Geologia da Baía de Todos os Santos
Geologia da Baía de Todos os Santos
In: Hatge, V. & Andrade, J.B. Baía de Todos os Santos - aspectos oceanográficos. EDUFBA, Salvador, 2009. ISBN 978-85-232-05970-3. p.25-66
II
Citação: Dominguez, J.M.L. & Bittencourt, A.C.S.P. 2009. Geologia - cap II.
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G e o lo g ia
José Maria Landim Dominguez
Abílio Carlos da Silva Pinto Bittencourt
Citação: Dominguez, J.M.L. & Bittencourt, A.C.S.P. 2009. Geologia - cap II.
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I nt r o d u çã o
A Baía de Todos os Santos está implantada sobre as rochas sedimentares que
preenchem a bacia sedimentar do Recôncavo (Figuras 1 e 2). A bacia do Recôncavo
é em realidade uma sub-bacia que ocupa a extremidade sul de um conjunto de
bacias denominado Recôncavo-Tucano-Jatobá (Figura1). Uma bacia sedimentar
é uma região da litosfera terrestre que experimenta, durante um determinado
intervalo de tempo, um movimento descendente, denominado subsidência. Este
processo dá origem a uma região topograficamente mais baixa que termina por
capturar a drenagem continental, sendo, pouco a pouco, preenchida de sedimentos
que, com o passar do tempo, experimentam processos de cimentação, dando
origem então a rochas sedimentares. A subsidência não continua indefinidamente,
de modo que, eventualmente, a bacia sedimentar pode experimentar um processo
denominado inversão, que resulta em soerguimento, com formação de um relevo
positivo. A bacia sedimentar, em que predominava acumulação de sedimentos,
passa então a experimentar erosão, como ocorreu com a sub-bacia do Recôncavo.
Sobre estes remanescentes erodidos, desenvolveu-se em um tempo geológico
muito mais recente a Baía de Todos os Santos.
Este capítulo objetiva apresentar esta história geológica da Baía de Todos
os Santos, desde o início da formação da sub-bacia do Recôncavo, no Cretáceo
inferior, há 145 milhões de anos atrás, passando pelo desenvolvimento inicial da
Baía de Todos os Santos até os dias atuais. Espera-se que esta história geológica
possa transmitir ao leitor uma ideia dos eventos a que esteve sujeita a região, cuja
sucessão permitirá compreender como se formou a paisagem atual da Baía de
Todos os Santos, não apenas em sua porção emersa como também na submersa.
A B a c ia d o Re cô n ca vo
Como visto, a sub-bacia sedimentar do Recôncavo faz parte de um conjunto
de bacias com orientação geral norte-sul, formadas quando da separação entre a
América do Sul e a África, processo que se iniciou por volta de 145 milhões de anos
atrás, no Cretáceo inferior (Silva et al., 2007).
A sub-bacia do Recôncavo é separada da sub-bacia do Tucano, situada mais
ao norte, pelo Alto de Aporá, uma região que experimentou menos subsidência
durante a evolução destas bacias (Figura 1). O limite sul da sub-bacia do Recôncavo
com a bacia de Camamu é representado pela falha da Barra (Figuras 2a). A leste, a
sub-bacia do Recôncavo é limitada pela falha/alto de Salvador-Jacuípe, que a separa Figura 1. (Página seguinte)
da bacia do Jacuípe (Figuras 3a). A oeste, o limite da sub-bacia do Recôncavo é a Bacia Sedimentar do Recôncavo-
Tucano-Jatobá (modificado de
falha de Maragogipe (Figuras 2b e 3b). A bacia do Recôncavo-Tucano-Jatobá é Magnavita et al., 2005).
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Figura 2a.
Geologia do entorno (modificada
de Magnavita et al., 2005) e do
fundo da Baía de Todos os Santos
(modificada de Bittencourt et al.,
1976 e Cruz, 2008).
Figura 2b.
Seção geológica transversal à sub-
bacia do Recôncavo mostrando
o empilhamento das unidades
estratigráficas (modificado de
Magnavita et al., 2005).
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classificada como uma bacia do tipo rifte, que se forma no início da fragmentação/
separação dos continentes. Se esta fragmentação for bem-sucedida e culminar na
efetiva separação de dois continentes, uma crosta oceânica se formará, e por ser
mais densa, ocupará uma região topograficamente mais baixa que, eventualmente,
poderá ser invadida pelo mar, formando inicialmente um golfo estreito. Este golfo
progressivamente se alarga, à medida que os continentes se separam, evoluindo
Figura 3a. desta forma para um oceano pleno e dando origem a uma bacia de margem
Falha de Salvador – limite leste da
passiva. No caso particular da bacia do Recôncavo-Tucano-Jatobá, sua evolução não
bacia sedimentar do Recôncavo e
da Baía de Todos os Santos. chegou a este estágio, já que se constitui no braço abortado de uma junção tríplice,
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Figura 4a.
Paleogeografia da Bacia do
Recôncavo durante a fase pré-rifte
(modificado de Medeiros e Ponte,
1981).
Figura 4b.
Imagem de satélite mostrando
um trecho do deserto da Namíbia,
um equivalente moderno de como
teria sido a paisagem da Bacia do
Recôncavo na fase pré-rifte.
Figura 5a.
Afloramento de rochas do Grupo
Brotas (canal do Paraguaçu).
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Figura 5b.
Afloramento de rochas do Grupo
Santo Amaro (Saubara).
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Figura 5c. (Figura 2). Na fase rifte formou-se um lago profundo na região, reminiscente do
Afloramento de arenitos maciços
resultantes de fluxos gravitacionais que ocorre nos dias atuais no sistema de riftes do leste africano, onde um processo
na ilha do Frade. de rifteamento semelhante é ativo (Figuras 6a e 6b). Neste lago, com algumas
centenas de metros de profundidade e com fundo anóxico, acumularam-se lamas
ricas em matéria orgânica da Formação Candeias do Grupo Santo Amaro, que hoje
afloram solidificadas na porção noroeste da Baía de Todos os Santos, como, por
exemplo, na localidade de Saubara (Figura 5b). Neste lago profundo adentraram,
posteriormente, rios que construíram deltas e, aportando sedimentos finos,
ajudaram a preencher o lago (Grupo Ilhas). De tempos em tempos, abalos sísmicos
desestabilizavam as frentes deltaicas, deformando os sedimentos e originando
fluxos gravitacionais que, nas partes mais distais, constituíram correntes de turbidez,
transportando sedimentos para as partes mais profundas do lago (Magnavita et al.,
2005; Cupertino e Bueno, 2005). Estas rochas incluem os arenitos maciços e rochas
estratificadas que afloram nas principais ilhas e no entorno da Baía de Todos os
Santos (Frade, Maré, Itaparica e Base Naval de Aratu) (Figuras 5c, 5d, 7a e 7b). Na
borda leste da bacia, junto à falha de Salvador, devido ao elevado relevo alcançado
por esta falha de borda, acumularam-se cunhas de conglomerados (Formação
Salvador) que adentravam o lago tectônico, e que hoje afloram na localidade de Figura 5d.
Afloramento de arenitos maciços
Monte Serrat (Figuras 7c e 7d). resultantes de fluxos gravitacionais
Com o passar do tempo e com a diminuição da subsidência, este lago foi na ilha de Maré.
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Figura 6a.
Paleogeografia da Bacia do
Recôncavo durante a fase rifte
(modificado de Medeiros e Ponte,
1981).
Figura 6b.
Imagem de satélite mostrando
um trecho do sistema de riftes do
leste africano (lago Tanganyika),
um equivalente moderno de como
teria sido a paisagem da Bacia do
Recôncavo durante a fase rifte.
Figuras 7a e 7b.
Afloramentos de rochas
estratificadas associadas a
correntes de turbidez na (a) Ilha
de Itaparica e (b) proxímo à Base
Naval de Aratu (abaixo).
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Figuras 7c e 7d. do Araripe (Magnavita et al., 1994). Este fato tem várias implicações. Segundo
Afloramentos de rochas da
Formação Salvador (Monte Serrat). Magnavita et al. (1994), ao final do Cretáceo inferior, (i) a bacia do Recôncavo-
Tucano-Jatobá encontrava-se próxima ao nível do mar daquela época; (ii) estes
sedimentos marinhos teriam sido depositados, provavelmente a partir de uma
invasão marinha vinda do norte do país; e (iii) um soerguimento, de pelo menos
600 metros (descontados os 200 m de descida do nível do mar eustático, desde o
Cretáceo), seguido de erosão regional, de idade ainda desconhecida, afetou a bacia
antes da deposição dos sedimentos mais recentes já no Mioceno.
É interessante notar que existe uma notável variação de altitude entre a sub-
bacia do Recôncavo e as sub-bacias de Tucano e Jatobá (Figura 8). Sedimentos da
fase rifte ocorrem em mesas isoladas, com altitudes de até 1000 m, na sub-bacia de
Jatobá. Os sedimentos cretáceos elevam-se na porção norte do sistema de bacias,
cerca de 200-400 m acima das rochas adjacentes do embasamento cristalino
(Figura 8). A topografia da sub-bacia do Recôncavo é mais reduzida, raramente
ultrapassando os 200 m de altitude (Figura 8). Estas diferenças em altitude são
atribuídas, por Magnavita et al. (1994), a diferenças na intensidade da precipitação.
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utilizada. Trabalhos mais recentes, entretanto, posicionam o nível do mar em torno Figura 8. (Esquerda)
Relevo da Bacia do Recôncavo-
de 45-55 m acima do nível atual (John et al., 2004). A queda do nível do mar no Tucano-Jatobá
Mioceno médio/superior é significativa porque está associada ao estabelecimento
permanente do lençol de gelo do leste da Antártica (EAIS – East Antarctic Ice
Sheet) (Zachos et al., 2001). Associado a este episódio de nível de mar alto, houve
o depósito de folhelhos marinhos fossilíferos da Formação Sabiá (Petri, 1972),
representada por um único afloramento no Município de Mata de São João
(BA), e da Formação Barreiras. É importante chamar a atenção para o fato de
que, classicamente, a Formação Barreiras é interpretada como sendo de origem
continental (fluvial). Entretanto, trabalhos mais recentes (Arai, 2006; Rossetti, 2006;
Dominguez e Araújo, 2008; Rossetti e Goes, 2009) têm demonstrado que, inclusive
no Estado da Bahia, esta formação é de origem marinha transicional, tendo sido
depositada predominantemente em ambientes estuarinos. A Formação Sabiá é
crono-correlata da Formação Barreiras, se é que não são a mesma coisa.
Após o nível de mar alto do Mioceno inferior/médio, a retomada da acumulação
de gelo na Antártica e o início do desenvolvimento dos grandes lençóis de gelo no
Hemisfério Norte, a partir do Plioceno, resultaram no progressivo abaixamento do
nível do mar. Já no final do Mioceno, o nível do mar atual havia sido alcançado.
Nos últimos dois milhões de anos, durante a maior parte do tempo, o nível do
mar esteve abaixo do nível atual (Figura 9), desencadeando um intenso processo Figura 9.
Curva do nível eustático do mar
erosivo que afetou a nossa zona costeira e favoreceu o desenvolvimento da Baía de para os últimos 2 milhões de anos
(modificado de Miller et al., 2005).
Todos os Santos.
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A o r i gem d a Ba í a d e To d os os S a ntos
Já há algumas décadas, diversos autores têm postulado que a origem da Baía
de Todos os Santos estaria associada a processos tectônicos atuantes durante o
Quaternário. Sampaio (1916; 1919; 1920), ao descrever abalos sísmicos que afetaram
a Baía de Todos os Santos, em 1915, 1917 e 1919, conclui que estes abalos vêm de
longa data modelando geológica e geograficamente a baía. Tricard e Cardoso da
Silva (1968) acreditavam que a Baía de Todos os Santos resultou de deformações
tectônicas recentes, a ponto de ainda não ter influenciado a organização da rede
hidrográfica local. Martin et al. (1986) deduziram a existência de movimentos
verticais holocênicos, com base na distribuição de depósitos quaternários no
interior da Baía de Todos os Santos. Mais recentemente, Carvalho (2000), Lessa et al.
(2000), Lessa (2005) e Cirano e Lessa (2007) reafirmaram, principalmente com base
em evidências apresentadas em trabalhos mais antigos, a crença em movimentos
tectônicos recentes como um dos principais fatores a modelarem a baía.
Estes trabalhos, entretanto, desconsideraram o papel fundamental das
variações eustáticas do nível do mar, durante o Cenozóico, e seus efeitos no
modelado das paisagens costeiras. Este é talvez o principal fator a determinar a
origem e o modelado da Baía de Todos os Santos, que teria resultado da erosão
diferencial associada a um dramático rebaixamento do nível de base. Tanto é assim
que existe uma perfeita correlação entre a altitude do terreno e a resistência das
diferentes unidades geológicas à erosão. Adicionalmente, o recente levantamento
de campo de algumas centenas de quilômetros de linhas sísmicas de alta resolução1,
recobrindo toda a baía, não mostrou qualquer evidência de movimentações
tectônicas afetando os sedimentos quaternários que a preenchem parcialmente.
Pela Figura 9, que mostra uma curva de variações eustáticas do nível do mar,
para os últimos dois milhões de anos, ou seja, o período Quaternário, é possível
observar o progressivo abaixamento deste nível, de tal modo que o nível médio
do mar, nesta mesma época, situava-se cerca de 30 m abaixo do nível atual
(Masselink e Hughes, 2003). Durante os últimos 500 mil anos, com o aumento
na amplitude das variações do nível do mar, a posição média deste nível situou-
se em torno de -45 m, ou seja, próximo à quebra da plataforma atual (ponto de
cachoeira = knick point). Este rebaixamento do nível de base desencadeou um
processo de erosão e reestruturação da rede de drenagem na zona costeira. A
propagação do sinal eustático, via recuo do ponto de cachoeira pelos tributários,
resultou na ampliação e geração de novas bacias hidrográficas, ajustadas a um
nível de base situado na borda da plataforma (Dominguez, 2007). Tendo em vista
que as rochas sedimentares da sub-bacia do Recôncavo, principalmente aquelas
1
Projeto Transfer – Mecanismos de Transferência de Sedimentos da Zona Costeira/Plataforma para o Talude/Bacia,
durante os últimos 120 mil anos – estudo de caso – a plataforma continental central do Estado da Bahia. CT-
PETRO/CNPq
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Hi stó r ia evol u ti va d a Ba í a d e To d os os
S a n to s n o s ú l ti mos 120 mi l a nos
Apresentaremos uma reconstituição histórica tentativa da possível evolução
recente da Baía de Todos os Santos, a partir da integração de dados disponíveis na
literatura, batimétricos e outros, recentemente coletados com perfilador de subfundo
em vários setores da baía, conforme mencionado anteriormente. Na Figura 10
observa-se que, por volta de 120 mil anos atrás, o nível do mar situava-se cerca de 6
metros acima do nível atual. Contudo, à exceção da ilha de Itaparica e vizinhanças, não
existem registros de nível de mar associados a este evento, preservados no interior da
Baía de Todos os Santos. Este é um dos aspectos utilizados, por alguns autores, como
evidência de atividade tectônica recente no interior da baía (Martin et al., 1986). O
fato é que, a maior parte da linha de costa da baía é caracterizada por terraços de
abrasão esculpidos nas rochas sedimentares de granulação fina que caracterizam
seu entorno. Raras praias arenosas estão presentes, o que, sem dúvida, reflete uma
notável falta de sedimentos para a construção de terraços arenosos, que pudessem
constituir testemunhos do nível de mar alto de 120 mil anos atrás. As principais
exceções são a linha de costa oceânica da ilha de Itaparica, o canal de Itaparica e
algumas praias de bolso, presentes aqui e acolá. Nas margens do canal de Itaparica,
entretanto, depósitos estuarinos arenosos, com estruturas sedimentares típicas deste
ambiente (e.g. estratificações cruzadas em espinha de peixe, feixes de maré – tidal
bundles) e traços fósseis de Ophiomorpha nodosa estão presentes e testemunham
este nível de mar alto (Figura 11). Portanto, durante o máximo trangressivo de 120
mil anos atrás, a baía esteve completamente inundada, apresentando uma área
ligeiramente maior que a atual, e exibindo um padrão e dinâmica de sedimentação
provavelmente muito semelhante ao que se verifica hoje (Cirano e Lessa, 2007). A
partir deste máximo transgressivo, o nível do mar desceu progressivamente, durante
os 100 mil anos seguintes, expondo subaereamente toda a baía. Nesta época, o rio
Subaé e os demais pequenos rios que hoje deságuam na baía, juntamente com as
drenagens oriundas do canal da sub-baía de Aratu, do canal de Madre de Deus e do
canal de Itaparica, constituíram-se em tributários do rio Paraguaçu, que ocupava o
canal de Salvador, muito provavelmente escavado por este rio, acrescentando à sua
bacia hidrográfica uma área extra adicional de pelo menos 1.233 km2, correspondente
à área atual da Baía de Todos os Santos. Por volta de 20 mil anos atrás, o nível do mar
alcançou um mínimo de 120 m abaixo do nível atual. Este período correspondeu ao
avanço máximo dos lençóis de gelo no Hemisfério Norte, e é conhecido como Último
Máximo Glacial (LGM – Last Glacial Maximum). Na ocasião, a desembocadura do rio
Paraguaçu situava-se muito provavelmente em torno desta “profundidade”, por
analogia ao que foi verificado em outros rios menores da costa da Bahia, a exemplo
dos rios Almada e Itapicuru (Dominguez, 2007).
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ocorrido. O Paraguaçu é um rio que transporta muito pouco sedimento, a ponto de até Figura 13.
Trechos de linhas sísmicas
hoje não ter conseguido preencher a Baía de Iguape, onde deságua, tendo construído ilustrando diversos aspectos
apenas um pequeno delta de cabeceira de baía (Carvalho, 2000). Levantamentos discutidos no texto. (a) Paleorrelevo
soterrado (seta) pela deposição de
sísmicos recentemente efetuados mostram que sedimentos lamosos, entre 10 e 25 sedimentos finos; (b) Lajes (setas
metros de espessura, foram depositados na metade norte da baía (Figura 13a). Estes cheias) parcialmente soterradas
por clinoforma (seta tracejada); (c)
pacotes de sedimentos finos apresentam uma geometria em clinoforma, portanto Laje não soterrada (seta); (d) Fundo
rochoso no canal de Salvador
progradacional, no sentido da porção central da baía, a partir das suas margens, (seta). Em todas as figuras, as linhas
principalmente na metade nordeste da baía (Figura 13b). A sedimentação fina que, tracejadas horizontais apresentam
espaçamento equivalente a 10 m.
por assim dizer, extravasa das margens da baía, soterrou o paleorelevo existente na As marcações no topo das figuras
metade norte da baía, permitindo, localmente, o desenvolvimento de manguezais. estão espaçadas em 50 m.
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Figura 14c.
Exemplo de laje rochosa/terraço
de abrasão no interior da Baía de
Todos os Santos. Ilha de Madre de
Deus.
Figura 14d.
Exemplo de laje rochosa/terraço
de abrasão no interior da Baía de
Todos os Santos. Ilha Bom Jesus.
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Figura 16a.
Dunas hidraúlicas no fundo do
canal de Salvador, entrada da Baía
de Todos os Santos, indicativas
da ação das correntes de maré
retrabalhando os sedimentos
de fundo. Registro batimétrico
multifeixe.
Geologia | 57
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Figura 16b.
Dunas hidraúlicas no fundo do
canal de Salvador, entrada da Baía
de Todos os Santos, indicativas
da ação das correntes de maré
retrabalhando os sedimentos
de fundo. Registro com sonar de
varredura lateral.
A B a ía d e To d os os S a ntos hoje –
s e d i m e n tos sup er fica is de fundo
A história evolutiva recente da Baía de Todos os Santos, apresentada anterior-
mente, nos ajuda a entender as características atuais do seu fundo marinho.
A Baía de Todos os Santos já foi apontada como uma das menos conhecidas
baías da costa brasileira, quanto às suas características sedimentológico-ambientais
(Mabesoone e Coutinho, 1970). Esta situação começou a mudar a partir de 1970,
com a criação, na Universidade Federal da Bahia, do Instituto de Geociências e do
Programa de Pesquisa e Pós-Graduação em Geofísica (atual Centro de Pesquisa em
Geologia | 59
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Fác i es de Lama
Esta fácies apresenta coloração oliva-acinzentado e é constituída, predomi-
nantemente, de argila (> 50%) e silte, com pouca areia. Entre os componentes
biogênicos, predominam moluscos e equinodermas. A Halimeda é rara, embora
localmente possa atingir até 20% da fração grossa. Os foraminíferos estão presentes
em alguns locais, com percentagens entre 3 e 10%. Fragmentos vegetais aparecem
ao longo da costa norte da baía (em manguezais, desembocaduras de riachos e
canais de maré). Chamosita, ocorrendo na forma de pelotas fecais mineralizadas,
é rara, podendo, entretanto, localmente, constituir até 70% da fração grossa. Esta
fácies ocupa aproximadamente a metade norte da Baía de Todos os Santos.
Fá c i es M i sta
Com coloração oliva-acinzentado, é caracterizada pela mistura, em diferentes
proporções, de três componentes: areia quartzosa, lama e biodetritos, sem exceder,
nenhum deles, os 50%. No canal do rio Paraguaçu e na parte central da baía, esta
fácies é constituída por uma mistura com maiores percentagens de areia quartzosa e
lama, com poucos componentes biogênicos. Os grãos de quartzo são de granulação
fina a média, subangulares a subarredondados, alguns apresentando um filme
envoltório de óxido de ferro. Entre os componentes biogênicos, sobressaem-se os
moluscos. Fragmentos de vegetais aparecem em proporções que variam de 3 a
20%. Já na parte central da baía, a fácies mista apresenta maiores percentagens
de componentes biogênicos, representados predominantemente por moluscos,
Halimeda e equinodermas, com alguns foraminíferos. Em sua maioria, esses
materiais apresentam-se desgastados, corroídos e perfurados. A chamosita aparece
em percentagens de 3 a 15% da fração grosseira.
Os teores de matéria orgânica nos sedimentos de fundo da Baía de Todos os
Santos são variáveis. Os maiores teores estão associados à fácies de lama (3-6%). A
decomposição desta matéria orgânica gera o gás metano que, quando presente
no sedimento, cria o efeito de “cobertor acústico”, impedindo a penetração das
ondas acústicas no sedimento, conforme mostrado na Figura 17. A fácies de areia
quartzosa, presente na entrada da Baía de Todos os Santos, é a que apresenta os
menores teores de matéria orgânica (menos de 1%). Nos levantamentos sísmicos foi
a única fácies em que não se constatou a presença de gás no sedimento. As demais
fácies, inclusive a fácies de areia quartzosa no canal de Itaparica, apresentam teores Figura 17.
Exemplo de linha sísmica de alta
de matéria orgânica entre 1 e 3%. Nestas fácies também foi detectada a presença resolução com presença de gás no
de gás no sedimento. sedimento (indicado pelas setas).
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Citação: Dominguez, J.M.L. & Bittencourt, A.C.S.P. 2009. Geologia - cap II.
In: Hatge, V. & Andrade, J.B. Baía de Todos os Santos - aspectos oceanográficos. EDUFBA, Salvador, 2009. ISBN 978-85-232-05970-3. p.25-66
Co n sid era çõ es Fi na i s
Charles Lyell, em seu influente livro Princípios de Geologia (Lyell, 1830),
descreve a Geologia como “a ciência que investiga as sucessivas mudanças que
tiveram lugar nos reinos da natureza orgânico e inorgânico; ela investiga as
causas destas mudanças e as influências que elas exerceram na modificação da
superfície e na estrutura externa de nosso planeta”. Este capítulo foi escrito tendo
como inspiração esta abordagem de Lyell. Esperamos ter transmitido ao leitor que
uma determinada paisagem, como a Baía de Todos os Santos, é o resultado de
uma longa herança geológica, uma longa cadeia de eventos, com contingências
geo-históricas, desempenhando um papel fundamental no seu modelado. Uma
história que começa com a separação entre a América do Sul e a África, há cerca de
145 milhões de anos atrás, e incorpora os efeitos do progressivo resfriamento do
planeta, durante o Cenozóico, e as dramáticas mudanças do nível do mar, durante
o Quaternário.
Como diria o próprio Lyell (1830), “como a condição atual das nações é o
resultado de muitas mudanças antecedentes, algumas extremamente remotas
e outras recentes, algumas graduais e outras súbitas e violentas, também o
estado do mundo natural é o resultado de uma longa sucessão de eventos, e se
nós desejarmos expandir nossa experiência da presente economia da natureza,
devemos investigar os efeitos de suas operações em épocas pretéritas”.
Ref er ên c i a s
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