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A China No Brasil - Parte 4

O documento discute as semelhanças físicas observadas entre indígenas brasileiros e chineses por viajantes estrangeiros ao longo dos séculos. Ao longo do tempo, diversos autores notaram parecenças e tentaram explicá-las por uma possível origem asiática dos povos indígenas americanos.
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A China No Brasil - Parte 4

O documento discute as semelhanças físicas observadas entre indígenas brasileiros e chineses por viajantes estrangeiros ao longo dos séculos. Ao longo do tempo, diversos autores notaram parecenças e tentaram explicá-las por uma possível origem asiática dos povos indígenas americanos.
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ÍNDIOS OU CHINESES?

semel h CJ nça física entre nossos silvícolas e os chineses não passou despercebida a bom
A · d e st r3 ngeiros que lograram entrar em contato com os índios. O mais remoto paralelo
número e ire c hineses e indígenas deve ter sido o de Pero de Magalhães Gandavo na /-fisrória
esbOÇado ,
eia
n ,,n ca Cruz, publica . d a em 1576 em Lisboa:
. "Estes lnd10s
. sao- de cor baça, e cabelo
5
da pro_vm~êm 0 rosto amassado, e algumas feições dele à maneira de Chins".1
corredio,
A
começos .
co;:a, ação reapareceria de tempos em tempos, para tornar-se quase lugar-comum em
,,-,ndo XIX na pena de diversos viajantes de passagem pelo país . Assim, ao se de-
.,, . - e s do Rio de Janeiro com os chineses plantadores de chã da Fazenda de Santa
as 1me( 1lo~ 0
parar n Sp ix e Martius não deixam de anotar, surpresos:
cruz, em 181 7
fjsionoin•J Llos chineses imigrados foi-nos de especial interesse e com o 1empo ainda de maiores•
1
A poi" ,u Jo amos descobrir neles o tipo bãsico que se observa nos índios .
panto , r,

poucos r.o s mais tarde era a vez do letoniano Ernesl Ebel aludir à parecença física entre
indígenas bra si!eiros e os chineses que vira trabalhando no Arsenal do Rio de Janeiro:

Vi igu a lme 1, ,e mais de uma família de iapuias, pequenos de cSlatura e feições rotundas mas bondosas.
sua te z é Jev c: me nte acobreada e vestem-se como os negros. Andam em total liberdade e alguns tra·
balham nn Ars e nal . Aí também encontrei uns quantos chineses. engajados como opcririos, os quais.
fisicam ent e se pa recem com os iapuias att nos olhos, porém, têm-nos mais vivos e alongados.'

Na Voyag e Pi rtoresque et Historique au Brésil, Jean-Baptiste Debrel represenwu mais de


uma vez capitães-do-mato indígenas de aparência marcadamente manchu, do mesmo modo como,
na Malerisch e Ji eise in Brasi/ien, Johann Moritz Rugendas desenhou botocudos, machacaris,
camacãs, puris , coroados e coropós que passariam, quase, por outros tantos tipos chineses.
Rugendas foi ma is longe, observando que
os Tupis e os Ta puias têm caracteres comuns muito pronunciados, eles têm a cor da raça mongólica da
Ásia e seu crâ nio apresenta a mesma conformação.

Para esse grande pintor, a variedade de raças com que se deparou no Brasil constituiu um
fato extraordinário, que ele engenhosamente assim buscou explicar:
As diversas raç as de homens que se encontram nos palscs do Novo Mundo. e a imensa varied ade que
as caracteriza, apresentam ao observador, ao estadista, ao cidadão. o panorama mais intcrwantc que as
s~c,edades humanas podem oferecer. Dir-se-ia que a civilização tenta igualar e mesmo uJm1passar .,
riquezas que a natureza faz brilhar no reino animal e vegetal. Desse ponto de vista. o Brasil ganha de
todas as outras regiões da América , e principalmente das colõolas espanholas. A importação de negros

ltaliaia/ Edagalhaes Gandavo, Tr.rado da Terra do Bra.<il. História da pro >'inri• Sunt• cruz. Belo HuJiioot<.
1 Pero de M .
2
'
usp, 1980, p. 122.
"'"' o ,,..,, ,, , _... "" "' ,~··· 'º"""º ,- ~,.,. ...., ""' ' '"
' Of
Cf. Gilberto R,o de Janeiro e ,<eu,< arredores cm 1824. Sào Paulo, Con1panhl• Editora Nocton, I. 1972. p 55
Ernst Ebel ,

253

_____.....,_ !'!li
b
o . rrid.·o ca•sa
menta que parece ter prevalecido entre as duas raças no Brasil , a po nto de te-
d:1 Áfri<:a t! aqui muito mais c:o nsider:i vcl e as raças indígen:is m:ib num er<~sa s, JI.:' _n:!) to , as colõnia:-. 01om
ocorelau o 10
na mentos inter-raciais, dos quais dá testemunho Maximiliano de Wied-Neuwied
pm<u guc m da Ásia para isso conuibuem co m uma mis<ura de sangue mala,o. chonc, e hindu .' re
por e" empl o .

Na ve rdade, a se melhança íísica entre os chineses e os ameríndios pode vir de muito mais
lo nge - desde a própria origem do homem americano. a qual, segund o s u s ten tam inúme ro s
autores antigos , remontaria aos fenícios, aos gregos. aos romanos, aos israelit.1 s e m esmo aos
tá rta ros ' Assim, dom Diego Andrés Rocha, em se u Trarado Unico Y S_ingu la r dei O rígen de los
Indios. de 1681 , defende a dupla origem, israelita e tártara , dos amencanos . am para ndo-se em
opiniõ~s de quase ce ntena e meia de autoridades.' Bem antes dele , porém , Aml>rós io Fe rnandes
Brnndao, nos Diálogos das grandezas do Brasil, de 1618, sustentava a o ri gem is radita do nosso
10d10, asst::verando que

• aind a hoje em dia se acha entre eles muirns palavra s e nomes próprios pronu nc1;1 Jc,~ n.1 ling ua h b :.·
e, da me sma maneira . ,ostumes , , orno e Iomarem suas sobrinhas por suas verd.1 d ... ;r.,~ mu lhere: rt:ia
nem uma coisa nem oulra fariam se os n:io houvessem depreendido de quem o, ... Jhl~t ' que

1
Quanto ao indígena do Peru, "fraquíssimo e pouco in~linado a guerras:·. ~' r . pa ~a Brandão,
d escendente dos antigos chineses, visto como esse povo Já desde rem otas u~, ... n 1 rn mava a arte
da navegação." . _
O curioso é que tais idéias, a uma análise superficial estapafúrdias, nao e:--1. · 1.k· modo algum
descartadas ainda hoje, tanto tempo decorrido do seu enunciado. Nem falt a, n.1 lll~tli dade, quem
reclame. para os silvícolas americanos, origem asiática, rechaçando a teoria dJ. ,l 1 1' ·x: to nia susten-
tada por Ameghino e tantos mais. Vale destacar a tal respeito a opinião de Pau: 1Z.n: t, para quem
o povoamento do Continente Americano deu-se em levas sucessivas - pelo ;\11 rle, através do
Estreito de Behring (que então, coberto de gelo, unia a Ásia à Améri ca d o :S:1·rte), pelo Sul e
pelo mar (povos melanésios e polinésios). Rivet pensa inclusive que os po,·0.1do res mais anti-
gos, vindos da Ásia pela língua de terra que deu origem ao se fender a o E.,t re,to de Behring ,
eram povos mongolóides, caçadores que no encalço de suas presas reali zaram J pé a travessia _;
Bastante significativo parece-nos também o estudo do arqueólogo Emílio Estrada, publicado
em 1962, que aponta semelhanças estilísticas entre a cerâmica chinesa da dina stia 1-lan (206 a .
C. a 221 d . C.) e alguns artdatos cerâmicos, como casas votivas e mesmo tra vc s..., eiro::. de argila,
e nco ntrados na região do Manabi Central. Por outro lado, o especialista em arte prim iti va Douglas
Frazer observou estreito parentesco entre o Estilo Chavín do Peru (1200 a. e. a 200 d . C.) e a
arte chinesa do segundo milênio a. C., concluindo tal e qual nosso Ambrós io Fe rnandes Brandão
mais de 300 anos antes:

É lógico que os peruanos n:lo foram buscar na China seu estilo : não era m grande s n:ivegado res, e nad:i
exi stia na arte asiá1ica que ate ste tenham de s efetuado um:1 expansão através do Pa cifi co. As popula·
çôes insulares e chinesas amigas. inversamenie . já di spunham de pirogas co m as 4uai ::. bem podem ter
atrave ssado o oceano. para assim trazer inspiração nova à cultura e ;\ arte ame rican as."

Não desejamos, e nem saberíamos, aprofundar-nos em tais assuntos; de qualquer modo,


que não nos causem espanto a semelhança fisionômica entre índios e chineses ou japoneses9 ou

4 João Maurício Rugenda s. Vi:Jgem piroresca arravés do Bra.çi/_ Belo Horizonte. ltatiaia/ Edusp, 1979, P· 9 7 e à dosflorestas
nas Ch· vir gens d a
Amazoma,
. e que e avahada, sem exageraçao. em ISO mil almas. parece idén<ica
100 . A • , • •

e Cliffor~n~ ou outros asiáticos·. Quanto a uma origem japonesa dos indígenas das Américas. Uelly Mcggm
5 Cf. Sé rgio Buarque de Holanda , Visão do Paraiso . São Paulo , Companhia Editora Nacional. 1969, P · 28 7 · 8 · contatos vans encontraram no litoral do Equador res1os cerámicos que no seu en1ender 1es<emunham
Era Crist_mant,~os entre os habitantes da região e pescadores nipónicos já no terceiro milênio anlenor 1
6 Sobre :is realizações chine sas na arte da navegação co nsulte.se Jacques Genet, o mundo chinês. Lisboa , México ~· e nao parece haver dúvida de que as figurinha s votivas em argila encon1radas em Tlaliko. no
Cosmos. 1974. v . 1, p. 308·9 .
_ · embram de muito perto as japonesas do período Jomon, e . t.000 a. C.
7 Paul Rivet . A s origens d o homem americano. São Paulo. 1960.
10 ch;~rmcipe
0 Maximiliano de Wied-Neuwíed afirma 1er enconuado numa fazenda de Pon<e de Gcnno alsun,
8 Dougla s Frazer , L'Art Primirif. Paris, Aimery Somogy, 1962, p. 250 . bran:~:s casa_dos com moças índias , jã convertidos ao ca10\irismo e vivendo em perfeila h,rmonia mm
vldad . e afncanos, se bem que ainda conservassem seus cos<umes nac ionais e comemorassem a , b u -
9 Ainda em 189~ . o capitào•tenenit ~olatino Marques de Souza assim escrevia, à p. 29 de seu livro O tr;I · Cílb es tradicionais de seu longínquo país, além de poss uírem enue se us 1r.s1es leques e pc,rccl:inJS c-f
balho do s chms no no rte do Bra .ç,J e.çpecialmente na Amazónia : .. A raça amarela. atualmente existcnle eno Fre Ed. 7 d 198" ' ·1
no1a . yre, Sobrados e mucambos. Rio de Janeiro. José Ol ympi o uor, . < •· >. ,. - · I' ·• '
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