Poesia Trovadoresca: Cantigas e Temas
Poesia Trovadoresca: Cantigas e Temas
Lírica trovadoresca
Cantigas de Amigo
Estas consistiam em poemas postos na boca de uma donzela que exprime a sua vida
amorosa nas mais variadas situações. Nestas, a mulher aparece, explícita ou implicitamente,
integrada num ambiente rural: numa fonte ou romaria, sob as flores de um pinheiro ou de
uma aveleira, no rio ou na praia. Em geral, a simplicidade destas cantigas baseia-se na
inocência e no facto de apelar para os sentimentos mais básicos e constantes da afetividade
humana. Noutras cantigas, o ambiente doméstico é mais presente, pois temos a jovem em
casa a fiar linho, enquanto espera pelo “amigo”, ou a desabafar com a mãe.
Assim, esta é uma cantiga que testemunha a existência de um lirismo muito antigo,
cujo papel principal pertence donzela que revela os seus sentimentos pelo “amigo” que
partia para a guerra ou para a corte, abandonando-a; perante esta partida, a donzela vira-
se para a mãe, para as amigas e para a Natureza e com elas desabafa a sua dor (confidentes);
é a expressão da vida dos namorados da altura.
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Cantigas de Amor
Nas cantigas de amor, o sujeito poético é o trovador que exprime o seu amor pela
sua amada que designa por “dona” ou “senhor”. As cantigas de amor não refletem uma
relação amorosa espontânea ou uma experiência amorosa vivida a dois; elas exprimem um
amor idealizado, assente na teoria do amor “cortês”. Segundo esta teoria que rege as leis do
verdadeiro amor, o único digno de ser cantado poeticamente, o homem deve prestar
vassalagem amorosa à sua “senhor” e, o amado deve lealdade e fidelidade à amada, até à
morte. Para ele, a mulher amada é perfeita e inacessível como uma deusa.
A dama é, normalmente, casada ou pertence a uma classe social superior à do
trovador, por isso o seu amor é quase impossível, mas ele não desiste e acaba por sofrer por
amor (“coita de amor”). A dama era caracterizada de forma hiperbólica, acentuando a sua
beleza e as suas qualidades, mas também era descrita como caprichosa, altiva, distante,
soberba, desdenhosa, superior e provocava o sofrimento no poeta. No fundo, era colocada
num pedestal, era como uma deusa inacessível.
Desta forma, encontramos o amor adúltero e um ambiente de corte, por estes
motivos, o trovador jamais divulgava o nome da “senhor” (mesura) e existia a exclusividade
do amor, o que, não raras vezes, gerava o seu sofrimento.
Apesar da influência provençal, na Península Ibérica, os trovadores, mais
sentimentais, deixam perpassar a sua vivida emoção num conjunto de desabafos doloridos.
Por este motivo, as cantigas de amor ibéricas são mais obcecadamente apaixonadas, tristes
e monotonamente repetitivas. Originalmente, eram cantigas de mestria, mas existem
algumas com refrão (influência das cantigas de amigo).
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Cantigas de escárnio e
Cantigas de amigo Cantigas de amor
maldizer
Península Ibérica (norte de Sul de França (Provença) Península Ibérica e o sul de
Origem
Portugal) França (Provença)
Sujeito poético Donzela Trovador Trovador
“louçã”, “velida”, “leda”, cativo, coitado, aflito, cáustico, irónico, brincalhão,
Caracterização
“fermosa”, “delgada”, servidor, enlouquecido, com sentido de humor,
do sujeito
“talhada”, “bem parecer”, sofredor, “coita de amor” satírico
poético
sofredora, triste, infeliz,
“mentiroso”, “traidor”, A mulher ideal fisicamente Caracterização direta
“fermoso”, corajoso, belo, ou (“fermosura”, corpo (cantiga de maldizer) ou
caracterização indireta delgado, beldade), indireta (cantiga de
Caracterização moralmente (bondade, escárnio)
do objeto lealdade, “comprida de
amado bem”), e socialmente (“bom
sem”, “mui comunal”, “falar
mui bem”), “prez”, “loor”,
“gran valor”, a melhor, …
Plano de igualdade Amor cortês (vassalagem Não há relação direta
(sentimento amoroso amorosa do trovador)
espontâneo) - sofrer quando ela quiser;
Relação - guardar “mesura”;
homem/mulher - respeitar o seu “prez”;
- ter autodomínio;
- prestar vassalagem à
“senhor”.
Intimidade e comunhão com Não há uma relação direta, o Não há relação direta
a natureza (as aves, as ambiente é a corte
Relação ondas, as flores de pinheiro
poeta/natureza são as confidentes da
donzela, às quais ela pode
confessar tudo)
A natureza amiga e A natureza estilizada (as Ambiente de corte
confidente (o rio, a fonte, a flores de maio, a brisa da
Ambiente montanha, a ermida, o baile, primavera, o cantar do
a igreja,…) rouxinol)
O ambiente doméstico O ambiente de corte
- feminismo: os sentimentos -veneração da mulher; - abdica da sua função social
expressos são sempre da - o amor à margem do corretiva, sendo raros os
mulher; o homem está quase casamento; temas de interesse geral;
Características
sempre ausente; - o fingimento do amor; - crítica individual e
gerais
- o ruralismo: o ambiente - a “coita de amor”; subjetiva;
campestre e rural é - o paralelismo estrutural e
constante; semântico.
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Glossário
Atafinda: processo que consiste em levar o assunto sem interrupção (por encadeamento
lógico) até ao fim da cantiga;
Cobra ou copla: estrofe;
Coplas uníssonas: têm todas o mesmo esquema rimático;
Coplas singulares: as rimas renovam-se a cada estrofe;
Coplas monórrimas: a rima é idêntica em todos os versos da mesma copla;
Dobre: repetição de um ou mais vocábulos no mesmo lugar de cada copla;
Encavalgamento: o conteúdo ideológico de um verso completa-se apenas no seguinte;
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Finda: estrofe de um a três versos que serve de remate e em que o poeta sintetiza o assunto
da composição;
Leixa-pren: processo pelo qual se retoma no início de uma copla o último verso da estrofe
anterior, embora alternando as últimas palavras;
Mestria (Cantiga de): cantiga sem refrão (de influência provençal);
Mordobre: repetição de formas diferentes do mesmo verbo no mesmo lugar em cada copla;
Paralelismo: consiste na repetição da mesma ideia em versos paralelos;
Paralelismo anafórico: com anáforas;
Paralelismo semântico: implica uma repetição das ideias;
Paralelismo estrutural: pressupõe a alternância de coplas uníssonas;
Perduda (palavra): verso branco ou solto, colocado na mesma posição em cada copla;
Refrão: verso ou versos que se repetem na íntegra no fim de cada copla;
Tenção: cantiga dialogada em que os interlocutores altercam ou confrontam opiniões e/ou
pontos de vista diferentes.
Resumo
A poesia trovadoresca foi cultivada no norte da Península Ibérica, nos séculos XII a
XIV. Nesta época, a economia era de subsistência e a sociedade encontrava-se estratificada
em clero, nobreza e povo.
Com efeito, aquela surge associada à música e à dança, animava os serões da corte e
utilizava como língua o galego-português. Assim, cabia aos trovadores, que pertenciam à
nobreza, escrever as letras e as músicas, que os jograis executavam, acompanhados pela
jogralesa, que dançava. Estas composições chegaram até nós compiladas no Cancioneiro da
Vaticana, Cancioneiro da Biblioteca Nacional e Cancioneiro da Ajuda.
Esta subdivide-se em três categorias: cantigas de amigo, de amor e de escárnio e de
maldizer. De facto, nas primeiras, o papel principal pertence à donzela que revela os seus
sentimentos pelo “amigo”. Por sua vez, nas cantigas de amor, o sujeito poético é o trovador
que exprime o seu amor pela sua amada (a “senhor”), assente na teoria do “amor cortês”.
Finalmente, a cantiga de maldizer satiriza a pessoa diretamente, enquanto a de escárnio fá-
lo indiretamente, cuja intenção é satirizar certos aspetos da sociedade medieval.
Concluindo, a lírica galego-portuguesa constitui um importante valor documento da
nossa Idade Média.
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também contra os poderosos nobres, os seus poderes e abusos. Por este motivo, Fernão
Lopes caracteriza tão bem o povo de Lisboa, pois considera-o um exemplo de portugueses
verdadeiros que amam a sua terra, por oposição àqueles que apoiaram o rei de Castela.
Efetivamente, nas suas crónicas, Fernão Lopes dá voz ao povo, à “arraia-miúda”,
conferindo-lhe uma caracterização de personagem coletiva, pois este pensa e age como um
todo. O destaque dado à opinião das pessoas anónimas, aos sentimentos da multidão e à
força das suas ações coletivas gera uma abrangência e um entendimento da situação que
são inovadores. Assim, o povo de Lisboa representa todos os portugueses que resistiram ao
invasor e defenderam o seu país, numa clara demonstração de patriotismo.
Todavia, ao lado desta personagem coletiva, o cronista menciona também alguns
atores individuais, como o Mestre de Avis, o Conde Andeiro e D. Leonor Teles.
O Mestre é o protagonista, à volta do qual vão surgindo os antagonistas e os
apoiantes. D. João é uma figura que se vai construindo, inicialmente, aparece como hesitante,
ambíguo, temeroso, mas, simultaneamente, é generoso, digno de confiança, humilde e
simples, porque não procura o poder, mas acaba por aceitar as responsabilidades.
D. Leonor Teles, por sua vez, é descrita como uma mulher sedutora, inteligente e
poderosa, capaz de manipular os homens, vingativa, com desejo de poder (note-se o
contraste com o Mestre) e um ódio visceral a D. João. Contudo, a sua caracterização negativa
não oculta um certo fascínio do cronista pela força da sua personalidade.
No entanto, apesar dos louvores ao povo e ao Mestre, Fernão Lopes não deixa de
criticar as suas atitudes, quando há caso disso, como a morte do bispo de Lisboa às mãos do
povo e a cobardia de D. João perante o Conde Andeiro. Com efeito, esta atitude vai ao
encontro das palavras do cronista no Prólogo, onde ele afirma que vai escrever a verdade e
ser imparcial e, em boa verdade, esta atitude é quase atingida, mas nota-se o favorecimento
ao futuro rei de Portugal e pelas suas gentes, em alguns momentos da sua prosa.
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dos ardis primários do escudeiro Brás da Mata, numa segunda fase é ela que assume a
dinâmica do logro, fazendo-se conduzir ao encontro do amante pelo marido crédulo e
“cuco”, Pero Marques.
A peça tem início com a entrada de Inês Pereira a cantar e a fingir que trabalha num
bordado. Ela começa logo a reclamar do tédio deste serviço e da vida que leva, sempre
fechada em casa. A mãe, ao ouvi-la, aconselha-a a ter paciência. Inês é uma jovem solteira
que sofre a pressão constante do casamento. Ela deseja casar e imagina para marido um
homem que, ao mesmo tempo, seja alegre, bem-humorado, galante e que goste de dançar e
cantar, que se percebe imediatamente na primeira conversa que estabelece com a sua mãe
e Lianor Vaz. Estas têm uma visão mais prática do casamento: o que importa é que o marido
cumpra com as suas obrigações financeiras, enquanto Inês está apenas preocupada com o
lado festivo e cortesão.
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Lianor Vaz chega a casa de Inês e da sua mãe e conta que um padre a assediou no
caminho. Depois de narrar as suas aventuras, diz que veio trazer uma proposta de
casamento para Inês e entrega-lhe uma carta do seu pretendente, Pêro Marques, filho de um
lavrador rico, o que satisfazia a ideia de marido na visão da mãe. Inês aceita conhecê-lo,
apesar de não se ter interessado pela carta. Depois de o conhecer pessoalmente, ela acha
Pêro ainda mais desinteressante e recusa o casamento.
A sua esperança agora está nos Judeus casamenteiros a quem encomendou o noivo
dos seus sonhos. De facto, Inês aceita a proposta destes dois judeus casamenteiros muito
divertidos, Latão e Vidal, que só se interessam no dinheiro que o casamento arranjado lhes
pode render, e não dão importância ao bem-estar da donzela. Estes judeus apresentam-lhe
Brás da Mata, um escudeiro, que preenche todos os requisitos que Inês queria num marido,
apesar das desconfianças da mãe. Antes de vir conhecê-la, porém, este escudeiro, que na
verdade era pretensioso e falido, combina com o seu mal-humorado pajem as mentiras que
dirá para enganar Inês.
As mentiras surtem efeito e eles acabam por casar. No entanto, consumado o
casamento, Brás, agora seu marido, transforma-se num tirano, proibindo-a de tudo, até de
ir à janela e chega ao absurdo de pregar as janelas para que Inês não pudesse sequer olhar
para a rua. Ele até proíbe a mulher de cantar dentro de casa, pois queria uma mulher
obediente e discreta. Prisioneira dentro da sua própria casa, Inês encontra a sua desgraça.
Mas a desventura dura pouco, pois Brás decide ir para a guerra tornar-se cavaleiro, mas
morre às mãos de um pastor quando fugia da batalha cobardemente.
Finalmente em liberdade, Inês não perde tempo. Viúva e mais experiente, fingindo
tristeza pela morte do marido tirano, aceita casar-se com Pêro Marques, o seu antigo
pretendente. Aproveitando-se da sua ingenuidade, trai-o descaradamente quando um
ermitão, que tinha sido um antigo apaixonado seu, lhe aparece à porta. Eles marcam logo
um encontro na ermida e Inês pede que Pêro, seu marido, a leve ao encontro do ermitão. Ele
obedece, colocando-a às costas e, enquanto a leva ao encontro do amante, ambos vão
cantando alegres.
Estrutura Externa
Esta farsa é constituída por um ato único, sem divisão em cenas, como é habitual
nas peças vicentinas. Todas as falas foram compostas em verso de sete sílabas métricas
(redondilha maior), dispostos em estrofes de nove versos (nonas), cujo esquema rimático
é abbaccddc (rima emparelhada e interpolada).
Estrutura Interna
1. Exposição (cena inicial até à recusa de Inês em casar com Pêro Marques) – nesta parte,
ficamos a conhecer Inês, os seus desejos e as suas ambições; encontramos também o
momento em que Pêro Marques é apresentado pela alcoviteira. Esta parte retrata o
quotidiano da protagonista e a situação da mulher na sociedade da época, por meio das falas
de Inês, da mãe e da alcoviteira Lianor Vaz.
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3. Desenlace (morte do Escudeiro e casamento com Pêro Marques) – na parte final, Inês
casa pela segunda vez, desta feita com o lavrador, e trai o marido com um antigo admirador.
Assim, experiente e vivida, Inês tira todo o proveito possível da situação que vive.
Tempo e Espaço
Personagens
Personagem principal
Inês Pereira: jovem esperta que se aborrece com o trabalho doméstico, pois deseja ter
liberdade e divertir-se. Por este motivo, sonha casar com um marido que queira também
aproveitar a vida, visto que acredita que só assim conseguirá a vida que deseja. Inês é bonita
e solteira. Na sua opinião, o seu dia-a-dia é enfadonho, pois passa os dias a bordar, fiar e
costurar, portanto vê no casamento também uma maneira de se libertar dos trabalhos
domésticos. No entanto, ela despreza o casamento com um homem simples, preferindo um
marido de comportamento refinado; idealiza-o como um fino cavalheiro que soubesse
cantar e dançar. Inês contraria as recomendações maternas ao recusar Pêro Marques e
aceitar o casamento com Brás da Mata. Porém, logo aprende com os seus erros, dado que se
consciencializa que a vida pode ser boa ao lado de um humilde camponês.
Na verdade, Inês deixa-se levar pelas aparências e ridiculariza Pêro Marques
despedindo-o de sua casa para receber Brás da Mata. Assim que se vê casada, a sua vida
torna-se uma prisão, porque não pode sair e é constantemente vigiada pelo Moço. Inês sofre
e chega a desejar a morte do marido. Após três meses, ele morre cobardemente na guerra e
Inês casa-se com Pêro Marques. Este satisfaz todos os seus desejos e chega até a carregá-la
às costas para um encontro com um amante (sem saber, porém, que era para isso).
Para terminar, esta personagem apresenta uma evolução psicológica, tendo por
base a sua própria experiência: primeiro, enquanto é solteira, gosta de se divertir, é alegre
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e pouco afeita aos afazeres domésticos, não dá importância ao luxo e prefere uma vida de
prazer, mesmo que pobre; em segundo, depois que se casa com o Escudeiro e descobre
quem ele é realmente – a essência por trás da aparência –, Inês vê-se obrigada a reavaliar
os seus ideais. O resultado desta avaliação é expresso no modo como trata Pêro Marques, o
seu segundo marido.
Personagens secundárias
Mãe de Inês: mulher de boa condição económica, sonha casar Inês com um homem de
posses. É a típica dona de casa provinciana e conservadora. Preocupada com a educação e o
futuro da filha, dá-lhe conselhos prudentes, inspirada por uma sabedoria popular. De facto,
chega a ser comovente e singela a ternura que sente pela filha, a quem oferece uma casa por
ocasião do casamento. Esta mãe luta pela felicidade da filha iludida, mas, tendo dado os seus
conselhos, deixa-a aprender por si mesma.
Pêro Marques: primeiro pretendente de Inês, é rejeitado por ser grosseiro e simples,
apesar da boa condição financeira, mas acaba por ser o seu segundo marido. Como é um
camponês simples, não conhece os costumes das pessoas da cidade. De facto, é tão tosco que
não sabe para que serve uma cadeira, mas também revela ser teimoso como um asno e diz
que não se casará até que Inês o aceite um dia. No fundo, representa o asno servil e é a
personagem cómica da peça.
No entanto, é uma personagem ambígua, ao mesmo tempo que é ridicularizado pela
ingenuidade, é valorizado pela integridade de caráter. Fiel e dedicado, ele revela ser um
gentil e carinhoso marido. Apenas Pêro Marques tem sua roupa genericamente explicitada
(“Aqui vem Pêro Marques, vestido como filho de lavrador rico, com um gibão azul deitado
ao ombro, com o capelo por diante”).
Latão e Vidal: são judeus e têm como trabalho arranjar casamentos, como Lianor. Estes
judeus casamenteiros são muito parecidos, têm as mesmas características, na verdade são
a mesma personagem dividida em dois. Eles representam a caricatura do judeu hábil no
comércio. Faladores, insinuantes, humildes, serviçais e maliciosos, são um estereótipo, pois
aparentam uma atitude bajuladora, mas na verdade as suas afirmações constituem críticas
severas e justas tanto em relação a Inês, quanto ao Escudeiro. Com efeito, eles conhecem
bem os defeitos do pretendente que arranjaram para a jovem, mas também sabem da
preguiça, da vaidade e da leviandade de Inês. Por isso, escarnecem dos dois, expondo os
seus defeitos.
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Moço: criado de Brás. Pobre coitado, explorado por um amo infame, é humilde, portanto
deixa-se explorar e acredita ingenuamente nas promessas do Escudeiro. De facto, ele
cumpre as suas obrigações sem ver a recompensa, mas é capaz de, nas suas queixas e
apartes, insinuar as farpas com que critica o mau patrão. Assim, é por ele que se conhecem
os sentimentos e as verdadeiras intenções de Brás da Mata. Após a partida do patrão para a
guerra, Inês fica a seu cuidado, que a vigia o tempo todo. Ao saber da notícia da morte do
seu amo, é dispensado por Inês.
Ermitão: antigo pretendente de Inês e amante depois de seu casamento com Pêro. É um
falso monge que veste o hábito para conseguir realizar seu propósito de namorar Inês. Esta
personagem serve como pretexto para mostrar concretamente o "asno" transportando Inês.
Além disso, por se tratar de uma jornada religiosa, o marido pode acompanhar Inês sem
desconfiar das suas reais intenções. Gil Vicente serve-se ainda do Ermitão para criticar os
maus padres da sua época, corrompidos pelos interesses materiais. Ao grupo, pertence
também o clérigo que teria assediado Lianor Vaz.
Personagens figurantes
Fernando e Luzia: amigos e vizinhos da mãe de Inês. Fernando e Luzia são uma espécie de
ideal de vida, encarnam a bondade, a pureza, a simplicidade e a ternura. Entretanto, é a
morte e o desencanto presente em suas canções que desperta um vago pressentimento em
Inês, como que a anunciar o futuro que a espera.
Representação do quotidiano
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Dimensão satírica
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Cómico
Como “a rir se corrigem os costumes”, Gil Vicente recorre a artifícios, tais como a
ironia e o cómico, que contribuem para acentuar alguns traços característicos de algumas
personagens e para criticar.
Renascimento
Humanismo
O termo humanista implica todo aquele que é versado no conhecimento das línguas
e literaturas antigas, sobretudo latinas e gregas. Contudo, é difícil dar uma definição precisa
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de humanismo, tão grande é o número das que têm sido propostas; que, na verdade, não
houve um humanismo, mas humanismos, ou melhor, humanistas.
O humanismo é, antes de mais, o descobrimento da Antiguidade sob os seus
múltiplos aspetos: literatura, arte, história, ciência, filosofia. Caracteriza-se pelo estudo
direto dos textos, pelo desejo que cada um sente de se cultivar, pelo gosto do saber.
Ressuscitando o pensamento antigo, o humanismo é o conjunto de valores estéticos, éticos,
pedagógicos e filosóficos que variam de autor para autor: é o novo estilo de vida, a exaltação
do valor do homem e da sua obra individual ou coletiva.
É uma atitude filosófica que se define pela adoção de tudo quanto pode valorizar o
elemento humano. O pensamento antropocêntrico, sem deixar de atender à alma e ao céu,
incide mais na vida do Homem, cidadão do mundo e no mundo, pátria do Homem. Como
haviam feito os melhores de entre os Gregos e Romanos, tentou valorizar-se, no curto
espaço de tempo que medeia entre o berço e o túmulo, tudo quanto pode elevar a vida do
Homem terreno (pensamento antropocêntrico – Homem no centro do universo).Uma nova
conceção do Cristianismo tenta fazer regressar a Igreja à pureza dos antigos cristãos.
Classicismo
Poesia Palaciana
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Lírica Camoniana
Medida Nova: verso decassílabo com acento na sexta e décima sílabas ou na quarta, oitava
e décima sílabas.
Medida Velha: verso de cinco sílabas métricas (redondilha menor) e de sete sílabas
métricas (redondilha maior).
Medida velha
Camões retoma temas da poesia tradicional como a fonte, o mar, os olhos verdes ou
coisas de folgar e gentilezas, já tratados nos cancioneiros trovadorescos e no Cancioneiro
Geral de Garcia de Resende. Georges Le Gentil afirma que, na obra de Camões, "poemas de
forma fixa que se poderiam agrupar sob a denominação mais geral e mais expressiva de
Medida Velha, ligam-se, por um lado, à tradição cortês, tornada apanágio de um escol social,
por outro, ao folclore, preservado ou exumado pelos músicos.”.
O encanto das redondilhas de Camões provém deste paradoxal compromisso entre
o requinte e a ingenuidade. Ele podia escolher entre as combinações variadas das glosas,
das esparsas, das trovas dos vilancetes, das endechas e das cantigas. Em geral, Camões adota
a forma do mote e das voltas. O mote apresenta- se sob o aspeto de uma curta citação tirada
de uma velha cantiga popular espanhola ou portuguesa. É o tema inicial sobre o qual ele vai
"bordar" as suas variações. Através deste tema, reencontramos a inspiração das cantigas de
amigo.
Lendo os poemas: "Descalça vai pera a fonte ", "Na fonte está Lianor" e "Pastora da
Serra", ocorre imediatamente a imagem da donzela das cantigas de amigo que vai buscar
água à fonte, lavar aí os seus cabelos ou simplesmente encontrar- se com o amigo, que
pergunta à mãe ou às amigas pelo seu amado, ou à imagem da ingénua pastora
apascentando o seu rebanho num cenário bucólico convidativo ao amor, que é galanteada
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pelo cavaleiro andante inebriado pela beleza do cenário da donzela e da sua maravilhosa
melodia.
Medida nova
Em Camões, é muito visível a influência de Petrarca, já que ele aceita e adota o seu
estilo de forma muito intensa, muito embora alguns dos temas derivassem já da poesia
provençal e do amor cortês, nos quais a mulher é vista como ser superior, quase divino.
Também a atitude platónica do amante perante a senhora, a morte pelo amor que são temas
que Petrarca já fala com o seu novo estilo, mas que derivam, simultaneamente das nossas
correntes poéticas trovadorescas e palacianas.
Assim, a influência de Petrarca é direta e profunda, porque encontra
correspondências no nosso temperamento, uma vez que o lirismo petrarquista na sua
conceção de amor puro e ideal, já se encontravam nos nossos trovadores de amor cortês
onde a "senhor" era idealizada e espiritualizada.
No Petrarquismo, é escolhida a vida solitária e o poeta maltratado pelo amor refugia-
se na Natureza e busca nela imagens que lhe permitam criar um confidente a quem confessa
as suas amargas meditações de amor. O petrarquismo consiste, pois, na livre expansão da
alma enamorada de uma mulher ideal, uma mulher dotada de todas as perfeições e com
graças terrenas que se ama com um amor que aspira a libertar- se da mancha da
sensualidade como meio de ascender à contemplação divina, mas que a cada passo deseja
possuir-se. É o amor platónico, ideal e espiritual.
Esta mulher ideal apresentava um determinado tipo de beleza: cabelos de oiro, olhar
brando e sereno, riso terno e subtil, gesto manso, olhos verdes ou azuis, tez branca e rosada
e lábios vermelhos.
A influência de Dante manifesta-se de forma profunda e consiste em falar de amor
relacionando-o com a visão extraterrena daqueles que sofrem no inferno por terem amado.
O poeta cria ambientes macabros, transporta-nos às profundezas do inferno para mostrar
esse espetáculo de sofrimento tanto mais profundos quanto maior fosse a recordação dos
bens passados. Aí se ouvem os queixumes dos condenados por causa do amor a que se
entregaram na Terra.
- A obra lírica camoniana é marcada por uma dualidade: por um lado, a poesia de carácter
trovadoresco dos cancioneiros, por outro, as novas composições introduzidas pelo
Renascentismo.
- Como poeta do Renascentismo, a sua produção lírica é uma expressão do dolce stilo nuovo.
- A sua poesia é sustentada em polos antagónicos: mulher ideal e perfeita / mulher feiticeira;
amor espiritual /amor sensual; humildade / orgulho; inocência / sentimento de culpa;
natureza como espelho da alma / natureza contrastante com o estado de alma.
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Mulher Natureza
- por influência petrarquista, surge a - espaço alegre, tranquilo, sereno, propício do
imagem da mulher: amor (locus amoenus);
- angelical, um ser divino e encantatório - espelho da alma do poeta, refletindo os seus
(“Circe”), de pele, cabelos e olhos claros, sentimentos;
elementos físicos reveladores das - confidente, testemunha da dor provocada pela
qualidades da alma; separação/ausência da amada;
- perfeição moral e espiritual sobrepõe-se - espaço onde o poeta pode projetar os seus
ao retrato físico; sentimentos negativos;
- do contacto com outras culturas, nasce um - indiferente ao sofrimento do poeta, a natureza
novo conceito de beleza feminina, distante continua pacífica, serena e agradável.
de Petrarca, com pele e cabelos escuros,
capaz de provocar fascínio e tranquilidade
no amador (“Aquela cativa”).
Desconcerto Mudança
- reflexão sobre o desconcerto do mundo, - consciente da irreversibilidade do tempo, o
ao nível social e moral. Assim, este resulta: poeta reflete sobre:
- da errada distribuição dos prémios e dos - a renovação cíclica da Natureza;
castigos (os maus são galardoados, os bons - a mudança da vida e das coisas (no caso
severamente castigados); pessoal do poeta, ele sente que a mudança se
- dos contrastes entre a opulência e a opera sempre para pior).
miséria;
- do crescente interesse dos homens por
valores materiais.
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Os Lusíadas é a obra mais conhecida de Luís Vaz de Camões e datam do século XVI
(1572, 1ª edição). Esta nasceu da influência do contexto cultural em que se insere –
Renascimento.
Desta forma, podemos afirmar que Os Lusíadas são uma obra:
- Renascentista, porque fala dos Descobrimentos, visto que narra a viagem marítima
de Vasco da Gama até à Índia, por conter marcas da cultura greco-latina e colocar o Homem
no centro das atenções;
- Humanista, pois valoriza o Homem (os Portugueses) e os feitos que alcançou,
tornando o povo português num herói, imortalizando-o;
- Clássica, dado que tem uma linguagem elevada, na qual podemos encontrar a
presença da mitologia, a natureza paradisíaca; para além destes motivos, Os Lusíadas são
uma epopeia.
Noção de epopeia
A epopeia surgiu na Grécia Antiga, tem regras e uma definição muito específicas.
Assim, uma epopeia é uma narrativa em verso, que narra feitos gloriosos de um herói ou de
um povo, utilizando uma linguagem elevada, pois os feitos são excecionais, logo a linguagem
também o deve ser. A narração dos feitos inicia-se in medias res, isto é, no meio dos
acontecimentos, para suscitar o interesse na ação. Desta forma, será depois necessário
voltar atrás na história (analepse).
O herói da epopeia pode ser individual, como acontece nas epopeias clássicas (Ilíada,
Odisseia e Eneida), ou coletivo, como temos n’ Os Lusíadas, cujo herói é o povo português.
Estrutura externa
Os Lusíadas é constituído por dez cantos, com um número variável de estrofes. Cada
estrofe ou estância é constituída por oito versos (oitavas) e cada verso tem dez sílabas
métricas (versos decassilábicos). O esquema rimático é fixo (abababcc), portanto, temos
rima cruzada nos primeiros seis versos e rima emparelhada nos últimos dois.
Estrutura interna
. Proposição (canto I, 1-3) – o Poeta resume toda a epopeia, mencionando os conteúdos que
vai abordar ao longo da mesma.
. Invocação (canto I, 4-5) – este pede inspiração às Ninfas do Tejo (“Tágides”) para escrever
Os Lusíadas.
. Dedicatória (canto I, 6-18) – o poeta dedica a sua obra ao rei da altura da sua publicação –
D. Sebastião.
. Narração (canto I, 19 até ao canto X, 156) – história dos feitos e das conquistas dos
Portugueses, sendo a ação principal o caminho marítimo para a Índia.
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Dentro da Narração, temos quatro planos, sendo que cada um se centra num tema
específico:
- plano da viagem: narra os acontecimentos da viagem marítima para a Índia de
Vasco da Gama.
- plano da História de Portugal: conta os feitos históricos do herói da epopeia – o
povo português.
- plano mitológico: narra as peripécias que envolvem os deuses da mitologia; ao
longo da epopeia, vamos ter deuses que apoiam os Portugueses (Vénus) e deuses que se
opõem (Baco).
- plano das considerações do Poeta: o Poeta dá a sua opinião pessoal relativamente
a alguns factos.
Episódios
Simbologias
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Na “Ilha dos Amores” culmina a viagem “por mares nunca dantes navegados”, ou
seja, através do desconhecido, do que era obscuro para os nautas. E estes, ao encontrarem
a satisfação dos sentidos na relação com as ninfas e ao verem a “Máquina do Mundo”, mais
não têm do que as compensações das descobertas e do domínio das novas terras.
Na leitura simbólica, a viagem, mais do que a exploração dos mares, exprime a
passagem do desconhecido para o conhecimento, da realidade do Velho Continente e dos
seus mitos indefinidos ou sem explicação para novas realidades de um planeta a descobrir.
No regresso à “pátria amada”, Camões já não está preocupado em cantar as
peripécias da viagem, mas em traduzir a luz que se abriu aos Portugueses e ao mundo
ocidental. Por isso, diz que os nautas, ao nascer do dia, viram uma Ilha “fresca e bela”, “alegre
e deleitosa”, de “claras fontes e límpidas”, com ninfas que se “lançavam/ nuas por entre o
mato, aos olhos dando/ o que às mãos cobiçosas vão negando”, e, mais tarde, contemplam a
“Máquina do Mundo”.
A “Ilha dos Amores” não representa apenas esta posse do conhecimento. Nela se dá
uma relação carregada de erotismo que simboliza a necessidade de uma união ou comunhão
dos homens com o divino. Neste sentido, a Ilha simboliza esta capacidade que os
Portugueses tiveram de estabelecer a harmonia no planeta, apesar de todos os atropelos.
Em nome da Fé e do Império, os homens procuraram levar o sentido do divino aos povos
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Índia
Homens
Heróis
Lisboa
"Ilha dos Amores"
Semideuses
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Matéria épica
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Para além dos planos narrativos que constituem a epopeia, encontramos um outro
plano que diz respeito às reflexões do poeta a propósito de diferentes assuntos que têm
lugar ao longo da narração. Estas reflexões constituem a visão do poeta renascentista, em
relação à própria condição humana, o que serve, por vezes, a construção do herói do poema,
que supera todas as provações e será premiado pelo seu esforço e valentia, na “Ilha dos
Amores”, espaço simbólico de recompensa pela conclusão de um percurso glorioso.
O poeta revela também a sua perspetiva em relação a uma fase do Império Português
e aos valores dominantes no país, num momento em que o brilho das grandes navegações
começava a ser ofuscado pelo materialismo que grassava no reino, pela indiferença pela arte
e pela cultura; o poeta manifesta ainda o seu desalento pelo desprezo a que a sua epopeia
era votada.
Vejamos, então, os aspetos que dominam a atenção do autor da epopeia nacional e
merecem a sua intervenção, numa expressão da sua mundividência, ao longo dos cantos que
integram o poema épico camoniano.
No canto I, estrofes 105-106, o poeta apresenta as suas reflexões sobre a
insegurança da vida, na sequência de uma síntese da situação narrativa (quatro primeiros
versos da estrofe 105), centrada na traição de que os Portugueses foram vítimas por parte
de Baco, mas foram salvos por Vénus.
As reflexões do poeta sobre a fragilidade da vida, sobre a tragicidade, que se
encontra subjacente à própria condição humana, evidenciam o carácter humanista da
epopeia e servem a arquitetura da obra. De facto, nesta reflexão, Camões reage à traição
protagonizada por Baco, lamentando-se da personalidade escondida dos seres humanos.
Assim, estabelece um paralelismo entre os perigos encontrados no mar e em terra,
verificando que em nenhum dos ambientes há segurança absoluta. Na sequência disto,
reflete sobre a posição do ser humano face à natureza, já que na sua fragilidade e
insegurança (“bicho da terra”) é capaz de atravessar mares e conquistar povos,
ultrapassando com sucesso os diferentes obstáculos.
No canto V, estrofes 92-100, o poeta censura os portugueses que desprezam a
poesia, tecendo uma crítica feroz à falta de estima que os líderes políticos portugueses
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gente”; finalmente, os que se empenham em “taxar, com mão rapace e escassa/Os trabalhos
dos outros”.
Estas intervenções do poeta, para além de revelarem a sua ousadia e coragem,
retratam, com efeito, um Portugal minado pelos interesses pessoais, onde o sentimento
patriótico aliado ao bem coletivo e à moral tradicional parecia inexistente. É esta
constatação que leva o poeta a declarar que cantará apenas aqueles que arriscarem a sua
“amada vida” por Deus e por seu rei.
No canto VIII, est. 96-99, Camões reflete sobre o poder do ouro e procede à
enumeração de atos de corrupção que percorrem todos os estratos sociais, em particular,
as elites: assim, o dinheiro “rende munidas fortalezas”, motiva a traição e a falsidade dos
amigos, corrompe “a mais nobres” e “virginais purezas”, origina a depravação das ciências,
cegando a razão e “as consciências”; o poder do ouro leva, ainda, a uma interpretação dos
textos à qual está subjacente o desrespeito pelas ideias, altera leis, causa perjúrios, torna os
reis tiranos e corrompe os sacerdotes que só deviam servir a Deus.
Assim, neste canto, ele centra a sua reflexão nos efeitos perniciosos do ouro,
constatando que a avidez em que vive o ser humano conduz muitas vezes a ações
irrefletidas, independentemente da posição social.
O canto IX (est. 92-95) apresenta uma exortação a quantos desejarem alcançar a
fama. Neste canto, o poeta dá conselhos àqueles que aspiram a alcançar a condição de herói:
devem, assim, abandonar o estado de ócio e de indolência, refrear a cobiça, a ambição e o
“torpe e escuro/Vício da tirania”, fazer leis equitativas na paz, que não deem “aos grandes”
o que é dos “pequenos”, fazer guerras contra os “immigos Sarracenos”; só esta conduta fará
“os Reinos grandes e possantes”, conduzirá ao usufruto de “riquezas merecidas/Com as
honras que ilustram tanto as vidas” e contribuirá para fazer o rei ilustre, seja através de
conselhos ponderados, seja através da guerra. Só esta atitude permitirá, enfim, que os
portugueses se tornem imortais, como se verificou em relação aos seus antepassados.
A inação e a corrupção surgem como as principais causas de estagnação do país e
constituem a grande inibição para que o Homem alcance um estatuto de herói, o que só
acontece se este deixar aflorar o que em si o distingue dos outros animais e que se manifesta
através da vontade (“quem quis, sempre pôde”), numa revelação da sua dimensão espiritual.
A condição de herói associa-se à recompensa “Sereis entre os Heróis esclarecidos / E nesta
ilha de Vénus recebidos”.
De facto, todo este episódio é profundamente alegórico, segundo o qual as Ninfas,
Tétis e os seus deleites significam as honras, os prémios, os triunfos e a glória concedidos
aos heróis que, pelas suas obras valorosas e pelos seus sacrifícios, mereceram subir ao
Olimpo, “sobre as asas ínclitas da Fama”. Esta alegoria representa a crença, a esperança de
Camões que, num mundo miserável e sem valores, o futuro seja mais justo, mais harmonioso
e feliz. Assim, as estâncias 92 a 95 dirigem-se aos políticos, aos governantes, aos
conselheiros do Rei, aos cavaleiros e aos homens de armas (“ó vós, que as fama estimais”),
para que acabem com a ociosidade, condenem a cobiça e a tirania e tornem o reino mais
forte, para, então, colherem as honras merecidas.
No canto X, os portugueses despedem-se das ninfas e embarcam para regressar a
Portugal. A despedida de Tétis e a referência ao facto de os nautas lusos “Leva[re]m a
companhia desejada/Das Ninfas”, remete simbolicamente, pela alusão ao sol, para a
dimensão criadora que caracteriza o ser humano, sempre que nele ecoa a pulsão que o
impede de permanecer inativo.
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Ainda neste canto, o poeta traduz o seu desencanto face à situação de decadência
que caracteriza a sua pátria, constatando a oposição entre o estado do reino e o assunto da
sua epopeia: o canto dos feitos gloriosos dos portugueses.
Este despede-se de Calíope, a musa inspiradora que invocara no início do canto, para
que o ajude a concluir o seu poema e diz que está fatigado “No mais, Musa, no mais que a
Lira tenho/Destemperada e a voz enrouquecida”, não de cantar os portugueses, mas do
facto de estes não o escutarem (“E não do canto, mas de ver que venho/Cantar a gente surda
e endurecida”), porque a pátria “está metida no gosto da cobiça e na rudeza/Dũa austera,
apagada e vil tristeza”.
Na estrofe 146, porém, o poeta muda de tom e, depois de verificar o pessimismo e a
falta de autoestima que ensombram a nação, dirige-se ao rei (“Por isso, vós, ó Rei …/ Olhai
que sois (e vede as outras gentes)/Senhor só de vassalos excelentes”) e exorta a D.
Sebastião, a quem dedicara o seu poema, a proteger e a estimar aqueles que tornam o seu
“império preeminente”.
Na realidade, não podendo adivinhar o destino trágico de D. Sebastião (ainda que,
no final do poema, possamos perceber a inquietação do poeta, motivada pela pouca idade e
experiência do rei), que viria a desaparecer na Batalha de Alcácer Quibir, no dia 4 de Agosto
de 1578, dia em que a nata da aristocracia portuguesa morreu igualmente, no campo de
batalha, o que daria origem à perda da independência de Portugal e ao nascimento do mito
sebastianista. Camões parece ver (ou deseja ver) no rei o elemento possível da regeneração
do país. O poeta termina a sua obra, depois de incitar o rei à cruzada, oferecendo-se para o
servir na guerra e para cantar os feitos do seu povo, “De sorte que Alexandro se veja/Sem à
dita de Aquiles ter enveja”.
Portanto, no final da obra, Camões lamenta-se do facto de não estar a ser
devidamente reconhecido, já que a sociedade se rege somente pelo dinheiro, decidindo por
isso pôr-lhe termo. Não deixa no entanto de louvar os portugueses e todos os perigos por
eles ultrapassados (definição camoniana de nobreza). Elogiando os heróis passados, alerta
os homens do presente que a vida nobre não passa pelo ouro, cobiça e ambição. Assim,
exorta D. Sebastião a valorizar devidamente aqueles que pelos seus feitos se puderem
considerar nobres. Correspondendo à visão aristotélica da epopeia, remata com uma
dedicatória final e incita o rei a feitos dignos de serem cantados.
Concluindo, o poeta retomas as ideias que tinha apresentado no Canto I, mostrando
que a mensagem para os seus contemporâneos engloba o passado, o presente e o futuro,
visto que a glória do passado deve ser encarada como um exemplo no presente para se
construir um futuro glorioso.
Bibliografia:
BERNARDES, José Augusto Cardoso, História Crítica da Literatura Portuguesa, Vol. II, Lisboa,
1999
COELHO, Jacinto do Prado (direção), Dicionário de Literatura, Porto, 1992
DIAS, Aida Fernanda, História Crítica da Literatura Portuguesa, Vol. I, Lisboa, 1998
MAGALHÃES, Graça e DINE, Madalena, Preparar o Exame 2018, Português 12º Ano, Lisboa
2017
REIS, Carlos, Farsa de Inês Pereira, Porto, 2015
REIS, Carlos, Rimas e Os Lusíadas de Luís de Camões, Porto, 2015
SARAIVA, António José, LOPES, Óscar, História da Literatura Portuguesa, Porto, 2010
SILVA, Vítor Manuel (coordenação), Dicionário de Luís de Camões, Lisboa, 2011
SILVA, Vítor Manuel Aguiar e, Teoria da Literatura, Coimbra, 1973
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