altares a Lutero e Calvino e fazer
conferências e celebrações sobre a Reforma Protestante, mas eles não fazem ideia do que é
justificação por fé. Eles são católicos insinceros. Se eles realmente cressem na justificação pela
fé, eles não insistiriam em lembrar você de que você é pecador – nem Deus se lembra disso! E
eles nem mesmo tentariam humilhar você como se você fosse uma mera criatura. Antes, eles
diriam: “Perante a sentença de Deus, eu sou tão justo, santo e perfeito quanto Jesus, porque foi
isso que ele fez por mim. Portanto, as minhas tendências carnais e minhas falhas diárias não irão
me deter. E eu não sou uma criatura qualquer. Eu não sou qualquer um. Eu sou uma criatura
supremamente exaltada, porque Jesus me levou para os lugares celestiais. Se Jesus não é um
homem qualquer, eu também não sou, pois estou unido a ele. Portanto, eu entrarei na sala do
trono de cabeça erguida e farei minha demanda com o Rei. E eu mesmo reinarei sobre minhas
circunstâncias com a autoridade que ele me deu”. Isso é perdão de pecados! Isso é justificação!
Na medida em que você se deprecia, você deprecia Jesus. Na medida em que você acha que
Deus não irá cobrir você com todos os seus benefícios, você julga que o próprio Jesus sofre desse
alheamento de Deus. É por isso que a teologia reformada e a teologia tradicional em geral são
tão ruins. Elas não conseguem nem declarar o tema mais básico do qual elas tanto se orgulham.
Elas não são fiéis nem às tais cinco solas. Elas nem começaram a entender o que o perdão de
pecados significa. Elas combatem qualquer desenvolvimento dessa doutrina para além do
slogan. Querem mantê-la apenas como símbolo, como jargão, não como um poder vital e
sobrenatural na nossa vida. Teólogos assim mantêm o seu povo na escravidão, na repressão e
na depressão. Importa que sejamos como Moisés e lhes digamos: deixem o povo de Deus ir!
Deixem-nos ir aonde eles possam adorar em liberdade e plenitude! Ou as pragas de Deus
recairão sobre vocês.
Como diz Tiago, a oração do justo é poderosa e eficaz. Se você foi justificado diante de Deus,
suas orações serão poderosas e eficazes. Você conseguirá fazer as mesmas obras de Elias, as
mesmas obras de Jesus, e outras ainda maiores. O perdão dos pecados é apenas o primeiro
mergulho no oceano de bênçãos de Deus. É absurdo que o perdão dos pecados não abra o
caminho para os demais benefícios de Deus. Não faz sentido sofrer o mesmo que os ímpios
sofrem. Você é santo. Você é justo. Você é um rei no palácio do grande Rei. Você é o herdeiro
do mundo. Você tem privilégios que nem os anjos têm. Você está confortável diante de Deus.
Não era assim antes, quando você era um filho da ira e merecedor do inferno, mas Deus, pelo
seu imenso amor, mudou a sua posição. Você veste o crachá de Jesus diante do Pai. Portanto,
basta de hesitação, basta de medo, basta de culpa, basta de desânimo. Pegue todos os
benefícios de Deus, e não se esqueça de nem um só. A senha para esse pedido é: os seus pecados
estão perdoados.
Cura
...quem sara todas as tuas enfermidades...
Perdoar pecados e curar doenças são benefícios que Deus concede em conjunto. São obras tão
interdependentes que aparecem justapostas por toda a Escritura. Um exemplo é neste salmo,
em que “perdoa todas as tuas iniquidades” e “sara todas as tuas enfermidades” estão no mesmo
versículo. Ambas são declaradas como benefícios do mesmo Deus.
Em Marcos 2.9, Jesus pergunta: “Que é mais fácil dizer? Teus pecados estão perdoados ou
levanta e anda?”. E então ele cura o paralítico para provar que tem poder para perdoar pecados.
Para Jesus, perdoar pecados e curar enfermidades são igualmente fáceis, e ele estava disposto
a fazer as duas coisas. Portanto, pergunte a si mesmo: por que você acha mais fácil obter perdão
pelos pecados do que obter cura para as suas doenças?
Em Tiago 5.15-16, o autor afirma que a oração da fé irá curar o enfermo e, se houver pecados,
serão perdoados. A cura da doença é resultado da oração com fé tanto quanto o perdão dos
pecados. Se você ora para Deus perdoar os seus pecados, então você deve orar para que ele
cure suas doenças, com a mesma expectativa de sucesso.
Em Isaías 53.4-5, o sofrimento de Cristo traz a expiação pelos pecados e a cura das doenças. Ele
foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades. Ele tomou sobre
si as nossas enfermidades e carregou as nossas dores. Assim como a nossa maldade foi imputada
a Jesus, também as nossas doenças foram postas sobre ele. E, do mesmo modo como ele
carregou para longe os nossos pecados, tirando-os de nós e concedendo-nos a sua justiça,
também ele levou embora as nossas doenças e nos trouxe a cura – “o castigo que nos traz a paz
estava sobre ele, e, pelas suas pisaduras, fomos sarados”.
Esse texto de Isaías é citado em Mateus 8.16-17 e em 1Pedro 2.24. Em Mateus, a profecia se
cumpriu quando Jesus curou os enfermos e expulsou demônios e, em 1Pedro, ela se cumpre
dando aos cristãos o perdão e uma nova vida de obediência. O mesmo texto se aplica nos dois
sentidos. Isso fortalece a noção de que o perdão e a cura são tratados como um só pacote. Os
dois benefícios são atribuídos à bondade de Deus, ao sacrifício de Cristo e à oração com fé.
Portanto, nunca permita que um pregador tente convencer você de que a cura das doenças é
incerta. Eles utilizam todo tipo de recurso retórico para destruir a sua fé, mas eles não podem
combater esses versículos. Muitas vezes, eles pregam sobre cura e aplicam para a “cura da nossa
alma”, e transformam a cura de doenças em perdão de pecados. Porém, são dois benefícios
distintos. Um acompanha o outro, mas não é absorvido por esse outro. Eles não podem fazer de
conta que a Bíblia não menciona a cura literal e física como uma obra de Deus por nós. Outras
vezes, dizem que a cura nem sempre é da vontade de Deus. Mas com que base eles diriam isso,
se a cura tem a mesma raiz na aliança, na expiação e na fé como tem o perdão dos pecados?
Eles não tratam o perdão como se fosse casuístico e baseado em uma vontade secreta e
imprevisível de Deus. Ainda outras vezes, tentam apaziguar o problema que eles mesmos
criaram alegando que a cura das doenças se dará na ressurreição, quando teremos corpos
perfeitos. Mas a Bíblia apresenta a cura como um benefício presente. Jesus cumpriu a profecia
de Isaías com atos concretos de cura milagrosa e expulsão de demônios. A oração com fé irá
curar o enfermo, não irá matá-lo apenas para que alguém diga que um dia ele irá ressuscitar
curado!
A cura das doenças é um benefício tão presente e tão certo quanto o perdão dos pecados. Você
não precisa esperar a morte e o corpo glorificado para então receber perdão. O perdão é seu
agora, e você pode viver como uma pessoa perdoada e livre de culpa. Do mesmo modo, você
pode viver hoje como uma pessoa saudável, livre de toda enfermidade. Você pode orar com fé
pela cura e pela imunidade, e será atendido.
Perceba como os termos da cura são idênticos aos do perdão. Nesse salmo, o sujeito das duas
obras é Deus: É ele quem perdoa todas as tuas iniquidades, quem sara todas as tuas
enfermidades. É um benefício de Deus. Ele é quem tem poder para curar, e ele é quem decide
curar. Isso significa que devemos depender de Deus para a cura, não de homens.
Os teólogos tradicionais distorcem essa ideia afirmando que nós não podemos ministrar cura ou
declarar cura uns pelos outros. Eles irão criticar como presunçosos e supersticiosos todos os
carismáticos que “determinam” a cura, ou que se submetem a cultos de cura, ou que seguem
ministros que operam milagres. No entanto, foi Jesus quem deu aos discípulos autoridade sobre
doenças e sobre demônios, e nós vemos a ministração da cura ocorrendo exatamente por meio
deles nos evangelhos e em Atos. Não são os homens que se investem dessa autoridade. É fato
que eu nunca poderia curar ninguém pelo meu próprio poder. E creio que nenhum carismático
negaria isso. Mas, se Deus diz que eu posso curar, então eu posso curar, e eu sei que posso curar
precisamente porque quem disse foi Deus, e é dele quem procede o poder e a jurisdição sobre
as enfermidades. O fato de que a cura vem somente de Deus e não dos homens é a garantia de
que os homens podem curar, se Deus disser que eles podem. E ele disse.
Quando Pedro curou o paralítico em Atos 3, ele deixou claro: não foi pelo nosso poder e piedade
que curamos o homem, mas foi a fé no nome de Jesus. A fé em Jesus salva do mesmo modo
como a fé em Jesus cura. E foi pela fé em Jesus que Pedro pôde curar o paralítico. Mas ele pôde
curar. Não foi algo incerto e imprevisível. O homem pode ministrar a cura porque ele não cura
no seu próprio nome, e sim no nome de Jesus. Por outro lado, a ortodoxia mais preclara discorda
de Pedro e teima que ele só pôde curar porque ele era um apóstolo. Mas nunca foi pelo
apostolado do homem, e sim pela fé no nome de Jesus. Se você tem fé, e se você tem acesso a
esse nome que está acima de todo nome, então você não precisa ser apóstolo, nem profeta,
nem um crente do primeiro século. A cura é sua, e você pode dá-la a outros.
Os mesmos eruditos que negam que o homem pode ministrar cura pela autoridade de Jesus
afirmam que o homem pode ministrar a cura pela sua própria autoridade, desde que ele vista
um jaleco branco. Eles mantêm distante a cura milagrosa baseada na fé na mesma medida em
que mantêm bem perto a cura imanente baseada na vista. Eles desencorajam o povo de Deus a
não esperar a cura de Deus, mas eles nunca hesitam em buscar o socorro da medicina.
Hipócritas! Eles amam a cura tanto quanto os neopentecostais que eles execram, mas é a cura
do homem que eles amam, não a de Deus. Então, eles tentam conciliar as coisas afirmando que
Deus nos cura por meio dos médicos e remédios. Mas Deus nunca disse isso. Os termos pelos
quais Deus promete a cura na Bíblia estão vinculados à fé, à ação milagrosa e à expiação, e não
a procedimentos com justificativa científica.
Eles fazem sua apologética contra o sacerdotalismo católico afirmando que cada crente
individual tem acesso direto a Deus para ser salvo. Eles combatem ferozmente a usurpação do
clero católico da prerrogativa de Deus. Os católicos afirmam que Deus perdoa pecados, mas pela
instrumentalidade da igreja, que tem autoridade para dispensar o perdão. Os reformados
insistem que a igreja pode apenas declarar ministerialmente o perdão, nunca legislar sobre o
perdão e nem decidir com base na sua própria vontade. Agora, se eles fossem consistentes,
raciocinariam do mesmo modo para a cura das doenças. Eles afirmariam que todo crente
individual tem acesso direto a Deus para ser curado, com ou sem médicos. Eles diriam que os
médicos podem apenas reconhecer oficialmente que uma pessoa foi curada, não que eles
mesmos podem operar a cura pela sua própria sabedoria. Eles deveriam combater o
sacerdotalismo da medicina tanto quanto combatem o sacerdotalismo católico. Mas eles
precisam defender o primeiro e condicionar Deus a ele, porque eles rejeitaram os termos de
Deus. Na verdade, são eles quem pensam que a cura vem do homem, não os neopentecostais
que são alvo das suas críticas.
Além disso, note que o salmo diz “toda iniquidade” e “toda enfermidade”. Deus não nos cura de
apenas algumas doenças quando acontece de ser da vontade dele, assim como ele não perdoa
somente algumas iniquidades quando acontece de ele ter vontade. Ele perdoa todas as
iniquidades, o que significa que há uma base de previsibilidade para o perdão. Você sabe que é
perdoado porque ele perdoa tudo. E você sabe que tem direito à cura porque ele cura tudo. Ele
cura todas as doenças. Você não precisa indagar a cada caso. É previsível. É contratual. Se tem
doença, tem cura. Simples.
Deus perdoa somente as iniquidades mais leves, ou ele perdoa as mais horrendas? Você sabe a
resposta. O sangue de Jesus nos purifica de toda injustiça. Se há algum pecado grave demais
para receber o perdão de Deus, então o sacrifício de Jesus não foi satisfatório o bastante.
Alguém que se julga ímpio demais para ser perdoado é alguém orgulhoso demais para se
submeter à supremacia do sacrifício de Jesus. É alguém que estima o valor do sangue de Jesus
como pouco precioso. Do mesmo modo, há alguma doença grave demais para ser curada por
Deus? Se a cura viesse da medicina, diríamos que sim, que há muitas doenças cuja cura nunca
foi descoberta pelo homem, que há outras doenças cuja cura é inacessível a muitas pessoas por
ser muito cara, e que ainda há outras doenças que, embora tenham uma cura relativamente
fácil, estão sujeitas à falha humana durante o procedimento. Por isso, é fútil esperar a cura da
ciência. Mas a cura que vem pela fé em Deus serve para todas as doenças e deficiências, da mais
leve à mais terrível; aplica-se até mesmo a doenças que nem existem ainda; é totalmente
gratuita, porque Jesus já pagou o preço com o seu sacrifício; e é infalível enquanto houver
verdadeira fé.
Disso resulta que a relativização da cura bíblica ofende o evangelho tanto quanto a relativização
do perdão bíblico. Perdão e cura estão unidos. São benefícios do mesmo Deus, declarados com
a mesma universalidade, prometidos na mesma aliança, garantidos pelo mesmo sacrifício de
Jesus, concedidos pela mesma oração com fé. Cura de doenças é tão evangelho quanto perdão
de pecados e salvação pela graça. Como diz Êxodo 23:25: “Servireis ao Senhor, vosso Deus, e ele
abençoará o vosso pão e a vossa água; e tirará do vosso meio as enfermidades”. Os cristãos
devem ser implacáveis contra os pregadores de um evangelho sem cura, ou com cura incerta.
Eles devem tratar a doutrina da cura com o mesmo zelo que eles têm pela doutrina do perdão.
Eles devem fundamentar a legitimidade da igreja na pureza doutrinal da cura do mesmo modo
como eles já o fazem na pureza doutrinal do perdão e da justificação. Eles devem tratar os
reformados e outros cessacionistas como Martinho Lutero tratou a igreja católica. A detração
dos fundamentos da verdadeira fé bíblica é grosseira em ambos os casos. Quem argumenta
contra a cura pela fé é tão satânico quanto quem argumenta contra a justificação pela fé. Todos
os dados bíblicos exigem que você declare isso.
A ministração da cura uns pelos outros é necessária para a vida comunitária. Jesus curava as
pessoas por compaixão. Os reformados insistem que Jesus realizava curas milagrosas apenas
para “autenticar” a revelação de quem ele era. Se isso é verdade, então decerto elas
“autenticavam” a revelação de ele ser um Messias que cura! O raciocínio deles é tão insano que
eles começam com um Jesus que cura e terminam com um Jesus que não cura. Mas o Jesus que
curou nos relatos bíblicos continua curando hoje com a mesma certeza. E se ele reina na igreja,
então a igreja deve manifestar os milagres de cura do mesmo modo como os discípulos originais
de Jesus manifestavam. Jesus concedeu a nós a autoridade sobre doenças e demônios, e ele
ordenou que fizéssemos a oração pela cura. Quando os cristãos se reúnem para ministrar cura
uns pelos outros, isso é um exercício de terna compaixão, do mesmo amor que Jesus
demonstrou quando esteve na terra. É uma calúnia dos reformados a acusação de que os
eventos de cura dos carismáticos são para fazer shows ou para exaltar celebridades. Ocorre que
tudo no mundinho de autismo espiritual deles gira em torno de personalidades, e eles julgam
que todos os crentes são assim. A cura é um exercício de amor. É para isso que servem os dons
e os serviços que o Espírito outorgou à igreja. Aqueles que se recusam a ministrar a cura não
amam como Jesus ama.
Contudo, permanece o fato de que a cura vem de Deus. Os homens devem praticar a cura e
exercer a autoridade que Deus lhes concedeu, mas isso não significa que você depende deles.
Se ninguém mais orar por você, ou se ninguém mais tiver fé para fazer orações eficazes, você
pode conseguir diretamente de Deus. Você não precisa pedir para o seu pastor ou para algum
irmão com dom de cura orar por você. Você pode fazer isso e, muitas vezes, isso é benéfico, mas
isso não pode servir como restrição. É por essa razão que eu não recomendo que um enfermo
peça para o máximo de pessoas que ele conhece orar por ele. A maioria dessas pessoas não
serve para nada. Elas não oram com fé. Se ele se avaliar como fraquejando na fé, é ótimo que
ele peça ajuda, mas peça para quem realmente vá ajudá-lo. Em todo caso, ele tem livre acesso
ao trono da graça para encontrar socorro em ocasião oportuna (Hb 4.16). Ele pode conseguir
diretamente de Deus, se tiver fé. Em qualquer lugar em que ele estiver, a qualquer hora do dia,
a cura está ali, na palma da sua mão, pelo Espírito que nele habita.
Livre-se de toda hesitação. Como falei acima, os benefícios de Deus são direitos contratuais.
Receba pela fé o seu direito à cura. Dê ordens à sua doença. Repreenda a opressão do diabo. A
Bíblia mostra que as doenças são, muitas vezes, ataques demoníacos. Ordene que os demônios
se retirem. Se você acha isso muito místico, isso prova quão distante você está da prática bíblica.
Cure como Jesus curou. Cure como os discípulos curaram. Você não está mais “aos pés da cruz”;
você está assentado no trono do céu, ao lado de Jesus e dos seus irmãos.
Pare de glorificar a doença. Este salmo diz que o “sarar todas as tuas enfermidades” é um
benefício. Ele não diz que ficar doente é um benefício, mas os reformados e tradicionais socam
essa imbecilidade no seu ouvido o tempo inteiro. Eles amam tagarelar sobre como a doença é
uma bênção, sobre como podemos ficar doentes para a glória de Deus. Isso é mentira de
Satanás. Somente o diabo tentaria convencer você de que algo que Deus declara maldição é
uma bênção. Por acaso o adultério é uma bênção? Por acaso a feitiçaria é gloriosa? Do mesmo
modo, Deus emitiu invectivas contra a doença, elencando-a na lista de maldições pactuais (Dt
28), devida a egípcios, e não a israelitas (Ex 15.26), chamando-a de cativeiro de Satanás (Lc
13.16) e opressão do diabo (At 10.38). Não há uma só linha em toda a Bíblia que fale da doença
em tons positivos. Nenhuma vírgula sobre aceitação da doença. Ai daqueles que chamam bom
o que é mau, que chamam o amargo de doce (Is 5.20)! Livre-se dos relatos comoventes de
cristãos famosos que declararam sua submissão à doença com ares de piedade. Isso é heresia.
Isso é um engano profundo. As pessoas gostam de citar aquela frase de Chesterton de que
“chegará um dia em que teremos de provar que a grama é verde”. Mas isso já acontece há
séculos, pois temos de provar o tempo todo que doença é ruim! Só o fato de que precisamos
reeducar a cristandade para que ela se lembre de que doença é coisa ruim e cura é coisa boa
demonstra o nível do subsolo do manicômio em que estamos.
Você não fica doente para a glória de Deus. Você fica curado para a glória de Deus. A aceitação
da doença, apesar de todas as tagarelices em contrário, só glorifica você mesmo. As pessoas
passam a admirar o quão heroicamente você está suportando a doença com uma atitude
resignada e estoica. Elas começam a louvar a grandeza da sua piedade, chamando-o de um
gigante homem de Deus, de um modelo para todos. Comentários laudatórios sobre a firmeza
do seu coração proliferam-se nas conversas, nas ilustrações em sermões e nas redes sociais.
Toda a atenção está em você. Muitos desses enfermos passam a noticiar sobre a própria doença
com cada vez mais frequência, elaborando mais reflexões e meditações, fazendo da doença a
sua identidade pública. Por outro lado, sabe o que acontece quando você recebe a cura
milagrosa? As pessoas dizem “Glória a Deus!”. Ninguém liga para você. É Deus quem recebe
toda a atenção. As pessoas ficam felizes por você, mas logo elas esquecem. É o deslumbramento
perante o poder de Deus que permanece. Você pode dar o testemunho da sua cura, mas
ninguém fica cumprimentando a sua piedade ou a sua maturidade. Elas olham para cima e dão
louvores a Deus. E então usam esse milagre para encorajar uns aos outros a esperarem o
mesmo. Você mesmo fica em segundo plano. Essa é a atitude que glorifica a Deus. É isso que
significa “É necessário que ele cresça e eu diminua”. Já os que capitalizam a sua fama em cima
da sua doença dizem “É necessário que o milagre de Deus diminua para que a minha postura de
herói cresça”.
O Resgate da Vida
...quem da cova redime a tua vida...
Doenças não são o único risco à nossa vida. Esse benefício expande a proteção de Deus contra
tudo aquilo que pode nos matar. Ele revela um Deus que salva vidas em todos os sentidos.
Desde que o pecado entrou no mundo, a morte passou a reinar (Rm 5.14). O homem foi criado
com livre acesso à árvore da vida, porém, após o exílio do Éden, ficou sujeito a todo tipo de
morte. No meu livro sobre Ressurreição6, eu distingo quatro dimensões da morte: a morte
eterna, que é a sentença do inferno; a morte espiritual, que é o nosso alheamento de Deus no
presente com toda a escravidão a uma vida imoral e fútil; a morte existencial, o sofrimento pela
falta de sentido em uma existência sem Deus; e a morte física, a separação entre alma e corpo
que resulta na decomposição deste. O homem sem Deus é um zumbi. Ele está envolto na
mortalha desde o seu nascimento. Ele precisa de um herói.
Para não sermos redundantes, vamos enfatizar aqui o resgate contra a morte física. Já lidamos
com a morte eterna no capítulo sobre perdão, lidaremos com a morte existencial no próximo
capítulo e falaremos da morte espiritual no versículo 7. Além disso, quando os salmistas usam a
expressão de “resgatar da cova”, eles geralmente estão falando sobre morte física. Exemplo:
“Senhor, meu Deus, clamei a ti por socorro, e tu me saraste. Senhor da cova fizeste subir a minha
alma; preservaste-me a vida para que eu não descesse à sepultura” (Sl 30.2-3). É uma salvação
literal e física, como a de um médico, bombeiro ou salva-vidas. Esse será o foco deste capítulo.
Como acontece com o tema da cura, o tema da proteção à vida recebe um tratamento
espiritualizado nas mãos dos expositores. A Bíblia ensina que Deus perdoa nossos pecados e
sara nossas enfermidades, mas os pregadores dizem que Deus “cura a doença do nosso pecado”,
isto é, eles absorvem a cura na justificação e na regeneração, e assim eliminam os textos sobre
cura na medida em que multiplicam os textos sobre perdão. Do mesmo modo, a Bíblia ensina
que Deus salva a nossa vida de diversas maneiras – da condenação do inferno, da escravidão ao
pecado, da falta de propósito, da decomposição final por meio da ressurreição no último dia, e
também de virtualmente todos os perigos de morte prematura durante nossa existência
terrena. Mas os pregadores fazem com que todos os textos que ensinem esse último tipo de
proteção sejam absorvidos nos demais. A Bíblia deles fica cada vez mais fina em diversidade de
conteúdo e cada vez mais redundante, repetitiva e empobrecida.
Assim, quando lemos que Deus “da cova redime a tua vida”, não basta falarmos sobre como
Deus irá nos ressuscitar no último dia, ou como Deus nos salva da sua ira ao nos dar a vida eterna
em Cristo. A Bíblia ensina tudo isso, mas você não pode fazer com que todos os textos digam
sempre a mesma coisa. Vamos sempre expandir nossa apreensão de todas as dimensões do
amor de Deus, em vez de ficarmos sempre reduzidos às duas ou três coisas que a elite
eclesiástica repete como um disco arranhado.
A vida do homem após a queda é cercada de perigos o tempo todo. Quando ele está no útero,
ele pode morrer por aborto espontâneo... ou aborto homicida. Quando ele nasce, ele pode se
contaminar facilmente com qualquer sujeira. Ele pode morrer até por motivos triviais, como a
congestão nasal ou uma posição sufocante no berço. Ele é extremamente frágil. Com o passar
dos anos, ele ganha mais resiliência, porém os perigos são infindáveis. Existem bactérias, vírus
e outros micro-organismos que causam doenças. Há variações de temperatura no ambiente e
em objetos em contato com a pele, as quais podem matar de calor, queimaduras ou hipotermia.
6
O segundo livro do volume Introdução ao Cristianismo Sobrenatural.
Há acidentes domésticos envolvendo eletricidade, incêndios, escorregões e quedas. Há
acidentes no trânsito também. Há violência, bandidos, sequestradores, assaltantes, parentes
próximos que podem cometer abusos; há colegas de escola ou até professores que podem
agredir e matar. Há substâncias letais, como venenos, drogas, remédios mal administrados e até
excessos na ingestão de substâncias em princípio inofensivas. Há animais perigosos agressivos
ou peçonhentos, como escorpiões, aranhas, cobras, lobos, onças, touros, tubarões e cachorros
estranhos, bem como aqueles que são vetores de doenças, como o mosquito. Há buracos no
meio da rua. Alguém em um prédio pode jogar algo na sua cabeça, ou você pode cair em um
poço. Há catástrofes maiores, como enchentes, tsunamis, ciclones, terremotos, avalanches,
erupções vulcânicas, deslizamentos.
O homem está sob constante ameaça, portanto, em tudo o que fazemos, temos a noção de que
a segurança vem em primeiro lugar. Para certos riscos coletivos ou de procedimentos padrão, o
homem desenvolve protocolos de segurança a serem cumpridos à risca. Alimentos que
ingerimos, estradas que pavimentamos, excursões exóticas a que atendemos, meios de
transporte com que nos locomovemos, casas que edificamos – tudo passa pelo crivo da
segurança. É natural, portanto, que a maioria das pessoas fique paranoica, com ansiedades,
medos e preocupações constantes. E é também natural que a expressão mais magnânima do
poder do homem, o Estado, apareça com pretensões messiânicas para garantir a segurança de
todos. Mas o poder de garantir a segurança requer um poder de controle total. Afinal, o que
pode ser mais poderoso do que a própria morte, senão Deus? Alguém que pretende conter a
morte precisa ser alguém que reclame um poder divino. Subjugar a morte requer poder
absoluto.
Por essa razão, diz-se que segurança e liberdade são benefícios opostos entre si, quando
relacionados ao Estado. Um Estado provê segurança na mesma medida em que tira a liberdade.
É a consequência inevitável da pretensão ao poder absoluto mencionado acima. Se você quer
liberdade civil, você precisa perder em garantia de segurança. É o labirinto de rato em que Deus
colocou aqueles que esperam no homem. Mas, e quanto àqueles que esperam em Deus? E se
Deus fizer uma aliança com o homem na qual ele provê segurança total e um grau invejável de
liberdade? Se há alguém que pode resolver essa equação, é ele.
A Bíblia apresenta um Deus protetor. Os teólogos têm se envergonhado desse aspecto de Deus,
como de tantos outros. Quando eles falam sobre o Deus protetor, eles brincam com a semântica
e dizem coisas como “Deus não irá protegê-lo de dificuldades, mas irá protegê-lo em meio às
dificuldades”. Geralmente, eles usam a expressão “em meio a” como sinônimo de “a coisa que
a Bíblia diz que Deus não deixa acontecer vai acontecer sim, porque eu é que estou certo”.
Bobagem. A Bíblia diz que Deus nos protege sim de dificuldades. Muitas ele não deixa nem
acontecer, e outras ele deixa acontecer para depois destruir. Proteção e resgate não são
expressões figuradas.
Ninguém diz que os cristãos não enfrentam dificuldades, algumas delas bem graves. Somente a
seita da “ciência cristã”, aquela seita bem estranha da qual Lisa Presley fazia parte, afirma que
todas as dores do mundo, inclusive a morte, são apenas ilusões da nossa mente. Ora, o versículo
afirma que Deus resgata da cova a nossa vida, logo, para isso acontecer, tem de haver alguma
cova nos ameaçando. Ninguém nega isso. Nenhum neopentecostal, por mais doido que seja,
afirma o contrário. O que a Bíblia ensina é que os perigos existem, as ameaças existem, e a morte
pode chegar bem perto de nós, mas Deus muda as circunstâncias, vence o problema e nos dá o
livramento. Ele não vem apenas fazer um carinho no nosso coração sem atender aos nossos
anseios mais sinceros por resgate.
Deus é o nosso protetor e resgatador, não apenas do inferno, não apenas da escravidão ao
pecado, não apenas do desespero extremo, mas também de tudo o que atenta contra a nossa
vida e integridade físicas. A Bíblia apresenta Deus assim o tempo todo. Como mencionado no
Salmo 30 acima, Deus resgata a nossa vida da morte quando estamos doentes. Não existem
doenças terminais para Deus. Ele destrói cânceres. Ele estanca a hemorragia. Ele energiza o
miocárdio e o faz pulsar de novo. Ele abaixa a nossa febre. Ele transforma vírus e bactérias em
poeira. Deus nos tira da morte com o seu poder de cura e vida.
Deus nos livra da violência e de bandidos. Como diz o Salmo 91, “Ele te livrará do laço do
passarinheiro”, “Não te assustarás do terror noturno, nem da seta que voa de dia”. Se você mora
em um bairro perigoso, não tenha medo, pois Deus irá proteger você. Ele fará você imune à
violência. Nenhum assaltante entrará na sua casa. Se alguém disparar uma arma, a bala não o
atingirá: “Caiam mil ao teu lado, dez mil à tua direita, mas tu não serás atingido”. Deus irá
literalmente e fisicamente tornar você invulnerável. Ele fará da sua casa uma fortaleza
inexpugnável. Sua família estará protegida. Sua esposa não será estuprada. Seus filhos não serão
sequestrados. Você não precisa de uma polícia mais eficiente. Você não precisa de mais direito
às armas.
Calma! Antes que alguém reclame, deixe-me esclarecer que, do ponto de vista da moralidade
civil bíblica, o Estado tem sim o dever de usar a espada para castigar criminosos (Rm 13), e os
cristãos têm sim direito a ter armas e a usá-las em legítima defesa (Ex 22.2). Leis humanas que
debilitam esses direitos e deveres são leis pecaminosas, e Deus irá julgar. O meu ponto é que,
mesmo se você tivesse acesso a todas essas coisas na medida em que você quisesse, elas ainda
seriam ineficientes por si mesmas. Somente Deus garante que os meios legítimos de proteção
funcionem: “Se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela” (Sl 127.1). Além disso,
Deus garante essa proteção mesmo sem esses meios. Davi não achou que seria “imprudente” e
“tentar a Deus” recusar a armadura e a espada contra Golias. Ele foi somente “em nome do
Senhor” (1Sm 17.45). Esdras não achou que seria um atentado contra a “graça comum”
empreender a sua viagem sem a proteção do rei, antes confiou em Deus, e Deus o protegeu da
violência sem qualquer instrumento humano (Ed 8.21-23). Portanto, a nossa fé tem de estar em
Deus, e somente em Deus.
Você se acha indefeso em meio a um local cheio de criminosos, ou mesmo em meio à própria
guerra? Lembre-se de que Eliseu disse que aqueles que estão conosco são mais numerosos (2Rs
6.16). Se você pudesse enxergar – e você pode pedir para Deus lhe mostrar, se quiser – a
quantidade de anjos guerreiros que Deus colocou ao seu redor para impedir qualquer
calamidade, certamente seria mais parecido com aquele homem bem-aventurado que “não se
atemoriza de más notícias” (Sl 112). Mas você não precisa ver para crer. Os exércitos do Senhor
estão ao seu redor, vigiando as portas e janelas da sua casa e do seu carro. O MST não vai tomar
a sua fazenda, pois há uma guarnição celestial inteira nas fronteiras. O homem estranho
seguindo você na rua escura não fará nada, porque há dez seguranças resplandecentes
caminhando com você. Os dois homens na moto não o tocarão, porque há um anjo sniper no
topo de um prédio com a mira firme. Os seus olhos veem que o muro da sua casa não é grande
coisa, mas eles não veem os trinta anjos ninjas de sentinela em cada entrada. Você está em uma
aliança de proteção e resgate.
Deus também nos protege de intoxicação por bichos peçonhentos ou ingestões venenosas.
Jesus prometeu que todo aquele que crer nele manifestará estes sinais: se beber algo mortífero,
não sofrerá nenhum mal, e ainda poderá pegar em serpentes (Mc 16.17-18). Ele disse que nos
deu autoridade para pisarmos em cobras e escorpiões e que nada nos faria mal algum (Lc 10.19).
Claro, ele estava se referindo a demônios, mas por acaso é mais fácil pisar em demônios do que
em cobras e escorpiões literais? Quando uma serpente mordeu Paulo, ele a lançou fora e nada
aconteceu. Pelo menos duas vezes na Bíblia, Deus tornou potável uma água imprópria para
consumo (Ex 15.25; 2Rs 2.21). Logo, Deus nos imuniza contra venenos e peçonhas. Isso não
significa que um crente deva se expor a essas coisas voluntariamente, como que para testar
Deus. Significa que, caso aconteça, não haverá nenhum dano. Você não precisa ter medo de
morrer envenenado ou picado por escorpiões ou aranhas. Você não precisa ter medo de que os
seus filhos morram por beber produtos de limpeza ou pela picada de insetos (mas eu
questionaria como você pode ser tão estúpido em deixar algo perigoso ao alcance deles). Deus
protege de todas as coisas.
Deus também nos protege de ameaças que atingem simultaneamente muitas pessoas. O Salmo
91.7 diz que, mesmo se caírem milhares de pessoas por todos os seus lados, você mesmo não
será atingido. Isso se aplica a catástrofes naturais, a epidemias e a armas de destruição em
massa, como bombas atômicas. Logo, se há uma enchente ou um deslizamento e você invocar
a proteção de Deus com base nesse salmo, tenha a certeza de que a sua casa ficará ilesa, mesmo
se todo o resto da vizinhança for arrastado. Quando uma nova pandemia atingir o mundo, não
importa se todo mundo que você conhece, inclusive cristãos e pastores, forem contaminados:
creia que você permanecerá imune, e assim será. Você será protegido contra furacões,
tsunamis, nevascas. Nem se uma nova explosão como a de Chernobyl acontecer ao seu lado
você será afetado. Caia de um prédio, e chegue inteiro ao chão. A Bíblia promete isso. Seja qual
for o perigo que leve você à cova, Deus resgatará a sua vida de lá.
E, ainda que você morra, o fato é que Deus opera a ressurreição para cumprir a sua palavra.
Diversas pessoas na Bíblia morreram jovens e por causas violentas, mas foram ressuscitadas pela
oração da fé. Jesus deixou Lázaro morrer da enfermidade apenas para poder ressuscitá-lo e
manifestar a glória de Deus ao povo enlutado. Deus está tão comprometido com a sua aliança
que ele fará a morte voltar no tempo, e enviar almas do paraíso de volta aos corpos. Se eu fosse
você, escolheria amigos que estivessem prontos e cheios de fé para ressuscitar você, caso algo
lhe aconteça.
Viva em paz. Dê um fim à paranoia. Pare de assistir a noticiários. Quando eu era criança, eu
nunca entendia por que meus pais sempre me mandavam tirar do canal do desenho e colocar
no canal do jornal. Eu dizia, “Qual é o ponto de ficar assistindo jornal? Só para saber que alguém
roubou e alguém matou?”. Mesmo hoje, com a mídia caindo em descrédito, há inúmeras
pessoas viciadas em notícias, como dependentes químicos do sentimento de adrenalina e
perplexidade que a leitura de notícias trágicas fornece. Isso é doentio. Isso corrói a fé. Pare de
nutrir esse pânico. Deus é aquele que resgata você da morte! Tudo o mais pode falhar, mas Deus
não falha. A polícia e o corpo de bombeiros podem não chegar a tempo, os pneus podem patinar
no asfalto, os homens armados podem cercar você, mas nunca tema a tragédia. Você viverá.
Não há herói de quadrinhos que se compare ao nosso Deus.
Vida Abundante
...e te coroa de graça e misericórdia...
Esse benefício é bastante amplo e suas aplicações são incontáveis. “Graça” e “misericórdia” são
termos que precisam ser bem compreendidos biblicamente, do contrário parecerão apenas
abstratos e inspirativos.
É importante registrar que a definição desses termos não é tão estrita. A Almeida Século XXI diz
“amor e misericórdia”. A ARC diz “benignidade e misericórdia”. A NVI traduz como “bondade e
compaixão”. A NTLH registra “amor e bondade”. Eu não tenho os recursos acadêmicos
necessários para empreender uma pesquisa no hebraico, mas decerto a mensagem dessas
expressões não é de difícil interpretação. “Graça e misericórdia” significam a intensa
benevolência de Deus por nós, o seu favor manifestado na nossa vida, sua vontade de nos fazer
bem. Significam que Deus faz muito mais por nós do que merecemos, que Deus nos trata com
carinho e paciência, e que ele nos abençoa de todas as formas, concedendo uma vida
abundante, cheia de felicidade e propósito, com sucesso em tudo o que fazemos.
Como já argumentamos, as bênçãos de Deus são prometidas para todas as áreas da vida. É fútil
retratar Deus como alguém que “não prometeu” várias coisas, ou que “não deve nada a
ninguém”. Deus nos cobre de graça e misericórdia em tudo o que fazemos, em cada recanto da
nossa vida. Como o Salmo 1 diz, “tudo quanto fizer prosperará”. E o fato de ser graça e
misericórdia não significa que é imprevisível ou que pode ser revogado a qualquer momento. É
uma promessa de Deus, e ele é fiel para cumprir. Podemos sempre contar com a bondade de
Deus por nós.
Veja, por exemplo, o Salmo 136. Ele repete “porque o seu amor [ou sua misericórdia] dura para
sempre” em todos os versículos, os quais mencionam coisas que Deus fez por Israel, como matar
reis inimigos, libertá-los do Egito, criar o mundo, operar milagres e dar comida. Nenhuma dessas
coisas foi feita no coração dos israelitas, e sim no seu ambiente. São alterações específicas e
tangíveis no nosso bem-estar. A mesma ideia se repete em outros salmos, como o 107 e o 118.
A misericórdia de Deus é louvada pelas suas manifestações históricas e físicas em favor do povo
de Deus.
Tanto a lei de Deus como a história bíblica nos mostram o quanto Deus está disposto a fazer
pelo seu povo. A Bíblia inteira descreve Deus como aquele que livra da opressão, que enche a
barriga dos famintos, que reveste de força os fracos, que concede vitórias militares, que dá
riquezas materiais, que ensina uma sabedoria que ultrapassa o humanamente possível, que
concede fama e boa reputação, que entrega um casamento feliz e fértil, que garante saúde e
vigor, com tantas outras bênçãos. Isso é graça e misericórdia. Você pode descrevê-las e
exemplificá-las com fatos da sua história. Não há nada de nebuloso ou etéreo nesses termos.
Em segundo lugar, esses atos concretos vão além daquilo que se chama de “providência
ordinária” e frequentemente envolvem milagres. A Bíblia apresenta de modo inequívoco um
Deus de milagres. Ele faz milagres do início ao fim da Bíblia. É assim que Deus é e, se você não o
conhece assim, então você não o conhece de forma alguma.
Vou falar mais sobre milagres no versículo 7. Aqui, quero salientar que “graça e misericórdia” se
manifestam em milagres por nós. Um dos textos mais famosos e mais ridiculamente distorcidos
é o “a minha graça te basta” pronunciada por Deus para Paulo. O modo como os cristãos
interpretam esse versículo demonstra que estima eles têm pela graça de Deus. O que é graça
aqui? São cuidados paliativos? Um conforto psicológico? Ou algo grandioso, milagroso e
portentoso que fazia parte da experiência de Paulo enquanto suportava o seu espinho na carne?
A verdade é que o espinho na carne e a “fraqueza” de Paulo eram as perseguições que ele sofria
pelo evangelho, tudo aquilo que ele relatou no capítulo 11 de 2Coríntios. Não tinha nada a ver
com uma doença. Aqueles que interpretam como doença estão enviesados pela sua
determinação em tirar a garantia dos milagres de cura que é abundante e inescapável na
Escritura. Nada no texto sugere que o problema era uma doença, porém o contexto imediato
do capítulo 11 e o contexto maior de toda a Escritura que descreve os ímpios como “espinhos”
não deixam a questão em aberto. Logo, a “graça” de Deus esteve não em remover a perseguição,
e sim em prover força para Paulo suportá-la. E essa força não era apenas “força de vontade” ou
“força na alma”, mas era uma força de milagres e prodígios, pois conferiam a Paulo um poder
de cura e integridade física totalmente fora da curva. Nenhum homem teria sobrevivido a um
décimo do que ele sofreu se não houvesse uma energia e uma imunidade milagrosas de Deus
mantendo-o fisicamente e mentalmente apto para uma quantidade monstruosa de trabalho
como a de Paulo.7
A felicidade começa no perdão dos pecados. Nada oprime mais o ser humano do que a culpa e
o medo do julgamento. O perdão é a sentença de libertação e o princípio da glorificação do
homem. Como vimos acima, uma pessoa perdoada por Deus é muito mais do que apenas um
inocente, mas ela é alçada à posição de realeza. Ela está regendo a criação ao lado de Jesus.
7
Mais sobre esse trecho em Introdução ao Cristianismo Sobrenatural.
Mas essa fonte de felicidade jorra mais e mais a cada dia conforme apreendemos e
experimentamos a largura, a altura e a profundidade do amor de Deus. Ela nos dá alegria, paz e
segurança além de qualquer medida. Confira, por exemplo, as palavras de Jesus:
Deixo-vos a minha paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o
vosso coração, nem se atemorize (Jo 14.27).
Tenho-vos dito estas coisas para que o meu gozo esteja em vós, e o vosso gozo seja completo (Jo
15.11).
Assim também agora vós tendes tristeza; mas outra vez vos verei; o vosso coração se alegrará, e
a vossa alegria ninguém poderá tirar... Até agora nada tendes pedido em meu nome; pedi e
recebereis, para que a vossa alegria seja completa (Jo 16.22, 24).
Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas
tende bom ânimo; eu venci o mundo (Jo 16.33).
É por essa razão que insisto que cristãos não devem consultar psicólogos. Psicólogos partem de
premissas antibíblicas e chegam a conclusões ou pecaminosas ou apenas ineficazes. Há muitos
cristãos que, em lugar de reconhecer a superioridade inigualável da sabedoria de Deus à
pretensa sabedoria dos homens, tratam a psicologia como se fosse um método mais sofisticado
para resolver problemas mais difíceis, relegando a Bíblia a um nível for dummies. Contudo, o
Salmo 1 diz que o homem bem-aventurado não anda no conselho dos ímpios. Logo, ir ao
psicólogo é contraproducente – é um empreendimento que remove você da mesma promessa
de bem-aventurança que você tenta conquistar. “Mas e se o psicólogo for cristão?”, você diz. Eu
nego que um verdadeiro cristão possa ser um psicólogo, pois a profissão dele exige que ele traia
premissas bíblicas. Ele será ou um mau cristão ou um mau psicólogo. Assim, ou ele irá trair a sua
fé e fazer um papel de ímpio, ou ele irá transgredir o código de ética da sua profissão e falar a
partir da Bíblia, em cujo caso você não precisa dele como psicólogo em primeiro lugar.
E quem se lembra do diabo? Depressão pode ser opressão espiritual, uma ação dos demônios.
A Bíblia relata muitos casos de doenças causadas por possessão demoníaca ou por um poder
opressivo dos demônios. A mulher de Lucas 13 tinha um demônio que mantinha a sua coluna
torta. Ela não estava possessa, não estava sendo mentalmente controlada, mas o corpo dela
tinha um demônio operando um defeito físico. Os cristãos erram frequentemente quando
supõem que, se uma condição pode ser explicada pela ciência médica, ou se ela apresentar
alterações físicas ou fisiológicas, logo não há poderes espirituais envolvidos. Ao contrário, o
poder dos demônios altera o mundo físico, e eles constantemente oprimem as pessoas com
doenças que parecem “naturais”.
Assim, se vamos apresentar “graça e misericórdia” para um indivíduo com depressão ou com
qualquer outra perturbação emocional grave, devemos usar todas as armas de que dispomos
para aniquilar o problema. Um conselheiro verdadeiramente bíblico irá crer e aplicar o poder de
Deus. Novamente, graça e misericórdia não são termos inspirativos, e sim descrições do poder
bruto de Deus em ação. Então, o conselheiro irá repreender Satanás, expulsar demônios,
confrontar o pecado, orar, impor as mãos para ministrar a cura, ensinar a doutrina, e colocar
tudo debaixo da jurisdição de Deus. Isso é aconselhamento bíblico. Qualquer coisa menor que
isso é liberalismo teológico com algum grau de disfarce.
Quando Jesus promete dar a sua paz e a sua alegria, ele está falando de algo que o mundo não
consegue simular. O cristão, portanto, precisa possuir essas qualidades mentais em um nível
muito maior do que qualquer descrente. Há tantos cristãos que parecem nunca ter sido
invadidos pela percepção da bondade de Deus e vivem com murmurações, mau humor,
impaciência, angústia, medo, paranoia. Agora, a expansividade ou a introversão são marcas de
personalidade e podem variar sem que haja pecado. Mas há certas posturas que não podem ser
descartadas como se pertencessem a um “temperamento”. A raiva frequente, o descontrole nas
palavras, o pessimismo, uma atitude de “não gosto de nada e tudo está ruim”, tudo isso é
pecado e é incompatível com o entendimento da graça e da misericórdia de Deus. Os cristãos
precisam exibir uma transformação psicológica para melhor, e um melhor notável. Se você
conhece um cristão cuja mera presença impõe um embaraço à alegria, cuja sisudez ou amargura
envenena o ambiente, saiba que isso não é normal e não é tolerável. E se você é assim, você
precisa se arrepender e reaprender o básico do evangelho.
Neste capítulo, estou retratando como é uma vida coroada de graça e misericórdia. Deus não
dá a sua bondade apenas como um detalhe na sua vida, como uma qualidade inconspícua ou
restrita a alguns compartimentos da existência. Não, ele concede sua graça de tal modo a
permear toda a nossa vida e a se fazer notar pelos demais. Uma coroa é feita para ser evidente,
um emblema ostensivo de quem é o seu portador e que o distingue sobremaneira dos demais.
Do mesmo modo, um cristão realmente coroado de graça e misericórdia exibe esse símbolo de
tal modo que ninguém pode ignorar. A vida psicológica dele é jubilosa, esperançosa e cheia de
paz. A vida moral dele é santa, dominada pelo amor por Deus e pelo próximo. Seu corpo é
vigoroso, saudável e capaz. Sua vida familiar é cheia de carinho e de disposição para o
autossacrifício. E isso continua a transbordar, fluindo de si mesmo para as pessoas mais
próximas e para todo o seu ambiente. Sua vida financeira é abençoada com grandes riquezas.
Sua reputação é louvada pelos outros – exceto, é claro, pelos inimigos de Cristo. Seu impacto no
reino de Deus é significativo, e ele atrai pessoas para Jesus. Tudo está bem. Quem é coroado de
graça e misericórdia nunca precisará de remédios psiquiátricos nem de terapia.
Um dos mais famosos pregadores do Brasil insiste que o verdadeiro teste de santidade está nas
dificuldades da vida. Ele afirma que o “difícil” mesmo é continuar sendo cristão “quando tudo
está dando errado”. Agora, é fato que o cristão enfrenta tribulações e dificuldades, como já
vimos anteriormente, e ele deve permanecer fiel mesmo nas circunstâncias mais adversas. No
entanto, por que ele deveria pensar que tudo vai dar errado? A Bíblia diz o oposto: que Deus
livra o justo de todas as suas aflições. Ele tem aflições, mas elas são resolvidas pela bênção de
Deus. Mesmo quando algo dá errado, Deus é misericordioso e endireita as circunstâncias. Fato
é que uma parcela enorme das aflições pelas quais o crente passa é resultado de suas próprias
escolhas carnais. A graça e a misericórdia de Deus irão conferir sabedoria, arrependimento e
maturidade, e então as coisas irão melhorar. Quem, por outro lado, espera uma vida lotada de
tribulações como se estas fossem bênçãos, como se não houvesse promessa certa de livramento
e vitória para todas elas, certamente não será coroado de graça e misericórdia. Sua soberba pela
sua indiferença estoica e a adulação dos seus acólitos serão o seu único galardão.
Vida longa e próspera
...quem farta de bens a tua velhice, de sorte que a tua mocidade se renova como a da águia.
A expressão “fartar de bens” claramente se refere à prosperidade material. Não cabe aqui
nenhuma tentativa de alegorização ou abstração. Quase sempre, os cristãos observam
promessas de Deus de bênçãos materiais ou de promessas prazenteiras e começam a se
perguntar, “Mas o que é realmente bom? O que é o bem? O que é bênção? E se eu pensar que
algo é bom para mim, mas Deus não me der porque ele sabe que não é bom?”. Dessa forma,
eles anulam toda a revelação de Deus sobre o que ele considera bom e lançam a questão para
os mistérios, como se Deus nunca houvesse contado nada sobre o que ele pensa. Então, a Bíblia
diz que a doença é um mal e que a cura é uma bênção, mas os cristãos resolvem achar que uma
doença específica pode ser algo “bom” vindo de Deus para eles. Ou então, a Bíblia retrata o
casamento como algo bom, mas os cristãos “encalhados” tergiversam, “Embora eu queira muito
me casar, talvez Deus saiba que o casamento não é bom para mim. Devo apenas confiar nos
seus propósitos e saber que ele sempre me dá o que é bom, mesmo que eu não consiga
entender”.
Porém, quando Jesus afirmou que Deus não é um pai que dá pedra quando o filho pede pão, e
que Deus sabe dar “coisas boas” aos seus filhos muito melhor do que nós, que somos pais maus,
ele estava falando de coisas realmente boas, coisas que parecem boas a qualquer pessoa
normal. E, mesmo se houver dúvida sobre o que Deus considera bom, basta ler a Bíblia. Se algo
é bom na Bíblia, então é bom para você e para a sua história. Deus não tem um sistema de
valores na Bíblia e outro na sua providência. Se a Bíblia diz que a cura das enfermidades é boa,
que o casamento é bom, que a fertilidade é boa, então você não pode pensar que Deus mudou
de opinião quando escreveu a história da sua vida. A chave para você conseguir as coisas boas
de Deus começa com a admissão de que Deus realmente falou sério quando definiu certas coisas
como boas e outras como más. E então, você avalia a sua vida por esse parâmetro e confessa,
“Eu tenho experimentado muitas coisas boas de Deus, mas ainda faltam algumas. Vou então
clamar para que Deus atenda à minha petição, sabendo que ele de fato atenderá, porque o meu
desejo corresponde exatamente ao que ele disse que aprova, e a sua palavra não mente”.
Logo, quando o salmo diz “fartar de bens”, você não precisa se perguntar o que é um “bem” e
se coisas que você acha boas talvez sejam ruins. É bastante claro que o salmo está falando de
provisões materiais, como dinheiro, casa, roupas, comida e bebida. Muitos salmos dizem a
mesma coisa, e a mesma promessa aparece abundante por toda a Escritura, desde a bênção de
Abraão, passando pela descrição dessa mesma bênção na lei de Moisés, nos provérbios, nos
evangelhos e nas epístolas.8
Se há algo que os teólogos odeiam mais do que a doutrina da cura e dos milagres, é a doutrina
da prosperidade. “Prosperidade” soa como um palavrão para eles, a menos que você insira mil
qualificações dissolventes. A verdade é que a Bíblia ensina sim uma teologia da prosperidade,
assim como ensina uma teologia da Trindade, uma teologia da aliança, uma teologia dos últimos
tempos ou escatologia, e assim por diante. A Bíblia ensina que a prosperidade material ou
financeira faz parte das bênçãos com que Deus agraciou Abraão e a sua descendência por meio
8
Confira meu livro Introdução ao Cristianismo Sobrenatural, na seção sobre Prosperidade.
de uma aliança. A lei de Moisés e os provérbios preveem riquezas materiais e fartura para
aqueles que permanecem fiéis e sábios aos olhos de Deus. A Bíblia também ensina que a pobreza
e o insucesso são maldições da lei. Dado que Cristo tomou sobre si a maldição da lei para que a
bênção de Abraão chegasse aos gentios (Gl 3.13-14), é inescapável que a prosperidade material
faça parte do evangelho, assim como a cura das doenças, o perdão dos pecados e a ressurreição
no último dia.
Os pregadores dizem “Jesus não morreu para deixar você rico!”. Mas Paulo diz em 2Coríntios
8.8-9 que Jesus fez precisamente isso. Ele era rico e se fez pobre, para que, por meio da pobreza
deles, sejamos ricos. No contexto, ele estava falando de riqueza material, do dinheiro que os
coríntios deveriam levantar para socorrer os seus irmãos em Jerusalém. Portanto, é
perfeitamente correto e até necessário declarar que Jesus morreu na cruz para tirar a nossa
pobreza e nos dar da sua riqueza. Na expiação, a nossa pobreza, que merecemos por sermos
pecadores, tornou-se dele; do mesmo modo, a riqueza à qual ele estava intitulado por ser o
único homem justo da história foi creditada a nós. Temos livre acesso às promessas de bênçãos
materiais porque Jesus conquistou esse direito para nós. Isso é expiação. Isso é aliança.
Talvez você diga, “Mas Paulo estava falando de um dinheiro que seria usado para o socorro dos
pobres. Ele não está falando de viver no luxo, em mansões e Ferraris”. Certo, mas você está se
apressando. Não estou discutindo aqui o propósito de Deus ao nos enriquecer. Estou
estabelecendo o fato de que ele prometeu nos enriquecer. Se temos de ser generosos e socorrer
os pobres, ou sustentar missões, primeiro precisamos de dinheiro para isso, e foi isso que Deus
nos prometeu. Se você já começa negando que a prosperidade financeira é uma promessa do
evangelho, com que dinheiro você vai fazer obras de caridade? Com o dinheiro do rei de Sodoma
(cf. Gn 14.21-24)? Com o dinheiro do diabo (Lc 4.6)? Com o dinheiro da sua própria força (Dt
8.17)? Não, tem de ser com o dinheiro de Deus, e esse dinheiro é certo como uma promessa.
Mas Deus prometeu dinheiro não só para caridade e missões, mas também para o nosso
aprazimento, como está escrito em 1Timóteo 6.17. Salomão diz que Deus se alegra quando
aproveitamos o fruto do nosso trabalho com comida, bebida, roupas bonitas, vinho e o amor no
lar (Ec 9.7). Veja que coisa maravilhosa! Quando você compra coisas que alegram a sua família,
Deus está se alegrando junto. Aliás, ele até mesmo instituiu um dízimo que a família paga para
si mesma com o propósito de se alegrar diante de Deus, comprando o que quiser e
banqueteando à vontade (Dt 14.26). Considere também como Deus abençoou Jó com
prosperidade muito além do “necessário”, e que isso é declarado por Tiago como um exemplo
para nos motivar (Tg 5.11). Quando Natã repreendeu Davi por ter se apropriado do que não era
seu, ele deixou claro que, se o rei quisesse, Deus lhe teria dado muito mais do que já tinha (2Sm
12.8). Portanto, é evidente que a promessa de Deus não é apenas para a “provisão” do
estritamente necessário para sobreviver9. É para prazer, conforto e sobras. Aquele teólogo
brasileiro que disse que “Deus prometeu o pão de cada dia, não a manteiga” é um falso mestre
e merece ser expulso do púlpito a pontapés.
9
Ver The Absurd Idea of Need, de Vincent Cheung. Disponível em www.vincentcheung.com.
precisa pegar ônibus e caminhar, expondo-se a riscos (já que as promessas divinas de proteção
também não valem!), desconfortos, assaltos e ambientes insalubres. Talvez eles tenham se
esquecido de que existem senhoras que precisam pegar ônibus para fazer supermercado e que
voltam para casa em pé carregando um bocado de sacolas. Para essas pessoas, um carro não é
uma ostentação ou uma vaidade. E se eles pensam que vir a Deus para ganhar um carro é tão
indigno, por que eles não doam o deles? Por que não doam esse item emblemático de toda
luxúria para os pobres? Assim estes não precisam mais “incomodar o Mestre” (cf. Mc 5.35) com
sua mesquinhez. Mas eles não fazem isso. Eles retêm o carro deles para si e impedem que os
outros tenham esperança em Deus para alcançar o mesmo status. São exploradores, uma raça
de víboras.
Sim, nós temos de vir a Cristo para ganharmos um carro. Qual é o problema? Se eu quero alguma
coisa na vida, não é justamente para Deus que eu tenho de pedir? Não é exatamente nisso que
eu reconheço a soberania de Deus sobre todas as coisas e minha inteira dependência dele? De
onde eu vou tirar um carro, senão de Deus? E como eu posso saber que isso é certo e dado,
senão pela palavra fiel do mesmo Deus, que diz que nos “farta de todo bem”? O Senhor é o Deus
dos carros! Assim como é o Deus da casa própria, dos terrenos e das fazendas. Ele é o Deus que
abençoa o justo de modo que ele deixa herança até para os seus netos (Pv 13.22). Se você quer
atacar o materialismo, a avareza ou a cobiça, então use os versículos bíblicos que falam sobre
isso. Pregue que a nossa maior necessidade é o perdão dos pecados, que é o primeiro benefício
deste salmo. Então, continue e pregue o restante dos benefícios de Deus. Pare de usar textos
que bendizem a Deus pelos seus benefícios para atacar esses mesmos benefícios!
Agora, o benefício da prosperidade financeira é um pouco mais complexo do que outros, porque
há muitos níveis e timings em que ele pode se realizar. Provavelmente, é por isso que o salmo
está associando o “fartar-se de todo bem” a uma idade avançada. Há cristãos que começam
prósperos desde jovens, mas, para muitos, a prosperidade é uma conquista paulatina. E eles
podem sofrer oscilações bruscas, como foi o caso de Jó. Veja também a história de José. Ele era
próspero quando jovem, pois morava com a sua família em uma boa condição. E ele era o único
filho íntegro de Jacó. Depois, ele foi traficado como escravo, sofreu calúnias e foi lançado na
prisão. Em tudo isso, ele permaneceu fiel a Deus e trabalhando com retidão. Deus lhe deu
sucesso e boa reputação mesmo sob essa vida sofrida. Enfim, ele foi alçado à posição de
governante do Egito, o homem mais poderoso e próspero do mundo, exceto pelo faraó. Com
essa prosperidade, ele abençoou todas as terras e pôde se reconciliar com seus irmãos.
Seria incorreto, portanto, julgar um cristão pela sua pobreza ou por sua riqueza imediata.
Cristãos fiéis e sábios podem passar por uma pobreza temporária, assim como ímpios podem
desfrutar de riquezas por algum tempo. O Salmo 73 mostra esse último caso. Ainda assim, existe
uma correlação que se verifica em longo prazo entre a fé e a prosperidade, do contrário as
promessas de Deus estariam desconectadas da realidade. Se um cristão crê na palavra de Deus
sobre prosperidade, deseja isso para si e obedece aos termos da lei de Deus, então, ainda que
demore, ele irá receber essa condição próspera. Ademais, há cristãos que se contentam com
uma vida simples e que não recebem mais dinheiro simplesmente porque não querem. Não há
nada de errado com isso. Errado é distorcer a palavra de Deus e fazer da própria riqueza ou falta
de riqueza o parâmetro para a cristandade inteira. Errado é forçar um cristão a rejeitar a
associação que a Bíblia faz entre o favor de Deus e o dinheiro para o seu povo.
Talvez você pense que eu retratei mal os pregadores antiprosperidade. Afinal, eles reconhecem
que tudo o que eles têm veio da mão de Deus, e eles agradecem a Deus pela sua casa, seus
carros e suas viagens. Qual é realmente o problema então? O problema é que eles arrancam
essas bênçãos da sua raiz, que é a expiação e a aliança. Eles pensam que essas coisas vêm da
“graça comum”, que são bênçãos que Deus pode dar ou não, e que dependem apenas de uma
vontade imprevisível de Deus. Agora, suponha que alguém faça a mesma coisa com o benefício
do perdão de pecados. Um pregador aparece dizendo, “Você não pode vir a Cristo para receber
o perdão dos pecados! Você vem a Jesus para ganhar Jesus, não para ganhar perdão e salvação!
Embora, é claro, Deus possa perdoar pecados se for da vontade dele, não é por isso que Jesus
morreu por você. Não pode ser essa a sua motivação em ser cristão”. Será que uma fé como
essa pode salvar? É fácil perceber o absurdo dessa ficção, mas o mesmo parâmetro precisa valer
para todos os benefícios de Deus. O pregador que presta algum reconhecimento às bênçãos
materiais de Deus, mas insiste que elas estão “soltas” no ar e que não são consequências
necessárias da obra de Cristo e do pacto de Deus, deforma o fundamento do evangelho. Em
princípio, ele renuncia à salvação.
Aliás, “salvação” não é apenas com relação ao pecado, mas também com relação aos efeitos do
pecado. É a maldição do pecado, que inclui doenças e pobreza, revertida pela bênção do
evangelho. De modo que um cristão verdadeiro precisa afirmar que cura e prosperidade são o
evangelho tanto quanto o perdão dos pecados e a santificação são o evangelho. Não existe meia
expiação. Ou você confessa a expiação inteira de Jesus, ou você renuncia Jesus inteiramente. Os
benefícios de Deus não estão disponíveis em um self-service! Você precisa crer na sã doutrina
por inteiro. Cura e prosperidade não são um bônus incerto, e sim resultados diretos e
necessários da expiação. Isso significa que todo pregador que condena o assim chamado
“evangelho da saúde e prosperidade” condena o único evangelho que existe, e assim
excomunga a si mesmo.10
Portanto, eu insto você a que nunca mais se deixe constranger por falsos mestres e a que, com
a mente desimpedida, receba todas as promessas de Deus. Sim, se você tiver fé em Jesus e
obedecer aos seus mandamentos, você sairá da pobreza. Como diz o Salmo 113, Deus tira o
pobre do lixão e o eleva à classe A. Você terá uma casa maior e melhor. Você terá um carro.
Você terá dinheiro na conta. Você terá comida farta e bebida à vontade. Você deixará herança
para os seus netos. Você ficará livre das dívidas. Isso é perfeitamente bíblico. Se você quiser ser
milionário, você será milionário. Apenas seja fiel à lei de Deus e confie nele para isso. Ele é um
Pai generoso. Obviamente, não faça das riquezas a sua esperança, mas faça de Deus o seu maior
amor, e ele livremente acrescentará o quanto você desejar. Não fique paranoico com a
assombração da “idolatria”. Se você obedecer à lei de Deus, se você renunciar ao pecado, sendo
também generoso e livre de avareza, você estará em condição de desejar o quanto quiser, e
Deus certamente atenderá. Seja paciente durante os tempos difíceis, mas nunca perca a
esperança. Salomão foi o homem mais sábio e mais rico do seu tempo. Ele disse que a sabedoria
é mais valiosa do que ouro e prata, mas ele também disse que, com a sabedoria, o ouro e a prata
vêm junto. Sem sabedoria, você não terá nada. Com sabedoria, você terá tudo.
Em primeiro lugar, esse benefício pressupõe a promessa de vida longa, pois um cristão que
morre jovem não tem a oportunidade de se sentir jovem quando for velho. Já consideramos
acima como as promessas de Deus nos protegem de toda morte prematura. Somos protegidos
10
Portanto, quando o Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil, em 2014, enquadrou a Igreja
Verbo da Vida como seita no mesmo patamar da Igreja Universal do Reino de Deus, e citou como motivo
o fato de eles pregarem o “evangelho da saúde e prosperidade”, a bala saiu pela culatra e eles
classificaram a si mesmos como seita.
de doenças, de violências, acidentes e quaisquer outras ameaças à vida. Então, estabelecemos
que um cristão que de fato crê na promessa de Deus viverá até a velhice, se não for martirizado.
Agora, a velhice do cristão tem qualidades muito diferentes daquelas da velhice do ímpio. O
salmo diz que a juventude do salmista se renovará como a águia. Essa expressão aparece
também em Isaías:
Faz forte ao cansado e multiplica as forças ao que não tem nenhum vigor. Os jovens se cansam e
se fatigam, e os moços de exaustos caem, mas os que esperam no Senhor renovam as suas forças,
sobem com asas como águias, correm e não se cansam, caminham e não se fatigam (Is 40.30-
31).
O cristão não está preso à lei natural do decaimento corporal. O cristão vive sob a lei de um
reino sobrenatural. Nesse reino, as qualidades típicas da juventude permanecem e podem até
se aprimorar em um corpo idoso. Nós observamos isso na Bíblia em diversos exemplos.
Comecemos pela qualidade do vigor. Moisés morreu com 120 anos, e o texto diz que ele não
havia perdido o vigor em nada. Calebe, aos 85 anos, disse que ainda era tão forte quanto era
aos 40, e decidiu ir expulsar no soco todo um exército, e conseguiu. (Hoje em dia, acontece o
contrário: as pessoas chegam aos 40 reclamando que se sentem com 85!) Dado que isso aparece
como benefício pactual de Deus, qualquer cristão pode alcançar essa força, se tiver fé para isso.
Além do vigor, outra qualidade típica dos jovens é a sua beleza. É fato que “a beleza é
passageira” (Pv 31.30), quando consideramos o curso natural da vida. Mas Sara, a nossa mãe na
fé, teve outra experiência. Seja sincero, você esteve todo esse tempo pensando que o faraó e o
rei Abimeleque desejaram sexualmente uma velhinha de noventa anos, não é? Parece absurdo,
mas você nunca imaginou outra explicação. Mas basta você deixar de lado os seus pressupostos
naturalistas para conseguir perceber o óbvio. Sara era bastante idosa, mas tinha a beleza de
uma moça. Sem rugas, sem pelancas. Como isso é possível? Este salmo nos dá a resposta.
Pessoas bem velhas podem ter a beleza dos jovens pelo poder de Deus11. Se as pessoas
descobrirem essa promessa e a levarem a sério, quantos impérios irão ruir? O que acontecerá
com essa indústria da moda, dos cosméticos e das cirurgias plásticas? É sempre assim, meu caro
leitor: tudo o que o mundo gasta bilhões de dólares para conseguir, com muitas falhas e
insatisfações no caminho, Deus dá de graça no evangelho de Jesus.
Se você acha isso estranho, considere que você está esse tempo todo professando a fé em
alguém que nasceu de uma virgem, que é a encarnação de Deus, e que reina no céu sobre todas
as coisas. Eu não sei como um cristão pode achar qualquer coisa irrealista demais, considerando
o grau de sobrenaturalismo que ele precisa professar como o básico do cristianismo. Vamos,
pare de ser um iluminista insincero. No mundo de Deus, não existem impossíveis. Como diz
Tiago, “Vocês não têm porque não pedem”.
Uma terceira qualidade dos jovens é a sua fertilidade. É fácil engravidar durante a juventude.
Por isso, pessoas que só começam a tentar engravidar após os trinta ou quarenta anos
enfrentam dificuldades. Algumas se tornam estéreis. A esterilidade é descrita na Bíblia como
uma maldição de Deus, uma punição contra a incredulidade e contra outros pecados. Mical ficou
estéril porque zombou do louvor um tanto “pentecostal” e não muito “conservador” de Davi.
(Isso explica a esterilidade de muitos pregadores, não é mesmo?). Zacarias e Isabel eram
irrepreensíveis diante de Deus e, com o tempo, foram agraciados com a fertilidade. A
11
Entretanto, a Bíblia diz que o cabelo branco é uma honra para os idosos. Então, não ore para Deus tingir
o seu cabelo. Alegre-se pelos cabelos prateados!
incredulidade custou a Zacarias a sua capacidade de falar, porque ninguém que duvida dos
milagres de Deus deveria ter a permissão para falar. Portanto, nunca acredite em um
conselheiro “bíblico” que diga que a esterilidade deve ser bem recebida como uma dádiva dos
mistérios de Deus.
Abraão era estéril, e a Bíblia atribui isso à sua velhice (Rm 4.19). Mesmo assim, ele pôde gerar
filhos, porque confiou na promessa e no poder de Deus. Portanto, um cristão pode gerar filhos
mesmo em idade desfavorável. Muito se fala sobre a idade mais fértil das mulheres, sobre o fato
de que os seus óvulos12 envelhecem, e que, conforme se aproxima a menopausa, a sua
capacidade fértil decai até o fim. Porém, para Deus, não existe idade limite para a fertilidade.
Mulheres que ficaram “encalhadas” e só se casaram tardiamente podem gerar filhos com saúde
e vigor nos seus quarenta anos, se colocarem sua confiança em Deus. Elas podem ter a
capacidade reprodutiva e a energia dos jovens com base neste salmo.
Por fim, podemos falar de uma quarta qualidade, que é a sua alegria e leveza. Salomão faz um
contraste grave em Eclesiastes:
Alegra-te, jovem, na tua juventude, e recreie-se o teu coração nos dias da tua mocidade; anda
pelos caminhos que satisfazem ao teu coração e agradam aos teus olhos; sabe, porém, que de
todas estas coisas Deus te pedirá contas. Afasta, pois, do teu coração o desgosto e remove da
tua carne a dor, porque a juventude e a primavera da vida são vaidade. Lembra-te do teu Criador
nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais dirás:
Não tenho neles prazer; antes que se escureçam o sol, a lua e as estrelas do esplendor da tua
vida, e tornem a vir as nuvens depois do aguaceiro; no dia em que tremerem os guardas da casa,
os teus braços, e se curvarem os homens outrora fortes, as tuas pernas, e cessarem os teus
moedores da boca, por já serem poucos, e se escurecerem os teus olhos nas janelas; e os teus
lábios, quais portas da rua, se fecharem; no dia em que não puderes falar em alta voz, te
levantares à voz das aves, e todas as harmonias, filhas da música, te diminuírem; como também
quando temeres o que é alto, e te espantares no caminho, e te embranqueceres, como floresce
a amendoeira, e o gafanhoto te for um peso, e te perecer o apetite; porque vais à casa eterna, e
os pranteadores andem rodeando pela praça; antes que se rompa o fio de prata, e se despedace
o copo de ouro, e se quebre o cântaro junto à fonte, e se desfaça a roda junto ao poço, e o pó
volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu (Ec 11.9-12.7).
O jovem tem uma energia e um brilho no olhar que o capacitam a desfrutar dos prazeres da
vida, a rir mais e a ser mais doce. O idoso, pelo definhamento do seu corpo, fica alheio a muitos
prazeres sensoriais e muito sensível a perturbações. O retrato que Salomão nos apresenta da
velhice é de fato lúgubre, e é o normal para a grande maioria das pessoas.
No entanto, não nos esqueçamos de que, pouco antes, ele também disse: “Ainda que o homem
viva muitos anos, regozije-se em todos eles; contudo, deve lembrar-se de que há dias de trevas,
porque serão muitos” (Ec 11.8). Esses “dias de trevas” são os mesmos “maus dias” do trecho
acima. Saber que há dias ruins nos ajuda a não colocarmos nossa esperança na juventude em si.
A idolatria da juventude é um dos piores males da nossa época. Todavia, assim como se dá com
a riqueza, a nossa esperança colocada em Deus, com descanso em lugar da ansiedade, nos trará
aquilo que desejamos. Pela fé em Deus, podemos nos regozijar em todos os nossos anos, não
apenas nos primeiros. Podemos viver com alegria e riso aos noventa anos como vivemos aos
dezesseis. O cinismo e o pessimismo, que tendem a crescer conforme envelhecemos, podem ser
12
Apesar de o termo “óvulo” ter se popularizado, suspeito que o termo correto aqui seja “ovócito
primário”, isto é, a célula armazenada no ovário antes de ser liberada nos dias férteis do ciclo menstrual.
Peço que o leitor se certifique.
vencidos pela lepidez e esperança. Tudo o que Salomão descreveu sobre a velhice é correto
quando a consideramos pelo prisma do tema central de Eclesiastes, a “vaidade”, ou a falta de
sentido e de solidez em tudo o que cativa o nosso coração à parte de Deus. Mas Deus não está
limitado às expectativas naturais e fez a promessa de, por assim dizer, fazer o tempo voltar em
nós, renovando nossa juventude como a águia que alça voo e conquista as alturas.
Portanto, não tema a velhice. Você pode ser um idoso alegre e pacífico, cheio de força para
produzir, belo e fértil. Depende somente da sua fé em Deus. Sua velhice será cheia de bênçãos
de Deus. Ela terá o melhor da juventude e o melhor da maturidade. Você rirá melhor que os
jovens, pois rirá como sábio. Você será mais otimista do que os moços incautos, pois verá o fruto
do trabalho das suas décadas e experimentará a recompensa do longo prazo. Não seja um velho
rabugento! Velhos rabugentos e reclamões estão em pecado. Se isso acontecer com você, você
fracassou e envelheceu mal. Envelheça como vinho, não como leite.
O tema da “opressão” tem sido sequestrado pelos esquerdistas desde a Revolução Francesa, e
ele adquiriu conotações culturais problemáticas para quem está tentando entender a Bíblia.
Uma das reações mais comuns para quem deseja negar qualquer associação com comunistas é
a de omitir o tema. Cristãos com tendências conservadoras falam como se não existissem
oprimidos e opressores. Eles enfatizam a meritocracia e denunciam a cultura do “vitimismo”. É
uma atitude semelhante àquela dos pastores que, para não serem confundidos com
neopentecostais de terceira onda, recusam-se a ensinar abertamente e repetidamente sobre
dízimo e promessas de prosperidade.
É claro que isso é uma incompetência indesculpável. Se você não consegue falar sobre um tema
de acordo com sua própria cosmovisão porque os outros o macularam na deles, logo você ainda
é um escravo deles. Você está definindo suas ações e suas falas pelo erro. Você não entende o
que você professa e não pode proclamar a verdade com poder.
É óbvio que o tema da opressão na Bíblia diverge fundamentalmente desse mesmo tema na
visão dos comunistas. Em primeiro lugar, o comunismo lida com “opressores” e “oprimidos”
como classes, não como indivíduos. Existem classes opressoras e classes oprimidas, e os
indivíduos são definidos pelas suas respectivas classes, e não o inverso. As classes mudam de
acordo com a pauta, mas a estrutura classista permanece a mesma. Logo, se a pauta da moda
diz que os ricos são uma classe opressora e os pobres são uma classe oprimida, isso é
automaticamente definido para todos os seus indivíduos. É por isso que os comunistas sempre
mataram tanto. Eles condenam à morte os indivíduos não por serem pessoalmente culpados de
crimes, e sim meramente por fazerem parte de uma classe definida pelo Partido como a classe
opressora. A Escritura, no entanto, diz o oposto: “Não perverterás o julgamento do teu pobre
na sua causa. Da falsa acusação te afastarás; não matarás o inocente e o justo, porque não
justificarei o ímpio” (Ex 23.6-7). Cada indivíduo deve ser julgado por sua própria conduta, não
por pertencer a uma classe.
Em segundo lugar, a Bíblia afirma a responsabilidade dos oprimidos. Oprimidos não devem
contra-atacar os opressores nem se revoltar com violência. Não existe justificativa para a
violência revanchista. Quando trabalhadores fazem greves, eles recebem o aplauso dos
esquerdistas, porém estão em pecado por prejudicarem os demais. É ainda pior quando
queimam pneus nas ruas, erguem barricadas e fecham estradas. É uma violência que eles
praticam contra todas as pessoas que estão apenas tentando cuidar da própria vida. Oprimidos
não têm carta branca para fazerem qualquer coisa em nome de uma causa ou um bem maior.
Veja como a história de Agar ilustra isso. Agar era a escrava e Sara era a senhora. Quando Agar
engravidou, ela passou a desprezar Sara. Ela provavelmente se sentiu superior por ter
conseguido engravidar de Abraão, ao passo que Sara continuava estéril. Talvez ela tenha parado
de seguir ordens com prontidão, talvez tenha começado a exibir atitudes esnobes, como
muxoxos, olhos revirados e nariz empinado. Por causa desse desrespeito, Sara revidou e Agar
fugiu assustada.
Como Deus julgou essa causa trabalhista? Ele mandou Agar voltar e se submeter a Sara. Ele
decidiu em favor de Sara, não de Agar. Sara tinha poder e autoridade sobre Agar, mas isso não
a tornou culpada de “assédio moral”. Sara usou sua autoridade com legitimidade para castigar
uma atitude pecaminosa da sua serva. Hoje em dia, qualquer pessoa simpatizaria com a escrava
e condenaria Sara como uma chefe opressora. Mas a verdade é que Agar passou a trabalhar mal,
e quem trabalha mal não tem direito de reclamar de “más condições”.
Mas o episódio fica ainda mais interessante na próxima fuga. Quando Ismael, o filho de Agar,
começou a fazer bullying com o bebê Isaque, Sara disse para Abraão expulsá-la, e novamente
Deus deu razão a Sara. Agar era a escrava, mas Deus julgou que o filho dela oprimia o filho de
Sara. Paulo fala nesses termos em Gálatas 4: os descendentes espirituais de Agar, os judeus,
oprimiam e perseguiam os descendentes espirituais de Sara, os cristãos, muito embora os
judeus fossem os escravos, e os cristãos, os livres. O pensamento carnal nunca conceberia que
os escravos pudessem oprimir os livres! Mas foi exatamente assim que aconteceu.
Deus, no entanto, não abandonou Agar. Ele disse para Abraão despedi-la com provisões e,
quando a água acabou e Ismael estava prestes a morrer, Deus ouviu o clamor de Agar e proveu
por milagre um poço com água para ela. E ele fez promessas de bênçãos e de vitórias para o
filho dela. Isso é maravilhoso! Deus mostra compaixão pelos vulneráveis que clamam a ele,
enquanto julga todas as causas com perfeita justiça.
Portanto, a identificação entre opressores e oprimidos precisa ser feita caso a caso, e não por
classes, e a responsabilidade dos oprimidos precisa ser cumprida à risca. Oprimidos que se dão
licenças para “lutarem pelos seus direitos” relaxando o padrão moral serão certamente
condenados por Deus. Se, por outro lado, clamarem a Deus, eles serão ouvidos.
Em terceiro lugar, nós temos de nos perguntar: quem é o libertador dos oprimidos? Os
comunistas pensam que são os oprimidos que libertam a si mesmos quando se revoltam contra
os opressores e quando suportam o Partido para editar a sociedade em um paraíso sem Deus.
Dos muitos males do comunismo, este é provavelmente o pior: o messianismo do Estado. Esse
pensamento impregnou tanto a nossa sociedade que até mesmo pessoas que nunca pensariam
em favorecer comunistas veem no Estado a solução para todas as injustiças. Todas as políticas
de redistribuição de renda via impostos, a judicialização de quaisquer conflitos, a parcialidade
intencional do Estado contra os empregadores e a favor dos empregados, tudo isso é apoiado
por quase toda a população. As pessoas muito rapidamente recorrem ao Estado para soluções.
Isso é quase um ato reflexo nos pensamentos. Todos os problemas imagináveis recebem
respostas do tipo “Vou processar você” ou “O governo deveria...”.
Não oprimirás o teu próximo, nem o roubarás; a paga do jornaleiro não ficará contigo até pela
manhã. Não amaldiçoarás o surdo, nem porás tropeço diante do cego; mas temerás o teu Deus.
Eu sou o Senhor. Não farás injustiça no juízo, nem favorecendo o pobre, nem comprazendo ao
grande; com justiça julgarás o teu povo (Lv 19.13-15).
Essas referências demonstram que Deus assume pessoalmente o papel de libertar e vingar
aqueles que sofrem sem que ninguém os socorra.
Jesus veio para libertar os cativos. O seu ministério inteiro é marcado por essa missão. Foi esse
propósito que separou os seus seguidores dos seus inimigos, revelando quem era quem. Por que
as pessoas corriam até Jesus? Porque ele as libertava da opressão do diabo e da falsa religião.
Por que os líderes e teólogos dos judeus odiavam Jesus e o condenaram à morte? Porque ele os
expôs como opressores e acabou com o domínio espiritual que eles exerciam contra os pobres
e incultos:
Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós
o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso
para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve (Mt 11.28-30).
Atam fardos pesados [e difíceis de carregar] e os põem sobre os ombros dos homens; entretanto,
eles mesmos nem com o dedo querem movê-los (Mt 23.4).
Mas eles retrucaram: Tu és nascido todo em pecado e nos ensinas a nós? E o expulsaram...
Prosseguiu Jesus: Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não veem vejam, e os que
veem se tornem cegos (Jo 9.34, 39).
Jesus, pois, lhes afirmou de novo: Em verdade, em verdade vos digo: eu sou a porta das ovelhas.
Todos quantos vieram antes de mim são ladrões e salteadores; mas as ovelhas não lhes deram
ouvido. Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo; entrará, e sairá, e achará pastagem.
O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida e a tenham
em abundância (Jo 10.7-10).
De sorte que os fariseus disseram entre si: Vede que nada aproveitais! Eis aí vai o mundo após
ele (Jo 12.19).
Após a sua ascensão, o rei Jesus julgou os oprimidos do seu povo usando os romanos para
incendiar Jerusalém:
Clamaram em grande voz, dizendo: Até quando, ó Soberano Senhor, santo e verdadeiro, não
julgas, nem vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?... Exultai sobre ela, ó céus, e
vós, santos, apóstolos e profetas, porque Deus contra ela julgou a vossa causa (Ap 6.10; 18.20).
A igreja do Senhor é uma igreja livre, liberta da opressão! Assim como Deus libertou os israelitas
do Egito e libertou a igreja primitiva da velha Jerusalém, ele continuará libertando e vingando o
seu povo por toda a história. Cristãos que sofrem perseguição devem se alegrar nisso e esperar
na intervenção do Senhor para mudar a sua sorte.
Consideremos agora diversos níveis de opressão dos quais Deus nos livra.
Primeiro, a opressão do diabo. Quando o homem pecou contra Deus, ele se colocou debaixo da
escravidão de Satanás (Ef 2.2; Hb 2.14-15). Todos os que não creem em Cristo estão debaixo do
poderio do diabo. Eles são torturados pelos demônios e cegados para que não percebam a
verdade e nem queiram sair desse estado (2Co 4.4). Dessa opressão, resultam as possessões
demoníacas, as manipulações serpentinas e as enfermidades (Lc 13.16; At 10.38). Jesus então
veio nos resgatar, oferecendo a si mesmo como pagamento pela dívida que tínhamos com Deus.
Ele comprou o seu povo com o seu sangue (At 20.28; Ap 5.9), e assim nos libertou do império
das trevas, trasladando-nos para o reino do amor do Filho (Cl 1.13-14).
Essa libertação traz efeitos morais, psicológicos e físicos. Moralmente, o cristão está livre para
obedecer a Deus e seguir o caminho da santidade. O pecado não mais reinará sobre nós, e
seremos servos da justiça (Rm 6.18). Isso é crucial para obtermos vitória contra o pecado. Por
vezes, os cristãos enfatizam tanto a “depravação total” que normalizam a queda recorrente a
pecados habituais, ou a convivência com pecados mais próximos da personalidade. Para eles,
são pecados “normais”. Eles podem falar que “lutam” contra tal ou qual pecado, sem qualquer
expectativa de triunfar sobre ele em definitivo. Isso é inaceitável. Se já recebemos nossa carta
de alforria assinada com o sangue do Filho de Deus, então o pecado precisa parar. Você precisa
tomar posse dessa libertação pela fé e agir como rei e sacerdote de um novo mundo no qual
habita a justiça. Não pense que é normal “lutar” contra um pecado por toda a vida e ter recaídas
sem fim. Aja como quem é livre em Cristo!
Fisicamente, o cristão está livre da opressão das doenças. Além do que já foi explicado em
capítulos anteriores, observe que a disciplina eclesiástica em 1Coríntios 5 serve para devolver o
excomungado à autoridade de Satanás para que a sua carne seja afligida até a destruição. Isso
só tem sentido se o reino de Deus tornado visível na igreja for uma área intocada pelo diabo,
livre de enfermidades. Ser parte da igreja significa estar separado do poder das doenças. O reino
de Deus é um reino que traz cura para as doenças por meio de expulsar demônios (Mt 12.28).
Portanto, quando uma igreja rejeita a cura e abraça a doença, como os teólogos cessacionistas
fazem, ela renuncia também a todo o seu poder disciplinar. Ela fica incapaz de traçar uma linha
palpável entre a pátria de Deus e a pátria do diabo. Ela se coloca voluntariamente sob a opressão
do diabo e assim renega o seu Redentor.
Segundo, a opressão dos pais – e me refiro em todo o seguinte argumento a pais e mães. Sim,
os pais podem ser e frequentemente são opressores. Isso não é algo comum de se ouvir dos
púlpitos ou de livros teológicos, o que gera uma situação um tanto paradoxal: enquanto os
pastores e as autoridades do Estado frequentemente destroem a autoridade dos pais, tirando
os filhos deles e colocando-os com pessoas da mesma idade pelo máximo de tempo possível,
bem como fornecendo uma educação que deveria ser prerrogativa dos pais, simultaneamente
eles sacralizam a figura dos pais só por serem pais. Eles parecem pensar que os filhos sempre
obedecem e honram de menos, nunca demais, logo as suas exortações são para que os filhos
honrem, respeitem, obedeçam e nunca façam nada que os contrarie. Sempre os pais estão
certos. Sempre os pais sabem o que é melhor. Na mente dessas pessoas, a alternativa é o
colapso da autoridade dos pais e a rebelião adolescente.
A minha abordagem é diametralmente oposta. Eu defendo para os pais um poder muito maior
do que geralmente se dá: um poder de ensinar, educar, regulamentar a vida no lar, aconselhar,
ministrar curas e milagres, proteger contra parentes intrometidos, vigiar – tudo isso sem
terceirizações. Inclusive, em um próximo livro, vou defender que o batismo deve ser ministrado
pelos pais, quando são estes que ganham a alma do filho. E, exatamente porque eu atribuo um
poder muito grande aos pais, eu também atribuo responsabilidades proporcionais, razão pela
qual eu sou em extremo severo contra eles no meu livro sobre educação sexual13. Eu não tenho
pena de pais incompetentes. Eu não adulo pais só por serem pais, ou mães só por serem mães.
Eu nunca mentiria a um adolescente dizendo que ele deve ouvir a sabedoria dos seus pais se eu
perceber que eles são idiotas. A verdade é que a imensa maioria das pessoas é idiota, e ninguém
deixa de sê-lo quando se torna pai ou mãe. Se os pais fossem tão sábios e justos quanto os seus
aduladores querem nos fazer acreditar, não estariam engatinhando diante das botas da escola
estatal, dos psicólogos e dos tiozões de jovens da igreja; não estariam dando televisões e
computadores pessoais para os seus filhos guardarem nos quartos e depois se perguntando
como foi que se viciaram em pornografia. Bando de imbecis incompetentes.
Deixe-me dizer algo sobre disciplina. É verdade que os livros sobre disciplina geralmente
afirmam que os pais não podem disciplinar com raiva, nem por raiva, e que o objetivo da
disciplina é a educação para o Senhor, e não um extravasar da ira pessoal. Tudo certo, mas eles
não são duros o bastante com os pais que falham nisso. Eles tratam como se os erros nesse
procedimento fossem compreensíveis, porque afinal nós somos “imperfeitos”. (Dica: nunca
aceite uma defesa baseada na “imperfeição”. “Imperfeito” é a carga curinga que os covardes
usam para se eximir de responder por suas ações. Mas Satanás também é “imperfeito”, e
ninguém pensa que podemos “pegar leve” com ele por causa disso.) Eu, por outro lado, afirmo
que, toda vez que um pai ou mãe disciplina os seus filhos por raiva, ou de modo desproporcional,
ou por alguma inconveniência que nada tem a ver com desobediência ou pecado, eles se portam
como bandidos. Isso porque absolutamente ninguém, além dos pais, tem o direito de encostar
um dedo em uma criança para castigá-la. Nenhum estranho na rua pode bater nos meus filhos
com a mão, com um chinelo ou um cinto. Se fizer isso, vou encaminhá-lo aos cuidados do SUS.
Mas, se os pais são ministros da disciplina do Senhor, responsáveis perante ele por executar a
vontade dele, então a única disciplina legítima que eles podem aplicar é aquela aprovada pela
palavra de Deus. Qualquer outra disciplina é estranha ao seu ofício e equivale à de um estranho.
Pais que batem nos filhos arbitrariamente, para impor o seu ego e não para honrar a Deus,
merecem ser vistos como criminosos violentos. Pais não merecem dó nenhuma. As vítimas são
as crianças. Delas é que eu tenho dó.
Você não costuma ouvir isso daqueles que estão zelosos por resgatar a “família tradicional”. É
claro que os comunistas que se escandalizam com “palmadas” estão errados. A intenção deles
é apenas absorver os poderes paternos para dentro do Estado. Os pais não podem dar palmadas,
mas o Estado pode fuzilar. Essa é a consequência lógica das suas invectivas nefastas. Mas a
alternativa não é voltar ao padrão familiar da sua avó. Os seus avós viviam batendo nos seus
pais sem motivo, e não tinham paciência para ensinar direito. Eles viviam gritando e atirando
chinelos, dando cintadas sem qualquer parâmetro. Aí a geração criada assim suspira: “Isso sim
era criação raiz! Nunca morri por causa disso! E nunca deixei de amar meus pais por causa disso”.
Bem, o “nunca morri” é um péssimo argumento. Se eu quebrar o braço do meu filho uma vez
por mês, provavelmente ele nunca vai morrer por causa disso; então tudo bem? E o fato de que
você ainda ama os seus pais que foram violentos com você também não prova muita coisa. É
fato que os filhos têm uma tendência natural a amar os pais; os pais precisam se esforçar muito
para perderem o amor dos filhos. E talvez o seu amor pelos seus pais não seja tão justo. Talvez
você os esteja venerando mais do que eles realmente merecem. Quem sabe? Em todo caso, o
padrão tem de ser a palavra de Deus, e não o modo como você se sente. A criação raiz estava
terrivelmente errada e exercia sim um nível de violência maligno contra os filhos.
13
Confira o meu O Mínimo Que Os Pais Precisam Saber Sobre Educação Sexual Bíblica.
Pais também oprimem os filhos com suas decisões danosas. Se eles são péssimos na
administração de dinheiro e deixam os filhos inseguros, se eles manipulam os filhos para que
não tomem decisões saudáveis para si mesmos, se impedem que os filhos sigam uma vocação
espiritual legítima, se fazem chantagem emocional para que os filhos não se casem ou nunca
saiam de casa, eles estão agindo como opressores. Assim como os pais têm um grande poder
para abençoar os filhos, eles também têm para oprimi-los.
Qual é a saída? Romper com o passado. Jesus Cristo torna novas todas as coisas. Ele lhe dá o pai
de que você sempre precisou e nunca teve. Ele veio revelar o Pai celestial. Clame ao Senhor para
ser liberto dos seus pais opressores. Ele o adotará e fará de você um príncipe ou uma princesa
do seu reino de amor. Então, ele o capacitará para enfrentar os seus pais, sair de casa, deixar o
passado para trás e iniciar uma nova família. Você terá filhos e será assim o pai ou a mãe que
você gostaria de ter tido. O ciclo de opressão terminará na geração passada. Você iniciará um
novo ciclo de gerações abençoadas e felizes, por estar debaixo da mão paternal de Deus. Seja
forte e corajoso!
Terceiro, a opressão do Estado. Deus emitiu regras e ameaças severas para que os juízes e reis
fossem homens justos, de bom caráter, avessos ao suborno e imparciais. Ele restringiu em muito
o poder dos reis (Dt 17.14-20). Quando, porém, o povo pediu um rei similar ao das nações pagãs,
Deus atendeu ao seu pedido lhes dando um opressor que, pela primeira vez na história de Israel,
cobraria impostos e convocaria ao serviço militar obrigatório. E ele disse, “Naquele dia, vocês
clamarão a mim por causa desse rei, e eu não os ouvirei”. As pessoas estão sempre reclamando
dos governantes, mas o fato é que Deus dá a um povo os governantes que eles querem. Aqui no
Brasil, a política está na consciência e nas conversações de todo mundo, quase todos os dias,
sempre com amargura e cinismo. No entanto, por pior que sejam os governantes que nós temos,
as pessoas não enxergam saída senão por meio dos mesmos governantes. Nós precisamos nos
render a Jesus Cristo, confessá-lo como nosso único rei e juiz, e abandonarmos toda esperança
não apenas nos governantes, mas em todo o sistema estatal que foi delineado para substituir
Deus. O caminho para a transformação política é a pregação do evangelho e a demonstração do
poder de Deus (Dn 3.16-30; At 4.23-31). Enquanto isso não acontecer, saiba que Deus faz justiça
aos oprimidos. Clame ao Senhor, e ele protegerá você dos homens maus do Estado. Confie em
Jesus, e nenhuma decisão governamental poderá tirar o pão da sua mesa.
Quarto, a opressão da igreja. Os pastores e líderes espirituais são muitas vezes opressores sobre
o povo de Deus. E a primeira coisa que você precisa entender é que isso acontece em todo tipo
denominação, confessionalidade ou ramo do protestantismo. Geralmente, os carismáticos são
criticados por permitirem um sistema eclesiástico opressor, dado que, nos casos mais típicos,
há um bispo que manda nos pastores, e os pastores controlam a consciência dos membros com
chavões do tipo “Não toqueis no ungido do Senhor” e “Você tem de estar debaixo de cobertura
espiritual”. Os carismáticos também são acusados por não terem confissões escritas e assim
permitirem que os pregadores falem o que quiserem e mandem no quanto quiserem. A teologia
do “Você fracassou porque não teve fé suficiente” também é vista como fonte de opressão sobre
aqueles que sofrem, muito embora essa frase tenha vindo do próprio Jesus.
Todavia, nenhuma das soluções dos tradicionais e reformados elimina essas opressões. A ideia
da “liderança plural” e do “sistema de votos” é vendida como solução para a concentração de
poder. Mas a Bíblia nunca diz que esse é o motivo para a pluralidade de líderes. Eles aprenderam
essa idiotice com Montesquieu, não com a Bíblia. Uma pluralidade de líderes pode muito bem
se unir para destronar Jesus Cristo – lembra-se do Salmo 2? O fato de haver muitos líderes não
elimina o abuso de poder, apenas permite que mais pessoas e com mais justificativas continuem
abusando do poder. As decisões conciliares ficam ainda mais blindadas contra críticas.
Quando comecei a publicar livros que contrariam a posição reformada sem pedir a autorização
dos líderes, eles não puderam citar um único versículo bíblico para provar que eu errei, mas
repetiram diversas vezes os versículos “na multidão de conselhos, está a sabedoria”, e ainda “a
verdade se estabelece por duas ou três testemunhas” – uma citação corrompida, aliás. Bem, o
“não toqueis no ungido do Senhor” também é um versículo bíblico. Não há diferença nenhuma.
Uma liderança plural reformada é tão capaz de distorcer a Bíblia para confirmar o seu próprio
poder impenetrável e se licenciar para pregar mentiras quanto uma liderança monopessoal
neopentecostal. Eles podem não se chamar de “ungidos do Senhor”, mas eles se chamam de
“homens sábios”, “ministros devidamente ordenados”, “eleitos pelas igrejas”, com o
mesmíssimo efeito de se eximir da necessidade de se arrepender de ensinar heresias e calar a
boca de qualquer um que discorde em voz alta. São homens que escrevem confissões e declaram
votos para juntos ignorarem Jesus e preservarem o poder da sua tradição sobre as igrejas. Eles
estendem os seus tentáculos sobre os membros, sufocando-os para que nunca creiam em Jesus
mais do que eles mesmos creem e que nunca obedeçam à Bíblia mais do que eles mesmos
obedecem, ou seja, quase nada. Eles não permitem que ninguém os desafie. Sim, eles aceitam
ser “questionados”, mas como uma formalidade, porque eles já decidiram de antemão como
qualquer “questionamento” irá terminar. Se “na multidão de conselhos está a sabedoria”, sem
qualquer qualificação, então o demônio que possuiu o gergeseno era mais sábio que Salomão.
Agora, é aqui que reside a beleza do assunto: esse é o único tipo de opressão contra o qual a
Bíblia ordena que nos revoltemos! Confira:
Se, na verdade, vindo alguém, prega outro Jesus que não temos pregado, ou se aceitais espírito
diferente que não tendes recebido, ou evangelho diferente que não tendes abraçado, a esse, de
boa mente, o tolerais... Porque, sendo vós sensatos, de boa mente tolerais os insensatos. Tolerais
quem vos escravize, quem vos devore, quem vos detenha, quem se exalte, quem vos esbofeteie
no rosto. Ingloriamente o confesso, como se fôramos fracos (2Co 11.4, 19-21).
Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que
vos temos pregado, seja anátema (Gl 1.8).
Paulo ironiza a igreja por tolerar pastores que a exploram e que pregam um Jesus diferente. Aos
gálatas, ele dá à igreja permissão para excomungar qualquer um, até um apóstolo ou um anjo,
que venha anunciando um evangelho diferente. Por que Paulo diria essas coisas, se a igreja não
pudesse tomar medidas para expulsar esses agentes do diabo do seu meio?
Há uma excelente razão para que a opressão da igreja seja a única contra a qual se pode resistir.
A igreja é a única esfera do reino de Deus que pressupõe a obediência dos seus membros para
que continue a ser o que é. Se um pai é um ímpio, nem por isso deixa de ser pai. Se um chefe de
uma empresa é descrente, nem por isso ele deixa de ser um chefe. Se um presidente é maligno,
nem por isso deixa de ter autoridade. Os súditos devem desobedecer às ordens que comandem
o pecado, mas eles não devem rejeitar o princípio de que esses oficiais têm autoridade. Com a
igreja, é diferente. Os presbíteros ímpios não são presbíteros, e sim lobos. As igrejas que seguem
heresias não são igrejas, e sim sinagogas de Satanás. Essa é a diferença da igreja para as demais
esferas de autoridade. Jesus reina sobre todos, quer obedeçam, quer não; mas a igreja é definida
precisamente como a soma daqueles que obedecem. Disso se segue que os pastores que
oprimem as pessoas com o ensino de heresias e com ordens legalistas não podem ser aceitos
como parte da igreja. Eles devem ser expulsos, e os membros da igreja podem fazer isso.
É claro que a Escritura condena a revolta sem motivo ou com procedimentos errôneos. Paulo
diz que não podemos repreender asperamente o homem mais velho, ou possivelmente o
“presbítero”, mas sim exortá-lo como a um pai. No entanto, aqui trata-se de pecados pontuais,
falhas comuns. Paulo também diz que nenhuma acusação contra um presbítero deve ser aceita,
senão com a confirmação de testemunhas. Isso é apenas a aplicação normal da lei de Deus. Por
outro lado, a Bíblia diz que, caso haja confirmação dessas testemunhas, o presbítero deve ser
repreendido na frente de todos, para que também temam. Agora, qual igreja permite isso? Em
qual igreja um membro pode apresentar queixa de um pecado do pastor, e esse pastor
realmente receber repreensão em público? E, como estamos falando aqui do ensino de heresias
e de regras eclesiásticas não bíblicas, qual a necessidade de se esperar testemunhas, se o público
inteiro é testemunha? Assim, se os membros de uma igreja não puderem depor um pastor que
ensina heresias como o cessacionismo, o arminianismo ou o dispensacionalismo, então as
orientações de Paulo nunca serão cumpridas. Os pastores reinarão livremente sobre a
consciência e a boca das suas ovelhas, e ninguém os impedirá.
O procedimento padrão para os discordantes é sempre o de mudar de igreja. Mas quem deveria
se retirar é quem está errado, e não quem está certo. Se um membro denunciar a heresia de um
pastor, então o pastor é que deveria ser expulso, e não o membro orientado a buscar uma igreja
de outra denominação. Igrejas não podem ser definidas pelos seus líderes. Claro, uma vez que
você percebeu o erro e ninguém na igreja se importa, resta a você se retirar, porém toda a
congregação é culpada por apoiar líderes que a oprimem.
Não se deixe intimidar. A opressão dos líderes eclesiásticos acaba quando você fixa os seus olhos
em Jesus e não teme a excomunhão e as calúnias. Lembre-se do que Jesus fez com a Jerusalém
que usou o poder de Roma para perseguir os santos. Ele irá remover o candeeiro da
denominação corrupta e dos pastores hereges. A sua mente está livre em Cristo. Não se deixe
abater pelos diplomas, pelas frases em grego ou pela pressão de um conselho oficial. Se um
pastor discorda de Jesus, ele está errado. Se esse pastor tem mestrado e doutorado em
seminários no exterior, escreve livros de mil páginas e é louvado pela cristandade inteira, mas
discorda de Jesus, ele ainda está errado. Ponto final. Nunca permita que um líder limite o quanto
você pode crer e o quanto você pode obedecer do que está na Bíblia. Se você tolera esse tipo
de escória, você é culpado como ele.
Essa é a única opressão da qual você pode se livrar hoje. Faça parte da multidão que abandona
os fariseus e escribas para correr nos pastos verdejantes do Bom Pastor. Ele não veio quebrar a
cana frágil nem apagar a torcida que fumega. Ele veio para libertar você de tudo o que pesa
sobre os seus ombros, a sua culpa, o seu pecado, as suas doenças, suas mágoas, sua
dependência da aprovação dos homens e de todas as regras da tradição do diabo. Ele tem um
jugo suave e um fardo leve para você. Aqueles que retratam a vida cristã como “desconfortável”
nunca conheceram Jesus.
Lei
Manifestou os seus caminhos a Moisés...
Quando Deus levantou Moisés para libertar os israelitas da opressão sob o Egito, o seu propósito
não era somente dar fim ao seu sofrimento, mas também lhes dar um novo começo sob o
governo do próprio Deus. Ele mandou Moisés dizer ao faraó que deixasse os israelitas irem
embora para adorarem a Deus no deserto. Uma vez no deserto, fora do poder das nações pagãs,
o povo de Deus deveria aprender a adorá-lo corretamente, a fim de que estivessem prontos
para conquistar a Terra Prometida. Então, essa é a ordem da jornada cristã: primeiro, redenção;
segundo, discipulado; terceiro, conquista. Deus liberta um indivíduo quando converte o seu
coração, depois ensina as leis e opera no seu amadurecimento, e então o abençoa para que
ocupe o seu lugar de bênçãos, poder e domínio no mundo.
Isso nos lembra do alerta que Paulo pronuncia contra a escolha de um neófito para ser bispo.
Um cristão genuíno ainda precisa de tempo e amadurecimento para que possa ocupar uma
posição de liderança. Do mesmo modo, muitos cristãos não estão aptos para se casarem ou para
se tornarem pais e mães. Eles devem se dedicar ao conhecimento e à santificação enquanto
estão no “deserto” da sua vida.
A revelação da lei de Deus a Moisés é citada neste salmo como um dos benefícios da redenção.
Assim como os israelitas foram tirados do Egito para poderem aprender todos os padrões de
Deus a partir do zero, cada cristão é libertado do jugo do diabo para que aprenda a obedecer ao
seu novo Senhor. Por essa razão, o prefácio aos dez mandamentos é, “Eu sou o Senhor, teu
Deus, que te tirou da terra do Egito, da casa da escravidão”. A lei de Deus não foi dada para a
nossa justificação, mas ela é o propósito da nossa justificação. Quando insistimos na necessidade
da obediência a Deus, não é para que o cristão saia do Egito, mas sim porque ele já saiu. Quem
não obedece a Deus só pode estar no Egito. Até mesmo os israelitas que foram libertados e
andaram no deserto com Moisés ainda moravam no Egito em seus corações, sempre olhando
para o seu passado com nostalgia e desejando voltar. A questão não é se um cristão manterá a
sua salvação por meio de obedecer à lei, e sim se ele de fato prova que foi salvo por meio de
obedecer à lei.
Portanto, como Rushdoony enfatiza14, nós temos de apreciar o fato de que a lei de Deus nos foi
dada como um ato de graça da parte dele. Deus graciosamente nos deu uma lei para seguirmos.
É um privilégio conhecer os mandamentos do Senhor: “Mostra a sua palavra a Jacó, as suas leis
e os seus preceitos, a Israel. Não fez assim a nenhuma outra nação; todas ignoram os seus
preceitos. Aleluia!” (Sl 147.19-20). A lei de Deus é um presente para nós, é a luz da nossa vida e
do nosso juízo. Devemos ser gratos a Deus por nos ter ensinado claramente qual é a sua vontade,
quais são os parâmetros da sabedoria e da ética.
Essa é uma realidade desprezada por muitos cristãos. Até mesmo aqueles que não se
identificariam com a teologia dispensacionalista falham em genuinamente amar o
conhecimento e o cumprimento das leis de Deus. Eles entendem uma certa validade geral das
leis de Moisés que são mais obviamente enfatizadas no Novo Testamento, mas ainda guardam
preconceitos com muitos dos mandamentos que lhes parecem “estranhos” ou específicos
demais. Nisso, eles são arbitrários e mostram que ainda não se submeteram verdadeiramente à
sabedoria de Deus. A lei para eles ainda preserva um sabor amargo, algo com que preferem não
lidar se parecer muito difícil.
14
Por exemplo, em sua Systematic Theology.
Jesus, no entanto, afirmou claramente: aquele que transgredir até o menor mandamento da lei
e ensinar os outros a fazer o mesmo será considerado o menor no reino do céu. Ele disse isso
após declarar que cada “i” e “til” da lei permanecerão para sempre. Portanto, Jesus nos insta a
considerar cada detalhe da lei como perpétuo e vinculante. Ele não quis facilitar, suavizar ou
diluir o padrão moral de Deus. Ele confirmou a validade total e exaustiva dos mandamentos que
Deus revelou a Moisés. Você não pode se considerar um verdadeiro discípulo de Jesus enquanto
tratar a lei de Deus com hesitações e ressalvas.
Como podem ser os detalhes específicos da lei de Deus um benefício para nós? João afirmou
que os mandamentos de Deus não são pesados, portanto, se há algum problema, o problema
está em você. Você sente preguiça em estudar os livros da lei. Você não “medita dia e noite”
como faz o salmista, e depois você não entende por que não é bem-aventurado e não prospera
em tudo o que faz. Se a conversão ao evangelho inserisse um conhecimento intuitivo da vontade
de Deus por completo, não haveria tantas exortações na Escritura a examinarmos as Escrituras,
aprendermos, conhecermos e meditarmos. É fato que, na nova aliança, o Espírito Santo escreve
as leis de Deus no nosso coração (2Co 3.3; Hb 8.10), mas isso significa que ele irá efetuar em nós
o cumprimento da lei de Moisés (cf. Dt 30.6), não que ele nos dispensará da necessidade de
estudar. Ao contrário, se você não se sente movido a aprender e conhecer mais da lei de Deus,
e a regulamentar a totalidade da sua vida conforme essa lei, é provável que o Espírito não tenha
de fato escrito a lei no seu coração e você ainda não tenha se convertido. Examine a si mesmo
se está em Cristo, pois o verdadeiro cristão ama a lei, e ama exaustivamente.
Não adianta insistir que os “princípios” da lei de Deus permanecem se você preenche esses
“princípios” com as especificidades que você quiser. Como vimos acima, Jesus quer obediência
específica aos detalhes. Ele não quer que você tente extrair princípios abstratos da lei de Deus
para inserir conteúdos arbitrários. No entanto, é assim que os cristãos geralmente se posicionam
sobre política. Eles parecem achar que o governo deve ser uma democracia (o que não é bíblico),
mas uma democracia que segue “princípios” cristãos, embora, ao mesmo tempo, não “force” a
obediência a leis bíblicas a uma população “pluralista”. Boa sorte para quem for tentar
desenrolar esse novelo de lã! Isso é tanto impossível como desnecessário. “Não adulterarás” é
um “princípio” cristão tanto quanto a pena de morte contra os adúlteros. “Honra o teu pai e tua
mãe” é tão lei de Deus quanto a pena de morte para filhos incorrigíveis que consta em
15
Cf. No Other Standard, de Greg Bahnsen.
Deuteronômio 21. Por que uma lei é válida e a outra não? Quem disse isso? Com que
autoridade?
Será que vocês não percebem como é benéfico abraçar todas as leis de Moisés? Pensem em
quanta energia e angústia mental vocês gastam tentando entender as diversas situações
políticas, econômicas e sociais ao nosso redor. Vocês que rejeitam as leis sociais e cíveis de Deus,
como irão interpretar e resolver adequadamente os problemas maiores do que a sua vida
devocional no seu quarto? Os cristãos debatem sem fim sobre como deveria ser resolvido o
problema da criminalidade, ou da saúde pública, ou da educação, ou dos debates políticos, ou
da pobreza e assistência social – quando tudo isso já está revelado explicitamente na lei de Deus.
Sempre esteve na Bíblia o tempo todo. Você é que não quis enxergar. Você é que teima em
querer superar a sabedoria de Deus sobre esses assuntos, como se as leis dele fossem primitivas
demais para o mundo moderno! Que arrogância! Realmente, não há saída para quem se
embaraça dessa maneira. Como os teonomistas dizem, só há duas alternativas: teonomia ou
autonomia. Ou a lei de Deus ou a dos homens. Escolha hoje quem você seguirá.
Talvez você esteja pensando nas leis cerimoniais que foram abolidas na nova aliança. O Novo
Testamento não deixa claro que leis como a circuncisão, os sacrifícios e o sacerdócio de Arão
foram revogados após a morte de Cristo? Então como podemos saber se havia outras leis que
também não condizem com o Novo Testamento?
O melhor guia para esse estudo é, sem dúvida, a tese Theonomy in Christian Ethics, de Greg
Bahnsen. Esse é o tratado sistemático mais completo sobre a lei de Deus já escrito e é um
tesouro para todos aqueles que lutam com tais dificuldades16. Em primeiro lugar, Bahnsen
sugere que as “leis cerimoniais” deveriam ser mais apropriadamente chamadas de “leis
restaurativas”. O que caracteriza essas leis não é o fato de apresentarem um exterior cerimonial
ou ritualístico, e sim que elas administram a misericórdia de Deus como sombras da expiação
de Cristo. Isto é, essas leis não são transcrições de um código de ética imutável e divino, antes
são a forma como Deus temporariamente quis manifestar a sua misericórdia em antecipação da
realidade vindoura, que é Cristo. Essas leis restaurativas são aquilo a que Paulo se referiu como
nosso “pedagogo” em Gálatas 3, que tinham o propósito de nos conduzir a Cristo. Assim, embora
até mesmo essas leis sejam instrutivas a respeito da santidade de Deus, da pureza que ele requer
de nós e da integridade do seu culto, os seus preceitos exteriores apontavam para Cristo e,
portanto, não estão mais vigentes desde que Cristo os cumpriu em sua obra perfeita e final.
Em segundo lugar, a distinção entre as leis morais e as leis restaurativas é uma que a própria
Bíblia nos revela, não uma divisão imposta pela nossa imaginação. Isso se verifica em referências
como “Misericórdia quero, não sacrifícios”, uma frase que só pode fazer sentido se houver leis
referentes a “misericórdia” e leis referentes a “sacrifícios”. Há uma abundância de passagens
semelhantes em toda a Bíblia que nos mostram que sempre foi o intento de Deus distinguir
entre os preceitos éticos perpétuos e os preceitos das suas cerimônias, que nunca foram
designados para serem perfeitos e inerentemente valiosos. Por outro lado, não há
absolutamente o menor traço da tal distinção da “lei civil” à parte da “lei moral”. A divisão que
os teólogos fazem da lei de Deus em três partes – moral, cerimonial e civil – não é fornecida pela
Bíblia. É apenas por sua própria imaginação e preconceito que eles inventam esquemas
teológicos mirabolantes para descartar as leis “civis” de Moisés. A verdade é que as leis “civis”
são tão morais quanto quaisquer outras. Em Mateus 15, Jesus citou lado a lado o mandamento
16
Posteriormente, Bahnsen resumiu essa tese um tanto maçante e áspera para o público comum no seu
pequeno livro By This Standard.
“Honra teu pai e tua mãe” e o mandamento “Quem amaldiçoar o seu pai ou sua mãe será
morto”. Não há nenhum motivo bíblico para não exaltarmos o padrão da lei de Deus como a
norma perpétua para todas as nações, para todas as sociedades e para todos os relacionamentos
e contratos.17
A verdade é que Deus colocou em nós o anseio por sentido, por sabedoria, pela satisfação de
realmente entendermos e discernimos a verdade da mentira, o certo do errado. É inquietante
abordar uma situação com as névoas da ignorância ou da dúvida. É malfazejo tentar resolver um
problema ou administrar circunstâncias que parecem complexas demais. Os ímpios, por
rejeitarem a lei de Deus, estão em constante angústia para decidirem o que é certo e o que é
errado. Os padrões que eles geralmente alardeiam, como o “qualquer coisa serve contanto que
não faça mal aos outros”, não os satisfazem e são sempre passíveis de manipulação pela
autoridade do momento. O relativismo moral é apenas a propaganda que prepara para a
coerção ao absolutismo do Estado, da “ciência” e dos “especialistas”. Não há paz para quem é
feito de trouxa pelos moralistas oficiais do mundo ímpio.
Mas o cristão pode dar graças a Deus por ter uma lei transcendente, imutável, coerente e que
ilumina todas as coisas. Há muita paz e alegria em entender e praticar os mandamentos de Deus
e em julgar todas as coisas por essa revelação límpida e perfeitamente sábia.
17
Bahnsen responde satisfatoriamente a todas as elaborações teológicas dos não teonomistas em No
Other Standard.
Prodígios
... e os seus feitos aos filhos de Israel.
Deus ensinou a sua lei aos israelitas no mesmo contexto em que operou prodígios magníficos
para os libertar. De fato, a revelação da lei veio para que o povo aprendesse a obedecer ao
maravilhoso e onipotente Deus que acabava de se manifestar a eles. Após tantos séculos
sofrendo sob o Egito, os descendentes de Abraão finalmente conheceriam o Deus dos seus
antepassados, e o conheceriam como um Poder muito além da imaginação. Eles estavam tão
submissos à cultura egípcia que passaram a reverenciar os falsos deuses do Egito. Esses deuses
eram associados a elementos da natureza e, por serem imanentes, nunca puderam ser adorados
como soberanos sobre o mundo físico. Eles eram apenas mantenedores da rotina que
poderíamos chamar de “providência ordinária”. Deuses assim não oferecem esperança para
quem está subjugado pelos limites da natureza. E lamentavelmente é assim que o verdadeiro
Deus costuma ser retratado, como alguém que age quase exclusivamente “por meio de”, e não
“sobre” ou “além”.
O que Deus fez foi surpreendente para todo mundo. Ninguém esperava que houvesse um Deus
que pudesse manipular os elementos da criação como bem quisesse. Quando ele transformou
água em sangue, enviou pragas de insetos e bichos repugnantes, fez chover pedra e apagou o
sol, houve uma crise religiosa sem precedentes em todo o Egito. Como Jetro reconheceu, Deus
humilhou os deuses egípcios e o deus-faraó. Ele manifestou a sua glória como o único Deus
Todo-Poderoso, o soberano sobre tudo e todos. Ao final, ele abriu o mar e o fechou novamente,
consumando a sua vitória contra os seus inimigos.
Essa correlação entre a operação de milagres e a revelação da lei levou muitos teólogos à
conclusão absurda de que a única função dos milagres é autenticar uma nova revelação, de
modo que, finalizada a revelação, cessam também os milagres. Isso é arbitrário e insustentável.
Deus opera milagres por diversos motivos, em períodos de maior ou menor revelação, com base
em promessas e alianças já estabelecidas. O que Deus fez por Israel de fato provou quem ele
era, mas suas motivações também incluíram compaixão pelo sofrimento do povo e a fidelidade
às suas promessas a Abraão. Outra motivação foi glorificar a si mesmo diante de toda a terra ao
punir o faraó, e o público que testemunharia esse espetáculo envolveu pessoas que nunca
conheceram a revelação de Deus. Os habitantes de Jericó, por exemplo, nunca conheceram os
Dez Mandamentos, mas já temiam a Deus por terem ouvido falar do que ele fez aos egípcios.
De modo que, antes de precisarmos considerar toda a informação da Escritura sobre esse tema
e restringindo-nos apenas aos eventos do êxodo, essa tese cessacionista desmorona. Deus opera
milagres por amor e misericórdia e para cumprir suas antigas promessas a Abraão, não para
autenticar novas revelações ou novas alianças.
O cessacionismo é simplesmente deísmo, apenas com a data da “corda do relógio” sendo após
o primeiro século, em vez de ser após a criação do mundo. Para todos os fins práticos e para
toda a experiência presente, virtualmente não há diferença. Cessacionistas vivem como se Deus
não fizesse milagres e apenas sustentasse o status quo. Eles oram preparados para não serem
atendidos, esperando frustração e “disciplina por meio do sofrimento”. Para eles, Deus não tem
sabor de milagres e respostas, mas apenas de mistério e dor.
É instrutivo que o verso mencione a revelação da lei e a operação de milagres na mesma frase.
Uma invectiva retórica de praxe entre os cessacionistas é que a busca por milagres está, de
algum modo, prejudicando a busca por santidade. No discurso público deles, a cristandade se
divide entre aqueles que querem milagres e aqueles que querem santidade. Na mente
conflituosa desses homens, as igrejas que pregam milagres, bênçãos e prosperidade estão
cheias de gente interesseira, ao passo que as verdadeiras igrejas são aquelas que proclamam o
arrependimento, a salvação e a vida cristã séria. Esse versículo é suficiente para reduzir ao pó
essa perspectiva mentirosa. A obediência à lei de Deus está ligada à expectativa de contemplar
milagres. O mesmo Deus nos deu uma lei e uma garantia de poder milagroso. Essas são as duas
asas da verdadeira piedade, do real conhecimento de Deus: lei – o que nós devemos fazer para
Deus – e milagres – o que Deus fará por nós, se crermos.
Com efeito, os cessacionistas prejudicam a própria causa que alardeiam, porque não é possível
haver “arrependimento” e “santidade” sem a fé para a operação de milagres. Isso porque a
recepção e a operação de prodígios é não apenas uma promessa, mas uma ordem. Faz parte da
responsabilidade cristã crer nessas coisas. Jesus ordenou que curássemos enfermos,
ressuscitássemos mortos e expulsássemos demônios. Tiago deu ordens explícitas sobre a unção
com óleo e a oração da fé para a cura. Paulo comandou a busca e o desejo pelo poder de
profetizar. Quando os discípulos sofreram as primeiras ameaças do Sinédrio, eles oraram para
que Deus os enchesse de coragem para pregar o evangelho enquanto ele estendesse sua mão
para operar curas, sinais e prodígios. A detração desses deveres e a recusa por fazer essas
orações constituem pecado de incredulidade. Esse é o pecado do qual Jesus mais acusou as
pessoas, mas os cessacionistas tornaram inaplicável essa acusação. Sob a teoria cessacionista,
ninguém jamais pode pecar por falta de fé. Onde está, então, o arrependimento? Onde está a
busca por Deus e o caminho da santidade? Não se deixe enganar. Aqueles que tanto enfatizam
santidade e piedade ao custo de depreciar ou negligenciar os milagres não estão pregando o
que Deus chama de santidade e piedade, mas somente o legalismo da sua tradição impotente e
estoica. A Bíblia nunca critica ninguém por esperar demais em Deus, ou por pensar demais em
milagres e intervenções extraordinárias de Deus. A crítica bíblica sempre é contra as pessoas
que fazem isso de menos. É impossível querer demais dos milagres. Com toda a educação e a
cultura cientificista que recebemos desde o berço, a nossa luta é sempre para superarmos o “de
menos”, nunca para não enfatizarmos demais.
Talvez um ou outro versículo venha à sua mente agora, mas note bem: aqueles que
proclamavam vitórias e livramentos e que quiseram milagres à parte da santidade sempre foram
repreendidos por aquilo que realmente estava errado. Por exemplo, os israelitas que subiram
para conquistar Canaã mesmo após Deus ter decidido entregá-los à morte no deserto, ou os
judeus que insistiam que os babilônios nunca conquistariam Jerusalém, ou aquela multidão que
continuou seguindo Jesus desejando mais pão em João 6, ou aqueles “muitos” que dirão a Jesus,
no dia do juízo, que operaram milagres e expulsaram demônios em seu nome apenas para ouvir
um “nunca vos conheci”. Em todos esses casos, é muito claro que o erro dessas pessoas não
estava naquilo que eles estavam buscando, mas sim naquilo que não estavam. O problema
dessas pessoas era querer as bênçãos e os milagres enquanto rejeitavam a obediência à lei de
Deus, enquanto negligenciavam a própria salvação. A resposta de Jesus a esses homens é
“Afastem-se de mim, vocês que praticam a iniquidade”, e não “Afastem-se de mim, vocês que
foram fanáticos demais por só pensarem em milagres”. Se alguma igreja prega bênçãos e
milagres e, ao mesmo tempo, prega a antinomia e a libertinagem, então elas serão condenadas
por Jesus. Mas os cessacionistas não são melhores, dado que fazem o exato oposto.
Particularmente, eu não creio que nenhuma das igrejas ou ramos da cristandade pregue
corretamente sobre a lei de Deus, como já argumentei no capítulo anterior. O ponto é que essa
antítese entre milagres X santidade não é bíblica, e é absurdo que qualquer cristão enxergue
uma separação naquilo que Deus uniu.
Meu caro leitor, saiba que Deus é tão zeloso pela sua lei quanto é pelos seus milagres. A
operação de sinais e maravilhas é o modo normal de Deus agir no mundo. Nunca se envergonhe
dessa perspectiva. Nunca se acanhe de querer muito de Deus. Ele gosta de fazer milagres ainda
mais do que você gosta de testemunhá-los. Sempre é um bom momento para pedir um milagre.
Sempre é uma boa ocasião para invocar o nome de Jesus para que coisas grandiosas aconteçam.
Nós vencemos as forças opressivas do mundo natural pelo poder sobrenatural de Deus. Os
tradicionais irão zombar de você, mas Deus lhe dará a sua aprovação. E a sua vida será muito
melhor, muito mais cheia da bondade de Deus, do que a vida dos sofredores e deprimidos que
rejeitam os prodígios de Deus.
Condescendência
O Senhor é misericordioso e compassivo; longânimo e assaz benigno. Não repreende
perpetuamente, nem conserva para sempre a sua ira. Não nos trata segundo os nossos pecados,
nem nos retribui consoante as nossas iniquidades. Pois quanto o céu se alteia acima da terra,
assim é grande a sua misericórdia para com os que o temem. Quanto dista o Oriente do Ocidente,
assim afasta de nós as nossas transgressões. Como um pai se compadece de seus filhos, assim o
Senhor se compadece dos que o temem. Pois ele conhece a nossa estrutura e sabe que somos
pó. Quanto ao homem, os seus dias são como a relva; como a flor do campo, assim ele floresce;
pois, soprando nela o vento, desaparece; e não conhecerá, daí em diante, o seu lugar. Mas a
misericórdia do Senhor é de eternidade a eternidade, sobre os que o temem, e a sua justiça,
sobre os filhos dos filhos, para com os que guardam a sua aliança e para com os que se lembram
dos seus preceitos e os cumprem.
Nesse trecho longo, o salmista altera suavemente a forma das suas reflexões sobre os benefícios
de Deus. Ele se concentra mais no ser de Deus e na sua bondade geral do que em atos específicos
de Deus por nós, mas ainda mantendo o tema dos benefícios. A meditação sobre o ser e os
atributos de Deus necessariamente evoca a significância dessas coisas para a nossa vida.
A Bíblia quer que pensemos sobre os atributos de Deus dessa maneira. Com muita frequência,
os teólogos buscam descrever características como “onipotência” ou “onisciência” sob uma
perspectiva abstrata, filosófica e apologética. Isso não está errado, mas é certamente
incompleto. A chave para o verdadeiro conhecimento de Deus é entender como os atributos de
Deus estão pactuados conosco. Então, por exemplo, em Mateus 6, Jesus fala sobre a onisciência
de Deus – “o vosso Pai que está no céu sabe de tudo o que precisais” – e disso extrai a promessa
de prosperidade e sustento para nós. Em outro lugar, ele afirma a onipotência de Deus – “Não
há impossíveis para Deus” – e, pouco depois, afirma também “Tudo é possível ao que crê”. A
onipotência e a soberania de Deus são atributos que garantem necessariamente o atendimento
a todo tipo de orações, até das mais extraordinárias. Os atributos de Deus não são para que ele
seja glorificado sozinho enquanto permanecemos como “meras criaturas”. Por causa da sua
aliança, a glória dos atributos de Deus é a nossa glória. Se você entender isso, você entendeu a
teologia da aliança.
Assim, o salmista inicia esse trecho fazendo uma declaração não sobre um benefício específico
de Deus, mas sobre o próprio Deus: “O Senhor é misericordioso e compassivo; longânimo e assaz
benigno”. Misericórdia, compaixão, longanimidade e benignidade podem ser estudadas
sistematicamente, com definições precisas ao estilo de um dicionário. Mas não é isso que o
autor faz aqui. Como ele está meditando e conferenciando com a sua própria alma, ele
exemplifica e ilustra a realização desses atributos por si mesmo e para os homens em geral. O
que Deus faz conosco em função desse caráter?
Primeiro, ele nos trata com condescendência, em um bom sentido. Ele sabe quão frágeis somos
e, por isso, refreia a demonstração da sua santidade diante de nós. Como ele disse a Moisés,
ninguém pode ver o rosto de Deus e continuar vivo. Ele não permite que a sua santidade nos
consuma. Ele faz cessar a sua ira, detém a sua repreensão e nos trata de modo desproporcional
– beneficamente – à gravidade dos nossos pecados.
Pense bem nisso. Cada pecado que cometemos merece a punição imediata e plena. Se Deus nos
tratasse assim, nós nem chegaríamos a nascer e a raça humana teria se extinguido no instante
em que Adão comeu o fruto proibido. Nós já somos concebidos em pecado, e Deus nos permite
continuar existindo mesmo assim. E quanto aos pecados que cometemos, quem pode enumerá-
los? Quantos pecados você já cometeu, desde que nasceu? Quantas vezes você ignorou ou
desrespeitou a Deus? Quantas vezes você proferiu palavras destrutivas ou obscenas? Quantas
vezes desejou o mal a alguém, sentiu inveja ou ódio? Quantas vezes teve pensamentos impuros?
Quantas vezes usou o seu dinheiro para propósitos egoístas e fechou a mão para socorrer os
aflitos? Quantas vezes duvidou do poder e da bondade de Deus, sentindo ansiedade e medo?
Se Deus registrasse cada pecado que cometemos na nossa vida, a lista seria insuportavelmente
longa. Agora, considere que, para cada um dos milhares de pecados que você cometeu, Deus
decidiu não incendiar você naquele momento. A cada dia, em cada ofensa e transgressão, Deus
disse a si mesmo: “Calma. Deixe estar. Ele é muito frágil e requer cuidados especiais”. Que
magnífica paciência!
A paciência e a compaixão de Deus são tão grandes que os ímpios chegam a duvidar da justiça
de Deus. Eles transformam esse grande benefício de Deus por eles em uma acusação de que
Deus não se importa com o mal no mundo. Esse é o nível da perversidade do homem. Eles
reclamam do “problema do mal”, ficam indignados com toda a maldade e as injustiças no
mundo, e esbravejam “Onde está Deus?”. Uma resposta apropriada de Deus seria: “Eu estou
bem aqui, deixando você continuar respirando para reclamar de mim”. O ímpio se acha justo e
enxerga maldade somente nos outros e no ambiente. Se ele visse a si mesmo como Deus o vê,
agradeceria muito por Deus delongar o seu julgamento.
Pedro afirma que a “demora” para o juízo de Deus não é um sinal de que Deus deixou para o dia
de São Nunca, mas é precisamente para que os homens tenham tempo para se arrependerem
(2Pe 3.9). Paulo diz a mesma coisa quando declara que é a bondade de Deus que nos conduz ao
arrependimento (Rm 2.4). Se Deus executasse juízo imediato sobre cada pecado, estaríamos
destruídos antes que pudéssemos nos arrepender. Portanto, devemos abordar esse timing na
execução da justiça de Deus não acusando-o de ser indiferente e, obviamente, não com
presunção, e sim com arrependimento dos pecados e louvor pela bondade de Deus que deu
espaço para amadurecermos e nos aperfeiçoarmos.
Você já pecou hoje? Se sim, como você ainda está vivo e podendo pensar nisso e refletir na
misericórdia de Deus? Faça a si mesmo essa pergunta todos os dias, e conhecerá o grande amor
de Deus por você.
Segundo, ele afasta de nós os nossos pecados. O salmista diz que Deus lança para longe de nós
as transgressões do mesmo modo como o Oeste está longe do Leste. Essa não é uma distância
que possa ser medida, pois Oeste e Leste referem-se a direções absolutamente opostas entre
si, não a pontos topográficos. A intenção é ilustrar que a distância entre nós e o nosso pecado é
infinita, porque Deus decide fazer isso conosco.
“Distância infinita” é algo que os teólogos gostam de afirmar que há entre nós e Deus. Eles
utilizam o seu princípio da “distinção entre Criador e criatura” para negar a nós o conhecimento
unívoco da mente de Deus, para nos desanimar com uma lista de coisas que não podemos fazer
nem entender e para nos aterrorizar com um conceito de “reverência” que tira de nós qualquer
segurança de que seremos bem recebidos por Deus na sala do trono. Então, eles afirmam: há
uma distância infinita entre Deus e o homem. Pior ainda, há uma distância infinita entre o
pecador e o Deus Santo. Portanto, muito cuidado ao falar com Deus! Sempre entre confessando
a sua depravação. Tenha consciência de que você é um pecador. Somente após um discurso de
autodepreciação, peça alguma coisa a Deus, mas não tenha muita esperança.
Agora, é claro que devemos confessar nossos pecados a Deus. E é claro que devemos, inclusive,
pedir perdão por aqueles pecados que ainda não notamos, como o Salmo 19 mostra. Mas nós
não podemos rotineiramente nos aproximar de Deus definindo a nós mesmos como pecadores,
depravados ou idólatras. Em vez de focar em quão distante você está de Deus, foque em quão
distante está você dos seus próprios pecados. Este salmo diz que Deus faz isso por você – lança
os seus pecados tão longe que você mal pode enxergá-los. Se você de fato recebeu a salvação
em Cristo, Deus não olha para você como um pecador. Ele olha como alguém tão justo e puro
quanto o seu próprio Filho unigênito. Pare de achar que você precisa declamar a sua depravação
natural toda vez que pede alguma coisa a Deus. Essa atitude chega a ser desonrosa, porque é
como se você pensasse que Deus é um rei severo que só atende quem lambe o pó do chão. A
Bíblia quer que você se enxergue como quem já é de casa, como um príncipe que mora no
palácio, não como um mendigo de ficha suja. Se nem Deus está pensando mais no seu pecado,
por que você ainda está? Se o sangue de Jesus remove até a consciência do pecado, por que
você ainda o traz à memória o tempo todo, como se você houvesse sido lavado apenas com
sangue de touros e bodes? Você acha que está trazendo pecados consigo quando se aproxima
do trono de Deus? Mas Deus olha para você e diz: “Pecados? Que pecados? Aqueles lá longe?
Não estou enxergando. Empresta uma luneta?”.
Isso significa que o nosso relacionamento com Deus é mais íntimo do que qualquer outro que
possamos ter na terra. Nós, com frequência, ofendemos uns aos outros, ou proferimos alguma
palavra inapropriada e precipitada. Às vezes, isso é resolvido com um pedido de perdão. Mas
muitas vezes, mesmo havendo perdão, o relacionamento não volta a ser o mesmo. Podemos
não mais sentir a mesma vontade de nutrir a amizade como antes. Podemos impor barreiras por
motivos de desconfiança. É inevitável que isso aconteça em ao menos algumas instâncias. Por
que fazemos isso? Porque a ofensa do outro é trazida à memória. Porque o ofensor, por mais
que esteja arrependido e restaurado, ficou marcado com a ofensa. Por outro lado, se Deus afasta
de nós os nossos pecados a uma distância infinita, isso significa que a sensação de “clima
estranho” nunca irá se aplicar a Deus. Nós nunca precisaremos nos sentir embaraçados ou com
algum nervosismo por causa do nosso passado, nem mesmo por algum pecado que cometemos
reiteradamente. Deus nunca irá nos olhar com frieza. Ele sempre irá nos ver totalmente
distantes das nossas transgressões. E, se o perdão de Deus por nós é assim, devemos
empreender os maiores esforços para que nossos relacionamentos terrenos se aproximem
desse padrão.
Terceiro, Deus tem por nós um amor de pai. Quando meus filhos me desobedecem, eu os
disciplino, mas depois dou o assunto por encerrado e não penso mais nisso. Há pais perversos
que sobrecarregam os filhos com o peso dos seus erros e defeitos, sempre censurando,
criticando, esmagando-os com o fardo de um ideal inatingível. Deus não é assim. Ele é um Pai
de amor e se compadece de nós. Ele nos vê como filhos que, por mais defeitos que tenham,
devem receber carinho e cuidado. Deus tem paciência para ensinar o nosso coração pouco a
pouco. Ele não nos faz sofrer sem motivo. Ele não vira as costas para nós a cada imperfeição que
apresentamos. Ele nos ama. Ele tem um coração imenso em graça e compaixão.
Quarto, a misericórdia de Deus ultrapassa o nosso tempo de vida na terra. O salmista contrasta
a fugacidade da vida do homem com a perpetuidade do amor de Deus. Cada um de nós, por
mais que viva sob a graça e as bênçãos de Deus, partirá deste mundo. Isso significa que a
misericórdia de Deus também partirá conosco? Certamente não. Pois há algo de nós que
deixamos neste mundo quando morremos, que é a nossa descendência. E, por amor a nós, a
misericórdia de Deus também permanece sobre essa parte nossa que continua, os nossos filhos
e netos. Como o segundo mandamento afirma: Deus estende a sua misericórdia a mil gerações
dos que o amam e guardam os seus mandamentos.
Os pais precisam ter essa consciência. Infelizmente, muitos tacitamente abandonaram o cultivo
da justiça e da educação piedosa por suporem que o arrebatamento é iminente e que o mundo
irá acabar em pouco tempo. O seu alvo passou a ser a mera sobrevivência espiritual dos seus
filhos, e não mais a maturidade plena. Obviamente, isso é insustentável, de modo que toda uma
geração de filhos abandonou a professa fé dos seus pais, como ocorreu nos dias em que a
geração de Josué morreu. Eu nego que esses pais tenham qualquer fé de qualidade, porque
alguém verdadeiramente pactuado com Deus não irá ser desleixado com a criação dos seus
filhos, com a perpetuidade do legado de retidão para as próximas gerações.
Ademais, a noção de que o plano de misericórdia e justiça de Deus é muito mais longo do que a
nossa vida particular deveria inserir este princípio educacional no seu programa: meus filhos
precisam de Deus, e não de mim. Eu não sou necessário; Deus é. Eu morrerei e serei enterrado
pelos meus filhos, mas Deus estará com eles para sempre. Faça a si mesmo a seguinte pergunta:
se eu morrer hoje, meus filhos continuarão servindo a Deus? Se eu morrer bem velhinho e meus
filhos forem adultos jovens, eles permanecerão naquilo que aprenderam? Ou será que estão
apenas mantendo as aparências por respeito a mim? Isso é essencial para a expansão do reino
de Deus. Muitos filhos adolescentes e adultos só preservam um comportamento externo cristão
para não escandalizar os seus pais idosos. Eles foram treinados para respeitar os pais mais do
que para respeitar Deus. Se você quer criar filhos que usufruam da misericórdia
transgeneracional de Deus e a passem adiante aos seus netos, então deixe bem claro que,
relativamente a Deus, você não importa. Não é a sua personalidade ou sua autoridade como pai
ou ancião que permanecerão. A aliança de Deus é a constante sobre cada geração fugaz.
Neste capítulo, espero que você tenha aprendido melhor sobre como Deus efetivamente se
mostra compassivo, misericordioso e longânimo.
Soberania18
Nos céus, estabeleceu o Senhor o seu trono, e o seu reino domina sobre tudo.
Deus é soberano. Deus reina sobre todas as coisas. Todo cristão professa isso, e até mesmo
alguns descrentes. Pouquíssimos deles na história, todavia, puderam afirmar isso sem inserir
exceções. E estes que foram ousados o bastante para declarar a simples verdade de que Deus é
soberano sobre absolutamente tudo sem exceção foram perseguidos e condenados pela religião
oficial.
A quase totalidade da cristandade tem afirmado alguma forma de sinergismo. Entram nesse
grupo os católicos e os arminianos. Eles insistem que o homem tem livrearbítrio, embora a Bíblia
nunca afirme isso, e que Deus não “força”, “coage” ou “viola” esse livrearbítrio. Deus pode
prover algumas influências já conhecendo de antemão se elas irão funcionar ou não, mas a
criatura permanece livre de Deus se assim desejar.
Então, há os calvinistas, reformados e outros monergistas que afirmam que Deus de fato
predestina pessoas de modo irresistível e inescapável. Ele irá causar todos os eventos na criação,
determinar o destino do homem e salvar aqueles que ele quiser. Ainda assim, restam várias
ressalvas. Muitos deles, seguindo o Sínodo de Dort, afirmam o infralapsarianismo. São aqueles
que, para não escandalizar os sinergistas, insistem que Deus predestina para a salvação alguns
dentre uma “massa caída”, enquanto os demais são apenas deixados caídos como estão. Isso
tem algum apelo emocional, pois faz parecer que Deus não fez ninguém ir para o inferno; ele
usou o seu poder soberano apenas para salvar, não para condenar. Além disso, parece ser
consenso entre os reformados que Deus não causa ninguém a pecar; ele apenas “permite”
passivamente, ou “mantém sob o seu controle” o pecado do homem, mas deixando, de algum
modo, uma margem para que o pecado venha da livre vontade humana. Disso decorre que Deus
não é o “autor do pecado”, e que a origem do pecado – seja no coração de Adão, seja no coração
de Satanás – é um mistério.
Eu costumo deixar dicas hermenêuticas para os meus leitores, especialmente aquelas que não
são de senso comum. Aqui vai uma: teologia não é complicada. Se você está tentando entender
uma doutrina bíblica que parece não fazer sentido, ou se você estiver lendo um autor gastando
páginas demais para juntar peças e ainda deixando pontas soltas, é um sinal de que você precisa
recomeçar tudo e traçar outra linha de pensamento. Você não precisa de mais detalhes ou maior
profundidade no complexo construtivo em que você se prendeu. Você precisa sair do complexo,
examinar os fundamentos, e construir outra coisa.
Neste caso, por exemplo, a premissa que mais entorta o edifício é a de que responsabilidade
pressupõe liberdade. Monergistas e sinergistas pensam assim. Os sinergistas aplicam essa
premissa ao seu sistema de salvação inteiro, enquanto monergistas aplicam isso aos decretos
18
Para este capítulo, confira The Author of Sin e Predestination and Miracles, de Vincent Cheung.
Disponíveis em www.vincentcheung.com.
eternos de Deus que envolvem o pecado. Mas essa premissa simplesmente não é bíblica. Você
pode achar que ela é intuitiva, mas a intuição humana também foi cegada pela queda. O homem
não precisa ter livrearbítrio – nem “livre agência”, que é uma invenção estúpida – para ser
responsabilizado pelo seu pecado. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. A Bíblia diz
claramente que Deus é o oleiro e nós somos o barro, e que o oleiro pode fazer com o barro o
que ele quiser. Quando Paulo traz exatamente essa questão em Romanos 9 – “Como pode Deus
culpar o homem, se ninguém pode resistir à sua vontade?”, ele não respondeu com um “Mas
veja bem, o homem não deixa de ser livre porque...”, e sim com um “Quem és tu para discutires
com Deus?”. É extremamente simples. Deus responsabiliza o homem porque ele é soberano e
ele pode responsabilizar do modo como quiser.
Outra ideia idiota que decorre dessa premissa é a de que Deus não viola ou força a vontade das
suas criaturas. Gastaram-se páginas e livros demais para explicar isso, quando é uma total perda
de tempo. Realmente, Deus não viola a vontade das suas criaturas, não porque ele as deixa
livres, e sim porque ele as controla tão exaustivamente que o conceito de “violar”, “coagir” ou
“forçar” não se aplica. Se Deus determina a vontade das criaturas, em que sentido ele poderia
forçar algo? A vontade do homem é o que Deus decide que seja. É diferente do que conhecemos
pelas leis humanas. Na lei do homem, uma pessoa pode não ser condenada se ela for forçada
por um bandido a cometer um crime – se houver uma arma apontando para a sua cabeça, por
exemplo. Mas essa situação não se compara com a de Deus, porque o malfeitor pode controlar,
no máximo, as ações externas das suas vítimas. As vítimas não querem fazer o que estão sendo
forçadas a fazer. Deus, contudo, determina o querer e o realizar (Fp 2.13). O homem
genuinamente tem vontade, mas Deus determina exatamente que vontade é essa. Se os
teólogos da história houvessem entendido isso, não teriam perdido tanto tempo e feito tanta
confusão com esse problema do “violar a vontade”.
Deus é o único ser eterno e soberano, logo não é possível que qualquer coisa aconteça sem que
ele efetivamente cause e determine. Todas as complicações envolvendo a passividade de Deus
– de que Deus reprova passivamente, permite passivamente ou apenas deixa a humanidade no
estado de condenação em que ela mesma se colocou – são descartáveis. Não pode haver
qualquer ação diante de um Deus passivo, do contrário haveria algum poder autônomo além de
Deus e independente de Deus sob algum aspecto. Isso é logicamente impossível e equivale a
afirmar que há outros deuses, com sua esfera de soberania à parte de Deus. A Bíblia nunca
apresenta os decretos da reprovação ou do pecado dessa maneira. Sempre os termos são ativos.
Deus endurece o coração do faraó, não permite que ele se endureça sozinho. Deus levantou o
faraó, não apenas controlou circunstâncias que aumentariam a probabilidade do faraó se
levantar sozinho. Deus é comparado a um oleiro que molda o barro e faz alguns para a honra e
outros para a desonra. Ele é comparado a um lenhador que maneja um machado. O homem é
sempre comparado a um objeto. A reclamação padrão do “mas nós não somos robôs”, ou “mas
nós não somos marionetes” demonstra o grau de alheamento em relação à linguagem bíblica.
Você não quer ser um robô ou uma marionete, mas aceita então ser um barro ou um machado?
O barro e o machado parecem ter alguma vantagem intelectual ou volitiva sobre um robô ou
um fantoche? Ora, cresça! Você é um objeto sim! Você não se criou, não traçou o seu destino,
não tem poder nenhum sobre si mesmo à parte da vontade de Deus.
A soberania de Deus não apresenta mistério nenhum. Deus decretou ativamente todas as coisas,
até cada um dos menores pensamentos humanos. Deus causa ativamente o cumprimento dos
seus decretos, determinando unilateralmente cada evento físico, mental e espiritual da sua
criação. Ele determina cada pecado, até os pecados originais de Satanás e Adão. Ele é então o
“autor do pecado”? Sim, pois ele é o autor de tudo o que existe. “Mas isso não faz de Deus mau,
ou um aprovador do pecado?”. Claro que não. Ele determina que cada pecado seja cometido e
condena cada criatura que os comete. Ele odeia o pecado, e ele castiga no inferno – ou no
sacrifício de Cristo – o pecado que ele mesmo decidiu que aconteceria. No caso da reprovação,
ele faz isso para manifestar a glória da sua justiça aos eleitos. Ele odiou Esaú antes mesmo que
Esaú cometesse pecado. Por odiar Esaú, Deus determinou que Esaú pecasse e determinou punir
Esaú por ter cometido pecado. E ele determinou a existência de humanos objetos do seu ódio
para que os objetos do seu amor o conhecessem melhor e o louvassem melhor.19
Isso tudo está em Romanos 9. Onde está o mistério? O único mistério é por que você ainda quer
ser chamado de cristão se você não concorda com Deus e endurece o coração contra a revelação
dele. Está tudo perfeitamente explicado, sem qualquer contradição ou paradoxo. Aceite isso,
ame isso, ou pereça no inferno com a sua revolta. Se você quer amadurecer, você precisa aceitar
a solução de Deus sobre esse assunto, superar seus entraves emocionais e seguir em frente.
Essa questão toda não está no pináculo dos problemas teológicos insolúveis, e sim na primeira
lição do nível principiante da escola de Deus.
Tanto isso é verdade que aqueles que se fixam nesse assunto como a medida máxima do que o
seu tônus intelectual pode suportar jamais conseguem processar as demais verdades do Salmo
103. Eles ficam exaustos com o processamento da doutrina básica da soberania de Deus e não
conseguem fazer a próxima pergunta: “Qual a relação entre a soberania de Deus e os benefícios
que ele tem para mim?”. Então eles abordam os benefícios de Deus como um assunto à parte.
Eles concebem a soberania de Deus como um mistério imprevisível, logo os benefícios de Deus
são incertos. A reflexão sobre a soberania termina em névoas, em um mundo de meras
possibilidades, porque a certeza deles não pode alçar mais longe. No entanto, os benefícios de
Deus são exatamente os contornos e texturas dessa neblina. Eles dizem exatamente o que Deus
faz em nós com a sua soberania. De modo que a soberania de Deus é a doutrina que garante os
benefícios, que nos dá a plena certeza deles, sem hesitação.
Pense bem. O salmo inteiro é sobre os benefícios de Deus. Até mesmo a menção dos atributos
de Deus pretende demonstrar como nós nos beneficiamos do caráter de Deus. Não é plausível
que, de súbito, a menção da soberania de Deus intente nos fazer pensar nessa questão
desvinculada do nosso ganho. Não é concebível que o salmista, após relatar todos os benefícios
de Deus, mencione que Deus reina sobre todas as coisas de um modo imprevisível e
desconhecido. Ao contrário: Deus irá derramar sobre nós todos os seus benefícios precisamente
porque ele estabeleceu o seu trono no céu e domina sobre tudo. Os incrédulos dizem: “Deus é
soberano. Ele pode não nos curar, não nos fazer prosperar, não proteger a nossa vida, não nos
libertar de opressões, porque tudo depende da vontade soberana dele”. Mas a mensagem
bíblica é: “Deus é soberano, portanto, nada irá impedi-lo de nos curar, fazer prosperar e
abençoar de todas as maneiras! Nenhum poder do mal irá resistir à sua mão benfazeja! Se ele
não fosse soberano, talvez os seus milagres e maravilhas sofreriam algum atraso ou alguma
falha. Mas ele é o Todo-poderoso! Ele fará tudo porque ele pode fazer tudo!”. Paulo disse que
Deus é por nós. Nós temos o poder supremo sobre todo o universo ao nosso favor! Por que você
viveria como se esse poder não lhe dissesse respeito?
Na nova aliança, isso fica ainda mais claro. Pedro afirma que a ressurreição, ascensão e
entronização de Jesus no céu explicam como ele pôde enviar o Espírito Santo para cumprir a
promessa de conceder curas, visões, sonhos, profecias e línguas para todos (At 2.33; 3.9-12). A
19
Confira o meu Inferno: A Câmara de Tortura de Deus para uma exposição mais detalhada.
soberania de Cristo como o Rei-Messias implica necessariamente na concessão de poder
milagroso e carismático. Nenhum cristão pode afirmar a simples confissão de que “Jesus Cristo
reina” se ele nega que temos acesso a esse poder de milagres e revelações. A soberania de Deus
e a entronização de Jesus são a resposta afirmativa para a pergunta, “A operação de milagres e
a recepção de bênçãos para esta vida ainda continuam?”.
Meu conselho para você é que pare de dar ouvidos àqueles que falam tanto sobre soberania de
Deus e predestinação enquanto professam qualquer versão do cessacionismo. Essas pessoas
não entenderam nada sobre o assunto. Além dos erros já mencionados sobre o mero tópico em
abstrato – infralapsarianismo, reprovação passiva, a negação de que Deus é o autor do pecado
– elas também perverteram totalmente o propósito da predestinação. Somos predestinados
para receber todos os benefícios de Deus – TODOS, sem nenhum só de fora. Somos
predestinados para o perdão dos pecados. Somos predestinados para a cura das enfermidades.
Somos predestinados para a imunidade contra a morte precoce. Somos predestinados para uma
vida de felicidade inabalável e extrema. Somos predestinados para a prosperidade financeira.
Somos predestinados para uma velhice vigorosa, bela e prazenteira. Somos predestinados para
a libertação dos poderes terrenos e espirituais que nos oprimem. Somos predestinados para
vivermos em santidade e retidão conforme a lei de Deus. Somos predestinados para operarmos
os milagres de Deus. Somos predestinados para um tratamento especial, paciente e carinhoso
de Deus. Essa é a verdade bíblica. Os calvinistas e reformados afirmam a predestinação, mas
negam quase todos os seus efeitos e propósitos. Será que isso os torna melhor do que os
arminianos? Será que isso os torna melhor do que os católicos? Só porque eles tecnicamente
negam o livrearbítrio e falam algumas frases corretas sobre a eleição incondicional e coisas
assim? Mas e a tremenda hipocrisia ao combaterem exatamente os destinos para os quais
estamos predestinados? E a sua soberba de se intitularem mestres e guias para os cegos, quando
a sua compreensão sobre o assunto está tão profundamente corrompida? Basta! Pare de ouvi-
los. Eles não irão ajudá-lo. Eles irão atrapalhar, e muito. Se você tem dúvidas sobre o assunto da
predestinação, não pergunte a um reformado ou a outro cessacionista. Leia a Bíblia com atenção
e pergunte a outros que conhecem o verdadeiro poder de Deus.
Doxologia
Bendizei ao Senhor, todos os seus anjos, valorosos em poder, que executais as suas ordens e lhe
obedeceis à palavra. Bendizei ao Senhor, todos os seus exércitos, vós, ministros seus, que fazeis
a sua vontade. Bendizei ao Senhor, vós, todas as suas obras, em todos os lugares do seu domínio.
Bendize, ó minha alma, ao Senhor.
O salmo termina como começou. O louvor a Deus nos prepara para a reflexão sobre as suas
bênçãos, e, inversamente, refletir sobre as suas bênçãos nos impulsiona a irromper em louvores.
Esse é mais um motivo para que você não se esqueça de nenhum dos benefícios de Deus: você
o adorará melhor. A recepção de milagres e bênçãos resulta em um coração mais grato e mais
ardente por Deus. São mentirosos, filhos do diabo, todos aqueles que sugerem o oposto, que o
foco nas bênçãos de Deus torna o crente mais egocêntrico e mesquinho.
O autor conclama os anjos e o restante da criação a louvarem a Deus. Há uma pergunta que, na
minha experiência limitada, eu nunca vi sendo feita: por que exatamente o homem manda que
os anjos e as demais criaturas louvem a Deus? Os anjos já não estão fazendo isso o tempo
inteiro? Que diferença faz se um humano disser essas coisas? Acredito que seja em virtude da
autoridade que o homem recebeu sobre a criação. Os homens, não os anjos, são os regentes de
Deus sobre o mundo. Isso é claro desde que Deus criou o homem e a mulher e lhes deu domínio
sobre tudo. O Salmo 8 mostra que, embora o homem seja menor do que os anjos em vários
aspectos, ele foi coroado de glória e honra. A carta aos Hebreus diz que esse salmo se cumpriu
em Cristo, de modo que, em união com ele, podemos ser restabelecidos à posição de reis sobre
a terra. Somos menos poderosos que os anjos em nossa essência material, mas estamos acima
deles em autoridade e honra, porque Cristo é o nosso cabeça, não o deles. É, portanto,
perfeitamente adequado que nós, o sacerdócio real, chamemos os anjos para continuarem
louvando a Deus pelos seus benefícios.
Considere também que, como Pedro diz, os anjos anseiam por contemplar a glória do evangelho
(1Pe 1.12). Este salmo expôs o evangelho. O evangelho é a mensagem de que Cristo tomou sobre
si a maldição da lei para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios (Gl 3.13-14). Todos os
benefícios deste salmo são o evangelho. Não são acessórios ou secundários ao evangelho, antes
cada um dos pontos estudados acima diz respeito ao evangelho em igualdade com os demais.
Portanto, os anjos realmente amam conhecer e contemplar a cura das enfermidades, o perdão
dos pecados, a prosperidade financeira, a longanimidade de Deus, os milagres de Deus – todos
os itens deste salmo. Os anjos sabem apreciar essas coisas e perceber nelas a glória de Deus na
face de Cristo. E eles não se cansam disso.
Todos os seres, especialmente os anjos, bendizem ao Senhor pelos seus benefícios. As únicas
criaturas que não fazem isso são os demônios e os seus ministros. Portanto, todos aqueles que
atacam, depreciam ou fazem pouco caso de qualquer dos benefícios deste salmo são inspirados
pelo diabo. É impossível servir a dois senhores, ou estar no coro dos anjos e no coro dos
demônios ao mesmo tempo. Se os anjos bendizem ao Senhor por ser aquele que “sara todas as
enfermidades”, então, por exclusão de hipóteses, os pregadores que maldizem a crença na cura
de todas as enfermidades ou que anunciam um deus que se glorifica ao se recusar a sarar todas
as enfermidades são pregadores de Satanás. Com certeza estão contra os anjos de Deus, contra
o salmista e contra toda a palavra de Deus.
Você acha que eu exagero? Eu me lembro de quando descobri que Martinho Lutero, por muito
menos, disse que os anabatistas não eram homens possuídos por demônios, mas eram
demônios possuídos por outros demônios piores!20 Achei a expressão engraçada pelo seu
exagero óbvio. Mas, de fato, por que economizar invectivas, quando se trata de defender o
evangelho contra aqueles que querem forçar o povo de Deus a seguir outro evangelho? Por que
ser gentil e cordato, quando o que está em jogo é a verdadeira fé? Nenhum autor bíblico seguiu
o espírito socrático do diálogo amigável. Em comparação com a linguagem dos profetas, dos
apóstolos e de Jesus, as minhas críticas são de uma mocinha. Eu seria criticado por eles por ser
muito mole.
A intenção deste livro foi prover um caminho de libertação da falsa religião para você. Eu quero
que você conheça o verdadeiro Deus, o Deus dos muitos benefícios, o Deus que garantiu todos
os benefícios por um contrato de sangue, o sangue do seu próprio Filho. Esse deus que a
cristandade tem pregado, que só abençoa de vez em quando, que destrói bênçãos apenas para
ensinar alguma lição estoica, e que ainda instila culpa na sua consciência por desejar bênçãos –
corte a cabeça dele e o esmigalhe com uma marreta. Ele é um ídolo. Ele não pode ajudá-lo. Aliás,
esse é o ponto dele – ele não quer ajudá-lo. Saia dessa Sodoma antes que o fogo do céu a
consuma. Saia dessa Babilônia, para não ser cúmplice dos pecados dela. Ela é um antro de
demônios e de imundícies. As igrejas que mais se gabam da sua ortodoxia e refinamento
teológico são essa Babilônia. Elas são descendentes de Agar e mantêm o seu povo na escravidão.
O que você tem a ganhar com elas? Por que desperdiçar a sua vida com esses escribas e fariseus
odiosos? Olhe para cima! O sol da justiça já nasceu, trazendo cura em suas asas, para que você
corra lépido nas pastagens como um bezerro solto (Ml 4.2), para que você escale a rocha mais
alta (Sl 61.2), salte sobre muralhas (Sl 18.29) e alce voo como a águia (Is 40.31).
20
Prefácio ao seu comentário na carta aos Gálatas.