Desafios da Contemporaneidade
Analisados Pelo Viés
Antropológico
Aline Prado Atassio
Neste material abarcaremos chaves teóricas distintas sobre
identidade e diversidade para tratar das teorias decoloniais. Além
disso, discutiremos as questões de gênero, entendendo a diferença
entre sexo, gênero e orientação sexual. Por fim, estudaremos as
questões relativas às migrações e aos refugiados, as implicações
dessas migrações voluntárias ou forçadas na cultura local e do
grupo migrante, bem como a dominação cultural do ocidente
sobre o oriente.
Subtópicos
Teorias decoloniais: além do binarismo�������� 3
Considerações finais���������������������������������������������������������������������10
Questões de gênero������������������������������������������� 11
Questões de gênero 1��������������������������������������������������������������������16
Questões de gênero 2��������������������������������������������������������������������18
Considerações finais���������������������������������������������������������������������25
Refugiados e imigrantes��������������������������������� 26
Considerações finais���������������������������������������������������������������������31
Ocidente x Oriente�������������������������������������������� 32
Considerações finais���������������������������������������������������������������������40
Referências Bibliográficas & Consultadas���41
2
Teorias decoloniais: além
do binarismo
As teorias decoloniais são uma corrente de pensamento
crítico que se desenvolveram principalmente nas áreas
de estudos pós-coloniais e na Antropologia. Essas teo-
rias questionam e desafiam as estruturas de poder e co-
nhecimento que foram estabelecidas durante o período
colonial, com o objetivo de promover a descolonização
nas mais diversas esferas da sociedade, já que há forte
influência contínua nas sociedades contemporâneas do
pensamento colonial.
Essa teoria tem uma visão histórica que analisa o pro-
cesso de rompimento da visão dominante ao longo do
tempo. Durante o período colonial, as potências coloni-
zadoras impuseram suas perspectivas, valores e conhe-
cimentos sobre as populações colonizadas, buscando
justificar a exploração e a dominação. Essa visão domi-
nante era baseada em uma hierarquia racial e cultural,
que colocava as culturas ocidentais como superiores
e as demais como inferiores. De acordo com Santos
(2019), a maneira como o colonialismo agiu nas ideias
dos povos fez com que surgisse uma linha imaginária:
[...] que divide o mundo entre sociabilidade (e sub-
jetividade) metropolitana e sociabilidade (e sub-
jetividade) colonial [e] que prevalece hoje tanto
quanto no tempo do colonialismo histórico […].
Os que estão do outro lado da linha não são con-
3
siderados verdadeiramente ou completamente
humanos (SANTOS, 2019, p. 412).
Ao longo da história, diversos movimentos de resistência
e luta surgiram, questionando e desafiando essa visão
dominante. Esses movimentos buscavam valorizar e for-
talecer as culturas e conhecimentos locais, promovendo
uma ruptura com as estruturas coloniais e buscando a
autonomia e a autodeterminação.
Um marco importante nesse processo de rompimento
com a visão do dominante foi o surgimento dos movi-
mentos de independência das colônias no século 20.
Esses movimentos lutaram contra o domínio colonial
e buscaram a criação de Estados independentes, com
governos e sistemas políticos próprios. Esse processo
levou a um questionamento das estruturas coloniais e
trouxe à tona a necessidade de se repensar as formas
de conhecimento e poder estabelecidas durante o pe-
ríodo colonial.
As teorias decoloniais destacam a importância de se
descolonizar o conhecimento e a maneira como ele é
produzido, buscando criar-se espaços para perspectivas
e vozes marginalizadas. O argumento é que o colonia-
lismo não se limitou apenas à exploração econômica
e política, mas também produziu epistemologias e for-
mas de conhecimento que reforçaram a dominação e
a desigualdade. O etnocentrismo é um exemplo dessa
forma de dominação.
4
A teoria decolonial surge com o nome de Anibal Quijano,
sociólogo e teórico peruano. Ele desenvolveu a teoria
do “colonialismo do poder” e fez importantes contri-
buições para a compreensão das relações de poder e
dominação na América Latina.
A teoria de Quijano, conhecida como “colonialidade do
poder”, parte do entendimento de que o colonialismo
não é apenas um evento histórico, mas uma estrutura
de poder contínua que ainda persiste nas sociedades
contemporâneas. Segundo Quijano, o colonialismo não
se limita apenas à exploração econômica e política, mas
também abrange aspectos culturais, sociais e epistê-
micos (QUIJANO, 2005).
O autor argumenta que a colonialidade do poder se
baseia em uma hierarquia racial e cultural que divide o
mundo entre o Ocidente (centro) e o resto (periferia).
Essa hierarquia estabelece relações de dominação e
subordinação, privilegiando os padrões culturais, sociais
e epistêmicos do Ocidente em detrimento das culturas
e saberes locais.
A Antropologia Decolonial de Quijano critica a noção tradi-
cional de Antropologia como uma disciplina que reproduz
a visão do colonizador sobre as culturas colonizadas. Ele
propõe uma abordagem que valoriza os conhecimentos
locais e as perspectivas das comunidades subalternas,
buscando a descolonização do conhecimento e a cons-
trução de uma visão mais justa e igualitária.
5
As ideias de Aníbal Quijano foram influentes no desen-
volvimento da teoria decolonial e têm contribuído para
a crítica das estruturas de poder e dominação presentes
na sociedade. Sua obra estimulou debates sobre iden-
tidade, colonialismo, racismo e epistemologia, e tem
sido amplamente discutida e desenvolvida por outros
teóricos e pesquisadores no campo da Antropologia
Decolonial e dos estudos pós-coloniais.
Outro autor influente e necessário é Walter Mignolo,
antropólogo e crítico cultural argentino, que tem desem-
penhado um papel fundamental no campo do decolo-
nialismo. Seu trabalho é amplamente conhecido por
sua contribuição para a teoria decolonial e sua crítica
ao eurocentrismo e à colonialidade do poder.
Mignolo argumenta que a modernidade e o pensamen-
to ocidental foram moldados pelos projetos coloniais e
imperialistas, que estabeleceram uma hierarquia global
baseada na exploração e na dominação. Ele propõe o
decolonialismo como uma abordagem crítica que busca
desafiar essa ordem dominante e criar espaços para
outras formas de conhecimento e de existência fora
dos moldes coloniais.
Uma das principais contribuições de Mignolo é o con-
ceito de “desobediência epistêmica”, que se refere à
rejeição e resistência aos conhecimentos e epistemolo-
gias impostos pelo colonialismo. Ele argumenta que as
epistemologias locais e subalternas têm sido marginali-
6
zadas e desvalorizadas pelo conhecimento hegemônico
ocidental, e defende a valorização e o fortalecimento
desses saberes como uma maneira de subverter as
estruturas coloniais de poder.
Mignolo também enfatiza a importância da perspectiva
geocultural no decolonialismo, destacando a diversidade
de experiências e saberes existentes em diferentes par-
tes do mundo. Ele critica a ideia de uma única narrativa
universal de progresso e desenvolvimento, defendendo a
multiplicidade de formas de conhecimento e de vida que
são relegadas a posições periféricas e subalternizadas.
Além disso, Mignolo tem contribuído para a descoloni-
zação dos estudos culturais e para a promoção de uma
abordagem mais plural e inclusiva no campo acadê-
mico. Ele defende a necessidade de deslocar o centro
do pensamento e da produção de conhecimento para
além do eurocentrismo, reconhecendo e valorizando as
perspectivas não ocidentais.
No geral, o trabalho de Walter Mignolo no decolonialismo
tem sido influente na crítica ao colonialismo, no ques-
tionamento do pensamento ocidental hegemônico e na
promoção de uma perspectiva mais justa e inclusiva que
valorize os saberes e as experiências subalternizadas.
Uma importante contribuição para os estudos decolo-
niais e feministas vem de Rita Laura Segato, antropóloga
argentina cujo trabalho tem abordado questões relacio-
nadas à violência de gênero, colonialismo e interseccio-
7
nalidade. Em seu artigo Las estructuras elementales de
la violencia: ensayos sobre género entre la Antropología,
el Psicoanálisis y los Derechos Humanos, publicado em
2003, Segato discute a noção de “colonialidade do poder”.
Segato analisa a persistência das estruturas de poder
coloniais nas sociedades contemporâneas, destacan-
do que a colonialidade não é apenas uma questão do
passado, mas algo que continua a moldar as relações
sociais, políticas e culturais no presente. Ela argumen-
ta que a violência é uma das principais ferramentas
utilizadas pela colonialidade do poder para manter e
reproduzir suas hierarquias.
Segato examina como as relações de gênero e o sistema
patriarcal estão intrinsecamente ligados à colonialidade
do poder. Ela destaca como corpos femininos, espe-
cialmente corpos de mulheres racializadas e indígenas,
são frequentemente alvo de violência e opressão como
parte do projeto colonial. Segato argumenta que a vio-
lência de gênero é uma expressão da violência colonial
que visa a controlar e subjugar certos grupos dentro da
estrutura de poder dominante.
Ao discutir a colonialidade do poder, Segato também
examina a interseccionalidade das opressões, ou seja,
como diferentes sistemas de opressão, como o racismo,
o sexismo e a classe social, interligam-se e se reforçam
mutuamente. Ela enfatiza a importância de se adotar
uma abordagem interseccional ao abordar a violência
8
e a opressão, reconhecendo as complexidades e as
múltiplas dimensões das experiências das pessoas
marginalizadas.
Segato propõe uma análise crítica da colonialidade do
poder como um caminho para a transformação social e
a construção de sociedades mais justas e igualitárias.
Ela destaca a importância de desafiar e desmantelar
as estruturas de poder coloniais, promovendo a valo-
rização dos conhecimentos subalternos e a amplia-
ção da participação política e social das comunidades
marginalizadas.
Em resumo, Segato contribui para o debate sobre a
colonialidade do poder, examinando as dinâmicas de
violência, gênero e interseccionalidade presentes nas
sociedades contemporâneas. Seu trabalho busca des-
velar as estruturas de poder coloniais e abrir caminhos
para a transformação e a justiça social.
O surgimento dos estudos pós-coloniais e das teorias
decoloniais nas últimas décadas tem contribuído para
uma maior conscientização e reflexão crítica a cerca das
relações coloniais e suas influências na contemporanei-
dade. Essas teorias buscam desconstruir as narrativas
dominantes, valorizando as perspectivas marginaliza-
das e subalternas, promovendo uma descolonização
do pensamento e do conhecimento.
9
Considerações finais
9 As teorias decoloniais são uma corrente de pen-
samento crítica que emerge a partir das experiências
coloniais e pós-coloniais, buscando desafiar e superar
as estruturas de poder e dominação que persistem no
mundo contemporâneo;
9 As teorias decoloniais questionam as formas de co-
nhecimento, as hierarquias sociais, as relações de poder
e as narrativas históricas impostas pelo colonialismo;
9 A principal preocupação das teorias decoloniais é
descolonizar o pensamento e desmantelar as estruturas
coloniais que moldam as sociedades atuais;
9 O colonialismo não se limita apenas a uma relação
política de dominação entre metrópoles e colônias,
mas também permeia as estruturas culturais, epistê-
micas e econômicas, mantendo formas de opressão e
desigualdade.
10
Questões de gênero
Sexo e gênero são conceitos distintos que se referem
a aspectos diferentes da identidade humana, mas que
comumente são confundidos. Precisamos falar atenta-
mente sobre isso, afinal, são dois conceitos com impli-
cações bastante diversas na nossa vida.
Sexo refere-se às características biológicas e fisiológi-
cas que distinguem os seres humanos em categorias
como masculino e feminino. Geralmente, essas carac-
terísticas são determinadas pelos órgãos reprodutivos
e pelos cromossomos sexuais (XX para mulheres e XY
para homens).
O sexo biológico é atribuído no nascimento com base
em características visíveis, como genitália externa, mas
também pode ser influenciado por fatores genéticos e
hormonais.
Por outro lado, o gênero é um conceito social e cultu-
ralmente construído, que se refere às normas, papéis,
comportamentos, identidades e expectativas associadas
aos sexos masculino e feminino em uma determinada
sociedade. O gênero é uma construção social que varia
ao longo do tempo e entre diferentes culturas. Enquanto
o sexo é atribuído biologicamente, o gênero é aprendido
e internalizado por meio da socialização.
Segundo Judith Butler, no seu livro Problemas de Gênero:
11
[...] o gênero é a estilização repetida do corpo,
um conjunto de atos repetidos no interior de uma
estrutura reguladora altamente rígida, a qual se
cristaliza no tempo para produzir a aparência de
uma substância, de uma classe natural de ser
(BUTLER, 2003, p. 59).
É importante destacar que o gênero não se limita ape-
nas a duas categorias binárias (masculino e feminino),
mas também abrange uma diversidade de identidades
de gênero, incluindo pessoas que se identificam como
não binárias, agênero e genderqueer, entre outras. Essas
identidades não se encaixam nas normas de gênero
tradicionais e desafiam a ideia de uma dicotomia rígida
entre masculino e feminino.
FIQUE ATENTO
Você sabe o que é teoria queer? A teoria queer é uma corrente
teórica e política que emergiu nas décadas de 1980 e 1990 e
que questiona e critica as normas e categorias tradicionais de
identidade de gênero e sexualidade. Ela busca desestabilizar as
noções fixas e binárias de masculinidade e feminilidade, hete-
rossexualidade e homossexualidade, e desafiar as hierarquias
e sistemas de poder relacionados a essas categorias.
A teoria queer rejeita a ideia de que a identidade de gênero e a
sexualidade são fixas, imutáveis e determinadas biologicamen-
te. Ela procura desafiar a heteronormatividade, que é a ideia de
que a heterossexualidade é a única orientação sexual válida e
natural, e que a reprodução heterossexual é a única forma legí-
tima de família e relacionamento.
12
Sendo assim, gênero é uma construção social que abran-
ge as normas, papéis e identidades associadas aos se-
xos masculino e feminino, bem como representações
políticas e socioculturais. Compreender essa distinção
é fundamental para uma compreensão mais abrangente
da diversidade humana e para combater a discriminação
e a desigualdade de gênero.
Os movimentos em defesa de pautas de gênero têm
raízes históricas que remontam a diferentes períodos e
contextos. É importante destacar que as lutas em torno
das questões de gênero têm evoluído ao longo do tem-
po e variam em diferentes partes do mundo. A primeira
onda feminista (do século 19 ao início do século 20)
concentrou-se principalmente na conquista de direitos
políticos e legais para as mulheres, como o direito ao
voto e à propriedade. Embora a discussão de questões
de gênero tenha sido central nessa fase, a compreensão
da identidade de gênero era amplamente binária.
A segunda onda feminista (década de 1960 e 1970) trou-
xe à tona questões relacionadas à opressão de gênero,
desigualdade econômica e direitos reprodutivos. Duran-
te esse período, houve uma crescente conscientização
sobre a influência do patriarcado na vida das mulheres,
bem como uma crítica mais profunda às normas de
gênero e às estruturas sociais opressivas.
13
Durante o mesmo período da segunda onda feminista,
houve um aumento da visibilidade e ativismo dos mo-
vimentos pelos direitos das pessoas lésbicas, gays,
bissexuais e transgêneros (LGBT). Esses movimentos
também abordaram questões de identidade de gênero
e buscaram desafiar as normas heteronormativas e
a discriminação com base na orientação sexual e na
identidade de gênero.
A terceira onda feminista (1990 até a atualidade) expan-
diu as discussões sobre gênero para incluir uma pers-
pectiva mais interseccional, considerando a interconexão
das opressões de gênero, raça, classe, sexualidade e
outros modos de marginalização. Essa onda também
trouxe à tona a necessidade de se reconhecer e lutar
por uma variedade de identidades de gênero e expres-
sões não conformes, além de enfatizar a importância
da autonomia e empoderamento individual.
Nos anos 1980, o mundo foi abalado por uma nova e
misteriosa doença que logo se tornaria uma pande-
mia global: a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida
(AIDS). Nesse período, o contexto da AIDS era repleto
de desinformação, medo e estigma e a epidemia foi
particularmente devastadora para a comunidade LGBT+.
A doença foi erroneamente associada à homossexua-
lidade, alimentando o estigma e o preconceito contra
pessoas LGBT+. Muitos indivíduos enfrentaram discri-
minação e rejeição, tanto por parte da sociedade quanto
14
de suas famílias. A falta de conhecimento sobre o vírus
HIV e a ausência de tratamentos eficazes contribuíram
para a propagação da doença e o aumento do estigma.
Diante desse cenário, movimentos LGBT+ surgiram como
importantes atores na luta contra a AIDS. Organizações
como ACT UP (AIDS Coalition to Unleash Power) e outras
entidades ativistas surgiram para exigir políticas públi-
cas de saúde mais eficazes, acesso a medicamentos,
prevenção e educação. Por meio de manifestações,
ações diretas e campanhas de conscientização, esses
movimentos buscaram combater o estigma, fornecer
apoio às pessoas afetadas pela doença e pressionar
governos e instituições a enfrentar a epidemia de ma-
neira mais efetiva (GOÍS, 2002).
O feminismo também teve um papel significativo no
contexto da AIDS, tanto no Brasil quanto no mundo.
Embora a doença tenha sido inicialmente associada
principalmente à comunidade LGBT+, rapidamente ficou
claro que a AIDS afetava também as mulheres, incluindo
aquelas em relacionamentos heterossexuais, em sua
maioria infectadas pelos companheiros (BARBOSA;
VILELA, 1996). O feminismo trouxe à tona questões de
gênero relacionadas à vulnerabilidade das mulheres
devido a desigualdades sociais, econômicas e de poder.
Organizações feministas destacaram a necessidade de
se incluir a perspectiva de gênero nas políticas de saú-
de, promover a autonomia das mulheres na prevenção
15
e tratamento da AIDS e combater a violência e a discri-
minação contra mulheres soropositivas. O feminismo
também enfatizou a importância do consentimento, da
educação sexual e da proteção dos direitos reproduti-
vos das mulheres, especialmente no contexto da AIDS.
Globalmente, a conscientização e a resposta à AIDS
evoluíram ao longo dos anos. Avanços na pesquisa
científica levaram ao desenvolvimento de medicamentos
antirretrovirais e à prevenção da transmissão do vírus.
No entanto, o estigma e a discriminação ainda persis-
tem e a luta pela igualdade de acesso a tratamentos e
cuidados de saúde continua.
No Brasil, movimentos LGBT+ e organizações feministas
continuam atuantes na conscientização, no combate à
AIDS e na defesa dos direitos das pessoas afetadas pela
doença. Ações de prevenção, promoção da testagem
e tratamento adequado são pautas constantes desses
movimentos, que buscam garantir que a resposta à AIDS
seja inclusiva e abrangente.
Questões de gênero 1
O feminismo é um movimento político, social e cultural
que busca a igualdade de direitos, oportunidades e tra-
tamento para todas as pessoas, independentemente do
seu gênero. Ele visa a desafiar e combater as desigual-
dades e opressões baseadas no gênero, promovendo
uma sociedade mais justa e inclusiva.
16
Dentro dessa luta feminista, um tipo específico de violên-
cia ganhou visibilidade e tornou-se pauta: o feminicídio.
Esse é um termo utilizado para descrever o assassinato
de mulheres devido à sua condição de gênero, ou seja,
quando ocorre o homicídio motivado pela discriminação
e violência baseada no fato de se ser mulher. O termo
visa a destacar a dimensão de gênero e o contexto de
desigualdade e discriminação que contribuem para
esses crimes.
No Brasil, o feminicídio foi reconhecido como crime após
longa luta dos movimentos feministas e foi incluído na
legislação em 2015, por meio da Lei nº 13.104/2015.
Essa lei alterou o Código Penal brasileiro para incluir o
feminicídio como um qualificador do crime de homicídio.
Dessa maneira, o assassinato de uma mulher motiva-
do por razões de gênero passou a ser considerado um
crime hediondo, com penas mais severas.
O feminicídio é considerado um crime qualificado, o
que significa que as penas para esse tipo de crime são
mais severas do que para homicídios simples. A pena
mínima para feminicídio é de 12 anos de prisão, poden-
do ser aumentada em casos específicos, como quando
envolvem violência doméstica ou familiar.
A legislação brasileira estabelece que os casos de fe-
minicídio devem ser investigados e punidos de maneira
específica, considerando-se as motivações de gênero.
Isso inclui a realização de perícias específicas e a aná-
17
lise de circunstâncias que evidenciem a discriminação
e a violência baseada no gênero.
Outra medida jurídica alcançada pelos movimentos
feministas foi a imposição da legislação que prevê
medidas de proteção às vítimas de violência doméstica
e familiar, incluindo o feminicídio. Isso envolve a pos-
sibilidade de concessão de medidas protetivas, como
afastamento do agressor, monitoramento eletrônico e
acompanhamento policial.
A inclusão do feminicídio na legislação brasileira con-
tribuiu para aumentar a visibilidade e a conscientização
sobre a violência de gênero e seus impactos. Isso é im-
portante para combater a impunidade e promover uma
cultura de respeito e igualdade.
Apesar das implicações jurídicas e dos esforços em
combater o feminicídio, ainda há desafios no enfrenta-
mento da violência de gênero no país. A luta contra o
feminicídio requer um trabalho conjunto da sociedade,
das instituições e do poder público para prevenir, denun-
ciar e punir esse tipo de crime, bem como para promover
a igualdade de gênero e a mudança cultural necessária
para se erradicar a violência baseada no gênero.
Questões de gênero 2
Sexo, gênero e orientação sexual são conceitos diferen-
tes que se referem a aspectos distintos da identidade e
da expressão humana. Como estudamos anteriormente,
18
sexo é uma categoria biológica e se refere às caracte-
rísticas físicas, fisiológicas e genéticas que distinguem
os seres humanos como machos e fêmeas.
As características sexuais primárias incluem órgãos
genitais, cromossomos sexuais (XX para mulheres e
XY para homens) e características reprodutivas. As
características sexuais secundárias são características
físicas que se desenvolvem durante a puberdade, como
a distribuição de gordura, o crescimento de pelos e o
desenvolvimento das mamas.
A orientação sexual tem outro conceito e refere-se à
atração romântica, emocional e/ou sexual que uma pes-
soa sente em relação a outras pessoas. Ela se baseia
no desejo, na atração e nas relações interpessoais. As
orientações sexuais mais usuais são a heterossexua-
lidade (atração por pessoas do sexo oposto), homos-
sexualidade (atração por pessoas do mesmo sexo)
e bissexualidade (atração por pessoas de ambos os
sexos). Existem também outras orientações sexuais,
como pansexualidade, assexualidade e demais varia-
ções (MISKOLCI, 2012).
É importante entender que sexo, gênero e orientação
sexual são conceitos independentes, embora estejam
inter-relacionados em muitos aspectos. Cada um deles
influencia a identidade e a experiência de uma pessoa,
mas não são determinados exclusivamente pelos ou-
tros. A compreensão e o respeito pela diversidade des-
19
ses aspectos são fundamentais para se promover uma
sociedade inclusiva e igualitária.
Essas lutas pelos direitos e conscientização sobre as
questões envolvendo sexo, gênero e orientação sexual
ganharam força significativa no final do século 19 e
início do século 20.
Organizações pioneiras, como o Comitê Científico-Hu-
manitário, fundado na Alemanha, em 1897, buscaram
desafiar a criminalização e a patologização da homos-
sexualidade e promover a aceitação e a igualdade.
O movimento pelos direitos civis dos anos 1960 nos
Estados Unidos também teve um impacto significativo
na conscientização e na luta pelos direitos de grupos
minoritários, como os gays, as lésbicas, os bissexuais
e transexuais, ou seja, o movimento LGBT. As deman-
das por igualdade racial e social ampliaram o diálogo
em torno da discriminação e da desigualdade, e muitas
pessoas LGBT encontraram inspiração e aliados dentro
desse movimento.
Um marco crucial na história dos movimentos LGBT foi
a Rebelião de Stonewall, ocorrida em junho de 1969,
em Nova York, nos Estados Unidos. Após uma incursão
policial no Stonewall Inn, um bar frequentado principal-
mente por pessoas LGBT, a comunidade reagiu com
resistência e protestos que se estenderam por várias
noites. Esses eventos desencadearam uma onda de
ativismo e organização em defesa dos direitos LGBT,
20
sendo amplamente considerada o ponto de partida do
movimento moderno pelos direitos LGBT (PERONI, 2019).
Atualmente, a comunidade é conhecida pela sigla LGB-
TQIA+, um termo abrangente que engloba pessoas
lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, queer, inter-
sexuais, assexuais e outras identidades relacionadas à
diversidade de orientação sexual, identidade de gênero
e expressão de gênero. É importante ressaltar que a co-
munidade LGBTQIA+ é diversa e heterogênea, com uma
variedade de experiências e identidades dentro dela.
É uma comunidade que luta por igualdade, reconheci-
mento, direitos e respeito em várias partes do mundo.
A luta da comunidade LGBTQIA+, assim como a luta das
mulheres, dos negros, das mulheres negras, não pode
parar. Problemas como o feminicídio também estão
presentes na vida daqueles que possuem diferentes
orientações sociais ou identidade de gênero. A transfobia
é um problema sério e generalizado em muitas partes
do mundo. Ela se manifesta na forma de discriminação,
preconceito, estigmatização e violência direcionada a
pessoas transgênero. Essa hostilidade e intolerância
podem ter consequências devastadoras para a vida e
o bem-estar das pessoas trans.
A transfobia pode se manifestar de diversas maneiras,
incluindo a discriminação legal, tendo em vista que
muitos países têm leis discriminatórias que não reco-
nhecem a identidade de gênero das pessoas trans ou
21
restringem seus direitos e acesso a serviços básicos,
como saúde, emprego e educação. Essas leis podem
negar a existência legal das pessoas trans ou tornar
difícil para elas obter documentos de identificação que
reflitam sua identidade de gênero.
Pessoas trans são frequentemente alvo de violência
física, verbal e psicológica devido à sua identidade de
gênero. Crimes de ódio, incluindo agressões, assédio e
assassinatos, são uma realidade alarmante para muitas
pessoas trans em todo o mundo.
Além disso, a violência contra pessoas trans pode impor,
inclusive, barreiras significativas ao acesso a cuidados de
saúde adequados, incluindo cuidados de saúde mental,
hormonais e cirúrgicos. A falta de profissionais de saú-
de qualificados e sensíveis à questão trans, juntamente
com políticas e sistemas de saúde discriminatórios,
contribuem para essa disparidade.
A sociedade, muitas vezes, estigmatiza as pessoas trans,
retratando-as de maneira negativa, ridicularizando-as ou
tratando-as como “anormais”. Isso leva à marginalização
social e à exclusão de oportunidades educacionais, de
emprego e de participação plena na vida comunitária.
Não bastando os problemas na vida social externa ao
núcleo familiar, o preconceito adentra as casas e impõe
desafios pessoais enormes às pessoas trans, que en-
frentam rejeição e falta de apoio de suas famílias, o que
pode levar ao isolamento social, à falta de moradia e a
22
um maior risco de problemas de saúde mental, como
depressão e suicídio.
É importante combater a transfobia em todas as suas
formas, promovendo a aceitação, a igualdade de direitos
e o respeito pelas pessoas trans. Isso envolve a imple-
mentação de leis e políticas antidiscriminação, a educa-
ção pública sobre identidade de gênero e diversidade, o
fortalecimento dos direitos humanos das pessoas trans
e o apoio às organizações e movimentos que defendem
a igualdade de gênero e os direitos transgênero.
No Brasil, o entendimento e o tratamento jurídico da
transfobia têm evoluído – ainda que lentamente – ao
longo dos anos, buscando garantir a proteção e os direi-
tos das pessoas trans. A Constituição Federal brasileira
estabelece princípios fundamentais, como a igualdade,
a dignidade humana e a não discriminação, que são apli-
cáveis a todas as pessoas, incluindo as pessoas trans.
A Lei nº 7.716/1989 prevê como crime a prática de dis-
criminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião
ou procedência nacional. A partir do entendimento
do Supremo Tribunal Federal (STF), a jurisprudência
tem reconhecido a aplicação dessa lei para casos de
discriminação por orientação sexual e identidade de
gênero, considerando-os equivalentes à discriminação
por racismo.
Além disso, o STF, em junho de 2019, decidiu que a dis-
criminação por orientação sexual e identidade de gênero
23
é equivalente à discriminação por racismo, tornando
crime a prática de LGBTfobia (STF..., 2019). Assim, atos
de transfobia podem ser enquadrados como crimes de
racismo, sujeitos a punições mais severas.
O direito das pessoas trans à autodeterminação de
gênero tem sido reconhecido por meio de decisões ju-
diciais. A partir da jurisprudência, é possível solicitar a
retificação de documentos, como o nome e o gênero, para
que reflitam a identidade de gênero da pessoa, mesmo
sem a realização de cirurgia de redesignação sexual.
Por fim, podemos citar como avanço o direito conquis-
tado pelo movimento LGBTQIA+, que garante às pes-
soas trans o direito à proteção contra a violência e o
assédio com base na sua identidade de gênero. Casos
de violência, agressões e crimes motivados por trans-
fobia devem ser investigados e punidos de acordo com
a legislação vigente.
É importante ressaltar que, apesar dos avanços legais,
a efetiva implementação e aplicação dessas leis e po-
líticas podem enfrentar desafios. A conscientização, a
educação e a sensibilização da sociedade, bem como a
capacitação dos operadores do direito, são essenciais
para se garantir a eficácia das medidas de combate à
transfobia e para promover uma sociedade mais inclusi-
va e respeitosa com as pessoas trans. Temos um longo
percurso pela frente.
24
Considerações finais
9 Gênero, sexualidade, sexo e orientação sexual são
conceitos inter-relacionados, mas distintos;
9 O gênero é considerado uma construção social,
sendo diferente da biologia sexual;
9 Enquanto o sexo está relacionado às características
físicas e biológicas, o gênero é uma construção social
que varia culturalmente e pode ser fluido, abrangendo
uma variedade de identidades de gênero;
9 A sexualidade refere-se às orientações, desejos,
atrações emocionais e sexuais que uma pessoa sente
em relação a outras pessoas. É uma parte fundamental
da identidade e da expressão individual;
9 A sexualidade é uma dimensão ampla e abrange di-
ferentes orientações sexuais, como heterossexualidade,
homossexualidade, bissexualidade, pansexualidade,
entre outras;
9 As leis desempenham um papel fundamental na
promoção da igualdade;
9 Ao reconhecer e proteger legalmente o direito de
casais do mesmo sexo se casarem e desfrutarem dos
mesmos direitos e benefícios legais que casais hete-
rossexuais, as leis contribuem para a igualdade e a não
discriminação.
25
Refugiados e imigrantes
Outro complexo problema da atualidade não é, na ver-
dade, nada novo na história da humanidade. Processos
migratórios marcam a vida do ser humano na Terra e
foram responsáveis por toda a complexa e bela trama
de culturas em que vivemos.
São distintos os termos refugiados e imigrantes. Os
dois referem-se a migrações, porém, diferentes tipos de
migrações, pois os refugiados são pessoas que fogem
de seus países de origem devido a temores bem funda-
mentados de perseguição, conflitos armados, violência
generalizada ou violação grave dos direitos humanos.
Eles são forçados a deixar seu país para buscar prote-
ção em outro lugar.
Já os imigrantes são pessoas que optam por deixar
seus países de origem para se estabelecer em outro
país, geralmente por razões como busca de melhores
oportunidades econômicas, reunificação familiar, edu-
cação, entre outros motivos pessoais.
A questão jurídica é outra diferença entre essas migrações.
O estatuto de refugiado é reconhecido por leis e convenções
internacionais, como a Convenção Relativa ao Estatuto
dos Refugiados de 1951 e seu Protocolo de 1967. Esses
instrumentos estabelecem os critérios e os direitos dos
refugiados, bem como as responsabilidades dos países
em relação à proteção e ao amparo dessas pessoas.
26
Os refugiados têm o direito de solicitar asilo em outro
país e receber proteção internacional. Eles são reconhe-
cidos como tendo um temor legítimo de retorno ao seu
país de origem e podem receber assistência e apoio para
reconstruir suas vidas no país de acolhimento.
Os imigrantes podem seguir os processos legais e re-
gulamentares estabelecidos pelo país de destino para
obter autorização para entrar, residir e trabalhar nesse
país. Eles podem solicitar vistos de trabalho, vistos de
estudo e reunificação familiar, entre outros modos de
legalização de sua permanência.
É importante destacar que a migração é um fenômeno
complexo e variado, e as situações individuais podem
ser diferentes. Além disso, algumas pessoas podem se
tornar refugiadas depois de migrar inicialmente como
imigrantes, devido a mudanças nas condições de seus
países de origem. As políticas e as abordagens dos
países em relação aos refugiados e imigrantes podem
variar, mas é fundamental respeitar e proteger os direitos
humanos de todas as pessoas em movimento.
Os desafios atuais relacionados aos casos dos refu-
giados são complexos e variados. Dentre os maiores
problemas, encontramos os fluxos migratórios em larga
escala. O mundo tem testemunhado um aumento signi-
ficativo nos fluxos migratórios e no número de pessoas
deslocadas globalmente.
27
Conflitos armados, violência, perseguição, desastres
naturais e mudanças climáticas são alguns dos fatores
que impulsionam esses deslocamentos em larga escala.
Isso coloca uma pressão significativa nas estruturas e
recursos disponíveis para receber e acomodar os refu-
giados. De acordo com o relatório da Acnur, em matéria
da jornalista Maria Portella (2022), o:
Relatório divulgado pela Agência da ONU para Refu-
giados (Acnur) mostra que ao menos três mil pessoas
morreram ou desapareceram em 2021 tentando chegar
à Europa por meio de rotas marítimas no Mediterrâneo
e no Atlântico. Cerca de duas mil pessoas morreram
tentando utilizar o mar Mediterrâneo como rota para
chegar ao continente europeu. Mais mil mortes foram
registradas de imigrantes que tentavam chegar à Europa
por meio da rota marítima que liga a África ao continente.
Fica evidente, portanto, o tamanho da crise humanitária
que envolve as migrações. Mas, além disso, é sabido
que muitos refugiados têm dificuldades para acessar a
proteção internacional. Isso pode ocorrer devido a bar-
reiras burocráticas, falta de mecanismos de solicitação
de asilo eficientes, políticas restritivas de imigração,
falta de conhecimento sobre seus direitos e ausência
de infraestrutura adequada para processar solicitações
de refúgio.
28
Os refugiados, muitas vezes, enfrentam condições pre-
cárias de vida nos países de acolhimento, como campos
superlotados, falta de acesso a saneamento básico,
saúde, educação e oportunidades de trabalho. A falta
de recursos adequados e infraestrutura pode dificultar a
provisão de assistência humanitária e a garantia de con-
dições de vida dignas para os refugiados e imigrantes.
SAIBA MAIS
Little America é uma série de antologia americana que estreou
em 17 de janeiro de 2020 na plataforma de streaming Apple TV+.
Criada por Lee Eisenberg, Kumail Nanjiani e Emily V. Gordon, e
é baseada em histórias reais publicadas na Epic Magazine, que
retratam as experiências de imigrantes nos Estados Unidos.
A série apresenta episódios independentes, cada um contando
uma história de imigrantes que encontraram sucesso, supera-
ram desafios e tiveram um impacto significativo na sociedade
americana. “Little America” adota uma abordagem humanista
e emocional, explorando temas como família, identidade, amor,
resiliência e a busca pelo sonho americano. Embora as histórias
sejam baseadas em eventos reais, a série utiliza elementos de
ficção para retratá-las.
A vida de imigrantes e refugiados impõe enormes desa-
fios e realizar a integração desses grupos nas comuni-
dades de acolhimento pode ser um dos problemas mais
urgentes. Barreiras linguísticas, diferenças culturais,
estigmatização, discriminação e falta de oportunida-
des de emprego podem dificultar a sua inclusão social
29
e econômica. A falta de apoio adequado para ajudar
migrantes a se integrarem e reconstruírem suas vidas
também é um desafio importante.
É importante lembrar que, especialmente entre os re-
fugiados, o objetivo é retornar a seus países de origem
assim que as condições permitirem. No entanto, o re-
torno seguro e sustentável requer a reconstrução de
infraestruturas, a estabilização política e a garantia dos
direitos humanos básicos. Em muitos casos, essas con-
dições não são alcançadas rapidamente, o que torna o
retorno uma opção desafiadora.
Lidar com esses desafios requer uma abordagem abran-
gente e colaborativa, envolvendo governos, organizações
internacionais, sociedade civil e comunidades de aco-
lhimento. É fundamental fornecer proteção adequada
aos refugiados e aos imigrantes, melhorar as condições
de acolhimento, promover a integração social e eco-
nômica e trabalhar para soluções duradouras, como a
resolução de conflitos e a construção de paz em seus
países de origem.
30
Considerações finais
9 A imigração é um fenômeno global que envolve a
movimentação de pessoas de um país para outro em
busca de oportunidades econômicas, segurança, refúgio,
reunificação familiar e diversas outras razões;
9 Os refugiados são uma das categorias mais vulnerá-
veis de migrantes, pois enfrentam riscos iminentes à sua
vida, liberdade e bem-estar em seus países de origem;
9 Os desafios enfrentados pelos imigrantes incluem a
adaptação a um novo país, cultura, língua e sistema legal;
9 Muitas vezes, imigrantes enfrentam barreiras lin-
guísticas, dificuldades na obtenção de emprego e reco-
nhecimento de suas qualificações profissionais, além
do sentimento de serem estrangeiros em uma nova
sociedade;
9 Os países precisam estabelecer políticas de imigra-
ção claras e justas, lidar com questões de segurança
e controle de fronteiras e garantir que os direitos dos
imigrantes sejam protegidos;
9 A imigração também pode gerar debates e tensões
políticas em relação à identidade nacional, emprego,
distribuição de recursos e equilíbrio demográfico.
31
Ocidente x Oriente
Os desafios da contemporaneidade não terminam com
questões identitárias internas e nem com as migrações
em suas mais diferentes maneiras de existir. Além de
pensarmos em questões de raça, gênero e classe, dentro
das relações da sociedade ocidental, precisamos olhar
para uma questão latente e intermitente da história hu-
mana: a relação Oriente e Ocidente.
A história da relação entre o Oriente e o Ocidente remonta
a milênios e é caracterizada por interações complexas
que variam desde o comércio e a troca cultural até o
conflito e a dominação imperial. Na Antiguidade, houve
trocas comerciais e contatos culturais entre o Oriente e
o Ocidente. Civilizações como a egípcia, mesopotâmi-
ca e persa floresceram no Oriente, enquanto a Grécia
e Roma desenvolveram-se no Ocidente. Essas civiliza-
ções tiveram relações comerciais e diplomáticas, mas
também conflitos e guerras.
Durante a Idade Média, as rotas comerciais como a Rota
da Seda conectaram o Oriente e o Ocidente, permitindo
a troca de bens, ideias e conhecimentos. Impérios como
o Bizantino e os califados islâmicos desempenharam
um papel importante como intermediários culturais
entre as civilizações orientais e ocidentais.
32
A partir do século 15, os europeus iniciaram grandes
explorações marítimas em busca de rotas comerciais
para o Oriente. Isso levou ao estabelecimento de colônias
e impérios europeus na Ásia, África e Américas. Essa
expansão ocidental resultou em conflitos, dominação
e exploração de muitas culturas orientais.
Nos séculos 19 e 20, o colonialismo europeu atingiu seu
auge, com as potências europeias estabelecendo do-
mínio direto ou indireto sobre vastas partes do Oriente,
incluindo a Índia, a China, o Sudeste Asiático e o Norte
da África. Esse período foi marcado por exploração
econômica, assimilação cultural forçada e repressão
das culturas e identidades locais.
Após a Segunda Guerra Mundial, muitos países orien-
tais buscaram sua independência do domínio ocidental.
Esse processo de descolonização ocorreu em várias
etapas e levou à formação de novos Estados nacionais
na Ásia e na África. No entanto, as consequências do
colonialismo continuaram a ter impacto nas estruturas
políticas, econômicas e sociais dessas regiões.
Nas últimas décadas, a globalização tem aproximado
ainda mais o Oriente e o Ocidente. A rápida expansão do
comércio, das comunicações e da tecnologia facilitou a
interconectividade e o intercâmbio cultural entre as duas
regiões. No entanto, isso também trouxe desafios, como o
choque cultural, o neocolonialismo econômico e a preser-
vação da identidade cultural diante da influência ocidental.
33
Ao longo dos estudos antropológicos, alguns autores
posicionaram-se, desenvolvendo análises com o obje-
tivo de escancarar a visão ocidental sobre o Oriente.
Para Edward Said, o Ocidente desenvolveu e perpetuou
uma visão pejorativa sobre o Oriente, caracterizada por
estereótipos, generalizações simplistas e preconceitos.
Edward Said foi um importante teórico e crítico literário
palestino-americano, conhecido por seu trabalho seminal
intitulado Orientalismo. Nessa obra, publicada em 1978,
Said examina a construção ocidental da identidade e re-
presentação do Oriente, destacando as relações de poder,
conhecimento e dominação envolvidas nesse processo.
Esse orientalismo, ou seja, essa visão pejorativa e distor-
cida do Oriente, seria fruto de uma construção negativa
e descontextualizada das culturas orientais. Said argu-
menta que o “orientalismo” é uma construção ocidental
que se baseia em estereótipos, generalizações simplistas
e imagens exóticas do Oriente. Essas representações
são criadas e perpetuadas por acadêmicos, intelectuais,
escritores e artistas ocidentais, que impõem sua visão
sobre as culturas, povos e história do Oriente.
Segundo consta em seu livro, o orientalismo é uma
expressão do poder e dominação ocidentais sobre o
Oriente. Ele descreve como o conhecimento produzido
pelo orientalismo é usado para justificar a superioridade
e a dominação ocidentais, legitimando a colonização, a
exploração e a subjugação das culturas orientais.
34
Sendo assim, o orientalismo não apenas distorce e
estigmatiza as culturas orientais, mas também desem-
penha um papel na construção da identidade ocidental.
Ele argumenta que a representação do Oriente como
«outro» ajuda a definir e reforçar a autopercepção oci-
dental, construindo uma imagem de superioridade e
legitimando a expansão imperialista.
Said segue seu raciocínio com uma crítica ao conheci-
mento produzido pelo “orientalismo”, por ser tendencio-
so, enviesado e desprovido de uma perspectiva genui-
namente oriental. Ele defende a necessidade de uma
abordagem mais crítica, plural e contextualizada em
relação ao Oriente, que permita às culturas orientais
reivindicarem sua própria voz e agência na produção
do conhecimento sobre si mesmas.
Mas esse caminho pavimentado ao longo da história
do ocidente não é um caminho sem volta. Said propõe
algumas medidas para modificar isso. O primeiro ponto
seria a conscientização crítica. É fundamental reconhecer
e questionar as representações orientalistas presentes
nas várias áreas do conhecimento, como Literatura,
História, arte e mídia. Isso envolve desenvolver uma
consciência crítica sobre os estereótipos, preconceitos
e visões simplistas que foram historicamente perpetua-
dos em relação ao Oriente.
35
Uma das maneiras de contribuir para a aceleração des-
sa conscientização crítica é a descentralização do co-
nhecimento sobre o Oriente, dando voz e espaço para
estudiosos, intelectuais e artistas orientais. Isso implica
na promoção de perspectivas e narrativas autênticas
que emergem das próprias comunidades e culturas
orientais, em vez de depender exclusivamente das re-
presentações ocidentais.
Said segue afirmando que é essencial reconhecer a di-
versidade e a complexidade das culturas, sociedades
e histórias orientais. O Oriente não deve ser percebido
como uma entidade monolítica, mas sim como um
conjunto de realidades heterogêneas e multifacetadas.
Além disso, é imprescindível promover o diálogo e a
interação entre o Oriente e o Ocidente com base na
igualdade de poder. Isso implica superar as relações de
dominação e colonialismo, permitindo que diferentes
perspectivas sejam ouvidas e valorizadas.
Por fim, e não menos importante, devemos destacar
que valores humanos e humanitários devem ser esti-
mulados. É fundamental desenvolver uma sensibilidade
e empatia em relação ao “outro” oriental. Isso envolve
abandonar os estereótipos simplistas e buscar uma
compreensão mais profunda e complexa das culturas
e identidades orientais.
Edward Said influenciou significativamente os estudos
pós-coloniais, a crítica literária e os debates sobre poder,
36
representação e identidade cultural. Sua perspectiva
crítica abriu caminho para uma reflexão mais ampla so-
bre as relações entre o Ocidente e o Oriente, bem como
para a desconstrução dos estereótipos e preconceitos
ocidentais em relação às culturas orientais.
Quando pensamos na dinâmica Oriente x Ocidente,
outras questões complexas com dinâmicas distintas
continuam se apresentando.
O século 21 testemunhou uma série de conflitos e desa-
fios geopolíticos que afetam a relação entre o Oriente e
o Ocidente. Conflitos no Oriente Médio, como a guerra
na Síria e o conflito israelense-palestino, bem como
questões relacionadas ao terrorismo, têm impacto nas
relações internacionais e afetam a percepção mútua.
A crise migratória e os fluxos de refugiados têm desem-
penhado um papel importante na relação entre o Oriente
e o Ocidente no século 21. O deslocamento em massa
de pessoas devido a conflitos, violência e desastres
tem levado a um aumento nos fluxos migratórios, que
afetam tanto as regiões de origem quanto as de destino.
A convivência entre diferentes valores, tradições e re-
ligiões pode gerar tensões culturais no mundo con-
temporâneo. Questões como liberdade de expressão,
direitos humanos, diversidade sexual e igualdade de
gênero geram debates acalorados e desafios no diálo-
go intercultural.
37
Apesar dos desafios, o século 21 também tem visto um
aumento no diálogo cultural e no intercâmbio educacional
entre o Oriente e o Ocidente. Universidades, instituições
culturais e organizações da sociedade civil promovem a
colaboração acadêmica, intercâmbios estudantis e ati-
vidades culturais para promover a compreensão mútua
e o respeito pelas diferenças.
Isso porque a mudança imposta pela globalização e os
avanços tecnológicos têm encurtado as distâncias e fa-
cilitado a comunicação e o intercâmbio cultural entre o
Oriente e o Ocidente. A disseminação da internet e das
redes sociais permite que pessoas de diferentes regiões
do mundo se conectem e compartilhem informações
instantaneamente. Se usados corretamente, tais meca-
nismos de comunicação podem contribuir para mitigar
o preconceito e a visão estereotipada do oriente.
É preciso lembrar que as relações comerciais entre o
Oriente e o Ocidente são fundamentais no século 21.
Países do Oriente, como a China, a Índia e os países do
Golfo Pérsico, emergiram como importantes potências
econômicas, enquanto o Ocidente continua a ser uma
região econômica influente. O comércio de bens, servi-
ços e investimentos entre essas regiões impulsiona o
crescimento econômico global. Assim, o bom relaciona-
mento, pautado no respeito genuíno, na desconstrução
dos preconceitos faz-se imperativo.
38
Por fim, podemos perceber que a relação entre o Oriente
e o Ocidente no século 21 é diversa e complexa, com
muitos fatores que influenciam essa dinâmica. É fun-
damental promover um diálogo respeitoso, uma com-
preensão mútua e uma abordagem colaborativa para
enfrentar os desafios comuns e construir relações mais
harmoniosas entre as duas regiões.
39
Considerações finais
9 A relação entre o Oriente e o Ocidente é uma intera-
ção complexa e histórica que abrange diferentes áreas,
como política, cultura, religião, comércio e intercâmbio
de ideias;
9 Essa relação remonta a séculos e tem sido marcada
por períodos de cooperação, conflito, influência mútua
e incompreensão;
9 Edward Said argumenta que o orientalismo trata o
Oriente como uma entidade homogênea e estática, ig-
norando a diversidade cultural, histórica e política das
sociedades orientais;
9 Said critica a tendência do Ocidente em reduzir o
Oriente a uma série de estereótipos fixos e simplificados;
9 O orientalismo é uma ferramenta utilizada pelo Oci-
dente para exercer dominação sobre o Oriente.
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