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Poder Judiciário
Justiça do Trabalho
Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região
Agravo de Instrumento em Recurso Ordinário
0000084-60.2015.5.10.0005
Relator: JOAO AMILCAR SILVA E SOUZA PAVAN
Processo Judicial Eletrônico
Data da Autuação: 25/02/2019
Valor da causa: R$ 350.000,00
Partes:
AGRAVANTE: HOSPITAL DO CORACAO DO BRASIL S/A
ADVOGADO: CARLOS JOSÉ ELIAS JÚNIOR
ADVOGADO: OSMAR MENDES PAIXAO CORTES
ADVOGADO: LEANDRO ARTIAGA E VIEIRA
AGRAVADO: TATIANE CRISTINA ANDRADE DA SILVA
ADVOGADO: STEVAO GANDH COSTA
PAGINA_CAPA_PROCESSO_PJE
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EXCELENTÍSSIMO SENHOR DESEMBARGADOR PRESIDENTE DO EGRÉGIO
TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO DA 10ª REGIÃO
Autos nº 0000084-60.2015.5.10.0005
REDE D'OR SÃO LUIZ S.A (atual denominação do HOSPITAL
DO CORAÇÃO DO BRASIL S/A), já qualificado nos presentes autos, em que
contende com TATIANE CRISTINA ANDRADE DA SILVA, vem, respeitosamente, à
presença de Vossa Excelência, por seus advogados devidamente constituídos,
diante do v. acórdão publicado em 09/12/2020, quarta-feira, tempestivamente,
interpor o presente:
RECURSO DE REVISTA
para o E. Tribunal Superior do Trabalho (TST), com fulcro no
artigo 896, “c”, da CLT, e nas inclusas razões, requerendo sejam juntadas aos autos,
e, após preenchidas as formalidades legais, remetidas àquela Corte Superior.
TEMPESTIVIDADE
O v. acórdão recorrido foi publicado no dia 09/12/2020 (quarta-
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feira) . Logo, o prazo recursal teve início no dia 10/12/2020 (quinta-feira) e viria a se
encerrar, considerando-se o recesso forense, no dia 21/01/2021 (segunda-feira).
1
A disponibilização ocorreu no dia 07/12/2020, mas o dia 08/12/2020 se trata de ferido forense, a teor do art.
256, inc. III, do Regimento Interno do eg. TRT da 10º Região.
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Número do documento: 21012017502098400000010283239
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Portanto, evidencia-se a tempestividade do presente recurso,
interposto antes mesmo do dies ad quem.
REGULARIDADE FORMAL
A regularidade formal, nos termos do disposto no artigo 1.010,
incs. I a IV, do CPC, está cabalmente demonstrada por esta petição de rosto e pelas
razões recursais apresentadas em anexo, que, aliás, bem demonstram o
atendimento, pelo recorrente, aos requisitos ou pressupostos intrínsecos de
admissibilidade, a saber: (i) o cabimento do recurso (artigos 893, inciso II; 895, I; e
899 e parágrafos, da CLT); (ii) a legitimidade para recorrer, em razão de o recorrente
ser sucumbente; (iii) o interesse em recorrer, em razão da sucumbência já aventada;
e (iv) a inexistência de fato impeditivo ou extintivo do poder de recorrer.
PREPARO E CUSTAS
Para a interposição do presente Recurso de Revista, a
recorrente promove o recolhimento do preparo recursal e das custas, conforme
comprovantes anexos.
Requer-se que todas as publicações e intimações futuras
sejam realizadas exclusivamente em nome do advogado OSMAR MENDES
PAIXÃO CÔRTES, OAB/DF 15.553, sob pena de nulidade, a teor da Súmula nº
427/TST.
Nesses termos, espera deferimento.
Brasília, 14 de janeiro de 2021.
OSMAR MENDES PAIXÃO CÔRTES CARLOS JOSÉ ELIAS JUNIOR
OAB/DF – 15.553 OAB/DF – 10.424
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Número do documento: 21012017502098400000010283239
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COLENDO TRIBUNAL SUPERIOR DO TRABALHO
PROCESSO Nº 0000084-60.2015.5.10.0005
RAZÕES DO RECORRENTE
REDE D'OR SÃO LUIZ S.A (HOSPITAL DO CORAÇÃO DO BRASIL S/A)
Egrégia Turma,
Trata-se de reclamação trabalhista ajuizada pela recorrida em
desfavor do recorrente, na qual foi proferida sentença de parcial procedência, em
síntese, condenando o recorrente ao pagamento de indenização por suposto
assédio moral de R$ 100.000,00; de indenização por danos morais de R$ 50.000,00
e danos materiais de R$ 2.688,55, além de indenização pelo período de
estabilidade.
A reclamante interpôs recurso ordinário em 28/06/2018, ao qual
aderiu o recorrente.
Mesmo demonstrando claro interesse na reforma da r.
sentença quanto a diversos aspectos que lhe foram desfavoráveis, a reclamante, ora
recorrida, após ter ciência dos fundamentos do recurso adesivo e verificar a
iminente possibilidade de reforma da sentença, resolveu, mais de cinco meses
depois da interposição do recurso, desistir do apelo, em situação que evidencia a
quebra do dever de lealdade processual.
O Juízo acolheu o pedido de desistência formulado pela
recorrida, deixando de processar o recurso ordinário, e como consectário, deixou de
conhecer o recurso adesivo da reclamada, com espeque no art. 997, § 2º, III.
O recorrente, então interpôs agravo de instrumento, o qual
restou conhecido e desprovido pelo v. Acórdão recorrido, assim ementado:
“AGRAVO DE INSTRUMENTO. RECURSO ORDINÁRIO E
ADESIVO. DESISTÊNCIA DO PRINCIPAL. PODERES
EXPRESSSOS. OPORTUNIDADE. EFEITOS. 1. A desistência do
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recurso exige a outorga de poderes específicos para tanto (CPC, art.
105), e havendo o suprimento da sua ausência, antes mesmo da
provocação judicial (eadem, art. 76), inexiste vício formal a macular o
ato. 2. É dado à parte recorrente, de ordinário, desistir do recurso
interposto, independentemente da anuência do litigante adverso (art.
998 do CPC). Excepcionam-se, todavia, situações nas quais o pleito
revela a fratura da boa-fé processual, como a existência de prévio
pronunciamento judicial capaz de sinalizar para o êxito da pretensão
veiculada no recurso subordinado. 3. Por ausente elemento a
desvelar tal cenário é eficaz a desistência, seguindo idêntica sorte o
adesivo interposto pela empregadora (art. 997, inciso III, do CPC). 4.
Agravo de instrumento conhecido e desprovido”.
Entretanto, tal como exarado, o v. Acórdão violou frontalmente
o art. 5º do Código de Processo Civil e o art. 5º, incs. LIV e LV, da Constituição
Federal, autorizando a interposição do presente Recurso de Revista, conforme
razões a seguir aduzidas.
DO PREQUESTIONAMENTO
A matéria versada no presente recurso de revista foi objeto de
expresso debate e enfrentamento pelo v. Acórdão recorrido.
Nesse sentido, transcreve-se, abaixo, a fundamentação do v.
Acórdão vergastado, destacando-se, com realce em amarelo, os trechos que
consubstanciam o explícito prequestionamento da matéria:
“[...] Como bem posto nas razões do agravo, o dever inscrito no art.
5º do CPC constitui verdadeiro princípio impositivo, cristalizando a
obrigação de preservar o caráter ético do processo. E a aferição da
boa-fé é objetiva, traduzida pela conduta concreta de todos aqueles
que dele participam, não transitando pela seara das intenções ou
aspectos subjetivos. Tem, ainda, o condão de governar e garantir a
higidez - ou não - de todos os atos processuais.
Ora, no caso concreto a autora, ao ser intimada para contrariar o
recurso adesivo, externou o pedido de desistência do principal. E tal
contexto passa ao largo, de forma clara, de ação passível de
enquadramento no conceito de má-fé. Ao contrário, a legislação
assegura aos recorrentes, independentemente da anuência da parte
contrária ou de seus litisconsortes, desistir do recurso interposto,
como dispõe o art. 998 do CPC, in verbis:
"Art. 998 O recorrente poderá, a qualquer tempo, sem a anuência do
recorrido ou dos litisconsortes, desistir do recurso."
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Vale ressaltar que a regra, como sucede na adequada aplicação do
Direito, deve ser dirigida pelos princípios que lhe dão conformidade.
Assim, a interpretação da expressão "...a qualquer tempo..." deve ser
permeada pelo filtro do referido art. 5º do CPC, de sorte a garantir a
ideia de integridade.
Há situações, como a tratada no segundo precedente trazido pela
empregadora (fls. 553/555), que o comportamento da parte que
desiste evidencia, de forma objetiva, a fartura do dever da boa-fé
processual. Naquele caso concreto, como no presente, houve a
interposição de recurso principal e subordinado, e o litigante que
aderiu ao primeiro obteve provimento jurisdicional prévio, sinalizando
para o êxito de sua pretensão. Ato contínuo houve a desistência do
primeiro apelo, revelando, de forma razoável, o intuito de obstar o
aperfeiçoamento da decisão precária já proferida.
Em outras situações, de maior frequência, nas sessões de
julgamento e quando das sustentações orais, após o relator enunciar
a proposta inicial de solução do litígio, com base em tal dado o
recorrente principal tem notícia do provável insucesso de sua
pretensão, aliado ao êxito da deduzida pela parte adversa. E assim
formula pedido de desistência de seu recurso, na vã tentativa de
impedir o fluxo de julgamento já iniciado. Mas em ambos os casos o
pressuposto essencial reside na existência, sob qualquer forma, de
aceno jurisdicional sobre o possível resultado do julgamento, dado
absolutamente estranho ao caso concreto.
Pontuando, ainda, que o primeiro aresto trazido pela parte é
inespecífico, por não revelar as premissas fáticas a ele inerentes (fl.
563), além dos elementos do processo espelharem o adequado
exercício de faculdade concedida em lei, não estão presentes as
irregularidades suscitadas pela agravante. Anoto, ainda, que a
interposição do recurso adesivo foi fruto exclusivo da vontade da
parte, pois nada a impedia de utilizar do principal, mas deixando de
fazê-lo ela deve arcar com as consequências de sua opção.
Desprovejo o agravo de instrumento”.
Evidencia-se, pois, o atendimento ao pressuposto do
prequestionamento, a viabilizar o conhecimento do presente recurso.
DA TRANSCENDÊNCIA
A essência da transcendência é a repercussão geral. Deste
modo, resta claro, no caso vertente, o aspecto da transcendência jurídica e
econômica, diante da natureza e matéria do direito objeto da lide.
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É clara a ocorrência de transcendência econômica,
considerando-se o vulto econômico atingido pelo caso concreto, cuja condenação,
tal como subsiste, com juros e correções, certamente ultrapassa 200 salários
mínimos.
Ademais, aborda-se, no caso, matéria de transcendência
jurídica, considerando-se a relevância da matéria referente ao dever de lealdade
processual em hipóteses de desistência recursal, situação que tem o condão de
afetar inúmeros processos em curso perante a Justiça Laboral.
Demais disso, o não conhecimento do recurso adesivo
interposto pelo recorrente, tal como ocorreu no caso vertente, conduz,
inexoravelmente, à inobservância do devido processo legal e ao cerceamento
de defesa assegurado aos litigantes, pelo que se verifica a relevância da
discussão jurídica também em âmbito constitucional.
Evidenciada, portanto, a subsunção do caso vertente à
previsão do art. 896-A, §1º, da CLT:
Art. 896-A - O Tribunal Superior do Trabalho, no recurso de revista,
examinará previamente se a causa oferece transcendência com
relação aos reflexos gerais de natureza econômica, política, social ou
jurídica.
§ 1o São indicadores de transcendência, entre outros:
I - econômica, o elevado valor da causa;
II - política, o desrespeito da instância recorrida à jurisprudência
sumulada do Tribunal Superior do Trabalho ou do Supremo Tribunal
Federal;
III - social, a postulação, por reclamante-recorrente, de direito social
constitucionalmente assegurado;
IV - jurídica, a existência de questão nova em torno da interpretação
da legislação trabalhista.''
Assim, o presente recurso de revista preenche o requisito da
transcendência, a justificar seu conhecimento e, ao final, seu provimento, conforme
as razões adiante expostas.
MÉRITO – DAS RAZÕES PARA A REFORMA DO V. ACÓRDÃO
Da violação ao art. 5º do Código de Processo Civil, bem como ao art. 5º, incs.
LIV e LV, da Constituição Federal:
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Não há como subsistir o v. Acórdão tal como proferido,
porquanto manteve a decisão de não conhecimento do recurso adesivo interposto
pela recorrente, acarretando violação à legislação federal e constitucional.
Com efeito, deve-se observar que, no caso concreto, a
reclamante/recorrida atravessou petição requerendo a desistência do recurso
ordinário interposto, requerendo, por aplicação subsidiária do art. 997, III, do CPC, o
não conhecimento do recurso ordinário adesivo interposto pela reclamada.
Ocorre que a desistência recursal manejada pela recorrida não
pode, no caso sub judice, acarretar o não conhecimento do recurso ordinário
adesivo interposto pelo ora recorrente, porquanto, à evidência, a desistência do
recurso principal teve como único intento obstar o processamento do recurso
da reclamada, o que não se pode conceber.
Com efeito, do recurso ordinário obreiro (ID. f039056),
depreende-se o claro interesse recursal da reclamante e a intenção de reforma
da sentença em diversos aspecto que lhe foram desfavoráveis.
Além de ter arguido a ocorrência de negativa de prestação
jurisdicional, a reclamante/recorrida buscou, por meio do recurso ordinário, a reforma
da r. sentença para que fosse o reclamado/recorrente condenado à obrigatoriedade
de contagem do tempo de serviço em razão da alegada doença ocupacional e ao
pagamento indenização por suposto dano material equivalente entre o valor do
benefício previdenciário e o valor que a recorrida recebia mensalmente caso
estivesse laborando normalmente; pretendeu-se, ainda, a condenação do
reclamando/recorrente a à indenização pelo período de estabilidade até 28/07/2015
e os respectivos reflexos, bem como o recebimento de indenização pela suposta não
concessão do intervalo intrajornada.
Ademais, a interposição do recurso ordinário foi precedida de
embargos de declaração que trataram exatamente das mesmas matérias,
denotando o claro interesse da reclamante em obter a reforma da sentença
nos pontos que entendia pertinentes.
Não bastasse, deve-se ressaltar que o recurso ordinário foi
interposto em 28/06/2018 (ID. f039056 - Pág. 1) e a inusitada desistência somente
ocorreu mais de cinco meses depois, em 03/12/2018 (ID. 04e4b62 - Pág. 1).
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Efetivamente, apenas após intimada acerca da interposição
de recurso adesivo pela reclamada, e verificar que os fundamentos do mesmo
se revelam subsistentes e hábeis à reforma da r. sentença, a reclamante
apresentou singela petição de desistência recursal.
Todavia, ainda assim, o v. Acórdão entendeu que tal
comportamento não ensejaria ofensa ao art. 5º do Código de Processo Civil,
conforme se extrai da fundamentação a seguir transcrita, que evidencia, como já
demonstrado, o prequestionamento e o debate expresso da Corte sobre a matéria:
“[...] Como bem posto nas razões do agravo, o dever inscrito no art.
5º do CPC constitui verdadeiro princípio impositivo, cristalizando a
obrigação de preservar o caráter ético do processo. E a aferição da
boa-fé é objetiva, traduzida pela conduta concreta de todos aqueles
que dele participam, não transitando pela seara das intenções ou
aspectos subjetivos. Tem, ainda, o condão de governar e garantir a
higidez - ou não - de todos os atos processuais.
Ora, no caso concreto a autora, ao ser intimada para contrariar o
recurso adesivo, externou o pedido de desistência do principal. E tal
contexto passa ao largo, de forma clara, de ação passível de
enquadramento no conceito de má-fé. Ao contrário, a legislação
assegura aos recorrentes, independentemente da anuência da parte
contrária ou de seus litisconsortes, desistir do recurso interposto,
como dispõe o art. 998 do CPC, in verbis:
"Art. 998 O recorrente poderá, a qualquer tempo, sem a anuência do
recorrido ou dos litisconsortes, desistir do recurso."
Vale ressaltar que a regra, como sucede na adequada aplicação do
Direito, deve ser dirigida pelos princípios que lhe dão conformidade.
Assim, a interpretação da expressão "...a qualquer tempo..." deve ser
permeada pelo filtro do referido art. 5º do CPC, de sorte a garantir a
ideia de integridade.
Com a devida vênia, diversamente do que entendeu o v.
Acórdão recorrido, salta aos olhos que a intenção da reclamante ao requerer a
desistência do recurso ordinário foi apenas uma: impedir que o eg. Tribunal
Regional do Trabalho examinasse as teses do recurso adesivo, cuja relevância
dos fundamentos evidenciava a iminente possibilidade de reforma da
sentença.
Tal comportamento, entretanto, não se coaduna com os
princípios da lealdade e boa-fé processual, em clara ofensa ao art. 5º do Código
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de Processo Civil, razão pela qual, ao deixar de conhecer o recurso adesivo
interposto pelo recorrente, violou-se, diretamente, o referido dispositivo:
Art. 5o Aquele que de qualquer forma participa do processo deve
comportar-se de acordo com a boa-fé.
Manifestando-se exatamente nesse sentido em caso análogo,
o eg. Tribunal de Justiça de São Paulo houve por bem rejeitar o pedido de não
conhecimento do recurso adesivo interposto pela parte contrária ao antever o
resultado desfavorável no julgamento. Confira-se:
“Aceitar a desistência do recurso no caso é abrigar a
deslealdade e desprestigiar a justiça, subordinando-se o poder
jurisdicional e a ordem pública ao malicioso expediente da parte
que antevê o resultado desfavorável no julgamento. A
desistência do recurso é direito do recorrente que deve ser
exercido de boa-fé e de acordo com as suas finalidades. Não é,
por certo, meio processual que dispõe a parte para se furtar à
jurisdição e à aplicação da lei”. (TJSP; Apelação 0025995-
34.2008.8.26.0196; Relator (a): Carlos Alberto Garbi; Órgão
Julgador: 26ª Câmara de Direito Privado; Foro de Franca - 5ª. Vara
Cível; Data do Julgamento: 06/07/2010; Data de Registro:
13/07/2010)
Diante desse contexto, deve ser afastada a aplicação literal do
art. 997 inc. III, do Código de Processo Civil, para que, em hermenêutica
teleológica e em consonância com os princípios da lealdade e boa-fé
processual, seja conhecido o recurso adesivo interposto pelo recorrente, sob
pena de se permitir a subsistência da ofensa ao art. 5º do Código de
Processo Civil.
Na mesma esteira de raciocínio, o equivocado não
conhecimento do recurso adesivo interposto implicará em violação ao
princípio da ampla defesa assegurado ao recorrente, que será
invariavelmente privado de seu patrimônio sem o devido processo legal.
Diretamente violados, portanto, os incisos LIV e LV da
Constituição Federal:
Art. 5º: [...]
LIV - ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o
devido processo legal;
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LV - aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos
acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa,
com os meios e recursos a ela inerentes;
O entendimento jurisprudencial sobre a matéria, ora trazido a
título ilustrativo, é consentâneo com a tese discorrida no presente recurso de revista,
evidenciando a necessidade de reforma do v. Acórdão, conforme se depreende dos
seguintes arestos:
RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO EM
DECORRÊNCIA DE ACIDENTE DE TRÂNSITO. PEDIDO JULGADO
PROCEDENTE APENAS QUANTO AOS DANOS MORAIS. 1.
INTERPOSIÇÃO DE APELAÇÃO PELO RÉU E RECURSO
ADESIVO DA VÍTIMA. CONCESSÃO DE ANTECIPAÇÃO DA
TUTELA RECURSAL DETERMINANDO O PAGAMENTO DE
PENSÃO MENSAL À AUTORA. FORMULAÇÃO DE PEDIDO DE
DESISTÊNCIA DO RECURSO PRINCIPAL PELO RÉU.
INDEFERIMENTO PELO RELATOR NO TRIBUNAL DE ORIGEM.
APLICAÇÃO DOS ARTS. 500, III, E 501 DO CPC. MITIGAÇÃO.
RECURSO DESPROVIDO. 1. Como regra, o recurso adesivo fica
subordinado à sorte do principal e não será conhecido se houver
desistência quanto ao primeiro ou se for ele declarado inadmissível
ou deserto (CPC, art. 500, III), dispondo ainda a lei processual que "o
recorrente poderá, a qualquer tempo, sem a anuência do recorrido
ou dos litisconsortes, desistir do recurso" (CPC, art. 501). A
justificativa para a desistência do recurso como direito subjetivo
individual da parte, o qual pode ser exercido a partir da data de sua
interposição, até o momento imediatamente anterior ao seu
julgamento, decorre do fato de que, sendo ato de disposição de
direito processual, em nada afeta o direito material posto em juízo.
Ocorre que, na hipótese, a apresentação da petição de
desistência logo após a concessão dos efeitos da tutela
recursal, reconhecendo à autora o direito de receber 2/3 de um
salário mínimo a título de pensão mensal, teve a nítida intenção
de esvaziar o cumprimento da determinação judicial, no
momento em que o réu anteviu que o julgamento final da
apelação lhe seria desfavorável, sendo a pretensão, portanto,
incompatível com o princípio da boa-fé processual e com a
própria regra que lhe faculta não prosseguir com o recurso, a
qual não deve ser utilizada como forma de obstaculizar a efetiva
proteção ao direito lesionado. Embora, tecnicamente, não se
possa afirmar que a concessão da antecipação da tutela tenha
representado o início do julgamento da apelação, é iniludível que a
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decisão proferida pelo relator, ao satisfazer o direito material
reclamado, destinado a prover os meios de subsistência da autora,
passou a produzir efeitos de imediato na esfera jurídica das partes,
evidenciada a presença dos seus requisitos (prova inequívoca e
verossimilhança da alegação), a qual veio a ser confirmada no
julgamento final do recurso pelo Tribunal estadual. Releva
considerar que os arts. 500, III, e 501 do CPC, que permitem a
desistência do recurso sem a anuência da parte contrária, foram
inseridos no Código de 1973, razão pela qual, em caso como o
dos autos, a sua interpretação não pode prescindir de uma
análise conjunta com o referido art. 273, que introduziu a
antecipação da tutela no ordenamento jurídico pátrio por meio da Lei
n. 8.952, apenas no ano de 1994, como forma de propiciar uma
prestação jurisdicional mais célere e justa, bem como com o
princípio da boa-fé processual, que deve nortear o
comportamento das partes em juízo, de que são exemplos, entre
outros, os arts. 14, II, e 600 do CPC, introduzidos,
respectivamente, pelas Leis n. 10.358/2001 e 11.382/2006. 2.
Recurso especial a que se nega provimento. (REsp 1285405/SP,
Rel. Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE, TERCEIRA TURMA,
julgado em 16/12/2014, DJe 19/12/2014)
Por oportuno, transcreve-se trecho do voto do eminente
Ministro Relator:
“[...] Cinge-se a controvérsia instaurada nos presentes autos em
definir se após o deferimento de antecipação da tutela em recurso
adesivo para conceder à autora, ora recorrida, pensão mensal no
valor correspondente a 2/3 do salário mínimo, poderia o réu, ora
recorrente, desistir do recurso principal de apelação.
Segundo argumentou o apelante/demandado, diante do pedido de
desistência do recurso principal, o recurso adesivo da autora –
que obteve a antecipação da tutela recursal – estaria
prejudicado e não poderia ser conhecido, implicando na
revogação da decisão que o obrigou ao pagamento da pensão.
[...]
Insta salientar que o Código de Processo Civil tem sofrido, nos
últimos anos, diversas reformas, em sua grande maioria voltadas ao
objetivo principal de agilizar a entrega da prestação jurisdicional,
tornando-a mais célere, desburocratizada e efetiva com vistas à
produção de melhores resultados práticos para os jurisdicionados [...]
Releva considerar que os arts. 500, III, e 501 do CPC, que
permitem a desistência do recurso sem a anuência da parte
contrária, foram inseridos no Código de 1973, razão pela qual,
Assinado eletronicamente por: LEANDRO ARTIAGA E VIEIRA - 20/01/2021 [Link] - 29703d7
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Número do processo: 0000084-60.2015.5.10.0005 ID. 29703d7 - Pág. 11
Número do documento: 21012017502098400000010283239
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em caso como o dos autos, a sua interpretação não pode
prescindir de uma análise conjunta com o referido art. 273, que
introduziu a antecipação da tutela no ordenamento jurídico pátrio por
meio da Lei n. 8.952, apenas no ano de 1994, como forma de
propiciar uma prestação jurisdicional mais célere e justa, bem como
com o princípio da boa-fé processual, que deve nortear o
comportamento das partes em juízo, de que são exemplos, entre
outros, os arts. 14, II, e 600 do CPC, introduzidos,
respectivamente, pelas Leis n. 10.358/2001 e 11.382/2006.
[...]
Na espécie, repise-se, a solução adequada desborda da
aplicação literal dos dispositivos indicados violados, os quais
têm função apenas instrumental, devendo ser adotada, a meu
sentir, uma interpretação teleológica que, associada aos demais
artigos mencionados, privilegie o escopo maior de efetividade
do direito material buscado pelo sistema, que tem no processo
um instrumento de realização da justiça”.
Impõe-se, destarte, o provimento do Recurso de Revista,
porquanto preenchidos os requisitos do permissivo da alínea “c” do art. 896 da CLT.
CONCLUSÃO E PEDIDOS
Pelo exposto, o recorrente requer o conhecimento e provimento
do presente Recurso de Revista para que, reformando-se o v. Acórdão recorrido,
seja o recurso ordinário adesivo interposto pelo recorrente devidamente conhecido e
processado, sob pena de violação direta ao art. 5º, do CPC, bem como ao art. 5º,
incs. LIV e LV, da Constituição Federal.
Nesses termos, espera deferimento.
Brasília, 14 de janeiro de 2021.
OSMAR MENDES PAIXÃO CÔRTES CARLOS JOSÉ ELIAS JUNIOR
OAB/DF – 15.553 OAB/DF – 10.424
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