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150

Casos de Divórcios japoneses no Brasil:


Introdução ao método de análise de casos

Profa. Dra. Claudia Lima ~1arques,


Professora Titular de Direito Internacional Privado da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul-UFRGS
Doutora em Direito (Heidelberg), Mestre em Direito
Internacional Privado e Direito Civil (Tübingen),
Alemanha.

Pode chamar a atenção do leitor a parte 3 da Edição Especial em Homenagem


à Cooperação com a Faculdade de Direito da Universidade de Tohoku (Nordeste),
Sendai, Japão, ser dedicada à pesquisa da imigração japonesa no Rio Grande do Sul e
à análise de casos práticos de Direito Japonês decididos no Supremo Tribunal Federal.
Em verdade, a iniciativa de introduzir uma parte mais 'prática' e metodologicamente
mais 'atualizada' nesta Revista da Faculdade de Direito da UFRGS é o resultado
(positivo) destas 3 visitas já ocorridas em virtude desta cooperação: duas da Professora
Yuko Nishitani, da Faculdade de Direito da Universidade de Tohoku, Sendai, na
UFRGS, em 1999 e 2001 e uma visita minha à Universidade de Tohoku, no Japão, em
fevereiro de 2002. 1
1
Graças ao gentil convite da Profa. Ora. Yuko Nishitani e do Diretor da Faculdade de Direito de Tohoku,
Sendai, que também estudou na Alemanha, Prof. Dr. Shoji Kawakami, pude realizar 3 palestras no
Japão, na Universidade de Tohoku, Sendai, na Faculdade de Direito de Kyoto e na Faculdade de Direito
de Tóquio, assim como participar por duas vezes do grupo de estudos em Direito Internacional Privado
do Prof. Sakurada (Kyoto ). Minhas palestras, que foram traduzidas para o japonês pela Profa. Ora. Yuko
Nishitani, o que muito agradeço, foram as seguintes: 1. Proteção do consumidor no Brasil : O Código
Brasileiro de Defesa do Consumidor em visão comparatista (Verbraucherschutz inBrasilien : Das
brasilianische Verbraucherschutzgesetz von 1990 aus rechtsvergleichender Sicht) 2. Proteção internacional
do consumidor e o comércio eletrônico no direito brasileiro: a proteção contratual (lnternationaler
Verbraucherschutz und elektronischer Kommerz im brasilianischen Recht : vertraglicher Schutz) e 3.
Desenvolvimento e Reforma da adoção internacional no direito braisleiro: a Convenção de Haia de 29
de maio de 1993 (Entwicklung und Reformen der brasilianischen internationalen Adoptionsrecht: das
Haaguer Übereinkommen vom 29. Mai 1993), esta última reproduzida nesta edição especial.- unter
besonderer Berücksichtigung US-amerikanischer punitive damages-Urteile -", ministrada dia 12.05.1999,
e, em 2001, " Einführung ins japanische Recht li: unter besonderer Berücksichtigung des Gesetzes über
Verbrauchervertrage", e "Scheidung brasilianischer Staatsangehõriger in Japan".
Casos de Divórcios japoneses no Brasil 151

Se na primeira visita da colega japonesa, Professora Nishitani, à UFRGS, a tônica


dos trabalhos foi a Introdução ao Direito Japonês e a seu Direito Internacional Privado, e,
na segunda, foram as mudanças no direito civil, comercial e do consumidor no Japão,2 As
suas palestras, em alemão, foram: "Einführung ins japanische Recht", ministrada dia
11.05.1999 e " Anerkennung und Vollstreckung auslandischer Urteile in J apan

aproveitamos o espaço de 2 anos entre uma visita e outra para realizar uma
pesquisa conjunta, sobre casos em que os juristas brasileiros se vissem confrontados
com a aplicação do Direito Japonês.
Seguindo as orientações de nosso mestre comum, o Prof. Dr. Erik J ayme da
Universidade de Heidelberg, Alemanha, em seu artigo sobre Direito Comparado pós~
moderno, 3 escolhemos como objeto de pesquisa as 'diferenças',4 especialmente em
Direito Internacional de Família. Em outras palavras, o direito comparado pós~moderno
estaria mais interessado no diferente, no fluído e especial, aquele que divide e caracteriza,
no atual e específico de cada ordenamento jurídico, a respeitar a identidade social e
cultural de cada povo. 5 Brasil e Japão duas culturas, dois povos diferentes, dois sistemas
jurídicos. Escolhemos particularmente como objeto de pesquisa os casos de divórcio,
pois aqui as diferenças são maiores: em 1999, 91,46% dos divórcios realizados no Japão
foram divórcios "privados", extrajudiciais conforme determina o § 764 c/c § 739 do
Código Civil Japonês (Kasai Geppô), já 7,73% dos divórcios ocorrem por arbitragem/
mediação e somente 0,81 % através de decisões judiciais stricto sensu. 6 São estes divórcios
"privados" japoneses que devem ser reconhecidos no Brasil, especialmente pelo Supremo
Tribunal Federal e interessava saber se a sua natureza "administrativa" ou "privada"
impedia ou não o seu reconhecimento no Brasil. De outro lado, no Brasil, o divórcio,
como instituição, foi uma das mais polêmicas; instituição desconhecida no ord_enamento
jurídico brasileiro até 1977, alcançou hierarquia constitucional (sua proibição e sua
liberalização), sofreu vários limites e integra hoje, sem dúvida alguma, a ordem pública
em DIP, sendo um dos objetos de pesquisas em DIP mais utilizados para estudos e
exemplos. 7

3
Veja JAYME, Erik, Visões para uma teoria pós-moderna do direito comparado, in Revista dos
Tribunais (São Paulo), nr. 759, p. 24 a 40.
4
JAYME, RT 759, p. 25: "A minha Tese principal é a seguinte: O direito comparado moderno
perseguia o objetivo, de determinar, de encontrar o que era comum, igual (das Gemeinsame),
e que apenas superficionalmente podia aparecer e ser percebido de forma diversa, nos também
apenas superficionalmente diversos, sistemas de Direito do mundo. O direito comparado pós-
moderno procura, ao contrário, o que divide(das Trennende), as diferenças (die Unterschiede)."
5
Veja meu artigo, Notas sobre o sistema de proibição de cláusulas abusivas no Código Brasileiro
de Defesa do Consumidor (Entre a tradicional permeabilidade da ordem jurídica e o futuro pós-
moderno do direito comparado), in RTDC vol. 1, jan/mar. 2000, p. 13 a 58.
6
Dados levantados por Nishitani, em 1999, veja Jinkô Dôtai Chôsa 1999 ([Link]
toukei/data/010/1999/tokeihyou/000 267 4/ t0048025/ml ... )
7
Vjea as obras brasileiras de Villela e Dolinger e o resumo atualizado no curso de Hai de
DOLINGER, Jacob, Evolution of principies for resolving conflicts in the field of contracts and torts,
in Recuei!, vol. 283 (2000), p. 291 e seg.
152 Claudia Lima Marques

Assim, para a visita de 2001 foi,nos possível selecionar e compilar todos os últimos
casos (posteriores à entrada em vigor da Constituição Federal de 1988, com sua nova
ordem pública de Família) de divórcios japoneses reconhecidos pela Justiça brasileira. O
resultado da pesquisa foi tão interessante que resolvemos renová,la em 2002 e, nesta
terceira visita à UFRGS, a Prof. Nishitani completará a análise que realizou em 2001,
motivo pelo qual não incluímos seu texto nesta edição especial. Até 22 de agosto de 2002,
nossas pesquisas no site do STF encontraram 30 decisões do STF envolvendo divórcios
japoneses, que encontram,se reproduzidas ao final desta parte. 8
Em sua palestra de 2001, a professora N ishitani resume as regras sobre o Divórcio no
Direito Japonês: "O Código Civil Japonês (CCJ, Kasai Geppô) prevê o Divórcio privado e
o divórcio judicial. A lei sobre Decisões em Matéria Familiar (LDMF, kaji shinpanhô) prevê
o divórcio arbitral (administrativo) voluntário e o divórcio arbitral imperativo. Assim temos:
(1) Divórcio privado(§§ 764 e 739 CCJ) ® Deve ser registrado no "registro familiar"
(koseki) conforme a Lei sobre o Registro Familiar (kosekihô)
(2) divórcio arbitral é feito no tribunal familiar (administrativo) (Prioridade do
arbitramento por mediadores em caso de não consenso: Art. 18, 1 LDMF)
(3) divórcio arbitral imperativo (sobre a base do arbitramento e mediação) frente
ao Tribunal (administrativo) de Família (Art. 24 LDMF) ® Há possibilidade de recurso
(4) Divórcio Judicial frente ao Juiz distrital (Processo normal segundo o Artigos
1 e seguintes da Lei processual sobre processos envolvendo direitos individuais,LPDI,
jinji soshô tetsuzukihô), quando um dos motivos de divórcio do§ 770, 1 CCJ está presente.
Há um maior espaço de convencimento e decisão para o Juiz, mas a previsibilidade da
decisão é pequena."
De sua palestra de 2001 retira,se também que caso um dos 220 mil brasileiros
que vivem atualmente no Japão queira divorciar,se, será possivelmente declarado
aplicável o direito japonês, face aos elementos de conexão escolhidos pela lei japonesa:
"A Lei aplicável ao divórcio (estatuto do divórcio) segundo o Direito Internacional
Privado japonês é a seguinte: Art. 16, 1 da Lei de Direito Internacional Privado/Horei,
que apresenta uma conexão em cascata (1 º· elemento de conexão: a lei nacional comum;
2ª conexão: a lei do lugar de residência habitual comum; 3ª conexão: a lei mais
conectada com o caso concreto/lei mais próxima do caso) e Art. 16,2 Horei: Se um dos
cônjuges tem a nacionalidade japonesa e a sua residência habitual no Japão, aplicar,
se,á a lei japonesa (denominada cláusula de "favor japonês")." A probabilidade é grande,
pois, que aplique,se a lei japonesa e tenha este divórcio privado, por arbitragem/
mediação ou judicial ser reconhecido pelo Supremo Tribunal Federal no Brasil. 9

8
O levantamento total apontou:
[Link]ões Monocráticas, 1.1. Homologação de Sentenças (SE): 19; a) Eficácia de certidão
administrativa de divórcio: 15; b) Sentença de divórcio: 04; c) Adoção: 02; [Link] Rogatórias
(CR): 5; 1.3. Outros (incluindo diligências de SE e CR): 1O; 2. Acórdãos ;2.1. Homologação
de Sentenças (SE): 6; 2.2.0utros: 4
9
Veja,por todos, MARUTSCHKE, Einführung in das japanische Recht, Munique, Beck, 1999, p.
2 e seg.
Casos de Divórcios japoneses no Brasil 153

Neste sentido, com a ajuda de nossas pesquisadoras do Grupo de Pesquisa CNPq


"Mercosul e Direito do Consumidor", Maitê Schmidt (bolsista de IC Propesq/UFRGS) e a
mestranda Daniela Jacques (CAPES) realizamos o levantamento de todas as decisões do
STF e publicaremos ao final desta quarta parte todas as decisões levantadas até agosto de
2002. Da mesma forma, para tornar mais didática a análise dos casos, incluímos dois
comentários 10 a uma das decisões principais referentes à divórcio japonês no Supremo
Tribunal Federal, a Sentença Estrangeira Contestada n. 6.399,0/Japão, julgada em
21.06.2000, comentários estes elaborados pelas mestrandas e alunas do Curso de
Especialização em Direito Internacional, Natália Aranovich e Tomoku Kimura
Gaudioso.
A metodologia do estudo de casos é um instrumento pedagógico muito usado
nas Faculdades de Direito alemãs, desde as aulas especiais de trabalhos com casos
(Fallbesprechungen) até as aulas magistrais (Vorlesungen) que hoje também utilizam,se
ou partem de casos para melhorar o entendimento dos estudantes. Pareceu,nos
interessante trazer mais esta metodologia para o ensino jurídico no Brasil. Não que
seja esta desconhecida, mas que geralmente é apresentada em sua vertente mais radical
socrática, o case method norte,americano 11 e não na vertente mista (e parece,nos mais
adaptada ao estilo jurídico brasileiro), a alemã. As ciências sociais no Rio Grande do
Sul sempre sofreram forte influência da metodologia e da filosofia alemã, 12 assim também
o Direito. 13 Dai porque pareceu,me útil incluir nesta edição especial estes resultados,
mesmo que iniciais, de nossa pesquisa conjunta com a Profa. Dra. Yuko Nishitani. Esta
última parte é, pois, dedicada à prática e à análise de casos, querendo ser pedagógica e
inspirar aos jovens professores e pesquisadores da Faculdade de direito da UFRGS para
que também realizem tais pesquisas e utilizem,se de casos concretos em suas aulas.

10
O roteiro dos comentários foi o seguinte: 1 - Relatório, onde constará: - dados sobre a decisão
(partes, Tribunal, data de julgamento, número etc.)- Resumo do conflito ou lide e das alegações-
destaque das normas legais citadas. Base citada ou aplicável de Direito Internacional Privado -
Resumo do decisum li - Análise da decisão - Destaque crítico dos princípios e da linha
jurisprndencial utilizada - Opinião do especializando sobre a decisão, quanto ao mérito e
quanto à utilização ou não dos conhecimentos atuais do direito internacional. Fundamentalmente
com a citação da doutrina, listando a bibliografia utilizada no final do comentário ou nas notas.
11
Como ensina FARNSWORTH, Edward Allan, An introduction to the legal system of the United
States, [Link]., Oceana Pub., New York, 1996, p. 19, o case method foi introduzido em 1871 por
Cristopher Columbus Langdell, Professor da Havard Law School, em seu casebook on contracts,
que levou ao abandono do tradicional lecture method. Segundo ALMEIDA Jr., João Mendes de, O
ensino do Direito, in Revista de Direito Público, vai. 20, p. 133, o Prof. Langdell "começou a aplicar,
em contraprodução aos velhos métodos usados nos Estados Unidos, do book-system e do lecture-
system, sistema de compêndio e da lição dogmática, um novo método denominado case-
system, cuja idéia fundamental consiste em formular os princípios jurídicos sobre a análise de
casos de jurisprudência."
12
Assim afirmam BAETA NEVES, Abílio Afonso e BAETA NEVES, Clarissa Eckert, As ciências
sociais e a cooperação Brasil e Alemanha, in Retratos de Cooperação Científica e Cultural-40
anos do Instituto Cultural Brasileiro-Alemão, Valério Rohden (Coord.), EDIPUCRS, Porto Alegre,
p.259 e seg.
13
Assim DAVID, René e JAUFFRET-SPINOSI, Camille, Les grands systémes de droit contemporains,
[Link]., Dalloz, Paris, 1988p. 33.
154 Claudia Lima Marques

Como ensina Eduardo Oliveira Leite, na investigação científica, é fundamental


"que se determine, desde logo, um método de trabalho que, indicando etapas e processos a
serem vencidos ordenadamente, conduzam à investigação dos fatos ou à procura da verdade.
A determinação deste método não é atingível sem dificuldades e vai implicar incertezas, hesitações
e, por vezes, erros, mas ainda que acarrete perda de tempo, é o caminho mais seguro de gara~tia
do êxito de qualquer trabalho científico." 14
A expressão método significa ao mesmo tempo via, caminho, direção (do grego,
hodos) e fim, ligação, seqüência, resultado (meta) . 15 Se o objeto determina o método, 16
e o objeto ora estudado é o ensino do Direito, cabe, pois, a reflexão de como poderia
ser este ensino realizado com mais efetividade e talvez com maior aproveitamen to
(meta) com a utilização, também no Brasil, do método alemão misto de solução de
casos práticos como instrumento didático e pedagógico.
Como professora de Direito Internaciona l Privado brasileiro, observava muitas
vezes que os alunos consideravam as suas normas quase como abstrações, de pouca
utilidade na prática, motivo porque sempre fiz questão de incluir casos em sala de aula
e demonstrar o método da análise da casos. Como escrevi na apresentação do livro de
Harriet Zitscher 17 :" Efetivamente , a dicotomia aparente entre a teoria e a praxis é um
tema clássico da filosofia e do Direito, 18 a discussão metodológica atual procura um
caminho para a solução justa do caso concreto, 19 alterando~se entre a tópica 20 , o processo
argumentativ o da filosofia discursiva 21 e a nova legitimação da economia. 22 Trata~se de
um tempo de crise da própria dogmática jurídica, de seus fundamentos , de sua praxis

14
LEITE, Eduardo de Oliveira, A Monografia Jurídica, [Link]., Ed. Revista dos Tribunais, São
Paulo, 1997,p. 17.
15
Veja sobre a oriegem grega da palavra e seus significados derivados, COMPARATO, Fábio
Konder, Reflexões sobre o Método do ensino Jurídico, in Revista da Faculdade de Dire~to de São
Paulo, vai. LXXIV, p. 119 e seg.
16
Assim as palavras clássicas de Reinhold Zippelius: "Der Gegenstand bestimmt die Methode",
ZIPPELIUS, Reinhold, Juristische Methodenlehre , [Link]., Beck, München, 1990, p. 1.
17
Veja minha apresentação ao livro Zitscher, Harriet christiane, Metodologia do ensino jurídico
com casos- Teoria e Prática, Ed. Dei Rey, Belo Horizonte, 2001, p. 15 a 18.
18
Veja FERRAZ Jr., Tércio Sampaio, Função Social da Dogmática Jurídica, Max Limonad, 1998, p.
18 a 24.
19
Sobre o tema veja LARENZ, Karl, Methodenlehre der Rechstwissenschaft, [Link], Springer V.,
Heidelberg, 1991, p. 137 e seg.
20
Sobre o atual pensamento tópico, veja LARENZ, op. cit., p. 145 e Viehweg, Theodor, Tópica e
Jurisprudência, Ministério da Justiça e UnB, Brasília, 1979, p. 17 e seg.
21
Veja Kaufmann, Arthur, Grundprobleme der Rechstphilosophie, Beck, Munique, 1994, p. 224 e
seg.
22
Veja como ZIMA, Peter, Moderne/Postmoderne, UTB, Francke, Tübingen, 1997.p. 61, identifica
nos movimentos neo-liberais conservadores e economicistas (de direita) um dos braços da pós-
modernidade. Assim também MINDA, Garry, Postmodern Legal Movements- Law and Jurisprudence
at Century's end, New York University Press, New York, 1995.p. 83, identifica o movimento conservador
de "direita" da análise econômica do Direito como pós-moderno. Na classificação de ROSENAU,
Pauline Marie, Post-modernism and the social sciences, Princeton Univ. Press, Princenton, 1992, p.
53, seriam "skeptical" pós-modernos. Veja sobre o movimento da análise econômica do direito como
movimento pós-moderno, nosso trabalho, A crise científica do Direito na pós-modernidade e seus
reflexos na pesquisa, in Rumos da Pesquisa-Múltiplas Trajetórias, Organizadoras Maria da Graça
Krieger e Marininha Aranha Rocha Ed. UFRGS, Porto Alegre, 1998, p. 95 a 108.
Casos de Divórcios japoneses no Brasil 155

, dos conteúdos de formação profissional, da correção nas linhas do ensino e de adaptação


às necessidades sociais emergentes. 23 Dentre os métodos possíveis de ensino jurídico um
trabalho com casos práticos adaptado ao estilo brasileiro pode ganhar espaço. 24
As aulas das Faculdades de Direito no Brasil geralmente utilizam o método expositivo
em aulas,magistrais, as quais se aproximam mais do monólogo, do que do diálogo construtivista
26
e poucas vezes estimula a crítica. 25 Não que a aula expositiva não possa ser aberta e criativa,
ao contrário, o é em muitos países do mundo, como a própria Alemanha. Em minha experiência
estudando no exterior, foi muito interessante observar que as aulas magistrais dos professores
alemães modificaram,se e evoluíram fortemente do tempo em que fiz o meu Mestrado em
Direito (LLM.) na tradicional Universidade de Tübingen, Alemanha, isto é 1986, 1987, até
o ano de 1994, quando retornei a Heidelberg para escrever meu Doutorado em Direito,
nesta também tradicional Universidade alemã. Em ambos os cursos pude assistir aulas
magistrais (Vorlesungen) de famosos professores catedráticos pela manhã, todas partindo de
casos práticos e acompanhadas por trabalhos com casos práticos pela tarde, com os professores
assistentes (Fallbesprechungen). Entre 1994 e 1996, porém, pude observar em Heidelberg que
o diálogo entre os estudantes e os professores era maior, assim como a participação dos alunos
na sala de aula. É claro que em salas lotadas com 200 a 600 estudantes, poucos poderão
participar. A participação do aluno se dá no trabalho com casos práticos, em que os grupos são
de 10 a 20 por assistente, mas de qualquer maneira pude observar que o método de aulas
magistrais com casos práticos tinha evoluído positivamente nestes 10 anos. Se Faculdades
27
com mais de 600 anos podem evoluir, o que dizer de nossas jovens academias brasileiras.
Incontestável que o caminho da evolução passa por uma valorização da figura do professor
28
e recompensa de sua dedicação e evolução pessoal como cientista e professor universitário,
assim como na melhoria das condições físicas para a pesquisa em Direito.

23
Assim ensina, FERRAZ Jr., Tércio Sampaio, Função Social da Dogmática Jurídica, Max Limonad,
1998, p. 11.
24 Veja uma interessante apresentação da filosofia que está na base da teoria de Dworkin sobre o

estudo dos hard cases, in NIORT, Jean-François e VANNIER, Guillaume, Sur la théorie du Droit de
Dworkin: De l'interpretation des príncipes a leur application aux cas difficiles, in Droits (Paris), nr. 19,
1994, p. 61 e seg.
25
Veja críticas aos atuais métodos de ensino do Direito no Brasil, que não estariam ensinando o
estudante a pensar, in FARIA, José Eduardo, Reforma do Ensino Jurídico, Ed. Sérgio Facris,
Porto Alegre, 1987, p. 66.
26
Veja BERBEL, Neusi A. Navas, Metodologia do Ensino Superior-Realidade e Significado,
Papirus Ed., Campinas, 1994, p. 85 e seg.
27
Veja a crítica quanto à falta de "modernização" no método de ensino do Direito no Brail, in CUNHA,
Sérgio Sérvulo, Ensino Jurídico-Método, in RT 395/433 e seg. Veja a crítica construtiva ao ensino
superior em geral no país, CHASSOT, Attico, (Re)Pensando ações docentes: sobre como professoras
e professores podem transformar o seu fazer pedagógico, in Melhoria do Ensino e Capacitação
Docente, Vera Regina Pires MORAES (Org.), Editora da Universidade-UFRGS, Porto Alegre,
1996, p. 87 e seg.
28
Veja severas críticas ao professor brasileiro, que ,segundo o autor, não pesquisa e dedica-se mais
à advocacia ou a outra carreira jurídica do que ao ensino, in MELLO FILHO, Álvaro de, Metodologia
do Ensino Jurídico, Ed. Forense, Rio de Janeiro, 1984, p. 4 e do mesmo autor, Novas Diretrizes
para o Ensino Jurídico, in Revista de Processo,nr. 74, p. 102 e seg.
156 Claudia Lima Marques

No sistema alemão, da discussão e reflexão sobre o caso, o estudante vai construindo


seu conhecimento, assim como o professor o orienta nas conseqüências dogmáticas da
solução proposta. Este método permite igualmente que pessoas com ainda pouca preparação
jurídica e os "práticos" compreendam melhor a formação da solução jurídica, parecendo-
nos apto a ser usado assim em quase todos os ramos do direito e em seus vários níveis do
aprendizado. 29 Fascinar os leigos pelo Direito, pela procura da Justiça e pela "vida" do e ~o
Direito (law in action) é uma das possibilidades que se abre com o uso do método de casos
no ensino jurídico. 30 "
Os casos de divórcios japoneses apresentados (e comentados) a seguir visam,
pois, inspirar esta mudança metodológica em nossa Faculdade de direito, afinal, é quando
olhamos o outro, o diferente que refletimos sobre os usos nossos, aquilo que é habitual e o
que deveria mudar ou melhorar. Sendo assim, espero que esta 3ª parte desta edição
especial possa ser de alguma utilidade aos colegas professores e estudantes.

29
Veja sobre o possível uso dos casos no ensino do Direito comparado, RHEINSTEIN, Max,
Einführung in die Rechstvergleichung, Beck, Munique, 1987, p. 192 e 193.
30
Veja sobre a dificuldade de interessar aos leigos através dos instrumentos clássicos e positivistas
do Direito, ENGISH, Karl, Introdução ao pensamento jurídico, Fundação Calouste Gulbenkian,
Lisboa, 1988, p. 11.

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