Universidade Católica de Moçambique
Instituto de Educação à Distância
A Ginástica no Contexto das Aulas de Educação Física Escolar
Fabião Age, 708226211
Curso de Licenciatura em Ensino de Educação
Física e Desporto
Disciplina: Ginástica
Nampula, Abril 2024
Universidade Católica de Moçambique
Instituto de Educação à Distância
A Ginástica no Contexto das Aulas de Educação Física Escolar
Trabalho de Carácter Avaliativo da Cadeira de
Ginástica a ser entregue no Instituto de Educação à
Distância-Nampula
Tutor: João Monteiro
Nampula, Abril 2024
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Classificação
Categorias Indicadores Padrões Pontuação Nota do
Subtotal
máxima tutor
Capa 0.5
Índice 0.5
Aspectos Introdução 0.5
Estrutura
organizacionais Discussão 0.5
Conclusão 0.5
Bibliografia 0.5
Contextualização
(Indicação clara do 1.0
problema)
Descrição dos
Introdução 1.0
objectivos
Metodologia
adequada ao objecto 2.0
do trabalho
Articulação e
domínio do discurso
académico
2.0
Conteúdo (expressão escrita
cuidada, coerência /
coesão textual)
Análise e Revisão
discussão bibliográfica
nacional e
2.
internacionais
relevantes na área de
estudo
Exploração dos
2.0
dados
Contributos teóricos
Conclusão 2.0
práticos
Paginação, tipo e
tamanho de letra,
Aspectos
Formatação paragrafo, 1.0
gerais
espaçamento entre
linhas
Normas APA 6ª Rigor e coerência
Referências edição em das
4.0
Bibliográficas citações e citações/referências
bibliografia bibliográficas
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Folha para recomendações de melhoria:A ser preenchida pelo tutor
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Índice
1. Introdução........................................................................................................................1
1.1. Objectivos do Trabalho................................................................................................2
1.1.1. Objectivo Geral.........................................................................................................2
1.1.2. Objectivos Específicos.............................................................................................2
1.1.3. Metodologias............................................................................................................2
2. Fundamentação Teórica...................................................................................................3
2.1. Contextualização da Ginástica (Conceitos)..................................................................3
2.1.1. Histórico Sobre a Ginástica......................................................................................4
2.2. Síntese da Construção Histórica da Ginástica do Renascimento ate Actualmente......6
2.2.1. Classificação da Ginástica........................................................................................9
2.2.2. Ginástica Formativa..................................................................................................9
2.2.3. Ginástica Localizada...............................................................................................10
2.2.4. Ginástica Artística..................................................................................................10
2.2.5. Ginástica Rítmica...................................................................................................11
2.2.6. Ginástica Aeróbia...................................................................................................12
3. Os Conteúdos da Ginástica na Educação Física Escolar...............................................12
3.1. A Contribuição da Ginástica na Formação Integral do Aluno...................................15
3.1.1. Os Materiais Utilizados na Ginástica Escolar........................................................17
3.1.2. O Espaço para a Prática das Aulas de Ginástica nas Escolas Nacionais................18
4. Conclusão.......................................................................................................................20
5. Referências Bibliográficas.............................................................................................21
iv
1. Introdução
A Educação Física possui cinco blocos de conhecimentos, sendo eles: as lutas,
os jogos, a dança, a ginástica e o desporto que devem ser ensinados pedagogicamente
no contexto escolar. Entre esses conhecimentos encontra-se a Ginástica com suas
diferentes vertentes, a acrobática ou de trampolim, artística e rítmica. Entretanto no
âmbito escolar pode-se observar que há uma ausência desse conhecimento nas aulas
de educação física.
Partindo do princípio que a Ginástica é o movimento culturalmente construído
que possibilita o expressar-se se relacionando com o mundo, ela deveria estar mais
presente no quotidiano escolar com uma acção pedagógica e com uma metodologia
que proporcionasse a esse conteúdo sair da condição de “actividade” e ser ensinada
nas aulas como um conhecimento da Educação Física.
Para que a Ginástica torne-se importante no ambiente escolar, faz-se necessário
apontar o que está a caracterizando como algo reduzido e simplista dentro deste
universo. Para isso, ela deve ser compreendida como um conteúdo curricular,
superando assim a condição de meros exercícios, buscando contribuir para a formação
de cidadãos participativos e críticos. O professor em sua pratica docente precisa pautar
suas acções a partir da observação do contexto e da necessidade de seus alunos
favorecendo acções que proporcione o ensino da Ginástica como um dos conteúdos da
Educação Física.
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1.1. Objectivos do Trabalho
Quando se trata de um trabalho de pesquisa, a definição dos objectivos
determina o que o pesquisador quer atingir com a realização do seu trabalho.
Para Silva e Lopes (2015) e Marconi e Lakatos (1992) os objectivos podem ser
classificados em: objectivos gerais e objectivos específicos. Desta feita, neste trabalho
tem-se os objectivos a saber:
1.1.1. Objectivo Geral
Analisar a ginástica no contexto das aulas de educação física escolar.
1.1.2. Objectivos Específicos
Apresentar os conceitos da ginástica;
Identificar a classificação ou tipos de ginástica;
Explicar acerca dos conteúdos da ginástica na educação física escolar;
Dizer acerca da contribuição da ginástica na formação integral do aluno.
1.1.3. Metodologias
O presente estudo configura-se em uma pesquisa teórico-metodológica
(pesquisa académico-científica composta por preparação, estudo, desenvolvimento e
apresentação, buscando gerar e/ou actualizar conhecimento), no campo dialéctico (os
factos considerados no contexto social, gerando contradições e requerendo soluções),
de natureza aplicada (objectiva gerar conhecimentos para aplicações práticas, dirigidos
à solução de problemas específicos) e (material colectado analisado de maneira
descritiva, não buscando gerar números ou dados estatísticos), conforme orienta
Henrique (2009).
Com relação aos procedimentos técnicos, o estudo assume características de
pesquisa bibliográfica e documental. Segundo Gil (2010 citado em Carvalho &
Severino, 2011, p.2) a pesquisa bibliográfica “é elaborada com base em material já
publicado com o objectivo de analisar posições diversas em relação a determinado
assunto”. A pesquisa documental, nas palavras de Camargo (2008) “é aquela
vi
realizada a partir de documentos, contemporâneos ou retrospectivos, considerados
cientificamente autênticos”.
2. Fundamentação Teórica
2.1. Contextualização da Ginástica (Conceitos)
A ginástica como prática corporal, que até onde mostram os estudos realizados
existe há milhares de anos, teve diferentes manifestações ao longo de todo esse tempo.
Tem origem na Antiguidade, pois é sabido que os homens pré-históricos já faziam
exercícios típicos do desporto com o intuito de se protegerem de ameaças naturais.
Mas somente por volta de 2.600 a.C., especialmente em civilizações orientais, os
exercícios da ginástica passaram a fazer parte de festividades, jogos e rituais
religiosos.
À medida que o tempo foi passando, surgiram novas acções corporais como
alongamentos e aquecimentos mais sofisticados. Segundo Barbanti (1994) quando
começou a existir disputas entre os soldados sobre quem fazia o aquecimento mais
original, foi que se designou como o nome de ginástica, pois naquela época, os
aquecimentos aconteciam nos vestiários, onde todos ficavam “pelados”, daí surgiu a
palavra ginástica que vem de gymnós, que significa nu, em grego:
O termo Ginástica originou-se aproximadamente em 400 a.C. É derivado de Gymnós,
que quer dizer nu, levemente vestido, e geralmente se refere a todo tipo de exercícios
físicos para os quais se tem que tirar a roupa de uso diário. Durante o curso da história
as interpretações de Ginástica variam (Barbanti, 1994, p. 24).
Por tanto a educação física, como qualquer outra disciplina, na escola, tem
responsabilidade na concretização do processo de formação e desenvolvimento de
valores e atitudes, por meio de aulas educativas, com lugar para discussão e reflexão
sobre cada situação ou fato ocorrido e, também, focar no desenvolvimento de várias
práticas corporais além dos desportos, como a dança, a ginástica geral, jogos e lutas
(Guimarães et al., 2001).
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Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) (Brasil, 1998) da
educação física, a ginástica está inserida dentro de um bloco de conteúdos denominado
desportos, jogos, lutas e ginásticas. Segundo Brasil (1998, p. 70-71):
As ginásticas são técnicas de trabalho corporal que, de modo geral, assumem um
carácter individualizado com finalidades diversas. Por exemplo, pode ser feita como
preparação para outras modalidades, como relaxamento, para manutenção ou
recuperação da saúde ou ainda de forma recreativa, competitiva e de convívio social.
Envolvem ou não a utilização de materiais e aparelhos, podendo ocorrer em espaços
fechados, ao ar livre e na água. Cabe ressaltar que são um conteúdo que tem uma
relação privilegiada com o bloco conhecimentos sobre o corpo, pois nas actividades
ginásticas esses conhecimentos se explicitam com bastante clareza. Actualmente,
existem várias técnicas de ginástica que trabalham o corpo de modo diferente das
ginásticas tradicionais (de exercícios rígidos, mecânicos e repetitivos), visando à
percepção do próprio corpo: ter consciência da respiração, perceber relaxamento e
tensão dos músculos, sentir as articulações da coluna vertebral.
Segundo Afonso Lucas (2024) afirma que:
A ginástica é uma prática corporal que envolve aspectos físicos como flexibilidade,
coordenação motora e força. Ela pode ser competitiva, caracterizada como desporto, e
não competitiva, como exercício físico em prol da saúde e bem-estar (Afonso Lucas,
2024).
2.1.1. Histórico Sobre a Ginástica
Conforme estudos realizados por Elisabete Souza (1997) a história da ginástica
se inicia na pré-história, quando esta se unia, através da actividade física, aos jogos,
rituais e festividades da época. Os homens tinham o exercício físico como forma de
sobrevivência, para atacar e defender seus ideais. A autora reflecte que os movimentos
da ginástica evoluíram dos movimentos naturais do homem para os movimentos
construídos, ou seja, habilidades culturalmente determinadas.
No Oriente, mas especialmente na Grécia e em Roma, o principal foco do
exercício físico era preparar militares para a guerra, mas aparecia também nas formas
de lutas, na natação, no remo, no hipismo, na arte de atirar com o arco (Grécia), como
educação corporal e ideal de beleza (Roma) em corridas de carros e os combates dos
gladiadores (Souza, 1997).
viii
A autora também afirma que na Idade Média, dentre outras actividades que
eram praticadas, pode-se citar o manejo de arco e flecha, a caça, a pesca, a luta, a
escalada, a marcha, a corrida, o salto, e jogos simples e de pelota, um tipo de futebol e
jogos de raqueta. No século XIX existiam também os funâmbulos, que eram pessoas
de circo que faziam acrobacias para alegrarem a sociedade europeia.
Com o surgimento do movimento ginástico europeu, a ginástica começou a ser
sistematizada e houve uma troca de valores e sentido no que diz respeito ao seu
significado ao longo do tempo. Isso ocorreu porque começou a se pensar numa
“ginástica científica” no sentido de educar o corpo ou adestrá-lo, quando, com o
avanço das ciências, principalmente físicas e biológicas, intensificaram-se e
permitiram vislumbrar as possibilidades da ginástica para uma “educação do
movimento”, para uma “educação do corpo” (Ayoub, 2003). Os gestos e
manifestações livres da ginástica e dos artistas circenses perderam espaço para a
formação de um corpo civilizado, educado.
Inicialmente, segundo Meuret (1985) a ginástica foi denominada como
“Ginástica educativa”, referente à formação do corpo, depois como “Educação Física
ou Ginástica Médica/Terapêutica”, praticada nas antigas civilizações, com a intenção
de manter e melhorar a saúde, (citado por Publio, 2002, p.21).
Nas escolas gregas, o ginásio (escola, hoje) funcionava como um centro de
cultura física e intelectual, onde os mestres ensinavam o alfabeto, a música e a
ginástica. Essas eram instituições educativo-culturais que, além das aulas de gramática
e retórica, ensinavam aos alunos os exercícios físicos (Cambi, 1999).
Cambi (1999) afirma que nessa época, os ginásios mais conhecidos eram a
“academia” de Platão e o “Liceu” de Aristóteles. Havia também a “educação heróica”,
destinada aos adolescentes aristocráticos que se reuniam no palácio do rei e eram
treinados para o combate através de competições e jogos com disco, dardo, arco e
carros; o treino tinha que favorecer o exercício da força, da astúcia e da inteligência.
Tanto nas actividades teatrais como nos jogos ginásticos, masculinos e femininos,
inaugurados em Olímpia em 776 a.C., havia ligação com as festividades religiosas;
eram momentos comunitários, no qual se cumpria uma função educativa no âmbito da
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polis. Segundo o autor, os jogos educavam pelo desafio de enfrentar os outros, pelo
uso da inteligência, pela comunicação e pela imaginação.
Foi a partir da Idade Moderna, com o intuito de contribuir para a educação, que
surgiram quatro grandes escolas que são: a Escola Inglesa, a Escola Alemã, a Escola
Sueca e a Escola Francesa; sobre elas, Elisabete Souza (1997, p. 23) diz que a Inglesa
estava mais relacionada aos jogos, actividades atléticas e ao desporto; as outras foram
as responsáveis pelo surgimento dos principais métodos ginásticos que influenciara, e
influenciam até hoje, a ginástica mundial e a moçambicana.
Muitos avanços foram registados nesse campo, modelos antigos foram
reformulados e novas tendências integraram o panorama da Educação Física com
movimentos naturais, espontâneos, rítmicos e ao ar livre. Porém, foi necessário que
uma “elite” de intelectuais a aceitassem primeiro, para que esta se proliferasse:
É possível destacar que o reconhecimento da Ginástica pelos círculos intelectuais é
factor decisivo para sua aceitação por uma burguesia que a deseja transformada e,
assim, devolvida à população como um conjunto de preceitos e normas de bem viver,
(começa) a ser vista como prática capaz de potencializar a necessidade de utilidade
das acções e dos gestos (Soares, 1998, p.18).
2.2. Síntese da Construção Histórica da Ginástica do Renascimento ate Actualmente
Renascimento, Renascença ou Renascentismo são os termos usados para
identificar o período da História da Europa que foi um importante movimento de
ordem artística, cultural e científica que se deflagrou na passagem da Idade Média
para a Moderna. Foi o primeiro movimento cultural motivado pela burguesia e teve
seu início na Europa, na região de Florença, na Itália e, posteriormente, passou por
Alemanha, Inglaterra e Países Baixos. No Renascimento a ginástica ressurgiu em
vários países, recuperando o corpo macerado pelas guerras, pelos jejuns prolongados e
pelos descuidos impostos pela religião, que considerava a prática corporal uma fonte
de luxúria e de pecados (Oliveira e Nunomura, 2012).
Durante o Renascimento houve o resgate da importância dos cuidados com o
corpo, ressurgindo o ideal pedagógico, em que a prática de exercícios físicos e de
x
jogos deveria ser considerada na formação dos jovens, por isso, necessários nas
escolas, mesmo que ainda sem uma finalidade didáctica e metodologia sistematizada
de cultura corporal do movimento (Pereira, 2007).
Simbolicamente, a partir de 1453, o exercício físico na Idade Moderna, quando
da tomada de Constantinopla pelos turcos, passou a ser altamente valorizado como
agente de educação, com contribuição de vários pedagogos, para a evolução do
conhecimento da educação física com a publicação de obras relacionadas à pedagogia,
à fisiologia e à técnica, levando à sistematização da ginástica (Paoliello, 2011).
O corpo e a beleza física foram celebrados na arte renascentista. A mulher,
antes ligada ao pecado, reapareceu, seminua e deslumbrante, em O Nascimento de
Vénus, tela de Sandro Boticelli, pintada em 1485 (Matos, Gentil & Falzetta, 2004).
Leonardo da Vinci foi o maior dos “artistas-anatomistas” do Renascimento.
Encheu vários cadernos com anotações e desenhos sobre o funcionamento de órgãos,
ossos e músculos, que estudava dissecando cadáveres. Reproduzida à exaustão, uma
das ilustrações dos diários, o Homem Vitruviano (1490) expressa o equilíbrio e as
proporções da figura masculina (Matos, Gentil & Falzetta, 2004).
O guerreiro rude deu lugar a um novo padrão masculino. Esse ideal de
diversidade se manteve nos séculos seguintes, nos círculos de elite, reforçando a
necessidade dos exercícios físicos. Até por volta do século XVIII acreditava-se que o
corpo era apenas o resultado de uma herança genética, mas aos poucos, com o
crescimento das cidades e o surgimento de novas ocupações, o físico passou a ser mais
exigido. Por motivos de saúde, de higiene e de necessidade para o trabalho cada vez
mais repetitivo e especializado (eram os primeiros sinais da Revolução Industrial), a
prática de exercícios deveria ser estendida para a maioria da população e não se
restringir ao desporto de elite. Assim, entra o corpo no século XIX (Matos, Gentil &
Falzetta, 2004).
xi
Com a evolução do conhecimento da prática de exercícios físicos, foram
publicadas obras relacionadas à pedagogia, à fisiologia e à técnica de execução. Os
jogos populares, as danças folclóricas e o atletismo eram as formas mais comuns de
exercícios físicos nesse período (Oliveira e Nunomura, 2012).
Actualmente, as competições estão em alta, exigindo ao máximo a capacidade
física dos atletas, com a superação de limites, quebra de recordes, vitória a todo custo.
Os desportos de massa surgiram com uma série de transformações na vida urbana. A
Inglaterra cenário de mudanças desde a Revolução Industrial foi também o berço dos
desportos colectivos, tendo como origem as actividades praticadas em colégios e
universidades. São elas (Matos, Gentil & Falzetta, 2004):
Competições de barcos a remam, 1829, ano do primeiro desafio entre Oxford e
Cambridge. Futebol ganhou regulamento unificado (1843) - as regras de Cambridge -
e 20 anos depois passou ao controle de uma associação nacional. Boxe adoptou em
1867 normas propostas pelo marquês de Queensberry. Em 1880, os ingleses fundaram
uma Associação Atlética Amadora (Matos, Gentil & Falzetta, 2004).
Rapidamente, as inovações se espalharam pelo mundo. Em 1892, o barão
francês Pierre de Coubertin propôs a reedição dos Jogos Olímpicos. Em sua opinião, a
“exportação de atletas seria o comércio livre” do futuro e um instrumento para a paz
mundial. Quatro anos depois, o rei da Grécia, Jorge I, abriu os primeiros jogos da era
contemporânea (Matos, Gentil & Falzetta, 2004).
Determinados modelos, especialmente os métodos ginásticos europeus do
século XIX, constituídos a partir das diversas formas de se pensar os exercícios físicos
em países da Europa, como Dinamarca, Áustria, Alemanha, França, Suécia e
Inglaterra, construíram a ginástica contemporânea. Pode-se dizer que o movimento
ginástico europeu é fruto do pensamento científico da época, que desejava atribuir um
carácter de utilidade aos exercícios físicos, com princípios de ordem e disciplina,
contribuindo assim para o afastamento da ginástica de seu núcleo primordial: o
divertimento. Neste contexto, houve uma tentativa de negação das práticas populares
xii
de artistas de rua, de circo, acrobatas, entre outros, que apresentavam a ginástica como
espectáculo, trazendo o corpo como centro de entretenimento (Oliveira, 2007).
Quatro principais escolas, a Escola Alemã, a Escola Sueca, a Escola Francesa,
serviram de suporte para o surgimento dos principais métodos ginásticos, o que
resultou nos três grandes movimentos ginásticos da Europa: o Movimento do Oeste na
França, o Movimento do Centro na Alemanha, Áustria e Suíça e o Movimento do
Norte, englobando os países da Escandinávia. E a Escola Inglesa, que se voltou para
as actividades desportivas (Souza, 1997).
A Escola Alemã era de carácter extremamente nacionalista, com o objectivo de
preparar os corpos para a defesa da pátria, criando um forte espírito nacionalista para
atingir a unidade, com homens e mulheres fortes, robustos e saudáveis, apoiando-se
nas ciências biológicas, para desenvolver seus métodos (Dodô & Reis, 2014).
Em 1760, inspirado nas doutrinas pedagógicas de Jean-Jacques Rousseau
(1712-1778) e John Locke (1632-1704), Johann Bernard Basedow (1723-1790)
iniciou um processo de estruturação, denominado Método Alemão, que
posteriormente atingiu o ápice com os trabalhos de Johann Christoph Friedrich Guts-
Muths (1759- 1839), Adolph Spiess (1810-1854) e Friedrich Ludwig Jahn (1778-
1852) (Dodô & Reis, 2014).
Guts-Muths foi considerado o pai da ginástica pedagógica. Para ele, deveria ser
organizada pelo Estado e ministrada todos os dias e para todos. Spiess preocupou-se
com a inserção da ginástica nas escolas e procurou colocá-la no mesmo plano das
demais disciplinas escolares. Jahn, principal responsável pela disseminação do método
entre a população, trouxe ao seu sistema o carácter militarista e extremamente
patriótico, chegando a criar termos próprios, como, por exemplo, a palavra Turnen,
que significa ginástica (Dodô & Reis, 2014).
Em um manual de ginástica escrito por Guts Muths, ele reconhece a
importância da fisiologia como base para a elaboração do que chama de “verdadeira
teoria da ginástica”. Ele cita:
xiii
Que uma verdadeira teoria da ginástica deveria ser elaborada baseada em princípios
fisiológicos e a prática de cada exercício regulada pelas qualidades físicas de cada
indivíduo, mas tal perfeição não é esperada desse trabalho, feito somente pela genuína
experiência de oito anos de prática, que me convenceram de que a ginástica é
necessária à educação (Guts Muths, 1928, p. 12-13 citado por Quitzau, 2015, p. 113).
Para o término deste tópico, confirma-se aqui que aqueles que sistematizaram a
Ginástica foram homens da ciência e almejaram uma ginástica à luz do paradigma
racionalista. Portanto, a aceitação pelos círculos intelectuais foi relevante para que esta
fosse aceita.
2.2.1. Classificação da Ginástica
A ginástica inclui diferentes tipos de movimentos e por esse motivo pode ser
praticada de diferentes formas. Neste tópico será explanado resumidamente o
objectivo de algumas dessas formas.
2.2.2. Ginástica Formativa
A ginástica formativa tem como objectivo o aprimoramento das qualidades
físicas, desde a infância até a pré-adolescência, visando principalmente o
desenvolvimento das aptidões motoras. Segundo Bregolato (2002) a ginástica
formativa engloba várias formas de realização: correr, saltar, arremessar, trepar, rolar,
lutar, empurrar, defender, entre outras. Estes são movimento que a própria natureza
humana nos proporciona, sem a necessidade de serem construídos sistematicamente.
Tendo como base as ideias do autor, pode-se perceber que esse tipo de
ginástica é indicado para as crianças e seria de extrema importância a prática desta nas
escolas, para o desenvolvimento psicomotor. É importante ressaltar, que a ginástica
formativa está presente no dia-a-dia das crianças, nas brincadeiras que envolvem
actividades como: subir em árvores, muros, bancos, cadeiras, saltar em geral, brincar
de “pega-pega”, pular corda, amarelinha, elástico, andar de bicicleta, imitar animais.
Porém, actualmente os jogos electrónicos e o computador ganharam destaque na vida
das crianças, fazendo com que estas actividades saíssem do quotidiano das mesmas.
2.2.3. Ginástica Localizada
xiv
Também conhecida como (G.L), a ginástica localizada se dirige ao exercício
em um determinado grupo muscular.
A ginástica localizada (G.L.) se encontra mais especificamente no desenvolvimento
das qualidades físicas, flexibilidade e resistência muscular (força), contudo, a aula de
G.L. tem também como objectivo o desenvolvimento das qualidades motoras: a
coordenação, o ritmo, o equilíbrio, e a descontracção (Bregolato, 2006, p. 105).
Ainda de acordo com a autora, os exercícios de força são responsáveis pelo
fortalecimento dos músculos tornando-os também mais resistentes. Os aparelhos de
musculação das academias quando utilizado intensamente e de forma correcta, visam
aumentar a massa muscularem de quem os utiliza.
Como não é o objectivo da escola aumentar a massa muscular dos alunos de
forma desproporcional, o professor deve propor exercícios como “cabo-de-guerra”,
“carrinho de mão”, “cadeirinha”, entre outros.
2.2.4. Ginástica Artística
A ginástica artística também conhecida como ginástica olímpica, é uma
modalidade que requer dos atletas profissionais muita força, agilidade, equilíbrio,
coordenação motora, preparo físico, entres outras habilidades para uma execução com
perfeição. Bregolato (2002, p.137) destaca que:
No Egipto, na Grécia e em Roma os acrobatas (saltimbancos) se exibiam nas feiras e
nos circos. Na idade média o corpo foi relegado a um plano inferior, e os prazeres a
ele ligado, como dançar, alimentação farta e a prática social prejudicavam a
purificação da alma e foram considerados pecados. As acrobacias de destreza corporal
foram colocadas nesse contexto como obra do Satã.
Conforme exposto pelo autor, a ginástica artística teve uma evolução no
decorrer dos anos. Na idade média onde o poder da igreja prevalecia, cuidar do bem -
estar do corpo era uma heresia. Contudo, esse poder imposto pelos eclesiásticos deve
um período definido e quando surgiram as mudanças e ideias iluministas os
pensamentos começaram a mudar, em todas as áreas de conhecimento e os desportos e
a ginástica ganharam espaço no quotidiano das pessoas.
xv
Bregolato (2002) também cita em sua obra que a ginástica artística foi
inspirada nos circos, tendo como base as barras e o trapézio, que são elementos
circenses, desenvolvendo aparelhos próprios para a modalidade. Porém o criador da
ginástica de aparelhos de acordo com a autora foi o alemão Friedrich Ludwg Janh,
pois com o seu método surgiram aparelhos como a barra fixa, barras paralelas e o
cavalo.
A ginástica artística como forma de competição exige muito dos atletas, com
treinos diários e muito desgaste físico. Entretanto, ela pode ser adaptada para o meio
escolar como uma actividade diferente e prazerosa. Bregolato (2002) cita que o uso da
roupa adequada nas aulas de educação física é de devida importância, pois facilita a
amplitude dos movimentos e contribui para o bom desempenho dos alunos na
execução das actividades.
Segundo Bregolato (2006) a educação escolar deve formar pessoas criativas e
auto confiantes que acreditam na sua capacidade de actuar no mundo. Apesar de
grande parte dos movimentos da ginástica artística serem padronizados, o professor
deve propor ao aluno que ele crie novos saltos, quedas corridas e até mesmo um
circuito, ou seja, uma série de movimento utilizando sua própria criatividade.
2.2.5. Ginástica Rítmica
O desenvolvimento da ginástica rítmica também conhecida como GR de
acordo com Bregolato (2002) se desenvolveu no século XIX, a partir das ideias do
educador suíço Jacques Dalcroze (1865 – 1950). Porém, o verdadeiro criador foi seu
aluno chamado Rudolf Bode (1881 – 1970) e a introdução dos aparelhos teve como
responsabilidade Hienrich Medau (1890 – 1970).
Ainda de acordo com a autora, oficialmente a ginástica rítmica se desenvolve
com alguns objectos, como: arcos, cordas, fitas e maças em exercícios realizados
dentro de um ritmo musical. Os movimentos são realizados em forma natural e lúdica
no andar, correr, saltar, saltitar, girar, sentar, entre outros.
Como vimos anteriormente, a ginástica rítmica engloba alguns objectos,
fazendo com que aumente as possibilidades de trabalhar com a criatividade e a
socialização dos alunos, fazendo vários tipos de exercícios como, por exemplo, o
xvi
“espelho mágico” onde um aluno faz várias movimentações com o bastão na mão
passando-o por várias partes do corpo e os demais alunos imitando-o.
2.2.6. Ginástica Aeróbia
De acordo com Gonçalves et. al., (2002) no século XI, as pessoas dependiam
do corpo para sobreviver, plantar, colher, construir, locomover-se, etc. sendo assim
todos tinham uma vida muito activa repleta de saúde. Com o passar do tempo,
surgiram novas tecnologias e o ser humano passou a ser mais sedentário, por esse
motivo o homem passou a sofrer danos físicos e mentais no seu organismo.
A ginástica aeróbia é uma actividade realizada por um longo período de tempo
(superior a 20 minutos) e baixa intensidade, é feita no ritmo de músicas, onde são
incluídos alguns passos de danças, juntamente com exercícios. Os principais
movimentos da ginástica aeróbia constituem em andar, marchar, saltar, saltitar, girar,
golpear, corridas estacionárias, integrados com movimentos integrados com os braços.
Os movimentos podem ser toda a sequência ou somente no final (Oliveira, 1993,
citado por Bregolato, 2002, p. 207).
A ginástica Aeróbia é bastante utilizada como forma de aquecimento para
actividades que visam mais esforços. Além disso, é muito utilizada nas academias
como opção para as pessoas que buscam a prática do exercício físico, sem a utilização
de aparelhos.
3. Os Conteúdos da Ginástica na Educação Física Escolar
A ginástica, um histórico componente da EF escolar, enquanto conteúdo
regular de ensino, tem como fundamento ou elemento central, identificador e
diferencial, o exercício físico educativo escolar, pois, sem alienar-se da interacção
entre corpo e mente, privilegia a parte motriz, a dimensão física corporal do ser
humano, por meio de elementos como marchas, corridas, saltos, agachamentos,
“apoios”, “polichinelos”, “abdominais”, alongamentos, rotações, forçamentos,
descontracções etc. (Pereira, 2006).
xvii
Nos PCN (Brasil, 1998) as lutas e as ginásticas pertencem ao mesmo bloco de
conteúdos dos desportos e jogos, mas essa descrição tem por objectivo acrescentar o
que deve ser ressaltado como específico dessas práticas.
Aspectos histórico-sociais das ginásticas: Compreensão e vivência das diferentes
formas de ginásticas relacionadas aos contextos históricos e sociais (modismos e
valores estéticos, ginásticas com diferentes origens culturais). Por exemplo: aeróbia,
chinesa, ioga (Brasil, 1998).
No livro Colectivo de autores (1992, p. 53-57) há conteúdos do que pode ser
trabalhado na ginástica nos diferentes ciclos da educação. Veja a seguir:
Ciclo de Educação Infantil (Pré-Escolar) e no Ciclo de Organização da
Identificação da Realidade (1ª a 3ª séries do Ensino Fundamental): a) Formas
ginásticas que impliquem as próprias possibilidades de saltar, equilibrar, balançar e
girar em situações de: - Desafio que apresenta o ambiente natural (por exemplo, os
acidentes do terreno, como: declives, buracos, valas etc., ou árvores, colinas etc.). -
Desafios que apresentam a própria construção da escola, praça, rua, quadra etc. onde
acontece a aula. - Desafios propostos por meio de organização motivadora de
materiais ginásticos, formais ou alternativos. b) Formas ginásticas que impliquem
diferentes soluções aos problemas do equilibrar, trepar, saltar, rolar/girar,
balançar/embalar. (Sugere-se o início com técnicas rudimentares, criativas dos alunos,
evoluindo para formas técnicas mais aprimoradas.) c) Formas ginásticas organizadas
para possibilitar a identificação de sensações afectivas e/ou cinestésicas, tais como
prazer, medo, tensão, desagrado, enriquecimento, relaxamento etc. d) Formas
ginásticas que contribuam para promover o sucesso de todos. e) Formas ginásticas
com fundamentos iguais para os dois sexos. f) Formas ginásticas colectivas em que se
combinem os cinco fundamentos: saltar, equilibrar, trepar, embalar/balançar e rolar/
girar. (Recomenda-se promover a exibição pública das habilidades ginásticas
desenvolvidas, bem como a avaliação individual e colectiva para evidenciar o
significado das mesmas na vida do aluno).
Ciclo de Iniciação à Sistematização do Conhecimento (4ª à 6ª série): a) Formas
técnicas de diversas ginásticas (artística ou olímpica rítmica desportiva, ginásticas
suaves, ginástica aeróbia etc.). b) Projectos individuais e colectivos de
prática/exibições na escola e na comunidade. Ciclo de Ampliação da Sistematização
do Conhecimento (7ª à 8ª série): a) Programas de formas ginásticas tecnicamente
aprimoradas, considerando os objectivos e interesses dos próprios alunos. b) Formação
xviii
de "grupos ginásticos" que pratiquem e façam exibições dentro e fora da escola,
envolvendo a comunidade. Ciclo de Aprofundamento da Sistematização do
Conhecimento (Ensino Médio): a) Formas ginásticas que impliquem conhecimento
técnico/artístico aprofundado da ginástica artística ou olímpica, da ginástica rítmica
desportiva ou de outras ginásticas. b) Formas ginásticas que impliquem conhecimento
científico/técnico aprofundado da ginástica em geral para permitir o planeamento do
processo de treinamento numa perspectiva crítica do significado a ela atribuído
socialmente.
Por tanto, o termo conteúdo, extremamente usado no meio escolar, é definido
como uma selecção de formas ou saberes culturais, conceitos, explicações, raciocínios,
habilidades, linguagens, valores, crenças, sentimentos, atitudes, interesses, modelos de
conduta etc., cujo aprendizado e assimilação são fundamentais para o
desenvolvimento da socialização adequada do aluno na escola (Rosário e Darido,
2005).
A Dinamarca, em 1801, foi o primeiro país a incluir as ginásticas nas escolas,
influenciada pelas ideias de Franz Netchegal, que em 1928 consegue que o ensino das
ginásticas na escola seja obrigatório (Oliveira, 1985). O método dinamarquês não teve
a mesma força de aceitação como o alemão, o francês e o sueco, justamente pelo seu
carácter pedagógico em contraposição ao militar.
Pensada como uma pedagogia do gesto e da vontade (Soares, 1998) a ginástica
representou a constituição de um modelo de “educação do corpo”, cuja finalidade era
forjar corpos aprumados, limpos, fechados e acabados, portando uma feição recta,
rígida e vertical, cuja máxima expressão pode ser visualizada pela noção de estética da
rectidão e da verticalidade (Soares, 2001).
Lara et al. (2007) apontam que uma nova metodologia de ensino voltada para a
ginástica na escola deu-se a partir de 2006 e 2007, com o desenvolvimento de algumas
abordagens metodológicas, como a desenvolvimentista, construtivista, ensino aberto,
crítico-superadora, crítico-emancipatória, sistémica e plural.
Actualmente, a educação física tem apresentado avanços na prática
pedagógicos da ginástica, sobretudo numa dimensão progressista, ou seja, numa
perspectiva educacional de rompimento com paradigmas das escolas tradicionais, que
xix
tenha característica crítica, social e política voltada, sobretudo, para um projecto de
transformação social (Seron et al., 2007).
Ayoub (2001) aponta algumas características pedagógicas da ginástica em
âmbito escolar como conteúdo:
Não ter a competição como foco principal, sendo marcada pelo prazer e pelo
divertimento; possibilitar a integração de seus praticantes, a liberdade de expressão, o
prazer e a criatividade; abranger todas as ginásticas e fornece possibilidades para a
utilização de diferentes tipos de materiais, indumentária e música; sua principal forma
de manifestação se dá por meio de apresentações artísticas.
Por tanto, a Ginástica, para além de ser uma “actividade física”, é definida
como um dos conteúdos que constituem a chamada cultura corporal, juntamente com
os jogos, desportos, danças e lutas (Colectivo De Autores, 2012). A Ginástica é de
fundamental importância nas escolas, ela pode proporcionar, além do divertimento e
satisfação provocada pela própria actividade, o desenvolvimento da criatividade, da
ludicidade e da participação, a apreensão pelos alunos das inúmeras interpretações da
ginástica, e a busca de novos significados e possibilidades de expressão gímnica
(Ayoub, 2003).
Para além desta perspectiva de ensino da ginástica, o Colectivo de Autores
(2012) destaca como conteúdo da Educação Física escolar os elementos da cultura
corporal. Neste sentido, esta disciplina escolar deve ensinar conhecimentos históricos,
científicos e culturalmente construídos e apropriados do mundo, pelo homem
(Colectivo De Autores, 2012).
Assim, o professor de Educação Física tem uma função importante dentro da
escola para a constituição desses conteúdos da ginástica, pois ocupa uma posição
privilegiada dando auxílio de cunho educativo e social junto aos seus alunos. É um
propósito a ser alcançado por todos aqueles que acreditam e começam a perceber a
importância de se recuperar o sentido de ser humano e suas relações com as práticas
corporais.
3.1. A Contribuição da Ginástica na Formação Integral do Aluno
xx
Um processo marcadamente mais lento de desenvolvimento e de aquisição de
autonomia por parte do ser humano é sinónimo de uma organização mais complexa
cujo grau e ritmo está totalmente dependente da adequada estimulação respeitando os
períodos sensíveis do desenvolvimento. O ser humano, fruto e um processo de
maturação longo e sensível, é extremamente vulnerável na infância estando o seu
processo de desenvolvimento dependente das condições envolventes que lhe são
proporcionadas desde tenra idade. A criança, biologicamente vulnerável à nascença é,
em contrapartida, rica em plasticidade e flexibilidade adaptativa e em mediatização
interactiva e comunicativa, resistindo assim todos os pré-determinismos e pré-
conformismos com a sua motricidade práxica e representacional (Fonseca, 1999).
Especificando, Fonseca (1999, p. 84) refere, que “ao sistema nervoso da
criança não basta um envolvimento rico em estímulos, é também necessário que entre
os estímulos e o organismo se interponha um ser humano que utilize estratégias de
intervenção intencional e emocionalmente ricas e compartilhadas, visando a
exploração significativa, transcendente e inovadora das situações oferecidas pelos
vários sistemas ecológicos, onde efectivamente decorre a sua maturação neurológica
e se optimiza e maximiza o seu potencial de aprendizagem”.
Com efeito, realça Robert (1982) se no embrião “cada órgão evolui primeiro,
sob o impulso de um programa genético que o determina, já a riqueza e a estabilidade
dos contactos definitivos, tem a ver com a qualidade, intensidade e repetição das
solicitações que percorrem os circuitos estabelecidos, não esquecendo que a criação
desses contactos, decorre durante um “período crítico” com início e duração fixos para
cada espécie, mas normalmente breve e precoce”.
O desaparecimento gradual dos diferentes reflexos básicos revela, em termos
de desenvolvimento, que as estruturas superiores, nomeadamente o córtex,
desenvolvem uma atividade progressivamente mais precisa sobre as estruturas
subcorticais decorrente do processo de maturação neuronal materializado ao nível da
mielinização e sinaptogénese, possibilitando a manifestação e comportamentos
progressivamente mais variados e ajustados.
Ao estabelecimento de circuitos neurais não é alheia a dinâmica do meio, pois,
como destaca Damásio (1998) diferentes experiências causam variações da potência
xxi
sináptica dentro e através de muitos sistemas neurais, modelando o design dos
circuitos. Estes circuitos não são apenas resultados da primeira experiência, mas
repetidamente flexíveis e suscetíveis de serem modificados por experiências contínuas
e progressivamente mais complexas (Damásio, 1998) por sua vez geradoras de novas e
ricas aferências.
Assim, a expressão de uma motricidade rica proporcionada pela vivência de
actividades gímnicas, solicitando respostas adaptadas e criativas face aos desafios
colocados, será um factor importante de interacção com o meio e potenciador do
processo de desenvolvimento integral. A importância da aprendizagem da Ginástica na
Escola, não com o objectivo final da execução dos elementos em si, mas das
qualidades desenvolvidas e vivenciadas aquando da sua aprendizagem, nomeadamente
sensações extero, inteiro e propriocetivas, são muito importantes para a organização e
estruturação do esquema corporal (Botelho, 1990 citado por Ferreirinha, 1999).
O facto de a aprendizagem de elementos quer acrobáticos quer simplesmente
coreográficos, onde o corpo sofre rotações em diferentes planos, levar a que o ginasta
seja acometido de ilusão, decorre das limitações próprias de cada sistema sensorial
(visual, vestibular e cinestésico) havendo, numa fase inicial, divergência de
informação e por isso uma dificuldade na integração dos sinais (estímulos) nos centros
nervosos superiores (Botelho, 2003). Estas situações são progressivamente superadas
pela vivência de situações diversificadas através do treino de elementos gímnicos,
contribuindo para uma organização corporal mais estruturada e confiante.
A ginástica é de essencial importância no desenvolvimento intgral do aluno, ela
pode estimular no aluno o desenvolvimento da sua criatividade, união, respeito, fazer com
que o aluno conheça as suas capacidades e limitações de movimentos corporais, bem
como suas possibilidades de ação. Ela utiliza desde as formas mais básicas de movimento,
como o andar, correr e saltar, até o desenvolvimento de flexibilidade, força, velocidade,
equilíbrio, resistência, agilidade e coordenação.
3.1.1. Os Materiais Utilizados na Ginástica Escolar
Os materiais utilizados de cada modalidade de ginástica terão seus conceitos
básicos para melhor entendimento e aplicabilidade nas aulas de educação física.
Segundo Santos (2001) afirma que voltando às regras para as composições das
xxii
ginásticas de competição, entende-se que o código de pontuação da FIG é bastante
exigente mediante as suas obrigatoriedades no processo de criação da composição das
modalidades diversas. Basicamente, as necessidades são as seguintes:
Ginástica Rítmica - Música, elementos corporais, aparelhos portáteis, individual
conjunto.
Ginástica Artística Feminina - Música, elementos corporais, acrobacias, aparelhos
fixos, individual.
Ginástica Artística Masculina - Elementos corporais, acrobacias, aparelhos fixos,
individual.
Ginástica Aeróbia - Música, elementos corporais, individuais, dupla, trio, grupos.
Ginástica Acrobática - Música, elementos corporais, acrobacias, dupla, trio, grupo.
Ginástica de Trampolim - Acrobacias, aparelhos fixos, individual, dupla.
3.1.2. O Espaço para a Prática das Aulas de Ginástica nas Escolas Nacionais
A escola é um ambiente no qual as crianças e jovens passam boa parte de suas
vidas. O espaço escolar torna-se, portanto, um lugar de construção da imagem de seus
alunos e campo de várias descobertas, de diversas conversas e actividades presentes no
dia-a-dia do educando.
Apesar da disciplina de Educação Física ter o Desporto como actividade mais
difundida, ela abrange seu quadro de actividades às lutas, à dança, à ginástica e aos
jogos. Assim como o espaço físico pode proporcionar uma aula fácil e acessível que
promova a participação do aluno, o campo, o pátio, a sala de aula, as praças, entre
outros também levam a proporcionam aos mesmos a vivência em actividades
corporais. É válido lembrar, porém, que a Educação Física não se restringe apenas o
campo de desportos: futebol do salão, voleibol, basquete e andebol. O espaço físico
escolar das aulas de ginástica a qual refere-se é algo muito mais amplo do que isto. É
um espaço facilitador para a busca do senso crítico e da autonomia corporal, capaz de
possibilitar ao educando formas de expressão da sua cultura e de suas vivências
xxiii
sociais, afectivas e motoras, sejam estes espaços, quadras desportivas, piscinas, salas,
pátios etc. (Matos, 2005, p. 15).
Percebe-se que nenhuma escola no contexto nacional é igual ao outro em sua
estrutura física, a não ser que tenha seguido algum modelo de outra instituição. Sendo
assim, o que professores e funcionários podem fazer é adequar o espaço para as aulas,
conforme as necessidades ou actividades a serem realizadas.
Toda escola é diferente em sua estrutura física, o qual, naturalmente, não foi decisão
dos professores: as medidas, os espaços e as determinadas distribuições são fixos. O
que é possível é adaptar os espaços para as aulas de ginástica dentro das necessidades
educativas da escola (Almeida; Brito; Almeida; 2008, p. 04).
Dessa forma se dá a importância da organização do espaço escolar dentro das
aulas de ginástica e seus desdobramentos para o ensino da Educação Física de
qualidade. Isto é uma questão de suma importância que influência directamente na
dinâmica das aulas. Verifica-se que os espaços físicos escolares das aulas de ginástica
não atendem as necessidades do corpo discente e as aulas tendem a se tornar
desmotivadoras. Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) do Ensino
Médio (1999) afirmam:
O educando vem, paulatinamente, se afastando dos campos, dos ginásios, do pátio,
dos espaços escolares e buscando em locais extra-escolares experiências corporais que
lhe trazem satisfação e aprendizado como parques, clubes, academias (p. 156).
A relação entre usuários e espaço físico dentro das aulas de ginásticas vai além
do formal. Nele está representada sua dimensão simbólica e pedagógica e através da
sua arquitectura pode-se ler e interpretar a História da Educação e ao mesmo tempo,
pode-se ler a própria história. Para Frago, (1998) “todo espaço para as aulas de
ginástica é um lugar percebido. A percepção é um processo cultural. Por isto não
percebemos espaços senão lugares, isto é, espaços elaborados, construídos. Espaços
com significados e representações” (Viñao Frago, 1998, p.105).
O este espaço dentro das aulas de ginásticas que comunica, mostra a quem sabe ler, o
emprego que o ser humano faz dele mesmo, que varia em cada cultura e que é um
produto cultural específico, não só das relações interpessoais, mas também dos ritos
xxiv
sociais, à simbologia das disposições dos objectos e dos corpos, à sua hierarquia e
relações (Frago & Escolano, 1998, pág.64).
Conforme os Parâmetros Curriculares Nacionais (1999) as instalações
utilizadas pela Educação Física são bem definidas no espaço escolar, possuindo
funções que exprimem a importância da disciplina como uma constituição de
linguagem própria.
Estas questões mostram, portanto, que certos factores influenciam
positivamente e negativamente a prática do professor de Educação Física, como a falta
de material e de espaço físico, embora seja preciso reconhecer os avanços obtidos. Por
fim, o espaço físico das aulas de ginástica condiciona nossos gestos diários, habitua
nossa visão, estimula elementos simbólicos e estabelece pontos de referência
4. Conclusão
Este trabalho de pesquisa reforçou a ideia de que estudar a ginástica no
contexto da educação física escolar contribui efectivamente para que o aluno se situe e
compreenda quais são os interesses para melhor praticá-la. Para discutir sobre o tema,
retomou-se a épocas e tempos cada vez mais remotos. Porém, não foi possível afirmar
o exacto momento em que a humanidade compreendeu o que é “fazer ginástica”,
mesmo porque, em cada cultura, a relação e os cuidados com o corpo sempre foram e
ainda são diferenciados.
Objectivou-se, principalmente, relacionar a grande importância que a Ginástica
exerce como um dos conteúdos da educação física escolar e seus inúmeros benefícios
físicos, cognitivos e sociais que ela pode proporcionar através da sua prática. Também
traz informações que ratificam a ideia de que a Ginástica, aqui analisada, surgiu como
uma opção contrária às modalidades de carácter competitivo ou de culto ao corpo, mas
visando proporcionar o desenvolvimento da criatividade, ludicidade, participação, a
satisfação provocada pela própria actividade.
Por fim, é imperativo que a ginástica seja desenvolvida a partir de uma
abordagem de ensino aberto e participativo, onde o aluno seja constantemente
estimulado a produzir novas experiências motoras, possibilitando a compreensão do
sentido/significado das actividades realizadas. Pode-se afirmar que Ginástica,
xxv
enquanto conteúdo da Educação Física, deve ser trabalhado para melhorar a qualidade
de vida não apenas das crianças em idade escolar, mas também de jovens, adultos,
idosos, homens ou mulheres, tendo ou não limitações.
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